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A internet como vetor de socialização e/ou de manipulação no panorama das redes sociais

Carneiro, Diogo de Gregório Oliveira

Abstract

Apesar do uso da internet estar padronizado e normalizado nas estruturas da sociedade, existem fatores sociais e demográficos que pecam na capacidade e eficiência de conseguir representá la em todos os locais do planeta. No séc. XXI, tanto nas sociedades desenvolvidas como até nalguns pontos das não desenvolvidas, a internet tornou-se numa ferramenta essencial de trabalho e de lazer. Através do uso da mesma é possível alargar horizontes nas mais diferenciadas áreas, usá-la em benefício de aprendizagem e socialização, mas também usá-la como uma ferramenta de manipulação e disseminação de informação que não é correta tanto científica como eticamente. A internet e as redes sociais têm vários lados, e como em tudo o que se vê, existe o lado bom e o lado mau; cabe a cada um medir o que entende e classifica por cada um desses lados e fazer um uso correto, responsável e moral da mesma. As sociedades desenvolveram-se em variados aspetos desde a era glaciar, até ao séc. XXI. Aos poucos, os mecanismos de socialização e as vertentes da comunicação foram-se alterando de século para século: desde o paleolítico até à modernidade. Houve inúmeras mudanças nas formas como nos relacionamos, agimos, comunicamos e vivemos. O desenvolvimento foi a palavra-chave, no que toca a permitir tais transformações, e com ele veio o advento da internet, e com ela o das redes sociais. Nas redes sociais mudamos a forma de estar no dia-a-dia, mudamos detalhes, e até mudamos crenças. Todas as redes sociais de sucesso foram criadas com base na adição, de maneira a que o utilizador se sinta bem enquanto navega por elas. As consequências posteriormente são visíveis quer a curto, médio e longo prazo: quer seja na manipulação por parte da própria rede perante o seu utilizador, quer seja por as visitar em “piloto automático”, em que de repente se está a navegar na rede social sem que se tenha a consciência de que realmente o está a fazer. Devido ao controlo quase invisível por parte do alogaritmo das redes sociais – com o fim de agradar o utilizador no conteúdo a que tem acesso – descobriu-se uma forte arma de manipulação: o utilizador vê o que as redes querem que veja e não o que quer. Foi precisamente através desta forma de pensar que surgiu a manipulação de eleições em alguns pontos do globo, pois empresas como a Cambridge Analytica trabalharam arduamente para juntar milhares de informações de cada perfil, com o fim de traçar um retrato psicológico, e desta forma fazer a manipulação necessária para quem contratasse a empresa.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Diogo de Gregório Oliveira Carneiro A Internet Como Vetor de Socialização e/ou de Manipulação no Panorama das Redes Sociais abril de 2022 UMinho | 2022 Diogo de Gregório oliveira Caneiro A Internet Como Vetor de Socialização e/ou de Manipulação no Panorama das Redes Sociais Diogo de Gregório Oliveira Carneiro A Internet Como Vetor de Socialização e/ou de Manipulação no Panorama das Redes Sociais Dissertação de Mestrado Mestrado em Sociologia Cultura Lazer e Turismo Trabalho efetuado sob a orientação do(a) Professor Doutor Jean-Martin Rabot Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais abril de 2022 iii iv DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ v Agradecimentos Ao meu irmão, por todas as discussões que tivemos para trocar argumentos e conhecer melhor o mundo através do ponto de vista um do outro. À minha avó materna, que me criou, ofereceme o almoço e conversa comigo diariamente. Aos meus tios, pela perseverança em me tornar uma pessoa melhor, mais culta e competente. Aos meus amigos, que me proporcionam momentos de convívio e enriquecimento pessoal. À malta do Ecos do Lima – aos que estiveram – e aos que ainda estão; que tanto aprendemos em conjunto, e vivemos dificuldades e virtudes uns com os outros. Mas, mais profundamente, aos meus pais, que me ofereceram todas as condições possíveis para que seja o homem que sou hoje, com os valores que tenho hoje, com as decisões que tomo hoje, e com a forma de estar no quotidiano que adoto hoje. Aos meus pais pelo investimento monetário em cada propina, em cada quarto arrendado, em cada viagem feita, para que me formasse e me tornasse na pessoa que queria ser. A eles, que sempre me deram asas para voar, e, novamente a eles por me tornarem, em grande parte, no Ser humano que sou hoje. Todos os meus agradecimentos à minha família e aos meus amigos, porque todos eles contribuíram, e hão de contribuir, para me reconstruir a cada dia que passa. vi DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. vii Resumo Apesar do uso da internet estar padronizado e normalizado nas estruturas da sociedade, existem fatores sociais e demográficos que pecam na capacidade e eficiência de conseguir representála em todos os locais do planeta. No séc. XXI, tanto nas sociedades desenvolvidas como até nalguns pontos das não desenvolvidas, a internet tornou-se numa ferramenta essencial de trabalho e de lazer. Através do uso da mesma é possível alargar horizontes nas mais diferenciadas áreas, usá-la em benefício de aprendizagem e socialização, mas também usá-la como uma ferramenta de manipulação e disseminação de informação que não é correta tanto científica como eticamente. A internet e as redes sociais têm vários lados, e como em tudo o que se vê, existe o lado bom e o lado mau; cabe a cada um medir o que entende e classifica por cada um desses lados e fazer um uso correto, responsável e moral da mesma. As sociedades desenvolveram-se em variados aspetos desde a era glaciar, até ao séc. XXI. Aos poucos, os mecanismos de socialização e as vertentes da comunicação foram-se alterando de século para século: desde o paleolítico até à modernidade. Houve inúmeras mudanças nas formas como nos relacionamos, agimos, comunicamos e vivemos. O desenvolvimento foi a palavra-chave, no que toca a permitir tais transformações, e com ele veio o advento da internet, e com ela o das redes sociais. Nas redes sociais mudamos a forma de estar no dia-a-dia, mudamos detalhes, e até mudamos crenças. Todas as redes sociais de sucesso foram criadas com base na adição, de maneira a que o utilizador se sinta bem enquanto navega por elas. As consequências posteriormente são visíveis quer a curto, médio e longo prazo: quer seja na manipulação por parte da própria rede perante o seu utilizador, quer seja por as visitar em “piloto automático”, em que de repente se está a navegar na rede social sem que se tenha a consciência de que realmente o está a fazer. Devido ao controlo quase invisível por parte do alogaritmo das redes sociais – com o fim de agradar o utilizador no conteúdo a que tem acesso – descobriu-se uma forte arma de manipulação: o utilizador vê o que as redes querem que veja e não o que quer. Foi precisamente através desta forma de pensar que surgiu a manipulação de eleições em alguns pontos do globo, pois empresas como a Cambridge Analytica trabalharam arduamente para juntar milhares de informações de cada perfil, com o fim de traçar um retrato psicológico, e desta forma fazer a manipulação necessária para quem contratasse a empresa. Palavras-chave: Cambridge Analytica, Comunicação, Facebook, Internet, Redes Sociais viii 11 2. Antes da Internet 2.1. As primeiras formas de socialização Todas as formas de vida começam na biologia. Essa é a ciência que tem como base e início para tudo que hoje existe na face do planeta Terra. Devemos à biologia o facto de estarmos vivos: em suma devemos a esta ciência tudo. Devemos à biologia o facto de existir flora, devemos à biologia a existência de micro-organismos, devemos à biologia a vida nas águas, devemos à biologia a vida na terra, e devemos à biologia a vida no mar. É graças à biologia que houve um desenvolvimento a vários níveis na evolução das espécies. O planeta Terra é uma espiral cheia de história e curiosidades, é notável todas as evoluções, todas as mudanças (e em raros casos não mudanças) que aconteceram ao longo de toda a sua história. Façamos uma viagem até milhões de anos atrás onde “alguns animais como o crocodilo pouco mudaram em 65 milhões de anos. Algumas plantas, como o feto, que têm mais de 60 milhões de anos, parecem primitivas e ancestrais, ao contrário das flores delicadas que existem apenas há cerca de 100 milhões de anos, enquanto animais com pelo são mais recentes.” (Wood, 2005, p.7) Repare-se que tanto houve espécies que evoluíram, como houve outras que se mantiveram praticamente sem alterações – muitas delas até se mantiveram primitivas. A evolução leva à comunicação, à globalização, à massificação. A evolução é a chave para o desenvolvimento de tudo o que conhecemos, e até do que não conhecemos. Repare-se que no passado até os próprios continentes do planeta eram divididos de outra maneira, mas devido às placas tectónicas existentes a divisão nos dias de hoje é feita de outra maneira. O processo evolutivo há milhões de anos transatos foi notório em várias esferas da vida, mas existe uma componente onde se notou com maior nitidez: na biodiversidade, quer na fauna, quer na flora. O código genético tem uma importância forte neste sentido, pois “o processo de mudança de um tipo de animal ou planta para outro, após numerosas gerações, é aquilo a que chamamos “evolução””. (Wood, 2005, p.14). Se olharmos com atenção para o exemplo dos chimpanzés face à espécie humana existe uma relação muito forte, pois “os humanos partilham 98,5% do seu ADN com os chimpanzés.” (Dunbar, 2006, p.28) Houve tempos em que se definia a evolução usando a teoria darwinista , no entanto o conceito evolutivo também abarca a outra face da moeda, isto é, ir ao outro extremo; a entre ajuda é, tal como a 12 seleção natural através do conflito, da competição, um mecanismo muito importante para o processo evolutivo das espécies (ser humano incluído). Todas as vicissitudes que acontecem nos animais, podem e devem ser comparadas ao ser humano – afinal somo todos seres vivos. Repare-se que “muitos animais, tal como o Homem, vivem em sociedades nas quais a sobrevivência e a saúde do indivíduo dependem da saúde da comunidade no seu todo. (…) As comunidades que se entreajudam estão com frequência interrelacionadas, significando que partilham genes muito semelhantes” (Wood, 2005, p.15). Ora se a saúde da comunidade não estiver em melhores condições não haverá (ou haverá em menor quantidade) quem tome conta das crias, dos doentes, em suma dos mais vulneráveis; o que acarreta que estarão menos protegidos e mais expostos ao perigo do exterior. Tal analogia, mais uma vez se adequa ao exemplo do Homem e da sua vida em sociedade em que “neste seis milhões de anos, tivemos de acrescentar traços novos e ajustar e torcer os antigos para nos acomodarmos às voltas e reviravoltas de outros aspetos da história evolutiva” (Dunbar, 2006, p.107) Nos parágrafos acima foram discutidas as bases da evolução, aliando-a à biologia e à préhistória – tudo vem de trás, do início. Após as declarações citadas chegar-se-á à conclusão de que a evolução começa com a sua base através do código genético dos seres vivos. 2.2. Do paleolítico ao neolítico Além do ADN, da morfologia e da taxionomia é notório observar que (mais uma vez) a evolução do clima teve também os seus efeitos gigantescos para o que hoje conhecemos e definimos como sociedade. Entre 13000 anos a.C. e 9000 anos a.C. vivia-se a Era Mesolítica, que foi a era de transição entre o Paleolítico – onde vigorava a caça - e Mesolítico – onde vigorava a agricultura. Ao longo do período da pré-história houve algumas glaciações, entre eles a glaciação de Gunz, a de Mindel, a de Riss e a de Wurm, respetivamente. É certo que estes fenómenos alteram todas as dinâmicas da vida como as que se conheciam até então, pois as condições alteram-se substancialmente e com elas a vida de quem habitou o planeta nessa Era toma o seu lugar no percurso pelo qual as condições meteorológicas os levam, acabando por sofrer uma rápida e drástica transformação face ao que antes eram os padrões normalizados. O clima melhorou com o fim da glaciação de Wurm. “As renas emigraram para o Norte, cedendo o lugar aos cervos e aos cabritos-monteses” (Grimberg, 1940, p.23). Segundo Grimberg (1940) o Homem do Mesolítico vivia da caça, e para caçar eram necessários 13 utensílios para esse fim, dos quais se aproveitavam através de caçadas anteriores, retirando os ossos e os chifres e transformando esses utensílios em armas de caça. No entanto, já há milhares de anos a.C. o Homem vinha a descobrir “empiricamente algumas leis da mecânica – estas armas consistiam em pequenas azagaias, propulsores, arcos e flechas” (Klima, 1996, p.189). Em suma, os nossos antepassados especializaram-se de tal maneira que chegaram ao ponto de ter armas de caça, instrumentos para amanhar a caça, furadores e serras (Klima, 1996). Graças ao processo evolutivo no que toca à invenção e criação de ferramentas, ainda durante o Paleolítico, as grutas foram substituídas por tendas (nem que essas fossem construídas dentro de grutas). Segundo Klima (1996), essas eram preenchidas no topo com armação de madeira coberta com peles de animais; também se usava ossos, principalmente costelas de mamute e de armações de veados. Há hábitos evolutivos que desaparecem, mas também há outros que se mantém ao longo dos milhares de anos que passaram. Quando alguém morria “várias famílias agrupavam-se […] à volta dos túmulos dos antepassados, o que faz supor uma certa organização social” (Grimberg, 1940, p.22). Grimberg (1940) ao fazer uso destas palavras passa a ideia ao seu leitor de que atualmente se poderá fazer uma analogia entre as sociedades do Mesolítico e da Era Moderna. Repare-se que existem grupos que vivem isolados da sociedade, que vivem nas suas próprias tribos, que praticam os seus rituais, que caçam, que pescam. Os sistemas de vida mais básicos e rudimentares da vida ainda se mantém – apesar de a caça e pesca nos dias de hoje serem consideradas um desporto, na esmagadora maioria dos casos. Todavia, a evolução dá-se nesse mesmo sentido, em que a prática continua a existir, mas os moldes em que se faz é que são alterados. Vejamos ainda o exemplo da homenagem aos entes queridos. A prestação de uma homenagem a quem falece é um hábito que ainda vigora nos dias de hoje, tendo sido transformada e evoluída através dos tempos e de questões culturais: converteu-se ao que hoje chamamos de funeral. Segundo Klima (1996) além de o Paleolítico ter sido o período mais longo da história social, também foi aquele que permitiu que os genes do homo sapiens sapiens tivesse alcançado o seu estado atual. Durante esse mesmo período a espécie humana criou o seu sistema económico e começou a criar produção através dos recursos disponíveis. “A economia das primeiras sociedades humanas baseava-se na caça e na recoleção, sem predomínio de qualquer delas. […] Decorria ainda a evolução natural e as formações sociais ainda não tinham estabilizado” (Klima, 1996, p.194) 14 2.2.1 - Mesolítico Atravessado o período do Mesolítico vem uma grandessíssima evolução no que toda ao aproveitamento dos recursos, ao aperfeiçoamento de técnicas e ao desenvolvimento tecnológico. Com o aumento substancial da população foi necessário haver mudanças de índole adaptativa: quer no que toca a recursos alimentares, quer no que toca ao aumento de espaços para se viver/dormir. Foi na era do Mesolítico em que a agricultura se assumiu como um vetor importante para alimentar os seres humanos; “de certa maneira o Homem forçado a tornar-se produtivo, a completar as colheitas e a caça por meio da cultura de plantas selecionadas e pela criação de animais domesticados.” (Grimberg, 1940, p.26). Portanto, à caça (já praticada) e às colheitas, juntou-se o desenvolvimento tecnológico, no sentido de fazer uma seleção pré-definida das plantas que se queriam cultivar, para atingir determinados fins. A este cultivo alou-se, essencialmente, a criação de gado. 2.2.2 Neolítico O Homem começa a domesticar os animais aquando do surgimento da agricultura. Havia presas (Lafforgue, 1979) que os caçadores se recusavam a matar devido à sua tenra idade, e como já tinham parte do alimento assegurado através da agricultura, optaram por as manter em cativeiro, acabando assim por as domesticar, e posteriormente criar um ciclo reprodutivo que lhes permitia ter animais, ou para criar e matar quando atingissem a idade adulta, ou para fazer companhia. Tais espécies começam a ser melhoradas a pouco e pouco à medida que avançam as suas gerações. O progresso na agricultura foi notável no que toca ao desenvolvimento, e à evolução destas sociedades do Neolítico. Os efeitos reproduzidos, ainda hoje estão em vigor: alguns deles sofreram melhorias, outros mantém-se intactos. É certo que este progresso técnico foi construído com tempo, mas também foram notáveis os desenvolvimentos observados. Além de os animais terem sido domesticados, tornando-se em “animais de companhia”, esses também ajudavam no trabalho agrícola através da sua força; no caso das vacas podia extrair-se leite, e noutros casos peles, lãs e ovos. As técnicas de trabalhar a própria terra evoluíram, a partir do momento em que o “homem descobre a necessidade de arrotear totalmente o solo e de revolver a terra […] inventa sucessivamente a enxada de pedra e o arado de madeira” (Lafforgue, 1979, p.50) 15 Voltemos atrás, ao período do Cretáceo. Data há 65 milhões de anos que se deu a extinção em massa desta Era. A partir daí tudo mudou, nada ficou igual, e para nós – enquanto seres humanos – deu-se início a uma fase muito importante: o início dos mamíferos. Patente e implementada há milhares de anos atrás, a comunicação existiu desde sempre em todos os parâmetros de vida. Desde o h omo habilis até ao homo sapiens nota-se uma evolução substancial nas dinâmicas de comunicação, e de desenvolvimento técnico. O Homem converte-se ao comodismo, ao sedentarismo. As casas passam a ser feitas em pedra, madeira e argila (Lafforgue, 1979). A técnica de produção de argila foi melhorada e o tijolo também aparece. As peles – usadas como peça de vestuário - deixaram de ter lugar, passando a ser substituídas por “tecidos de origem vegetal ou animal (linho, cânhamo, algodão, rami, seda, lã de carneiro, de cabra ou de camelo).” (Lafforgue, 1979, p.51). A metalúrgica também se tornou numa arte, pois o Homem “não se limitou a martelar os pedaços de cobre bruto; aprendeu a fundi-los para os moldar, depois a tirar o metal do minério.” (Lafforgue, 1979, p.51). Repare-se que na Era do Neolítico já existe uma enorme especialização e aperfeiçoamento das técnicas face ao Paleolítico. O desenvolvimento, as formas de trabalhar, as formas de comunicar, as formas de observar e melhorar, em muito contribuíram para este enorme desenvolvimento evolutivo no panorama das mudanças de rotinas de vidas. Começaram-se a formar aldeias, em que cada trabalhador se dedicava a “um ofício e que está na origem das classes sociais.” (Lafforgue, 1979, p.51). A comunicação aumenta ainda mais neste sentido quando (Lafforgue, 1979) existe um chefe ou um conselho de anciãos para fazer a gestão da própria aldeia. Todos os habitantes ficam automaticamente interdependentes uns dos outros, pois a partir do momento em que cada um se dedica única e exclusivamente a um ofício a interdependência automaticamente surge, porque é impossível conseguir fazer toda a produção como se fizera em Eras anteriores. A maneira de se viver alterou-se, e com tal alteração vêm outras vicissitudes e valências. A propriedade privada começa a assumir com maior ênfase o seu papel e lugar no Neolítico. É certo que “os campos são redistribuídos periodicamente, mas, sem falar dos animais domésticos, as casas individuais com o seu silo, os sinetes que servem para marcar os objetos pessoais, mostram a importância da propriedade privada.” (Lafforgue, 1979, p.51). O processo evolutivo e comunicativo não se estanca por aqui. Se a agricultura tomou um lugar importante nesta Nova Era, por tudo o que acrescenta e condições que transpõe, permite que se abandone a caça massiva, que tão necessária 16 era, e que se use outros mecanismos para alimentar a população. (Lafforgue, 1797) Com a domesticação dos animais começou a haver quem se dedicasse ao setor da criação de gado, e isso trazia algumas contrapartidas, que funcionava à troca de produtos agrícolas por excedente de gado. Assim começou a existir uma “moeda” de troca por determinados produtos. 2.3. Aspetos da Evolução da Sociedade do Passado Aquando do Neolítico, as ferramentas haviam tomado a sua evolução, tendo este material sofrido várias melhorias e aplicações constantes, pelo que, no processo evolutivo, dá-se a entrada da metafísica aquando desta era; no fundo os contornos da vida social começavam a ganhar novas linhas e novas práticas. A vida intelectual e espiritual começa a ganhar o seu lugar, tendo grande relevância para essa conquista a “criação de uma linguagem articulada, a acrescer aos outros meios de comunicação” (Klima, 1996, p.193). Houve, no entanto, um processo, um desenvolvimento, uma conquista muito grande nesta altura: a criação da linguagem. Através da criação desta entende-se que foi tudo mais fácil no que toca aos processos comunicativos – se já antes de existir a linguagem os processos comunicativos existiam, após a sua criação tudo ficou muito mais facilitado - pois já era possível (Klima, 1996) trocar-se experiências, informações, organizarem-se atividades de qualquer tipo de índole e acima de tudo: passar a mensagem ao próximo com maior rigor, nitidez e clareza. Segundo Klima (1996), a economia das primeiras sociedades humanas baseava-se na caça e na recoleção. Neste tipo de economia as relações sociais ainda não se tinham restabelecido e as pressões externas do meio ambiente também tornam complicado e desafiante até, imaginar, nos tempos atuais como seriam esses modos de vida. Havia algumas diferenças de grupo para grupo, que eram vistas como “diminutas” (Klima, 1996, p.194), mas “tiveram grande importância na evolução futura.” (Klima, 1996, p.193). Ainda segundo Klima (1996), o alastramento da espécie humana por todo o Mundo e as novas condições climatéricas e zonas do Pós-Glaciar incentivaram o esforço de adaptação de numerosos grupos populacionais, provocando maiores diferenciações físicas, económicas e culturais. É nestas bases que assenta a toda a evolução futura. A pré-história tem pontos fulcrais para fazer uma abordagem mais completa acerca da temática escolhida para esta dissertação. A evolução que se observou aquando desse espaçamento de tempo – dentro de várias Eras que, entretanto, passaram – foi fundamental para hoje a vida em 17 sociedade ser como a que conhecemos. Os desenvolvimentos e aperfeiçoamentos foram aquisições de extrema importância para que nos tempos atuais se esteja num ponto evolutivo muito alto face ao que se estaria, no caso de a evolução aquando dos períodos da pré-história ficassem estancados. 18 3. Tecnologia: uma ligação interpessoal para a comunicação Desde os primórdios da sua existência que o ser humano abre fronteiras e vai mais além na descoberta do mundo, no desafio às suas limitações, na invenção de novos utensílios; no fundo, ter uma vida mais estável e cómoda, onde o conhecimento possa assegurar-se como base primordial para a sustentabilidade dessa estabilidade – esta ideia parte do século das Luzes, onde o conhecimento é fonte de progresso e inovação. Houve grandes transformações no progresso do sistema capitalista, sendo que essas “não debilitaram a essência do modo de produção capitalista, na verdade, reforçaram-na, uma vez que se acentuou sua característica mundial. Nisto consiste, precisamente, o processo de globalização, nome novo para o antigo processo de internacionalização ou de criação do mercado mundial nascido com o próprio capitalismo.” (Gorender, 1997, p.311). A globalização veio, ainda de uma forma mais ampla, agressiva e competitiva dar aso aos mercados e à sua expansão, virando-os ainda mais para o sistema arrojado que outrora foi embutido pelo capital, estando a par deste processo ainda mais forte gerando cada vez mais capital. Dentro dos cenários dos mercados no panorama mundial é de notória observação que as empresas multinacionais conseguem com grande agilidade ultrapassar as empresas que ficam denominadas e presas (quer por opção ou não) no panorama nacional. Devido a este controlo do mercado por parte das empresas multinacionais (Gorender, 1997) as leis do modelo de produção do capitalismo são impostas por as grandes forças dentro deste sistema, o que leva a uma maior mercantilização das relações económicas e sociais. 3.1. O Fordismo O Fordismo foi um fenómeno que ajudou a projetar com grande força a globalização, pois acabou por ter impacto direto no desenvolvimento do capitalismo. “O início do ciclo de produção capitalista caracterizou-se fundamentalmente pela separação do trabalhador dos meios de produção. Mas foi o surgimento das grandes fábricas e das linhas contínuas que aceleraram as mudanças, alterando radicalmente os sistemas organizacionais.” (Wood, 1992, p.9). Com a mudança dos sistemas organizacionais foi dado o arranque à transformação do capitalismo. “No final do século XIX a indústria estava a atingir um patamar tecnológico e económico, quando Henry Ford introduziu os seus conceitos de produção, conseguindo com isto reduzir dramaticamente custos e melhorar 19 substancialmente a qualidade. O conceito-chave da produção em massa não é a ideia de linha contínua, como muitos pensam, mas a completa e consistente intercambiabilidade de partes, e a simplicidade de montagem. Antes da introdução da linha contínua, Ford já tinha reduzido o ciclo de tarefa de 514 para 2 minutos; a linha contínua diminuiu este número à metade.” (Wood, 1997, p.9). O que Ford fez foi notável, levando a uma exigência de requinte nos processos de produção dos seus materiais, a diminuição de tempo foi um absurdo face ao que se conhecia no passado, o que permitiu aumentar a produtividade e por consequência maximizar os lucros. 3.2. O Taylorismo Não seria possível verificar a existência do Fordismo, se não fosse o engenheiro Frederick Taylor – o pai do Taylorismo. Este sistema de organização de trabalho veio graças à sua observação em fábricas, onde verificou o que poderia melhorar os processos de produção para a maximizar. Taylor testou métodos científicos na produção industrial, tendo em conta ganhar robustez na produção fabril. Os trabalhadores também foram escolhidos e selecionados tendo em conta as suas características, pois é um fator determinante na maximização produtiva e rentabilidade no trabalho. Contudo um dos pontos mais notáveis foi a eliminação dos tempos mortos de trabalho, que eram causados por três pontos: “primeiro, o erro disseminado entre os trabalhadores de que o maior rendimento do homem e da máquina terá como resultado o desemprego de grande número de operários; segundo, o sistema defeituoso da administração e, terceiro, os métodos empíricos que fazem os operários desperdiçarem grande parte de seu tempo.” (Ribeiro, 2015, p.67). Além da quebra dos tempos mortos Taylor também implementou a supervisão do trabalho (Ribeiro, 2015) através de um esquema hierárquico onde existe um supervisor, com o fim de calcular e planejar o tempo de trabalho e também expropriar o trabalhador, porque essa expropriação permitirá um maior controlo do trabalho por parte dos quadros administrativos das empresas. “As inovações de Ford visaram ao mesmo objetivo da chamada organização científica do trabalho sistematizada por Frederick Taylor, ou seja, a eliminação dos tempos mortos no processo de trabalho a fim de alcançar grande volume de produção a custos baixos.” (Gorender, 1997, p.312). O Fordismo teve o seu ascendente e posteriormente a sua queda, pois seguidamente vieram outros 20 processos de produção que visaram a evoluir o processo tecnológico, no entanto, este foi o pioneiro para a construção de um novo modelo capitalista. Certamente que sem Taylorismo o Fordismo não teria aparecido, contudo o grande boom tecnológico no sistema de produção, na componente técnica, foi quando Ford introduz a máquina rolante. Esta permitia (Ribeiro, 2015) que o trabalho chegasse aos trabalhadores numa posição fixa, o que naturalmente maximiza o tempo útil de trabalho e aumenta a produção. Graças à simples máquina rolante Ford não só mexeu na produção e organização do trabalho, como mudou os mecanismos de produção no mundo, devido ao facto de outras empresas seguirem o seu exemplo no que toca ao modelo de produção. Além da máquina rolante permitir a maximização da produção, deu algo a Ford que ele procurava: o controlo do ritmo de trabalho de forma organizada. Além de uma maior rotação de horários a nível fabril na empresa de Ford “muitos trabalhadores, inicialmente, não aceitaram essa forma de controle e gerência do trabalho. Foi, então, necessário implementar medidas para conquistar a adesão da classe trabalhadora e uma das medidas principais, implementadas por Ford, foi a elevação dos salários (Ribeiro, 2015, p.69). 3.3. O Toyotismo e o Volvismo Naturalmente com o passar dos anos e desenvolvimento da sociedade foram entrando outros modelos de produção, que substituíram os criados por Taylor e Ford. O Toyotismo apareceu no Japão e depois desse aparece o Volvismo, na Suécia. Toyota era um jovem engenheiro Wood (1992) que foi passar três meses a Detroit, à fábrica da Ford. Num processo de observação durante esse tempo Toyota chega à conclusão de que o modelo de produção em massa usado por Ford poderá não resultar no Japão – desta reflexão nasce a Produção Flexível. “Trabalhando na reformulação da linha de produção […], Toyota e Ohno desenvolveram uma série de inovações técnicas que possibilitavam uma dramática redução no tempo necessário para alteração dos equipamentos de moldagem. Assim, modificações nas características dos produtos tornaram-se mais simples e rápidas. Isso levou a uma inesperada descoberta: tornou-se mais barato fabricar pequenos lotes de peças estampadas, diferentes entre si, que enormes lotes homogéneos.” (Wood, 1992, p.13). A produção de material estampado, podendo ser homologado mediante as necessidades, permitiu, a poupança de uma alteração inteira da linha, que leva a uma personalização imediata do 27 5. A Rede que nos une Atualmente as dinâmicas globais são controladas pelos sistemas informáticos, existindo vários fatores que determinam a sua utilização: desde a burocracia, à organização de meta-dados em softwares , desde o mail à internet . A informática chegou, e veio para ficar. Esta desenvolve-se a par com a tecnologia, o que a torna numa ferramenta extremamente poderosa, sendo que quase toda a população, a nível global, tem acesso a este utensílio podendo explorá-lo da maneira que quiser. O papel do “informacionalismo e da sociedade em rede como catalisadores de uma mudança fundamentalmente determinada pela tecnologia, alegam que o processo de globalização alargou o debate nacional para o debate global, promovendo o surgimento de uma sociedade civil transnacional e de formas ad hoc de governança global.” (Quintanilha, 2018, p.269) – assim, vemos que o político passa da polis ao país, do país às regiões que se formam a nível internacional, como os países que formam a União Europeia, a ASEAN, a MERCOSUL, entre outros exemplos, até se chegar à política internacional, onde vemos imensas organizações internacionais que se começaram a propagar e institucionalizar no início do século XX, como a Sociedade das Nações, que dá lugar às Nações Unidas e que demonstra a crescente interdependência entre as várias sociedades. Todos os indivíduos estão sujeitos a seguir determinadas normas de modo a viver em sociedade, sejam elas Ocidentais e desenvolvidas, sejam numa tribo no meio da Amazónia. “O papel social, definido como modelo ou «normas» de comportamento ligados a determinado status ou posição na estrutura social” (Burke, 1980, p.46) definem o comportamento que cada um deve ter mediante o meio onde se insere. A história dos povos altera-se ao longo dos tempos e com ela o papel social na sociedade, por isso “haverá que acrescentar que um dado grupo social pode desempenhar papéis diferentes em períodos diferentes, e que num dado momento os seus membros podem ter que escolher papéis” (Burke, 1980, p.49) que poderão ficar sujeitos a mudanças de comportamento dentro de um determinado grupo. De modo às vivências em sociedade serem equilibradas com as normas a serem adotadas, o ser humano necessita de possuir a sua componente de racional: “os homens não fazem a sua História, só podem agir (…) estão abertas para o futuro” (Dupuy, 1992, p.129). É neste futuro que os comportamentos e formas de estar se vão alterando na génese da sociedade, o que torna a perceção da racionalidade ainda mais importante de se estabelecer. 28 5.1. Maffesoli na perspetiva das “tribos” Ao longo da sua vida e obra, Maffesoli procurou retratar um cosmos de pluralidade e movimento, no qual tribos e pequenos grupos se formam e se desfazem muito rapidamente. Teórico da pós-modernidade, encabeça o estudo de pequenas culturas, subculturas e contraculturas; temas que retrata – através das suas obras - as camadas pós-modernas. Na perspetiva de Maffesoli (1998) atualmente não existe estabilidade na sociedade para criar vínculos de relacionamento profundos e sólidos, pois tudo está em rápida transformação e movimento, o que face ao século passado altera, e muito, as dinâmicas sociais do quotidiano. Deve-se reforçar que a ideia retida no parágrafo anterior, desenvolvida por Maffesoli data de 1998. Passados 22 anos de história, todo o seu trabalho desenvolvido mantém-se atual. Tudo se transformou desde aí, e continua a não existir estabilidade social que permita ter tempo para criar e estabelecer vínculos em diversas áreas da humanidade. Nestas transformações é visível que o ser Humano se adaptou com relativa facilidade, pois de outra forma não seria possível viver em sociedade, tendo em conta os mecanismos que provêm dos alto desenvolvimentos tecnológicos. Rapidamente se muda de hábitos, compra um bilhete para qualquer viagem, cria-se projetos, desfazem-se esses mesmos projetos por questões subjacentes à versatilidade da velocidade com que as dinâmicas de vida se alteram. Ao longo da sua obra: O Tempo das Tribos , Maffesoli explica que, o que o próprio apelida de “tribos”, é nada mais nada menos do que uma metáfora que transparece o processo de cada um valorizar o seu papel a desempenhar dentro de um determinado grupo, subgrupo ou movimento de contracultura. A criação das chamadas “tribos” é feita devido ao sentimento de pertença e à emoção coletiva que leva as pessoas a aderir aos movimentos que vão ao encontro dos ideais da “tribo” onde está inserida, são as emoções e os interesses em comum que levam à formação e pertença nestas “tribos”, pois o ser humano procura a companhia e vivência daqueles que pensam e sentem de forma semelhante ao próprio. O autor enfatiza o “tribalismo” não numa perspetiva antropóloga, mas como um fruto (Maffesoli, 1998) gerado dentro das comunidades nas quais estamos inseridos, pois aquilo que pensamos serem as nossas opiniões e ideias, são na verdade produto direto da influência de pensamento e vivências que as “tribos” têm e passam a quem a elas pertence. À volta disto cria-se 29 uma bola de neve que se vai cimentando com ideias, vai ficando cada vez mais poderosa até que se torna na parte central de qualquer “tribo”. Alguns exemplos desse sentimento de pertença são os cortes de cabelo, a linguagem gestual, as roupas que se utilizam no dia a dia, o tipo de música que se ouve, o tipo de filmes que se consome. O movimento Punk é um bom exemplo para personificar este conceito de “tribo”. Paula Abreu é uma socióloga portuguesa que dedica aos movimentos culturais, especificando a componente musical, o seu trabalho ao longo dos últimos anos. Dedicou parte do seu trabalho a estudar movimentos Punk em Portugal alegando que estes são “a afirmação do ser diferente, do rebelde face ao sistema, face aos pais e à sociedade, e isso é uma atitude e, sobretudo, uma forma de estar para muitas pessoas que, apesar de já não se vestirem da mesma maneira, continuam metidas nos princípios do movimento, através do seu empreendedorismo, forma de estar na vida e atitudes” (Abreu, 2013). Mais uma vez, é reforçada a ideia de que são os ideais e sentimentos de pertença a um determinado conceito que fazem as “tribos” existirem. Este conceito, de “tribalismo”, é pelo mesmo autor considerado como uma obra de arte coletiva que requer contacto permanente. (Maffesoli, 1998) A diversidade que compõe a obra de arte é um multiculturalismo; ora considerar este conjunto de pertenças como tal é voltar a salientar a importância que a globalização teve em todos os processos sociais do quotidiano; “as nossas vidas viram-se inevitavelmente alteradas por ação das forças globalizantes que entram em nossas casas, comunidades ou contextos locais através de meios impessoais – como os media, a internet ou a cultura popular – ou através do contacto pessoal com indivíduos de outros países e culturas.” (Giddens, 2001, p.61) No último capítulo da sua obra: O Tempo das Tribos , Maffesoli enfatiza o lugar do povo como sendo (Maffesoli, 1998) alguém que vive num local onde se deve abstrair o menos possível do seu meio, para que desta forma perceba o simbolismo da sua existência. Com isto, o autor dá o exemplo da televisão e da publicidade onde as caracteriza como sendo direcionadas para públicos específicos, com linguagens e símbolos próprios, que permitem a esse público desenvolver o sentimento de familiaridade para com essas publicidades. É assim que é feita a comunicação, e assim nascem as “tribos” na conceção maffesoliana . A pertença às “tribos” advém da criação de um determinado simbolismo no qual “A produção e a difusão de bens simbólicos – que envolvem, nomeadamente, a 30 codificação e a fixação dos bens simbólicos como informação, que é armazenada, distribuída e descodificada pelos potenciais destinatários.” (Serra, 2007, p.143) Na perspetiva de Maffesoli o indivíduo dá uma maior valorização ao espaço em que está inserido, isto se o termo de comparação for o corpo ou a imagem. O espaço de que fala Maffesoli é datado como uma característica simbólica, de pertença e de costumes, e não um espaço propriamente físico. Quando Maffesoli retrata o sentimento de pertença, conjuga-o com o desenvolvimento tecnológico, fazendo a ligação ao conceito de “aldeia global”. 5.2. As “tribos” no contexto moderno Com o desenvolvimento da internet e a respetiva chegada da mesma a um grande número da população facilmente se entende que a proximidade entre todos se tornou muito mais acessível e constante. Devido à intercomunicação entre as pessoas e a facilidade com que a elas se chega, estamos literalmente à distância de um clique para descobrir, interagir; fazermos o que quisermos. Um exemplo disso, é que se pode pertencer a uma determinada “tribo” mesmo que nunca tenhamos visto as pessoas que também pertencem a ela, pois a comunicação é feita através da base virtual, única e exclusivamente em grande parte dos casos. Com o acesso às tecnologias e respetivas “aldeias globais” torna-se muito mais fácil estarmos todos próximos uns dos outros. A parte positiva, que Maffesoli destaca, é que se pode pertencer a várias tribos: podemos ser músicos, cineastas, médicos, estudantes ou advogados; o facto de estarmos inseridos numa das tribos em nada invalida que não possamos pertencer a outras. A velocidade de transição de informação é hoje tão rápida que se torna impossível mantermo-nos singelos apenas e só a um determinado parâmetro de vida em sociedade, e segundo Maffesoli é essa velocidade de passagem de informação que nos torna tão versáteis, estando dentro de várias “tribos” ao mesmo tempo. Na sua obra: O Instante Eterno, Maffesoli traça o retorno do destino, exprimindo-o de no presente. Até então a ideologia do progresso era centrada no indivíduo, algo que se deixa de ver, que como efeito acaba por ser substituída por rituais de prazer e lazer. Para Maffesoli o indivíduo não é como foi na modernidade “unicamente regido pela razão, mas é movido, igualmente, pelos sentimentos, pelos afetos, pelos humores, tudo dimensões não racionais do dado mudando” (Maffesoli, 2001, p.30). O autor expressa que as sociedades pós-modernas, cuja “modernização 31 incorpora duas tradições que, em certa medida, reforçam-se reciprocamente: a corrente “emancipatória” e a corrente “tecnológica”” (Shinn, 2008, p.46) procuram a sua felicidade guiada pelas emoções, passando pela “negação do fundamento filosófico do Ocidente moderno: o livre arbítrio, a decisão do individuo ou dos grupos sociais agindo em comum para fazer a História.” (Maffesoli, 2001, p. 31) 32 6. Modernidade e adaptação Anteriormente foi descrito o quão rápido a informação nos dias de hoje circula, e como é evidente, será impossível retratar esta questão sem falar de Zygmunt Bauman. Bauman é o pai da teoria da “modernidade líquida”, que é descrita pelo próprio como sendo uma metáfora entre os seres humanos e a água; tal como a água que se homologa e adequa a qualquer espaço, desde garrafas, a piscinas e até ao mar ou ao chão, o ser humano da modernidade também tem de se adequar e adaptar às transformações que surgem no meio que o envolve. Bauman (2001) afirma que os tempos em que se vive na atualidade são líquidos, e que nada é feito para durar, e que a partir do momento que assim é tem de haver uma constante mudança também no indivíduo para poder sobreviver à transformação. Bauman relata um exemplo interessante acerca da temática da modernidade líquida na sua obra, este considera que “o capital pode viajar rápido, e a sua mobilidade torna-o na fonte mais importante de incerteza para todo o resto. Essa é hoje a principal base da dominação e o principal fator das divisões sociais” (Bauman, 2001, p.109) Da obra “Modernidade Líquida” há três principais ilações a serem retiradas: a primeira é de que na modernidade líquida o ser humano é caracterizado pelos seus consumos e escolhas; pelo estilo de vida e personalidade na qual se forma. A segunda ilação que deve ser tirada é o facto de o indivíduo estar em constante movimento. Com o boom da internet e consecutivamente dos mecanismos comunicativos torna-se mais fácil aceder ao que se quer. A tecnologia permitiu, e continua a permitir, uma transformação a velocidades sem precedentes “que dão um contributo para o crescimento económico e para a qualificação dos indivíduos (…) no entanto, a rapidez da comunicação em larga escala criou uma oferta de informação que se reproduz a um ritmo difícil de absorver” (Neto, 2006, p.16). Essa transformação permite a uma maior facilidade de aquisição de recursos que permita viver em várias partes do mundo, dada a facilidade de movimentação face a anos anteriores. Por último a terceira ilação caracteriza-se pela componente económica. Repare-se que aquando dos tempos de “modernidade sólida” as instituições representavam uma solidez e uma consistência a nível de estabilidade que hoje não é possível de se encontrar, devido a todas as transformações subjacentes à sociedade líquida. Bauman afirma que “algumas pessoas viam o bem-estar social como uma medida temporária” (Bauman, 2000, p.145) 33 Além de ter desenvolvido o conceito de “modernidade líquida” na sua obra, Bauman pegou no exemplo contrário, que apelidou de “modernidade sólida”. Caracteriza-a como sendo um conjunto de ideias, estruturas e conceitos demasiado rígidos e inflexíveis. A internet é fruto – numa sociedade inserida no contexto pós-moderno – de toda a velocidade de transferência e passagem de informação. A propósito desta velocidade e troca informativa e da socialização via online, (Santos, 2012) considera que os laços de relacionamento se dão em rede, mas exclui a hipótese de se darem em comunidade; dessa forma os relacionamentos estabelecidos entre pessoas passam a ser chamados de conexões, as quais podem ser feitas, desfeitas e voltar a ser refeitas. Esta reflexão de Santos, sobre Bauman vai ao encontro da de Maffesoli em que ambos chegam à conclusão de que as pessoas se conectam e desconectam em conformidade com a sua vontade, o que faz com que haja uma grande dificuldade em estabelecer vínculos afetivos entre ambas durante longos períodos de tempo. Apesar dos teóricos mencionados anteriormente partilharem da mesma opinião em relação à efemeridade dos vínculos nas redes sociais, Bauman enfatiza a parte de ser fácil criar vínculos, mas salienta que esses não correspondem a um diálogo real, e como tal é fácil as pessoas se fecharem em círculos de pessoas que pensem e ajam da mesma maneira, o que leva a concluir que Bauman sem apelidar esta conclusão, encontra o conceito de “tribo” desenvolvido na obra de Maffesoli. Polanyi foi dos principais autores da modernidade. Era conhecido por ser um opositor ao modelo de pensamento económico que normalmente vigorava na sociedade. É cada vez mais recorrente assistir a eventos em que se vê as pessoas com o telemóvel em punho. O seguinte exemplo comprovará esta questão, associando-a ao status - questão desenvolvida por Max Weber - ao capital – desenvolvida por Karl Marx - e ainda à questão das redes sociais; da socialização através das mesmas e do conceito de “tribo” criado e explorado por Maffesoli. 6.1. Status e redes Portugal é um dos muitos países que sempre foi atento ao desporto rei: o futebol. Não há muito tempo atrás, o país viu o Benfica a sagrar-se campeão, e as imagens da “festa do título” não deixaram dúvidas: ainda em pleno relvado se assistiu aos jogadores a tirarem selfies , e fazerem vídeos para registar o momento. O objetivo de tal atitude não foi meramente registar algo da ocasião, mas postá-la nas redes sociais. Vejamos os efeitos práticos destes acontecimentos: na rede social Instagram 34 quanto mais seguidores o utilizador tiver, mais é remunerado pela rede, ou por marcas que pagam ao detentor da conta para fazer publicidade aos seus artigos. Hoje a questão do status tratada por Weber passa muito pela utilização e no fundo, uma hierarquização nas redes sociais. O like , o número de seguidores, os comentários nos posts são alguns dos fatores que determinam o estatuto associado às pessoas no novo mundo digital. As classes não têm propriamente uma relação direta com o nível de estatuto que cada indivíduo tem “a posse de dinheiro e a situação de empresário não constituem em si já qualificações de status (…) a situação de classe de um estudante, determinada pela sua fortuna, pode ser extraordinariamente diversa, sem que por isso se diferencie a situação do próprio status, dado que o modo de vida resultante da educação é o mesmo nos aspetos decisivos no ponto de vista de status.” (Cruz, 2013, p.734). Todos os autores mencionados anteriormente contribuíram substancialmente para que se interligassem as teorias subjacentes ao tema deste projeto. Com especial incidência de Maffesoli, como não poderia deixar de ser visto que parte deste trabalho é centrado na sua perspetiva de socialização via internet . 35 7. Redes Sociais: a manipulação e recolha de dados Através da implementação das redes sociais no panorama mundial de comunicação facilmente se retirou ilações acerca das vantagens que tal poderia trazer, quer para o bem, quer para o mal. Foram aproveitadas em vários pontos – desde o menos ao mais ético - e como será de esperar o lado que seria eticamente menos correto foi utilizado tendo em conta objetivos diferenciados pelos quais os seus utilizadores se propunham a atingir. Exemplos desses objetivos são maioritariamente associados à vertente financeira, que é suportada através das redes de comunicação. Houve fundos milionários que se especializaram a abrir este tipo de empresas, cuja função é dosear a recolha de meta dados para determinados fins, mediante aos objetivos dos clientes. Começou com o sonho da existência de um mundo interligado, onde houvesse a existência de um espaço onde todos pudessem partilhar as suas experiências. De repente o mundo digital começou a fazer parte de nós; ora nos faz sentir menos sós, ora se torna num animador pessoal. Indiretamente, as redes sociais fizeram de quem as usa a sua mercadoria, gerando milhões de euros através da atividade de cada pessoa. Toda a informação fica na internet ; desde pagamentos de cartão de crédito, localizações de GPS, os “ likes” nas redes. Todas as informações são recolhidas e associadas à identidade do seu usuário. É através do conhecimento destas informações que os vendedores fazem anúncios detalhados à medida de qualquer consumidor, que são vistos apenas pelo próprio. 7.1. O caso de Salvini O exemplo mais recente do uso de recolha e análise de dados – utilizados para fins políticos – foi em Itália, nas eleições legislativas, no ano de 2018. Dizia Matteo Salvini (líder do partido “Liga”): “Obrigado a Deus pela Internet, obrigado a Deus pelas redes sociais, obrigado a Deus pelo Facebook” (Salvini apud Andrade: 2018). A ênfase na religião - típico de partidos associados à direita (maioritariamente extremistas) - e à menção de uma das maiores redes sociais de todos os tempos revela que o populismo, aliado à análise de dados pode ser uma forte ferramenta para a obtenção dos objetivos. Este é apenas mais um dos casos, onde a recolha e análise de meta dados, via redes sociais, é usada de forma a manipular vontades e sentimentos para ganhar eleições. 36 Entre o caso italiano houve outros escândalos que atingiram magnitude global, e alguns deles ainda com maior proporção: o Brexit, no Reino Unido; e as eleições de 2015 nos Estados Unidos da América. São estes os casos mais sonantes em que a Cambridge Analytica trabalhou. 7.2. O escândalo da Cambridge Analytica A Cambridge Analytica faz recolha e análise de dados de utilizadores através das redes socais, no entanto, ficou como saber a maneira exata como esta faz a sua operacionalização. Maioritariamente os seus trabalhos são feitos para campanhas políticas, mas também tem a vertente de trabalhar diretamente com empresas. “Combinam dados de um grande número de consumidores e combinamnos com a ciência do comportamento para identificar pessoas que as organizações possam atingir com material de marketing.” (Osborne, 2018). O sonho de um mundo interligado deixou de ser um sonho, e passou a fazer parte de um pesadelo. Aquando da revolução digital, da criação das plataformas de redes sociais ficamos todos conectados. Mas com o passar dos anos a conexão entre os indivíduos passou a ter uma preponderância muito maior: deu lugar a um melhor amigo, a um guardião de recordações, a um terapeuta. 7.2.1A curiosidade de David Carroll David Carroll foi um dos principais curiosos que se questionou acerca da recolha dos seus dados, e onde veio mais tarde ajudar a descobrir o que estava por detrás maneira como a Cambridge Analyica trabalhava. David Carroll é professor na Parsons School of Design , universidade onde trabalhava no desenvolvimento e criação de aplicações, e o próprio sabia que toda a atividade online de qualquer indivíduo ficava registada. Tendo acesso ao conhecimento de como os dados ficavam na internet Carrol “apresenta uma declaração ao tribunal superior de Londres onde reclama os seus dados de volta à Cambridge Analytica” (Helmore, 2018). O que leva Carroll, que vive nos Estados Unidos da América a apresentar a declaração no Reino Unido reside no facto de descobrir “que poderia processar para obter acesso às suas informações na Grã-Bretanha, em parte porque uma das empresas é uma sociedade anónima do Reino Unido” (Helmore, 2018). Todas as nossas interações, todas as pesquisas na internet , todos os usos do cartão de crédito, localizações, gostos, estão a ser colecionados em tempo real. Tudo o que fazemos online é monitorizado com o objetivo de fazer de cada utilizador das redes sociais em questão parte do produto. Refere o Senador britânico Wyden (2018) que escreve para saber como os dados dos usuários do 43 dos 18 aos 35 foi de 40%, que balanceou as eleições em 6%, que era o resultado que necessitavam. Na conclusão ainda afirma que a empresa trabalha diretamente para outros países. No seu depoimento para a Comissão de Média Digital, Cultura e Desporto Kaiser acabou por assumir que os dados recolhidos através do Facebook foram autorizados, mas que deviam ser eliminados posteriormente, algo que não foi feito pela Cambridge Analytica. 7.6. Fim da linha O grande estouro do caso “Cambridge Analytica” dá-se no momento em que Alexander Nix é apanhado por um canal de televisão britânico a discutir a estratégia para as eleições dos Estados Unidos ocorridas em 2016, que mais tarde vieram dar a vitória inesperada de Donald Trump. No vídeo recolhido por esse canal demonstra Nix e quem o rodeia a discutir metodologias para que as eleições culminassem no sucesso do trabalho da empresa. Graças aos repórteres infiltrados nesse grupo foi possível detetar que “a empresa no centro da violação de dados do Facebook se gabava de usar armadilhas de mel, campanhas de notícias falsas e operações com ex-espiões para balançar campanhas eleitorais em todo o mundo” (Cadwalladr, 2018). Para agravar a situação, Alexander Nix ainda revela que algumas “das artes usadas pela empresa para ajudar os clientes, […] incluía aprisionar candidatos rivais em artimanhas falsas de suborno e contratar prostitutas para seduzi-los.” (Cadwalladr, 2018). No mesmo artigo escrito por Carole Cadwalladr, Nix (2018) vai mais longe e diz ao disfarçado repórter – que se fez passar por um potencial cliente – que chegou a trabalhar com exespiões do Reino Unido e de Israel com o fim de encontrar escândalos políticos, e que a sua equipa da Cambridge Analytica estaria disponível para ir além de uma investigação. Durante a conversa com o jornalista, Nix sugere alguns mecanismos de trabalho, mas o que mais chamou à atenção do público foi o de criar um escândalo sexual, cuja ideia seria “enviar para casa do candidato algumas meninas, para ter muita história de coisas.” (Nix apud Cadwalladr, 2018). Não obstante a Cambridge Analytica ainda tentou camuflar o seu nome enquanto trabalhou em alguns casos, segundo (Nix apud Cadwalladr, 2018) “Pode ser que tenhamos que contratar com um nome diferente ... uma entidade diferente, com um nome diferente, de modo que não exista nenhum registo com nosso nome associado.” O vídeo registado pelo canal de televisão britânico acabou por ser tornar público, o que culminou com o início do fim da Cambridge Analytica. Alexander Nix foi suspenso da empresa e a 44 mesma declara falência tendo começado de imediato a limpar os seus escritórios, que acabaram por ser alvos de investigação. David Carroll é chamado a depor ao Parlamento Europeu, onde refere (2018) que continua à espera dos seus dados, e que a questão passou a ser criminal. Reitera ainda que não vai desistir de obter o que é seu por direito. Alexander Nix é interrogado pela Comissão Parlamentar de Media, Cultura e Desporto, onde negou ter trabalhado para a campanha do Brexit, e ainda afirmou que os dados usados do Facebook tiveram permissão legal, através do uso da aplicação que um professor da Universidade de Cambridge utilizou, cuja finalidade foi a de recolher dados dos amigos dos amigos que a utilizavam. Posto isto, acaba por se fazer de vítima defendendo-se (Nix, 2018) com o argumento de que a comunicação social quis destruir a reputação da Cambridge Analytica lançando ataques que não têm cabimento. Tal como Alexander Nix, Brittany Kaiser e Cristopher Wylie, Mark Zuckerberg também foi testemunhar no escândalo ocorrido pelo roubo de dados da Cambridge Analytica através do Facebook . Zuckerberg (2018) assume que houve uma quebra de confiança entre Kogan (professor que desenvolveu a aplicação para uma recolha eficaz de meta dados), entre a Cambridge Analytica e o Facebook ; todavia também assume na mesma linha de pensamento que houve uma quebra de confiança entre as pessoas que partilham os seus dados com o Facebook e que esperam que os mesmos sejam protegidos. Zuckerberg inicia o seu testemunho começando por dizer que o objetivo da rede social era o de conectar as pessoas, e que sabendo do que se estava a passar (Zuckerberg, 2018) contactou com a Cambridge Analytica para lhes pedir que apagassem os dados. É questionado acerca da campanha de Trump, de onde surge a pergunta que se os seus funcionários colaboraram na campanha, à qual Zuckerberg responde que não sabe. Em suma além de um pedido de desculpas, Zuckerberg prometeu melhorar e reforçar a segurança da rede social por ele criada. O caso foi arquivado em 2019, ano em que o Facebook se disponibilizou a pagar cinco mil milhões de dólares à Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos da América “para terminar investigações abertas nos últimos dois anos a várias falhas de privacidade encontradas na rede social” (Pequenino, 2019). A causa do pagamento deve-se ao argumento de que “a empresa de rede social não foi esclarecedora sobre as formas de como os criadores de aplicações, anunciantes e outros obtiveram acesso aos dados pessoais dos usuários - desde o conteúdo que eles “gostaram” até os números de telefone que 45 armazenaram - em violação da promessa anterior do Facebook para melhorar suas proteções de privacidade online.” (Romm, 2019). Em suma o escândalo da Cambridge Analytica aliado ao Facebook teve um desfecho pouco esclarecedor por parte da empresa que gere milhões de contas virtuais. Mark Zuckerberg não foi suficientemente esclarecedor quanto ao que aconteceu nas eleições de 2016, nos Estados Unidos. De facto, as eleições americanas foram as mais discutidas ao longo da argumentação deste escândalo nesta dissertação, porém houve outros casos em que a plataforma serviu de ferramenta para trabalhar em eleições noutros países. A Cambridge Analytica acabou falida após as gravações secretas dos repórteres do Channel 4, e David Carroll acabou por não ter os seus dados devolvidos. Empresas como a Google , Facebook, Twitter e Instagram chegaram em força ao mercado. O tempo de desenvolvimento tecnológico de umas para as outras foi curto. A tecnologia desenvolveu-se a uma velocidade nunca antes vista e com ela o surgimento das redes sociais não ficou atrás a nível evolutivo. Desde sempre que a sociedade se viu em fases de metamorfoses, pois é através das mesmas que ocorre o processo evolutivo. É graças ao processo de metamorfose que a sociedade Santos (2014) molda as suas formas de produzir, relacionar, trabalhar e existir; foi com esse fim que foram criadas várias plataformas para coexistirem, sendo que algumas delas já foram faladas em capítulos anteriores. 46 8. As Redes Sociais em análise 8.1. Facebook Muito se falou ao longo desta dissertação do uso do Facebook aliado ao fim de manipular as eleições dos Estados Unidos da América, porém não se descreveu as suas origens. Segundo dados da IEB School o Facebook lidera o ranking de rede social mais utilizada do planeta, a rede foi criada por Mark Zuckerberg ainda aquando dos seus tempos de estudante na Universidade de Harvard “no início, o Facebook era restrito aos estudantes de Harvard, e aos poucos foi se expandindo para outras universidades. O Facebook se tornou aberto a todos somente dois anos depois, quando passou a aceitar estudantes, pessoas e empresas.” (Torres, 2009, p.140). Apesar do escândalo ocorrido com a Cambridge Analytica o Facebook mantém um registo de privacidade relativamente bom, um exemplo disso é se uma conta de um determinado utilizador não for “amiga” de outro perfil que esse utilizador pretenda, o acesso não é dado, devido ao facto de existirem mecanismos de segurança que impeçam que essa privacidade seja violada. 8.2. Instagram Ao contrário do Facebook, o Instagram foi uma aplicação desenhada para ser utilizada a partir de um telemóvel (já o Facebook pode ser utilizado tanto a partir de um telemóvel como de um computador). A rede social demonstrou-se inovadora, sendo esse um dos fatores que contribuiu para tal, “esta característica distingue-o de outros tipos de programas, como sistemas operativos, que são os que fazem funcionar o computador, as linguagens de programação, que permitem criar os programas informáticos em geral” (Piza, 2012, p.7). A rede foi criada em 2010 (Piza, 2012) com o intuito de os seus criadores reinventarem a famosa Polaroid manter o momento instantâneo. A ideia seria a de fazer uma junção de uma rede social ao que se poderia tornar algo instantâneo, através da partilha. A própria rede foi criada justamente a pensar na partilha de fotografias e vídeos, e não de texto – algo que não acontece com o Facebook. Dedicado ao vídeo e à fotografia, a rede tornou-se inovadora ganhando muitos fãs, precisamente da área da fotografia e vídeo. Inovou no que toca aos filtros que se podia pôr nas fotografias de modo a criar a fotografia com a textura que o utilizador entender usar num determinado fim. Segundo Santos (2014) com o Instagram é possível ainda o contacto com novas pessoas, através de ferramentas como pesquisar, “gostar”, comentar posts e da visualização de conteúdos mais 47 populares por meio dos hashtags (#). Os hashtags também revolucionaram a rede, visto que usando o símbolo semelhante ao “cardinal” e escrevendo uma, ou um conjunto de palavras sem espaços é possível chegar a uma conta que tenha partilhado uma fotografia, ou um vídeo com o mesmo hashtag, no entanto neste tipo de casos o importante é o conteúdo que é apresentado e não a conta em si, pelo menos na maioria das ocasiões . Uma das revoluções do Instagram foi o conteúdo “ story ”, em que uma fotografia é postada por um determinado perfil, e fica ativa meramente durante 24h, sendo que essa presença não se encontra no feed do utilizador, mas sim na plataforma “ story ”, que é apresentada através de uma bola com a fotografia de perfil do usuário, um contorno rosa, e o nome do perfil abaixo dessa mesma bola. Ao contrário do Facebook a forma de existir conexão entre as contas é diferente. Na rede criada por Zuckerberg é necessário enviar um “pedido de amizade” e depois de haver a aceitação da parte de quem recebeu, automaticamente os utilizadores se tornam “amigos”. Já no Instagram o pedido é feito através de “seguir”, em que o utilizador A faz o pedido para seguir – se a conta for fechada, segundo as definições de privacidade – ao utilizador B, e se o utilizador B aceitar, o A está a seguir o B, mas o B não está a seguir o A. Isso só acontece caso o B mande também um pedido para seguir o A. Portanto aqui não existe o automatismo em relação a amizades como existe no Facebook. O que permite, em muitos casos, haver contas de celebridades que possuem muitos seguidores e que seguem poucos perfis, devido à capacidade de resposta não acompanhar o número de quem quer os quer seguir. 8.3. Twitter O Twitter tornou-se numa famosa rede social através de celebridades, políticos e pessoas com algum relevo no panorama nacional ou internacional. A rede social é vista como microblogging por apenas permitir 140 caracteres em cada publicação. Esta ferramenta “permite que pessoas e empresas possam colocar atualizações constantes sobre elas. E essas atualizações podem ser pessoais como responder, por exemplo, o que está fazendo neste exato momento. Ou no caso de uma empresa, divulgar os novos lançamentos, nova campanha ou divulgar os novos serviços.” (Rocha, 2010). Curiosamente há factos que não mudam, e tanto o Twitter, como o Facebook servem de plataformas em que a comunicação acontece desde a data da sua fundação até aos dias de hoje. Além da faceta financeira que o Twitter tem, o lazer é uma parte fundamental na sua génese. 48 A rede social revelou-se num forte aliado “para os chamados famosos que não querem falar com a imprensa sobre determinado assunto, mas que desabafam no microblogging sobre o ocorrido.” (Rocha, 2012, p.37). Além do Twitter, também o Facebook tem a vantagem de servir de plataforma para comunicar com o exterior, embora o Twitter seja mais utilizado nesse sentido do que a rede social criada por Zuckerberg. Aceder a redes sociais nunca foi tão fácil como é hoje. Nos últimos anos com a evolução da internet e do WiFi, tweetar requer pouco esforço, requer pouca previsão, reflexão ou consideração das consequências. Tweeting é, em suma, uma atividade altamente impulsiva, algo que se pode fazer facilmente mesmo que nada tenha sido considerado ou importante a dizer.” (Ott, 2017, p.61). O retweet é uma prática famosa dentro desta rede social: basicamente consiste na partilha de uma determinado post através de outras contas, portanto os tweets são frequentemente partilhados com uma determinada carga afetiva, uma vez que “mensagens do Twitter com carga emocional tendem a ser retuitadas com mais frequência e mais rapidez em comparação com as neutras" (Stieglitz, 2013, p.217). Desengane-se quem pensa que o acesso a qualquer rede social seja meramente para gente instruída de educação, com isto quero dizer que aparecem contas de utilizadores indelicados, ofensivos ou até insultuosos. “Em primeiro lugar, o Twitter é definitivamente informal. A sua falta de preocupação com a linguagem e estilo adequado abala as normas que tendem a impor a boa educação. O ato de escrever “Prezado Fulano de Tal” no início de uma carta formal, por exemplo, diminui a probabilidade de que haja comunicação depreciativa” (Ott, 2017, p.62). 8.3.1 - Donald Trump e o Twitter Além da popularidade que já possuía, é através do Twitter que Donald Trump chega a um nível ainda mais alto na fasquia do populismo. “A 10 de novembro de 2012 Donald Trump tweetou “Obrigado – muitos dizem que sou o maior escritor de 140 caracteres no mundo”” (Ott, 2017, p.63). Tal publicação naturalmente que gera alguma polémica – algo a que Trump nos habituou ao longo do seu mandato enquanto presidente dos Estados Unidos da América. Claro que está que levou com algumas respostas a tal provocação, que, no entanto, não lhe tirou protagonismo, muito pelo contrário: deu-lhe ainda mais. Brad Hayes fez a programação de um “ tweeterbot ” cujo objetivo é (Garfield, 2016 apud Ott, 2017) a utilização de um algoritmo de inteligência artístico-social baseado na linguagem de Trump em centenas de horas de debates transcritos para gerar tweets ao estilo de Trump. Através dos 49 cálculos logarítmicos o bot chega à conclusão de que Trump dividia o seu discurso em três parâmetros: “uso de linguagem simples; diferido para amigos e colegas de confiança e insulta constantemente os seus adversários” (Ott, 2017, p.63). A narrativa de Trump é fácil de se entender e interpretar. Fala para todos: desde pessoas quase analfabetas a pós-doutorados; no seu discurso não existe nada de impeditivo para que a mensagem passe com a devida clareza, muito pelo contrário. Donald Trump é visto como uma personagem influente no panorama das redes sociais, nomeadamente o Twitter – rede que este tão bem domina. Crockett fez um estudo acerca dos posts partilhados por Donald Trump na sua conta pessoal da rede social Twitter. Com base em mais de 2500 posts e mais de meio ano de estudo, Crockett (2016) chegou à conclusão de que Trump usa um léxico de palavras simples e repetitivo, considerando que usa com muita frequência monossílabos tais como: “bom”, “mau” e “triste”. Além de considerar o uso recorrente de monossílabos identificou que para Trump, (Crockett, 2016) os posts feitos são para vir carregados de uma conotação negativa e insultos. "Os comentários ofensivos, intimidadores e abusivos de Trump contribuem para a elevada taxa com que o próprio é “ retweetado” , que, a partir de janeiro de 2016, era 2201 vezes superior à média.” (Tsur, 2016). Em terceiro lugar, (Crockett, 2016) conclui que Trump usa excessivamente o ponto de exclamação como se uma ferramenta de manipulação se tratasse para dar uma maior credibilidade ao seu discurso. 9. Metodologia 9.1. Pressupostos O presente capítulo anuncia as hipóteses de investigação e também a metodologia utilizada para chegar até elas, bem como a metodologia adotada nas etapas da investigação. Segundo (Quivy, 1992), não há observação ou experimentação que não assente em hipóteses, e quando não são explicitamente constituídas podem trazer hipóteses que não são possíveis de explorar. “Uma hipótese é uma proposição que prevê uma relação entre dois termos, que, segundo os casos, podem ser conceitos ou fenómenos. Uma hipótese, é, portanto, uma proposição provisória, uma proposição que deve ser verificada.” (Quivy, 1992: 136). A sua formulação tenta responder ao problema levantado pela temática escolhida funcionando como uma pré-solução para o problema, uma resposta suposta é provisória, e também um enunciado conjetural das relações entre as variáveis (Reis, 2010). 50 Construir hipóteses não é supor duas variáveis e fazer uma suposição acerca delas: é bem mais do que isso. “Geralmente construímos um corpo de hipóteses, hipóteses essas que devem, portanto, articular-se umas com as outras e integrar-se logicamente na problemática. Por isso é difícil falar de hipóteses sem tratar ao mesmo tempo do modelo implicado pela problemática.” (Quivy, 1992: 138). Pressuposto 1: A manipulação de meta dados implica um controlo cada vez maior dos indivíduos e condiciona cada vez mais os relacionamentos sociais. Pressuposto 2: A redução dos processos de socialização entre indivíduos à sua mera realidade económica faz-se por meio da produção emocional e da estimulação de afetos na Internet. Pressuposto 3: A monopolização da Internet por uma minoria suscita a desconfiança da sociedade nas instituições. Pressuposto 4: A multiplicação dos fluxos comunicativos é simultaneamente a causa e o efeito da globalização, prejudicando assim os contactos de proximidade. Pressuposto 5: As redes sociais, contribuem para uma cada vez mais forte individualização, reduzindo significativamente as interações sociais Pressuposto 6: As redes sociais favorecem relações despersonalizadas e abstratas entre indivíduos. Pressuposto 7: As redes sociais induzem uma forma de enclausuramento tribal, definida pela pertença dos indivíduos a comunidades que se opõem umas a outras em função da partilha de afinidades comuns, de toda a ordem. 9.2. Pesquisa Quantitativa O objetivo da pesquisa científica prende-se por obter (Freixo, 2011) a verdade através de pressupostos – acabando estes por ser uma ponte entre a observação da realidade e a teoria científica que explica essa mesma realidade. A propósito da teoria científica o autor estipula o método científico como sendo “o conjunto das atividades sistémicas e racionais que, com maior segurança e economia, 51 permitem alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros – traçando o caminho a ser seguido, detetando erros e auxiliando as decisões do investigador.” (Freixo, 2011, p.80). É certo que não existe teoria sem a prática, mas também não existe prática sem teoria; andam de mãos dadas como se fossem unha com carne sendo que ambas precisam uma da outra para se complementarem. Portanto é importante fazer uma abordagem que trace uma simbiose entre ambas de modo que haja rigor no trabalho científico. Esta pesquisa não se irá proceder através do método quantitativo, pois um dos motivos deve-se ao facto de haver biliões de utilizadores de redes sociais que inviabiliza esse estudo, no entanto não se prende meramente nesta questão, e como tal (Lopes, 2011) não sendo possível inquirir a totalidade dos membros do universo, recorre-se a técnicas que viabilizem a construção de uma amostra daquele mesmo universo. O interesse desta pesquisa não passa por ter resultados numéricos, percentuais ou estatísticos, ou respostas objetivas; mas sim verificar as motivações dos entrevistados. O objetivo é basear-se num carácter subjetivo, que vá ao encontro de narrativas, experiências e ideias. A profundidade das respostas que os entrevistados dão servem de base para a construção do modelo de análise, baseado nas opiniões, nas crenças, nos pensamentos e nas motivações dos entrevistados. Esta pequena representação do universo de investigação, tem condições de substituir o universo em análise e é, em muitos casos, o único meio de o conhecer, se não de maneira plenamente segura, pelo menos com razoável segurança. Para selecionar a amostra foi usado um método não probabilístico, sendo que a resposta será dada através da internet , local onde eu próprio fiz uso dela como um vetor de socialização, neste caso para um trabalho em específico. A seleção da amostra foi feita por conveniência através dos seguintes critérios: ter acesso à internet ; ser meu amigo/seguidor em redes sociais como o Facebook ou o Instagram; ou haver amigos em comum 9.3. Método Qualitativo Geralmente suportados pelo recurso à entrevista exploratória, os métodos quantitativos procuram dar uma resposta, e criar maior rigor científico às leituras efetuadas. Segundo Quivy (1992, p.69) “as entrevistas contribuem para descobrir os aspetos a ter em conta e alargam ou retificam o 52 campo de investigação das leituras”. A entrevista ajuda ainda a economizar o tempo na procura de leituras, na construção das hipóteses e na observação. De modo geral as entrevistas devem ter um teor aberto ou semiaberto, sem muitas perguntas de modo a não maçar os entrevistados. “as entrevistas exploratórias servem para encontrar pistas de reflexão, ideias e hipóteses de trabalho, e não para verificar hipóteses preestabelecidas. Trata-se, portanto, de abrir o espírito, de ouvir e de não fazer perguntas precisas, de descobrir novas maneiras de colocar o problema, e não de testar a validade dos nossos esquemas.” (Quivy, 1992, p.70). O método indutivo-dedutivo é utilizado com alguma frequência quando se trata de abordar métodos qualitativos, pois este representa uma combinação do método dedutivo com o intuitivo. Para Freixo (2011) o investigador tanto necessita dos dados para a teoria como da teoria para os dados, numa simbiose entre a teoria e a experiência, sendo que com base na experiência se constrói a indução – pois é estabelecida, complementada e reformulada – e com base na teoria capta-se a experiência e a realidade, que origina o processo dedutivo. As entrevistas realizadas centram-se na questão de estudo, que segue um guião de tópicos e questões desenvolvidas a partir do quadro teórico previamente estabelecido, de forma que os/as entrevistados/as consigam expressar-se com a máxima liberdade de tempo e palavras. Segundo Reis (2010) este tipo de abordagem permite respostas comparáveis permitindo um tratamento mais sistémicos dos dados. Becker (1996) afirma, estudamos atores que também observam e têm uma perceção própria sobre a realidade social. Essas perceções devem ser levadas a ter em conta, devido ao facto de ir ao encontro da objetividade. Citando Becker (1996) a metodologia qualitativa é a indicada para o estudo e compreensão de fenómenos específicos, o que leva a que seja o método indicado para esta investigação: a compreensão dos processos de socialização pelo meio das redes sociais. Nesta investigação as entrevistas, que partiram através da pesquisa qualitativa tiveram como finalidade conhecer a opinião dos entrevistados relativamente à internet no panorama das redes sociais, ao seu uso enquanto chave para o desenvolvimento civilizacional e económico, à sua propensão como instrumento de manipulação, e à interligação entre pares que esta permite estabelecer. Os entrevistados podem responder podem responder de livre e espontânea vontade, sem haver a necessidade de se preocuparem em seguir um determinado quadro referencial, ou qualquer 59 socais, era novo. Desde que tenho os meus 15 sou mais social, saio mais, convivo mais. Desde aí que sempre tive redes sociais, por isso não consigo fazer uma comparação a antes, porque antes eu era uma criança e nem tinha esses instintos.” O Facebook fez com que houvesse a possibilidade dos “usuários entrarem em contato com informações relacionadas à identidade de outros indivíduos, permitindo também que haja uma troca de informações de maneira fácil e rápida, por meio de mensagens de textos, imagens e vídeos.” (Vargas, 2015, p.20) o que faz com que grande parte da população acabe por criar conta nesta, ou até noutras redes socais. Todos os processos de socialização passam por uma fase primária e secundária, e como todos os seres humanos os primeiros processos estabeleceram-se sem redes sociais online , porém numa fase mais posterior, e mediante as gerações, maioria dos entrevistados assumem que as redes sociais tiveram um grande impacto no seu processo de socialização. Conforme diz o Romão acerca de si “o processo de socialização começa a ser sem redes socais”, mas assume que numa fase posterior começou a usar, que foi aquando do seu 10.º ano. O próprio refere que sentiu mais a sério na faculdade “e a partir daí tive Facebook, e continuei a usar a rede. No meu caso é mais útil – imagina uma pessoa que não vejo há 6 meses - mas que é minha amiga; é muito útil. Agora, muitas vezes e durante a pandemia ajudou-me imenso porque não podíamos sair de casa portanto utilizávamos aquilo. Fiz bastantes chamadas em grupo naquela altura.” Parte dos entrevistados referem a importância das redes sociais na comunicação, no contacto, com ente queridos que não vêm, ou estão impossibilitados de ver há algum tempo. Desta forma, o contacto continua a ser feito, e embora que não seja a mesma coisa do que o contacto presencial, tal acaba por ser útil para manter o contacto e ir reforçando os vínculos relacionais entre os indivíduos. Repara-se que ao longo que se navega nas redes sociais o diálogo e a produção de conteúdo por parte daquele que era visto como alguém passivo da comunicação passa a ser parte integrante da própria. O facto de “a opinião de um sujeito sem fundamento vale exatamente o mesmo do que alguém que tenha uma opinião fundamentada. (…) se alguém tiver de ler uma opinião mais do que 30 segundos, passa à frente, sinto um bocado essa tendência em mim e tento contrariar, porque nada é explicável em 30 segundos.” A fragmentação da comunicação é algo salientado pelo Romão como algo a combater dentro do panorama das redes sociais, devido à procura da facilidade, da rapidez, e para 60 ele isso não é possível de se fazer quando se trata de questionar algum assunto que requeira discussão. Para o José o pré e o pós criação de redes sociais no que toca ao processo de socialização acaba por ser definido pelo próprio como “complicado falar, porque a pessoa que era quando começo a usar redes sociais tinha 12, 13 ou 14 anos era totalmente diferente, não só pela idade, mas também pelas experiências. 101.4 – O papel das redes sociais na socialização Dito pelo Carlos, no que toca à sua vida pessoal considera que o online condiciona a socialização dando como exemplo: “duas tentativas de criar um grupo no WhatsApp com os meus filhos e a minha esposa, mas há sempre alguém que está out ”, acabando por rematar que quando quer falar com alguém “pego no telefone e ligo”. Quanto mais próximo é o relacionamento, mais facilmente surgem ideias ou o estabelecimento de objetivos conjuntos; permitindo que os relacionamentos próximos formados por intenso contacto, ou seja, laços fortes entre pessoas próximas, exigem reciprocidade, confiança e envolvimento emocional (Ahuja, 2000), algo que a internet acaba por não permitir. Na medida da interação social cara-a-cara, para a Inês “as pessoas continuam a conviver na mesma, se calhar até se relacionam mais porque é uma das vantagens das redes sociais. As pessoas estão mais próximas, não quer dizer que tenham relações mais profundas, mas estão mais próximas” Para o Nelson no contexto pessoal “alguém diz uma opinião e consegue-se ver as expressões faciais e não levar muito ao extremo, enquanto nas redes socais alguém diz uma coisa e só porque não se exprime pelas palavras certas interpreta-se uma coisa que é completamente oposta ao que a pessoa está a dizer. Diria que é se calhar o ponto negativo que a socialização dá muito mais, que é a parte empática no frente-a-frente.” Esta intervenção vem trazer ao de cima que a linguagem é um ponto fundamental na parte comunicativa quer dentro das redes socais, quer fora delas, pese embora que no contexto pessoal é relativamente mais fácil perceber a mensagem que a outra pessoa está a transmitir. Janverpaa e Lang (2005) chegaram à conclusão de que o impacto positivo e negativo da tecnologia dos smartphones cresce à medida que novos lançamentos surgem no mercado. Concluíram ainda que, apesar da tecnologia móvel ter aumentado a possibilidade de conectividade, também gera uma série de situações conflituosas e não previstas anteriormente. Já para Mazmanian et al. (2006), 61 ao chegarem à conclusão aquando ao estudo das implicações sociais associadas ao uso de tecnologias móveis, identificaram três tipos de dualidades conflituosas vindas associadas ao uso dessas tecnologias, que são elas os fatores de continuidade, engajamento e vício. Numa simples situação de convívio de café, para o Hugo “estavas numa mesa e tinhas de falar com as pessoas, tinhas de socializar senão era um silêncio. Neste momento não consegues estar com pessoas na mesa 2h em que ninguém vá pegar no telemóvel”. Para melhor ajudar a compreender o papel das redes socais no processo de socialização o Hugo conclui da seguinte forma: “ é mais difícil socializar pessoalmente, ou estás mais habituado a socializar no telemóvel que nem sequer dás valor ou dás aquela atenção como davas antigamente”, mas reitera que também há coisas boas nesse processo de socialização através das redes, que são “comunicar com familiares que estão fora; uma vídeo chamada ou uma mensagem, por exemplo (…) nesse aspeto a Internet é espetacular, porque consegues manter contacto com pessoas que se calhar noutro tempo nunca mais ias falar, ou então mandavas uma carta sem ter certezas se vai chegar.” Para a Rita, a necessidade de gerir uma equipa de trabalho permitiu-lhe que as redes sociais tivessem um papel preponderante para trabalhar, pois para alguém que se considera envergonhada por natureza, o trabalho a partir das redes sociais vieram deixá-la mais à vontade, e conforme a própria refere “ fazer diretos para as redes sociais acaba por no contexto pessoal me deixar mais à vontade, se calhar se estivesse de estar com alguém da equipa já estava mais à vontade. Acaba por interferir no pessoal. Vou-te dar um exemplo: a Cláudia Andrade – uma rapariga da minha equipa – nós fazíamos muitas chamadas de Facebook, outro dia estive com ela e parecia que já a conhecia há muito tempo. Não houve aquele constrangimento, se calhar se não fosse pelo digital o convívio e a interação eram diferentes”. Para o Romão o que se passa nas redes sociais acaba por ser uma ilusão, citando o próprio: “a ilusão é que tens muitos amigos: gente com quem possas partilhas as tuas fragilidades, que é mentira. A outra ilusão é saberes como está o outro, que também é mentira. Grande parte das pessoas cria uma máscara através das redes socais. Estão sempre em ótimos restaurantes e a vida deles é sempre ótima: também é mentira.” A socialização através das redes passa-se, segundo o Romão, por passar algo que seja sempre positivo, mesmo quando as coisas não estão bem com cada usuário que passe essa impressão. 62 “Conheci pessoas em fóruns que ainda mantenho relacionamentos próximos, e que me moldou devido uma recomendação de um livro, de um filme de um álbum…” Neste sentido as redes sociais foram um canal importante para o José fazer a sua construção enquanto indivíduo e enquanto alguém recetivo a novas experiências e com isso ganhar outra visão acerca da vida. Segundo o próprio entrevistado “se não tivesse acesso às redes sociais de uma forma mais hipotética e não como aconteceu, acho que crescer para bem ou para mal ia acontecer. Se tivesse acesso às redes sociais com 30 anos, talvez numa fase final de desenvolvimento já conseguia fazer uma retrospetiva mais assertiva. Talvez não fosse exposto a tantas opiniões e perspetivas diferentes da vida. Talvez fosse uma pessoa menos tolerante.” 10.2. A questão da cibersegurança: A Dualidade Entre a Liberdade Online e a Extração de Dados Para se navegar na internet o utilizador paga um preço por isso, pese embora a fatura mensal que tem de pagar pelos serviços disponibilizados pelas operadoras, o mundo virtual não se restringe apenas ao que cada operadora cobra para trazer o serviço online às casas de todos nós. Para navegar nas redes sociais apenas se necessita de criar uma conta e dar alguns dados para poder aceder a tal, no entanto, o preço a pagar para a navegação e criação não passa por ser em numerário, mas bem pior do que isso: são extraídos dados aos seus utilizadores, de modo que sejam usados para algum tipo de análise – quer seja política ou comercial – onde as empresas compram aos donos e gestores das redes sociais. Já anteriormente nesta dissertação se falou acerca do escândalo que ocorreu entre o Facebook e a Cambridge Analytica , o que provou e trouxe ao de cima que a cibersegurança é um tema que necessita de ser melhor estudado e também de ser uma prioridade para as entidades reguladoras de segurança mundial, nomeadamente os Estados. 10.2.1 – Os anúncios publicitários, os dados e o algoritmo No papel de entrevistada, sempre que a Rita vê anúncios nas redes sociais assume que nem sempre lhe interessam, segundo a própria: “estão no 50/50, nem muitas vezes não me interessa. Também quando estou no Facebook nem sempre estou a navegar, estou mais a falar com a equipa, portanto acabo por não ver tantos como se calhar a maioria das pessoas vê.” 63 Aquando questionada se os anúncios que vê nas redes sociais vão ao encontro dos seus gostos, a Inês não hesita e responde: “completamente! Até já tive de me forçar de seguir páginas que nem me identifico tanto, isto mais a nível de política. Sigo pessoas de outro quadrante político não só para “desvincar” o algoritmo, mas também porque me interessa ter vários inputs . A nível de anúncios comerciais é assustador. Os anúncios são um abuso, constantemente caem anúncios com as últimas pesquisas que fiz e as coisas que mais gosto.” Se os dados dos utilizadores forem extraídos através de uma publicação feita através das redes sociais há quem não se importe, como é o caso do Romão, “se publico algo e esse algo é para o publico em geral tenho de estar preparado. Nota-se que quando uma pessoa procura alguma coisa a publicidade é muito focada, e isso… Nós não somos indivíduos para essas empresas, somos um conjunto de interesses e de potenciais compradores de algo”. Ora o algoritmo que levou o Romão a ver o modelo de sociedade que concordava através do Facebook, parte pela análise de dados que a Cambridge Analytica operou na campanha pró-Trump, em que dava ao seu utilizador aquilo que ele queria ver. Derivado a este fator é possível fomentar a criação de tribos, pois iremo-nos relacionar com pessoas que têm os mesmos interesses do que nós e com isso estabelecer um vínculo emocional e/ou relacional, o que leva à premissa de que a a liberdade na internet é condicionada pelo uso dos dados dos utilizadores, mas não ficamos por aqui relativamente à opinião dos entrevistados. Para o Hugo a extração de dados online é um assunto com algum dualismo: “se queres fazer parte de uma rede social tens de obrigatoriamente de dar os teus dados, mas para fins políticos acho errado, para cenas comerciais até acho que não porque ajuda. Tu sabendo a partir do momento que gostas deste tipo de coisa e aparece publicidade de coisas que tu gostas, mas se calhar também podes ser manipulado.” Portanto para o Hugo é um dilema, porque em parte concorda com a extração para fins comerciais porque ajuda o utilizador a ver mais artigos de que gosta ou com os quais se identifica, por outro não concorda por ficar muito manipulador. Quanto aos anúncios, assume também que quase todos os anúncios que lhe aparecem nas redes sociais vão ao encontro dos seus gostos. “Não é por aparecer uma página que vou clicar, mas acho que no Google, recebo notificação de resultados de jogos, provavelmente devido às pesquisas.” A internet é livre, mas ao mesmo tempo paga-se com outras coisas. Para o Nelson “ninguém dá nada de borla, e se calhar o facto de haver publicidade é o que permite que tenhamos redes 64 sociais, isso é bom, porque se calhar alguém que não tem possibilidades tem a mesma possibilidade de ter alguma coisa do que alguém que tem muito dinheiro. Tem é o lado oposto que são os algoritmos. Estamos a chegar a uma sociedade que é de extremos, ou tem uma opinião, ou tem exatamente oposta, já não há o intermédio, e tudo graças a esse algoritmo.” O algoritmo controla as navegações e como se tem verificado ao longo desta dissertação isso traz coisas boas, mas também coisas más. O Nelson é mais um dos entrevistados a assumir que maior parte dos anúncios que vê expostos nas redes sociais vão ao encontro do seu gosto. Segundo o próprio “Tento filtrar. Muitas vezes noto que como me estão a tentar agradar em demasia aparecemme informações se calhar um bocadinho falaciosas, e eu como cidadão tento ter essa consciência e é isso que acho que falta à educação, e acho que nos próximos anos vamos evoluir na educação dentro das redes sociais para ter esse filtro e ter espírito crítico.” O processo de socialização é automaticamente influenciado pelos anúncios que vemos, porque quando se trata disso ficamos quase que presos àquela temática em específico, que nos levará, eventualmente, a socializar e ter conversas que sustentem aquele produto, pois segundo Teixeira (2007, p.43) “o anúncio publicitário dever ter como finalidade estimular uma reação, que pode influenciar o comportamento e opinião do públicoalvo. O anúncio publicitário pretende causar impacto, tentando convencer através das suas campanhas que os produtos que publicita são fiáveis (…).” A opinião do Carlos vai ao encontro à do Nelson no que toca à aprendizagem de se saber navegar nas redes; ambos consideram que é necessária uma maior instrução nesse sentido. O Carlos refere que “já há muitos anos defendo que da mesma forma que se ensina a ler devia-se ensinar as pessoas a trabalhar nas redes sociais e perceber aquilo a que estão a dar acesso. O pagamento que se faz para navegar nas redes sociais é dares a tua informação.” Refere-se aos anúncios que vê como “algo que agrada”, porque os seus gostos são canalizados, tais como os dos restantes entrevistados, para o algoritmo da própria rede social. Para o Carlos “os anúncios que aparecem agradam na maioria das vezes, mas tento não dar grande atenção a isso porque sei que está tudo mecanizado para vender. Às vezes nem reparo que aparecem devido a aparecerem milhares de vezes”. A consciencialização e o espírito crítico são pontos assentes, para o Carlos, para nos conseguirmos proteger o máximo possível dentro da internet , e ele dá dois exemplos relativamente a isso: “o João desliga as informações todas, o João tem o telemóvel meramente em função telefone. 65 Porque o João sabe como se proteger. Obviamente que fica menos exposto, mas quando os liga, aí claro que se sujeita. É uma situação de alguém que tem conhecimento e usa esse conhecimento para se proteger. Vou-te dar outro exemplo: no aeroporto liguei-me à rede WiFi de lá, e a partir daquele momento comecei a receber lixo de todo o mundo, o que eu acho é que eles partilharam o meu endereço a milhares de pessoas. Eu ter ficado com internet de graça teve esse custo. Hoje em dia tenho mais cuidado, mas considero-me semianalfabeto, porque não sei ao certo como me hei de proteger. Quando aparecem os contratos, ninguém lê, toda a gente segue em frente.” Toda a navegação tem um preço, como se tem assistido ao longo desta análise de entrevistas, segundo a opinião dos entrevistados, esse preço é pago através da permissão (embora que de forma quase inconsciente, desleixada ou desconhecida) de dados pessoais. A era digital trouxe-me variadas questões acerca da ética, privacidade e socialização, e como tal, ainda há muitas questões por responder acerca dos malefícios e benefícios da existência de internet e redes sociais. Existe, atualmente, um receio pela partilha dos dados online , devido à sua segurança, pelo que citando Veiga (2020, p.48) “ o responsável pelo tratamento dos dados deve adotar mecanismos preventivos de atuações de modo a garantir a segurança dos dados pessoais. Ademais, fica obrigado a proteger os dados contra a sua destruição, acidental ou ilícita, e ainda contra a perda da segurança.” Para o José a internet “tem aquela “cena” de ser livre e compreendo, de certa forma porquê que há esse controlo, por questões judiciais, se calhar dá para descobrir uma rede de tráfico de droga, ou tráfico humano, ou pedofilia e tudo mais. Compreendo porque se faz isso, mas para o cidadão comum acho que isso é um bocado prejudicial, porque acaba por entrar a questão do marketing e da manipulação (…) há aquela barreira, porque pensamos que estamos nas redes sociais de forma livre e ninguém nos vai fazer nada, mas até as redes sociais nos pedem os dados pessoais, mesmo que nós não queiramos dar temos de dar, se queremos utilizar.” Quanto aos anúncios, o José considera que “aceitar os anúncios… Já acho que é tão normalizado que já nem me apercebo como apercebia no início. Talvez por eu ter um adblock e acaba por me bloquear maior parte da publicidade e não me apercebo.” Na verdade, apesar do adblock ser de facto um software bloqueador de anúncios, tal não evita publicidades de “patrocinados” dentro das redes sociais, e embora o José não tenha falado diretamente de lhe aparecerem anúncios enquanto navega, fez uma correlação entre as pesquisas que faz, e o tipo de anúncio que lhe aparece, e tal não 66 se encontra correlacionado. O próprio diz: “faço pesquisas de jogos e até vejo um jogo de futebol ou outro e não senti que os anúncios viessem dirigidos a mim no sentido da minha pesquisa feita no imediato”. Com isto, não significa que não veja anúncios, ou que nem se aperceba deles, como o próprio revelou. Todavia os anúncios que diz aparecerem, quando se apercebe deles, vão ao encontro dos seus gostos pessoais. 10.2.2 – Os grupos nas redes sociais e o tribalismo Às vezes quando a Rita navega “alguém publica uma viagem e quem dera ir para aquele sítio.” No que toca a se inserir em grupos, a Rita concentra-se em estabelecer principalmente a sua concentração em grupos de trabalho que estejam diretamente ligados à sua profissão, porém também está “em grupos de cães e gatos abandonados, tipo a ALAAR (instituição de recolha e apoio a animais abandonados) e assim, de resto é mais da equipa e tudo o que tem a ver com a empresa, que são muitos grupos”. Para aceder aos grupos de animais abandonados, a Rita, encontrou o grupo por sugestão do próprio Facebook , o que leva a interagir os seus interesses pessoais com o que a redes social lhe vai apresentar. Quando a Inês foi questionada acerca da sua opinião relativamente à extração dos seus dados para fins políticos ou comerciais através das redes sociais, a própria reconhece que não tem uma opinião fundamentada acerca do assunto, no entanto, reconhece que apesar disso, e citando a própria: “não consigo entender bem a dimensão disso, e se calhar é esse o perigo. Não sei de que forma os meus dados são utilizados, nem sei o que fazem com eles… Agora, há uma coisa que entendo, que existe todo um algoritmo que é baseado nessa extração de dados com as suas vantagens e desvantagens”. Refere-se às vantagens como sendo ter o acesso “a mais coisas que se gostam e dizem respeito, mas que por outro lado também afunila o pensamento por causa disso, só o facto de mostrar o que se gosta e identifica começa-se a achar que o mundo é assim, e a nível político pode ser muito grave, pelo algoritmo remeter para essas ideologias, e começa-se a achar que o mundo é todo assim e só se pensa dessa forma. Precisamente por se ser vítima e refém do algoritmo.” Existe uma preocupação da parte da Inês – embora assuma que não consegue entender a dimensão do que se trata o uso dos seus dados nas redes sociais – em ficar desconfiada relativamente a isso, sendo que está longe de ser a única pessoa com este tipo de preocupação, conforme refere Valente (2019, p.104) “a preocupação dos usuários com a privacidade e com as informações pessoas fornecidas aumentos, os mecanismos da plataforma para disponibilizar e coletar os dados (…) fazendo 67 com que a disponibilização dos dados pelos possuidores de conta tenha aumentado.” A lógica é que os dados dos utilizadores fiquem muito mais propensos a serem vendidos, tanto por causas comerciais ou políticas, o que revela o surgimento de uma preocupação acentuada para esta causa/efeito de navegar nas redes sociais. Quanto questionada acerca das experiências vividas por pessoas famosas ou contas que veja diariamente a postarem informação nas redes sociais, a Inês considera que gostaria de vivê-las também, devido ao facto de “estarmos próximos das vidas das outras pessoas, que podem ser verdadeiras ou não porque cada um mostra o que quer, e estando próximos disso obviamente que desperta algo em nós e um pensamento de que se for algo bom também o vamos querer fazer.” Estes posts influenciam, inevitavelmente, os internautas que têm acesso aos próprios, pois o algoritmo volta a mostrar o que se quer ver, e o mesmo se aplica aos grupos que são criados nas redes social Facebook. Quando perguntei à Inês se está inserida em grupos e se esses grupos lhe foram sugeridos pela rede social, ou ela própria partiu à pesquisa responde que: “não estou muito nos grupos. Os que uso até são mais de trabalho, mas nos públicos estou num de astronomia e foi o Facebook que me sugeriu”. Confessa fã de astronomia, nada surpreendeu a Inês quando o Facebook lhe sugere um grupo daquela temática, conforme a própria “não fiquei nada surpreendida por me ter aparecido aquela sugestão no Facebook , aliás, já era de esperar algo do género”. Esta perspetiva revela que o Romão se encontra ciente do que se passa para lá do pequeno ecrã, no entanto considera vantajoso, no meio das desvantagens todas por trás, uma vez que se insere em grupos da universidade, da malta do futebol, de advogados, de amigos, e grupos relacionados com a vila de Arcos de Valdevez. Assume que alguns deles encontrou através de sugestões das redes sociais, mas que há outros em que recebeu convites de amigos. “A fonte, para mim é importante para me inserir num grupo. Nas eleições autárquicas o meu Facebook operou como uma bolha. Só nos mostra o que queremos ver, dava quase a impressão de que o mundo estava quase de acordo com aquilo que eu pensava, quando na realidade não é assim.” Para Maffesoli apud Corrêa, a noção de neotribalismo ou tribalismo é caracterizada pela fluidez, pelos ajuntamentos pontuais e pela dispersão, independente do interesse e da finalidade do encontro. “Tudo o que liga ao presenteísmo, no sentido da oportunidade, tudo o que remete à banalidade e à força agregativa, numa palavra, à ênfase do carpe diem , hoje renascente, encontra na matriz estética um lugar de eleição”. (Maffesoli, 1996, p.55) 68 Tal como os outros entrevistados até ao momento o Hugo também se insere em grupos de Facebook. “Estou dentro de grupos de jogos arcade, jogos de consola, mas não sou muito ativo, já pouco uso o Facebook. ” Os grupos foram-lhe sugeridos pela própria rede social, sem ele ter de fazer a pesquisa no motor de busca. “Este grupo vai ao encontro dos meus gostos, tal como outro qualquer em que me insira.” As redes sociais são um gestor de emoções, pois segundo o mesmo entrevistado “não se sabe o que pode aparecer, portanto, não sabes o que uma pessoa pode postar. Quando estou a navegar sinto-me bem, se for de felicidade, se vir uma notícia negativa naturalmente que me deixa em baixo.” O sonho comanda a vida, e através do sonho vêm os objetivos, e o que a maioria dos entrevistados diz relativamente à visualização de posts que demonstrem viagens, é que consensual que se revêm a fazer aquilo, no entanto, segundo o Hugo, “é preciso teres capacidade monetária para esse tipo de coisas, ou mesmo disponibilidade de tempo.” Em termos profissionais a inserção dentro de grupos de Facebook, ajuda muito, e segundo o Nelson “tenho grupos de desporto, tenho lá uma turma e consigo passar a informação muito mais rapidamente. E em termos de eventos, em termos de organização é muito mais fácil. Toda a gente tem acesso, já não existe a chamada individualmente, isto em organização de eventos, de resto não utilizo muito.” O Nelson assume-se um agente passivo dentro dos grupos com maior quantidade de pessoas, em que retira as ideias e lê as opiniões. Curiosamente esses grupos são encontrados através de sugestões de amigos, ao contrário da maioria dos entrevistados. Para o Carlos a inserção em grupos de redes sociais, dá-se através de sugestões de amigos, que o fazem presencialmente, ou através de pesquisas que o próprio faz, embora reconheça que muitas das vezes lhe aparecem sugestões de grupos que vão ao encontro dos seus gostos, como é o caso da apicultura. Para ele, nas redes sociais “há pessoas com comportamentos tão primários, e irrefletidas, e são contraditórias, depois quando estão presencialmente a reação que eu tenho é de estupefação. Mas também há coisas residuais, e boas, que é ver comentários pertinentes onde se vê algum tipo de resolução para alguma coisa. Gostava que as pessoas pensassem mais.” Quanto ao tipo de grupos que o José utiliza dentro no Facebook assume-se híbrido relativamente à forma como chega até eles: ora através da própria pesquisa, ora através de sugestão das próprias redes sociais. Citando as palavras do próprio: “seguia uma página de ciclismo no Facebook onde acabaram por fazer a criação de um grupo para o pessoal falar acerca dos temas que 75 10.4.1 – Redes sociais: agregador ou distanciador? A relação que se estabelece via redes sociais pode ter, em alguns casos, uma interferência direta nos relacionamentos de pessoais. Para a Rita esse relacionamento não se altera no caso de serem pessoas mais próximas a ela, todavia reconhece que tal afeta os relacionamentos menos fortes que mantém. Diz que “o meu irmão agora está em França e temos muito mais contacto por existirem redes sociais, se calhar, se não houvesse, não tínhamos. E mesmo com familiares de Braga fazemos muitas video-chamadas e tudo. Acho que com pessoas com quem estou mais habituada, como o meu irmão, acho que acaba por não interferir depois no relacionamento de proximidade, mas se calhar com amigos mais distantes acho que acaba.” Para o Carlos a comunicação vai redes sociais não promove a solidão, porque ele olha para as redes sociais como um mecanismo de pesquisa, assumindo que para comunicar diretamente com as pessoas usa o telefone. Citando-o: “o Facebook não facilita nada a relação com os meus filhos ou com os meus sobrinhos, porque eu não uso aquilo para comunicar, para comunicar eu uso os canais de comunicação como o telefone”. A velocidade de comunicação através das redes sociais é um fator de preponderância na sua utilização, que segundo o Carlos, “não afeta os relacionamentos de proximidade”. Assumindo que pouco interage nas redes, para o Carlos o contacto que tem nas redes sociais através de qualquer tipo de interação não influencia os seus processos de socialização, porque, como ele diz: “a interação que há não me faz correlacionar praticamente com ninguém, porque raramente o faço.” Para a Inês existe o sentimento de distanciamento para com quem está diretamente com ela no âmbito pessoal, conforme refere: “O que eu acho que acontece é que as redes sociais conseguem aproximar quem está longe, mas afastam quem está perto. Coisas tão simples como, por exemplo, estarmos todos juntos numa sala em família e eu estar a falar com amigos meus do Porto, mas, se calhar, estou mais longe naquele momento de toda a gente que me rodeia e está ali de facto.” O exemplo dado pela Inês é claramente o que acontece com muita gente que nos rodeia. Eu próprio já me assumi tanto no papel dela, como no papel das pessoas que estiveram com ela nesse contexto em que se desligou do ambiente que a rodeia para ir para as redes. Assume-se portanto, que segundo o relato da Inês existe uma maior preponderância para quebrar ligeiramente os contactos que existem na vida real. 76 Para o Nelson as redes sociais são bons canais de comunicação, devido à facilidade de acesso, no entanto não substituem o contacto pessoal, e mesmo ele próprio acredita que com o surgimento das redes sociais existe propensão para a solidão. O Nelson disse que “às vezes, temos a possibilidade de estar com as pessoas pessoalmente e como a facilidade de falar com elas via redes sociais, achamos que isso pode substituir. Nada substitui o pessoal, a meu ver. As redes sociais podem ser uma ferramenta para diminuir a falta do pessoal, mas não podemos achar que isso vai substituir, de alguma forma, o contacto pessoal.” O Romão partilha de uma opinião relativamente parecida com a do Nelson no que toca à solidão vs. redes sociais. Diz que não há substituição possível do pessoal através do digital, mas que isso é um mal menor: “É mais satisfatório o contacto ao vivo, mas encaro como um paliativo, quando não consegues, seja por constrangimentos de tempo, financeiros, geográficos. Alguns entrevistados dão o exemplo de familiares que estão longe e, que graças às redes sociais, torna-se possível comunicarem. O Hugo partilha dessa opinião, dando como exemplo o caso do seu irmão. Refere que: “a mim ajudou-me bastante, quando o meu irmão foi para o Algarve, que é longe, e ajudou-me bastante a comunicar com ele. Mas, quando estou com ele, a relação é como sempre foi. Imagino que se não houvesse redes sociais nem contactasse com ele todos os dias, que quando estivesse com ele haveria um sentimento mais forte e mais temas de conversa.” Embora consiga estar mais perto do que se passa na vida do irmão graças às redes sociais, também reconhece que, na eventualidade de não existirem, quando estivesse com ele o tipo de interação seria diferente do que é atualmente, pois as redes sociais acabam por nos fazer sentir mais perto das pessoas que queremos. Para o José a consideração acerca da socialização virtual e real, é considerado como algo que quebra um pouco o contacto entre as pessoas, pois conforme ele diz: “na casa dos meus avós, por exemplo, via televisão, mas estava a ouvir atentamente tudo o que eles diziam. (...) Agora, quando estou no telemóvel e nas minhas redes sociais, estou um bocadinho desligado deles.” Acaba por revelar que também pousa o telemóvel e que conversa com os avós, mas que esta facilidade de aceder às redes sociais acabou por o “desligar” mais um pouco do que é a sua socialização com a família. 77 10.4.2 – Relações para a vida real? O relacionamento virtual, apesar de desmembrar alguns contactos de proximidade com as pessoas que vivem numa distância física relativamente perto umas das outras, ajuda a fomentar laços entre pessoas que se encontram a uma distância mais longa. Para a Rita isso aconteceu no contexto profissional, até porque partilha as mesmas preferências com a pessoa em questão devido ao contexto onde se encontraram, e assume mesmo que esse convívio nas redes sociais afetou de forma positiva o convívio na vida fora dos ecrãs: “Já aconteceu até de comentar fotos relativamente à minha empresa e conhecer outras diretoras que não conhecia, nunca tinha falado e nunca as tinha visto, por exemplo, e criar-se ali uma ligação. Agora, se calhar, nos eventos, como já conheço, já vou lá falar com elas, enquanto antes passava por elas e nem sabia.” Inês - A Inês assume que entra em alguns grupos nas redes sociais, mas que esses grupos não a fazem manter qualquer tipo de contacto com as pessoas lá inseridas na vida real, embora partilhe gostos em comum, diz que: “o contacto que tenho através dos grupos dá-se maioritariamente com pessoas que conheço ou com quem trabalho. Nunca fiz amizade com ninguém que tivesse conhecido num grupo de uma rede social”. Nos grupos das redes sociais, o Nelson, ao contrário da Rita, refere que não cria laços com as pessoas. Enquanto navega no Facebook o máximo que faz é ver o que está no feed, que mesmo assim poderá levar a uma conversa, mas no âmbito pessoal, como ele referiu: “se for alguém que eu conheço que diz a sua opinião, sou capaz de contrapô-lo pessoalmente. Se eu não conhecer, raramente faço conversa com a pessoa, ou nunca, mesmo que o tema me interesse.” Assume-se com esta avaliação que o Nelson não socializa através das comunidades que se insere nas redes, na sua vida pessoal. Comparativamente à Rita, o Romão também estabeleceu contacto na vida real através de grupos em que se envolveu no Facebook. Segundo ele: “Já aconteceu, mais pela política e dentro da esfera das ideias políticas semelhantes”. O facto de o fator político se tornar num veículo comunicativo, e até de estabilizador de amizades ou inimizades, faz com que os valores que os indivíduos defendem venham ao de cima, e que faz deles frutos das suas preferências e emoções, levado posteriormente à comunicação entre ambos. 78 Para o Hugo uma amizade que se inicie na internet acaba por ser algo raro de se verificar, ou trazer para vida real. “No Twitter tenho mais facilidade, porque sigo pessoas que têm os mesmos gostos do que eu e consegues sempre ali fazer uns comentários e trocar opiniões, mas nada de estabelecer contactos de amizades, acho que raramente acontece.” O Hugo canaliza maior parte das suas atividades nas redes sociais para o Twitter – assumindo mesmo que o próprio tenta filtrar o máximo possível do que pretende ver e acompanhar. Apesar de fazer o esforço para filtrar a informação, e confessar que troca um comentário com alguém de vez em quando na rede, tal nunca se traduz para a vida real. O José referiu que já se relacionou em fóruns dentro da internet , que até o fizeram a ter uma discussão saudável com as pessoas acerca de temas que interessavam a ambos, e que até conseguiu mesmo estabelecer uma amizade. Já Bauman (2004) defendia que a modernidade líquida traz consigo uma fragilidade que esbarra diretamente nos laços de relacionamentos humanos, que segundo o José são “frágeis devido aos tempos que vivemos”, mas que ao mesmo tempo existe a consideração de que já esteve com pessoas no contexto presencial que conheceu nas redes sociais. Citando-o: “eu acabei por falar com imensas pessoas e já estive com algumas dessas pessoas presencialmente, mas só tenho uma relação ou duas que posso considerar de amizade e proximidade.” Só o facto de ter relações de amizade e de proximidade com pessoas que conheceu nos grupos pode ser considerada uma vitória de algo positivo que as redes sociais trouxeram até si. 79 11. Conclusão Ao longo desta dissertação fiz um paralelismo entre os primórdios, do que foi o desenvolvimento inicial da sociedade: desde as várias formas de comunicar até ao simples ato de pegar no telemóvel e aceder à internet quase de forma instantânea. Para comunicar, compreender, globalizar e conhecer a sociedade como conhecemos hoje foram necessários grandes progressos, grandes desenvolvimentos e grandes avanços na evolução. Aprendemos muito com os nossos antepassados, pois foi graças a eles que a sociedade se começou a organizar no que toca ao seu processo evolutivo: desde a comunicação através da escrita, até à descoberta do fogo; desde a construção de abrigos, à descoberta de matérias-primas para a caça e a pesca; desde o uso de peles de animais para fazer as suas roupas, desde a agricultura à pecuária. À medida que houve o desenvolvimento do Paleolítico ao Neolítico variadas formas de descobrir e avançar no progresso técnico foram descobertas e abordadas. Os Descobrimentos marítimos contribuíram, e muito, para a globalização, visto que só se pensava que o planeta apenas era constituído por Europa, África e Ásia. O mercado foi fortemente influenciado pelos Descobrimentos, que permitiu a trocas, entre matérias-primas, especiarias, e tecidos de países para países. Já desde esse tempo se iniciaram processos de exportação e importação, não obstante a divulgação da língua dos países colonizadores aos países colonizados. Todos estes processos levaram a transformar o globo e a trazer consigo o desenvolvimento da sociedade. Para se conseguir ter um estilo de vida moderno, foram necessárias reinvenções nos sistemas de produção: foi aí que entrou Ford com o Fordismo, Toyoda com o Taylorismo, e Chavanmco com o Volvismo. Estes modelos de produção transformaram a sociedade, o seu consumo e o mercado. A forma de estar aquando estas revoluções pioneiras na tecnologia e organização do trabalho permitiu um novo advento no planeta: a velocidade e o consumo. As redes sociais são caracterizadas por serem fáceis de mexer, aditivas, e um ex-libris na comunicação atual. Substituíram vários meios de comunicação antigos: do fax ao telegrama, por exemplo. Nelas é possível reencontrar o conceito de “tribo” trazido por Maffesoli, e assim criar toda uma dinâmica à volta da comunicação e interação, com consequências e vantagens na organização estrutural da sociedade. O escândalo que ocorreu com o Facebook e a Cabridge Analytica foi um tema que insisti e explorei com afinco nesta dissertação, por achar que tal viola todos os princípios éticos e de conduta 80 que o Ser Humano deve ter, em virtude de um objetivo final. O que aconteceu foi: não olhar a meios para se atingir os fins. Os dados pessoais dos utilizadores de redes sociais são, definitivamente, o “novo ouro” dos nossos tempos; com eles faz-se a manipulação da informação que se quiser, quer para fins comerciais, quer para fins políticos. Usando o desenvolvimento da comunicação e da sociedade, desde a pré-história até à atualidade consegue chegar-se ao ponto das redes sociais: objetivo meu durante esta dissertação. Chego, portanto, à conclusão, segundo a minha amostra de entrevistados e após análise das mesmas, que a internet influencia nos processos de socialização da geração mais jovem, porque já cresceram com as redes sociais “entranhadas” neles, porém no caso da mais velha essa diferença não foi significante devido a haver a ligação interpessoal acima do online. A navegação nas redes sociais também é um produto do que gostamos, do que o algoritmo dita e, portanto, segundo os entrevistados, a maioria dos anúncios que lhes aparece no feed vão ao encontro dos seus gostos, tal como os grupos, que muitas vezes são sugeridos e os faz criar uma comunidade à volta do conceito de “tribo”, desenvolvido por Maffesoli. Os entrevistados, na sua grande maioria, concordam que a democracia se encontra ameaçada por diferentes motivos, nomeadamente devido às redes sociais. Defendem também que confiam no Estado, mas que devia haver uma maior regulação da parte deste relativamente aos dados dos seus cidadãos. As redes sociais também foram abordadas no sentido solitário, onde a maior parte dos entrevistados concorda que de facto é mais fácil cair na solidão com elas, do que sem elas, assumindo ainda que é difícil haver interação na vida real com alguém que se conheça online e que partilhe os mesmos gostos. Tudo tem um lado bom e um lado mau, e a internet não escapa a essa tese. O grande desafio daqui para a frente será observar como se vão desenvolver, e dentro dela, as redes socais. 81 12. Referências Bibliográficas Ahuja, G. (2000). Collaboration networks, structural holes, and innovation: A longitudinal study. Administrative Science Quarterly, 45, 425-455. Andrade, D. (2018, Março 20). A perfeita máquina de manipulação. Publico. Acedido a 21 de julho de 2019. Disponível em: https://www.publico.pt/2018/03/20/tecnologia/noticia/a-perfeita-maquina-demanipulacao-1807270 Amer, K. & Noujaim, J. (realizadores). (2019). Nada é privado: O escândalo da Cambridge Analytica [Streamming]. EUA: Netflix. Amorim, J. (2017). Contributos para uma reflexão em torno do conceito de Estado de Direito. E-Revista de Estudos Internacionais do CES-ISCAP, 5, 1-24. Acedido a 16 de novembro de 2021. Disponível em: https://www.iscap.pt/cei/e-rei/n5/artigos/Jose-Amorim_Estado-de-Direito.pdf Arcanjo, B. C. (2018). 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Iniciamos a entrevista com cafés a água das pedras na mesa. Tudo correu de forma fluída sem qualquer tipo de rodeios ou inseguranças relativamente às temáticas propostas pela entrevista. Posteriormente, quando desliguei o gravador, continuamos a discutir alguns temas ligados às redes sociais e à proteção de dados, até que ele se foi embora e eu entrei para o bar. V) Romão Araújo Data: 10/10/2021 Duração da entrevista: 00:44:35 Local da entrevista: Escritório do próprio Profissão: Advogado Habilitações literárias: Licenciatura em Psicologia, Licenciatura em Direito, Licenciatura em Solicitadoria. Solicitei a entrevista com o Romão há uns tempos, até que finamente consegui que ele tivesse disponibilidade para me receber no seu escritório, no coração da vila de Arcos de Valdevez. Uma vez chegado ao local do escritório fui convidado a subir as escadas do prédio, onde entrei, bati à porta e fui recebido de forma calorosa pelo próprio. Após a conclusão da entrevista fui convidado para lanchar, onde estivemos à conversa acerca de outras questões relacionadas com a sociedade. Posteriormente ao lanche, agradeci-lhe por tudo e cada um foi para a sua vida. VI) José Sá Data: 04/10/2021 Duração da entrevista: 00:47:41 Local da entrevista: Sala de estar de hotel Profissão: Habilitações literárias: Mestre em Engenharia Química Há já algum tempo que conheço o Zé, e que volta e meia conversamos acerca de questões sociais e económicas. Devido à abertura que ele tem para comunicar acerca de temas que requerem um debate, reflexão e apresentação de argumentos achei que seria adequado convidá-lo para ser meu entrevistado. Fomos para o sala de estar de um hotel, onde apenas se encontrava a funcionária de bar. Desde que começamos até ao término da entrevista que não fomos incomodados, nem entrou ou saiu alguém daquela sala de estar. A entrevista decorreu mediante a normalidade que foi verificada nas 92 anteriores. No final, agradeci-lhe, ofereci-lhe uma bebida, e no fim de terminarmos seguimos os nossos caminhos. VII) Hugo Ribeiro Data: 28/10/2021 Duração da entrevista: 00:36:44 Local da entrevista: Estúdio de produção musical Profissão: Software developer Habilitações literárias: Mestre em Engenharia Informática O Hugo é meu amigo de longa data, e aquando fez a sua tese de mestrado o tema que se encontrava a explorar (embora dentro da área da Engenharia Informática) tocava algumas arestas com a dissertação que estou a escrever; principalmente no uso da temática das redes sociais. Devido ao uso que ele lhes dá e ao tema que desenvolveu há poucos anos atrás, achei-o alguém adequado para entrevistar. Quando o convidei aceitou prontamente o meu convite. Dirigimo-nos para o meu estúdio, onde produzo música como hobbie, conversamos acerca do tema, até que passamos para a entrevista. Correu de maneira normalizada, sem interrupções. No fim ainda ficamos mais algum tempo sentados a conversar acerca de música, e fomos embora passados uns minutos de conversa.