Gravidez na adolescência na mídia impressa
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-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- Capítulo 50 Gravidez na adolescência na mídia impressa Sônia Regina Schena Bertol * 1. O PROBLEMA DE PESQUISA. través da pesquisa “Gravidez na adolescência na mídia impressa”, buscou-se analisar de que maneira a mídia impressa brasileira aborda este problema social tão presente em nosso país. Este nível da pesquisa tem como enfoque a abordagem na mídia impressa estadual, através da análise das publicações do jornal Zero Hora, diário publicado na cidade de Porto Alegre, no ano de 2013. Com mais de 50 anos de circulação no estado do Rio Grande do Sul, é um dos jornais mais vendidos do estado, neste sentido apresenta-se como uma das mídias mais indicadas para realizar-se a análise. A partir dos dados encontrados pretende-se inferir as principais abordagens que o tema recebeu no jornal escolhido. Entende-se que a publicação de notícias a respeito de temas como esse, que envolvem a saúde pública, tem um forte poder influenciador e conscientizador da população. 2. JUSTIFICATIVA. Se pensarmos que hoje o grande público começa a se interessar cada vez mais pela informação científica trazida pelos periódicos e por diversos produtos editoriais que têm se preocupado exclusiva ou complementarmente com a divulgação da ciência e da medicina, então é hora também de qualificar sua cobertura, surgindo neste quadro a importante presença do comunicador, suscitando interesse e curiosidade, promovendo programas de promoção da saúde pública e de prevenção de doenças coletivas na agenda midiática. Quanto às grandes massas excluídas das benesses das ciências médicas, Carvalheiro (1999: 7) nos faz lembrar da “dramática deterioração das condições gerais de vida e saúde de segmentos cada vez maiores da população”. De fato parece-nos * Profesora en la Universidad de Passo Fundo, Brasil. A
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- preocupante a situação da saúde na contemporaneidade, como um bem de acesso restrito àqueles que podem pagar pelos seus altos custos, como lembra o ex-Ministro da Saúde José Serra (1999: 39), ao pontuar que “[...] os meios de prevenção e tratamento das doenças foram se tornando mais sofisticados e caros”. A pesquisadora Virginia Silva Pintos (2003: 123, tradução nossa) considera que “A Saúde, como conceito, foi desenvolvendo novos sentidos; transcendeu a esfera enfermidade/curativa (ausência de enfermidade), para abranger aspectos mais globais: alimentação, moradia [...]”. Este entrelaçamento entre o social e o biológico, entretanto, vem sendo reivindicado ainda hoje. Luis Ramiro Beltrán (2001) aponta a reafirmação da importância dos conceitos de promoção da saúde e de prevenção da doença quando representantes de 134 países reuniram-se na União Soviética no ano de 1978, em evento promovido pela OMS (Organização Mundial da Saúde), do qual derivou a Declaração de Alma-Ata, conceitos que também seriam adotados pelo Governo dos Estados Unidos no ano seguinte e que ganhariam grande amplitude no ano de 1986, quando a OMS promove a Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, no Canadá. Desta Conferência resultou um documento denominado Carta de Ottawa, “que definiu a promoção da saúde como o processo que consiste em proporcionar aos povos os meios necessários para melhorar sua saúde e exercer maior controle sobre a mesma”. (2001: 358, tradução nossa). Tanto a reunião de Alma-Ata quanto a de Otawa tiveram a preocupação de demonstrar também a importância da Comunicação dentro deste novo paradigma de promoção da saúde: “se atribui universalmente à comunicação a qualidade de instrumento chave para materializar tal política de saúde.” (2001: 361, tradução nossa, grifo nosso). A importância da divulgação científica e, dentro dela, de temas correlatos à saúde, vem referendando a consolidação da especialidade da Comunicação da Saúde. A relação entre Comunicação e Saúde veio se afirmando paulatinamente nos últimos anos; profissionais destes campos reconheceram e provaram que eles constituem dimensões da vida cuja articulação (ou ausência de) afeta de maneira direta a saúde e, em um sentido mais amplo, a qualidade de vida dos indivíduos, as famílias e as sociedades. A Comunicação para Saúde (ou Comunicação em Saúde) se refere não apenas a difusão e análises da informação “atividade comumente denominada jornalismo científico ou jornalismo especializado em saúde -, mas se refere também à produção e aplicação de estratégias comunicacionais”.(PINTOS, 2000: 122, tradução nossa). Quando uma adolescente engravida, geralmente ela se vê numa situação não planejada e até mesmo indesejada. Na maioria das vezes a gravidez na
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- adolescência ocorre entre a primeira e a quinta relação sexual. E quando a jovem tem menos de 16 anos, por sua imaturidade física, funcional e emocional, crescem os riscos de complicações como o aborto espontâneo, parto prematuro, maior incidência de cesárea, ruptura dos tecidos da vagina durante o parto, dificuldades na amamentação e depressão. Por tudo isso, a maternidade antes dos 16 anos é desaconselhável. Para se analisar o comportamento reprodutivo das mulheres na América Latina é importante abordar o período da adolescência por suas implicações sociais e econômicas. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), há um claro vínculo entre gravidez na adolescência e pobreza, revelado pela concentração de mães adolescentes pertencentes aos estratos de renda mais pobres. Assim, quando se analisa o nível educacional das mulheres, é possível verificar que quase metade das que não completaram o ensino fundamental foram mães adolescentes contra apenas 7% das que completaram o segundo grau. A forte relação entre maternidade na adolescência e pobreza traz à tona um dos mecanismos de reprodução biológica da pobreza que se traduz nas elevadas taxas de mortalidade infantil, desnutrição e outras graves carências da infância. Como referimos acima, a Saúde, enquanto conceito, vem se desenvolvendo e abrangendo questões mais globais, como a educação e a condição sócio-econômica onde os cidadãos estão inseridos e, para implementar as políticas de saúde, segundo o próprio entendimento da OMS, a Comunicação é uma peça chave, persuadindo os cidadãos a adotarem e manterem comportamentos saudáveis. Assim, acredita-se profundamente que a análise das mensagens emitidas pela mídia impressa sobre a gravidez na adolescência, fornecerá diversos subsídios de como a questão da gravidez na adolescência vem sendo enquadrada pelo jornal selecionado para o presente estudo, subsídios que iluminarão a compreender o ângulo que o debate sobre este importante tema vem ganhando na mídia impressa e, a partir daí, buscar caminhos para o seu aperfeiçoamento. Ratificamos aqui a visão de quanto nos é estimulante a verificação da abordagem que a gravidez na adolescência vem ganhando na mídia impressa, e o novo direcionamento que poderá ser dado a esta abordagem a partir de então.
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- 3. OBJETIVOS. 3.1. Objetivo geral. Analisar os principais frames ou enquadramentos que orientaram o debate no jornal Zero Hora sobre o tema “gravidez na adolescência”. 3.2. Objetivos Específicos. a). Revisar a literatura acerca da Comunicação da Saúde; b). Revisar a literatura acerca da gravidez na adolescência; c). Selecionar uma mostra intencional de periódicos impressos de circulação estadual, para análise de seus enquadramentos sobre a gravidez na adolescência; d). Analisar os resultados obtidos. 4. REVISÃO DE LITERATURA. 4.1. Comunicação da saúde. É inegável a emergência do campo da Comunicação da Saúde principalmente na última década, considerada como uma especialidade da subárea da Comunicação Científica. Universidades, associações de pesquisadores, publicações voltadas para a área, organismos governamentais e diversas organizações voltadas para a saúde no mundo todo, vêm demonstrando interesse em conhecer seus preceitos, utilizar suas estratégias, impulsionar seu crescimento. E isto, como procurar-se-á demonstrar a seguir, derivou também de uma nova visão da saúde, a qual estaria mais voltada para noções de promoção da saúde e de prevenção da doença, da qual a comunicação não pode estar separada, pois é parte preponderante de um processo que inclui a apresentação e a avaliação de informação educativa, persuasiva, significante e atraente, que possa influenciar na mudança de comportamento e resultar em comportamentos individuais e sociais sadios. Como lembra Alcalay (1999: 192- 193, tradução nossa): “A importância da comunicação no âmbito da saúde é clara. Existe uma disparidade entre os avanços da medicina e o conhecimento e a aplicação destes para o público”.
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- Novas maneiras de olhar a saúde estão sendo reveladas nos últimos anos, ampliando-se a compreensão de que esta relaciona-se diretamente com o contexto e com o entorno físico-ambiental e a situação sócio-econômica- cultural do indivíduo. Na agenda contemporânea dos temas de saúde, vêm fazendo parte a promoção e fomento da adoção e manutenção de estilos de vida saudáveis por parte da população. Sendo assim, a idéia presente hoje que sintetiza o conceito de saúde adotado pela OMS, é de que “a saúde é um estado de bem-estar positivo”, associado à adoção de atitudes, potencialidades e qualidades e não à mera ausência de enfermidades, o que reforçou mais ainda a relevância dos programas comunicacionais, tendo a saúde encontrado na comunicação um componente fundamental e indispensável dentro desta sua nova visão. Beltrán (2001) situou o ano de 1848 como de suma importância dentro desta mesma visão, quando se promoveu um movimento de reforma no conceito tradicional da medicina praticada na Alemanha, que preconizava sua atuação como ciência social e difundia uma visão da saúde como algo da responsabilidade de todos, não apenas do médico, cabendo ao Estado o papel de assegurá-la. Mas somente um século depois estas idéias tiveram ressonância, quando o médico francês Henry Sigerist, então fixado nos Estados Unidos, despontou como historiador da medicina, revalorizando-as, reafirmando a noção de promoção da saúde e acrescentando as noções de prevenção e de cura. De seus ideais difundidos no início da década de 1940, repercutiram influências sobre a OMS, que passa a adotar o conceito segundo o qual a saúde é um estado de bem estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de dores ou enfermidades, como citou-se anteriormente. O ano de 1996 vem sendo lembrado como um marco importante na consolidação da Comunicação da Saúde, quando o primeiro número do Journal of Health Communication (Journal..., 2007) antecipou sua expansão nos Estados Unidos e no resto do mundo. Em seu primeiro número, um texto de autoria do pesquisador norte-americano Everett Rogers, intitulado “Up-to-date report” (Rogers, 1996, p.15), ratifica a importância da Comunicação da Saúde, lembrando que esta começou há cerca de 45 anos atrás, com o Stanford Heart Disease Prevention Program, em 1971. Neste programa, um cardiologista e um estudante de comunicação planejaram uma campanha de promoção da saúde que foi implementada em diversas comunidades da Califórnia. Sua concepção incluiu mensagens na mídia promovendo exercícios regulares, parar de fumar, mudanças na dieta e redução do stress. O programa estava baseado em três princípios teóricos: teoria do aprendizado social (Albert Bandura), teoria do marketing social (Kotler e Roberto) e teoria da difusão de inovações (Everett Rogers). Estes formaram a base de intervenções da comunicação desde então.
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- Todo o quadro ascendente da Comunicação da Saúde vai ao encontro de nossa visão de que a evolução da medicina, da genética e das ciências humanas, entre outras, significa, também, o desenvolvimento do próprio homem. E é justamente na divulgação de sua evolução que se encontram possibilidades concretas para estender o novo conhecimento à sociedade, sendo primordial o papel do comunicador como “tradutor” entre o que as inovações surgidas e o que o público toma conhecimento. Ganhando notoriedade e importância nos últimos anos, as iniquidades na saúde geram debates e são tema de diversas pesquisas ligando os temas saúde e comunicação. Para Pessoni e Siqueira Junior, a crescente produção científica dos pesquisadores brasileiros ganha cada vez mais visibilidade junto aos públicos interno e externo e, além disso, é importante identificar o estado da arte da pesquisa no segmento, uma vez que ajuda os cientistas a definirem prioridades, sem a necessidade de perder tempo e nem esforços (2013: 01). As pesquisas realizadas neste campo foram estudadas pela professora Kátia Lerner e apresentadas no GP Comunicação, Ciência, Meio Ambiente e Sociedade, o que mostrou resultados preliminares sobre a atual situação da pesquisa em comunicação e saúde no País. O levantamento feito no diretório do Grupo de Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento), concluiu que nas ciências sociais aplicadas foram 25 resultados. “Do novo resultado obtido foram descartados aqueles, que embora localizados através dos descritores ‘comunicação e/em/de/para saúde’ não explicitaram nenhuma veiculação com o termo saúde [...]” (Lerner, Kátia, 2012: 03). A autora ressalta, em um primeiro plano na análise dos grupos, a clara diferenciação no grau de centralidade que a comunicação, enquanto tema e questão, apresentava para eles. (Lerner, Kátia, 2012: 09). Assim, diante desse contexto, mostrou-se o âmbito da pesquisa em Comunicação da Saúde no Brasil e constatou-se que existem grupos que pesquisam essa ciência e que o tempo de estudos é recente. Por fim, ao longo das últimas duas décadas, pesquisadores que se dedicam aos meios de comunicação de massa “têm se interessado em compreender a forma como a mídia retrata importantes questões, sendo o enquadramento (frame, em sua concepção original em inglês) um dos conceitos importantes para estudar como as mensagens jornalísticas trazem significado (Massarini, Luisa, 2013: 04)”. Porém, o que pode-se comprovar é que a área é, efetivamente, multidisciplinar e há muitos grupos fora do raio de atuação da comunicação que também se preocupam em estudar o tema ligado à saúde. (Pessoni, Arquimedes; Siqueira Junior, Antonio Inácio, 2013: 01).
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- Um bom exemplo de como se dá a relação entre a área da comunicação e da saúde –e a importância dessa relaçãosão as relações entre desigualdades sociais e comunicação. De acordo com Araujo et al. (2012: 02), é pela sua falta ou excesso [de visibilidade], ou pelo modo como se confere visibilidade a um elemento que se instituem, se ampliam ou se fortalecem as desigualdades e as injustiças. A falta de visibilidade de muitos tópicos ligados à saúde é atrelada ao negligenciamento da mídia, que acontece quando privamos algo de alguém, assim, “o negligenciamento de uma doença [...] significa também, de forma concomitante e inextrincável, o negligenciamento das populações vitimadas por estes agravos (Araujo; Lavor; Aguiar, 2012: 03)”. Essa privação muitas vezes é a causa de muitas doenças em certas classes ou grupo sociais. Por isso, muitas instituições tentaram classificar tais doenças conforme seu grau de negligenciamento. Atualmente, o Ministério da Saúde (MS) define que as doenças negligenciadas são as que “não só prevalecem em condições de pobreza, mas também contribuem para a manutenção do quadro de desigualdade, já que representam forte entrave ao desenvolvimento dos países” (Ministério da Saúde, 2010 in Araujo; Lavor; Aguiar, 2012: 04). Segundo Araujo et al. (2012: 05), três causas principais estão relacionadas à permanência das doenças negligenciadas: falhas de ciência, falhas de mercado e falhas de saúde pública. As falhas de ciência estão ligadas a conhecimentos insuficientes, as falhas de mercado ligadas ao alto custo de medicamentos e vacinas disponíveis e falhas de saúde pública, onde estratégias, mesmo gratuitas, não chegam às populações afetadas. Esses hiatos muitas vezes estão ligados ao poder público, Estado ou às indústrias farmacêuticas. Porém, “sabe-se que as soluções para as doenças negligenciadas ultrapassam o campo da saúde e exigem ações multissetoriais, envolvendo políticas econômicas e sociais.” (Barreto & Carmo, 2007: 1779 in Araujo; Lavor; Aguiar, 2012: 05). A atual sociedade e seu contexto político e econômico influenciam no negligenciamento de doenças, uma vez que o mundo é marcado por uma cultura de dependência dos dispositivos de informação e de excessiva visibilidade. Isso apenas é possível pelo grande número de imagens e informações que somos submetidos diariamente e, assim, somos “conduzidos a enxergar este mundo através de olhos emprestados dos aparatos de comunicação, que interferem na construção de identidades e transformam a relação com o outro, com o tempo e com o espaço” (Araujo; Lavor; Aguiar, 2012: 06).
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- O caso de comunicação negligenciada está presente no Brasil, já que não existe uma política de comunicação específica e eficaz. Para o público, por sua vez, uma das principais fontes de informação sobre saúde são os veículos de comunicação, que aproximam de sua audiência o discurso científico, tornando-o mais acessível e interessante (Oliveira et. al., 2009). Segundo Araujo et al. (2012: 10), esta lacuna resulta na ausência de uma comunicação suficiente e adequada às necessidades das populações por eles atingidas, ausência que equivale à falta de investimento em pesquisas, tecnologias, serviços e ações de saúde. Isto pode ser exemplificado com as campanhas que são criadas no país, doenças como Malária, muito menos Leishmanioses, Filariose, parasitoses, Esquistossomose atingem parte do povo, mas não são alvos de campanha. Enquanto outras doenças, como a Aids, desde o início receberam muita atenção. (Araujo; Lavor; Aguiar, 2012: 12). Neste ponto, a comunicação tem uma grande contribuição para aumentar ou diminuir o negligenciamento, já que “a Organização Mundial da Saúde define saúde como o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.” (World Health Organization, 1946), como já citou-se anteriormente. Este conceito é de fundamental importância para as políticas de saúde pública, na medida em que considera não apenas os determinantes biológicos da saúde, mas, também, leva em conta o processo saúde-doença como resultado do binômio corpo-mente e de sua interação com o meio ambiente. (Massarini, Luisa. 2013: 02). Além disso, práticas inadequadas de comunicação não atingem apenas as populações negligenciadas, mas é forte nelas e agrava sua condição de negligenciamento. Araujo et al. vai além e acredita ser inaceitável que, nos tempos de hoje, continue se praticando uma comunicação que continue abafando as vozes de uma grande parcela da população, se recusando a mostrar o que continua invisível aos olhos públicos. (2012: 13). O resultado deste descaso nos planos de comunicação voltados à saúde pode ser percebido diariamente no Brasil, com milhões de pessoas que não têm garantido o direito à saúde. Essa relação e atuação de políticas de comunicação e saúde foi estudada através de pesquisa feita por Edlaine Faria de Moura Villela, que teve como objetivo analisar o desempenho da mídia na promoção de ações educativas em relação à saúde pública, tendo em vista o papel que a mídia representa no sentido de “produtor ativo de sentidos que reforça comportamentos”.O estudo teve como base uma análise a partir da representação na mídia impressa em relação à primeira epidemia de dengue da cidade de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, entre novembro de 1990 e março de 1991. Baseado na Teoria da Representação Social foram utilizadas como fonte para a pesquisa, ações educativas sobre o temas, publicadas nos jornais Folha de São Paulo, O Estado
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- de São Paulo e A Cidade, de circulação nacional, estadual e local, respectivamente e nas revistas Veja (nacional) e Revide (local). Nestes, 125 notícias sobre a epidemia foram encontradas. Quanto à análise a respeito de ações educativas promovidas nestes veículos de mídia, os pesquisadores concluíram que “das 125 notícias, 76 não fizeram referência a esse importante assunto. Das 49 que abordaram, 19 enfocaram como foi feita a promoção de ações educativas para a mobilização da população, sete reconheceram necessidade de conscientização, mas não apresentaram nenhuma proposta e apenas cinco delas trataram da escassez de ações educativas e da falta de informação.” (Natal, Delsio; Villela, Edlaine Faria de Moura. 2013: 04). Em resumo, nenhuma das reportagens levou a população a questionar-se sobre suas atitudes e hábitos para que houvesse uma mudança dos mesmos como forma de auxiliar no controle e combate à epidemia. Estes fatores é que nos levam a questionar a qualidade das informações levadas à população no que diz respeito a comunicação em favor da saúde. É necessário que a problemática seja estudada em seu aspecto social e não apenas biológico, afim de que as informações se aproximem mais da realidade da população afetada pela dengue. (Melo Filho, 2003). Ferraz e Gomes (2012) ainda ressaltam a importância de processos epidêmicos como o ocorrido na região de Ribeirão Preto apontando tal processo como fenômeno epidemiológico e também como um fenômeno midiático. Além do negligenciamento de tópicos da área da saúde, a mídia tem grande papel como transmissor de informações, trazendo visibilidade aos temas. “O jornalismo é uma ferramenta importante para garantir que os cidadãos tenham acesso às informações sobre saúde a que têm direito (Kucinski, 2000) e a mídia exerce um papel importante na divulgação relativa à epidemiologia de doenças, formas de prevenção e tratamentos disponíveis. (Massarini, Luisa, 2013: 02). Porém, adentramos à forma de abordagem que a mídia se utiliza para passar de maneira fidedigna as informações. Como exemplo, tomamos o estudo de Carla Costa Garcia sobre a esquizofrenia e seus personagens nas páginas do jornal Folha de São Paulo. Segundo a autora, é importante ressaltar que esse estigma construído em seu imaginário social sobre a esquizofrenia não está presente apenas no meio social. Ele também é incorporado e disseminado pelo meio, produto e produtor midiático e jornalístico –o jornal, a notícia e o jornalista– um ser ativo que compartilha a cultura da sociedade e a utiliza para interpretar o fato noticiado, recontextualizando-o e o reconstruindo em uma narrativa noticiosa, um valor simbólico, que deve ser inteligível ao leitor. (Garcia, Carla Costa, 2013: 03).
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- estruturadas/enquadradas nas notícias da mídia, segundo a análise de conteúdo utilizada pelos mesmos com o aparato teórico metodológico da Análise de Enquadramento ou Framing Theory. A Framing Theory ou Análise de Enquadramento considera que nas notícias ocorre mais do que apenas trazer ao público certos tópicos. O modo pelo qual as notícias são trazidas, o enquadramento no qual as notícias são apresentadas, é também uma escolha feita pelos jornalistas. Segundo Wicks, “Frames tornam as pessoas aptas a avaliar, conduzir e interpretar informações baseando-se em construções conceituais compartilhadas.” (2005: 339, tradução nossa). Assim, um enquadramento representa o modo como a mídia e os editores da mídia organizam e apresentam as questões que cobrem, e o modo como as audiências interpretam o que estão oferecendo. Enquadramentos são noções abstratas que servem para organizar ou estruturar significados sociais. A Análise de Enquadramento também defende que a forma “como” algo é apresentado, influencia nas escolhas que as pessoas fazem. Ainda que a objetividade seja um crit de jornalistas profissionais, as mensagens construídas por eles sempre estarão carregadas por um conjunto de práticas ou tradições organizacionais e também por suas opiniões e crenças, resultando em mensagens como representações da realidade apresentada por seus próprios prismas. Orientações de cunho político ou econômico particulares a cada meio de comunicação, práticas organizacionais, as próprias crenças do comunicador e as estratégias para atrair audiências, acabam influenciando no enquadramento das mensagens da mídia. Desta forma, à luz da Análise de Conteúdo e da Análise de Enquadramento, construiremos um protocolo com categorias de análise em consonância com os objetivos da Comunicação da Saúde, cujos conotadores, portanto, serão: * corpo, saúde, sexualidade e trajetórias contraceptivas na adolescência; * sexo seguro: prevenção da gravidez não desejada, das DSTs/AIDS e do câncer de colo uterino; * iniciação sexual e relações de gênero na gestação na adolescência; * rastreamento, diagnóstico e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis;
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- * educação sexual nas escolas e nos serviços de saúde. 8. ANÁLISE DAS REPORTAGENS. A coleta de material do jornal Zero Hora, foi realizada através da ferramenta de busca do site da Zero Hora (<http://zerohora.clicrbs.com.br>). Durante a pesquisa foi procurado por palavras-chave em torno do assunto no período de publicação do ano de 2013. Na oportunidade, foram encontradas quatro matérias referentes ao assunto gravidez na adolescência, publicadas em três semanas distintas do ano. Após a coleta dessas informações, foi realizada a busca dessas matérias na versão impressa do jornal Zero Hora, na data da publicação do site. Porém, as matérias em questão não foram encontradas e, então, tomou-se a decisão de utilizar as mesmas como material de análise, considerando o fato de não ter-se encontrado nenhuma matéria na versão impressa no ano de 2013, como um dado importantíssimo para a presente pesquisa.Talvez a editoria de saúde de Zero Hora não percebeu a necessidade de fazer a mesma publicação na versão imprensa. O dado traz, também, uma informação interessante, uma vez que o público que acessa o site nem sempre é o mesmo público que tem acesso à edição impressa. Mesmo assim, é realizada a análise de conteúdo e enquadramento das quatro matérias encontradas durante a seleção de maneira a analisar de que forma o Zero Hora, como empresa jornalística, realiza a abordagem desse tema. 8.1. O que os jovens brasileiros pensam sobre sexualidade,drogas, violência e felicidade. A matéria “O que os jovens brasileiros pensam sobre sexualidade, drogas, violência e felicidade” foi publicada no site Zero Hora no dia 19 de outubro de 2013, com assinatura da jornalista Heloisa Aruth Sturm. Após estudo bibliográfico, pode-se dizer que a matéria em questão tem como enquadramento utilizado pela Zero Hora a educação sexual nas escolas e nos serviços de saúde. A matéria teve como mote para sua publicação a divulgação dos resultados da pesquisa do projeto "Este Jovem Brasileiro", feita com 6 mil alunos entre 12 e 17 anos de escolas particulares em todo o país. Além da sexualidade na adolescência, outros aspectos foram abordados na pesquisa e também na matéria, como a violência, felicidade e o uso de drogas. Dessa
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- forma, a sexualidade e, consequentemente, a gravidez na adolescência, não são eixo central da matéria, mas são retratadas. Além da apresentação de dados oficiais da pesquisa, a matéria revela a opinião de fontes relacionadas ao assunto, trazendo esse caráter de educação sexual à matéria, já que o discurso revela as formas como os jovens estão vendo o assunto e agindo em relação a ela, da mesma forma, como os próprios jovens, profissionais, pais e professores estão agindo quanto a isso. Entre os dados ressaltados na pesquisa relacionados ao assunto estão de que o jovem hoje usa menos camisinha e está mais preocupado com gravidez do que com as doenças sexualmente transmissíveis. Segundo a matéria “ Em 2006, 61% dos jovens diziam usar camisinha sempre. Este ano, o índice caiu para 54%, e 30% disseram não ter usado camisinha na primeira vez. Dos jovens sexualmente ativos, 15% afirmam nunca usar”. Para contextualizar os dados, a matéria traz como fonte um jovem, Giovani Simon, do 3º ano do Ensino Médio. A escolha dos métodos anticoncepcionais e emergenciais também é tratada na pesquisa, além dos números de gestação. “Dos 44% que já pensaram ter engravidado alguma vez, 32% recorreram à pílula do dia seguinte e 43% decidiram esperar para ver o que ia dar. Foram registradas na pesquisa 84 gestações (9% dos que declararam já terem feito sexo) e, desses, 24 afirmaram que não tiveram o bebê -a pesquisa não entra em detalhes sobre a causa da interrupção-. Em 2006, o índice foi de 7,5%”, informa a reportagem. 8.2. Jovens usam pílula do dia seguinte sem conhecimento adequado. A matéria “Jovens usam pílula do dia seguinte sem conhecimento adequado”, publicada por Zero Hora no dia 17 de julho, no espaço do caderno Vida e Estilo, pode-se dizer que, tem como framing ou enquadramento utilizado pela Zero Hora corpo, saúde, sexualidade e trajetórias contraceptivas na adolescência. A matéria é conduzida e tem como eixo central os desdobramentos e resultados de uma pesquisa realizada pela Escola de Enfermagem (EE) da USP realizada em escolas públicas e particulares na cidade de Arujá (Grande São Paulo). Neste primeiro ponto já temos uma informação relevante: apesar do jornal ter como circulação impressa apenas a região sul do país, o foco da notícia está concentrando em resultados obtidos em pesquisa fora dessa abrangência.
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- Além da divulgação de dados, como “94,2% deles [jovens pesquisados] já ouviram falar da pílula e 57,7% já fizeram uso deste método contraceptivo. O estudo também constatou que a maioria das vezes em que a pílula do dia seguinte foi usada (59,3%) foi associada a outro método”, a matéria traz como fonte a autora da pesquisa, a obstetra Christiane Borges do Nascimento. Ao longo do texto são apresentados erros e acertos no uso do método contraceptivo em questão, a pílula do dia seguinte, pelos adolescentes. Dessa maneira, pode-se perceber que ainda existem muitas informações sobre o assunto que não são conhecidas pelos jovens –esse dado é reforçado pela pesquisa realizada-. Cabe-se também uma reflexão que a Zero Hora cumpre um papel fundamental de divulgação dessa pesquisa e do uso correto da pílula do dia seguinte a fim de prezar pela saúde dos jovens, que também utilizam a mídia como maneira para se prevenir. A reportagem é um claro exemplo de como a implementação de uma comunicação em saúde é crucial para uma sociedade bem informada e saudável. 8.3. Justiça autoriza interrupção de gravidez de adolescente com feto anencéfalo. A matéria publicada por Zero Hora no dia 25 de janeiro, pode-se dizer que, tem como enquadramento utilizado pela Zero Hora corpo, saúde, sexualidade e trajetórias contraceptivas na adolescência. O assunto abordado na reportagem é sobre um caso específico de uma adolescente de 16 anos, de Alegrete, que foi autorizada pela Justiça a interromper a gravidez, uma vez que, o bebê era anencéfalo. Apesar de não se tratar uma reportagem de orientação a jovens ou tratando de campanhas/meios de prevenção, o factual traz como pano de fundo o tema, já que tratasse de uma gravidez na adolescência. Usando como framing corpo e saúde, retrata os perigos para a saúde da adolescente no caso de gravidez precoce e também dos riscos que o bebê pode correr. A matéria em questão também retrata uma questão jurídica relacionada à saúde e ao corpo da adolescente grávida e, consequentemente, de um dos julgamentos mais relevantes do Superior Tribunal Federal no ano anterior, 2012. Mais uma vez, a mídia tem como papel fundamental a transmissão de conhecimento e informação acerca do tema em discussão. A veiculação de um caso factual em específico, como este, também serve de alerta para adolescentes
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- leitores das matérias produzidas por Zero Hora sobre os riscos da gravidez precoce. Da mesma forma, traz informações sobre questões judiciais em torno do corpo e saúde, também essenciais a serem veiculadas. 8.4. Adolescente de 14 anos morre durante parto e polícia investiga negligência médica. A matéria “Adolescente de 14 anos morre durante parto e polícia investiga negligência médica”, publicada por Zero Hora no dia 30 de janeiro, tem como enquadramento corpo, saúde, sexualidade e trajetórias contraceptivas na adolescência. Um fato a ser retratado é a abordagem de assuntos paralelos à gravidez na adolescência por duas vezes em uma mesma semana. Além disso, a matéria em análise, apesar de propor sequência devido às investigações, não foi retratada novamente em edições posteriores. O assunto abordado na reportagem é sobre um caso específico da morte da adolescente Rosângela Ribeiro de Andrade, 14 anos, durante uma cesariana em Ametista do Sul, após suposta negligência médica. Apesar de não se tratar uma reportagem de orientação a jovens ou tratando de campanhas/meios de prevenção, o factual traz como pano de fundo o tema, já que tratasse de uma gravidez na adolescência. Usando como framing corpo e saúde, retrata os perigos para a saúde da adolescente no caso de gravidez precoce, neste caso, a morte da mãe. A matéria em questão também retrata uma questão de saúde pública, também funcionando como um meio de denúncias de negligência médica e também como forma de alertar a atual situação dos hospitais e instituições de saúde. Da mesma forma, a mídia traz a público questões de políticas públicas de saúde e seu funcionamento ou não. Mais uma vez, a mídia tem como papel fundamental a transmissão de conhecimento e informação acerca do tema em discussão. A veiculação de um caso factual em específico, como este, também serve de alerta para uma situação em geral, como por exemplo, a forma em que a saúde pública trata da saúde das adolescentes grávidas ou as formas de acompanhamentos utilizados na saúde pública.
-------------------------------------------------------------- Capítulo 50. Págs. 774 a 798 ------------- 9. CONSIDERAÇÕES FINAIS. O jornalista tem um papel fundamental na construção de diálogos sobre assuntos relevantes na sociedade. Da mesma forma, esse profissional constrói, através dos textos feitos por ele, abordagens diferentes sobre o mesmo assunto. Destacando o tema “Gravidez na Adolescência”, a maneira em que o assunto é exposto ao grande público moldará a opinião pública sobre ele – mesmo o leitor não tendo anteriormente contato com o assunto. Através da leitura do estado da arte sobre a comunicação em saúde, também é percebida a grande importância da difusão de assuntos ligados à área através dos meios de comunicação. É através dessa forma de divulgação que a sociedade tem acesso a métodos de prevenção, novas descobertas científicas na área e a situação e consequências de fatos ligados ao assunto. Nesse contexto, concluímos que apesar da diminuição dos registros de gravidez na adolescência esse problema social merece mais atenção, neste caso, principalmente da mídia impressa. Nesta fase do projeto, após analisarmos as publicações realizadas pelo jornal estadual Zero Hora concluímos que o mesmo tem realizado poucas publicações sobre o tema. Uma lástima, pois o jornalismo vai além do papel de mostrar a realidade, mas participa da construção social. Percebemos que a Comunicação da Saúde poderia ser utilizada para melhor alertar a população, pois é de suma importância para a conscientização social e a disseminação de informações. Além disso, se mais pesquisas, dados, notícias em geral abordassem temas como: sexualidade, métodos contraceptivos, gravidez na adolescência, enfim temas que envolvam a saúde, teríamos índices negativos iriam diminuir e a população. Da mesma forma, a implementação da Comunicação da Saúde, visando ampliar o conhecimento do assunto no país, proporciona um caráter emancipatório, além de contribuir para a saúde e o bem-estar da população. 10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. Alcalay, Rina (1999). La comunicación para la salud como disciplina en las universidades estadounidenses. In: Revista Panam Salud Publica/Pan Am J Public Health, 5 (3). Araujo, Inesita Soares de; Lavor, Adriano Moreira de; Aguiar Raquel (2012). Comunicação e negligenciamento. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 25, Fortaleza. Paper. Disponível em:
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