Ánforas republicanas de Monte Molião (Lagos, Algarve, Portugal)
Abstract
[po] as escavações arqueológicas levadas a efeito em monte molião, no algarve litoral, evidenciaram uma extensa ocupação romano/republicana, cujo início foi possível datar do último quartel do século ii a.n.e. Do conjunto dos materiais recolhidos nos níve
Full text
SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Recepción: 7 de marzo de 2012. Aceptación: 28 de agosto de 2012 ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIÃO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) ROMAN REPUBLICAN AMPHORAE FROM MOLIÃO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) ANA MARGARIDA ARRUDA* ELISA DE SOUSA* Resumo: As escavações arqueológicas levadas a efeito em Monte Molião, no Algarve litoral, evidenciaram uma extensa ocupação romano/republicana, cujo início foi possível datar do último quartel do século II a.n.e. Do conjunto dos materiais recolhidos nos níveis correspondentes a esta ocupação, destacam-se as ânforas, que apresentam uma considerável variedade tipológica e expressiva diversidade áreas produtoras, bem como de conteúdos. O estudo que concretizámos mostrou uma significativa dependência do sítio algarvio dos produtos alimentares oriundos da área de Cádis, que se constituiu como o centro exportador por excelência, situação que é particularmente evidente a partir dos finais do século II a.n.e. O vinho itálico e os produtos norte africanos foram também importantes, mas sobretudo na fase inicial da ocupação. Palabras claves: Algarve, comércio, romano/republicano, ânforas, romanização. Abstract: Archaeological excavations carried out in Monte Molião, in the Algarve coast, showed an extensive Republican/Roman occupation, started in the last quarter of II century b.c.e. Between the materials collected at the levels corresponding to this occupation, the amphorae are numerous and exhibit a considerable variety concerning typology, producing areas and content. The study of those amphorae showed a significant dependence of the site from Cadiz area, which is the exporting center for excellence, a situation that is particularly evident in the late second century b.c.e. Italic wine and North Africans products are also important, but especially in the beginning of the occupation. Key words: Algarve, trade, roman/republican, amphorae, romanization. 1. INTRODUÇÃO Monte Molião localiza-se no Algarve, concelho de Lagos, na margem esquerda da Ribeira de Bensafrim (fig. 1). Trata-se de uma colina de forma ovalada, que se destaca bem na paisagem e de onde se domina visualmente toda a baía de Lagos (fig. 2). O estudo do sítio arqueológico de Monte Molião tem vindo a ser concretizado através da publicação de textos de síntese de carácter mais geral (Arruda 2007, Arruda et al. 2008), de artigos que incidem sobre aspectos particulares da sua ocupação humana (Arruda et al. 2010, Arruda e Pereira 2010), ou ainda de estudos sobre materiais específicos (Dias 2010, Lourenço 2010). O artigo que agora se publica insere-se neste último grupo de trabalhos, estudando-se aqui as ânforas * UNIARQ (Centro de Arqueologia. Universidade de Lisboa). Faculdade de Letras. 1600-214. Lisboa (Portugal). Correo-e: [email protected], [email protected].
102 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 de época republicana recuperadas no sítio, ao longo das cinco campanhas de escavação que já tiveram lugar, desde 2006. Deve, contudo, esclarecer-se, desde já, que apenas os exemplares que foram recolhidos em contextos arqueológicos seguros foram devidamente tratados, ainda que se possa fazer, em determinadas situações, referência a outros descontextualizados. Esta opção determinou também a apresentação desses mesmos contextos, até porque outros materiais deles oriundos ajudaram a precisar cronologias e facilitaram uma leitura global e associada dos materiais anfóricos. Os referidos contextos, bem como naturalmente as ânforas aqui apresentadas, foram escavados em Monte Molião ao longo das cinco extensas campanhas de escavação, que totalizaram uma área de cerca de 800 m2. Estas intervenções foram concretizadas no quadro do Projecto de Investigação que o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ, Portugal) implantou para o sítio no âmbito de um Protocolo assinado entre a Câmara Municipal de Lagos, a Faculdade de Letras e a UNIARQ. Outros trabalhos arqueológicos no sítio forneceram informação sobre a sua ocupação republicana, concretamente os que foram conduzidos pela empresa Palimpsesto no sopé nordeste, estando alguns resultados já publicados (Sousa e Serra 2006). Monte Molião está intimamente relacionado com a questão da localização da Laccobriga das fontes clássicas, situação que não pode ser esquecida no contexto da sua ocupação republicana, uma vez que Plutarco localizou nesse oppidum lusitano um dos mais célebres episódios das guerras sertorianas. Figura 1. Monte Molião (Algarve) no território actualmente português (base cartográfica de V. Gonçalves). Figura 2. Vista aérea de Monte Molião (foto de Rui Parreira).
103ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 2. AS FASES REPUBLICANAS DE MONTE MOLIÃO Em dois dos sectores escavados em Monte Molião, concretamente o A e o C, foi possível documentar, contextualmente, uma ocupação de época republicana, que se materializava em materiais e construções. Contudo, enquanto no último sector se tornou possível identificar compartimentos organizados em torno de espaços de circulação, que formam globalmente um conjunto urbanístico relativamente coerente, no sector A, este momento foi apenas registado sob os alicerces do que foi designado por compartimento 2, datado de época imperial, e em escassos espaços entre o urbanismo imperial e o estradão que, nos anos 80 do século XX, destruiu o sítio na sua vertente este (fig. 3). Neste último sector, os depósitos republicanos eram par ti cularmente espessos, tendo sido possível individualizar contextos concretos que se sobrepunham, pelo menos no compartimento 2, e nos espaços compreendidos entre este e a rua do Molião, bem como no exterior do compartimento 3. No primeiro caso, sobre o pavimento (U.E.) [191], depositaram-se várias de camadas de cronologia republicana, que correspondem às seguintes U.E.s: [197], [184], [183], [185], [172], [173], [171], [175], [170], [165] e [159]. Para o segundo, temos disponível para análise os dados recuperados nas U.E.s [163], [167], [168], [174] e [187] (fig. 4). Como veremos, quer as ânforas quer os restantes materiais associados a estas Unidades Estratigráficas indiciam um momento de ocupação consideravelmente uniforme, havendo dados que permitem concluir que alguns destes estratos se formaram num momento relativamente curto e próximo entre si. De facto, o estado de conservação das peças, bem como a circunstância de algumas das ânforas recuperadas se encontrarem ocas, Figura 3. Planta da área escavada no Sector A.
104 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 ou seja praticamente sem sedimento no seu interior, parece provar uma rápida formação dos níveis arqueológicos (fig. 5). Os dados da escavação comprovaram também que houve pelo menos dois momentos construtivos, que pudemos associar a U.E.s específicas. Assim, as camadas que cobrem o pavimento U.E. [191] ([184], [183], [185], [172], [197]), onde foram recuperados materiais fracturados in situ, encostam às paredes [169] e [208]. Sobre estes níveis construíram-se os muros nordeste [44] e sudoeste [48], os quais estavam relacionados com a U.E. [165], [173], [171], [175] e [159]. Também no exterior, ou seja entre os compartimentos 2 e 3 e a Rua do Molião, foram identificados contextos republicanos com características idênticas, concretamente ânforas praticamente completas e sem sedimento no interior. Como já acima fizemos referência, a formação destes estratos parece ter ocorrido de forma repentina, e, apesar de ter sido possível identificar duas fases construtivas, a verdade é que não é claro que entre elas tenha decorrido um espaço de tempo superior a 30/40anos. Por outro lado, e como veremos, também os espólios, concretamente as ânforas, indicam um espaço de tempo de utilização de cerca de quatro décadas. Assim, e ainda que seja tentador separar a U.E. [159] (a primeira a ser escavada e a última a ser formada) da [165] (a que se lhe sobrepõe), e esta última das [184] e da [172] (as últimas a serem escavadas, as primeiras a serem formadas, sobre o pavimento [191]), a verdade é que a sua separação em termos cronológicos, e portanto da sua constituição, é muito problemática, atendendo a que a grande maioria dos materiais arqueológicos recuperados em todas elas apresenta similitudes morfológicas e de fabrico. Ainda assim, não podemos escamotear o facto de os níveis inferiores ([184] e [172]) fornecerem apenas campaniense A, ao contrário do que se passa nos superiores, onde já ocorrem fabricos de Cales. Por outro lado, as ânforas inteiras que foram recuperadas nas unidades [165] e [163] correspondem a formas greco-itálicas de transição e a que foi recolhida na [159] é já uma Dressel 1 clássica. Estes dados poderiam indiciar uma sequência cronológica para a formação destas unidades estratigráficas, Figura 4. Matriz estratigráfica da ocupação republicana do Sector A.
105ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 uma vez que também boa parte dos materiais recolhidos parecem indiciar uma maior antiguidade dos níveis inferiores relativamente aos recolhidos nos superiores. Contudo, a formação das diversas unidades parece de facto ser coeva, parecendo-nos difícil assumir essa mesma sequência, justamente porque a deposição das ânforas, inteiras, sem sedimento no interior ainda que de morfologia diversa, deve ter ocorrido num mesmo momento. No Sector C, a realidade é mais fácil de analisar, porque foi possível escavar em extensão uma larga área que não foi afectada pelas construções de época imperial (fig. 6). Por outro lado, e ainda que os materiais anfóricos não estivessem, na generalidade, tão bem conservados como os recolhidos no Sector A, a ocupação está plasmada numa arquitectura que pudemos abordar de forma faseada, o que permitiu, neste caso, leituras relativamente mais claras da realidade. Assim, e ainda que o número de Unidades Estratigráficas seja incomparavelmente maior (92 U.E.s), a verdade é que as suas relações e os seus conteúdos materiais são consideravelmente mais perceptíveis (fig. 7). Neste Sector, foram registados dois grupos de compartimentos, estruturados em função de uma área aberta, que podem, todavia, corresponder a uma única unidade residencial. Este núcleo, que foi construído no primeiro momento de ocupação republicana desta área (Fase 1), foi posteriormente remodelado e acrescetado (Fase 2). Infelizmente, não foi possível estabelecer uma equivalência precisa entre as fases construtivas reconhecidas nos sectores A e C, sendo ainda incerto se integram, ou não, os mesmos momentos cronológicos. Assim, a análise do conjunto anfórico de acordo com um faseamento concreto foi realizada apenas na leitura estratigráfica do Sector C. Aqui, as ânforas puderam, com efeito, ser inventariadas de acordo com as fases arquitectónicas identificadas, tendo sido assim possível observar as diferenças e as semelhanças ao nível dos produtos alimentares importados pelo sítio ao longo da diacronia republicana. Figura 5. Ânforas recuperadas na U.E. [163].
106 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 6. Planta da área escavada no Sector C.
107ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 3. AS ÂNFORAS 3.1. A amostra As ânforas de época republicana são abundantes em Monte Molião, sendo o conjunto diversificado quanto à origem, à morfologia e aos conteúdos transportados. Em contextos primários de ocupação, foram recolhidos 235 indivíduos, que foram estudados de acordo com a área de produção, concretamente Itália, norte de África (Cartago-Tunes e Tripolitânia) e área gaditana (fig. 8). Alguns exemplares, porém, apresentam características de fabrico que não permitiram a sua classificação de acordo com centros de produção concretos, pelo que se consideraram de “produção indeterminada”. Outros integram a categoria designada por “material intrusivo/residual”, por corresponderem, muito possivelmente, a intrusões mais recentes ou mais antigas em relação à cronologia de formação da unidade estratigráfica. No total, e quanto aos centros exportadores, verificamos um absoluto predomínio das ânforas sud-hispâ- nicas sobre as restantes (46,81% da área de Cádis, para 24,26% itálicas e 11,06% norte africanas). As indeterminadas correspondem a 6,38% do conjunto. Os materiais intrusivos/residuais representam os restantes 11,49%. No que se refere às formas e à sua relação com os centros produtores, podemos adiantar desde já o seguinte: 1. Os fabricos itálicos, mais exactamente da costa tirrénica, sendo numerosos (24,26%), estão representados por apenas duas formas: Greco-itálica (8,77%) e Dressel 1 (66,67%), estas últimas dominantes. Os contentores de forma indeterminada (que correspondem, seguramente, a um dos dois tipos anteriores) constituem 24,56% das importações itálicas. Dois fragmentos, infelizmente recolhidos fora do seu contexto primário, atestam a importação de produtos alimentares produzidos na costa adriática da Península Itálica. Trata-se de bordos integráveis na forma Lamboglia 2 (fig. 29), que, no entanto, não Figura 7. Matriz estratigráfica da ocupação republicana do Sector C.
108 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 serão tratadas neste trabalho com muito detalhe e são muito raros no sítio, como aliás sucede também no restante território português (fig. 9). 2. A área da baía de Cádis foi maior centro abastecedor de Monte Molião, sendo a forma Mañá C2 a que domina sobre todas as outras (38,18%), seguida de perto pela Castro Marim 1 (24,55%). As restantes, D de Pellicer (8,18%), Dressel 1 (6,36%), Mañá Pascual A4 (4,55%), 9.1.1.1. (3,64%), Carmona (3,64%), estão representadas por escassos exemplares. As de forma indeterminada contabilizam 10,91% (fig. 10). 3. O Norte de África também contribuiu de forma considerável para o abastecimento do sítio algarvio, estando as Mañá C2 muito bem documentadas (73,08%), sendo as Tripolitanas Antigas em menor número (15,38%). As indeterminadas correspondem a 11,54% do conjunto (fig. 11). Cádis 46,81% Itália 24,26% Norte de África 11,06% Indeterminada Material Intrusivo/Residual 11,49% Maña C2 38,18% 9.1.1.1 3,64% Carmona 3,64% Castro Marim 1 24,55% D de Pellicer 8,18% MPA4 4,55% Dressel 1A 6,36% Indeterminada 10,91% Maña C2 73,08% Tripolitana Antiga 15,38% Indeterminada 11,54% Greco - Itálica 8,77% Dressel 1 66,67% 24,56% Indeterminada Figura 8. Distribuição do conjunto anfórico recolhido em contextos republicanos de acordo com a área de produção (base NMI). Figura 9. Distribuição das produções itálicas segundo os tipos morfológicos (base NMI). Figura 10. Distribuição das produções gaditanas segundo os tipos morfológicos (base NMI). Figura 11. Distribuição das produções africanas segundo os tipos morfológicos (base NMI).
109ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Relativamente ao faseamento destas produções, e tendo em consideração as observações estratigráficas verificadas no Sector C, deve desde já dizer-se que as três áreas abastecedoras de produtos alimentares não se diferenciam nitidamente em termos numéricos nos níveis correspondentes à primeira fase da ocupação republicana, ainda que a Península Itálica se destaque ligeiramente. De facto, as importações da área de Cádis estão representadas por 24,14%, distribuídos pelas formas Mañá C2 (6 NMI), 9.1.1.1. (1 NMI), Carmona (1 NMI), Castro Marim 1 (1 NMI), D de Pellicer (2 NMI) e formas indeterminadas (3 NMI); as itálicas por 31,03%, concretamente Greco-Itálicas (1 NMI), Dressel 1 (11 NMI) e indeterminadas (6 NMI); as africanas por 20,79% (Mañá C2– 11 NMI e forma indeterminada – 1 NMI). Os exemplares de produção indeterminada representam 6,90% (4 NMI) e os materiais intrusivos/ residuais os restantes 17,24% (10 NMI) (fig. 12). Na segunda fase, as importações da área de Cádis passam a dominar de forma absoluta, com 56,20% (Mañá C2 – 29 NMI, 9.1.1.1. – 2 NMI, Carmona – 1 NMI, Castro Marim 1 – 16 NMI, D de Pellicer – 6 NMI, Mañá Pascual A4 – 4 NMI, Dressel 1 – 2 NMI, formas indeterminadas –8 NMI), diminuindo, significativamente, as importações itálicas, com 21,49% (Greco-Itálicas – 3 NMI, Dressel 1 – 19, formas indeterminadas – 4 NMI), e as norte africanas, agora com 5,79% (Mañá C2 – 5 NMI, Tripolitana Antiga – 1 NMI, forma indeterminada – 1 NMI). As ânforas que não permitiram uma adscrição concreta do local de produção constituem 7,44% e as consideradas intrusivas/residuais os restantes 9,09% (fig. 13). Não tendo sido possível, pelas razões já anteriormente referidas, uma diferenciação faseada das ânforas da ocupação republicana do Sector A, resta-nos apresentar os dados globais obtidos. Assim, as importações gaditanas representam 50%, as itálicas 23,21%, as norte africanas 12,50% e as de produção indeterminada 3,57% (fig. 14). Cádis 24,14% Itália 31,03% Norte de África 20,69% Indeterminada 6,90% Material Intrusivo/Residual 17,24% Cádis 50,00% Itália 23,21% Norte de África 12,50% Indeterminada 3,57% Material Intrusivo/Residual 10,71% Cádis 56,20% Itália 21,49% Norte de África 5,79% Indeterminada 7,44% Material Intrusivo/Residual 9,09% Figura 12. Distribuição das ânforas dos contextos republicanos da 1ª fase do Sector C, de acordo com a área de produção (base NMI). Figura 13. Distribuição das ânforas dos contextos republicanos da 2ª fase do Sector C, de acordo com a área de produção (base NMI). Figura 14. Distribuição das ânforas dos contextos republicanos do Sector A, de acordo com a área de produção (base NMI).
116 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 20. Ânforas de produção itálica dos contextos republicanos de Monte Molião: Dressel 1.
117ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 em 146 a.n.e., as ânforas greco-itálicas são exclusivas, ainda que relativamente raras (Wolf 1986, Morel 2004, Bechtold 2010). Nos acampamentos que rodearam Numância, vencida em 133 a.n.e., as duas formas coexistem, mas com uma clara dominância das Dressel 1 (Sanmartí 1985, 1992), o mesmo acontecendo em Valência, fundada em 138 a.n.e. (Ribera 1998, 2002). Também em Lisboa, que partilha com a cidade espanhola a data da fundação, bem como o fundador propriamente dito, as Dressel 1 dominam, coexistindo, no entanto, com as greco-itálicas, que se registam em quantidades ainda assim apreciáveis (Pimenta 2005). Nos sítios peninsulares, este momento, ainda do 3º quartel do século II a.n.e., está também documentado por outros tipos anfóricos com distintas origens. É o caso das tripolitanas antigas e das Mañá C2, importadas do Norte de África, e das formas punicizantes da área do Estreito (tipo 9.1.1.1. e séries 12.0.0.0. e 7.0.0.0 de Ramón Torres), bem como por ânforas também itálicas, mas da costa Adriática ou do Sul. As associações de materiais detectadas em Tarraco são também de considerar na análise cronológica do início da ocupação republicana de Monte Molião, ainda que nos pareça que a sequência crono-tipológica, de tão rígida e apertada, é, por vezes, difícil de sustentar (Díaz 2000). Com efeito, a separação em quartéis ensaiada para Tarragona parece excessivamente redutora e de difícil aplicação em outros sítios, em que a «longa duração» é um fenómeno que não se compadece com espartilhos desta natureza. Para Sevilha, e para os momentos datados da 2ª metade do século II a.n.e., os dados ainda escasseiam. No entanto, o contexto escavado na Rua Abades 41-43 forneceu alguns dados que importa não esquecer (García 2009). A datação foi avançada tendo presente o conjunto dos materiais, que reunia cerâmica campaniense, fundamentalmente de tipo A, ainda que as B calenas também já estivessem presentes, e ânforas itálicas (Dressel 1) e gadiritas (9.1.1.1.). Os materiais anfóricos itálicos recolhidos em Argote Molina, que foram inicialmente datados dos finais do II a.n.e., não se distanciam, em termos formais, dos de Abades 41-43, mas foram atribuídos ao 1º quartel do século I a.n.e., tendo em consideração o contexto de recolha, que fornecia uma percentagem de Campaniense calena superior à de A. O critério usado pelo nosso colega de Sevilha parece aceitável, ainda que possa discutir-se a expressividade da amostra de base. Vários sítios portugueses forneceram ânforas itálicas integráveis nos tipos greco-itálico e Dressel 1, mas, para além de Lisboa, apenas em Santarém e nas Mesas do Castelinho foi possível associá-las a níveis concretos. Para o primeiro, há dados publicados (Arruda e Almeida 1999, Bargão 2006), mas a primeira ocupação republicana não parece recuar para trás dos finais do século II/inícios do I a.n.e. Nas Mesas do Castelinho, torna-se ainda difícil aferir cronologias seguras para as diversas formas, até porque nos escapam, em grande parte, as associações contextuais dos materiais, anfóricos e não só (Parreira 2009). No Algarve, no Forte de São Sebastião de Castro Marim, as importações itálicas são exclusivamente de tipo Dressel 1, recolhidas em níveis dos finais do século II a.n.e. (Arruda e Pereira 2008). Esta cronologia foi atribuída, tendo em consideração não só a morfologia das ânforas itálicas, mas também os dados dos restantes materiais recuperados. E, ainda que a campaniense seja exclusivamente A e a cerâmica de paredes finas esteja representada por formas I e II de Mayet, a ausência total de ânforas enquadráveis em tipos greco-itálicos obrigou a avançar a cronologia para a última década do século II. Situação similar ocorre no contexto republicano identificado nas imediações de Monte Molião, onde a forma Dressel 1 é maioritária entre as produções anfóricas itálicas (Sousa e Serra 2006). A ocupação do Castelo da Lousa, onde se regista, exclusivamente, Dressel 1, não recua, considerando os dados disponíveis, para trás de meados do século I a.n.e. (Morais 2010). Outros sítios portugueses ofereceram ânforas de tipo greco-itálico, Dressel 1A e as chamadas de transição, ainda que a sua cronologia não tenha sido possível de definir de forma exacta através de sequências estratigráficas. É, por exemplo, o caso de Mata Filhos, em Mértola (Luís 2003), Faro (Viegas 2011), Conímbriga (Alarcão 1976, Buraca 2005) e Chões de Alpompé (Fabião 1989, Diogo e Trindade 1998, Bargão 2006). Também itálicos são dois bordos que foram classificados de Lamboglia 2, ambos, infelizmente recolhidos em contextos de revolvimento do Sector C. Por este motivo, não foram contabilizados, nem foram apreciados do ponto de vista percentual nos quadros sobre produtos consumidos, ou sobre a origem das importações. Contudo, a sua existência parece importante de assinalar. Apresentam perfil rectilíneo, de tendência rectangular, e um deles ostenta uma cartela na qual é visível uma marca impressa, que infelizmente não é possível ler, dado o estado de deterioração. Trata-se de contentores produzidos na costa adriática, muito possivelmente na Apúlia e na Calábria, a partir dos finais do século II a.n.e., quando os bordos eram de perfil triangular. Os com as características dos de Monte Molião
118 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 são típicos da 1ª metade do século I a.n.e. Estas observações cronológicas alicerçam-se sobretudo nos dados dos naufrágios, muito especialmente no da Colónia de San Jordi A e Escombreras 2 (Asensio 2010). Ainda que raras no Ocidente, em geral, e em Portugal, em particular, surgem no Algarve, em Castro Marim, em contextos datados do terceiro quartel do século I a.n.e. (Arruda e Almeida 1998, Bargão 2006, Viegas 2011). O número e o estado de conservação obrigam a que se destaque os exemplares recolhidos no depósito de Mértola (Fabião 1987). 3.3. As ânforas norte africanas No conjunto das ânforas de época republicana recuperadas em Monte Molião, contam-se 26 indivíduos que, recolhidos em contextos de ocupação, pudemos associar a produções do Norte de África (fig. 21 e 22). Correspondem a 11,06% do conjunto anfórico analisado. A sua origem concreta não é fácil de determinar com exactidão, uma vez que as pastas apresentam características que permitem englobá-las indistintamente no que Joan Ramón designou de Grupo Cartago/Tunes e Grupo Tripolitânia (Ramón 1995: 259-260). Destas 26 ânforas, 19 integram-se no que habitualmente se denomina Mañá C2, e que correspondem, neste caso concreto, aos tipos 7.4.2.1., com bordos de menor complexidade, e 7.4.3.1. com bordos muito moldurados (Ramón 1995: 209-211). Segundo o autor da tipologia, ambos foram produzidos nos mesmos centros oleiros da área de Cartago/Tunes, estando a cronologia proposta centrada na primeira metade do século II a.n.e. Em Monte Molião, os contextos de recolha destas ânforas indicam que a produção se prolongou pelo menos até ao início do último quartel do século II a.n.e., tal como já tinha sido documentado em Valência (Ribera e Marín 2003), Lixus (Bonet et al. 2005) e Tarragona (Díaz 2000). Cabe, contudo, assinalar, que, no Sector C, estas produções são consideravelmente mais abundantes no momento inicial da ocupação republicana (11 NMI) do que na fase 2 (5 NMI). No Sector A, ainda que os dados sejam mais escassos, importa referir que se recuperou um exemplar de perfil bastante completo numa das U.E.s que se depositaram sobre o pavimento [191], ou seja um dos primeiros. Uma ânfora que indiscutivelmente cabe no tipo 7.3.1.1. foi também recolhida, concretamente no Sector A, mas infelizmente fora do seu contexto primário. De qualquer modo, e dada a importância deste achado, entendemos fazer-lhe aqui referência. Trata-se de uma forma que parece estar na transição entre as Mañá C1 e Mañá C2, que, tal como as primeiras, apresenta colo muito curto, mas o bordo já é moldurado e horizontal, assemelhando-se assim às segundas. Se uma origem na área de Cartago/Tunes não levanta grandes dúvidas, a cronologia proposta por Ramón Torres (1995: 207) parece ser de rever, com base nos dados de Monte Molião. Com efeito, e ainda que tenha sido recolhida em unidade estratigráfica de época romana alto-imperial, e que seja indiscutível que o sítio foi ocupado durante o século III a.n.e., não parece possível defender uma cronologia da Idade do Ferro para esta ânfora, uma vez que se trata de uma forma que não terá sido exportada para a Península Ibérica em momento anterior à época romana. Por outro lado, a própria proposta de Ramón Torres – final do III a.n.e. - é feita com reservas (Ramón 1995: 207). Quatro outros bordos (4 MNI), também com pastas características da zona norte africana (Tripolitânia, Bizacena, Cartago/Tunes), englobam-se na forma que se costuma designar por Tripolitana Antiga (fig. 22). Três foram recuperados no Sector A, concretamente nas U.E.s [165] e [184], unidades que forneceram também ânforas itálicas de tipo Dressel 1 e Mañá C2 oriundas do Norte de África (Cartago/Tunes). Lembre-se que Joan Ramón já referiu que «...la dispersión occidental de las tripolitanas antiguas antes de la destrucción de Cartago parece muy escasa […] se intensifica sin duda tras el citado acontecimiento histórico…» (Ramón 2008: 69). Com datas da segunda metade do século II a.n.e., encontram-se os exemplares de Valência (Ribera e Marín 2003) e dos acampamentos romanos de Numância (Principal 2000), assim como os recolhidos em alguns naufrágios, onde estão, tal como em Monte Molião, acompanhados por quantidades significativas de contentores vinários produzidos na costa tirrénica da Itália. Em Portugal, as ânforas norte africanas não são abundantes, conhecendo-se apenas três exemplares de Mañá C2 (7.4.1.1.) recuperados em Santarém (Arruda e Almeida 1998, Bargão 2006), bem como os de Castro Marim (Arruda et al. 2006, Viegas 2011), Faro (Viegas 2011) e Cerro do Cavaco (Bargão 2006). Recordamos que nas escavações concretizadas pela empresa Palimpsesto na área envolvente do Monte Molião já se tinha documentado quer a forma quer a produção (Sousa e Serra 2006). Em relação às Tripolitanas Antigas, o tipo foi identificado na Lomba do Canho (Fabião 1989), em Santarém, em níveis da segunda metade do século I a.n.e.
119ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 21. Ânforas de produção africana dos contextos republicanos de Monte Molião: Mañá C2.
120 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 22. Ânforas de produção africana dos contextos republicanos de Monte Molião: formas indeterminadas (Mañá C2 ?) (18665, 11275, 11884, 11129 e 11133) e Tripolitanas Antigas (21211 e 18743).
121ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 (Almeida e Arruda 2005, Bargão 2006), em Lisboa, em contextos datados de 140-130 a.n.e. (Pimenta 2005), nas Mesas do Castelinho (Parreira 2009), em Castro Marim (Viegas 2011) e também na área envolvente ao Monte Molião (Sousa e Serra 2006). Entre os materiais de superfície de Chões de Alpompé poderão também constar exemplares desta morfologia (Pimenta 2005). 3.4. As ânforas de produção gaditana Em contextos primários de ocupação recolheu-se, em Monte Molião, um conjunto de ânforas que foram produzidas no sul do território peninsular, mais concretamente na área da baía de Cádis, representando 46,81% do total de contentores (fig. 23-27). Em termos morfológicos, a diversidade é considerável. O registo formal mostra um absoluto predomínio das ânforas Mañá C2 (42 NMI), tendência que, aliás, já se observava nas importações norte africanas. Seguem- -se as ânforas tipo Castro Marim 1 (27 NMI), forma que só há pouco tempo foi devidamente individualizada (Arruda et al. 2006, Arruda e Bargão no prelo). Os outros tipos estão escassamente representados, nunca atingindo a dezena. Entre estes, o mais representativo corresponde ao D de Pellicer (9 NMI), seguindo-se as Dressel 1 (7 NMI), as Mañá Pascual A4 (5 NMI), as 9.1.1.1. (4 NMI) e as Carmona/8.2.1.1. (4 NMI). Refira-se ainda que a grande maioria dos fragmentos que não pudemos classificar (12 NMI) se refere a asas e fundos, que podem indistintamente pertencer a qualquer das formas. Um bordo que entrou nesta categoria pode ainda corresponder a uma ânfora oleária, produzida na área da baía de Cádis, talvez inspirada nos modelos das Tripolitanas Antigas. A análise estratigráfica permitiu outras abordagens, havendo dados que importa ainda acrescentar, tendo em consideração a diacronia republicana. A ausência de produções gaditanas de Dressel 1 no momento inicial da ocupação republicana é um desses elementos, até porque permite discutir a sequência cronológica republicana do sítio. Outro facto que importa destacar é o aumento exponencial dos tipos Mañá C2 e Castro Marim 1 entre os níveis mais antigos e os mais recentes, que passam de 6 NMI e 1 NMI, respectivamente, nos correspondentes à primeira fase, para 29 NMI e 16 NMI, nos da segunda. Mais importante parece ser o aumento das importações gaditanas ao longo da ocupação. De facto, para os 24,14% registados para os primeiros níveis, calcularam-se 56,20% para os mais tardios. As ânforas Mañá C2 produzidas na baía de Cádis são, como já referimos, maioritárias dentro desta produção, quer nos níveis correspondentes às primeiras ocupações romanas quer nos mais recentes (fig. 23 e 24). Trata-se, neste caso, de exemplares que se integram nos tipos 7.4.3.2.e 7.4.3.3. de Ramón Torres. Tanto os grupos específicos como os números de que dispomos não destoam do panorama do sul peninsular, sendo as ânforas deste tipo sempre muito numerosas e percentualmente significativas nos conjuntos das importações gaditanas de época republicana. Para Portugal, o tipo, cuja dispersão é vasta, destaca-se nos conjuntos de Santarém (Arruda e Almeida 1998), Lisboa (Pimenta 2005) e Mesas do Castelinho (Parreira 2009). No Algarve, o caso de Faro é paradigmático, com um número de Mañá C2 de produção gaditana muito significativo, apenas ultrapassado pelo das Castro Marim 1 (Viegas 2011: 204). A situação inverte-se em Castro Marim, sítio em que as primeiras, maioritárias, excedem ligeiramente as segundas (Arruda et al. 2006, Viegas 2011: 496). Note-se, contudo, que, segundo os autores que estudaram aqueles espólios, os contextos de recolha nos sítios algarvios são, para Faro, desconhecidos, e consideravelmente tardios (50-30 a.n.e.), para Castro Marim. Apenas no Forte de São Sebastião, também em Castro Marim, estes contentores foram encontrados associados em contextos primários, contextos esses datados dos finais do século II a.n.e. (Arruda e Pereira 2008). Apesar de se tratar de uma amostra reduzida (15 exemplares), também aqui os tipos são numericamente equivalentes, representando a maioria das importações da província da Ulterior. Lembre-se ainda que a forma já tinha sido reconhecida em Monte Molião, concretamente nas escavações concretizadas na área envolvente (Sousa e Serra 2006). De qualquer modo, no Algarve os dois tipos perfazem, em conjunto, 71% no Castelo de Castro Marim e 95% em Faro (Viegas 2011), dados confirmados pelos dados recuperados no Forte de São Sebastião (Arruda e Pereira 2008), onde as duas ânforas, sendo numericamente equivalentes, representam a maioria das importações da província da Ulterior. Tal como se pode constatar pelo presente estudo, a mesma situação verifica-se também em Monte Molião, onde as ânforas Mañá C2 e Castro Marim 1 correspondem a 62,73% das importações da área de Cádis. Sobre as ânforas Castro Marim 1, deve ainda acrescentar-se que se trata de uma forma com bordo de pequeno diâmetro, inferior a 11 cm, sem espessamento ou com um leve engrossamento na extremidade, com ombro horizontal, constituindo no seu conjunto uma
122 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 23. Ânforas de produção gaditana dos contextos republicanos de Monte Molião: Mañá C2.
123ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 24. Ânforas de produção gaditana dos contextos republicanos de Monte Molião: Mañá C2.
124 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 espécie de disco (fig. 25). O corpo é cilíndrico e estreito, de largura igual ou inferior a 26 cm, de paredes rectas, sendo a ligação entre o corpo e o bordo efectuada através de uma carena, que forma um ângulo próximo do 90º (Bargão e Arruda no prelo). Em termos formais, o tipo parece inspirar-se na forma D de Pellicer, mais exactamente na variante D4, sendo assim designada por muitos dos nossos colegas espanhóis. Corresponde a um contentor tardo-púnico, cuja produção não deverá ter-se iniciado num momento anterior aos finais do século III a.n.e., e que, a avaliar pelos dados dos centros de consumo, se manteve até à segunda metade do século I a.n.e. Para a última cronologia valem, sobretudo, os dados portugueses, concretamente os de Castro Marim, onde as ânforas deste tipo ocorrem em grande número, num contexto datado de 50/30 a.n.e. (Arruda et al. 2006, Viegas 2011, Bargão e Arruda no prelo). Também em Castro Marim, mas no forte de São Sebastião, sítio onde a ocupação foi datada do último quartel do século II a.n.e., foram recolhidos estes contentores (Arruda e Pereira 2008), assim como na área envolvente de Monte Molião (Sousa e Serra 2006). Relativamente à datação do início da produção ela é mais difícil de avaliar, até porque tem quase exclusivamente por base os dados recuperados por Ferrer Albelda em trabalhos de prospecção concretizados na área de Baesipo, especificamente em Manzanete Bajo e Benitos del Lomo, onde o conjunto do espólio permitiu ao colega de Sevilha propor uma cronologia entre finais do século III e inícios do II a.n.e. (Ferrer 2007: 295-296). Os dados de Monte Molião não trazem elementos que alterem o que, de momento, conhecemos para a questão da cronologia da produção e distribuição desta ânfora. Ela está presente em ambos os momentos de ocupação republicana, podendo-se no entanto acrescentar que o seu número é mais elevado nos níveis mais avançados. Este tipo anfórico tem uma distribuição relativamente ampla no território actualmente português. Para além dos sítios algarvios, como Castro Marim (Castelo e Forte de São Sebastião), Faro e Monte Molião, foi reconhecido no vale do Tejo, concretamente em Santarém (Bargão no prelo) e também no Porto do Sabugueiro (Pimenta e Mendes 2008: 182, fig. 11, nº 20-21). No Sul de Espanha, e para além dos sítios da área de Baesipo, já citados, devem referir-se os exemplares de Niebla (Campos et al. 2007: 273, fig. 277, Belén 2007: fig. 241 e 247) e ainda os dos centros produtores de Las Redes (Frutos et al. 1988: fig. 2) e de Pajar de Artillo (Luzón 1973). As ânforas de tipo D de Pellicer correspondem a um contentor que surge ainda durante a Idade do Ferro, concretamente durante o século IV a.n.e., no sul do território peninsular. Individualizadas pela primeira vez entre os materiais recuperados no Cerro Macareno (Pellicer 1978), correspondem a recipientes de perfil cilíndrico, com um bordo reentrante, cujo engrossamento interno é variável, e que pode ainda ocorrer no lado externo (fig. 26). O tipo equivale à forma C1 de Muñoz Vicente (1985), Cádis C1 de García Vargas (1998) e ainda ao tipo 4.2.2.5. de R. Torres (1995). O conteúdo destes recipientes é ainda discutível, tendo sido já proposto o transporte de azeite ou vinho. No entanto, para as produções da baía de Cádis, um conteúdo piscícola é aceite por grande parte dos investigadores (García 1998). Apesar da sua origem pré-romana, a sua comercialização estende-se até ao período republicano. Com efeito, no território algarvio, ânforas com esta morfologia foram recuperadas em níveis dessa cronologia, quer em Faro (Viegas 2011) quer em Castro Marim (Arruda et. al. 2006, Viegas 2011). Na costa ocidental atlântica, concretamente em Santarém (Arruda 1999-2000) e em Lisboa (Pimenta 2005), este tipo surge em níveis do período republicano, ainda que, em ambos os casos, as características macroscópicas das pastas apontem para produções locais. No interior, contamos com os dados das Mesas do Castelinho, onde também existem ânforas desta categoria formal em níveis republicanos (Parreira 2009). No Monte Molião, em contextos conservados do período republicano, estas ânforas estão representadas por nove indivíduos. Do mesmo sítio, mas da sua área envolvente, já existiam dados que comprovavam a sua permanência em níveis correspondentes à ocupação romana (Sousa e Serra 2006). As ânforas conhecidas por Mañá-Pascual A4 integram-se nas séries 11 e 12 de R. Torres e correspondem a um dos contentores mais emblemáticos do Extremo Ocidente. A sua produção, que se inicia em meados do 1º milénio a.n.e., possivelmente em torno aos momentos finais do século VI a.n.e., perdura, nas suas variantes evolucionadas, até ao período tardo-republicano. São contentores de bordo reentrante, com engrossamento externo e/ou interno, com diâmetros reduzidos, sem colo, e de ombros altos e arredondados, cuja separação do resto do corpo é efectuada mediante uma carena mais ou menos acentuada. O seu conteúdo piscícola é hoje inegável. A evolução desta forma, a partir do séc. III a.n.e., está marcada pela perda do espessamento do bordo e por uma orientação mais vertical das paredes, como é visível nas ânforas integradas na série 12
125ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Figura 25. Ânforas de produção gaditana dos contextos republicanos de Monte Molião: Castro Marim 1.
132 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Tabela 5. Sector A - U.E. [167] – Ânforas (4 NMI) Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Dressel 1 Indeterminado 1 Indeterminada Indeterminado 1 Tabela 6. Sector A - U.E. [171] – Ânforas (1 NMI) Forma Fabrico NMI Dressel 1 Itálico 1 Tabela 7. Sector A - U.E. [172] – Ânforas (6 NMI) Forma Fabrico NMI 9.1.1.1. Baía de Cádis 1 Castro Marim 1 Baía de Cádis 2 Mañá C2 Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 8. Sector A - U.E. [174] – Ânforas (1 NMI) Forma Fabrico NMI Material residual (B/C de Pellicer) Ext. Ocidente Indeterminado 1 Tabela 9. Sector A - U.E. [183] – Ânforas (1 NMI) Forma Fabrico NMI Material residual (B/C de Pellicer) Ext. Ocidente Indeterminado 1 Tabela 10. Sector A - U.E. [184] – Ânforas (7 NMI) Forma Fabrico NMI Carmona Baía de Cádis 1 Castro Marim 1 Baía de Cádis 2 Dressel 1 Itálico 1 Mañá C2 Cartago / Tunes 2 Tripolitana Antiga Tripolitânia 1 Tabela 11. Sector A - U.E. [191] – Ânforas (1 NMI) Forma Fabrico NMI Material residual (B/C de Pellicer) Baía de Cádis 1 Tabela 12. Sector A - U.E. [197] – Ânforas (1 NMI) Forma Fabrico NMI Mañá Pascual A4 Baía de Cádis 1 Tabela 13. Sector C - U.E. [1112] – Ânforas (9 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 2 Mañá C2 Baía de Cádis 1 Mañá Pascual A4 Baía de Cádis 2 Indeterminada Baía de Cádis 1 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Indeterminada Indeterminado 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 14. Sector C - U.E. [1132] – Ânforas (1 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Dressel 1 Indeterminada 1 Tabela 15. Sector C - U.E. [1158] – Ânforas (5 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Baía de Cádis 1 Carmona Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Material residual (B/C de Pellicer) Baía de Cádis 1
133ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Tabela 16. Sector C - U.E. [1159] – Ânforas (1 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Tabela 17. Sector C - U.E. [1207] – Ânforas (2 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Mañá Pascual A4 Baía de Cádis 2 Tabela 18. Sector C - U.E. [1260] – Ânforas (8 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 1 D de Pellicer Baía de Cádis 1 Mañá C2 Baía de Cádis 3 Dressel 1 Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 2 Tabela 19. Sector C - U.E. [1261] – Ânforas (5 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 3 Mañá C2 Indeterminado 1 Tabela 20. Sector C - U.E. [1262] – Ânforas (9 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 1 Mañá C2 Baía de Cádis 4 Indeterminado Baía de Cádis 1 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Mañá C2 Indeterminado 1 Mañá Pascual A4 Indeterminado 1 Tabela 21. Sector C - U.E. [1268] – Ânforas (2 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Tabela 22. Sector C - U.E. [1269] – Ânforas (16 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI 9.1.1.1. Baía de Cádis 1 Castro Marim 1 Baía de Cádis 4 Mañá C2 Baía de Cádis 4 Indeterminada Baía de Cádis 1 Greco-Itálica Itálico 1 Dressel 1 Itálico 3 Mañá C2 Ext. Ocidente Indeterminado 1 Material residual (B/C de Pellicer) Ext. Ocidente Indeterminado 1 Tabela 23. Sector C - U.E. [1277] – Ânforas (3 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Baía de Cádis 2 Mañá C2 Cartago / Tunes 1 Tabela 24. Sector C - U.E. [1279] – Ânforas (5 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 2 D de Pellicer Baía de Cádis 2 Dressel 1 Itálico 1 Tabela 25. Sector C - U.E. [1281] – Ânforas (6 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI 9.1.1.1. Baía de Cádis 1 Castro Marim 1 Baía de Cádis 1
134 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Forma Fabrico NMI D de Pellicer Baía de Cádis 1 Mañá C2 Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 2 Tabela 26. Sector C - U.E. [1285] – Ânforas (4 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Baía de Cádis 3 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Tabela 27. Sector C - U.E. [1287] – Ânforas (11 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 2 Mañá C2 Baía de Cádis 8 Indeterminada Baía de Cádis 1 Tabela 28. Sector C - U.E. [1291] – Ânforas (5 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Mañá C2 Cartago / Tunes 2 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 29. Sector C - U.E. [1293] – Ânforas (3 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Material residual (B/C de Pellicer) Baía de Cádis 1 Tabela 30. Sector C - U.E. [1295] – Ânforas (1 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada (Mañá C2 ?) Cartago / Tunes 1 Tabela 31. Sector C - U.E. [1297] – Ânforas (5 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Baía de Cádis 2 Mañá C2 Cartago/Tunes 1 Dressel 1 Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 32. Sector C - U.E. [1299] – Ânforas (7 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI D de Pellicer Baía de Cádis 1 Mañá C2 Baía de Cádis 1 Indeterminada Baía de Cádis 1 Mañá C2 Cartago/Tunes 1 Dressel 1 Itálico 3 Tabela 33. Sector C - U.E. [1301] – Ânforas (3 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 1 Mañá Pascual A4 Indeterminada 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 34. Sector C - U.E. [1303] – Ânforas (5 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI 9.1.1.1. Baía de Cádis 1 D de Pellicer Baía de Cádis 1 Mañá C2 Cartago / Tunes 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Material residual (B/C de Pellicer) Baía de Cádis 1
135ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Tabela 35. Sector C - U.E. [1304] – Ânforas (4 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI D de Pellicer Baía de Cádis 1 Mañá C2 Cartago / Tunes 1 Dressel 1 Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 36. Sector C - U.E. [1308] – Ânforas (7 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Carmona Baía de Cádis 1 Mañá C2 Cartago / Tunes 1 Dressel 1 Itálico 4 Material residual (Tiñosa ?) Campiña Gaditana 1 Tabela 37. Sector C - U.E. [1316] – Ânforas (3 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Cartago / Tunes 1 Greco-Itálica Itálico 1 Tabela 38. Sector C - U.E. [1318] – Ânforas (1 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Tabela 39. Sector C - U.E. [1321] – Ânforas (2 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Mañá C2 Indeterminada 1 Tabela 40. Sector C - U.E. [1325] – Ânforas (1 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Dressel 1 Itálico 1 Tabela 41. Sector C - U.E. [1329] – Ânforas (5 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Cartago / Tunes 4 Dressel 1 Itálico 1 Tabela 42. Sector C - U.E. [1334] – Ânforas (3 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 1 D de Pellicer Baía de Cádis 1 Indeterminada (Mañá C2 ?) Cartago / Tunes 1 Tabela 43. Sector C - U.E. [1337] – Ânforas (2 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Tabela 44. Sector C - U.E. [1384] – Ânforas (2 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 45. Sector C - U.E. [1389] – Ânforas (7 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Mañá C2 Cartago / Tunes 3 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 3 Tabela 46. Sector C - U.E. [1392] – Ânforas (2 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Dressel 1 Indeterminado 1
136 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 Tabela 47. Sector C - U.E. [1413] – Ânforas (4 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 1 Mañá C2 Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 1 Indeterminada Indeterminado 1 Tabela 48. Sector C - U.E. [1421] – Ânforas (4 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Indeterminada Baía de Cádis 1 Dressel 1 Itálico 2 Indeterminada Indeterminado 1 Material intrusivo (Haltern 70) Guadalquivir 1 Tabela 49. Sector C - U.E. [1434=1437] – Ânforas (7 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Castro Marim 1 Baía de Cádis 1 Mañá C2 Baía de Cádis 2 Dressel 1 Baía de Cádis 1 Greco-Itálica Itálico 1 Indeterminada Indeterminado 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 50. Sector C - U.E. [1436] – Ânforas (3 NMI) – 2ª fase Forma Fabrico NMI Tripolitana Antiga Tripolitânia 1 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 Tabela 51. Sector C - U.E. [1440=1448] – Ânforas (5 NMI) – 1ª fase Forma Fabrico NMI Greco-Itálica Itálico 1 Dressel 1 Itálico 1 Indeterminada (Greco-Itálica ou Dr. 1) Itálico 1 Indeterminada Indeterminado 1 Material residual (Tiñosa) Campiña Gaditana 1 4. DISCUSSÃO Considerando as balizas cronológicas tradicionalmente estabelecidas para o conjunto anfórico estudado, a ocupação romano-republicana de Monte Molião estende-se, em sentido lato, entre o início do último quartel do século II a.n.e. e o primeiro quartel do século seguinte. No entanto, considerando as diferenças que pudemos observar entre as três fases republicanas identificadas no Sector C, propomos para a mais antiga uma datação centrada no último quartel do século II a.n.e., sendo a segunda possivelmente de um momento mais tardio, que poderá já englobar as duas primeiras décadas da centúria seguinte. A ocupação antiga de época romana termina no final da República. Os dados em que alicerçamos esta nossa proposta cronológica são de natureza diversa. Em primeiro lugar, destacamos uma alteração nos ritmos de importação da cerâmica campaniense entre a primeira e a segunda fase de ocupação (Dias 2010). Apesar de a totalidade dos materiais recolhidos ao longo das várias campanhas de escavação ainda não estar devidamente analisado, podemos avançar que, no primeiro momento, a campaniense do tipo A é claramente predominante sobre as produções calenas, alterando-se estas percentagens significativamente na fase seguinte, assistindo-se a um maior equilíbrio entre ambas as produções. A nível formal, contudo, os tipos identificados encontram-se presentes em ambos os momentos. Assim, na primeira fase, entre a campaniense de tipo A identificaram-se as formas 5, 5/7, 6, 27, 31, 36 e 48A de Lamboglia, resumindo-se as produções calenas associadas a este momento às formas 1, 3, 5, 5/7 e 7 de Lamboglia,
137ÂNFORAS REPUBLICANAS DE MONTE MOLIãO (LAGOS, ALGARVE, PORTUGAL) SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 e estando ainda presente um fragmento de campaniense de pasta cinzenta, classificado como forma 5 de Lamboglia (Dias 2010). Na segunda fase, o repertório da campaniense de tipo A integra as formas 5/7, 6, 8B, 25, 31 e 36 de Lamboglia e o grupo da campaniense de Cales é composto pelas formas 1, 2, 3, 4, 5, 5/7, 7 de Lamboglia, havendo ainda a registar um fragmento de campaniense de tipo B etrusco, possivelmente da forma 4 de Lamboglia, encerrando o conjunto com dois fragmentos de campaniense de pasta cinzenta, da forma 5 de Lamboglia e do tipo 3151 de Morel (Dias 2010). A análise da distribuição dos contentores anfóricos entre as duas fases republicanas também permite assinalar algumas diferenças. As mais notáveis relacionam-se, como já foi referido anteriormente, com um notável aumento das importações da baía de Cádis durante o momento mais tardio (entre a totalidade do conjunto anfórico, passa de 24,14% na Fase 1 para 56,20% na Fase 2). Contudo, as restantes produções, itálicas e africanas, permanecem no registo artefactual, assistindo-se inclusive a um aumento, em números absolutos, dos contentores do primeiro tipo. Também ao nível formal deve destacar-se um crescimento exponencial das formas gaditanas Mañá C2 e Castro Marim 1, que passam a constituir os tipos predominantes na fase mais tardia. Os produtos do Guadalquivir só se registam a partir de meados do século I a.n.e, quando as importações diminuem e os níveis de ocupação escasseiam, o que parece indicar um declínio acentuado do sítio. A cronologia do último quartel do século II a.n.e. é, sobretudo, suportada pelo conjunto anfórico, concretamente pela morfologia das importações itálicas. Porém, gostaríamos de destacar o facto de esta datação poder eventualmente recuar ainda para os finais do 3º quartel, o que só não assumimos, por que o número de greco- -itálicas é consideravelmente mais reduzido do que o que foi encontrado em sítios a que foi atribuída esta cronologia. Com efeito, quer nos níveis fundacionais de Lisboa, quer nos de Valência ou de Tarragona, datados em torno a 140/130 a.n.e., a presença de greco-itá- licas face às de transição e Dressel 1 é significativa em termos numéricos, ainda que as primeiras nunca ultrapassem as restantes. A situação de Monte Molião é diversa, mesmo atendendo ao facto de a classificação ter tido por base os parâmetros definidos por Molina Vidal e não os de Gateau, como aconteceu por exemplo em Lisboa. Também as ânforas norte africanas ajudaram na definição da cronologia do início da ocupação republicana, uma vez que abundam nos contextos mais profundos. A recolha, ainda que descontextualizada, de uma ânfora de tipo 7.3.1.1. seria também um argumento a considerar no momento de recuar a cronologia (fig. 29). Mas, uma vez mais, foi o conjunto dos espólios e não uma peça individualmente que nos norteou na atribuição de uma datação concreta. 5. CONCLUSÕES De acordo com os dados apresentados e discutidos anteriormente, o início do último quartel do século II a.n.e. parece pois ser a data mais plausível para a instalação de populações romanizadas no sítio, o que possibilita a discussão de outras questões que se relacionam com a própria romanização do sul de Portugal. Em primeiro lugar, deve dizer-se que parece indiscutível o carácter não militar da ocupação. De facto, a existência de níveis pré-romanos, o urbanismo, e, também, a ausência de armas, apontam nesse sentido. Por outro lado, deve insistir-se que os dados de Monte Molião se associam aos que já estavam disponíveis para Faro e para Castro Marim, mostrando uma romanização tardia dos territórios meridionais, ligeiramente posterior à do vale do Tejo, a última conectada com a Campanha militar de Décimo Júnio Brutus. A ideia de que o percurso, a direcção e a rota desta última se devia ao facto de as áreas mais a sul estarem já integradas na Província da Ulterior parece portanto de descartar, ainda que a romanização do Algarve não avance tanto como já foi proposto por uma de nós em artigo assinado em colaboração com Luís Gonçalves (Arruda e Gonçalves 1993). Esta ocupação republicana de Monte Molião prolongou-se nos mesmos espaços, que sofreram remodelações, até às duas primeiras décadas do século I a.n.e. As alterações no registo material apontam para uma cada vez maior influência de Cádis no abastecimento de produtos alimentares, concretamente dos produtos piscícolas, com a diminuição acentuada das importações africanas e mais ténue das itálicas. Ainda que se tenha documentado uma fase tardia de ocupação republicana, a verdade é que os dados indicam que ela é quase inexpressiva e não se evidencia através da construção de estruturas. Assim, os elementos de que dispomos permitem admitir que os edifícios construídos no início do último quartel do século II a.n.e. e utilizados, ainda que sofrendo remodelações várias, até ao final do primeiro quartel do século seguinte foram abandonados repentinamente. É o que fica demonstrado pelo estado de conservação das próprias
138 ANA MARGARIDA ARRUDA / ELISA DE SOUSA SPAL 22 (2013): 101-141 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2013.i22.05 ânforas, bem como pela inexistência de sedimentos no seu interior, no sector A. A ocorrência de um sismo pode ter estado na origem desta situação, sismo esse que foi já defendido tendo em consideração as deformações, com fracturação e rotação, das paredes dos compartimentos do sector C (Gomes 2010). Outros estudos sobre Monte Molião, concretamente os que incidiram sobre a fauna malacológica, provaram também uma alteração paleo-ambiental no final da fase republicana que foi também interpretada através de um fenómeno natural (tsunami após sismo) que teria provocado o rompimento do cordão dunar já então formado (Detry e Arruda no prelo). Contudo, as informações para grandes terramotos com tsunami associado foram confirmadas na região de Huelva apenas para o final do século III a.n.e. (218/216 e 210/209 a.n.e.) (Ruiz et al. 2008), havendo poucas evidências para o que terá ocorrido em cerca de 60 a.n.e., que, a confirmarem-se os dados de Monte Molião, pode ter tido lugar alguns anos antes. Por fim, importa ainda discutir o facto do evidente declínio do sítio a partir de meados do século I a.n.e., declínio esse que se prolonga ainda durante boa parte da primeira metade do século seguinte, e que se manifesta pela escassez de importações, bem como pela ausência de construções com dimensão e peso significativos. Se por um lado, o sismo/tsunami poderia justificar a situação, por outro também é verdade que seria expectável que tivesse dado origem a um fenómeno de reconstrução em grande escala, o que, manifestamente não aconteceu, considerando os dados actualmente disponíveis. Sabemos que o sítio permaneceu habitado quer durante a fase final da República quer ao longo de toda a dinastia julio-cláudia, mas não atingiu, nesses momentos, o desenvolvimento dos anteriores nem do que ocorreu sob os Flávios e os Antoninos. Assim, parece possível admitir que o apoio concedido por Laccobriga aos partidários de Sertório durante a Guerra Civil e a ajuda recebida das tropas deste último durante o cerco relatado por Plutarco (Sertorius 13) podem ter originado uma retaliação por parte dos vencedores, retaliação essa que, como foi frequente, se prolongou consideravelmente no tempo. O empobrecimento da comunidade local pode, na nossa perspectiva, ser interpretado no quadro destes acontecimentos. Talvez seja esta a explicação para o facto de Laccobriga ser um dos raros oppida algarvios com ocupação republicana que não procedeu à cunhagem de moeda, sendo este também um dado a considerar no momento de atribuir uma cronologia a este fenómeno, que assim só pode ter tido lugar a partir de meados do século I a.n.e. AGRADECIMENTOS O presente artigo resulta do Projecto de Investigação “Monte Molião na Antiguidade”, desenvolvido na UNIARQ, financiado pela Câmara Muncipal de Lagos e gerido pela Faculdade de Letras de Lisboa. Ao Rui Parreira, da Direcção Regional de Cultura do Algarve, agradecemos a cedência da fotografía aérea de Monte Molião, que usámos na fig. 2, e à Elena Morán toda a colaboração prestada ao projecto. BIBLIOGRAFIA Alarcão, J. (1976): “Les Amphores”, en J. Alarcão e R. Etiènne (eds.), Fouilles de Conimbriga VI Céramique diverses et verres, pp. 79-91. Paris, Difusion du Boccard. Almeida, R. (2008): Las ánforas del Guadalquivir en Scallabis (Santarém, Portugal). Una aportación al conocimiento de los tipos minoritarios. Collecció Instrumenta, 28. Barcelona, Universidad de Barcelona. Almeida, R. e Arruda, A.M. (2005): “As ânforas de tipo Mañá C em Portugal”, en Ati del V Congreso Internazionale di Studi Fenici i Punici (Marsala, 2000): 1319-1329. Palermo, Universidad de Palermo. Arruda, A.M. (1999-2000): Los fenicios en Portugal: Fenicios y mundo indígena en el centro y sur de Portugal. Barcelona, Universidad Pompeu Fabra. Arruda, A.M. (2007): Laccobriga: A ocupação romana na Baía de Lagos. Lagos, Câmara Municipal de Lagos. Arruda, A.M. e Almeida, R. (1998): “As ânforas da Classe 32 da Alcáçova de Santarém”. Conimbriga 37: 201-231. Arruda, A.M. e Almeida, R. (1999): “Importações de vinho itálico para o território português: contextos, cronologias e significado”, en Économie et territoire en Lusitanie romaine (Actes du IIIème Table ronde sur la Lusitanie romaine Madrid, 1996), pp. 307-337. Madrid, Casa de Velázquez. Arruda, A.M. e Gonçalves, L. (1993): “Sobre a romanização do Algarve”, en Actas do II Congresso peninsular de História Antiga (Coimbra, 1990), pp. 455- 465. Coimbra, Universidade de Coimbra. Arruda, A.M. e Pereira, C. (2008): “As ocupações antigas e modernas do Forte de S. Sebastião (Castro Marim)”. Xelb 8: 391-421. Arruda, A.M. e Pereira, C. (2010): “Fusão e produção: actividades metalúrgicas em Monte Molião
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