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Xu Yang Metáforas dos Eixos Cima/Baixo e Frente/Trás em Português Europeu: contrastes com o Mandarim outubro de 2024 Metáforas dos Eixos Cima/Baixo e Frente/Trás em Português Europeu: contrastes com o Mandarim Xu Yang UMinho|2024 Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas
Xu Yang Metáforas dos Eixos Cima/Baixo e Frente/Trás em Português Europeu: contrastes com o Mandarim outubro de 2024 Tese de Doutoramento Doutoramento em Ciências da Linguagem Especialidade em Linguagem e Cognição Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor José de Sousa Teixeira Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Desejo exprimir os meus agradecimentos a todos aqueles que, de alguma forma, permitiram que esta tese se concretizasse. Ao Professor Doutor José da Sousa Teixeira, meu orientador, pela manifestação de incondicional apoio e disponibilidade, pela compreensão por algumas dilações, pelo aconselhamento assertivo e pelo estímulo permanente, pelos inúmeros comentários feitos durante uma correção da tese, que muito contribuíram para aumentar o desafio académico e melhorar a profundidade e a clareza da tese. Sou grata à minha família. Ao meu Pai, minha Mãe que sempre estiveram ao meu lado, me apoiando ao longo de toda a minha trajetória, tanto académica quanto financeira. Ao meu querido marido, pela compreensão e paciência demonstrada durante o período do estudo. À minha filha Tao tao, que nasceu durante o doutoramento, fazia-me sempre a companhia, com os seus sorrisos ingénuos e choros irritantes , nos dias mais difíceis da formação da tese do doutoramento. A todos que participaram, direta ou indiretamente do desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, enriquecendo o meu processo de aprendizagem. Agradeço à Universidade do Minho por oferecer os espaços de estudo, à estrutura que me permitiu explorar ao máximo tudo o que foi necessário para o sucesso deste trabalho. Também quero agradecer ao seu corpo docente que demonstrou estar comprometido com a qualidade e excelência do ensino. Nos dez anos entre 2014 e 2024, recebi uma educação profissional pelos cursos excelentes desta Universidade e concluí os meus estudos de mestrado e processo de doutoramento. A Universidade do Minho abriu uma porta nova à minha vida!
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Metáforas dos Eixos Cima / Baixo e Frente / Trás em Português Europeu: contrastes com o Mandarim RESUMO A metáfora espácio-temporal é um dos temas nucleares na linguística cognitiva devido a que o tempo e o espaço são domínios cognitivos básicos e fundamentais na vida quotidiana. No entanto, o que é exatamente o tempo tem sido constantemente discutível. O tempo e o espaço não são cognitivamente iguais na medida em que a compreensão do espaço é a nível de desenvolvimento cognitivo muito anterior à compreensão do tempo. A cognição do tempo, na qual a metáfora desempenha um papel enorme, depende muito da do espaço. A metáfora é baseada numa experiência que é tanto condicionada pela natureza fisiológica do corpo humano quanto influenciada pela cultura da sociedade onde o sujeito se localiza. É isso que leva à sua universalidade e particularidade. O estudo contrastivo possibilita compreender melhor essas duas propriedades da metáfora. Assim, precisámos de selecionar um tipo de metáfora que existe em duas línguas com culturas distintas, na medida em que se verificam semelhanças e diferenças nas metáforas interculturais. A metáfora temporal atende perfeitamente a esse requisito por ser uma metáfora concetual típica com mapeamentos sistemáticos e diversificados. Consequentemente, fornecem exemplos abundantes para realizar o estudo do contraste linguístico português-mandarim a fim de entender as bases cognitivas da ocorrência da metáfora e os mecanismos de operação das metáforas. O estudo vai concentrar-se na metáfora temporal e suas relações com as metáforas espaciais nos eixos cima / baixo e frente / trás . Através dos resultados, confirmamos que, por um lado, a metáfora é verdadeiramente baseada na experiência corporificada, no tão atual conceito tão caro a várias áreas cognitivas de cognição corporificada ( embodied cognition ), experiência mais próxima à vida quotidiana, porque as metáforas espácio-temporais, nas duas línguas, têm muitas semelhanças; por outro lado, as metáforas são também afetadas pela cultura, pela religião, ideologia social, e até pelo ambiente geográfico. As características da própria linguagem também terão um impacto profundo na formação de metáforas temporais. Além disso, pode-se verificar, pelas metáforas, que as culturas representadas por português e mandarim têm diferentes perceções do tempo. Globalmente, podemos dizer que o tempo em português é mais como um objeto que avança a uma velocidade constante, enquanto o tempo em mandarim é considerado como um objeto que se move com mais flexibilidade tanto no sentido da direção do percurso, quanto no modo de movimento. Palavras-chaves: cima/baixo, espaço, frente/trás, metáfora, tempo.
vi 中葡(欧洲葡语)基于上/下和前/后的隐喻对比研究 摘要 时空隐喻一直是认知语言学研究的核心课题。这起源于时间和空间在人们的生活中是 最基本的认知域。然而,关于时间究竟是什么一直备受争议。时间和空间在认知上并 不对等。对空间的理解要比对时间的理解更早些。时间认知是非常依赖于空间的,隐喻 在其中发挥着巨大作用。而隐喻的产生既基于身体与世界互动所获得的自然经验,又 基于身体从其所生活的一个社会环境中获得的文化经验。这正是导致隐喻同时具有普 遍性和特殊性的原因。跨语言的研究将使我们能够更好地理解隐喻的这两个特性。 因此,我们需要选择一种存在于两种不同文化的语言中的隐喻,来确认隐喻的跨文化 差异性。而时空隐喻完美地符合这个要求。时空隐喻是一种典型的、拥有多样化映射 结构的概念隐喻。可以为葡汉对比的研究提供丰富的语言实例来让我们了解隐喻发生 的认知基础以及隐喻的运作机制。我们的研究重点放在与 上 / 下 和 前 / 后 两个空间轴相 关的时间隐喻上。 通过本文研究,我们首先证实了,一方面,隐喻确实是建立在人们普遍的生活经验中, 因为在两种语言中的时空隐喻具有一定的相似性,另一方面,隐喻也会受到宗教、社 会意识形态、甚至地理环境等因素的影响。而语言本身的特性也会对隐喻的形成有不 可忽视的作用。其次,从隐喻中可以看出葡语和汉语所代表的文化对时间认知是不同 的,葡语中的时间更像一个以恒定速度向前运动的物体,而汉语中的时间则是具有更 灵活的运动路径和更多样化的运动方式的物体。 关键词:空间、隐喻、时间、上/下、前/后
vii Metaphors of the Axes of Up/Down and Front/Back in European Portuguese: contrasts with Mandarin SUMMARY The spatial-temporal metaphor is one of the core themes in cognitive linguistics as time and space are the most fundamental cognitive domains in everyday life. However, what exactly time is has been constantly debatable. Time and space are not cognitively equal as the understanding of space is much earlier than the understanding of time. The cognition of time, in which metaphor plays a huge role, is very dependent on space. The metaphor is based on an experience that is both conditioned by the physiological nature of the human body and influenced by the culture of the society where the subject is located. This is what leads to its universality and particularity. The contrastive study would make it possible to better understand these two properties of the metaphor. Therefore, we need to select a type of metaphor that exists in two different languages with different cultures insofar as we verify similarities and differences in intercultural metaphors. The temporal metaphor perfectly meets this requirement as it is a typical conceptual metaphor with systematic and diverse mappings. It provides abundant examples to carry out the Portuguese-Mandarin linguistic contrast study in order to understand the cognitive bases of metaphor occurrence and the operating mechanisms of metaphors. The study will focus on the temporal metaphor in up / down and front / back axes. Through the results, we can confirm that the metaphor is based on the embodied experience closest to everyday life for the spatial-temporal metaphors in the two languages have many similarities. The results also confirmed that metaphors are affected by religion, social ideology, and even the geographic environment as well. The characteristic of the language has a profound impact on the formation of temporal metaphors. Furthermore, it can be seen from the metaphors that the cultures represented by Portuguese and Mandarin has different perceptions of time. Time in Portuguese is more like an object that moves forward at a constant speed, while time in Mandarin has been considered as an object that moves with more flexibility in the sense of both the direction of travel and the mode of movement. Keywords: front/back, metaphor, space, time, up/down.
xiv ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1. Particularidades de Figura e Fundo (Talmy ,2000, pp.314-315) ......................................... 25 Tabela 2. A relação espacial/temporal configurada pelos órgãos do corpo humano (em mandarim) .. 30 Tabela 3. Esquema imagético principal e o seu grupo subsidiário ...................................................... 35 Tabela 4. Uma classificação dos esquemas imagéticos (Clausner e Croft, 1999, p.15) ...................... 36 Tabela 5. Expressões diferentes em relação a uma ação de levar um tempo para fazer trabalhos ...... 38 Tabela 6. Diferenças entre a metáfora de correlação e a metáfora de analogia .................................. 47 Tabela 7. Três tipos de metáfora (Indurkhya, 1992, pp.257-258) ...................................................... 81 Tabela 8. The integration of EXPECTATION, ARRIVAL, and SPATIAL DEIXIS in the grounding scenario of Moving Time (Moore, 2011, p.97) .................................................................................................... 90 Tabela 9. Semelhanças entre o português e o mandarim em aplicação de alguns adjetivos no tempo ...................................................................................................................................................... 116 Tabela 10. Diferenças entre português e mandarim em aplicação de adjetivos no domínio temporal 116 Tabela 11. Correspondências semânticas entre as palavras 前 (qián, frente ) e 后 (hòu, trás ) em mandarim (O símbolo * indica que a palavra não é aceite no contexto pragmático do mandarim) .... 138 Tabela 12. Correspondências entre frente / trás e futuro/passado no inglês ..................................... 150 Tabela 13. Modelos diferentes em duas línguas na representação da direção espacial (Hill,1978, p.536) ...................................................................................................................................................... 152 Tabela 14Estratégias de referência e suas relações com os t-FoRs (Evans 2013, p.420) .................. 155 Tabela 15. Três correspondências entre a direção espacial e a sequência temporal ......................... 155 Tabela 16. Bases cognitivas de frente do espaço transferem para o domínio do tempo .................... 159 Tabela 17. A correspondência entre frente/atrás e cedo/tarde no modelo de time-moving ............... 168 Tabela 18. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 169 Tabela 19. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 170 Tabela 20. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 170 Tabela 21. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 171 Tabela 22. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 171 Tabela 23. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 172 Tabela 24. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 172 Tabela 25. A correspondência entre frente / atrás e cedo / tarde ........................................................ 173 Tabela 26. O passado pela visão 2 ................................................................................................. 196 Tabela 27. O futuro pela visão 2 ..................................................................................................... 196 Tabela 28. O futuro pela visão 1 ..................................................................................................... 197 Tabela 29. O passado pela visão 2 ................................................................................................. 198 Tabela 30. Direção de evento ......................................................................................................... 200 Tabela 31. Sequência entre eventos ............................................................................................... 200 Tabela 32. A correspondência entre passado / futuro e frente / trás ................................................... 200
xv Tabela 33. Conclusão das metáforas temporais com ideia principal do domínio do espaço .............. 206 Tabela 34. Os mapeamentos de time-moving .................................................................................. 208 Tabela 35. Mapeamentos no modelo de ego-moving (Moore, 2000, p.83) ....................................... 209 Tabela 36. Uso variantes de 来 (lái, vir) e 去 (qù, ir) em mandarim .................................................. 219 Tabela 37. 来 (lái, vir ) na expressão do futuro próximo ................................................................... 224 Tabela 38. 去 (qù, ir ) na expressão do futuro próximo .................................................................... 224 Tabela 39. Usos de 来 (lái, vir ) e 去 (qù, ir ) nas expressões temporais ............................................ 226 Tabela 40. Ações descritas por verbo 回 (huí, voltar ) ...................................................................... 232 Tabela 41. Ações descritas por verbo 还 (huán, voltar ) ................................................................... 232 Tabela 42. Usos de 奔 (bēn,correr) e 跨 (kuà, cruzar) no espaço e no tempo ................................... 238 Tabela 43. Exemplos dos verbos visuais nas expressões lexicais de futuro e passado em mandarim 239 Tabela 44. Comparação entre o português e o mandarim em termos da direção relativa do movimento entre o evento e Ego no sentido de mudança da distância (aproximação ou afastamento) ................ 250 Tabela 45. Comparação entre o português e o mandarim em termos da direção relativa entre o evento e Ego no sentido de localização (frente/trás) ................................................................................... 250 Tabela 46. Comparação entre o português e o mandarim em termos do modo de realizar um movimento (do tempo ou do Ego) ................................................................................................... 250 Tabela 47. O uso da preposição 里 (lǐ, em ) na descrição de diferentes objetos ............................... 263 Tabela 48. Contentores com diferentes propriedades físicas ............................................................ 264 Tabela 49. Exemplos dos usos de 里 (lǐ, em) e 内 (nèi, dentro) ...................................................... 265 Tabela 50. As vertentes semânticas prototípicas da preposição de que contêm valor de Direção e de Origem (da Mota Santos, 2007, pp.99-101). ................................................................................... 283 Tabela 51. Os significados de 从 (cóng, de ) nos domínios espacial e temporal ................................ 285 Tabela 52. Usos diferentes das preposições em domínio temporal entre o português e o mandarim 286 Tabela 53. Usos da preposição a nas expressões do movimento ..................................................... 287 Tabela 54. 上 (shàng, cima) nas expressões temporais do tempo .................................................... 295 Tabela 55. 下 (xià, baixo) nas expressões temporais do tempo ........................................................ 296 Tabela 56. 前 (qián, frente ) nas expressões temporais do tempo .................................................... 300 Tabela 57. 后 (hòu, trás) nas expressões temporais do tempo ........................................................ 300 Tabela 58 ....................................................................................................................................... 304 Tabela 59. 前 (qián, frente )/ 后 (hòu, atrás ) no sentido de alcance ................................................. 306 Tabela 60. As bases cognitivas de metáfora temporal em direções diferentes de cada língua ........... 312
1 INTRODUÇÃO Desde a antiguidade clássica até à atualidade, de que são exemplos Richard (1929) e Black (1962,1979), Gentner (1983, 1986, 1989, 2001), Lakoff (1980,1987,1990,1993, 2009, 2012), Gibbs (2006), o estudo da metáfora nunca parou. A compreensão da metáfora também foi transformada pelo surgimento das ciências cognitivas. Quando os seres humanos compreendem coisas novas, devido a limitações da capacidade cognitiva, têm de utilizar conceitos familiares para descrever e falar sobre coisas novas ou conceitos novos (Lakoff e Johnson, 1980). Este processo resulta na metáfora. A metáfora não é apenas um fenómeno linguístico no sentido de retórico, mas, mais importante ainda, um fenómeno cognitivo humano no sentido de ser uma atividade psicológica complexa. Têm surgido, então, estudos sobre as questões controversas sobre a metáfora: o mecanismo da criação da metáfora (baseia-se na semelhança ou cria-se a semelhança?), seu mecanismo operacional (uma preservação parcial e uma transferência condicionada em termos do Princípio da Invariância), a diversificação da metáfora (atribuída a causas linguísticas e culturais). Neste contexto, com o propósito de repensar algumas questões controversas, o nosso estudo pretende selecionar as metáforas espácio-temporais no eixo vertical ( cima / baixo ) e horizontal ( frente / trás ) para realizar um estudo linguístico contrastivo entre o português e o mandarim. As razões para optar pela metáfora espácio-temporal podem ser resumidas em três pontos. Em primeiro lugar, o domínio fonte e alvo que estão envolvidos na metáfora espácio-temporal são os domínios cognitivos mais básicos e fundamentais da cognição humana e formam mapeamentos diversificados. O conceito de tempo faz parte crucial das atividades humanas. No entanto, não há órgãos sensoriais para sentir o tempo de maneira direta. Portanto, o entendimento do tempo deve depender de outros conceitos mais concretos, tais como o espaço e o movimento. Esses domínios experienciais são universais nas interações entre o corpo e o mundo. Sendo assim, as metáforas espácio-temporais são metáforas concetuais fundamentais com mapeamentos diversificados na medida em que fornecem exemplos abundantes para estudar as bases cognitivas da ocorrência do processo metafórico e dos respetivos mecanismos operativos. Em segundo lugar, as metáforas espácio-temporais existem na maioria das línguas conhecidas e são universais em muitos aspetos. É esta universalidade que proporciona a possibilidade de estudar as semelhanças e diferenças nas
2 metáforas interculturais. Em terceiro lugar, há lacunas na área da linguística cognitiva no estudo contrastivo da metáfora temporal entre português e mandarim. A maior parte dos estudos deste tema são baseados no inglês. Em chinês, existem estudos representativos de Yu (1998, 2012), Huang e Zürcher (1995) e alguns outros. Em português, um estudo mais desenvolvido e sistemático deste tema encontra-se na tese de Teixeira (2001), no qual ilustra em detalhas a relação espácio-temporal com frente / trás . O nosso estudo é realizado por uma comparação de metáforas temporais entre português e mandarim para ver convergências ou divergências entre as duas línguas a fim de, através dos resultados da comparação, 1) se verificar como o espaço e o movimento servem de base à metaforização do tempo nas duas línguas e 2) perceber algumas das semelhanças e diferenças e como elas se relacionam com aspetos linguísticos e culturais das duas línguas. Em relação à primeira questão, existem duas opiniões principais. A visão dominante é a metaphoric mapping theory ( teoria do mapeamento metafórico ). A representação espacial é universalmente confirmada como a fonte da representação do tempo. Um domínio abstrato como o tempo deriva as suas construções de um domínio mais concreto e experiencial, tal como o do espaço, isto é, os esquemas espaciais evocados pelas metáforas fornecerão contexto relevante para a organização da informação do evento na informação do tempo (Lakoff e Johnson, 1980a). A segunda visão chama-se de structure-mapping view (Gentner, 1983, 2001) . Esta visão acredita que a metáfora precisa primeiramente de descobrir as estruturas comuns existentes entre domínios diferentes. Quando estão descobertas as estruturas comuns nos domínios do tempo e do espaço, outras inferências sobre o domínio-fonte (espaço) podem ser mapeadas para o domínio-alvo (tempo). No que diz respeito à questão de como as diferenças entre o português e o mandarim se relacionam com aspetos linguísticos e culturais das duas línguas, devemos entender que a experiência é sempre subjetiva e contruída com interações particulares de cada indivíduo com o mundo. Sendo assim, selecionamos duas línguas (português e mandarim) que representam culturas diferentes para verificar com mais facilidade como as divergências culturais funcionam numa diversificação metafórica. Com o propósito de resolver aquelas duas questões, a tese é organizada em cinco capítulos, dos quais o segundo e o terceiro constituem a parte nuclear. Os dois primeiros capítulos servem como o fundamento teórico e a revisão da literatura para a tese ter uma base bem fundamentada. Os capítulos 3 e 4 são as componentes principais, nos quais se realizam comparações de metáforas temporais, quer no eixo vertical ( cima / baixo ) quer no eixo horizontal ( frente / trás ), com domínios-fonte como o
3 espaço e o movimento. O capítulo 5 termina a tese com conclusões com base nos resultados das comparações. No Capítulo 1, analisamos o papel insubstituível do espaço, que também funciona como o domínio-fonte da metáfora temporal, na nossa cognição pela perspetiva corporificada. Tanto o corpo como o espaço são componentes essenciais de quase todas as atividades e cognições psicológicas humanas. Os resultados da interação entre o corpo e o espaço são linguisticamente chamados de esquemas imagéticos que funcionam ativamente nas atividades mentais, nas quais estão incluídas as metáforas temporais. Segundo o Princípio da Invariância, entendemos que os esquemas imagéticos diversificam a produção da metáfora temporal, por um lado e, por outro, restringem o seu desenvolvimento arbitrário num contexto cognitivo determinado. O capítulo 2 enfoca a relação entre metáfora e semelhança. Habitualmente, tem sido afirmado que a metáfora ocorre com base na semelhança entre o domínio-fonte e o domínio-alvo. Recentemente, é proposto que as metáforas não se baseiam apenas em semelhança, mas também criam semelhanças. Além disso, outros autores (tais como Turner, 1990, 1993; Clausner e Croft, 1997, 1999) sugeriram que a semelhança também restringe a ocorrência e o desenvolvimento do mapeamento entre o domínio-fonte e o domínio-alvo. Esta restrição não se reflete apenas na semelhança seletiva entre o domínio-fonte e o domínio-alvo, mas também reflete que a metáfora é um meio cognitivo que não liga dois objetos quaisquer de maneira ilógica. A metáfora temporal é uma metáfora concetual particular na medida em que envolve elementos que provêm de três domínios inseparáveis: espaço, movimento, tempo. Por isso, o Capítulo 3 é composto por duas secções. A primeira estuda as metáforas temporais que acentuam os elementos espaciais (dimensão, direção, posição). A segunda, em alternativa, estuda as metáforas temporais que se focam nos elementos dinâmicos do tempo (percurso, modo de movimento). O conteúdo principal da primeira secção é uma aplicação diversificada das direções cima / baixo e frente / trás nas metáforas temporais. Especificamente, os mapeamentos de frente / trás da metáfora temporal podem ser agrupados em três tipos. Em primeiro lugar, a base do mapeamento entre dimensões espaciais e quantidades de tempo é que o domínio do tempo utiliza as dimensões verticais e horizontais no espaço para expressar a duração do tempo. Em segundo lugar, existe um mapeamento entre as posições relativas de diferentes objetos no espaço e a sequência de eventos no tempo. A disposição objetiva das posições dos eventos na linha do tempo (sequência) é afetada pelo julgamento subjetivo da disposição
4 (antes e depois) dos objetos no espaço. Em terceiro lugar, há um tipo de metáfora temporal que projeta frente / trás no espaço para passado/futuro no tempo com base na experiência visual ou na experiência de movimento. A segunda parte do Capítulo 3 estuda metáforas temporais que contêm outros elementos do movimento. O mapeamento desse tipo de metáfora ocorre também em três aspetos: a mudança na distância entre o observador e o evento (aproximação ou afastamento); a direção do movimento do evento ou do observador no tempo ( frente / trás ) e o modo como o tempo se move. Dado que os movimentos frequentes na vida quotidiana ocorrem normalmente na direção horizontal, as metáforas temporais que se concentram no domínio do movimento também estão intimamente relacionadas com frente e trás . O Capítulo 4 estuda a limitação do mapeamento na metáfora temporal. A pesquisa concentra-se em metáforas que acontecem em dois esquemas imagéticos (CONTENTOR e ORIGEM-TRAJETO-META). Através do abandono, retenção e transferência das características dos componentes e das relações dos componentes do domínio-fonte no domínio-alvo, podemos explorar as condições de mapeamento entre eles, bem como várias limitações (cognitivas e linguísticas) no processo de mapeamento. O Capítulo 5 é uma análise baseada nos resultados da investigação dos Capítulos 3 e 4. Tomando como facto a diferença nas metáforas temporais entre o português e o mandarim, explora as razões para a diferença do mesmo tipo de metáfora (neste caso a metáfora temporal) em diferentes línguas a partir de perspetivas linguísticas e culturais. Além disso, tenta-se fazer algumas suposições sobre o mecanismo da produção de metáforas. Na verdade, a formação da metáfora, o mapeamento limitado e a diversidade da metáfora estão interligadas. O nosso estudo tem como um dos objetivos esclarecer essas dúvidas através da análise da metáfora temporal nas duas línguas escolhidas (português e mandarim).
5 CAPÍTULO 1 O CORPO E O ESPAÇO NA COGNIÇÃO CORPORIFICADA 1.1. O corpo na cognição corporificada A primeira geração da Ciência Cognitiva analisa os conceitos com base em modelos formais abstratos, totalmente desligados do corpo e existindo apenas no cérebro (Gallese e Lakoff, 2005, p.455). Segundo Lakoff (2012), Concepts were seen as characterized by inherently meaningless abstract symbols that got their meaning via the ability to ‘‘represent’’ external mind-free reality, without the body or brain playing any significant role (Lakoff, 2012, pp.773-774). Mais tarde, um número crescente de pesquisadores e filósofos argumentou que a ciência cognitiva precisava de se reorientar em termos da natureza da mente e da cognição, devido a que cada vez se percebe mais que o lugar onde a cognição ocorre é no cérebro e este é uma parte dos mecanismos que fazem a adaptação dos humanos ao ambiente que os rodeia (Dewey, 1973, p. 214). Com base nos resultados de vários estudos, é considerado que os processos cognitivos são fundamentalmente baseados em nossas interações corporais com o mundo. Por exemplo, as cores são designadas por termos linguísticos, mas elas não existem no mundo sem uma corporização: Colors have external requirements (e.g., wavelength), but they do not exist without embodiment: Color cones in the retina and complex neural circuitry connected to those color cones. Thus, the external world alone cannot account for ‘‘green.’’ (Kay e McDaniel, 1978). Mervis e Rosch (1981) revelam que as categorias do nível básico são possivelmente definidas por três tipos de corporização: gestalt perception , mental imagery e motor programs . Todos os processos cognitivos requisitam o corpo e o cérebro: precisamos de corpo e cérebro para entender o significado de ‘‘cadeira’’ ou de ‘‘carro’’. Os cérebros biológicos são, antes de mais nada, sistemas de controle dos corpos biológicos (Clark, 1998, p. 506). Neste contexto, a Ciência Cognitiva passa, então, a ser corporificada. Uma das ideias nucleares mais recentes é a de que a Ciência Cognitiva precisa de deixar a cognição envolver a mente, a mente envolver ao corpo e o corpo envolver ao ambiente (Wheeler, 2005, p. 11).
6 A transformação do papel do corpo na constituição da cognição é atribuída, à exceção dos estudos empíricos atuais, pelas ideias de alguns filósofos modernos, nos quais os mais destacados são Merleau-Ponty 1 , Heidegger 2 e Husserl 3 . Segundo Merleau-Ponty ([1945]2012), “O problema do mundo, e, para começar, o do corpo próprio, consiste no facto de que tudo reside ali”. Além disso, o corpo oferece uma visão sobre o mundo: I consider my body, which is my point of view upon the world, as one of the objects of that world. I repress the consciousness that I had of my gaze as a means of knowing and I treat my eyes as fragments of matter. From then on my eyes are placed within the same objective space where I attempt to situate the exterior object and I believe that the projection of the objects upon my retina brings about the perceived perspective (Merleau-Ponty, [1945] 2012, p.73). Todos os conhecimentos são adquiridos a partir de experiências que são resultados de interação entre o corpo e o mundo e que são mudáveis por acontecerem sempre novas interações entre eles. Por exemplo, um movimento é aprendido quando o corpo o compreendeu: Consciousness is being toward the thing through the intermediary of the body. A movement is learned when the body has understood it, that is, when it has incorporated it into its “world,” and to move one’s body is to aim at the things through it, or to allow one’s body to respond to their solicitation, which is exerted upon the body without any representation (Merleau-Ponty, [1945] 2012, p.140). Para Merleau-Ponty, o corpo desempenha um papel constitutivo da experiência por meio de preservar e fundamentar na nossa consciência as perceções constantes que, por sua vez, formam em retorno o padrão da intencionalidade (Carman, 1999, p.222). O corpo está sempre a ajustar-se a fim de integrar experiências novas e manter o controlo em relação aos objetos: We withdraw the synthesis from the objective body in order to give it to the phenomenal body, that is, the body insofar as it projects a certain “milieu” around itself, insofar as its “parts” know each other dynamically and its receptors are arranged in such a way as to make the perception of the object possible through their synergy (Merleau-Ponty, [1945]2012, p.241). 1 Merleau-Ponty Maurice, filósofo fenomenólogo francês, 1908-1961. 2 Martin Heidegger, filósofo, escritor, professor e reitor universitário alemão, 1889-1976. 3 Edmund Husserl, filósofo e matemático alemão fundador da escola da fenomenologia, 1859 -1938.
7 Além disso, as pessoas têm um sentido corporal específico que produz conhecimentos particulares sobre seus corpos. Vários sistemas sensoriais fornecem informações sobre um estado ou uma ação do corpo, nos quais os mais acentuados são (Bermúdez et al ., 1998, p.13): 1) Information about pressure, temperature, and friction from receptors on the skin and beneath the surface. 2) Information about the relative state of body signals from receptors in the joints, some sensitive to static position, some to dynamic information. 3) Information about balance and posture from the vestibular system in the inner ear and the head/trunk dispositional system and information from pressure on any parts of the body that might be in contact with gravity-resisting surfaces. 4) Information from skin stretch and bodily disposition and volume. 5) Information from receptors in the internal organs about nutritional and other states relevant to homeostasis and well-being. 6) Information about effort and muscular fatigue from muscles. 7) Information about general fatigue from cerebral systems sensitive to blood composition. Esses sistemas de informações funcionam conjuntamente a fim de produzir tanto um body schema quanto um body image . Heidegger não enfatiza o papel do corpo em Being and Time . Neste livro, publicado em 1927, ele apenas afirma que a espacialidade do Dasein está ligada à sua Leiblichkeit ( natureza corporal ). Dasein's spatialization in its 'bodily nature' is likewise marked out in accordance with these directions. Thus things which are ready-to-hand and used for the body-like gloves, for example, which are to move with the hands-must be given directionality towards right and left (Heidegger, [1927]1962, p.143). A negligência do corpo na cognição de Heidegger é devida à influência da filosofia ocidental (Aho, 2005, pp.2-3). Embora não se focalize no corpo, Heidegger indica uma nova dimensão da existência do corpo além do corpo com órgãos apenas percetuais. Segundo Heidegger, o corpo humano é diferente em relação aos de outros animais. Heidegger aproveita a conexão etimológica entre a palavra Leben ( vida ) e a palavra Leib (corpo) para criar um verbo leiben . A ideia central deste verbo leiben é que a humanidade sobreviva com base no modelo do corpo. Isto quer dizer que vivemos de acordo com o corpo modelizado ou existimos mediante o modelo do corpo (Heidegger, [1987]2001). As ideias distintas entre Heidegger e Merleau-Ponty dizem respeito à forma da existência (do corpo) no mundo. Para Heidegger ([1927]1982), Dasein é, realmente, o acontecimento da
8 compreensão. A existência é o “movimento” dinâmico ou “acontecimento” de uma compreensão do ser que se realiza num mundo concreto, referindo-se à maneira única como um ser humano entende ou interpreta a sua vida num contexto social compartilhado (Heidegger, [1927]1982, p.276, citado por Aho, 2005, p.4). Para Heidegger, a espacialidade de Dasein é dependente da sua temporalidade. Na verdade, em Being and Time , Heidegger priorizou o tempo (ou temporalidade) sobre o espaço. Isto acontece porque se a corporização humana fosse uma característica fundamental do nosso ser-nomundo, teríamos obviamente de entender o corpo como o objeto espacial. Porém, uma vez que Heidegger não está disposto a dar espaço à corporização ao nível do ser-no-mundo de Dasein , ele apenas configura a espacialidade com base no ser-no-mundo que, por sua vez, está enraizada no tempo (Zahavi e Overgaard, 2012, p.271). Na opinião de Husserl ([1913]1989), o corpo não é suficiente para o sujeito perceber e interagir com objetos no mundo. A perceção envolve uma autoexperiência corporal. Por exemplo, para tomar um café, devemos conhecer algumas informações, tais como a direção do café, a distância entre nós e o café e a posição do café relativamente às nossas mãos, etc. Todas as informações ajudam a decidir como mover braços e mãos para pegá-lo. No entanto, não há informações sobre o nosso próprio corpo, uma vez que o nosso corpo não está num alcance visual: não há nenhuma experiência visual referente ao nosso próprio corpo. Então, como nós sabemos as informações sobre como o café se relaciona connosco? A resposta possível é que embora nenhum componente da minha perceção seja sobre mim, algum componente de conhecimento que ela produz é (Perry,1993, p.205). Sendo assim, um corpo serve também como o ponto de referência no qual todos os objetos preceptivos estão relacionados de maneira única. O espaço é egocêntrico e percebido mediante o corpo (Husserl, [1913] 1989). The Body then has, for its particular Ego, the unique distinction of bearing in itself the zero point of all these orientations. One of its spatial points, even if not an actually seen one, is always characterized in the mode of the ultimate central here: that is, a here which has no other here outside of itself, in relation to which it would be a "there." It is thus that all things of the surrounding world possess an orientation to the Body, just as, accordingly, all expressions of orientation imply this relation. The "far" is far from me, from my Body; the "to the right" refers back to the right side of my Body, e.g., to my right hand (Husserl, [1913] 1989, p.166). Além disso, Husserl nota que a perceção está relacionada intimamente com a ação. Essa ideia é consistente de certa maneira com a de Heidegger, uma vez que Heidegger ([1927]1962) enfatiza a temporalidade, ou seja, o aspeto dinâmico das experiências corporificadas. Para Heidegger
15 1.1.2. O corpo: um limite da cognição As capacidades do corpo entre diferentes indivíduos são comuns, ou quase idênticas devido à semelhança das características fisiológicas que os corpos possuem. Além disso, os atributos físicos, a estrutura e a forma de movimento, todos estes elementos corporais condicionam a cognição sobre o mundo. Por um lado, o movimento corporal de uma espécie biológica manifesta alguma particularidade em relação aos movimentos de outras espécies e, por outro, apresenta certa restrição devido à capacidade fisiológica. Por exemplo, a amplitude do movimento articular, o limite de velocidade e força, etc. Devido à natureza fisiológica do corpo e à estrutura neuroanatómica, a nossa perceção do mundo é diferente em relação às outras espécies de animais (por exemplo, formiga, peixe, cão, etc.). A interpretação humana da "realidade" é mediada principalmente pela natureza de morfologia biológica (ou seja, órgãos do corpo). Esta interpretação e a natureza do ambiente com o qual interagimos, resultam em experiências sofisticadas. Por exemplo, embora a gravidade seja uma característica consentida por vários animais neste mundo, a nossa experiência da gravidade é determinada por nosso corpo e pelo ambiente ecológico ao qual estamos adaptados. Os colibris, que podem bater as suas asas até cinquenta vezes por segundo, sentem a gravidade de uma maneira muito diferente da dos humanos. Eles são capazes de se elevarem no ar mediante o movimento rápido e sucessivo das asas. Por isso, a nossa experiência é corporificada - isto é, estruturada principalmente pela natureza dos corpos que temos e pela nossa organização neurológica. Os conceitos que consideramos, pensamos e falamos são um resultado da corporização. Ou seja, só podemos falar sobre o que podemos perceber e conceber de acordo com a experiência corporificada (Evans, 2010, p.42). 1.1.2.1. Limites vêm dos órgãos sensórios De facto, a cognição deve ser vista como uma adaptação do sistema de controle do corpo para que o corpo possa sobreviver melhor no mundo. Além disso, essas características físicas não são imutáveis. Há sempre coevolução de atributos físicos e cognitivos, como, por exemplo, entre as mãos e o cérebro (Wilson, 1998). Esta ideia é confirmada por Anderson (2005):
16 Cognition evolved in organisms with specific physical attributes, bodies of a certain type with given structural features, and can therefore be expected to be shaped by and to take advantage of these features for cognitive ends (Anderson, 2005, p.66). Isto quer dizer que tanto as características físicas quanto os atributos cognitivos são mudáveis, até mesmo existirem desenvolvimentos conjuntos entre eles. Por exemplo, devido à tolerância limitada à temperatura da pele, não podemos utilizar as mãos para levar diretamente o alimento que está a ser grelhado, mas em alternativa, podemos aproveitar algumas ferramentas auxiliares para atingir o objetivo. As mãos tornar-se-ão mais flexíveis no processo de usar as ferramentas. Simultaneamente, os humanos continuarão a criar métodos e ferramentas neste processo. Desta maneira, as características físicas que podem ser aplicadas melhor às atividades cognitivas serão preservadas e, consequentemente, os atributos cognitivos que podem ser aplicados a órgãos específicos do corpo também serão mantidos. No caso geral, alguns órgãos que já evoluíram e os que estão a evoluir desenvolvem-se juntos para resolver problemas encontrados no funcionamento do corpo (Anderson, 2005, p.67). O corpo sempre condiciona cada atividade cognitiva. No caso da visão, os conceitos ou experiências de cores, por exemplo, refletem as propriedades de células retinianas e as particularidades do aparelho visual. Quanto aos órgãos auditivos, a deteção do som é realizada com base na sua peculiaridade da distância entre as orelhas (Foglia e Wilson, 2013, p.321). Vamos ver um exemplo de sensação warm ( quente , calor ). A palavra warm em inglês não apenas tem o significado de calor, mas também contém outras interpretações, tais como íntimo e ser positivo na comunicação . A polissemia de warm demonstra uma conexão metafórica entre a temperatura e a intimidade no sentido de relação pessoal. Sendo assim, Williams e Bargh (2008) realizaram algumas pesquisas a fim de explorar a relação entre a sensação física e a experiência da relação pessoal, tentando, ainda, revelar a existência da experiência corporificada nos conceitos abstratos. Na primeira pesquisa, os participantes que seguraram algum tempo um café quente (versus mais frio) avaliaram uma pessoa-alvo como tendo uma personalidade “mais calorosa” (generosa, atenciosa). Com base nos resultados do estudo, pode-se concluir que, no caso de um sujeito tocar um objeto quente pode induzir diretamente sentimentos de calor e intimidade com os outros. Em outras palavras, uma breve experiência física quente ou fria influenciou os julgamentos interpessoais
17 subsequentes dos participantes sobre a pessoa-alvo (Williams, 2008, p.607). No entanto, Gao e Niu (2015) realizaram um estudo semelhante no contexto chinês e chegaram à conclusão oposta de que não havia ligação intrínseca entre o calor físico e a intimidade interpessoal. Segundo os dois pesquisadores, em vez da temperatura, o conforto é um motivo importante para se sentir íntima e positiva numa relação interpessoal. Os resultados de estudo de Gao e Niu (2015) demostram a integração da experiência corporificada na semântica de warm no sentido de relação interpessoal pela outra perspetiva. Sabemos que a tolerância à temperatura de diferentes espécies de animais é variável. No corpo humano, devido às características fisiológicas, a faixa da temperatura agradável é limitada. Portanto, a temperatura excessivamente alta fará com que as pessoas se sintam desconfortáveis, o que não é consistente com o sentimento de uma relação próxima. Ou seja, quando a cognição corporificada é aplicada num conceito mais abstrato, a aplicação também está a sujeita às limitações fisiológicas. A semântica de hot ( quente em português ou 热 rè em mandarim) também se relaciona com a relação interpessoal. Só que, neste caso, é utilizada para manifestar uma relação de amor entre dois amantes com base nas experiências corporificadas não apenas confortáveis, mas também emocionantes. Em conclusão, a cognição é limitada pelo corpo devido ao facto de que as experiências em que ocorre são adquiridas através dos mecanismos do corpo. 1.1.2.2. Limites vêm do movimento do corpo Os antropólogos também notam a importância do movimento do corpo na formação do conceito de espaço, concetualizando com mais frequência o espaço como movimento (algo dinâmico) e não como um CONTENTOR (no sentido estático) (Pandya, 1990). A fim de confirmar o efeito do movimento corporal na cognição, os psicólogos Wells e Petty (1980) fizeram uma pesquisa no qual os alunos participaram num teste para avaliar o conforto dos fones de ouvido. Os participantes foram divididos em três grupos: o primeiro grupo acena com a cabeça, o segundo grupo balança a cabeça e o terceiro é um grupo de controle. Verificou-se que a avaliação positiva do grupo de acenar a cabeça foi maior, enquanto a avaliação positiva do grupo que balançou a cabeça foi menor. Por isso, o movimento corporal de acenar com a cabeça potencializa a
18 atitude positiva, ao passo que o movimento corporal de balançar a cabeça aumenta a atitude negativa (Wells e Petty, 1980). A maneira como o corpo se move também tem um impacto no humor. Stepper e Strack (1993) realizaram um estudo no qual os participantes eram estudantes universitários. O objetivo foi testar o impacto da postura corporal na conclusão de tarefas. A pesquisa foi realizada por dois grupos. Um grupo de estudantes foi solicitado a manter a cabeça baixa e a se curvar, parecendo frustrado, enquanto o outro grupo de estudantes devia ser muito confiante com a cabeça erguida. Depois, os participantes completaram uma tarefa complexa e todos foram informados que eles haviam completado bem a tarefa. No entanto, quando os participantes responderam a um questionário no final da pesquisa sobre se eles estavam orgulhosos de si mesmos por completar bem a tarefa, a emoção de orgulho dos participantes do primeiro grupo foi significativamente mais fraca do que no segundo grupo. Os resultados experimentais mostram que a experiência emocional é corporificada e que a forma de agir vai mudar a experiência emocional (Stepper e Strack, 1993, p.215). 1.2. O espaço na cognição corporificada De acordo com Heidegger ([1927] 1962), temos duas perceções muito diferentes em relação ao espaço. Por um lado, há o espaço exato no sentido de ser tridimensional. Por outro lado, o espaço desdobra por meio da prática de Dasein com interações com entidades ao redor (Heidegger, [1927]1962, citado por Zahavi e Overgaard, 2012, p.278). De acordo com Tversky (2003): Humans act in space. Sometimes, interactions in space are explicit, as we grasp the things around us or find our ways inside and out. Other interactions are implicit, an awareness of where we are and what things surround us (Tversky, 2003, p.66). A concetualização espacial é condicionada, por um lado, pela natureza do mundo físico existente e, por outro, pela psicobiologia humana com o sistema visual e a postura ereta. Essas restrições ambientais e cognitivas levaram a ciência cognitiva a argumentar que é natural e consequentemente universal conceber o espaço ao nosso redor de um ponto de vista relativo, egocêntrico e antropomórfico (Wassmann, 1994, p.646). Há muitos motivos que levam a pensar que a concetualização espacial é central na cognição humana. A compreensão espacial talvez seja uma das tarefas primárias intelectuais para um bebé
19 recém-nascido. Os conceitos espaciais existem em quase todos os domínios em nosso pensamento. Por exemplo, a hierarquia social (classe superior e classe inferior), a emoção (alta e baixa), o tempo (antes e depois), etc. (Levinson, 1992, p.8). Os conceitos primários normalmente são compostos por uma ou mais informações espaciais, especialmente informações sobre movimentos no espaço. Tais componentes espaciais são chamados de primitivos concetuais (Mandler, 2010). Because they are spatial, they can have parts, and that in turn implies structure. A classic example is CONTAINER, which is a notion requiring a bounded space with an inside and an outside. The primitive is structured because you can’t have an inside without an outside; it is the structure itself that gives the parts meaning. Although the structure can be dissected, it is primitive with respect to the conceptual system (Mandler, 2010, p. 25). A cognição espacial tem efeito nuclear em atividades humanas. A espacialidade é componente fundamental da experiência humana, sendo relevante em muitas situações, tanto rotineiras quanto excecionais. É difícil exagerar a importância do espaço na cognição, porque se observa a existência universal da cognição espacial nas estruturas e processos mentais e comportamentais. Todos os dias, tomamos centenas de decisões com base na perceção do espaço. Algumas dependem do nosso conhecimento espacial - a experiência que temos com algum lugar específico. Outras são condicionadas por nossa capacidade de compreender a lógica espacial do ambiente ao redor. Algumas decisões são cuidadosamente consideradas, por exemplo, onde estacionar o carro, especialmente se o estacionamento estiver um tanto cheio. Outras, ao invés, envolvem um pensamento simples, ou seja, se o estacionamento estiver vazio, a pessoa provavelmente não pensa muito sobre onde estaciona por ter opções suficientes. Essas decisões diárias revelam uma interação diversificada entre espaço e pensamento (Harvey, 2010, p.186). O espaço localiza-se na experiência central e universal do humano. Portanto, constitui um bom domínio-fonte para entender conceitos mais abstratos. Além disso, existem paralelos entre o espaço e outros domínios semânticos, no sentido de que as mesmas expressões têm simultaneamente interpretações espaciais, temporais ou outros conceitos mais abstratos. A explicação linguísticocognitiva desse paralelismo é a metáfora concetual, ou seja, um mapeamento sistemático entre dois
20 domínios experienciais onde normalmente o domínio mais abstrato é entendido em termos do mais concreto. Uma vez que o espaço parece ser mais concreto do que outros domínios, a sua estrutura é mapeada em outros domínios (Zlatev, 2010, p.319). Durante um primeiro ano da vida, os bebés formam um conjunto de cognições primitivas espaciais. (…) a set of spatial primitives that I suggest is both necessary and sufficient to account for the majority—if not all—of the concepts formed during the first year of life. These concepts are important to understand because they are the ontogenetic foundations on which later concepts are built and hence play a major role in determining the organization of the adult conceptual system (Mandler, 2010, p.23). De acordo com Tversky (2000), o espaço pode ser dividido em the space of the body , the space around the body , the space of navigation , e the space of graphics. As pessoas agem em espaços diferentes em função da necessidade de atividade quotidiana. O conhecimento subjacente às representações mentais do espaço e das coisas nele vem de muitas fontes: de olhar, de ouvir, de tocar, de imaginar (Tversky, 2003, p.66). Portanto, um espaço que desempenha o papel extremamente importante na cognição é o espaço corporificado. O espaço corporificado é o desdobramento do próprio ser corporal, a forma como o corpo passa a existir como corpo (Merleau-Ponty, [1945]2012). Em sua obra, o espaço corporificado é ser-nomundo, ou seja, a realidade existencial e fenomenológica daquele lugar: seu cheiro, tato, cor e outras dimensões sensoriais. A perceção e experiência desse espaço ocupado pelo corpo estão condicionadas por várias razões que têm a ver com a forma da existência: emoções e estado de espírito de uma pessoa, sentido de identidade, relações sociais e predisposições culturais (Low, 2003, p.13). Podemos entender melhor o espaço corporificado com palavras de Tversky (2003) em dois aspetos. Um é o espaço ocupado pelo corpo, ou seja, o próprio corpo: The body is naturally divided by its joints into parts. We move the various parts independently depending on the activity we are engaged in. We keep track o where the parts of our body are as we move in space. The different parts of the body interact in different ways with the surroundings. Feet walk and kick, hands grasp and manipulate, heads sense through eyes and ears and communicate through mouth and expression. The different parts also vary in size, perceptual prominence, and functional significance (Tversky, 2003, p.67). Outro é o espaço ao redor do corpo:
21 Another space with functional significance for human activity is the space around the body, the space of things that can be seen and often reached from the current position (Tversky, 2003, p.69). Vamos ver dois exemplos que ilustram a importância do espaço no comportamento humano, quer seja físico no sentido de deslocamento, quer seja mental no sentido de construção social. O geógrafo Pred (1986) estudou a relação entre as características espaciais (principalmente geográficas) e particularidades sociais (no sentido da estrutura social). Com base em história das microgeografias da vida diária no sul da Suécia, ele descobriu que o comportamento e os movimentos quotidianos geravam transformações espaciais na posse da terra, resultando em mudanças na estrutura social local. Portanto, Pred concluiu que o lugar (neste contexto entendemos como o espaço corporificado) sempre envolve "a apropriação e transformação do espaço e da natureza ", que é inseparável da reprodução e transformação da sociedade. Os aborígenes da Austrália tratam a terra de acordo com a lei ancestral. De acordo com esta lei, o espaço é divido por diferentes regiões por atividades quotidianas diferentes para restringir a presença de alguém em locais particulares. Por exemplo, ao seguir sua lei moral-religiosa, os aborígenes fazem desvios que devem ser suficientemente distantes para evitar ver um lugar antigo ou ouvir o canto ritual que está a ocorrer ali. Este tipo de comportamento define fronteiras sobre a terra ou lugar, formando uma divisão transitória, mas repetível dos lugares mediante o movimento do corpo (Munn, 1996, p.452). Os antropólogos também notam a importância do movimento na criação de um espaço no sentido de que alguma comunidade concetualiza o espaço como algo dinâmico consoante o movimento em vez de algo estático como um CONTENTOR (Pandya, 1990): The cultural construct of space of the Ongee hunters and gatherers of Little Andaman is not stage like but is a "map" of movements created by the plotting of various experiential coordinates that demarcate activity-specific places. Ongees share space both with spirits who hunt and with animals who are hunted. Conjunctions in the paths of movement of humans, spirits, and animals set up the culture's dynamics of movement, dynamics expressed in patterns of individual movement, myths, body painting, language, and the maps of space that the Ongees drew for this ethnographer (Pandya, 1990, p.775). Pela perspetiva linguística, os termos de relação espacial em muitas línguas requerem referência ao corpo. Talmy refere (1983) que:
22 Notice that the human body, while no doubt the prototype for the ascription of biased geometries to many other objects, is not treated as any kind of special case in many languages, including English. The human body is the most important case of a biased geometry (Talmy,1983, pp.242-244). Em conclusão, O corpo fica sempre no centro do espaço que queremos definir. O espaço desenvolve-se a partir do corpo. O lugar onde o corpo se situa é chamado de posição canónica (Clark, 1973, p.34). O espaço é sempre compreendido a partir de uma perspetiva egocêntrica e antropomórfica no sentido de que o espaço é dividido sob diferentes direções, tais como frente e atrás , acima e abaixo , esquerda e direita . O espaço corporificado é o local onde a experiência e a consciência humana são materializadas e espacializadas. O espaço corporificado é apresentado como um modelo para compreender a criação do lugar através da orientação espacial, movimento e linguagem (Low, 2003, pp.9-10). 1.2.1. Coisas no espaço e na cognição Nas perceções humanas do espaço, as coisas são fundamentais (Tversky, 2003, p.67). A função principal da visão humana é perceber as coisas, na qual o essencial é reconhecer as coisas em diferentes componentes (Biederman,1987): Biederman’s essential insight is that the identification of objects involves the combination of a set of primitive three-dimensional geometric components which he labels geons, short for ‘geometric icons’. Geons are simple volumes such as cubes, spheres, cylinders, and wedges (Biederman,1987, citado por Evans, 2010, p.30). A cognição das coisas pela perspetiva linguística pode ser resumida em dois aspetos. Em primeiro lugar, alguns atributos de coisa desempenham um papel fundamental na nossa compreensão de conceitos abstratos. Em segundo lugar, a classificação das coisas é o processo pelo qual reconhecemos as coisas de novo. No que diz respeito aos atributos de uma coisa, entendemos que a experiência humana do espaço inclui o conhecimento relativo ao tamanho, forma, localização e distribuição de coisas num ambiente tridimensional (Evans, 2010, p.21). Quanto à perceção de uma coisa, esta é organizada por três fases: sensation , perceptual organisation e identification and recognition .
23 Sensation concerns the way in which external energy, such as light, heat, or (sound) vibrations are converted into the neural codes which the brain recognizes. Perceptual organization concerns the way in which this sensory information is organized and formed into a perceptual object, a percept. Identification and recognition relate to the stage in the process whereby past experiences and conceptual knowledge is brought to bear in order to interpret the percept (Evans, 2010, p.21). Por exemplo, um objeto esférico pode ser identificado tanto como uma bola de futebol quanto como uma moeda, ou algum outro objeto de aparência física semelhante. Essa fase envolve a definição do objeto, ou seja, a compreensão da sua natureza, função e significado da perceção. Assim, um conceito previamente formado é empregada para identificar e categorizar a perceção nova (Evans, 2010, pp.21-22). Depois, as características comuns de coisas semelhantes (em termos de aparência física ou de função, por exemplo) são extraídas e resumidas por esquemas imagéticos. Designamos as coisas com base em motivos diferentes, dos quais os mais importantes são forma, função ou sentimentos. A forma parece ser uma base primária para a categorização. Além disso, os atributos matemáticos (no sentido de ser mensurável ou divisível) ou dinâmicos (no sentido de ser deslocável ou direcional) também são considerados na definição de uma coisa. Os atributos das coisas concretas servem como base para a compreensão das coisas abstratas. Quando um objeto no espaço é usado para construir um conceito abstrato, geralmente apenas alguns de seus atributos estão envolvidos. Os componentes diferentes de uma coisa têm funções diferentes e servem propósitos diferentes aos humanos, sendo, ao mesmo tempo, componentes importantes de perceção. Do ponto de vista linguístico, um mesmo objeto tem muitas identidades. Por exemplo, aquilo em que normalmente nos sentamos pode ser chamado de cadeira de mesa , cadeira ou peça de mobiliário . As pessoas têm tendência a identificar objetos no que tem sido chamado de “nível básico”, devido a que este é o nível em que as pessoas parecem ter mais informações: Categorizations which human make of the concrete world are not arbitrary but highly determined. In taxonomies of concrete objects, there is one level of abstraction at which the most basic category cuts are made. Basic categories are those which carry the most information, possess the highest category cue validity, and are, thus, the most differentiated from one another (Rosch et al. , 1976, p.382). As categorias fundamentais propostas por Rosch (1976) são um conjunto de categorias concetuais básicas e comuns que ocupam um lugar importante na nossa cognição. Essas categorias
24 básicas incluem: Humano, Animal, Planta, Objeto, Cor, Orientação Espacial, Tempo, etc. Elas são as mais básicas, mais usadas, mais reconhecíveis e categorizadas. A particularidade notável dessas categorias básicas é que elas são comuns à maioria das pessoas, têm dimensões e características básicas e, em diferentes culturas e contextos, essas categorias são linguisticamente semelhantes no sentido de haver correspondência semântica de língua para língua. 1.2.2. A relação espacial entre objetos na cognição 1.2.2.1. A teoria de Figura-Fundo A relação espacial é subjetiva no sentido de ser um resultado da cognição ativa de orientação, existência ou estado de movimento. No nosso caso, aproveitamos a perspetiva de Figura-Fundo para descrever uma relação espacial entre duas coisas. Esta teoria baseia-se no princípio da proeminência (Talmy, 2000, p.312). Uma perceção divide-se sempre em duas partes: a Figura e o Fundo. A Figura parece ser a estrutura mais central, sendo a parte que primeiro atrai a atenção do observador. O Fundo, por sua vez, os seus detalhes são ambíguos, sendo uma parte menos destacada. A teoria não é apenas um princípio cognitivo básico de organização espacial, mas também um princípio cognitivo básico de organização linguística de conteúdo concetual. Foi Talmy quem primeiro aplicou a teoria da Figura-Fundo à pesquisa da linguagem. Segundo Talmy (1978), as preposições espaciais, tais como on , above e along , interpretam uma relação esquemática por meio de ignorar propriedades espaciais (forma, cor, tamanho, etc.). Talmy (1978) sugere que existe uma assimetria na maioria das descrições do espaço, fazendo uma distinção entre um objeto de figura e um objeto de referência (fundo). Em geral, os termos espaciais especificam a posição de um objeto, a figura, ao descrever a sua relação espacial com outro objeto, a referência. Segundo Talmy (2000), as particularidades de Figura e de Fundo são:
31 1.2.3. O movimento e a cognição Perceber e conceber o movimento são processos necessários desde o início da vida. Os elementos do movimento que têm mais a ver com a cognição são a visualização do movimento e o deslocamento do corpo. O primeiro implica o movimento dos olhos, uma vez que o órgão visual faz parte essencial da perceção dos objetos. O órgão visual especifica a direção do movimento do observador, sendo essencial para o seu deslocamento no ambiente. Quando nos aproximamos dos objetos, eles parecem estar a mover-se em nossa direção, passando por nós e dirigindo-se para atrás de nós. Um segundo tipo de movimentos refere-se aos movimentos mais típicos do corpo, tais como andar , correr , etc. Nesses movimentos é mais fácil de ocorrer interações entre o sujeito e o ambiente. Além disso, diferentes objetos que se localizam em diferentes pontos do campo visual parecem dirigir-se a nós em velocidades diferentes. Por exemplo, imagine que se senta num comboio que se movimenta pelos campos. Os objetos distantes, como nuvens ou montanhas, parecem mover-se tão lentamente que ficam parados. Ao contrário, os objetos próximos, como árvores, parecem mover-se de forma mais rápida. Os muitos próximos em relação ao sujeito parecem passar de maneira a “voar”, o que quer dizer é que passam tão rápidos que até nem os podemos ver ao pormenor. Portanto, O movimento (virtual) da visão fornece a perceção sobre a distância entre o objeto e o observador, sendo variável de acordo com a relação entre a perspetiva de observação e a direção do trajeto (Evans, 2010, p.37). Na vida quotidiana, um comportamento frequente que contém o movimento visual é a leitura. A direção do movimento tem efeito enorme na cognição dos conceitos abstratos, tais como o tempo (Bottini et al. , 2015). Outro movimento importante para a cognição é o deslocamento do corpo. Com base em particularidades do movimento, os humanos conseguem, por um lado, distinguir o movimento biológico de um não biológico e, por outro, verificar diferentes tipos de movimento. Com a realização das atividades quotidianas, como caminhar até uma biblioteca , selecionar um livro da coleção e trazê-lo para a mesa , conferir e levar para casa , são movimentos que estão envolvidos por cognições complexas. Essas rotinas referem-se a múltiplas ações: sentir , perceber , mover e concetualizar num mundo tridimensional. São essas atividades que têm maior possibilidade de revelar as características básicas do pensamento e da linguagem (Oakley, 2010, p.214). Por exemplo, os modos cognitivos do
32 movimento do tempo têm as suas origens no deslocamento espacial no sentido de serem ilustrados pelos movimentos relativos entre o tempo e o observador. 1.3. O esquema imagético: o resultado da interação entre corpo e mundo A teoria dos esquemas imagéticos é referida por Lakoff e Johnson (1980c) nas ideias sobre a metáfora concetual. Johnson apresenta, em detalhes, a base empírica de esquema imagético e ilustra a sua função na construção e processos da semântica (Johnson, 1987). 1.3.1. A definição do esquema imagético O esquema imagético é uma rescrição resumida da experiência percetual mediante o mapeamento entre uma estrutura espacial e uma estrutura abstrata: (…) these patterns “emerge as meaningful structures for us chiefly at the level of our bodily movements through space, our manipulations of objects, and our perceptual interactions” (Johnson,1987, p.29). O esquema imagético VERTICAL, por exemplo, é formado pela nossa preferência e frequência de nos movermos sob uma direção de cima para baixo ou vice-versa. Temos experiências repetidas na vida quotidiana. Desta maneira, extraímos o esquema imagético com a lógica e a estrutura reservadas pelo eixo vertical para entender outros conceitos mais abstratos, tais como a emoção, a quantidade, etc. We grasp this structure of verticality repeatedly in thousands of perceptions and activities we experience every day, such as perceiving a tree, our felt sense of standing upright, the activity of climbing stairs, forming a mental image of a flagpole, measuring our children´s heights, and experiencing the level of water rising in the bathtub. The verticality schema is the abstract structure of these vertically experiences, images, and perceptions (Johnson, 1987, p.xiv). Além de Johnson, Turner (1993) usa o termo esquema imagético para referir essas formas abstratas que estruturam imagens. Segundo Turner, a imagem não se limita ao sentido de visualidade. Experimentamos imagens em várias modalidades: uma imagem visual de uma estrada, uma imagem auditiva de um grito, uma imagem olfativa do cheiro de rosas e assim por diante. Cada imagem não é totalmente única, mas compartilha alguma estrutura com outras imagens. Por exemplo, em relação à
33 imagem de grito, a imagem de berrar tem estruturas comuns, tais como o volume alto, o som áspero ou forte, o sentimento desconfortável, etc. We have a skeletal image of a scream that inheres within our rich images of particular screams. We have a skeletal image of a flat bounded planar space that inheres within our rich images of individual tables, individual floors, individual plateaus. We have a skeletal image of verticality that inheres within our rich images of individual trees, individual buildings, individual people (Turner, 1993, p.296). A ideia central de Turner é compatível com a de Johnson. Os esquemas imagéticos são imagens extremamente modelizadas que existem em cognições complexas (Turner, 1993, p.296). Gibbs e Colston (1995, p.349) definem o esquema imagético como representações analógicas de relações espaciais e movimentos no espaço no sentido de que: Even though image schemas are derived from perceptual and motor processes, they are not themselves sensorimotor processes. Instead, image Schemas are "primary means by which we construct or constitute order and are not mere passive receptacles into which experience is poured" (Johnson, 1987, p.30, citado por Gibbs e Colston, 1995). Image schemas exist across all perceptual modalities, something that must hold for there to be any sensorimotor coordination in our experience. As such, image schemas are at once visual, auditory, kinesthetic, and tactile (Gibbs e Colston, 1995, p.349). Entendemos que, por um lado, o esquema imagético vem das perceções dinâmicas, servindo como uma ferramenta cognitiva para construir os conhecimentos e, por outro, o esquema imagético existe em todos os processos cognitivos. Além disso, um esquema imagético é mais abstrato do que uma imagem visual, sendo estruturado em função dos padrões espaciais dinâmicas subjacentes aos movimentos espaciais que são encontrados em imagens concretas e reais (Gibbs, 2006, p.91). Sabemos que a interação entre o corpo e o mundo é dinâmica e sucessiva. Assim, acontecem em cada momento várias interações. A essencialidade do esquema imagético é, na verdade, uma estrutura abstrata que surge naquelas interações complicadas e corporificadas. Portanto, o esquema imagético demonstra um modelo fixo e resumido do sistema cognitivo na medida em que é repetível e entendível dentro dos sistemas de auto-organização humana. Os esquemas imagéticos não são apresentações estereotipadas, mas sim experiências abstratizadas emergentes de ação (isto é, interação entre o corpo
34 e o mundo). Dessa maneira, as propriedades relativamente fixas de um esquema imagético estão proximamente ligadas com a atividade sensório-motora (Gibbs, 2006, pp.114-115). 1.3.2. Classificação dos esquemas imagéticos Temos muitos tipos de esquemas imagéticos: de espaço limitado, de um caminho, de contacto e de orientações como cima/baixo, frente/trás e centro/periferia. Temos também esquemas imagéticos de estrutura relacional, tal como o de parte-todo. Temos, ainda, esquemas dinâmicos, como um movimento ascendente, mergulho, ou uma expansão, etc. Estruturamos em termos tais elementos dos esquemas imagéticos para entender alguns cenários desconhecidos ou objetos abstratos (Turner, 1993, p.296). No entanto, a classificação de esquemas imagéticos é diversificada. Segundo Johnson (1987, p.126), os esquemas imagéticos mais frequentes e nucleares são: CONTAINER, BALANCE, COMPULSION, BLOCKAGE, COUNTERFORCE, RESTRAINT REMOVAL, ENABLEMENT, ATTRACTION, MASS-COUNT, PATH, LINK, CENTER-PERIPHERY, CYCLE, NEAR-FAR, SCALE, PART-WHOLE, MERGING, SPLITTING, FULL-EMPTY, MATCHING, SUPERIMPOSITION, ITERATION, CONTACT, PROCESS, SURFACE, OBJECT, COLLECTION. Porém, os esquemas imagéticos não possuem todos a mesma importância na cognição. Alguns são mais acentuados e genéricos do que os outros. Isto quer dizer que uma relação genealógica entre diferentes esquemas imagéticos pode ser entendida em dois aspetos: inclusão e derivação, em função das suas compatibilidades e exclusividades no sentido de estrutura cognitiva e de lógica. O número de esquemas imagéticos pode sempre ser aumentado, contudo, nem todos os membros subsequentes mantêm a estrutura original dos esquemas imagéticos iniciais (vejam-se os exemplos de (3)) (Hampe, 2005, p.2). (1) a. CONTAINMENT/CONTAINER, PATH/SOURCE/PATH GOAL, LINK, PART-WHOLE, CENTER-PERIPHERY, BALANCE b. the FORCE schemas: ENABLEMENT, BLOCKAGE, COUNTERFORCE, ATTRACTION, COMPULSION, RESTRAINT, REMOVEL, DIVERSION (2) a. CONTACT, SCALE, NEAR-FAR, SURFACE, FULL-EMPTY, PROCESS, CYCLE, ITERATION, MERGING, MATCHING, SPLITTING, OBJECT, COLLECTION, [MASS-COUNT], [SUPERIMPOSTION] b. UP-DOWN, FRONT-BACK (3) a. INANIMATE MOTION, ANIMATE MOTION, SELF MOTION, CAUSED MOTION (Mandler, 1992, pp.593-596), LOCOMOTION (Dodge e Lakoff, 2005)
35 b. EXPANSION (Turner, 1991, p.171), STRAIGHT (Cienki, 1998), RESISTANCE (Gibbs et al. 1994, p.235), LEFT-RIGHT (Clausner e Croft, 1999, p.15) Muitos esquemas imagéticos propostos por Johnson são apenas subsidiários dos mais genéricos. Por exemplo, foi observado que em muitos dos esquemas imagéticos, TRAJETO e CONTENTOR funcionavam com destaque (Peña,1997). Portanto, é argumentado que TRAJETO e CONTENTOR são esquemas básicos, ao passo que o resto pertence ao grupo subsidiário, seja como dependências concetuais ou como implicações lógicas (Peña,1998). Subgroups TRAJETO FORCE, NEAR-FAR, LINK CONTENTOR FULL-EMPTY, WHOLE-PART, CENTER-PERIPHERY Tabela 3. Esquema imagético principal e o seu grupo subsidiário Tal como se pode observar, entre diferentes esquemas imagéticos existem graus diferentes de dependência. Assim, o esquema CENTRO-PERIFERIA não pode ser agrupado em COMPLETO-VAZIO, pois o primeiro depende do esquema PARTE-TUDO, enquanto o segundo depende diretamente do esquema CONTENTOR. Aqui pode ser acrescentado que o esquema imagético VERTICAL depende do TRAJETO, uma vez que a orientação CIMA-BAIXO implica um caminho vertical que possuía a mesma lógica básica e elementos estruturais em relação ao esquema imagético TRAJETO (Peña, 1998). A classificação existente é discutível. Embora esses esquemas imagéticos subsidiários constituam um determinado componente de um esquema mais genérico, eles têm lógicas próprias que não estão contidas no esquema genérico. Peña (1999, pp.203-204) toma o esquema imagético FORÇA como exemplo e lista três tipos de derivação do esquema imagético genérico para o esquema imagético específico: a) por dependência concetual, b) por implicação lógica e c) por enriquecimento. Figura 1. ( Figure 1 , uma hierarquia em que o esquemo TRAJETO (PATH no inglês), Peña, 1999, p.205 )
36 Ao discutir a relação entre o esquema imagético e o domínio cognitivo, Clausner e Croft acreditam que os esquemas imagéticos são mais convenientes de serem analisados como um domínio especial, porque muitas propriedades de domínios também são compartilhadas pelos esquemas imagéticos (1999, p.2). Assim como se pode observar na Tabela 4, UP-DOWN, FRONT-BACK são dois domínios que compartilham propriedades espaciais. Os esquemas imagéticos são um subtipo de domínio. Neste sentido, com base numa coleção dos esquemas imagéticos feita por Johnson (1987), Lakoff e Turner (1989), Clausner e Croft (1999) classificam-nos de acordo com propriedades de domínio cognitivo do domínio cognitivo: SPACE UP-DOWN, FRONT-BACK, LEFT-RIGHT, NEAR-FAR CENTER-PERIPHERY, CONTACT SCALE PATH CONTAINER CONTAINMENT, IN-OUT, SURFACE, FULL-EMPTY CONTENT FORCE BALANCE, COUNTERFORCE, DIVERSION, ATTRACTION UNITY/MULTIPLICITY MERGING, COLLECTION, SPLITTING, ITERATION, PART-WHOLE, MASSCOUNT, LINK IDENTITY MATCHING, SUPERIMPOSTION EXISTENCE REMOVAL, BOUNDED SPACE, CYCLE, OBJECT, PROCESS Tabela 4. Uma classificação dos esquemas imagéticos (Clausner e Croft, 1999, p.15) 1.3.3. As dimensões dinâmica e estática dos esquemas imagéticos Desde o início, Johnson (1987, p.29) enfatizou que os esquemas imagéticos são formações dinâmicas, ao invés de imagens estáticas e permanentes. Os esquemas imagéticos são estruturas de uma atividade por meio da qual organizamos a nossa experiência de maneiras que podemos compreender, e são flexíveis no sentido de que podem assumir qualquer quantidade de instanciações específicas sob diferentes contextos (Johnson 1987, pp.29-30). A natureza dinâmica dos esquemas imagéticos tem sido subestimada desde Johnson (1987). Por uma variedade de razões relacionadas com as preocupações primordiais dos principais pesquisadores e com algumas suposições básicas geralmente incontestadas, os esquemas imagéticos foram analisados em grande parte como estruturas estáticas. Eles passaram a ser considerados dinâmicos apenas no sentido de que apresentam mudanças contínuas de localização, como um objeto se move ao longo de um caminho (Mandler,
37 1992, p.591). Por outras palavras, os esquemas imagéticos são considerados para representar conteúdo dinâmico, mas esse conteúdo é separado da sua estrutura. A chave para pensar a estrutura dinâmica do esquema imagético é reconhecer o papel essencial dos processos de construção. Em vez de pensar nesses processos como operações relativamente independentes em esquemas imagéticos, precisamos pensá-los como partes integrantes ou estendidas da própria estrutura esquemática de imagem. Além disso, precisamos de reconhecer o papel crucial de um concetualizador que está incessantemente ativo em qualquer interpretação dinâmica. Um ponto de vista concetual faz parte das relações estruturais de qualquer esquema imagético (Johnson, 1987, p.36), por um lado e, por outro, um concetualizador não é um observador estático que fica passivamente separado do esquema imagético (Johnson, 1987, pp. 166-177). Quase todos os esquemas imagéticos possuem características tanto estáticas quanto dinâmicas (Cienki, 1997, p.6), porque a maioria dos esquemas imagéticos representa em alternativa um estado e um processo. 1.3.4. O componente cultural do esquema imagético O esquema imagético não é apenas uma relação espacial estática ou lógica entre objetos, nem uma entidade concreta simples, mas sim um evento que contém o processo interativo. Por exemplo, uma metáfora como ANGER IS HEATED FLUID IN A CONTAINER não é simplesmente uma generalização de significado linguístico: For instance, the conceptual metaphor ANGER IS HEATED FLUID IN A CONTAINER takes the image schema for containment as part of its source domain and maps this image-schematic structure onto anger, which gives rise to a number of interesting entailments. Thus, people know that when the intensity of anger increases, the fluid in the container rises (e.g., His pentup anger welled up inside of him), people know that intense heat produces steam and creates pressure on the container (e.g., Bill is getting hot under the collar, Jim 's just blowing off steam, and He was bursting with anger), and people know that when the pressure of the container becomes too high, the container explodes (e.g., She blew up at me) (Gibbs, 1999, p.148). Por exemplo, o esquema imagético CONTENTOR pode ilustrar-se com um evento que está cheio de antecipação, surpresa, alegria, etc. Os esquemas imagéticos não são simplesmente dados pelo corpo, mas são construídos a partir de interações orientadas pela cultura (Gibbs, 1999, p.154). Portanto, os esquemas imagéticos não são meramente representações da experiência corporificada universal, mas estão crucialmente ligados à cognição sociocultural específica. Segundo
38 Kimmel (2006, p.288), há dois passos que contribuem para a análise do aspeto sociocultural do esquema imagético: a) widening the focus by studying compound image schemas e b) developing a theory of situated image schemas . No primeiro caso, o esquema imagético é visto como algo que não acontece isoladamente numa experiência. Ele ocorre juntamente com outros esquemas imagéticos e forma-se desta maneira um esquema imagético complexo que às vezes estão envolvidos num contexto cultural específico (Kimmel, 2006, p.289). No segundo caso, podemos enquadrar a própria noção de esquema imagético de forma mais ampla, descrevendo subvariantes adaptativas à situação de esquemas genéricos. O esquema imagético situado enfatiza duas ideias. Por um lado, a aprendizagem de esquemas imagéticos particulares e complexos muitas vezes precisa de práticas ou contextos formativos especiais. Por outro lado, a aquisição de um esquema imagético é realizada através de práticas corporais que são omnipresentes na vida quotidiana (Kimmel, 2006, pp.296-298). Ambos os casos implicam um contexto cultural. Aproveitamos o esquema CONTENTOR como exemplo. Segundo Kimmel (2006, p.299), cada esquema CONTENTOR é descrito como qualquer outro, embora um contentor como a caixa física do nosso corpo, uma garrafa térmica e o modelo religioso de uma entidade abrangente tenham diferenças notáveis. A metáfora da qual o domínio-fonte é o esquema imagético CONTENTOR é variável em diferentes línguas. Por exemplo, as metáforas temporais do esquema imagético CONTENTOR são variáveis em maneiras de retirar o tempo de um contentor . Retiramos alguns exemplos em mandarim, hindi e finlandês (Zhang, 2013, pp. 109-110): Mandarim 抽出时间, 拿出时间, 时间排的满满的 (draw out time, take out time, arrangement/full/time) Hindi samay nikaalnaa (time/take out) samay kee poorrnta/paripoorntaa main (time/of/completeness/fullness/in) khaalee waqt (empty/time) Finlandês aika tulee tayteen (time becomes full) aika umpeutuu (time close up) Tabela 5. Expressões diferentes em relação a uma ação de levar um tempo para fazer trabalhos O esquema imagético CONTENTOR não é algo preexistente na interação das crianças em relação aos objetos. Em vez disso, as crianças utilizam objetos como contentor para cumprir diferentes
39 funções e necessidades. Como a função do objeto é construída pela participação das crianças em experiências triádicas, criança-adulto-objeto, propõe-se que os esquemas imagéticos não sejam naturais e surjam diretamente, mas sim um produto desenvolvível, pragmático e cultural (Alessandroni e Rodríguez, 2017, p.144).
40 CAPÍTULO 2 A METÁFORA E A SEMELHANÇA 2.1. Classificação de semelhança e semelhanças metafóricas As coisas estão interligadas por razões diferentes, tal como a semelhança compartilhada entre elas. Teoricamente, quaisquer duas coisas diferentes têm semelhanças potenciais, só que não são todas óbvias e percebíveis devido à limitação da competência cognitiva. Esse tipo de cognição geral formada pelos humanos na comunicação e contacto de longo prazo com o mundo objetivo é a premissa objetiva de seu pensamento por analogias. Se houver uma ativação de analogia, as pessoas tentarão descobrir as semelhanças entre entidades envolvidas. O novo objeto que surge no nosso entendimento deve ser conectado com algo que já conhecemos. Caso contrário, será incompreensível. A semelhança entre coisas depende do padrão de avaliação, por um lado e, por outro, tem o grau diferente em correspondência. Por exemplo, (…) a chair shares with a stool the characteristic use of seating one person, but may differ in having a substantial support for the back. When we use language to classify our experience some of the features will be regarded as critical for that classification. So, in the previous example, possession of a back support is, at least for me, critical in distinguishing chairs from stools. Other features of the two objects will be non-critical or peripheral as far as classification is concerned: e.g., a particular chair, say an armchair, could be on castors, and without legs, and share this feature with a particular stool (Goatly, 1997, p.15). A analogia/semelhança desempenha um papel importante no pensamento humano. Em primeiro lugar, a semelhança desempenha um papel fundamental nas teorias cognitivas. As ações de comparar eventos, objetos e cenários resultam no estabelecimento das semelhanças entre essas realidades e têm influência enorme nos processos cognitivos. Em segundo lugar, a semelhança examina a estrutura de nossas entidades mentais e os processos que operam nessas entidades. Dado que os psicólogos não têm um microscópio com acesso direto às representações das pessoas sobre seu conhecimento, as avaliações de semelhança fornecem um padrão poderoso, ainda que indireto, para os componentes do processo de representação. Por último, a semelhança ocupa num lugar cognitivo entre uma perceção primária e o conhecimento de nível superior por ser fundamentada por
47 A direção do mapeamento A propriedade ontológica do domínio O grau de convencionalidade Metáfora de analogia (inclui-se GENERIC-ISSPECIFIC metaphor ) Reverso, simétrico Ex. DEATH IS SLEEP O mapeamento corre entre conceitos de um mesmo tipo Ex. One state of inactivity is mapped onto another; one type of physical mishap is mapped onto another, one intelligent person is mapped onto another, etc. Uma vez que a imaginação humana é ilimitada em sua capacidade de impor semelhança a objetos diferentes, as metáforas de analogia são menos restringidas. Metáfora de correlação Unidirectional Ex. MORE IS UP O mapeamento corre entre conceitos de diferentes tipos Ex. DIFFICULTIES ARE BURDENS As metáforas que são baseadas em correlação vêm de experiências específicas e recorrentes e, portanto, são muito mais restringidas. Tabela 6. Diferenças entre a metáfora de correlação e a metáfora de analogia 2.1.2. Semelhança de atributo e semelhança relacional Gentner (1983,1985) refere duas semelhanças diferentes na metáfora. Uma é semelhança de atributo e outra é semelhança relacional. Como é que as pessoas percebem o significado da frase an electric battery is like a reservoir ? Poderíamos supor que elas simplesmente aplicam os seus conhecimentos sobre CONTENTOR para entender baterias. Quanto maior a correspondência, mais entendível a analogia. O “grau de sobreposição ( degree of overlap )” parece razoavelmente ser funcional para entender uma comparação de semelhança literal (Gentner, 1983, p.155). Outro exemplo do mapeamento de analogia refere-se a uma simples analogia aritmética 3:6::2:4. Não importa quanto o número 3 tem em comum com 2, nem 6 com 4. Não são os números que compartilham ou não os recursos que leva em conta a analogia, mas sim a relação matemática "duas vezes maior que" que se mantém entre 3 e 6 e também entre 2 e 4 (Gentner,1983, p.156). Por meio de distinguir a semelhança de object-attributes da semelhança de inter-object relationships , Gentner refere uma ideia de Structure Mapping que, por um lado, enfatiza o mapeamento das relações entre objetos em vez dos atributos e, por outro lado, revela uma estrutura hierárquica entre as relações mapeadas (Gentner,1983, pp.155-156). Confirma-se, pelo estudo posterior de Gentner e o seu colega Landers (1985), que os adultos preferem a mtáfora que ocorre mediante a semelhança de inter-object relationships. Além disso, os adultos geralmente concentram-se em semelhanças relacionais numa interpretação das metáforas.
48 Gentner e Landers (1985) definem três semelhanças que variam de complexidade cognitiva: surface similarity , first-order similarity e higher-order similarity : a) Surface Similarity: similarity among the objects in the original scenarios and the objects in the test scenarios. b) First-order Similarity: similarity among the vents and first-order relational predicates between the original and test scenarios. c) Higher-order similarity: similarity in the higher-order relational structure-either causal structure or other kinds of constraining structure-between the original and test scenarios (Gentner, 1985). O resultado do estudo de Gentner e o seu colega Landers (1985) confirma que as semelhanças relacionais ao nível superior são importantes no pensamento analógico. As correspondências de aparência superficial seriam mais fáceis para as pessoas identificarem, porém, as semelhanças mais difíceis de perceber são as que têm a maior contribuição da inferência analógica (Gentner, 1985). Além disso, Gentner e Toupin (1986) enfatizam a característica da analogia, i.e., systematicity por sua relação íntima com mappable relational chain . Num sistema das relações, as relações do nível superior condicionam relações do nível inferior (no sentido cognitivo): Part of our understanding about analogy is that it conveys a system of connected knowledge, not a mere assortment of independent facts. The systematicity principle is included to formalize this tacit preference for coherence and a predicate that belongs to a mappable system of mutually interconnecting relations is more likely to be imported into the target than is an isolated predicate. A system of relations refers to an interconnected predicate structure in which higher-order predicates enforce constraints among lower-order predicates (Gentner e Toupin, 1986, p.280). Segundo Structure Mapping , uma analogia é um mapeamento do conhecimento de um domínio (a fonte) para outro (o alvo). Neste processo, as relações que existem dentro dos objetos domínio-fonte permanecem no domínio-alvo. Assim, uma analogia é uma ferramenta de perceber semelhanças relacionais independentemente dos objetos aos quais essas relações se aplicam. Gentner (1988) enfatiza sempre que a semelhança relacional é mais importante do que a semelhança de atributo numa interpretação da metáfora. Em primeiro lugar, embora as classificações e configurações físicas dos objetos contivessem tanto atributos quanto relacionamentos de objetos, normalmente, apenas as informações de relacionamento são preservadas na interpretação da metáfora:
49 For example, one subject described "cigarette" as follows: "chopped cured tobacco in a paper roll/with or without a filter at the end/held in the mouth/lit with a match and breathed through to draw smoke into the lungs/found widely among humans/known by some cultures to be damaging to the lungs/once considered beneficial to health." This description contains both relational and attributional information. But the same person, when interpreting the metaphor "Cigarettes are like time bombs," included only relational information: "They do their damage after some period of time during which no damage may be evident." (Gentner, 1988, p.49). Em segundo lugar, as metáforas são mais aptas quando puderem encontrar interpretações de relacionamento: Subjects' aptness ratings for metaphors correlated positively with the judged relationality of their interpretations. In contrast, attributional commonalities did not contribute to aptness: The correlation between aptness ratings and attributionality was nonsignificant and negatively trending. Adults thus demonstrate a relational focus both in interpreting and in judging metaphor (Gentner, 1988, p.49). O papel central das relações entre objetos na compreensão da metáfora também é verificado pelo estudo empírico de Tourangeau e Rips (1991): (…) subjects judged which of two types of interpretation better captured the meaning of metaphors drawn from modem poetry. For each metaphor, one interpretation was based on features shared by the teor and vehicle; the other was based on emergent features. Subjects overwhelmingly preferred the interpretations based on the emergents (Tourangeau e Rips 1991, p.452). Além disso, as pessoas tendem a interpretar uma metáfora pela perspetiva de relações experimentais mais do que por simples atributos, mesmo para metáforas que são criadas com base em tanto a semelhança de atributo quanto a semelhança relacional (Tourageau e Rips, 1991). Gentner et al . (2001) confirmam com mais detalhes no estudo mais recente sobre essas duas semelhanças (a de atributo e a relacional) com exemplos a seguir: (1) A man is not necessarily intelligent because he has plenty of ideas, any more than he is a good general because he has plenty of soldiers (Chamfort). (2) My job is a jail. (3) His eyes were burning coals. (4) Tires are like shoes (Gentner et al. , 2001, p.199).
50 As metáforas (1) e (2) podem ser consideradas como metáforas analógicas que se baseiam principalmente em semelhanças empíricas relevantes. Mas as metáforas também se baseiam em atributos comuns de objetos, tais como em (3), ou ambos, como em (4). De acordo com a Teoria de structure-mapping , as relações entre objetos em domínio-fonte também se mantêm entre objetos em domínio-alvo, independentemente de os objetos de dois domínios serem ou não intrinsecamente semelhantes. Gentner e Kurtz (2005) acentuam ainda o papel da semelhança relacional numa categorização com a ajuda do estudo de Medin e Shoben (1988). Segundo Medin e Shoben, nuvens cinzas são consideradas mais parecidas com nuvens negras do que com nuvens brancas , mas cabelos grisalhos são mais relevantes a cabelos brancos do que a cabelos pretos . Isto porque o atributo da cor, nestes casos, já não funciona como um padrão para a categorização de nuvens ou de cabelos. Em vez disso, a semelhança relacional está acentuada no sentido de que: (…) gray hair and white hair share a causal relation to aging in humans, whereas gray clouds and black clouds share a causal relationship to storms. When relational structure is considered as a key component of category representation, these effects can be derived from relational commonalities. Thus, when relational similarity is taken into account, the seeming dispute between similarity-based and theory-based views of categorization often vanishes. Indeed, the debate may be largely the result of an overly restrictive account of similarity (Gentner e Kurtz, 2005, pp.168-169). A ideia de Gentner e Kurtz (2005) é notável no entendimento da semelhança metafórica, i.e., a semelhança de atributo demonstra uma correspondência entre diferentes características, ao passo que a semelhança relacional revela uma coerência entre diferentes características. 2.2. Mecanismo de ocorrência da metáfora: baseia-se em semelhança ou cria a semelhança Na longa história do conceito de metáfora, dos retóricos gregos até o limiar do século XX, a metáfora é sempre considerada como algo que acontece entre duas "coisas". De acordo com a Linguística Cognitiva, universalmente é confirmado que a metáfora acontece ao nível do domínio. A noção de domínio é aplicada de maneiras diferentes em variáveis áreas da Linguística Cognitiva, nas quais é particularmente importante e essencial para a análise da metáfora por ser um construto
51 cognitivo básico. O domínio pode ser entendido por dois lados: um é domínio cognitivo e outro é domínio linguístico. Devido a conexão construída entre a cognição e a língua pela Cognição Corporificada, os dois tipos de domínio formam também uma relação próxima. Os domínios não são compostos analógicos ou imagéticos de experiência como os esquemas imagéticos. Por um lado, um mesmo esquema imagético pode servir como base a vários domínios no sentido de que se aplica a diferentes aspetos ou dimensões de um domínio e, por outro, o mesmo domínio possivelmente contém mais de um esquema imagético (Langacker,1987). O domínio existe em quase todas as estruturas cognitivas: (…) any cognitive structure – a novel conceptualization, an established concept, a perceptual experience, or an entire knowledge system – can function as the domain for a predication” (Langacker, 2002, p.61). No entender de Langacker (1987), os domínios são “entidades cognitivas no sentido de serem experiências mentais, espaços representacionais, conceitos ou complexos concetuais”. A partir do ponto de vista linguístico, um domínio é considerado como um “contexto para a caracterização de uma unidade semântica” (Langacker, 1987, p.147). A ideia pode ser entendida com o exemplo de um arco de círculo . Um conceito de arco pressupõe outros conceitos, nos quais temos o de círculo . Um arco é definido por círculo ; caso contrário, seria apenas um segmento de linha curva. O que pensamos intuitivamente como o próprio arco é o profile , enquanto a noção de círculo que ela pressupõe é sua base (Langacker, 1987, pp. 183-184). Uma base sempre serve a vários profiles de diferentes conceitos. Por exemplo, um círculo é a base não apenas para [ARC], mas também para [DIAMETER], [RADIUS], [CHORD], etc. Então, especificamente, um domínio pode ser entendido como uma estrutura semântica que funciona como base para pelo menos um profile de conceito (normalmente, muitos perfis). Por exemplo, o conceito de segunda-feira é profiled no domínio de semana que, por sua vez, é entendido no domínio de circular dia-noite que, é finalmente, entendido com a referência ao domínio TEMPO. Langacker (1990) desenvolve a ideia do domínio através da distinção entre domínio básico e domínio abstrato . O primeiro refere-se aos domínios de ESPAÇO ou TEMPO, que não podem ser divididos em domínios mais fundamentais. Assim como o exemplo que já é referido. Além disso, o domínio básico sempre está relacionado com as pré-concetuais experiências corporificadas de maneira
52 que oferece uma possibilidade para entendermos outros domínios (Evans e Green, 2006, p.234). O domínio abstrato é, então, entendido como: “… any nonbasic domain, i.e., any concept or conceptual complex that functions as a domain for the definition of a higher-order concept”. “… an abstract domain is essentially equivalent to what Lakoff… terms an … idealized cognitive model … and what others have variously called a frame, scene, schema or event script …” (Langacker, 1987, p.150) A relação entre um domínio abstrato e o domínio básico que Langacker (1987) pressupõe não é simplesmente taxonómica. Em alternativa, é uma relação ilustrada por conceito próprio com a suposição ou pressuposição do contexto (Croft, 1993). Por exemplo, The word shape stands for the domain as mass noun, but as a count noun ( a shape ) it is a more general or schematic concept subsuming [CIRCLE], [SQUARE], [TRIANGLE], etc. A more general or schematic concept is not the domain for the particular concept; in fact, it is itself profiled in the same domain as its particular concept (Croft, 1993, p.340). De facto, na maioria dos casos, o conceito sempre está envolvido em diversos domínios. Por exemplo, um ser humano deve ser definido em relação aos domínios de objetos físicos, coisas vivas e agentes volitivos, emoção etc. A combinação de todos os domínios forma um conceito HUMANO e é definido como um domain matrix . A diferença entre o domínio e o domain matrix apenas se apresenta no sentido de grau de complexidade cognitiva (Langacker,1987, p.152). Segundo Taylor (1989, p.84), qualquer concetualização ou configuração de conhecimento, por mais simples ou complexa que seja, pode servir como o domínio cognitivo para caracterizar os significados. Por um lado, o domínio de CIRCLE contém conceitos de ARC, DIAMETER, RADIUS e assim por diante e, por outro, o CIRCLE de si próprio está dentro do domínio de um espaço bidimensional Neste sentido, uma estrutura semântica faz parte de um domínio (quando é definido), ao mesmo tempo, pode ser um domínio independente (quando contribui para definir outros conceitos) (Croft, 1993, p.339). Lakoff (1993,1999) revela que os mapeamentos nas metáforas concetuais estão entre dois “domínios de experiência”, de modo que um domínio-alvo é entendido em termos de um domínio-fonte. No entanto, eles não descrevem nenhum critério para o que pode constituir qualquer tipo de domínio.
53 A partir de vários trabalhos de Lakoff, percebe-se que os domínios abrangem muitos aspetos de uma experiência que são associados concetualmente. Langacker e Lakoff contribuem com tentativas para estudar uma base cognitiva, em vez de linguística, dos domínios. Croft (1993), por sua vez, fornece uma visão mais inclinada para a dimensão linguística. Croft (1993) define o conceito de domínio com base na análise dos trabalhos sobre metáfora concetual à luz da obra de Langacker. Ele relembra o exemplo de Langacker (1987, pp.183184) de um arco de círculo: nem toda linha curva é um arco, pois um arco pressupõe o conceito de círculo para sua definição. Assim, um círculo serve de base, de fundo, sobre o qual entendemos o que é um arco (e neste caso o arco é o perfil relevante). Além disso, Croft (1993) enfatiza que a relação perfil-base não é a mesma que a relação centro-periferia sobre a definição enciclopédica da semântica de alguma palavra: The base is that aspect of knowledge which is necessarily presupposed in conceptualizing the profile. Peripheral knowledge is knowledge associated with a concept that is not as generic, characteristic, conventional, and intrinsic as more central knowledge. Peripheral knowledge is not presupposed knowledge, but additional, less central asserted knowledge. Of course, peripheral knowledge as well as central knowledge is organized in a profile-base fashion (Croft, 1993, pp.338-339). Sendo assim, Croft (1993, p.339) define o domínio como uma estrutura semântica que funciona como base para pelo menos um perfil ( profile ) de conceito. O trabalho de Johnson (1997) faz o aspeto linguístico do domínio mais claro de acordo com a pesquisa sobre a aquisição de metáforas por crianças que tem propósito de construir uma ligação entre domínios cognitivos e domínios envolvidos na metáfora. Segundo Johnson (1997), os bebés ou crianças de idade menor ainda não entendem conscientemente a diferença entre domínios sensóriosmotores, como UP, e domínios subjetivos, como MORE. Desta maneira, forma-se a base de metáforas primárias, tais como MORE IS UP. Os domínios referidos por Langacker são mais genéricos do que aqueles empregados em metáforas concetuais, uma vez que nem todos os domínios no sentido de Langacker são convenientes de serem mapeados metaforicamente. Apenas certos campos, como a experiência de se mover pelo espaço ou a perceção de luz e escuridão, são suficientemente salientes e complexos para serem usados produtivamente em metáforas concetuais. Então, é necessário fazer uma definição mais
54 limitada que se aplique especificamente a domínios metafóricos (Sullivan, 2013, pp.21-22). Sullivan usa metaphor input domains para designar os domínios que estão realmente envolvidos numa metáfora: A metaphor input domain can be defined as the cognitive structure comprising all schematic information potentially available for mapping via a given metaphor. In other words, if a structure or type of structure can be observed as mapping metaphorically, based on systematic linguistic data or extralinguistic evidence, this structure or type of structure can be posited to exist in both the metaphoric source and target domains (Sullivan, 2013, pp.22-23). Um input domain não inclui nenhuma estrutura além daquela que pode ser mapeada metaforicamente. As representações de um input domain também não incluem nenhuma estrutura, exceto aquela para a qual a ligação referente ao domínio-alvo pode ser real ou potencialmente produzida (Sullivan, 2013, p.23). 2.2.1. Analogia e Substituição (Aristóteles e Richards) Aristóteles 10 trata a metáfora ao nível da semântica (Leezenberg, 2001, p.32). A definição de metáfora de Aristóteles é mais genérica e abrangente do que a definição atual de metáfora . Na Poética , Aristóteles ([335 a.C.- 323 a.C.]1965) propõe quatro tipos de metáfora: género por género, género por espécie, espécie por género e analogia. As primeiras três categorias concentram-se numa substituição semântica no sentido de substituir uma palavra por outra palavra. O último, por sua vez, trata a metáfora como analogia, a transferência metafórica ocorre de um domínio do conhecimento para outro (Aristóteles, [335 a.C.- 323 a.C.], 1965). O quarto tipo discutido por Aristóteles é o caso mais parecido com a metáfora discutida no nosso estudo. Em relação ao seu quarto tipo de metáfora, Aristóteles dá a seguinte descrição: Metaphor by analogy means this: when B is to A as D is to C, then instead of B the poet will say D and B instead of D. And sometimes they add that to which the term supplanted by the metaphor is relative. For instance, a cup is to Dionysus what a shield is to Ares; so he will call the cup "Dionysus's shield" and the shield "Ares' cup." Or old age is to life as evening is today; so he will call the evening "day's old age" or use Empedocles' phrase; and old age he will call 10 Um filósofo e polímata da Grécia Antiga, 384 a.C.-322 a.C.
55 "the evening of life" or "life's setting sun." (Aristóteles, [335 a.C.- 323 a.C.]1965, citado por Levin, 1977, p.91). A relação género/espécie envolvida na função metafórica das primeiras categorias reflete fundamentalmente uma classificação ontológica (Levin, 1982, pp.34-35). O retórico romano Quintiliano 11 indica uma nova visão sobre a metáfora e propõe a ideia da Substituição. A metáfora cria uma conexão entre dois objetos com base na semelhança. Assim, um objeto pode ser substituído por outro no sentido de entendimento e perceção. Mediante a Teoria da Substituição, a maneira de determinar a semelhança depende da forma de substituição entre os objetos. Por outras palavras, a forma na qual as pessoas reconhecem a semelhança entre objetos é condicionada por múltiplos entendimentos dos objetos (Wang, 2007, p.18). A Teoria da Comparação também é designada por Teoria da Semelhança ou Teoria Analógica. A comparação das características entre o domínio-fonte e o domínio-alvo (na terminologia da Teoria da Metáfora Concetual de Lakoff e Johnson) é o processo básico no qual se constitui a metáfora. Richards 12 (1929) entende inicialmente a metáfora como uma transferência: A metaphor is a shift, a carrying over of a word from its normal use to a new use. In a sense metaphor the shift of the word is occasioned and justified by a similarity or analogy between the object it is usually applied to and the new object. In an emotive metaphor the shift occurs through some similarity between the feelings the new situation and the normal situation arouse (Richards, 1929, p.221). Além disso, todos os objetos novos são entendidos por meio de conexões com coisas previamente conhecidas: (…) all thinking is sorting. To think about anything is to take it as a member of a class and not merely as a particular. When we are presented with a lamp, say, recognition depends on our previous experiences with lamps and on our abstractive power which enables us to put the given object in the class of lamps; and it is in virtue of the comparison of the shared qualities that we apply "lamp" to the given presentation. To take something as of a sort makes evident the parallel involved. If there are no qualities that the given object has in common with past objects, there would be no thinking; if there are no characteristics which the two terms of a 11 Marco Fábio Quintiliano (em latim: Marcus Fabius Quintilianus ; 35 - 95) foi um orador e professor de retórica romano 12 I. A. Richards, Educator, 1893-1979.
56 metaphor have in common, there would be no metaphor, no comparison (Richards, 1929, citado por Bilsky, 1952, p.131). Segundo Richard, as metáforas são feitas mediante dois tipos de semelhança: uma semelhança entre objetos e uma de sensação ou perceção entre eventos. A mesma palavra pode ser interpretada em ambas as situações em contextos diferentes. Por exemplo: If you call a man a swine, for example, it may be because his features resemble those of a pig, but it may be because you have towards him something of the feeling you conventionally have towards pigs, or because you propose, if possible, to excite those feelings (Richards, 1929, citado por Bilsky, 1952, p.132). A Teoria da Comparação confirma que a base da metáfora é a semelhança. Richards propôs mais tarde a Teoria da Interação da metáfora para evitar a limitação em interpretar a metáfora ao nível semântico. When we use a metaphor we have two thoughts of different things active together and supported by a single word, or phrase, whose meaning is a resultant of their interaction (Richard, ([1936]1956, p.93). Com objetivo de facilitar um estudo da metáfora, Richards ([1936]1956) define "teor" e "veículo" para referir dois elementos constitutivos da metáfora. Os dois pensamentos que estão envolvidos numa mesma palavra e que resultam num novo significado desta palavra chamam-se "teor" e "veículo" (Richards, ([1936]1956, p.96). As funções do teor e do veículo na metáfora podem ser entendidas em três passos: primeiro, o teor e o veículo interagem; segundo, a interação é um processo de comparação; e terceiro, a interação depende do contexto. De acordo com Richards ([1936]1956), a copresença do veículo e do teor resulta num significado (a ser distinguido do teor) que não é atingível sem aquela interação. Neste contexto, a definição de metáfora que é referida por Richards é renovada: uma palavra é usada como metáfora quando ela implica uma semântica que é resultado da interação entre "teor" e "veículo". Caso não seja possível distinguir o "teor" do "veículo", a semântica de uma palavra é um significado original e prototípico. Se pudermos distinguir pelo menos dois significados interativos, então consideramo-la como metáfora (Richards, [1936]1956, p.119):
63 Segundo Johnson (1999), a perceção de dois domínios cognitivos diferentes é misturada (ou seja, confundida) na infância. Após a aquisição do conhecimento no período de adulto, os dois domínios cognitivos diferentes são separados. Por isso, a teoria da conflação indica duas fases de desenvolvimento dos domínios cognitivos: a) a fase de conflação, “durante o qual se estabelecem conexões entre domínios co-ativos e os domínios não são experienciados como separados”; e b) a fase de diferenciação, “durante o qual domínios que antes eram co-ativos são diferenciados em domíniofonte e domínio-alvo metafóricos” (Lakoff e Johnson, 1999, p.49). Johnson (1999) confirma a Conflation Hypothesis por meio de estudar a semântica do verbo see (ver) em inglês com crianças e adultos, respetivamente. (…) children first associate see not with a strictly visual meaning that is extended to the mental domain, but rather with one that conflates notions of visual investigation with notions of states and changes of awareness, and that this conflated meaning is what motivates the acquisition of the conventional adult uses that have been regarded as metaphorical (Johnson, 1999, p.155). As crianças assimilam vários usos de see ( ver ), incluindo aqueles que são tipicamente não visuais para adultos. For the child, then, I see what you mean and I see a dog may not be different use-types. That is, they may map see onto a situational representation - that is richer than the adult visual sense (Johnson, 1999, p.166). Consequentemente, para um adulto, uma aprendizagem de usos de ver é uma diferenciação de ver no sentido de ação em relação a ver no sentido de perceber, em vez de ser uma extensão do domínio original de ver para criar um novo domínio concetual (perceber, entender, etc.). A teoria da Primary Metaphor de Grady (1997) apresenta algumas ideias semelhantes à de Johnson (1997). Ambas enfatizam a importância de primary scenes e primary source em metáfora. Grady (1997) refere pela primeira vez o conceito de primary metaphor na sua tese de doutoramento.
64 Figura 5. De eventos básicos a metáforas primárias (Figure 1 From basic events to primary metaphors , Grady, 1997, p.20) As cenas primárias são componentes universais da experiência humana, definidas por mecanismos e habilidades cognitivas básicas, que se relacionam em algum sentido saliente com a interação orientada para um objetivo com o mundo (Grady,1997, p.24). Grady (1997, p.37) observou que algumas metáforas concetuais poderiam ser decompostas em outras mais simples. Por exemplo, a metáfora THEORIES ARE BUILDINGS é formada por duas metáforas mais básicas: ORGANIZATION IS PHYSICAL e STRUCTURE VIABILITY IS ERECTNESS. Essas metáforas primárias poderiam então ser combinadas para formar outras mais complexas. Rakova (2002) levanta algumas dúvidas sobre a teoria da Conflação e a da metáfora primária. A ideia de que as metáforas primárias resultam de correlações regulares na experiência inicial, de modo que os dois domínios não são experimentados como separados é difícil de corresponder à base cognitiva de todas as metáforas. Por um lado, um domínio-alvo não pode ser interpretado completamente pelo domínio-fonte. Segundo Grady (1999), as metáforas primárias, tais como DIFFICULT IS HEAVY, IMPORTANT IS BIG, etc., são resultados das correlações regulares em experiências quotidianas: levantar uma coisa pesada é mais difícil do que levantar uma mais leve. O peso de um objeto pode ser concetualizado como uma instância de encontrar certa dificuldade ao lidar com esse objeto (ex. um piano é um objeto pesado para que seja difícil de mover). No entanto, nem tudo que é difícil é pesado ( heavy music não é necessariamente uma música difícil de tocar ou ouvir).
65 Além disso, não há, nas metáforas primárias, uma característica unidirecional, o que é, por sua vez, uma das particularidades essenciais para uma metáfora concetual (Rakova, 2002, p.225). Por outro lado, a experiência relevante que serve à base cognitiva do acontecimento de metáfora primária parece não existir. Considere um exemplo de a big problem . Should we say that young children’s conceptualization of difficulty is reducible to their conceptualization of big physical objects? But do only big objects cause problems in childhood? Picking up a small object is a big, not small, problem for a young child. The conceptualization of difficulty (subjective experience) is most probably correlated with the conceptualization of physical size (sensorimotor experience); however, there is no empirical evidence to lead us to believe that difficulty is initially conceptualized as large size (Rakova, 2002, p.225). Sendo assim, Rakova conclui que a teoria de Conflação é insuficientemente elaborada para ser considerada como uma teoria empírica. As dúvidas de Rakova podem ser resolvidas pelos estudos mais recentes, especialmente os no campo da neurologia. Temos, realmente, dois tipos de embodiment . Um é phenomenological embodimen t, que é entendido como uma fonte tradicional da experiência corporificada. Outro é designado como neural embodiment (Lakoff e Johnson, 1999), que nos permite que não apenas beings with bodys, mas também neural beings (Johnson, 1999). Pela perspetiva de neural beings , as aquisições durante a infância das experiências comuns entre os dois domínios recebem uma melhor interpretação: A stable cross-domain associations of infancy and early childhood become realized neurally in permanent connections between the networks serving these conceptual domains, such that the activation of one domain results in the activation of the other domain, and metaphorical thinking becomes ‘‘built-in’’, automatic and unconscious (Narayanan, 1997, citado por Rakova, 2002, p.224). De qualquer maneira, uma vez que todas as semelhanças surgem da experiência subjetiva humana, assim como se afirma muito cedo desde Lakoff e Johnson (1980a), a experiência provoca as semelhanças possíveis para a metáfora. Entendemos essa ideia de três modos. Em primeiro lugar, a semelhança de metáfora (quer seja uma causa, quer seja um resultado de metáfora) tem de ser experimentada por pessoas (Lakoff e Johnson, 1980a, p,154). Em segundo lugar, a origem da metáfora não é algum tipo de semelhança percebida, mas a noção de coocorrência. Por exemplo,
66 podemos perceber que o crescimento da quantidade de alguma coisa resulta num aumento da sua altura: This is what happens if we pile books on a table: the more books we put, the higher the pile goes; the same correlation would be observed when we fill a bottle with water, or in countless other cases. This perceived correlation between quantity and verticality is what would give rise to the primary metaphor MORE IS UP, which would then explain more abstract uses of “increase in quantity” (Lakoff e Johnson, 1980b, p.201). Para as crianças, experiências/julgamentos subjetivos (não sensório-motor) e experiências sensório-motoras são tão regularmente confundidos e diferenciados em experiência, que por vezes as crianças não distinguem uns de outros quando ambos ocorrem juntos. Por exemplo, para um bebé, a experiência de uma emoção está tipicamente relacionada com a experiência sensorial de calor, i.e., o calor de ser abraçado. Neste contexto, as associações são criadas entre dois domínios e persistem posteriormente. Essas associações persistentes são os mapeamentos da metáfora concetual que levarão o bebé, mais tarde na vida, a falar de “um sorriso caloroso”, “um grande problema” e “um amigo próximo” (Lakoff e Johnson, 1999, p.51). Em terceiro lugar, acentua-se a cognição neurótica corporificada nos últimos anos. Neste contexto, o papel do cérebro na cognição não deve ser ignorado. A nova teoria da metáfora concetual argumenta que uma certa propriedade do domínio mais abstrato (geralmente é o domínio-alvo) faz-nos prestar mais atenção a alguns aspetos do domínio concreto (geralmente o domínio-fonte). Neste sentido, as experiências devem ser selecionadas como base da metáfora devido a que é nelas que se situam as semelhanças. Não pensamos diretamente em significados abstratos, mas sim pensamos em questões abstratas por meio de imagens e modelos concretos (Adamson, 2007, p.88). O modelo concreto (ou uma imagem concreta), embora presença no pensamento abstrato, não é o objeto real do nosso pensamento, mas fornece formas específicas para fleshing out aos nossos pensamentos sobre questões abstratas. Por um lado, os objetos concretos escondem-se num lugar fora da nossa atenção de maneira que não temos consciência de domínios concretos que aproveitamos para pensar algum mais abstrato. Por outro lado, os conceitos abstratos, em vez de aparecerem diretamente como conceitos concretos, estão nas estruturas concretas que os representam no pensamento. As metáforas são ações cognitivas em que os significados abstratos estão combinados e apresentados com formas
67 concretas. A presença de formas concretas não remove ou substitui a dimensão abstrata do pensamento (Adamson, 2007, pp.94-95). Por outras palavras, quando pensamos em “objetos abstratos” em função de um objeto concreto, eles não aparecem com todas as suas características originais, mas sim enquanto escondem algumas características que não têm nada a ver com objetos abstratos. São exatamente os esquemas imagéticos que resumem as características concretas necessárias para a cognição ou apresentação da maioria dos conceitos abstratos. Então, por que nos concentramos em certas características associadas a coisas abstratas e ignoramos outras? A pergunta encontra a sua resposta nas pesquisas neurológicas. Segundo os estudos existentes nesta área, a informação semelhante entre os dois domínios em que o cérebro se concentra durante o processo de pensamento é, na verdade, compartilhada por vários circuitos neurais diferentes. A semelhança na metáfora é causada pela estimulação para o mesmo sistema nervoso pelo domínio-fonte e domínio-alvo. Encontramos confirmações relevantes num texto de Dodge e Lakoff (2005): - Linguistic schemas can form complex superpositions because the corresponding brain structures can be active simultaneously. (…) - Abstract schematic structures are not learned by a process of abstraction over many instances, but rather are imposed by brain structure (Dodge e Lakoff, 2005, p.86). A ligação entre corpo e cérebro é central para a ideia de semântica como simulação em Neural Theory of Language . Quando imaginamos, lembramos ou supomos realizar alguns movimentos, muitos neurónios estimulados são os mesmos neurónios estimulados no caso de realmente executarmos aqueles movimentos (Lakoff, 2009). Por exemplo, imaginar e fazer aproveitam um substrato neural compartilhado (Gallese e Lakoff, 2005): When one imagines seeing something, some of the same part of the brain is used as when one actually sees. When we imagine moving, some of the same part of the brain is used as when we actually move. We can imagine grasping an object without actually grasping it. From this, it does not follow that actual grasping and imaginary grasping do not use a common neural substrate. (…) In doing so, we will extend what we know about doing and imagining sharing a common substrate via the following hypothesis: The same neural substrate used in imagining is used in understanding . Consider a simple sentence, like “Harry picked up the glass.” If you can’t
68 imagine picking up a glass or seeing someone picking up a glass, then you can’t understand that sentence. Our hypothesis develops this fact one step further. It says that understanding is imagination, and that what you understand of a sentence in a context is the meaning of that sentence in that context (Gallese e Lakoff, 2005, p.456). No que diz respeito aos deslocamentos espaciais, temos também um compartilhamento de sistema nervoso entre ações que vêm de diferentes domínios. Por exemplo, algumas das mesmas estruturas neurais que são ativas durante experiências de movimento, como caminhar e correr , também estariam ativas quando imaginamos ou falamos sobre tais experiências (Dodge e Lakoff, 2005, p.75). A cognição é realmente complexa e implica vários domínios. Raramente encontramos um objeto ou uma ação que seja concetualizado ou realizada por apenas um domínio cognitivo: We have to execute and monitor motor control routines to make our body move, monitor our immediate environment so we don’t run into things while we’re moving, and we also need to keep track of where we are so we don’t get lost. In order to perform these and other necessary functions, many different parts of the brain will be simultaneously active (Dodge e Lakoff, 2005, p.77). Num trabalho relativamente recente de Lakoff (2009), ele enfatiza mais uma vez a função do cérebro na cognição: O pensamento é físico. A ideia de Lakoff pode ser resumida em dois aspetos: a) o cérebro é o único órgão no qual ocorre o processamento mental por meio da ativação de certos grupos neuronais; b) o que podemos pensar é muito limitado pela natureza ( shape of the Brain ) e pela estrutura ( Neuronal Groups , Mirror neurons ) do nosso cérebro (Lakoff, 2009, p.2). Pela perspetiva da visão tradicional, as metáforas baseiam-se em mapeamentos entre domínios estruturados por quadros. Tais mapeamentos foram vistos como aplicados a situações de domínio-alvo conforme entendidas no contexto do conhecimento ordinário. As inferências foram mapeadas do domínio-fonte para o domínio-alvo. A Teoria Neural da metáfora, por sua vez, contradiz as antigas teorias de duas etapas (anteriores à teoria da metáfora concetual) que declaram que o domínio-fonte é processado primeiro e, em seguida, o mapeamento opera para processar o domínio-alvo (Lakoff, 2009, p.17). Segundo a Teoria Neural da metáfora, os mapeamentos de metáforas convencionais são realizados por circuitos cerebrais fixos:
69 When you hear a metaphorical expression, the literal meanings of the words should activate the source domain circuitry and the context should activate the target domain circuitry, and together they should activate the mapping circuit. The result is an integrated circuit, with activation of both source and target domains and processing over both at once (Lakoff, 2009, p.17). Além disso, pela perspetiva da Teoria Neural da Metáfora, as inferências metafóricas ocorrem quando o circuito é ativado no entendimento semântico. As inferências do domínio-fonte, em vez de prosseguir antes das inferências do domínio-alvo, serão mapeadas assim que forem ativadas (Lakoff, 2009, p.19). 2.3. Mecanismo de mapeamento da metáfora: uma semelhança condicionada entre fonte e alvo O mapeamento de metáforas concetuais é controverso, especificamente em termos do mecanismo da preservação da semelhança entre um domínio-fonte e um domínio-alvo. Lakoff (1990) oferece uma solução com a Hipótese da Invariância. A Hipótese da Invariância enfatiza que a preservação da semelhança depende do esquema imagético que existe em ambos os domínios de ocorrência de metáfora. Os esquemas imagéticos representam padrões esquemáticos decorrentes de domínios imagéticos, como contentor , trajeto , ligação , força e equilíbrio que se repetem numa variedade de domínios corporificados (Johnson, 1987, p.29). Os esquemas imagéticos têm estruturas suficientes para ilustrarem vários tipos de relações lógicas e inferências dentro do nosso processamento mental (Johnson, 1991, p.14). A evidência empírica da cognição e do desenvolvimento psicológico é consistente numa visão referente à função do esquema imagético, i.e., as representações sensório-motoras de imagens são essenciais para muitos pensamentos ou perceções a nível superior (Mandler, 1992). Sendo assim, os esquemas imagéticos estruturam tanto as experiências corporificadas (Talmy, 1983) quanto as não corporificadas, via metáfora (Johnson, 1987, p.29). Por um lado, o esquema imagético pode servir como o domínio-fonte da metáfora. Por outro lado, o esquema imagético também desempenha um papel importante na seleção de semelhança entre fonte e alvo, dado que conforme a Hipótese da Invariância, o mapeamento preservará uma parte das semelhanças entre os dois.
70 Podemos entender o que se entende pela noção de esquema imagético e como a sua estrutura interna é projetada para um novo domínio via metáfora por meio do esquema BALANCE (Johnson, 1987, p.74). O equilíbrio é uma experiência corporificada tão universal que raramente estamos conscientes da sua presença. Chegamos a conhecer o significado de equilíbrio através das experiências relevantes a estados de equilíbrio corporal ou à perca de equilíbrio: For example, a baby stands, wobbles, and drops to the floor. It tries again and again, as it learns how to maintain a balanced erect posture. A young boy struggles to stay up on a two-wheeled bicycle as he learns to keep as balance while riding down the street. Each of us has experienced occasions when we have too much acid in our stomachs, when our hands get cold, our heads feel too hot, our bladders feel distended, our sinuses become swollen, and our mouths feel dry. In these and numerous other ways we learn the meanings of lack of balance or equilibrium. We respond to imbalance and disequilibrium by warming our hands, giving moisture to our mouths, draining our bladders, and so forth until we feel balanced once again (Gibbs e Colston, 1995, pp.349-350). Referimo-nos a essas experiências corporificadas recorrentes como esquemas imagéticos. Estruturamos as experiências particulares de maneira esquemática para que possamos dar ordem e relação às nossas perceções e conceitos (Johnson, 1987). As metáforas de base espacial são metáforas cujo domínio-fonte tem por base os esquemas imagéticos que projetam os conceitos de espaço para um domínio-alvo abstrato. Neste processo, preserva-se principalmente uma relação espacial, tal como a INCLUSION: Image-schemas have an internal logic that permits spatial reasoning. For example, if an item x is in a bounded space A, and A is in a bounded space B, then x is in B (Lakoff e Turner, 1989, p.99). Além disso, a lógica do esquema imagético também é preservada no domínio-alvo: When metaphors map spatial domains onto nonspatial, abstract domains, the imageschemas and their attendant logic are preserved by the mappings. Thus, bounded regions map onto bounded regions, paths map onto paths, and so on. Correspondingly, the spatial logic of the image-schemas is preserved by metaphorical mappings and becomes abstract logic in the nonspatial target domains. For example, conceptual categories are metaphorically understood as bounded spaces, and so the logic of bounded spaces applies to conceptual categories: if item X is in category A and A is in category B, then x is in B (Lakoff e Turner, 1989, pp.99-100).
71 Temos ainda um exemplo de SCALE. Segundo Clausner e Croft (1999), os conceitos de more (mais), less (menos) e same (mesmo) estão vinculados pelo esquema imagético SCALE que, por sua vez, contém o valor escalar, ao qual se aplicam a uma variedade de experiências, tais como, a) número, tal que podemos ter mais , menos ou o mesmo número de objetos; b) uma quantidade de substância; c) um grau de força; d) a intensidade de uma sensação (Clausner e Croft, 1999, p.14). A correspondência entre more (mais) e up (cima) é criada com base no esquema imagético SCALE. A base experiencial para isso é que quando adicionamos mais substância a um CONTENTOR, a altura aumenta. A metáfora não se baseia na semelhança entre o domínio UP e o domínio MORE, mas sim numa coocorrência entre esses dois domínios em nossa experiência. É isso que possibilita uma importante estruturação do nosso conceito de quantidade. Além de more , less etc ., SCALE também serve como base a outros conceitos, tanto concretos quanto abstratos, tais como tall/short , sharp/dull e good/bad . O esquema imagético SCALE não apenas apresentar conceitos de grau, mas também conceitos configurados (Clausner e Croft, 1999, pp.15-18). Sendo assim, Clausner e Croft (1999) redefinem o esquema imagético como image-schematic domain , devido a que, algum domínio, como BUILDING, pressupõe sempre uma variedade de conceitos que caracterizam diferentes aspetos do BUILDING. Cada conceito representa um subdomínio de BUILDING. O esquema imagético CONTENTOR também mapeia muitos conceitos, tais como INCLUSÃO, EXCLUSÃO, PROFUNDIDADE, etc. Todos estão relacionados com o CONTENTOR para outros conceitos abstratos. Quando vários domínios estão envolvidos numa apresentação de um conceito, deve-se definir algum princípio de como os diferentes domínios funcionam juntos. Além dos domínios na matriz de domínio de um conceito, deve-se considerar sobre o grau de destaque de cada domínio. Langacker (1987, p.165) chama um domínio prioritariamente classificado de domínio primário . Ele ilustra este critério com a diferença de significado entre roe (ovas) e caviar (caviar). Os dois conceitos referem-se ao mesmo objeto: massas de ovas de peixe. No entanto, com ovas, o domínio zoológico dos peixes é proeminente; enquanto para o caviar, o domínio alimentar é mais acentuado. Um conceito normalmente envolve vários domínios diferentes. Por exemplo, HUMANO deve ser definido em relação aos domínios de objetos físicos , coisas vivas e agentes volitivos (e vários outros domínios, por exemplo, emoção ). A combinação de domínios pressupostos simultaneamente por um conceito como [HUMANO] é chamada de matriz de domínio. Langacker (1987, p.152) destaca que há,
72 em princípio, apenas uma diferença em grau entre dimensões de um domínio e os domínios na matriz. Na prática, é mais provável que chamemos uma estrutura semântica de domínio se houver um número substancial de conceitos perfilados em relação a essa estrutura. Há certa ligação entre domínio (ou domínio de esquema imagético) e quadro semântico, uma vez que o domínio também não é formado por condições necessárias e suficientes. O domínio é composto por uma matriz de domínios que são linguisticamente configurados por diferentes semânticos. Sendo assim, com o propósito de analisar a semelhança condicional entre o domínio-fonte e o domínio-alvo a partir da perspetiva do domínio, precisamos de, por um lado, retornar ao aspeto cognitivo do domínio mencionado que é enfatizado por Langacker (1987), uma vez que o domínio representa toda a nossa estrutura de conhecimento que está associada a este conceito e, por outro, prestar atenção à Hipótese da Invariância (posteriormente torna-se num Princípio da Invariância) que, segundo Lakoff (1990, p.39), ilustra a limitação num mapeamento metafórico, tanto pela perspetiva cognitiva quanto pela perspetiva linguística. 2.3.1. Restrições em cognição: desde Hipótese da Invariância até Princípio da Invariância Existem várias versões da Hipótese da Invariância. Foi proposta pela primeira vez por Lakoff e Turner (1989) e depois complementada por Lakoff (1990) e Turner (1990). Segundo Lakoff (1990): The Invariance Hypothesis is a proposed general principle intended to characterize a broad range or regularities in both our conceptual and linguistic systems. Given that all metaphorical mappings are partial, the Invariance Hypothesis claims that the portion of the source domain structure that is mapped preserves cognitive topology (though, of course, not all the cognitive topology of the source domain need be mapped) (Lakoff, 1990, p.39). Embora a Hipótese da Invariância represente um avanço no condicionamento em produção e compreensão metafóricas e implique restrições correspondentes nos processos cognitivos que regularmente encontram expressão na forma linguística, tem algumas deficiências: What counts as the preservation of an image-schematic structure? If plasticity is one of the characteristics of an image-schematic property, as has been claimed, how much deformation can take place before that property is no longer being “preserved”? In the statement of the IH Lakoff claims that the topological properties of the source domain are preserved. Yet some of his examples suggest that target domain properties must also be
79 numa análise da natureza ontológica do domínio-fonte, já é insuficiente (Ruiz de Mendoza e Hernández, 2011, p.169). Nas pesquisas mais recentes, tanto a nova metáfora quanto a metáfora literária não aceita o princípio constante. Em segundo lugar, a estrutura original do domínio-alvo não é apenas compatível com a mapeada para o domínio-alvo, mas também tem impacto no mapeamento. Nos exemplos de Turner (1993), a estrutura do esquema imagético no domínio-alvo limita a, mas não participa no mapeamento da estrutura do esquema imagético do domínio-fonte. Porém, nalguns casos, a estrutura do esquema imagético do domínio-alvo passa a ser utilizada no mapeamento metafórico, mesmo que aquela estrutura não exista no domínio-fonte (Croft, 2009, p.23). Croft (2003) ilustra essa ideia com a análise dos valores semânticos de feed ( alimentar ). Numa expressão metafórica do verbo feed [X-fed Eater], os elementos diferentes de comida ( Metaphorical:“Food”-fedADJ ) vão requisitar uma esturuta cognitva diferente de feed ( Literal: Source-fedADJ ): week’s earthquakes in California , rain-fed floods that put parts of Texas under water for weeks , the mudslides in Puerto Rico that alone swallowed $6 milli (Croft, 2009, p.25). Nestes exemplos, segundo Croft (2009), a estrutura do esquema imagético ( feed ) que é representada por uma construção composta no domínio-fonte não é mapeada para a estrutura do esquema imagético representada pela construção composta no domínio-alvo. É provável que, em vez de um mapeamento entre dois domínios, apenas sejam duas estruturas de esquemas imagéticos diferentes nos dois domínios que podem ser expressas por uma mesma expressão. As relações entre fonte e alvo são muito mais complexas do que qualquer versão da Hipótese da Invariância indica. Assim como o que é enfatizado por Croft (2009), uma estrutura do domínio-alvo (que é entendido como o esquema imagético) pode ser usada numa interpretação metafórica mesmo quando o domínio-fonte carece daquela estrutura correspondente: Not only does image-schematic structure from the source domain play a role in metaphor (when it is not incompatible with the target domain); image-schematic structure from the target domain, manifested in the constructions in which the metaphorical words occur, also becomes part of the metaphor (Croft, 2009, p.26). Além disso, tem sido enfatizada a importância da interação entre o domínio-fonte e o domínioalvo desde A Teoria de Interação (Black, 1962). No entanto, parece que o Princípio da Invariância é limitado no sentido de ilustrar um surgimento de nova estrutura durante uma interação entre dois
80 domínios. Por outras palavras, o Princípio da Invariância concentra-se na preservação da semelhança numa metáfora em vez da sua criação. A ideia de Indurkhya (1992) é diferente do modo em que o Princípio da Invariância se anuncia, i.e., não importa que parte da estrutura cognitiva no domínio-fonte é mapeada para o domínio-alvo, para a nova estrutura do domínio-alvo, ela tem de ser semelhante à estrutura cognitiva do domíniofonte. A ideia de Indurkhya (1992) enfatiza o surgimento da nova estrutura durante o processo metafórico. A contribuição maior de Indurkhya não é este descobrimento da coerência entre a nova estrutura do domínio-alvo e a estrutura original do domínio-fonte, mas sim a confirmação do surgimento da nova estrutura. Indurkhya (1992) define três tipos de metáforas de acordo com a sequência entre o surgimento da semelhança e o acontecimento da metáfora: syntactic metaphor , suggestive metaphor (open ended) e projective metaphor . Listamos a seguir uma introdução simples desses três tipos de metáforas: O mecanismo da metáfora Baseia-se na semelhança Cria-se a semelhança Categoria syntactic metaphor suggestive metaphor Projective metaphor O mecanismo O mapeamento depende inteiramente da estrutura cognitiva do domínio-alvo O mapeamento depende parcialmente da estrutura cognitiva do domínio-alvo, que não é completa antes do acontecimento da metáfora. A metáfora é baseada numa pequena quantidade de estruturas cognitivas semelhantes entre o domínio-fonte e o domínioalvo. Após a ocorrência dos mapeamentos, a estrutura de domínio-fonte pode mapear mais estruturas cognitivas para o domínio-alvo. Isso torna o domínioalvo mais completo. Mas a premissa é que a estrutura cognitiva mapeada corresponde à estrutura inicial do domínio-alvo. Este tipo de metáfora desconsidera a estrutura cognitiva existente do domínioalvo. O domínio-fonte mapeia sua própria estrutura cognitiva no domínio-alvo. A estrutura cognitiva original no domínio-alvo é isomórfica à estrutura cognitiva que vem do domíniofonte. Não importa qual parte da estrutura cognitiva no domíniofonte é mapeada para o domínio-alvo, a nova estrutura do domínio-alvo é semelhante à estrutura cognitiva do domíniofonte. uma sequência entre o surgimento da semelhança e o o surgimento da semelhança antes, mas não o surgimento da semelhança antes e depois do acontecimento da metáfora o surgimento da semelhança depois, mas não antes do acontecimento da metáfora
81 acontecimento da metáfora depois da metáfora Tabela 7. Três tipos de metáfora (Indurkhya, 1992, pp.257-258) A maioria dos estudos empíricos e psicológicos sobre a metáfora não se refere à questão de surgimento dos novos significados através da metáfora. Realmente, a metáfora é composta por vários quadros semânticos, nos quais é preciso considerar a semântica como uma entidade dinâmica e mutável. Outra questão importante é examinar como as metáforas afetam essa dinâmica (Indurkhya, 2006, p.136). Com o propósito de confirmar o surgimento possível de uma estrutura nova durante o mapeamento, Indurkhya (2006) ilustra dois exemplos. Por um lado, ele aproveita o estudo de Schön (1979) que ilustra a metáfora de painting-as-pumping e, por outro lado, ele desenvolve o exemplo de Star of David (Black,1979) com alguns próprios entendimentos. Segundo Indurkhya (2006), o mecanismo cognitivo da criatividade metafórica desempenha um papel fundamental na solução de problemas práticos. Essa visão é ilustrada por um exemplo de tarefa de desenvolvimento de produtos, comparando as escovas de fibras sintéticas e naturais (Schön, 1979). No início, a equipe de pesquisa tem visto a pintura como um trabalho de revestimento, mas, depois, mudou a perspetiva dela como um processo de bombeamento, o que levou a uma solução significativa e ofereceu uma abordagem para resolver o problema: The main thing to emphasize about this example is that a radically new representation or perspective emerged from the painting-as-pumping metaphor. Even the causal structure that determines why paint sticks to the brush when dipped in a can of paint, and why it gets coated on the surface when the brush is moved across back and forth, is transformed (Indurkhya, 2006, p.138). A disposição dos pontos na Figura 6-1 corresponde a um céu estrelado. Não é possível verificar padrões geométricos, tais como linha (ou triângulo ou círculo), etc., antes de pôr um padrão de fendas (Figura 6-2) nela (Figura 6-1). Depois, pode-se ver claramente os pontos dispostos ao longo de linhas paralelas (Figura 6-3) (Indurkhya, 2006, pp.140-141).
82 Figura 6. 1(Fig. 1. An arrangement of dots Figura 6. 2 (Fig. 2. A set of slits placed on the arrangement of Fig. 1) Figura 6. 3 (Fig. 3. The arrangement of Fig. 1 seen through the slits) Figura 6. 4 (Fig. 4. The slits placed on a different arrangement of dots) Por isso, há certas metáforas que desempenham um papel crucial na geração de novas representações e novos significados (Indurkhya, 2006, p.139), devido a essa organização ser possível tanto pelos atributos dos pontos (suas posições espaciais) quanto pela estrutura do padrão. O mesmo padrão de fendas colocadas num arranjo diferente de pontos não resulta em nenhuma estrutura organizada (Figura 6-4) (Indurkhya, 2006, pp.140-141). Stockwell (1999) revela que nas metáforas existem possíveis mapeamentos bidirecionais. Por exemplo, TIME IS SPACE: ‘He passed the time’, compared with ‘Liverpool is three days’ sailing from here’, show a reversal of the conceptual metaphor: TIME IS SPACE and SPACE IS TIME. Each concept is understood in terms of our conventional understanding, by now well established, of the other (Stockwell, 1999, p.129). Sendo assim, a metáfora concetual, ao invés de ser unidirecional, parece que pode ser interanimating . Neste sentido, também se confirma que a metáfora é criativa pela interação entre dois domínios que podem servir simultaneamente como a fonte ou o alvo. Stockwell (1999) aproveita ainda as metáforas literárias para defender a rejeição da Hipótese da Invariância, que, no seu entender, restringe a perceção da metáfora como uma criativa e não pode explicar sua capacidade de referência a um novo sentido além da fonte e do alvo.
83 A Hipótese da Invariância foi inventada para resolver a questão de como decidir quais elementos são mapeados e quais são deixados para trás. No entanto, a ideia-chave para definir uma estrutura preservada num mapeamento pode não ter nada a ver com o Princípio da Invariância. Em alternativa, a solução é uma saliência (Stockwell, 1999, p.137). A ideia de saliência pode ser retrocedida até alguns dos primeiros textos de Lakoff. A metáfora permite-nos compreender um aspeto de um conceito em termos de outro (por exemplo, compreender um aspeto do argumento em termos de batalha). Neste processo, é necessário ignorar outros aspetos do conceito. Ao permitir que nos concentremos num aspeto de um conceito (por exemplo, os aspetos conflitantes do argumento), um conceito metafórico pode impedir que nos concentremos em outros aspetos do conceito que não sejam coerentes com essa metáfora (Lakoff, 1980, p.456). Portanto, às vezes o mapeamento parcial é atribuído pela saliência pragmática em vez da restrição cognitiva. O que é mapeado tem muito a ver com um conteúdo que a metáfora quer enfatizar. Por exemplo: A case in point is the metaphorical comparison 'Tom is like a tortoise'. Without going into a detailed description of the 'tortoise domain schema' and the 'human domain schema’ involved, the immediate property which gets mapped is the 'slowness' of the tortoise which is preferred over other properties of the 'tortoise schema' (Shen, 1999, p.1638). Neste sentido, ainda não se sabe se a estrutura do domínio-fonte preservada no domínio-alvo corresponde coerentemente à sua estrutura intrínseca. Por último, confirma-se que a preservação da estrutura do esquema imagético é realmente sensível à estrutura inerente do domínio-alvo. Sendo assim, mesmo a estrutura inferencial não é necessariamente mantida de maneira completa nos mapeamentos. Iwata (1995, p.184) refere três exemplos ( exclusive location , temporal path e o verbo give ) para ilustrar uma preservação incompleta da inferência entre o domínio-fonte e o domínio-alvo. No caso de exclusive location , as ideias de Iwata são resumidas a seguir: Figura 6
84 Domínio-fonte: Espaço No espaço, X moves from A to B Domínio-alvo 1: Tempo Ex. We moved the meeting from Tuesday to Friday . Domínio-alvo 2: transferência da informação Ex. The news passed from John to Jack . Figura 7. Mapeamento de exclusive location (Iwata, 1995, pp.184-185) No espaço, uma inferência é: at t1 X is at A but not at B e at t2 X is no at A but at B . No tempo, esta inferência é preservada apenas no primeiro exemplo, devido a que a reunião vai acontecer na sexta-feira assim não vai acontecer na terça-feira. Porém, quando transferimos notícias, a inferência está destruída, devido a que as notícias ainda são conhecidas (existem na memória de John) por John depois de serem contadas a Jack. No que concerne ao temporal path, o caminho temporal é concetualizado como uma linha contínua espacial. No entanto, o caminho temporal tem outras características que o diferenciam do caminho espacial. É unidirecional e fugaz (ou seja, transitório). A primeira característica indica que o tempo muda necessariamente do passado para o futuro, não na ordem inversa. A segunda característica ilustra que o tempo surge e desaparece rapidamente. O caminho temporal desaparece quando é percorrido, em contraste com o caminho espacial, que é fixo e independente de nossa travessia. As ações (e eventos) estão localizadas na linha do tempo, porém, assim que passamos por elas, elas não existem mais. O verbo give (dar) apresenta outro exemplo em que a estrutura inferencial não é completamente preservada. Iwata ilustra essa ideia com exemplos referidos por Lakoff (1990). A metáfora CAUSES ARE FORCES pode ser ilustrada de maneiras diferentes: (28) The practice of Zen meditation gave Harry patience. (29) Problem 3 gave Harry trouble (Lakoff, 1990, p.63, citado por Iwata, 1995, p.186). Quando o verbo give é aplicado no sentido de transportar , ex., give someone an apple , não tem uma inferência de forces , devido a que neste caso, o verbo give indica uma ação que se inicia por um
85 sujeito. No entanto, nos exemplos já referidos, give , em vez de indicar uma ação de transferir-se , representa uma causa que tem efeito ( patience , trouble ) num evento posterior. Em vez de dizer que o Princípio da Invariância nos fornece uma solução para as limitações do mapeamento, é melhor dizer que ele nos dá a oportunidade de pensar sobre as restrições do mapeamento, porque nos faz perceber que o mapeamento entre dois domínios está envolvido por muitos aspetos. A cognição é apenas um aspeto. Temos, ainda, outros aspetos, tais como a cultura, a semântica, etc. Além disso, em muitos casos, o domínio-alvo é independente do domínio-fonte antes da ocorrência da metáfora. Por exemplo, na metáfora O AMOR É UMA VIAGEM, os domínios de AMOR e de VIAGEM são representados separadamente. Além disso, uma viagem não tem efeito de causa na estrutura de um amor (Murphy, 1996, pp.195-196). O domínio-fonte VIAGEM leva-nos a considerar o domínio AMOR pela perspetiva nova, mas não reconstruói a sua estrutura. Assim como o que é referido por Black: a metáfora funciona como instrumento cognitivo e permite-nos ver algumas realidades que são apresentadas através da produção daquela metáfora. O mundo é um mundo por ser visto por alguma perspetiva. Algumas metáforas, realmente, conseguem criar uma tal perspetiva (Black, 1979, p.38). 2.3.2. Restrições em semântica: a teoria do quadro semântico A ideia de frame tem surgido ao longo dos anos em vários domínios. Não aparece apenas no linguístico, mas também em áreas como a psicologia e a Inteligência Artificial. Na área linguística, o quadro semântico é referido pela primeira vez por Fillmore (1971) no seu texto verbs of judging . Nos seus textos posteriores, Frame semantics (1982) e A private history of the concept ‘Frame’ (1987), Fillmore (1982, 1985) oferece exemplos ricos e detalhados para enfatizar que uma abordagem semântica convencional não pode dar conta de todos os significados de uma palavra. Há ainda necessidade de um conjunto de conhecimentos para interpretar as aceções semânticas de uma palavra. Os quadros são “estruturas unificadas específicas de conhecimento, ou esquematizações coerentes de experiência” (Fillmore, 1985, p.223) no sentido de serem construções cognitivas que listam atributos estereotipados de entidades e relações entre eles. Um exemplo frequentemente citado é o quadro de COMPRA, no qual temos cliente, vendedor, mercadoria e lugar (normalmente um
86 mercado) onde ocorre a transação. Não faz sentido invocar qualquer elemento do quadro sem chamar os outros devido à natureza unificada dos quadros. Para Lakoff (1987, p.64), os quadros são apenas uma forma do que ele chama de modelos cognitivos idealizados ou ICMs ( Idealized Cognitive Models ). Ele também distingue outros modelos cognitivos, como esquema imagético, metáfora e metonímia, cada um deles caracterizado por um princípio estruturante diferente. Metáforas são derivadas de mapeamentos (ou conjuntos de correspondências) entre domínios concetuais, ao passo que esquemas imagéticos são abstrações muito gerais sobre a experiência do espaço. Os quadros, por sua vez, são caracterizados por sua estrutura proposicional. As ideias centrais subjacentes à pesquisa em Frame Semantics estão resumidas como: A word’s meaning can be understood only with reference to a structured background of experience, beliefs, or practices, constituting a kind of conceptual prerequisite for understanding the meaning. Speakers can be said to know the meaning of the word only by first understanding the background frames that motivate the concept that the word encodes (Fillmore e Atkins, 1992, pp.76-77). Pela perspetiva linguística, alguns linguistas já têm notado a função da semântica na criação e interpretação da metáfora. Por exemplo, com base no estudo dos verbos de movimento, Edward (1975) enfatiza que os usos metafóricos de verbos de movimento exibem certas relações regulares com o sentido literal desses verbos. Os linguistas Kittay e Lehrer (1981) sugerem que as metáforas não são simplesmente combinações de dois termos isolados, mas sim uma justaposição de dois campos semânticos, que são grupos de itens lexicais correspondentes a domínios concetuais subjacentes. Não se entende completamente como os termos de dois domínios diferentes devem ser relacionados se não se souber como aqueles termos se posicionam em relação a outros termos em seus próprios quadros semânticos: For example, to fully understand how “smooth” applies metaphorically to people, one must also know how “smooth” differs from “rough,” “slippery”, and “soft,” and one must also have a conceptual domain of personality types (even if all of them are not fully lexicalized) that can be brought into correspondence with the texture concepts (Keil, 1986, p.75). As estruturas observadas numa metáfora podem ser incluídas em domínios mesmo que essas estruturas não sejam percebidas em linguagem. Os quadros, por sua vez, existem em linguagens tanto
87 metafórica quanto não metafórica. Neste sentido, os quadros podem ser usados para identificar ligações entre linguagem metafórica e não metafórica (Sullivan, 2013, pp.23-24). As ideias mais recentes sobre metáforas concentram-se no aspeto cognitivo por meio de ignorar o aspeto linguístico. No entanto, a falta de interesse no aspeto linguístico da metáfora talvez seja lamentável, porque os estudos de metáfora concetual tornam a linguagem metafórica mais misteriosa. A linguagem metafórica envolve palavras metafóricas, mas não só. Neste sentido, o Quadro Semântico tem de ter algum efeito num mapeamento metafórico, assim como o Princípio da Invariância, devido a que uma metáfora acontece, na maioria das vezes, ao nível de quadro. Por exemplo: (…) the word wealth can refer to a literal accumulation of money or valuables, but it can also refer metaphorically to spiritual attributes, as in the metaphoric phrase spiritual wealth. When wealth is modified by spiritual, the item wealth is understood as referring to spiritual properties, rather than to financial accumulation. That is, wealth is metaphoric when it occurs in spiritual wealth (Sullivan,2013, pp.1-2). Então, a seguir, tentamos verificar um papel do quadro semântico na preservação da semelhança entre o domínio-fonte e o domínio-alvo. Antes de mais, devemos entender a relação entre domínio e quadro numa metáfora. Quer seja domínio quer seja quadro, ambos pertencem ao nível supraindividual, que é designado por Kövecses (2000), no sentido de organização cognitiva e análise da metáfora. Os quadros elaboram os aspetos selecionados dos domínios. Assim, os quadros como origens de metáfora oferecem informações mais específicas do que os domínios, embora não cobrem ou esgotem todos os aspetos de um domínio-fonte (Kövecses, 2020, p.57). Sullivan (2006) é um dos linguistas mais relevantes que se dedicam à aplicação do quadro semântico na metáfora. Segundo ele, os mapeamentos metafóricos preservam relações, inferências e elementos do quadro semântico, uma vez que muitas informações esquemáticas do domínio vêm das estruturas de quadro. Por exemplo: In the BODY domain, the BODY element must refer specifically to the EXERCISER’s body. This relation carries over into the MIND domain, in which the MIND must be specifically the THINKER’s mind. […] (…) certain structure in the BODY domain (the source domain of THE MIND IS A BODY) is derived from the *EXERCISE frame (evoked by the verb exercise). A domain is usually
88 structured by multiple frames, so that for example the BODY domain is structured by frames related to ‘eating’ (INGESTION), ‘dying’ (DEATH), and others not shown in this diagram (Sullivan, 2006, pp.388-389). O quadro semântico também pode revelar a razão pela qual resulta numa diferença em terem domínios-alvo no mapeamento metafórico para dois sinónimos. No inglês, tanto sunny quanto brilliant referem-se a qualidades de luz, portanto, esses itens devem ter os mesmos usos metafóricos. No entanto, sunny indica alegre via metáfora HAPPINESS IS LIGHT, ao passo que brilliant está relacionado com inteligente via metáfora KNOWING IS SEEING. Então, por que alguns itens semanticamente semelhantes têm diferentes usos metafóricos? Supõe-se que o uso metafórico de uma palavra seja influenciado pelos seus usos não metafóricos (Sullivan, 2006, p.387): Metaphorically mapped frame structure can be directly compared with the frame structure evoked by the nonmetaphoric senses of lexical items. If the hypothesis of this paper is correct, and lexical items’ frame structure constrains their compatibility with a given metaphor, we will find the reasons for the items’ compatibility or incompatibility in the frame structure evoked by the items’ nonmetaphoric uses (Sullivan, 2006, p.390). Isto tem a ver com a diferença em quadros semânticos aos quais sunny e brilliant pertencem. Os adjetivos ( sunny , bright , dark ) que evocam o quadro LOCATION OF LIGHT frequentemente referem os substantivos que denotam o elemento LOCATION neste quadro; enquanto adjetivos ( brilliant , bright , dim ) que evocam o quadro LIGHT MOVEMENT não modificam esses substantivos. Os adjetivos que provocam o quadro LOCATION OF LIGHT podem expressar a metáfora HAPPINESS IS LIGHT, uma vez que a estrutura do quadro corresponde ao quadro LIGHT. Figura 8. Mapeamentos de HAPPINESS IS LIGHT (Sullivan, 2006, p.392)
95 que é implicação. Assim dizendo, o nosso conhecimento sobre uma viagem pode se aplicar ao nosso pensamento sobre uma viagem metafórica que, portanto, resulta em certas implicações. Outro exemplo referido por Lakoff e Johnson (1980c, pp.457-458) para demonstrar como implicações estruturam o sistema da metáfora concetual é TIME IS MONEY. O tempo é algo que pode ser gasto, desperdiçado, orçado, investido ou desperdiçado. Essas conceções são metáforas concetuais utilizadas para concetualizar o tempo através de nossa experiência quotidiana com dinheiro, recursos limitados e bens valiosos. No entanto, o modo de entendimento não é uma forma necessária de compreensão do tempo pela humanidade, mas é culturalmente determinada. Em outras culturas, o tempo pode não ser compreendido nessas categorias. As metáforas concetuais de TEMPO É DINHEIRO, TEMPO É RECURSO LIMITADO e TEMPO É BEM VALIOSO constroem um sistema baseado em subcategorias, uma vez que, em nossa sociedade, dinheiro é valioso por ser um recurso limitado. Essas relações de subcategorias representam implicações entre as metáforas que mencionamos, i.e., TIME IS MONEY implica TIME IS A LIMITED RESOURCE que, por sua vez, implica TIME IS A VALUABLE COMMODITY. As relações entre elas podem ser ilustradas como: MONEY TIME IS MONEY is entails A LIMITED RESOURCE TIME IS A LIMITED RESOURCE is entails A VALUABLE COMMODITY TIME IS A VALUABLE COMMODITY Figura 11. Implicações em diferentes níveis de metáfora (Lakoff e Johnson, 1980c, p.457) Tal como se pode observar, as implicações, algumas se referem especificamente ao dinheiro ( gastar , investir , orçar , lucrativamente , custo ), outras a recursos limitados ( usar , esgotar , ter o suficiente , ficar sem ), e ainda outras a bens valiosos ( ter , dar , perder , obrigado por ). Este é um exemplo de como as implicações podem caracterizar um sistema coerente de conceitos metafóricos e um sistema correspondente de expressões metafóricas para esses conceitos (Lakoff e Johnson, 1980c, p.457). A metáfora normalmente é composta por uma grande quantidade de implicações, algumas das quais podem ser contrárias a outras, outras podem ou não ser entendidas num determinado contexto. Cada metáfora tem seu próprio sistema de implicação, que é paralelo a outros sistemas metafóricos em alguns aspetos. A implicação metafórica parece ser, mas não só um raciocínio indutivo. Ele não
96 envolve regras rigorosas ou fórmulas matemáticas, nem é possível ser derivado de conceitos determinados segundo regras definidas, mas é baseado na experiência humana no sentido de ser uma abstração das estruturas selecionadas de nossa compreensão das relações metafóricas que existem na experiência da cultura, história ou sociedade. O mais importante é que a implicação não apenas representa uma relação concetual, mas também serve como um exemplar ou padrão da experiência própria (Johnson, 1983, pp.376-383). As implicações podem ser afirmações que refletem lógicas ou princípios incluídos implicitamente numa metáfora, mas não todos são expressões metafóricas, por um lado e, por outro, podem ser expressões metafóricas que não expressam diretamente uma metáfora concetual (Cienki, 2005, p.289290). Às vezes, numa mesma metáfora surgem expressões contrárias. Por exemplo, FUTURO ESTÁ FRENTE e FUTURO ESTÁ TRÁS na metáfora temporal. Isto tem a ver com implicações diferentes. O primeiro está relacionado com a implicação da direção do movimento, ao passo que o segundo referese à ordem de chegada. Nesse caso, se estivessem várias implicações num mapeamento, havia algumas regras a respeito à preservação daquelas implicações entre domínios fonte e alvo? Consideramos que a dúvida pode ser resolvida pelos estudos de Kövecses (2000) e de Wallington (2010). Kövecses (2000) refere uma estrutura-genérica na metáfora, enquanto Wallington (2010) revela algumas invariantes num mapeamento. Com a combinação das ideias deles, entendemos que as implicações acontecem e se preservam em função de acentuações cognitivas e necessidades pragmáticas. É consentido que a maioria dos domínios serve como domínio-fonte a vários domínios-alvo. Assim, derivam-se várias implicações. Por exemplo, o domínio de BUILDING tem muitos domínios-alvo correspondentes, tais como THEORIES ARE BUILDINGS, RELATIONSHIPS ARE BUILDINGS, A CAREER IS A BUILDING, A COMPANY IS A BUILDING, etc. (Kövecses, 2000, pp.80-81). Então, a quantos e a que tipo de domínios-alvo se aplicam um domínio-fonte? Kövecses (2000) responde a esta questão com o conceito ao qual ele chama de scope of metaphor que pode ser definido como the full range of cases , ou seja, todos os domínios-alvo, aos quais um determinado conceito de fonte específico se aplica (Kövecses, 2000, p.80). Podemos notar que os domínios-alvo da teoria , relacionamento , carreira , sistema económico , empresa , grupos sociais e vida parecem ser o que pode ser chamado de sistemas abstratos complexos
97 de um tipo ou outro. Concebemos um sistema abstrato complexo como um domínio não físico que tem muitas partes que interagem umas com as outras de maneiras complexas. Em todas as metáforas que aproveitam BUILDING como o domínio-fonte, existe uma metáfora ao nível genérico, i.e., COMPLEX ABSTRACT SYSTEMS ARE BUILDINGS. Cada metáfora tem a main meaning focus de diferentes aspetos do domínio-fonte (Kövecses, 2000, pp.81-82). O que determina main meaning focus de algum determinado par fonte-alvo, como SISTEMAS COMPLEXOS SÃO EDIFÍCIOS? Kövecses sugere que cada domínio-fonte desempenha um papel específico na caracterização de um conjunto de alvos aos quais se aplica. O papel do domínio pode ser definido como: Each source is associated with a particular meaning focus (or foci) that is (or are) mapped onto the target. This meaning focus (or foci) is (are) constituted by the central knowledge that pertains to a particular entity or event within a speech community. The target inherits the main meaning focus (or foci) of the source (Kövecses, 2000, p.82). Esta explicação do papel do domínio-fonte refere-se a uma ideia de central knowledge que, por sua vez, de acordo com Langacker (1987), pode ser entendido como: Central knowledge is knowledge (about an entity or event) that is conventional, generic, intrinsic, and characteristic, given the class of entities or events designated by a particular linguistic expression. Conventionality of knowledge means that some meaning specification (like a property or feature) associated with an entity is shared by a linguistic community (Langacker, 1987, pp.158-161, citado por Kövecses, 2000, p.82). Kövecses retoma o exemplo de BUILDING para ilustrar o que é central knowledge nesta metáfora genérica COMPLEX SYSTEMS ARE BUILDINGS:
98 Source Target (a) building → complex system (b) making the building → creating or developing the system (c) the foundation of the building → the basis of the system (d) the maker of the building → the creator of the system (e) the strength of the building → the stability or strength of the system (f) physical structure → abstract structure Figura 12. Mapeamentos de COMPLEX SYSTEMS ARE BUILDINGS (Kövecses, 2000) O significado principal que é socialmente aceite do conceito de construção como fonte é a construção de um edifício forte . Por isso, esta ideia vai ser mapeada para o domínio-alvo. Nesse processo ocorre alguns mapeamentos constituintes básicos. Destes, um ou alguns são mais importantes do que outros. Já os mapeamentos que parecem ser centrais na metáfora SISTEMAS COMPLEXOS SÃO EDIFÍCIOS, ou seja, aqueles sem os quais não poderíamos facilmente imaginar os outros, são (b), (e) e (f) acima. Esses mapeamentos são mapeamentos centrais. Os mapeamentos podem ser considerados como centrais se mapearem o que chamamos de main meaning focus desde o domínio-fonte para o domínio-alvo. O domínio-fonte do edifício pode ter um grande número de significados diferentes associados a ele, mas para fins de metáfora (como COMPLEX SYSTEMS ARE BUILDINGS) ele carrega um conjunto pequeno, mas coerente, de significados específicos: a construção forte e sólida de um edifício. Sendo assim, as implicações devem ocorrem com mais frequência no main meaning focus . Kövecses (2000) enfatiza que nos mapeamentos de um domínio-fonte com diferentes domíniosalvo existe uma estrutura comum que funciona como causa daqueles mapeamentos. Esta estrutura comum faz parte essencial da cognição do domínio-fonte. A ideia de Wallington (2006, 2010) embora seja construída a partir dos mapeamentos entre domínio-fonte e um domínio-alvo correspondente, é consistente parcialmente com Kövecses, i.e., enfatiza a importância da estrutura genérica que é invariante nos mapeamentos. Wallington (2006, 2010) acrescenta ainda uma lista que contém algumas metáforas exemplificadas, na qual os componentes invariantes subjacentes a mapeamentos metafóricos são chamados de View-Neutral Mapping Adjuncts (VNMA). Segundo Wallington (2010), em vez de procurar a sistematicidade metafórica por meio de chamar mapeamentos e correspondências entre domínios bem definidos, é melhor prestar mais
99 atenção aos mapeamentos centrais, nos quais apenas algumas informações de um determinado tipo são transferidas desde fonte para alvo: Such information will be inferred as holding of the situation described by the metaphorical utterance if the producer and interpreter of the utterance in its context can follow the necessary chain of inferences to the relevant abstract information types (Wallington, 2010, p.220). Os tipos de inferência que transferem invariavelmente são variáveis de metáfora para metáfora. Então, quais tipos de informação invariante podem ser transferidos? Wallington refere-os como ViewNeutral Mapping Adjuncts (VNMAs): (…) adjuncts because they accompany, or are an adjunct to, traditional source-domain to target-domain mappings, and view-neutral because they can apply regardless of which metaphorical view one is taking in what follows, I shall list a number of different types of information which seem to get transferred between source and target by these VNMAs. In each case, I also attempt briefly to motivate the particular VNMA by giving a few examples of the invariant trans fer of the type of information being discussed, using a range of what might be thought of as different source and target domains. P,224 VNMAs are adjuncts to a core mapping (Wallington, 2010, p.238). No seu estudo anterior, Wallington e Barnden (2006) apresentam alguns tipos de VNMAs, tais como TIME-ORDER, EVENT-SHAPE, e Wallington (2010) acrescenta a lista no estudo posterior com exemplos de CAUSATION/ABILITY/FUNCTION, etc. TIME-ORDER indica que a ordem de acontecimento dos eventos no domínio-fonte é transferida de maneira imudável para o domínio-alvo caso haja nele também eventos correspondentes. A VNMA de TIME-ORDER transmite informações do tempo verbal da fonte ao alvo. Mas faz mais do que isso. A interpretação da metáfora não é uma interpretação da estrutura da superfície, ou seja, a colocação de uma fonte em correspondência com um alvo. O que mais importante é uma interferência que, por sua vez, é composta pelas implicações . Por exemplo, considera a frase: He’s gone out of his mind. Podemos inferir que ele já esteve “em sua mente”. Esta ideia vai ser ilustrada pela TIME ORDER VNMA. Em relação a outro exemplo, in the morning of , aproveita-se um período de tempo do dia que é facilmente ordenado e quantificável para referir uma fase de diferentes atividades ou eventos por meio de VNMA de TIME-ORDER (Wallington e Barnden, 2006, p.7). Wallington (2010) critica que a teoria contemporânea da metáfora tem dado demasiada atenção a procurar alguma natureza do domínio-fonte que não existe no domínio-alvo ou a enfatizar algumas
100 diferenças cognitivas nas quais talvez não é possível acontecer mapeamentos, mas não se concentra em descrever e catalogar os tipos de informação ou significado que são usados na metáfora. O que é necessário é, realmente, apenas a interação de algumas correspondências do conceito-fonte nuclear com o conceito-alvo, junto com a suposição de que qualquer coisa que possa ser inferencialmente ligada aos conceitos-fonte num contexto dado (Wallington, 2010, p.236). Com base em tudo, fazemos as conclusões seguintes. Em primeiro lugar, a metáfora baseia-se numa ou nas semelhanças entre fonte e alvo quando é produzida, depois, cria-se mais semelhanças em cada nova interpretação, devido a que a metáfora é um processo dinâmico, em vez de ser um resultado estático das atividades cognitivas e linguísticas. Assim como o que é referido por Lakoff e Johnson 14 (1980a), em consequência de uma metáfora é usada, haverá um entendimento único baseado no próprio contexto cultural do usuário. A criação e a interpretação de metáfora devem ser vistas como parte de um processo dinâmico que leva em conta o conhecimento (enciclopédico) dos produtores ou interpretadores de metáfora. Para uma metáfora, deve-se ser criada consoante um conhecimento compartilhado do mapeamento nuclear fonte-alvo. No entanto, numa interpretação metafórica, as informações invariáveis que podem acompanhar tais mapeamentos e o conhecimento que permite as inferências relevantes a serem feitas irão diferir consoante cultura. Em segundo lugar, as inferências não estão condicionadas ou restringidas por limites do domínio que, por sua vez, também não é possível serem determinados. Por exemplo, para as metáforas que tomam o esquema imagético como domínio-fonte, o que serve realmente para o mapeamento é uma parte de estrutura do esquema imagético. Então, o domínio-fonte, em vez de ser considerado como um esquema imagético, é melhor dizer que é uma parte exclusiva derivada do esquema imagético, uma vez que existem sempre alguma estrutura ou componente do esquema imagético que não participam num mapeamento. Wallington (2010) também ilustra que o domínio não é um alcance definido para o 14 As nossas metáforas têm a sua base em experiências corporificadas num contexto cultural, social e económico, por isso nenhum conceito metafórico pode ser totalmente compreendido independentemente da sua base experiencial. Ao tentarmos representar a nossa compreensão de uma determinada metáfora, temos que incluir uma descrição da sua base experiencial. Os conceitos metafóricos podem ser entendidos como gestalt experiencial. Ou seja, dinâmicas complexas integradas na nossa experiência. Estes conjuntos unificados têm várias dimensões de estrutura. Uma gestalt típica para um evento, por exemplo, é composta por dimensões como participantes (indivíduos envolvidos), partes (vários subeventos), etapas (divisão temporal em começo, meio e fim), sequência linear (ordem temporal de estágios e subeventos), causalidade (cadeias de interação causal) e objetivo (estados finais dos eventos voltados para um objetivo) (Lakoff, 1980, p.383, tradução nossa).
101 acontecimento de uma metáfora, uma vez que os mapeamentos ocorridos numa metáfora não conseguem formam um domínio claro: I also noted that many of the entities, relations, attributes, and so on in particular metaphorical utterances do not have any correspondents in the target. Thus I would claim that there are empirical problems with domain-to-domain mapping approaches. (Wallington, 2010, p.236). O mais importante não é a entidade, nem a relação ou estrutura entre entidades, mas sim os tipos de conclusões que podem ser feitas a partir delas. A partir disso, entendemos que o nível ao qual se situam os mapeamentos não é um domínio, mas sim ao nível do quadro. Num mesmo domínio, há vários quadros. Alguns têm uma relevância forte e servem, desta maneira, como base ao estabelecimento da metáfora. Outros estão menos relevantes, pelo que são acrescentados através de um contexto cultural numa metáfora. Em todo o caso, existem componentes invariantes nos mapeamentos nucleares ou não nucleares entre fonte e alvo. Diferentes atributos ou relações que são usados para estender ou elaborar o mapeamento nuclear estão relacionados de forma bastante próxima e convencional à parte de fonte do mapeamento do núcleo, por um lado e, por outro, estão condicionados pela estrutura intrínseca da parte de alvo. Existe ainda em domínios-fonte e alvo quadros que não se fazem ligações um com outro, onde a falta de uma estrutura correspondente de domínio-alvo em relação ao domínio-fonte impediria as inferências ou estruturas cognitivas do domínio-fonte serem mapeadas para o alvo. No que diz respeito às limitações do mapeamento, entendemos que um mapeamento não é simplesmente alguma consistência entre fonte e alvo ou uma preservação parcial de tudo, mas sim um alcance onde há uma ocorrência das implicações metafóricas que, por sua vez, pode ser divido em tipo básico e tipo saliente. O básico é a cognição que determina a compreensão básica (ou seja, prototípica) das pessoas em relação ao domínio-fonte e ao domínio-alvo, enquanto o saliente está vinculado às diferentes necessidades pragmáticas. Por último, o mapeamento entre os domínios fonte e alvo de uma metáfora depende de dois aspetos: cognitivo e linguístico. O aspeto cognitivo pode ser decidido por três causas: atributos, relações e inferências (ou melhor dizer, implicações). No sentido linguístico, existem também três fatores: quadro semântico, o atributo gramatical das palavras e a combinação lexical entre palavras.
102 CAPÍTULO 3 METÁFORAS TEMPORAIS: EM PORTUGUÊS E EM MANDARIM Neste capítulo estudamos as correspondências metafóricas entre espaço e tempo em português e em mandarim, explorando, ainda, a motivação cognitiva de conceitos e termos espaciais em construções metafóricas de tempo. As cognições sobre o espaço e o tempo estão bastante relacionadas. O que acabamos de dizer pela perspetiva espacial, poderíamos dizê-lo também pela perspetiva temporal (Merleau-Ponty, [1945]2012). No entanto, o tempo é um conceito complexo. Segundo o neurocientista Pöppel (1978), a experiência humana do tempo é composta por experiências bastante diferentes, nas quais temos elementary time experiences (experiências primárias de tempo). Pöppel divide a experiência primária de tempo em diferentes perceções: perceções de duração, da simultaneidade ou da sucessão (ou ordem dos eventos), do presente, do passado e das antecipações (Pöppel, 1978): One elementary time experience is duration estimation; it refers to our ability to estimate how much time has elapsed between two specified events by using, for instance, conceptional time units (like seconds, hours, or weeks). Another elementary time experience besides duration estimation and the experience of simultaneity and successiveness is characterized by our ability to record the sequence of events. The experience of nowness appears to be embedded in a temporal interval which has been called the “specious” or the subjective present. Thus far, only those aspects of subjective time have been mentioned that refer to whatever lies in the past or in the present on the physical time scale. However, in order to discuss time perception appropriately, the future must also be considered. The elementary time experience that refers to the temporal organization of future actions can be called anticipation or planning (Pöppel, 1978, pp.714-716). É aceite universalmente que existe um domínio concetual pré-linguístico do tempo cuja organização linguística é estruturada por meio do mapeamento metafórico mediante léxico do espaço e do movimento. A consistência numa sequência do surgimento dos conceitos espaciais e temporais entre a filogenia e a ontogenia apoia a ideia de que o conceito temporal tem a sua origem no conceito espacial (Adams et al ., 1986). Alverson (1994) listou um grande número de palavras temporais em chinês, inglês, francês e outras línguas mostrando que todas se desenvolvem a partir de semânticas espaciais. Neste contexto, confirma-se que, por um lado, a cognição e expressão do tempo devem ser
103 realizadas por meio da cognição espacial e do vocabulário espacial e, por outro, os domínios-fonte (principalmente o espaço e o movimento) da metáfora temporal são parecidos em diferentes línguas por causa de experiências comuns da humanidade. As evidências psicológicas da metáfora TEMPO É ESPAÇO podem ser encontradas em trabalhos de McGlone e Harding (1998) e de Gentner et al . (2002). No geral, temos dois movimentos típicos no domínio temporal. Um é ego-moving, com o observador dinâmico, e o outro é o time-moving, com o observador estático. McGlone e Harding (1998) estudam os papéis desses dois movimentos numa compreensão da linguagem temporal através de duas pesquisas: Experiment 1 used a paradigm in which the comprehension of a target temporal sentence could potentially be facilitated or disrupted by the perspective implied by prior context. In Experiment 2, prior context was manipulated in a similar fashion in an effort to influence participants' interpretations of ostensibly ambiguous temporal statements (McGlone e Harding, 1998, p.1211). Quando as pessoas fazem inferências sobre relações temporais num texto, elas processam os conteúdos com mais fluência se a sequência de metáforas pertencer ao mesmo sistema global de metáforas. Isto quer dizer que as metáforas temporais têm realidade psicológica. Para mais, as pessoas utilizam metáforas espaciais ao pensar o tempo (Gentner et al ., 2002, p.538). Embora os conceitos temporais se baseiem em experiências tão básicas quanto a experiência sensório-motora em que se fundamentam os conceitos espaciais, há diferença entre eles. Os conceitos espaciais geralmente são conceitos objetivos de imagens concretas que derivam de experiência sensório-motora relativamente simples. Em contraste, os conceitos temporais são conceitos subjetivos e surgem de experiências fenomenologicamente reais e as experiências temporais são indiretas e subjetivas (Grady, 1997). Segundo Evans (2000, p.10), nas línguas conhecidas, temos poucas palavras que indicam especificamente o movimento ou a mudança do tempo. O tempo é, normalmente, expresso pelo vocabulário espacial. A relação entre espaço e tempo é uma coocorrência experimental. Por um lado, a perceção do tempo é inicialmente construída através do movimento do sol ou da lua com alterações do dia e da noite e, por outro, a maioria das ferramentas de mediação do tempo dependem das mudanças em posição ou estado dos objetos. Portanto, a perceção do tempo é condicionada por dois domínios, um é o domínio do espaço e o outro é o domínio do movimento. Essa ideia verifica-se em
104 algumas etimologias de certos caracteres chineses, tais como, 时 (shí, tempo), 日 (rì, sol, dia ), 月 (yuè, lua, mês ) e 年 (nián, ano ). 时 (shí, tempo ) é derivada da perceção da mudança da estação. Por necessidade das atividades agrícolas, os antigos chineses observam muito a conexão entre o movimento do sol e as mudanças das estações. O movimento do sol afeta as atividades agrícolas, formando assim a divisão da primavera e do outono. É uma das ideias mais primárias sobre o tempo na ideologia chinesa. 日 (rì, dia ) representa o nascer do sol do leste e o pôr do sol do oeste, enquanto 月 (yuè, mês ) representa a mudança mensal da lua em aparência física. O conceito de 年 (nián, ano ), por sua vez, foi visto pela primeira vez em inscrições de ossos oraculares. A etimologia de 年 (nián, ano ) indica maduro do grão, deriva posteriormente valores semânticos que estão relacionados com as atividades rurais, tais como, o plantio na primavera e as colheitas no outono. O sinónimo de 年 (nián, ano ) é 岁 (suì, ano ). Em relação ao 年 (nián, ano ), 岁 (suì, ano ) enfatiza um valor semântico da idade. 岁 (suì, ano ) também apareceu muito cedo em inscrições de ossos de oráculos. É uma ferramenta de corte com o uso específico de fazer a colheita na China antiga. Naquela época, o grão estava maduro uma vez por ano, então essa ferramenta também se tornou um marcador de um período círculo. O intervalo entre dois eventos, tal como 隙 (xì, lacuna ) ou 空 (kōng, vazio ), indicam inicialmente um espaço livre entre dois objetos. Uma aplicação do vocabulário espacial no domínio temporal não é, por isso, coincidência. Um vocabulário que é compartilhado entre o domínio do tempo e outros domínios, tais como o de espaço ou de movimento, tem de ser consistente com a estrutura inerente do tempo: O 'tempo' conceituado em termos espaciais é evidente na polissemia sistemática de preposições espaciais como em , de , para , ao longo e muitas outras palavras que designam dimensões espaciais (por exemplo, longo, curto, próximo, distante ), todas as quais têm sentidos temporais. Além disso, os verbos de movimento são frequentemente usados de maneira metafórica para designar a passagem do tempo (por exemplo, o tempo voa , três anos passaram , chegará um dia em que ...). Há também muitas manifestações não linguísticas. Por exemplo, o tempo é representado como espaço em gráficos, linhas, etc. Num relógio, a passagem do tempo é simbolizada pelo movimento de um ponteiro em torno do mostrador (Cook, 1996, p.489, tradução nossa). Segundo H. Clark (1973), o vocabulário inglês na metáfora O TEMPO É ESPAÇO caracteriza-se por três aspetos. Em primeiro lugar, o tempo é unidimensional e deve ser expresso por termos semânticos unidimensionais:
111 O horário pode ser mais estreito (ocupado). 14) 时间表可以安排的再紧些。 O horário pode ser mais apertado (ocupado). Então, em ambas as línguas, as bases cognitivas do mapeamento de largo e estreito entre o domínio espacial e o domínio temporal são comuns: a) Um espaço pequeno faz as pessoas se sentirem com uma pressão, reprimidas, apertadas, assim como a falta de tempo faz as pessoas se sentirem pressionadas a cumprir planos. b) Um grande espaço faz com que as pessoas se sintam confortáveis. Pela mesma razão, o tempo suficiente deixa as pessoas sentir que não há pressão para fazer algo. Por isso, o mapeamento acontece não é apenas no sentido de quantidade de alguma dimensão espacial, mas também em termos da pressão psicológica. A dimensão de largura é extensível e adquire, desta maneira, dois valores semânticos implícitos: uma direção e um acúmulo contínuo de quantidade. Esta particularidade é idêntica à característica intrínseca do tempo. No caso de estreito , preserva-se apenas um limite da extensão espacial e não pode expressar um movimento oposto a algo apresentado por largo . Porém, o sentido de força de estreito é mapeado para o domínio temporal por ser um sentimento contrário de largo . Por isso, o uso de largo no domínio do tempo está envolvido em duas cognições: a primeira é a física relacionada com a extensão e a segunda é a positividade que um grande espaço traz às pessoas. No que diz respeito a estreito , a respetiva projeção apenas contém uma base cognitiva, i.e., um pequeno espaço dá às pessoas um sentimento psicológico depressivo. 3.1.1.3. Grande e pequeno Os adjetivos grande e pequeno ignoram algumas características da aparência física do objeto e acentuam o seu volume, sempre relativamente a algo tido como normal. Quando a diferença física nas 3 diferentes dimensões do objeto (comprimento-largura-altura) for insignificante, este objeto pode ser considerado como cubo ou bola. Como não há dimensão proeminente, as pessoas prestam atenção à sua forma genérica. Se um objeto, tal como um cabelo ou corda, às vezes, pode ser abstratizado ou esquematizado como uma linha mediante a acentuação de uma das suas dimensões, pode-se utilizar os adjetivos longo ou curto em vez de grande ou pequeno para descrever o seu volume. No caso do português, entretanto, há usos equivalentes entre longo e grande ou entre curto e pequeno . Por
112 exemplo, cabelo grande é o mesmo do cabelo comprido e corda pequena indica corda curta . Assim como em mandarim, embora não se diga cabelo grande , temos rio grande no qual grande enfatiza o volume geral mais de longitude. Em português, o adjetivo grande é também utilizado para indicar uma duração longa. Por exemplo, um prazo grande . O adjetivo pequeno , por sua vez, pode descrever a infância, tal como de pequeno , em pequeno , etc. Então, esses dois adjetivos são aplicados em termos de tempo por dois lados: a duração do tempo expresso por grande e a idade expressa por pequeno . Em mandarim, 大 (dà, grande ) e 小 (xiǎo, pequeno ) aplicam-se no domínio temporal em dois aspetos: a idade e a ordem. a) A idade 15) 您今年多大了? Você quão grande este ano? ( Quantos anos você tem ) 16) 母亲年纪大了。 A idade de mãe já é muito grande. ( A mãe está muito velha. ) 17) 我比你小。 Eu estou pequeno 15 (menor) do que tu. ( Sou mais novo que tu. ) 18) 他年纪小。 A idade dele é pequena. ( Ele é jovem. ) b) Ordem do nascimento Aqueles que nascem cedo são de idades "grandes" e aqueles que nascem mais tarde têm idades "pequenas". Por exemplo, o filho mais velho é 大儿子 (dà ér zi, o grande filho ) , o filho mais novo é 小儿子 (xiǎo ér zi, o pequeno filho ). Outro tipo de ordem é representado pelas unidades temporais no calendário. A expressão 上周 (shàng zhōu, cima semana) significa a semana passada ao passo que 下周 (xià zhōu, baixo semana) indica a semana próxima. Com base nisso, tomamos o presente como um ponto de referência, quer seja para o passado quer seja para o futuro: duas semanas relativamente mais distantes podem ser referidas como 大上周 (dà shàng zhōu, grande cima semana, a semana antes da semana passada ) e 15 Em mandarim, não há duas palavras diferentes para indicarem um comparativo
113 大下周 (dà xià zhōu, grande baixo semana, a semana depois da próxima semana ), respetivamente. O que acontece também nas designações de dias. Figura 13. 大 (dà, grande ) e 小 (xiǎo, pequeno ) nas apresentações dos dias No espaço, quanto mais remoto o objeto está de nós, maior é a distância entre o objeto e nós. Acontece o mesmo no domínio temporal. Tal como se pode observar no esquema, quando mais remoto o momento em relação ao presente (o momento da enunciação), maior é a duração entre aquele momento e o presente. Porém, não existe uma semântica de "pequeno" que é correspondente a este uso de grande no domínio temporal. 3.1.1.4. Profundo e superficial A definição de profundo requisita uma superfície e uma dimensão interna definível verticalmente (Clark, 1973, p.39). A semântica prototípica de profundo/superficial indica uma distância longa / curta entre o ponto de partida e o ponto de chegada do movimento (visual ou corporal) dentro de um CONTENTOR (ou algo como CONTENTOR). O ponto de partida geralmente localiza-se na superfície do objeto (Jin, 2004, p.25-27). Além disso, o adjetivo profundo tem interpretações de direção (no geral, é de cima para baixo), de acentuação do espaço interior do objeto e de invisibilidade. Em ambas as línguas, o adjetivo superficial não se aplica no domínio temporal. O adjetivo profundo em português é muito polissémico. O seu significado prototípico indica uma grande distância vertical entre a superfície de um objeto e algum ponto de referência dentro daquele objeto. Por exemplo, o mar profundo , o poço profundo . Outras interpretações são: o grau elevado
114 (profunda ignorância, compreensão profunda, sentimento profundo, etc.), difícil de entender (ciência profunda), um movimento na direção desde cima para baixo ou a voz num tom muito baixo/grave (voz profunda), etc. No que diz respeito ao mandarim, 深 (shēn, profundo ) também indica uma distância vertical (de cima para baixo) ou uma extensão horizontal (de fora para dentro). De acordo com a experiência, os objetos que se colocam no profundo de um CONTENTOR (ou algo assim configurado) são difíceis de ver e chegar. Correspondentemente, profundo tem interpretações de invisibilidade e inacessibilidade. O adjetivo 深 (shēn, profundo ) em mandarim indica em princípio duas direções, uma vertical e outra horizontal. No caso da orientação vertical, refere-se à distância desde a superfície até o Fundo do contentor, tal como 深井 (shēn jǐ ng, o poço profundo ), 深湖 (shēn hú, largo profundo ), etc. Por outro lado, 深 (shēn, profundo ) representa uma distância horizontal entre o ponto de partida e o ponto de chegada de um objeto. Por exemplo, 抽屉的深处 (chōu tì de shēn chù, as profundezas da gaveta) refere o fundo da gaveta no sentido de ser a sua parte mais inacessível. A distância entre a entrada e o fundo é relativamente muito longa. 深深的庭院 (shēn shēn de tíng yuàn, o jardim profundo), por sua vez, indica uma distância distante entre a entrada do pátio e a entrada da casa 16 . Este semântico valor de 深 (shēn, profundo ), em mandarim, volta-se para a ideia de interioridade, ou seja, 深 (shēn, profundo ) enfatiza a dimensão interna do objeto. Por exemplo, perante o vaso, podemos dizer tanto "o vaso alto" quanto "o vaso profundo". 高 (gāo, alto ) destaca uma altura que é observável pela visão fora do vaso, ao passo que a perceção de profundidade deve ser vista desde cima (a entrada do vaso) para baixo. Em mandarim, o adjetivo 深 (shēn, profundo ) está, para além do espacial, relacionado intimamente com o domínio temporal. A experiência do mapeamento entre o espaço e o tempo pode ser resumida como: quanto mais profunda a posição do objeto num CONTENTOR, mais tempo leva para se mover da superfície (o ponto de partida imaginado do movimento) para o fundo do CONTENTOR. Além disso, segundo Lang (1989, p.87), a direção de profundo tem a ver com a visão do 16 Em jardim profundo realmente não tem equivalente em português. Assim profundo em português não se pode aplicar no sentido da horizontalidade como em mandarim, mas se aplica o nome fundo : o fundo da gaveta, o fundo do jardim (esta ideia foi sugerida pelo orientador como falante nativo de português na leitura da tese).
115 observador no sentido de que se refere à distância entre um ponto onde um objeto está próximo ao observador e um ponto mais distante do observador. Para o adjetivo 深 (shēn, profundo ), em mandarim, as suas valências semânticas mais acentuadas são mapeadas para o domínio temporal. Uma é a direção vertical de cima para baixo e a outra é a distância interior entre o ponto de superfície próximo do observador e o fundo. O tempo, neste contexto, é metaforizado como um CONTENTOR. Alguma parte que fica mais longe da superfície frontal do CONTENTOR pode ser metaforizada como um evento que acontece mais tarde num prazo definido. Por exemplo, 深秋 (shēn qiū, profundo outono, um período final do outono ) já fica “longe” do início do outono. Assim, entendemos que profundo é projetado no tempo por meio de produzir a ideia de "tarde" no sentido de se aproximar ao fim. O fundo do CONTENTOR é equivalente ao tempo final de alguma duração. No entanto, o adjetivo 浅 (qiǎn superficial ) não tem opostos usos correspondentes no domínio temporal, uma vez que a semântica deste adjetivo não é dinâmica e extensível, mesmo que o adjetivo superficial tenha uma interpretação de visibilidade. O adjetivo 深 (shēn, profundo ), por sua vez, descreve mar, piscina, rio, buraco e outros espaços que são difíceis de atingir visualmente ao fundo, porque a luz solar é difícil de penetrar num lugar interior daqueles espaços. Quanto mais distante a profundidade, mais fraca é a luz. Obteve-se, desta maneira, o significado funcional de invisibilidade. Temos aqui alguns exemplos que ilustram essa base cognitiva durante um mapeamento entre o espaço e o tempo. A noite é invisível, mas o dia é visível. Sendo assim, profundo pode descrever a noite, mas não o dia. Conclui-se que, em mandarim, a consistência em experiência de adjetivo 深 (shēn, profundo ) entre o domínio espacial e o temporal serve como uma base da metáfora. O adjetivo 浅 (qiǎn superficial ) não consegue ser mapeado para o domínio temporal, devido ao facto de acionar poucas experiências semelhantes entre as mudanças no espaço e as no tempo.
116 3.1.1.5. Conclusão As comparações feitas entre o português e o mandarim podem ser resumidas a seguir. Adjetivo Usos no domínio temporal longo , curto São aplicáveis para descrever a quantidade do tempo. tempo longo = a grande duração tempo curto = a pequena duração largo , estreito ( apertado ) São aplicáveis para descrever a quantidade do tempo por experiência comum entre o espaço e o tempo. tempo largo = a grande quantidade de tempo tempo apertado = a pequena quantidade de tempo Tabela 9. Semelhanças entre o português e o mandarim em aplicação de alguns adjetivos no tempo Português Mandarim profundo , superficial Não se utilizam esses dois adjetivos no sentido temporal. O adjetivo profundo é aplicado para dizer um evento perto do final de um período definido. grande , pequeno São aplicáveis para apresentar a idade (velha ou nova). grande = relativamente mais velha pequeno= infância, relativamente mais nova São aplicáveis para apresentar a idade (velha ou nova). grande= adulto, relativamente mais velha pequeno= infância, relativamente mais nova Grande e pequeno também funcionam numa ordenação de eventos (a distinção entre filho velho e filho novo por sequência de nascimento, as datas no calendário, etc.) Tabela 10. Diferenças entre português e mandarim em aplicação de adjetivos no domínio temporal Numa visão geral, o português e o mandarim demonstram duas ideias semelhantes numa base cognitiva do mapeamento entre o domínio espacial e o domínio temporal em termos dos adjetivos. Uma é quantidade e outra é direcionalidade. Nota-se que, nalguns pares de adjetivos espaciais, os que indicam a quantidade relativamente maior, tais como largo , profundo (no caso do mandarim), etc., são projetados para o domínio temporal, ao passo que os seus opostos não podem ser utilizados correspondentemente de maneira metafórica para indicar a quantidade menor do tempo. Este fenómeno acontece porque o tempo é resultado de um processo dinâmico de acumulação. Assim, o adjetivo de quantidade relativamente maior num par
117 ganha potencialidades semânticas de direção e extensão que cumprem a estrutura cognitiva intrínseca do tempo: o tempo é entendido como um movimento sucessivo com direção única e aumentando continuamente a quantidade. Essa estrutura cognitiva determina que o uso de palavras dimensionais de quantidade menor ( superficial , estreito , pequeno , etc.) no domínio do tempo seja mais limitado, pois o tempo absoluto está constantemente aumentado em vez de estar diminuído. Além disso, nem todas as vertentes semânticas prototípicas das palavras referentes à dimensionalidade espacial são mapeadas para o domínio do tempo. Palavras unidimensionais são frequentemente utilizadas em seu significado original, como comprido , longo , etc., para descrever a quantidade de tempo. Embora no domínio também se aproveitem as palavras de duas ou três dimensões para explicar a quantidade do tempo, costumam ser usados os seus significados metafóricos em função da experiência comum entre o espaço e o tempo. Por exemplo, a invisibilidade de profundo (em mandarim), a importância da posição social de alto e a sincronicidade espacial de grande (o tamanho de uma pessoa é pequeno quando ela é jovem, depois torna maior o seu volume corporal no espaço com um aumento de idade). 3.1.2. A correspondência entre a relação espacial dos objetos e a sequência dos eventos Em nossa vida quotidiana, não há experiência de espaço sem tempo, nem experiência de tempo sem espaço. Segundo Clark (1973): Time is not just expressed with an occasional spatial simile, but rather is based on a thoroughly systematic spatial metaphor, suggesting a complete cognitive system that space and time expressions have in common (Clark, 1973, p.62). Embora algumas línguas, como o Aimará e o Quíchua, tenham a mesma palavra ( pacha ) para designar espaço e tempo como um conceito único (Núñez e Cornejo, 2012), a maioria das línguas apresenta uma hierarquia concetual, na qual o tempo é indiretamente concetualizado pelo espaço (Haspelmath, 1997, p.18). De acordo com Mellado Blanco (2011), as línguas criam um “espaço” figurativo que pode ser “ocupado” por eventos que nele ocorrem, com uma certa distância (distal ou proximal), velocidade (lenta ou rápida) e direção (para frente, para trás, etc.). Sendo assim, pensamos que entre o domínio espacial e o temporal existe tanto o mapeamento ontológico quanto o mapeamento epistémico.
118 La proyección indica la relación entre el dominio origen y el dominio destino y se divide en dos tipos: correspondencias ontológicas y correspondencias epistémicas. La correspondencia ontológica tiene como función poner de relieve las relaciones analógicas existentes entre las partes más importantes de cada dominio, en otras palabras, conecta subestructuras entre los dos dominios. La correspondencia epistémica, a su vez, describe los factores comunes entre los dominios y traslada información desde el dominio origen al dominio destino (Bylund e Konke, 2015, p.117). Pela perspetiva linguística, os conceitos que estão associados a experiências de espaço e movimento contribuem para estruturar os conceitos temporais, uma vez que o vocabulário de espaço ou de movimento são frequentemente utilizados com o propósito de referir os conceitos temporais (Moore, 2000 p.17). 3.1.2.1. Cognições diferentes entre o espaço e o tempo na direção Segundo Teixeira (2001), o tempo pode ser expresso quer pelo modelo dinâmico, quer pelo(s) modelo(s) estático(s) do espaço: (…) não é o espaço que representa o tempo: o interior branco de um círculo é uma figuração típica de um espaço, mas que nunca pode representar o tempo. Este só pode ser representado quando no espaço se delimita uma linha direcionada que representa o movimento que inclui o próprio tempo (Teixeira, 2001, pp.494-495). Figura 14. (FIGURA 37 no texto original, Teixeira, 2001, p. 495) Teixeira conclui que: (…) não é a globalidade do espaço, mas sim o espaço do movimento que representa o tempo. Só que como no movimento há sempre tempo implicado, segue-se que o representado é indissociável do representante (Teixeira, 2001, p.495).
119 A relação inerente entre tempo, espaço e movimento pode ser resumida em dois aspetos. Em primeiro lugar, o tempo deve ser percebido mediante o movimento. A direção do tempo vem da direção do movimento dos objetos no espaço que, por sua vez, é realmente uma produção subjetiva do ser humano. No espaço não há direcionalidade objetivamente existente. O sol ou a lua não se importa de ficar a leste ou a oeste. Somente quando as pessoas precisam de reconhecer a direção de um objeto nas atividades quotidianas, os objetos têm de ser direcionados e posicionados. Por exemplo, de acordo com a frase “há uma bicicleta na frente da biblioteca”, entendemos a localização relativa entre a bicicleta e a biblioteca por definição da direção frente . O tempo, por sua vez, ocorre desde algo cedo para algo tarde, sem o ponto inicial nem o ponto final. Então o tempo absoluto não tem uma direção no sentido espacial. Por isso, a direção do tempo também é um produto da cognição humana. Quando não se aproveita o calendário, ou melhor dizendo, a forma matemática para indicar um tempo ou um evento, geralmente empregamos o presente como ponto de referência para localizar um evento em função das coordenadas espaciais, assim como utilizamos as coordenadas de latitude ou longitude para definir a localização geográfica de algum objeto no espaço. Além disso, devido à irreversibilidade dos eventos, a nossa perceção do tempo tende a ser unidirecional. Neste contexto, muitas das direções simétricas, tais como direitaesquerda, sul-norte, etc., não são utilizadas para apresentar a direção do movimento do tempo. Em segundo lugar, a sequência de eventos tem a sua origem numa ordem posicional. Por um lado, a sequência é fixa e nunca muda de perspetiva ao longo do evento, uma vez que a ordem entre o passado e o futuro não pode ser invertida. Por outro lado, devido à dualidade de perspetiva (o observador pode enfrentar o objeto com a visão para a frente ou virar a cabeça com a visão para trás), há mapeamentos diversificados entre direções espaciais (cima/baixo, frente/trás, etc.) e tendências temporais (o passado, o futuro). Por isso, convém enfatizar que as relações temporais entre os eventos são imutáveis. O que é mutável é a aplicação metafórica da direção espacial na definição da relação temporal. 3.1.2.1.1. A distinção entre a Figura e o Fundo A maneira de localizarmos os objetos implica o reconhecimento da relação assimétrica entre um objeto que queremos localizar e um objeto a respeito do qual nós o localizamos (Talmy, 1983,
120 Langacker, 1986). As relações assimétricas são reconhecidas mediante o tamanho, a força suporte (contacto), a orientação, a ordem, a distância, o movimento ou uma combinação de vários. Por exemplo, uma relação possível entre o livro e a mesa é que o livro está em cima da mesa . Normalmente, a mesa tem o volume maior do que o livro. Este conhecimento oferece a possibilidade de indicar o livro sobre a mesa. Por isso, para perceber a relação espacial que existe a respeito dos objetos requer-se um conhecimento, pelo menos, das regras de suporte: o objeto maior suporta o menor, a menos que haja um equilíbrio entre eles (Svorou, 1994, p.7). Se não houver uma assimetria óbvia entre um objeto de referência e um objeto que queremos localizar, damos-lhe algum tipo de assimetria. A localização do observador é uma das razões mais importantes que decide esta assimetria, nalguns casos. Take, for instance, a situation in which we want to locate a building on a street. We may describe it as being located "on the left-hand side as you go towards downtown". The left-right asymmetry is imposed on the street by the direction of travel and the left-right asymmetry of the traveler (Svorou, 1994, p.9). Ao apresentar a relação assimétrica entre entidades no espaço, Talmy (1983, 2000) aproveita os termos Figure (Figura) e Ground (Fundo), para indicar respetivamente o objeto a ser localizado (Figura, ou seja, objeto-alvo) e o objeto de referência (Fundo). As diferenças e particularidades entre a Figura e o Fundo são resumidas na Tabela 1 (vejam-se a secção 1.2.2.1.). Um objeto-alvo (Figura) é normalmente considerado como um ponto sem dimensão por ser ignorada a sua particularidade geométrica. Um objeto de referência (Fundo), pelo contrário, é sempre mais sensível em relação às suas particularidades geométricas (o volume, a direção intrínseca, etc.) (Hayward e Tarr, 1995, p.43). No entanto, às vezes, Figura e Fundo podem apresentar-se de distinção complexa um de outro, nalguns casos específicos, pelo facto de que o uso da designação Fundo pode gerar confusão quando aplicada ao espaço, pois um objeto do Fundo pode ser considerado Figura. Por exemplo, Teixeira adota a designação de Configurante em vez de Fundo porque esta designação se torna confusa quando se aplica ao espaço, porque um objeto do Fundo pode não ser o Fundo, mas a Figura. Na frase A montanha está mesmo em frente aos meus olhos , a montanha seria a Figura e "os meus olhos" são o Fundo/Ground, o que torna a nomenclatura confusa. No contexto do uso da língua portuguesa como
127 perspetiva do observador, a relação temporal é imudável. Núñez e Sweetser (2006) negam que a interpretação do tempo-RP ( Time-Reference-Point ) requer um observador como um no domínio espacial. Mas isto não significa que não haja um papel crucial do observador implícito nalgumas expressões temporais. Na verdade, os observadores também estão envolvidos nas sequências temporais (Dewell, 2007, p.293), uma vez que a ideia de Núñez e Sweetser (2006) é correta apenas quando a sequência temporal não se refere ao momento da enunciação ou a qualquer informação deítica. Sendo assim, embora a sequência ignore o deítico, o observador realmente tem a sua função na determinação da sequência entre os eventos em termos de direções espaciais. Sabemos que há uma experiência comum entre a sequência ( anterior / posterior ) e a direção ( frente / trás ). Moore (2000) sugere que é essa correlação experiencial que define um evento como ponto de referência por ignorar o observador para ativar a metaforização de sequência em termos de relações espaciais, tais como, antes/depois ou precedente/seguinte. Neste caso, o Ego não é necessariamente um participante. Dewell (2007, p.293) refere três dúvidas em relação à metáfora de sequência temporal. Em primeiro lugar, em vez de pensarmos os eventos como objetos que se movem juntos sob uma ordem imutável, é mais conveniente considerá-los como pontos fixos numa linha que se estende para a frente. Em segundo lugar, porque as unidades temporais (dias, meses, anos ou eventos) são percebidas como movimento desde o momento mais afastado de nós (mais tarde) para o momento mais próximo (mais cedo) de nós num contexto de que a expressão go on funciona com uma direção contrária, i.e., desde o próximo (mais cedo) para o longe (mais tarde). Por exemplo, The war began in 1914 and went on for four years (p.293) indica que a guerra terminou em 1918 em vez de 1910. Em terceiro lugar, é incomum dizer que Monday will eventually reach the beginning of time before Tuesday does (p.293). Por isso, o tempo é sucessivo, não há um ponto do começo, nem um ponto final. Então, caso tudo no tempo se esteja a mover sob uma ordem, onde ficará o ponto de referência do movimento da terçafeira ? Segundo Dewell (2007), a única solução para todas as questões é que existe uma perspetiva concetual, ou seja, um observador, numa expressão da sequência temporal: If we are going to conceive of times as moving in tandem, then they must be moving relative to a conceptual perspective. And since the conceptual perspective is not profiled in the relation, it must play a role that is presumed as a given in the temporal domain (Dewell, 2007, pp.292293).
128 O observador deve existir numa sequência temporal, mas ele não faz efeito numa definição de posição relativa dos eventos, uma vez que neste caso uma apresentação do tempo faz referência a um quadro de referências absolutas na medida que a sequência temporal é ilustrada totalmente pela ordem dos eventos. Uma evidência da existência de observadores na sequência temporal também é confirmada polos verbos deíticos. Ao descrever a relação entre eventos, os verbos preservam a característica deítica ao tomar um observador como o ponto de referência: This follows as the verbs precede/follow and the prepositions before/after are only compatible with the Event Sense when it is integrated in the Complex Temporal Sequence model. This model serves to relate one event to another by virtue of imposing an in-tandem motion event (Evans, 2005, p.230). Em português, também temos verbos referentes à sequência temporal, tais como o verbo seguir . No caso do mandarim, temos valores semânticos semelhantes. Por exemplo, 接着 (jiē zhe, seguir ), 接 下来 (jiē xià lái, a seguir ). Além disso, na maioria das línguas conhecidas, temos dois verbos deíticos na expressão da sequência temporal: vir e ir (Radden, 1996). Vejamos alguns exemplos referidos por Dewell (2007): (1a) Tuesday comes after Monday. (2a) The Second World War came after the Depression. (3a) The sound of an explosion came after the flash. (4a) A reception came after the talk (Dewell, 2007, p.293). As frases podem ser interpretadas como se estivéssemos hipoteticamente a ocupar um local na linha temporal de tal forma que, digamos, a segunda-feira chega ao nosso local e passa por nós antes de a terça-feira . A segunda-feira aparece primeiramente, "vem à mente" e a terça-feira "vem" mais tarde para substituí-la em nossa consciência. Uma é substituída por outra pela ordem determinada em vez de as duas correrem simultaneamente. O verbo come ( vir ) demostra que o ponto de vista não está localizado aleatoriamente no tempo. Os eventos devem mover-se sob uma direção dirigida ao ponto de vista do observador. Desta maneira, o observador poderia encontrá-los em sequência. O observador enfrenta os eventos. Se não, não seria capaz de "vê-los" quando eles aparecem. Por outras palavras, a metáfora temporal requer uma perspetiva concetual para o observador estar a enfrentar algo "mais tarde" (assim como o Ego deítico deve enfrentar o futuro). Os eventos, por sua vez, estão a mover-se
129 numa mesma direção. A localização do observador na linha temporal é o momento da enunciação (Dewell, 2007). Evans (2005) refere outro modelo da sequência temporal como Complex Temporal Sequence Model : (…) the hallmark of the Complex Temporal Sequence model is that it does not conventionally include integration of the lexical concepts Present, Past and Future. Rather, this model serves to integrate temporal events of various kinds, such that they can be related as being earlier or later with respect to one another. Hence, the essential relation which derives from integrating the temporal concepts involved in this model, and their patterns of elaboration, typically involving following or preceding deictic motion, is that the temporal events are sequenced with respect to one another (Evans, 2005, p.227). Neste contexto, o centro deítico não é o Ego, mas sim um evento em relação ao qual o evento em questão é sequenciado (Evans,2005, p.229). Ainda de acordo com Evans (2005, p.231), as preposições, in front of (à frente) e behind (atrás), estão relacionados com elementos estáticos. Portanto, elas são incompatíveis com entidades espaciais que envolvem o movimento. O vocabulário temporal que é integrado no modelo de Sequência Temporal Complexa já está elaborado em termos de movimento deítico. Sendo assim, in front of (pela frente) e behind (por atrás) não são aplicáveis na expressão de sequência. A sequência no tempo e a ordem no espaço são cognitivamente diferentes. A diferença não se limita à forma do movimento que é referido por Dewell, em vez de pensar em eventos passados como algo objetivamente móvel, parece mais natural que os considera como "locais" temporais com posições fixas na linha temporal (Dewell, 2007, p.293), mas também é manifestado em critérios de definir as direções do movimento (nas quais as mais estudadas são frente e atrás ). Uma relação espacial depende mais das características internas do objeto de referência, da visão ou da posição do observador, ao passo que a sequência é definida prioritariamente pela direção do movimento do tempo. Na opinião de Teixeira (2001), um observador pode ser entendido como um experienciador: o primeiro elemento a ser experienciado está antes , o elemento experienciado secundariamente está depois . Ora as experienciações, embora se situem simultaneamente no tempo e no espaço, só podem ser ordenadas temporalmente: entre os pontos do espaço não há uma ordem sequencial; só há entre os pontos do tempo. Quando o espaço é ordenado, é-o através de uma
130 sequencialização temporal. Isto implica que a configuração antes/depois é prioritária e intrinsecamente temporal. Todos os usos espaciais de antes/depois incluem o vector temporal, mas os usos prototípicos, os temporais, não incluem o vetor espacial (Teixeira, 2001, p.488). Embora o tempo e o espaço sejam dois sistemas cognitivos relativamente independentes, não são tão independentes no léxico. Segundo Hill (1978): In most language the lexical resources used for representing orientation along the front/back axis in horizontal space are also used for representing temporal orientation. In certain languages, the lexical items that represent “front” and “back”, whose referential function are anchored in human anatomy itself, are directly used in expressing temporal orientation. (…) In many other languages, however, the lexical item for front and back do not directly function in both domains. The lexical roots found in this basic pair, however, are often extended in quite complex ways into the temporal domain as well as spatial (Hill, 1978, p.524). Nalgumas línguas, o vocabulário temporal e o vocabulário espacial são exatamente coincidentes, tal como 前 (qián, frente )/ 后 (hòu, trás ) em mandarim. Noutros casos, a sequência no tempo e a ordem no espaço são representados por vocabulário que acentuam propriamente o valor semântico temporal ou o espacial. Por exemplo, before/after e front / back no inglês, antes/depois e frente/trás em português. No inglês, não se diz Monday is in front of Tuesday (a segunda-feira está à frente da terça-feira), embora, por um lado, a localização relativa entre eles esteja estável e, por outro, os objetos espaciais que se movem em conjunto possam ser localizados com as preposições posicionais. Por exemplo, as relações espaciais entre dois corredores que estão numa mesma corrida podem ser variáveis: ahead of , behind , in front of , in back of ou next to . No entanto, nenhuma delas é adequada para referir uma sequência temporal. Parece que os eventos ou unidades temporais não são interpretados completamente pela metáfora posicional que é feita com base em objetos movidos conjuntamente numa certa ordem. Propomos, então, duas hipóteses: a) o vocabulário usado na metáfora temporal tem efeitos no entendimento da direção do movimento temporal, o que vai resultar no grau de relevância entre o domínio-fonte e o domínio-alvo. b) entre o espaço e o tempo, os modelos mentais sobre o movimento do tempo também podem variar em diferentes línguas, mesmo que aquele movimento aconteça e seja percebido sob uma mesma “direção” (desde o futuro para o passado ou inverso).
131 A primeira hipótese pode ser confirmada tendo em vista que, em comparação com uma língua (como o português) que tem um vocabulário com interpretação acentuada num dos domínios (quer seja o domínio ESPAÇO quer seja o domínio TEMPO), o mandarim não faz diferença no valor semântico em ambos os domínios e produz mapeamentos mais abundantes entre a direção espacial ( frente/trás ou cima/baixo ) e a direção temporal (do passado ao futuro ou inverso). As características semânticas espaciais são preservadas e aplicadas com mais frequência no domínio do tempo na medida em que possibilita a produção da metáfora temporal. No que diz respeito à hipótese b), entendemos que a variedade dos mapeamentos nos mesmos domínios-fonte e alvo tem a ver com a diversificação das implicações ( entailments ) que, por sua vez, estão influenciadas pelas razões culturais. 3.1.2.2. O papel nuclear do eixo de frente/trás na cognição O espaço pode ser percorrido em três dimensões, ao passo que o tempo é concetualizado como algo unidimensional. No entanto, os eventos futuros podem ser encontrados em vários locais ao redor do Ego, nos quais há ainda posições que estão fora de direções tradicionais (ex. frente/trás) (Núñez e Sweetser, 2006; Brown, 2012). Então, devemos considerar o tempo por outra perspetiva, i.e., o que é metaforicamente ordenado não é o tempo, mas sim os seus componentes contáveis (duração, unidade temporal como dia, mês ou ano) ou apresentações experimentáveis, tais como, eventos, ação, etc. Além disso, a essencialidade do tempo é dinâmica por ser entendido como mudança. Sendo assim, a direção do movimento desempenha um papel importante na ordenação dos eventos. 3.1.2.2.1. Porquê ser o eixo frente/trás Embora a frequência do vocabulário espacial nas expressões temporais seja universalmente reconhecida em muitas línguas, a questão de haver alguma restrição na seleção de unidades lexicais espaciais para apresentarem relações temporais raramente tem sido levada em consideração. Os eventos, ao contrário de pessoas ou objetos que têm lados frontais e traseiras identificáveis, não possuem caraterísticas fisiológicas inerentes. Assim, precisamos de entender, antes de mais, porque é que os falantes sempre definem the earlier event (em inglês) é the event in front (Traugott, 1975, p.219). Ou seja, porque é que em inglês os eventos que aconteceram mais cedo estão relacionadas
132 com frente (no espaço) enquanto os que acontecerão mais tarde estão relacionadas com atrás (no espaço)? A questão talvez possa ser resolvida com as palavras de Traugott (1975) e de Sternberg (1981): (…) time is in fact an assumed relation in language, not a concrete one and whatever orientation or movement it has must be derived from the act of locating what we talk about on an imaginary time-line (Traugott, 1975, p.220). Even a spatial series of one dimension, where things are ranged along a straight line, may have a measure of intrinsic order but certainly none of the intrinsic direction (or what some philosophers call "sense") peculiar to time (Sternberg, 1981, p.67). Então, entendemos que o tempo não tem uma direção, mas sim tem uma ordem que é concretizada pela direção da passagem do tempo absoluto ou da sequência dos eventos. Embora a direção seja variável devido às culturas específicas em diferentes línguas, o eixo de frente / trás é sempre o mais utilizado. O uso prioritário de frente / trás nas expressões temporais pode ser entendidas mediante a base cognitiva do mapeamento entre o espaço e o tempo. O estudo de Frishberg e Gough (1973) demostra que em muitas línguas (francês, chinês e japonês, etc.) aproveita-se uma direção espacial para distinguir o passado, o presente e o futuro. Figura 15. Frente e atrás com a referência da cara (Frishberg e Gough, 1973) Embora nem todas as línguas façam distinções entre o passado, e o futuro, próximos ou distantes (tais distinções são, no entanto, feitas em muitas línguas ameríndias), o tempo está intimamente relacionado com os lados de frente e de trás do corpo. Casasanto e Jasmim (2012) explicam esse fenómeno com a assimetria corporal:
133 Known human languages use both the sagittal and vertical dimensions to describe time, which can be reflected in spatial-temporal metaphoric language. human languages generally do not use left-right space when describing time. A possible explanation might be that the body is symmetric left to right (Casasanto e Jasmim, 2012, p.658). Sendo assim, a assimetria do corpo deve ser uma das razões principais que contribuem para o uso de frente / trás nas expressões temporais na maioria das línguas conhecidas, uma vez que os órgãos do lado frontal (cabeça, rosto, peito, joelhos, pés, etc.) são fisiologicamente distintos em relação aos das costas. O movimento faz parte importante numa cognição sobre o tempo. O tempo é, realmente, concetualizado como algo dinâmico, sendo percebido através das mudanças ilustradas por diferentes eventos (Evans, 2003). Então, as particularidades dos eventos, tais como a unidirecionalidade ou a unidimensionalidade, vão ser tidas em conta ao metaforizar o tempo. Além disso, devem-se utilizar palavras que tenham relações semânticas com avançar, para indicar o desenvolvimento dos eventos. Por isso, a direcionalidade mais acentuada é a direção de frente . Nalgumas línguas, o eixo vertical de cima/baixo também funciona na sequência dos eventos pela assimetria entre a parte superior e a parte inferior do corpo, tanto na forma, quanto na função (Radden, 2011, p.6). Por exemplo, no caso do mandarim, o tempo mais cedo tem a ver com cabeça e o tempo mais tarde está relacionado com o cabo, i.e., uma parte final do corpo de alguns animais. Normalmente as direções cima/baixo são aplicadas como indicativos num ordem das unidades temporais, tais como, 星期 (xīng qī, semana ), 月 (yuè, mês ). Figura 16. Relação entre o eixo cima-baixo e anterior-posterior em mandarim (com exemplos de semana )
134 Figura 17. Relação entre o eixo cima-baixo e anterior-posterior em mandarim (com exemplos de mês ) Observa-se também no eixo vertical algumas expressões temporais devido à gravidade que causa um movimento automático de algum objeto no espaço, tal como o rio no caso chinês (Shinohara, 1999). No que diz respeita à direção de esquerda para a direita, é a direção mais cultural em relação às outras duas (a horizontal no sentido de frente / trás e a vertical em termos de cima / baixo ). Mesmo que sejam simétricos os lados esquerdo e direito do corpo, há diferenças funcionais refletidas na destreza das mãos (Li, 2020, p.83). Essa experiência corporificada é obtida na preferência da mão direita nas atividades quotidianas, tais como hábitos da escrita ou da leitura que, por sua vez, têm efeito enorme na perceção temporal (Santiago et al ., 2007, Ulrich e Maienborn, 2010). Além dos estudos que analisaram línguas que têm a direção de escrita da esquerda para a direita, há alguns que analisaram as línguas que têm a direção oposta de escrita. Por exemplo, Tversky et al. (1991) descobrem que os participantes árabes preferem organizar a sequência de eventos pela direção da direita para a esquerda. Fuhrman e Boroditsky (2010) descobriram o mesmo fenómeno numa comunidade linguística de hebraico. Em mandarim, 左 (zuǒ , esquerda ) e 右 (yòu, direita ) são aplicados conjuntamente para expressar um alcance espacial ou uma duração. Por exemplo, 32) 下周三左右就能结束项目。
135 O projeto vai terminar esquerda e direita na quarta-feira (perto/por volta/cerca de quarta-feira). 33) 在中国,完成义务就教育需要九年左右。 Na China, uma educação obrigatória necessita de nove anos esquerda e direita (por volta de 9 anos). 左 (zuǒ , esquerda ) e 右 (yòu, direita ) nunca se utilizam separadamente quando funcionam como indicadores temporais, ao passo que os eixos de frente / trás e cima / baixo podem ser usados independentemente. As evidências linguísticas confirmam uma consideração prioritária em assimetria do tempo nas configurações espaciais da sequência dos eventos (Traugott, 1975, p.219). Conclui-se que o uso prioritário de frente / trás como a direção do tempo é devido a duas razões principais. Em primeiro lugar, a assimetria do corpo faz frente / trás desempenhar um papel crucial na cognição espacial: The frontal axis conforms with our frontal vision when standing upright and moving forward. Its motivation for notions of time derives from the unbounded nature of passing time: the time-line we trace in front of us and behind us is infinite (Radden, 2011, p.4). It would be more unusual for a word meaning ‘eyebrow’, ‘temple’, ‘cheek’, etc. to attain new meanings through the processes of grammaticalization due to the fact that these body parts are not as indicative of human experience and are not generally considered to be as important to the characterization of one’s emotions and states of mind (Waltermire, 2017, p.326). Em segundo lugar, o tempo e o movimento estão intimamente ligados. O movimento está sempre relacionado com a mudança das posições do objeto que, por sua vez, se realiza com o tempo. Frente/trás não é apenas uma divisão da direção corporificada, mas também uma direção referencial do movimento. O quadro de referência de movimento é um resultado dinâmico do quadro de referências intrínsecas: A movement RF establishes FRONT/BACK-REGIONS of entities not only by situational movement, but also by typical movement. Thus, the front of most vehicles is the side which we, as passengers, typically experience as changing place or encountering new places first. (...) objects such as shot guns and rifles, receive a "front" by the direction of movement of the contained entity when it is released by pouring out or shooting (Svorou, 1994, p.36). Então, frente e trás são as direções mais acentuadas num deslocamento dos objetos, assim como na direção de um evento em relação ao outro ou ao Ego (que está sempre no momento da enunciação) numa linha temporal.
136 3.1.2.2.2. Frente / trás no espaço e os seus usos no tempo No domínio espacial, frente ou trás são decididos por vários fatores. Com o propósito de acentuar os objetivos do nosso estudo, apresentamos a seguir apenas aquelas estratégias que têm efeitos em metáforas temporais. Do ponto de vista cognitivo, a definição de frente ou trás no espaço deve ter em consideração três aspetos. Em primeiro lugar, uma relação espacial é tanto estática no sentido de ser uma relação posicional quanto dinâmica em termos de uma direção do movimento (Bowerman e Choi, 2001). Em segundo lugar, frente e atrás não indicam apenas uma direção, mas também uma região, ou seja, uma zona (Svorou, 1994, p.12). As duas partes são interligadas - a primeira decide a segunda, de certa maneira. Em terceiro lugar, frente ou atrás é definido por diferentes quadros de referência, nos quais os mais acentuados são o quadro de referências intrínsecas e o quadro de referências relativas. O primeiro é constituído pelas características estruturais ou funções do objeto de referência, não sendo modificado por mudanças na posição ou visão do observador. Ao invés, no quadro de referência relativa, frente ou atrás é determinada pela posição ou perspetiva do observador. Com base na pesquisa existente, listamos nesta secção as estratégias para definir as direções de frente e atrás e resumimos os principais aspetos cognitivos sobre essas duas direções no espaço. Depois, estudamos se essas perspetivas cognitivas servem como base para o mapeamento da metáfora concetual de sequência. O espaço ao nosso redor não está organizado de maneira predefinida, a menos que nós o tendamos o organizar com as direções de frente , atrás , direita e esquerda (Franklin et al ., 1995, p.397). O corpo humano fornece um padrão para isso. Os seres humanos, ao se orientarem no espaço, aproveitam as propriedades inerentes dos seus corpos. A característica mais importante na distinção entre o lado de frente e o lado trás é uma assimetria do corpo humano. Segundo Cox (1981), os objetos configurados, tais como corpos humanos, carros, etc., possuem características de orientação inerente de frente : Featured-objects such as people, cars, etc., have inherent fronts and backs. It may well be the case that subjects will interpret the spatial terms “in front of” and “behind” as referring to these inherent features of objects. In other words, “in front of the doll” should mean near the face, and “behind the doll” should mean near the doll’s back (Cox, 1981, p.360).
239 preferential mapping between forward movements and future-words and backward movements and past-words. Critically, blind participants did not show any such preferential time–space mapping. Furthermore, in a questionnaire requiring participants to think about past and future events, blind participants did not appear to perceive the future as psychologically closer than the past, as it is the case of sighted individuals (Rinaldi et al ., 2018, p.444). Segundo estes resultados, sabemos que o desenvolvimento visual é crucial para concetualizar o tempo na relação frente-trás no eixo horizontal (sagital). No caso do mandarim, Yu (1998, pp.99-104) também apresenta exemplos dos verbos visuais nas expressões lexicais de futuro e passado : Expressões lexicais do passado Expressões lexicais do futuro 回顾 huí gù (turn around-look back) ‘look back; review’ 展望 zhǎn wàng spread out/unfold-gaze into distance/look over) ‘look into the distance; look into the future; look far ahead’ 回望 huí wàng (turn around-look back) ‘look back; review’ 瞻望 zhān wàng look forward-gaze into distance) ‘look forward; look far ahead’ 回首 huí shǒ u (turn around-head) ‘look back; recollect’ 瞻念 zhān niàn look forward-think of) ‘look ahead and think of (the future) 回眸 huí móu (turn around-eye) ‘look back; recollect; recall’ 回溯 huí sù (turn around-trace back) ‘recall; look back upon’ Tabela 43. Exemplos dos verbos visuais nas expressões lexicais de futuro e passado em mandarim Em mandarim, uma ação de olhar à frente marca o futuro. Virar a cabeça e olhar para a direção de trás do corpo representa uma expressão temporal no sentido do passado. Essas correspondências entre direção e tempo existem tanto no modelo de time-moving quanto no modelo de ego-moving . Mas as bases cognitivas do mapeamento são diferentes. No modelo de time-moving , o alcance da visão refere-se ao período entre o futuro e o presente. O invisível está relacionado com o passado. Então, ao olhar para os eventos que ainda não aconteceram, basta olhar para frente . Para olhar os eventos no passado, precisa de virar a cabeça, i.e., 回首 (huí shǒ u, voltar a cabeça, olhar para atrás ou lembrar ) ou 回顾 (huí gù, voltar ver, rever ). O modelo de ego-moving , por sua vez, reserva uma diferente cognição metaforizada a partir do domínio espacial. A direção da visão é determinada pela direção do movimento de Ego na linha
240 temporal. Portanto, olhar para frente é olhar para o futuro. Assim, ver a caminhada à frente claramente indica que tem uma ideia certa sobre o futuro e não pode ver nitidamente o futuro significa que não faz ideia em relação ao desenvolvimento de algo. Essas são expressões metafóricas do verbo 看 (kàn , ver ) no domínio do tempo. "Visível" representa o futuro (do evento) definido, ao passo que "invisível" representa o futuro (do evento) indeterminado. 眼光长远 (yǎn guāng zhǎng yuǎn, visão longa, indica uma boa capacidade de prever o futuro e 前瞻性 (qián zhān xìng, frente visão) ilustra que uma pessoa tem capacidade de conhecer e controlar antecipadamente o futuro. Isso ocorre porque a direção do movimento é definida, na maioria das vezes, como frente . Olhar para atrás refere-se a recordações das experiências da vida passada, porque a direção oposta à direção do próprio movimento é definida como atrás . Além disso, 眼下 (yǎn xià, olho baixo, a partir de hoje até o futuro próximo ) e 眼前 (yǎn qián, olho frente na frente de olho, a partir de hoje até o futuro próximo ) são provas do papel crucial da visão em expressar o tempo. 望 (wàng, ver ), é um outro verbo típico de ação visual que é universalmente aproveitado nas expressões temporais. Wu e Xu (2011) realizaram um estudo do verbo 望 (wàng, ver ) com base em metáforas espaciais e na Teoria de Protótipo. Um valor semântico de 望 (wàng, ver ) é "olhar à distância", enfatizando uma distância longa entre o observador e o objeto-alvo. A longa distância indica a duração. Desta maneira, derivam-se alguns significados metafóricos do verbo 望 (wàng, ver ), tais como, 盼望 26 (pàn wàng, esperar ), 期望 (qī wàng, esperar ), 渴望 (kě wàng, esperar ). Todos indicam esperar acontecer algo no futuro . 瞻仰 (zhān yang, respeitar ) relaciona-se com uma ação de olhar para cima . Em mandarim, o eixo vertical cima/baixo também é usado nas metáforas temporais. Em cima é passado e o baixo é futuro. Acima estão os ancestrais. Olhar para cima desde uma localização mais baixa demostra grande respeito aos antepassados, correspondendo, desta maneira, à cognição cultural chinesa, i.e., o respeito aos antigos. 26 盼(pàn, ver , esperar ), 期(q ī, combinar , esperar ), 渴(k ě wàng, sede )
241 回头 (huí tóu) indica uma ação de virar a cabeça para (a)trás quando é utilizado no sentido espacial. É usado também no domínio temporal para representar o futuro próximo. Por exemplo, 156) 咱们回头见! Vamos virar a cabeça para atrás ver. ( Até à próxima! ) 157) 我回头去您家 。 Eu virar a cabeça para atrás visitar a sua casa. ( Vou visitar a sua casa em breve. ) 回头 (huí tóu) passa de uma ação corporal para indicar uma duração curta depois do momento da enunciação, referindo-se ao pouco tempo a decorrer até ao futuro no qual vai acontecer um evento. 3.2.4. Metáforas do modo de realizar um movimento (do tempo ou do Ego no tempo) Os verbos de modo de movimento são tratados na literatura (Jackendoff, 1990; Levin e Rappaport, 1992) como verbos que denotam o movimento de um objeto, mas não descrevem seu trajeto e o modo como um objeto se move. Amaral (2011) aceita a divisão dos verbos de modo de movimento em dois grupos diferentes (um grupo de run e um grupo de rol ). Verbos como dançar são classificados em grupo de run ( correr ), ao passo que verbos como balançar e sacudir pertencem ao grupo de roll ( rolar ). Para as autoras (Levin e Rappaport (1992)), o que diferencia os verbos da classe de roll dos verbos da classe de run é se a ação denotada pelo verbo só ocorre espontaneamente ou se é diretamente causada por um agente ou uma força externa. Verbos da classe de roll são verbos que aceitam uma causa externa, já que o objeto que se move não age sobre o próprio movimento. Verbos da classe de run são verbos que não aceitam uma causa externa, já que o objeto movido desencadeia e controla o próprio movimento (Amaral, 2011, pp.77-78). De acordo com Talmy (1985), nas línguas conhecidas descobrem-se três modelos de lexicalização de verbos de movimento: [Movimento + Modo/Causa], [Movimento + Trajeto] ou [Movimento + Objeto que move]. O português, juntamente com as línguas românicas é uma língua que tende a lexicalizar a trajeto (e não o modo) em seus verbos de movimento. Por isso, os verbos que lexicalizam o modo de movimento devem ser restritos em português. O mandarim, ao contrário, como uma língua que acentua o modo [Movimento + Maneira/Causa] na lexicalização de verbos de movimento tem mais valores para demostrar modos de movimento do tempo.
242 Em português, há verbos, tais como voar , para indicar uma passagem rápida do tempo. Em mandarim, quando se trata da forma de concetualizar a passagem do tempo, por um lado, enfatiza-se, a instantaneidade do tempo devido à sua passagem rápida e, por outro, acentua-se a continuação do tempo pela sua sucessão constante. Em mandarim, temos quatro tipos de expressões lexicais de variação em sujeito de movimento para que descrevam a passagem rápida do tempo: a) corrida de cavalo b) movimento de algumas ferramentas c) ações instantâneas do corpo humano d) movimento do sol, da lua, etc. Vejamos a seguir um grupo de corrida de cavalo com os exemplos 158) e 159). 158) o cavalo branco passa pela frincha 白 驹 过 隙 bái jū guò xì branco Cavalo passar frincha o cavalo branco passa pela frincha 159) o cavalo branco passa pela frincha 窗 间 过 马 chuāng jiān guò mǎ janela frente da janela passar cavalo o cavalo branco passa pela frincha Na China antiga, os cavalos brancos geralmente simbolizam cavalos com excelente capacidade de corrida. Quando o cavalo passa por um espaço pequeno, podemos entender facilmente que, com a velocidade muito rápida, o tempo necessário de acabar a ação de passar é muito pequena. Desta maneira, enfatiza-se o tempo passa num instante. Essas duas expressões lexicais utilizam a característica da velocidade da corrida do cavalo e as particularidades espaciais dos espaços por onde o cavalo passa (pequenos espaços) para indicar que a vida é muito curta devido à rapidez do tempo. No que diz respeito ao caso de aproveitar os movimentos das ferramentas usadas na vida humana com muita frequência para metaforizar características do movimento do tempo, as mais típicas são a lançadeira e a flecha. A primeira é usada para fazer tecelagem, enquanto a segunda tem função insubstituível nas atividades das caçadas (e das guerras). 梭 (suō, lançadeira ) é uma ferramenta importante que se utilizava nos tempos antigos na China para que as mulheres pudessem fazer roupas.
243 A lançadeira rola muito rápido quando é aplicada no processo da tecelagem. Neste sentido, a sua velocidade de se mover é projetada para o domínio temporal a fim de indicar a rapidez do movimento do tempo. 160) Sol e lua (passam) como uma lançadeira 日 月 如 梭 rì yuè rú suō sol lua como lançadeira Sol e lua (passam) como uma lançadeira O sol e a lua vêm e vão como uma lançadeira, apresentando de maneira metafórica, uma alternação entre o dia e a noite. 梭 (suō, lançadeira ) tem duas interpretações: a) Significado original: a ferramenta de tecelagem para desenhar a trama no tear tem a forma de fuso (cujo centro é mais espesso, sendo que vai afinando até atingir as extremidades). b) Significado derivado: metaforiza um movimento rápido e repetível, assim como o sol e a lua nascem de leste a oeste todos os dias. O sol e a lua vão e voltam, muito parecido com o caminho de uma lançadeira ao tecer. Portanto, "o sol e a lua são como uma lançadeira" não apenas enfatiza a velocidade da corrida, mas também leva em consideração o caminho repetível da corrida (Kuang, 2015, p.55). A flecha é uma ferramenta que é utilizada nas atividades de caçar e faz parte da sobrevivência da vida humana nos tempos antigos. A flecha deve mover-se muito rapidamente com uma força externa. Além disso, o seu trajeto é irreversível. 161) O sol e a lua (movem-se) como a flecha 日 月 如 箭 rì yuè rú jiàn sol lua parecer flecha O sol e a lua (movem-se) como a flecha 162) A luz e o escuro (mudam-se) como a flecha 光 阴 似 箭 guāng yīn sì jiàn luz escuro parecer flecha A luz e o escuro (mudam-se) como a flecha Essas duas expressões lexicais acima ilustram trajetos diferentes do movimento do tempo. Uma com característica cíclica, ao passo que na outra se metaforiza a singularidade da direção e a forma da linha reta da trajeto.
244 Quanto a ações humanas para metaforizar a passagem rápida do tempo, estão relacionadas com movimentos do corpo que são difíceis de serem percebidos por uma duração curta. Por exemplo, movimentos dos olhos ( piscar ), do nariz ou da boca ( respirar ), etc. 163) piscar 转 眼 zhuǎn yǎn mudar olho, visão piscar 164) respirar 呼 吸 hū xī Deixar o ar sair do nariz ou da boca Deixar o ar entrar no nariz ou na boca respirar 165) abaixar e levantar a cabeça 俯 仰 fǔ yǎng baixar levantar-se abaixar e levantar a cabeça 166) estalar os dedos 弹 指 tán zhǐ Estalar dedo estalar os dedos (dura 7,2 segundos) A expressão de estalar os dedos vem do budismo e refere-se à ação de torcer e sacudir os dedos para fazer um som. Era originalmente um costume na Índia para expressar alegria, admiração, advertência, promessa, iluminação, convocação, saudação, etc. Essa ação foi posteriormente aceite pelos falantes do mandarim como um quantificador de tempo: estalar os dedos por uma vez representa uma duração de 7,2 segundos (Chu, 2023, p.67).
245 167) conversação ao pé 立 谈 间 lì tán jiān ficar de pé Conversar um espaço entre dois objetos, indica algum espaço ou algum tempo (uma duração de) conversação ao pé (uma conversa curta) 立谈间 (lì tán jiān) significa ficar de pé e converse um pouco . O tempo da conversação é tão curto, que nem é necessário sentar-se. Todas as cinco anteriores expressões representam momentos muito rápidos como a passagem quase impercebível do tempo. Por último, nas expressões que ilustram a passagem rápida do tempo, temos ainda algumas que têm a ver com o tempo absoluto entendido por movimentos das estrelas. O tempo absoluto tem a sua própria regra de movimento, não é influenciado pelo observador (Ego). A sua direção de movimento é desde o passado para o presente e depois para o futuro. O tempo absoluto é psicologicamente representado como uma linha do tempo mental ( Mental Timeline ) e na vida social como um calendário, relógio e outros sistemas de cronometragem. Alguns estudos mostram que o sistema de tempo absoluto tem uma grande influência na cognição do tempo (Sinha e al, 2011; Richmond et al ., 2012; Duffy, 2014). A origem da perceção do tempo absoluto está relacionada com o movimento rítmico de objetos como o sol e a lua. Os movimentos destes objetos oferecem uma referência de mudança do tempo e tornam-se mais tarde numa ferramenta de medição do tempo ou de eventos seres humanos, é um produto intelectual do desenvolvimento social e cultural até certo estágio. O Hopi norte-americano e o Amazon Amondawa e outros as línguas indígenas carecem de um sistema de tempo absoluto (Sinha et al ., 2011). O sol é a fonte do sistema de tempo absoluto e foi gradualmente substituído por ferramentas de medição de tempo, como relógios, com o desenvolvimento da sociedade. O sistema de tempo absoluto é uma parte essencial da nossa vida diária. Estudos existentes confirmaram que sistemas de tempo absoluto como "calendário" e "relógio" estão intimamente relacionados com a cognição do tempo (Sinha et al ., 2011; Sinha, 2014; Richmond et al ., 2012; Duffy, 2014).
246 Em mandarim, o tempo também é designado metaforicamente por 日月 (rì yuè, sol e lua ). Neste caso, temos os exemplos 168) e 169) que descrevem a passagem rapidez do tempo com os movimentos do sol e da lua. 168) 跳 丸 日 月 tiào wán rì yuè saltar bola sol lua Sol e lua (o tempo) salta como uma bola (no sentido de passar muito rápido) 169) 乌 飞 兔 走 wū fēi tù zǒ u Um tipo de pássaro (Era considerado como uma das configurações antigas do sol na legenda chinesa, aqui indica o sol) voar Coelho (Na legenda chinesa, mora o coelho branco na lua, aqui representa a lua) Andar (correr) O pássaro voar e o coelho correr (um tempo passa muito rápido) A seguir, verificamos outras características do movimento do tempo: a continuidade. Em mandarim, o tempo é frequentemente metaforizado como água devido à sua particularidade continuativa. Mas não são todos os tipos de água que são convenientes para metaforizar o tempo. A água deve ser dinâmica, direcional e continuativa. Neste sentido, aproveita-se, na maioria dos casos, o rio ou um líquido fluído que servem como fonte da metáfora temporal. Assim, as características do movimento do rio também são mapeadas para o movimento do tempo. Note-se que a metáfora de rio ou de água em movimento é uma variante da metáfora do espaço, já que o rio é visto na sua faceta de movimento, juntando espaço e tempo. 170) 岁 月 如 流 suì yuè rú liú ano mês parecer fluxo (de água) os anos e meses (o tempo) fluem como a água
247 171) 日 月 如 流 rì yuè rú liú sol lua parecer fluxo (de água) o tempo ocorre como água 172) 似 水 流 年 sì shuǐ liú nián parecer água fluir ano o ano fluir como água 173) 流 光 易 逝 liú guāng yì shì fluir luz fácil foi se embora, sair o tempo passa como luz e facilmente foi se embora A origem da cultura chinesa está relacionada com a civilização do rio. Sendo assim, a água também forneceu a forma de transporte mais antiga e primitiva da humanidade. Confúcio 27 metaforiza a vida como o rio que se move desde o dia para a noite. Segundo Nie e Chen (2008), o movimento da água é parte importante da cultura dos antigos chineses e de grande relevo para o mapeamento cognitivo em relação ao mundo: The movement of water, for instance, comes to one’s senses — mostly visual but can be otherwise — every time one sees the water in the ditch outside her house or turns on the faucet in the kitchen; and the destructive power of water provides a recurring experience in places where one suffers floods on some regular basis. On the other hand, however, these bodily experiences with the environment are not the only source of motivation of the mapping of WATER to those relevant target domains. At least some of these mappings are at the same time results of Chinese speakers’ interaction with their culture, which they have created and by which they have been influenced (Nie e Chen, 2008, p.512). A continuidade do tempo é semelhante em relação à continuidade das águas e dos rios, que tê m algo em comum nas características físicas e formam assim uma base cognitiva para a metáfora. O elemento temporal, a duração, também é muito parecida com uma passagem do rio. A continuidade do tempo pode ser concretizada por duração que, por sua vez, existe na memória e se acumula 27 Nascido entre 552 a.C. e 489 a.C. Foi um pensador e filósofo chinês do Período das Primaveras e Outonos.
248 continuamente na memória. A duração é um todo contínuo e indivisível, cujo núcleo reside no fluxo e na mudança contínuos. Duração também é um atributo de tempo único que as pessoas podem perceber diretamente, independente do espaço e da experiência de movimento no espaço (Kranjec e Chatterjee, 2010; Kranjec et al ., 2012). Além disso, se dividirmos um rio em áreas diferentes mediante a direção do movimento da água, o ponto de origem será uma região mais alta, enquanto o ponto final será uma região mais baixa. Essas direções são mapeadas para o domínio do tempo com a metáfora TEMPO É ÁGUA, preservando assim a direção vertical em termos de cima (=passado) /baixo (=futuro) nas relações temporais. Outra base cognitiva que existe na metáfora temporal acontece na coincidência da direcionalidade entre o movimento da água (normalmente é configurado como o rio , em vez de largo , mar , etc.) e o do tempo. No ambiente natural, a água geralmente só pode fluir de alto para baixo, assim como o tempo só pode ocorrer do futuro para o passado A característica unidirecional, desde o superior ao inferior, de um rio corresponde a uma aparência física linear do tempo. Com base na comparação entre o português e o mandarim, concluímos que, em primeiro lugar, existem em ambas as línguas verbos do modo do movimento para descrever o movimento do tempo. Em segundo lugar, os verbos portugueses e chineses fazem ressaltar características comuns sobre o tempo, tal como a passagem muito rápida. Esta característica é apresentada pelos verbos voar (aplicado ao tempo) no caso português e 飞 (fēi, voar ) no caso do mandarim A metáfora TEMPO É REALIDADE QUE VOA assenta sobretudo nas vertentes: a) a implicação de velocidade notavelmente alta b) a implicação de que o movimento é quase impercetível para o observador Devido ao facto de que, em relação ao português, o mandarim é uma língua com um sistema muito produtivo de usar verbos de modo de movimento, alguns verbos chineses demonstram ainda outras características do movimento do tempo na medida que os combinam com outras palavras. Por exemplo, 跳 (tiào, saltar ) na expressão lexical 跳丸日月 (tiào wán rì yuè , o tempo passa muito rápido ) e 走 (zǒu) na expressão 乌飞兔走 (wū fēi tù zǒu, o tempo passa muito rápido ). Além disso, em mandarim, há expressões idiomáticas que apresentam um movimento invariável e direcionado do tempo como o verbo 流 (liú, fluir ) que se refere ao movimento de água. O mandarim também indica o movimento do tempo como uma ação repetível ao utilizar o movimento da lançadeira. Com base em tudo isto, o movimento do tempo pode ser metaforizado tanto como algo rápido e instantâneo no
255 Em segundo lugar, em relação ao português, o mandarim tem mais verbos que são utilizados para indicarem o modo de movimento (ex. 流 liú, fluir , etc.). A primeira vertente está relacionada com o facto da inseparabilidade do tempo e do espaço em movimento. A segunda revela que o mandarim tem uma componente tradicional de materialização do tempo, uma vez que a metáfora temporal de água surge no chinês muito antigo e que é preservada até hoje. Em terceiro lugar, em ambas as línguas, temos alguns verbos que se tornam em marcadores gramaticais do tempo verbal. Porém, os verbos portugueses são mais gramaticalizados do que os chineses. Os verbos de deslocamento do português tendem a ser altamente gramaticais quando são aplicados ao domínio do tempo (ex. ir ) por necessidade de apresentar a direção do eixo temporal. No tempo verbal, a direção do tempo é desde o passado para o futuro. Por exemplo, ir em português é totalmente gramaticalizado como um marcador do futuro por meio de sua polissemia e compatibilidade com vários elementos gramaticais. Em mandarim, embora os verbos também sejam gramaticalizados e funcionem como marcadores do tempo verbal, preservam-se mais traços do movimento espacial. Por exemplo, 来 (lái, vir ) e 去 (qù, ir ) são utilizados para indicar o futuro apenas quando um sujeito de ação é uma pessoa. Aliás, 去 (qù, ir ) também pode ser entendido como o deslocamento de Ego no modelo de ego-moving . Por isso, o mandarim não apenas tem o fenómeno linguístico de gramaticalizar verbos por necessidade de apresentar o tempo, mas também tem metáforas verbais que retêm as características do domínio espacial. O português e o mandarim chegam algumas consistências no sentido do uso dos verbos de caminhada ( andar , correr ) nas metáforas temporais. Pensamos que esses verbos estão relacionados com uma ação frequente na vida quotidiana na medida em que é muito corporificada e menos influenciado pela cultura. Por isso, as duas línguas são parecidas neste grupo de metáforas temporais. Acreditamos que em mandarim temos uma homologia entre o espaço e o tempo. De facto, na história filosófica chinesa, também se acredita que o espaço e o tempo são uma unidade e funcionam juntamente. Em mandarim, aproveita-se a tendência e a direção do movimento para distinguir o passado, o presente e o futuro, ao passo que em português, se indica o estado do evento por meio de conjugação verbal. Dessa forma, a expressão do movimento no domínio do tempo tende a ser abstrata, não é tão "espacial" quanto a chinesa. Na cognição do tempo em mandarim preservam-se mais traços espaciais. O tempo é metaforizado como um Configurante estático do movimento dos eventos. Em português, ao invés, o tempo é mais considerado com características dinâmicas. Embora a metáfora
256 do verbo sobre o tempo ocorra tanto em português quanto em chinês, o foco e o grau da relevância entre o domínio-fonte e o alvo nos mapeamentos não são os mesmos.
257 CAPÍTULO 4 OS ESQUEMAS IMAGÉTICOS NAS METÁFORAS TEMPORAIS Neste capítulo concentramo-nos no estudo de metáforas de dois esquemas imagéticos: um é CONTENTOR e outro é ORIGEM-TRAJETO-META. São apresentados, antes de mais, os componentes, as lógicas e bases experienciais de cada um deles. As manifestações linguísticas que realizam metáforas de ambos os esquemas imagéticos são, na maioria das línguas, preposições. Sendo assim, a seguir, vai ser estudado o uso destes esquemas imagéticos no domínio temporal através do estudo contrastivo entre o português e o mandarim. 4.1.O esquema imagético CONTENTOR 4.1.1. Os componentes e lógicas do esquema imagético de CONTENTOR O "espaço" na Grécia antiga corresponde à localização. Aristóteles, por exemplo, usou "espaço" para se referir à posição (exata) dos objetos. O espaço é experimentado como um CONTENTOR que tem uma entrada e que contém objetos (cf. Heidegger, 1987/2001, p.190). O corpo ocupa uma localização particular num CONTENTOR espacial, e assim o corpo tem limites e pode estar em apenas um lugar num momento. O esquema imagético do CONTENTOR é derivado da experiência pré-concetual humana. Essa experiência pré-concetual é uma experiência que é produzida e estruturada pelo corpo humano. As crianças conseguem distinguir contentores das superfícies de apoio (Clark et al ., 1977). No estudo de aquisição das preposições pelas crianças, Clark (1973) apontou que existem três regras básicas para a formação das relações espaciais na consciência das crianças, que envolvem inclusão , apoio e contacto : a) Se B é um CONTENTOR, então A está nele. b) Se B tem uma superfície de apoio, então A está sobre ela. c) A e B estão se tocando se forem espacialmente adjacentes. Essas três regras são o conhecimento pré-concetual das crianças sobre as relações espaciais. O esquema imagético CONTENTOR, por sua vez, representa uma ideia de continência que é vista como uma relação entre o CONTENTOR (limite) e seu conteúdo (interior). O esquema imagético resulta de
258 nossas experiências recorrentes e omnipresentes com contentores. O esquema envolve uma orientação principal DENTRO-FORA (IN-OUT), que leva em conta vários sentidos de IN, OUT, INTO e OUT OF (Johnson, 1987). No sentido geral, o esquema imagético CONTENTOR envolve uma fronteira física ou metafórica, área ou volume fechado e área ou volume excluído. A lógica do esquema CONTENTOR é simples. Imagina-se que há dois contentores, A e B, e um objeto X, se A está em B e X está em A, então X está em B (Lakoff e Johnson, 1999, p.32). As metáforas do CONTENTOR são metáforas ontológicas 28 . Uma vez que o esquema também apresenta as relações espaciais entre entidades, a estrutura do esquema imagético CONTENTOR é de natureza espacial. As experiências corporificadas da metáfora do CONTENTOR podem ser entendidas da maneira seguinte: o corpo é considerado como um CONTENTOR com uma superfície delimitadora e uma orientação de dentro para fora. Projetamos a nossa própria orientação dentro-fora em outros objetos físicos, que são delimitados por superfícies. Assim, também os vemos como contentores com lados de dentro e fora. Os contentores também possuem características típicas e não típicas. Em primeiro lugar, o CONTENTOR tem um alcance definido (este é o mais fundamental na definição do CONTENTOR em linguística cognitiva). Em segundo lugar, como uma entidade concreta, o CONTENTOR pode ter várias aparências físicas, tais como quadrado, círculo, etc.; em terceiro lugar, o CONTENTOR pode ser mole ou duro. Em relação ao seu interior, este normalmente tem espaço e pode ser preenchido com itens. Todas estas são propriedades básicas de um CONTENTOR. Acreditamos que essas propriedades básicas de contentores podem ser mapeadas para o domínio-alvo. Sendo assim, o mapeamento das metáforas que toma o CONTENTOR como o domínio-fonte preserva algumas das suas propriedades e funções. Por exemplo, a) é uma entidade que pode armazenar algum objeto dentro dela b) normalmente tem um alcance definido e tem um volume de acordo com a sua função 28 A metáfora ontológica é uma metáfora que se baseia nas experiências sobre objetos, realizando-se por metaforizar algo abstrato para algo concreto, tal como o contentor. Segundo Lakoff e Johnson (1980a): understanding our experiences in terms of objects and substances allows us to pick out parts of our experience and treat them as discrete entities or substances of a uniform kind. Once we can identify our experiences as entities or substances, we can refer to them, categorize them, group them, and quantify them – and, by this means, reason about them (Lakoff e Johnson, 1980a, p.25).
259 c) o CONTENTOR pode ser uma ferramenta para além de armazenar, tal como uma de controlar, esconder, proteger, acentuar, quantificar, etc. d) a substância no CONTENTOR pode ser quantificada e) o objeto dentro de CONTENTOR é protegido por CONTENTOR O esquema de CONTENTOR tem sido um dos esquemas mais estudados por várias razões. Já que a sua origem se relaciona com experiências básicas e comuns, este esquema imagético caracteriza um conceito importante que existe universalmente em diferentes línguas e que se desenvolve muito cedo nos processos cognitivos da infância. Sendo assim, o esquema de CONTENTOR é importante na estruturação metafórica e no raciocínio inferencial (Dewell, 2005, p.371). Se observarmos como um CONTENTOR é concetualizado durante os primeiros meses de vida (por exemplo, a partir de 2 a 5 meses após o nascimento), veremos que o que atrai a atenção dos bebés e sobre o que eles formam conceitos, não é sobre os próprios contentores, mas sim as atividades e eventos que têm a ver com eles (Dewell, 2005). Tais atividades estão todas relacionadas com o movimento e com a interação de CONTENTOR com outros objetos, envolvendo principalmente os eventos de entrar e sair (Mandler e Cánovas, 2014, pp.515-517), nos quais os mais importantes são os movimentos de aparecer e de desaparecer. Portanto, uma ação de abrir um CONTENTOR é muito mais interessante do que perceber os seus limites. Além disso, os bebés logo entendem (a partir dos 3 meses de idade) que se o CONTENTOR se mover, o que estiver dentro dele também se move (Hespos e Baillargeon, 2001). De acordo com Johnson (1987, pp.21-22), as experiências que estão relacionadas com o CONTENTOR compartilham uma estrutura cognitiva. Esta estrutura cognitiva envolve delimitação espacial e foca-se no sentimento de ser limitada ou permanecer dentro de algum CONTENTOR tridimensional, tal como um útero, um berço ou um quarto. Lakoff (1987, p.271) desenvolveu essa noção num esquema CONTENTOR por meio de uma distinção entre um interior e um exterior. Acentuase desta maneira os aspetos funcionais como a restrição e a limitação que normalmente estão ligados à noção de continência, abandonando-se essencialmente a ideia de Vandeloise (1991) de INCLUSÃO/EXCLUSÃO em termos de topologia. Mandler (1992, pp.597-598) está mais preocupado com as experiências pré-verbais sobre o esquema imagético CONTENTOR. Ela também enfatiza, por um lado, o papel de noções funcionais,
260 tais como a função de APOIO e, por outro, os eventos de movimento, tais como ENTRAR/SAIR ou ABRIR/FECHAR. É notável que muitos contentores não definem exatamente um alcance no espaço da maneira que jarros e quartos fazem. Os de biscoito, mãos, guardanapos e vestidos vermelhos, claramente não são percebidos simplesmente como regiões definidas no espaço (Dewell, 2005, p.373). A ideia pode ser entendida melhor com palavras seguintes: At one pole are jars and cribs and houses that are for the most part stationary receptacles with stable shapes — fixed regions of the setting where things can be located. At the other pole are hands and napkins, which are not intrinsic containers at all in their canonical states. Containing is something that these things actively do on a particular occasion by bending and closing in on the contained object. Between the two poles are many other containers — such as socks, canvas bags and container substances —that involve both entry by the contained object and active enveloping by the container (Dewell, 2005, p.379). Então, parece improvável que os primeiros esquemas imagéticos de uma criança relacionados com CONTENTOR sejam relações estáticas puras no espaço, ou seja, noções como a de CONTENTOR de Lakoff, que é definida mediante uma distinção entre uma região interior de uma região externa. Tais noções podem ser primitivas num sistema adulto que é sofisticado e estruturado linguisticamente, mas não são primitivas no desenvolvimento cognitivo. Ao contrário, é muito mais provável que os primeiros esquemas imagéticos envolvam atividades e caminhos, com pouca diferenciação clara entre trajetos (TRs), marcos (LMs) e relações, entre caminhos e estados resultantes, ou entre espaço e tempo. A formação concetual do esquema CONTENTOR na infância não se baseia em seu estado estático, mas sim de maneira dinâmica. Portanto, o esquema do CONTENTOR contém primariamente um elemento do movimento. Neste sentido, o esquema CONTENTOR é analisado como uma fusão de dois padrões experienciais básicos, ENTRY e ENCLOSURE. Ambos os padrões são baseados originalmente na construção de eventos de movimento (Dewell, 2005). Além disso, Peña (2000) afirma que o esquema CONTENTOR é um esquema básico que fornece uma origem para a ativação de outros esquemas subsidiários, tais como, FULLEMPTY, PART-WHOLE, EXCESS e CENTRE-PERIFERY, etc. O esquema imagético CONTENTOR é variável em diferentes línguas (Navarro-Ferrando e Vandeloise, 2005). O esquema imagético é de facto universal, mas a linguagem usada para falar sobre
261 ele não é. Portanto, os esquemas imagéticos expressos serão diversificados por fatores culturais e linguísticos. Por exemplo, (…) the Danish and English prepositions i and in are both organized around a core or “impetus” meaning equivalent to canonical containment, while the San Marcos Tlapazola Zapotec bodypart term láani ‘stomach’ is organized around a core meaning that equals full enclosure without profiling the orientation of the container (Sinha e López, 2001, pp.34-35). A melhor razão para esta diferença tem a ver com a função e com a forma de utilização de CONTENTOR que é mais aplicada na vida quotidiana. A plausible explanation would take account of socio-cultural differences regarding artifact use in the two societies: the Zapotec culture makes use of a limited number of artifacts (such as baskets) and employs them flexibly and multi-functionally, often in inverted orientation. Providing that the core CONTAINMENT schema of Zapotec involves constraint of the location of the trajectory by the landmark, the schema would as readily be associated with an orientation of the CONTAINMENT with its cavity upwards as with its cavity downwards (Navarro-Ferrando e Vandeloise, 2005, p.345). Verifica-se, então, que o esquema CONTENTOR, sem dúvida, funciona cognitivamente de maneira quase igual em diferentes línguas, mas não funciona da mesma maneira linguística. Isto quer dizer que embora os esquemas de ENTRY, ENCLOSING e CONTAINMENT sejam todos baseados em experiências essencialmente universais, desenvolvem-se de maneiras variáveis nos sistemas semânticos em diferentes linguagens (Dewell, 2005, pp.384-385). Por exemplo, em coreano não há semântica correspondente a ENCLOSING e também não há uma categoria geral que faz equivalência a ENTRY (Bowerman, 1996; Choi et al ., 1999; citado por Dewell, 2005, pp.384-385). A semelhança interlinguística dos esquemas subsidiários de CONTENTOR é atribuída ao seu fundamento em experiências objetivamente semelhantes que são independentes da língua, enquanto as diferenças semânticas são atribuídas à maneira como as línguas individuais codificam esses esquemas pré-linguísticos. Uma vez que pensamos nos esquemas imagéticos como modelos esquemáticos complexos, em vez de objetos estáticos discretos com uma estrutura fixa, a linguagem pode influenciar o desenvolvimento e a organização desses modelos de várias maneiras (Dewell, 2005, p.385).
262 4.1.2. Os mapeamentos do CONTENTOR desde o domínio espacial ao domínio temporal 4.1.2.1.O estado estático no sentido de definir a duração : em / dentro em português e 里 (lǐ, em )/ 内 (nèi, dentro )/ 中 (zhōng, meio , centro ) em mandarim No caso do português, a preposição em tem usos espaciais com valores de [contentor] e [trajeto] e noções topológicas (inclusão, contacto, adjacência) que são evocadas pelo esquema imagético CONTENTOR. Desenvolvem-se dois sentidos esquemáticos: especificação e localização. Ambos são aplicados nos domínios mais abstratos, tais como o tempo, como metáforas locativas. Por exemplo, usa-se em em português para localizar um momento ou um evento na linha temporal, na qual os objetos relevantes não são objetos concretos. A preposição portuguesa em tem o significado principal de localização no domínio espacial. A localização do objeto pode estar na superfície ( em cima de , ficar na praia , sentar-se no sofá , etc.) ou no interior ( em casa , no autocarro , etc.) do contentor. Além disso, em representa uma ideia de direção ou posição. Por exemplo, em frente significa em posição frontal ou adiante. No domínio temporal, são preservadas parcialmente interpretações espaciais: localização na interioridade (no sentido de indicar um alcance) e ideia de direção (futuro ou passado). Vejam-se a seguir os exemplos: a) Coincidência com uma duração de tempo ( em três dias ) b) Localização pontual no tempo ( no momento da enunciação ) c) Localização no final de uma duração de tempo ( no final desta semana ) d) Atividades são concetualizadas como contentores ( nos Jogos Olímpicos ) e) Eventos são pontos ordenados no tempo ( no dia seguinte, no jogo posterior ) Quanto ao mandarim, temos três preposições espaciais que podem ser utilizadas para indicar uma relação temporal: 里 (lǐ , em ), 内 (nèi, dentro ) e 中 (zh ōng, no meio , centro ). Vejamos primeiramente a palavra 里 (lǐ , em ). De acordo com as caligrafias antigas, a palavra 里 (lǐ , em ) é uma combinação de dois caracteres: 田 (tián, campo ) e 土 (tǔ , terra ), significando "o município" ou "a cidade natal". Ganhou, mais tarde, um valor de unidade de comprimento . No sentido caligráfico, 里 (lǐ , em ) é uma forma simplificada de
263 裏 (lǐ , em ) que, por sua vez, indica uma parte interior de roupa ou colcha. Sendo assim, o caracter 里 (lǐ , em ) indica a parte interior de algum objeto (Yang, 2007, p.12). A palavra 里 (lǐ , em ) herda algumas vertentes semânticas dos seus sinónimos 中 (zhōng, no meio , centro ) e 内 (nèi, dentro ). Por um lado, a palavra 里 (lǐ , em ) enfatiza um contraste entre a parte interior e a parte de fora de um objeto. Por outro lado, indica um lugar interior de uma entidade que não tem fronteiras físicas ou de um conceito abstrato sem formato concretizado. No entanto, uma vez que o outro significado de 里 (lǐ, em) se refere a "camada interna da roupa", foi posteriormente estendido para significar "dentro" no espaço tridimensional, de modo que a palavra 里 (lǐ , em ), na maioria das vezes, representa uma posição de um objeto e não pode ser utilizada para indicar uma orientação. O esquema imagético cognitivo de 里 (lǐ , em ) é um esquema de CONTENTOR, que é aplicado a diferentes domínios cognitivos por meio de metáforas. 里 (lǐ , em ) contém os sentidos de [inclusão], [limite], [fechada], [anexado] (Yang, 2007, p.107). Ainda de acordo Yang (2007), as particularidades de uso de palavra 里 (lǐ , em ) no domínio do espaço podem ser entendidas por três aspetos. Em primeiro lugar, 里 (lǐ , em ) é utilizado para indicar uma parte interior de um objeto, que é geralmente considerado como algo tridimensional. Nalguns casos, encontram-se também usos relacionados com objetos de duas dimensões. Nunca se refere a objetos unidimensionais no sentido matemático. Mas consegue referir-se a conceitos abstratos. Vejamos a seguir os exemplos: Objeto tridimensional Objeto bidimensional Objeto unidimensional Conceito abstrato 在家里 zài jiā lǐ 在图片里 zài tú piàn lǐ * 在线里 zài xiàn lǐ 在梦里 zài mèng lǐ na casa no quadro *na linha no sonho Tabela 47. O uso da preposição 里 (lǐ , em ) na descrição de diferentes objetos Em segundo lugar, o limite do objeto do qual a parte interior é indicada por 里 (lǐ , em ) normalmente é previsível. Mesmo que o limite dele não seja definido completamente, o alcance ou o volume de objeto é possivelmente condicionado por si próprio ou por outros objetos. Por exemplo:
264 Objeto de fronteira limitada Objeto de fronteira parcialmente limitada Objeto sem fronteira, mas que tem um alcance previsto Objeto tem fronteira condicionada por outro objeto bola, janela copo, vaso o cheiro que está cheio no quarto água num copo Tabela 48. Contentores com diferentes propriedades físicas Em terceiro lugar, 里 (lǐ , em ) destaca a parte interior do CONTENTOR por meio de contraste entre a parte interior e a parte fora. As particularidades de uso de palavra 里 (lǐ , em ) no domínio do tempo têm na sua origem particularidades no domínio do espaço. Antes de mais, a palavra 里 (lǐ , em ) não é aproveitada para descrever um tempo que é metaforizado como uma linha. Por exemplo, em mandarim, não são adequadas no sentido pragmático as expressões a seguir: * 在 这 段 时 间 里 (nesta duração, neste período ), * 在时间线里 (numa linha do tempo, neste período ). Além disso, o tempo é visto como um CONTENTOR limitado quando é condicionado pela preposição 里 (lǐ , em ). Tal como pode ser confirmado no domínio espacial, a preposição 里 (lǐ , em ) indica uma área supostamente limitada do espaço quando não há fronteira definida. No domínio do tempo, também é possível dizer 平日里 (píng rì lǐ , na vida quotidiana ) ou 整日里 (zhěng rì lǐ , na vida quotidiana ). Ambas as expressões indicam a vida quotidiana, na qual a duração é combinada pelas experiências comuns. Além disso, os eventos que são definidos pelo calendário sempre podem ser combinados com a preposição 里 (lǐ , em ): 三月里 (sān yuè lǐ , em março ), 春天里 (chūn tiān lǐ , na primavera ), etc. Devido à sua duração definida (quantidade de tempo), é mais fácil 里 (lǐ , em) ser metaforizada como um CONTENTOR (Yang, 2007). No que diz respeito ao caracter 内 (nèi, dentro ), a etimologia está relacionada com o verbo entrar , o que por sua vez indica o movimento de fora para dentro. Mais tarde, o significado passa a indicar o espaço interior do objeto. Em relação à preposição 里 (lǐ , em ), a preposição 内 (nèi, dentro ) tem mais possibilidade de combinar com conceitos abstratos. Por outras palavras, a preposição 内 (nèi, dentro ) prefere indicar um espaço abstrato e virtual (Deng, 2006, p.19) e refere uma parte interior num CONTENTOR, não importando a sua dimensão e as suas fronteiras. A distinção entre 里 (lǐ , em ) e 内 (nèi, dentro ) manifesta-se em dimensão do objeto objetivo (Yao, 2009, p.37), i.e., a preposição 里 (lǐ , em ) é aproveitado mais para indicar o espaço (matematicamente) tridimensional/bidimensional, ao passo
271 aproximar e a de afastar do contentor. Por exemplo, num contentor temporal, o que é colocado no contentor é o evento e o que é retirado do contentor é o tempo. Os eventos colocados no contentor devem seguir uma determinada ordem e são mutuamente exclusivos, ao passo que o tempo retirado do contentor pode ser tanto definido (caso fosse definida a data para fazer alguma coisa) quanto indefinido (um dia qualquer dá para um passeio). O contentor no qual se realiza uma ação que pode ser de preencher ou ocupar e tem de ser limitada, ou pelo menos ter um alcance contável. No entanto, o contentor no qual se realiza uma ação de tirar ou levar tanto pode ser infinito quanto finito no sentido de ter um limite. Os verbos em português e mandarim que lexicalizam estas metáforas do contentor possuem algumas características comuns: a) são verbos de deslocamento em vez de verbos de modo de movimento. No esquema de CONTENTOR, a direção do movimento desses verbos é determinada pelo ponto final ou ponto inicial do movimento (neste caso é o contentor de tempo). Por isso, esses verbos também podem ser designados como verbos direcionais por fatores não intrínsecos; b) são verbos que representam ações feitas usualmente com as mãos. Por exemplo, o caracter do verbo 拿 (ná, pegar ) contém o caracter 手 (shǒ u, mão ). É um dos verbos de mão mais representativos; c) são verbos que ilustram ações que acontecem dentro do alcance visual. Devido às restrições fisiológicas, as atividades de mão são realizadas de uma distância próxima ao redor do corpo; d) são verbos com uma única direção. Isso tem a ver com a característica unidirecional do tempo. Pode-se constatar, ainda, que os usos verbais mapeados para o domínio do tempo têm todos os seus significados centrais (típicos) derivados dos usos do espaço. Esses verbos não são metáforas por causa das ações que representam, mas por causa dos resultados das ações. Ou seja, uma metáfora que ocorre quando um objeto é retirado de um CONTENTOR ou quando um objeto é colocado num CONTENTOR. Isso mostra que o tempo é materializado a partir do espaço. Além disso, em relação ao estado estático, o estado dinâmico de esquema CONTENTOR apresenta menos diferenças nos aspetos de particularidades de contentor durante um mapeamento desde o domínio espacial ao temporal. O resultado deve ser atribuído por duas razões. Em primeiro lugar, acentua-se, neste grupo de metáforas, o movimento que está envolvido nos domínios espacial e temporal. Portanto, em vez das particularidades de contentor, é mudada a estrutura cognitiva dos
272 elementos do movimento para ser compatível com alguns elementos do domínio temporal. O mapeamento concentra-se numa relação quantitativa entre o contentor e o seu conteúdo dentro dele: uma ação de levar fora algo do contentor temporal indica o gasto do tempo e em coincidência, a ação oposta indica a mesma ideia, i.e., o gasto do espaço do contentor temporal também faz equivalência ao gasto do tempo. Em segundo lugar, o que implica a metáfora é o objeto na ação de transmissão, em vez de a própria ação. Ou seja, não há metáfora para a ação, apenas a metáfora ocorre para o objeto sobre o qual a ação atua. Então, a metáfora acontece por causa da materialização do tempo. Em relação ao estado estático de esquema imagético CONTENTOR, o seu estado dinâmico reflete uma maior consistência entre o domínio espacial e o temporal por meio de conexão de movimento. O mapeamento do esquema imagético dinâmico que ocorre em diferentes verbos tem uma grande semelhança. Ou seja, embora alguns verbos não possam ser usados como sinónimos no domínio espacial, os seus esquemas imagéticos apresentados no domínio temporal são quase idênticos. Isso ocorre porque no domínio do tempo, o movimento é simplificado pelas restrições da estrutura cognitiva original do tempo. A direção única do movimento no domínio do tempo faz com que a forma diversificada do caminho espacial seja ignorada. Na metáfora do CONTENTOR, o tempo é algo que pode ser armazenado e retirado por necessidade. O processo pelo qual o tempo é armazenado e retirado não é importante, o que é importa é a sua divisibilidade que permite o armazenamento e a retirada. No esquema imagético dinâmico, o tempo não é apenas um contentor , pode ser também um objeto dentro de contentor . Uma substância que pode ser quantitativamente removida de um contentor temporal. Esse resultado mostra mais uma vez que o tempo é metaforicamente materializado. Portanto, no estado dinâmico de esquema CONTENTOR, não apenas a metáfora primária de que o PERÍODO DE TEMPO É UM CONTENTOR está envolvida, mas há outra: O TEMPO É UM TRAJETO/OBJETO . Em ambas as línguas, o tempo é, por um lado, um contentor de volume constante que varia em quantidade de acordo com o número de eventos e, por outro, é um contentor de volume mutável devido à mudança em seu conteúdo interior (por meio das ações de inserir, tirar, apertar, etc.). Parece que há um paradoxo, mas não, uma vez que no espaço os tipos de contentor são muito diversificados. O contentor no domínio temporal possui conteúdo antes das ações de armazenar e remover o tempo. Porque o significado desses verbos é aumentar ou diminuir a quantidade com base na substância original num contentor. Não usamos colocar ou deixar e outros verbos que não contêm
273 interpretações da mudança da quantidade. Acreditamos subconscientemente que existe o tempo, designado como tempo absoluto, num contentor temporal antes de ser aumentado ou diminuído. Mas como o tempo é invisível, não sabemos onde o tempo absoluto existe no contentor do tempo. De facto, o tempo absoluto existe em todo lugar no contentor do tempo, porque o tempo absoluto é uma existência eterna que não é afetada por fatores culturais, assim como o espaço. No entanto, concetualizamos sempre o tempo absoluto como uma linha reta de acordo com sua ordem inerente entre eventos. Neste caso, se quisermos adicionar "outros tempos" ou "outros eventos", devemos preencher ou inseri-los num contentor temporal com atenção da localização dos tempos ou eventos preexistentes num contentor temporal, ao passo que gastar o tempo concentra-se apenas no grau de dificuldade de o levar para fora do contentor temporal. 4.2.O esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META 4.2.1. Os componentes e lógicas do esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META O esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META é baseado em experiências de movimento desde o ponto A até ao ponto B. Esse esquema imagético resulta de nossa experiência quotidiana no mundo e está concetualmente estruturado. É considerado como um dos esquemas imagéticos mais omnipresentes fundamentados em nossa experiência corporal (Lakoff, 1987, p.116). Johnson (1993, p.166) também afirma que o esquema ORIGEM-TRAJETO-META é um dos esquemas fundamentais na concetualização humana. Além disso, em virtude da metáfora TEMPO É ESPAÇO, o esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META está sempre presente na concetualização do tempo no sentido de que concretiza o tempo por meio de tempo verbal de maneira que serve como um contexto de localizar os eventos no passado, no presente e no futuro. O esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META é estruturado por três componentes principais: ORIGEM (um ponto de partida), TRAJETO (um caminho ou um percurso) e META (o ponto final do deslocamento ou o ponto de chegada). Segundo Lakoff, “Every time we move anywhere there is a place we start from, a place we wind up at, a sequence of contiguous locations connecting the starting and ending points, and a direction.” (Lakoff, 1987, p.275).
274 Desde o nascimento, várias vezes afastamo-nos de uma entidade ao longo de um caminho para outra entidade através de várias atividades corporais que realizamos (ex. levantar da cama , ir ao quarto de banho, ir de casa para a escola ou para o trabalho ). Destas experiências corporais emerge um esquema ORIGEM-TRAJETO-META como uma estrutura concetual que se repete em várias atividades quotidianas. Sendo assim, a lógica básica do esquema ORIGEM-TRAJETO-META é: "If you go from a source to a destination along a path, then you must pass through each intermediate point on the path; moreover, the further along the path you are, the more time has passed since starting" (Lakoff, 1987, p.275; 1989, p.119). Por isso, este esquema imagético serve como um domínio-fonte, na maioria dos casos, de uma metáfora estrutural, dando assim origem às metáforas mais fundamentais, tais como A VIDA É UMA VIAGEM. Os linguistas cognitivos argumentam que todo o movimento é concetualizado em termos do esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META (Johnson 1987; Lakoff e Johnson, 1999). A origem é o ponto de partida do movimento. O trajeto é composto pela série de locais contínuos ocupados pelo objeto em movimento. O objetivo é o destino ou ponto final do movimento. Um objeto em movimento é a trajetor. Em qualquer momento durante o evento de movimento o trajetor ocupa uma posição ao longo do trajeto. Como o componente de qualquer processo cognitivo que envolve movimento - mesmo que seja apenas movimento metafórico de um estado para outro (Lakoff, 1993) - o esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META fornece uma estrutura subjacente importante para o pensamento e a comunicação. A linguagem, como uma ferramenta para expressar o mundo experimentado, inclui uma estrutura semântica que se baseia em esquemas concetuais abstratos. Isto significa que as expressões de movimento e direcionais são todas baseadas no esquema imagético de ORIGEM-TRAJETO-META que, por sua vez, sempre envolve o movimento de um trajetor entre o ponto inicial para o ponto final. As transformações do esquema imagético são baseadas em processos cognitivos gerais, dando origem a extensões de significado de preposições e advérbios. No que diz respeito ao esquema de TRAJETO, essas transformações são baseadas nos processos cognitivos que envolvem uma reconstrução mental de estruturas espaciais e um scanning mental de caminhos espaciais, respetivamente. No primeiro caso, encontram-se exemplos de que um eixo vertical pode ser
275 transformado em horizontal e vice-versa. O conceito de Mental scanning envolve o foco opcional em diferentes aspetos do trajeto interpretado, tais como, a Fonte, o Destino ou alguma parte do trajeto. One construes the Trajector 30 (TR) as extending over a path (alternatively the Path is seen as superimposed upon the TR), cf. The road goes to Lund. In this case, both Path and the end point/source point are simultaneously profiled. The other locates the TR at some point on the Path, either along the Path ( He lives over the hill ). In this case, only a particular point of the mentally scanned path is focused on. I will distinguish between the two types of meaning extensions by referring to the former as extending the TR and to the latter as locating the TR (Ekberg, 2001, p.305). Uma caraterística estrutural do esquema ORIGEM-TRAJETO-META é que ele tem sempre a cognição temporal. A linguagem que representa o esquema ORIGEM-TRAJETO-META sempre se refere à relação espacial do movimento entre diferentes pontos. Temos, em ambas as línguas, por um lado, as preposições, tais como, em português, de , desde , até , para , etc. e, por outro, os verbos, dos quais os mais típicos são vir e ir . O esquema ORIGEM-TRAJETO-META é diferente em relação ao esquema CONTENTOR no sentido de que o primeiro contém mais elementos dinâmicos. A formação deste esquema requisita um movimento ou um deslocamento entre dois pontos diferentes. As metáforas que se baseiam no esquema ORIGEM-TRAJETO-META podem ser agrupadas como metáforas estruturais, ao passo que as que se relacionam com o esquema CONTENTOR são, no sentido geral, metáforas ontológicas. De acordo com Lakoff (1993), a metáfora estrutural é criada mediante os mapeamentos de estruturas entre o domínio-fonte e o domínio-alvo. Por isso, a diversificação das metáforas temporais do esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META é atribuída pela estrutura concetual variável em vez da sua função ou das características físicas. 30 “Trajector” (TR) refers to the entity which is being located or assessed in a relational predication, whereas “landmark” (LM) referes to a salient entity other than the reajector (Langacker, [1987]1991, pp.217-220).
276 4.2.2. O trajeto espacial e o trajeto temporal 4.2.2.1. Trajeto no espaço O trajeto, em vez de ser um conceito primário, é cognitivamente complexo. O conceito de trajeto é usado em análises semânticas cognitivas de duas maneiras muito diferentes. Por um lado, segundo Lakoff (1987), o trajeto pode ser entendido como uma trajetória do movimento real ou virtual do trajetor. Por outro, o trajeto refere-se à direção do movimento que envolve o movimento metafórico de origem para destino, passando por um ou mais pontos de referência (Özçalıskan, 2004, p.76). Os eventos de movimento envolvem a concetualização de TRAJETO, que é considerada como uma entidade puramente espacial: um trajeto onde o movimento ocorre. Alguns linguistas cognitivos (por exemplo, Casad, 1993; Ekberg, 2001) tratam o TRAJETO como um componente de esquema imagético com elementos próprios. A sua definição mais simples pode ser entendida como uma configuração geométrica. Na maioria dos casos, o trajeto pode ser simplificado como uma entidade unidimensional no sentido de ser uma linha reta ou curva. A formação de TRAJETO também envolve um período no qual o movimento ocorre. É bastante óbvio que quanto mais a entidade em movimento avança ao longo do trajeto, mais o tempo passa. Assim, a quantidade de caminho envolvido no movimento correlaciona-se com a quantidade de tempo gasto pelo evento de movimento. O conceito de trajeto é constituído pela cognição tanto espacial quanto temporal (Cappelle e Declerck, 2005, p.892). No esquema imagético de ORIGEM-TRAJETO-META, o uso de preposições espaciais ativa diferentes componentes no trajeto, tais como a direção, a tendência do movimento, a distância, etc. A cognição sobre uma relação espacial ou um estado espacial entre o trajetor e o trajeto implica o processo de rever e concretizar as experiências já existentes. O conhecimento e a compreensão do esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META podem ser condicionados por vários fatores. 4.2.2.2. Trajeto no tempo Não temos evidências de que bebés em qualquer ponto do período pré-verbal concetualizam o tempo. Parece provável que a ordem sequencial de eventos familiares seja a entrada para concetualizar o tempo, e os dados indicam que os bebés não são capazes de lembrar a ordem de eventos de três itens antes dos nove meses (Carver e Bauer, 1999). No entanto, Srinivasan e Carey
277 (2010) descobriram que bebés de nove meses são sensíveis a correlações entre comprimentos espaciais e durações temporais. No entanto, tanto para crianças quanto para adultos há uma confusão do espaço e do tempo, de modo que a sensação da passagem do tempo é concetualizada espacialmente: meu aniversário se aproxima , cinco anos atrás , etc. Não podemos ver nem sentir o tempo. Mesmo para os adultos, o tempo parece mais abstrato do que a força. Há sentimentos associados à força, mas parece não haver sentimentos claros associados ao tempo. As diferenças de duração podem ser consideradas como diferenças de velocidade ou distância percorrida em eventos de movimento e diferentes lapsos entre eventos como diferentes distâncias separando objetos no espaço. Além disso, a lógica do esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META que é preservada no domínio temporal não se interessa pela fonte do (movimento do) tempo. O que é importante é que o tempo está a aproximar-se de nós, não de onde o tempo está a vir (Mandler e Cánovas, 2014, p.524). O trajeto no espaço é composto pelo percurso do movimento do objeto, por um lado e, por outro, condiciona o movimento do objeto. Por outras palavras, existe uma relação próxima, mas independente, entre o trajeto e objetos movidos, uma vez que, no geral, ambos existem tanto antes quanto depois da ocorrência do movimento. No entanto, no domínio temporal, o trajeto é configurado pelos acontecimentos de eventos. Se não houver eventos, o trajeto é o tempo absoluto no sentido de que não há ponto de partida nem ponto de chegada. Quando falamos o tempo do evento, o trajeto temporal deve ser entendido de outra forma. Os eventos são unidades básicas que existem em espaço e tempo. O trajeto temporal é, com a ajuda das palavras de Huang (2012), em vez de ser o tempo em si, é a modalidade epistémica que está sendo referida e pensada quando usamos a linguagem referente ao movimento através do espaço e localizações no espaço (Huang, 2012, p.38). Ou seja, o trajeto temporal é uma metáfora do desenvolvimento do evento. 4.2.2.3. A relação entre Ds (distância do movimento) e Du (duração do evento) Quando se vai de uma origem para um destino ao longo de um trajeto, é necessário passar por todos os seus pontos intermédios. Acontece o mesmo no caso do tempo. No domínio temporal, o tempo passa também de maneira sucessiva. Isto quer dizer que existe uma lógica semelhante entre o
278 movimento no espaço e a passagem do tempo. Assim, a distância e a duração estão interligadas por causa de terem o mesmo mecanismo no acontecimento. Ou seja, a estrutura cognitiva do esquema ORIGEM-TRAJETO-META conforma-se com a lógica da ocorrência de eventos no domínio do tempo, que tem início e fim, além de uma quantidade contínua. Assim como o espaço pode ser dividido em espaço absoluto e espaço relativo, o tempo também pode ser dividido em universal e privado. O primeiro (tempo universal) permite uma medição de tempo como ano, mês e dia, que pode ser considerado como tempo absoluto, enquanto o segundo (tempo privado) é composto por uma parte do tempo absoluto. A duração é concretizada pela distância em três aspetos: a) a duração temporal é expressa através da extensão espacial; b) disparidade temporal de eventos é expressa através da proximidade espacial de duas marcas na linha; c) a sucessão temporal é transmitida via ordenação espacial (Coulson e Cánovas, 2009, p.202). As bases cognitivas do mapeamento entre Ds e Du podem (Lakoff e Johnson,1980; Lakoff, 1993, citado por Coulson e Cánovas, 2009, p.201) formar metáforas primárias: PROXIMIDADE NO TEMPO É PROXIMIDADE NO ESPAÇO, A DURAÇÃO TEMPORAL É A EXTENSÃO ESPACIAL, EVENTOS SÃO OBJETOS. Uma pesquisa empírica psicológica de Casasanto e Boroditsky (2008) também confirma uma interligação entre a distância e a duração. Aos participantes foi pedido para observarem linhas de diferentes comprimentos espaciais que apareciam numa tela por períodos com durações diferentes. Depois, eles foram solicitados a calcular a duração ou o comprimento espacial de cada linha fazendo cliques com o rato. Para estímulos com a mesma duração média, as linhas que se apresentaram mais curtas no espaço foram julgadas como tendo um tempo mais curto, e as linhas que se estenderam mais no espaço foram julgadas como tendo mais tempo. No entanto, a perceção da duração não depende totalmente do espaço. Devemos entender essa perceção pela perspetiva do tempo. O conceito de tempo, em vez de ser simples com características únicas, é um composto de características interligadas. Segundo Huumo (2018): (…) ‘time’ is not a monolithic notion; the starting point is that a clause-level expression may include different conceptualizations of time interacting with each other. In addition to lexical resources, such as nouns, verbs, or prepositions, there are other kinds of linguistic systems designating temporal notions and conceptualizations of time, most obviously tense and aspect (Huumo, 2018, p.727).
279 A perceção da duração é também condicionada por outras experiências corporais. Por exemplo, quando o nosso corpo está no estado alegre, a duração do evento é sempre mais curta (no sentido do sentimento) do que nos casos em que o corpo está em sofrimento. A duração tem semelhanças estruturais com o trajeto no esquema imagético espacial de ORIGEM-TRAJETO-META. No entanto, o conceito de duração não vem do domínio espacial, mas é originalmente temporal. A distância e a duração estão intimamente relacionadas na cognição, mas são conceitos totalmente independentes. Usui (2007, p.13) considera que a duração é um conceito que é exclusivo do domínio do tempo. Os outros, tais como o movimento, a direção, etc., por sua vez, são compartilhados entre o espaço e o tempo. Figura 72. O esquema genérico de espaço e tempo ( Figure 5 , Usui, 2007, p.8) A duração pode ser entendida em dois aspetos. (…) from the one hand, it deals with lexical expressions like “one year”, “10 minutes”, “three o’clock” which identify precise durations, and, on the other hand, it refers to several characteristics of the events. Every event persists for a certain duration, which an individual may encode and remember (Caselli, 2009, p.12). Normalmente os eventos são separados por períodos, que podem conter outros eventos. A duração do período desempenha um papel no aspeto cognitivo como padrão para avaliar a característica durativa do evento. Por exemplo, se um evento dura alguns milissegundos, ele é percebido como instantâneo. Se, por outro lado, um evento dura ou persiste por um período mais
280 longo, então uma pessoa experimenta, lembra e é capaz de avaliar a respetiva duração. No entanto, há uma distinção entre a duração experienciada e a duração lembrada. A primeira refere-se à experiência sobre o tempo que passa, ao passo que a segunda é uma duração marcada pela memória. Diferentes modelos, tais como modelos de atenção, modelos de armazenamento de memória e modelos de relógio, todos têm sido propostos para explicar que a base cognitiva do tempo é a duração: (…) according to which we perceive a flow of change from the outside world and it is this flow which influence our perception and recollection of duration. In addition to this, the estimation of how long an event lasts or persists is essential to perform correct reasoning about the world (Caselli, 2009, p.13). Quando os eventos são percebidos como sucessivos, eles podem ser relacionados de maneiras e variedades quase infinitas. Muitas entidades são, em certo sentido, temporais, uma vez que perfilam certos tipos de intervalos. Itens lexicais como concerto, música, reunião, almoço, etc., denotam eventos ou atividades particulares cujo significado é em parte temporal, visto que esses eventos representam intervalos. Os eventos geralmente têm um intervalo definido. Em outras palavras, um evento é um período específico que denominamos para substituir um fenómeno natural ou atividade humana (Evans, 2005, p.109). Uma das formas mais salientes de elaboração da Duração diz respeito ao comprimento físico, empregando conceitos lexicais indexados pelas formas longa ou curta. Então, porque é que a duração é entendida em termos de comprimento físico? Segundo Evans (2005), As the unelaborated Duration Sense pertains to the phenomenological experience of time, derived ultimately from perceptual processing, we must reject any suggestion that the Duration Sense is elaborated in terms of length content because (in its unelaborated form) it is inherently linear in nature (Evans, 2005, p.113). A forma linear é derivada da experiência sensorial e, especificamente, da perceção de uma relação entre pontos espaciais contínuos. Sendo assim, o que quer que seja a nossa experiência de duração, não pode ser linearidade espacial, uma vez que um trajeto espacial nem sempre é reto. Então, porque é que as línguas, tais como o inglês, deveriam elaborar a duração para o tempo em termos de extensão horizontal? Segundo Evans (2005), a razão pela qual o conceito lexical de duração é interpretado por algumas semânticas relativas ao comprimento, tais como, longo , curto , etc., tem a ver com a correlação na experiência entre a experiência sobre a duração, que constitui uma avaliação da
287 4.2.3.2. Preposições para indicar META (ponto de chegada): a , até , para em português e 到 (dào, chegar ) em mandarim Em português temos três preposições que se referem ao destino no esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META: a) a: indica a direção b) até: indica um limite c) para: indica um alvo O uso das preposições que indica o ponto final ou uma etapa aproximada ao ponto final é consistente entre o domínio espacial e o temporal. A família destas preposições apresenta tanto uma universalidade na dimensão cognitiva quanto particularidades linguísticas no âmbito semântico. No domínio do espaço, a preposição a pode ser usada para marcar tanto o Movimento como a Localização (Batoréo, 2000, p.503), sendo considerada prototipicamente como a preposição de Direção (Batoréo, 2000, p. 452, citado por Matias, 2014, p.14). Em primeiro lugar, a preposição a refere-se à tendência do movimento, tanto no espaço quanto no tempo. Tal como se pode observar na Tabela 53. Espaço Tempo Direção a um limite Dirija-se à frente. Daqui a uma semana o senhor vai lá a casa. Expressão de DESLOCAÇÃO com destaque para o DESTINO do Movimento Vou a Paris. Cheguei a Bragança. Chegámos ao verão. Extensão no espaço e no tempo De casa ao supermercado. De junho a outubro Tabela 53. Usos da preposição a nas expressões do movimento Em segundo lugar, temos o valor semântico de a que indica uma localização ao redor do objeto de referência. Por exemplo, a tia está à janela . O objeto de referência é janela. A tia localiza-se perto da janela. No sentido temporal, temos usos semelhantes: a que horas ou agora à tarde vão dois para a escola. Ambas falam do horário que pode ser metaforicamente entendido como uma localização na linha temporal. Em terceiro lugar, a indica uma coexistência entre objetos no espaço e, deriva, da maneira metafórica, o significado de simultaneidade no tempo. Por exemplo, está ao pé significa que os pés ocupam o espaço. No tempo, por exemplo, acordei aos gritos , uma ação acordar aconteceu ao mesmo tempo em relação à ação de gritar. Por último, o valor semântico espacial de a revela ainda a
288 interpretação de sucessão e gradação : subir as escadas dois a dois . Este valor semântico espacial tem a sua correspondência temporal: mês a mês (Matias, 2014). No que diz respeito a preposição até , no esquema imagético a seguir configura-se o deslocamento que está a aproximar-se ao limite final do destino. A preposição até pode ser entendida tanto no estado dinâmico, no sentido de tendência, quanto no estado estático, no sentido de alcance (Cesa, 2013, pp.73-74). Figura 75. O esquema da preposição até no espaço dinâmico (Cesa, 2013, p.73) No espaço estático: de modo que o espaço delimitado funciona como um contentor, desde que circunscrito através das preposições de e até . Figura 76. O esquema das preposições de e até (Cesa, 2013, p.74) Este mesmo esquema de espaço pode ser aproveitado pelo tempo através de um trajeto ao longo da linha do tempo (dinâmico) ou de um período que é delimitado pelas preposições desde e até (estático). Figura 77. O esquema da preposição até no tempo dinâmico (Cesa, 2013, p.74) Figura 78. O esquema das preposições desde e até no tempo estático (referência) (Cesa, 2013, p.74) Alvaro (2008) diz que o uso de até em proposições de conteúdo espacial ativa um esquema de trajeto. Além disso, até ativa uma concetualização escalarizada no esquema imagético da escala. A compreensão do tempo como se fosse espaço liga esses usos (espacial e temporal) do até em proposições como:
289 O uso do até é abstratizado na escalarização de valores qualitativos, como num contínuo de escalarização. Vale ressaltar que na escalarização em proposição com conteúdo de número, como explicamos, anteriormente, o até pode ser núcleo de sintagma como “Ele ganha até cinco mil por mês”, desempenhando esse sintagma função adverbial. Mas pode, também não ocupar posição de núcleo do sintagma. Nesse caso, vem, também, à esquerda do sintagma, mas como uma expressão qualitativa. Explicamos essa caracterização anteriormente. Retomamos esse aspecto formal (…) para elucidar que esse seria um ponto de transição dos tipos de escalarização do até , cujo uso vai em um contínuo de metaforização (Alvaro, 2008, p.118). Na tentativa de uma generalização visual da rede polissémica da preposição até , Alvaro (2008, p.118) apresenta Figura 79: Figura 79. O esquema imagético ESCALA (Alvaro, 2008, p.118) No que diz respeito a preposição para , segundo Costa (2014), A preposição PARA tem a sua origem nos vocábulos do latim per (‘através de, por entre, por; em, durante; por meio de’) e ad , com a seguinte cadeia evolutiva: per ad > pera > para (cf. DHLP, p. 2753) (Costa, 2014, p.66). No espaço, a preposição para refere um trajeto com direção definida com a ideia de demora ou destino. Além disso, contém noções de “chegada” e “permanência”. 187) Ir ao Porto. (não-permanência) 188) Ir para o Porto. (permanência). No domínio temporal, a preposição para indica um limite temporal aproximado, por um lado e, por outro, indica o tempo que se completará. 189) A reunião vai ser mudada para a próxima semana. 190) O exame está previsto para segunda-feira. 191) O vestido está pronto para a semana. 192) Que horas são? Faltam cinco para a uma.
290 Tal como se pode observar, a preposição para preserva, mais ou menos, as vertentes semânticas espaciais no domínio temporal. Em mandarim, encontramos uma preposição originada por um verbo 到 (dào, chegar ) que contém algumas vertentes semânticas de a e de até . A etimologia da preposição chinesa 到 (dào, chegar) é a mesma palavra que funciona como verbo (Tong, 2006). 193) 大风刮到下午两点才停止。 O vento não parou até as 14h. 194) 到时候再说。 Fazermos a trabalho quando chega o tempo. 到 (dào, chegar ) tem três significados principais no sentido espacial: atingir o ponto final, indicar a direção e indicar a distância (Gao, 2014, pp.143-146): 195) Atingir o ponto final: 我们来到了北京。 Chegamos a Pequim. 196) Indicar a direção: 这辆火车是开到北京的。 Este comboio está com destino a Pequim. 197) Indicar a distância: 到北京/到天亮还有多长时间。 Quanto tempo levará para chegar em Pequim/antes do amanhecer? O significado de direção de 到 (dào, chegar ) faz equivalência a 往 (wǎng, ir ). O significado de distância de 到 (dào, chegar ) pode ser substituído por 离 (lí, sair ). Ambos estão relacionados com o ponto final de trajeto. No que diz respeito ao significado de direção, pela perspetiva de esquema ORIGEM-TRAJETO-META, um "ponto final" é o final de um caminho em relação à posição "inicial", já que as pessoas acabam percorrendo o trajeto de alguma forma. O ponto final tem a função de orientar o avanço do trajetor. Quanto à semântica de distância, é tanto espacial quanto temporal. As pessoas usam a sua própria posição (onde falam ou o ponto no tempo em que falam) como a origem das coordenadas para verificar a localização do ponto final. 198) 到北京还有三十公里。 (Para) chegar a Pequim há ainda trinta quilómetros. Ainda faltam 30 quilómetros para Pequim . 199) 到天亮还有三个小时。 (Para) chegar a madrugada há ainda três horas. Ainda faltam três horas para o amanhecer. Do ponto de vista do esquema imagético ORIGEM-TRAJETO-META, 到 (dào, chegar ) tem três significados no evento do movimento: a) indica o processo de aproximação ao ponto final do trajeto, b)
291 o fim da ação e c) a direção do movimento num trajeto. A primeira vertente semântica tem uma ideia de "contínuo", ao passo que a segunda tem a interpretação de "conclusão". A terceira, por sua vez, refere-se ao "destino" ou "alvo". Vejamos alguns exemplos: 200) 坐到北京 (uma ação contínua) sentar-se (até)chegar Pequim ( uma viagem de comboio da qual o destino é Pequim ) 201) 掉到地上 (uma ação concluída) cair chegar no chão ( caiu no chão ) 202) 买到书包 (destino ou objetivo) comparar chegar uma mochila ( comprou uma mochila ) O significado original de 到 (dào, chegar ) é "chegar". Pela perspetiva cognitiva, os resultados de eventos ou ações podem ser considerados como a compreensão do significado do ponto final. 到 (dào, chegar ) tem características de deslocamento óbvias na vertente semântica e é uma preposição típica de significado de caminho. Os verbos de ação que aparecem antes de 到 (dào, chegar ) têm a característica de "deslocamento". O seu significado de "deslocamento" será representado pela construção da estrutura preposicional do sentido terminal e pelo conhecimento enciclopédico das pessoas e interação com a experiência de vida. Essa característica de deslocamento ilustra que os eventos têm uma determinada sequência de ocorrência. A preposição 到 (dào, chegar ) no mandarim evolui de um uso como tempo verbal para expressar relações espaciais. a) Indica o futuro, indicando a continuação desde agora: 到时候再说 (dào shí hòu zài shuō) falaremos sobre isso quando chegar a hora conveniente (falamos mais tarde) b) Funciona como o tempo do particípio passado com a ideia de acabar: 吃到 (chī dào, comer chegar, comido / comeu ), 看到 (kàn dào, ver chegar, tem visto / vi ) c) Funciona como um suposto: 直到 (zhí dào, até que) 4.3. Conclusão De acordo com o estudo contrastivo das metáforas temporais dos esquemas imagéticos espaciais, podemos tirar algumas conclusões mediante duas perspetivas: linguística e cognitiva. Pela perspetiva linguística, entendemos que, em primeiro lugar, embora em cada língua tenhamos preposições parecidas para configurar relações espaciais em esquemas imagéticos
292 CONTENTOR e ORIGEM-TRAJETO-META, existem em ambas as línguas (o português e o mandarim) algumas vertentes semânticas particulares temporais que, sem exceção, vêm das vertentes semânticas particulares do espaço em cada língua. A linguagem espacial origina definitivamente a linguagem temporal. A semântica da linguagem temporal derivará da expressão espacial, mas nenhuma delas afeta a lógica do esquema imagético. Isso mostra que a metáfora é mais um produto da cognição e do pensamento do que da linguagem, embora ambas as partes sejam equivalentemente importantes. Em segundo lugar, as preposições põem mais ênfase em termo de quantidade contínua no domínio temporal, em vez de ser apenas uma equivalência completa de um ponto no espaço. Por exemplo, de manhã indica uma duração desde a manhã até agora e até tarde refere uma duração desde agora para mais tarde. Isso porque no domínio do tempo, além do ponto inicial e do ponto final, temos outro ponto de referência convencionado, i.e., o momento presente (ou melhor dizendo, o momento deítico, o momento da enunciação). Neste contexto, uma duração é construída com a referência àos momentos diferentes. Os pontos de referência no espaço, por sua vez, são geralmente inconsistentes com a localização do falante. Assim não é fácil de formar uma ideia de distância além de ter dois pontos definidos. As preposições para e a apontam ou direcionam o ponto de chegada em vez de serem pontos de chegada. De também aponta (indica) a localização do ponto de partida (a origem), mas a preposição própria não é uma origem. É por isso que quando expressamos a distância, geralmente usamos a quantidade de tempo absoluto para substituir a quantidade mensurável no espaço. Na maioria dos casos de uma vigem de comboio ou de avião, preferimos saber quantas horas há no momento de enuciação entre duas cidades (com certa ferramenta de transporte) em vez de quanto espaço existe. Em terceiro lugar, verificam-se usos gramaticalizados de algumas preposições no domínio temporal. No domínio espacial, o movimento pode ser dividido em dois grupos através da distância do deslocamento: movimento de deslocamento e movimento sem deslocamento. Da mesma forma, no domínio do tempo, a duração pode determinar uma classificação do evento pela duração: evento durativo e evento instantâneo. Sendo assim, as preposições também podem ser combinadas com elementos de trajeto para se tornarem num marcador de tempo verbal. Por exemplo, no mandarim, aproveita-se o estado de evento (foi concluído ou não) a fim de distinguir tempo perfeito, tempo contínuo ou tempo futuro. Devido ao facto de não haver conjugação do verbo no mandarim, a preposição-verbo "chegar" funciona como um marcador temporal.
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