scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Judeus em Kaifeng e a sua assimilação cultural

Niu Jingwen

Abstract

A presença judaica, generalizada em muitos países do mundo, estende-se também à China. Este trabalho tem como objeto de estudo os judeus em Kaifeng, uma das comunidades judaicas mais bem documentadas no país. Sendo a China um país multiétnico, com 56 etnias e alguns grupos étnicos não identificados, reveste-se de interesse perceber como estas diferentes comunidades convivem harmoniosamente, mantendo (ou não) a sua identidade numa sociedade pluralista. Este tema específico poderá enriquecer a investigação sobre influências culturais na história chinesa e judaica. A dissertação apresenta as características culturais da comunidade judaica e do Judaísmo em Kaifeng, analisando a extensão e causas que contribuíram para a sua assimilação na sociedade chinesa, tendo por base a teoria das sete etapas de assimilação do sociólogo americano Milton M. Gordon. Apresenta se, por um lado, algumas reflexões de investigadores chineses e ocidentais sobre os judeus naquela região chinesa e, por outro lado, analisa-se valiosos textos em chinês antigo, gravados em lápides, que ajudarão a ilustrar o tema. A assimilação dos judeus em Kaifeng remete para uma variedade de causas, sendo o fator social o mais significativo. A forte influência da sociedade chinesa e a negligência da comunidade judaica em relação à sua própria cultura e língua contribuíram para uma assimilação total e à perda de identidade cultural.

Full text

Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Niu Jingwen abril de 2023 Judeus em Kaifeng e a sua Assimilação Cultural Niu Jingwen Judeus em Kaifeng e a sua Assimilação Cultural UMinho|2023 Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Niu Jingwen abril de 2023 Judeus em Kaifeng e a sua Assimilação Cultural Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Sun Lam e do Professor Luís Cabral Dissertação de Mestrado Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ iii Agradecimentos Em outubro de 2020, embarquei numa viagem para Portugal durante a pandemia de Covid-19. Estava ansiosa e preocupada com esta aventura, porque não tinha a certeza que pessoas iria encontrar e que histórias me aguardavam. Mas cheguei e realizei os meus sonhos. Ao iniciar um novo ano e concluir o mestrado, sinto alguma tristeza pelo encerrar deste ciclo e quero agradecer aos professores e amigos que me ajudaram. Antes de mais, gostaria de agradecer aos meus orientadores, Professora Doutora Sun Lam e Professor Luís Cabral, pelo apoio abnegado às minhas atividades académicas. Os seus conselhos foram cruciais para a minha dissertação, desde a seleção do tema até à sua finalização. Durante os dois anos de mestrado, eles trataram-me como família, guiando-me nesta viagem para descobrir Portugal e abrindome os olhos para um mundo novo. Gostaria de agradecer meus pais e avós, o meu melhor presente, não só porque fizeram o possível para me proporcionar a melhor educação desde tenra idade, mas também porque me conduziram na minha busca de conhecimento, liberdade e igualdade, e me encorajaram a ultrapassar limites. Agradeço aos meus amigos que têm sido muito úteis nos meus estudos e na vida pessoal. Passámos por muito juntos; até as dificuldades e tribulações se transformaram em memórias felizes. Pensava sempre que a vida é uma longa e dolorosa viagem, e estou sempre grata pelo facto de os ter como companhias para me libertar da dor, da solidão e da angústia. Estão também a levar-me a ser tão amáveis como eles são. Nestes dois anos, por um lado, ganhei muito, mas por outro lado, perdi muitas oportunidades de passar tempo com a minha família. Escrevo este agradecimento com lágrimas para recordar este precioso período que passou e para vos agradecer por me deixar crescer em liberdade, para uma melhor vida. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação deformações ou resultados, em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Judeus em Kaifeng e a sua Assimilação Cultural Resumo A presença judaica, generalizada em muitos países do mundo, estende-se também à China. Este trabalho tem como objeto de estudo os judeus em Kaifeng, uma das comunidades judaicas mais bem documentadas no país. Sendo a China um país multiétnico, com 56 etnias e alguns grupos étnicos não identificados, reveste-se de interesse perceber como estas diferentes comunidades convivem harmoniosamente, mantendo (ou não) a sua identidade numa sociedade pluralista. Este tema específico poderá enriquecer a investigação sobre influências culturais na história chinesa e judaica. A dissertação apresenta as características culturais da comunidade judaica e do Judaísmo em Kaifeng, analisando a extensão e causas que contribuíram para a sua assimilação na sociedade chinesa, tendo por base a teoria das sete etapas de assimilação do sociólogo americano Milton M. Gordon. Apresentase, por um lado, algumas reflexões de investigadores chineses e ocidentais sobre os judeus naquela região chinesa e, por outro lado, analisa-se valiosos textos em chinês antigo, gravados em lápides, que ajudarão a ilustrar o tema. A assimilação dos judeus em Kaifeng remete para uma variedade de causas, sendo o fator social o mais significativo. A forte influência da sociedade chinesa e a negligência da comunidade judaica em relação à sua própria cultura e língua contribuíram para uma assimilação total e à perda de identidade cultural. Palavras-chave: Assimilação, China, Judeus em Kaifeng, Judeus, Sociedade multicultural. vi The Jews in Kaifeng and their Cultural Assimilation Abstract The presence of the Jewish, widespread in many countries of the world, also extends to China. This paper aims to examine the Jews in Kaifeng, one of the best documented Jewish communities in this country. As China is a multiethnic country, with 56 ethnic groups and some unidentified ethnic groups, it is interesting to understand how these different communities coexist harmoniously, maintaining (or not) their identity in a pluralistic society. This specific theme could enrich research on cultural influences in Chinese and Jewish history. The dissertation presents the cultural characteristics of the Jewish community and Judaism in Kaifeng, China, analyzing the extent and causes that contributed to its assimilation in Chinese society, based on the model of the seven stages of assimilation theory of the American sociologist Milton M. Gordon. It presents, on the one hand, some reflections of Chinese and Western scholars on the Jews in that Chinese region and, on the other hand, it analyzes valuable texts in ancient Chinese, engraved on funerary stelae, which will help to illustrate the topic. The assimilation of Jews in Kaifeng points to a variety of causes, the social factor being the most significant. The strong influence of Chinese society and the Jewish community's neglect of its own culture and language contributed to its total assimilation and to the complete loss of the cultural identity. Keywords: Assimilation, China, Jews in Kaifeng, Jews, Multicultural society. vii 开封犹太人及其被同化的原因 摘要 犹太人群体是广泛分布于世界各国的族群,在中国也同样有着犹太人群体的分布。本 文将研究中国几个犹太群体中记录保存最完整的犹太人社群——开封犹太人。中国是一 个由 56 个民族以及一些未识別民族组成的多民族国家,如何使这些不同的群体在保存 自身独特性的情况下和谐地生活、维持多样性并组成一个多元的社会,将是一个值得 研究的课题,这一课题亦可丰富西方学者对于中国历史和犹太历史的认识和研究。 本文介绍了中国开封犹太人群体和犹太教的文化特征,分析了开封犹太人逐渐被中国 社会同化的原因。分析的视角受美国社会学家米尔顿·M·戈登 (Milton M.Gordon) 的七步同 化理论模型的启发,并以此模型为基础分析开封犹太人被中国社会同化的七个过程。 本文不仅引用了中国和西方学者对于开封犹太人的研究,为了帮助阐述观点,还引用 了一些珍贵的文言文碑文记载。 开封犹太人被同化与多种原因相关,社会文化是最主要的因素。由于中国社会的强大 影响力以及犹太群体对自身文化、语言的忽视,导致了开封犹太人被逐步同化,直到 完全失去其自身的文化独特性。 关键词 :犹太人、多元文化社会、同化、中国开封犹太人 5 1.1 Judeus e judaísmo O Judaísmo surgiu por volta de XVII a.C., na Ásia Ocidental, quando Deus terá ordenado a Abraão para abandonar o politeísmo e procurar a terra prometida, desenvolvendo-se enquanto religião em conjunto com a civilização hebraica. Uma das três principais religiões abraâmicas e uma das religiões monoteístas mais antigas da história, para além do culto, assume-se como filosofia e modo de vida do povo judeu e é considerada como a expressão da aliança firmada entre Deus e os Filhos de Israel. Ao longo da história, a dispersão geográfica da comunidade hebraica esteve intimamente ligada ao antissemitismo. Semita remete para o ramo linguístico e cultural da nação, referindo-se principalmente aos árabes, aos hebreus e a vários outros povos. O antissemitismo tem registado diferentes motivos e manifestações em diferentes períodos da história, mas não faltam semelhanças e continuidades, tais como a perceção dos judeus como "os assassinos de Cristo ", um povo "ganancioso e insidioso", um grupo que "tenta controlar o mundo" e está "por detrás de todos os problemas políticos e económicos” 2 . As ideias e comportamentos antissemitas tiveram sempre consequências desastrosas. Desde a cristianização do Império Romano, a história da Europa esteve repleta de atos de violência contra os judeus, nomeadamente a pilhagem e massacres dos judeus pelos cruzados, a expulsão dos judeus no século XV decretada pelos Reis Católicos, o alargamento desta medida ao reino português, por força do casamento de D. Manuel I com uma princesa espanhola, que conduziu à conversão forçada de milhares de fiéis ou uma onda de antissemitismo na Rússia czarista nos séculos XIX e XX. O culminar do antissemitismo é reconhecido como o Holocausto, conduzido pela Alemanha nazi entre 1933 e 1945, que resultou na morte de cerca de seis milhões de judeus 3 e no êxodo massivo para fora da Europa. O antissemitismo foi um dos motivos na base de várias vagas de diáspora judaica que levou este povo a diferentes azimutes, incluindo a China, ainda que a chegada ao “império do meio” tenha sido mais motivada por razões económicas do que por perseguições. No entanto, como Topel sublinha, o exílio é tão marcante ao longo da história de Israel que, já na Babilónia, os judeus se organizaram e escolheram um líder político, da casa de David (o exilarca), para organizar os assuntos internos da comunidade – 2 Cf. “Antissemitismo:” disponível em https://www.yadvashem.org/education/other-languages/chinese-encyclopedia/antisemitism.html, consultado a 18 de junho de 2022. 3 Cf. “Antissemitismo” disponível em https://zh.wikipedia.org/wiki/%E5%8F%8D%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E4%B8%BB%E4%B9%89, consultado a 18 de junho de 2022. 6 educação, arrecadação de impostos e nomeação de juízes –, sendo reconhecido pelas autoridades persas como o representante oficial da comunidade judaica local (Topel, 2015, p. 340). Na China, a referência ao povo judeu variou ao longo do tempo. Na dinastia Tang (唐朝, táng cháo , 618907) era denominada "Shihu” (石忽, shíh ū), na dinastia Han (汉朝, hàn cháo , 202 a.C.- 220 d. C) "Shuhu” (术忽, shùh ū). Em Kaifeng, o judaísmo é conhecido como a "religião de Yicileye" (一赐乐业教, y ī cìlèyè jiào ), nome dado por um imperador da dinastia Song do Norte 4 (北宋, b ě isòn g, 960-1127) - as quatro sílabas yicileye correspondem a Israel, enquanto a palavra jiào significa religião - sendo também comummente conhecido como "a religião da recusa dos tendões" (挑筋教, ti ā oj ī n jiào ), que remete para um hábito alimentar explicado adiante. Figura 1: Judeus em Kaifeng no Festival do Meio Outono (agosto do 13º ano da República da China 5 ) 6 Os judeus em Kaifeng costumavam viver no centro da cidade, no Hutong da Recusa dos Tendões (挑筋 胡同, ti ā oj ī n hútòng ), nome alterado para Hutong do Sagrado Clássico (教经胡同, jiàoj ī ng hútòng ) durante a era republicana, por o anterior ser considerado discriminatório. O bairro preserva, ainda hoje, a sua forma original. 4 Cf. “ Os Judeus que chegaram à China ”, 进入中国的犹太人 , em https://zh.wikipedia.org/wiki/%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E4%BA%BA#%E8%BF%9B%E5%85%A5%E4%B8%AD%E5%9B%BD%E7%9A%84%E7%8A%B9%E5%A4%A A%E4%BA%BA, consultado em 6 de junho de 2022. 5 A República da China (中华民国, Zh ō nghuá Mínguó ) foi fundada em 1912 e regeu a China Continental até 1949. NdA. 6 Disponível em: https://www.163.com/dy/article/GL7J6FH7054117YX.html, consultado a 21 de dezembro de 2022. 7 Figura 2: Hutong do Sagrado Clássico e cancela com o símbolo da cultura hebraica “Estrela David” 7 A identificação dos judeus em Kaifeng está historicamente ligada ao missionário italiano Matteo Ricci (利 玛窦, lìm ǎ dòu , 1551-1610) 8 . Segundo o livro deste padre, De Christiana expeditione apud Sinas 9 , depois de se ter estabelecido em Pequim. Ricci recebeu a visita de um estudioso chinês de Kaifeng, Ai Tian, que lera sobre a fé monoteísta e confundira as religiões judaica e cristã. Ricci esclareceu Ai Tian sobre as duas religiões e percebeu que na sua cidade natal, havia 10 a 12 famílias judias, bem como uma sinagoga, onde se guardava um Pentateuco com 500 ou 600 anos. Vários dos seus compatriotas, incluindo os seus próprios irmãos, eram fluentes em hebraico. Já Ai Tian optara por estudar literatura chinesa e trabalhou arduamente para os exames imperiais, desistindo de aprender hebraico. Figura 3: Matteo Ricci 10 7 Disponível em: https://photo.sina.cn/album_1_52343_39479.htm?ch=1&vt=4&hd=1, consultado a 23 de janeiro de 2023. 8 Matteo Ricci é o missionário jesuíta e erudito italiano, foi viver para a China em 1583, durante a dinastia Ming, e aí pregou desde o final do século XVI e início do século XVII. Foi um dos pioneiros da missão católica na China e o primeiro ocidental a ler literatura e a mergulhar no cânone chinês. NdA. 9 A obra《利玛窦中国札记, lìm ǎ dòu zh ō ngguó zhájì 》relata a expedição cristã à China sob a forma de diário do missionário italiano. Após a morte de Ricci em 1610, o jesuíta belga Nicolas Trigault (1577-1628) compilou e traduziu o diário para o latim. NdA. 10 Disponível em: https://zh.wikipedia.org/wiki/%E5%88%A9%E7%8E%9B%E7%AA%A6, consultado a 20 de dezembro de 2022. 8 Este encontro estabeleceu a identidade judaica de Ai Tian e dos seus companheiros, o que significa que Ricci foi o primeiro a identificar judeus na China (Q. Zhang, 2007, p. 109), contrariando a perceção de que não havia judeus no território. Desde então, os missionários ocidentais estiveram envolvidos na pesquisa do desenvolvimento histórico dos judeus em Kaifeng, testemunhando, e até influenciando, quase todo o processo de declínio e desaparecimento da comunidade. De seguida descreve-se, de forma necessariamente breve, algumas caraterísticas e costumes desta comunidade religiosa. 1.1.1 Bíblia hebraica A Bíblia hebraica é um termo usado por investigadores da área dos estudos bíblicos para se referirem ao Tanakh (em chinês, 塔那赫, t ǎ nàhè ) 11 , a literatura canónica do povo judeu, que corresponde ao Antigo Testamento. Este livro tem influenciado a vida judaica em todos os aspetos da dieta, direito, educação e festivais. No cânone judaico, os Dez Mandamentos (摩西十诫, móx ī shíjiè ), no Pentateuco (摩西五经, móx ī w ǔ j ī ng ), promulgados por Deus a Moisés, são as diretrizes para a vida e fé judaicas, e a lei judaica original. O Tanakh é constituído por três partes: a Torá (em chinês 妥拉, tu ǒ l ā), os Nevi’im (先知书, xi ā nzh ī sh ū) e os Ketuvim (圣录, shènglù ). A Torá ou Pentateuco é considerado o mais importante clássico entre os judeus; trata-se da lei judaica consuetudinária, trazida por Moisés do Monte Sinai. Este conjunto de cinco livros - Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio - relata a antiga história israelita; origens, costumes, leis e ritos religiosos, com particular ênfase para as revelações dadas por Deus que criador o mundo. A segunda parte do Tanakh, os Profetas (Nevi’im), regista as façanhas daqueles que ensinaram e conduziram os judeus, e os Ketuvim , que significa “escritos” ou “hagiografia” em hebraico, centra-se principalmente na literatura litúrgica e poética, de que é exemplo o livro dos Salmos. 11 Tanakh significa consistente em hebraico. NdA. 9 Em resumo e de acordo com a tradição judaica, os cinco livros da Torá contêm a verdadeira palavra de Deus, os Nevi'im, obras proféticas, consistem nas próprias formulações dos profetas e, por fim, os Ketuvim apresentam uma terceira dimensão da revelação divina: a dos humanos sob inspiração divina. Figura 4: Torá de Kaifeng, em pele de ovelha 12 1.1.2 Arquitetura A sinagoga é o local onde os judeus se encontram para atividades religiosas comunitárias e estudo das escrituras, sendo ainda um “espaço de sociabilidade (…) complementar à vida do judeu”, seja para os ortodoxos, ou seja, para os progressistas (Castro, 2019, p. 31). A palavra hebraica para "sinagoga" é bethaknesset , que originalmente significava “local de encontro”. Algumas sinagogas têm um rabino responsável pelos assuntos religiosos. Como centro da vida espiritual judaica durante a diáspora judaica, a sinagoga desempenhou um papel vital na manutenção das crenças, cultura e sentimentos comuns do povo judaico . 13 (Q. Zhang et al., 2011, p. 110). Geralmente, a sinagoga consiste numa sala de oração principal e várias outras mais pequenas, para o estudo e aprendizagem do Judaísmo. Inspiradas no templo de Jerusalém, mas sem uma imagem modelo 12 Encontra-se agora no Museu Britânico. https://blogs.bl.uk/asian-and-african/2020/05/Kaifeng-torah-scroll.html, consultado a 18 de maio de 2022. 13 “会堂作为大流散时期犹 太人精神生活的中心,对维系本民族 的共同信仰、共同文化、共同情感等 方面起了极为重要的作用” TdA. 10 para orientar a sua construção, as sinagogas têm apresentações muito distintas em diferentes partes do planeta, em resultado da influência da cultura local. Figura 5: Sinagoga Kadoorie na cidade do Porto, Portugal 14 Os judeus em Kaifeng começaram a construir a sua sinagoga em 1163 (Q. Zhang et al., 2011, p. 203), edifício que registou uma evolução arquitetónica após cada reconstrução. Surpreendentemente, no século XVII, a Sinagoga de Kaifeng transformou-se num edifício chinês de influência confucionista, como discutiremos em pormenor no Capítulo III. Figura 6: Modelo de sinagoga de Kaifeng 15 14 Sede da comunidade judaica do Porto, cujo nome oficial é Comunidade Israelita do Porto/ Comunidade Judaica do Porto. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sinagoga_Kadoorie, consultado a 23 de maio de 2022. 15 Medelo da Sinagoga de kaifeng, construído por volta de 1163 e destruído na década de 1860. Coleção do Museu Beth Hatefutsoth. Disponível em: https://blogs.bl.uk/asian-and-african/2020/05/kaifeng-torah-scroll.html, consultado a 23 de maio de 2022. 11 De acordo com as descrições que constam numa inscrição de 1679, e nos relatórios do Padre Gozani, um missionário jesuíta que visitou a sinagoga em 1704: O interior da Sinagoga de Kaifeng é um magnífico edifício de estilo chinês, decorado com jade e ouro. Entretanto, tem as características essenciais e básicas de uma sinagoga ocidental, tais como uma arca contendo pergaminhos hebraicos e um púlpito para o ensino. A sinagoga fica virada para oeste e não contém imagens ou estátuas 16 . (Song, 1973, p. 116). Na China, os judeus chamam às suas sinagogas "mesquitas" (清真寺, q ī ngzh ē n sì ), mas, apesar da coincidência de denominação, nada têm em comum com uma mesquita muçulmana. Segundo A Contribuição Histórica dos Judeus na China Antiga do professor Wei Qianzhi, a palavra qingzhen significava, originalmente, "puro e verdadeiro", e nada tinha a ver com religião. Tanto quanto se sabe, foram os judeus na China que primeiro utilizaram a palavra Qingzhen para se referirem à sua religião (…) O Islamismo chinês começou a usar o termo Qingzhen mais tarde do que a religião judia chinesa, tanto a nível nacional como na área de Kaifeng (pp. 25 e 27). 17 16 “It was a magnificent structure of Chinese style, decorated with jade and gold. It had all the essential features of synagogues in the West, such as the ark containing the Hebrew scrolls and the pulpit for instructional purposes. The synagogue was oriented west and in it there were no images”. TdA. 17 “据今所知,最早用‘清真’一词来称呼自己宗教的,是中国的犹太人。 (…) !中国伊斯兰教开始使用‘清真’一词的 时间,不论是就 全国范围来说,还是就开封地区来说,都较中国‘一赐乐业教’为晚。” TdA. 12 Figura 7: Ilustração do interior pelo padre francês J. Domenge durante a era Kangxi 18 1.1.3 Festas religiosas As festas judaicas são celebradas pelos fiéis de acordo com o calendário hebraico. Por ordem cronológica, festeja-se o Sabat, Ano-Novo Judaico, Pentecostes, Sucot (Festa dos Tabernáculos) e o Yom Kippur (Dia do Perdão). Nesta secção serão apresentados três festivais únicos, que outrora foram celebrados pelos judeus de Kaifeng. O Sabat (安息日, ā nx ī rì ) é um dia de descanso semanal no judaísmo, comemorando o sétimo dia de descanso após os seis dias da criação por Deus, claramente identificado nos Dez Mandamentos. Mas o sétimo dia é um sábado para Jeová, teu Deus. Não deves fazer nenhuma obra, (…) nem teu residente forasteiro que está dentro dos teus portões. Pois em seis dias fez Jeová os céus e terra, o mar e tudo o que neles há, e no sétimo dia passou a descansar. É por isso 18 Disponível em: S. Zhang, 1990, p. 129. 13 que Jeová abençoou o dia de sábado e passou a fazê-lo sagrado. (Êxodo 20:10-20:11, Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, 1984, p. 104). O Pessach é a "Páscoa judaica" (逾越节, yúyuè jié ) descrita no livro do Êxodo (12:25-12:27). Enquanto os israelitas estavam no Egito, sujeitos a trabalhos forçados, Deus escolheu Moisés para libertar o seu povo e conduzi-lo até à bela terra de Canaã, a terra prometida. E terá de acontecer que, quando entrardes na terra que Jeová vos dará, assim como declarou, então tereis de cuidar deste serviço. E terá de acontecer que, quando os vossos filhos vos disserem: Que significa para vós este serviço? Então tereis de dizer: “É o sacrifício da Páscoa a Jeová, que passou por alto as casas dos filhos de Israel no Egito quando feriu os egípcios, mas livrou as nossas casas”. Então o povo se inclinou e se prostrou. (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, 1984, p. 93). Em 2014, com a ajuda de organizações judaicas externas, a comunidade de Kaifeng realizou a primeira Páscoa judaica em quase 200 anos, nomeadamente com pratos comemorativos que possuíam muito do sabor chinês 19 , pintando um lintel com sangue de galinha e oferecendo um cordeiro cozido aos antepassados. O Yom Kipur (赎罪日, shúzuìrì ) ou "Dia do Perdão", assinalado no décimo dia do sétimo mês do calendário judaico, é a data mais sagrada para os judeus, com jejum de um dia inteiro e oração constante. No Registo da Reconstrução da Sinagoga (《重建清真寺记》, chóngjiàn q ī ngzh ē nsì jì ) (mais tarde foi conhecida como a Lápide de Hongzhi) pode ler-se, a propósito deste Dia do Perdão: (Durante o Yom Kipur) Todos os alimentos e bebidas são proibidos e são utilizados para se concentrarem no cultivo da pureza do coração. O estudioso deixa de estudar, o agricultor suspende a agricultura, o negócio tem de cessar, e o pedestre para a sua viagem . 20 1.1.4 Formas rituais para oração 19 Cf. “A primeira Páscoa hebraica em duzentos anos” Disponível em: http://m.qulishi.com/news/201605/103314.html, consultado a 17 de maio de 2022. 20 “饮食俱绝,以培养其天真。士辍诵读,农罢耕耘,商贾止于市,行旅止于途。”TdA. 14 Como qualquer religião, os judeus em Kaifeng tinham vários costumes herdados do judaísmo original, nomeadamente durante a oração. Durante o culto, os homens usavam regularmente um pequeno chapéu judaico, quipá 21 , e viraram-se para o Ocidente durante as orações em direção a Jerusalém, como os judeus faziam nas outras partes do mundo. 22 (Song, 1973, p. 117). Figura 8: Culto dos judeus em Kaifeng 23 Uma vez que o chapéu usado pelos judeus para fins cerimoniais era azul-esverdeado, semelhante mas não idêntico aos chapéus brancos usados pelos muçulmanos chineses, os judeus em Kaifeng são também conhecidos como os Huihui 24 Azul (青回回, q ī ng huíhuí ) 25 ou Huihui com Chapéu Azul (蓝帽 回回, lánmào huíhuí ) (Q. Zhang et al., 2011, p. 132). 21 犹太帽 ( yóutài mào ). Como sinal de reverência por Deus, os homens judeus usam chapéus de lã. Os judeus tradicionalistas usam quipá de cor azulceleste. 22 “During the worship service the men regularly wore yamulka and faced west during prayers to the direction of Jerusalem as Jews did elsewhere.” TdA. 23 Disponível em: https://www.myjewishlearning.com/article/the-jews-of-kaifeng-chinas-only-native-jewish-community/, consultado a 21 de dezembro de 2022. 24 Os Hui são uma das minorias étnicas mais populosas e amplamente distribuídas na China. Kaifeng está localizada na província de Henan, que tem mais de um milhão de habitantes Hui, o que a torna a terceira maior província em termos do número de habitantes Hui. Hui Hui é o nome colectivo para os muçulmanos das planícies centrais, cristãos persas e judeus durante as dinastias Ming e Qing. Cf. “Perfil da População Hui”. Disponível em: https://www.neac.gov.cn/seac/ztzl/huiz/gk.shtml, consultado a 12 de setembro de 2022. 25 Em chinês, Qing (青, q ī ng ) pode representar as cores verde, preto e azul. Quando é utilizado para descrever tecidos e céus, geralmente denota azul, azulescuro ou azul-esverdeado. Os significados contidos no Qing (青, q ī ng ) na China antiga são muito variados e não serão aqui discutidos em pormenor. Cf. “3 Cores de Qing”. Disponível em: https://www.sohu.com/a/274265343_99904825, consultado a 12 de setembro de 2022. NdA. 21 Figura 15: Fragmento de uma carta judaico-persa.52 Figura 16: Oração hebraica da dinastia Tang, descoberta em Dunhuang 53 Em 1908, o sinólogo francês Paul Eugène Pelliot 54 descobriu uma oração penitencial hebraica do Ketuvim, em Dunhuang (敦煌, d ū nhuáng ) 55 , escrita entre os séculos VIII e IX, durante a dinastia Tang, prova adicional da presença desta comunidade naquela época. Outra teoria defende que os judeus terão chegado aos portos do sudeste da China por via marítima, entre as dinastias Tang e Song do Sul (S. Zhang, 1990, p. 26). A lápide de Hongzhi menciona o " tributo de tecido de algodão ocidental 56 ", sendo "ocidental" (西洋, x ī yáng ) um adjetivo que remete para a ascensão do transporte marítimo entre a China e o Ocidente (Ouyang, 2018, p. 8). Foram encontrados vestígios em Nanjing, Yangzhou, Quangzhou, Ningbo, Hangzhou e outras zonas costeiras, o que parece corroborar as visitas frequentes dos judeus naquela época 57 . A comunidade judaica em Kaifeng atingiu o seu auge após a dinastia Ming, com 73 famílias iniciais a crescerem para 500, o que se traduzia em cerca de cinco mil pessoas (Song, 1973, p. 116). 52 Provavelmente do século VIII, o fragmento encontra-se atualmente no Museu Britânico. NdA. Disponível em: https://blogs.bl.uk/asian-andafrican/2020/05/Kaifeng-torah-scroll.html, consultado a 17 de maio de 2022. 53 Encontra-se agora na Biblioteca Nacional de França. https://www.thepaper.cn/newsDetail_forward_1993431,consultado a 26 de maio de 2022. 54 Paul Eugène Pelliot (伯希和, bóx ī hé, 1878-1945) foi um sinólogo francês e orientalista conhecido pelas suas explorações da Ásia Central e pela descoberta de muitos textos chineses importantes, tais como os manuscritos de Dunhuang. NdA. 55 Localizada no noroeste da província de Gansu, China, era uma cidade importante na Rota da Seda e é famosa pelas suas grutas e pelos seus murais, que documentam muitas das criações artísticas do budismo e cenas de comércio ao longo da Rota da Seda. 56 “进贡西洋布于宋” TdA. 57 Cf. “Presença dos Judeus nas cidades chinesas” disponível em:https://www.yangtse.com/zncontent/275701.html,consultado a 29 de maio de 2022. 22 1.2.2 Tratamento dos judeus durante a dinastia Song A Lápide de Hongzhi regista: (Os judeus em Kaifeng) vieram do Ocidente e foram ordenados a prestar tributo ao imperador Song com panos ocidentais. O imperador disse: "Juntem-se a nós na China e poderão continuar a observar a cultura dos vossos antepassados e permanecer em Kaifeng". 58 Figura 17: Kaifeng no mapa da China 59 Como o algodão ainda não era cultivado na China durante a dinastia Song, esse tecido era altamente valorizado, e um dos objetivos da visita dos judeus era vendê-lo, o que se dizia ser uma homenagem ao imperador (Dehergne & Leslie, 2005, p. 333). O registo da lápide de Hongzhi exprime a atitude acolhedora e inclusiva do imperador do Norte em relação aos estrangeiros. Estes foram autorizados a viver livremente na China, durante mais de mil anos, trabalharam, estudaram, casaram-se, participaram em exames imperiais e continuaram a praticar a sua religião ancestral. Como sinal do acolhimento, o imperador atribuiu-lhes 17 apelidos de etnia Han, principalmente os usados por famílias grandes, conhecidos como os “Sete Apelidos, Oito Famílias/Clãs” (七姓八家, q ī xìng b ā ji ā), uma vez que o apelido Li era usado por duas famílias distintas, a saber: Zhao (赵, zhào), 58 “出自天竺 ,奉命而来……进贡西洋布于宋,帝曰:归我中夏,遵守祖风,留遗汴梁” TdA. Na China antiga, o termo "Tianzhu" (天竺, ti ā nzhú ) Tenjiku ou Tianzhu era utilizado para se referir ao Ocidente em geral ou a lugares mais distantes, não sendo possível concluir que fossem originários da atual Índia (Q. Zhang et al., 2011, p. 241). NdA. 汴梁 ( biàn liáng ) refere-se à capital da dinastia da Song do Norte, prefeitura de Kaifeng em 东京 (d ō ngj ī ng) , ou“汴京 (biànj ī ng) ”, que corresponde hoje à cidade de Kaifeng na província de Henan. NdA. 59 Disponível em: https://www.topchinatravel.com/Kaifeng/Kaifeng-facts.htm, consultado a 17 de maio de 2022. 23 Jin (金, jīn), Zhang (张, zhāng), Ai (艾, ài), Gao (高, gāo), Shi (石, shí) e Li (李 , lǐ). Estes apelidos chineses eram foneticamente semelhantes aos seus sobrenomes originais, por exemplo, "Li" para "Levy" ou "Shi" para “Sheba” 60 e ajudaram muito à integração dos judeus na sociedade chinesa. 1.2.3 Declínio dos judeus em Kaifeng e tentativas para restaurar a identidade judaica Como Ai Tian mecionou no seu primeiro encontro com Matteo Ricci, estivera totalmente empenhado na literatura chinesa desde tenra idade e, por isso, desistiu de aprender hebraico e não tinha conhecimentos sobre o Judaísmo. Tal como ele, no século XVIII muitos judeus em Kaifeng tinham uma compreensão muito melhor dos chineses do que dos hebreus, devido à negligência da sua própria cultura e à forte influência da cultura chinesa. Este encontro foi descrito como "uma grande descoberta dos Jesuítas" e levou os missionários e sinólogos ocidentais a estudarem os judeus em Kaifeng. Muitos missionários viajaram até lá e recolheram livros sagrados, escritos, lápides e tabuletas dos judeus e enviaram-nas para o estrangeiro. Alguns artefactos foram preservados em museus, nomeadamente o Museu Britânico, o Museu da Universidade de Cambridge e o St. Paul's College em Hong Kong, enquanto outros foram espalhados pelo mundo, não sendo já rastreáveis (L. Zhang, 2005, p. 36). O valor histórico dos judeus em Kaifeng já foi destacado por alguns estudiosos chineses no início do século XX, quando um artigo de jornal do segundo ano da República (1913), intitulado Descendentes que vendem lápides (《后裔卖碑》, hòuyì màib ē i ), registou uma tentativa do judeu Zhao Yunzhong (赵允中, zhàoy ǔ nzh ō ng ), de hipotecar a lápide e o antigo local da sinagoga ao missionário canadiano William Charles White (怀履光, huáil ǚ gu ā ng, 1873-1960), bispo da Santa Igreja Católica na China: Foi feito um contrato de venda, declarando que o montante era de mil e trezentos moedas de prata (contendo 23,493448 gramas de prata), a ser dividido igualmente entre as seis famílias de Zhao, Gao, Ai, Li, Shi e Jin. Mais tarde, Zhang Hongyou descobriu-o e reclamou-o com as seis famílias. Uma após outra, até dezembro do calendário lunar, quando as seis famílias deram à família de Zhang um total de oito moedas de prata. Como Zhang teve de ir trabalhar 60 Cf. “七姓八家”. Disponível em: http://m.qulishi.com/news/201605/103314.html, consultado a 17 de maio de 2022. 24 para outra província e não teve tempo de calcular com eles. Ontem (o dia anterior de publicação do artigo), quando regressou à província de Henan, viu de repente que a sinagoga estava rodeada pela Santa Igreja Católica na China, (…) e que ia ser construída uma igreja de estilo ocidental. Zhang perguntou então às seis famílias se tinham vendido a sinagoga, mas elas não lhe conseguiram responder. Ouvi dizer que Zhang irá recentemente a tribunal para processar as outras seis famílias, mas suponho que a sua intenção seja provavelmente competir por dinheiro e pela essência da cultura chinesa, não para preservar as lápides. 61 (Q. Zhang et al., 2011, p. 94) A morte do último rabino por volta do ano 1800 privou os judeus em Kaifeng da força para sustentarem a sua fé e concluiu o processo de assimilação da comunidade judaica local (Dehergne & Leslie, 2005, p. 365). No início do século XX, os judeus em Kaifeng, conscientes de que o seu povo estava gradualmente a ser assimilado à sociedade chinesa, quiseram tomar algumas medidas para restaurar o Judaísmo e a identidade judaica dentro da comunidade. Há agora centenas de judeus em Kaifeng que vivem em grande pobreza e perderam todo o conhecimento da sua língua original, religião e lendas antigas, e foram completamente assimilados pelos chineses. Existem agora planos para restaurar a sua religião original. Em fevereiro do segundo ano da República da China, foi adquirido um terreno a fim de preparar a construção de uma sinagoga. 62 (Ruan, 1924, pp. 1977-1978) A 14 de maio de 1900, 31 judeus que faziam negócios em Xangai reuniram-se para discutir formas concretas de ajudar, escrevendo uma carta em chinês e hebraico aos judeus em Kaifeng, hoje mantida pelo Instituto Sino-Judaico nos Estados Unidos. Na carta, os judeus de Xangai expressaram a sua angústia com a venda das escrituras aos gentios, a falta do Sabat e a falta de circuncisão, dispondo-se a financiar-lhes a viagem para Xangai. 61 “立有合同,言明作银一千三百元,经赵、高、艾、李、石、金六家均分。旋被章鸿猷侦知,先后至六家撕闹,延至阴历腊月出 席,六姓近给章姓银币 8元,当时因章赶赴省外某县谋事,不暇与之计较。日昨回省,忽见教寺地址四维均立有中华圣公会矮碣, (…) 预备盖造西式教堂。章遂质问六家是否典卖,六家均语塞无辞。闻章日内即赴审判厅起诉,然推其意,盖为争夺金钱起见, 非为保全古迹,存国粹起见也。”TdA. 62 “今则开封之数百犹太人,处境窘迫,对于其本民族之语言、宗教及古来传说之知识,几完全失却,而同化于中国人矣。现有谋 划恢复之哉。民国二年二月,已购置地一方,以备建筑犹太教堂。”TdA. 25 Ouvimos recentemente que os compatriotas estão a vender escrituras deixadas por antigos santos a pessoas de religião diferente. Já vimos uma em Xangai (…) Perdoamo-lo por ter de vender as suas Bíblias porque ninguém no grupo conhece o hebraico antigo e porque está encurralado pela pobreza. Ficámos muito tristes por ouvir isso. (…) Há muitos comerciantes judeus ricos em Xangai. Espera-se que as famílias entre os concidadãos prosperem, e que no futuro o Sabat deva seja observado, que os Dez Mandamentos sejam obedecidos e que a circuncisão seja praticada. É muito importante que a Bíblia não seja vendida a mais ninguém. Se alguém quiser vir a Xangai para discutir algo, iremos angariar dinheiro para pagar todas as despesas de viagem. 63 (Q. Zhang et al., 2011, p. 200) Os judeus em Kaifeng ficaram muito felizes por receberem a carta e enviaram um pai e um filho, como representantes, a Xangai. Mais tarde, devido à deterioração da situação durante a Segunda Guerra Mundial, os judeus em Xangai não deram apoio financeiro suficiente para que os crentes retomassem as suas atividades religiosas. Em 1919, um incidente semelhante foi noticiado no Ta Kung Pao (《大公报》, dàg ō ng bào ) , principal jornal de Hong Kong: Este contacto foi para restaurar a religião do dia, mas há muito tempo que estas oito famílias não estudavam as escrituras. Todos os ritos e costumes já não existem, e não sabem o que é a circuncisão; apenas as duas crianças da família Li foram recentemente circuncidadas. 64 Em 1914, Zhao Yunzhong escreveu uma carta aberta aos judeus fora da China, numa tentativa de procurar ajuda no estrangeiro para reanimar o Judaísmo. Este pedido estava em consonância com outros judeus em Kaifeng do mesmo período, que queriam restaurar a sua fé. O artigo foi publicado em Globus , uma revista alemã de geografia, antropologia e etnografia. O nosso país tem uma das mais longas histórias religiosas (Judaísmo). Os judeus em Kaifeng traziam aqui escrituras há milhares de anos. E a população judaica dos sete Apelidos e oito 63 “现闻同宗中将古圣遗传之道经,售于异族之人。仆等已于上海见一部。”(…) “谅系同宗中无人能识古经文字、兼为饥寒所 迫,故将圣经售去耳。仆等闻之不胜心伤。” (…) “沪上不乏犹太富商。悉愿同宗中子女兴旺,以后务须遵守七日,行乜摄之 律,及损割之礼。凡圣经概不可出售于人,是为至要,倘若专人来沪商议,所有路费川资,仆等概行酬给。” TdA. 64 “此次联络是欲恢复当年之教产,但此八家离经已久,所有礼俗一概荡然,不知割礼为何物,惟独李家幼童两人新受割礼。”TdA. 26 famílias ainda contava com milhares. Além disso, Kaifeng é facilmente acessível e as pessoas estão gradualmente a adquirir mais civilização e conhecimento. Se o Judaísmo pudesse ser pregado na China, para que não desaparecesse e se extinguisse em Kaifeng ...... 65 (Q. Zhang et al., 2011, p. 202) Bruno Schindler (1867-1967), um estudioso alemão, visitou a região e ofereceu-se para ajudar os judeus locais a contactarem judeus fora da China. Zhao Yunzhong escreveu então acima carta mencionada. Depois de regressar à Alemanha, Schindler nunca mais teve contacto com Zhao, mas publicou a carta no seu artigo. Embora os judeus tenham entrado na China numa fase muito precoce, é difícil, hoje em dia, encontrar vestígios da sua presença em Kaifeng, por várias razões. Em primeiro lugar, a regra judaica de não aceitar novos crentes restringiu grandemente o desenvolvimento do Judaísmo fora da sua comunidade (Q. Zhang, 1995b). Para além disso, os judeus consideravam altamente vergonhosos que infiéis tivessem acesso aos livros sagrados, pelo que as escrituras permaneceram confinadas à comunicação intra-judaica (Q. Zhang, 2007, p.114). Acrescentese ainda a idade e inundações na base do desaparecimento de muitas escrituras ao longo dos séculos. No século XVIII, já ninguém dominava o hebraico localmente (Ma & Ding, 2014, p.124), o que impediu a leitura das poucas escrituras judaicas restantes e acelerou o desaparecimento do Judaísmo em Kaifeng. Outra razão para o declínio desta comunidade, reside na dificuldade em identificar os clãs. Atualmente, alguns judeus chineses desejam conhecer a singularidade da sua linhagem, contudo, encontram uma dificuldade acrescida, pois a sua matriz matrilinear confronta a ascendência tipicamente patrilinear da China. Mesmo que saibam que são judeus, é difícil provar a sua ligação a Israel, para não mencionar que muitos nem sequer tinham consciência desta a ascendência e são indistinguíveis dos restantes chineses, de um ponto de vista físico e cultural 66 . 65 “吾国宗教由来最古。厥后,挟经到汴已有千余年。而七姓八家现存户口亦千有余人。况汴省为四通八达之地,人民知识日见文 明。若能将吾国宗教设法提倡,俾教经不致沦亡……”TdA. 66 Cf. “The Jews of Kaifeng: China’s Only Native Jewish Community” disponível em : https://www.myjewishlearning.com/article/the-jews-of-kaifeng-chinasonly-native-jewish-community/, consultado a 15 de junho de 2022. 27 Capítulo II Teoria de Assimilação Cultural 28 Neste capítulo reflete-se sobre a teoria de assimilação e aculturação, que servirá como uma base para a compreensão do nosso alvo da análise, i.e., o fenómeno da existência da comunidade judaica na China. Existe alguma ambiguidade na escolha e na utilização das duas terminologias, pelo que hesitámos na escolha da mais adequada para o nosso estudo. No Dicionário Técnico de Psicologia , de Álvaro Cabral e Eva Nick, assimilação é definida “um processo pelo qual pessoas e grupos adquirem as características sociopsicológicas de outras pessoas ou grupos, incorporando-as numa vida cultural comum” (p. 32), enquanto a aculturação “diz respeito ao processo de aquisição, por contacto, dos elementos culturais de um povo de certa cultura pelo povo de outra cultura” (p. 12). Será pertinente investigarmos estes dois conceitos. 2.1 Assimilação e aculturação Os termos assimilação e aculturação têm sido utilizados para descrever o processo ou resultado de diferentes comunidades culturais que vivem juntas. Assimilação e aculturação definem-se de forma diferente e, em alguns casos, de forma deficiente, nos campos da sociologia e da antropologia. O famoso sociólogo americano Milton Myron Gordon, conhecido pela teoria das Sete Etapas da Assimilação, documentou em detalhe, no seu livro Assimilation of American Lif e, as diferentes definições de assimilação e aculturação por diferentes teóricos, que se apresentam de forma resumida abaixo. 2.1.1 Aculturação Em meados da década de 1930, os antropólogos do Conselho de Investigação em Ciências Sociais 67 definiram aculturação como segue: A aculturação inclui o fenómeno da mudança dos padrões culturais de duas ou mais partes, como resultado do contacto sustentado e direto entre comunidades com culturas diferentes 68 . (Gordon, 1964, p. 61) 67 The Social Science Research Council (SSRC) é uma organização internacional sem fins lucrativos, independente e com sede nos EUA, dedicada ao avanço da investigação nas ciências sociais e disciplinas afins. Cf. “ The Social Science Research Council ” Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Social_Science_Research_Council, consultado a 29 de junho de 2022. 68 “Acculturation comprehends those phenomena which result when groups of individuals having different cultures come into continuous first-hand contact, with subsequent changes in the original cultural patterns of either or both groups.” TdA. 29 Em contacto, a cultura de qualquer dos grupos pode mudar, ou pode haver um cruzamento de influências entre as duas comunidades, resultando numa mudança na cultura de ambas (p. 62). Embora o termo "aculturação" seja frequentemente utilizado para descrever minorias étnicas ou imigrantes, este processo também tem lugar dentro do grupo cultural dominante. Embora uma pessoa da minoria étnica comece a falar e a agir como uma pessoa da cultura dominante, pode manter alguns dos seus costumes, tradições e crenças originais. Ou seja, quando um imigrante chinês mora nos Estados Unidos, apreende características da cultura americana, tais como a língua inglesa, padrões de pensamento, comida, etc., mas algumas características estrangeiras também se transferem da cultura minoritária para a maioritária, por exemplo, os americanos aprendem a comer crepes chineses com pauzinhos. 2.1.2 Assimilação Uma definição influente de “assimilação” é atribuída aos sociólogos Robert E. Park e Ernest W. Burgess 69 : Assimilação é um processo de interpenetração e fusão em que pessoas e comunidades adquirem as memórias, sentimentos e atitudes de outras pessoas ou comunidades, e, ao partilhar a sua experiência e história, são incorporados com eles numa vida cultural comum 70 . (Gordon, 1964, p. 62) A primeira metade desta definição inclui de forma clara, o conceito de aculturação, tal como definido anteriormente. Mas a segunda metade mostra que a assimilação resulta na integração completa de um grupo na sociedade de acolhimento e numa vida cultural partilhada com esta. Park acrescenta, na Encyclopedia of the Social Sciences : Comunidade de pessoas com diferentes origens étnicas e tradições culturais, ocupando um território comum, adquirem uma coerência cultural que é suficiente para sustentar pelo 69 Robert Ezra Park (1864-1944) foi um sociólogo urbano americano, considerado como uma das figuras mais influentes na sociologia dos Estados Unidos da América. Ernest Watson Burgess (1886-1966) foi um sociólogo urbano canadiano-americano que serviu como 24º Presidente da Associação de Sociologia Americana (ASA). NdA. 70 “Assimilation is a process of interpenetration and fusion in which persons and groups acquire the memories, sentiments, and attitudes of other persons or groups, and, by sharing their experience and history, are incorporated with the common cultural life.” TdA. 30 menos a existência de um povo. Este processo é conhecido como assimilação 71 . (Gordon, 1964, p. 63) No contexto do presente trabalho, a assimilação pode ser definida como a absorção cultural por uma minoria, pois este termo é principalmente utilizado para descrever imigrantes ou minorias étnicas. Aqui, a cultura minoritária ou o grupo absorvido pela cultura dominante perde a sua identidade cultural em termos de língua e tradições. Quando uma pessoa de um grupo minoritário é indistinguível dos outros, estamos perante uma assimilação completa, que pode resultar de um processo espontâneo ou forçado, tendo como consequência que a cultura original é substituída por uma nova cultura. 2.2 A teoria clássica de Milton M. Gordon sobre as sete etapas de assimilação No livro Assimilation in American Life, publicado em 1964, Gordon postulou várias etapas que se seguem à aquisição da cultura e da língua. Primeiro surge a assimilação estrutural (relações sociais intensas com a sociedade de acolhimento), seguida de casamentos em grande escala; a identificação étnica; e o fim do preconceito, da discriminação e do conflito de valores. Nas páginas 69-71 daquela obra, Gordon desenvolve um cenário abstrato, criando um “tipo ideal” 72 . No seu pressuposto, Sylvania é um país anfitrião com as mesmas origens étnicas, religiosas e ancestrais. O comportamento cultural de Sylvanian é relativamente homogéneo, exceto no que diz respeito às diferenças internas de classe social, tal como acontecia no contexto da China antiga 73 . O autor também presumiu um grupo fictício com uma origem étnica, religião e padrão cultural diferente da população anfitriã, os “Mundovians”. Agora suponha-se que, após uma geração, este grupo de pessoas, originalmente Mundovian (agora composto principalmente pela segunda geração nascida no país anfitrião), abraçou plenamente os padrões culturais Sylvanian e perdeu qualquer sentido de pertença à sua comunidade original. A sua religião tornou-se a religião Sylvanian, adotou uma atitude evasiva para com qualquer organização 71 “The name given to the process or processes by which peoples of diverse racial origins and different cultural heritages, occupying a common territory, achieve a cultural solidarity sufficient at least to sustain a national existence.” TdA. 72 O tipo ideal é um modelo abstrato criado por Max Weber (1864-1920) que, quando utilizado como padrão de comparação, nos permite ver aspetos do mundo real de uma forma mais clara e sistemática. É um ideal construído utilizado para aproximar a realidade, selecionando e acentuando certos elementos. Cf. “What Is an Ideal Type?” disponível em: https://www.thoughtco.com/what-is-an-ideal-type-3026354, consultado a 27 de junho de 2022. 73 Embora a China antiga tivesse múltiplas religiões e diferentes origens ancestrais em Xinjiang, o comportamento cultural padrão dos tipos na Planície Central da China antiga era relativamente consistente. NdA. 37 3.2.3 Influência do Confucionismo, Islamismo e de outras religiões A China antiga era uma sociedade relativamente tolerante, com o Confucionismo, o Taoismo, o Budismo e a cultura popular a moldarem uma cultura única. O Confucionismo esteve sempre no centro da cultura chinesa. Em algumas regiões, incluindo a província de Henan (onde fica Kaifeng), a etnia Hui professava o islamismo, enquanto o Taoismo, religião nativa, era tão prevalecente na China antiga que até imperadores foram outrora crentes. Sem esquecer o Budismo, que foi sempre uma religião muito influente. As várias religiões não existiam isoladamente, pelo contrário, partilhavam doutrinas semelhantes e comunicavam entre si, o que significa que os judeus em Kaifeng foram influenciados por este contexto positivo, do ponto de vista social, que contribuiu para a sua assimilação total. Influência do Confucionismo O Confucionismo, enquanto corrente filosófico-ética, tem dominado a cultura chinesa desde há milhares de anos. Por outras palavras, a tradição confucionista detém uma posição dominante na educação moral, ideologia política e ética social da China, apesar de já não ser reconhecido como a ortodoxia oficial. De facto, o Confucionismo parece preencher a necessidade chinesa de uma referência espiritual e é encarado, ainda hoje, como um património histórico e cultural da China. Fundado pelo sábio e filósofo chinês Confúcio (孔子, K ǒ ngz ǐ, 551 a.C. - 479 a.C.), o Confucionismo está centrado na benevolência, perdão, sinceridade e piedade filial, com ênfase na virtude e educação. Diferente das religiões, não possui instituições ou organizações separadas, o que facilitou a sua influência em todos os aspetos da sociedade chinesa. Os judeus também foram, inevitavelmente, influenciados pela ética confucionista, tal como aconteceu, de resto, com o Budismo. O impulso mais fundamental para a assimilação dos judeus em Kaifeng veio de uma mudança de ideologia dentro da comunidade judaica, nomeadamente a diluição gradual das crenças judaicas e uma identificação mais profunda com o confucionismo, o processo de confucionização do judaísmo que foi o processo da assimilação dos judeus em Kaifeng. 86 (Q. Zhang, 2007, p. 109). 86 “开封犹太人同化的最根本动力来自犹太社团内部思想观念上的转变,即 犹太人对犹太教信仰的逐步淡化和对儒教的深层次认 同,犹太教的儒化过程正是开封犹 太人的同化过程。” TdA. 38 Embora a comunidade judaica em Kaifeng tenha mantido a fé até ao século XVII, a sua confucionização iniciada durante a dinastia Ming, no século XV (Q. Zhang, 2007, p. 114), conduziu à diluição gradual das crenças culturais. Muitos judeus passaram a falar chinês e foram alfabetizados com caracteres chineses. Uma vez que as escrituras judaicas nunca chegaram a ser traduzidas para o chinês, havia quem utilizasse conceitos do Confucionismo para explicar o Judaísmo, de modo a facilitar a compreensão dos crentes. Aos poucos, a compreensão do Confucionismo e o domínio da língua chinesa superaram o do Judaísmo e da língua hebraica. O centro da vida espiritual judaica, a Sinagoga de Kaifeng, refletiu também uma mudança de estilo para se adequar ao Confucionismo tradicional. O estilo arquitetónico da Sinagoga de Kaifeng passou a diferir do da sinagoga ocidental, tornando-se um edifício próximo dos templos chineses, com pátios, pavilhões, salões, portões, etc. (Q. Zhang, 2007, p.117): cada reconstrução assumiu uma atmosfera mais confucionista. Foi mesmo erguida uma tábua em homenagem a um imperador Ming, e, na dinastia Qing, converteu-se no "Edifício do Dragão da Longevidade da dinastia Qing", onde a tábua de "Longevidade ao Imperador" foi consagrada. 39 Figura 18: Pátio da Sinagoga de Kaifeng 87 Em particular, no segundo ano da era Kangxi, foram acrescentados leões de pedra (石狮子, shí sh ī zi ) 88 , tradicionalmente utilizados à entrada para afastar os maus espíritos, sendo isso considerado superstição pela tradição judaica. Figura 19: Leão de Pedra 89 87 Disponível em: S. Zhang, 1990, p. 127. 88 Geralmente um par de estátuas colocadas de ambos os lados da entrada de um edifício. Um dos símbolos da cultura chinesa, acredita-se que guardam a casa e afastam o azar. NdA. 89 Disponível em: https://www.xuehua.us/a/5ec05a978fa072e4b7235394, consultado à 21 de novembro de 2022. 40 Um facto importante que contribuiu para a “confucionização” dos judeus em Kaifeng foi o elevado grau de semelhança entre o pensamento confucionista e o judeu, no que respeita às Cinco Relações (五 伦, w ǔ lún ) que caracterizaram o pensamento tradicional confucionista, como descrito na Lápide Hongzhi. Embora o confucionismo e a nossa religião sejam em grande parte iguais, as normas fundamentais e os comportamentos são semelhantes, também são o respeito pela natureza, o respeito pelos antepassados e pelo imperador, piedade filial, harmonização da família, observância da ordem de precedência, e amizade - estas são cinco relações humanas. 90 Para facilidade de compreensão, o primeiro judeu em Kaifeng que passou o exame imperial, Zuo Tang, resumiu a doutrina judaica na Lápide de Zhengde em termos muitos semelhantes à base do confucionismo, a saber, as Três Obrigações Fundamentais e Cinco Virtudes Constantes (三纲 五常, s ā ng ā ng w ǔ cháng ). Que ideias foram ditas serem ilustradas pelas escrituras? Geralmente é um resumo comum de verdades frequentemente transmitidas em tempos antigos e por antepassados. Assim, as grandes ideias são Três Obrigações Fundamentais e Cinco Virtudes Constantes, e as pequenas ideias são sobre as subtilezas das coisas, tudo-em-um, e não há momento que não seja assim, nenhuma verdade que não esteja incluída. (…) Embora as escrituras judaicas não sejam as mesmas que as do confucionismo, são as mesmas que o confucionismo nas suas teorias e nas verdades que pregam 91 . Estes registos não só mostram que os judeus em Kaifeng concordavam que havia elevado grau de semelhança entre o pensamento confucionista e judeu, e também provam o recurso ao Confucionismo para explicar a doutrina judaica, o que explica o seu grau de familiaridade com esta filosofia. 90 “其儒教与本教, 虽大同小异, 然其立心制行, 亦不过敬天道, 尊祖宗, 重君臣, 孝父母, 和妻子, 序尊卑, 交朋友, 而不外于五伦矣 。 ”TdA. 91 “尝谓经以载道, 道者何 ?日用常行古今人所共由之理也。 故大而三纲五常, 小而事物细微, 无物不有, 无时不然, 莫匪道之所寓。 (…) 然教是经文字, 虽与儒书字异, 而揆厥其理, 亦有常行之道, 以其同也。 ” TdA. 41 A tolerância confucionista contribuiu para a assimilação do Judaísmo, na medida em que não há rabino ou papa para interpretar as regras, não há rituais ou códigos de conduta rigorosos e nenhuma sensibilização esmagadora para a identidade e sistema de aparências externas, sendo até que muitas pessoas nem sequer consideram o Confucionismo uma religião (Tian, 2010, p.21). Neste contexto, os judeus chineses aceitaram despreocupadamente, e em elevado grau, o Confucionismo. Esta tolerância pressupôs vantagens, permitiu a sua rápida integração na sociedade chinesa e a eliminação de preconceitos que pudessem ter sido causados por diferenças culturais ou ideológicas. E desvantagens, nomeadamente o abandono da sua própria essência cultural e perda de diversidade. Por último, o sistema de exame imperial contribuiu para uma atmosfera de aprendizagem do Confucionismo, especialmente entre a classe intelectual, que proporcionou condições para a assimilação gradual dos judeus em Kaifeng, razão importante que será esmiuçada na alínea 3.2.4. Influência do Islamismo Como mencionado anteriormente, os judeus em Kaifeng eram conhecidos como os “muçulmanos com chapéu azul”, sendo evidente que eram frequentemente conotados e confundidos com o povo de etnia Hui, não só devido a semelhanças com os muçulmanos em termos de alimentação, vestuário e rituais de oração, como à designação em chinês do local de oração como "mesquita" em vez de “sinagoga”, como já foi referido. A Lápide de Hongzhi chama à sinagoga de “mesquita”, enquanto a Lápide de Zhengde a alterou para “Registo do Templo do Sagrado Clássico do Taoismo”, de modo que o nome “mesquita” já estava a ser usado para o templo muçulmano. Isto indica um esforço para enfatizar a identidade dos judeus. No entanto, no segundo ano da era Kangxi, a sinagoga foi também chamada "mesquita", o que parece indicar que os judeus tinham finalmente aceite o facto de que os chineses nativos não podiam distinguir Judaísmo do Islamismo e tinham de aceitar mesquita, enquanto nome mais familiar para os chineses Han. 92 92 “弘治碑称犹太会堂为“清真寺”,正德碑则改“尊崇道经寺”,因此时回教寺已用“清真寺”之名,表明犹太人强调自己身份的努力。 但是康熙二年碑又称“清真寺”,似乎表明犹太人终于入乡随俗,接受了当地汉人分不清回教与犹太教之间差异的事实,不得已接 受了汉人比较熟悉的清真寺这一称呼。” TdA. Disponível em: https://m.thepaper.cn/wifiKey_detail.jsp?contid=5600427&from=wifiKey#, consultado a 26 de agosto de 2022. 42 Embora o Judaísmo e o Islamismo possuam semelhanças, o último tem influenciado fortemente a sociedade chinesa, o que não acontece com o Judaísmo. Em Henan, a terceira maior província em termos de população da etnia Hui, registou-se confusão entre os Han, que confundiram os judeus com os membros daquela etnia. O Islamismo e o Judaísmo têm as mesmas origens, mas desenvolveram-se de forma diferente. O Judaísmo desenvolveu-se muito mais cedo do que o Islamismo. Após a ascensão do Islamismo, os descendentes do Judaísmo foram muitas vezes subjugados. 93 (Q. Zhang et al., 2011, p. 132). Em seguida, assinalaram que quando a comunidade judaica diminuiu, uma parte da comunidade de Kaifeng optou por se casar com muçulmanos chineses, sendo gradualmente assimilados pela etnia Hui. Mais tarde houve homens judeus que se casaram com muçulmanas, a comunidade judaica diminuiu gradualmente e durante muito tempo não houve nenhum rabino encarregue de recitar orações pelo povo judeu. Era uma tendência inevitável para os judeus se juntarem aos muçulmanos, mas no final o Judaísmo e o Islamismo não conseguiram integrar-se um com o outro. 94 Influência do Nestorianismo O Judaísmo não só partilha práticas semelhantes com o Islamismo, como também tem muitas semelhanças com o Cristianismo, religião de si derivada do judaísmo. Aliás, o Antigo Testamento é reconhecido tanto pelo Cristianismo como pelo Judaísmo. A primeira seita cristã a entrar na China, o Nestorianismo, foi contemporâneo do Judaísmo na história chinesa. Para os chineses que não conhecem muito bem as religiões ocidentais, é fácil confundir os dois. No meio do fervor anti-religioso dos oficiais e do povo chinês durante a dinastia Qing, foi publicado o artigo "Registo Verdadeiro de Afastar os Maus Espíritos – Estudo do Culto Católico no País (《辟邪纪实-天主邪教入国考略》, bìxié jìshí - ti ā nzh ǔ xiéjiào rùguó k ǎ olüè )". Neste artigo, o autor criticava veementemente as religiões ocidentais que se propagavam na China, chamando-lhes cultos e referindo-se aos missionários Matteo 93 “回教与一锡乐业教同源而流异。一锡乐业之为教远在回教之前。回教兴后,一锡乐业子孙乃屡被征服。”TdA. 94 “晚近有娶回人女者。族姓日就式微,久无掌教满喇,为之诵经祈祷,投入回教,在所不免,然究与回教不相容也” TdA. 43 Ricci e Xu Guangqi (徐光启, xúgu ā ngq ǐ, 1562-1633) como "bárbaros", usando palavras exageradas e fabricando histórias. No texto, o autor não distingue claramente entre o Catolicismo, Nestorianismo e Judaísmo, e em várias passagens, entra em conflito com as três religiões. Li todos os livros do culto católico, um a um, e eles afirmam que chegou à China na dinastia Han. (…) Um grupo desorganizado dos judeus prestou homenagem de tecido de cinco cores e de algodão de cinco cores no primeiro ano da dinastia Song na era de Long Xing ( 隆兴, lóng x ī ng , 1163-1164 ). Desta forma, vieram para conspirar com os ladrões e interferir nos assuntos chineses (…) Vieram do ocidente e mais tarde mudaram o seu nome para “a religião da recusa dos tendões” (…) e forjaram a Lápide Nestoriana de Xi’an 95 . 96 (L. Zhang, 2005, p. 13) Ao relatar a tentativa da venda da lápide pelos judaicos à Santa Igreja Católica na China, lê-se num relatório: Há duas lápides de pedra a oeste da Escritura do Hutong do Sagrado Clássico na cidade de Kaifeng (…) provavelmente porque já foi habitada por judeus. No início da era de Zhenguan da dinastia Tang, os judeus entraram na China e diz-se que tomaram esta terra emprestada para construírem uma sinagoga para ensinarem as escrituras e difundirem a sua religião, a Igreja Nestoriana da dinastia Tang, agora conhecida como cristianismo. 97 95 Lápide Nestoriana de Xi’an (《景教大流行中国碑》, j ǐ ngjiào dàliúxíng zh ō ngguó b ē i ) é um monumento de pedra que descreve a propagação do Nestorianismo durante a dinastia Tang, hoje no Museu de Xi'an. Esta tábua de pedra fala de um missionário da antiga Pérsia chamado Alopen que visitou o imperador Taizong da dinastia Tang e pediu para espalhar Cristianismo na China. A inscrição também cita numerosos clássicos do Confucionismo, Budismo e Taoísmo e alude a livros de história chinesa para ilustrar os ensinamentos do Nestorianismo, narrando a queda da humanidade, o nascimento do Messias e os feitos do Salvador. TdA. 96 “历考天主邪教诸书,谓其教自汉以来已入中国(…)犹太国乌合利之党,于宋隆兴元年贡五色棉、五色布,借此勾结匪徒,插足 中国。(…) 因乌合利初从北天竺来后改名挑筋。妖书云:耶和华击伤雅各髀后,犹太人是肉必挑去髀筋,因以明教。(…)且伪造 大秦景教流行中国碑.”TdA. 97 “城内教经胡同西首,向有碣石二方……盖缘该处昔为犹太人,于唐贞观初,始入中国、相传即假此地建靠寺院,授经传教,即 唐朝之景教,今日之基督教。”TdA. 44 Figura 20: Lápide do nestorianismo popular na China da dinastia Qin (秦朝, qíncháo , 221 a. C. – 207 a.C.) (Lápide de Nestoriana de Xi’an) 98 Um outro artigo publicado no Ta Kung Pao intitulado "O problema do roubo e venda da lápide nestoriana de Kaifeng", relacionava o local e o tempo com os judeus em Kaifeng, no entanto chamavalhe os nestorianos. Influência de outras religiões Durante o processo de assimilação dos judeus em Kaifeng, os termos religiosos foram influenciados pelo Budismo chinês e pelo Taoismo. A fim de o distinguir da etnia Hui, a Lápide de Zhengde descreve a sinagoga como “Templo Daojing”, nome com uma forte conotação taoista. Expressões taoistas como Dao (道, dào ) 99 e Tianzhen (天真, ti ā nzh ē n ) 100 e as palavras Wuxiang 101 (无相, wúxiàng ) e Gucha 102 (古 刹, g ǔ chà ), típicas do Budismo, também surgem em inscrições e placas. 3.2.4 Exames imperiais O modelo de exame imperial sustentou o sistema político na China antiga, registando um enorme impacto na sociedade e na cultura. A seleção de talentos evoluiu de sistemas hereditários para um modelo baseado em capacidades e conhecimentos adquiridos através de muitos anos de estudo. Isto conduziu 98 Disponível em: https://new.qq.com/rain/a/20220303A02ZUR00, consultado a 25 de janeiro de 2023. 99 Tao , “caminho”, é o princípio fundamental do taoismo filosófico e religioso, fundado por Lao Zi. NdA. 100 Tianzhen é uma palavra comummente usada no Taoismo para descrever uma personagem que não está ligada por rituais ou costumes e que não é confundida pelas aparências. NdA. 101 Wuxiang é o primeiro conceito taoista chinês, mais tarde amplamente utilizado pelo Budismo, para se referir à ausência de forma, imagem ou conceito específico. NdA. 102 Termo budista para se referir aos templos antigos. NdA. 45 à criação de uma classe de elite (士大夫, shìdàf ū) constituída por pessoas selecionadas por exame, independentemente da sua origem social. O exame imperial começou a ser adotado por volta do ano 605, durante a dinastia Sui (隋朝, suícháo , 581-619), desenvolvendo-se e assumindo uma forma sistematizada durante a dinastia Tang, até ser abolido em 1905, no fim da dinastia Qing 103 . Os clássicos confucionistas eram parte integrante do conhecimento a dominar para os exames imperiais chineses, o que lhes conferiu um elevado estatuto na sociedade e contribuiu para um fenómeno em que todos os conhecedores da China antiga reverenciavam as doutrinas do Confucionismo. Os Quatro Livros e Cinco Clássicos (四书五经, Sìsh ū W ǔ j ī ng ) 104 e outras obras confucionistas, tornaram-se familiares entre os sábios chineses, passados e reproduzidos em grande parte graças ao sistema de exames imperiais. Durante 1300 anos, os exames utilizaram o domínio e compreensão dos clássicos confucionistas para selecionar talentos, promovendo, por esta via, o desenvolvimento do Confucionismo e tornando a China antiga uma sociedade confucionista (Liu, 2009, p. 7). Figura 21: Exame Imperial no Palácio em Kaifeng, durante a dinastia Song 105 Aos que ocupavam um lugar de destaque nos exames imperiais eram concedidos títulos e posições oficiais, para além de concessão de propriedade e bens imóveis pelo imperador, isenção da servidão e de castigos corporais. Todos estes privilégios os colocavam no topo da estrutura sociopolítica 103 Cf. “中国的科举制度”. Disponível em: https://zh.m.wikipedia.org/zhhans/%E4%B8%AD%E5%9B%BD%E7%A7%91%E4%B8%BE%E5%88%B6%E5%BA%A6, consultado a 25 de julho de 2022. 104 Os Quatro Livros e os Cinco Clássicos foram escritos antes de 300 a.C. e são considerados os clássicos mais importantes do confucionismo chinês. 105 Disponível em: https://zh.wikipedia.org/wiki/%E7%A7%91%E4%B8%BE#/media/File:Palastexamen-SongDynastie.jpg, consultado a 22 de dezembro de 2022. 46 da sociedade chinesa. Por outras palavras, passar no exame imperial na China era uma forma eficaz de se tornar um funcionário oficial, famoso e rico (Song, 1973, p.119). Devido à enfâse na agricultura (重农抑商, zhòngnóng yìsh ā ng ) 106 , muitos judeus abandonaram gradualmente os negócios, para passarem a estudar os clássicos confucionistas e fazerem os exames imperiais, com o objetivo de garantir a sua ascensão social. Os descendentes (judeus) foram em grande parte assimilados pela etnia Han nas dinastias Yuan e Ming e tornaram-se proficientes no Confucionismo. Houve alguns judeus que passaram no exame imperial de literatura e força. Assim, eles tinham dinheiro para construir sinagogas para guardar as suas escrituras. 107 (Q. Zhang et al., 2011, p. 157) O sociólogo britânico Barão Parekh 108 defende, no seu artigo Unity and Diversity in Multicultural Societies , na assimilação, " Se querem ser aceites como cidadãos plenos e iguais, devem assimilar-se na cultura local e mostrar lealdade exclusiva e indivisível ao seu país de estabelecimento ” (p. 5) 109 . Foi isto que se verificou com os judeus chineses. A aproximação ao Confucionismo transformou-os em cidadãos chineses. A melhor maneira de mostrarem a sua lealdade ao país anfitrião era participarem nos exames imperiais, tornando-se funcionários da corte e servindo o imperador. Em finais do século XVII, pelo menos onze judeus passaram no exame metropolitano 110 e outros sete no exame nacional (Song, 1973, p. 120). Mesmo na dinastia Qing, podiam tornar-se funcionários importantes por via destes exames. Zuo Tang terá sido o primeiro judeu a passar no exame nacional, participando na inscrição do Registo do Templo do Sagrado Clássico do Taoismo 111 . Zhao Chengji (赵承基, zhàochéngj ī), o judeu de Kaifeng que alcançou o mais alto nível burocrático até à data, financiou a construção de uma sinagoga em 1679. Foi membro do exército chinês e liderou as tropas estacionadas em Kaifeng, o que é revelador da confiança imperial 112 . 106 O princípio económico orientador para enfatizar a agricultura foi restringir o comércio, aplicado por sucessivas dinastias chinesas. NdA. 107 “盖其子姓至元明是已沐汉化,通儒学,由文武科登仕版者,而非一二人;故能出囊金,建寺宇而储遗经” TdA. 108 Bhikhu Chotalal Parekh (1935-) é um teórico político e académico britânico. NdA. 109 “If they want to be accepted as full and equal citizens, they should assimilate into the national culture and show exclusive and undivided loyalty to their country of settlement.” TdA. 110 Os exames imperiais eram feitos em quatro níveis: local, provincial, metropolitano e nacional. Cf. “Exames Imperiais”, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Exames_imperiais, consultado a 17 de setembro de 2022. 111 Cf. “Zuo Tang foi o primeiro judeu a passar o exame imperial” https://www.sohu.com/a/404092382_241009, consultado a 2 de agosto de 2022. 112 Disponível em: http://m.qulishi.com/news/201605/103314.html, consultado a 12 de setembro de 2022. 53 O presente estudo tentou a ensaiar uma melhor compreensão da história e dos costumes dos judeus em Kaifeng. O Judaísmo era conhecido na China antiga como “religião de Yicileye”, manifestando características semelhantes às do Cristianismo e o Islamismo. Por exemplo, a primeira parte da Bíblia judaica é conhecida no cristianismo como Antigo Testamento. Tal como os muçulmanos, a comunidade judaica tem regras alimentares que a proíbem de comer carne de porco. O povo judeu passou por cinco grandes diásporas, durante a segunda vaga. Algumas famílias judias chegaram a Kaifeng, capital da dinastia Song, através da Rota da Seda. Esta dinastia proporcionou-lhes um ambiente social muito descontraído, que lhes permitiu viverem e integrarem-se até é que a comunidade judaica em Kaifeng começou a declinar na dinastia Qing. Por volta do século XVI, o missionário italiano Matteo Ricci redescobriu os judeus em Kaifeng, abrindo a porta no Ocidente para o estudo da judiaria chinesa. A permanência e desenvolvimento da comunidade judaica em Kaifeng, bem como a sua assimilação na sociedade chinesa, apresentam um fenómeno de uma cultura estrangeira gradualmente assimilada pela cultura chinesa. Para compreender melhor o seu processo e as suas causas, sobretudo para esclarecer alguns conceitos sobre este fenómeno, mais concretamente, sobre as semelhanças e diferenças entre assimilação e aculturação nos contactos próximos de duas culturas, utilizou-se uma perspetiva sociológica baseada na teoria da assimilação em sete etapas de Gordon. Com o apoio em fontes disponíveis, analisou-se em pormenor as causas específicas para a assimilação dos judeus chineses. Em primeiro lugar, identificaram-se as frequentes inundações que destruíram repetidamente a sinagoga, centro espiritual e símbolo da identidade dos judeus. A cada reconstrução, acrescentou-se um toque mais chinês. Os bloqueios terrestres e marítimos ao exterior, durante as dinastias Ming e Qing, impediram o contacto com outras comunidades judaicas, pelo que a influência do Judaísmo foi diminuindo gradualmente. Um contexto social tolerante permitiu que os judeus se integrassem na sociedade chinesa sem entraves, sob influência do Confucionismo. Os exames imperiais, baseados nos clássicos confucionistas, e os seus resultados, influenciaram o trajeto social de muitos judeus, incentivando a literacia em caracteres chineses e a cultura confucionista. Isto contribuiu diretamente para o abandono da cultura judaica e da língua hebraica. Para além disso, outras religiões como o Islamismo, Budismo e Taoísmo influenciaram a comunidade judaica em Kaifeng e os casamentos mistos diluíram ainda mais a identidade. 54 À luz de teorias sociológicas de assimilação, os judeus de Kaifeng integraram-se na sociedade chinesa através de: 1. domínio da língua (falavam chinês e dominavam os caracteres chineses); 2. convivência socioeconómica (os judeus em Kaifeng faziam negócios e trabalhavam na corte chinesa); 3. aliança de conúbio (casamentos mistos em grande escala); 4. aceitação de normas de comportamento social (eram leais ao imperador e estudavam o Confucionismo); 5. reconhecimento e localização pelo sistema político (o imperador não foi preconceituoso em relação aos judeus e até lhes atribuiu importantes funções militares); 6. reconhecimento cívico (não existem registos históricos de discriminação contra os judeus em Kaifeng) e 7. harmonização com a população local (nunca se registaram quaisquer conflitos de valores ou lutas pelo poder e, gradualmente, alcançaram a cidadania). Importa, contudo, referir que o modelo sociológico de assimilação, influenciado por expoentes da Escola de Chicago 119 como Robert Ezra Park e Milton Gordon, que prevaleceu como paradigma durante largos anos, foi bastante contestado pelos académicos nas décadas mais recentes (Sasaki & Assis, 2000). Ao longo da realização deste trabalho, sentimos limitações, designadamente na preparação científica mais ligada às áreas da sociologia, necessária para uma abordagem tecnicamente proficiente e metodológica. Mas, na realidade, enquanto aluna do Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês, o foco deste trabalho não podia ir muito além das questões interculturais. Constituiu, sem dúvida, um processo de aprofundamento dos meus conhecimentos académicos, no que diz respeito à utilização autónoma da língua portuguesa, quer na redação, quer na tradução de informação e na reflexão sobre a mesma. A impossibilidade de realizar estudos de campo, visitas a Kaifeng, consulta in situ de arquivos ou até entrevistas a descendentes de judeus, num período em que a China implementou uma política de Covid Zero, limitou as fontes utilizadas nesta dissertação. Para além disso, não permitiu analisar eventuais influências da comunidade judaica na sociedade de acolhimento, se estas ainda existem. Pela mesma razão, este trabalho deixa uma abertura para futuras investigações, num contexto mais aprofundado de estudos académicos e, eventualmente, ancorado em diferentes correntes sociológicas, 119 As análises sociológicas desta corrente centravam-se nos processos de adaptação, aculturação e assimilação dos grupos imigrantes na sociedade americana, país que acolheu milhões de estrangeiros desde a sua fundação. Uma das críticas frequentes ao modelo assimilacionista reside no facto de este ser sobretudo visto como um processo unilateral. Para além disso, alguns teóricos defendem que não existe um “grupo uniforme e dominante ao qual os imigrantes devam assimilar-se, que o processo de integração é plural e afetado por diversos fatores e contextos” (Ferreira, 2021, p. 5). 55 já que a história dos judeus de Kaifeng constitui uma amostra muito interessante, para averiguar as formas de convívio e fusão de diferentes culturas. Seria também aliciante fazer uma análise comparativa em relação a outras pequenas comunidades judaicas, que, mesmo em contextos menos favoráveis, conseguiram “desenvolver estratégias para não se assimilarem e garantir a manutenção de suas fronteiras identitárias”, apesar de projetos políticos que “previam a assimilação de todos os imigrantes como condição para a construção da identidade nacional” (Lima, 2004, pp. 2, 18) 120 . 120 Esta autora tem investigado a presença de comunidades judaicas no Brasil, em particular no estado do Pernambuco, que prosperou mesmo durante a chamada “era Vargas” (1930/40), quando existiam “medidas de controlo, censura e vigilância” dirigidas àquela comunidade (Lima, 2004). 56 Bibliografia 57 Anônimo. (1919, 30. Maio). O Judaísmo está prestes a ser ressuscitado, 犹太教行将复活, yóutài jiào xíng jiāng fùhuó. Jornal de Ta Ku Pao . Disponível em: file:///Users/jingwenniu/Documents/%E7%A0%94%E7%A9%B6%E7%94%9F%E8%AE%BA%E6 %96%87/%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E4%BA%BA/%E5%BC%80%E5%B0%81%E7%8A%B9%E5%A 4%AA%E4%BA%BA%E5%90%8C%E5%8C%96/%E4%B8%AD%E6%96%87%E6%96%87%E7%8C% AE/%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E6%95%99%E8%A1%8C%E5%B0%86%E5%A4%8D%E6%B4%BB. pdf Cabral, Á. & Nick, E. (2013). Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo: Editora Cultrix. Disponível em: https://books.google.pt/books?id=lfFpKryM8VMC&pg=PA32&redir_esc=y&hl=ptPT#v=onepage&q&f=false Carvalho, T. (2020). A Revista Nova Juventude e os Experimentalistas da Literatura Moderna Chinesa . Universidade de Lisboa. Dissertação de mestrado. Disponível em: https://www.proquest.com/openview/5af1ec4930028d0385aa7034d896c043/1?cbl=202 6366&diss=y&pq-origsite=gscholar Castro, M. G. (2019). Judeus por Escolha: um fenômeno de reconfiguração identitária? A ARI do Rio de Janeiro (2006-2016) . Universidade de São Paulo. Dissertação de mestrado. Dehergne, J. & Leslie, D. D. (2005). Judeus na China . 中国的犹太人, zh ō ngguó de yóutàirén. (Geng Sheng Tradução). Zhengzhou: Impressa de Elefantes. (Trabalho original publicado em 1984). Feng, E. (冯尔康) (2019). Clãs Antigos e Histórica de Estrutura Social,古代宗族与社会结构史, g ǔ dài z ō ngzú y ǔ shèhuì jiégòush ǐ. Tianjin: Impressa de Renmin de Tianjin Ferreira, N. G. (2021). O modelo de integração de imigrantes no Brasil: uma análise comparativa . Universidade de Lisboa. Dissertação de mestrado. Gordon, M. M. (1964). Assimilação na Vida Americana - O Papel da Raça, da Religião e das Origens Nacionais . Nova Iorque: Impressa da Universidade de Oxford. Gu, J. (顾俊杰) (1991). “Sobre as razões para a integração dos judeus em Kaifeng, China: Uma comparação com a Assimilação dos Judeus na Europa, 论中国开封犹太人被融合的原 因—兼与欧洲犹太人同化问题的比较, lùn zhōngguó kāifēng yóutàirén bèi rónghé de yuányīn — jiān yǔ ōuzhōu yóutàirén tónghuà wèntí de bǐjiào”. Revista da Universidade de Tongji , 2 (2), 57–63. Lima, I. A. (2004). Negociando Identidades. Os fatores políticos e a re-significação da identidade judaica – O caso da comunidade judaica do Pernambuco . Recife: Universidade Federal do Pernambuco. Dissertação de mestrado. Liu, H. (2009). (刘海峰) O Desenvolvimento e Multiplicação do Imperial exame Imperial e confucionismo, 科举制与儒学的传承繁衍, k ē j ǔ zhì y ǔ rúxué de chuánchéng fány ǎ n . Revista da Universidade de Geociências da China (Edição de Ciências Sociais) , 9 (1). 58 Ma, F. & Ding, Y. (马锋&丁雨婷) (2014). “A questão da quiromancia na assimilação dos judeus de Kaifeng, 开封犹太人被同化过程中的掌教问题, kāifēng yóutàirén bèi tónghuà guòchéng zhōng de zhǎngjiào wèntí”. Hanjiang Periódico Académico, 33(5), 122–128. Meng, Y. (孟元老) (2016). A Capital do Leste: Um Sonho de Esplendor,东京梦华录, d ō ngj ī ng mènghuálù (Wang Ying Trad.& Anot.). Pequim: Imprensa pictórica da China. (Trabalho original publicado em 1187). Ouyang, Z. (欧阳哲生) (2018). Pequim Antiga e a Civilização Ocidental,古代北京与西方文明, g ǔ dài b ě ij ī ng y ǔ x ī f ā ng wénmíng (Vol.1). Pequim: Impressa da Universidade de Pequim. Disponível em: https://books.google.pt/books/about/%E5%8F%A4%E4%BB%A3%E5%8C%97%E4%BA%AC%E 4%B8%8E%E8%A5%BF%E6%96%B9%E6%96%87%E6%98%8E.html?id=fjVXEAAAQBAJ&printsec =frontcover&source=kp_read_button&hl=zh-CN&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false Perednik, G. (2010). “A complexidade da identidade sino-judaica”. Revista do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall , 2 (1), 57-74. Polo, M. (2001). As Viagens de Marco Polo, 马可波罗行纪, m ǎ k ě b ō luó xíngjì . (Feng Chengjun Trad.) Xangai: Grupo Editorial do Século. (Trabalho original publicado em 1299) Pontes Motta, B. (n.d.). As Missões Cristãs na “China Crucificada”: Impactos, Percepções e Reflexões no período Guangxu (1875-1908). Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/58254983/MOTTA__Bruno._As_Missoes_Cristas_n a_China_Crucificada-libre.pdf?1548387769=&response-contentdisposition=inline%3B+filename%3DAs_Missoes_Cristas_na_China_Crucificada.pdf&Expires =1674606803&Signature=bZg2qMtKENb5hF7-fF7mqDaW6R2wk-ouI2HvF06z83EhRR5ZYC~cZF999COAwkELyY7RukejK4d2wRrP4hnRhYxqoZ0S7I97LB3Yhxx0tznS6z7pnEVi9ALgbJKBAgigRch0l0MbAwilw~pmlHPyhyTqZaTr4RPvay90zK5 KZggqGt2~524J2svCGvIU0DKt8GVmPpmz~mVfVgmzhPMUuI1uN2kcly7TcF4WCPiQfC95Ya J6fg77ilnlkQJkTZKYlRm8dbrq5XVZkzDrdZW3ro~kf~tPx-VXbgYz~HAtgQT989Uu~m4xMFWOUicoKmlwuEq-Ijlns2RrWuphaag__&Key-PairId=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA Ricci, M. & Trigault, N. (2001). Diário da China de Matteo Ricci, 利玛窦中国札记, lìm ǎ dòu zh ō ngguó zhájì . (He Gaoji, Wang Zunzhong &Li Shen Trad.) Guilin: Impressa da Universidade Normal de Guangxi. (Trabalho original publicado em 1615) Ruan, X. (阮湘) (1924). Anuário da China,中国年鉴, zh ō ngguó niánjiàn . Xangai: Imprensa Comercial. Sasaki, E. M. & Assis, G.O. (2000). “Teorias das Migrações Internacionais”. XII Encontro Nacional da ABEP 2000. Disponível em: https://www.pucsp.br/projetocenarios/downloads/CDH/Teoria_das_Migracoes_Internacio nais.pdf 59 Song, N. ( 宋奈雷) (1973). “Assimilação judaica: O caso dos judeus chineses”. Estudos Comparativos na Sociedade e na História , 15 (1), 115-126. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0010417500006940 Tian, Y. (田园) (2010). “Um Estudo das Razões para a Assimilação dos Judeus em Kaifeng, 开封 犹太人被同化原因研究,kāifēng yóutài rén bèi tónghuà yuányīn yánjiū”. Revista Hua Zhang, 19 , 21, 26. Topel, M. F. (2015). “Terra Prometida, Exílio e Diáspora: apontamentos e reflexões sobre o caso judeu”. Horizontes Antropológicos , ano 21, nº 43, 331-352. Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas . (1984). Nova Iorque: Sentinela Bíblia e Sociedade de Tractos de Nova Iorque, INC. Truzzi, O. (2012), “Assimilação Ressignificada: Novas Interpretações de um Velho Conceito”, Dados – Revista de Ciências Sociais 55(2), Rio de Janeiro, 517-553. Wei, Q. (魏千志) (1995). “Contribuições históricas dos judeus na China Antiga, 中国古代犹太 人的历史贡献, zhōngguó gǔdài yóutàirén de lìshǐ gòngxiàn”. Revista Histórica Mensal, 3 , 23–29. Zhang, L. (张礼刚) (2005). Os Judeus Antigo em Kaifeng na Perspectiva Chinesa, 中国人视野 中的古代开封犹太人, zh ō ngguórén shìy ě zh ō ng de g ǔ dài k ā if ē ng yóutàirén . Universidade de Henan. Dissertação do mestrado. Zhang, Q. (张倩红) (1995a). “Um novo inquérito sobre as razões para a assimilação dos judeus em Kaifeng, China, 中國開封猶太人被同化的原因新探, zhōngguó kāifēng yóutàirén bèi tónghuà de yuányīn xīntàn”. Século XXI Jornal Académico da Universidade de Chinês de Hongkong, 21 , 108-115. Disponível em: https://www.cuhk.edu.hk/ics/21c/media/articles/c027-199401021.pdf Zhang, Q. (张倩红) (1995b). “Sobre as Razões para a Assimilação dos Judeus em Kaifeng na História, 论历史上开封犹太人被同化的原因, lùn lìshǐ shàng kāifēng yóutàirén bèi tónghuà de yuányīn”. Estudos Étnicos, 3 , 79-88. Zhang, Q. (张倩红) (1998). “Sinagoga histórica da Religião Kaifeng YiciLeye, 历史上的开封一 赐乐业教清真寺, lìshǐ shàng de kāifēng yīcìlèyè jiào qīngzhēnsì”. Revista Académica de Século XXI da Universidade de Chinês de Hongkong, 49 , 110-114. Zhang, Q. (张倩红) (2007). “Do Judaísmo ao Confucionismo: Um Estudo dos Factores Intrínsecos à Assimilação dos Judeus em Kaifeng, 从犹太教到儒教:开封犹太人 同化的内在因 素之研究, cóng yóutàijiào dào rújiào: kāifēng yóutàirén tónghuà de nèizài yīnsù zhī yánjiū”. Estudos Religiosos Mundiais , 1 , 109-124. Zhang, Q., Li, J., Zhang, L., Liu, B. & Zhao, G. (Eds.). (张倩红、李景文、张礼刚、刘百陆、 赵光贵) (2011). Antigos judeus em Kaifeng - Uma colecção de estudos e documentos 60 chineses, 古代开封犹太人-中文文献辑要与研究, g ǔ dài k ā if ē ng yóutàirén - zh ō ngwén wénxiàn jíyào y ǔ yánji ū. Pequim: Impressa de Renmin. Zhang, S. (张绥) (1990). O judaísmo e os judeus em Kaifeng da China, 犹太教与中国开封犹 太人, yóutàijiào y ǔ zh ō ngguó k ā if ē ng yóutàirén . Xangai: Livraria de Sanlian de Xangai. 61 Webgrafia: 1. Os Judeus que entraram na China: https://zh.wikipedia.org/wiki/%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E4%BA%BA#%E8%BF%9B%E5%85%A5%E4%B8 %20%AD%E5%9B%BD%E7%9A%84%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E4%BA%BA 2. Desenho de Sinagoga: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sinagoga 3. A primeira Páscoa Hebraica em duzentos anos: http://m.qulishi.com/news/201605/103314.html 4. Perfil da População Hui: https://www.neac.gov.cn/seac/ztzl/huiz/gk.shtml 5. 3 Cores de Qing : https://www.sohu.com/a/274265343_99904825 6. Religião, Rituais, Festas da Religião Yicileye : https://dfz.henan.gov.cn/sqsjk/zhishu/sxz/kfsz/kfszdlc/201211/t20121119_72618.htm 7. Comida Kosher: https://zh.wikipedia.org/zhcn/%E7%AC%A6%E5%90%88%E6%95%99%E8%A6%8F%E7%9A%84%E9%A3%9F%E7%89%A9_(%E7%8C%B 6%E5%A4%AA%E6%95%99) 8.Comida Halal: https://zh.wikipedia.org/wiki/%E7%AC%A6%E5%90%88%E6%95%99%E8%A6%8F%E7%9A%84%E9%A3%9 F%E7%89%A9_(%E4%BC%8A%E6%96%AF%E8%98%AD%E6%95%99) 9. Antissemitismo: https://zh.wikipedia.org/wiki/%E5%8F%8D%E7%8A%B9%E5%A4%AA%E4%B8%BB%E4%B9%89 10. Antissemitismo: https://www.myjewishlearning.com/article/the-jews-of-kaifeng-chinas-only-nativejewish-community/ 11. A comunidade dos judeus é matrilinear: https://www.myjewishlearning.com/article/the-jews-ofkaifeng-chinas-only-native-jewish-community 12. Marc Aurel Stein: https://en.wikipedia.org/wiki/Aurel_Stein 13. Nestorian Church: https://en.wikipedia.org/wiki/Church_of_the_East_in_China 14. O Monoteísmo: https://zh.m.wikipedia.org/zh-my/%E4%B8%80%E7%A5%9E%E8%AB%96_(%E5%AF%AB%E6%9C%AC) 15. Dandan Uiliq: https://zh.wikipedia.org/zhcn/%E4%B8%B9%E4%B8%B9%E4%B9%8C%E9%87%8C%E5%85%8B%E9%81%97%E5%9D%80 16. Paul Eugène Pelliot: https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Pelliot 17. Rota da Seda: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rota_da_Seda 62 18. Conteúdo do fragmento da carta: https://www.yangtse.com/zncontent/275701.html 19. Paul Eugène Pelliot: https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Pelliot 19. Presença dos Judeus nas cidades chinesas: https://www.yangtse.com/zncontent/275701.html 19. The Social Science Research Council : https://en.wikipedia.org/wiki/Social_Science_Research_Council 20. Tipo ideal de Max Weber: https://www.thoughtco.com/what-is-an-ideal-type-3026354 21. Bloqueio dos transportes terrestres e marítimos: https://zh.wikipedia.org/zh-sg/%E6%B5%B7%E7%A6%81#cite_note-1 22. A China tem sido um dos poucos países do mundo com praticamente nenhum anti-semitismo: https://www.myjewishlearning.com/article/the-jews-of-Kaifeng-chinas-only-native-jewish-community/ 22.Exame Imperial da China: https://zh.wikipedia.org/zhcn/%E4%B8%AD%E5%9B%BD%E7%A7%91%E4%B8%BE%E5%88%B6%E5%BA%A6 23. Quatro Livros e Cinco Clássicos: https://en.wikipedia.org/wiki/Four_Books_and_Five_Classics 24. Processo do exame imperial: https://pt.wikipedia.org/wiki/Exames_imperiais 25. Zuo Tang foi o primeiro judeu a passar o exame nacional e escreveu a lápide de Zhengde: https://www.sohu.com/a/404092382_241009 26. Famílias de boas posses selecionariam um genro entre os candidatos bem-sucedidos e casariam as suas filhas com ele: https://baike.baidu.com/item/%E6%A6%9C%E4%B8%8B%E6%8D%89%E5%A9%BF/10763393 27. Classe Elite: http://m.qulishi.com/news/201605/103314.html