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Serviços de carreira no ensino secundário: caracterização de necessidades e de respostas

Terroso, Gonçalo Nuno Melo da Silva Machado

Abstract

Os psicólogos escolares atuam no âmbito de uma escola ou agrupamento de escolas, com pais, professores, educadores e/ou outros profissionais, de modo a ajudarem os estudantes a obter sucesso escolar. Entre os serviços prestados, os serviços de carreira constituem um dos mais importantes. O objetivo principal deste estudo consistiu em caracterizar serviços de carreira em escolas secundárias portuguesas, na perspetiva dos seus clientes e profissionais. Participaram, respondendo a um inquérito, 173 estudantes universitários de ambos os sexos e 18 psicólogas escolares, de diferentes distritos do país. Os resultados indicam que a quase totalidade dos psicólogos fornece serviços de carreira nas suas escolas e mais de três tipos de intervenções diferentes. A maioria dos estudantes considera os serviços importantes, incluindo os que não tiveram acesso aos serviços na sua escola secundária. Discute-se como as necessidades de formação dos psicólogos podem influenciar a oferta de serviços, a importância atribuída aos serviços pelos participantes e como os profissionais e estudantes se relacionam com estes.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Gonçalo Nuno Melo da Silva Machado Terroso Serviços de Carreira no Ensino Secundário: Caracterização de Necessidades e de Respostas Outubro 2021 Serviços de Carreira no Ensino Secundário: Caracterização de Necessidades e de Respostas Gonçalo Terroso UMinho | 2021 2 Universidade do Minho Escola de Psicologia Gonçalo Nuno Melo da Silva Machado Terroso Serviços de Carreira no Ensino Secundário: Caracterização de Necessidades e de Respostas Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação de Professora Doutora Maria do Céu Taveira Outubro 2021 ii DECLARAÇÃO RELATIVA ÀS CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ __________________________________ (Gonçalo Nuno Melo da Silva Machado Terroro) 19 de outubro de 2021 iii Agradecimentos Inicialmente gostaria de agradecer à Professora Doutora Maria do Céu Taveira. O seu apoio foi fundamental ao longo do desenvolvimento desta dissertação. Todas as partilhas de conhecimento ajudaram tanto no meu desenvolvimento pessoal como profissional. Todos os momentos de honestidade e de empatia não passaram despercebidos e, novamente, estou-lhe extremamente agradecido por ter podido partilhar esta experiência de investigação e escrita consigo. De seguida gostaria de estender este agradecimento ao Grupo de Investigação em Desenvolvimento de Carreira e Aconselhamento, particularmente à Professora Daniela Cruzinha e à Soraia Pereira, por toda a ajuda prestada ao longo do desenvolvimento desta dissertação. Referindo-me ainda aos membros do Grupo de Investigação preciso de agradecer aos colegas e amigos que o integraram aquando a mim. Carolina, Christelle, Beatriz, Marlene, Isabel, Tatiana e Nuno, entramos os oito como um grupo e mantemo-nos assim durante todo o nosso percurso nesta equipa. Quero agradecervos pela oportunidade por vos conhecer melhor, por toda a ajuda e por todos os momentos que partilhamos. À minha Mãe e ao meu Pai, o maior dos agradecimentos por toda a ajuda ao longo do meu percurso universitário e por me providenciarem a grande oportunidade de prosseguir os meus estudos. Não podia finalizar estes agradecimentos sem mencionar Sofia Salgado, Hélder Oliveira, Jan Almeida, Luís Ferreira, Inês Silva, Beatriz Mello, Salomé Barbosa, Cristina Oliveira, Pedro Mendes e Tânia Lima. Sem eles não teria conseguido terminar quer o curso, quer esta dissertação. Agradeço-vos a todos pelo apoio emocional e a amizade que me mostraram ao longo dos anos. Agradeço também ao Francisco de Carvalho e ao João Gomes por serem os melhores colegas de casa que um universitário pode pedir. Finalmente, um enorme agradecimento à Universidade do Minho, à Escola de Psicologia e a todos os meus professores e colegas por fazerem parte da minha inesquecível experiência universitária. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. __________________________________ (Gonçalo Nuno Melo da Silva Machado Terroso) 19 de outubro de 2021 v Serviços de Carreira no Ensino Secundário: Caracterização de Necessidades e de Respostas Resumo Os psicólogos escolares atuam no âmbito de uma escola ou agrupamento de escolas, com pais, professores, educadores e/ou outros profissionais, de modo a ajudarem os estudantes a obter sucesso escolar. Entre os serviços prestados, os serviços de carreira constituem um dos mais importantes. O objetivo principal deste estudo consistiu em caracterizar serviços de carreira em escolas secundárias portuguesas, na perspetiva dos seus clientes e profissionais. Participaram, respondendo a um inquérito, 173 estudantes universitários de ambos os sexos e 18 psicólogas escolares, de diferentes distritos do país. Os resultados indicam que a quase totalidade dos psicólogos fornece serviços de carreira nas suas escolas e mais de três tipos de intervenções diferentes. A maioria dos estudantes considera os serviços importantes, incluindo os que não tiveram acesso aos serviços na sua escola secundária. Discute-se como as necessidades de formação dos psicólogos podem influenciar a oferta de serviços, a importância atribuída aos serviços pelos participantes e como os profissionais e estudantes se relacionam com estes. Palavras-chave: estudantes universitários, psicologia escolar, serviços de carreira, ensino secundário. vi Career Services in Secondary Schools: Characterization of Needs and Responses Abstract School psychologists work within a school or cluster of schools, with parents, teachers, educators and/or other professionals, to help students achieve academic success. Among the services provided, career services constitute one of the most important. The main objective of this study consisted in characterizing career services in Portuguese secondary schools, from the perspective of their clients and professionals. 173 university students of both sexes and 18 school psychologists from different districts of the country participated, by filling in a survey. The results indicate that almost all psychologists provide career services in their schools and more than three different types of interventions. Most students consider this services important, including those who did not have access to them at their secondary school. We discuss how the training needs of psychologists can influence the implementation of services, the importance attributed to the services by the participants and how professionals and students relate to them. Keywords: university students, school psychology, career services, high school. vii Índice Introdução ........................................................................................................................................... 8 Método .............................................................................................................................................. 12 Amostra ......................................................................................................................................... 12 Instrumentos ................................................................................................................................. 15 Procedimento ................................................................................................................................ 16 Estratégia e análise de dados ......................................................................................................... 16 Resultados ........................................................................................................................................ 16 Discussão.......................................................................................................................................... 22 Referências ....................................................................................................................................... 26 Anexo ................................................................................................................................................ 28 Índice de Tabelas Tabela 1. Características sociodemográficas e do histórico de intervenção dos estudantes .................. 13 Tabela 2 Características sociodemográficas e profissionais dos psicólogos ......................................... 14 Tabela 3. Tipo de intervenções experienciadas pelos estudantes ........................................................ 17 Tabela 4. Tipo de intervenções oferecidas pelos psicólogos ................................................................ 19 Tabela 5. Frequência e percentagem da categorização ...................................................................... 20 Tabela 6. Códigos, categorias/subcategorias, núcleos de sentido e exemplos ..................................... 20 14 Participação ou não na intervenção Sim, no 11º 8 4.6 Sim, no 12º 43 24.9 Sim, nos dois 26 15.0 Não 12 6.9 Na tabela 2 descrevem-se as características sociodemográficas e profissionais da amostra de psicólogos. Verificou-se que os profissionais tinham entre quatro a 432 meses de serviço ( M = 41.61, DP = 119.73). Tabela 2 Características sociodemográficas e profissionais dos psicólogos (N=18) n % Sexo Feminino Masculino 18 0 100 0 Distrito da escola Aveiro 1 5.6 Beja 1 5.6 Braga 6 33.3 Faro 1 5.6 Lisboa 1 5.6 Porto 6 33.3 Viana 2 11.0 Tutela da escola Pública 15 83.3 Privada 3 16.7 Serviços de carreira Sim 17 94.4 Não 1 5.6 15 Instrumentos Os questionários utilizados para recolher os dados foram construídos para o efeito de pesquisa e de acordo com a informação pretendida de cada um dos grupos a que se direcionam, os estudantes universitários ou os psicólogos escolares. No questionário aplicado aos estudantes universitários, inicialmente foram recolhidas informações sobre as características sociodemográficas, incluindo a idade, o sexo, o distrito onde a sua escola se localiza e se esta apresenta a tipologia de escola pública, privada ou outra. Para além destas questões, os questionários incluem quatro perguntas de escolha múltipla, uma cuja resposta é medida através de uma escala de tipo Likert e uma última de resposta aberta. Uma vez que este estudo se centra nos serviços de carreira durante o ensino secundário, especificamente no 11º e 12º ano e durante a transição para o ensino superior, o questionário apresenta duas vertentes distintas de questões, sendo uma dirigida aos estudantes que afirmam ter tido acesso a esses serviços e outra para aqueles que não usufruíram dos mesmos. O primeiro grupo será questionado sobre o tipo de serviços que lhes foram fornecidos e sobre as características dos mesmos ou, no caso de terem tido acesso a estes serviços e tenham decidido não usufruir deles, por que razão não o fizeram. O primeiro grupo é esperado que responda também às questões colocadas ao segundo grupo, constituído pelos estudantes que afirmam não ter tido acesso a este tipo de serviços, tendo estas como objetivo avaliar a importância atribuída por cada participante a estes serviços nos anos em estudo, sendo que esta será medida através de uma escala de Likert com valores entre um e cinco em que um equivale a pouco ou nada importante e cinco a muitíssimo importante. Solicita-se ainda a estes que justifiquem a sua resposta. Adicionalmente, desenvolveu-se um questionário para os psicólogos escolares, que exerçam funções em escolas secundárias. Inicialmente, são inquiridos, tal como os estudantes, sobre as suas características do foro sociodemográfico, acrescentando-se uma pergunta sobre os seus anos de trabalho. Seguidamente, os psicólogos escolares são questionados sobre a prestação de serviços de carreira aos estudantes dos 11º e 12º anos. Caso respondam afirmativamente, as perguntam focam-se na descrição e caracterização destes, incluindo uma pergunta relacionada com a situação pandémica atual, em que reportam o tipo de regime em que estes serviços são prestados. Os participantes cuja resposta valide a ausência de prestação destes serviços serão questionados sobre o motivo pelo qual não desenvolvem esta vertente no seu trabalho. A totalidade da amostra de psicólogos escolares foi também submetida às questões finais do questionário dos estudantes, onde avaliam, utilizando a escala supracitada, a importância desta componente do seu trabalho, sendo que lhes é também requerido que 16 justifiquem a sua resposta. Em ambos os questionários os participantes justificam a resposta dada à pergunta relativa à importância através da pergunta de resposta aberta referida anteriormente, que se apresenta na forma de “Porquê?”. Procedimento Inicialmente, o projeto de investigação foi submetido com um pedido de parecer à Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH), tendo recebido uma resposta positiva com o código CEICSH 010/2021. Os questionários, assim como um consentimento informado com os objetivos do estudo e a explicação da participação voluntária, anónima e confidencial, sem custos ou benefícios e com a possibilidade de desistência, foram enviados aos participantes, através de comunidades online (redes sociais ou e-mail). O seu preenchimento teve a duração de cerca de cinco minutos, em cada um dos casos. Após a recolha e análise dos questionários, excluíram-se sete participantes estudantes e dois participantes psicólogos, por não cumprirem os critérios de inclusão das respetivas subamostras. Estratégia e análise de dados Como este estudo utiliza tanto um método quantitativo como um método qualitativo no que toca aos dados que são recolhidos, foram implementadas distintas técnicas de análise dos dados e respostas dos participantes. Especificamente, realizou-se uma análise de estatística descritiva, Testes T para amostras independentes e um teste de correlação de Pearson no que toca às perguntas de caráter quantitativo e uma análise de conteúdo para a pergunta de resposta aberta, que tem um carácter qualitativo. O software utilizado para realizar a análise de estatística descritiva foi o SPSS. É expectável que, através da utilização deste método misto de análise que enverga tanto questões qualitativas como quantitativas, os resultados deste estudo proporcionem uma caracterização e exploração mais profunda sobre as necessidades e respostas dos serviços de carreira fornecidos por psicólogos a trabalhar em escolas secundárias portuguesas. Resultados Da totalidade dos estudantes (N=173) que participaram no estudo, apenas foi oferecida a possibilidade de participarem em intervenções de carreira a 89 estudantes. Deste grupo, participaram nestas intervenções 61 das 66 estudantes do sexo feminino (92,4%) e 16 dos 23 do sexo masculino (69.6%). A partir da análise dos questionários dos estudantes que participaram em intervenções de 17 carreira (n=77), foi possível concluir que os tipos de intervenção mais experienciados foram as sessões de esclarecimento realizadas em contexto de turma, as visitas a universidades ou feiras de emprego, e as sessões de atendimento individual para esclarecimento de dúvidas e informações específicas. Na tabela 3 encontram-se descritas as opções selecionadas pelos 77 estudantes que responderam a esta questão, sendo que cada um poderia selecionar mais do que um tipo de intervenção. Relativamente à importância dada a este tipo de serviços para estudantes do 11º e 12º anos, dos 173 estudantes universitários que participaram no estudo, 59.5% (n=103) selecionaram “5: Muitíssimo Importante” ( M = 4.35, DP = .987). Dos estudantes a quem foi possível participar em intervenções, mas que optaram por não o fazer (n=12), 83.3% (n= 10) referiu não o ter feito por “Não me pareceu importante fazê-lo na altura”. Tabela 3 Tipo de intervenções experienciadas pelos estudantes n % 1. Sessões de atendimento individual para esclarecimento de dúvidas e informações específicas. 38 49.4 2. Programa de aconselhamento individual com várias sessões para apoio à exploração de opções, avaliação de interesses e competências, ensaio da tomada de decisão, resolução de dilemas, … 17 22.1 3. Sessões em pequeno grupo para apoio à exploração de opções, avaliação de interesses e competências, ensaio da tomada de decisão, resolução de dilemas, … 20 26.0 4. Sessões de esclarecimento realizadas em contexto de turma. 50 64.9 5. Palestras ou sessões de informação fora da sala de aula. 34 44.2 6. Visitas a universidades ou feiras de emprego. 42 54.5 7. Outro. 1 1.3 18 Quando comparados os níveis de importância atribuídos aos serviços de carreira pelos estudantes que participaram nestes versus os que não participaram, através do Teste T para amostras independentes, verificou-se que os estudantes que não participaram atribuíram maior importância do que os que participaram, mas as diferenças nas respostas não são estatisticamente significativas (t (171) = -574, p = .567). Por outro lado, quando comparados os níveis de importância atribuídos aos serviços de carreira pelos estudantes da escola pública versus escola privada, através do Teste T para amostras independentes, verificou-se que os estudantes da escola pública atribuíram maior importância do que os da escola privada, mas as diferenças nas respostas não são estatisticamente significativas (t (165) = 1.050, p = .295). Por fim, recorrendo ao teste de correlação de Pearson , com o objetivo de analisar a direção e magnitude da associação entre a idade e a importância dada a este tipo de serviços pelos estudantes, verificou-se que estas variáveis apresentavam uma correlação positiva, em que o aumento da idade corresponde a um aumento da importância, ainda que esta associação não seja significativa (r = .023, p = .767). Relativamente à amostra constituída por psicólogos, da totalidade de 18 participantes, 17 referem ter fornecido serviços de carreira, sendo que o participante que não o fez justifica esta decisão com “Os estudantes rejeitam este tipo de atividades, uma vez que pretendem ingressar no mercado de trabalho”. Apesar disto, a totalidade da amostra revela atribuir uma grande importância a estes serviços, com uma média de resposta de 4.78 numa escala de tipo Likert de 1 a 5. Dos psicólogos que forneceram estes serviços, 70.6% referiu tê-lo feito num regime a distância (n=12), e 29.4% em regime misto (n=5), sendo isto facilmente justificado pela situação pandémica atravessada pelo país aquando da realização deste estudo. As sessões de atendimento individual, as sessões de esclarecimento realizadas em contexto de turma e as sessões em pequenos grupos são os serviços mais oferecidos pelos 17 psicólogos. Na tabela 4 podem ser observados os resultados de modo mais detalhado. É também de apontar que 14 dos 17 psicólogos oferecem três ou mais tipos de serviços distintos. Considerou-se oportuno verificar de que forma as variáveis, meses de serviço e importância dada aos serviços de carreira, na amostra de psicólogos, se relacionava, e por isso recorreu-se novamente ao teste de correlação de Pearson . Através desta análise, foi possível concluir que os psicólogos com mais meses de serviço consideravam os serviços de carreira mais importantes, comparativamente aos psicólogos com menos meses de serviço, contudo estes resultados não foram estatisticamente significativos (r = .335, p = .174). 19 Tabela 4 Tipo de intervenções oferecidas pelos psicólogos n % 1. Sessões de atendimento individual para esclarecimento de dúvidas e informações específicas. 16 94.1 2. Programa de aconselhamento individual com várias sessões para apoio à exploração de opções, avaliação de interesses e competências, ensaio da tomada de decisão, resolução de dilemas, … 7 41.2 3. Sessões em pequeno grupo para apoio à exploração de opções, avaliação de interesses e competências, ensaio da tomada de decisão, resolução de dilemas, … 14 82,4 4. Sessões de esclarecimento realizadas em contexto de turma. 15 88.2 5. Palestras ou sessões de informação fora da sala de aula. 9 52.9 6. Visitas a universidades ou feiras de emprego. 11 64.7 7. Outro. 3 17.6 Nota: 17 psicólogos responderam a esta questão, podendo selecionar mais do que um tipo de intervenção. Para além destas análises, foi realizada também uma análise de conteúdo, cujos resultados estão apresentados na tabela 5. Esta análise de conteúdo foi efetuada segundo os estudos e terminologias de Bardin (1995), Esteves (2006) e Vala (1986), com objetivos quantitativos, identificando as categorias mais frequentes nas respostas recolhidas. Esta análise de conteúdo foi de tipo aberto. Nesta análise de conteúdo foram desenvolvidas fases de pré-análise, exploração do material e de tratamento dos resultados, inferência e interpretação. 20 Tabela 5 Frequência e percentagem da categorização Categoria/Subcategoria n de codificações estudantes % estudantes n de codificações psicólogos % psicólogos Informação 54 25 9 24 Autoconhecimento 34 16 9 24 Esclarecimento 43 20 7 19 Influências 6 3 0 0 Seleção 54 25 5 14 Impacto no Futuro 22 10 4 11 Nota: As percentagens foram calculadas considerando o número total de codificações (n estudantes=213) (n psicólogos=37). A realização de uma primeira leitura das respostas conduziu à eliminação das que correspondiam aos participantes que não preenchiam os critérios de inclusão, assim como, qualquer resposta que não respondesse de forma direta à pergunta. Exemplos destas respostas são “Nada a referir” ou “Foi bastante eficaz e acessível”, sendo que esta segunda, apesar de retratar a experiência que o participante teve com os serviços de carreira da sua escola, não adiciona nenhuma informação relativamente à importância destes serviços especificamente para os grupos de estudantes do 11º e 12º anos. Na tabela 6 estão identificados os códigos, as categorias ou subcategorias e os núcleos de sentido das categorias e subcategorias de significado resultantes da análise de conteúdo. Tabela 6 Códigos, categorias/subcategorias, núcleos de sentido e exemplos Código Categoria/Subcategoria Núcleo de Sentido Exemplo 1. Informação Menciona a divulgação de conteúdos generalizados sobre as opções de carreira e os processos de as viabilizar. “conhecer áreas que muito provavelmente não faziam ideia que existiam.” (E52) 21 O corpus da análise cujos resultados são apresentados na tabela 6 acima, consiste no total das respostas, tanto dos psicólogos como dos estudantes, removendo as respostas com as características supracitadas, sendo este igual à unidade de contexto, com um total de 151 respostas; 134 respostas no grupo de estudantes, nas quais foram codificadas 213 unidades de análise. Relativamente aos psicólogos foram analisadas 17 respostas e foram codificadas 37 unidades de análise. 2. Orientação Menciona o apoio, fornecido pelo profissional, no que toca a tomadas de decisão sobre a carreira. 2.1. Autoconhecimento Favorece o conhecimento sobre os seus gostos e qualidades. “facilitando o autoconhecimento.” (E7) 2.2. Esclarecimento Recebe respostas que diminuem a confusão e esclarecem dúvidas. “esclarecer dúvidas acerca da entrada no ensino superior.” (E110) 2.3. Influências Combate pressões externas. “levando-se a tomar escolhas enviesadas pelos colegas ou situações atuais que não se aplicam nos mesmos termos futuramente.” (E156) 2.4. Seleção Facilita/apoia a escolha adequada. “assim como auxiliam a tomada de decisão consciente.” (E108) 3. Impacto no Futuro Menciona a relevância que a decisão de carreira terá no percurso de vida do individuo. “têm impacto no futuro.” (E5) 22 Discussão Partimos para esta investigação com o objetivo principal de caracterizar os serviços de carreira nas escolas secundários portuguesas e as suas necessidades, num período específico de anos, através do inquérito a estudantes universitários e psicólogos escolares. Pretendíamos ainda obter uma perspetiva mais generalizada sobre as perceções de ambos os grupos acerca da importância e necessidade deste tipo de serviços. A recolha de dados na amostra dos psicólogos mostrou-se difícil, sendo dificultada ainda mais pelo contexto pandémico da Covid-19. Apenas foram obtidas 20 respostas deste grupo, sendo que duas destas respostas vieram de psicólogos que não cumpriam os critérios de inclusão do estudo, acabando assim por serem analisadas 18 respostas, o que se verificou uma das primeiras limitações do estudo. No futuro, seria importante replicar estas análises ou realizar um novo estudo com objetivos semelhantes, onde existisse a colaboração de instituições como a OPP, de modo a fazer chegar os questionários ainda a mais psicólogos. Outra possível limitação da amostra prende-se com o facto de que todos os dados recolhidos são de psicólogas do sexo feminino. Da análise dos resultados dos psicólogos foi possível observar que todos os participantes responderam à pergunta relativa à importância dos serviços no 11º ano e no 12º ano selecionando um valor igual ou superior a quatro, numa escala de tipo Likert de um a cinco. Como referido e, isto indica que os participantes consideram estes serviços de elevada importância neste período de decisões e transições, propício à ansiedade dos estudantes, como verificado no estudo de Silva et al. (2010). Pode também constatar-se que uma grande maioria dos psicólogos que participaram no estudo oferece estes serviços, verificando-se que 14 dos 18 psicólogos inquiridos e analisados oferecem mais de três tipos diferentes de serviços aos estudantes das escolas em que trabalham. Apesar do estado de pandemia, psicólogos questionados continuaram a prestar os serviços de carreira, a distância ou em regime misto (presencial e a distância). Uma outra limitação do estudo mostrou-se no facto de que, para além de um participante que selecionou a opção “Outro” não foi possível obter mais dados relativamente às razões que levariam os psicólogos a não realizarem estes serviços. Futuramente, esta questão deveria ser abordada novamente de forma mais aprofundada. Os estudantes, tal como os psicólogos, valorizam os serviços durante os dois últimos anos do ensino secundário - 59.5% destes selecionou a opção “5: Muitíssimo Importante” quando responderam à pergunta relativa ao tema, sendo que a média de resposta é de 4.35. Estes dados estão de acordo com algumas das descobertas de Yaqoob et al. (2017), estudo no qual os estudantes também 23 consideraram estes serviços importantes. Podemos afirmar também que os resultados obtidos se alinham com os de Freixa-Niella et al. (2021), relativamente aos fatores que dificultam e facilitam o processo de transição para a universidade, já que o fator inibidor relativo ao conteúdo das cadeiras não se ajusta às suas expectativas e o fator facilitador referente ao interesse e preferência pelo curso, podem ser facilitados ou evitados através de uma intervenção de carreira. Na análise de conteúdo realizada, podemos ver que os estudantes como os psicólogos mencionam a subcategoria do código intitulada de “esclarecimento” (que tem como núcleo de sentido “Recebe respostas que diminuem a confusão e esclarecem dúvidas”) cerca de 20% das vezes, sendo esta uma importante parte dos serviços e intervenções de carreira. As intervenções de carreira já são um problema abordado pela psicologia desde 1900 e foram a base dos cursos de psicologia em Portugal (Abreu 2003), sendo que é mencionado no DecretoLei n.º 190/91 que um dos objetivos dos psicólogos escolares é a “…orientação escolar e profissional.”. Contrariamente ao grupo dos psicólogos em que uma grande maioria afirma oferecer estes serviços de carreira, apenas 89 dos 173 estudantes inquiridos afirma que tiveram a oferta desses serviços durante o seu ensino secundário. Uma possível explicação para este facto, como descrito por Cordeiro (2018), poderá ser a existência de apenas 49 unidades curriculares relativas à psicologia da carreira num total de 89 cursos. Esta ausência de formação no domínio durante o ensino superior em conjunto com as necessidades de formação apontadas por Mendes (2015), e pela dificuldade na unificação de serviços mencionada por Abreu (2003), podem levar a que um grupo de psicólogos escolares não realize serviços de carreira na escola em que trabalha. Assim, como mencionado anteriormente, considera-se de extrema importância ter como objetivo em estudos futuros compreender mais alargada e profundamente, o que leva os psicólogos a não oferecer estes serviços. Num estudo com grupos mais similares poderia também ser de interesse perceber se efetivamente existem diferenças significativas entre o número de estudantes que aponta ter tido ou não acesso aos serviços e o número de psicólogos que afirma ou não os ter oferecido. Na análise de conteúdo realizada podemos perceber que os estudantes consideram como uma parte importante dos serviços de carreira, o acesso a informação relacionada sobre as suas opções de carreira e sobre como as viabilizar, assim como o esclarecimento de dúvidas e apoio na seleção adequada dos seus percursos de carreira, já que estes representam os códigos mais frequentes nas respostas analisadas. Isto pode ser um dos fatores explicativos para os estudantes considerarem os serviços importantes, como concluído por Yaqoob et al. (2017). Contudo, seria útil realizar um estudo