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Cidadania, educomunicação e midiativismo ambiental: a cobertura da COP24 pela Agência Jovem de Notícias (Brasil)

Girardi, Ilza Maria Tourinho; Moraes, Cláudia Herte de

Abstract

No contexto da sociedade de risco (Beck, 1997), as mudanças climáticas são definidas como um problema ambiental de alcance mundial, sendo esse um dos fatores que dificultam o entendimento dos fenômenos associados bem como as alternativas para seu enfrentamento. A maior parte da cobertura jornalística se dá pela abordagem econômica, voltada às inovações tecnológicas (Moraes & Girardi, 2012). Por outro lado, a emergência de grupos de organizações civis - que ativam os discursos não corporativos e/ou não governamentais, fomentam situações positivas para o aprofundamento das discussões de forma mais ampla e plural. O artigo apresenta uma análise da cobertura colaborativa realizada por jovens de um projeto de educomunicação, reunida no site agenciajovem.org, bem como em suas postagens de rede social, em relação à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 24), realizada em Katowice, Polônia, em dezembro de 2018. Destacamos o midiativismo ambiental (Moraes & Fante, 2018) a partir das atividades do grupo engajamundo.org no debate de causas e consequências da mudança climática, em que as ações educomunicativas de jovens devem ser valorizadas para a efetividade de um mundo em transição. Nas conclusões, indicamos as qualidades desta cobertura, principalmente em relação às escolhas de assuntos e de abordagem, nas quais se colocam para além dos aspectos econômicos da questão, trazendo mais envolvimento com a temática. No entanto, discutimos como iniciativas potencialmente engajadas e inovadoras obtém baixa visibilidade no espectro público midiático, sendo imprescindível que a sociedade também transforme sua forma de consumir notícias, fazendo uma transição de recepção, indo da comunicação/jornalismo mainstream ao midiativismo ambiental. Os projetos ou disciplinas de educomunicação nas escolas, no ensino fundamental e médio, têm o potencial de formar cidadãos midiativistas e que compreendam que esse tipo de ação socioambiental pode mudar a sociedade.

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— 67 — CAPÍTULO III CIDADANIA, EDUCOMUNICAÇÃO E MIDIATIVISMO AMBIENTAL: A COBERTURA DA COP24 PELA AGÊNCIA JOVEM DE NOTÍCIAS (BRASIL) Dra. Ilza Maria Tourinho Girardi Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Dra. Cláudia Herte de Moraes Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Resumo No contexto da sociedade de risco (Beck, 1997), as mudanças climáticas são definidas como um problema ambiental de alcance mundial, sendo esse um dos fatores que dificultam o entendimento dos fenômenos associados bem como as alternativas para seu enfrentamento. A maior parte da cobertura jornalística se dá pela abordagem econômica, voltada às inovações tecnológicas (Moraes & Girardi, 2012). Por outro lado, a emergência de grupos de organizações civis - que ativam os discursos não corporativos e/ou não governamentais, fomentam situações positivas para o aprofundamento das discussões de forma mais ampla e plural. O artigo apresenta uma análise da cobertura colaborativa realizada por jovens de um projeto de educomunicação, reunida no site agenciajovem.org, bem como em suas postagens de rede social, em relação à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 24), realizada em Katowice, Polônia, em dezembro de 2018. Destacamos o midiativismo ambiental (Moraes & Fante, 2018) a partir das atividades do grupo engajamundo.org no debate de causas e consequências da mudança climática, em que as ações educomunicativas de jovens devem ser valorizadas para a efetividade de um mundo em transição. Nas conclusões, indicamos as qualidades desta cobertura, principalmente em relação às escolhas de assuntos e de abordagem, nas quais se colocam para além dos aspectos econômicos da questão, trazendo mais envolvimento com a temática. No entanto, discutimos como iniciativas potencialmente engajadas e inovadoras obtém baixa visibilidade no espectro público midiático, sendo imprescindível que a sociedade também transforme sua forma de consumir notícias, fazendo uma transição de recepção, indo da comunicação/jornalismo mainstream ao midiativismo ambiental. Os projetos ou disciplinas de educomunicação nas escolas, no ensino fundamental e médio, têm o potencial de formar cidadãos midiativistas e que compreendam que esse tipo de ação socioambiental pode mudar a sociedade. Palavras chave Educomunicação; midiativismo; jornalismo ambiental; mudanças climáticas; juventude; COP24. — 68 — — 69 — 1. Crise climática como temática global As mudanças climáticas são um problema de abrangência mundial, o que dificulta o entendimento e tomada de decisões quanto aos fenômenos associados. Há um conjunto de informações conflitantes e mutáveis no cenário da ciência e da tecnologia, levando as pessoas a atuarem com certa desconfiança. De acordo com Giddens (1997), na modernidade reflexiva, as pessoas entendem o fenômeno pela ciência, embora não seja uma aceitação tácita, incorporam dados científicos em pequenas decisões cotidianas Isso explicaria, no caso das mudanças climáticas, o fato de que alguns falem em ceticismo, ao negar a incidência do fenômeno do aquecimento global sobre a atmosfera terrestre. Giddens (1997) adverte ainda que o “fim da natureza”, significando que o homem interferiu de forma tão abrangente nos ambientes naturais que não é mais possível distinguir em que esta intervenção é mais ou menos efetiva. O conceito de sociedade de risco (Beck, 1997) atua em função da compreensão da modernização reflexiva, podendo ser um caminho para suplantar os impasses da sociedade industrial. Nesta fase da sociedade moderna, “[...] os riscos sociais, políticos, econômicos e individuais tendem cada vez mais a escapar das instituições para o controle e a proteção da sociedade industrial” (Beck, 1997, p.15). A partir do conceito de modernização reflexiva ocorre uma autoconfrontação ou “[...] no autoconceito da sociedade de risco, a sociedade torna-se reflexiva (no sentido mais estrito da palavra), o que significa dizer que ela se torna um tema e um problema para ela própria” (Beck, 1997, p.19). Levando-se em conta o cenário e os desafios da crise climática, demonstrada especialmente pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC – sigla de Intergovernamental Panel on Climate Change) ao longo dos anos e por relatórios contundentes a partir de 2007, ampliam-se os exemplos de eventos extremos associados ao aquecimento global, como o recente Ciclone Idai, que atingiu Moçambique, em março de 2019. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, veio a público conclamar que a força do ciclone é um alerta para que a comunidade internacional tome providências urgentes para a mitigação e a adaptação à mudança climática: “Tais eventos estão se tornando mais frequentes, mais severos e mais amplos, e isto só irá piorar se não agirmos agora” [...] “Perante tempestades fortes, precisamos acelerar a ação climática”, (ONUBR, 2019). A ONU convocou uma Cúpula sobre Ação Climática para setembro de 2019, no intuito de mobilizar países sobre a urgência no cumprimento das metas do Acordo de Paris, de 2015, para a redução do aquecimento global para abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais. — 70 — Neste artigo, apresentamos uma análise da cobertura colaborativa realizada por jovens de um projeto de educomunicação, reunida no site agenciajovem.org, bem como em suas postagens de rede social, em relação à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 24), realizada em Katowice, Polônia, em dezembro de 2018. A discussão teórica envolve os conceitos de educomunicação, cidadania comunicativa, midiativismo ambiental. Meio ambiente, educomunicação e cidadania O conceito de educomunicação é calcado tanto na crítica à Educação quanto à Comunicação. A interface entre os dois campos não pode ser realizada apenas a partir da justaposição de práticas hegemônicas em cada um deles. Ao contrário, a proposta é repensar o modo de comunicar na educação e de educar na comunicação. Ao criticar a educação bancária, Paulo Freire (1984) nos indica que o modo de comunicação na educação é autoritário. Nessa perspectiva, o professor, cujo saber é distante da realidade do aluno, transmite informações para o educando que a recebe de modo passivo. Para romper com isso, propõe o aprendizado “[...] de ‘escrever’ a sua vida, o de ‘ler’ a sua realidade, o que não será possível se não tomam a história nas mãos para, fazendo-a, por ela serem feitos e refeitos. (Freire, 1984, p.16). Por outro lado, quando pensamos a Comunicação, a crítica é também sobre o modelo vertical e sem participação. Desta forma, a superação do modelo de comunicação calcado na verticalidade entre emissor e receptor é uma necessidade apontada por Soares (2011). O surgimento da área interdisciplinar da Educomunicação ocorre no bojo do pensamento crítico, em que a importância da interação e da participação em ambos os processos de origem demonstram uma falência dos objetivos de ampliar conhecimentos e diálogo na sociedade. Por isso, a Educomunicação objetiva romper com os paradigmas hegemônicos que constam tanto nos meios de comunicação de massa quanto na escola tradicional. O objetivo é construir a partir da práxis, de forma democrática, conteúdos que promovam o pensamento crítico e inclusivo, pois todos temos direito à vez e voz. Para Soares (2000), a Educomunicação se articula como ações coordenadas que são a base do planejamento e da implementação de programas, projetos e produtos que atuam em ecossistemas comunicativos em ambientes educativos, bem como se destina “[...] a melhorar o coeficiente comunicativo das ações educativas, incluindo as relacionadas ao uso dos recursos de informação no processo de aprendizagem.” (Soares, 2000, p. 63). Para Kaplún (1999), o sistema será mais rico tanto quanto colocar-se à disposição a “trama de interações comunicacionais”: — 71 — Uma Comunicação Educativa concebida a partir dessa matriz pedagógica teria como uma de suas funções capitais a provisão de estratégias, meios e métodos destinados a promover o desenvolvimento da competência comunicativa dos sujeitos educandos. Esse desenvolvimento supõe a geração de vias horizontais de interlocução e intercomunicação. (Kaplún, 1999, p.74) A educomunicação teve grande colaboração com os textos de Kaplún. Entre estes, destaca-se “O comunicador popular”, no qual o autor relaciona a importância da horizontalidade na comunicação e, para além de modificar os conteúdos, fazer meios abertos ao diálogo: Además de cambiar los contenidos, tenemos que hacer medios abiertos al diálogo, medios que generen participación. Medios donde la comunidad pueda expresarse y decir su propia palabra, no simplemente leer o escuchar lo que nosotros decimos o escribimos para ella. Aunque no en todos los casos la gente pueda generar el mensaje, aunque no todos puedan ser emisores, es necesario ir rompiendo poco a poco esa manera vertical de hacer comunicación, ese esquema de emisor por un lado y receptor por el otro. (Kaplún, 1987, p.75) O entendimento da comunicação como diálogo, presente tanto nas ideias de Paulo Freire quanto de Mario Kaplún foram postulados importantes da Amércia Latina na construção teórica aos chamados veículos de comunicação alternativos. A educomunicação se coaduna ao Direito à Comunicação, que consta no rol dos Direitos Humanos, sendo publicada na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 1948), artigo 19: “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”. Também a UNESCO, nos anos 1960 tratava a comunicação como direito. A chamada nova Ordem Mundial de Comunicação (NOMIC), destacou a importância da livre comunicação para a constituição das sociedades democráticas. À época, viviam na ditadura militar os principais países da América Latina, entre eles, Brasil, Chile, Argentina e Paraguai. No entanto, mesmo com o fim das ditaduras, a democracia não se instala de forma efetiva na área da Comunicação, e o resultado se faz sentir na concentração dos meios de comunicação do Brasil, por exemplo, tanto quanto no conteúdo dos noticiários da imprensa brasileira. Atualmente, com o advendo da internet como veículo de comunicação global, considera-se uma forma de expressão de singularidade comunicacional (Malini e Autoun, 2013). No entanto, devemos asseverar que a rede ainda é restrita em termos de acesso. Pode-se dizer que o sistema de desigualdades no meio digital ainda permanece, podendo distorcer a ideia mais democrática das possibilidades da tecnologia comunicacional. — 72 — Logicamente que descentralização da liberdade de expressão é ligada diretamente ao direito à Comunicação. Por meio dele, a cidadania comunicativa proporciona oportunidades de que pessoas e grupos tenham voz em questões de interesse público. Com o crescimento do acesso aos meios tecnológicos de comunicação e informação, abrem-se possibilidades de ampliação da pluralidade na comunicação nos dias atuais. Para Signates e Moraes (2016, p. 32) “O sentido amplo de comunicação agrega-se de forma estrutural e ôntica à condição cidadã, além de expresar-se em varios direitos específicos, e não apenas na liberdade de expressão e informação”. Também, observa-se que há um crescente interesse pela comunicação de pautas da cidadania por jornalistas e/ou instituições não-governamentais. Ou seja, a potencialidade do crescimento da internet no mundo global traz condições materiais para a elaboração de discursos que se mostram contra-hegemôni- cos. Este movimento ativa outros discursos, que fomentam o aprofundamento das discussões de forma mais ampla e plural. Na contemporaneidade, em que pesem dificuldades, ainda assim a possibilidade de produção informativa com a internet traz novas perspectivas para a participação do debate público. Neste contexto, destacamos o midiativismo ambiental, conforme Moraes e Fante (2018): [...] podemos entender que o midiativismo veicula ideias de mobilização diante de um contexto de opressão, demonstrando radicalmente a resistência dos movimentos sociais. Os processos de midiatização possibilitaram um tipo de horizontalização na difusão das informações em comparação com a forma como a difusão era feita anteriormente, ou seja, por um lado, dependente dos meios de comunicação e suas estruturas empresariais e profissionais, por outro, viabilizada por ativistas ambientais. (Moraes; Fante, 2018, p. 341). Nos veículos considerados tradicionais, a maior parte da cobertura jornalística se dá pela abordagem econômica, voltada às inovações tecnológicas (Moraes e Girardi, 2012; Girardi et al, 2011). Também podemos verificar que “[...] a mudança climática passa a ser entendida com ênfase nos acordos políticos globais — a governança global — e também na questão econômica — ou seja, os custos para implantar uma nova forma de economia.” (Moraes, 2015, p.22). As falhas do jornalismo hegemônico no tratamento do tema ambiental podem ser analisadas a partir da falta de profundidade, pela fragmentação das informações (Girardi et al, 2012), ou seja, carecem de um olhar a partir da sustentabilidade da vida (Girardi et al, 2006). Também sobressai a apresentação isolada do tema, dando privilégio às fontes oficiais e às notícias sensacionalistas (Massierer e Girardi, 2008). Especialmente em relação ao aquecimento global, salientamos a cobertura de impacto relacionada a eventos e relatórios do IPCC (Moraes e Corrêa, 2008), bem como o caráter sensacionalista e de conflito entre países ricos e pobres, indicado por Artaxo — 73 — Netto (2013). Em geral, o discurso traz uma visão ecotecnocrática que destaca uma imposição de crescimento econômico continuado, buscando equacionar “a relação sociedade-ambiente e os limites do crescimento mediante um otimismo tecnológico, artifícios econômicos e mecanismos de mercado” (Girardi e Moraes, 2013). Neste contexto, fazemos uma visada à atuação de um grupo de jovens, oriundos de projetos educomunicativos, que atuam como midiativistas ambientais durante a COP24, buscando discutir de que forma essa cobertura colaborativa traz elementos diversos em relação ao que é apontado como deficiência na cobertura sobre a crise climática. 2. Agência Jovem e Engajamundo A organização da sociedade civil Associação Viração Educomunicação atua com comunicação, educação e mobilização social entre adolescentes, jovens e educadores. (https://viracao.org/quem-somos/). Mantém dois programas: Revista Viração e Agência Jovem de Notícias (AJN). Tem apoio institucional Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP). Na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 24), realizada em Katowice, Polônia, entre 2 e 15 de dezembro de 2018, jovens estudantes e pesquisadores do Brasil, Argentina, Peru, Colômbia e Itália atuaram como repórteres. Essa delegação juvenil foi uma das atividades do projeto Agência Jovem de Notícias, promovido pela Associação Viração Educomunicação no Brasil, Fundación Tierravida na Argentina, Climalab na Colômbia e na Viração&Jangada na Itália28, com o apoio da Província de Trento, o Centro Europeu Jean Monnet, a Associação Mazingira, a Fundação Fontana, o Portal Unimondo, a Associação In Medias Res e o apoio científico do Observatório do Clima Trentino. Por meio desta iniciativa, os jovens trouxeram a narrativa de eventos internacionais traduzidos e publicados em Português, Espanhol e Italiano. Cabe salientar que o ativismo educomunicativo de jovens pelo meio ambiente pela ONG Engajamundo também realizou outras coberturas de Conferências de Clima, nos anos de 2013 a 2016. Em 2018, juntou-se à iniciativa da Associação Viração conforme descrevemos acima. Entre os cinco GTs do Engajamundo, o GT Clima atua desde 2013 em todas as regiões do Brasil, com objetivo de discutir e buscar saídas para a crise climática, trazendo o jovem do país para o lugar de protagonista das ações. Os jovens partici- 28 Em 2005, durante o Fórum Social Mundial no Brasil, promovido no Brasil pela Viração Educomunicação, foi criada a Agência Jovem Internacional de Notícias. A Agência de Notícias Juvenis em espanhol é promovida na Argentina pela Fundación TierraVida e na Colômbia pela Climalab. — 74 — param de quatro Conferências das Partes (COPs 19, 20, 21, 22) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). (http://www.engajamundo.org/gts-nls/). Organizada em 2012, “aproveitando o momento gerado pela Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável para engajar outros jovens na pauta ambiental e multiplicar os debates sobre meio ambiente no meio universitário da cidade.” (http://www.engajamundo.org/nossa-historia/) Em 2013, na cobertura da COP 19, a Engajamundo relatou o início da busca de parcerias para a organização da juventude em nível global. O plano era “aumentar e fortalecer a participação dos jovens nas conferências sobre mudanças climáticas por meio da união e do somatório dos esforços realizados”. http://www.engajamundo.org/2013/11/11/coesao-e-esperanca- entre-os-jovens/). Naquele momento, ocorreu um workshop com integrantes da Viração, Engajamundo e CliMates29 que discutiu como envolver os jovens no debate climático. 3. Cobertura juvenil da COP24 e suas temáticas O presente artigo faz uma análise da cobertura colaborativa realizada pela Agência Jovem de Notícias (AJN), reunida no site agenciajovem.org, bem como em suas postagens de rede social em relação à COP24. Os textos foram publicados entre 30 de novembro e 19 de dezembro de 2018. A maioria destas matérias foi realizada por jovens de outros países e traduzidas para o português. Para coleta das reportagens, fizemos o acesso via https://www.facebook.com/agenciajovem/ e localizamos a primeira reportagem que trouxe a notícia da própria cobertura pelos jovens. Acessamos os textos completos que estavam no link da rede social e fizemos a leitura buscando identificar a origem (autores), as temáticas e abordagens e também o nível de compartilhamento e curtidas de cada matéria. A coleta encerrou com a publicação do final do evento, totalizando 23 matérias. No Quadro 1, apresentamos o material encontrado. 29 ONG internacional liderada por jovens voluntários, estudantes e profissionais com objetivo de enfrentar o desafio climático, com ideias inovadoras, treinamento de jovens para mudança e influenciar tomadores de decisões (https://www.weareclimates.org/) — 75 — Quadro 1. Matérias publicadas no facebook Agência Jovem de Notícias e Site Dia Título Temáticas Shares Likes 30 nov A conferência do clima em katowice contada por adolescentes de diferentes países PARTICIPAÇÃO ENGAJAMENTO 0 4 30 nov “Do cinza ao verde” na Polônia ESCOLHAS/ CONTRADIÇÃO 0 2 01 dez Trump não fará “América Grande” outra vez ORGANIZAÇÃO URGENTE 0 3 03 dez Ativistas na linha de frente PARTICIPAÇÃO ENGAJAMENTO 0 3 04 dez Clima na escola: vamos aceitar o desafio! PARTICIPAÇÃO ENGAJAMENTO 0 3 05 dez A missão da COP24: transformar o Acordo de Paris em realidade RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL 0 1 05 dez Na aula com David Attenborough: participação ativa no tempo das mídias sociais EXEMPLOS INSPIRADORES 0 1 05 dez Novos candidatos para anfitrião da COP25 RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL 0 1 05 dez Clima: “mudando juntos”, mas com mais ambição PARTICIPAÇÃO ENGAJAMENTO 0 1 06 dez Alimentos e Mudanças Climáticas: como eles se influenciam? ESCOLHAS/ CONTRADIÇÃO 0 1 06 dez Os “Climakers”: um movimento global de agricultores ESCOLHAS/ CONTRADIÇÃO 0 2 06 dez Como uma estudante inspirou o mundo EXEMPLOS INSPIRADORES 0 1 — 82 — A última publicação da cobertura realizada na COP24 se encaixa neste tópico, “Recorde de emissões em 2017: precisamos mudar nossa rota” (19/12). O texto trata da publicação do relatório GAP de emissões, apresentado pela ONU Ambiental, que compara as emissões projetadas com as necessárias para atender aos objetivos do Acordo de Paris. Os resultados indicam a necessidade de triplicar os esforços para atingimento da meta do Acordo de Paris. Além disso, apontam possíveis soluções, entre elas, obrigar os Estados “a fortalecer suas ambições sobre mitigação e aumentar a eficiência de suas políticas nacionais”. De forma geral, reforçam a ideia da necessidade de imediata organização em torno das ações de mitigação, de todos os principais pontos de poder e decisão. 3.5 Exemplos inspiradores No último conjunto de textos, apresentamos o tratamento dado a personalidades, ativistas, militantes ambientalistas e pessoas que são consideradas pela cobertura como exemplos de inspiração para a continuidade da luta pelo clima. No dia 5/12 o primeiro texto nesta temática, “Na aula com David Attenborough: participação ativa no tempo das mídias sociais”, que traz um breve perfil de David Attenborough, considerado um dos mais importantes comunicadores científicos, conhecido principalmente por seus programas de história natural na rede televisiva britânica, a BBC. Convidado para a abertura da COP24, o texto destaca a fala de David em relação às pessoas que podem utilizar a mídia para enviar mensagens poderosas: “Essas pessoas têm a responsabilidade de educar os céticos em relação à necessidade de uma mudança e de se tornarem testemunhas da verdade e da beleza extraordinária de nossa natureza ameaçada.” O texto “Como uma estudante inspirou o mundo” (6/12) destaca a atuação da jovem da Suécia Greta Thunberg30, de 14 anos, que protesta toda sextafeira em frente ao Parlamento em Estocolmo para que os líderes tomem providências em relação à crise climática. Tratada como uma pessoa inspiradora, “que está incentivando os jovens e adultos a tomar ações efetivas e substanciais o mais rápido possível.” Além de inspiradora, o texto a reverenciou por ser uma ativista muito jovem e que recebe grande atenção da mídia. A fala Greta em Katowice foi direta: chamou as lideranças mundiais de imaturas, pois não agem e não assumem a realidade da mudança climática. Na matéria “Duas histórias, um só objetivo: Direitos Humanos” (10/12), data de comemoração dos 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos, os jovens entrevistam dois ativistas Joan Carling (das Filipinas, atuante junto 30 A ativista foi a principal liderança mundial na recente greve estudantil global pelo clima, realizada em 15 de março de 2019. — 83 — aos indígenas na Ásia). A declaração de Joan trazida na entrevista chama a atenção para a luta pela dignidade de todos. “Como essas comunidades não têm poder, precisamos falar por elas. Se nenhum de nós fala pelos fracos, os sem voz, somos todos cúmplices em permitir que a desigualdade e as violações simplesmente aconteçam.” Outro exemplo entrevistado pelos jovens, Francesco Martone (da Itália, atuou no Greenpeace e como senador) declarou: “temos que proteger as comunidades indígenas e, ao mesmo tempo, devemos deixá-las viver em seu próprio ambiente com suas próprias tradições.” Esta reportagem teve o maior número de curtidas no site da AJN (total de 07 curtidas), conforme Figura 1. Figura 1: Reportagem sobre Direitos Humanos Fonte: https://www.agenciajovem.org/wp/cop24-direitos-humanos/ No dia 11/12, a matéria “Pensando globalmente como povos indígenas na era da mudança climática” conta a história das lutas indígenas. Em Buritizeiro, Minas Gerais no Brasil, com duas irmãs Tuxà na liderança e conquista de 6 mil hectares de terra devastada pelas indústrias de madeira e celulose; após três anos o território floresce. Na Patagônia Argentina, relatam a luta do povo Mapuche no conflito com a empresa italiana Benetton, iniciada em 1992 e com ganho de posse e uso aos indígenas apenas em 2014. Neste período, as condições de vida do povo foi deteriorada. Também em Temuco, no Sul do Chile, a perseguição à líder espiritual Machi Francisca, que foi presa em 2016, pela terceira vez, por denunciar empresas que des- — 84 — troem florestas nativas. O apelo na reportagem indica que a admiração pelos povos indígenas se dá pela visão e consciência em relação ao ambiente, pois “Os povos indígenas enxergam nossa sociedade de outra perspectiva. Eles estão conscientes do que estão fazendo e do que está acontecendo realmente, porque eles enxergam os efeitos das mudanças.” Com esta análise foi possível refletir sobre a variedade das temáticas desenvolvidas na cobertura colaborativa da agência jovem, que são singulares em função de seu catáter ativista. O tema predominante – engajamento – foi muito relacionado ao protagonismo jovem na busca de soluções e enfrentamento da crise climática. Os demais temas demonstram a preocupação na cobrança de responsabilidades, na busca de modelos de instituições e pessoas que fazem a diferença, bem como formas de organização para que a complexidade ambiental e a urgência na definição de novos paradigmas de transição estejam na ordem do dia. Desta forma, a cobertura colaborativa se coloca de forma posicionada, engajada e responsável e se diferencia das coberturas tradicionais que, em boa medida, se colocam “fora” do problema. A agência jovem, ao contrário, traz impressões da própria juventude, considerada a primeira geração a conviver diretamente com os fenômenos intensos, frequentes e extremos decorrentes da mudança do clima. — 85 — Considerações finais As atividades do grupo engajamundo.org no debate de causas e consequências da mudança climática, em que as ações educomunicativas de jovens da Agência Jovem de Notícias é destaque, devem ser valorizadas para a efetividade de um mundo em transição. É notável que o formato jornalístico se renova com a maior participação, com a contribuição da visão de jovens preocupados com o futuro e com as decisões tomadas no presente, as quais pouco estão trazendo respostas efetivas aos erros do passado. O processo educomunicativo aliado ao resultado da cobertura analisada durante a COP24 transparece a ideia do diálogo entre vários atores, trazidos como fontes, entrevistados e inspirações. Além disso, salientamos as qualidades desta cobertura, principalmente em relação às escolhas de assuntos e de abordagem, nas quais se colocam para além dos aspectos econômicos da questão, trazendo mais envolvimento com a temática. No entanto, discutimos como iniciativas potencialmente engajadas e inovadoras obtém baixa visibilidade no espectro público midiático, sendo imprescindível que a sociedade também transforme sua forma de consumir notícias, fazendo uma transição de recepção, indo da comunicação/jornalismo mainstream ao midiativismo ambiental. Os projetos ou disciplinas de educomunicação nas escolas, no ensino fundamental e médio, têm o potencial de formar cidadãos midiativistas e que compreendam que esse tipo de ação socioambiental pode mudar a sociedade. — 86 — Referências bibliográficas Artaxo Netto, A. P. F. (2013). O futuro da terra: discursos inconvenientes. Tese (doutorado em Linguística). Universidade Estadual de Campinas, Campinas. Beck, Ü. (1997). 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