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LA DIMENSIÓN INTANGIBLE São Carlos / Sevilla 2023 DEL PATRIMONIO URBANO DO PATRIMÔNIO URBANO A DIMENSÃO INTANGÍVEL Bárbara Gonçalves Guazzelli Universidade de São Paulo Instituto de Arquitetura e Urbanismo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Universidad de Sevilla Escuela Técnica Superior de Arquitectura Programa de Doctorado en Arquitectura
LA DIMENSIÓN INTANGIBLE São Carlos / Sevilla 2023 DEL PATRIMONIO URBANO DO PATRIMÔNIO URBANO A DIMENSÃO INTANGÍVEL Bárbara Gonçalves Guazzelli Universidade de São Paulo Instituto de Arquitetura e Urbanismo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Universidad de Sevilla Escuela Técnica Superior de Arquitectura Programa de Doctorado en Arquitectura Tese apresentada no contexto do Convênio Acadêmico Internacional para Dupla Titulação de Doutorado firmado entre a Universidade de São Paulo, no interesse do Instituto de Arquitetura e Urbanismo, e a Universidad de Sevilla, no interesse da Escuela Internacional de Doctorado da Universidad de Sevilla. Orientação PPGIAU-USP: Prof. Dr. Manoel Rodrigues Alves Orientação EIDUS-US: Prof. Dr. Carlos Tapia
Guazzelli, Barbara Gonçalves A dimensão intangível do Patrimônio Urbano / Barbara Gonçalves Guazzelli; orientador Manoel Rodrigues Alves; co-orientador Carlos Tapia. -- São Carlos, 2023. 420 p. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo -- Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2023. 1. Patrimônio Imaterial. 2. Patrimonialização. 3. Territórios culturais. 4. Ver-o-Peso. 5. Triana. I. Alves, Manoel Rodrigues, orient. II. Tapia, Carlos, co-orient. III. Título. GG919d Bibliotecária responsável pela estrutura de catalogação da publicação de acordo com a AACR2: Brianda de Oliveira Ordonho Sígolo - CRB - 8/8229 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca do Instituto de Arquitetura e Urbanismo com os dados fornecidos pela autora AUTORIZO A REPRODUCAO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRONICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE
Nome: GUAZZELLI, Barbara Gonçalves Título: A dimensão intangível do Patrimônio Urbano Tese apresentada no contexto do Convênio Acadêmico Internacional para Dupla Titulação de Doutorado firmado entre a Universidade de São Paulo, no interesse do Instituto de Arquitetura e Urbanismo, e a Universidad de Sevilla, no interesse da Escuela Internacional de Doctorado da Universidad de Sevilla. Orientador PPGIAU-USP: Prof. Dr. Manoel Rodrigues Alves Orientador EIDUS-US: Prof. Dr. Carlos Tapia Aprovada em: FOLHA DE JULGAMENTO Prof. Dr. Paulo César Castral (IAU USP) Profa. Dra. Marta García de Casasola Gómez (ETSA US) Prof. Dr. Juliano Pamplona Ximenes Ponte (UFPA) Profa. Dra. Adriana Collado (FADU UNL) Dra. Blanca Del Espino Hidalgo (IAPH) Comissão Julgadora Julgamento Assinatura
Essa investigação foi realizada no âmbito do Programa de Pós-graduação do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, lugar que me acolheu também durante minha graduação e período de Mestrado. Sendo assim, gostaria de agradecer a essa instituição e a todos que cruzaram meu caminho por meio dela. Aqui estive, de uma forma ou de outra, dos meus 19 aos 39 anos, e é com muito orgulho e carinho que encerro essa parceria, momentaneamente ou não. Aqui fui formada cidadã e uma apaixonada pelo ensino público gratuito e de qualidade, pelo qual sempre serei defensora. Dentre as pessoas que fazem parte da minha história, está o Prof. Manoel Rodrigues Alves, meu orientador na Universidade de São Paulo, a quem tive o prazer de ter como professor durante o período de graduação e orientador durante o extinto programa de estágio Pró-salas. Agradeço por ter confiado em mim novamente ao aceitar me orientar no período de doutorado. Agradeço também a confiança em mim depositada pelo Prof. Carlos Tapia, meu orientador na Universidad de Sevilla que, junto ao Prof. Manoel, batalhou pelo meu ingresso no Convênio de Dupla Titulação de Doutorado firmado pelas duas instituições envolvidas. Suas contribuições para o processo investigativo dessa tese são inestimáveis. Dentre os inúmeros presentes que o IAU USP me deu ao longo do período de doutoramento, está o meu envolvimento com o grupo de pesquisa LEAUC - Laboratório de Estudos do Ambiente Urbano Contemporâneo – do qual fazem parte amigas pesquisadoras que carregarei para sempre na memória e no coração: Maísa Fonseca, Paula Braga, Maria Beatriz Andreotti, Maíra Daitx, Bárbara Scudeller, Milena Sartori, Beatriz Carvalho, Camila Guimarães, Heloísa Cizeski, Lara Stival, Luiana Cardoso e Vanessa Forneck. Juntas, construímos anos de eventos acadêmicos em nome do grupo, como as sessões do Ciclo Urbanicidades e as Jornadas Acadêmicas. Se o mundo está pronto para a nossa potência eu não sei, mas nós certamente estamos contribuindo para a construção de um ambiente profissional mais justo e igualitário. Agradeço imensamente aos profissionais e professores que doaram seu tempo e energia para conversar comigo durante o processo investigativo, em especial a Profa. Maria Goretti da Costa Tavares (UFPA), a Profa. Maria Dorotéa de Lima (UFPA), Mário Lima (Instituto Ver-o-Peso) e o Prof. Juliano Ximenes Ponte (UFPA), que esteve presente na banca de qualificação do IAU USP e que contribuiu generosamente em momentos diversos e decisivos dessa investigação. Também foram valorosas as contribuições da Profa. Maria Angeles Castaño (Universidad de Sevilla) em meu período de estadia em Sevilha, assim como os encontros com o Prof. Ivan Periañez Bolaño (Universidad de Sevilla), a quem admiro por imprimir na academia novos olhares e pontos de vista. Dedico um agradecimento especial a amigos que se ofereceram para me auxiliar de inúmeras maneiras: Thomaz Xavier, Livia Conduru e Tanto Tupiassu. Por fim, agradeço ao meu marido Alexandre Leitão Santos, que durante a última década tem sido minha principal escuta, tanto pessoal quanto profissional. Durante o período de doutoramento nasceu nosso filho João Caetano e enfrentamos o período de pandemia no Brasil. Foi ele quem esteve ao meu lado incondicionalmente e quem me incentivou a persistir durante todo esse período. AGRADECIMENTOSAGRADECIMENTOS
“Los recuerdos verdaderos parecían fantasmas, mientras los falsos eran tan convincentes que a sustituían a la realidad.” Gabriel García Márquez Doce cuentos peregrinos
O que perfaz um bem cultural na sua totalidade? Quais são os elementos presentes na culinária amazônica que compõem o Patrimônio Cultural praticado na cidade brasileira de Belém do Pará e quais são aqueles que constituem o Flamenco na cidade andaluza de Sevilha? Como se classifica o chamado duende, sentimento que move o artista flamenco para uma manifestação inexplicável em palavras? Foram questionamentos relativos às diferentes dimensões que compõem a totalidade de um bem cultural que guiaram essa investigação, que considera o fato de que, atualmente, entende-se que as práticas sociais são as geradoras do Patrimônio Cultural. Diante do reconhecimento das diferentes dimensões que fazem parte da totalidade de um bem cultural, essa investigação considera fundamentalmente que os vetores materiais de um bem cultural são indissociáveis da sua dimensão intangível. No contexto atual, a valorização dos bens culturais intangíveis torna-se complexa, pois há diversidade na natureza desses bens e nos critérios para sua inclusão em processos de patrimonialização. A autenticidade, beleza e antiguidade, por exemplo, são valores que se relacionam com um momento anterior desse campo do conhecimento, o que pode prejudicar as premissas atuais do Patrimônio Cultural, pois dependem da atribuição do saber técnico e de olhares particulares. O momento atual é aqui caracterizado a partir de conceitos como a (Multi)territorialidade e processos como a Mundialização e a transnacionalização da Memória, que devem ser considerados nesse debate especialmente com relação às estratégias de empresariamento urbano ligadas ao turismo em territórios culturais. O estudo considera que o processo de empresariamento urbano resulta em transformações devido ao consumo e mercantilização da cultura, o que pode levar à homogeneização da cidade e comprometer a preservação das características locais. A tese considera duas estratégias específicas de empresariamento urbano, sendo uma delas a Urbanalização e a outra a Containerização aplicada na análise do espaço urbano tematizado. Ambas provocam a banalização e estandardização da experiência urbana, exclusão das populações locais e atividades tradicionais, e transformação dos espaços urbanos em objetos independentes, voltados para a economia de serviços, consumo e entretenimento. Os estudos de caso analisados durante a investigação, que foi feita a partir de uma abordagem qualitativa de caráter exploratório, foram o Complexo do Ver-o-Peso na cidade brasileira do Belém do Pará e seu respectivo bem cultural intangível patrimonializado, a culinária amazônica, e o bairro de Triana na cidade espanhola de Sevilha, considerada berço do Flamenco, sendo este também um bem cultural intangível patrimonializado. A investigação mostrou que a dimensão intangível do patrimônio urbano é inseparável e complementar à sua parte edificada. No entanto, bens culturais intangíveis tem sido utilizados em estratégias de empresariamento de territórios culturais, especialmente em processos de turistificação, com o uso principalmente do valor de autenticidade como atrativo. O resultado é um roteiro de atividades específicas, sem relação com o entorno, direcionadas a um público característico, que tem como uma das consequências a vulnerabilização dos bens intangíveis que se intenta preservar. Por fim, concluiu-se que a categorização promovida pelo campo do Patrimônio Cultural, ao dividir os bens de acordo com sua materialidade, fragiliza o bem cultural ao não considerar sua totalidade, dotada de ambas as dimensões, material e intangível. RESUMO Palavras-chave: patrimônio imaterial; patrimonialização; territórios culturais; Ver-o-Peso; Triana.
¿Qué constituye un bien cultural en su totalidad? ¿Cuáles son los elementos presentes en la cocina amazónica que componen el Patrimonio Cultural practicado en la ciudad brasileña de Belém do Pará y cuáles son aquellos que constituyen el Flamenco en la ciudad andaluza de Sevilla? ¿Cómo se clasifica el llamado duende, el sentimiento que mueve al artista flamenco a una manifestación inexplicable en palabras? Estas son preguntas relacionadas con las diferentes dimensiones que componen la totalidad de un bien cultural que guiaron esta investigación, que considera que actualmente se entiende que las prácticas sociales son las generadoras del Patrimonio Cultural. Ante el reconocimiento de las diferentes dimensiones que forman parte de la totalidad de un bien cultural, esta investigación considera fundamentalmente que los vectores materiales de un bien cultural son indisociables de su dimensión intangible. En el contexto actual, la valoración de los bienes culturales intangibles se vuelve compleja, ya que hay diversidad en la naturaleza de estos bienes y en los criterios para su inclusión en procesos de patrimonialización. La autenticidad, belleza y antigüedad, por ejemplo, son valores que se relacionan con un momento anterior de este campo del conocimiento, lo que puede perjudicar las premisas actuales del Patrimonio Cultural, ya que dependen de la atribución del saber técnico y de miradas particulares. El momento actual se caracteriza aquí a partir de conceptos como la (multi)territorialidad y procesos como la mundialización y la transnacionalización de la memoria, que deben ser considerados en este debate especialmente en relación con las estrategias de empresariamiento urbano ligadas al turismo en territorios culturales. El estudio considera que el proceso de empresariamiento urbano resulta en transformaciones debido al consumo y mercantilización de la cultura, lo que puede llevar a la homogeneización de la ciudad y comprometer la preservación de las características locales. La tesis considera dos estrategias específicas de empresariamiento urbano, siendo una de ellas la urbanalización y la otra la containerización aplicada en el análisis del espacio urbano tematizado. Ambas provocan la banalización y estandarización de la experiencia urbana, exclusión de las poblaciones locales y actividades tradicionales, y transformación de los espacios urbanos en objetos independientes, orientados hacia la economía de servicios, consumo y entretenimiento. Los estudios de caso analizados durante la investigación, que se realizó a partir de un enfoque cualitativo de carácter exploratorio, fueron el Complejo del Ver-o-Peso en la ciudad brasileña de Belém do Pará y su respectivo bien cultural intangible patrimonializado, la cocina amazónica, y el barrio de Triana en la ciudad española de Sevilla, considerada cuna del Flamenco, siendo este también un bien cultural intangible patrimonializado. La investigación mostró que la dimensión intangible del patrimonio urbano es inseparable y complementaria a su parte edificada. Sin embargo, los bienes culturales intangibles han sido utilizados en estrategias de empresariamiento de territorios culturales, especialmente en procesos de turistificación, con el uso principalmente del valor de autenticidad como atractivo. El resultado es un itinerario de actividades específicas, sin relación con el entorno, dirigido a un público característico, que tiene como una de las consecuencias la vulnerabilidad de los bienes intangibles que se intenta preservar. En última instancia, se concluye que la categorización promovida por el campo del Patrimonio Cultural, al dividir los bienes de acuerdo con su materialidad, debilita el bien cultural al no considerar su totalidad, dotada de ambas dimensiones, material e intangible. RESUMEN Palabras clave: patrimonio inmaterial; patrimonialización; territorios culturales; Ver-o-Peso; Triana.
plexo Turístico e Cultural Estação das Docas. 2018. Figura 3.54: Placas indicativas que trazem o perfil de pessoas com trajes de época no Complexo Turístico e Cultural Estação das Docas. 2018. Figura 3.55: Trecho da Av. Boulevard Castilhos França que sofreu as intervenções iniciais do projeto “Boulevard da Gastronomia” em Belém/PA. 2022. Figura 3.56: Representação virtual do projeto “Boulevard da Gastronomia” em Belém/PA. Figura 3.57: Vista sobre ilhas de Belém. 2022. Figura 4.01: Ciganos reunidos na cidade de Granada. Figura 4.02: Carmen Amaya em cena de Flamenco do filme “Los Tarantos”. Figura 4.03: Quadro com árvore genealógica do Flamenco presente no Museo del Baile Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.04: Cartaz de “Carmen” em adaptação realizada pelo Ballet Antonio Gades e Carlos Saura presente na exposição do Museo del Baile Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.05: Cena do filme “Carmen” de Carlos Saura. 1983. Figura 4.06: Frequentadoras da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.07: Frequentadoras da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.08: Frequentadores da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.09: Frequentadores da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.10: Casetas da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.11: Casetas da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.12: Casetas da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.13: Casetas da Feria de Abril em Sevilha. 2022. Figura 4.14: Procissão do Círio de Nazaré em Belém. 2022. Figura 4.15: Romaria Fluvial no Círio de Nazaré de Belém. 2015. Figura 4.16: Cartografia sobre Círio de Nazaré. Figura 4.17: Vista da entrada da loja do Chocolate da Dona Nena na Ilha do Combu/PA. 2019. Figura 4.18: Vista da varanda do Chocolate da Dona Nena na Ilha do Combu/PA. 2019. Figura 4.19: Trajes femininos de Flamenco à venda em unidade da loja de departamento espanhola El Corte Inglés. 2022. Figura 4.20: Artistas do Flamenco em apresentação na rua. 2022. Figura 4.21: Artista do Flamenco em apresentação na rua. 2022. Figura 4.22: Público de espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.23: Espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.24: Público de espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.25: Espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.26: Público de espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.27: Espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.28: Espetáculo de Flamenco em La Casa del Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.29: Figura 4.29: “Barqueiro azul em Manaus”, 1992, pela lente do fotógrafo Luiz Braga. Figura 4.30: Animais em feira livre do Complexo Ver- -o-Peso pela lente da fotógrafa Naiara Jinknss. Figura 4.31: Site do governo do estado que coloca a gastronomia entre as festas, a natureza, a oportunidade para negócios e a pesca esportiva.
Figura 4.32: Site da Coordenadoria Municipal de Turismo de Belém que coloca a gastronomia entre artesanato e ritmos folclóricos. Figura 4.33: Folha e flor do jambú. Figura 4.34: No sentido horário, Pato no tucupi, Vatapá paraense, arroz branco, Maniçoba e Pimenta de cheiro. Figura 4.35: Comercialização do tucupi em garrafas de plástico na Feira Livre do Ver-o-Peso. 2022. Figura 4.36: Tacacá. 2022. Figura 4.37: Venda de tipiti no mercado de Barcarena. 2018. Figura 4.38: Acaí com peixe frito, um dos pratos típicos oferecidos na Feira Livre do Ver-o- -Peso. 2018. Figura 4.39: Açaí reapresentado para consumo em lugares não amazônicos. Figura 4.40: Principais pontos de comercialização do açaí na região de Belém. Figura 4.41: Baia de comercialização de refeições no Ver-o-Peso. Sobre o balcão, tigelas de açaí e bandeja de peixe frito. 2021. Figura 4.42: Praça Dom Frei Caetano Brandão com vista para Igreja Santo Alexandre. 2013. Figura 4.43: Vista para Forte do Presépio. 2013. Figura 4.44: Mangal das Garças. 2013. Figura 4.45: Vitória régia em Parque Zoobotânico. 2013. Figura 4.46: Açaí com peixe frito oferecido na Feira Livre do Ver-o-Peso. 2018. Figura 4.47: Cardápio do restaurante Lá em Casa, na Estação das Docas, com foto do prato com açaí e peixe frito. 2018. Figura 4.48: Pessoa dorme em barraca no Ver-o-Pe- so. 2018. Figura 4.49: Feirante em barraca de peixe seco no Ver-o-Peso. 2018. Figura 4.50: Compradora em feirante em barraca de vegetais no Ver-o-Peso. 2018. Figura 4.51: Comerciante em frente a banca de pescados no interior do Mercado de Ferro no Ver-o-Peso. 2018. Figura 4.52: Comerciantes de artesanato em baia do Mercado Bolonha no Ver-o-Peso. 2018. Figura 4.53: Área de alimentação no Mercado Bolonha no Ver-o-Peso. 2018. Figura 4.54: Setor da Ervas no Ver-o-Peso. 2021. Figura 4.55: Cartografia sobre setores da Feira do Ver-o-Peso. Figura 4.56: Barcos ancorados em frente ao mercado público de Barcarena/PA. 2019. Figura 4.57: Vista de mercado em Abaetetuba/PA. 2019. Figura 4.58: Vista de dentro de ônibus panorâmico sobre Sevilha. 2022. Figura 4.59: Vista de dentro de ônibus panorâmico sobre Sevilha. 2022. Figura 4.60: Vista de dentro de ônibus panorâmico sobre Sevilha. 2022. Figura 4.61: Vista de dentro de ônibus panorâmico sobre Sevilha. 2022. Figura 4.62: Folheto explicativo sobre rota de ônibus panorâmico em Sevilha. Figura 4.63: Monumento “Triana al Arte Flamenco” na Plaza Atozano em Triana. 2022. Figura 4.64: Ponte de Triana. 2022. Figura 4.65: Turistas atravessam Ponte de Triana. 2022. Figura 4.66: Quiosque com propaganda de passeios turísticos na Calle San Jacinto. 2022. Figura 4.67: Vista sobre Calle Betis. 2022. Figura 4.68: Vista sobre Calle Betis desde Passeo Cristóbal Colón. 2022. Figura 4.69: Vista sobre Calle Pureza em Triana. 2022. Figura 4.70: Vista sobre Calle Pureza em Triana. 2022. Figura 4.71: Tablado em Triana. 2022. Figura 4.72: Tablado em Triana. 2022. Figura 4.73: Cartaz de espetáculo flamenco em Triana. 2022. Figura 4.74: Cartaz de espetáculo flamenco em Triana. 2022.
Figura 4.75: Cartaz de espetáculo flamenco em Triana. 2022. Figura 4.76: Cartaz de espetáculo flamenco em Triana. 2022. Figura 4.77: Cartaz de espetáculo flamenco em Triana. 2022. Figura 4.78: Cartaz de espetáculo flamenco em Triana. 2022. Figura 4.79: Placa indicativa de local de morador famoso em Triana. 2022. Figura 4.80: Placa indicativa de local de morador famoso em Triana. 2022. Figura 4.81: Cartografia representativa de rota programada em linha pontilhada pelo centro histórico de Sevilha e levantamento de pontos de interesse relativos à comercialização do Flamenco. 2022. Figura 4.82: Lojas de roupa flamenca em Sevilha. 2022. Figura 4.83: Lojas de roupa flamenca em Sevilha. 2022. Figura 4.84: Quiosque com comercialização de souvenirs em Sevilha. 2022. Figura 4.85: Quiosque com comercialização de souvenirs em Sevilha. 2022. Figura 4.86: Tablado em Sevilha. 2022. Figura 4.87: Tablado em Sevilha. 2022. Figura 4.88: Teatro Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.89: Centro Cultural Flamenco em Sevilha. 2022. Figura 4.90: Comercialização de souvenirs em Sevilha. 2022. Figura 4.91: Comercialização de souvenirs em Sevilha. 2022. Figura 4.92: Artistas de rua na Plaza de España de Sevilha. 2022. Figura 4.93: Artistas de rua na Plaza de España de Sevilha. 2022. Figura 4.94: Comercialização de souvenirs na Plaza de España de Sevilha. 2022. Figura 4.95: Comercialização de souvenirs na Plaza de España de Sevilha. 2022.
Tabela 1: Hierarquia urbana da cidade de Belém e de Sevilha baseada em teoria do geógrafo Milton Santos. Tabela 2: Somatória de bens que constam na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO divididos por região com base nas informações fornecidas pelo site oficial da UNESCO. LISTA DE TABELAS
SUMÁRIO INTRODUÇÃO 0.1 Procedimentos metodológicos 0.2 Estrutura da tese 1 PATRIMÔNIO CULTURAL: PROCESSO DE REVISÃO E ATUAIS PREMISSAS 1.1 Patrimônio é processo e performance 1.2 A transnacionalização da Memória 1.3 Mundial versus Local 2 PROCESSOS DE PATRIMONIALIZAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DE UM DISCURSO 2.1 O Patrimônio Cultural Imaterial enquanto objeto de conhecimento 2.2 O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 2.3 Autenticidade segundo quem? 3 PATRIMÔNIO URBANO: ENTRE IMPORTÂNCIA HISTÓRICA E VALORIZAÇÃO CULTURAL 3.1 Processos Culturais de (Multi)Territorialização 3.2 A (ur)banalização de territórios culturais 3.3 Conservação urbana e o conceito de autenticidade 4 O PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DE CAMISA HAVAIANA 4.1 (I)material ou (In)tangível? 4.2 A Culinária Amazônica e o Flamenco 4.3 A cidade codificada e a busca pelo autêntico CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS 23 37 42 51 62 73 83 99 107 114 173 189 213 224 268 277 286 293 337 373 398
0.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 0.2 ESTRUTURA DA TESE INTRODUÇÃO
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 24
Introdução 25 El hacha Kàjre es un objeto que tiene alma. Agente ritual del grupo indígena Krahô1, residente en la aldea de Pedra Branca, situada en el nordeste del estado brasileño de Tocantins, el Kàjre se fabrica con una piedra tallada en el Neolítico, de forma semilunar, ligeramente laminada y pintada con urucum, acto que remite al signo de la belleza entre los Krahô (Figura 1). Su origen no es del todo conocido, ya que los Krahô afirman que los antiguos encontraron estas hachas en campos y cascadas, probablemente hechas por sus antepasados, pero los cantos relacionados con el objeto apuntan a sus anteriores propietarios como animales y plantas. Los cantos, responsables de la activación del Kàjre, hablan de disputas por la posesión del hacha entre pueblos enemigos o de su conquista por el héroe Hartãt tras un largo viaje cuyo destino era el fin del mundo. Fue él quien recibió el Kàjre de manos de su antiguo propietario, que se encontraba en lo alto de un árbol, cuando oyó cantar el hacha durante una cacería. El Kàjre está presente en las fiestas del Krahô y es utilizado por los cantores que lo blanden para animar a la gente, motivando actividades cotidianas como la siembra y la caza, siendo parte fundamental de los ritos que marcan el paso de las estaciones. Como tiene alma y está vivo, el Kàjre no puede almacenarse y debe estar siempre en movimiento, nunca quieto. Tiene su propia fuerza, que se activa al ser pintado con urucum, y susurra a la persona que lo sostiene las canciones que debe cantar. El cantor la sujeta por el mango con los brazos levantados o el codo doblado, cuyos movimientos vivifican el hacha junto con los cantos. En situaciones nunca del todo aclaradas, en 1947 el hacha pasó a manos de Harald Schultz, antropólogo del Museu do Ipiranga, responsabilidad de la Universidade de São Paulo. El objeto pasó entonces a formar parte de la colección del museo. Durante años, los Krahô consideraron que el Kàjre había desaparecido, lo que les imposibilitaba realizar los ritos y fiestas con los cantos a él 1 Las actividades de la comunidad pueden seguirse en https://kajre.org/. O machado Kàjre é um objeto que tem alma. Agente ritual do grupo indígena Krahô1, residente da aldeia Pedra Branca, localizada no nordeste do estado brasileiro do Tocantins, a Kàjre é feita com uma pedra lapidada no período neolítico, em formato semilunar levemente laminada e pintada de urucum, ato que remete ao signo de beleza entre os Krahô (Figura 01). Sua origem não é totalmente conhecida, visto que os Krahô afirmam que os antigos encontravam esses machados em roças e cachoeiras, provavelmente confeccionada por seus antepassados, mas os cantos relacionados ao objeto apontam seus donos anteriores como animais e plantas. Os cantos, responsáveis pela ativação da Kàjre, relatam disputas pela posse do machado entre aldeias inimigas ou sua conquista pelo herói Hartãt após uma longa viagem cujo destino era o extremo do mundo. Foi ele quem recebeu a Kàjre das mãos de seu antigo dono, que estava no topo de uma árvore, quando escutou o machado cantando durante uma caçada. A Kàjre está presente nas festividades dos Krahô e é usada pelos cantores que a empunham para animar as pessoas, motivando atividades do cotidiano como o plantio e a caça, sendo parte fundamental dos ritos que marcam a passagem das estações. Por ter alma e estar viva, a Kàjre não pode ficar guardada e deve estar sempre em movimento, nunca parada. Ela tem força própria, acionada ao ser pintada de urucum, e cochicha para quem a está segurando os cânticos a serem entoados. O cantor a segura pelo cabo com os braços erguidos ou com o cotovelo dobrado, cujos movimentos vivificam o machado junto aos cânticos. Em situações nunca totalmente esclarecidas, em 1947 o machado passou às mãos de Harald Schultz, antropólogo do Museu do Ipiranga, de responsabilidade da Universidade de São Paulo. O objeto passou então a fazer parte do acervo do museu. 1 As atividades da comunidade podem ser acompanhadas pelo site https://kajre.org/.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 32 estados nación, y busca comprender cómo, en el contexto postmoderno6, la actualización del discurso patrimonial ha evolucionado hacia la valoración de los bienes culturales intangibles. Anteriormente, el principal interés era que los bienes culturales conservados formaran parte de la formación de las identidades nacionales, y su orientación se dirigía principalmente a los bienes materiales de dimensión monumental. Frente a los procesos de la posmodernidad, como la Mundialización (APPADURAI, 2001), relacionada con la Cultura, la (Multi)territorialidad (HAESBAERT, 2004), relacionada con el Espacio Geográfico, y la Urbanización (MUÑOZ, 2008), relacionada con el tema del Territorio, otros factores influyen en la conceptualización del patrimonio y en las políticas de preservación y salvaguarda, especialmente la reciente valoración de inmaterialidades atribuidas a bienes culturales de diversa naturaleza que antes no se consideraban en el debate. Dado este contexto, se considera en este trabajo que la puesta en valor de los bienes culturales inmateriales ha provocado un carácter específico de empresarialización del territorio cultural, siendo ésta una de las consecuencias de la categorización que divide los bienes 6 El concepto de postmodernidad se considera aquí según el punto de vista de algunos autores, entre ellos LYOTARD (2008), quien sostiene que la postmodernidad se caracteriza por la fragmentación, la diversidad y la pluralidad de perspectivas, y que la realidad se compone de múltiples pequeñas narrativas que no pueden reducirse a una única historia universal. También consideramos aquí la opinión de BAUMAN (2001), quien afirma que esta nueva forma de modernidad se caracteriza por la incertidumbre, la fluidez, el individualismo y la globalización, en la que las relaciones sociales son inestables y cambiantes, y las identidades son fragmentadas y fluidas. También está GIDDENS (1991), que ve la posmodernidad como una era de cambios rápidos y profundos, en la que se cuestionan las tradiciones y se fragmentan las identidades individuales. Por último, se puede citar a HARVEY (2004), que ve la posmodernidad como una época en la que las identidades son fluidas, los valores se relativizan y las formas de cultura se fragmentan y mercantilizan. Para la presente tesis, esta contextualización es importante porque se relaciona directamente con el proceso de revisión en que se encuentra el campo del Patrimonio Cultural, de debilitamiento de las identidades nacionales, así como por las consecuencias de los procesos de patrimonialización para diversos bienes culturales, entre ellos los procesos de turistificación vinculados al consumo de un territorio cultural. Uma das respostas que o campo do Patrimônio tem oferecido para abarcar as demandas que a complexidade do território citadino apresenta é a criação de categorias específicas para o urbano, como a Paisagem Cultural Urbana (RIBEIRO, 2016) ou a Paisagem Urbana Histórica (BANDARIN, 2014). Mas mesmo entre elas há divergências e o estabelecimento dessas categorizações tem envolvido debates em busca da melhor definição e clareza dos critérios a serem utilizados nos processos de patrimonialização. Essas divergências se dão em grande parte devido ao conceito distorcido de imaterialidade que propõe a separação de bens culturais em categorias que não consideram a inseparabilidade de forma e matéria, o que também atinge a análise dos territórios culturais nesse campo do conhecimento. Diante desses questionamentos, esta investigação considera o contexto moderno de formação do conceito de patrimônio, em que a valorização de monumentos estava circunscrita aos territórios definidos pelos estados-nação, e busca compreender como, no contexto pós-moderno6, a atualização do discurso patrimonial evoluiu para a valorização dos bens culturais intangíveis. Anteriormente, o maior interesse era que os bens culturais preservados fizessem parte da formação de identidades nacionais, sendo que seu direcionamento se deu principalmente para bens materiais de dimensão monumental. Frente a processos da pós- -modernidade, como a Mundialização (APPADURAI, 2001), relativa à Cultura, a (Multi)territorialidade (HAESBAERT, 2004), relativa ao Espaço Geográfico, e a Urbanalização (MUÑOZ, 2008), relativa à tematização do Território, outros fatores influenciam a conceituação de patrimônio e as políticas de preservação e salvaguarda, 6 O conceito de pós-modernidade é aqui considerado segundo o ponto de vista de alguns autores, entre eles LYOTARD (2008), que argumenta que a pós-modernidade é caracterizada pela fragmentação, diversidade e pluralidade de perspectivas, e que a realidade é composta de múltiplas pequenas narrativas que não podem ser reduzidas a uma única história universal. Também se considera aqui a visão de BAUMAN (2001) que afirma que essa nova forma de modernidade é caracterizada pela incerteza, fluidez, individualismo e globalização, em que as relações sociais são instáveis e mutáveis, e as identidades são fragmentadas e fluidas. Há ainda GIDDENS (1991), que coloca a pós-modernidade como uma era de mudanças rápidas e profundas, em que as tradições são questionadas e as identidades individuais são fragmentadas. Por fim, pode ser citado HARVEY (2004), que vê a pós-modernidade como uma época em que as identidades são fluidas, os valores são relativizados, e as formas de cultura são fragmentadas e mercantilizadas. Para a tese aqui presente, essa contextualização é importante porque se relaciona diretamente com o processo de revisão em que o campo do Patrimônio Cultural se encontra, de enfraquecimento de identidades nacionais, assim como para as consequências dos processos de patrimonialização para diversos bens culturais, dentre elas os processos de turistificação atrelados ao consumo de um território cultural.
Introdução 33 culturales en función de su materialidad. Lo que se produce es la asimilación de los bienes culturales inmateriales patrimonializados por los procesos de turistificación de los territorios culturales, lo que configura un proceso de empresarización urbana que se apoya en las políticas emprendidas por el ámbito del Patrimonio Cultural7. La complejidad actual radica precisamente en la re-pre- sentación de elementos intangibles de activos que han tenido éxito en sus respectivos procesos de patrimonialización como parte de la planificación estratégica de promoción y valorización de la ciudad. El hecho de que la presentación de estos elementos haga uso del concepto de autenticidad acuñado por el propio ámbito del Patrimonio Cultural completa la cuestión. La definición de autenticidad es objeto constante del debate sobre el Patrimonio Cultural Inmaterial; sin embargo, más que su definición, es importante para esta investigación cómo la noción de autenticidad ha sido aprehendida por este proceso específico de emprendimiento urbano. Frente a la dialéctica existente entre Mundialización y Localismo, en la que las características culturales locales adquieren proyección internacional, lo “original”, aunque fabricado, es uno de los criterios más valiosos para la planificación estratégica del branding urbano. En resumen, para este trabajo consideramos las siguientes hipótesis: • Los procesos de patrimonialización son consecuencia de un discurso construido a partir de intereses específicos; • La noción distorsionada de inmaterialidad desvirtúa la finalidad establecida para las políticas de preservación y salvaguarda; • Los elementos inmateriales referidos a los bienes culturales patrimonializados han servido a procesos de turistificación circunscritos a la acción de promoción de las ciudades; • La noción de autenticidad es uno de los principales pilares que sustentan la valoración de los territorios culturales dentro de esta lógica específica de emprendimiento urbano. Después de 35 años del episodio del hacha de Krahô, se puede afirmar que las definiciones constantes del campo del Patrimonio Cultural están siempre en evolución. Su conceptualización es compleja, pues se trata de un tema cuya comprensión actual recae sobre bienes y valores importantes para determinados grupos o comunidades y su preservación debe obedecer al universo en que cada bien se inserta, lo que ha sido orientado por el debate sobre la salvaguardia del Patrimonio Cultural 7 Los procesos de turistificación en territorios culturales y el emprendimiento urbano son conceptos desarrollados a lo largo del capítulo 4 de esta tesis. em especial a recente valorização das imaterialidades atribuídas a bens culturais de diversas naturezas que não eram anteriormente considerados no debate. Diante desse contexto, considera-se neste trabalho que a valorização dos bens culturais imateriais provocou um caráter específico de empresariamento do território cultural, sendo essa uma das consequências da categorização que divide bens culturais de acordo com sua materialidade. O que ocorre é a assimilação de bens culturais imateriais patrimonializados pelos processos de turistificação em territórios culturais, o que configura um processo de empresariamento urbano que se apoia nas políticas empreendidas pelo campo do Patrimônio Cultural7. A complexidade atual está, justamente, na reapresentação de elementos imateriais de bens que tiveram êxito nos seus respectivos processos de patrimonialização como parte do planejamento estratégico de promoção e valorização da cidade. Completa a questão o fato de que a reapresentação desses elementos se utiliza do conceito de autenticidade cunhado pelo próprio campo do Patrimônio Cultural. A definição de autenticidade é objeto constante do debate que vem se travando a respeito do Patrimônio Cultural Imaterial, porém, mais do que sua definição, importa para essa investigação a forma como a noção de autenticidade vem sendo apreendida por esse processo específico de empresariamento urbano. Diante da dialética existente entre Mundialização e Localismo, em que características culturais locais adquirem projeção internacional, o “original”, mesmo que fabricado, é um dos critérios que mais apresenta valor para o planejamento estratégico de marca urbana. Em síntese, para este trabalho considera-se enquanto hipóteses: • Os processos de patrimonialização são consequentes de um discurso construído a partir de interesses específicos; • A noção distorcida de imaterialidade prejudica o propósito estabelecido para políticas de preservação e salvaguarda; • Elementos imateriais referentes a bens culturais patrimonializados tem servido a processos de turistificação circunscritos à ação de promoção de cidades; 7 Processos de turistificação em territórios culturais e empresariamento urbano são conceitos desenvolvidos ao longo do capítulo 4 dessa tese.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 34 Inmaterial. Su reconocimiento, sin embargo, es el resultado de una construcción histórica y está directamente relacionado con la memoria y la identidad cultural vinculada al lugar en el que se presentan. Los bienes culturales, desde este punto de vista, se han mostrado como un recurso de variados usos que cualifican el territorio, configurando intereses que muchas veces sirven a la retórica del capital. Corresponde a la investigación científica identificar estos procesos y sus causas. • A noção de autenticidade é um dos principais pilares que sustentam a valorização de territórios culturais dentro dessa lógica específica de empresariamento urbano. Passados 35 anos desde o episódio do machado Krahô, pode-se dizer que as definições constantes do campo do Patrimônio Cultural estão sempre em evolução. É complexa a sua conceituação, visto que este é um tema cujo entendimento atual recai sobre bens e valores importantes para determinados grupos ou comunidades e sua preservação deve obedecer ao universo em que cada bem está inserido, o que tem sido pautado pelo debate acerca da salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. O seu reconhecimento, no entanto, é resultado de uma construção histórica e se relaciona diretamente com a memória e identidade cultural vinculados ao lugar em que se apresentam. Os bens culturais, desse ponto de vista, tem se mostrado um recurso de usos variados que qualificam o território, configurando interesses que servem muitas vezes à retórica do capital. Cabe à pesquisa científica a identificação desses processos e suas causas.
Introdução 35 Figura 0.02: Cartografia realizada durante processo investigativo sobre elementos presentes no Complexo Ver-o-Peso. 2021. Fonte: Elaboração própria.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 36 Figura 0.03: Cartografia realizada durante processo investigativo sobre elementos presentes no bairro de Triana. 2023. Fonte: Elaboração própria.
0.1 . Procedimentos metodológicos 37 0.1 Procedimientos metodológicos WTeniendo en cuenta las preguntas e hipótesis señaladas en la Introducción y que guiaron el curso de esta investigación, que optó por un enfoque cualitativo de carácter exploratorio, se pueden señalar tres focos principales de actuación, enumerados a continuación en relación con los procedimientos metodológicos adoptados. Esta investigación se desarrolló en el contexto del Convenio Académico Internacional para la Doble Titulación de Doctorado firmado entre la Universidade de São Paulo, en interés del Instituto de Arquitetura e Urbanismo, y la Universidad de Sevilla, en interés de la Escuela Internacional de Doctorado de la Universidad de Sevilla. 1. Análisis teórico sobre los procesos sociales, culturales, económicos y políticos que transforman la Ciudad Contemporánea, así como sobre el ámbito del Patrimonio Cultural. Como herramientas se utilizaron la revisión bibliográfica y el relevamiento de material primario. • La Revisión Bibliográfica se dividió en cuatro temas fundamentales: la Ciudad Contemporánea, el Patrimonio Cultural, Belém y la Amazonia, y Sevilla y Andalucía. En cuanto a la Ciudad Contemporánea, se priorizaron lecturas sobre procesos como la Urbanización (MUÑOZ, 2008), la Containerización (SOLÀ-MORALES, 2008) y la Mundialización (APPADURAI, 2001; ORTIZ, 2017). En cuanto al Patrimonio Cultural, se destaca el aporte teórico referido al Patrimonio Cultural Inmaterial y cuestiones relacionadas con este tema que interesaron a la hipótesis principal (FLUSSER, 2007; MENESES, 2012; SMITH, 2006). Parte de este paso fue la lectura de trabajos académicos desarrollados sobre Belém y el territorio del Ver-o-Peso, especialmente a partir de su conjunto de bienes culturales y procesos de patrimonialización (LIMA, 2008; GODINHO, 2019). Del mismo modo, fueron lecturas clave sobre Sevilla y el barrio de Triana (MORGADO, 1994; DÍAZ GARRIDO, 2004)8. • Concomitantemente con la revisión bibliográfica, se realizó un Levantamiento de Material Primario en archivos específicos para obtener datos sobre la constitución urbana de los territorios en estudio, especialmente sobre la trama urbana de la ciudad histórica, la región donde se localizan los objetos señalados en este plan, y cartografías que ayudan a la comprensión del territorio 8 En el punto “Estructura de Tesis” se señalan detalladamente los autores utilizados como referencia durante la investigación. 0.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Em vista dos questionamentos e hipóteses apontados na Introdução e que guiaram o percurso dessa investigação, que optou pela abordagem qualitativa de caráter exploratório, podem ser apontados três focos principais de atuação, listados abaixo no que diz respeito aos procedimentos metodológicos adotados. Pontua-se que essa investigação se deu no contexto do Convênio Acadêmico Internacional para Dupla Titulação de Doutorado firmado entre a Universidade de São Paulo, no interesse do Instituto de Arquitetura e Urbanismo, e a Universidad de Sevilla, no interesse da Escuela Internacional de Doctorado da Universidad de Sevilla. 1. Análise teórica sobre processos sociais, culturais, econômicos e políticos transformadores da Cidade Contemporânea, assim como no que diz respeito ao campo do Patrimônio Cultural. Enquanto ferramentas, foram utilizadas a revisão bibliográfica e o levantamento de material primário. • A Revisão Bibliográfica realizada foi dividida em quatro temas fundamentais, sendo eles Cidade Contemporânea, Patrimônio Cultural, Belém e a Amazônia e Sevilha e a Andaluzia. Quanto à Cidade Contemporânea, foram priorizadas leituras sobre processos como a Urbanalização (MUÑOZ, 2008), Containerização (SOLÀ-MORALES, 2008) e Mundialização (APPADURAI, 2001; ORTIZ, 2017). Quanto ao Patrimônio Cultural, destaca-se o aporte teórico referente ao Patrimônio Cultural Imaterial e questões relativas a esse tema que fossem interessantes à hipótese principal (FLUSSER, 2007; MENESES, 2012; SMITH, 2006). Fez parte dessa etapa a leitura de trabalhos acadêmicos desenvolvidos sobre Belém e o território do Ver-o-Peso, especialmente a partir do seu conjunto de bens culturais e processos de patrimonialização (LIMA, 2008; GODINHO, 2019). Da mesma forma, essas foram chaves de leitura sobre Sevilha e o bairro de Triana (MORGADO, 1994; DÍAZ GARRIDO, 2004)8. • Concomitante à revisão bibliográfica, foi realizado Levantamento de Material Primário em arquivos específicos, a fim de obter dados relativos à constituição urbana dos territórios de estudo, especialmente sobre o tecido urbano da cidade histórica, região em que se 8 O próximo item pré-textual do texto, Estrutura da Tese, aponta mais detalhadamente os autores utilizados como referências durante a investigação.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 38 en estudio, a saber, en territorio brasileño: Archivo Público del estado de Pará; hemerotecas; archivos institucionales; bases de datos e índices económicos (IBGE, SEADE, DIEESE). En territorio español se accedió a bibliotecas de la ciudad de Sevilla, a saber: Biblioteca de Arquitectura, Biblioteca de Bellas Artes, Biblioteca Rector Machado (Fondo Antiguo y Archivo Histórico) y Biblioteca de Humanidades. Las bases de datos electrónicas fueron fundamentales para la consulta de los documentos producidos por los organismos de conservación, esenciales para el desarrollo de la investigación. 2. La Investigación de campo se llevó a cabo sobre estudios de casos mediante la observación de hechos y fenómenos tal y como ocurren en la realidad, con recogida de datos, análisis e interpretación de los resultados relativos a estos objetos. Como herramientas se utilizaron la observación participante simple y las entrevistas semiestructuradas. • La Observación Participante Simple realizada en los territorios de estudio permite obtener elementos para la definición completa del problema de investigación; favorece la confirmación de hipótesis sobre el problema de investigación; y facilita la obtención de datos sin producir suspicacia en los miembros de las comunidades, grupos o instituciones estudiadas. La investigación de campo en el Complexo Ver-o-Peso se realizó de manera sistemática durante los primeros cuatro años de la investigación, 2018 a 2021, y la sistematización de los datos recolectados permitió identificar los perfiles identitarios de ese lugar, las relaciones socioeconómicas que allí se establecen, los afectos que rigen su cotidianidad y los intangibles utilizados en los procesos abordados en esta investigación, por ejemplo, la gastronomía paranaense y sus diferentes presentaciones en distintos lugares de este territorio. La investigación de campo en Triana se realizó en el primer semestre de 2022, durante el periodo de estancia en la ciudad de Sevilla, cuando se identificaron los perfiles identitarios originarios de este lugar y los cambios socioeconómicos provocados por el proceso de turistificación que afecta al entorno urbano de este lugar. • De acuerdo con el carácter cualitativo y exploratorio de la investigación, se adoptaron entrevistas semiestructuradas. Este método permite que la conversación se desarrolle sin seguir totalmente la misma dirección, con la posibilidad de cambiar el orden de las preguntas o incluso modificaciones a medida que evoluciona la entrevista, lo que se reveencontram os objetos apontados nesse plano, e cartografias que ajudem na compreensão do território em estudo, a saber, em território brasileiro: Arquivo Público do estado do Pará; arquivos de jornais; arquivos institucionais; base de dados econômicos e índices (IBGE, SEADE, DIEESE). Em território espanhol foram acessadas bibliotecas da cidade de Sevilha, sendo elas a Biblioteca de Arquitectura, Biblioteca de Bellas Artes, Biblioteca Rector Machado (Fondo Antiguo y Archivo Histórico) e Biblioteca de Humanidades. Bases eletrônicas de dados foram essenciais para a consulta dos documentos produzidos por órgãos de preservação, essenciais para o desenvolvimento da investigação. 2. Foi realizada Pesquisa de Campo sobre os estudos de caso por meio da observação de fatos e fenômenos da maneira como ocorrem na realidade com coleta de dados, análise e interpretação dos resultados referentes a esses objetos. Enquanto ferramentas, foram utilizadas a observação participante simples e as entrevistas semiestruturadas. • A Observação Participante Simples efetuada nos territórios de estudo possibilita a obtenção de elementos para a completa definição do problema de pesquisa; favorece a confirmação de hipóteses acerca do problema pesquisador; e facilita a obtenção de dados sem produzir suspeitas nos membros das comunidades, grupos ou instituições que estão sendo estudadas. A pesquisa de campo no Complexo Ver-o-Peso aconteceu de forma sistemática durante os primeiros quatro anos de investigação, 2018 a 2021, e a sistematização dos dados coletados permitiu a identificação dos perfis identitários daquele local, das relações socioeconômicas ali estabelecidas, dos afetos que regem o seu cotidiano e das intangibilidades utilizadas nos processos abordados nesta pesquisa, a exemplo da culinária paraense e suas diferentes apresentações em lugares distintos desse território. A pesquisa de campo em Triana aconteceu durante o primeiro semestre de 2022, durante período de estadia na cidade de Sevilha, quando foram identificados perfis identitários originários deste lugar e mudanças socioeconômicas trazidas pelo processo de turistificação que afetam o ambiente urbano deste local. • As Entrevistas Semiestruturadas foram adotadas de acordo com o caráter qualitativo e exploratório da pesquisa. Este método permite que a conversa seja conduzida sem seguir totalmente uma mesma direção, com a
0.1 . Procedimentos metodológicos 39 la adecuado dado el contenido de lo que se pretendía analizar. En Belém, se mantuvieron entrevistas con la Prof. Maria Goretti da Costa Tavares (UFPA), el Prof. Juliano Pamplona Ximenes Ponte (UFPA), Mário Lima (presidente del Instituto Ver-o-Peso) y Maria Dorotéa de Lima (IPHAN). En Sevilla, se mantuvieron entrevistas con el Prof. Ivan Periañez Bolaño (Universidad de Sevilla) y la Prof. Maria Angeles Castaño Madroñal (Universidad de Sevilla). 3. La Cartografía como método para la comprensión de los objetos de estudio, siendo las Cartografías Sensibles la principal herramienta utilizada. • Las Cartografías Sensibles, frente a los afectos e intangibilidades, se mostraron como la mejor herramienta para la comprensión de los espacios estudiados, en la medida en que permite una mirada sobre lo que está más allá de la comprensión del propio urbanismo, muchas veces restringido a conceptos sin la búsqueda del conocimiento de la alteridad. La producción de la diferencia utiliza un repertorio transversal sobre otros campos de conocimiento, como el arte, la historia, la política, la cultura y las relaciones personales, que representa directamente la concepción antropológica actual de la cultura. El levantamiento fotográfico, en este sentido, sirvió no sólo para registrar los lugares visitados, sino también para allanar el camino a los elementos que componen cada conjunto de bienes culturales objeto de estudio. No se pretendió, durante la investigación, mapear todo el Patrimonio encontrado, que es vasto y cuyo levantamiento completo no cabría en el cronograma disponible. Por lo tanto, los productos resultantes de este viaje, que pretendía ser una cartografía sensible, incluyendo fotografías y piezas gráficas, se presentan a lo largo de los capítulos del texto. Por último, es fundamental aclarar que la elección de los objetos de estudio se debió principalmente a la identificación de bienes del patrimonio intangible que enfrentan procesos de patrimonialización, como la Cocina Amazónica y el Flamenco, y respectivos territorios culturales insertos en la lógica del emprendimiento urbano, como el Complexo Ver-o-Peso y el Barrio de Triana. Esta investigación consideró que los territorios culturales han sido re-presentados por los discursos dominantes como símbolos de los intangibles allí presentes, y sus bienes culturales son exhibidos en función del valor de la autenticidad. El Complexo Ver-o-Peso es un territorio brasileño que alberga mercados públicos y cuya formación es intrínseca a su principal activo cultural, la gastronomía possibilidade de alteração da ordem das perguntas ou até modificações conforme a entrevista vai evoluindo, o que se mostra adequado frente ao teor do que se buscava analisar. Em Belém, foram realizadas entrevistas com Profa. Maria Goretti da Costa Tavares (UFPA), Prof. Juliano Pamplona Ximenes Ponte (UFPA), Mário Lima (Presidente do Instituto Ver-o-Peso) e Maria Dorotéa de Lima (IPHAN). Em Sevilha, foram realizadas entrevistas com Prof. Ivan Periañez Bolaño (Universidad de Sevilla) e Profa. Maria Angeles Castaño Madroñal (Universidad de Sevilla). 3. Confecção de Cartografias como método para o entendimento dos objetos de estudo, sendo as cartografias sensíveis a principal ferramenta utilizada. • As Cartografias Sensíveis, perante afetos e intangibilidades, se mostrou como a melhor ferramenta para a compreensão dos espaços estudados na medida em que permite um olhar sobre o que está além da compreensão sobre o próprio urbanismo, muitas vezes restrito a conceitos sem a busca do conhecimento sobre a alteridade. A produção da diferença se utiliza de um repertório transversal sobre outros campos de conhecimento, como arte, história, política, cultura e relações pessoais, o que representa diretamente a atual concepção antropológica da cultura. O levantamento fotográfico, nesse sentido, serviu não apenas para o registro dos locais visitados, como também para pavimentar percursos referentes aos elementos que compõem cada conjunto de bens culturais em estudo. Não se pretendeu, durante a investigação, mapear todo o Patrimônio encontrado, que são vastos e cujo levantamento completo não caberia no cronograma disponível. Sendo assim, os produtos resultantes desse percurso que se pretendeu uma cartografia sensível, dentre elas fotografias e peças gráficas, estão dispostos ao longo dos capítulos do texto. Por fim, é essencial esclarecer que a eleição dos objetos de estudo se deu principalmente pela identificação de bens patrimoniais intangíveis que enfrentam processos de patrimonialização, a exemplo da Culinária Amazônica e do Flamenco, e respectivos territórios culturais inseridos na lógica de empresariamento urbano, a exemplo do Complexo Ver-o-Peso e do Bairro de Triana. Essa investigação considerou que territórios culturais tem sido reapresentados por discursos predominantes enquanto
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 40 amazónica. Los mercados son espacios de intercambio que siempre han desempeñado un papel importante en el proceso de desarrollo de las ciudades, tanto en el origen de los primeros asentamientos de población como en las transformaciones que estos territorios han sufrido a lo largo del tiempo. Mercados callejeros conforman la identidad de muchas ciudades, siendo un elemento urbano esencial que permanece en las ciudades contemporáneas, tanto por la escala del edificio como por su relación con la ciudad. El Ver-o-Peso de Belém mantiene esta importancia, habiendo sido un espacio de comercio desde el origen de la ciudad, y como varios otros mercados públicos, alberga allí referencias a perfiles identitarios que conforman una cultura. Ver-o-Peso es visto como un punto de encuentro entre lo rural y lo urbano, el continente y el río, el asfalto y la selva, lo ribereño y lo belenense. Allí se venden productos que forman parte de la gastronomía amazónica, y la cocina paraense es reconocida por los organismos de preservación como un bien que hay que salvaguardar. Ante la creciente preocupación por la preservación de la biodiversidad amazónica, una cocina cuya peculiaridad proviene de su vínculo con la naturaleza y de los atributos de la cultura indígena es, naturalmente, objeto de atención y la principal razón de la consolidación de Belém como destino en el segmento del turismo gastronómico. Otro objeto de estudio es el barrio de Triana, territorio español con una historia milenaria, que mantiene una conexión territorial con la ciudad de Sevilla a través de un puente desde la época islámica. Existe una intensa relación con los recursos que ofrece el río, como el barro para el arte cerámico, tradicional en el barrio, que forma parte del conjunto de bienes culturales inmateriales de este lugar, así como el Flamenco, expresión artística formada por voz, baile y acompañamiento musical que también es reconocida por los organismos de conservación como un bien a salvaguardar. Triana fue cuna y hogar de artistas flamencos y por ello se presenta constantemente como el lugar original de este arte. Teniendo en cuenta el vínculo entre los bienes culturales y el territorio urbano, podemos considerar que, al igual que la ciudad contemporánea es un lugar en constante cambio, también lo son los organismos que la utilizan y se relacionan con ella, formando un círculo de transformaciones mutuas. El Flamenco como arte, como estado de ánimo, se trata también de experiencias sensoriales en el espacio, lo que nos lleva a pensar que forma Triana, así como es formado por ella. Por último, los objetos de estudio presentan realidades en las que se han podido observar los bienes culturales tanto materiales como intangibles reconocidos por el discurso del Patrimonio Cultural y la relación entre ellos, así como su acción sobre el territorio. símbolos das intangibilidades ali presentes, sendo seus bens culturais expostos de acordo com o valor de autenticidade. O Complexo Ver-o-Peso é um território brasileiro que abriga mercados públicos e tem sua formação intrínseca ao seu principal bem cultural, a culinária amazônica. Os mercados são espaços de trocas que sempre tiveram um papel importante no processo de desenvolvimento das cidades, tanto na origem dos primeiros assentamentos populacionais quanto nas transformações que estes territórios sofreram ao longo do tempo. Mercados e Feiras perfazem a identidade de muitas cidades, sendo um elemento urbano essencial que permanece nas cidades contemporâneas, tanto no que diz respeito à escala do edifício, quanto a sua relação com a cidade. O Ver-o-Peso em Belém detém essa importância, tendo sido espaço de trocas desde a origem da cidade, e assim como diversos outros mercados públicos, abriga ali referências a perfis identitários que compõem uma cultura. O Ver-o-Peso é tido como ponto de encontro entre o rural e o urbano, o continente e o rio, o asfalto e a floresta, o ribeirinho e o belenense. São ali comercializados produtos que perfazem parte da culinária amazônica, sendo a culinária paraense reconhecida pelos órgãos de preservação como bem a ser salvaguardado. Diante da crescente preocupação pela preservação da biodiversidade amazônica, uma culinária cuja peculiaridade provém do seu elo com a natureza e dos atributos da cultura indígena é naturalmente objeto de atenção e principal motivo da consolidação de Belém como destino no segmento do turismo gastronômico. Outro objeto de estudo é o bairro de Triana, território espanhol de história milenar, que mantém uma ligação territorial com a cidade de Sevilha por meio de uma ponte desde a época islâmica. Há intensa relação com os recursos oferecidos pelo rio, como por exemplo a argila para a arte ceramista, tradicional do bairro, que faz parte do conjunto de bens culturais imateriais deste lugar, assim como o Flamenco, expressão artística formada por voz, dança e acompanhamento musical que também é reconhecido por órgãos de preservação como bem a ser salvaguardado. Triana foi local de nascimento e moradia de artistas do Flamenco e, por isso, constantemente apresentada como local original dessa arte. Considerando a ligação dos bens culturais ao território urbano, pode-se considerar que, assim como a cidade contemporânea é local de constante mudança, também são mutantes os corpos que a utilizam e se relacionam com ela perfazendo um círculo de transformações mútuas. O Flamenco enquanto arte, enquanto estado de espírito, diz respeito também a experiências sensoriais perante o espaço, o que leva a crer que é formador de Triana, assim como por ela é formado. Por fim, os objetos de estudo apresentam realidades em que puderam ser observados bens culturais tanto materiais quan-
0.1 . Procedimentos metodológicos 41 to intangíveis reconhecidos pelo discurso do Patrimônio Cultural e a relação entre eles, assim como sua ação sobre o território.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 48 la industria cultural. Señala que las políticas culturales andaluzas han reconfigurado las formas expresivas, de sociabilidad, de aprendizaje y de transmisión del Flamenco, lo que tiene consecuencias en sus significados vernáculos. En cuanto a la gastronomía paraense y el turismo en la región, afirma que las políticas públicas han buscado promover la cocina local como una de las más auténticas y diversas de Brasil. Sin embargo, hay críticas en relación con la mercantilización de este patrimonio cultural y la homogeneización de la cultura que puede ocurrir debido a las demandas turísticas. La cocina amazónica se asocia a menudo con los estados de Amazonas y Pará, y el término “cocina paraense” se utiliza para referirse a la cocina típica de Belém y región, que presenta características mixtas e influencias de diferentes culturas. Por último, la patrimonialización sólo es posible cuando la cultura se aparta de la vida cotidiana, lo que puede afectar a la relación de los portadores con sus bienes culturales. El subcapítulo 4.3, “La ciudad codificada y la búsqueda de lo auténtico”, aborda la búsqueda de diferenciación de los destinos turísticos mediante la construcción de una imagen espectacularizada para la comercialización de los bienes culturales (RICHARDS, 2022). Esta simplificación de los bienes culturales intangibles ligados a cada caso de estudio y a la urbanidad de las ciudades (ORELLANA, 2011) se realiza para hacerlos más consumibles. Postula que la ciudad codificada es un produc- to de consumo a tiempo reducido, fabricado a través de rutas de visita programadas a partir de la diversidad de elementos culturales que puede ofrecer cada territorio a explotar económicamente (DELGADO, 2020). Se concluye que el turismo cultural es, de hecho, un fenómeno político, ya que implica la promoción y venta de elementos culturales seleccionados por los destinos para atraer turistas (AMARAL FILHO, 2016; PERIAÑEZ BOLAÑO, 2018; VIEIRA, 2019). La autenticidad y la propiedad de la cultura que se vende a los turistas son valores clave en este proceso, y las ciudades suelen disputarse el origen de elementos culturales como la comida y la danza para reforzar su identidad y atraer turistas (GARCÍA-ALMEI- DA, 2019). Los activos culturales intangibles son especialmente relevantes en este contexto, ya que la transferencia de conocimientos es esencial para que los turistas experimenten y aprecien estos elementos culturales. Sin embargo, la autenticidad puede distorsionarse o perderse durante este proceso, lo que afecta a la competitividad del destino a largo plazo. Por lo tanto, es importante que los destinos turísticos trabajen para preservar la autenticidad de los bienes culturales inmateriales al tiempo que los promocionan entre los turistas. Por último, las Consideraciones finales repasan los principales conceptos y cuestiones planteados a lo largo de los capítulos y los relacionan con las hipótesis planteadas, además de aplicar toda la aportación teórica construida sobre los territorios de estudio. Las Referencias se dividieron de modo que los diferentes tipos de documentos ocupen categorías relacionadas con su uso a lo largo del texto, como textos académicos, documentos ofireza conceitual no patrimônio cultural pode levar a distorções e relativização de valores, assim como à ampliação excessiva do que é considerado cultural e passível de preservação (NERY E BAETA, 2015; CORZO SÁNCHEZ, 2008). Os autores apontam uma possível crise nesse sentido e sugerem uma maior precisão conceitual e uma abordagem interdisciplinar para a preservação do patrimônio. Há, portanto, uma distorção do conceito de imaterialidade na construção de imagens no Patrimônio Cultural, que contribui para a lógica de espetacularização da cidade. O Subcapítulo 4.2, “A Culinária Amazônica e o Flamenco”, caracteriza os bens culturais intangíveis que fazem parte do Patrimônio Cultural dos territórios de estudo no contexto de processos de patrimonialização, como o título de Cidade Criativa da UNESCO (CRUCES ROLDÁN, 2012; VEGA, 2016; PERIÁÑEZ BOLAÑO, 2017, 2018; REIS, 2012; MACÊDO, 2009, 2016; JAQUES, 2015; ANDRADE, 2014; BORTOLOTTO, 2021, 2011). Analisa consequências negativas da patrimonialização do Flamenco, como a perda de singularidades culturais dos grupos detentores desse patrimônio cultural, transformando-o em produto para a indústria cultural. Aponta que as políticas culturais andaluzas têm reconfigurado as formas expressivas, de sociabilidade, aprendizagem e transmissão do Flamenco, o que tem consequências para seus significados vernáculos. Quanto à gastronomia paraense e o turismo na região, coloca que as políticas públicas têm buscado promover a culinária local como uma das mais autênticas e diversificadas do Brasil. No entanto, há críticas em relação à mercantilização desse patrimônio cultural e à homogeneização da cultura que pode ocorrer em função das demandas turísticas. A culinária amazônica é frequentemente associada aos estados do Amazonas e Pará, sendo que o termo “culinária paraense” é usado para se referir à cozinha típica de Belém e região, que apresenta características mestiças e influências de diferentes culturas. Por fim, a patrimonialização é possível somente quando a cultura é removida do cotidiano, o que pode afetar a relação dos portadores com seus bens culturais. O Subcapítulo 4.3, “A cidade codificada e a busca pelo autêntico”, aborda a busca pela diferenciação de destinos turísticos por meio da construção de uma imagem espetacularizada para a comercialização de bens culturais (RICHARDS, 2022). Essa simplificação dos bens culturais imateriais atrelados a cada estudo de caso e da urbanidade das cidades (ORELLANA, 2011) é feita para torná-los mais consumíveis. Coloca que a cidade codificada é um produto de consumo a tempo reduzido, fabricado mediante rotas programadas de visitação com base na diversidade de elementos culturais que cada território a ser explorado economicamente pode oferecer (DELGADO, 2020). Conclui que o turismo cultural é, de fato, um fenômeno político, pois envol-
0.2 . Estrutura da tese 49 ciales e información producida por organismos de preservación, legislación, sitios web, filmografía y discografía. ve a promoção e venda de elementos culturais selecionados pelos destinos para atrair turistas (AMARAL FILHO, 2016; PERIAÑEZ BOLAÑO, 2018; VIEIRA, 2019). A autenticidade e a titularidade da cultura vendida aos turistas são valores fundamentais nesse processo, e cidades muitas vezes disputam a origem de elementos culturais como alimentos e danças para reforçar sua identidade e atrair turistas (GARCÍA-ALMEIDA, 2019). Os bens culturais intangíveis são especialmente relevantes nesse contexto, pois a transferência de conhecimento é essencial para que os turistas possam vivenciar e apreciar esses elementos culturais. No entan- to, a autenticidade pode ser distorcida ou perdida durante esse processo, o que afeta a competitividade do destino a longo prazo. Portanto, é importante que os destinos turísticos trabalhem para preservar a autenticidade dos bens culturais intangíveis, ao mesmo tempo em que os promovem para os turistas. Por fim, as Considerações Finais percorrem os principais conceitos e questionamentos levantados ao longo dos capítulos e os relaciona com as hipóteses levantadas, assim como aplica todo o aporte teórico construído sobre os territórios de estudo. As Referências foram divididas de forma que diferentes tipos de documentos ocupem categorias relativas à sua utilização ao longo do texto, sendo elas textos acadêmicos, documentos e informações oficiais produzidos por orgãos de preservação, legislação, websites, filmografia e discografia.
Capítulo 1 1.1 PATRIMÔNIO É PROCESSO E PERFORMANCE 1.2 A TRANSNACIONALIZAÇÃO DA MEMÓRIA 1.3 MUNDIAL VERSUS LOCAL PROCESSO DE REVISÃO E PATRIMÔNIO CULTURAL: ATUAIS PREMISSAS
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 52
1. Patrimônio Cultural: processo de revisão e atuais premissas 53 En Belém, en Brasil, es costumbre acercarse a un local en el que ondea una bandera roja y comprar litros de açaí para el almuerzo familiar. Cuando se está en casa, cada uno consume el açaí a su manera: a la hora de comer se sirve como acompañamiento, pero también se come con azúcar, con harina, con tapioca. En Sevilla, en España, alguien llega a casa y cuelga en el tendedero el vestido de fiesta, comprado especialmente para la ocasión. La fiesta se celebra una vez al año, desde 1847, en una ciudad engalanada, donde se come pescado frito y las calles llevan nombres de toreros. ¿Qué es lo que, en estas dos ocasiones, configura el Patrimonio Cultural y es susceptible de conservación? De hecho, la respuesta a esta pregunta es que depende de los criterios establecidos para analizar la cuestión. Los criterios, a su vez, se definen a partir del contexto en el que se encuentran. Volviendo a la evolución del patrimonio como concepto, se puede afirmar que hay un largo camino por recorrer entre la valoración de los aspectos históricos y artísticos de los bienes patrimoniales y la definición actual de Patrimonio Cultural. Actualmente, existe consenso sobre el hecho de que el Patrimonio Cultural es la expresión de las formas de vida de grupos y comunidades, cuyas prácticas y conocimientos se transmiten de generación en generación, incluyendo objetos, costumbres, lugares, expresiones artísticas y valores. La actividad humana, al producir representaciones materiales de sistemas de valores, tradiciones y formas de vida en su conjunto, conforma este patrimonio, que contiene huellas visibles y tangibles de la antigüedad, pero también bienes culturales de carácter intangible. A la vista de las situaciones descritas, considerando lo que puede ser elegido Patrimonio Cultural en la actualidad, tanto la forma de consumir un alimento como una fiesta pueden ser categorizados como bienes culturales susceptibles de preservación. Es esencial reconocer que el origen de la palabra “patrimonio” se refiere a estructuras familiares, económicas y jurídicas y está relacionado con lo que puede dejarse en herencia, es decir, pasar de unos a otros. Esta primera idea, de propiedad y titularidad, se modifica en el contexto de la valorización de las antigüedades naciona- Em Belém, no Brasil, é costume caminhar até um local que ostenta uma bandeira vermelha e comprar litros de açaí para o almoço da família. Quando em casa, cada um consome o açaí de um jeito: no almoço serve como acompanhamento, mas também se come com açúcar, com farinha, com tapioca. Em Sevilha, na Espanha, alguém chega em casa e pendura no varal o vestido da festa, comprado especialmente para a ocasião. A festa acontece uma vez por ano desde 1847 numa cidade decorada, onde se come peixe frito e as ruas têm nomes de toureiros. O que, nessas duas ocasiões, configura Patrimônio Cultural e é passível de preservação? Na verdade, a resposta para essa pergunta é que depende dos critérios estabelecidos para analisar a questão. Os critérios, por sua vez, são definidos a partir do contexto em que se encontram. Voltando-se para o desenvolvimento do patrimônio enquanto conceito, pode-se afirmar que há um longo caminho percorrido entre a valorização de aspectos históricos e artísticos dos bens patrimoniais até a atual definição de Patrimônio Cultural. Atualmente, há consenso sobre o fato de que Patrimônio Cultural é a expressão de maneiras de viver de grupos e comunidades, cujas práticas e saberes são transmitidos de geração em geração, incluindo objetos, costumes, lugares, expressões artísticas e valores. A atividade humana, ao produzir representações materiais de sistemas de valores, tradições e modos de vida como um todo, perfaz esse patrimônio, que contém vestígios de antiguidade visíveis e tangíveis, mas também bens culturais de natureza intangível. Diante das situações descritas acima, considerando o que pode ser eleito Patrimônio Cultural atualmente, tanto a forma de consumo de um alimento quanto uma festa podem ser categorizados como bens culturais passíveis de preservação. É essencial reconhecer que a origem da palavra “patrimônio” se remete a estruturas familiares, econômicas e jurídicas e se relaciona com aquilo que pode ser deixado como herança, ou seja, passado de um a outro. Esta primeira ideia, de proprie-
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 54 Figura 1.02: Vestido flamenco pendurado no varal. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 1.01: Bandeira vermelha indicativa de comercialização de açaí. 2018. Fonte: Arquivo pessoal.
1. Patrimônio Cultural: processo de revisão e atuais premissas 55 les en el siglo XVIII, en el que se presta mayor atención a sus vestigios a través de la noción de tombamento. El tombamento es una medida de preservación del Patrimonio Cultural que consiste en la identificación y protección de bienes culturales cuya protección puede ser alcanzada por medio de leyes, reglamentos y políticas públicas. Está directamente relacionado con la noción de valor nacional, ya que la identificación de los bienes culturales que merecen ser preservados desde esta perspectiva se basa en criterios que tienen en cuenta la importancia de dichos bienes para la construcción de la identidad y la memoria colectiva. Así, el proceso de descolonización se entiende como una forma de reconocer y valorar la cultura y el patrimonio de una nación. Es en este contexto que el acto de preservar el patrimonio adquirió un fuerte atractivo identitario, impulsado por las narrativas nacionales, cuando el carácter individual de la posesión del patrimonio pasó, entonces, al carácter colectivo de la memoria nacional. Los criterios de análisis de los bienes culturales tuvieron entonces valores relacionados con este contexto. El concepto de Patrimonio Cultural, por tan- to, surgió como un conjunto de bienes que cuentan la historia y reflejan la identidad cultural de una comunidad o nación. La formación de estos elementos está vinculada a la forma en que esta comunidad se imagina y define a sí misma, construyendo una narrativa fundacional que define el ideal de un pueblo. Las identidades nacionales, a su vez, se reconstruyen y deconstruyen constantemente en relación con la memoria de los acontecimientos. Lo que se elige como Patrimonio Cultural de una comunidad sirve para construir y sostener su narrativa, ratificando su identidad y reflejando sus valores culturales. HALL (2006, 50) afirma que tres conceptos fueron fundamentales para la construcción de la identidad nacional como comunidad imaginada, a saber, los recuerdos del pasado, el deseo de vivir juntos y la perpetuación del patrimonio. La comunidad imaginada se refiere a las comunidades políticas o sociales que existen principalmente en la imaginación de las personas. Estas comunidades no están formadas por lazos de convivencia o contacto directo, sino más bien por una comprensión compartida de los valores, la cultura, la historia y la identidad. HALL (2006, 50) sostiene que la comunidad imaginada puede formarse a partir de diversas formas de conexión, como la lengua común, la religión, las tradiciones culturales, entre otras. Es una forma de pertenencia colectiva que trasciende las fronteras geográficas y sociales, permitiendo a los individuos identificarse con una comunidad más amplia. En resumen, la comunidad imaginada es una forma de construcción social de la comunidad basada en la representación compartida de una identidad colectiva. La comunidad imaginada tiene aquí una relación directa con la tradición inventada de HOBSBAWN (2008), en la que la continuidad con el pasado se produce a partir de la repetición de valores y normas de comportamiento que no son necesariamente remotos. La relación entre identidad histórica y memoria ya había sido señalada por CHOAY (2006) como el momento histórico que, marcado por la Revolución Francesa, destruyó monumentos vistos como dade e posse, se modifica no contexto de valorização das antiguidades nacionais do século XVIII, em que maior atenção é dada aos seus vestígios por meio da noção de tombamento. O tombamento é uma medida de preservação do Patrimônio Cultural que consiste em identificar e proteger bens culturais cuja proteção pode ser realizada por meio de leis, regulamentos e políticas públicas. O tombamento está diretamente relacionado à noção de valor nacional, pois a identificação dos bens culturais que merecem ser preservados a partir dessa ótica é realizada a partir de critérios que levam em consideração a importância desses bens para a construção da identidade e da memória coletiva. Assim, o processo de tombamento é entendido como uma forma de reconhecimento e valorização da cultura e do patrimônio de uma nação. É nesse contexto que o ato de preservar o patrimônio adquiriu forte apelo identitário, impulsionado pelas narrativas nacionais, quando o caráter individual de posse do patrimônio passou, então, ao caráter coletivo de memória nacional. Os critérios de análise de bens culturais possuíam então valores relativos a esse contexto. O conceito de Patrimônio Cultural, portanto, surgiu como um conjunto de bens que conta a história e reflete a identidade cultural de uma comunidade ou nação. A formação desses elementos está ligada à maneira como essa comunidade se imagina e se define, construindo uma narrativa fundacional que define o ideal de povo. As identidades nacionais, por sua vez, são reconstruídas e desconstruídas constantemente em relação à memória dos acontecimentos. O que é eleito como Patrimônio Cultural de uma comunidade serve para construir e sustentar sua narrativa, ratificando sua identidade e refletindo seus valores culturais. HALL (2006, 50) coloca que três conceitos foram fundamentais para a construção da identidade nacional enquanto uma comunidade imaginada, sendo eles as memórias do passado, o desejo por viver em conjunto e a perpetuação da herança. A comunidade imaginada se refere a comunidades políticas ou sociais que existem principalmente na imaginação das pessoas. Essas comunidades não são formadas por laços de convivência ou contato direto, mas sim por uma compreensão compartilhada de valores, cultura, história e identidade. HALL (2006, p.50) argumenta que a comunidade imaginada pode ser formada a partir de diversas formas de ligação, como a língua comum, a religião, as tradições culturais, entre outros. É uma forma de pertencimento coletivo que transcende as fronteiras geográficas e sociais, permitindo aos indivíduos se identificarem com uma comunidade mais ampla. Em resumo, a comunidade imaginada é uma forma de construção social de comunidade baseada na representação compartilhada de uma identidade coletiva. A comunidade imaginada aqui tem relação direta com a tradição
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 56 símbolos del poder absolutista y clerical, para luego colocarlos como símbolos de la nacionalidad francesa, especialmente en el período napoleónico, lo que influyó en la forma de ver y tratar el patrimonio en décadas posteriores. El autor describe el proceso de desarrollo del concepto de monumento histórico, cuyo período de instauración fue desde el Romanticismo del siglo XIX hasta la Posguerra de mediados del siglo XX, siendo la noción de monumento uno de los aspectos fundamentales abordados por la Carta de Venecia de 19649 . Este nuevo período estuvo marcado por intensas contribuciones a las teorías y prácticas de la conservación, con varios descubrimientos en las ciencias físicas y químicas, además de avances en la historia del arte, centrados en el patrimonio construido como símbolo nacional, que influyeron profundamente en el debate sobre la conservación del patrimonio en todo el mundo. Sin embargo, al examinar el discurso teórico sobre la restauración, se observa la valoración del patrimonio ya manifestada en bienes totales, completos y acabados, lo que remite al significado original de la palabra “patrimonio”, relacionado con la herencia familiar y el conjunto de bienes. En este proceso se privilegiaron los valores históricos y estéticos, en los que el patrimonio construido era un tipo de bien cultural a preservar especialmente. También se consagró en esta noción el signo de lo “insustituible”, en el que el daño sufrido por el bien patrimonial sería irreparable, lo que tiene claras repercusiones en la noción de autenticidad debatida hoy como obstáculo a la actualización de términos en el ámbito del Patrimonio Cultural. Ante la pregunta “patrimonio para qué y para quién” y los contornos que el debate ha ido asumiendo en este sentido, la noción de autenticidad ha sido uno de los puntos fundamentales necesitados de revisión, lo que se relaciona con la posición de los especialistas responsables de la forma en que el Patrimonio Cultural ha sido definido a lo largo del tiempo y sus consecuentes políticas de preservación permeadas por relaciones de poder. La revisión del concepto de patrimonio ha venido considerando aspectos de la noción antropológica de cultura que pueden contribuir a acciones que efectivamente contemplen una preservación más integral del patrimonio en la actualidad, en vista del debate entre especialistas y la producción de numerosos documentos sobre prácticas de preservación que las políticas de patrimonio 9 Este documento, aún hoy ampliamente citado, fomenta la llamada “restauración crítica”, cuyo objetivo es conservar y revelar los valores estéticos e históricos del monumento, considerando sus aspectos materiales y de autenticidad originales. El acto de preservación valoriza aquí el carácter monumental que el patrimonio adquirió hace mucho tiempo y coloca la restauración como un deber ético para con las generaciones futuras (CARTA DE VENEZA, 1964). inventada de HOBSBAWN (2008), em que a continuidade com o passado se dá a partir da repetição de valores e normas de comportamento que não necessariamente são remotos. A relação entre identidade histórica e memória já havia sido apontada por CHOAY (2006) como o momento histórico que, marcado pela Revolução Francesa, destruiu monumentos vistos enquanto símbolos do poder absolutista e clerical, para, em seguida, colocá-los como símbolos da nacionalidade francesa, em especial no período napoleônico, o que influenciou a maneira como patrimônio foi visto e tratado nas décadas posteriores. A autora descreve o processo de desenvolvimento do conceito de monumento histórico, cujo período de estabelecimento foi do Romantismo do século XIX até o Pós-Guerra de meados do século XX, sendo a noção de monumento um dos aspectos fundamentais abordados pela Carta de Veneza, de 19649. Este novo período foi marcado por intensas contribuições para as teorias e práticas de conservação, com diversas descobertas das ciências físicas e químicas, além de progressos na história da arte, centrados no patrimônio edificado enquanto símbolo nacional, o que influenciou profundamente o debate sobre preservação do patrimônio no mundo todo. Diante do olhar para o discurso teórico acerca da restauração, porém, percebe-se a valorização do patrimônio já manifestado em bens totais, completos, terminados, o que se remete ao significado original da palavra “patrimônio”, relativo à herança familiar e conjunto de bens. Os valores históricos e estéticos foram privilegiados neste processo, em que o patrimônio edificado era um tipo de bem cultural a ser especialmente preservado. Consagrou-se, ainda, sobre essa noção, o signo do “insubstituível”, em que os danos sofridos pelo bem patrimonial seriam irreparáveis, o que tem claro rebatimento sobre a noção de autenticidade hoje debatida enquanto obstáculo para a atualização dos termos no campo do Patrimônio Cultural. Diante do questionamento “patrimônio para quê e para quem” e dos contornos que o debate vem assumindo nesse sentido, a noção de autenticidade tem sido um dos pontos fundamentais carentes de revisão, o que se relaciona com a postura de especialistas responsáveis pela forma como Patrimônio Cultural foi definido ao longo do tempo e suas consequentes políticas de preservação permeadas por relações de poder. 9 Este documento, ainda hoje muito citado, fomenta o chamado “restauro crítico”, cujo objetivo é conservar e revelar valores estéticos e históricos do monumento, considerando seu material original e aspectos de autenticidade. O ato de preservação aqui valoriza o caráter monumental que o patrimônio adquiriu por mui- to tempo e coloca a restauração como um dever ético perante as gerações futuras (CARTA DE VENEZA, 1964).
1. Patrimônio Cultural: processo de revisão e atuais premissas 57 toman en consideración, como las Cartas Patrimoniales. Entre esos aspectos, se puede mencionar el hecho de que la cultura no es homogénea, o sea, difiere entre comunidades y grupos; depende de la acción humana, en el sentido de que es producida; no está uniformemente distribuida entre los miembros de un grupo, pudiendo tener carácter individual o colectivo; depende del momento en que se construye, o sea, no es atemporal; y un mismo individuo puede poseer más de una cultura. Este contexto es el resultado del reconocimiento y consagración internacional de los derechos humanos, y el reconocimiento y valorización de las tradiciones culturales de las comunidades es un aspecto fundamental para su defensa. Al instituir otros valores y criterios para el reconocimiento de los bienes culturales como objeto de protección y promoción, la comunidad internacional reconoce la importancia de los derechos culturales de las comunidades y los individuos, así como la necesidad de respetar y preservar la diversidad cultural en todo el mundo. Desde entonces, desde su origen hasta lo que se entiende por Patrimonio Cultural en su concepción actual, se puede decir que esta área de conocimiento ha asumido diversos contornos semánticos, caracterizando lo que GONÇALVES (2009) coloca como una categoría de pensamiento. En este sentido, el patrimonio tiene extrema importancia para la vida social de cualquier colectividad humana, siendo importante considerar significados, como dice el autor, “mágico-religiosos” y sociales10. Es esencial entender el patrimonio como parte inseparable de las totalidades sociales, inherente a la condición del individuo. Aquí reside uno de los principales puntos debatidos sobre el Patrimonio Cultural, que se refiere a la reciente creación de la categoría “inmaterial”, en oposición al llamado patrimonio de piedra y cal. Después de décadas de cuidados centrados en la preservación de un tipo específico de bienes patrimoniales, lo que se ha planteado es que esta política no abarcó concepciones más tradicionales de patrimonio, referidas a prácticas y representaciones simbólicas, lo que resultó en la exclusión de diversos puntos de vista sobre lo que puede ser considerado Patrimonio Cultural. 10 Aquí reside uno de los puntos a trabajar en esta tesis, pues a pesar de que el “aspecto mágico” puesto por el autor no está ausente del debate sobre el patrimonio, se crearon categorías separadas para este tipo de bien patrimonial. Calificaciones como “inmaterial” o “intangible” se crearon en oposición al patrimonio material y se refieren a aspectos ideales y valorativos hasta entonces despreciados en el debate. La separación entre estas categorías, sin embargo, tiene consecuencias directas en los procesos de patrimonialización y en las políticas de preservación, especialmente en lo que se refiere al Patrimonio Urbano, como se desarrollará en los capítulos siguientes. Diante do debate de especialistas e da confecção de inúmeros documentos relativos a práticas de preservação que políticas patrimoniais levam em consideração, a exemplo das Cartas Patrimoniais, a revisão do conceito de patrimônio vem considerando aspectos da noção antropológica de cultura que podem contribuir para ações que contemplem de fato uma preservação mais abrangente do patrimônio na atualidade. Entre esses aspectos, podem ser citados o fato de que a cultura não é homogênea, ou seja, ela difere entre as comunidades e grupos; é dependente da ação humana, no sentido de que é produzida; não se distribui uniformemente entre os membros de um grupo, podendo ter caráter individual ou coletivo; depende da época em que está sendo construída, ou seja, não é atemporal; e um mesmo indivíduo pode possuir mais de uma cultura. Esse contex- to é resultado do reconhecimento e consagração internacional dos direitos humanos, sendo o reconhecimento e a valorização das tradições culturais das comunidades um aspecto fundamental para a sua defesa. Ao instituir outros valores e critérios para o reconhecimento de bens culturais como um objeto de proteção e promoção, a comunidade internacional reconhece a importância dos direitos culturais das comunidades e dos indivíduos, bem como a necessidade de respeitar e preservar a diversidade cultural em todo o mundo. Desde então, da sua origem até o que se entende por Patrimônio Cultural na sua concepção atual, pode-se dizer que essa área do conhecimento assumiu diversos contornos semânticos, caracterizando o que GONÇALVES (2009) coloca como categoria de pensamento. Neste sentido, o patrimônio tem extrema importância para a vida social de qualquer coletividade humana, sendo importante considerar significados, como diz o autor, “mágico-religiosos” e sociais10. É essencial que se entenda o patrimônio como parte inseparável de totalidades sociais, inerente à condição de indivíduo. Reside aqui um dos principais pontos debatidos sobre Patrimônio Cultural, que diz respeito à recente criação da categoria “imaterial”, em oposição ao chamado patrimônio de pedra e cal. Após décadas de cuidados voltados à preservação de um tipo específico de bens patrimoniais, o que se 10 Reside aqui um dos pontos a serem trabalhados nesta tese, pois apesar do “aspecto mágico” colocado pelo autor não estar ausente do debate acerca do patrimônio, foram criadas categorias separadas para este tipo de bem patrimonial. Qualificações como “imaterial” ou “intangível” foram criadas em oposição ao patrimônio material e dizem respeito a aspectos ideais e valorativos até então desconsiderados no debate. A separação entre essas categorias, porém, tem consequências diretas sobre os processos de patrimonialização e as políticas de preservação, em especial no que concerne ao Patrimônio Urbano, como será desenvolvido nos próximos capítulos.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 64 (PAISAJE CULTURAL DE SINTRA, 2023, traducción libre). l hecho de que las inmaterialidades abordadas por FASCÍNIO (2018) no formen parte de las razones que llevaron a la patrimonialización de Sintra por parte de la UNESCO es representativo del proceso de revisión de supuestos al que se viene enfrentando el campo del Patrimonio Cultural con la inserción de otras dimensiones junto al carácter tangible de los bienes en discusión. La fascinación como sentimiento que da nombre al documental son las emociones vinculadas al patrimonio, tanto material como intangible. Estas emociones son producidas por el encuentro entre el individuo y el bien cultural, y pueden incluir sentimientos de admiración, nostalgia, orgullo, añoranza, entre otros. Las emociones patrimoniales son una parte importante de esta relación, que influye en la forma en que se percibe y valora el patrimonio. Además, las emociones patrimoniales son parte integrante de la construcción de la identidad cultural, ya que las emociones están formadas por creencias, valores y recuerdos colectivos que se transmiten de generación en generación (FABRE, 2013). Aunque impulsada por la emoción, es importante el contrapunto de que la preservación del patrimonio está guiada por un conjunto de acciones de identificación, conservación, restauración, gestión y protección jurídica, teniendo el inicio de su campo de conocimiento a mediados del siglo XVIII, con intenso desarrollo a lo largo del siglo XIX y establecimiento en el siglo XX. Se observa que, actualmente, el campo patrimonial admite una profunda transdisciplinariedad en su constitución, con reflexión crítica sobre su alcance y significado a partir de metodologías de investigación, proyecto e inventario, establecidas por el conocimiento técnico representado por un cuerpo de expertos. Desde su fundación en el siglo XIX, en Francia, con la institución de museos, archivos, sitios arqueológicos, mesas de dibujo de restauradores de arquitectura e investigaciones de historiadores, su principal motivación fueron los objetos y monumentos concretos, reconocidos como producto de la memoria colectiva responsable de la consolidación de las nacionalidades. Así como este proceso es una construcción, también lo es la ampliación de la noción de patrimonio, teniendo su despertar identificado entre las décadas de 1970 y 1980. El contexto actual de mundialización de la cultura forma parte de las rápidas transformaciones a las que se enfrenta desde entonces la preservación y la idea de patrimonio, que a menudo se caracteriza como “crisis de identidad del patrimonio”. La dificultad radica en la legitimación de that harmonizes with the exotic and overgrown vegetation, creating micro-landsca- pes of exotic and luxuriant beauty, such as Mexican cypress, Australian acacias and eucalyptus as well as pine trees” (CULTURAL LANDSCAPE OF SINTRA, 2023). lianos, bem como pinheiros12 (CULTURAL LANDSCAPE OF SINTRA, 2023, tradução livre). O fato de que as imaterialidades abordadas por FASCÍNIO (2018) não fazem parte dos motivos que levaram à patrimonialização de Sintra pela UNESCO é representativo do processo de revisão de premissas que o campo do Patrimônio Cultural vem enfrentando com a inserção de outras dimensões junto ao caráter tangível dos bens em discussão. O fascínio enquanto sentimento que dá nome ao documentário são as emoções ligadas ao patrimônio, de caráter tanto material quanto intangível. Essas emoções são produzidas pelo encontro entre o indivíduo e o bem cultural, e podem incluir sentimentos de admiração, nostalgia, orgulho, saudade, entre outros. As emoções patrimoniais são uma parte importante dessa relação, o que influencia o modo como o patrimônio é percebido e valorizado. Além disso, as emoções patrimoniais são uma parte integrante da construção da identidade cultural, já que as emoções são formadas por crenças, valores e memórias coletivas que são transmitidos de geração em geração (FABRE, 2013). Apesar de movido pela emoção, é importante o contraponto de que a preservação do patrimônio é pautada por um conjunto de ações de identificação, conservação, restauração, gestão e proteção legal, tendo o início do seu campo do conhecimento em meados do século XVIII, com intenso desenvolvimento ao longo do século XIX e estabelecimento no século XX. Pode- -se perceber que, atualmente, o campo do patrimônio admite profunda transdisciplinaridade na sua constituição, com reflexão crítica sobre sua abrangência e significado a partir de metodologias de pesquisa, de projeto e de inventário, estabelecidas pelo saber técnico representado por um corpo de especialistas. Desde sua fundação no século XIX, na França, com a instituição de museus, arquivos, sítios arqueológicos, pranchetas de arquitetos restauradores e pesquisas de historiadores, sua principal motivação eram objetos e monumentos concretos, reconhecidos enquanto produto de memória coletiva responsável pela consolidação de nacionalidades. Assim como esse processo é uma construção, o alargamento da noção de patrimônio também o é, tendo seu despertar identificado entre as décadas de 1970 e 1980. O atual contexto de Mundialização da cultura é parte das transformações 12 Citação original: “(…) unique complex of parks, gardens, palaces, country houses, monasteries and castles, which create an architecture that harmonizes with the exotic and overgrown vegetation, creating micro-landscapes of exotic and luxuriant beauty, such as Mexican cypress, Australian acacias and eucalyptus as well as pine trees” (CULTURAL LANDSCAPE OF SINTRA, 2023).
1.1 . Patrimônio é processo e performance 65 criterios y valores en un contexto de mayor relatividad del patrimonio en relación con los bienes culturales. Entre las caracterizaciones que hacen nuevas miradas sobre lo que es patrimonio está la performance, siendo este uno de los términos que retratan bienes culturales intangibles. TAYLOR (2011) analiza el papel del performance como patrimonio y su percepción como bien cultural. Para la investigadora, el performance es relativo a las prácticas intangibles de una comunidad y cumple funciones sociales de vital importancia, pudiendo ser denominado “ritual”. El tipo de patrimonio protegido por el Archivo, por ejemplo, está constituido por elementos materiales como documentos, mapas, textos, restos arqueológicos, entre otros, que exigen acciones específicas de preservación y permanencia. Por otro lado, la actuación sólo se mantiene y transmite a través de los cuerpos sociales, que exigen la relación cuerpo-espacio. Son los comportamientos reiterados los que logran la transferencia de este conocimiento, creando memoria cultural e identidad colectiva, representada por gestos performatizados. En el ámbito del Patrimonio Cultural, por tanto, la performance se entiende como una forma de expresión y representación de una cultura o comunidad, generalmente relacionada con tradiciones orales, artes escénicas, rituales y otros aspectos de la vida social y cultural, representativa de expresiones culturales como canciones, danzas, cuentos, leyendas, entre otras. El performance es visto como una forma de transmisión intergeneracional de conocimientos, creencias y valores, y como un medio de preservación de la identidad cultural de una comunidad y puede ser incluido en inventarios y listas de patrimonio inmaterial como objeto de programas de protección y valorización, con el objetivo de garantizar su perpetuación y difusión (TAYLOR, 2011). La consideración de la actuación como bien patrimonial y cultural susceptible de preservación está relacionada con la revisión de los criterios y valores que conforman el giro patrimonial. Teniendo en cuenta que en un momento anterior los valores históricos y artísticos eran esenciales para el reconocimiento de un bien cultural, en relación con lo que se entiende por patrimonio en la actualidad es importante considerar qué valores se admiten entonces (MENESES, 2012, 35-37). Uno de ellos serían los valores cognitivos a lo que este autor denomina valor intelectual y se refiere a los materiales y técnicas que componen un bien cultural material, como el patrón estilístico, su historia, sus usos y quiénes son sus agentes. El bien, en este caso, es tratado como un documento, utilizado para tratar temas de naturaleza múltiple. Otros de los valores serían los formales, que deben ser pensados como una “oportunidad cualificada de gratificar sensorialmente y hacer más profundo el contacto del ‘yo’ con el ‘mundo externo’” (MENESES, 2012, 35-37), es decir, valor estético en su sentido original, de percepción. El valor formal, en este caso, trata del efecto de presencia que lleva a una amplia transmisión de sentidos, cualificando la conciencia y la forma de actuar. Para el autor, los valores históricos deben encuadrarse como valores afectivos. La historia velozes que a preservação e ideia de patrimônio vem enfrentando desde então, o que é caracterizado frequentemente como “crise de identidade do patrimônio”. A dificuldade reside na legitimação de critérios e valores em um contexto de maior relatividade patrimonial com relação aos bens culturais. Entre as caracterizações que perfazem novos olhares sobre o que é patrimônio está a performance, sendo esse um dos termos que retratam bens culturais intangíveis. TAYLOR (2011) analisa o papel da performance enquanto patrimônio e sua percepção como bem cultural. Para a pesquisadora, a performance é relativa às práticas intangíveis de uma comunidade e serve a funções sociais de significado vital, podendo ser denominada “ritual”. O tipo de patrimônio protegido pelo Arquivo, por exemplo, é constituído por elementos materiais como documentos, mapas, textos, restos arqueológicos, entre outros, que demandam ações específicas de preservação e permanência. Já a performance só é mantida e transmitida por meio dos corpos sociais, que demandam a relação corpo-espaço. São os comportamentos reiterados que realizam a transferência desse saber, criando memória cultural e identidade coletiva, representados por gestos performatizados. No campo do Patrimônio Cultural, portanto, a performance é compreendida como uma forma de expressão e representação de uma cultura ou comunidade, geralmente relacionada a tradições orais, artes performáticas, rituais e outros aspectos da vida social e cultural, representativos de expressões culturais como canções, danças, contos, lendas, entre outros. A performance é vista como uma forma de transmissão intergeracional de conhecimento, crenças e valores, e como um meio de preservar a identidade cultural de uma comunidade e pode ser incluída em inventários e listas de patrimônio imaterial enquanto objeto de programas de proteção e valorização, com o objetivo de garantir sua perpetuação e difusão (TAYLOR, 2011). A consideração da performance enquanto patrimônio e bem cultural passível de preservação tem relação com a revisão dos critérios e valores que perfaz a viragem patrimonial. Considerando que em momento anterior os valores históricos e artísticos eram essenciais para o reconhecimento de um bem cultural, com relação ao que se entende por patrimônio nos dias de hoje cabe considerar quais valores são então admitidos (MENESES, 2012, 35-37). Um deles seriam os valores cognitivos ao que esse autor denomina valor intelectual e diz respeito aos materiais e técnicas que perfazem um bem cultural material, como o padrão estilístico, sua história, seus usos e quem são seus agentes. O bem, neste caso, é tratado enquanto documento, utilizado para o tratamen- to de questões de múltipla natureza. Outros dos valores seriam os formais, que devem ser pensados como uma “oportunidade
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 66 como producción crítica de conocimiento, en este caso, debe enmarcarse en el valor cognitivo, y el valor afectivo se refiere al sentimiento de identidad y pertenencia. Es decir, el valor afectivo, al ser tratado como documento, se convierte en valor cognitivo. Este conjunto de caracterizaciones también incluye los valores pragmáticos, que se refieren a los valores de uso percibidos como cualidades, es decir, las condiciones de uso disponibles califican la práctica inherente al bien. Por último, están los valores éticos, que se dirigen a las interacciones sociales que el bien posibilita y que se relacionan directamente con los derechos culturales frente a los derechos humanos. El valor ético, en este caso, se refiere a las interacciones sociales con referencia al lugar del otro, de los principios morales y de comportamiento que se consideran importantes para una sociedad o grupo en particular. Incluyen conceptos como justicia, honestidad, integridad, responsabilidad, respeto, compasión, entre otros. Estos valores se utilizan como base para evaluar el comportamiento de las personas y para determinar lo que se considera correcto o incorrecto en una situación dada. En resumen, los valores éticos son normas morales que guían el comportamiento humano y ayudan a establecer normas sociales. A la vista de este conjunto de valores, se observa que han empezado a considerarse otras cuestiones al tratar del patrimonio, lo que se corresponde con el nivel de complejidad que ha adquirido el debate. Considerando el establecimiento de otros puntos de vista sobre la comprensión del patrimonio, consecuentemente se idealizan otras formas de categorización. HATUKA (2017, 48), por ejemplo, señala que el patrimonio no es memoria estática, sino una forma de participación ciudadana. Dado esto, los “mapas de memoria” de la ciudad, como formas de representación mental de los lugares y las narrativas asociadas a ellos en la ciudad, no corresponden al mapa mental de la ciudad tradicional, sino a un instrumento de lucha social y, por lo tanto, un instrumento de poder. Los cínicos afirman que la memoria se ha convertido en un negocio; los optimistas sostienen que es una forma de reimaginar el lugar, y los pragmáticos mantienen que es un impulso humano y que la mayoría de los mapas de memoria desaparecerán o se borrarán (y, en algunos casos, se salvarán). De hecho, el papel de la memoria urbana es complejo, y hay algo de verdad en todas estas respuestas. La memoria es un negocio, pero también puede utilizarse como herramienta para el cambio (HATUKA, 2017, 51, traducción libre). HATUKA (2017, 52-54) sugiere, por ejemplo, la adopción de tres estrategias espaciales básicas para tipificar la creación de mapas de memoria, con enfoques distintos en cuanto al espacio, la fisicidad y la participación ciudadana, que difieren de la visión tradicional sobre la categorización del patrimonio a partir de su materiaqualificada para gratificar sensorialmente e tornar mais profundo o contato do ‘eu’ ao ‘mundo externo’” (MENESES, 2012, 35-37), ou seja, valor estético no seu sentido original, de percepção. O valor formal, nesse caso, trata do efeito da presença que leva a uma transmissão ampla de sentidos, qualificando a consciência e o modo de agir. Para o autor, os valores históricos deveriam se enquadrar como valores afetivos. A História enquanto produção crítica do conhecimento, nesse caso, deve ser enquadrada no valor cognitivo, sendo o valor afetivo referente ao sentimento de identidade e de pertencimento. Ou seja, o valor afetivo, quando tratado como documento, torna-se valor cognitivo. Integra ainda esse conjunto de caracterizações os valores pragmáticos, que dizem respeito aos valores de uso percebidos como qualidades, ou seja, as condições de uso disponíveis qualificam a prática inerente ao bem. Por fim, existem os valores éticos, que são direcionados a interações sociais que o bem possibilita e que se relacionam diretamente aos direitos culturais face aos direitos humanos. O valor ético, aqui, se refere às interações sociais tendo como referência o lugar do outro, de princípios morais e de comportamento que são considerados importantes para uma sociedade ou grupo específico. Eles incluem conceitos como justiça, honestidade, integridade, responsabilidade, respei- to, compaixão, entre outros. Esses valores são usados como base para avaliar o comportamento das pessoas e para determinar o que é considerado certo ou errado em uma determinada situação. Em resumo, os valores éticos são padrões morais que orientam o comportamento humano e ajudam a estabelecer as normas sociais. Diante desse conjunto de valores pode-se perceber que outras questões passaram a ser consideradas no trato do patrimônio, o que corresponde ao nível de complexidade que o debate assumiu. Considerando o estabelecimento de outros pontos de vista sobre o entendimento de patrimônio, consequentemente outras formas de categorização são idealizadas. HATUKA (2017, 48), por exemplo, aponta que patrimônio não é memória estática, mas forma de participação cívica. Diante disso, os “mapas da memória” da cidade, enquanto formas de representação mental dos lugares e das narrativas associadas a eles na cidade, não correspondem ao mapa mental da cidade tradicional, mas a um instrumento de luta social e, portanto, um instrumento de poder. Os cínicos afirmam que a memória virou um negócio; os otimistas defendem que é uma maneira de re-imagi- nar o lugar, e o pragmático sustenta que é um impulso humano e que a maioria dos mapas de memória desaparecerá ou será apagada (e, em certos casos, será resgatada). De fato, o papel da memória urbana é com-
1.1 . Patrimônio é processo e performance 67 lidad o de sus valores históricos y artísticos. Una de las estrategias es el homenaje. A menudo iniciado por las autoridades, la fisicidad del homenaje tiende a ser grandiosa y monumental, con el objetivo de recordar una versión formal de acontecimientos o personas. El monumento “Reflejo de la ausencia”, situado en el emplazamiento del World Trade Center de Nueva York, es un ejemplo de monumento conmemorativo que representa esta estrategia, simbolizando la pérdida de vidas y el vacío físico que dejan los atentados terroristas. La monumentalidad se consigue mediante la escala del vacío y la ausencia. Otra práctica espacial es la reconstrucción, que implica rellenar espacios perdidos y es diferente del monumento de celebración, que suele centrarse en un acontecimiento o una persona. Esta práctica implica recuerdos patrimoniales y se utiliza para reforzar el sentido de comunidad. La reconstrucción de la memoria y del sentido de comunidad suele correr a cargo de las instituciones de una sociedad y es espacialmente grandiosa; a menudo la dirigen planificadores y arquitectos que actúan como mediadores y desempeñan un papel importante en la reescritura de la historia. La tercera y última práctica es la actuación, una estrategia ascendente en la que las personas transmiten información de forma creativa a través del habla, los gestos y la actuación. Esta forma de transmisión de conocimientos forma parte de la tradición de la historia oral y se considera una poderosa forma de acto social. La memoria escénica es una representación pública de estas prácticas espaciales. HATUKA (2017, 52-54) señala, frente a estas tres estrategias espaciales, el homenaje y la reconstrucción como estrategias que se corresponden con las aplicadas habitualmente por las acciones de preservación, y la performance como estrategia espacial que se está correspondiendo más con los nuevos valores incorporados en el ámbito del Patrimonio Cultural, es decir, de valoración de los bienes culturales intangibles. Después de 34 años desde el episodio del hacha de Krahô13, se puede decir que las definiciones constantes del campo del Patrimonio Cultural están todavía, y siempre, en evolución. De todos modos, es importante señalar que en la actualidad la discusión avanza hacia la comprensión de que el patrimonio debe entenderse de forma sistémica y está más relacionado con sus valores intrínsecos que con lo que convencionalmente se denomina bienes materiales o inmateriales. Laurajane Smith es una de las investigadoras que ha rebatido la idea de que el patrimonio se refiere a un objeto material, un sitio o 13 Episodio mencionado en la introducción de esta tesis sobre el Kàjre, un hacha perteneciente a los Krahô, comunidad indígena del estado brasileño de Tocantins. El artefac- to llegó a manos del Museu do Ipiranga en 1947, pasando a formar parte de la colección del museo. Este caso plantea importantes cuestiones sobre el patrimonio cultural y su concepción actual. plexo, e há alguma verdade em todas essas respostas. A memória é um negócio, mas também pode ser utilizada como instrumento de mudança (HATUKA, 2017, 51). HATUKA (2017, 52-54) sugere, por exemplo, a adoção de três estratégias espaciais básicas para tipificar a criação de mapas de memória, com abordagens distintas em relação ao espaço, à fisicalidade e à participação do cidadão, que diferem da visão tradicional sobre a categorização do patrimônio a partir da sua materialidade ou de valores históricos e artísticos. Uma das estratégias é a homenagem. Muitas vezes iniciada pelas autoridades, a fisicalidade da homenagem tende a ser grandiosa e monumental, com o intuito de lembrar uma versão formal de acontecimentos ou pessoas. O memorial “Refletindo a Ausência”, situado no local do World Trade Center em Nova York, é um exemplo de monumento celebrativo que representa essa estratégia, simbolizando a perda de vidas e o vazio físico deixados pelos ataques terroristas. A monumentalidade é alcançada pela escala do vazio e da ausência. Outra prática espacial é a reconstrução, que envolve preencher espaços perdidos e é diferente do monumento celebrativo que muitas vezes se concentra em um acontecimento ou pessoa. Essa prática envolve memórias do patrimônio e é usada para aprimorar um senso de comunidade. A reconstrução da memória e do senso de comunidade é frequentemente realizada por instituições de uma sociedade e é espacialmente grandiosa, muitas vezes é liderada por planejadores e arquitetos que atuam como mediadores e possuem um papel significativo na reescrita da história. A terceira e última prática é a performance, estratégia de baixo para cima em que as pessoas transmitem informações de forma criativa através de fala, gestos e representações. Essa forma de transmissão de conhecimento faz parte da tradição da história oral e é vista como uma forma poderosa de ato social. A memória cênica é uma representação pública dessas práticas espaciais. HATUKA (2017, 52-54) aponta, diante dessas três estratégias espaciais, a homenagem e a reconstrução como estratégias que correspondem àquelas usualmente aplicadas pelas ações de preservação, e a performance como uma estratégia espacial que é correspondente mais aos novos valores incorporados no campo do Patrimônio Cultural, ou seja, de valorização dos bens culturais intangíveis. Passados 34 anos desde o episódio da machadinha Krahô13, pode-se dizer que as definições constantes do campo 13 Episódio citado na introdução dessa tese sobre a Kàjre, um machado pertencente aos Krahô, comunidade indígena do estado brasileiro do Tocantins. O artefato passou à posse do Museu do
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 68 un lugar. Para ella, el patrimonio se refiere a lo que se hace con él y a cómo se utiliza, siendo algo dinámico que forma parte del proceso de construcción (y reconstrucción) cultural y social de valores y significados. La constitución del patrimonio, en sus palabras, debe responder a las necesidades del presente y está relacionada con los valores sociales y políticos considerados importantes para sostener las aspiraciones del futuro. La identidad no es algo que se produce, o que puede ser representado por sitios y monumentos, sino que es algo que está siendo continuamente recreado y renegociado, es decir, se refiere a un proceso y no a un producto acabado (SMITH, 2021). El autor destaca, así, la importancia de privar de énfasis a los objetos materiales en las definiciones de patrimonio y subraya que lo que importa es cómo se utilizan esos objetos, y no sólo su existencia. Así, el patrimonio está constituido por una serie de actividades que incluyen recordar, conmemorar, comunicar y transmitir conocimientos y memorias, así como asegurar y expresar la identidad, los valores y los significados sociales y culturales. El patrimonio es, por tanto, intangible, una práctica y una actuación encarnadas que crean o recrean significados y validan la utilidad del pasado para satisfacer las necesidades del presente (SMITH, 2021). La revisión de los supuestos sobre este campo puede entenderse a partir de las ideas expuestas por la investigadora, de que existe un discurso autorizado y sancionado por un grupo de expertos que fomenta algo de gran escala física y temporal, que responde a ciertas apreciaciones estéticas y técnicas y que son reflejo de un estilo nacional, denominado Discurso Autorizado del Patrimonio14. Es una negociación de valores y significados históricos y culturales que ayudan a dar sentido al presente y a las identidades, e implica decisiones sobre la conservación o no de lugares y elementos tangibles e intangibles, y sobre cómo se gestionan, exponen y salvaguardan. El Patrimonio es una actuación que implica acciones de conmemoración y recuerdo, y que contribuye a construir un sentido de pertenencia y comprensión del presente (SMITH, 2021). La constatación de que actualmente el Patrimonio Cultural debe ser visto como un proceso y una performance más allá de los objetos y monumentos también está presente en la obra de Daniel Fabre, que aborda el patrimonio como un lugar polémico, en el sentido de que es un objeto antropológico fuerte que moviliza emociones y suscita controversias. Estas pasiones se desatan ante el gesto patrimonial, ya que sitúa objetos o prácticas en un nuevo régimen de existencia. Frente a ello, el autor cuestiona la autoridad para proclamar el patrimonio y decretar los valores que reflejará, pues considera que el patrimonio no es tanto el resultado de una pericia como 14 Françoise Choay ya había identificado la adopción de un discurso occidental dominante que generaliza los significados (CHOAY, 2015), aunque no cuestiona el enfoque adoptado con respecto a los valores inmateriales. do Patrimônio Cultural estão ainda, e sempre, em evolução. De qualquer forma, é importante pontuar que atualmente a discussão caminha para o entendimento de que patrimônio deve ser entendido de forma sistêmica e se relaciona mais com seus valores intrínsecos do que com o que se convencionou chamar bens materiais ou imateriais. Laurajane Smith é uma das pesquisadoras que vem contestando a ideia de que patrimônio diz respeito a um objeto material, um sítio ou um lugar. Para ela, o patrimônio se refere ao que é feito com ele e como é usado, sendo algo dinâmico que faz parte do processo de construção (e reconstrução) cultural e social de valores e sentidos. A constituição do patrimônio, na sua fala, deve atender as necessidades do presente e se relaciona com os valores sociais e políticos considerados importantes para a sustentação de aspirações do futuro. Identidade não é algo que se produz, ou que possa ser representada por sítios e monumentos, mas é algo que está sendo continuamente recriado e renegociado, ou seja, diz respeito a um processo e não a um produto acabado (SMITH, 2021). A autora destaca, dessa forma, a importância de desprivilegiar a ênfase em objetos materiais nas definições de patrimônio e ressalta que o que importa é como esses objetos são usados, e não apenas a existência deles. Sendo assim, o patrimônio é constituído por uma gama de atividades que incluem lembrar, comemorar, comunicar e transmitir conhecimento e memórias, assim como assegurar e expressar identidade, valores e significados sociais e culturais. O patrimônio é, portanto, intangível, uma prática e uma performance corporificada que cria ou recria significados e valida a utilidade do passado para atender às necessidades do presente (SMITH, 2021). A revisão de premissas sobre este campo pode ser compreendida a partir das ideias colocadas pela pesquisadora, de que existe um discurso autorizado e chancelado por um grupo de especialistas que incentiva algo de grande escala física, temporal, que cumpre com determinadas apreciações estéticas e técnicas e que sejam reflexo de um estilo nacional, denominado Discurso Autorizado de Patrimônio14. É uma negociação de valores e sentidos históricos e culturais que ajudam a dar sentido ao presente e às identidades, e envolve decisões sobre preservar ou não locais e elementos tangíveis e intangíveis, além da forma como eles Ipiranga em 1947, tornando-se parte do acervo do museu. Este caso levanta questões importantes sobre o Patrimônio Cultural e sua concepção atual. 14 Françoise Choay já havia identificado a adoção de um discurso ocidental dominante que generaliza significados (CHOAY, 2015), embora não questione a abordagem realizada no que diz respeito a valores imateriais.
1.1 . Patrimônio é processo e performance 69 de una identificación. Lejos de reducirse a su contenido histórico, avalado por expertos certificados y devuelto al público como soporte memorial, el patrimonio forma parte de un régimen experiencial del pasado producido subjetivamente como “pasado sensible” a partir de las vivencias del usuario (FABRE, 2013). El patrimonio intangible representa, en este contexto, el logro supremo del giro patrimonial porque al ser experimentado, escuchado, tocado o comido en el presente, resulta de una subjetivación del reconocimiento. Este principio legitima una inversión de los fundamentos de la pericia, confirmando así el paso de una “democracia de delegación” (FABRE, 2013, 25), basada en un pacto entre el poder y los expertos, a una democracia patrimonial directa en la que la autoridad para proclamar el patrimonio se atribuye a las “comunidades”, revirtiendo esta acción en la encarnación misma de la relación con el pasado. Entender y relativizar las formas contemporáneas de atribuir valor cultural a las prácticas colectivas pasa necesariamente, para FABRE e IUSO (2010), por un desvío en la historia en el que, necesariamente, debe haber una revisión de los conceptos establecidos y un cambio de paradigma. El patrimonio como proceso y actuación, por lo tanto, presenta diferencias significativas en comparación con los monumentos históricos. Incluso los objetos patrimoniales han sido analizados junto con las prácticas que los rodean, que los habitan, que los atraviesan, y pueden ver cuestionada su patrimonialidad desde su conjun- to. Una mirada atenta a la inmaterialidad nos lleva a ver lo singular, lo que va más allá de lo visible, más allá de la pátina del tiempo del bien construido. El Patrimonio intangible es aquel que logra penetrar en el espacio, extendiéndose y acomodándose como un bien cultural dinámico, flexible y adaptable. Después de casi veinte años de la Convención de la UNESCO para la Salvaguardia del Patrimonio Cultural Inmaterial15, el panorama que se presenta hoy en 15 Adoptada en 2003, es un instrumento internacional para la protección y promoción del Patrimonio Cultural Inmaterial, que incluye tradiciones orales, expresiones artísticas, prácticas sociales, rituales y conocimientos técnicos, entre otros aspectos. La Convención establece que el Patrimonio Cultural Inmaterial es parte integrante de la cultura de los pueblos y tiene una importancia fundamental para su identidad y supervivencia, y que su desaparición puede tener consecuencias negativas para la diversidad cultural y para la humanidad en su conjunto. Además, alienta a los Estados Partes a adoptar medidas para preservar y proteger este patrimonio cultural, promoviendo su transmisión a las generaciones futuras. Hasta la fecha, la Convención ha sido ratificada por más de 170 países, lo que la convierte en uno de los instrumentos são geridos, exibidos e salvaguardados. Patrimônio é uma performance que envolve ações de comemoração e lembrança, e que contribui para a construção de um senso de pertencimento e compreensão do presente (SMITH, 2021). A constatação de que atualmente Patrimônio Cultural deve ser visto enquanto processo e performance para além de objetos e monumentos também se encontra presente na obra de Daniel Fabre, que aborda o patrimônio como um lugar controverso, no sentido de que é um forte objeto antropológico que mobiliza emoções e suscita polêmicas. Essas paixões são desencadeadas diante do gesto patrimonial, pois situa objetos ou práticas em um novo regime de existência. O autor, diante disso, questiona a autoridade de proclamar o patrimônio e decretar os valores que ele refletirá, pois acredita que o patrimônio é menos resultado de perícia do que de identificação. Longe de ser reduzido ao seu conteúdo histórico, endossado por especialistas certificados e devolvido ao público como suporte memorial, o patrimônio é parte de um regime experiencial do passado produzido subjetivamente como um “passado sensível” com base nas experiências do usuário (FABRE, 2013). O patrimônio intangível representa, nesse contexto, a realização suprema da viragem patrimonial porque ao ser vivido, ouvido, tocado ou comido no presente, resulta de uma subjetivação de reconhecimento. Este princípio legitima uma inversão dos fundamentos da expertise, confirmando assim a transição de uma “democracia da delegação” (FABRE, 2013, 25), baseada num pacto entre o poder e os especialistas, para uma democracia patrimonial direta onde a autoridade para proclamar o patrimônio é atribuída às “comunidades”, revertendo essa ação para a própria encarnação do relacionamento com o passado. Compreender e relativizar as formas contemporâneas de atribuir valor cultural às práticas coletivas passa necessariamente, para FABRE e IUSO (2010), por um desvio na história em que, necessariamente, deve existir a revisão de conceitos estabelecidos e mudança de paradigma. O patrimônio enquanto processo e performance, portanto, apresenta diferenças significativas se comparado aos monumentos históricos. Mesmo os objetos patrimoniais têm sido analisados junto às práticas que os contornam, que os habitam, que os atravessam, e podem ter sua patrimonialidade questionada a partir de seu conjunto. Um olhar atento às imaterialidades nos leva a enxergar o singular, o que vai além do visível, além da pátina do tempo do bem construído. É o Patrimônio Intangível aquele que consegue penetrar pelo espaço, se estendendo e se acomodando enquanto bem cultural dinâmico, flexível e adaptável.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 70 el contexto del Patrimonio Cultural señala que se ha establecido un nuevo paradigma sobre el reconocimiento de un bien cultural, así como el establecimiento de prácticas de preservación y salvaguardia. La revisión historiográfica sobre este campo del conocimiento ha reconocido que los vectores materiales de los bienes elegidos para preservación rigieron las políticas emprendidas durante muchas décadas, con el favorecimiento de ejemplares que tenían valores artísticos e históricos muy bien definidos. Diversos factores, como por ejemplo el auge de los derechos humanos en el ámbito político, han llevado a cuestionar las políticas patrimoniales emprendidas hasta entonces para favorecer a los grupos dominantes, especialmente en el contexto del Estado-nación y su fortalecimiento. Una vez cuestionado este contexto, el patrimonio correspondiente a este otro momento, representado por monumentos grandiosos, comenzó a ser cuestionado desde la valoración de perfiles identitarios antes invisibilizados y que ahora disputan su espacio de representación dentro del campo del Patrimonio Cultural a través, principalmente, de la valoración de las intangibilidades que conforman un bien cultural. En este sentido, SMITH (2021) argumenta que el patrimonio puede ser utilizado como una forma de empoderamiento para los grupos sociales, dependiendo de cómo se construya y represente. El tratamiento del patrimonio, por lo tanto, no ha perdido su poder de afirmar o desafiar las narrativas dominantes sobre la historia y la cultura con la expansión del concepto, lo que hace otro punto de discusión sobre las recientes políticas de preservación y salvaguardia de los bienes culturales, tangibles o no. Por último, siendo el Patrimonio proceso y actuación, salvaguardar sus activos intangibles es asegurar su transmisión con la garantía de que las prácticas tienen condiciones para permanecer. El cambio de enfoque sobre la materialidad de los bienes provocado por el giro patrimonial ha permitido una comprensión más amplia e inclusiva del Patrimonio Cultural y ha reflejado una creciente concienciación sobre la importancia de preservar las tradiciones y las culturas populares, lo que tiene implicaciones significativas en la forma de proteger, valorar y transmitir el patrimonio a las generaciones futuras. La valoración del Patrimonio Cultural Inmaterial, por tanto, es importante por varias razones, como su reconocimien- to como elemento crucial de la identidad cultural de una comunidad o sociedad anteriormente invisible. Al incluir tradiciones, creencias, rituales, música, danza, arte e historias transmitidas de generación en generación, que definen la cultura de una comunidad y ayudan a preservar su memoria, la valoración del Patrimonio Cultural Inmaterial también afecta a cuestiones de diversidad cultural, ya que refleja la riqueza y diversidad de la cultura humana, que es una valiosa fuente de conocimiento y comprensión. Contribuye a valorar la diversidad cultural y a fomentar la tolerancia y el respeto de las diferencias. Además, pueinternacionales de protección del patrimonio cultural más ampliamente adoptados. Passados quase vinte anos da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO15, o panorama que se apresenta hoje no contexto do Patrimônio Cultural aponta que um novo paradigma foi estabelecido sobre o reconhecimento de um bem cultural, assim como o estabelecimento de práticas de preservação e salvaguarda. A revisão historiográfica sobre esse campo do conhecimento tem reconhecido que os vetores materiais dos bens eleitos para preservação regeu as políticas empreendidas durante muitas décadas, com o favorecimento de exemplares que tivessem valores artísticos e históricos muito bem definidos. Diversos fatores, como, por exemplo, a ascensão dos direitos humanos no cenário político, levaram ao questionamento das políticas patrimoniais até então empreendidas para o favorecimento de grupos dominantes, em especial no contexto de estado-nação e do seu fortalecimento. Uma vez questionado esse contexto, o patrimônio correspondente a esse outro momento, representado por grandiosos monumentos, passou a ser questionado a partir da valorização de perfis identitários antes invisibilizados e que agora contestam seu espaço de representação dentro do campo do Patrimônio Cultural por meio de, principalmente, valorização das intangibilidades que perfazem um bem cultural. Nesse sentido, SMITH (2021) argumenta que o patrimônio pode ser usado como uma forma de empoderamento para grupos sociais, dependendo do modo como ele é construído e representado. O trato do patrimônio, portanto, não perdeu seu poder de afirmação ou contestação das narrativas dominantes sobre a história e a cultura com o alargamento do conceito, o que perfaz mais um ponto de discussão sobre as recentes políticas de preservação e salvaguarda dos bens culturais, tangíveis ou não. Por fim, sendo o Patrimônio processo e performance, salvaguardar seus bens intangíveis é garantir a sua transmissão com a garantia de que as práticas tenham condições para permanecer. A mudança de enfoque sobre a fisicalidade dos bens provocada pela viragem patrimonial permitiu uma compreensão 15 Adotada em 2003, é um instrumento internacional para a proteção e promoção do Patrimônio Cultural Imaterial, que inclui tradições orais, expressões artísticas, práticas sociais, rituais, conhecimentos técnicos, entre outros aspectos. A Convenção estabeleceu que o Patrimônio Cultural Imaterial é parte integrante da cultura dos povos e tem uma importância fundamental para sua identidade e sobrevivência, e que seu desaparecimento pode ter consequências negativas para a diversidade cultural e a humanidade como um todo. Além disso, ela incentiva os Estados-Parte a tomar medidas para preservar e proteger este patrimônio cultural, promovendo a sua transmissão a futuras gerações. Até o momento, a Convenção foi ratificada por mais de 170 países, tornando-se um dos instrumentos internacionais de proteção do patrimônio cultural mais amplamente adotados.
1.1 . Patrimônio é processo e performance 71 de servir para promover el turismo y la industria cultural, crear empleo y desarrollar la economía local. Por otro lado, el establecimiento de un discurso predominante sobre la patrimonialización de los bienes culturales ha contribuido a las lógicas de mercado asociadas a los procesos de turistificación de los territorios culturales. Si, por un lado, este proceso se produce a través de la utilización de vectores materiales del patrimonio, especialmente edificios de valor histórico y artístico, por otro lado la valorización del Patrimonio Cultural Inmaterial también ha servido a esta lógica. En los estudios de caso abordados en esta investigación, por ejemplo, se constató que la gastronomía amazónica, bien intangible en proceso de patrimonialización en la ciudad de Belém, se ha presentado como el principal lema para visitar territorios culturales históricamente consolidados, como el Complexo Ver-o-Peso. Del mismo modo, los procesos empresariales de la ciudad han utilizado la cocina amazónica para promover proyectos destinados a utilizar parte del tejido histórico en empresas de asociación público-privada que pretenden explorar aspectos valorados por el discurso patrimonial. Del mismo modo, el Flamenco se ha presentado como el principal bien cultural a consumir en el barrio de Triana, en Sevilla, lo que demuestra que la empresarialización de los territorios culturales a través de procesos de turistificación ha alcanzado un mayor nivel de complejidad al producirse también a través de los bienes culturales intangibles16. La fascinación que provoca el patrimonio, por tanto, relativa a las emociones patrimoniales, mueve e inspira acciones de preservación y salvaguarda, pero sin políticas que consideren específicamente procesos como la mundialización de la cultura, la instauración de paisajes banales y la multiterritorialización de grupos y comunidades, sirve más a la lógica del mercado que a la construcción del ethos cultural17. 16 Los capítulos 3 y 4 de la tesis abordan estas cuestiones con mayor profundidad, dedicando uno de los temas del capítulo 3 a las consecuencias de estos procesos para el paisaje urbano y el capítulo 4 a la dimensión intangible de los territorios en cuestión. 17 La Mundialización de la Cultura es un tema tratado en el capítulo 1, que considera el debilitamiento de las fronteras y de las identidades nacionales y sus repercusiones en el ámbito del Patrimonio Cultural, lo que contribuyó a la valorización de los bienes culturales intangibles en detrimento de los monumentos. Los paisajes banales como resultado de la especialización económica y funcional del territorio, la segregación morfológica de los entornos urbanos y la tematización del Paisaje se abordan en el capítulo 3 y tienen como referencia a Francesc Muñoz (MUÑOZ, 2008). La multiterritorialidad es un concepto presentado por HAESBAERT mais ampla e inclusiva do Patrimônio Cultural e refletiu uma conscientização crescente sobre a importância da preservação das tradições e das culturas populares, o que tem implicações significativas para a forma como o patrimônio é protegido, valorizado e transmitido para as gerações futuras. A valorização do Patrimônio Cultural Imaterial, portanto, é importante por várias razões, como seu reconhecimento enquanto elemento crucial da identidade cultural de uma comunidade ou sociedade antes invisibilizadas. Ao incluir tradições, crenças, rituais, música, dança, arte e histórias transmitidas de geração em geração, que definem a cultura de uma comunidade e ajudam a preservar sua memória, a valorização do Patrimônio Cultural Imaterial afeta também questões sobre a diversidade cultural, pois reflete a riqueza e a diversidade da cultura humana, que é uma fonte valiosa de conhecimento e compreensão. Ele ajuda a valorizar a diversidade cultural e a promover a tolerância e o respeito pelas diferenças. Além disso, pode ser usado para promover o turismo e a indústria cultural, criar empregos e desenvolver a economia local. Por outro lado, o estabelecimento de um discurso predominante sobre a patrimonialização de bens culturais tem contribuído para lógicas mercadológicas associadas a processos de turistificação de territórios culturais. Se, por um lado, esse processo se dá por meio da utilização de vetores materiais do patrimônio, em especial edificações de valores históricos e artísticos, por outro a valorização do Patrimônio Cultural Imaterial também tem servido a essa lógica. Nos estudos de caso abordados na investigação aqui presente, por exemplo, verificou-se que a culinária amazônica, bem intangível em processo de patrimonialização na cidade de Belém, tem sido apresentada como principal mote de visitação de territórios culturais historicamente consolidados, a exemplo do Complexo do Ver-o-Peso. Da mesma forma, processos de empresariamento da cidade tem se validado da culinária amazônica para a promoção de projetos voltados para a utilização de parte do tecido histórico em empreendimentos de parceria público-privada que visam explorar aspectos valorizados pelo discurso patrimonial. De forma semelhante, o Flamenco vem sendo apresentado como principal bem cultural a ser consumido no bairro de Triana, em Sevilha, o que demonstra que o empresariamento de territórios culturais por meio dos processos de turistificação atingiu um nível de complexidade maior ao se dar também por meio de bens culturais intangíveis16. O fascínio que o patrimônio provoca, portanto, relativo às emoções patrimoniais, 16 Os capítulos 3 e 4 da tese abordam com mais profundidade essas questões, sendo um dos tópicos do capítulo 3 dedicado às consequências desses processos para a paisagem urbana e o capítulo 4 focado na dimensão intangível dos territórios em questão.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 72 (2004) y considera la emergencia de múltiples territorios a partir de la desterritorialización de grupos y comunidades a escala global. Conjuntamente, se considera aquí la complejidad que procesos de esta envergadura producen sobre la acción del Patrimonio Cultural como campo de conocimiento y respecto al establecimiento de acciones y políticas de preservación. move e inspira ações de preservação e salvaguarda, mas sem políticas que considerem especificamente processos como a Mundialização da cultura, o estabelecimento de paisagens banais e a multiterritorialização de grupos e comunidades, ele serve mais à lógica do mercado do que à construção do ethos cultural17. 17 A Mundialização da Cultura é um tema tratado ainda no capítulo 1, em que se considera o enfraquecimento das fronteiras e das identidades nacionais e seus rebatimentos para o campo do Patrimônio Cultural, o que contribuiu para a valorização dos bens culturais intangíveis em detrimento dos monumentos. As paisagens banais enquanto resultado da especialização econômica e funcional do território, segregação morfológica dos ambientes urbanos e tematização da Paisagem são abordadas no capítulo 3 e tem como referência Francesc Muñoz (MUÑOZ, 2008). A multiterritorialidade é um conceito apresentado por HAESBAERT (2004) e considera o aparecimento de territórios múltiplos a partir da desterritorialização de grupos e comunidades em escala mundial. Em conjunto, considera-se aqui a complexidade produzida por processos dessa envergadura sobre a ação do Patrimônio Cultural enquanto campo do conhecimento e no que diz respeito ao estabelecimento de ações e políticas de preservação.
1.2 . A transnacionalização da Memória 73 1.2 La transnacionalización de la Memoria Frente al establecimiento de un discurso predominante en el proceso de construcción cultural del patrimonio, es esencial destacar que las elecciones y los conflictos son elementos inherentes a este proceso. El patrimonio no se hereda, sino que se reivindica, y las elecciones son siempre elegidas para representar a un grupo o sociedad. Los conflictos están relacionados con la Memoria, que es ambivalente y también conlleva el alcance del olvido. Para RICOEUR (2008) el ejercicio de la Memoria es el uso, y el abuso es lo que amenaza la Memoria. La memoria manipulada sería la que el autor sitúa como un plano propiamente práctico en el que se encuentran los abusos del olvido. La ideologización en la Memoria, en este ámbito, se hace posible a partir de un trabajo de configuración narrativa en el que hay un carácter selectivo de lo que será recordado u olvidado. Es en este sentido que RICOEUR (2008) advierte sobre el peligro de la historia oficial. La memoria puede ser analizada como una matriz de la Historia, si la analizamos desde el punto de vista de su escritura. Además, existe la reapropiación del pasado histórico sobre lo narrado por los relatos. Por lo tanto, además del proceso de patrimonialización, que implica elecciones, la Memoria preservada también es el resultado de un proceso. RICOEUR (2008) pone tres características a considerar sobre la Memoria, que son la presencia, la ausencia y la anterioridad. La Memoria guarda un enigma, que tiene en el pasado el signo de la ausencia, y tiene en la preservación de lo que “ya estaba presente” el sentimien- to de fidelidad y el acto de reapropiación, reconocimien- to, y principalmente, reconstrucción. La conciencia de la Historia y de la Memoria se fija en el tiempo y contribuye a la construcción de la identidad. Lo que se recuerda y se conserva influye en la construcción de la identidad cultural, social y política de grupos y comunidades, y la forma en que se cuenta la historia puede reforzar o cuestionar las narrativas dominantes. Por tanto, es importante ser consciente de los procesos de selección y preservación de la Memoria y el Patrimonio y tener en cuenta las diferentes perspectivas y voces implicadas. Además, la forma en que se cuenta la Historia y lo que se preserva como Memoria, si tenemos en cuenta lo expuesto hasta aquí, influiría directamente en las prácticas preservacionistas que se están llevando a cabo en la actualidad. Cabe aquí lo que NORA (1997) señala como “lugares de memoria”, que son lugares físicos o simbólicos que fueron creados con el propósito específico de guardar la memoria de un acontecimiento, persona, grupo o época en particular, cuya representación se encuentra en monumentos, museos, memoriales, cementerios, placas conmemorativas, símbolos, rituales y celebraciones, entre otros. Para el autor, los lugares de memoria son importantes porque contribuyen a mantener viva la conexión entre las personas y su pasado, permitiendo que la memoria colectiva siga transmitiéndose de generación en generación. También pueden considerarse una forma de legitimar una determinada narración histórica, selec- 1.2 A TRANSNACIONALIZAÇÃO DA MEMÓRIA Diante do estabelecimento de um discurso predominante no processo de construção cultural do patrimônio, é fundamental ressaltar que as escolhas e conflitos são elementos inerentes esse processo. O patrimônio não é herdado, mas sim reivindicado, e as escolhas são sempre eleitas para representar um grupo ou sociedade. Os conflitos estão relacionados à Memória, que é ambivalente e carrega também o âmbito do esquecimento. Para RICOEUR (2008) o exercício da Memória é o uso, sendo o abuso o que ameaça a Memória. A memória manipulada seria aquela que o autor coloca como um plano propriamente prático em que se encontram os abusos do esquecimento. A ideologização na Memória, nesse âmbito, se torna possível a partir de um trabalho de configuração narrativa em que há caráter seletivo do que será lembrado ou esquecido. É nesse sentido que RICOEUR (2008) alerta para o perigo da história oficial. A Memória pode ser analisada enquanto matriz da História, se analisarmos do ponto de vista da sua escrita. Além disso, há a reapropriação do passado histórico sobre o que foi narrado pelos relatos. Portanto, assim como o processo de patrimonialização, que envolve escolhas, também a Memória preservada é resultado de um processo. RICOEUR (2008) coloca três traços a serem considerados sobre a Memória, sendo eles a presença, a ausência e a anterioridade. A memória guarda um enigma, que tem no passado o signo da ausência, e tem na preservação do que “já esteve presente” o sentimento de fidelidade e o ato de reapropriação, reconhecimento, e principalmente, reconstrução. A consciência da História e da Memória se fixa ao longo do tempo e contribui para a construção da identidade. O que é lembrado e preservado influencia a construção da identidade cultural, social e política de grupos e comunidades, sendo que a forma como a História é contada pode reforçar ou questionar narrativas dominantes. Por isso, é importante estar atento aos processos de seleção e preservação da Memória e do Patrimônio e considerar as diferentes perspectivas e vozes envolvidas. Além disso, a forma com que a História é contada e o que é preservado enquanto Memória, se considerarmos o que foi até então aqui colocado, influenciaria diretamente as práticas preservacionistas que estão sendo atualmente implementadas. Cabe aqui o que NORA (1997) aponta como “lugares da memória”, que são locais físicos ou simbólicos que foram criados com o propósito específico de manter a memória de um evento, pessoa, grupo ou época em particular, cuja representação se encontra em monumentos, museus, memoriais, cemitérios, placas comemorativas, símbolos, rituais e celebrações, entre outros. Para o autor, os lugares de memória são importantes porque ajudam a
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 80 perimentadas de comunidades y naciones. Se trata de un campo de estudio relativamente nuevo y sigue evolucionando a medida que los estudiosos exploran cómo la memoria y la historia interactúan y se afectan mutuamente. De cualquier manera, la mnemohistoria considera que la memoria es un proceso activo y dinámico que evoluciona constantemente y está moldeado por una variedad de factores, como la cultura, la política, la tecnología y las experiencias personales (ASSMANN, 2018). Así, la forma en que una sociedad recuerda los acontecimientos históricos puede cambiar con el tiempo, reflejando los cambios en las perspectivas y valores sociales. Este enfoque destaca la importancia de los artefactos culturales, como monumentos, museos, películas, libros y otras formas de arte, en la construcción de la memoria colectiva. Estos artefactos pueden influir en la forma en que la gente recuerda el pasado, moldeando sus percepciones y emociones asociadas a los acontecimientos históricos. Memoria, identidad y patrimonio están estrechamente relacionados y se influyen mutuamente. El patrimonio es una forma de materialización de la memoria colectiva y las identidades culturales de un pueblo, mientras que la memoria y la identidad influyen directamente en las prácticas preservacionistas y las políticas patrimoniales. Además, la relación entre estos elementos puede generar conflictos y disputas en torno a su preservación y uso, especialmente cuando existen diferentes interpretaciones y representaciones de un mismo patrimonio en relación con las identidades y memorias asociadas a él. Por ello, entender la interconexión entre memoria, identidad y patrimonio es fundamental para una gestión más eficiente y democrática del patrimonio cultural e histórico. Ya lejos de las definiciones iniciales sobre memoria y olvido, puede decirse que su conceptualización más antigua forma parte de un proceso histórico concebido desde la perspectiva de un tiempo lineal. De hecho, existe una paradoja entre la crisis de la Memoria y su hipertrofia, en la que el conflicto representado por el contexto sociocultural de producción de la Memoria es determinante para la crítica del presente y concomitante a la producción de lo contemporáneo. La transnacionalización es uno de los procesos del presente y, al igual que el desarrollo territorial, que se enfrenta a procesos como la multiterritorialización, también la Memoria se ve afectada por el creciente estrechamiento de las fronteras nacionales. Los procesos de deslocalización y translocalización20 que constituyen las memorias en el contexto 20 La globalización es un fenómeno complejo y polifacético que implica una serie de procesos económicos, políticos, culturales y sociales que interconectan distintas regiones del mundo. En este contexto, la deslocalización y la translocalización son procesos importantes que afectan al funcionamiento de las economías y las dinámicas sociales en distintas partes del mundo, ya que son procesos que están interconectados y se afectan mutuauma dimensão nacional e local estreita, a passo que, em Berlim, o movimento foi no mínimo inverso, no contexto da década de 1990 (HUYSSEN, 2014, 143-144). As considerações do autor sobre os dois memoriais podem indicar um caminho para a compreensão das atuais culturas de Memória porque são exemplares da complexidade que questões de transnacionalização junto à mundialização da cultura atingiram atualmente. Outro importante ponto abordado por ele é a superação da antiga batalha entre História e Memória como sendo presumivelmente irreconciliáveis. Em termos teóricos, a maioria dos estudiosos da Memória assume uma relação dialética em vez de uma relação mutuamente exclusiva entre História e Memória. É a mnemo-história que agora ocupa esse campo, conceito que capta a relação recíproca entre Memória e História no tipo de pesquisa histórica que questiona estruturas de memória vividas e experienciadas de comunidades e nações. Essa é uma área de estudo relativamente nova e continua a evoluir à medida que os estudiosos exploram como a memória e a história interagem e afetam um ao outro. De qualquer forma, a mnemo-história considera que a memória é um processo ativo e dinâmico, que está em constante evolução e é moldado por uma variedade de fatores, incluindo a cultura, a política, a tecnologia e as experiências pessoais (ASSMANN, 2018). Assim, a forma como uma sociedade se lembra de eventos históricos pode mudar ao longo do tempo, refletindo mudanças nas perspectivas e valores da sociedade. Essa abordagem destaca a importância dos artefatos culturais, como monumentos, museus, filmes, livros e outras formas de arte, na construção da memória coletiva. Esses artefatos podem influenciar a maneira como as pessoas se lembram do passado, moldando suas percepções e emoções associadas aos eventos históricos. A memória, a identidade e o patrimônio estão intimamente relacionados e se influenciam mutuamente. O patrimônio é uma forma de materialização da memória coletiva e das identidades culturais de um povo, enquanto a memória e a identidade influenciam diretamente as práticas preservacionistas e as políticas de patrimônio. Além disso, a relação entre esses elementos pode gerar conflitos e disputas em torno de sua preservação e utilização, especialmente quando há diferentes interpretações e representações de um mesmo patrimônio em relação às identidades e memórias associadas a ele. Portanto, compreender a interconexão entre memória, identidade e patrimônio é fundamental para uma gestão mais eficiente e democrática do patrimônio cultural e histórico. Já distante das definições iniciais sobre memória e esquecimento, pode-se dizer que sua mais antiga conceituação faz parte de um processo histórico concebido da
1.2 . A transnacionalização da Memória 81 de la sociedad postmoderna han implicado una creciente diversidad cultural, lo que ha generado tensiones y conflictos en relación con la preservación y valorización de las diferentes formas de memoria y patrimonio. En este sentido, es fundamental promover diálogos y acciones interculturales que consideren la diversidad y complejidad de las memorias e identidades culturales, respetando y valorando las diferentes perspectivas y experiencias. Si antes, la elección de los monumentos de las ciudades constituía gran parte de la representación de la Memoria, en el contexto de la construcción de las identidades nacionales, y hoy la cuestión de la Memoria reside en un universo dominado por la lógica presentista de la cultura de masas, en el que carece de cierta profundidad, ¿cómo debe abordarse la preservación de la Memoria ante la ampliación del concepto de patrimonio? En un contexto en el que la preservación de los bienes culturales avanza hacia la valoración también, y quizás principalmente, de las inmaterialidades, y teniendo en cuenta el sesgo político que caracteriza las relaciones de poder que orientan la toma de decisiones sobre la preservación y salvaguarda del patrimonio, ¿qué caracteriza actualmente a las memorias elegidas? Finalmente, la forma como ocurre la (re) territorialización de los bienes culturales, concomitante a procesos relacionados con la formación de la ciudad contemporánea, como la globalización de la cultura, afectan directamente las políticas patrimoniales creadas en torno, justamente, a la preservación de la Memoria. El discurso construido sobre la preservación del patrimonio y sus consecuentes procesos de patrimonialización, por lo tanto, tiene impacto directo en el desarrollo de los territorios culturales. La transnacionalización de la memoria se refiere al proceso por el cual las memorias colectivas e individuales se transmiten y comparten a través de las fronteras nacionales. Esto puede incluir la conservación y difusión de tradiciones, historias, mitos, valores y prácticas culturales a través de fronteras geográficas, políticas y sociales, así como su pasteurización y tematización como consecuencias negativas de este proceso. Considerada a menudo como una forma de preservar y reforzar los lazos culturales entre las personas que se identifican con una cultura o una historia determinadas, aunque estén geográficamente dispersas, la transnacionalización de la memomente. Por ejemplo, la deslocalización puede provocar la translocación de trabajadores que se trasladan a otras regiones en busca de empleo. Del mismo modo, la translocalización puede influir en las decisiones de deslocalización de las empresas, ya que éstas pueden tener en cuenta factores como la disponibilidad de mano de obra cualificada y las infraestructuras disponibles en distintas partes del mundo. Estos procesos se consideran en esta tesis principalmente desde el punto de vista de APPADURAI (1999), SASSEN (2005), CASTELLS (1999) y HARVEY (2005). perspectiva de um tempo linear. Na verdade, existe um paradoxo entre a crise da Memória e sua hipertrofia, em que o conflito representado pelo contexto sociocultural de produção da Memória é determinante para a crítica do presente e concomitante à produção do contemporâneo. A transnacionalização é um dos processos do presente e, assim como o desenvolvimento territorial, que enfrenta processos como a multiterritorialização, também a Memória é afetada pelo estreitamento cada vez maior dos limites nacionais. Os processos de deslocalização e de translocalização20 que constituem as memórias no contexto da sociedade pós-mo- derna têm implicado em uma crescente diversidade cultural, o que tem gerado tensões e conflitos em relação à preservação e valorização de diferentes formas de memória e patrimônio. Nesse sentido, é fundamental promover diálogos interculturais e ações que considerem a diversidade e a complexidade das memórias e identidades culturais, respeitando e valorizando as diferentes perspectivas e experiências. Se antes, a eleição de monumentos citadinos eram grande parte da representação da Memória, no contexto de construção de identidades nacionais, e hoje a questão da Memória reside num universo dominado pela lógica presentista da cultura de massas, em que carece de certa profundidade, de que forma a preservação da Memória deve ser abordada diante do alargamento do conceito de patrimônio? Num contexto em que a preservação de bens culturais caminha para a valorização também, e talvez principalmente, de imaterialidades, e considerando o viés político que caracteriza relações de poder que guiam as tomadas de decisão acerca da preservação e salvaguarda do patrimônio, o que caracteriza atualmente as memórias eleitas? Por fim, a forma como se dá a (re)territorialização de bens culturais, concomitantes a processos relativos à formação da cidade contemporânea, como a mundialização da cultura, afetam diretamente as políticas patrimoniais criadas em torno, justa- 20 A globalização é um fenômeno complexo e multifacetado que envolve uma série de processos econômicos, políticos, culturais e sociais que interconectam diferentes regiões do mundo. Nesse contexto, a deslocalização e a translocalização são processos importantes que afetam o funcionamento das economias e a dinâmica social em diferentes partes do mundo, já que são processos que estão interconectados e afetam-se mutuamente. Por exemplo, a deslocalização pode levar à translocalização de trabalhadores que se mudam para outras regiões em busca de emprego. Da mesma forma, a translocalização pode influenciar as decisões de deslocalização das empresas, pois elas podem considerar fatores como a disponibilidade de mão de obra qualificada e a infraestrutura disponível em diferentes partes do mundo. Esses processos são considerados nessa tese principalmente do ponto de vista de APPADURAI (1999), SASSEN (2005), CASTELLS (1999) e HARVEY (2005).
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 82 ria puede verse influida por cuestiones políticas, sociales y económicas, como la inmigración, la globalización y los conflictos culturales. En lo que respecta al ámbito del Patrimonio Cultural y a las actuales categorías de bienes culturales, frente a la identificación de procesos como éste, lo que se puede concluir es que la clasificación entre bienes de naturaleza material o intangible no se corresponde con la complejidad que han alcanzado los territorios culturales en la actualidad. mente, da preservação da Memória. O discurso construído acerca da preservação do patrimônio e seus consequentes processos de patrimonialização, portanto, tem rebatimento direto sobre o desenvolvimento de territórios culturais. A transnacionalização da memória refere-se ao processo pelo qual as memórias coletivas e individuais são transmitidas e compartilhadas além das fronteiras nacionais. Isso pode incluir a preservação e a difusão de tradições, histórias, mitos, valores e práticas culturais através de fronteiras geográficas, políticas e sociais, assim como sua pasteurização e tematização enquanto consequências negativas desse processo. Frequentemente vista como uma forma de preservar e fortalecer laços culturais entre pessoas que se identificam com uma determinada cultura ou história, mesmo que estejam geograficamente dispersas, a transnacionalização da memória pode ser influenciada por questões políticas, sociais e econômicas, como imigração, globalização e conflitos culturais. No que concerne o campo do Patrimônio Cultural e as atuais categorias dos bens culturais, frente à identificação de processos como esse, o que se pode concluir é que a classificação entre bens de natureza material ou intangível não corresponde à complexidade que territórios culturais tem atingido atualmente.
1.3 Mundial versus Local 83 1.3 Mundial versus Local La modernidad nunca ha sido una sola. La opinión de que la modernidad es heterogénea y polifacética está ampliamente aceptada en el mundo académico y constituye una perspectiva importante para comprender la historia y la sociología del cambio social y cultural. Uno de los efectos positivos del discurso posmoderno21, especialmente de los estudios poscoloniales, fue la apertura geográfica a la existencia de otros modernismos y modernidades, cuestión aún debatida en el contexto de qué forma debe ser analizada, si verticalmente, con imposiciones de Occidente, o a partir de la apropiación de miradas locales. HUYSSEN (2014) identifica, en la década de 1980, el apogeo de la euforia posmodernista que, no por casualidad, coincide con el inicio del debate sobre la ampliación de la noción de patrimonio. Señala que las dimensiones culturales de la globalización y su relación con la historia de la modernidad se malinterpretan porque la cultura que se considera “auténtica” es la producida por una comunidad, es decir, por una cultura local, mientras que son los procesos económicos y tecnológicos los que se perciben como universales y globales y, en consecuencia, como “progreso”. En medio de las cuestiones relacionadas con la memoria y el olvido, la formación de perfiles identitarios consecuentes de los procesos de transnacionalización, en los que la Memoria es compartida entre naciones y comunidades y geográficamente dispersa, influyen directamente en lo que HUYSSEN (2014) denomina “culturas del pasado-presente”. La autora señala que tanto el discurso del modernismo como las políticas de la memoria se han globalizado, pero que ello no ha implicado la creación de un único modernismo global ni de una cultura global de la memoria y los derechos humanos. Las “culturas del pasado-presente” se refieren a una tendencia de la cultura contemporánea a rescatar, reinterpretar y reutilizar elementos del pasado en nuevas formas de expresión artística y cultural. HUYSSEN (2014) sostiene que las “culturas del pasado-presente” son una respuesta a los efectos de la globalización y la tecnología de la información, que han creado una sensación de “presentismo” y una tendencia a desatender o ignorar el pasado. La resurrección de elementos del pasado sirve para recuperar un sentido de continuidad histórica y cultural, así como para problematizar y cuestionar el discurso imperante. Según el autor, las culturas del pasado-presen- te también pueden considerarse una forma de resistencia a la homogeneización cultural global, ya que permiten a artistas y cultores recuperar y reinterpretar elementos culturales locales y regionales que pueden haberse perdido u olvidado. Además, 21 La comprensión de la posmodernidad en esta tesis se basa principalmente en GIDDENS (1991), BAUMAN (2001), HARVEY (2004) y LYOTARD (2008). 1.3 MUNDIAL VERSUS LOCAL A modernidade nunca foi uma só. A visão de que a modernidade é heterogênea e multifacetada é amplamente aceita na academia e é uma perspectiva importante para entender a história e a sociologia das mudanças sociais e culturais. Um dos efeitos positivos do discurso pós-moderno21, em especial os estudos pós-coloniais, foi a abertura geográfica da existência de outros modernismos e modernidades, questão ainda debatida no âmbito de qual forma deve ser analisada, se verticalmente, com imposições do Ocidente, ou a partir da apropriação de olhares locais. HUYSSEN (2014) identifica, na década de 1980, o auge da euforia pós-modernista que, não por acaso, coincide com o início do debate acerca do alargamento da noção de patrimônio. Ele aponta que as dimensões culturais da globalização e sua relação com a história da modernidade são mal compreendidas por que a cultura que é considerada “autêntica” é aquela produzida por uma comunidade, ou seja, por uma cultura local, ao passo que são os processos econômicos e tecnológicos que são percebidos como universais e globais e, consequentemente, como “progresso”. Em meio às questões relacionadas à memória e esquecimento, a formação de perfis identitários consequentes dos processos de transnacionalização, em que a Memória é compartilhada entre nações e comunidades e dispersa geograficamente, influenciam diretamente o que HUYSSEN (2014) denomina “culturas do passado-presente”. O autor aponta que tanto o discurso do modernismo quanto a política da memória se globalizaram, mas que isso não implicou na criação de um modernismo global único ou uma cultura global da memória e dos direitos humanos. As “culturas do passado-presente” se referem a uma tendência na cultura contemporânea em resgatar, reinterpretar e reutilizar elementos do passado em novas formas de expressão artística e cultural. HUYSSEN (2014) argumenta que as “culturas do passado-presente” são uma resposta aos efeitos da globalização e da tecnologia da informação, que criaram uma sensação de “presentismo” e uma tendência a desconsiderar ou ignorar o passado. A ressurreição de elementos do passado serve como uma forma de recuperar o sentido de continuidade histórica e cultural, bem como de problematizar e questionar o discurso predominante. De acordo com o autor, as culturas do passado-presen- te também podem ser vistas como uma forma de resistência à homogeneização cultural global, já que permitem aos artistas e 21 O entendimento sobre a pós-modernidade nessa tese se dá principalmente a partir de GIDDENS (1991), BAUMAN (2001), HARVEY (2004) e LYOTARD (2008).
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 84 La división historia/memoria se ha superado en casi todas partes, y la interdependencia entre historiografía y memoria está ampliamente reconocida. La mnemohistoria se ha convertido en un término corriente para designar este nuevo subcampo de la historiografía. La nación ya no es el continente singular de la memoria colectiva, y la propia expresión “memoria colectiva” se ha convertido en una designación cada vez más problemática (HUYSSEN, 2014, 13-14, traducción libre). Lo que concluimos ante la necesidad de revisar la idea de Memoria, especialmente la colectiva, es que no puede haber una cultura puramente global que esté totalmente separada de las tradiciones locales. Por otro lado, no puede existir una cultura puramente local, aislada de los efectos de lo global. HUYSSEN (2014) sostiene que la visión dualista que intenta oponer lo local a lo global es problemática porque no reconoce la naturaleza fluida y cambiante de la cultura, y no tiene en cuenta las formas en que las prácticas culturales se ven influidas por los contextos transnacionales. Esta visión dualista también puede impedir una comprensión más amplia y transnacional de las prácticas culturales, ya que limita el análisis a una localidad o región concreta, ignorando la complejidad y las múltiples influencias que conforman la cultura. En su lugar, el autor propone un modelo de análisis cultural que tiene en cuenta las complejas relaciones entre lo local y lo global, reconociendo la importancia de los flujos culturales transnacionales y las prácticas de traducción, transmisión y apropiación locales. Este modelo permite una comprensión más completa y dinámica de las prácticas culturales, teniendo en cuenta la complejidad y variedad de las influencias culturales que conforman la cultura contemporánea. Este enfoque permite una comprensión más completa y dinámica de las prácticas culturales, teniendo en cuenta la complejidad y variedad de las influencias culturales que conforman la cultura contemporánea. Conviene distinguir aquí entre globalización y mundialización, donde el término globalización tiene el sentido de un proceso económico e ideológico, implícito en una lógica de hegemonía al mercado. Mundialización puede considerarse como un término que implica no sólo el sentido económico, sino también aspectos políticos, culturales y sociales. La mundialización de la cultura es el proceso de difusión de las culturas en todo el mundo, dando lugar a una amplia circulación de bienes culturales, ideas e información entre las naciones y regiones del mundo. HALL (2006) es uno de los autores que identificó este proceso, en el que se produce una creciente homogeneización de la cultura en todo el mundo, con la difusión de valores, estilos de vida y formas de expresión cultural. Al mismo tiempo, esta tendencia ocurre junto con la resistencia y el surgimiento de nuevas formas de identidad cultural local. ORTIZ (2006) siempre diferencia en sus trabajos el proceso de globalización económica y tecnológica en el movimiento de Mundialización y afirma cultores recuperar e reinterpretar elementos culturais locais e regionais que podem ter sido perdidos ou esquecidos. Além disso, O divisor história/memória foi superado em quase todos os lugares, e a interdependência entre historiografia e memória é amplamente reconhecida. Mnemo-história tornou-se um termo corrente para designar esse novo subcampo da historiografia. A nação já não é o continente singular da memória coletiva, e a própria expressão ‘memória coletiva’ tornou-se uma denominação cada vez mais problemática (HUYSSEN, 2014, 13-14). O que se conclui diante da necessidade de revisão da ideia de Memória, especialmente a coletiva, é que não pode haver cultura puramente mundial que esteja totalmente separada das tradições locais. Por outro lado, não pode haver uma cultura puramente local, isolada dos efeitos do global. HUYSSEN (2014) sustenta que a visão dualista que tenta opor o local ao global é problemática, pois ela não reconhece a natureza fluida e mutável da cultura, e não leva em consideração as maneiras pelas quais as práticas culturais são influenciadas por contextos transnacionais. Essa visão dualista também pode impedir uma compreensão mais ampla e transnacional das práticas culturais, já que ela limita a análise a uma determinada localidade ou região, ignorando a complexidade e as múltiplas influências que moldam a cultura. Em vez disso, o autor propõe um modelo de análise cultural que leva em consideração as complexas relações entre o local e o global, reconhecendo a importância dos fluxos culturais transnacionais e das práticas de tradução, transmissão e apropriação local. Esse modelo permite uma compreensão mais abrangente e dinâmica das práticas culturais, levando em consideração a complexidade e a variedade de influências culturais que moldam a cultura contemporânea. Essa abordagem permite uma compreensão mais ampla e dinâmica das práticas culturais, levando em consideração a complexidade e a variedade de influências culturais que moldam a cultura contemporânea. Cabe aqui a distinção entre globalização e mundialização, em que o termo globalização tem o sentido de processo econômico e ideológico, implícito a uma lógica de hegemonia ao mercado. Mundialização pode ser visto como um termo que acarreta não apenas o sentido econômico, mas também aspectos políticos, culturais e sociais. A Mundialização da cultura é o processo de difusão das culturas a nível mundial, resultando em uma ampla circulação de bens culturais, ideias e informações entre as nações e as regiões do mundo. HALL (2006) é um dos autores que identificou esse processo, em que há uma crescente homogeneização da cultura a nível mundial, com a difusão de valores,
1.3 Mundial versus Local 85 que la cultura es más dispersa que la política porque no depende de mecanismos e instituciones para ello. En este proceso, la Mundialización redefine la noción de espacio alterando lo que se entiende por local y global. Algunos de estos cambios están relacionados con la reducción de las fronteras, lo que permite una mayor libertad de comercio y circulación de personas, bienes y servicios. Esto ha dado lugar a una mayor interdependencia entre los países y a una mayor integración. La concentración de actividades económicas también forma parte de este panorama, como las empresas que se han concentrado en centros urbanos globales como Nueva York, Londres y Tokio, que se han convertido en centros de finanzas, tecnología y cultura global. Los cambios en el uso del suelo también son cambios que pueden citarse en relación con esta cuestión, como las zonas rurales que se han convertido en zonas urbanas en respuesta al crecimiento de las ciudades y a la necesidad de dar cabida a la población en expansión. Por último, la globalización ha conducido a una mayor homogeneización cultural, con la aparición de culturas globales. Esto puede verse en el aumento de la popularidad de marcas globales, como Coca-Cola y McDonald’s. ORTIZ (2017) plantea, sin embargo, que la noción de cultura de masas se debilita en el mundo actual, con la existencia de diversos canales de noticias y medios de comunicación, sin una hegemonía única. Además, el mundo no está integrado social y culturalmente. La esfera económica también ha cambiado, con una segmentación del mercado y una producción dirigida a segmentos específicos. El mercado es global, y puede o no ser de masas, y las diferenciaciones de clase e identidad se realizan a través de bienes materiales y simbólicos. Afirma, por ejemplo, que el público consumidor de Mc Donalds no es el mismo que el que consume bolsos de Gucci, porque la identidad del consumidor se agrupa en torno a la idea de colectividad, pero prioriza características específicas. Del mismo modo, lo que antes se colocaba como una dimensión mercantil de la cultura perdió fuerza lo que hizo que el mercado se expandiera a otros ámbitos, como el turismo, en el que se consume la propia ciudad (ORTIZ, 2017, 30-36). Otro punto que señala ORTIZ (2017, 44-48) es que la globalización tiene un impacto importante en la construcción de la identidad nacional, ya que pone en cuestión la jurisdicción del Estado-nación en la construcción de la identidad. La presencia de referencias simbólicas transnacionales, como la alta costura de Yamamoto o los bolsos de Gucci, cambia la forma en que las personas construyen sus identidades. La nación se considera sólo una entre otras identidades posibles, y su totalidad se ve atravesada por una cultura mundializada. Además, el proceso de globalización también da lugar a la aparición de instancias de legitimidad a escala transnacional, lo que modifica la imagen de las fuerzas internacionales. La globalización reactiva la metáfora del espacio, afectando no sólo a la cultura, sino también a la política y la geopolítica. “Local” y “mundial” hacen referencia a dos escalas diferentes, la primera se refiere a un territorio cirestilos de vida e formas de expressão cultural. Ao mesmo tempo, essa tendência ocorre em conjunto com a resistência e o surgimento de novas formas de identidade cultural local. ORTIZ (2006) sempre diferencia em seus trabalhos o processo de globalização econômica e tecnológica no movimento de Mundialização e afirma que a cultura é mais dispersa do que a política pois não depende de mecanismos e instituições para isso. Nesse processo, a Mundialização redefine a noção de espaço ao alterar o que se entende por local e mundial. Algumas dessas alterações se relacionam com a redução das fronteiras, em que se permite maior livre comércio e circulação de pessoas, bens e serviços. Isso tem levado a um aumento da interdependência entre países e a uma maior integração. Também a concentração de atividades econômicas faz parte desse quadro, a exemplo de empresas que têm se concentrado em centros urbanos globais, como Nova York, Londres e Tóquio, que se tornaram centros de finanças, tecnologia e cultura global. Mudanças no uso do solo também são alterações que podem ser citadas no que tange essa questão, como, por exemplo, áreas rurais que têm se tornado áreas urbanas em resposta ao crescimento das cidades e à necessidade de acomodar a população em expansão. Por fim, a mundialização tem levado a uma maior homogeneização cultural, com o surgimento de culturas globais. Isso pode ser visto no aumento da popularidade de marcas globais, como a Coca-Cola e a McDonald’s. ORTIZ (2017) coloca, porém, que a noção de cultura de massa está enfraquecida no mundo atual, com a existência de diversos canais de notícias e meios de comunicação, sem uma hegemonia única. Além disso, o mundo não é social e culturalmente integrado. A esfera econômica também mudou, com a segmentação do mercado e a produção direcionada a segmentos específicos. O mercado global é global, podendo ser ou não de massa, e as diferenciações de classe e identidade são realizadas através de bens materiais e simbólicos. Ele afirma, por exemplo, que o público consumidor do McDonalds não é o mesmo que consome bolsas Gucci, porque a identidade de consumo é agrupado em torno da ideia de coletivo, mas prioriza características específicas. Da mesma forma, o que antes se colocava como dimensão mercadológica da cultura perdeu força o que fez o mercado se expandir para outras áreas, como o turismo, em que a própria cidade é consumida (ORTIZ, 2017, 30-36). Outro ponto que ORTIZ (2017, 44-48) coloca é que a globalização tem um impacto importante na construção da identidade nacional, uma vez que coloca em questão a jurisdição do Estado-nação na construção da identidade. A presença de referências simbólicas transnacionais, como a alta costura de Yamamoto ou as bolsas Gucci, mudam a forma como as pessoas cons-
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 86 cunscrito y la segunda al espacio multidimensional del planeta. Tradicionalmente, una práctica se considera local cuando está circunscrita geográficamente y es identificable en un contexto espacial y temporalmente determinado. Lo local suele ser el pueblo, el barrio, el municipio, a veces incluso la región en la que se identifican las bases de la tradición y la identificación. Esto se debe a que el lugar se estima no sólo en términos objetivos, sino también en términos subjetivos, es decir, cómo lo percibimos y experimentamos (APPADURAI, 2001). Visto desde este ángulo, el lugar es lo interno, lo cercano, lo conocido, lo íntimo. En este caso, no se trata de una definición geográfica, sino subjetiva, como lo es la noción sobre el mundo. La localidad es, ante todo, una cuestión de relación y contex- to, y transmite una sensación de familiaridad, proximidad, identificación y seguridad. Una de las explicaciones de cómo las culturas de todo el mundo influyen y se influyen mutuamente la dio APPADURAI (1991), que definió en los años noventa la teoría de los cinco scapes. El sentido del término es de fuga y define el flujo de personas, tecnologías, finanzas, medios de comunicación e ideas, respectivamente, en todo el mundo. Uno de los escapes es el etnoscape, que se refiere al flujo de personas a través de las fronteras, y actualmente puede referirse tanto a trabajadores migrantes o refugiados como a turistas. La Organización Mundial del Turismo sostiene que se trata de uno de los sectores empresariales de más rápido crecimiento y que aproximadamente uno de cada once empleos en el mundo está relacionado con el turismo de alguna manera. Sin embargo, uno de los problemas que conlleva el turismo es la masificación de esta actividad, con consecuencias que han resultado desastrosas especialmente para las naciones más pobres, ya que el turismo puede empeorar la desigualdad social en una nación. A menudo, los beneficios económicos del turismo se concentran en zonas turísticas concretas, mientras que otros territorios, menos interesantes para estos procesos, siguen recibiendo menos inversiones. Además, los empleos generados por el turismo suelen ser precarios y mal pagados, con pocas oportunidades de progresión profesional. El tecnoespacio se refiere a los flujos tecnológicos y puede ejemplificarse con la producción y el consumo del iPhone de Apple. Sus récords de ventas siempre se superan y la creciente demanda impulsa un ritmo de producción de pésimas condiciones laborales. Los ingresos asociados a la producción y exportación de bienes tecnológicos están alterando drásticamente la distribución internacional de la riqueza. A medida que aumenta el ritmo de la innovación tecnológica, también lo hace el flujo de tecnología. El ideoscape se refiere al flujo de ideas. Actualmente, puede estar representado por las redes sociales, en las que los individuos publican sus opiniones para consumo público, pero también se configura, por ejemplo, en los misioneros cristianos de la región amazónica, cuyo objetivo es difundir su doctrina religiosa. La democracia, la ciudadanía, la equidad y los derechos humanos, por ejemplo, también son ideoscapes. El paisaje financiero, por su parte, se refiere al flujo de dinero a través de las troem suas identidades. A nação é vista como apenas uma entre outras possíveis identidades, e sua totalidade é atravessada por uma cultura mundializada. Além disso, o processo de globalização também leva ao surgimento de instâncias de legitimidade em escala transnacional, mudando o quadro das forças internacionais. A globalização reativa a metáfora do espaço, afetando não apenas a cultura, mas também a política e a geopolítica. “Local” e “mundial” se referem a duas diferentes escalas, sendo o primeiro referente a um território circunscrito, e o segundo ao espaço multidimensional do planeta. Tradicionalmente, uma prática é considerada local quando geograficamente circunscrita e identificável em um contexto espacial e temporalmente determinado. O local é geralmente a aldeia, o distrito, o município, às vezes até a região em que são identificadas bases de tradição e identificação. Isto porque o local se estima não só em termos objetivos, mas também em termos subjetivos, nomeadamente como o percebemos e experienciamos (APPADURAI, 2001). Visto por esse ângulo, o local é o que é interno, próximo, conhecido, íntimo. Nesse caso, não é uma definição geográfica, mas subjetiva, assim como também é a noção sobre o mundial. A localidade é, antes de tudo, uma questão de relação e contexto e transmite uma sensação de familiaridade, proximidade, identificação e segurança. Uma das explicações sobre como culturas do mundo todo influenciam e são influenciadas mutuamente foi dada por APPADURAI (1991), que definiu na década de 1990 a teoria de cinco scapes. O sentido do termo é de fuga e define fluxo de pessoas, tecnologias, finanças, mídia e ideias, respectivamente, ao redor do mundo. Uma das fugas é a etnoscape, que se refere ao fluxo de pessoas através das fronteiras, e atualmente pode se referir tanto a trabalhadores migrantes ou refugiados, quanto aos turistas. A Organização Mundial do Turismo argumenta que esse é um dos setores comerciais de mais rápido crescimento e que aproximadamente um em cada onze empregos no mundo está relacionado ao turismo de alguma forma. Uma das questões que o turismo acarreta, porém, é a massificação dessa atividade, de consequências que em se mostrado desastrosas principalmente para nações mais pobres, visto que o turismo pode agravar a desigualdade social em uma nação. Muitas vezes, os benefícios econômicos do turismo são concentrados em áreas turísticas específicas, enquanto outros territórios, menos interessantes a esses processos, continuam a receber menor quantidade de investimentos. Além disso, muitas vezes, os empregos gerados pelo turismo são precários e mal remunerados, com poucas oportunidades de progressão de carreira. O tecnoscape se refere aos fluxos de tecnologia e pode ser exemplificado pela produção e consumo do iPhone da Apple. Seus recordes de venda são sem-
1.3 Mundial versus Local 87 fronteras políticas. Lo que vemos hoy es que las transacciones en las bolsas tienen efectos prácticamente inmediatos en las economías de todo el mundo. Por último, el mediascape se refiere al flujo de medios de comunicación a través de las fronteras. Las actuales tecnologías digitales de comunicación se comparten con facilidad y rapidez independientemente de las fronteras geográficas. Por ejemplo, las telenovelas brasileñas pueden proporcionar entretenimiento en viajes de larga distancia en autobús africano, las películas de Bollywood se proyectan en cines canadienses y personas de todo el mundo ven megaeventos como la Copa del Mundo y los Juegos Olímpicos en directo desde dondequiera que estén. Lo que APPADURAI (1991) sostiene es que estas dimensiones son interdependientes y forman un complejo tejido que configura la cultura mundial y la sociedad contemporánea. Lo que señalan es que existen flujos constantes en todo el mundo que alcanzan capitales, imágenes, personas, información, tecnología e ideas. Es importante destacar que cada fenómeno que aparece como global tiene una inserción cultural particular, y aunque a menudo hablemos de deslocalizaciones y desterritorializaciones provocadas por las transformaciones globales, también debemos tener en cuenta que cada desplazamiento va acompañado de un nuevo arraigo, de una reterritorialización en otro contexto. Lo nuevo es el ritmo y la velocidad con que estas prácticas están hoy en constante contacto e intercambio. Puede que ya no sea posible distinguir completamente las inserciones locales de un bien globalizado, lo que puede dar lugar a un impacto particular de las prácticas y los imperativos transnacionales en las condiciones locales. Un ejemplo que corrobora la existencia de este proceso es el contexto en el que una mercancía se convierte en fenómeno hasta el punto de trascender su contexto local y difundirse a escala mundial. El Flamenco ha adquirido esta característica al ser representativo de un contexto local, pero comercializado de diferentes maneras en todo el mundo. Desde el punto de vista de la autenticidad, cabe cuestionar las condiciones en las que este bien se presenta como producto, ya que sale de un contexto específico en el que existen varias condiciones para existir y se traslada a otro contexto, diferente de su contexto original22. THIMM (2014) plantea que el turismo basado en el Flamenco en Sevilla se da principalmente en tablados durante el año y en la Bienal de Flamenco que acoge la ciudad. Lo que se observa en las prácticas es que 22 La “Declaración Universal sobre la Diversidad Cultural”, publicada por la UNESCO en 2002 y considerada precursora de la Carta de Nara, establece no obstante en su artículo 8 que los bienes y servicios culturales, en la medida en que son portadores de identidad, valores y significado, no deben considerarse mercancías o bienes de consumo (DECLARACIÓN UNIVERSAL SOBRE LA DIVERSIDAD CULTURAL, 2002). pre superados e a demanda crescente impulsiona um ritmo de produção de péssimas condições de trabalho. A receita associada à produção e exportação de bens tecnológicos está alterando drasticamente a distribuição internacional da riqueza. À medida que o ritmo da inovação tecnológica aumenta, também aumenta o fluxo de tecnologia. O ideoscape se refere ao fluxo de ideias. Atualmente, pode ser representado pelas redes sociais, em que o indivíduo posta suas opiniões pessoais para consumo público, mas se configura também, por exemplo, nos missionários cristãos na região amazônica, cujo objetivo é divulgar sua doutrina religiosa. Democracia, cidadania, equidade e direitos humanos, por exemplo, são também ideoscapes. Já o financescape se refere ao fluxo de dinheiro através das fronteiras políticas. O que vemos hoje é que transações em bolsas de valores tem efeitos praticamente imediatos nas economias do mundo todo. Por fim, a mediascape se refere ao fluxo de mídia através das fronteiras. As atuais tecnologias de comunicação digital são compartilhadas com facilidade e rapidez, independentemente das fronteiras geográficas. Por exemplo, as novelas brasileiras podem proporcionar entretenimento em viagens de ônibus africanas de longa distância, filmes de Bollywood são exibidos nos cinemas canadenses e pessoas de todo o mundo assistem ao vivo a megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas de onde quer que estejam. O que APPADURAI (1991) argumenta é que essas dimensões são interdependentes e formam um tecido complexo que molda a cultura mundial e a sociedade contemporânea. O que os scapes apontam é que há fluxos constantes ao redor do mundo que atingem capital, imagens, pessoas, informação, tecnologia e ideias. Importa ressaltar que cada fenômeno que se apresenta como mundial possui uma inserção cultural particular, e mesmo que muitas vezes falemos de deslocalizações e desterritorializações causadas por transformações globais, devemos também levar em consideração que cada deslocamento é acompanhado de um novo enraizamento, de uma reterritorialização em outro contexto. O inédito é o ritmo e a velocidade com que essas práticas estão hoje em constante contato e troca. Talvez não seja mais possível distinguir completamente as inserções locais de um bem mundializado, o que pode resultar no impacto particular de práticas e imperativos transnacionais sobre condições locais. Um exemplo que corrobora a existência desse processo é o contexto em que uma mercadoria se torna um fenômeno a ponto de ultrapassar seu contexto local e difundir-se à escala mundial. O Flamenco adquiriu essa característica pois é representativo de um contexto local, mas comercializado de diferentes maneiras ao redor do mundo. Do ponto de vista da autentici-
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 88 existe un cierto grado de estandarización. El espectáculo sigue siempre la misma estructura: introducción de la guitarra, primer baile, segunda parte del solo de guitarra, segundo baile y final. El espectáculo suele limitarse a una hora, algunos tablados ofrecen una comida y los bares flamencos organizan pausas durante el espectáculo para servir bebidas. Otro efecto que puede observarse es que se eligen palos flamencos que pueden atraer más al público, como la Alegría o la Soleá23. Además, algunos espectáculos se programan muy temprano, en torno a las 19:00 o 20:00 horas, mientras que el Flamenco tradicionalmente tiene lugar más tarde. Así, para THIMM (2014), el Flamenco sigue siendo bastante resistente, aunque se ha abierto a mercados globales en los que se identifica una cierta mercantilización realizada para los turistas en contraste con una versión más auténtica en las peñas flamencas privadas. En resumen, el Flamenco contribuye a la imagen de Sevilla y se utiliza para vender la ciudad como destino turístico nacional e internacional. La Bienal y los tablados proporcionan espacios y lugares donde tiene lugar esta forma de turismo. Además, una proporción menor de turistas visita Sevilla con la intención de aprender Flamenco. Por lo tanto, el marketing de destino de Sevilla puede seguir utilizando el Flamenco para su estrategia de marca porque es un símbolo establecido y de éxito24. El Flamenco también ayuda a distinguir la ciudad 23 El Flamenco es un arte extremadamente complejo y rico en variaciones y estilos. La soleá se considera una de las formas más profundas y emocionantes, caracterizada por un tempo lento y profundo, que permite a bailaores y músicos explorar un amplio espectro de emociones. La música de soleá se compone en compás ternario, normalmente de 12 o 16 tiempos, con un fuerte acento en el duodécimo tiempo. La melodía es profunda y emotiva, y a menudo utiliza instrumentos como la guitarra, las palmas y el cante para crear un sonido dramático y expresivo. La Alegría es una de las formas más alegres y vibrantes del Flamenco, caracterizada por un ritmo rápido y alegre, con letras que a menudo hablan de amor, pasión y felicidad. Su baile es enérgico y requiere mucha habilidad y técnica por parte de los bailarines. La música de Alegría se compone de un compás binario, normalmente en 12 tiempos, con una fuerte acentuación en los tiempos 1º, 4º, 6º, 8º, 10º y 12º. La melodía es alegre y viva, y a menudo utiliza instrumentos como la guitarra, el cajón (caja de percusión), las palmas y las castañuelas para crear un sonido rico y vibrante. 24 Una estrategia de marca de ciudad es el proceso de creación y aplicación de una identidad de marca única y coherente para una ciudad con el fin de atraer y retener a turistas, dade, cabe o questionamento sobre as condições em que esse bem passa a ser apresentado enquanto produto, visto que sai de um contexto específico em que há diversas condições próprias para existir e passa a outro contexto, diverso do seu contexto de origem22. THIMM (2014) coloca que o turismo baseado no Flamenco em Sevilha ocorre principalmente em tablados durante o ano e na Bienal de Flamenco que a cidade hospeda. O que se observa nas práticas é que há um certo grau de padronização. O show segue sempre a mesma estrutura: introdução de violão, primeira dança, segunda parte do solo de violão, segunda dança e finalização. O show geralmente é restrito a uma hora, alguns tablados oferecem uma refeição e os bares de Flamenco organizam intervalos durante o show para servir bebidas. Outro efeito que pode ser observado é que se escolhem formas de Flamenco que podem agradar mais o público, como Alegría ou Soleá23. Além disso, alguns shows são agendados bem cedo, por volta das 19h ou 20h, enquanto o Flamenco tradicionalmente ocorre mais tarde. Assim, para THIMM (2014), o Flamenco mantém-se bastante resiliente, embora tenha se aberto aos mercados globais em que se identifica uma certa mercantilização realizada para turistas em contraste com uma versão mais autêntica em clubes privados de Flamenco. Em resumo, o Flamenco contribui para a imagem de Sevilha e é usado para vender a cidade como destino turístico nacional e internacional. A Bienal e os tablados oferecem espaços e lugares onde essa forma de turismo acontece. Além disso, 22 A “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural”, publicada pela UNESCO em 2002 e considerada uma precursora da Carta de Nara, coloca apesar disso, no artigo 8, que bens e serviços culturais, na medida em que são portadores de identidade, de valores e sentido, não devem ser considerados como mercadorias ou bens de consumo (DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL, 2002). 23 O Flamenco é uma forma de arte extremamente complexa e rica em variações e estilos. A Soleá é considerada uma das formas mais profundas e emocionantes, caracterizada por um compasso len- to e profundo, que permite aos dançarinos e músicos explorarem um vasto espectro de emoções. A música da Soleá é composta de um compasso ternário, geralmente em 12 ou 16 tempos, com uma acentuação forte no 12º tempo. A melodia é profunda e emocional, frequentemente usando instrumentos como violão, palmas e canto para criar um som dramático e expressivo. A Alegría é uma das formas mais alegres e vibrantes do Flamenco, caracterizada por um ritmo rápido e alegre, com letras que frequentemente falam de amor, paixão e felicidade. Sua dança é enérgica e exige muita habilidade e técnica dos dançarinos. A música da Alegría é composta de um compasso binário, geralmente em 12 tempos, com uma acentuação forte no 1º, 4º, 6º, 8º, 10º e 12º tempos. A melodia é alegre e animada, com frequência usando instrumentos como violão, cajón (caixa de percussão), palmas e castanholas para criar um som rico e vibrante.
1.3 Mundial versus Local 89 de otros destinos urbanos en España, incluyendo Barcelona, Bilbao y Madrid, precisamente porque enfatiza el Flamenco como un elemento local que, al ser reconocido mundialmente, es una atracción turística (THIMM, 2014). Otro ejemplo de mercancía que se ha convertido en un fenómeno hasta el punto de trascender su contexto local es el açaí, comercializado en puntos alejados de su lugar de origen, el Amazonas. Más consumido en forma de pulpa y erigido como “superfruta” por su potencial antioxidante y nutricional, CORTEZZI (2020) afirma que el açaí pasa por un proceso dinámico que abarca tanto su circuito espacial de producción como su distribución en el mercado internacional. Al analizar el açaí a través del Modelo de Globalización de las Plantas Amazónicas desarrollado por Beaufort (BEAUFORT, 2017 apud CORTEZZZI, 2020, 501-503), el autor demuestra que el açaí es hoy un producto globalizado. También afirma que detrás de todo producto global siempre hay una red geográfica internacional que participa, entre otras cosas, en la distribución de los productos en el mercado exterior. Esta distribución es una de las etapas más importantes del circuito espacial de la producción porque es a partir del abastecimiento de estos mercados que el circuito se materializa y activa todo el proceso productivo. Estas características están presentes en el circuito espacial de la producción brasileña de açaí, sin embargo, sus complejidades y volúmenes de flujo varían según el destino de exportación. CORTEZZZI (2020, 513) identificó que, en 2019, el açaí tenía un espacio de difusión comercial superior a 70 países, repartidos por todos los continentes25. inversores, empresas y residentes. Crear la marca de una ciudad implica desarrollar una imagen positiva y auténtica, destacando sus puntos fuertes y características únicas, normalmente dirigida por el gobierno local o las organizaciones de desarrollo económico. Además, la estrategia de marca de una ciudad puede incluir la creación de campañas de marketing para dar a conocer la nueva identidad de marca y atraer a turistas e inversores, la participación de las partes interesadas locales en la creación y promoción de la marca de la ciudad, y la creación de experiencias memorables para los visitantes de la ciudad (KOTLER; GERTNER; REIN, 2008). 25 La empresa brasileña Oak Berry, creada en 2016, comercializa postres que tienen el açaí como base principal. La empresa surgió en un momento en el que el mercado de postres empezaba a cambiar, con la aparición de opciones más saludables y menos calóricas, por lo que su publicidad apunta al consumo de açaí como opción para un estilo de vida saludable. A partir de un modelo de negocio basado en franquicias, tiene tiendas en 20 estados brasileños y está presente en treinta uma proporção menor de turistas visita Sevilha com a intenção de aprender Flamenco. Assim, o marketing do destino de Sevilha pode continuar a usar o Flamenco para sua estratégia de branding, porque é um símbolo estabelecido e bem-sucedido24. O Flamenco também ajuda a distinguir a cidade de outros destinos urbanos na Espanha, incluindo Barcelona, Bilbao e Madri, justamente por enfatizar o Flamenco como elemento local que, por ser reconhecido mundialmente, é um atrativo turístico (THIMM, 2014). Outro exemplo de mercadoria que se tornou um fenômeno a ponto de ultrapassar seu contexto local é o açaí, comercializado em pontos distantes do seu lugar de origem, a Amazônia. Mais consumido em forma de polpa e erigida como “superfruta” por seu potencial antioxidante e nutricional, CORTEZZI (2020) afirma que o açaí passa por um processo dinâmico que abrange tanto seu circuito espacial de produção quanto de distribuição no mercado internacional. Ao analisar o açaí por meio do Modelo de Globalização das Plantas Amazônicas desenvolvido por Beaufort (BEAUFORT, 2017 apud CORTEZZI, 2020, 501-503), o autor prova que o açaí é hoje um produto globalizado. Também afirma que atrás de cada produto global há sempre uma rede geográfica internacional que participa, entre outras coisas, na distribuição de produtos no mercado estrangeiro. Essa distribuição é uma das etapas mais importantes no circuito espacial da produção porque é a partir do abastecimento desses mercados que o circuito se materializa e ativa todo o processo de produção. Essas características são presentes no circuito espacial da produção do açaí brasileiro, porém, suas complexidades e os volumes de fluxo variam de acordo com o destino da exportação. CORTEZZI (2020, 513) identificou que, em 2019, o açaí tinha um espaço de difusão comercial superior a 70 países, espalhados por todos os continentes25. 24 A estratégia de branding de uma cidade é o processo de criação e implementação de uma identidade de marca única e consistente para uma cidade, com o objetivo de atrair e reter turistas, investidores, empresas e residentes. O branding de uma cidade envolve o desenvolvimento de uma imagem positiva e autêntica, destacando seus pontos fortes e características únicas, geralmente liderada pelo governo local ou por organizações de desenvolvimento econômico. Além disso, a estratégia de branding de uma cidade pode incluir a criação de campanhas de marketing para divulgar a nova identidade de marca e atrair turistas e investidores, o envolvimento das partes interessadas locais na criação e promoção da marca da cidade e a criação de experiências memoráveis para os visitantes da cidade (KOTLER; GERTNER; REIN, 2008). 25 A empresa brasileira Oak Berry, criada em 2016, comercializa sobremesas que tem como base principal o açaí. A empresa surgiu em um momento em que o mercado de sobremesas estava começando a mudar, com o surgimento de opções mais saudáveis e
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 96 del espacio insular en la perspectiva del turismo en Belém, que el circuito inferior de la economía tiene allí sus propias organizaciones en las que el paisaje tiene la circulación de barcos y canoas, pequeños puertos y muelles, cuyas actividades tienen significado para la vida de las personas28. Este mismo circuito inferior puede identificarse entre los artistas callejeros de Sevilla, por ejemplo, o incluso en el barrio de las Tres Mil Viviendas, al que se desplazó mayoritariamente la población gitana de Triana29. Hoy en día, se puede identificar allí a los residentes que participan en diversas actividades culturales relacionadas con el flamenco, así como en una serie de iniciativas comunitarias para promover la inclusión y la cohesión social. Pero son los representantes del circuito superior los principales responsables de la vinculación de las actividades turísticas. Esta dimensión de trabajo, en la que hay movimientos en los dos circuitos, a menudo dependientes, a pesar de enfrentarse a la aparición de nuevas relaciones de división social, no se extinguen del todo. Lo que se comprueba, según CHAVES RODRIGUES (2020), es que incluso al actualizar la teoría de los circuitos de la economía urbana de Milton Santos, no desaparece el negocio del circuito inferior, que se sustenta a partir de la comercialización con agentes del circuito superior y a través de las acciones del poder público. Considerando los objetos de estudio adoptados en esta investigación, tanto la cocina amazónica como el Flamenco pueden ser vistos desde este punto de vista, en el que forman parte, en un primer momen- to, del circuito económico inferior y, mientras mantienen esta posición, son bienes culturales locales. Cuando estos bienes pasan por la institucionalización, es decir, cuando son aprehendidos por procesos exitosos de patrimonialización, son también cooptados por procesos de turistificación, lo que lleva a que estos bienes ocupen también un lugar en el circuito económico superior. A partir de ahí, dependiendo de la profundidad a la que llegue la turistificación el lugar al que pertenece el bien es considerado “mundo”. Por tanto, en estos procesos se mezclan diferentes intereses, en los que, por un lado, está el genuino interés por preservar la memoria que el bien representa y, por otro, los intereses económicos regidos por el capital. En el ámbito del Patrimonio Cultural, este es un punto importante a tener en cuenta, junto con la ampliación del concepto de patrimonio30. 28 El autor investiga en particular Ilha do Combu, uno de los principales puntos de recogida de açaí de la ciudad. 29 En 1956, las autoridades locales decidieron expulsar a los gitanos del barrio de Triana, junto con otros grupos de rentas más bajas, y reubicarlos en otro lugar, conocido como Tres Mil Viviendas. 30 Los capítulos 4 y 5 de esta tesis profundizan en estos procesos, especialmente los relativos tribuindo assim para a reprodução do capital. Essa relação entre circuitos, em que o circuito superior se apropria de elementos do circuito inferior para sua própria reprodução, é uma das formas como se dá a dialética do espaço geográfico na sociedade contemporânea. Para além das consequências que a dialética local - global provoca sobre territórios culturais, a teoria dos circuitos econômicos importa porque influencia diretamente lugares que enfrentam processos de turistificação e que apresentam características essencialmente locais, normalmente calcadas nas horizontalidades. CHAVES RODRIGUES (2018) aponta, acerca da produção do espaço insular na perspectiva do turismo em Belém, que o circuito inferior da economia tem ali organizações próprias em que a paisagem possui circulação de barcos e canoas, pequeno portos e trapiches, cujas atividades possuem significado à vida das pessoas28. Esse mesmo circuito inferior pode ser identificado entre os artistas de rua em Sevilha, por exemplo, ou ainda no bairro Tres Mil Viviendas, para onde a população cigana de Triana foi majoritariamente deslocada29. Hoje, identifica-se ali que os moradores estão envolvidos em diversas atividades culturais relacionadas ao Flamenco, além de uma série de iniciativas comunitárias para promover a inclusão e a coesão social. Mas são os representantes do circuito superior os principais responsáveis pelo encadeamento das atividades turísticas. Essa dimensão do trabalho, em que há movimentos nos dois circuitos, muitas vezes dependentes, apesar de enfrentar o aparecimento de novas relações da divisão social, não são completamente extintas. O que fica comprovado, segundo CHAVES RODRIGUES (2020), é que mesmo ao atualizar a teoria dos circuitos de economia urbana de Milton Santos, não desaparecem os negócios do circuito inferior, que se sustenta a partir da comercialização com agentes do circuito superior e por meio das ações do poder público. Diante dos objetos de estudo adotados nessa investigação, tanto a culinária amazônica quanto o flamenco podem ser vistos a partir dessa ótica, em que fazem parte, a princípio, do circuito econômico inferior e, enquanto detém essa posição, são bens culturais locais. Quando esses bens passam pela institucionalização, ou seja, são apreendidos por processos de patrimonialização bem-sucedidos, passam também a ser cooptados pelos processos de turistificação, o que leva esses bens a ocupar lugar também no circuito econômico superior. A partir de en- 28 A autora investiga em especial a Ilha do Combu, um dos principais pontos de coleta de açaí da cidade. 29 Em 1956, autoridades locais decidiram retirar os ciganos do bairro de Triana, junto a outros grupos de menor poder aquisitivos, e realocá-los para outro lugar, conhecido por Tres Mil Viviendas.
1.3 Mundial versus Local 97 tanto al territorio urbano como a sus intangibles. tão, a depender da profundidade em que a turistificação atinge o lugar detentor do bem, ele passa a ser considerado “mundial”. Mesclam-se, portanto, diferentes interesses nesses processos, em que, de um lado, há o interesse genuíno pela preservação da memória que o bem representa, e, por outro lado, interesses econômicos regidos pelo capital. No campo do Patrimônio Cultural, esse é um ponto importante a ser considerado, junto ao alargamento do conceito de patrimônio30. 30 Os capítulos 4 e 5 dessa tese aprofundam esses processos, em especial aqueles relativos tanto ao território urbano quanto às suas intangibilidades.
2.1 O PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL ENQUANTO OBJETO DE CONHECIMENTO 2.2 O DISCURSO AUTORIZADO DE PATRIMÔNIO NO VER-O-PESO E EM TRIANA 2.3 AUTENTICIDADE SEGUNDO QUEM? PATRIMONIALIZAÇÃO E PROCESSOS DE Capítulo 2 A CONSTRUÇÃO DE UM DISCURSO
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 100
2 . Processos de patrimonialização e a construção de um discurso 101 En los casos en que parezca indispensable una restauración debido al deterioro o a la destrucción, la Conferencia recomienda que se respete la obra histórica y artística del pasado, sin perjudicar el estilo de ninguna época. La Conferencia recomienda que el uso de los monumentos se mantenga de forma que se asegure la continuidad de su vida, destinándolos siempre a fines que su carácter histórico o artístico (CARTA DE ATENAS, 1931, traducción libre). Portadoras del mensaje espiritual del pasado, las obras monumentales de cada pueblo perduran en el presente como testimonio vivo de sus tradiciones milenarias. La humanidad, cada vez más consciente de la unidad de los valores humanos, los considera como un patrimonio común y, de cara a las generaciones futuras, reconoce su responsabilidad conjunta de preservarlos, imponiéndose el deber de transmitirlos en la plenitud de su autenticidad (CARTA DE VENEZA, 1964, traducción libre). El Patrimonio Cultural se distingue del Patrimonio Cultural protegido, ya que un bien cultural es un bien por excelencia, que puede o no haber sido institucionalizado a través de procesos de patrimonialización. Las acciones emprendidas en este sentido son el resultado de una construcción en la que los criterios definidos para la selección de lo que debe o no ser preservado están establecidos en la legislación y dependen, por lo tanto, de decisiones gestionadas por esferas del Estado. Las instituciones del Estado31, encargadas de interpretar y aplicar 31 Las esferas de poder que actúan en el ámbito del patrimonio son diversas y se organizan en una jerarquía principal, siendo ellas los niveles municipal, estatal y federal. La UNESCO es responsable del frente denominado Patri- Nos casos em que uma restauração pareça indispensável devido a deterioração ou destruição, a conferência recomenda que se respeite a obra histórica e artística do passado, sem prejudicar o estilo de nenhuma época. A conferência recomenda que se mantenha uma utilização dos monumentos, que assegure a continuidade de sua vida, destinando-os sempre a finalidades que o seu caráter histórico ou artístico (CARTA DE ATENAS, 1931). Portadoras de mensagem espiritual do passado, as obras monumentais de cada povo perduram no presente como o testemunho vivo de suas tradições seculares. A humanidade, cada vez mais consciente da unidade dos valores humanos, as considera um patrimônio comum e, perante as gerações futuras, se reconhece solidariamente responsável por preservá-las, impondo a si mesma o dever de transmiti-las na plenitude de sua autenticidade (CARTA DE VENEZA, 1964). Patrimônio Cultural se distingue de Patrimônio Cultural protegido, pois um bem cultural é um bem por excelência, que pode ou não ter sido institucionalizado por meio de processos de patrimonialização. As ações empreendidas nesse sentido são resultado de uma construção em que os critérios definidos para a seleção do que deve ou não ser preservado são estabelecidos na legislação e dependem, portanto, de decisões geridas por esferas estatais. As instituições do Estado31, responsáveis pela interpreta- 31 As esferas de poder atuantes sobre o campo do patrimônio são diversas e organizadas numa hierarquia principal, sendo elas os níveis municipal, estadual e federal. A UNESCO se responsabiliza pela frente denominada World Heritage (Patrimônio Mundial) em que discute estratégias globais de preservação, sendo ela uma das principais instituições a influenciar a legislação da maioria dos países. Para que um determinado lugar seja eleito Patrimônio Mun-
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 102 la legislación, lo hacen a través del conocimiento técnico y de la designación institucional de especialistas, es decir, son las principales responsables de la construcción y equipamiento de los procesos patrimoniales que conforman el Patrimonio Cultural reconocido de un país. No siempre un bien cultural es objeto de protección por parte de las políticas de preservación y salvaguarda, ya que los ejemplares protegidos reciben sus respectivos títulos a partir de procesos que consideran criterios específicos dependiendo de cada categoría. Los mecanismos resultantes de instancias formales de protección y definición de normas resultan de debates realizados en reuniones, seminarios y congresos en los que constantemente se reúnen grupos para discutir aspectos relacionados con el patrimonio, en los que uno de los principales productos resultantes son las Cartas Patrimoniales32. Las citas que abren este tema se refieren a dos cartas que influyeron en el desarrollo inicial de las políticas de patrimonio e ilustran puntos fundamentales, como la valorización de los aspectos históricos y artísticos de un monumento y la noción de autenticidad. Las cartas no constituyen, sin embargo, la obligación de actuar, tal como las describe KÜHL (2010): Las llamadas cartas del patrimonio son documentos -sobre todo los procedentes de organismos internacionalescuyo carácter es indicativo o, a lo sumo, prescriptivo. Constituyen una base ética para las distintas profesiones que intervienen en la preservación, pero no son una simple prescripción que deba aplicarse (KÜHL, 2010, 287, traducción libre). Estos documentos deben ser leídos en el contexto de los postulados teóricos en los que fueron producidos, es decir, se debe considerar su época, lugar, grupos participantes y posibles intereses. No siempre existe consenso entre los actores de este proceso, en el monio Mundial, en el que se discuten las estrategias globales de preservación, siendo una de las principales instituciones para influir en la legislación de la mayoría de los países. Para que un determinado lugar sea elegido Patrimonio de la Humanidad, por ejemplo, es necesario que el candidato sea evaluado por una comisión instituida por la UNESCO, cuyos criterios deben estar de acuerdo con el proceso de aprobación en vigor. 32 El primer documento elaborado fue la Carta de Atenas en el marco del I Congreso Internacional de Arquitectos y Técnicos de Monumentos de 1931, y proponía la valorización histórica y artística de los monumentos, la participación de múltiples disciplinas en la definición de la intervención y el respeto de la originalidad. ção e aplicação da legislação, o fazem por meio do saber técnico e da designação institucional dos especialistas, ou seja, são eles os principais responsáveis pela construção e aparelhamento dos processos de patrimonialização que perfazem o Patrimônio Cultural reconhecido de um país. Nem sempre um bem cultural é objeto de proteção por parte das políticas de preservação e salvaguarda, pois os exemplares protegidos recebem seus respectivos títulos a partir de processos que consideram critérios específicos a depender de cada categoria. Os mecanismos resultantes das instâncias formais de proteção e definição das normas resultam de debates realizados em reuniões, seminários e congressos quando grupos constantemente se reúnem para discutir aspectos relacionados ao patrimônio, em que um dos principais produtos resultantes são as Cartas Patrimoniais32. As citações que abrem esse tópico são referentes a duas cartas que influenciaram o desenvolvimento inicial das políticas patrimoniais e ilustram pontos fundamentais, como a valorização dos aspectos históricos e artísticos de um monumento e a noção de autenticidade. As cartas não constituem, porém, a obrigatoriedade de ações, como descreve KÜHL (2010): As chamadas cartas patrimoniais são documentos – em especial aquelas derivadas de organismos internacionais – cujo caráter é indicativo ou, no máximo, prescritivo. Constituem base deontológica para as várias profissões envolvidas na preservação, mas não são receituário de simples aplicação (KÜHL, 2010, 287). Estes documentos devem ser lidos no contexto dos postulados teóricos em que foram produzidos, ou seja, deve ser considerado seu período, local, grupos participantes e possíveis interesses. Nem sempre há consenso entre os atores deste processo, em que podem ser identificadas três faces, sendo uma delas a institucional, mais consolidada e de respaldo legal, ou seja, de caráter jurídico, em que esse tipo de documento é um dos principais responsáveis pelo estabelecimento de legislação específica acerca da preservação e salvaguarda do patrimônio. Outra face é a acadêmica, que produz conhecimento sobre o assunto e abrange a atuação dos especialistas nesse campo. São eles quem dial, por exemplo, é necessário que o candidato seja avaliado por meio de uma comissão instituída pela UNESCO, cujos critérios devem estar de acordo com o processo de aprovação vigente. 32 O primeiro documento elaborado foi a Carta de Atenas no contex- to do I Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos em Monumento, em 1931, e propôs a valorização histórica e artística dos monumentos, o envolvimento de múltiplas disciplinas na definição da intervenção e o respeito à originalidade.
2 . Processos de patrimonialização e a construção de um discurso 103 que se pueden identificar tres caras, una de ellas es la institucional, más consolidada y respaldada jurídicamente, es decir, de carácter legal, en la que este tipo de documentos es uno de los principales responsables de establecer la legislación específica sobre preservación y salvaguarda del patrimonio. Otra cara es la académica, que produce conocimiento sobre el tema y abarca el trabajo de los especialistas en este campo. Son ellos los que mayoritariamente definen los criterios a seguir en los procesos de preservación del patrimonio. Por último, está la vertiente del marketing, que a menudo no tiene en cuenta las otras dos vertientes y se justifica por otros objetivos, ligados a los intereses del mercado. Los lados académico e institucional son los que debaten y producen directrices de preservación y salvaguardia registradas en las Cartas del Patrimonio, que, por tener carácter prescriptivo y no vinculante, no siempre son suficientes para contribuir a la creación de una legislación que regule adecuadamente las intenciones del mercado. Son muchas las cartas realizadas desde la Carta de Atenas (Carta de Atenas, 1931) hasta nuestros días, y en su mayoría aportan relevancia sobre algún tema, ya sea desde un nuevo enfoque o desde la revisión sobre temas anteriores. Vemos que la pionera Carta de Atenas, por ejemplo, sitúa el valor histórico y artístico del bien a conservar como uno de los pilares de la salvaguarda, además de la atención a la materialidad del monumento, lo que representa la noción entonces vigente de patrimonio que influyó en las décadas posteriores. Aún ejemplificando, es con la Convención de 2003 (CONVENCIÓN PARA LA SALVAGUARDIA DEL PATRIMONIO CULTURAL INMATERIAL, 2003) que se destaca la preservación del Patrimonio Cultural Inmaterial. En ella se afirma, por ejemplo, que ante los procesos de transformación social y globalización existe una mayor posibilidad de diálogo, pero, por otro lado, esto puede ocasionar graves riesgos de deterioro, destrucción y desaparición de los bienes culturales inmateriales. De todos modos, es posible observar que las Cartas del Patrimonio siguen las demandas del ámbito de la preservación y ratifican cuestiones que se ponen de relieve en el debate surgido a lo largo de los años. Uno de los principales ejemplos de la constitución de una Carta como documento orientador es la Conferencia de Nara, que tuvo lugar en Japón en 1994 y dio lugar a un documento que proponía nuevas perspectivas sobre el concepto de autenticidad33. La Conferencia de Nara se cita a menudo por su importancia en la consideración de la diversidad cultural en el proceso de elección de los bienes que deben preservarse. Según 33 La Carta de Venecia (1964) fue la primera en abordar este punto y su principal aportación es el establecimiento del concepto de monumento histórico. La Carta también establece la necesidad de conservar y restaurar estos monumentos, mediante una acción que distingue entre las partes originales y las nuevas. majoritariamente definem os critérios a serem seguidos nos processos de patrimonialização. Por fim, existe a face mercadológica, que muitas vezes não considera as outras duas faces e justifica-se com outros objetivos, ligados aos interesses do mercado. São as faces acadêmica e institucional aquelas que debatem e produzem orientações para a preservação e salvaguarda registradas nas Cartas Patrimoniais, que por terem caráter prescritivo, não obrigatório, nem sempre são suficientes para contribuir para a criação de uma legislação que regule apropriadamente intenções mercadológicas. São muitas as cartas confeccionadas desde a Carta de Atenas (CARTA DE ATENAS, 1931) até os dias de hoje, sendo que majoritariamente trazem relevância sobre algum tema, seja a partir de uma abordagem inédita ou da revisão sobre temas anteriores. Podemos verificar que a pioneira Carta de Atenas, por exemplo, coloca o valor histórico e artístico do bem a ser preservado como um dos pilares da salvaguarda, além do foco sobre a materialidade do monumento, o que representa a noção então vigente de patrimônio que influenciou as décadas posteriores. Ainda exemplificando, é com a Convenção de 2003 (CONVENÇÃO PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL, 2003) que se destaca a preservação do Patrimônio Cultural Imaterial. Essa carta coloca, por exemplo, que diante dos processos de transformação social e globalização há maior possibilidade de diálogo, mas, por outro lado, isso pode causar graves riscos de deterioração, destruição e desaparecimento de bens culturais imateriais. De qualquer forma, é possível observar que as Cartas Patrimoniais acompanham demandas do campo da preservação e ratificam questões que são ressaltadas perante o debate que se coloca ao longo dos anos. Um dos principais exemplos sobre como se dá a constituição de uma Carta enquanto documento orientador é a Conferência de Nara, que aconteceu no Japão em 1994 e resultou em um documento que propôs novos olhares sobre o conceito de autenticidade33. A Conferência de Nara frequentemente é citada devido à sua importância sobre a consideração da diversidade cultural no processo de escolha de bens a serem preservados. Segundo este documento, que considera o “alargamento dos conceitos referentes ao escopo do que é Patrimônio Cultural e seus interesses em nosso mundo contemporâneo” (CONFERÊNCIA DE NARA, 1994), o conceito e a aplicação do termo “autenti- 33 A Carta de Veneza (1964) foi a primeira a abordar esse ponto e tem como principal contribuição o estabelecimento do conceito de monumento histórico. A Carta também prevê a necessidade de conservação e restauração desses monumentos, mediante ação que configure distinguibilidade entre partes originais e partes novas.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 104 este documento, que considera la “ampliación de los conceptos relativos al alcance de lo que es el Patrimonio Cultural y sus intereses en nuestro mundo contemporáneo” (CONFERENCIA DE NARA, 1994), el concepto y la aplicación del término “autenticidad” varían culturalmente, es decir, a la hora de evaluar la autenticidad de un determinado bien patrimonial, hay que tener en cuenta el contexto cultural en el que se inserta. Teniendo en cuenta que la autenticidad es uno de los pilares que sustentan la definición de los criterios de preservación, el contenido de esta Carta supone profundos cambios en la noción de patrimonio. Desde entonces, se ha establecido un debate en torno a los bienes culturales inmateriales. Todos los juicios sobre los valores atribuidos a los bienes culturales, así como la credibilidad de las fuentes de información correspondientes, pueden diferir de una cultura a otra, e incluso dentro de una misma cultura. Por tanto, no es posible basar los juicios sobre los valores y la autenticidad en criterios fijos. Por el contrario, el respeto debido a todas las culturas exige que los bienes del patrimonio se consideren y juzguen dentro de los contextos culturales a los que pertenecen (CONFERÊNCIA DE NARA, 1994, traducción libre). La elaboración de esta carta contribuyó a la creación de una estructura técnica más amplia y adecuada a los tiempos actuales, además de englobar otros puntos de vista sobre las decisiones a tomar en el ámbito patrimonial. Sin embargo, es complejo definir el Patrimonio Cultural y las acciones que se deben emprender sobre él. Actualmente, existe consenso sobre el patrimonio como resultado de una construcción histórica que se relaciona directamente con la memoria y la identidad cultural de cada lugar, teniendo, por lo tanto, características y demandas propias, que difieren entre sí y no corresponden a la totalidad que el discurso predominante coloca como prácticas adecuadas de preservación. Esta noción ha ido provocando modificaciones en cuanto a la definición de los términos de este campo de conocimiento, especialmente sobre la valoración de la dimensión inmaterial de los bienes culturales. Un hito importante en los procesos patrimoniales es la creación de la UNESCO34 en 1946, con sede en París y responsable de un número considerable de Cartas del Patrimonio. Entre las convenciones que había celebrado hasta entonces, la primera, conocida como la “Recomendación de París”, tuvo lugar en 1972 y definió conceptos básicos sobre lo que constituye el Patrimonio 34 UNESCO es la abreviatura de Organización de las Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la Cultura. Su intención fundamental es promover la paz mundial a través de la educación, la cultura y la ciencia. cidade” varia culturalmente, ou seja, ao se avaliar a autenticidade de um determinado bem patrimonial, o contexto cultural em que está inserido deve ser considerado. Considerando que a autenticidade é um dos pilares que sustentam a definição de critérios de preservação, o conteúdo dessa carta representa mudanças profundas para a noção de patrimônio. Desde então, tem se estabelecido um debate em torno do dos bens culturais imateriais. Todos os julgamentos acerca de valores atribuídos às propriedades culturais, bem como a credibilidade das correspondentes fontes de informação, podem diferir de cultura para cultura, e mesmo dentro de cada cultura. Não é, por isso, possível basearem-se os julgamentos de valores e de autenticidade de acordo com critérios fixos. Pelo contrário, o respeito devido a todas as culturas exige que as propriedades de patrimônio sejam consideradas e julgadas dentro dos contextos culturais a que pertencem (CONFERÊNCIA DE NARA, 1994). A confecção desta carta contribuiu para a criação de uma estrutura técnica mais ampla e adequada aos tempos atuais, além de abarcar outros pontos de vista sobre as decisões a serem tomadas no campo do patrimônio. Porém, é complexo definir Patrimônio Cultural e as ações que devem ser empreendidas sobre ele. Atualmente, há consenso sobre o patrimônio enquanto resultado de uma construção histórica que se relaciona diretamente com a memória e identidade cultural de cada lugar, tendo, portanto, características e demandas próprias, que diferem entre si e não correspondem à totalidade que o discurso predominante coloca enquanto práticas adequadas de preservação. Essa noção vem provocando modificações quanto à definição dos termos deste campo do conhecimento, especialmente sobre a valorização da dimensão imaterial dos bens culturais. Um marco importante a ser ressaltado sobre os processos de patrimonialização é a criação da UNESCO34 em 1946, com sede em Paris e responsável por um número considerável de Cartas Patrimoniais. Dentre as convenções que realizou até então, a primeira, conhecida como “Recomendação de Paris”, aconteceu em 1972 e definiu conceitos básicos sobre o que é Patrimônio Mundial35. Definiu-se nessa ocasião que a responsabilidade so- 34 UNESCO é abreviatura de Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Sua intenção fundamental é promover a paz mundial por meio da educação, cultura e ciência. 35 Atualmente são 1121 os sítios inscritos na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, sendo 869 de interesse cultural, 213 de interesse natural e 39 de interesse misto. Há um longo processo para que
2 . Processos de patrimonialização e a construção de um discurso 105 Mundial35. En esta ocasión se definió que la responsabilidad de proteger áreas con una dimensión territorial significativa no podía restringirse a su país propietario, dada la necesaria aportación de recursos económicos, científicos y tecnológicos que requiere el mantenimiento de este tipo de bienes. La concesión del título de Patrimonio Mundial sigue unos criterios específicos, divididos en culturales y naturales, de los que el candidato debe cumplir al menos uno. Para que la candidatura tenga lugar, debe presentarse un informe detallado a la UNESCO, que cuenta con una comisión para evaluar las candidaturas. El principal criterio utilizado es el llamado “valor excepcional universal”, en el que el bien debe ser reconocido como un testimonio único (Patrimonio Mundial, 2014). A pesar de afirmarse como una herramienta eficaz que considera los desafíos contemporáneos relacionados con el cambio climático, la urbanización descontrolada, el turismo de masas, el desarrollo socioeconómico sostenible y los desastres naturales, hay investigaciones que indican que los procesos de patrimonio mundial regidos por la UNESCO y sus desdoblamientos contribuyen a procesos hegemónicos de producción del espacio urbano de la ciudad contemporánea. ALMEIDA (2017) elaboró una investigación que aborda como estudios de caso el Mercado de Ver-o-Peso, que solicitó ser declarado Patrimonio de la Humanidad, pero cuya candidatura caducó en 2016, y la Universidad de Coimbra, en Portugal, que finalmente fue aprobada y hoy figura en la lista de bienes36. La investigadora afirma que las transformaciones urbanas antes y después de la formalización de las candidaturas por la UNESCO están vinculadas a la implementación de un “modelo de éxito”, cuyas estrategias 35 Actualmente hay 1121 sitios inscritos en la Lista del Patrimonio Mundial de la UNESCO, de los cuales 869 son de interés cultural, 213 de interés natural y 39 de interés mixto. Existe un largo proceso para que un lugar sea admitido en esta lista, según el cumplimiento de al menos uno de diez criterios de evaluación, entre ellos mostrar un importante intercambio de valores humanos, exhibir un testimonio único, ser un ejemplo excepcional de asentamiento humano o de uso de la tierra e ilustrar etapas significativas de la historia de la humanidad (PATRIMONIO MUNDIAL, 2014). 36 Los proyectos emprendidos siguen una operacionalización propia que beneficia a la comunidad internacional, sin apegarse necesariamente a las características únicas del sitio candidato. Completa la crítica el hecho de que no existe un equilibrio entre la participación de todos los actores y agentes implicados en el proceso, ya que no se consulta democráticamente a la población en su desarrollo (ALMEIDA, 2017, 208-209). bre a proteção de áreas com dimensão territorial significativa não poderia se restringir ao seu país detentor, visto o aporte necessário de recursos econômicos, científicos e tecnológicos necessário para a manutenção desse tipo de bem. A atribuição do título de Patrimônio Mundial segue critérios específicos, divididos entre culturais e naturais, aos quais o candidato precisa obedecer ao menos um. Para que a candidatura seja efetuada, deve ser apresentado um relatório detalhado para a UNESCO, que possui uma comissão para avaliar os candidatos. O principal critério utilizado é chamado “valor excepcional universal”, em que o bem deve ser reconhecido como testemunho único (PATRIMÔNIO MUNDIAL, 2014). Apesar de se afirmar enquanto ferramenta eficaz que considera desafios contemporâneos relacionados às mudanças climáticas, urbanização descontrolada, turismo de massa, desenvolvimento socioeconômico sustentável e catástrofes naturais, há investigações que indicam que os processos de patrimonialização mundial regidos pela UNESCO e seus desdobramentos contribuem para processos hegemônicos de produção do espaço urbano da cidade contemporânea. ALMEIDA (2017) produziu uma investigação que aborda como estudos de caso o Mercado do Ver-o-Peso, que se candidatou a Patrimônio Mundial, mas teve sua candidatura expirada em 2016, e a Universidade de Coimbra, em Portugal, que por fim foi aprovada e hoje consta da lista de bens36. A pesquisadora afirma que as transformações urbanas anteriores e posteriores à formalização das candidaturas pela UNESCO estão atreladas à implementação de um “modelo de sucesso”, cujas estratégias de planejamento visam internacionalizar as cidades (ALMEIDA, 2017). Este é um processo que não valoriza as coletividades presentes nas diferentes formas de representação que acontecem no espaço público, favorecendo processos de privatização do espaço urbano. Ao questionar as condições do processo de patrimonialização mundial, verificou-se que suas condições podem levar à homogeneização dos elementos cultuum lugar seja admitido nessa lista, segundo o atendimento de pelo menos um de dez critérios de avaliação, entre eles mostrar um intercâmbio importante de valores humanos, mostrar um testemunho único, ser exemplo excepcional de estabelecimento humano ou do uso da terra e ilustrar significativos estágios da história humana (PATRIMÔNIO MUNDIAL, 2014). 36 Os projetos empreendidos obedecem a uma operacionalização própria que beneficia a comunidade internacional, sem necessariamente se ater a características únicas do sítio candidato. Completa a crítica o fato de que não há equilíbrio entre a participação de todos os atores e agentes envolvidos no processo, visto que não há consulta democrática à população no seu desenvolvimento (ALMEIDA, 2017, 208-209).
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 112 posibilidad de incorporar otras nuevas para resolver demandas emergentes en la construcción de cualquier acto interpretativo, entendido como generación de lo nuevo. La cuestión principal que se plantea en su investigación es si nos encontramos ante el reto y la necesidad de construir ficciones que nos permitan comprender el mundo. Entre los términos “ficción” y “ficticio” hay una cierta ambigüedad, donde inicialmente hay algo imaginado que luego se convierte en algo cercano a la idea de verdad. Lo que se afirma es que el enfoque patrimonial no puede basarse en un único punto de vista, sino que debe tener en cuenta la posibilidad de generar diferentes perspectivas, construidas a partir de las diversas experiencias de los actores/espectadores (GARCÍA DE CASASOLA GÓMEZ, 2012). GARCÍA DE CASASOLA GÓMEZ (2012) plantea que la superación del concepto de patrimonio como monumento para incluir otras escalas y perspectivas ha dado lugar a ideas como entorno, paisaje cultural o el concepto contemporáneo de Patrimonio Cultural, que sirven para “pacificar” la dificultad de delimitar algo que está en constante transformación y reivindicar el valor del fragmento como parte representativa de un todo que ya no existe. El arte ha sido el campo donde se han producido estas transformaciones conceptuales, ampliando los límites del objeto e incorporando la visión hermenéutica como parte del ejercicio interpretativo que constituye el patrimonio. Estamos en un campo de trabajo que utiliza la imagen y el texto como instrumentos de aproximación a la historia, siendo la tarea hermenéutica común a ambos hasta el punto de generar contradicciones sobre cuál de las dos situaciones se antepone. La imagen construye significados y los significados generan imágenes, estamos en un mundo definido como el espacio del significado recíproco en el que la revisión constante de los objetos ya vistos es una tarea permanente. Lo que plantea el autor está directamente relacionado con la creación de un discurso sobre lo que es el patrimonio. Por tanto, para que un objeto sea reconocido como patrimonio es necesario un “acto de habla”. El lenguaje crea el patrimonio y los objetos patrimoniales se convierten entonces en medios de transmisión de este discurso fundador. Sólo determinados discursos constituyen patrimonio y están “autorizados” a juzgar lo que, en lo que cada generación hereda de la anterior, es legítimo proteger y preservar, reconocer como digno de ser transmitido a las generaciones siguientes. Lo fundamental es comprender que la noción de patrimonio es cambiante, definida tanto por el tipo de objeto patrimonial calificado por un discurso legítimo como por las divergencias de experiencias y de visión de cada individuo sobre ese patrimonio. Es esencial considerar que los objetos patrimoniales son lugares de conflicto, receptáculos de una pluralidad de discursos y experiencias que tienen dos polos distintos, uno es el discurso dominante y autorizado y el otro el discurso dominado y conflictivo. Estos discursos, sin embargo, no son excluyentes y están abiertos a otras formas de discurso más o menos autorizadas, más o menos contestatarias. GARCÍA DE CASASOLA GÓMEZ (2012) se utiliza da palavra “ficção” como ponto de partida da investigação para abordar, a partir da contemporaneidade, a questão da interpretação do passado. O título da pesquisa, Memoria, tiempo y autenticidad: tres ficciones para interpretar e intervenir el patrimônio, destaca a importância de novas ficções contemporâneas como mecanismos de compreensão do patrimônio e a possibilidade de incorporar outras novas para resolver demandas emergentes na construção de qualquer ato interpretativo, entendido como a geração do novo. O principal questionamento que se coloca na sua investigação é se temos pela frente o desafio e a necessidade de construir ficções que nos permitam compreender o mundo. Entre os termos “ficção” e “fictício”, há certa ambiguidade, onde inicialmente há algo de imaginado que se converte, em seguida, a algo próximo da ideia de verdade. O que se afirma é que a abordagem do patrimonial não pode se basear em um único ponto de vista, mas deve levar em conta a possibilidade de gerar diferentes perspectivas, construídas a partir das diversas experiências dos atores/espectadores (GARCÍA DE CASASOLA GÓMEZ, 2012). GARCÍA DE CASASOLA GÓMEZ (2012) coloca que a superação do conceito de patrimônio como monumento para incluir outras escalas e perspectivas levou a ideias como entorno, paisagem cultural ou o conceito contemporâneo de Patrimônio Cultural, que servem para “pacificar” a dificuldade de delimitar algo que está em constante transformação e reivindicar o valor do fragmento como parte representativa de um todo que já não existe. A arte tem sido o campo onde essas transformações conceituais foram produzidas, ampliando os limites do objeto e incorporando a visão hermenêutica como parte do exercício interpretativo que constitui o patrimônio. Estamos em um campo de trabalho que utiliza imagem e texto como instrumentos de aproximação à história, com a tarefa hermenêutica comum a ambos até o ponto de gerar contradições sobre qual das duas situações vem primeiro. A imagem constrói significados e os significados geram imagens, estamos em um mundo definido como o espaço do significado recíproco em que a revisão constante de objetos já vistos é uma tarefa permanente. O que a autora coloca tem relação direta com a criação de um discurso sobre o que é patrimônio. Para que um objeto seja reconhecido patrimônio, portanto, é necessário um “ato de fala”. A linguagem cria patrimônio e os objetos patrimoniais tornam-se então meios de transmissão desse discurso fundador. Apenas determinados discursos constituem patrimônio e estão “autorizados” a julgar o que, naquilo que cada geração herda da anterior, é legítimo ser protegido e preservado, reconhecido como digno de ser transmitido às gerações seguintes. O fundamental é a compreensão de que a noção
2.1 . O Patrimônio Cultural Imaterial enquanto objeto de conhecimento 113 Pero es el Discurso Autorizado del Patrimonio la principal caracterización del Patrimonio Cultural como objeto de conocimiento. En el contexto de esta tesis, la aclaración de este punto es importante porque es el principal responsable acerca de la visión que se tiene sobre los bienes culturales institucionalizados, en la que las cuestiones asociadas a la afectividad y la emoción se enfrentan con cierta suspicacia, caracterizando lo que SMITH (2015) llama “el elefante en la habitación”. Esta figura retórica se refiere al reconocimiento de que el afecto y las emociones son bienes culturales, pero aún no está claro cómo lidiar con esta constatación. Lo que se ha debatido a este respecto es que no solo es importante un análisis centrado en las cuestiones emocionales, sino que es necesario integrarlas en las prácticas discursivas utilizadas para tratar el patrimonio. Además, este compromiso debe basarse en un enfoque sobre el afecto y la emoción que parta de la comprensión de que las emociones no sólo están mediadas cultural y socialmente, sino que tienen consecuencias e impactos para las comunidades propietarias de los bienes culturales. La preservación del patrimonio como acto político de comprensión del pasado y relevancia para el presente debe, por tanto, considerar el establecimiento de políticas específicas para el reconocimiento y la salvaguarda de la inmaterialidad de los bienes culturales. de patrimônio é mutável, definida tanto pelo tipo de objeto patrimonial qualificado por um discurso legítimo, quanto pelas divergências de experiências e visão de cada indivíduo sobre esse patrimônio. É essencial considerar que os objetos patrimoniais são lugares de conflito, receptáculos de uma pluralidade de discursos e experiências que possuem dois polos distintos, sendo um o discurso dominante e autorizado, e outro o discurso dominado e conflituoso. Esses discursos, porém, não são exclusivos e estão abertos a outras formas de discurso mais ou menos autoritárias, mais ou menos protestantes. Mas é o Discurso Autorizado de Patrimônio a caracterização principal do Patrimônio Cultural enquanto objeto do conhecimento. No contexto dessa tese, é importante o esclarecimento desse ponto porque ele é o principal responsável sobre a visão que se tem sobre os bens culturais institucionalizados, em que questões associadas ao afeto e à emoção são encaradas com alguma desconfiança, caracterizando o que SMITH (2015) chama de “o elefante na sala”. Essa figura de linguagem se refere ao reconhecimento de que afetos e emoções perfazem bens culturais, mas ainda não se sabe ao certo como lidar com essa constatação. O que tem se debatido a esse respeito é que não apenas uma análise focada em questões emocionais é importante, mas elas precisam ser integradas às práticas discursivas usadas no trato patrimonial. Além disso, esse envolvimento precisa ser baseado em uma abordagem sobre afeto e emoção que parte da compreensão de que as emoções não são apenas culturais e socialmente mediadas, mas que possuem consequências e impactos para as comunidades detentoras dos bens culturais. A preservação do Patrimônio enquanto ato político de compreensão do passado e relevância para o presente deve, portanto, considerar o estabelecimento de políticas específicas para o reconhecimento e salvaguarda das imaterialidades dos bens culturais.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 114 2.2 El discurso sobre el patrimonio autorizado en Ver-o-Peso y Triana Incluso frente al giro patrimonial, en el ámbi- to del Patrimonio Cultural predomina el Discurso Autoritario del Patrimonio, que hace hincapié en la dimensión material, del patrimonio natural común y de los valores innatos e inmutables, establecidos por expertos (SMITH, 2006). Todo patrimonio cultural es intangible, ya que su importancia no es inherente a las cosas o a los lugares, sino que es el resultado de procesos culturales y sociales presentes. La idea de Patrimonio, de hecho, se utiliza para construir, reconstruir y negociar una serie de identidades, valores y significados sociales y culturales en el presente. El patrimonio es una representación estratificada que encarna actos de recuerdo y conmemoración al tiempo que negocia y construye un sentido de lugar, pertenencia y comprensión en el presente. Al mismo tiempo, su actuación también constituye y valida la propia idea de “patrimonio” que da forma y define estas actuaciones en primer lugar. Sin embargo, las concepciones tradicionales y autoritarias del patrimonio garantizan que todos los conflictos se reduzcan a cuestiones específicas y se oscurezca el proceso cultural de formación de la identidad que es básico para el patrimonio. Este campo de conocimiento trata de la negociación en la que se hace uso del pasado y de las memorias colectivas o individuales para negociar nuevas formas de ser y expresar la identidad. En este proceso, los objetos, sitios, lugares o instituciones patrimoniales se convierten en herramientas culturales que facilitan este proceso. La idea de discurso en este caso no se refiere simplemente al uso de palabras o lenguaje, sino a una forma de práctica social. Los significados sociales, las formas de conocimiento y experiencia, las relaciones de poder y las ideologías se incorporan y reproducen a través del lenguaje. Los discursos en los que se enmarcan determinados conceptos, cuestiones o debates tienen un efecto en la medida en que constituyen, construyen, median y regulan la comprensión y el debate. Es en el marco del Discurso Autoritario del Patrimonio (SMITH, 2006) donde deben analizarse los procesos patrimoniales y sus consecuencias para poder relacionar los criterios establecidos por el discurso predominante y el bien cultural en cuestión. Entre otras cuestiones que ofrece el reconocimiento y análisis del discurso predominante, lo que aquí se plantea es que las acciones de preservación y salvaguardia coherentes con el Discurso Autoritario del Patrimonio se dirigen principalmente a los bienes culturales materiales, incluso ante la ampliación del concepto de patrimonio. El análisis de los casos de estudio puede ejemplificar las acciones coherentes con el Discurso Patrimonial Autorizado en cada territorio, y tanto el Complexo Ver-o-Peso como el barrio de Triana son representativos de la afirmación que este discurso conlleva. Ambos cuentan con monumentos aislados que han sido objeto de preservación de políticas públicas específicas emprendidas por organismos de preservación tanto locales como internacionales. Además, cuentan con importantes bienes 2.2 O DISCURSO AUTORIZADO DE PATRIMÔNIO NO VER-O-PESO E EM TRIANA Mesmo diante da viragem patrimonial, predomina no campo do Patrimônio Cultural o Discurso Autorizado de Patrimônio, que enfatiza a dimensão material, de herança natural comum e valores inatos e imutáveis, estabelecidos por especialistas (SMITH, 2006). Todo patrimônio cultural é intangível, visto que a sua importância não é inerente às coisas ou lugares, mas sim resultado de processos culturais e sociais presentes. A ideia de Patrimônio, na verdade, é usada para construir, reconstruir e negociar uma série de identidades, valores sociais e culturais e significados no presente. O Patrimônio é uma performance em camadas que encarna atos de lembrança e comemoração enquanto negocia e constrói um senso de lugar, pertencimento e compreensão no presente. Simultaneamente, sua performance também constitui e valida a própria ideia de “patrimônio” que molda e define essas performances em primeiro lugar. No entanto, as concepções tradicionais e autorizadas do patrimônio garantem que todo conflito seja reduzido a questões específicas e o processo cultural de formação de identidade que é básico para o patrimônio é obscurecido. Esse campo do conhecimento é sobre negociação em que há uso do passado e memórias coletivas ou individuais para negociar novas formas de ser e expressar identidade. Nesse processo, objetos, locais, lugares ou instituições patrimoniais se tornam ferramentas culturais para facilitar esse processo. A ideia de discurso nesse caso não se refere simplesmente ao uso de palavras ou linguagem, mas sim a uma forma de prática social. As significações sociais, formas de conhecimento e expertise, relações de poder e ideologias estão incorporadas e reproduzidas através da linguagem. Os discursos pelos quais se enquadram certos conceitos, questões ou debates têm um efeito na medida em que constituem, constroem, mediam e regulam a compreensão e o debate. É no âmbito do Discurso Autorizado de Patrimônio (SMITH, 2006) que os processos de patrimonialização e suas consequências devem ser analisados, a fim de que possam ser relacionados os critérios estabelecidos pelo discurso predominante e o bem cultural em questão. Dentre outras questões que o reconhecimento e a análise do discurso predominante oferece, o que se coloca aqui é que as ações de preservação e salvaguarda condizentes com o Discurso Autorizado de Patrimônio se direcionam primordialmente para os bens culturais materiais, mesmo diante do alargamento do conceito de patrimônio. A análise dos estudos de caso podem exemplificar ações condizentes com o Discurso Autorizado de Patrimônio em cada território, sendo que tanto o Complexo do Ver-o-Peso quanto o
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 115 culturales intangibles, lo que permite analizar las recientes acciones de salvaguarda emprendidas a favor del Patrimonio Cultural Inmaterial en contraposición a las políticas específicas de preservación del Patrimonio Material41. Este contexto, en el que se institucionalizaron tanto los monumentos como los intangibles, puede analizarse para identificar aspectos y consecuencias de los procesos de patrimonialización emprendidos desde la materialidad. Uno de los estudios de caso es el Complexo Ver-o-Peso, uno de los sitios más emblemáticos de la ciudad de Belém, capital del estado de Pará, en Brasil. Su origen histórico se remonta al siglo XVII, cuando la ciudad de Belém se convirtió en un importante centro comercial de la región amazónica. El punto terrestre en el que se asentó la ciudad determinó su configuración, que en sus inicios era aproximadamente triangular, con vértice en el fuerte, frente a un estuario (Figura 2.1). La expansión de Belém se orientó a partir de este vértice, respetando dos vectores de expansión: uno siguiendo el río Guamá y otro a lo largo de la bahía de Guajará, que dieron origen a los dos primeros barrios, Cidade, actualmente conocido como Cidade Velha, y Campina, respectivamente (Figura 2.02). En esta época ya estaba establecida la aduana. Se construyó la Fortaleza de Nossa Senhora da Mercês da Barra. El Fuerte de São Pedro Nolasco. La Iglesia de Santo Alexandre. La Cámara continuó legislando para la ciudad. El comercio aumentó por lo que ya existía el Puesto de Impuestos llamado Ver-o-Peso, que recaudaba ingresos para el Senado de la Cámara. Llegaban veleros de Portugal con mercancías para el consumo público. La producción de la colonia se limitaba a productos autóctonos, que eran enviados a Europa, creándose así un intercambio comercial. La ciudad comenzó a distanciarse de la costa (CRUZ, 1968, traducción libre). En estos primeros siglos tras la fundación de Belém, estos dos primeros barrios serán decisivos para el crecimiento a lo largo del tiempo: Cidade Velha, con carácter de centro político y religioso y Campina, que mantuvo las líneas de crecimiento del núcleo y su dinámica comercial (Figura 2.03). Sólo a partir del siglo XIX y principios del siglo XX, con un proceso más acelerado de expansión urbana hacia nuevas áreas, especialmente a partir del 41 A lo largo del texto de la tesis, las denominaciones de las categorías acuñadas en el ámbito del patrimonio se utilizarán en el sentido que convencionalmente se les atribuye, con independencia de las imprecisiones que en cada caso presente el uso de términos referidos a la materialidad. En el capítulo 4 se aborda esta cuestión con mayor profundidad, aportando definiciones de concepto y forma, así como de la dimensión intangible de un bien cultural. bairro de Triana são representativos da afirmação que esse discurso carrega. Ambos possuem monumentos isolados que foram objetos de preservação de políticas públicas específicas empreendidas tanto por órgãos de preservação local quanto internacional. Além disso, possuem significativos bens culturais intangíveis, o que possibilita a análise de recentes ações de salvaguarda empreendidas a favor do Patrimônio Cultural Imaterial em contraponto às políticas de preservação específicas para o Patrimônio Material41. Esse contexto, em que ambos monumentos e intangibilidades foram institucionalizados, pode ser analisado com o objetivo de identificar aspectos e consequências dos processos de patrimonialização empreendidos a partir da materialidade. Um dos estudos de caso é o Complexo do Ver-o-Peso, um dos locais mais emblemáticos da cidade de Belém, capital do estado do Pará, no Brasil. Sua origem histórica remonta ao século XVII, quando a cidade de Belém se tornou um importante centro comercial na região amazônica. A ponta de terra em que foi assentada a cidade determinou sua configuração, que em seus primórdios apresentava-se sensivelmente triangular, com vértice no forte, de frente a um estuário (Figura 2.1). O espraiamento de Belém orientou-se a partir deste vértice, respeitando dois vetores de expansão: um que acompanha o rio Guamá e outro, ao longo da Baía do Guajará, os quais deram origem aos dois primeiros bairros, o da Cidade, atualmente conhecido por bairro da Cidade Velha, e o da Campina, respectivamente (Figura 2.02). Por esse tempo já estava instalada a alfândega. Construíra-se a Fortaleza de Nossa Senhora da Mercês da Barra. O Forte de São Pedro Nolasco. A igreja de Santo Alexandre. A Câmara continuava legislando para a cidade. O Comércio tomava incremento para o que já existia o Posto Fiscal chamado de Ver-o-Peso, que arrecadava rendas para o Senado da Câmara. De Portugal chegavam os veleiros com mercadorias para o consumo público. A produção da colônia limitava-se aos gêneros nativos, que eram remetidos para a Europa, formando- -se dessa maneira o intercâmbio comercial. A cidade começava a distanciar-se do litoral (CRUZ, 1968). 41 Ao longo do texto da tese, as denominações das categorias cunhadas no campo do patrimônio serão utilizadas da forma como são convencionalmente atribuídas, independente das imprecisões que o uso dos termos referentes à materialidade apresentam em cada caso. O capítulo 4 aborda com mais profundidade essa questão ao trazer as definições de conceito e forma, assim como da dimensão intangível de um bem cultural.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 116 vertedero de Piri, es que la ciudad de Belém presenta su configuración urbana actual (Figura 2.04). La dominación portuguesa en el espacio amazónico se produjo, sobre todo, a través de la presencia de fortificaciones e iglesias. Estos fueron los elementos espaciales que sirvieron para el control territorial e ideológico de la colonia (CORRÊA, 1989). Tales formas aún están presentes en el paisaje de la costanera de la ciudad. Es posible ver, desde el río, la presencia del Fuerte Castelo rodeado de torres de iglesias como la Catedral de la Sé y la Iglesia de Santo Alexandre (Figura 2.05). El territorio de estudio que adopta esta investigación, el Complexo Ver-o-Peso, forma parte de la fundación y desarrollo de la ciudad de Belém y, en consecuencia, ocupa un lugar destacado en la historia de todo el territorio en el que se inserta. Los mapas aquí presentados atestiguan que el Ver-o-Peso se encuentra en el mismo lugar desde la fundación de la ciudad. El río fue fundamental para la conquista del territorio y para la cristalización de acciones estratégicas del colonizador europeo en la región amazónica. La ciudad de Belém do Pará se destacó como el espacio más importante para las intenciones portuguesas en la región, debido a su privilegiada ubicación geográfica. La estructuración de la ciudad a lo largo del tiempo estuvo marcada por la permanencia de las características geopolíticas impuestas por el colonizador, con la proximidad de los primeros edificios públicos y religiosos y las primeras residencias establecidas con el río. En este sentido, Belém desempeñó un papel importante en los pilares de la iniciativa lusitana para la región, pues posibilitó el dominio territorial en gran parte del valle amazónico por los portugueses, y trajo la posibilidad de expansión y modernización del sitio urbano original (PENTEADO, 1968), lo que fue fundamental para la estructuración de nuevas modalidades comerciales en la ciudad. La relación entre economía y sociedad fue responsable por la definición de la relación sociedad y espacio, en la cual los nuevos elementos de la vida social y espacial de la ciudad pasaron a definir las normas de reproducción del espacio urbano. Según MEDEIROS (2010, 58-61), los mercados callejeros de Belém reflejan parte de los elementos de esta economía y surgieron como una de las nuevas formas de comercio en la ciudad como representación de la relevancia de la actividad comercial para la población menos favorecida. Los mercados de Belém se diferencian de otras regiones de Brasil por su formación histórica, sistema de funcionamiento, ocupación espacial y localización geográfica. Surgieron en el contexto de la explotación económica del caucho en la Amazonia y fueron impulsadas por la necesidad de abastecer a la ciudad y por el crecimiento demográfico. Ver-o-Peso, el principal mercado público de la ciudad, estaba situado en la orilla del río, donde se estableció como un espacio de apropiación colectiva derivado de la condición geopolítica desempeñada por la ciudad a lo largo del periodo colonial y durante el auge del caucho. Los productos comercializa- Nesses primeiros séculos após a fundação de Belém, esses dois primeiros bairros vão ser decisivos para o crescimento ao longo do tempo: a Cidade Velha, com caráter de centro político e religioso e a Campina, que manteve as linhas de crescimento do núcleo e de sua dinâmica comercial (Figura 2.03). Somente a partir do século XIX e início do século XX, com um processo mais acelerado de expansão urbana para novas áreas, sobretudo, a partir do aterramento do Piri, é que a cidade de Belém aparenta sua configuração urbana atual (Figura 2.04). O domínio português no espaço amazônico se deu, especialmente, através da presença das fortificações e das igrejas. Estes foram os elementos espaciais que serviram para o controle territorial e ideológico da colônia (CORRÊA, 1989). Tais formas ainda estão presentes na paisagem da orla da cidade. É possível avistar, a partir do rio, a presença do Forte do Castelo cercado por torres de igrejas como a da Catedral da Sé e da Igreja de Santo Alexandre (Figura 2.05). O território de estudo que esta pesquisa adota, o Complexo do Ver-o-Peso, faz parte da fundação e do desenvolvimen- to da cidade de Belém e, consequentemente, tem lugar de destaque na história de todo o território em que está inserido. Os mapas aqui apresentados atestam que o Ver-o-Peso está desde a fundação da cidade instalado no mesmo local. O rio foi fundamental para a conquista do território e para a cristalização de ações estratégicas do colonizador europeu na região amazônica. A cidade de Belém do Pará se destacou como o espaço mais importante para as intenções portuguesas na região, devido à sua localização geográfica privilegiada. A estruturação da cidade ao longo do tempo foi marcada pela permanência das características geopolíticas impostas pelo colonizador, com a proximidade dos primeiros prédios públicos e religiosos e das primeiras residências implantadas com o rio. Nesse sentido, Belém desempenhou um papel importante nos pilares da iniciativa lusitana para a região, pois possibilitou a dominação territorial em grande parte do vale amazônico pelos portugueses, e trouxe a possibilidade de expansão e modernização do sítio urbano original (PENTEADO, 1968), o que foi fundamental para a estruturação de novas modalidades comerciais na cidade. A relação entre economia e sociedade foi responsável por definir a relação sociedade e espaço, na qual os novos elementos da vida social e espacial da cidade passaram a definir as normas de reprodução do espaço urbano. Segundo MEDEIROS (2010, 58-61), as feiras livres em Belém refletem parte dos elementos dessa economia e surgiram como uma das novas formas de comércio na cidade como representação da relevância da atividade comercial para a população menos favorecida. As feiras em Belém são diferentes das feiras em outras regiões do Brasil em termos de formação histórica, sistema de funcionamento, ocupação espacial e localização ge-
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 117 Figura 2.01: Parte de Atlas do Brasil. 1629. Fonte: GOVERNO DO PARÁ, 2023.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 118 Figura 2.02: Planta geométrica da cidade de Belém do Gram Pará. 1753. Fonte: Biblioteca digital luso-brasileira.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 119 Figura 2.03: Mapa da Cidade de Belém. 1791. Fonte: Arquivo Nacional. Biblioteca Maria Beatriz Nascimento.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 120 Figura 2.04: Planta da Cidade de Belém. 1905. Fonte: LAB. VIRTUAL FAU ITEC UFPA, 2015.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 121 Figura 2.05: Vista para o Forte do Castelo, Mercado de Ferro e Feira do Ver-o-Peso, em primeiro plano, e as torres da Catedral Metropolitana de Belém ao fundo. 2021. Fonte: Arquivo pessoal.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 128 Figura 2.14: Vista interna sobre Mercado de peixe Francisco Bolonha no Complexo Ver-o-Peso em Belém. 2021. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.13: Vista externa sobre Mercado de peixe Francisco Bolonha no Complexo Ver-o-Peso em Belém. 2012. Fonte: Arquivo pessoal.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 129 Figura 2.15: Solar da Beira no Complexo Ver-o-Peso em Belém. 2021. Fonte: Arquivo pessoal.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 130 LIMA (2008, 86-87) ya había señalado que, a pesar de haberse reconocido su valor como patrimonio nacional en el proceso de conservación, el Complexo Ver-o- -Peso fue considerado sólo en términos de su arquitectura, paisaje y trazado urbano de influencia europea, dejando de lado las formas tradicionales de cultura allí practicadas, como el patrimonio africano e indígena. Prácticas culturales como el manejo de hierbas, la extracción y preparación de productos de yuca utilizados en la gastronomía local, la venta de productos artesanales y materias primas para artesanías, entre otras, no fueron mencionadas en el proceso. Para el autor, la omisión de la presencia del mercado y del movimiento de personas tan expresivo en este paisaje causa extrañeza, ya que Ver-o-Peso es reconocido como un centro vital de la ciudad. Por lo tanto, es importante considerar que ambos mercados allí presentes, si se ven más allá de la materialidad, albergan relaciones sociales y comerciales que corresponden a aspectos del Patrimonio Cultural de la Amazonia. Actualmente, el concepto de patrimonio involucra tanto la materialidad como la intangibilidad, representando colecciones que las sociedades utilizan para autoreconocerse y fortalecerse políticamente como grupo. LIMA (2008) reconoció que este proceso de autoconstrucción y autorreconocimiento se vive en Ver-o-Pe- so, donde es posible vislumbrar la construcción de una posible unidad en la diversidad. La noción de patrimonio que allí se experimenta se engendra en torno a prácticas y sentimientos que se constituyen a partir de percepciones, experiencias e intereses comunes que consolidan la identidad social, dinámica y asociada a la lógica de pertenencia al grupo y al lugar como atributo positivo para la construcción de proyectos colectivos de organización y representatividad política. Los valores atribuidos por los vendedores del mercado al Ver-o-Peso están relacionados con sus actividades cotidianas, con el territorio como lugar de trabajo y supervivencia y con otros elementos vinculados a estos, formando un patrimonio cultural que reúne diferentes aspectos de la vida social. Las narrativas oficiales no integran las dinámicas centrales para pensar, concebir y vivir desde y en Ver-o-Peso. La Feira Livre, una estructura efímera situada inmediatamente al lado de los edificios históricos restaurados, ejemplifica la acción específica engendrada por el discurso patrimonial autorizado, ya que es uno de los principales puntos de venta de los productos del bosque que componen las recetas dedicadas a la cocina de esta región. Este lugar es representativo de la cocina paraense como bien cultural inmaterial y parcialmente responsable del título de Ciudad Creativa de la Gastronomía concedido por la UNESCO a Belém desde 2015. Cuenta con una diversidad de productos que incluye frutas, verduras, pescado, carnes, especias, artesanía y productos típicos de la región amazónica (figuras 2.16 a 2.25). Es una mezcla única de antiguas tradiciones y nuevos productos, y constituye una importante atracción turística para la ciudad. También es un lugar para conocer la gastronomía local, con una gran variedad de alimentos que se venden en puestos y restaurantes. Es posible encontrar platos típido Brasil. A intenção é que seu novo uso se destine a atividades culturais. LIMA (2008, 86-87) já havia apontado que apesar de seu valor como patrimônio nacional ter sido reconhecido no processo de tombamento, o Conjunto Ver-o-Peso foi considerado apenas em termos de sua arquitetura, paisagem e traçado urbano de influência europeia, deixando de lado as formas tradicionais de cultura ali praticadas, como as heranças africanas e indígenas. Práticas culturais como a manipulação de ervas, a extração e preparo de produtos da mandioca utilizados pela culinária local, a venda de produtos artesanais e matérias-primas para artesanato, entre outras, não foram mencionadas no processo. Para a autora, a omissão da presença da feira e da movimentação de pessoas tão expressiva nessa paisagem causa estranheza, já que o Ver-o- -Peso é reconhecido como centro vital da cidade. Portanto, importa considerar que ambos os mercados ali presentes, se vistos além da materialidade, abrigam relações sociais e comerciais que correspondem a aspectos do Patrimônio Cultural da Amazônia. O conceito de patrimônio atualmente envolve tanto a materialidade quanto a intangibilidade, representando acervos que as sociedades usam para se auto reconhecer e fortalecer politicamente enquanto grupo. LIMA (2008) reconheceu que esse processo de autoconstrução e autorreconhecimento é vivenciado no Ver-o-Peso, onde é possível vislumbrar a construção de uma unidade possível na diversidade. A noção de patrimônio vivenciada ali é engendrada em torno de práticas e sentimentos que são constituídos a partir de percepções, vivências e interesses comuns que consolidam a identidade social, dinâmica e associada à lógica de pertencimento ao grupo e ao lugar como atributo positivo para a construção de projetos coletivos de organização e representatividade política. Os valores atribuídos pelos feirantes ao Ver-o-Peso estão relacionados às suas atividades cotidianas, ao território como lugar de trabalho e sobrevivência e a outros elementos vinculados a estes, formando um patrimônio cultural que reúne diferentes aspectos da vida social. As narrativas oficiais não integram a dinâmica central para se pensar, conceber e viver da e no Ver-o-Peso. A Feira Livre, estrutura efêmera que se localiza imediatamente ao lado dos edifícios históricos restaurados, exemplifica a ação específica engendrada pelo Discurso Autorizado de Patrimônio, pois configura um dos principais pontos de comercialização dos produtos vindos da floresta que perfazem as receitas dedicadas à culinária dessa região. Esse local é representativo da culinária paraense enquanto bem cultural imaterial e parcialmente responsável pelo título de Cidade Criativa da Gastronomia concedido pela UNESCO a Belém desde 2015. Possui diversidade de produtos, incluindo frutas, legumes, peixes, carnes, especiarias,
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 131 cos de la cocina paraense, como tacacá, tucupi y jambu. Forma parte integrante de la vida de los habitantes de Belém y suele ser frecuentada por habitantes de la ciudad, turistas y comerciantes locales. Aun así, la Feira Livre sufre la falta de recursos económicos para la reforma de elementos básicos de infraestructura, como saneamiento básico y drenaje (Entrevista con Mário Lima, 2021). Ante el Discurso Patrimonial Autorizado, los monumentos allí preservados tienen valor, que son los Mercados de valor histórico y artístico, así como la principal inmaterialidad allí presente, que es la gastronomía, pero no existe una acción de preservación que considere el Complexo Ver-o-Peso en su totalidad, en la que todos sus elementos culturales sean vistos en vista de las relaciones que mantienen entre sí. Una alternativa a las políticas hasta ahora emprendidas en este lugar es la que propone MAUÉS (2014), utilizando Ver-o-Peso como objeto de análisis. La investigadora afirma que el patrimonio y el museo deben estar en sintonía con la comunidad a la que se refieren, necesitan tener resonancia y adhesión para ser realmente significativos y las personas deben tener una voz activa en este espacio. Así, defiende la importancia de un museo integral que mantenga las prácticas tradicionales y las innovaciones, con resonancia y adhesión a la comunidad, y que sea democrático y atento a las transformaciones de la cultura. El Ver-o-Peso, en la forma en que se presenta, ya podría considerarse un objeto museológico, en el sentido de museo integral47. Para ella: El Ver-o-Peso es un excelente lugar para discutir los temas de redes e interconexiones que forman el paradigma actual del conocimiento científico ecológico: como lugar de intercambio de bienes e intercambios simbólicos, es un ejemplo perfecto para que entendamos el patrimonio de forma integral, integrado en la red de la vida, en este todo que es parte - en esta pequeña porción que 47 La noción de museo integral es un enfoque que pretende hacer hincapié en la integración de diferentes aspectos de la cultura y la historia en un museo. En lugar de centrarse únicamente en los objetos materiales o artísticos, el museo integral abarca una amplia gama de aspectos de la cultura, incluidos los patrimonios intangibles, las tradiciones, las creencias, los valores y las prácticas. La idea es que el museo no es sólo un lugar para exponer objetos, sino también un lugar para preservar y potenciar una cultura, y debe estar en sintonía con la comunidad para la que es relevante. Además, el museo integral también pretende ser democrático y estar atento a las transformaciones culturales, buscando ser un espacio de diálogo y reflexión sobre la cultura y la historia. artesanatos e produtos típicos da região Amazônica (figuras 2.16 a 2.25). É uma mistura única de antigas tradições e novos produtos, e é uma atração turística importante para a cidade. Também é um lugar para experimentar a culinária local, com uma grande variedade de comida vendida em barracas e restaurantes. É possível encontrar pratos típicos da culinária paraense, como o tacacá, o tucupi e o jambu. Parte integral da vida dos habitantes de Belém e é frequentemente frequentada por moradores da cidade, turistas e comerciantes locais. Ainda assim, a Feira Livre sofre com a falta de recursos econômicos para a reforma de itens básicos da infraestrutura, como, por exemplo, saneamento básico e drenagem (Entrevista com Mário Lima, 2021). Diante do Discurso Autorizado de Patrimônio, tem valor os monumentos ali preservados, que são os Mercados de valor histórico e artístico, assim como a principal imaterialidade ali presente, que é a culinária, mas não há uma ação de preservação que considere o Complexo do Ver-o-Peso na sua totalidade, em que todos os seus elementos culturais são vistos perante as relações que travam entre si. Uma alternativa às políticas até então empreendidas nesse local é o que MAUÉS (2014) propõe, utilizando-se do Ver-o-Peso enquanto objeto de análise. A pesquisadora afirma que o patrimônio e o museu devem estar em sintonia com a comunidade a qual se referem, precisam ter ressonância e aderência para serem realmente significativos e as pessoas devem ter voz ativa neste espaço. Sendo assim, defende a importância de um museu integral que mantenha práticas tradicionais e inovações, com ressonância e aderência para a comunidade, e que seja democrático e atento às transformações da cultura. O Ver-o-Peso, da forma como se apresenta, já poderia ser considerado um objeto museológico, no sentido de museu integral47. Para ela: O Ver-o-Peso é um excelente lugar para discutimos as questões de redes e interconexões que formam o paradigma atual do conhecimento científico ecológico: por ser um lugar de trocas de mercadorias e trocas simbó- 47 A noção de museu integral é uma abordagem que procura enfatizar a integração de diferentes aspectos da cultura e da história em um museu. Em vez de se concentrar apenas em objetos materiais ou artísticos, o museu integral abrange uma ampla gama de aspectos da cultura, incluindo patrimônios intangíveis, tradições, crenças, valores e práticas. A ideia é que o museu não seja apenas um espaço para exibição de objetos, mas também um local de preservação e valorização de uma cultura, e deve estar em sintonia com a comunidade para a qual ele é relevante. Além disso, o museu integral também procura ser democrático e atento às transformações culturais, buscando ser um espaço de diálogo e reflexão sobre a cultura e a história.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 132 Figura 2.21: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2018. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.20: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2018. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.19: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2021. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.18: Vista sobre barracas das erveiras no Complexo Ver-o-Peso em Belém. 2021. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.17: Vista sobre cobertura da Feira Livre do Ver-o-Peso e Blvd. Castilhos França. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.16: Vista sobre Mercado de peixe e cobertura da Feira Livre do Ver-o-Peso. 2021. Fonte: Arquivo pessoal.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 133 Figura 2.25: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2021. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.24: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2018. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.23: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2018. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.22: Feira livre no Complexo do Ver-o-Peso em Belém. 2018. Fonte: Arquivo pessoal.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 134 por su grandeza espiritual y multiplicidad se convierte en la síntesis de la cultura paraense - es necesario ver el mundo (MAUÉS, 2014, 95, traducción libre). Visualmente, los edificios históricos contrastan con la cobertura efímera del mercado callejero y este contraste también se refleja en las políticas de preservación dirigidas a cada una de las estructuras de este lugar (Figura 2.26). Los debates y las propuestas de intervención se dirigieron a menudo al Complexo Ver-o-Peso, como en el caso de los proyectos de restauración citados aquí. Una de las propuestas para la Feira Livre es el concurso nacional de proyectos públicos promovido por el Gobierno Municipal en 1999, que dio lugar a la instalación de esta cubierta (Figuras 2.27 y 2.28). Esta actuación tuvo lugar después de un largo período de abandono y falta de inversión por parte del poder público, lo que provocó la degradación del espacio ferial. La propuesta ganadora fue la del equipo dirigido por Flávio de Oliveira Ferreira48. El memorial del proyecto destacó “la naturalidad con la que la propuesta se incorpora al área del proyecto, el respeto y la valoración de los elementos simbólicos que identifican la imagen de la ciudad, el mantenimiento de los diversos elementos sin recurrir a soluciones de diseño caprichosas” (MOURA, 2004). Del proceso de diseño se pueden destacar dos puntos, uno el hecho de que el equipo ganador tuvo en cuenta las demandas planteadas por los principales habitantes del mercado callejero, recogidas en meses de consulta en el propio espacio Ver-o-Peso. Aún hoy se mantiene la organización propuesta por el proyecto realizado en aquella ocasión. Otro punto que se puede destacar es que la estructura propuesta obedece al principio de distinguibilidad, lo que indica que incluso en este contexto los monumentos debían ser protegidos de cualquier acción que pudiera mimetizar sus principales valores artísticos o su autenticidad. En otras palabras, aunque la propuesta presente puntos innovadores, como la participación 48 Según el arquitecto Flávio Ferreira, el proyec- to confiere al lugar un aire contemporáneo al tiempo que mantiene su existencia centenaria y su función original. El arquitecto Aldo Ros- si es una de las referencias que cita al situar la ciudad como un espacio de permanencias y no permanencias, estando el conjunto de Ver-o-Peso formado por los edificios históricos, que son permanentes, y sus inmaterialidades, que no lo son. Fue una preocupación del equipo de diseño rescatar este valor, representado por la ligereza del material utilizado en la estructura de la cubierta, de carácter transitorio, cuya estética no compite con la arquitectura de hierro de la Lonja o cuya escala rompe la armonía con el conjunto existente de la ciudad. licas, se oferece como exemplo perfeito para entendermos o patrimônio de forma integral e integrado na teia da vida, neste todo que é parte - nesta pequena parcela que por sua grandiosidade espiritual e multiplicidade se faz síntese da cultura paraense – é preciso transver o mundo (MAUÉS, 2014, 95). Visualmente, as edificações históricas se contrastam com a cobertura efêmera da feira e esse contraste se reflete também nas políticas de preservação direcionadas a cada uma das estruturas deste lugar (Figura 2.26). Discussões e propostas de intervenção foram muitas vezes direcionadas ao Complexo do Ver-o-Peso, a exemplo dos projetos de restauro aqui citados. Uma das propostas para a Feira Livre é o concurso público nacional de projeto promovido pela Prefeitura Municipal em 1999, que resultou na instalação dessa cobertura (Figuras 2.27 e 2.28). Essa ação aconteceu após longo período de abandono e falta de investimentos por parte do poder público, o que provocou a degradação do espaço da feira. Esse concurso público nacional buscou reverter a precariedade em que a Feira Livre se encontrava cuja proposta vencedora foi a equipe dirigida por Flávio de Oliveira Ferreira48. O memorial de projeto destacava “a naturalidade com que a proposta se incorpora à área do projeto, o respeito e a valorização dos elementos simbólicos identificadores da imagem da cidade, a manutenção dos diversos elementos sem recorrência a soluções caprichosas de desenho” (MOURA, 2004). Dois pontos podem ser ressaltados sobre o processo de projeto, sendo um deles o fato de que a equipe ganhadora considerou as demandas colocadas pelos principais habitantes da feira, recolhidas em meses de consulta no próprio espaço do Ver-o-Peso. Ainda hoje é mantida a organização proposta pelo projeto implementado nessa ocasião. Outro ponto que pode ser destacado é que a estrutura proposta obedece ao princípio de distinguibilidade, o que indica que mesmo nesse contexto os monumentos tinham que estar protegidos de eventuais ações que 48 Segundo o arquiteto Flávio Ferreira, o projeto empresta ao lugar contemporaneidade ao mesmo tempo em que mantém sua existência secular e sua função original. O arquiteto Aldo Rossi é uma das referências que cita quando coloca a cidade como um espaço de permanências e não permanências, sendo então o Complexo Ver-o-Peso formado pelos edifícios históricos, permanentes, e suas imaterialidades, não permanentes. Foi uma preocupação da equipe de projeto o resgate desse valor, representado pela leveza do material utilizado na estrutura da cobertura, de caráter transitório, cuja estética não compete com a arquitetura de ferro do Mercado de Peixe ou cuja escala rompe a harmonia com o conjunto citadino existente.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 135 Figura 2.28: Feira Livre do Complexo Ver-o-Peso em momento de inauguração de projeto de reforma implementado no ano de 2002. Fonte: 2002: EDMILSON INAUGURA O NOVO VER O PESO, 2020. Figura 2.27: Feira Livre do Complexo Ver-o-Peso em momento de inauguração de projeto de reforma implementado no ano de 2002. Fonte: 2002: EDMILSON INAUGURA O NOVO VER O PESO, 2020. Figura 2.26: Vista sobre torres do Mercado de Peixe e cobertura da Feira Livre do Complexo Ver-o-Peso na margem da Baía de Guajará em Belém. 2021. Fonte: Arquivo pessoal.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 136 popular, su resultado se rige por el discurso patrimonial autorizado, ejemplificado por la preocupación primordial por los edificios históricos allí presentes. El actual estado de conservación en que se encuentra la estructura también simboliza la prevalencia de las políticas patrimoniales emprendidas en favor de los bienes materiales con valor histórico y artístico (Figuras 2.29 y 2.30). Ante los graves problemas estructurales y de confort ambiental que viene presentando la cubierta de la Feira Livre, en 2016 se ofreció una propuesta de sustitución de esta estructura como respuesta a su mal estado de conservación por falta de mantenimiento. La propuesta, realizada por el poder municipal, además de presentar una opción para la sustitución de la lona tensada, propuso el cambio de ubicación del comercio de pescado y del comercio de açaí, eliminando la función histórica de la Pedra do Peixe y de la Feira do Açaí, principales lugares que movilizan a los residentes del conjunto de islas y otras regiones alejadas de la ciudad de Belém (Figuras 2.31 y 2.32). Las pocas discusiones entre los organizadores de la propuesta y los comerciantes del mercado, investigadores y la sociedad en general dificultaron el desarrollo de la propuesta desde el inicio. La ausencia de relevamientos sociológicos y antropológicos en la propuesta del gobierno municipal, considerando el objeto de intervención, generó una intensa desconfianza por parte de quienes frecuentan y habitan este espacio desde generaciones anteriores, dejando en incógnita los impactos que los cambios provocarían en las actividades tradicionales del mercado. Ejemplo de ello es el “Manifiesto Público y Reivindicaciones de los Pueblos y Comunidades Tradicionales de Belém” que solicitaba la inserción de la comercialización de animales vivos, hierbas y plantas en el Proyecto Básico, por tratarse de prácticas de los pueblos tradicionales hasta entonces desatendidas en la discusión y que son parte fundamental de las relaciones comerciales que allí se establecen (PUEBLOS TRADICIONALES ENTREGAN MANIFIESTO, 2016). Además, la propuesta tenía un carácter esencialmente mercadológico, cuya reorganización de la Feira Livre y de los puntos de comercialización del pescado y del açaí servía a intereses económicos y turísticos específicos del poder público. Se puede señalar, en este caso, la necesidad de una visión sistémica sobre el Patrimonio Cultural, en la que no basta la preservación de bienes culturales aislados, como se ha verificado en la discusión en torno a la preservación de los bienes intangibles. Además, la permanencia de las prácticas y saberes exaltados por este discurso, por tratarse de un patrimonio activo y dinámico, precisamente por su carácter intangible, depende directamente del involucramiento de las comunidades y grupos sociales que son sus agentes directos. Se trata de necesidades muchas veces desatendidas por la acción del discurso patrimonial autorizado que, al utilizar la noción de autenticidad, por ejemplo, como criterio de preservación, no logra abarcar la complejidad que presenta un territorio como el Ver- -o-Peso. Es fundamental establecer, para la comprensión del Complexo Ver-o-Peso como tejido histórico, que pudessem mimetizar seus principais valores artísticos ou de autenticidade. Ou seja, mesmo que a proposta apresente pontos de inovação, como a participação popular, seu resultado é regido pelo Discurso Autorizado de Patrimônio exemplificado pela preocupação primordial com as edificações históricas ali presentes. O estado atual de conservação em que se encontra a estrutura também simboliza o prevalecimento das políticas patrimoniais empreendidas a favor de bens materiais com valor histórico e artístico (Figuras 2.29 e 2.30). Diante de graves problemas estruturais e de conforto ambiental que a cobertura da Feira Livre vem apresentando, em 2016 foi oferecida uma proposta de substituição dessa estrutura como resposta à sua má condição de preservação por falta de manutenção. A proposta, feita pelo poder municipal, além de apresentar uma opção para a substituição da lona tensionada, propunha a mudança de local do comércio de peixe e do comércio de açaí, retirando a função histórica da Pedra do Peixe e da Feira do Açaí, principais lugares que mobilizam moradores do conjunto de ilhas e de outras regiões afastadas da cidade de Belém (Figuras 2.31 e 2.32). As poucas discussões entre os organizadores da proposta e os feirantes, pesquisadores e a sociedade de modo geral dificultou o desenvolvimento da proposta desde o início. A ausência de levantamentos sociológicos e antropológicos na proposta do governo municipal, considerando-se o objeto de intervenção, gerou intensa desconfiança por parte de quem frequenta e vive desse espaço desde gerações anteriores, ficando incógnitos os impactos que as mudanças geradas causariam nas atividades tradicionais da feira. Exemplo disso é o “Manifesto público e reivindicações de Povos e Comunidades Tradicionais de Belém” que pedia a inserção da comercialização de animais vivos, ervas e plantas no Projeto Básico, visto que se trata de práticas de povos tradicionais até então desconsideradas na discussão e que são parte fundamental das relações comerciais ali estabelecidas (POVOS TRADICIONAIS ENTREGAM MANIFESTO, 2016). Além disso, a proposta possuía um caráter essencialmente mercadológico, cuja reorganização da Feira Livre e dos pontos de comercialização do pescado e do açaí atendiam a interesses econômicos e turísticos específicos do poder público. Pode ser apontada, nesse caso, a necessidade de uma visão sistêmica sobre o Patrimônio Cultural, em que não é suficiente a preservação de bens culturais isolados, como vem se constatando na discussão em torno da preservação de bens intangíveis. Além disso, a permanência das práticas e saberes exaltados por esse discurso, por se tratar de um patrimônio ativo e dinâmico, justamente por seu caráter intangível, depende diretamente do envolvimento das comunidades e grupos sociais que são seus agentes diretos. Essas são necessidades muitas vezes
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 137 Figura 2.30: Soluções improvisadas pelos feirantes para problemas de escoamento de água pluvial da lona tensionada na Feira Livre do Complexo Ver-o-Peso. 2018. Fonte: Arquivo Pessoal. Figura 2.29: Soluções improvisadas pelos feirantes para problemas de escoamento de água pluvial da lona tensionada na Feira Livre do Complexo Ver-o-Peso. 2021. Fonte: Arquivo Pessoal.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 144 Figura 2.41: Mapa do Centro Histórico de Belém, com polígono de tombamento federal e área de entorno. Fonte: GODINHO, 2019.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 145 Figura 2.42: Delimitação do conjunto tombado do Ver-o-Peso e delimitação do centro histórico de Belém. Fonte: Elaboração própria sobre imagem do Google Earth. 100 200m N Limite do Centro Histórico Complexo do Ver-o-Peso Estação das Docas Feliz Lusitânia Boulevard da Gastronomia Belém Porto Futuro (projeto) Campina Cidade Velha Reduto Batista Campos Baía do Guajará
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 146 actúa directamente sobre el patrimonio material y sus principales ejemplos son los monumentos elegidos Patrimonio de la Humanidad por la UNESCO, a saber, la Catedral, el Alcázar y el Archivo de Indias (Figura 2.44). Este conjunto es ilustrativo de los acontecimientos más importantes de Sevilla y conforma una unidad e integración en el paisaje de la ciudad que les confiere un valor universal y excepcional de acuerdo con valores históricos, estéticos y artísticos. Son estos valores los que cumplen los requisitos exigidos por la UNESCO para la inclusión de un bien en la Lista del Patrimonio Mundial, en consonancia con lo que SMITH (2006) señala como el Discurso Autorizado del Patrimonio. Por estas razones, el conjunto monumental formado por la Catedral, el Alcázar y el Archivo de Indias fue incluido en la Lista del Patrimonio Mundial de la UNESCO en 1987 (FERNÁNDEZ-BACA CASARES; RODRÍGUEZ; SANJUÁN BALLANO, 2009). Sevilla es una ciudad de construcción antigua, muy estudiada y sobre la que existen numerosos trabajos académicos. Dicen los historiadores que tanto los tartesios como los fenicios navegaron por el Guadalquivir y llevaron parte de su cultura y arte en sus barcos, destacando como muestra el tesoro del Carambolo51. Sin embargo, los primeros testimonios que se conservan de la navegación fluvial son los romanos, que se asentaron en el siglo II a.C., en Hispalis, convertida en un importante puerto fluvial, siendo ésta la principal actividad de la Sevilla Antigua (ROBLES y PASTOR, 2006), además de ser un importante centro comercial y productor de aceite de oliva. Posteriormente, la ciudad fue conquistada por los visigodos y los árabes, que gobernaron la ciudad durante casi 500 años. El año 712 marcó el inicio de la dominación árabe, periodo que permitió a Sevilla alcanzar un importante crecimiento económico y cultural. Ejemplo de ello son los monumentos erigidos por los musulmanes en la ciudad y que actualmente constituyen atractivos turísticos en la ruta señalada como clave para descubrir la ciudad, en particular la Torre del Oro (Figura 2.50), construida para reforzar la defensa del puerto, la Giralda (Figura 2.51) y los Alcáceres Reales. trimonio Mundial en Sevilla que muestra esta información en detalle. En la Figura 2.43, extraída de esta guía, los edificios en amarillo son de arquitectura religiosa, en azul son de arquitectura civil y en verde son de arquitectura residencial. La guía ofrece información sobre todos los edificios del mapa, dividida en información general, turística, histórica y artística (SEVILLA PATRIMONIO MUNDIAL). 51 Un conjunto de varias piezas de oro y cerámica de posible origen tartésico fue hallado en 1958, a tres kilómetros de Sevilla, datado en la primera mitad del siglo VII a.C. y considerado uno de los vestigios de esta ocupación en la zona. preservação isolada de um monumento no contexto de construção de identidade nacional e as ações direcionadas aos bens culturais atualmente, salvo que o contexto nacionalista não condiz com o contexto atual. O que se coloca aqui é que a separação por categorias de patrimônio, especificamente “material” e “imaterial”, que continua a ser ressaltada pelo discurso predominante, prejudica as ações de preservação e salvaguarda no âmbito sociocultural ao considerar apenas o bem em si, e não as consequências da ação. Ainda sobre a delimitação de centros históricos e a ação isolada de preservação, no caso de Sevilha, o polígono de tombamento tem relação direta com a localização do seu conjunto monumental. A Figura 2.43 mostra o perímetro delimitado pelo conjunto monumental e seu entorno, assim como as edificações tombadas50. Aqui, o Discurso Autorizado de Patrimônio age diretamente sobre o patrimônio material e tem como principais exemplares os monumentos eleitos Patrimônio Mundial da UNESCO, sendo eles a Catedral, o Alcázar e o Arquivo das Índias (Figura 2.44). Esse conjunto é ilustrativo dos acontecimentos mais importantes de Sevilha e conformam uma unidade e integração na paisagem da cidade que lhes confere valor universal e excepcional de acordo com valores históricos, estéticos e artísticos. São esses valores que cumprem as exigências colocadas pela UNESCO para inserção de um bem na Lista do Patrimônio Mundial, condizentes com o que SMITH (2006) aponta como Discurso Autorizado de Patrimônio. Por esses motivos, o conjunto monumental formado pela Catedral, o Alcázar e o Arquivo das Índias foi incluído, em 1987, na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO (FERNÁNDEZ- -BACA CASARES; RODRÍGUEZ; SANJUÁN BALLANO, 2009). Sevilha é uma cidade de construção milenar, bastante estudada e sobre a qual existem inúmeros trabalhos acadêmicos. Os historiadores dizem que tanto os tartessos como os fenícios navegaram o rio Guadalquivir e trouxeram parte da sua cultura e arte nos seus barcos, destacando-se como amostra o tesouro do Carambolo51. No entanto, os primeiros testemunhos sobreviventes da navegação fluvial são os romanos, que ali se estabeleceram 50 Há um guia cultural online dos monumentos que formam parte da Lista de Patrimônio Mundial em Sevilha que demonstra detalhadamente essas informações. Sobre a Figura 2.43, retirada desse guia, os edifícios em amarelo são de arquitetura religiosa, em azul são de arquitetura civil e em verde são de arquitetura residencial. O guia oferece informações sobre todas as edificações do mapa, divididas em informações gerais, turísticas, históricas e artísticas (SEVILLA PATRIMONIO MUNDIAL). 51 Conjunto de várias peças de ouro e cerâmica de possível origem tartessa, foi encontrado em 1958 a três quilômetros de Sevilha, datado à primeira metade do século VII a.C., considerado um dos vestígios dessa ocupação no território.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 147 Figura 2.43: Edificações tombadas em níveis municipal e mundial e perímetro de preservação de entorno em linha pontilhada no centro histórico de Sevilha. Fonte: SEVILLA PATRIMONIO MUNDIAL.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 148 Figura 2.45: Fachada principal do Archivo das Indias em Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.44: Vista aérea da Catedral de Sevilha. Fonte: FERNÁNDEZ-BACA CASARES; RODRÍGUEZ; SANJUÁN BALLANO, 2009.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 149 Figura 2.49: Jardins dos Alcáceres Reais de Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.48: Jardins dos Alcáceres Reais de Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.47: Palácio dos Alcáceres Reais de Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.46: Palácio dos Alcáceres Reais de Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal.
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 150 La ubicación de la ciudad de Sevilla en la vega del Guadalquivir (Figura 2.52) ha marcado históricamente su estructura y forma urbana. La necesidad de defenderse progresivamente de la inundación de suelos consolidados o en crecimiento obligó a la realización de importantes obras de infraestructura hidráulica, tanto en el Guadalquivir como en otros cauces, que a su vez sirvieron de soporte a infraestructuras de otro tipo, como ferrocarriles, carreteras y avenidas. Así, sobre la ciudad antigua se superpusieron varias estructuras generales que trataban de vincular las distintas zonas y obras hidráulicas de forma unitaria y coherente bajo diferentes esquemas. La relación entre la ciudad y el río se remonta a hace más de 2.000 años, cuando los romanos fundaron la ciudad de Hispalis, que más tarde se convertiría en Sevilla. Desde entonces, el río Guadalquivir ha sido un factor crucial en el desarrollo de la ciudad, influyendo en su economía, cultura e historia. La privilegiada situación de Sevilla junto al Guadalquivir le permitió convertirse en un importante centro comercial y portuario durante la Edad Media. Sevilla era la principal puerta de entrada del comercio con América, y el río era la vía de transporte que conectaba la ciudad con el resto del mundo. Esto impulsó la economía de Sevilla y contribuyó a su prosperidad. Además de su papel como centro comercial, el Guadalquivir también ha influido en la cultura y la historia de Sevilla, ya que ha sido escenario de importantes acontecimientos históricos, como la llegada de Cristóbal Colón en 1492 y la expedición de Fernando de Magallanes, que fue el primer viaje de circunnavegación del mundo. El rico legado de la ciudad de Sevilla es el resultado del paso de diferentes culturas que, a lo largo de los siglos, han formado un notable conjunto de fuerte presencia cultural. Numerosos edificios históricos reflejan la historia de un enclave urbano que fue decisivo para el intercambio de mercancías, personas e ideas entre Europa y América durante la Edad Moderna. Diferentes periodos de prosperidad económica han atraído a artistas y arquitectos que han dejado una poderosa huella en la ciudad, y así sigue siendo en la actualidad. El discurso autorizado sobre el patrimonio alcanza en este caso un nivel de éxito específico, ya que los valores históricos y artísticos considerados fundamentales para la elección de bienes de la lista del Patrimonio Mundial están aquí presentes en su mayor parte52. No por casualidad, Europa, junto con 52 En Andalucía hay actualmente cinco bienes incluidos en la Lista del Patrimonio Mundial: las ciudades de Córdoba, Granada y Sevilla, a las que se han añadido el Parque Nacional de Doñana (1994, 2005) y el conjunto renacentista de Úbeda y Baeza (2003). Junto a estas inclusiones de bienes en la Lista del Patrimonio Mundial, la Junta de Andalucía lleva a cabo desde los años 80 una política de protección del patrimonio histórico andaluz. Sevilla cuenta con 497 bienes protegidos no século II a.C., em Hispalis, convertido em importante porto fluvial, sendo essa a principal atividade da Sevilha Antiga (ROBLES e PASTOR, 2006), além de ter sido um importante centro comercial e produtora de azeite. A cidade foi posteriormente conquistada pelos visigodos e pelos mouros, que governaram a cidade por quase 500 anos. O ano de 712 marca o início da dominação árabe, período que permitiu a Sevilha um importante crescimento econômico e cultural. Exemplo disso são os monumentos erguidos pelos muçulmanos na cidade e que perfazem atualmente pontos turísticos do percurso indicado como fundamental para conhecer a cidade, com destaque para a Torre del Oro (Figura 2.50), construída para reforçar a defesa do porto, a Giralda (Figura 2.51) e os Alcáceres Reais. A localização da cidade de Sevilha na várzea do Guadalquivir (Figura 2.52) marcou historicamente sua estrutura e sua forma urbana. A necessidade de se defender progressivamente contra a inundação de solos consolidados ou em crescimento forçou a realização de importantes obras de infraestrutura hidráulica, tanto no Guadalquivir quanto em outros canais, que por sua vez serviram de apoio a infraestruturas de outros tipos, como ferrovias, autoestradas e avenidas. Sendo assim, várias estruturas gerais foram sobrepostas à cidade antiga, que tentaram ligar as diferentes áreas e obras hidráulicas de forma unitária e coerente sob diferentes esquemas. A relação entre a cidade e o rio remonta a mais de 2.000 anos, quando os romanos fundaram a cidade de Hispalis, que mais tarde se tornaria Sevilla. Desde então, o rio Guadalquivir tem sido um fator crucial no desenvolvimento da cidade, influenciando sua economia, cultura e história. A localização privilegiada de Sevilla no rio Guadalquivir permitiu que a cidade se tornasse um importante centro comercial e portuário durante a Idade Média. Sevilla era a principal porta de entrada para o comércio com as Américas, e o rio era a via de transporte que conectava a cidade com o resto do mundo. Isso impulsionou a economia de Sevilla e contribuiu para sua prosperidade. Além de seu papel como centro de comércio, o rio Guadalquivir também influenciou a cultura e a história de Sevilla, tendo sido palco de importantes eventos históricos, incluindo a chegada de Cristóvão Colombo em 1492 e a expedição de Fernão de Magalhães, que foi a primeira viagem de circum-navega- ção do mundo. O rico legado da cidade de Sevilha é o resultado da passagem de diferentes culturas que, ao longo dos séculos, formaram um conjunto notável de forte presença cultural. Muitos edifícios históricos refletem a história de um enclave urbano que foi decisivo para o intercâmbio de mercadorias, pessoas e ideias entre a Europa e a América durante a Idade Moderna. Diferentes períodos de prosperidade econômica permitiram atrair artistas e
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 151 Figura 2.52: Vista sobre Rio Guadalquivir e Torre del Oro ao fundo. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figura 2.51: Giralda em Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal. Figuras 2.50: Torre del Oro em Sevilha. 2022. Fonte: Arquivo pessoal
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 152 América del Norte, son los continentes con mayor número de bienes inscritos en la Lista del Patrimonio Mundial de la UNESCO, como muestra el siguiente cuadro: [Cuadro 2: Suma de propiedades en la Lista del Patrimonio Mundial de la UNESCO desglosadas por región según la información proporcionada por el sitio web oficial de la UNESCO. Fuente: Autoría propia. 2022.] SMITH (2021) señala que la valoración del Patrimonio se desarrolló en Europa Occidental en el siglo XIX, en el contexto del auge del nacionalismo, y moviliza a los expertos para la protección de los bienes culturales materiales considerados representativos de valores innatos y hereditarios. Este discurso marcadamente europeo sigue influyendo en las políticas de preservación a escala internacional a través de las instituciones que lo autorizan. En particular, sostiene que las elaboraciones realizadas por la UNESCO han sido sancionadas por el ICOMOS. Incluso la Convención de 2003, que configuró un cambio importante en este campo del conocimiento, para SMITH (2021) sigue configurando una política constreñida en muchos contextos occidentales, porque no hubo un cambio de política en cuanto a las acciones de preservación y salvaguardia, sólo se transfirieron de un tipo de bien a otro sin la debida adecuación. No tiene sentido aislar los bienes culturales en categorías que atestiguan la presencia o ausencia de materialidad, a pesar de que el discurso autorizado sobre el patrimonio actúe de esta manera. Un punto a considerar, en este caso, son las diferencias entre el discurso que legitima la entrada del conjunto monumental formado por la Catedral, el Alcázar y el Archivo de Indias en la Lista del Patrimonio Mundial y el dirigido a los barrios históricos, como es el caso de Triana. Lo que destaca en el caso de los barrios es su valor para la localidad, que coincide con la valoración del patrimonio local en el contexto de la globalización. El principal valor patrimonial de un barrio histórico reside en la relación entre autenticidad y localidad, que es el caso del discurso que legitima a Triana como lugar preservable, compatible con el Discurso del Patrimonio Autorizado. Los barrios históricos suelen contar con edificios antiguos y arquitecturas conservadas que se remontan a diferentes periodos de la historia de la ciudad y suelen a nivel local en su provincia y 136 en la capital. La Catedral de Sevilla, el Alcázar y el Archivo de Indias constituyen un conjunto de edificios, próximos entre sí, que forman parte del mayor centro histórico urbano de Europa. Los tres edificios constituyen un conjunto monumental que ilustra los acontecimientos más importantes de Sevilla y juntos forman un conjunto único de valor universal y excepcional desde diferentes perspectivas históricas, estéticas y artísticas. Estos valores universales cumplen los requisitos de la Lista del Patrimonio Mundial. arquitetos que deixaram uma marca poderosa na cidade, o que se conserva até hoje. O Discurso Autorizado de Patrimônio atinge um nível específico de sucesso nesse caso, visto que estão presentes aqui majoritariamente valores históricos e artísticos considerados fundamentais para a eleição de bens constantes da lista do Patrimônio Mundial52. Não à toa, a Europa, junto da América do Norte, são os continentes com a maior quantidade de bens inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, como mostra a tabela abaixo: Região Cultural Natural Misto Total Ásia e Pacífico 195 68 12 275 Europa e América do Norte 467 66 11 544 Países árabes 80 5 3 88 África 54 39 5 98 América Latina e Caribe 100 38 8146 América Latina e Caribe, Ásia e Pacífico, Europa e América do Norte 10 0 1 Ásia e Pacífico, Europa e América do Norte 0 2 0 2 Total 897 218 39 1154 Tabela 2: Somatória de bens que constam na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO divididos por região com base nas informações fornecidas pelo site oficial da UNESCO. Fonte: Autoria própria. 2022. SMITH (2021) aponta que a valorização do Patrimônio se desenvolveu na Europa Ocidental do século XIX, no contex- to da ascensão do nacionalismo, e mobiliza os especialistas pela proteção de bens culturais materiais considerados representativos de valores inatos e hereditários. Esse discurso marcadamente europeu continua a influenciar as políticas de preservação inter- 52 Em Andaluzia existem atualmente cinco bens incluídos na Lista do Património Mundial: as cidades de Córdoba, Granada e Sevilha, às quais se somaram o Parque Nacional de Doñana (1994, 2005) e o complexo renascentista de Úbeda e Baeza (2003). Paralelamente a estas inclusões de bens na Lista do Património Mundial, a Junta de Andaluzia leva a cabo uma política de proteção do patrimônio histórico andaluz desde os anos oitenta. Sevilha tem 497 bens protegidos, a nível local, em sua província e 136 na capital. A Catedral de Sevilha, o Alcázar e o Arquivo das Índias constituem um conjunto de edifícios, próximos uns dos outros, que fazem parte do maior centro urbano histórico europeu. As três edificações constituem um conjunto monumental que ilustra os eventos mais importantes de Sevilha e juntos formam um conjunto único de valor universal e excepcional de diferentes perspectivas históricas, estéticas e artísticas. Esses valores universais atendem aos requisitos da Lista do Patrimônio Mundial.
2.2 . O Discurso Autorizado de Patrimônio no Ver-o-Peso e em Triana 153 estar asociados a acontecimientos históricos significativos o a perfiles identitarios concretos. Triana es uno de los barrios de Sevilla que conforman el desarrollo de la ciudad a un lado del río Guadalquivir, y se trata de un territorio histórico. Este conjunto suele considerarse una parte autónoma de la ciudad, que se diferencia del resto y que, además de ser un territorio separado de Sevilla por el río, tiene una estructura formal propia. Para recuperar su forma histórica, DÍAZ GARRIDO (2004) se fijó en algunas representaciones del siglo XIX, siendo el plano de la Figura 2.53, de 1890, el que consideró más fiable por ser el más avanzado técnicamente de la época, y lo comparó con el plano de la Figura 2.54, de 1918, que ya mostraba cambios significativos en el diseño urbano. Según el autor, el plano representa correctamente los cursos de los ríos, las carreteras, las vías secundarias y las huertas, los núcleos de población y la topografía, por lo que es la mejor y más antigua representación del barrio de Triana. El río es claramente la principal referencia presente en la representación y aparece en dirección norte-sur. Tiene un curso sinuoso que dibuja una serie de meandros. A la altura de Sevilla, el río presenta uno de ellos, y es en este punto donde se sitúa Triana por un lado, mientras que por el otro da paso al Arenal, siendo éste un espacio de sedimentación desde el punto de vista geológico y vinculado históricamente al puerto. Ambos lados se unieron a través de un puente, siendo éste su único punto de conexión. Es interesante destacar, por los datos topográficos, que Triana se encuentra en la zona más baja del río y por ello ha sido víctima de numerosas inundaciones a lo largo de la historia53. El origen del puente de Triana se produce junto con la consolidación de este paisaje en la Baja Edad Media, en la que la ciudad formaba parte de las rutas musulmanas y tiene el trazado del río más próximo al actual. En este punto consideramos lo que sería el primer asentamiento del barrio, del que forman parte las calles San Jacinto y Castilla. La Figura 2.57 muestra una vista aérea que ilustra cómo es actualmente la parte histórica de Triana. Representaciones antiguas, como la Figura 2.59, en la que se puede ver Sevilla rodeada por la 53 Como dato geográfico, DÍAZ GARRIDO (2004) afirma que el casco urbano de Sevilla se asienta sobre lo que antes fue una sucesión de meandros, uno de los antiguos canales que iban desde la Alameda de Hércules hasta la Torre del Oro. Durante las obras del metro se descubrió un barco a doce metros de profundidad en la Plaza Nueva, lo que confirmaría esta hipótesis. La geología confirma una secuencia de fases hasta la fase moderna, que van desde la fase prerromana pasando por la fase romano-medieval y la fase bajomedieval, con el consiguiente enterramiento de la topografía antigua. Las excavaciones del castillo de Triana coinciden con esta secuencia, lo que atestigua el origen antiguo del barrio. nacionalmente por meio das instituições que autorizam esse discurso. Em particular, ela defende que as elaborações feitas pela UNESCO foram sancionadas pelo ICOMOS. Mesmo a Convenção de 2003, que configurou uma importante mudança nesse campo do conhecimento, para SMITH (2021) continua a configurar uma política que é constrangida em muitos contextos ocidentais, pois não houve uma mudança de política quanto às ações de preservação e salvaguarda, apenas foram transferidas de um tipo de bem a outro sem a devida adequação. Não há sentido isolar bens culturais em categorias que atestam presença ou falta de materialidade, apesar do Discurso Autorizado de Patrimônio agir dessa forma. Um ponto a ser considerado, nesse caso, são as diferenças entre o discurso que legitima a entrada do conjunto monumental formado pela Catedral, o Alcázar e o Arquivo das Índias na Lista do Patrimônio Mundial e aquele direcionado para bairros históricos, caso de Triana. O que se ressalta, no caso dos bairros, é seu valor pela localidade, o que coincide com a valorização do patrimônio local no contexto da mundialização. O principal valor patrimonial de um bairro histórico está na relação entre autenticidade e localidade, o que é o caso do discurso que legitima Triana como um local passível de preservação, o que é compatível com o Discurso Autorizado de Patrimônio. Os bairros históricos geralmente apresentam edifícios antigos e arquitetura preservada que remontam a diferentes períodos da história da cidade e são frequentemente associados a eventos históricos significativos ou a perfis identitários específicos. Triana é um dos bairros de Sevilha que compõem o desenvolvimento da cidade de um dos lados do rio Guadalquivir, sendo esse um território histórico. Este conjunto frequentemente é considerado parte autônoma da cidade, que se diferencia do restante e, além do fato de ser um território que se encontra apartado de Sevilha por meio do rio, também apresenta uma estrutura formal própria. Para que fosse restituída sua forma histórica, DÍAZ GARRIDO (2004) se debruçou sobre escassas representações do século XIX, sendo o mapa da Figura 2.53, de 1890, aquele que considerou o mais fidedigno por possuir então técnica mais avançada, e o comparou ao mapa da Figura 2.54, de 1918, cujo momento já apresentava significativas mudanças no desenho urbano. Segundo a autora, estão ali representados corretamente cursos fluviais, caminhos territoriais, vias menores e hortas, núcleos populacionais e topografia, sendo esta portanto a melhor e mais antiga representação do bairro de Triana. O rio é claramente a principal referência presente na representação e aparece no sentido norte-sul. Tem um curso sinuoso que desenha uma série de meandros. Na altura de Sevilla, o rio apresenta um deles, sendo neste ponto que Triana se coloca
A dimensão intangível do Patrimônio Urbano 256 conforman los perfiles identitarios de ese lugar. Es decir, el patrimonio como “lugar” se convierte en el medio por el cual las abstracciones de la identidad toman forma y contenido y la preservación en su totalidad es lo que asegura su permanencia. Las acciones patrimoniales de este periodo tuvieron como referencia la ocupación portuguesa en Belém, utilizando como fuente imaginaria muchas referencias a la Belle Époque Paraense, situada históricamente entre 1860 y 1920, durante la “Era del Caucho” (Figuras 3.52 a 3.54). Las grandes obras públicas realizadas entonces asumieron el carácter de saneamiento de la ciudad, además de la urbanización hacia la periferia, apertura de nuevas vías, forestación, instalación de bosques y plazas, pavimentación urbana e instalación de iluminación eléctrica (FREITAS, 2010). La rápida decadencia del ciclo del caucho sigue presente hoy en el imaginario de la ciudad y está representada por la nostalgia de la modernidad que Belém alcanzó durante este período. Esto se refleja en las decisiones tomadas sobre cómo tratar estos proyectos y estos especímenes patrimoniales. Según TAVARES Y CASTRO (2016), el patrimonio cultural urbano del Centro Histórico de Belém es visto como algo a ser exhibido al visitante, como una muestra de referencias culturales e históricas de la ciudad, cuyo principio está presente en las estrategias estatales de apropiación del espacio, turismo y participación de la comunidad local. El Estado, en este caso, fomenta el uso turístico del patrimonio y dispone de legislación para proteger los elementos patrimoniales. La comunidad, por su parte, no muestra una resistencia específica al turismo, pero algunos residentes están en contra de los eventos culturales que traen demasiada gente y causan problemas como el ruido y la basura. Los turistas de la ciudad suelen visitar únicamente los puntos turísticos del tejido histórico, especialmente los que han recibido intervenciones recientes del Estado y se anuncian en la política de publicidad turística. Los autores señalan contradicciones en el modo de actuación de todos los subgrupos de agentes de la producción espacial y la unificación identitaria por intereses comunes y tradiciones del patrimonio cultural es relativa. La construcción del corredor gastronómico (Figuras 3.55 y 3.56) en el Boulevard Castilhos França, inmediatamente al lado de Ver-o-Peso, completa la acción empresarial de este territorio, a pesar de que Ver-o-Peso sigue siendo un lugar al margen del uso esencialmente turístico y es un espacio público. El proyecto, iniciado a finales de 2022 y denominado “Bulevar de la Gastronomía”, prevé la reurbanización del Bulevar, la restauración de las casas allí presentes y la acogida de actividades culturales y comerciales directamente vinculadas a la gastronomía en Pará. La expectativa, además de la creación de puestos de trabajo, es proponer nuevos usos para una parte del centro histórico de la ciudad abandonada desde hace décadas con la implicación de varios agentes, entre ellos la Universidad Federal de Pará, con la creación de la Galería de Arte de la UFPA, la librería universitaria y un espacio para las actividades de la Escuela de Música. forma e conteúdo e a preservação na sua totalidade é o que garante sua permanência. As ações patrimoniais desse período tiveram como referência a ocupação portuguesa em Belém, utilizando como fonte imagética muitas referências à Belle Époque paraense, situada historicamente entre 1860 e 1920, durante a “Era da borracha” (Figuras 3.52 a 3.54). As grandes obras públicas então efetuadas assumiram caráter de higienização da cidade, além da urbanização em direção à periferia, abertura de novas vias, arborização, instalação de bosques e praças, calçamento urbano e instalação de iluminação elétrica (FREITAS, 2010). A rápida decadência do ciclo da borracha está presente ainda hoje no imaginário da cidade e surge representado pelo saudosismo da modernidade que Belém atingiu durante esse período. Isso se reflete nas decisões tomadas sobre como lidar com esses projetos e com esses exemplares patrimoniais. Segundo TAVARES E CASTRO (2016), o patrimônio cultural urbano do Centro Histórico de Belém é visto como algo a ser exibido ao visitante, como uma mostra de referências culturais e históricas da cidade, cujo princípio está presente nas estratégias estatais de apropriação do espaço, no turismo e na participação da comunidade local. O Estado, nesse caso, incentiva o uso turístico do patrimônio e tem legislação de proteção dos elementos patrimonializados. A comunidade, por um lado, não demonstra resistência específica ao turismo, mas alguns moradores são contra eventos culturais que trazem muitas pessoas e causam problemas como barulho e lixo. Os turistas da cidade geralmente visitam apenas os pontos turísticos do tecido histórico, especialmente aqueles que receberam intervenções recentes do Estado e são divulgados na política de publicidade turística. Os autores apontam contradições no modo de atuação de todos os subgrupos de agentes da produção do espaço e a unificação identitária por interesses e tradições comuns do patrimônio cultural é relativa. Completa a ação de empresariamento deste território, apesar do Ver-o-Peso se manter como lugar apartado do uso essencialmente turístico e configurar um espaço de caráter público, a construção do corredor gastronômico (Figuras 3.55 e 3.56) no Boulevard Castilhos França, imediatamente ao lado do Ver-o-Pe- so. O projeto, que teve início no final de 2022 e se chama “Boulevard da Gastronomia”, prevê a reurbanização da avenida, o restauro do casario ali presente e a recepção de atividades culturais e comerciais diretamente ligadas com a gastronomia paraense. A expectativa, além da criação de empregos, é propor novos usos para parte do centro histórico da cidade que se encontra em estado de abandono há algumas décadas com o envolvimento de diversos agentes, inclusive a Universidade Federal do Pará, com a
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