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257 A PRODUÇÃO DE OBRAS DE AUTORIA FEMININA NO PERÍODO COLONIAL BRASILEIRO: IMPLICAÇÕES HISTÓRICAS, CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES E CONTRIBUIÇÕES LITERÁRIAS Batista, Edilene Ribeiro1 Departamento de Literatura Universidade Federal do Ceará – UFC/Brasil [email protected] RESUMO: Dentre os mecanismos de inferiorização que se constituíram, desde o século XVI, no Brasil, para a construção de identidade de gênero, encontra-se, no âmbito literário, além de outros critérios, a sexualidade como prerrogativa para a visão de subalternidade do feminino. Refletindo um sistema de hierarquização patriarcal, assim como uma concepção cultural falocêntrica, o cânone brasileiro, até o final do século XIX, privilegiou, majoritariamente, figuras masculinas como representantes significativas de nossa formação literária, preservando o silenciar da escrita de autoria feminina como prática social significativa. Na tentativa de resgatarmos escritoras que deixaram sua contribuição na arte literária brasileira, bem como esclarecermos como se deu a construção da identidade de gênero dessas mulheres na História colonial de nossa nação é que estamos propondo esta comunicação oral. Nela, procuramos, dentre outras questões, apresentar como se deu a representação do feminino no Brasil Colônia, utilizando, para isso, de um aparato histórico e literário. PALAVRAS-CHAVE: Período Colonial Brasileiro. Literatura. Gênero. Identidade. Autoria/escrita feminina. ___________________________________________________ 1. Edilene Ribeiro Batista é doutora em Literatura Brasileira, professora do Curso de Letras e docente do Programa de Pós-Graduação em Letras, do Departamento de Literatura, da Universidade Federal do Ceará – UFC, em Fortaleza/Brasil. Pesquisadora na área de gênero, faz parte do GT da ANPOLL “A Mulher na Literatura” (na linha de pesquisa ”Resgate”); coordena o grupo de estudo/pesquisa “Outras Vozes: Gênero e Literatura” (www.generoeliteratura.com.br). Autora de livros e de diversos artigos em revistas e capítulos em obras teóricas, tem participado, com comunicações orais, em congressos internacionais, como no Chile, no México, na Itália e na Inglaterra.
258 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS Elaine Showalter, com sua postura revisionista, propõe, por meio da ginocrítica, uma investigação da literatura realizada por mulheres, apontando que, dentre as formas de contribuição da crítica feminista, encontram-se: “o estudo da mulher como escritora, e seus tópicos são a história, os estilos, os temas, os gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres; a psicodinâmica da criatividade feminina; a trajetória da carreira feminina individual ou coletiva; e a evolução e as leis de uma tradição literária de mulheres” (SHOWALTER, 1994: 29). De fato, os estudos da literatura, segundo a tendência arqueológica, têm auxiliado no resgate do feminino, afastando-o das associações com os estereótipos da inferioridade. As obras escritas por mulheres apresentam construções de identidades que se revelam e se comunicam por meio de suas produções textuais. Nesse sentido, faz-se necessária a análise desse legado para o entendimento de como se deu a contribuição cultural feminina, considerando, para isso, uma série de implicações históricas que, muitas vezes, justificam a forma como as mulheres eram vistas no Período Colonial brasileiro; o modelo de comportamento que elas seguiam e as questões temáticas e estéticas que utilizavam em suas obras. Com o intuito de elucidarmos tais pontos, dividimos o presente trabalho em partes que se complementam, a saber: 1) Aspectos Introdutórios, em que se estabelece, inicialmente, dentre outros assuntos, o conceito de historiografia e a divisão didática da Literatura Brasileira; 2) Implicações Históricas e Construção de Identidades, tópico onde se salientam aspectos inerentes ao Período Colonial no Brasil e suas influências na formação identitária da mulher dessa época; 3) A Produção Literária de Autoria Feminina no Período Colonial Brasileiro, parte onde se elucida a condição da mulher no Brasil Colônia, esclarecendo em que circunstâncias se dá a sua escritura. Aqui, também, analisamos quatro autoras inseridas nesse contexto social e político, mas que se mantêm, ainda, silenciadas pelo cânone brasileiro: Bárbara Heliodora (1758-1819), Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779-1868), Ildefonsa Laura César (1794-?) e Ana Eurídice Eufrosina de Barandas (1806-?). Partindo de uma proposta metodológica bibliográfica, pautada em estudos historiográficos e de gênero, estabelecemos como suporte teórico estudiosos/as renomados/as, tais como: Afrânio Coutinho (1896), Antonio Candido (1993), Cecil Jeanine Albert Zinani (2006), Mary Del Priori (1997) e Zahidé Lupinacci Muzart (2000), além de outros/as. Intencionamos, com esta proposta, mostrar que, em pleno século XXI, com amplas discussões acadêmicas sobre gênero, identidade, diversidade e memória, não é mais aceitável que essas escritoras permaneçam no anonimato, mesmo porque de suas obras emanam formas de construção e de representação do feminino em um dado contexto social. Para alcançarmos o objetivo aqui estabelecido, iniciaremos nosso estudo com a análise de questões teóricas, como a historiografia. Etimologicamente, historiografia (do grego, historiographia) designa o estudo histórico e crítico acerca da História ou dos historiadores. Portanto, examinar a Literatura Brasileira sob o aspecto historiográfico implica em estudá-la, considerando os fatos, as questões contextuais que cercam cada uma de suas escolas literárias. Entretanto, não podemos esquecer que o conhecimento histórico é seletivo. Sendo assim, “o historiador [ou crítico literário] deve fazer uma escolha. Da
259 infinita variedade das relações que revelam os eventos passados deve escolher o que é importante ou fundamental para a sua história particular” (ABBAGNANO, 1982: 486), ou seja, para o estilo de época, para o autor ou para a obra literária que irá estudar. Afinal, é importante “a convicção de que o ponto de vista histórico é um dos modos legítimos de estudar literatura, pressupondo que as obras se articulam no tempo, de modo a se poder discernir uma certa determinação na maneira por que são produzidas e incorporadas ao patrimônio de uma civilização” (CANDIDO, 1993: 29). Sobre essa influência histórica nas questões literárias, em A análise literária, Massaud Moisés afirma que “toda análise textual é contextual. Não é o contexto que importa, é o texto, mas este, sem aquele, corre o risco de permanecer impermeável às sondas analíticas” (MOISÉS, 1995). Isso significa que, embora o objeto de análise do crítico literário seja o que o texto exprime, torna-se difícil entender esse último sem considerarmos a história, a política, a economia, etc. da época em que a obra foi escrita. Isso porque, a arte reflete o período em que foi produzida. Daí a importância dos aspectos contextuais acima citados na interpretação literária, sem desconsiderarmos, entretanto, o estudo de cada autor na sua integridade estética. No exame da Literatura Brasileira2, didaticamente estabelecemos uma divisão dos estilos literários que a constitui em dois grandes períodos ou fases: 1. Período Colonial: que compreende o Quinhentismo (século XVI), o Barroco (século XVII) e o Arcadismo (século XVIII); 2. Período Nacional: que compreende o Romantismo (século XIX), o Realismo/Naturalismo/Parnasianismo (século XIX), o Simbolismo (século XIX) e o Modernismo (século XX). Cada uma dessas fases abarca uma ideologia diferenciada que se complementa, no decorrer do tempo, percorrendo uma linha evolutiva que constitui o processo de formação da literatura no Brasil3, influenciada, em seus primórdios, por padrões eurocêntricos, o que fará Antonio Candido afirmar que o que há de mais interessante na literatura latina é a forma como ela adequa os padrões estéticos e intelectuais europeus à sua realidade. Com o passar do tempo, essa adequação vai se tornando variante tão diferenciada da literatura matriz, que acaba (nos últimos cem anos) influenciando esta última. _______________________________________________________________ 2. Entende-se por Literatura Brasileira, segundo Afrânio Coutinho, “o conjunto de obras literárias produzidas no Brasil em língua portuguesa desde os tempos coloniais. Descoberto o Brasil pelos portugueses, no ano de 1500, foi sendo colonizado graças a uma progressiva imigração predominantemente lusa, aos poucos misturada com elementos de origem indígena e negra” (COUTINHO, 1986: 128).
260 Toda a Literatura Brasileira foi construída com base em influências. Roberto Schwarz colocará essa situação como sinônima da chamada realidade transplantada: quando o universo de valores europeus é transplantado para o Brasil, ele acaba se transformando em uma espécie de não-lugar, ou seja, em uma criação duplicada da ideologia europeia. É o que acontece, por exemplo, com Ângela do Amaral Rangel (a Ceguinha/1725-?), que recontextualiza, em seus romances líricos (“Al mismo asunto” e “Fundar casa en Dios”), partes da obra épica produzida por Luís de Camões. Isso ocorre porque “[ante] a contingência de povo colonizado por europeus, e não existindo forte tradição autóctone, que pudesse servir de ‘passado útil’ e seminal, os primeiros homens de veleidades literárias não puderam fugir a uma luta, que se passava no seu íntimo, entre uma tradição importada e uma nova tradição de cunho local e nativo que sentiam necessidade de criar. Esse conflito das relações entre a Europa e a América, esse esforço no sentido de se criar uma tradição nova em substituição à antiga de origem europeia, marcaram a dinâmica da literatura brasileira desde os primórdios da vida colonial” (COUTINHO, 2008: 69). Frente ao exposto, pode-se inferir que temos uma Literatura Brasileira que se construiu a partir da apropriação da influência estrangeira. Por isso mesmo, ela se instaura na categoria de literatura periférica. Enquanto tal, sua importância não pode ser encarada como menor em relação às literaturas centrais, tendo em vista que a produção literária do marginal é nota específica sem a qual a mundialidade não se exprime totalmente. Atualmente, as literaturas periféricas estão realizando algo que não estava previsto no projeto literário central; não foi produzido pela metrópole e nunca será, pois que a visão da margem talvez seja mais ampla que a do centro, tendo em vista que sua produção depende do domínio do produto cultural que abrange o dominador e o dominado. Portanto, como diria Ligia Chiappini, em análise à Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, há “vantagens no atraso”. _______________________________________________ 3. Quanto à formação literária brasileira, existem, teoricamente, a defesa de duas vertentes: 1) uma regida por Antonio Candido que afirma que a constituição de nosso processo literário se dá no Arcadismo (século XVIII). Diz o Autor: “... é com os chamados árcades mineiros, as últimas academias e certos intelectuais ilustrados, que surgem homens de letras formando conjuntos orgânicos e manifestando em graus variáveis a vontade de fazer literatura brasileira” (CANDIDO, 1993: 25). Em outra parte de sua obra afirma Candido: “... os escritores brasileiros que, em Portugal ou aqui, escrevem entre, digamos, 1750 (início da atividade literária de Cláudio) e 1836 (iniciativa consciente de modificação literária, com a Niterói), tais escritores lançaram as bases de uma literatura brasileira orgânica, como sistema coerente e não manifestações isoladas” (CANDIDO, 1993: 67); 2) a outra é proposta por Afrânio Coutinho (com quem coadunamos) que defende que “a literatura brasileira nasceu sob o signo do Barroco, definido não só como um estilo de arte, senão também como um complexo cultural e um estilo de vida” (COUTINHO, 1986: 132).
261 As produções literárias realizadas por mulheres, no Período Colonial, foram capazes de romper com uma estrutura patriarcal misógina. Dessa forma, assim como a literatura de nossa nação conseguiu vencer padrões estabelecidos por países centrais, veremos que, no caso da produção literária feminina, mesmo estando à margem (a ponto de ser silenciada por tantos séculos), ela também se mostrou combativa ao falogocentrismo, subvertendo o discurso hegemónico propagado no Brasil Colônia. O resultado dessa ação foi uma escrita interessante e, muitas vezes, diferenciada da efetuada por homens inseridos na mesma fase estética dessas mulheres. Produção realizada tardiamente e, por analogia (ao explicitado, acima, por Schwarz), sendo considerada periférica em relação à literatura central, a saber, a do dominador – o homem, a escritura feminina do Período Colonial brasileiro não só serve de recurso para se analisar como se deu o processo de construção identitária da mulher nessa fase histórica, como também se faz necessária na reavaliação do papel feminino, no passado e na atualidade, desnaturalizando conceitos, negando diferenças das mais diversas ordens e estabelecendo mudanças nas relações binárias homem/mulher como se verá no decorrer deste trabalho. O PERÍODO COLONIAL BRASILEIRO: IMPLICAÇÕES HISTÓRICAS E CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES Historicamente, a fase denominada Brasil Colônia compreende o período entre a chegada dos portugueses, em 1500, e a Independência, em 1822. Nesse espaço de tempo, o Brasil encontrava-se sob domínio português e tinha sua economia caracterizada pela monocultura, pelo latifúndio e pela mão de obra escrava. Culturalmente, nessa época, a influência portuguesa se faz sentir em todas as artes brasileiras. Sendo assim, a nossa literatura apresentará características presentes na produção literária de Portugal. Fazendo parte de um processo civilizatório deflagrado pelas Grandes Navegações e de uma política de propagação do catolicismo, tendo em vista os movimentos de Reforma e Contra-Reforma, a Literatura Brasileira do Período Colonial manifestou, por meio de cartas, de peças teatrais, de sermões e de poesias, a intenção mercantilista de Portugal quando de nossa colonização. Já na Carta, de Caminha, encontramos: “De ponta a ponta é toda praia [...] muito chã e muito fremosa. [....] Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata, porém a terra em si é de muitos bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar” (CAMINHA, 1965: 109, 110). O ufanismo presente na Carta (que corresponde, para nós, ao “mito do Eldorado” e à visão de que o Brasil é um “paraíso terrestre”) e propagado nas demais produções literárias da época
262 nada mais representou que um recurso utilizado por Portugal para atrair indivíduos4 para a nova terra com fins de exploração. A demonização do sagrado indígena; as dificuldades para se adentrar no interior do país; os ciclos econômicos pelos quais passou o Brasil (os ciclos do pau-brasil (no século XVI), da cana-de-açúcar (no século XVII) e do ouro (no século XVIII)) fizeram com que, em nossa formação cultural, predominasse o ilhamento social: “Nos primeiros séculos, os ciclos de ocupação e de exploração formaram ilhas sociais (Bahia, Pernambuco, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo), que deram à Colônia a fisionomia de um arquipélago cultural. [...] Assim, de um lado houve a dispersão do país em subsistemas regionais, até hoje relevantes para a história literária; de outro, a sequência de influxos da Europa, responsável pelo paralelo que se estabeleceu entre os momentos além-Atlântico e as esparsas manifestações literárias e artísticas do Brasil-Colônia: Barroco, Arcádia, Ilustração, Pré-Romantismo...” (BOSI, 1989: 74, 75). Como visto acima, não foi fácil produzir cultura no Brasil colonial. Some-se ao exposto por Bosi, o fato de que nossa publicação na imprensa era proibida, visto que a metrópole temia uma insurreição por parte da colônia. A esse respeito afirma Massaud Moisés: “... a carta régia de 8 de junho de 1706 determinava ‘sequestrar as letras impressas e notificar os donos delas e os oficiais da tipografia que não imprimissem nem consentissem que se imprimissem livros ou papéis avulsos’: vigilância compacta contra o progresso mental da Colônia. [...] ________________________________________________________ 4. Segundo José Veríssimo, em “A primitiva sociedade colonial”, salvo exceções, só vieram para o Brasil: “Soldados de aventura, fidalgos pobres e desqualificados, assoldadados de donatários, capitães-mores e conquistadores, tratantes ávidos de novas mercancias, clérigos de nenhuma virtude, gente suspeita à polícia da metrópole, além de homiziados, de degradados, eram, em sua maioria, os componentes da sociedade portuguesa, para aqui transplantada” (VERÍSSIMO, 1963: 24).
263 ... a carta régia de 10 de maio de 1747 ordenasse o confisco da oficina, alegando que no Brasil ‘não é conveniente se imprimam papéis no tempo presente, nem pode ser de utilidade aos impressores trabalharem no seu ofício, aonde as despesas são maiores que no Reino...” (MOISÉS, 1990: 74). Com tantas dificuldades, a literatura colonial brasileira acabou se destacando pela utilização de versos, bem como pela propagação oral dos textos produzidos por nossos/as autores/as (como o faziam: 1) Ângela do Amaral Rangel (a Ceguinha/1725-?) que declamava seus versos, em português e e espanhol, na Academia dos Seletos, compondo de improviso ou depois de breve reflexão; 2) Maria Josefa Barreto (1775-1837), descrita por Sacramento Blake como poetisa e repentista) que, muitas vezes, considerando o teor temático de sua escritura, deixavam de assinar seus nomes; utilizavam pseudônimos em suas obras (caso de Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779-1868), que assinou seus textos apenas com o prenome D. Beatriz) ou, ainda, usavam recursos retóricos que “amenizassem” a verdadeira intenção textual, como fez Bárbara Heliodora (1758-1819), em “Conselhos de Bárbara Heliodora a seus Filhos”. Já no final do período árcade brasileiro, opera-se, literariamente, uma transição para o Romantismo. Essa fase será denominada Segunda Fase Neoclássica. Para José Guilherme Merquior, as realizações da Escola Mineira constituem a primeira fase do Neoclassicismo brasileiro. Afirma o Autor: “... o estilo neoclássico continuou a dominar entre a maioria dos escritores nascidos entre 1760 a 1800, e produtivos desde a última década do século XVIII até a Regência (1831 - 40). Foi, portanto, o estilo literário do processo histórico que levaria à Independência...”(MERQUIOR,1977:42). O contexto histórico em que tal período literário encontra-se inserido leva o escritor brasileiro a se sentir mais participante das causas sociais, ganhando um forte senso de responsabilidade. Quanto às características literárias, afirma Merquior que "na segunda fase arcádica, a produção poética degenerou em prosaísmo e afetação; o recurso à mitologia se tornou pesado, o espírito didático do neoclassicismo virou intelectualismo pedante" (MERQUIOR, 1977:43). Sendo assim, começa a ocorrer um esgotamento do verso neoclássico, convidando à inovação da poesia romântica. Para José Aderaldo Castello, “... no que pese a tradição da língua e do verso, continuarão assim sob a aceitação de modelos, sugerindo uma linha igualmente externa de propostas românticas para nós. Mas, o tratamento temático prossegue pressionado pelos influxos internos, envolvido pelas coordenadas do nativismo e do indigenismo/indianismo, que por sua vez alimentarão o nosso nacionalismo, aguçando a busca de identidade própria” (CASTELLO, 1999: 127, 128).
264 No Brasil, entre as escritoras que terão suas obras inseridas nesse período, encontram-se: Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779-1868), Ildefonsa Laura César (1794-?) e Ana Eurídice Eufrosina de Barandas (1806-?). Infratoras do status quo, a vida e a produção literária de várias escritoras do Período Colonial brasileiro contribuíram, por vezes, com a desconstrução do imaginário patriarcal quanto à visão da mulher, auxiliando na formação de uma nova concepção da identidade feminina. Isso porque, segundo afirma Zinani: “No momento em que a mulher se apropria da narrativa, externando seu ponto de vista, passa a questionar as formas institucionalizadas, promovendo uma reflexão sobre a história silenciada e instituindo um espaço de resistência contra as formas simbólicas de representação por meio da criação de novas formas representacionais. Dessa maneira, as mulheres promovem uma ruptura com a tradição da cultura patriarcal, por meio da utilização de um discurso do qual emerge um novo sujeito com outras concepções sobre si mesmo e sobre o mundo” (ZINANI, 2006: 30). Por meio do discurso, a mulher, no Brasil Colônia, ganhou autoridade autoral e passou a questionar, assim, as relações de poder instituídas pela sociedade e pelo próprio cânone como será analisado no tópico abaixo. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DE AUTORIA FEMININA NO PERÍODO COLONIAL BRASILEIRO E SEUS ENFRENTAMENTOS POLÍTICOS E SOCIAIS Na formação de um panorama que melhor elucide a condição da mulher no Brasil Colônia, importante é esclarecermos que o caráter colonial foi pautado em heranças interculturais embora, neste trabalho, nosso interesse esteja focado na situação da mulher branca que, por sua vez, trazia modos de viver e morrer importados de Portugal, bem como os moldes vigentes da tradição europeia no tocante à sociedade familiar. Eram, pois, filhas de seu tempo: “... as mulheres na colônia inseriram-se num quadro mental e social que acompanhava, mesmo que à distância, as várias transformações produzidas no Velho Mundo. A sociedade colonial, malgrado as especificidades que vinha adquirindo, era tributária da longa respiração histórica e, portanto, herdeira de acontecimentos que a entrelaçavam à sua Metrópole e à Europa Ocidental” (DEL PRIORE, 2009: 31). Para além da reprodução dos hábitos europeus onde saber realizar o trabalho doméstico fazia parte de sua educação, as mulheres levavam uma vida cotidiana voltada para atividades em torno da igreja – instituição que divulgava como modelo de feminilidade, a devoção e a imitação de Nossa Senhora. Subalterna em relação ao homem, em uma sociedade fundada no falocentrismo, não foi fácil para a mulher escrever obras literárias nessa época, mas o fizeram embora, no Período Colonial,
265 as questões históricas (o mesmo ocorrerá nos períodos literários posteriores) tenham uma influência direta no silenciar da fala feminina. Segundo Luiz Roncari, nesse período, a base da vida brasileira estava centrada nos engenhos ou nas grandes propriedades rurais e fazendas onde o homem era considerado superior, cabendo a ele, portanto, exercer a autoridade. Esse contexto familiar rústico, fonte da opressão feminina, dificultava a divulgação da arte literária, bem como a dedicação de alguém a ela. A educação oferecida pelos colégios jesuítas era restrita aos meninos5 a quem se ensinava a ler, escrever e contar. A esse respeito, afirma Bonnici: “Negar acesso à cultura e à educação significa o controle patriarcal sobre as mulheres; por outro lado, os mitos, o folclore e os preceitos religiosos aprofundam o conceito de patriarcalismo. O conhecimento e a educação questionam o status quo feminino e são armas potentes contra a dominação” (BONNICI, 2007: 199). Sabedores do exposto acima, os patriarcas excluíam as meninas do processo educacional; imperava a ignorância entre as jovens brasileiras, visto que não havia um desejo, por parte dos homens, de que elas escrevessem para que não fizessem mal uso dessa arte. Aprisionadas a um ambiente privado, às mulheres ensinava-se a coser, lavar, fazer rendas... e, “com esse conteúdo educacional, [elas se tornavam mais tímidas, ignorantes e submissas]. Os valores e ideias que [transmitiam] eram os mesmos que [aprenderam]: tradicionais, conservadores e atrasados” (TELES, 1999: 20). José Carlos Leal afirma em sua obra, A maldição da mulher: de Eva aos dias de hoje, que a mulher ideal para o homem dessa época “era aquela que menos falasse, menos questionasse; em resumo, aquela que menos importunasse o marido” (LEAL, 2004: 172). Isso porque a mulher inteligente era considerada um perigo para o poder masculino; por isso, “mantê-la ignorante ou detentora de um saber inócuo era fundamental para que o homem continuasse com o seu domínio” (LEAL, 2004: 173). Além do mais, escrever era uma forma da mulher externar a sua insatisfação; portanto, bem podia representar um ato de protesto contra o silêncio que, advindo da opressão, era quebrado pelas palavras; afinal, elas desejavam ter suas vozes ouvidas. Ao produzirem literatura, elas se “[rebelavam] contra o papel ‘natural’ que lhes [era] sempre assinalado – o do confinamento à vida doméstica” (MUZART, 2000: 19). Nesse contexto, considerando o controle patriarcal da educação dada ao público feminino, raras eram as mulheres que sabiam ler e escrever no Brasil Colônia, "sendo a maior parte dos testamentos de ________________________________________________ 5. A educação formal no Brasil ficou a cargo dos jesuítas que assumiram o trabalho educativo visando a três propósitos: 1) a domesticação e conversão dos nativos; 2) a escolarização inicial dos filhos dos colonos (limitada ao ensino da leitura e da escrita); 3) a formação dos novos sacerdotes e de uma elite intelectual que completava seus estudos na Europa. Os empecilhos para a educação feminina serão uma realidade para além das terras brasileiras. Sendo assim, como uma forma de driblar o sistema que as oprimia, encontraremos mulheres aristocratas que ousarão se vestir de homem para ter acesso a escolas de nível superior. Exemplo disso é Públia Hortência de Castro (1548-1595), poetisa portuguesa do século XVI, que usou desse artifício para frequentar a Universidade de Lisboa, formando-se, aos 17 anos, em Filosofia.
272 longo do tempo e reavalia-se o papel da mulher na história, concedendo-lhe a devida importância. “Esse quadro de recuperação instaura, sem dúvida, um recorte diferencial na maneira como lemos a nossa cultura, a nossa tradição e a nós mesmos” (NAVARRO, 1995: 183). Afinal, falar sobre a presença da mulher no espaço dos discursos não deixa de ser um ato político e questionador, pois abarca questões de poder nas práticas sociais e culturais onde a imagem do masculino é projetada positivamente e, a do feminino, negativamente. É nosso dever mudar tal situação, ressaltando a importância do estudo da produção literária feminina, seja nos tempos coloniais, seja na atualidade, demonstrando que a conquista da escritura pela mulher pode implicar na conquista da sua identidade. Nesse sentido, o estudo da escrita feminina, particularizado e especificado, contextualizadamente, no eixo da diferença, torna-se um dos caminhos para recuperarmos e reavaliamos experiências que a tradição cultural patriarcal emudeceu. _____________________________________________________________ 9. Para Ceila Ferreira, a “aparentemente simples redescoberta de escritoras já coloca em xeque muitas histórias das literaturas que teimam por manter os nomes femininos de autoras no esquecimento” (In BRANDÃO & MUZART, 2003: 74). 10. Segundo Márcia Hoppe Navarro, uma “das razões desse silêncio é que a literatura produzida por mulheres foi sempre considerada ‘feminina’, isto é, inferior, preocupada somente com problemas domésticos ou íntimos e, por isso, não merecendo ser colocada na mesma posição da literatura produzida por homens, cujo envolvimento com questões ‘importantes’, isto é, com a política, história e economia foi sempre assumida sem discussão” (NAVARRO, 1995: 13).
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