Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII
Abstract
O advento da descoberta do ouro, em fins do século XVII transformou a economia colonial. O papel das redes de negócio neste processo foi decisivo. Analisar os agentes envolvidos nessas transações e suas principais agências foi o objetivo do artigo. Os resultados mostraram que as redes transimperiais eram operadas por importantes negociantes estrangeiros, estabelecidos em Lisboa e com forte presença na praça fluminense.
Full text
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 197 REDES TRANSIMPERIAIS NO COMÉRCIO DO ATLÂNTICO SUL: O EXEMPLO DOS INGLESES LISBOETAS NO RIO DE JANEIRO DURANTE A SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII 1 TRANSIMPERIAL NETWORKS IN SOUTH ATLANTIC TRADE: THE EXAMPLE OF THE LISBON ENGLISH IN RIO DE JANEIRO DURING THE SECOND HALF OF THE 18TH CENTURY Fábio Pesavento Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM – Porto Alegre) Orcid: 0000-0003-0759-4799 Resumo: O advento da descoberta do ouro, em fins do século XVII transformou a economia colonial. O papel das redes de negócio neste processo foi decisivo. Analisar os agentes envolvidos nessas transações e suas principais agências foi o objetivo do artigo. Os resultados mostraram que as redes transimperiais eram operadas por importantes negociantes estrangeiros, estabelecidos em Lisboa e com forte presença na praça fluminense. Palavras-chave: Rio de Janeiro, redes de negócio, trans imperial. Abstract: The advent of the discovery of gold, at the end of the 17th century, transformed the colonial economy. The role of networks in this process was decisive. Analyzing the agents involved in these transactions and their main agencies was the objective of the article. The results showed that the trans-imperial networks were operated by important foreign traders established in Lisbon with a strong presence in Rio de Janeiro. Keywords: Rio de Janeiro, networks, trans-imperial. 1 Primeira versão apresentada no Congresso da Associação Portuguesa de História Econômica e Social em novembro de 2009 e no Congresso da Brasa em julho de 2010.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 198 Introdução A descoberta de metais preciosos na atual região de Minas Gerais, em fins do XVII e início do XVIII, alterou a dinâmica econômica não apenas do Brasil, mas de diferentes porções portuguesas além-mar 2 . Conforme avançava o processo de extração aurífera, ocorria um incremento no volume de transações mercantis, as quais não ficaram restritas aos limites geográficos do império ultramarino português 3 . Neste processo, o protagonismo das redes de negócio é conhecido na medida em que estavam presentes em boa parte do conjunto de ações econômicas desenvolvidas. 4 A observação da prática de diferentes agências 5 (administração de contratos régios, cobranças de empréstimos etc.) no espaço do Atlântico Sul revela) uma característica importante, a crescente participação de homens de negócio estrangeiros no mercado local. No caso do Rio de Janeiro, em especial durante a segunda metade do setecentos, fica nítido o envolvimento daquele grupo (especialmente, ingleses) em diferentes transações. Essa característica revela um aspecto que tem ganhado espaço na historiografia, o papel que as redes transimperiais exerciam sobre a dinâmica econômica não apenas do Rio de Janeiro, mas também do ultramar. 6 2 João Luís Fragoso; et alli, (coord.), Nas rotas do império: eixos mercantis, tráfico e relações sociais no mundo português. Vitória: Edufes; Lisboa: IICT, 2006. 3 Sobre o império ultramarino português: Francisco Bethencourt; Diogo Ramada Curto (coord.), A expansão marítima portuguesa, 1400-1800. Lisboa: Edições 70, 2010. Anthony R. Disney, A history of Portugal and the Portuguese Empire. New York: Cambridge University Press, 2009, Vol. 1. Charles R. Boxer, O império ultramarino português, 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Luis Felipe de Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 4 Roberto Guedes, (coord.), Dinâmica imperial no antigo regime português: escravidão, governos, fronteiras, poderes, legados. Rio de Janeiro: Mauad X, 2011. João Luís Fragoso; Maria de Fátima Gouveia, Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI-XVIII, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. Georgia Tavares da Costa, A atuação dos Marchantes no Rio de Janeiro colonial. Estratégias de mercado e redes de sociabilidade no comércio de abastecimento de carne verde (1763-1808). Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2012. Fábio Pesavento, Um pouco antes da corte: economia do Rio de Janeiro durante a segunda metade dos setecentos. Jundiaí: Paco, 2013. 5 Segundo De Plácido e Silva, Vocabulário Jurídico. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p.44: “(...) vemos a agência de negócios significando a corretagem de negócios, ou a diligência de alguém aplicada para a realização de negócios ou operações de outrem, (...).” 6 Fabrício Prado, “Comércio trans-imperial e monarquismo no Rio da Prata revolucionário: Montevidéu e a Província Cisplatina (1808-1822)”, Almanack, n. 24, ed00819 (Guarulhos, 2020), pp.1-47. Fabrício Prado, “Trans-imperial networks in the crisis of the spanish monarchy: The Rio de Janeiro-Montevideo Connection, 1778–1805”, The Americas, n.73, vol.2 (Suny, April 2016), pp.211-236. Alana Thais Basso, “Mobilidades mercantis: trajetórias e estratégias dos homens de negócio fluminenses e sua participação no contrabando com a Colônia do Sacramento em meados do século XVIII”. Dissertação de mestrado. Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019. Jesus Bohorquez, “Rio de Janeiro and the silver mining economy o Potosi: trans-imperial, global, and contractual approaches to South Atlantic markets (18th century)”, Almanack, n.24, (Guarulhos, 2020), pp.1-53. Tomás André Pinto de Albuquerque, “Qual o papel das redes na construção da carreira de um grande homem de negócios e sua relevância para o funcionamento do Império?”. Dissertação de mestrado. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2016.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 199 O objetivo do presente artigo é o de mostrar alguns exemplos de redes de negócio, envolvendo agentes econômicos estrangeiros que atuavam na praça do Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII. Nesse sentido, apontar os principais negociantes, suas agências, produtos, valores e demais instituições envolvidas para a realização dos seus negócios. Com isso, podemos dimensionar o impacto das redes transimperiais na dinâmica econômica do Atlântico Sul. O artigo foi dividido em três partes, além desta introdução, iniciando pela apresentação das principais características das redes transimperiais. Em seguida, mostram-se as fontes empregadas, exemplos daquelas redes, seus principais operadores e agências, finalizando com uma breve conclusão. As redes de negócio transimperiais: características e peculiaridades Nesta primeira parte do artigo, apresenta-se o que se entende por redes transimperiais. Partese da ideia de que a sociedade daquele tempo tinha uma exígua participação nas transações econômicas, pois se tratava de uma economia marcada por privilégios, com a existência de inúmeras barreiras à entrada, caracterizando um mercado “não competitivo”. Portanto, o que se presenciava, grosso modo, era uma “economia não concorrencial”, marcada por benefícios a setores ligados ao poder local ou metropolitano. Nesse sentido, as redes de negócios configuravam um elemento chave na realização e inserção dos agentes econômicos nos negócios do império ultramarino português. O agente envolvido numa rede de negócio 7 ampliava seu leque informacional, o que permitia uma maior inserção na economia. 8 Porém, não bastava estar inserido numa rede social, uma vez que, mesmo já atuando numa rede mercantil, a credibilidade e a reputação eram de fundamental importância para a operacionalização e manutenção dos negócios. A confiança 9 era um fator 7 Algumas sugestões sobre o tema: John Arundel Barnes, “Graph theory and social network, a technical comment on connectedness and connectivity”, Sociology, n.03 (Oxford, 1969a), pp.215-232. Fredrik Barth, Process and form in social life. London: Routledge & Keagan Paul, 1981. Michel Bertrand, “De la familia a la red de sociabilidade”, Revista Mexicana de Sociologia, n.2, v.61 (México, abril-junio de 1999), pp.122-42. Elizabeth Bott, Família e rede social. Papéis, normas e relacionamentos externos em famílias urbanas comuns. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. Ronald Burt, Bandwidth and Echo, trust, information, and gossip in social networks IN: A. Cassella & J. Rauch (eds.), Networks and Markets, contributions from Economics and Sociology. New York: Russel Sage Fundation, 2001. James S. Coleman, Foundations of social theory. Harvard: Harvard University Press, 1994. 8 Tiago Gil; Fábio Pesavento, “Por ser público e notório: notas sobre informação na economia da América Lusa (séculos XVIII e XIX)”, Locus, n° 2, v. 20 (Juiz de Fora, 2014), pp. 13-33. 9 Tiago Gil, “Redes e camadas de relacionamentos na economia: metodologias para o estudo da confiança mercantil na América Portuguesa do Antigo Regime”, Revista de Indias, vol. LXXV, n.º 264 (Madrid, 2015), pp. 421-456.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 200 importante no momento de estabelecer negócios, tendo em vista as distâncias e o tempo envolvidos em boa parte das transações entre diferentes impérios ultramarinos. Durante o século dezoito, o comportamento da economia atlântica mostra indícios claros do crescente volume de mercadorias, crédito e informações que cruzavam diferentes impérios durante o século dezoito. 10 Na análise da documentação primária coletada, esse movimento parece nítido. Em razão disso, faz-se necessária uma apresentação prévia das diferentes redes de negócio, a fim de obter uma sistematização das informações trabalhadas. Com base na amostra coletada, foram identificadas três dimensões básicas de interação de redes: transimperial, extraimperial e intraimperial. 11 A utilização de trans como um prefixo é gravado no dicionário Merrian-Webster como algo situado dentro e fora de uma região específica, através de um fluxo que passa para além de um ponto específico. Assim, a utilização das redes transatlânticas engloba agentes que estão localizados dentro e fora de um determinado império, embora conectados. No presente estudo, esse tipo de relação pode ser exemplificado pelos comerciantes situados em Lisboa, com os parceiros comerciais em Londres e no Rio de Janeiro. Nada mais transimperial do que um negociante estrangeiro, operando em Lisboa, com negócios em diferentes partes do império ultramarino português, como o Rio de Janeiro. As redes transimperiais podem ser “quebradas” em duas categorias de análise: redes extraimperial e intraimperial. Extraimperial se refere à operação de aquisição de bens ou de informações fora do império a partir do qual o agente atua. Enquanto uma operação intraimperial redistribui bens e informações para outras regiões, todas dentro de um mesmo império. Assim, uma operação entre Londres e Lisboa seria a parte da rede extraimperial, enquanto a operação de reexportação dos produtos, de Lisboa para o Rio de Janeiro, seria a intraimperial. Essa estrutura, redes transimperiais, permitiu que mercadorias, informações e pessoas atravessassem os limites e distâncias geográficas imperiais. A dimensão extraimperial é a sua primeira fase. Dessa forma, os agentes envolvidos na transação estão operando, geográfica e institucionalmente, fora dos limites do seu país de origem. Como resultado, esses agentes são responsáveis pela construção, simbólica e material, do 10 Fábio Pesavento, op. cit., 2013. 11 Fábio Pesavento; Fabrício Prado, Beyond the Portuguese Atlantic: Trans and Extra-Imperial Networks in Eighteenth-Century Lisbon, Rio de Janeiro, Rio de la Plata and Liverpool. XV The World Economic History Congress, Utrecht, 2009. Fábio Pesavento, “Um pouco antes da corte: economia do Rio de Janeiro durante a segunda metade dos setecentos.” Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em Economia, Universidade Federal Fluminense, 2009.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 201 estabelecimento de ligações e de operações que não ficam restritas à economia, o que lhes proporciona um caráter cultural e político. Ambas as dimensões (extra e intra) não podem ser entendidas separadamente, são elementos constitutivos das grandes e poderosas redes de negócios que atravessam diferentes impérios. Os agentes transimperiais, nesse caso os estrangeiros operando em Lisboa, aparecem como o nó de ligação dessa rede. Importante ressaltar que as três dimensões das redes exploradas eram interdependentes e se articulavam marginalmente em função da troca de informação entre as diferentes redes. As redes transimperiais são constituídas por articulações de agentes estrangeiros, as quais eram os importantes elos que instituíram as conexões que atravessavam um império além de seus limites geográficos. O papel dos agentes transimperiais e seus parceiros foi crucial na medida em que eles utilizavam recursos e agências localizados fora e dentro do império para obter benefícios e lucros. Portanto, o agente transimperial liga dois espaços geográficos e institucionais em dois diferentes impérios, ocupando uma posição chave de intermediação entre diferentes mercados. Essas redes, embora liderada por grandes negociantes, incluíam pessoas de diferentes grupos sociais, como burocratas, artesãos, caixeiros, marinheiros, militares e peões. Assim, a vantagem diferencial desses agentes residia no fato de realizarem conexões entre dois ou mais impérios, construindo importantes parcerias comerciais que envolviam recursos e agências dentro e fora de seus nichos institucionais. Um dos instrumentos para a concretização dos negócios era o estabelecimento de uma operacionalização, o que passava pela prática de inúmeras agências. Desde a formalização de uma procuração, ou uma escritura de sociedade mercantil, até mesmo a escolha de seu parceiro comercial, tudo passava pela implementação de algum tipo de agência. Um instrumento recorrente e que reduzia o custo de transação durante o estabelecimento de agências era a procuração. 12 Sabe-se que a presença de informação assimétrica e a racionalidade limitada restringiam as transações na medida em que abriam espaço para a presença do comportamento oportunista. Nesse sentido, a procuração busca padronizar a ação do outorgado, a fim de arrefecer o problema de agência entre as partes envolvidas numa transação. Assim, aquele instrumento jurídico “amarrava” ou préestabelecia as agências a serem realizadas no outro lado do Atlântico. Outro ponto importante era o estabelecimento de algum tipo de atividade entre um agente e um principal que, eventualmente não 12 Leonor Costa; Maria Manuela Rocha, “Remessas do ouro brasileiro: organização mercantil e problemas de agência em meados do século XVIII”, Análise Social, vol. XLII, n° 182 (Lisboa, 2007), pp.77-98.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 202 se conheciam, daí a importância de um instrumento jurídico reconhecido (uma instituição formal) a fim de reduzir as incertezas quanto ao cumprimento das agências por ambas as partes. A respeito do problema de agência envolvido nas redes transimperiais, Leonor Costa e Manuela Rocha apontam que, no caso do comércio luso-brasileiro no século XVIII, “as relações principal-agente seguiam diferentes modelos alternativos que, sublinhe-se, não comportavam uma necessária subalternização do agente ao principal”. 13 Ao analisar as operações envolvendo uma rede transimperial, percebe-se que elas correm sob ou fora do regime normativo imposto pela Coroa. Assim, as redes transimperiais podem ser divididas em formais e informais. Formais são aquelas que correm dentro do quadro legal imposto pela autoridade estabelecida. Geralmente, este tipo de transação ficava positivada numa procuração ou escritura pública, sendo registrada num tabelião. Aquelas que corriam à sombra da lei (contrabando) eram redes informais. Nesse sentido, as redes transimperiais não se limitavam às operações que passavam pelo centro metropolitano ou autoridades constituídas. As transações que atravessaram os limites formais eram comuns nos portos do Rio de Janeiro, Buenos Aires e Colônia do Sacramento. 14 Evidentemente que operações legais também ocorriam naquela região. É o caso de diversos homens de negócio lisboetas envolvidos com o tráfico de escravos em Buenos Aires. Por exemplo, Luis Cantofer, quando obtém licença da Coroa Espanhola para introduzir em Buenos Aires 1.000 escravos em embarcações portuguesas, em 13 de junho de 1782. 15 O mesmo procedimento ocorreu em 12 de abril de 1799, com o doutor Antônio Lopes, comerciante de Lisboa, que introduziu 1.000 escravos em Buenos Aires, em embarcações “neutrales”. 16 Os exemplos de redes transimperiais podem ser encontrados, principalmente, nas escrituras de dívida e procurações envolvendo negociantes estrangeiros radicados em Lisboa, na segunda metade do setecentos. Ingleses, hamburgueses, italianos, franceses e holandeses atuantes na Praça Lisboeta tinham contatos com inúmeros representantes no exterior, atuando fora da fronteira do império ultramarino português, além, é claro, de suas conexões com agentes fluminenses. O quadro 1 abaixo faz um resumo dos principais negociantes estrangeiros, encontrados em nossa amostra, atuantes em Lisboa e que estavam envolvidos com a economia do Rio de Janeiro no XVIII. 13 Ibídem, p.78. 14 Fabrício Prado, op. cit., 2020. Fabrício Prado, op. cit., 2016. Alana Thais Basso, op. cit., 2019. Alice Piffer Canabrava, O comércio português no Rio da Prata, 1580-1640, Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. 15 Real Academia de História de Madrid, tomo CX, p.228. 16 Real Academia de História de Madrid, tomo CXIX, p.254.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 203 Quadro 1 – Origem dos negociantes estrangeiros de Lisboa atuantes no Rio de Janeiro:1750-1790 Origem Número de negociantes Franceses 65 Ingleses 65 Hamburgueses 58 Holandeses 19 Alemães 17 Italianos 17 Espanhóis 7 Fonte: Arquivo Nacional do Torre do Tombo (ANTT), Cartório do Distribuidor (CD). Elaboração própria. Pelo quadro acima, a participação de ingleses, franceses e hamburgueses se destaca na economia carioca. Deve-se ressaltar que se está considerando aqueles agentes cujo documento faz referência à sua nacionalidade. A fim de aprofundar essa temática, na seção seguinte, identificou-se quais os ingleses que estavam presentes em Lisboa na segunda metade do setecentos e que atuavam na economia carioca. Os ingleses de lá mas cá: negociantes britânicos nas tramas cariocas Nesta parte do artigo, pretende-se estudar os negociantes britânicos atuantes em Lisboa e que tenham ligações com a economia carioca na segunda metade do setecentos. 17 A principal base documental empregada para a identificação e construção das redes transimperiais foi a amostra de 12.491 escrituras e procurações levantadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT). A estas são somadas as escrituras de sociedade mercantil e de dívida depositadas no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro (AN). Por fim, empregou-se documentação de 17 Sobre o comércio entre Inglaterra, Brasil e Portugal ver: Charles Ralph Boxer, "Brazilian gold and British traders in the first half of the eighteenth century", Hispanic American Historical Review, v. 49, n°3 (Durham, 1969), pp.454-472. Harold Edward Stephen Fisher, De Methuen a Pombal: o comércio Anglo-Português de 1700 a 1770. Lisboa: Gradiva, 1984. Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a inconfidência mineira: Brasil e Portugal, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973. Carlos Gabriel Guimarães, Os ingleses no Rio de Janeiro da primeira metade do século XVIII: o caso da família Gulston, c.1710-c.1720 primeiras impressões. In: Carlos K. Mathias; Carlos Gabriel Guimarães; Antonio Carlos Jucá de Sampaio; Alexandre Ribeiro (coord.), Ramificações ultramarinas: sociedades comerciais no âmbito do atlântico luso: século XVIII. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017, pp. 93-114.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 204 diferentes arquivos entre os quais citamos: o Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Merseyside Maritime Museum (Liverpool) e a Real Academia de História de Madrid (RAH). Infelizmente, não houve tempo suficiente para um levantamento completo das procurações lisboetas envolvendo o Rio de Janeiro, durante o período 1750-90, especialmente aquelas depositadas no ANTT. O número das procurações e escrituras depositadas em Lisboa explica por si só. Apenas para o ano de 1750, existem mais de 3.479 escrituras inventariadas no fundo Cartório do Distribuidor. Em 1751 são 3.136, sem contar os documentos danificados, que elevariam para um número próximo de 3.500 escrituras. As procurações seguem a mesma trajetória numérica. Relativas ao ano de 1756, existem 1.992 procurações em Lisboa, das quais 116 envolvem a economia carioca, ou seja, 6%. Já no ano seguinte foram registradas 2.272 procurações, sendo 157 para a praça carioca, algo em torno de 7%. A amostra das procurações coletadas no ANTT tomou a seguinte forma. De 1750 a 1755 não se teve acesso à totalidade das procurações devido à falta de informação sobre o local para onde estava sendo dada a procuração. Já de 1756 a 1773, acredita-se que foi coberta boa parte das procurações que envolviam a economia fluminense, uma vez que cada procuração estava catalogada no fundo Cartório do Distribuidor e apresentava uma pequena descrição dos seus objetivos e o local. No período posterior (até 1790), realizou-se uma amostra com os tabeliões que geralmente apresentavam maior volume de procurações para o Brasil. Da amostra de mais de 12.491 escrituras e procurações levantadas no ANTT, 271 procurações e escritos de dívida envolviam a praça carioca, com relação a alguma cobrança. A soma das cobranças de créditos, letras e atrasados comerciais que estavam relacionados com a economia fluminense atinge o valor de 231 contos de réis entre 1757-76. 18 Para onde se endereçavam as procurações feitas nos tabeliões do termo da cidade de Lisboa? Com base nos anos de 1756 e 1757, afora o trabalho empírico de observar mais de 5.000 procurações e escrituras por semana, pôde-se auferir que a maioria das procurações era destinada para Lisboa, ou dentro dos limites de Portugal (incluindo as Ilhas), envolvendo as mais diferentes situações (casamentos, cobranças, tenças etc.). Já dentre aquelas endereçadas para o Brasil, 80% iam para o Rio de Janeiro, Pernambuco, Minas Gerais e Bahia, sendo bem dividido entre os três primeiros. Infelizmente, poucas são as procurações/escritos de dívida/sociedades que revelam os valores das cobranças de dívidas ou outras obrigações. Mesmo assim, o volume da amostra coletada mostra que 18 Fábio Pesavento, Até que a confiança nos separe: as redes trans imperiais e o mercado de crédito do Rio de Janeiro durante a segunda metade do XVIII. IN: Carlos Gabriel Guimarães; Luiz Fernando Saraiva (coord.), Crédito e descrédito: relações sociais de empréstimos na América, séculos XVIII ao XX, Niterói: EduFF, 2018.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 205 os valores envolvidos passam dos 400 contos de réis. Com isso, foi impossível analisar a totalidade de agentes e de redes mercantis existentes, razão pela qual o exame se deteve àqueles que aparecem com maior frequência nas procurações. A fim de aprofundar as principais características, agências e demais peculiaridades que envolviam os agentes e seus negócios, trabalhou-se com a trajetória de alguns ingleses (ou britânicos) que aparecem com maior frequência na documentação. Sabe-se que grandes cabedais eram transacionados ou passavam por grandes casas de negócios estrangeiras em Lisboa. No presente estudo, foram selecionadas, ante sua presença na economia carioca entre 1750-90, as seguintes casas de negócio britânicas em Lisboa: Purry, Mellish & Devisme; 19 Mayne, Burn & Maynes e Elias Perochon & Cia. Cabe ressaltar que as casas de negócio estrangeiras em Lisboa tinham diversos negócios e parceiros em outras partes do Brasil (principalmente, na Bahia e Pernambuco) 20 . Antes de apontar as peculiaridades, é importante mostrar como se iniciava uma casa de negócio estrangeira em Lisboa. Um exemplo é fornecido pela sociedade entre dois homens de negócios britânicos Thomas Parr e João Bulkeley. Em escritura de sociedade de setembro de 1761, os sócios montam uma casa de negócio em Lisboa, por sete anos, com a finalidade de comprar e vender fazendas secas 21 . Thomas tivera outra casa de negócio (de longa duração) com João Ayres, também em Lisboa. Como João morreu, Thomas montou uma nova sociedade com o Bulkeley. Parr não aparece realizando agências na praça carioca, porém, seu sócio Bulkeley enviou quatro procurações para o Rio de Janeiro e Minas Gerais entre 1767 e 68. Assim, a escritura de sociedade mercantil marcava o início de uma relação comercial de maneira formal. Uma agência interessante entre os negociantes estrangeiros atuantes em Lisboa, quando iam para fora do Reino, era a de deixarem seus negócios com representantes/sócios em Lisboa, caso alguma tragédia ocorresse durante o seu retorno à Inglaterra. Foi o caso João Crawford, homem de negócio inglês, que, de partida para a Inglaterra em 1780, deixou como procurador Roberto Parley & Cia (também homem de negócio da Grã-Bretanha). 22 Roberto ficou responsável, no caso de morte de João durante a viagem para Londres, por cuidar de seus negócios em Lisboa. Portanto, além de estabelecer um canal de negócios, existia a confiança em deixá-los sob jurisdição legal de um negociante local (neste caso, de mesma nacionalidade) caso a morte lhe batesse à porta. Esta agência 19 Ver: Thiago Alves Dias, “O negócio do pau-brasil, a sociedade mercantil Purry, Mellish and Devisme e o mercado global de corantes: escalas mercantis, instituições e agentes ultramarinos no século XVIII”, Revista de História, n°177 (São Paulo, 2018), pp.1-39. 20 Confira Fábio Pesavento, op. cit., 2009. Fábio Pesavento, op. cit., 2013. 21 ANTT, 2º Cartório antigo de Lisboa, caixa 5, livro 28. 22 ANTT, 5º Cartório A, livro 56.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 212 oportunidade, Francisco deveria “cobrarem e haverem a seu poder todas as suas dívidas de dinheiro, efeitos, fazendas e tudo o mais que seu for” 43 . Logo em seguida, em julho de 1756, Francisco comprou uma casa térrea, na rua do Carneiro, por 1:650$000 réis, vendida pelo familiar do Santo Ofício e importante homem de negócio do Rio de Janeiro, Domingos Rebelo Pereira. 44 Em lista de 1758, 45 Francisco aparece como comerciante e traficante de escravos novos que fizeram petição em 11 de fevereiro de 1758. No mês seguinte, Francisco representou novamente Elias Perochon & Cia no Rio de Janeiro, para “cobrar e haver a seu poder tudo o que lhe pertencer de qualidade e quantidade dividas, carregações, efeitos, ...”. 46 Entre 1761 e 1764, Francisco aparece como credor de dois empréstimos no Rio de Janeiro e, em novembro de 1761, representa Francisco Peres de Souza, grande contratador lisboeta. 47 Em 1772 empresta 4,5 contos e compra de uma sumaca. Francisco representa importantes homens de negócio e realiza diversas operações no Rio de Janeiro. Esses dados revelam a ascensão e o crescimento dos negócios de Francisco naquela economia, demonstrando que os procuradores dos estrangeiros no Rio ampliavam sua inserção. Importante lembrar que Francisco Ferreira Simões & Cia também devia a outros negociantes estabelecidos em Lisboa. Entre eles, Darrot Irmãos & Cia (franceses), Alberto Borchers & Cia (Ingleses) e Geraldo Pereira Bessa, que era credor de Francisco de 800$000 réis, em 1766. Ao contrário da Purry, Mellish & Devisme, a Mayne, Burn & Maynes tinha diversos procuradores no Rio, mas Antônio Ribeiro de Avelar (assistente e depois homem de negócio) e Antônio dos Santos (assistente no Rio) estão sempre entre seus principais representantes. Estes também eram representantes de Domingos de Freitas Guimarães (homem de negócio lisboeta) e Henrique Casamayor (inglês com casa de negócio em Lisboa) no Rio de Janeiro. Um desdobramento interessante é o fato dos procuradores dos estrangeiros cederem créditos a negociantes/agentes da praça carioca. Foi o caso 48 de Antônio Ribeiro de Avelar, José do Couto Pereira, Antônio dos Santos, Francisco Ferreira Guimarães, Agostinho de Faria Monteiro, Domingos Rebelo Pereira, Manoel Barboza dos Santos e Antônio Gonçalves de Oliveira. Estes, por sua vez, concediam empréstimos no Rio de Janeiro para outros agentes, o que parece caracterizar uma rede 43 ANTT, 3º Cartório antigo, livro 1, caixa 1. 44 AN, 1º Ofício de Notas, livro 127. 45 Manolo Florentino, Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro, São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 46 ANTT, 9º A Cartório antigo, livro 559, caixa 93. 47 ANTT, 8º A Cartório, livro 22, caixa 4. 48 Segundo consta na amostra de escrituras de dívida e obrigação (ou dinheiro a juros) levantadas no Arquivo Nacional, confira Fábio Pesavento, op. cit., 2009, Fábio Pesavento, op. cit., 2013.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 213 transimperial de endividamento-financiamento. Capitais vindos de negociantes estrangeiros em Lisboa engendravam uma cadeia de endividamento, na medida em que além dos empréstimos diretos a negociantes cariocas, seus procuradores também emprestavam. Além disto, parece que ocorria um financiamento, não só a partir dos homens de negócios portugueses atuantes em Lisboa, mas também de outras nações. Em resumo, o argumento trazido aqui afirma que as redes de negócio transimperiais eram vetores importantes para o entendimento da dinâmica econômica da região do Rio de Janeiro na segunda metade do setecentos. Os exemplos colhidos nesta seção sugerem isso na medida em que a participação do capital de negociantes estrangeiros lisboetas na economia fluminense atingiu um fluxo regular e consistente ao longo do período estudado. Para além disso, o seu funcionamento revela o papel que a confiança exercia na condução dos negócios. Conclusão Diante desses resultados, pode-se auferir algumas conclusões sobre o envolvimento dos negociantes “estrangeiros” na economia fluminense. Primeiramente, percebe-se que os estrangeiros utilizavam quase sempre os mesmos procuradores no Rio de Janeiro. Com exceção de quando a composição da companhia se alterava, ou os procuradores não contavam com a confiança devida, principalmente, no caso de má conduta nos negócios. De uma maneira geral, os representantes dos estrangeiros no Rio de Janeiro ascendiam socialmente, isto é, passavam de assistentes para homens de negócio (o que fica mais claro quando da análise individual de alguns negociantes). Os dados sugerem confirmar a ideia de Jorge Pedreira 49 de que poucos portugueses atuavam no comércio internacional. Estavam mais ligados aos trâmites dentro do império, deixando aos estrangeiros a preeminência no comércio internacional em Lisboa. A presença de estrangeiros no Rio (via crédito ou negócios envolvendo fazendas secas) chama a atenção para o vulto que ganha a economia fluminense na segunda metade do setecentos, mostrando que as relações não estavam limitadas ao império ultramarino português. O principal argumento que se pretendeu passar é que as transações econômicas envolvendo a praça carioca não se limitavam ao império ultramarino, uma vez que negociantes estrangeiros, atuantes em Lisboa, transacionavam com homens de negócio do Rio de Janeiro. Isso se dava não só 49 Jorge Pedeira, “Tratos e contratos: actividades, interesses e orientações dos investimentos dos negociantes da praça de Lisboa (1755-1822)”, Análise Social, vol. xxxi (Lisboa, 1996), pp.355-379.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 214 por meio da reexportação de produtos brasileiros, mas também da concessão de crédito e do comércio de fazendas secas. Por fim, os resultados mostram o papel ativo de agentes ingleses atuantes em Lisboa e revela que as transações não se restringiam aos limites institucionais de um império. O fator determinante era a pujança da fronteira entre os impérios, o que parece ter sido de fundamental importância para o funcionamento da economia Atlântica durante o século XVIII. Anexo Quadro 2 – Ingleses presentes em Lisboa com negócios no Rio de Janeiro durante século XVIII Negociante Sócio(s) Escritura* Agências, negócios Volume (contos) 1.Ambrozio Goddard Jackson Branfill 3 procurações 1 venda bergatim Embarcações e empréstimos 10,6 2.André Morrogh Connolly 2 procurações 5 fretamentos Fretamentos, carregamento para RJ N.I. 3.Auriol Dodd Bonifaz e Carlos Dodd 7 procurações (Angola) 1 escrito de dívida Empréstimos 0,9 4.Benjamim Whiting Thomas Whiting 5 procurações Empréstimos 0,3 5.Carlos Smith João Wrigley 3 procurações Fazendas 0,7 6. Clerk & Hunter 1 procuração Diversas agências N.I. 7. Cornell & Hornes 1 procuração (Lagos) Cobrar dívidas 0,2 8. Cristovão Hake 1 procuração 1 venda corveta Embarcações e fazendas N.I. 9. Daniel Hoissard 3 procurações Empréstimo N.I. 10. Diogo Grotte 1 procuração Diversas agências N.I. 11.Duarte Burn John Mayne 5 procurações 3 vendas 4 escritos de dívida Cobrar dívidas, embarcações, empréstimos, fazendas 15,0 12. Duarte French 1 procuração Cobrar dívida 1,2 13. Elias Perochon 4 procurações Cobrar dívidas antigas, embarcações, 43
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 215 1 obrigação 1 fretamento 10 escritos de dívida fazendas e empréstimos 14. Francisco Arbouin Foley 3 procurações (LONDRES) Diversas agências N.I. 15. Francisco Morgan 2 procurações Empréstimos 1,6 16. Gerard Devisme David Purry e Mellish 2 procurações 2 escritos de dívida Cobrar dívidas 58,5 17. Guilherme Armitage 3 procurações Empréstimos N.I. 18. Guilherme Stephers Stert, Clarche 2 procurações Cobrar dívida 1,7 19. Henrique Casamayor 1 procuração Cobrar dívida N.I. 20. João Ayres 1 procuração 1 fretamento Cobrar dívida e fretamento N.I. 21. João Crawford 2 procurações (Lisboa) Negócios na casa da Índia 1.920 £ 22. João Daniel de Bruyn Jautard 1 procuração Diversas agências N.I. 23. João Legay 1 procuração Diversas agências N.I. 24. João Stubs 1 procuração Diversas agências N.I. 25. Jorge Thomas Bulkeley 2 procurações Cobrar dívida 1,6 26. Leonardo Darell 1 procuração Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 27. Luis Arnaldo Majendie 4 procurações (Espanha) 2 escritos de dívida Cobrar dívidas e realizar diversas agências 0,2 28. Matheus Carret 3 procurações Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 29. Pedro Garnault Pedro Garnault Júnior e João Garnault 2 procurações Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I.
Fábio Pesavento Redes Transimperiais no Comércio do Atlântico Sul: o exemplo dos ingleses lisboetas no Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII Dossier Historia del Brasil colonial: de las raíces históricas al proceso de concienciación y crisis (siglos XVI-XIX) Número 47, diciembre 2021, pp. 197-216 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.11 216 30. Pedro Lucas Guilherme Lucas e Pedro Lucas Filho 5 procurações Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 31. Raimundo Burrel Thomas Dea 5 procurações Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 32.Roberto Pasley João Pasley 2 procurações Cobrar dívidas e realizar diversas agências 6,7 33.Samuel Ayslabie 1 procuração Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 34.Samuel Montaigut 1 procuração Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 35.Tempest Milner 1 procuração Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 36.Teotonio Goodall 2 procuração Cobrar dívidas e realizar diversas agências 1,1 37.Thomas Horne 1 procuração Cobrar dívidas e realizar diversas agências N.I. 38.Thomas Lenon 1 procuração 1 venda Cobrar dívidas e embarcações N.I. 39.Thomas Parr João Bulkeley João Ayres 1 procuração 1 sociedade Cobrar dívidas e sociedade N.I. Fonte: Cartório do distribuidor e diversos cartórios de Lisboa, ANTT. N.I.: não identificado.*Todas para o RJ ou indicada ao contrário.