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Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo The writing of the history of Farroupilha in the 1st Brazilian Republic: between the Cisplatin Revolutions, the PRR and positivismo Fabrício Antônio Antunes Soares1 Universidade Estadual de Londrina/PPGHS (Brasil) ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6132-803X Recibido: 20-01-2023 Aceptado: 02-04-2023 Resumo O presente artigo examina como a obra historiográfica Revoluções Cisplatinas, de 1915, do político, diplomata e historiador Alfredo Augusto Varella, representa tanto uma disputa política como uma forma de escrita da história sobre a Farroupilha. A partir da hipótese de que na Primeira República, no Rio Grande do Sul, houve uma hegemonia social e política do Partido Republicano Rio-Grandense se quer investigar como a obra de Varella articulouse com o seu contexto. Portanto, o objetivo é analisar como foi construída a narrativa sobre a Farroupilha no contexto de disputas em torno do borgismo. Para atingir tal objetivo, usa-se o conceito de operação historiográfica de Michel de Certeau, isto é, como a partir de uma análise do lugar social, da prática científica e da escrita do texto podem-se perceber as transformações na 1 ([email protected]). Graduado em história pela Universidade Federal de Santa Maria, mestre em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutor em história pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul com estágio doutoral de um ano na Universidade Livre de Berlim no Instituto de Estudos Latino Americanos. Atualmente sou professor colaborador do PPGHS/UEL e professor investigador da Flacso/Brasil. Três publicações recentes. Soares, F. A. A.. A escrita literária da história: O caso O gaúcho. Anos 90 (Online) (Portp Alegre), v. 30, p. 1-20, 2023. 2. Soares, F. A. A.. Reescrevendo a história da Farroupilha na comemoração do seu Centenário: Entre o Período Vargas, a historiografia de Souza Docca e a nacionalização do regional. Iberoamericana, v. 22, p. 149-170, 2022. Soares, F. A. A.. A escrita literária da Farroupilha no século XIX: Um estudo de caso - O corsário. La Razón Historica, v. 55, p. 103-126, 2022.
62 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 escrita da história sobre a Farroupilha. Por fim, percebe-se que a obra analisada foi um objeto tanto de luta política como de virada interpretativa na escrita da Farroupilha. Palavras-chave: História intelectual, História da historiografia, Teoria da história, Operação historiográfica. Abstract This paper examines how the historiographical work Revoluções Cisplatinas, 1915, by the politician, diplomat and historian Alfredo Augusto Varella, represents both a political dispute and a form of history writing about the Farroupilha. From the hypothesis that in the First Republic, in Rio Grande do Sul, there was a social and political hegemony of the PRR, we want to investigate how Varella's work articulated with its context. Therefore, the aim is to analyse how the narrative about Farroupilha was constructed in the context of disputes around borgismo. To achieve this goal, the concept of historiographical operation of Michel de Certeau is used, that is, how from an analysis of the social place, the scientific practice and the writing of the text one can perceive the transformations in the writing of history about the Farroupilha. Finally, it is perceived that the analyzed work was an object of both political struggle and interpretative turn in the writing of Farroupilha. Keywords: Intellectual history, History of historiography, History theory, Historiographical operation. 1. Introdução Esse artigo analisa como a obra Revoluções Cisplatinas, publicada em 1915, pelo político, advogado, diplomata e historiador Alfredo Varella (18641943), é uma análise histórica que, por um lado, se articula à crítica política ao regime borgista do Partido Republicano Rio-Grandense2 (PRR) no Rio Grande do Sul e, por outro lado, é uma compreensão histórica inovadora de explicação historiográfica da Farroupilha. Para tanto, a hipótese que norteia o artigo é que Varella reconstrói e retoma a história da Farroupilha como uma forma de crítica à centralização política das instituições dominadas pelo PRR. Para desenvolver a hipótese proposta, o artigo vale-se da operacionalidade analítica de entender a obra Revoluções Cisplatinas como uma operação historiográfica (Certeau 2007: 65-119). Portanto, um dos caminhos desta 2 Partido Republicano Rio-Grandense (1882-1929). Surgiu no fim do Império com vistas a trabalhar pela República. Por toda a República Velha foi o partido dominante no Rio Grande do Sul.
63 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 investigação é saber como a obra, Revoluções Cisplatinas, se articula com o lugar social, com a prática e a escrita, em outras palavras, como é possível perceber a “operação historiográfica” na historiografia sobre a Farroupilha (Rodrigues 2019) (Soares 2019). Assim sendo, examinar a obra de Varella como uma operação historiográfica significa analisá-la como a articulação entre a) um lugar social b) práticas científicas e c) a escrita de um texto (Certeau 2007: 66). Para compreender, portanto, a história da historiografia sobre a Farroupilha (Pesanvento 2009), parte-se do pressuposto de que qualquer investigação e narrativa histórica3 se encadeia com lugares, práticas e escritas e, também, suas determinações tanto sociais e culturais como políticas e econômicas4. Isso acarreta uma forma de proceder na historiografia limitada por condições inerentes ao lugar de sua produção. Esse é, então, um dos requisitos do desenvolvimento da operação historiográfica, portanto, além de fornecer, por um lado, a solidez social à escrita da história, por outro lado, o lugar social, a prática e a escrita, também a tornam possível e, assim, a escrita da história delineia-se “por uma relação da linguagem com o corpo (social) e, portanto, também pela sua relação com os limites que o corpo impõe” (Certeau 2007: 76). A Farroupilha, ou Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos5, foi um conflito militar e político na Província de São Pedro6 entre 1835 e 1845. Ela faz parte de um duplo movimento histórico, a montante, faz parte das revoltas regenciais que assolaram o Império Brasileiro em seu início de consolidação (Piccolo 1985) e, a jusante, faz parte dos conflitos platinos que varreram essa região na constituição de seus Estados-nacionais (Guazzelli 1998). Desse modo, a Farroupilha começou como um movimento de autônima política da Província, como as demais províncias brasileiras, para um ano depois, tornar a Província de São Pedro uma República separada do Brasil. Também, a Farroupilha tornou-se o pilar central da identidade do sul-rio-grandense pelas mais variadas práticas simbólicas ao longo de um século. 3 A narrativa, no caso deste artigo, reconstrói o tempo histórico no presente. Para Ricoeur (1994), pela junção de um sujeito e um predicado, algo é alegado sobre o sujeito da frase. Quando o romancista e o historiador narram, criam na obra o que foi a história. A narrativa – historiográfica ou literária – relata a vida de personagens em um enredo que produz a convergência a partir da divergência. Os indícios do passado, nas fontes e vestígios, adquirem sentido no enredo de uma narrativa, e, deste modo, um sentido é constituído para os fenômenos que surgem dispersos na linguagem. Assim, o mundo do texto, que a narrativa institui, é um dos lugares de sentido do passado. 4 Isso averiguado, é importante para o desenvolvimento desse artigo ter-se em consideração que para examinar a historiografia é necessário entender não apenas o seu caráter narrativo, mas, também, sua dimensão social e os usos políticos do passado na escrita da história. As narrativas circulam socialmente, mas não circulam livremente, elas são produzidas e transmitidas em um contexto político-social. São escritas com uma finalidade: estabelecer uma conformação política sobre o corpo social (Hartog; Revel, 2001). 5 Outras denominações pela qual a Farroupilha é conhecida. 6 Nome do atual Estado do Rio Grande do Sul.
64 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 O livro historiográfico Revoluções Cisplatinas foi escrito e publicado por Varella em meados da segunda década do século XX, já sob a Primeira República e o domínio autoritário do PRR na vida política do Estado do Rio Grande do Sul. Portanto, com uma esfera pública limitada, a socialização intelectual de Varella dá-se ainda quando era integrante do PRR, no jornal A Federação (1884-1937) – ligado ao PRR – e sendo graduado em direito pela Faculdade de Direito em Recife (Alonso 2002: 133-146). Em um contexto em que tanto os integrantes do PRR quanto a oposição federalista se consideravam herdeiros da Farroupilha, há em Revoluções Cisplatinas um entendimento de que era não só uma nova interpretação historiográfica da Farroupilha, mas, também, uma alavanca para a crítica em relação à situação política presente de Varella no Estado sulino. Além disso, seu liberalismo político foi um corte que o separa do comtismo do PRR e das demais interpretações da Farroupilha7. Portanto, para atingir o objetivo aqui proposto, dividiu-se o artigo em cinco partes. As duas primeira investigam o lugar social de produção de Revoluções Cisplatinas, isto é, o contexto político e social e o contexto intelectual da primeira República no Rio Grande do Sul, período em que se ambientou a escrita do livro. A terceira parte averigua a prática científica exposta na obra Revoluções Cisplatinas. As duas últimas partes examinam a escrita do texto, em outras palavras, como surge, no texto historiográfico, a história ali narrada. 2. Lugar social (I): Contexto político e social O PRR com Júlio de Castilhos8, proclamada a República em 1889, assume o poder no Estado do Rio Grande do Sul e, após o interregno do governo liderado por Barros Cassal9, em 1892, o PRR volta ao poder ainda antes da Revolução Federalista de 189310. Ademais, nesse período histórico, de institucionalização do regime republicano, produziu-se o sistema político 7 A produção historiográfica anterior de relevo seria: 1) A Guerra civil no Rio Grande do Sul, de Tristão Araripe (1986), publicado em 1881, e, 2) História da República Rio-Grandense de Assis Brasil (1982), publicado em 1882. Da produção do mesmo período de Varella, destaca-se: 3) Alfredo Ferreira Rodrigues (1865-1942), ele escreveu sobre a Farroupilha em seu Almanaque Literário e Estatístico da Província do Rio Grande do Sul que publicou de 1889 até 1917. De modo resumido, do primeiro Varella diverge sobre o caráter autoritário da Farroupilha; do segundo, Varella diverge sobre o caráter federalista da Farroupilha e, do terceiro, Varella acreditava que a Farroupilha seria uma continuação das revoluções Cisplatinas; para Rodrigues (1990) a Farroupilha era uma continuação das revoluções nativistas afirmadoras do espírito nacional. 8 Júlio Prates de Castilho (1860-1903) foi o grande líder político do PRR. 9 João de Barros Cassal (1858-1903) foi político, jornalista e membro do PRR. 10 Foi uma guerra civil brasileira, iniciada no Rio Grande do Sul, ocorrida entre 1893 a 1895.
65 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 coronelista11 que foi a base do poder na República Velha12. O coronelismo, enquanto sistema, instituiu-se no período em que os chefes locais principiaram a perder a sua força política local e necessitaram apelar ao governo que, por sua vez, ainda não era forte o suficiente para garantir sua presença institucional. Para Axt (2007: 92), o PRR no poder costurou mais compromissos conservadores do que progressistas, esteve longe das decantadas fidelidade partidária e coerência programática e esteve tão envolvido com as práticas coronelistas como qualquer outro agente político da época. Todavia, o modelo político conhecido no Rio Grande do Sul apresentou inegáveis especificidades. A principal delas diz respeito ao quadro de institucionalização autoritária e de sistematização do discurso políticoideológico de justificação do regime. O PRR governou o Estado do Rio Grande do Sul por toda a República Velha, tendo nas figuras de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros13 seus expoentes. Quando em 14 de julho de 1891, a constituição estadual foi proclamada muitas foram as questões polêmicas, como o realce aos mecanismos de ingerência do poder estadual nos municípios, a omissão do conceito liberal de separação dos poderes e a possibilidade de reeleição ilimitada. Ademais, a Revolução Federalista iniciada em fevereiro de 1893 foi uma resposta das oposições à centralização política imposta pela Constituição de 1891. Em 1895, com o fim da Revolução Federalista, o presidente Prudente de Morais14 garantiu a anistia aos federalistas. O Partido Federalista15, de oposição ao PRR, reorganizou-se em 1896, mas limitou-se a participar da política através da imprensa até as eleições para a Câmara Federal em 1906, quando elegeu três deputados (Franco, 2007). Contudo, Júlio de Castilhos, em seguida à Revolução Federalista, concluiu a organização do aparelho de Estado. Para Axt (2007: 95-96), o autoritarismo de Constituição de 14 de julho de 1891 investiu o Poder executivo de formidáveis instrumentos de intervenção nos municípios e de controle do aparato estatal. Mas, ainda assim, o aparelho de estado continuava não sendo infraestruturalmente forte o bastante para possibilitar à elite dirigente assenhoreada do comando a implantação de um regime ditatorial e de controle absoluto. 11 Coronelismo é um conceito empregado para explicar a estrutura de poder que é exercido pelo coronel, no plano local, sobre o poder público, mas que abarcou todo o sistema político do Brasil, no decorrer da Primeira República. 12 República Velho ou Primeira República durou de 1889-1930. 13 Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961) foi um político sul-rio-grandense, eminência parda do PRR após a morte de Júlio de Castilhos. Também, foi presidente do Rio Grande do Sul por 25 anos. 14 Prudente José de Morais Barros (1841-1902) foi um advogado e político brasileiro. Foi presidente do Brasil de 1894 a 1898. 15 Partido político que existiu, no Rio Grande do Sul, de 1892 a 1928.
66 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 Contudo, havia no espaço político e social sulino, com a progressiva urbanização e industrialização, novos sujeitos sociais em cena, criando focos de pressão que ameaçavam o fechamento do sistema político. Para o autor, A especificidade do Rio Grande do Sul em relação ao sistema coronelista nacional estava numa permanente tensão existente entre o poder estadual e poderes locais, pois a natureza dessa relação era ao mesmo tempo de cooperação e de competição […] enquanto nos demais estados a regra foi a acomodação entre esses dois termos. Ou seja, no Rio Grande do Sul, o comando político regional – também emerso de uma rede de compromissos coronelísticos – pretendia sedimentar cada vez mais o controle sobre o estado, enquanto que os poderes locais aspiravam escapar do jugo compressor e forjar chefias relativamente autônomas (Axt 2007: 96). Um primeiro elemento se destaca como uma reposta a hipótese: o borgismo. Isto é, após a morte de Castilhos, Borges torna-se o chefe do PRR e do governo do Estado. Assim sendo, o borgismo representa o autoritarismo e a hegemonia estatal e política do PRR, tendo profundas implicações na vida estadual e na relação entre o Estado e o Brasil. Logo, o contexto político e social fornece elementos para o desenvolvimento da Farroupilha varelliana e sua crítica ao borgismo. 3. Lugar social (II): Contexto intelectual Em 16 de setembro de 1864, nascia Alfredo Varella em Jaguarão, cidade fronteiriça com o Uruguai. Varella estabeleceu-se na Capital da Província em 1881 para prosseguir nos seus estudos. Obteve ingresso no Instituto Brasileiro, onde foi aluno de Apolinário Porto Alegre16 e acabou influenciado por suas ideias republicanas (Lazzari 2004). Finalizado o estudo no Instituto Brasileiro, foi para São Paulo para ingressar na Escola de Direito (Silva 2010) (Antoniolli 2017). Porém, regressa a Porto Alegre só retornando em 1886 aos estudos, em Pernambuco, onde concluiu o curso de direito em Recife no ano de 1889. Assim, Varella foi formado no contexto intelectual iniciado pela geração de 1870 (Alonso, 2002) (Boeira 2019). Varella foi empossado Procurador Geral da República no Rio Grande do Sul em 1890 e, em seguida, Secretário dos Negócios do Interior e Exterior em 1891. Converteu-se em um dos personagens centrais da República no Estado, além de ser um devotado partidário de Júlio de Castilhos. Também, nessa época, alcançou a chefia do jornal A Federação. Além disso, Varella 16 Apolinário Porto Alegre (1844-1904) foi um romancista, historiador e jornalista sul-riograndense.
67 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 foi membro influente dos republicanos da velha guarda no Estado, em meio dos quais se encontrava no começo do PRR. Ademais, Varella participou da guerra civil federalista e foi deputado de 1900 a 1906. Entretanto, em seguida ao término do seu mandato, afastar-se-ia da militância direta na política. Em 1907, com a dissensão representada pela candidatura de Fernando Abbott17 à presidência da Estado, o que originou transformações nos quadros políticos republicanos, Varella ficou ao lado da dissidência, discordando da direção que o castilhismo assumiu. Após esses acontecimentos, seguiu atividade na diplomacia e foi cônsul na Espanha (1909), no Japão (1910), em Portugal (1913) e na Itália (1914) quando aposenta-se (Silva 2010). Em 1920, Varella foi membro e sociofundador do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS), também é patrono de uma das cadeiras da Academia RioGrandense de Letras. Por fim, é a profissão de diplomata que permitiu-o examinar arquivos desconhecidos sobre o Estado natal, obtendo, dessa forma, uma considerável coletânea de fontes. Os arquivos examinados na Península Ibérica permitiram a Varella delimitar uma relativa distância do que vinha sendo realizado entre a plêiade de historiadores regionais. Documentos sobre o desenvolvimento de líderes farroupilhas com as nascentes repúblicas do Prata iriam endossar uma de suas mais polêmicas teses, a respeito da influência platina não apenas na formação do gentio rio-grandense, mas também na própria gênese e desenvolvimento da Revolução Farroupilha (Silva 2010: 26). Varella estreou com seu primeiro livro chamado A constituição riograndense de 1896. Contudo, somente em 1914 começa a escrever a história da Farroupilha e após publica seus principais livros. O primeiro deles é Revoluções Cisplatinas, de 1915. Para Oliveira (2005: 378-379), Revoluções Cisplatinas, editadas pela livraria portuguesa Chardron, pode ser considerada uma obra intermediária na obra vareliana. Precedia pelos escritos do fim do século XIX e dezoito anos antes de sua obra magna História da Grande Revolução, Revoluções Cisplatinas tem como foco o movimento farroupilha e o advento da República Rio-Grandense, articulados aos acontecimentos platinos. Em relação ao desenvolvimento da hipótese, a socialização intelectual de Varella, passa pelo republicanismo de Apolinário Porto Alegre, pela geração de 1870, na faculdade de Direto em Recife, após, segue carreira jurídica e política (no Rio Grande do Sul) e como jornalista e redator no jornal A Federação, por fim, é como diplomata que potencializa sua historiografia tanto pela possibilidade de circulação internacional como pela oportunidade de arquivos estrangeiros. 17 Fernando Fernandes Abbott (1857-1924) foi um médico e político brasileiro. Foi presidente do Rio Grande do Sul interinamente em duas ocasiões, a primeira em 1891 e a segunda de 1892 a 1893.
68 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 Com todos os elementos do lugar social apontados até aqui cabe perguntar: a que deve, no período do auge do poder do borgismo, este interesse em uma leitura da Farroupilha contra o PRR e Borges de Medeiros? Isto é, como o lugar social ajudou a operar tal leitura da Farroupilha? Creio que uma conjectura explicativa pode ser lançada a partir do trabalho de Love (1975) e de Axt (2007). Aquele divide a inserção do Rio Grande do Sul na política nacional (durante a República Velha 1889-1930) em quatro períodos: 1) 1889-1894 – dependência dos presidentes militares, 2) 1895-1903 – autonomia relativa e isolamento, 3) 1904-1908 – emergência gradual como força política importante e 4) 19091930 – participação em larga escala da política nacional. Assim sendo, aponta Love (1975), a partir de 1910, o Rio Grande do Sul junto com exército eram, dois atores/fatores que poderiam desestabilizar o sistema político do café com leite18. O que veio a ocorrer nas eleições de 1910, de 1922 e a de 1930. Portanto, o interesse em uma releitura da Farroupilha, acredito estar nessa nova inserção do Rio Grande do Sul na política brasileira e, assim, sua identidade platina ou separatista poderia ser usada politicamente. Por outro lado, Axt (2007) divide a política regional sulina, durante a República Velha, em sete períodos: 1) 18891895 – institucionalização republicana, 2) 1895-1903 – Hegemonia castilhista, 3) 1903-1907 – Crise da hegemonia, 4) 1908-1913 – Construção da hegemonia borgiana, 5) 1913-1920 – Hegemonia borgiana, 6) 1921-1923 – Contestações e crise de hegemonia, 7) 1923-1930 – Recomposição da aliança hegemônica. Portanto, a trajetória intelectual e política de Varella que interessa ao artigo é, a partida cronologia de Love (1975) a fase 3 e 4 e a partir da classificação de Axt (2007) a etapa 3, 4 e 5, isto é, em relação a Love (1975) a crescente inserção nacional do Rio Grande do Sul, em relação a Axt (2007) a gradativa dominação borgista da política estadual. Também, segundo Love (1975: 88), Borges compartilhava com Castilhos, a sobriedade, o comtismo, a pouca idade com que fora ao poder e, em especial, o autoritarismo, logo, a ascensão de Borges à liderança do partido marcava a institucionalização do sistema do PRR (Love 1975: 89) e, assim, a continuidade pessoal e disciplinar do PRR, ajudou a impulsionar Pinheiro Machado19 e Borges no cenário nacional. Para Love (1975), a política do PRR, em nível nacional, buscava o favoritismo econômico e o patronato federal e, dessa forma: Borges reassumiu o governo do Rio Grande em 1913. Em certo sentido ele não se diferenciava de qualquer Governador de outra região: estava interessado no patronato federal. Mas foi melhor sucedido que a maioria de seus colegas. Conseguiu no governo Hermes assegurar aos rio-grandenses um número de 18 Como era denominada a predominância do Estado de São Paulo e do Estado de Minas Gerais na política nacional. 19 José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915) foi um político brasileiro filiado ao PRR, tendo sido um dos mais influentes da República Velha. Após a morte de Castilhos dividiu a liderança do PRR com Borges.
69 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 postos importantes além do que obtivera em qualquer administração anterior. (...) Os empregos federais no Rio Grande foram preenchidos por Borges, que simplesmente enviou suas nomeações às várias repartições e ministérios do Rio (Love 1975: 166). Assim sendo, Varella estava na oposição a Borges desde o cisma de 190607, contudo, fora embaixador brasileiro com a anuência do PRR, isto é, no momento da construção da hegemonia e na institucionalização da hegemonia borgista (Axt, 2007), de tal modo Varella opera historiograficamente, politicamente e profissionalmente em um lugar social hostil, mas não fechado a sua circulação. Por outro lado, (Love 1975) na inserção do Estado sulino na política nacional, Varella atua na retaguarda do borgismo, isto é, ao mesmo tempo, oferece uma explicação política e histórica que favorece a oposição no Estado sulino como a oposição em nível nacional, pois, como notou Love (1975) o Estado (comandado pelo PRR) era um dos fatores de desestabilização da política do café com leite, assim, a pena de Varella auxiliava na contenção do borgismo. 4. Prática (I): comtista, pero no mucho Varella é o historiador da obra mais extensa e intensa sobre a Farroupilha. Também manejou como poucos, a seu tempo, as ferramentas da historiografia20. Não obstante reconhecer e criticar o autoritarismo do PRR de matiz comtiana, em Revoluções Cisplatinas, Varella confessa ser um seguidor da filosofia positivista e de sua justificação do método científico, inspirado nas ciências da natureza, na construção da escrita historiográfica. Assim, uma questão a ser avaliada nesse período da cultura historiográfica sul-rio-grandense é sobre as suas conexões com a filosofia comtiana (Diehl 1998), mais que um modismo predominante, o comtismo estabilizou-se no Estado, extravasando os próprios limites do PRR, sendo modelo para o debate público (Boeira 1980), assim, a alusão ao positivismo “difuso” indica que o comtismo foi coligado a outros fluxos de filosofias cientificistas do século XIX, tais como o darwinismo, o spencerismo e o evolucionismo. Para Oliveira (2005: 378): No caso específico de Alcides Lima, Assis Brasil e Alfredo Varella, observa-se que, num primeiro momento, a adoção do positivismo político acompanhou a trajetória de fundação e de consolidação do projeto republicano sul-riograndense, que buscou, no comtismo, os elementos que justificassem suas propostas partidárias. Contudo, o rompimento dos intelectuais do PRR com 20 Também, Varella sempre foi criticado por seu estilo gongórico e empolado de escrever; Guilhermino (2006: 383) resume bem o espírito dos críticos a Varella: “Queiramos ou não, é preciso suportá-lo”. Ver também: Silva (2019).
76 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 vizinha da casa que rege a atmosfera, no vale do Prata” (Varella 1915: 26, n. 1). Portanto, Varella (1915: 30, n. 1) define o Estado: A transição, deve dizer-se, é maior ainda que parece. Fisicamente é aqui o extremo do Brasil, e entramos no Estado oriental. Plantas e animais, paisagens, a própria vida, indústrias e comércio do Brasil ficam para trás. Politicamente, o Império vai algumas centenas de quilômetros adiante: socialmente, todo o resto da província gravita para as Repúblicas platinas. Após as condições geofísicas da região, passa a narrar o povoamento. Os primeiros povoadores foram os portugueses de Laguna, originários de São Vicente. Para o historiador de Jaguarão, é importante tal averiguação da população, pois “quer apurar quais os componentes biológicos que a metrópole introduziu aí, modificações que acaso sofreram o influxo do meio, tipo que resultou, e sua influência no desdobramento do fenômeno político em estudo” (Varella 1915: 42, n. 1). Enfim, Tal vazou-se, em meio incomparável, a população enérgica do Continente: o bronze rijíssimo do português de lei, com acréscimo de matéria estranha que o aprimorou e laivos de outra que não no degradaram, como ainda com tênues vestígios de raças mais coloridas, reforçantes da beleza e vigor ou aumentativos dos atributos morais do exemplar humano primitivo (Varella 1915: 64, n. 1). Para entender os eventos que resultaram no 20 de Setembro26, Varella (1915) considerou primeiramente a evolução preparatória ou as causas predisponentes das circunstâncias que operaram na população e no território rio-grandense, isto é, o meio geofísico. Depois, continua narrando a soma de causas determinantes do rompimento e a definição dos sintomáticos abalos que resultaram no estouro revolucionário. Ademais, distinguindo as particularidades rio-grandenses, o autor sustenta-se nos relatos de naturalistas estrangeiros e nos aspectos climáticos da região. Portanto, Varella (1915) corrobora dois aspectos que delimitam essa particularidade: a) a condição de passagem do espaço rio-grandense que constituiria um ambiente de mudança entre o Brasil e o Prata; e b) a dualidade de seu meio geofísico dividindo com o Brasil e o Prata semelhanças na paisagem. Avançando no esboço da linhagem dos habitantes rio-grandenses, Varella (1915) acredita que o subsídio açoriano constituiria o traço fundamental na formação étnica do Rio-Grande, cunhando um rastro indelével, sendo o Rio Grande um resultado da civilização lusa. Em seguida, existiu a influência espanhola. O influxo indígena é considerado limitado, 26 Data que iniciou a Farroupilha.
77 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 bem como o africano, que, por causa da indústria e do contrabando, pouco colaboraram para o tipo rio-grandense. Nas causas predisponentes, para apresentar as ligações entre o Rio Grande e o Império brasileiro, Varella (1915) usa uma lei geral da física no qual a unidade de um sistema tende a romper-se na medida em que as suas partes não operem mutações comuns. Na conjuntura de convulsão regencial a tendência separatista atua como uma disposição generalizada no espírito popular sul-riograndense. E, assim, No vasto organismo combalido, tudo consente, tudo conspira, tudo concorre, para a quebra da unidade nacional e ruptura dos elos que prendiam o Rio Grande, a um sistema cujas translações haviam deixado de ser exatamente comuns, conforme pudera prever quem estudasse os fatos a luz da lição genial de Galileu (Varella 1915: 217, n. 1). De toda forma, segue Varella (1915), existiria um provincialismo atribuído ao rio-grandense que, desde a colaboração dos sul-rio-grandenses no movimento de maio de 181027 e nos conflitos dos orientais, a partir da propaganda revolucionária que ignorava fronteiras, ratificava o atrelamento do Estado com os fatos políticos do Prata. Para Varella (1915), derivava em depauperamento do passado da Farroupilha recusar a ligação com o Prata e, assim, as ideias separatistas e republicanas teriam vindo para a Província pela fronteira. Ademais, o provincialismo seria resultante do afastamento em relação à Corte e da proximidade política, cultural e geográfica com a região do Prata (Gutfreind, 1992). E aqui, seguramente, está a mais importante contribuição de Varella à historiografia da Farroupilha, isto é, o emaranhamento da Farroupilha com a região do Prata. Desse modo, Varella rompe com uma tradição historiográfica, iniciada na República de 1889, que interpretava a Farroupilha somente dentro dos marcos do Estado e da nação brasileira (Soares 2016)28. Assim, os primeiros abalos do fato revoltoso foram observados em 1829, depois da perda da Cisplatina29 pelo Império, momento em que principia uma intriga na fronteira sul-rio-grandense, alusivo às conspirações do padre José 27 A Revolução de Maio foi uma série de eventos que ocorreram entre 18 e 25 de maio de 1810 na cidade de Buenos Aires (uma colônia do Império Espanhol). O resultado foi a deposição do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros e o estabelecimento de um governo local. A Revolução de Maio foi a primeira revolta bem sucedida no processo de independência da América do Sul 28 Em 1935, Varella publicaria sua obra-prima, História da Grande Revolução, no qual defenderia a mesma tese, isto é, a Farroupilha com origem na região do Prata. Isso, o levaria a sofrer pesadas críticas de outros letrados e constrangimentos políticos (Silva 2010) (Soares 2016) (Gutfreind 1992). 29 Cisplatina foi uma província brasileira que existiu de 1821 a 1828 criada pela invasão lusobrasileira da Banda Oriental. De 1815 a 1822 o Brasil foi um reino constituinte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Após a independência do Brasil e a formação do Império do Brasil a província Cisplatina permaneceu parte dele. Em 1828, após a Convenção Preliminar de Paz, a província da Cisplatina tornou-se independente como Uruguai.
78 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 Caldas30, do caudilho Juan Lavalleja31 e do líder da fronteira Bento Gonçalves32. Portanto, a simultaneidade entre os eventos do Prata e os do Rio Grande é a hipótese do historiador de Jaguarão para explicar o movimento de 1835. Varella (1915) entendeu que a Farroupilha nada mais seria que um espelho das Revoluções Cisplatinas em sua ascendência e processo, tendo procedência no Prata, porém, em serventia de todos os liberais brasileiros. Os pressupostos de Revoluções Cisplatinas, por um lado, acarretaram a explicação determinista e teleológica do Rio Grande do Sul, e, por outro lado, posicionaram a Farroupilha em um contexto mais complexo, não só em seu vínculo com o Império português, mas também com o Prata. A escolha de Varella (1915) por abordar o passado do sul-rio-grandense numa perspectiva mais dilatada que sua origem portuguesa se converteu num aporte novo em relação à origem platina da Farroupilha, tida como algo danoso à identidade nacional, ao contrário do que entende Varella (Gutfreind, 1992), em que a ideia positiva de liberdade vem do Prata. Enfim, para ele, a “Revolução de 1835” nada mais foi que um reflexo das revoluções cisplatinas, – a nossa, de 1835 a 1845 – em sua origem e desenvolvimento até o segundo semestre de 1837, apoiando-se daí em diante no Rio da Prata, mas buscando conseguir a vitória também com os liberais do Brasil, e, se possível, em proveito de todo o Brasil (Varella 1915: 522, n. 1). Para Varella (1915), a Revolução de 1835 foi uma alteração no interior de um sistema no qual a ação mecânica de relação entre as partes e o todo parou de funcionar em sintonia. Também, distinções geofísicas assumiriam um caráter decisivo na explicação da Farroupilha. Além disso, a característica do Rio Grande do Sul de ser linha limítrofe entre o Império do Brasil, a Confederação Argentina e a Banda Oriental, isto é, ser fronteira, surge como uma razão para a compreensão da revolução de 1835 e só se faz plausível como elemento de um encadeamento de sucessos mais extensos, as Revoluções Cisplatinas, o que sugere uma inclusão do passado do Rio Grande na conjuntura dos eventos da região do Prata (Silva 2010). Desenvolvendo a hipótese do artigo, o segundo ponto da escrita da história de Revoluções Cisplatinas é o platinismo33, isto é, a liberdade (do liberalismo) 30 José Antônio Caldas ou Padre Caldas (1787-1850) foi um religioso, jornalista e político brasileiro. 31 Juan Antonio Lavalleja y de la Torre (1784-1853) foi um militar e político uruguaio, que liderou os Trinta e Três Orientais. 32 Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) foi um militar e estancieiro sul-rio-grandense e o grande líder da Farroupilha. 33 Platinismo refere-se a região do Prata, isto é, aos espaços que sofrem a atuação do rio da Prata, seus afluentes e de sua bacia hidrográfica, mormente ao que hoje é a Argentina, Uruguai e Paraguai, países no qual o Rio Grande do Sul é limítrofe. Atualmente o Rio Grande do Sul e o Paraguai não fazem fronteira, mas antes da Guerra do Paraguai, a atual região de Missiones era disputada entre
79 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 impedida de triunfar pelo Estado monárquico brasileiro, só consegue penetrar no Rio Grande do Sul pela região platina limítrofe ao Estado. Para isso, Varella constrói uma proximidade geofísica entre o Prata e o Rio Grade do Sul, isto se deva ao caráter de fronteira da região. Assim, Varella inova, na Primeira República, ao mostrar a história da Farroupilha além dos marcos do EstadoNação brasileiro. O liberalismo que vem pelo Prata é uma forma, então, de Varella proporcionar às oposições ao borgismo um outro arsenal teórico para o embate político como uma outra inserção do Estado sulino no Brasil. 6. Conclusão A partir da metodologia da operação historiográfica pode desenvolver a hipótese sobre a conexão entre política e historiografia na Revoluções Cisplatinas. O caminho escolhido foi analisar o lugar social, as práticas cientificas e a escrita de um texto. Por um lado, a obra de Varella, estava em um lugar social hegemonizado pelo borgismo, que pouco espaço de atuação proporcionava a oposição, também, sua socialização intelectual foi envolta no republicanismo e na Geração de 1870. Por ouro lado, sua prática científica foi guiada pela epistemologia da história positivista em que a história é uma ciência com causas e relações mecânicas entre os eventos. Por fim, em sua escrita do texto o conceito de liberalismo permite que ele se distancie do positivismo e, assim, representa a Farroupilha de maneira inovadora ao mesmo tempo que critica o borgismo. Na Revoluções Cisplatinas, a Farroupilha teria sua veia pulsante de liberdade vindo do Prata, mas, que, além disso, em uma leitura a contrapelo, é uma forma de questionar o mando autoritário do PRR no Estado do Rio Grande do Sul, na Primeira República. Contudo, estas suas armas conceituais para criar uma outra Farroupilha só conseguem ser entendidas em toda sua complexidade quando articuladas em uma explicação que coloque a prática cientifica, a escrita do texto de Varella conjuntamente ao lugar social em a obra foi produzida. a Argentina e o Paraguai. Varella defendia que a Farroupilha tinha como principal influencia os acontecimentos platinos, isto é, acontecimentos não brasileiros ou não somente brasileiros.
80 Fabrício Antônio Antunes Soares Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 7. Referências bibliográficas Alonso, Angela. 2002. Ideias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra. Antoniolli, Juliano Francesco. 2017. “Tão longe quanto a previsão científica possa alcançar”: a experiência do tempo da geração republicana da Faculdade de Direito de São Paulo (1878-1882). Tese (Doutorado em História). – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre. P. 248. Araripe, Tristão de Alencar. 1986. Guerra civil no Rio Grande do Sul: memória acompanhada de documentos lida no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Porto Alegre: Corag, 1986. (original 1881) Assis Brasil, Joaquim Francisco. 1981. História da República Rio-Grandense. Porto Alegre: Erus. (original 1882) Axt, Gunter. 2007. “Coronelismo indomável: o sistema de relações de poder”. In: Golin, Tau; Boeira, Nelson. (coord.); Reckziegel, Ana; AXT, Gunter (dir.). República Velha (1889-1930). Passo Fundo: Méritos, V.3, t.1. Boeira, Nelson. 1980. O positivismo difuso. In: DACANAL, José; GONZAGA, Sergius (orgs.). RS: Cultura e ideologia. Porto Alegre: Mercado Aberto. Boeira, Luciana Fernandes. 2019. Uma província de peso: a escrita da história sul-rio-grandense no século XIX. In: Soares, Fabrício A. A.; Martins, Jefferson Telles. História e historiografia sul-rio-grandense. Criciúma: EdiUnesc. Cesar, Guilhermino. 2006. História da literatura do Rio Grande do Sul (17371902). Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro: Corag. Certeau, Michel. 2007. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Diehl, Astor. 1998. Aspectos da historiografia positivista no exemplo da história do Rio Grande do Sul. In: A cultura historiográfica brasileira: do IHGB aos anos de 1930. Passo Fundo: Ediupf. Franco, Sérgio da Costa. 2007. O Partido Federalista. In: Golin, Tau; Boeira, Nelson. (coord.); Reckziegel, Ana; Axt, Gunter (dir.). República Velha (1889-1930). Passo Fundo: Méritos,V. 3, t. 1:129-170. Guazzelli, Cesar Augusto Barcellos. 1998. O horizonte da província: a República Rio-Grandense e os caudilhos do Rio da Prata (1835-1845). Tese (doutorado em História). Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS. Gutfreind Ieda. 1992. Historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Ed. Universidade/Ufrgs. Hartog, François; Revel, Jacques. 2001. “Note de conjucture historiographique”. In: Hartog, François; Revel, Jacques (sous la direction). Les usages politiques du passe. Paris: Ehees: 13-24.
81 A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 55. Primer cuatrimestre de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i55.03 Lazzari, Alexandre. 2004. Entre a grande e a pequena pátria: letrados, identidade gaúcha e nacionalidade (1860/1910). Unicamp/Ifch, Tese (Doutorado em história), p. 363. Oliveira, Maria da Glória. Uma identidade platina para o Rio Grande do Sul: análise historiográfica de Revoluções Cisplatinas, de Alfredo Varella. In: Humanas. Porto Alegre, v. 26/27, n. 1/2, 2004/2005. Pesavento, Sandra Jatahy. 2009. Uma certa Revolução Farroupilha. In: Grinberg, Keila; Salles, Ricardo (org.). O Brasil imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Vol. 2. Ricouer, Paul.1994. Tempo e Narrativa. Campinas: Papirus, Tomo I. Rodrigues. Alfredo Ferreira. 1990. Vultos e fatos da Revolução Farroupilha. Brasília: Imprensa Nacional. Rodrigues, Mara Cristina de Matos. 2019. Entre a geração crítica e o giro linguístico: contribuição à história da historiografia sul-rio-grandense. In: Soares, Fabrício A. A.; Martins, Jefferson Telles. História e historiografia sul-rio-grandense. Criciúma: EdiUnesc. Silva, Jaisson Oliveira da. 2010. A epopéia dos titãs do pampa: historiografia e narrativa épica da grande revolução, de Alfredo Varella. Dissertação (mestrado) Ufrgs, Ifch, Ppg-História, Porto Alegre. Silva, Jaisson Oliveira da Silva. 2019. O escrutínio dos pares: Alfredo Varella e a “História da Grande Revolução”. In: Soares, Fabrício A. A.; Martins, Jefferson Telles. História e historiografia sul-rio-grandense. Criciúma: EdiUnesc. Soares, F. A. A. 2016. Farrapos de estórias: romance e historiografia da Farroupilha (1841 – 1999). Pontifícia Universidade Católica (Puc – Rs): tese de doutorado. Porto Alegre. Soares, F. A. A. 2019. História das narrativas da Farroupilha. In: Soares, Fabrício A. A.; Martins, Jefferson Telles. História e historiografia sul-riograndense. Criciúma: EdiUnesc. Varella, Alfredo. 1915. Revoluções cisplatinas: A República Riograndense. Porto: Livraria Chardron, 2v. Varella, Alfredo. 1933. História da Grande Revolução. Porto Alegre: Editora e Livraria do Globo.