Sensores de Paisagem. Descodificar a paisagem, em São Pedro de Moel, através da experiência dos lugares.
Abstract
Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia
Full text
Dissertação no âmbito do Mestrado Integrado em Arquitetura,
orientada pelo Professor Doutor João Paulo Cardielos
e apresentada ao Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade de Coimbra.
Dezembro de 2020
Bárbara Alexandra Costa Silva
S ENSORES DE P AISAGEM
D ESCODIFICAR A P AISAGEM , EM S ÃO P EDRO DE M OEL ,
ATRAVÉS DA EXPERIÊNCIA DOS LUGARES
S ENSORES DE P AISAGEM
Sensores de P aisa gem
Descodificar a paisag em, em São P edro de Moel, através da experiência dos lugares
A presente Dissertação segue o Acordo Or tográfico da Língua P or tuguesa de 1990 e as nor mas AP A (American
Psychological Association) para efeitos de citação e referenciação .
Ag radecimentos
Ao professor J oão P aulo Cardielos , um especial obrig ado pelo acompanhamento e
exigência ao long o de todo o processo da Disser tação .
À C . M. da Marinha Grande pela concretização de opor tunidades e objetiv os de
aprendizag em. Aos amig os de São P edro de Moel, especialmente ao J oão Beltrão e ao
J oão Serejo , por conceberem experiências de visitas inigualáv eis e por de positarem um
afeto tão precioso neste lug ar urbano .
Ao arquiteto J oão Mendes Ribeiro ,
Ao arquiteto Luís Sobral,
Ao arquiteto J oão Crisóstomo ,
À arquiteta Eliana Santos ,
Ao arquiteto Carlos Antunes ,
À ar tista F er nanda Frag ateiro ,
Ao ar tista Olafur Eliasson,
À arquiteta J oana Nav ar ro ,
Ao músico P aulo Lameiro ,
À professora F er nanda Oliv eira,
E ao arquiteto J oão Serejo ,
um especial obrig ado por terem par tilhado comig o conhecimentos impor tantes e
impulsionadores que me desafiaram a concluir esta disser tação .
E, ainda, com o apoio da citação de Almada Neg reiros (1893-1970):
“ As pessoas que eu mais admiro
São aquelas que n unca acabam”.
I
RESUMO
O ter ritório e a paisag em implicam conceitos como a estética e a perceção do lug ar ,
que são instr umentos descodificadores de espaços sensíveis para a constr ução de
uma nov a leitura das g eog rafias . A imag em do ambiente constr uído reflete o v alor
simbólico e a história do lug ar , isto é, a noção fundamental que caracteriza o campo
de sensibilidade humana e que define a paisag em como resposta à compreensão do
lug ar . A necessidade de encontrar um nov o espaço para abrig ar uma no v a arquitetura,
provém da tentativ a de espacializar a possibilidade de ar ticular ideias de transfor mação
com nov os campos de descober ta, ati vidade social e educativ a.
São P edro de Moel foi um dos principais núcleos residenciais de veraneio balnear ,
um lug ar urbano perdido num contexto de relevância ibérica com um historial de
florestação e uma arquitetura de ex celência. Nunca foi um destino claro e só g anha
estatuto , a par tir dos anos quarenta, com a conquista do plano de Lima Franco para
uma visibilidade balnear . Desta for ma, a sua identidade estabelece-se numa arquitetura
moder na constr uída no meio da natureza, onde se domina a experiência da paisag em.
O desafio desta disser tação par te da ambição de compreender São P edro de Moel
como lug ar urbano , e do desejo de poder habitar a sua paisagem enquanto experiência
e, consequentemente , usar a arquitetura como instr umento concretizador dessa ação .
A ideia de lug ar n uma perspetiv a fenomenológica, um lug ar como experiência e
identidade , que somos capazes de percecionar com o cor po e os sentidos . Através
da ar ticulação entre espaços , pretende-se criar uma abordag em que seja capaz de
promov er e enriquecer a experiência social e cultural de São P edro de Moel, sendo
capaz de estim ular o reconhecimento da sua identidade , contribuindo para a v alorização
do património cultural e natural da região . Pretende-se que todos os sentidos entrem
em ação através de um conjunto de experiências imersiv as perante a natureza: a
III
apro ximação ao mar , a moldura v erde do Pinhal do R ei e a literatura.
A questão de habitar o lug ar v azio rev ela-se , aqui, fundamental para a definição do
desenho de projeto como lug ar de experimentação e de sensibilidade humana. Um
espaço indefinido ou descaracterizado g anha v alor na paisag em através da estética e das
múltiplas sens ações que a natureza nos transmite pelos sentidos e pela imaginação . P or
v ezes , são fomentadas experiências essencialistas em lug ares precisos , com variações
e possibilidades que acrescentam à leitura da paisag em dimensões educati v as e de
entretenimento . E pretende-se que possam acontecer coletiv a ou indi vidualmente . São
P edro de Moel já é, e pode ser pelo projeto , transfor mado num lug ar de experiências
mais er uditas , mais técnicas , mais clássicas , mais pessoais e , sobretudo , sensoriais .
O projeto constitui-se a par tir da identificação e do estabelecimento de um conjunto
de lug ares que convidam à experiência da descober ta, como for ma de interação com
o ter ritório .
P alavras-chav e: perceção sensorial, experiência, lugar, habitar , paisag em.
V
ABSTRACT
T he ter ritor y and the landscape imply concepts such as the aesthetics and perception of
the place , whic h are instr uments for decoding sensiti v e spaces for the constr uction of
a new reading of geog raphies . T he image of a built en vironment reflects the symbolic
v alue and the histor y of the place , that is , the fundamental notion that c haracterizes the
field of human sensibility and that defines landscape as a response to the understanding
of the place . The need to find a new space to house a new architecture comes from the
attempt to spatialize the possibility of ar ticulating ideas of transfor mation with new
fields of disco v er y , social and educational acti vity .
São P edro de Moel w as one of the main residential areas of seaside resor t in the
middle of the last centur y , arising as an urban site lost in context of Iberian relev ance
with a histor y of forestation and architecture of ex cellence . It was nev er an ob vious
destination and it only g ained status since the for ties , with the conquest of Lima
Franco’ s planning envisioning coastal resor t recognition. This w ay , its identity is
established in moder n arc hitecture built in the middle of nature , where the experience
of landscape dominates .
T he challenge of this disser tation star ts with the ambition to understand São P edro
de Moel as an urban center , together with the desire to inhabit its landscape while
an experience and, consequently , to use architecture as a concrete instr ument for
this action. T o assure the idea of place in a phenomenological perspectiv e, a place
as experience and identity , capable of being percei v ed by the body and the senses .
T hrough the ar ticulation between spaces , it is intended to create an approac h capable
of promoting and enriching the social and cultural experience of São P edro de Moel
and be able to stim ulate the recognition of its identity , in the end, contributing to
the v alorization of the cultural and natural heritage of this region. It is intended that
VII
all fiv e senses come ali v e through a set of immersiv e experiences before nature: the
pro ximity to the sea, the g reen frame of Pinhal do R ei and literature .
T he question of inhabiting the empty place is in here fundamental for the definition
of this project’ s design as a place of experimentation and human sensibility . An
undefined or uncharacterized space gains value in the landscape through aesthetics
and the multiple sensations that nature transmits to us , through the senses and the
imagination. Sometimes essentialist experiences arise in specific places , with v ariations
and possibilities that add to the reading of the landscape educational and enter tainment
dimensions . It is intended that they can happen collectiv ely or indi vidually . São P edro
de Moel is already and can be ev en more, in the future, due to this project, transfor med
into a place with more er udite, technical, classic , personal, and, abov e all, sensor y
experiences .
T he project is based on the identification and establishment of a set of places that
invite the experience of discov er y , as a for m of interaction with the ter ritor y .
K eyw ords: sensor y perception, experience, place , inhabit, landscape .
IX
SUMÁRIO
RESUMO
ABSTRA CT
INTR ODUÇÃO 1
1. OBJET O DE TRABALHO 13
1.1. São P edro de Moel: história breve e morfologia 15
1.2. Caracterização da preexistência 23
1.3. Metodologia 31
1.4. Estratégia de tur ma – Rizoma 55
2. INVESTIGAÇÃO P ARA O PR OJET O 69
2.1. Objetiv os e prog rama 71
2.2. Descodific ar a paisag em - Leitor es de paisag em 77
2.2.1. Cultura 87
2.2.2. Ar tistas na paisag em 99
2.2.3. Ar te na paisag em 119
2.2.4. Arquitetura 127
3. INVESTIGAÇÃO PELO PR OJET O 141
3.1. Opor tunidade de experiência - Constr ução do percurso 147
3.2. Leitores de paisag em 179
3.3. C o n s i d e r a ç õ e s fin a i s 29 1
REFERÊN CIAS BIBL IOGRÁFI CAS 299
SUMÁRIO DE FIGURA S 313
ANEX OS 327
1
INTR ODUÇÃO
São P edro de Moel é local e objeto de estudo , para onde se desenhou um projeto de
arquitetura que encara o T er ritório e a P aisag em como desafios de articulação com
a natureza. O ex ercício visa estimular a experiência física dos lug ares como fator de
enaltecimento da sensibilidade face à memória — que é reflexo da humanização dos
ter ritórios — e à leitura da paisag em. O estudo da paisag em — enquanto fenómeno
cultural — tor na-se relev ante para compreender como , no domínio da arquitetura, o
papel das respostas espaciais incita à experiência da imersão física do cor po , aplicada
ao conceito de lug ar . Ainda, aqui, a perceção m ultissensorial ultrapassa a compreensão
simplista da imagem, ou o modo como se faz, em cada local, a leitura linear e o uso de
cada um dos sentidos .
O desafio do projeto amplifica-se quando a exploração deste ter ritório sensív el —
polvilhado de espaços que iludem subtemas ador mecidos —, que impor ta estimular , se
propõe acrescentar no vos v alores à condição essencial da paisagem prévia. Configuram-
-se assim, também, com base em alguns dos propósitos teóricos da Land-Ar t, nov as
abordag ens híbridas onde a prática ar tística e a arquitetura esboçam estratégias em
ações complementares . Out ros ex emplos deste tipo têm vindo a ocor rer com cada vez
maior frequência, em exercícios de arquitetura desenhados sobre ter ritórios similares
e complex os , que são sempre reflex o da crescente exploração das g eog rafias naturais ,
pelos modos de vida e consumo da urbanização contemporânea.
A estratégia urbana proposta reconhece a especificidade de uma par tilha de experiências ,
entre a história e a leitura da paisag em, como for ma essencial de perceber o ter ritório ,
para mais tarde constr uir uma renov ada identidade sobre o suporte que já existe . P ara o
arquiteto Gonçalo Byrne, a imag em de São P edro de Moel é um lug ar que se constrói,
e não uma paisagem parada no tempo e no espaço (Byr ne, 2019). R esulta da identidade
3
das pessoas que lá moram. Na disciplina de Atelier de Projeto II, ao long o do primeiro
semestre , prestou-se par ticular atenção à apro ximação ao objeto de estudo , com vista
à resolução de problemáticas , mapeamento e identificação de ações discursi vas . A
identificação de um conjunto de lug ares singulares , per mitiu gerar uma rede de pontos
que , no futuro , poderão ser pivôs de uma no va dinâmica urbana que não se estabelece
só para residentes , mas , sobretudo , para potenciar ar ticulações entre residentes e
visitantes . A conjugação do ter ritório com o seu contexto histórico apoia-se, ainda,
na ar ticulação entre a moldura v erde de pinheiros e a arquitetura de excelência, para
que se possa reestabelecer , nesta praia, um destino balnear atrativ o . T endo em conta
as condicionantes espaciais e temporais deste lug ar urbano , a proposta de desenho
assume diferentes escalas , consoante os parâmetros temáticos: culturais , ambientais
ou baln eares . O objetiv o é o de inscrever incontor nav elmente São P edro de Moel no
mapa da região Centro Oeste de P or tug al. P ara isso , a estratégia moldada pela tur ma
começou por identificar e integ rar este lugar urbano em div ersas redes de lug ares que ,
noutras g eog rafias , próximas ou distantes , são capazes de proporcionar experiências
paisagísticas , ambientais , de alojamento de ex ceção , entre tantas outras . A inter venção
pretende assumir um nov o pensamento e instalar um nov o olhar sobre a geog rafia do
sítio , que seja capaz de promov er a re-caracterização do lugar . Pretende-se que as ideias
e descober tas individuais explorem a natureza figurati va e arquitetónica, de for ma a
desper tar no vos interesses e ev ocar lug ares esquecidos .
A inv estig ação da imagem e da identidade inerente a cada paisag em surge da necessidade
de experimentar e saber estimular a consciencialização sobre os lug ares especiais que
nos env olvem. Assim, a presente dissertação visa compreender e reforçar as lig ações
entre os vários momentos potenciadores de uma dinâmica de descober ta, que seja mais
introspetiv a e cúmplice com a natureza. O desenho de projeto relaciona a arquitetura
experimental com a condição urbana existente, faz a síntese entre a essencialidade das
coisas e os sentidos . A inv estig ação teórica e o desenho rev elam-se fundamentais na
leitura que supor ta o exercício indi vidual, e visam uma aprendizag em sobre a leitura
experimentada da paisag em como elemento descriti vo , onde o desenho se revela
instr umento insubstituív el de análise . E acontece assim, neste projeto , de um modo
próximo da descrição que nos faz o arquiteto e professor Alv es Costa: “O desenho é
o processo privilegiado das coisas , vários campos da arquitetura na sua essência e no
processo do espaço visam a proporção , as relações com o contexto e fatores imateriais
5
como a cor . O desenho como processo de conhecimento . Cada um aprende com ele . ”
(Alv es Costa, 2019).
Numa disser tação prática em arquitetura, a inv estig ação teórica e o estudo através
do desenho rev elam-se complementares e indissociáv eis . O desenv olvimento do
projeto é definido por fatores que condicionam a in vestigação teórica e prática, sob
uma perspetiv a holística. O pensamento holístico exprime uma integ ração tal que,
no resultado projetual, cada par te dev e refletir as qualidades do todo , e este último é
sempre muito mais valioso e re presentati v o do que o simples somatório dos fatores ,
que são deter minados por cada uma das suas par tes . Neste contexto , os processos
críticos e argumentati vos deter minam que, mais do que induti vo , ou dedutiv o , será
o pensamento abdutiv o a comandar o modo como se complementam e cr uzam as
memórias e as experiências . Desenhar é sinónimo de experimentar as intenções pelo
projeto a partir da ev olução comparada ou comparati v a. O desen volvimento de fatores
que conduzem a realidade e a sua re presentação decor re de um processo analítico de
tratamento de dados , para que sir v am de “alimento disciplinar” ao ex ercício de projeto
(Grande, 2013, p . 220). É impor tante a adoção do pensamento abdutiv o como lógica
prática para a constr ução de uma nov a ideia, e de um nov o pensamento , aplicado aos
conhecimentos existentes . A par tir do desenho , a aprendizagem pelo projeto constrói
uma imag em e uma identidade que visam explicar esses no v os ideais .
A abordag em ao tema de projeto surg e pelo interesse na inv estig ação para e pelo
desenho . Impor ta ser capaz de desen volv er um conjunto de nov os instr umentos
metodológicos de apoio à inv estig ação científica. Desta for ma, a presente disser tação
divide-se em dois modelos de inv estig ação: a inv estig ação com base num modelo
analítico , de tudo aquilo que infor ma o projeto tendo como base o supor te teórico e
documental; e a inv estig ação pelo projeto , com base naquilo que confor ma o estudo
através da interação entre o pensamento reflexiv o e o desenho . Como supor te às
pesquisas da prática projetual, o livro Knowing (by) Designing (2013) foi o ponto de
par tida para o desen v olvimento desta inv estig ação em arquitetura, e constitui um
passo impor tante em tor no das práticas arquitetónicas atuais . R egista um conjunto de
conferências prog ramadas para o terceiro ev ento inter nacional org anizado pela Sint-
-Lucas Sc hool of Architecture em Br uxelas .
Figura 1: Exposição “ A E I O U: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, no Colégio das Ar tes da UC .
F onte: A utoria própria, a 6 de nov embro de 2020.
7
“T he field of architecture incor porates a serious component
of tacit, embodied kno wledg e whic h is cr ucial but whic h is
v er y difficult to comm unicate in an explicit wa y . ” (V erbeke ,
P ak, 2013, p . 28).
P ara se justificar a per tinência desta inv estig ação , são adicionadas múltiplas disciplinas
que desafiam e incorporam dinâmicas naturais e culturais , enquanto for mas de
compreender as dimensões do ter ritório , sob os domínios da ar te e da arquitetura.
Com a inesperada implementação das restrições de contingência, decor rentes do
coronavír us SARS-CO V -2, CO VID-19, este estudo foi obrig ado a uma adaptação ,
e integ rou o encontro digital com um conjunto de personalidades . Estas reuniões
vir tuais , realizadas sobretudo a arquitetos e ar tistas , veio enriquecer muito o percurso ,
já de si metodologicamente distinto , baseado no desafio previamente for m ulado de
expandir a inv estig ação pelo projeto . Os de poimentos prestados nestas entrevistas
foram transcritos e foram integ rados , sob a for ma de anex os , e constituem documentos
complementares relev antes para a inv estig ação , per mitindo uma melhor atuação nos
univ ersos da ar quitetura e da ar te . Ainda assim, nestes dois campos disciplinares – da
ar te e da arquitetura –, impor ta considerar a impor tância da compreensão dos papéis
da filosofia e da fenomenologia, bem como da crítica e da história da ar te .
Sublinha-se um caso que nos é próximo , em curso no Colégio das Ar tes da Univ ersidade
de Coimbra no final de 2020, onde a teoria e a prática se complementam, através de
conceitos e metodologias , dando vida a um projeto de experiência in situ pelo coletiv o
Os Espacialistas . A exposição de uma prática continuada de mais de 10 anos de
atividade , intitulada “ A E I O U: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, transpor tou para
o método de aprendizag em o lado perfor mativ o da ação expositiv a. T rata-se de tentar
compreender o que é isto de lev ar para o espaço educativ o a experiência do contacto
direto , do cor po físico no seio de uma instalação , em local tão abrang ente quanto o
do próprio habitat escolar . A par tir deste ex emplo podemos inter rog ar mo-nos sobre
o que pode significar , em arquitetura, ter tempo para pensar e imergir no contexto de
uma perfor mance ? O que pode significar essa experiência da imersão do cor po , individual
ou coletiv amente, num conjunto de lug ares especificamente desenhados para serem
ativ adores da leitura das paisagens?
Figura 2: Visita de campo .
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 3: Azulejo identificado no antig o lav adouro público , localizado no V ale do Ôlho .
F onte: Autoria própria, a 16 de outubro de 2019.
9
É esta inv estig ação que dá vida na prática à teoria.
Em São P edro de Moel, a procura de espacialidades prov eio de pistas de experiências
e desafios imediatos , como o ouvir o mar , sentir o cheiro salgado da sua espuma e ver
o mo vimento das ondas a rebentarem contra as rochas; mas também, de outros como
o decifrar dos poemas do escritor Afonso Lopes Vieira e perceber quais os locais
que o inspirav am; e, por fim, o explorar de sensibilidades dentro da mancha v erde de
pinheiros , que cor responde a dois terços do Pinhal de Leiria. Numa componente mais
prática, o desafio expressa-se na projetação de um percurso pedonal que interlig a locais
e momentos especiais . Correspondem ao rev elar de sensibilidades que se pretende que
enriqueçam o percurso , e à identificação de nov os lug ares a constr uir , acrescentando-
-lhes imag em e v alor simbólico , como for ma de enaltecer a paisagem.
O percurso foi baseado numa experiência tradicional local, de um passeio pela orla das
matas , que é muito frequentemente praticado pelos residentes de São P edro de Moel, e
que é conhecido pela ‘v olta dos 7’, ou pela mais encur tada ‘v olta dos 5’. P ar tiu da ideia
de que v ale a pena acrescentar a este circuito , de imersão no espaço natural das matas
— que já é pontuado pelo avistamento de acidentes e excecionalidades g eofísicas e
de alguns apontamentos constr uídos pré-existentes —, alguns outros momentos ou
arquiteturas , especificamente concebidos para acentuarem a perceção das paisag ens ,
sendo desenhados para sublinharem a ocor rência de alg o que, nor malmente, escaparia
ao obser v ador em registo de passeio quotidiano . P or outro lado , a sua simples existência,
documentada e sinalizada, pode acentuar a procura e a propensão para a interpretação
cúmplice destas experiências , capazes de v alidarem uma outra sensibilidade paisagística
e ambiental.
A proposta individual concentra-se na tentati v a de induzir nos deambulantes – os
flanêurs (Careri, (2002) –, a procura de uma viag em que estimule nov as e diferentes
for mas de olhar São P edro de Moel, como um lug ar sensível e distinto . O ensaio
faz-se através da implantação de objetos de manifestação arquitetónica em lug ares
especiais , enriquecendo as camadas de herança material e imaterial, no campo das
possibilidades que estas oferecem ao inconsciente coletiv o . Pretende-se ser capaz de
escolher lugares , em São P edro de Moel, onde o desenho transpõe o contraste entre o
mundo perfeito e o diabolismo , con vertendo-o numa possibilidade de autodescober ta.
11
A ambição cola-se à inter rogação e à insegurança de que o desenho de projeto possa
tor nar a experiência única mais expectáv el. O objeti vo da inv estig ação pelo projeto
começa por acrescentar beleza ao feio , para poder mostrar que não há feio sem um
contraponto de equilíbrio . No século XX viv emos sob o estigma da neg ação do feio .
Iniciámos o século XXI a aceitar o feio , mas ainda não fomos capazes de o transfor mar
em processo natural de conser v ação e v alorização arquitetónica, como quem trabalha,
com a mesma naturalidade , os espaços sublimes , os espaços feios e os espaços v elhos .
Mais do que umas microarquitecturas ou pequenas inter v enções na paisag em, o projeto
emerg e como pretexto para o enriquecimento de um percurso sensorial, através do
pensamento dialog ante e da experiência in situ nos lug ares .
13
1. OBJET O DE TRABALHO
Figura 4: F arol do P enedo da Saudade (1921), em São P edro de Moel.
F onte: Grilo , 2001, p . 201.
Figura 5: Entrada de São P edro de Moel (1881). F otog rafia histórica depositada numa base de dados dos amig os
de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/1944933675755998/
15
1.1. São P edro de Moel: história br ev e e morfologia
São P edro de Moel nasce dentro de um mar e de um mar de floresta.
Ainda antes do tempo das descober tas , o R ei Dom Dinis , o Labrador , bem per to
deste lug ar terá cantarolado às flores primav eris acerca dos pinheiros mansos (Dom
Dinis , s/d) 1 que mandou semear no Pinhal de Leiria, propulsores de v astas ati vidades
económicas . Devido ao ex cesso de lenhas e à necessidade de as escoar , o lug ar urbano
tor nou-se por to de embarque de madeiras , empregues mais tarde nas constr uções das
naus , que irão expor tando “De Europa toda, o R eino Lusitano , / Onde a ter ra se acaba
e o mar começa. ” (Camões , 1572) 2 .
Bem per to , um pouco mais a nor te , o P enedo da Saudade terá sido o local onde ,
tantas e tantas v ezes , a duquesa de Caminha lamentou a mor te do seu esposo , D .
Miguel, duque de Caminha, filho do Marquês de Vila R eal, aqui residente. F oi nesse
preciso lug ar que, em 1909, se procedeu à constr ução do F arol – concluído em 1912
–, como for ma de aviso à na vegação e posto de vigia e deteção de fogos no interior do
pinhal. F oi também por esta altura que São P edro de Moel terá recebido o seu residente
mais ilustre, o escritor e poeta Afonso Lopes Vieira, que ocupou e refor mulou uma
residência que terá herdado com sua esposa, junto aos areais da praia, no lug ar onde
terá existido o P aço dos marqueses de Vila R eal.
Em finais do século XIX, concluiu-se a estr uturação da estrada que lig a São P edro
de Moel à Marinha Grande e à Linha do Oeste – a fer ro via que lig a Lisboa à Figueira
da F oz. Muitas das famílias dos guardas florestais , e demais trabalhadores das matas
nacionais , passaram a poder usufr uir mais facilmente da praia como escudo contra
1 Dom Dinis , Ai F lor es do V erde Pino , Antologia P oética.
2 Afonso Lopes Vieira foi o responsável da transcrição para o português contemporâneo .
Figura 6: São P edro de Moel (1890).
F onte: Grilo , 2001, p . 197.
Figura 7: A antig a Praça das Matas Nacionais , São P edro de Moel (s/d). F otog rafia histórica depositada n uma base
de dados dos amig os de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/g roups/117409711691761
17
doenças e fraquezas orgânicas , mercê da vir tude terapêutica dos banhos na água
marítima fria e salg ada. O ag radáv el isolamento geog ráfico promovido pela barreira
v erdejante, proporcionou às primeiras constr uções de moradias , junto aos antig os
ar mazéns – as tercenas –, um ambiente de refúgio naturalista. Instalou-se, deste modo ,
o núcleo urbano primordial de v eraneio , junto à praia, em São P edro de Moel.
Se as matas eram já, então , coisa bem antig a, a sua exploração ter -se-á racionalizado e
otimizado cientificamente ao long o do período moder no . A tutela aper tada de todos
estes ter ritórios foi sempre assegurada pela administração real, sob jurisdição das
administrações das Matas Nacionais .
Após a cedência da tutela administrati va do lugar de São P edro de Moel à Câmara
Municipal da Marinha Grande, a po v oação foi sendo prog ressiv amente preparada para
receber os nov os residentes e ocasionais v eraneantes , entre os quais , reconhecidamente,
se sabe que acor riam industriais da Marinha Grande , tal como o ha viam feito antes os
Marqueses de Vila R eal. Já não basta vam os banhos sazonais . T or nou-se necessário
instalar equipamentos de entretenimento , como o casino , bem como o campo de ténis
e o ringue de patinag em, que acompanharam a constr ução do ‘Bair ro Nov o’. Mais a
nor te , no alto da colina, sobre a ar riba e sobranceiro sobre o núcleo original, junto
à capela, encontrav a-se há m uito o Chalé das Matas que ser via de apoio aos altos
quadros dos Ser viços Florestais .
Em 1930 iniciou-se a constr ução , na encosta poente, sobre a ar riba e v oltado ao mar,
do ‘Bair ro dos Naturais’. Descolou-se, assim, o alojamento destinado aos residentes
per manentes , mais humildes , que seriam maioritariamente trabalhadores das matas ,
do da população mais elitista, frequentadora da praia, que se foi instalando junto ao
núcleo tradicional e histórico junto à Praça constr uída pelas matas nacionais onde
terão estado as antig as tercenas , perdidas para o fog o muitos anos antes .
O arquiteto J osé de Lima F ranco foi o autor do Anteplano de Urbanização , datado
de 1947, que começou a desenhar a morfologia urbana atual deste lug ar . Nessa altura
preparav a-se o momento de virag em na reconquista pela liberdade dos ar quitetos , que
se iniciaria com a realização do I Cong resso Nacional de Arquitetura, em 1948.
Figura 8: Planta de apresentação do Anteplano de Urbanização de São P edro de Moel (1947), autor Lima Franco .
F onte: www .mg rande.net.
Figura 9: Complexo de Piscinas da Promoel (1976), São P edro de Moel. F otog rafia histórica de positada numa base
de dados dos amig os de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/2689039571345401/
19
Lima Franco torna evidente que a ordenação deste lug ar teria em conta o preexistente ,
e que, através do traçado radiocêntrico , conseguia org anizar facilmente os lotes
e as ar térias de lig ação entre eles . Em desenv olvimentos subsequentes , revisões e
alarg amento , ele acabaria por definir a morfologia e extensão completa da pov oação ,
tal como hoje a conhecemos .
A sul, junto ao mar, desenv olv eu-se mais tarde o Complex o de Piscinais da Promoel
(1972), um equipamento que se implantou n uma topog rafia acentuada, recor tando a
ar riba, supor tado pela água salg ada do mar . O conjunto era composto por um tanque
de dimensões olímpicas e piscina de saltos , equipamentos de lazer com bar e salão de
festas . F oi o g rande equipamento de recreio e div ersão até ao final do século , mas está
hoje ar r uinado .
A singularidade de São P edro de Moel deve-se a um amplo conjunto de fatores , contudo ,
a presença de arquiteturas enquadráv eis na política oficial do Estado Nov o , que se
confrontam localmente com um outro g r upo , notável, de arquiteturas representativ as
de for mas de expressão próprias de um moder nismo ar rojado , fazem da pov oação
uma praia de ex ceção . Este último g r upo de ar quiteturas transfor mou-se num símbolo
da sua identidade. António Dinis Baroseiro , arquiteto autodidata natural da Marinha
Grande, foi o autor de uma g rande maioria das residências temporárias de caráter
moder no , tais como a casa de A ugusto Roldão (1955) e a casa de J oaquim Byr ne
(1959). Como autor, ombreou aqui com alguns dos mais representativ os nomes da
arquitetura nacional, com quem terá priv ado e que, ev entualmente, lhe terão estimulado
o interesse por essas g eometrias ar rojadas . Neste contexto balnear ex cecional, a casa
de férias g anha um caráter experimental inv ejáv el, devido à capacidade inv enti v a dos
autores e ao apelo do contexto natural. Constr uíram-se arquiteturas de ex celência
no meio da Natureza que dominam com mestria a experiência da paisagem. Aqui a
paisag em é constr uída e habitada, transfor mou-se para receber a ar quitetura no seu
supor te natural. Este núcleo de elite , dos anos quarenta a sessenta, ensaia um no v o
modo de viv enciar a continuidade do Pinhal do R ei, e a ideia de habitar no meio da
natureza, onde a própria casa de veraneio se esconde entre monumentos viv os . O facto
de não ha v er bar reiras exponencia a leitura da moldura verde como um todo . Lima
Franco , no Anteplano de Urbanização , deixa claro que no interior de cada um dos lotes
projetados , aquando da constr ução , era “obrig atória a plantação de, pelo menos , três
Figura 10: Casa J oão Carlos Frazão . A utor António Dinis Baroseiro Junior . Data de constr ução 1956.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
21
ár v ores . ” (Franco , 1947, p . 12).
São P edro de Moel é hoje um lug ar urbano escondido pelo Pinhal do R ei, onde residem
389 pessoas 3 n um contínuo de baixa densidade . Uma zona balnear onde se criou uma
linguag em e uma har monia, que se tem vindo a perder noutras estâncias balneares . As
referências são várias , e variam de uma impressiv a identidade, baseada na arquitetura
moder na, à influência pombalina, na praça marginal à praia, cober ta de arbusto tamarix
africana (tamargueira em discurso com um), desenhada e constr uída pelas Matas
Nacionais sobre o espaço das tercenas já inúteis do velho por to de mar . A paisag em
desenrola-se por entre dunas e areais , manc has de pinheiros mansos e eucaliptais , raros
relev os e morfologia suav e . T rata-se de um lug ar per tencente à freguesia da Marinha
Grande, cidade lig ada por tradição antig a à indústria vidreira, e hoje , também à dos
moldes , mas as memórias locais de muitos ainda se revêm sobretudo na leitura da
experiência espacial e urbana das arquiteturas , no seio das matas , que os impele em
tomadas de consciência e desejos de controlo sobre os destinos do ter ritório que
habitam, par ticipando ati v amente em todas as opor tunidades de tomar decisões sobre
a pov oação , e o futuro da sociedade que nela vi v e .
3 F onte relativ a aos Censos (2001) e ao Anuário Estatístico da R egião Centro (2007).
Figura 11: Desenho Miguel J oaquim de Car v alho (1853), São P edro de Moel.
F onte: imagem www .mg rande .net
Figura 12: Praça Principal (1940), São P edro de Moel.
F onte: imagem www .mg rande .net
Figura 13: R evisão e ampliação do Anteplano de Urbanização (1962).
F onte: Quinta, 2010, p . 42.
23
1.2. Caracterização da preexistência
Este ter ritório , depositário de um reper tório de arquiteturas de linguagem moder na,
uma frente de mar e uma moldura v erde, viu long amente condicionado o seu
crescimento e a expansão urbana. O aparecimento de residentes no pov oado original,
junto ao mar , dev eu-se, originalmente , à fixação de trabalhadores junto às instalações
das matas nacionais . Mais tarde, já como estância de v eraneio , deu lug ar às famílias dos
guardas florestais e marinhenses e, também, às classes aristocráticas , o que justificou
o melhoramento dos acessos e equipamentos de apoio à resposta sazonal. A ev olução
urbanística deu-se em quatro fases de desenv olvimento: a primeira junto ao por to de
embarque e aos antig os ar mazéns; a segunda fase env olveu a fixação , a P oente, do bair ro
dos naturais; a terceira fase decor reu da elaboração do Anteplano de Urbanização
(1947) de Lima Franco , com expansão a Nor te e a Este; e, por fim, a quar ta fase
per mitiu a expansão para Sul en v olvendo o V ale do Ribeiro do “Ôlho”, com a revisão
e ampliação do Anteplano (1962).
A estr utura física e a identidade do ter ritório resultam de algumas noções funcionais
que org anizaram as relações entre habitantes e veraneantes , segundo uma malha regular
compacta. O desenho de expansão da urbanização propôs lotes relativ amente amplos
para moradias unifamiliares isoladas , onde a experiência de cada família residente
beneficia das relações frente a frente entre vizinhos , apenas mediadas pela duna que
caracteriza o lug ar e per mite a fixação da mata, per meando as constr uções . T oda a
ação ocorre num ambiente profundamente natural onde , sim ultaneamente , se vi v e um
ambiente familiar . Como tal, a qualidade global do espaço urbano contribui para o
confor to percepcionado e o estímulo que se obtém esteticamente no lugar .
A identidade de São P edro de Moel deve-se à contin uidade do pinhal e às dunas que
são o supor te da sua imag em. E ainda, ao êxito de um plano que forçou a arquitetura
Figura 14: Casa Antonio Marques R eis . A utor Frederico George. Data de constr ução junho de 1964.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
25
integ rar -se n uma natureza em que as habitações surgem como que “nascidas” entre os
pinheiros .
Atualmente , a luta e a participação dos cidadãos , em tor no das questões do
desen v olvimento do seu lug ar urbano , faz transparecer um medo acrescido pela
dimensão do tempo , face à crescente imprecisão na per manência da leitura do lugar .
O cor rer do tempo conduziu à rarefação do cober to arbóreo , e temos presente
uma paisag em onde os pinheiros vão escasseando , per mitindo entrever demasiado
facilmente o aparecimento da arquitetura de ex celência. T ambém, e de modo mais
preocupante, entre algumas parcelas recentemente inter vencionadas , a constr ução de
muros di visórios vai cortando a leitura de continuidade do Pinhal.
Impor ta questionar qual é, afinal, a imagem e a identidade de São P edro de Moel?
E de pois , se é um simples destino de férias ou se pretende continuar a ser um lug ar
de características únicas com ofer ta de atividades diferenciadoras? Se nada for feito ,
depressa poderá tornar-se um subúrbio balnear indiferenciado , como aconteceu a
tantos outros lug ares , que não beneficiaram da prolong ada proteção proporcionada
pela g estão , altamente condicionada pelas “matas nacionais”. Que acontecerá se se
rotinar a instalação fácil de muros de delimitação de propriedade e se for consolidando
a perda prog ressiv a da moldura vegetal?
Estamos ainda, hoje, perante a singularidade de um conjunto de arquiteturas que,
durante o Estado No v o , desenharam no espaço urbano as evidências do conflito
sociocultural que as arquitet uras de vanguarda opuseram aquelas outras que o regime
político apadrinha v a. Mas essa evidência está a perder-se , e com ela a essencialidade da
identidade local.
P arece existir , em São P edro de Moel, essa ambição de olhar para o futuro e proteger
a sua herança, que prev aleceu devido à proteção da experiência sensorial e da vi vência
exterior . E é, seguramente , sobre o pinhal que se tem de constr uir a marca deste lug ar .
P ara muitos , está a tor nar -se fácil constr uir um muro de v edação , no entanto , parece
ser -lhes difícil plantar uma ár v ore, que pode per petuar a essência do lug ar por mais 200
anos . Isso , se entretanto não se perderem todas as ar quiteturas relev antes . E sabemos
bem como é difícil reconhec er v alor patrimonial aos objetos constr uídos num passado
Figura 15: Casa Marques R oldão . A utor J oão José Tinoco . Data de constr ução julho de 1952.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
27
relativ amente recente .
Estará a imag em de São P edro de Moel intimamente lig ada ao local e aos padrões
culturais que essa imag em representa? O sentido deste lug ar é a essência que
compreende as características da sociedade que nele habita, a arquitetura moderna –
apta às funções de lazer e descanso –, e o caráter visual da duna, que perdura no tempo
e no espaço . Esta junção de v alores remete-nos para um panorama naturalista que
se deixa entrecr uzar com uma arquitetura moder na singular . A casa de férias é, aqui,
frequentemente marcada por pilotis , telhado em borboleta, composição de v olumes ,
influência da escala humana e simplificação do prog rama doméstico . A cultura e a
sociedade tornam-se reflex o viv o da leitura da paisag em env olv ente e expressam-se
sobre o ter ritório e a natureza que são supor tes deste projeto urbano coleti v o . Cada
ex ercício de desenho , tanto à escala da paisagem como do objeto constr uído – casa de
v eraneio –, traduz nas for mas a compressão com que se re presenta a imag em global
do ter ritório e o modo como ela se con v er teu em realidade urbana, capaz de supor tar
a experimentação sensorial do espaço físico .
O desenv olvimento de São P edro de Moel apoiou-se nas vias de acesso existentes – as
estradas florestais de lig ação à Marinha Grande, a Nascente, a A v enida Atlântica de
lig ação à Praia da Vieira de Leiria, a Nor te, e a estrada para a Nazaré, mais a Sul – a
par tir das quais o processo de comunicação entre as pov oações próximas e o núcleo
urbano se foi tor nando mais acessível à visita sazonal. Como tradição , durante a época
balnear e ao long o de várias décadas consecuti v as , este lug ar ansiav a pela cheg ada
de famílias para as estadias prolong adas , as reuniões na piscina de água salg ada, os
bailes notur nos e, até mesmo , as ter túlias e festiv ais de poesia. Um lug ar “mágico”
que , hoje, nos remete apenas para cenários das memórias , entre a imag em intimista e o
espaço materializado . P orém, a baixa densidade e a má conser vação do local refletem
bem o esbater dos seus contor nos , devido à escassez de prog ramas sociais e ofer tas
espaciais , que tendem a diminuir , reduzindo a afluência de visitantes e pressionando a
fug a de residentes per manentes , que acompanha a descaracterização do ter ritório . O
problema de São P edro de Moel passa também por se encontrar n um local isolado que
per tence às matas e, dessa for ma, não estabelece qualquer relação significativ a com
outros lug ares .
Figura 16: A utor J osé Charters Monteiro . Data de constr ução 1978-1985-1990.
F onte: Autoria própria, a 15 de outubro de 2019.
29
Quando experimentamos um lug ar desconhecido , percor remos as suas r uas , usufr uímos
do espaço , e, de imediato , falamos com os seus moradores . V erificamos facilmente que
a beleza interior de um local não depende só da sua qualidade estética, mas também da
sua org anização social. O espaço env olv e-nos num tempo e com um significado que nos
sensibiliza. P orém, este primeiro impacto de que falo , em São P edro de Moel, rev elou-
-nos um deser to desamparado , um lug ar com imensa potencialidade, mas sem vida.
Esta condição afeta de for ma direta a paisag em: um sistema de transpor tes públicos
praticamente ausente; o precário estado de preser v ação de muitas das habitações; uma
população env elhecida; e um ambiente ameaçado pela insuficiência de equipamentos
sociais e ser viços educati v os .
Neste momento , São P edro de Moel quase não é reconhecido , mesmo inter namente ,
como um lugar temático de v alor histórico , florestal ou paisagístico . P orém, estamos
num período de emergência e consolidação de for mas impor tantes de turismo de
natureza e de um turismo balnear que se complementam face a realidades tão distintas .
Existem cada v ez mais pessoas que procuram o prazer per manente e a descoberta de
v alores sensíveis em ambiente natural; por outro lado , também existem pessoas que
se deslocam para a sua casa de veraneio porque procuram simplesmente um ambiente
familiar de refúgio para o período sazonal. A extraordinária apetência deste lug ar urbano
não consegue disfarçar uma ofer ta e um funcionamento limitado de equipamentos de
apoio turístico balnear, associados a uma pequeníssima ofer ta de atividades de recreio
e lazer . Assim se explica como se conjug am os principais problemas deste núcleo
urbano .
A simbiose entre o ter ritório e o seu contexto histórico apoia-se na ar ticulação entre
a moldura v erde de pinheiros , e a biodiv ersidade que supor tam, e a arquitetura de
ex celência, para que se possa estabelecer um destino balnear atrativ o . R ecuperar a
memória e as histórias locais dev erão ser o foco para que a imag em deste lug ar v olte a
florescer , g arantindo uma vivência superior aos residentes e uma dinâmica estimulada
aos flux os de visitantes , valorizando o seu ati vo cultural e ambiental.
Figura 17: (R e-)P ensar São P edro de Moel 2020, no A uditório da R esinagem, Marinha Grande.
F onte: https://www .cm-mg rande.pt/pages/350?news_id=1763
31
1.3. Metodolo gia
O Projeto (R e-)P ensar São P edro de Moel par tiu de um desafio lançado pelos Amig os de
São P edro , que se associaram ao m unicípio da Marinha Grande e se fizeram re presentar
pela org anização local de comerciantes e agentes turísticos , a Associação Protur . A
opor tunidade de repensar este ter ritório tão singular beneficiou da celebração de um
protocolo estabelecido com o De partamento de Arquitetura da FCTUC , em moldes
semelhantes a outros anterior mente cumpridos junto de outras Câmaras Municipais , e
que , também aqui, per mitiu calendarizar um conjunto de etapas e objeti vos .
Numa primeira fase, na unidade cur ricular de Atelier de Projeto II, foram lecionadas
algumas aulas e recebidos con vidados que se pronunciaram sobre as principais temáticas
que agitam a realidade local. Em paralelo , iniciou-se o estudo dos documentos históricos
e monog ráficos , e da mais recente produção científica disciplinar , bem como dos planos
de urbanização – e demais instr umentos municipais e regionais de planeamento , ou
outros compromissos camarários em vig or . F oi assim possív el compreender melhor
as etapas do desen v olvimento desta pov oação e a sua riqueza sociológica. Esta fase
per mitiu que todo o g r upo de trabalho se inteirasse acerca do lug ar e ficasse capaz de
contextualizar a realidade urbana, tanto histórica, como cultural e, sobretudo , quanto à
riqueza da env olvente natural de São P edro de Moel.
Uma segunda etapa cor respondeu à visita de campo realizada entre os dias 15 e 18 de
outubro de 2019, onde foi possível estabelecer o primeiro contacto com a Marinha
Grande e conhecer , e visitar , m useus do concelho e registar conv ersas for mais com os
autarcas e os re presentantes dos ser viços técnicos da Câmara Municipal. A primeira
sessão de receção e reconhecimento deste lug ar deu-se no A uditório da Resinagem,
em presença da Presidente de Câmara Municipal da Marinha Grande – Cidália F er reira
–, e da Chefe de Divisão de Gestão do T er ritório – Inês Mar razes . F oram lançados
Figura 18: Os trabalhadores e as crianças trabalhadoras , na antig a Fábrica de Vidros da Marinha Grande (1913).
F otografia histórica de positada numa base de dados dos amigos de São Pedro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/1508938516022185/
Figura 19: Museu do Vidro , Marinha Grande .
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 20: Museu do Vidro , Marinha Grande .
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
33
temas e discutidos problemas da g estão do ter ritório e do património natural. F oi
também referida a trágica e recente ocorrência do incêndio florestal, no Pinhal do R ei,
em 15 outubro de 2017, que deix ou, até ao presente , incontáv eis esqueletos calcinados
de ár v ores ao long o das estradas florestais . Esta revelou-se uma preocupação maior
pelo grau de impor tância que têm os recursos g eológicos , florestais e produtiv os do
Pinhal, e o potencial urbano que , desde o início , foi impulsionado pela sua exploração
económica. Em paralelo , percebeu-se a extrema de pendência do potencial da indústria
vidreira, que impulsionou e proporcionou, historicamente , idêntica visibilidade
à identidade da Marinha Grande, e que per mitiu que esta, de pois , se continuasse a
desen volv er , subsequentemente, como indústria dos moldes .
“ Apenas uma indústria requer 400 camiões diários . Existem
600 indústrias . ” (Mar razes , 2019).
Na visita ao Museu do Vidro , na Marinha Grande, pode compreender-se o processo
de ev olução da fabricação do vidro , primeiro como simples expressão industrial e,
mais tarde, como for ma de expressão ar tística. A valorização da indústria vidreira
caracteriza a identidade por tuguesa do século XVII, que se reinv enta sob o comando
do industrial Guilher me Ste phens . A cultura do vidro está hoje exposta e reunida
nas instalações da antiga Fábrica de Vidros da Marinha Grande , naquela que foi a
residência do fundador , denominada de P alácio Stephens . Impor ta realçar o quanto
a matriz histórica e g eológica deste lug ar per mitiu que o vidro se tor nasse identidade
local, salv aguardada pela madeira do pinhal e as areias das dunas .
Já em São P edro de Moel, o primeiro contacto com o lug ar urbano foi profundamente
imersiv o . Contemplou a visita ao interior de di versas residências de v eraneio de
ex celência, dos anos 40 a 70 do século passado , que tor nam este lug ar tão singular .
Mas incluiu, também, uma visita ao F arol do P enedo da Saudade, a contemplação , em
visita panorâmica, à arquitetura moderna projetada por António Baroseiro , e ainda, a
visita guiada à Casa-Museu Afonso Lopes Vieira.
Nesta última visita, a professora Cristina Nobre sublinhou o poder da cultura literária.
Anotou a impor tância de que esta apetência cultural do lug ar o transfor masse no
epicentro de uma rede de percursos literários , onde as pessoas teriam a opor tunidade
Figura 21: Interior da Casa J oão Simões . A utor J oão P edro Mota Lima Pinto e Cunha. Data de constr ução 1953.
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 22: Exterior da Casa J oão Simões . A utor J oão P edro Mota Lima Pinto e Cunha. Data de constr ução 1953.
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 23: Análise de plantas , no interior da Casa J oão Simões . Autor J oão P edro Mota Lima Pinto e Cunha. Data
de constr ução 1953.
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 24: Casa Victor Manuel Gallo . A utor Manuel T ainha. Data de constr ução outubro de 1971.
F onte: A utoria própria, a 17 de outubro de 2019.
Figura 25: Casa-Museu Afonso Lopes Vieira.
F onte: Cardielos , 2020.
Figura 26: Exlibris Afonso Lopes Vieira.
F onte: Castilho , 2019.
Figura 27: A ula de Cristina Nobre no ter raço da Casa-Museu.
F onte: Afonso , 2019.
39
de conhecer a obra, declamar e recitar poemas do poeta Afonso Lopes Vieira. Essa
poderia ser uma de inúmeras for mas para alcançar nov os e mais v astos públicos , que
prolong assem a sua per manência em São P edro de Moel, estimulados por futuras
residências ar tísticas literárias , lig adas à Casa-Museu. Assim, a homenag em ao poeta
seria rev elada através de uma ação de exaltação da impor tância da dinamização turística
do património cultural e da subsequente valorização das dinâmicas económicas que lhe
estão associadas . Intitulou este desafio de “criação do Lug ar Literário” a par tir da obra
do poeta local.
“ Afonso Lopes Vieira preferia que a sua casa fosse destr uída
por crianças , do que transfor mada num mausoléu. ” (Nobre,
2019).
As aprendizag ens proporcionadas durante as inúmeras visitas guiadas foram div ersas mas
igualmente impor tantes . Os conteúdos contribuíram ativ amente para a compreensão
das sinergias que , ao long o dos tempos , se foram estabelecendo , per mitindo que se
conjug assem e interligassem quase todas as vantagens características da região , das
areias das suas dunas às madeiras das matas , que alimentaram os for nos do vidro ,
mas também a outras constr uções culturais que os homens aí foram estabelecendo ,
em modo literário e arquitetónico . Nenhuma das atuais atividades económicas de
cariz industrial teria acontecido sem a existência do Pinhal do Rei, e sem a posterior
instalação da Administração das Matas Nacionais na Marinha Grande. P or sua vez, só
os moldes para o vidro poderiam estimular tão intensamente , depois , a indústria dos
moldes para o plástico e os seus posteriores desen v olvimentos .
Ainda em trabalho de campo , procedeu-se ao desenv olvimento de um conjunto de
análises temáticas , de âmbito local, que foram depois ar ticuladas a nív el regional e,
sobretudo , com um conjunto de supor tes de enquadramento em g eog rafias mais
alarg adas . A tur ma prestou par ticular atenção aos fatores dos recursos humanos e
históricos , à mobilidade , às características g eofísicas , às morfologias dos espaços
naturais e às características e estado de conser v ação do património constr uído .
Os esforços empreendidos per mitiram, também, perceber até que ponto este destino
balnear está alheado das principais redes de cooperação e org anização turística.
Figura 28: T er túlia, no Café Bambi, a 16 de outubro de 2019.
F onte: Serejo , 2019.
41
Finalmente , uma análise SW OT rematou o reconhecimento do ter ritório , que foi
reunido num relatório geral, com o intuito de o di vulg ar posterior mente . Ficaram
a conhecer -se , deste modo , as mais importantes características físicas do ter ritório ,
e o modo como os mais di v ersos fatores endógenos e exógenos condicionaram e
pressionam o seu desen v olvimento local. Após a reorganização da pesquisa relativ a
a este lug ar , foi apresentado o diagnóstico destinado a supor tar a constr ução de uma
estratégica projetual, a desenv olver seguidamente pela tur ma. F oi decidido que ela
dev eria ser capaz de explicar a leitura daquela paisag em e daquele ter ritório , como
princípio de projeto .
Impor tav a perceber bem o seu funcionamento e impunha-se, como necessidade, o
estabelecer de um prog rama para a prosperidade sustentável, neste lug ar urbano de
São P edro de Moel.
A memória tão especial deste lugar é incontor nav elmente marcada pela sua localização ,
escondido por pinheiros-brav os e delimitado pela ar riba litoral. A iniciativ a (R e-)P ensar
São P edro de Moel foi ainda estimulada, durante a estadia do g r upo , com a realização
de um conjunto de debates públicos , env olv endo a par ticipação de moradores e
apaix onados daquela ter ra, que reconhecem a prog ressi v a desvalorização local. Estão
profundamente env olvidos e tenderão a projetar o seu reconhecimento , memória e
identidade , sendo capazes de se fazer ouvir , como demonstraram frente a div ersos
autarcas presentes em debate público no Bambi Café. Com a presença do ar quiteto
Gonçalo Byr ne , a arquiteta Emman uella Silv a da Quinta, a arquiteta Susana Lobo , o
arquiteto J oão Serejo e muitos moradores de São P edro de Moel, debateram aquilo
que foi e o que é hoje a identidade do lug ar . Inúmeros testemunhos se fizeram ouvir
e discutiu-se a ev entual classificação patrimonial do conjunto de arquitetura moder na
de São P edro de Moel como valor concelhio , ou mesmo nacional. A arquiteta Susana
Lobo referiu, inclusi v e:
“Têm que proteg er o leg ado , aquilo que são os verdadeiros
símbolos de São P edro . ” (Lobo , 2019).
T al como na primeira reunião , realizada na Marinha Grande, também aqui se promov eu
a discussão sobre o Plano Diretor Municipal, de 1995, em vig or , que assenta toda a
Figura 29: Caminhada pela v olta dos 7, com a biólog a Sónia Guer ra.
F onte: A utoria própria, a 18 de outubro de 2019.
43
sua estratégia concelhia de planeamento visando o crescimento , para estabelecer um
concelho industrial mais tecnológico , mas também um concelho natural, e um concelho
mais acessív el e infraestr uturado . Um dos poucos objetiv os claros será o de recolocar
a bicicleta como meio de deslocação quotidiana devidamente infraestr uturada, e
transpor te referencial, capaz de criar uma nov a visão sobre as condições estratégicas
locais . Contudo , ficou evidente a incapacidade instalada para especificar uma estratégia
própria para um lug ar tão singular como é a Praia de São P edro de Moel, em tudo
distinta da outra praia do concelho , a da Vieira de Leiria.
T ambém se debateu: a refor mulação dos acessos à praia e a impor tância de re por
os passadiços ao long o da costa; a requalificação das infraestr uturas da mata; e a
identificação , sinalização e v alorização dos seus percursos pedestres tradicionais . O
objetiv o desta T ertúlia foi bem para além da mera con v ersa de café, pois procurou
encontrar e consensualizar interesses comuns e promov er a par tilha de experiências
coleti vas antigas .
Em relação à questão: Como prolong ar o período sazonal?
“São P edro de Moel devia viv er o ano inteiro , e não ser só um conjunto de refúgios
para a elite, nem para as suas estadias de v eraneio . ” (Nobre , 2019).
“ As atividade s decresceram. Um belo ter ritório que tem sido abandonado aos
refor mados e residentes que preferem a sua tranquilidade . ” (Silvestre , 2019).
A preocupação dos seus moradores , em manter viv a a memória deste lugar , traduz-
-se em fatores primordiais como o da fragilidade do m unicípio ao reconhecer a sua
inoperância face aos desígnios da mata, que ocupa 2/3 do ter ritório concelhio , ao
turismo de natureza e ao turismo balnear .
Durante a visita procedeu-se, também, à realização de inúmeras componentes dos
trabalhos de campo , registos g ráficos e fotog ráficos e , por fim, à caminhada pela v olta
dos 7, acompanhados pela biólog a Sónia Guer ra. Através da descober ta de uma rede
de percursos singulares , percor ridos no interior do pinhal, explorou-se em diálog o
ativ o tudo aquilo que env olv e a beleza da paisagem, e também tudo o que se tem
Figura 30: Caminhada pela v olta dos 7, com a biólog a Sónia Guer ra.
F onte: A utoria própria, a 18 de outubro de 2019.
Figura 31: P onto Nov o - P osto de vigia.
F onte: A utoria própria, a 18 de outubro de 2019.
45
perdido para os fog os , como aconteceu no último g rande incêndio de 2017. De uma
passag em pelo P onto Nov o – tor re de vigilância – à identificação dos mais variados
sinais e indicadores da qualidade da biodiv ersidade, ou ao aparecimento de plantas
infestantes , às quais a tragédia deu aber tura, o Pinhal foi reconhecido como um projeto
a long o prazo , que tem de ser valorizado pela impor tância dos seus recursos g eológicos
e biodiv ersos – fauna e flora – que oculta. A reposição de um modelo produtiv o
sustentáv el de exploração ag ro-florestal, dev e ser implementada rapidamente .
Se o contacto direto com os habitantes se rev elou fundamental para recolher opiniões
div ersas acerca deste local histórico e polo cultural, posterior mente, o cr uzamento
de dados recolhidos no lug ar despoletou uma consequente conjug ação de intenções
individuais , que per mitiram propor a estratégia de tur ma.
Após uma clarificação dos métodos de representação a aplicar aos resultados e
mapeamentos g ráficos mais relev antes , para expor todo o conhecimento recolhido
durante o ex ercício coletiv o de análise, foram obviamente iniciados os esforços de
comunicação das ideias que resultaram da inter pretação explorada com base nas
práticas de projeto individual.
A estratégica encontrada, para uma solução integrada e global, propôs a criação
de um sistema que ar ticulasse vários pontos – e arquiteturas –, dando a conhecer
div ersas geog rafias e temas que , dentro de São P edro de Moel, per mitem igualmente o
estabelecimento de lig ações relevantes fora da pov oação . O mapeamento dos lug ares
e a rede de lig ações entre eles define a maneira como os temas e as preferências criam
respostas aos problemas de contexto . Esta etapa concluiu-se com a apresentação de
resultados , perante um júri que incluiu de convidados exter nos .
O objeti v o começou pela tentati v a de alinhar o pensamento da população com o da
autarquia, com vista à infor mação da revisão , em curso , do Plano Diretor Municipal. Com
o intuito de dar visibilidade à falta de equilíbrio decor rente da perda de transparência
e da imper meabilidade visual prog ressi v a entre os lotes , e também, de dar um impulso
à av aliação do ag reg ado ar quitetónico de ex celência, estudaram-se soluções que, entre
outras conclusões , apontaram também o reconhecimento da fragilidade turística. P ara
o arquiteto Gonçalo Byr ne, a praia é hoje a sua principal ou única economia, perderam-
Figura 32: Exposição pública dos resultados da unidade cur ricular de Atelier de Projeto II, na esplanada do Café Bambi.
F onte: A utoria própria, a 21 de junho de 2020.
Figura 33: Professor João P aulo Cardielos e Presidente de C. M. da Marinha Grande, Cidália F erreira; no interior
do P osto de T urismo .
F onte: A utoria própria, a 21 de junho de 2020.
Figura 34: Exposição pública dos resultados da unidade cur ricular de Atelier de Projeto II, na esplanada do Café
Bambi.
F onte: A utoria própria, a 21 de junho de 2020.
Figura 35: Maquete exposta no P osto de T urismo .
F onte: Mac hado , 2020.
47
-se alguns campos ag rícolas para se g anhar o lúdico como identidade (Byr ne , 2019).
Esta vontade de concretizar ideias e projetos mais amplos , ou mais utópicos , surge da
v ontade de fazer revi v er São P edro de Moel como uma projeção da sua identidade , na
cer teza de uma compreensão do contexto que este lugar impõe.
Numa terceira etapa, no início do segundo semestre , a unidade cur ricular de Laboratório
de Projeto I-C , sob o mesmo lema de T er ritório e P aisag em – que irá culminar com
a produção de uma série de teses práticas de mestrado – levou o g r upo a par ticipar
numa conferência pensada para ampliar a base de infor mação especializada disponível,
para a realização dos projetos . Em 28 de fev ereiro de 2020 decor reu o Fór um Técnico –
Mobilidade, Des envolvimento , Futur o Sustentável , na Casa da Cultura, T eatro Stephens . Este
Fór um consistiu na promoção de uma discussão entre várias entidades , públicas e
priv adas , sobre a constr ução da identidade da Marinha Grande e de São P edro de Moel.
Contou com a participação de especialistas em di versos temas , tais como: as redes de
transpor tes , incluindo a viag em em bicicleta; a discussão sobre o P atrimónio Florestal e
o turismo de natureza por F rancisco Castro Rego , Ex-Presidente da Direção Geral dos
Ser viços Florestais , e por Sónia Guer ra; sobre as potencialidade da Costa Atlântica; e
ainda, por fim, o músico P aulo Lameiro , antig o mentor do Projeto Cultural “Pinhal
da Ar tes”, com a apresentação do desafio de candidatar Leiria a Capital Europeia da
Cultura, em 2027.
F oi, ainda, realizada a montag em da exposição pública dos resultados do primeiro
semestre que , apesar do CO VID-19, aconteceu na esplanada do Café Bambi, e no P osto
de T urismo , com início em 21 de junho de 2020. F oi então apresentada e comunicada
a estratégia de tur ma à população , sob a for ma de 25 car tazes A0, que aí perduraram
até ao início de outubro . Esta amostrag em de for te impacte visual, dev eria ter sido
acompanhada de um conjunto de debates , que ainda não foram concretizados . Os
impedimentos prenderam-se com a ocor rência da pandemia. A comunicação assentou
na produção inter na que resultou da in vestigação , da análise SWOT , do relatório
final e integ rou a elaboração e exibição de uma maquete g eral, à escala 1: 2.000, que
per manece exposta no P osto de T urismo , em São P edro de Moel.
A fase de trabalho seguinte en volv eu opções de seleção de ações apontadas na
estratégia coleti v a. Essa metodologia pressupunha uma consensualização , sob as
Figura 36: Análise relativ a aos Espaços Naturais .
F onte: Atelier de Projeto II.
49
deter minações definidas na etapa de estratégia, que seria a base para cada um dos
ex ercícios individuais de projeto . Assim, a minha possibilidade de trabalho individual
concentrou-se na impor tância de fazer ressaltar , para a tor nar compreensív el, a leitura
e riqueza da paisag em – ou das paisag ens env olv entes . T or nou-se imediatamente
relev ante o apuramento da análise aos espaços naturais , porque é entre pinheiros-
-brav os ( Pinus pinaster ) que se cr uza a história de uma planície litoral cober ta por dunas ,
onde no contexto natural se funde tudo aquilo que é inter v enção humana.
O Pinhal do R ei é uma espécie de pedagogia mista que, apesar do registo florestal
dominante ser o do pinheiro-brav o , per mite encontrar, escondidos nesse regime de
monocultura, recantos bem especiais . Uma di v ersidade de flora indíg ena está presente
nas zonas de proteção da mata e é composta por pinheiro-manso ( Pinus pinea ), que é um
elemento nati v o do litoral, car valho car rasco ( Quercus coccif era ), samourqueiro ( Myrica
faya ), loureiro ( Laur us nobilis ) e eucalipto ( Eucalyptus ). Mas , impor ta lembrar que, antes
de se estr uturar aquilo que é hoje o Pinhal do R ei, o pinheiro-brav o não era o elemento
predominante nesta paisag em. Existiriam apenas g r upos de pinheiros-mansos ,
car v alhos e v egetação arbustiv a rasteira. Experiencia v a-se aqui um lug ar mediter râneo .
Hoje, porém, ainda se desenv olv e nos areais do pinhal de proteção alguma v egetação
autóctone , como os medronheiros ( Arbutus unedo ), a camarinheira ( Cor ema album ), as
urzes ( Calluna vulgaris ) e o sarg aço ( Cistus salviifolius ). Nas zonas onde a intensidade de
luz é menor , tor na-se comum encontrar espécies como a urze-branca ( Erica arbor ea ),
o trovisco ( Daphne gnidium ), a giesta ( Cytisus grandiflorus ) e o tojo ( Ulex eur opaeus ), planta
arbustiv a que o poeta Afonso Lopes Vieira associa a um pinhal botânico .
“O Pinhal ag ora é um jardim de tojo . T odas as penumbras
da selva estão iluminadas pela flor amarela dos tojeiros . É
a idade de Oiro . De pois , no Outono , é a idade dos R o x os
suav es e austeros , e da púrpura, nas florações dos urzes e
dos medronheiros . E é também quando eu prefiro a amada
selv a, na resfalecente meia-tinta, no religioso tom-menor que
tudo realça, animiza e claro-escurece de expressões poéticas . ”
(Vieira, 1909).
Ao long o da primeira linha do cordão dunar litoral obser vam-se vários conjuntos de
Figura 37: Pinheiro-serpente centenário , classificado como ár v ore de interesse público .
F onte: A utoria própria, a 9 de julho de 2020.
51
pinheiros serpentes ( Pinus pinaster Aiton ) que, por falta de proteção face à ação dos
v entos e à elev ada salinidade, apresentam características recur v adas , e com aspeto
rasteiro . Está mesmo classificada como ár v ore de interesse público 4 um pinheiro-
-serpente centenário , com cerca de 10 metros de altura, localizado no talhão 231.
Quanto ao estudo da fauna presente no interior do Pinhal, segundo a biólog a Sónia
Guer ra: “…parece não ha ver actualmente diferenças significativ as na div ersidade
faunística comparati v amente aos registos efectuados por [Arala] Pinto (1939) há mais
de 60 anos . ” (Guer ra, 2011). O esquilo-v er melho era, antes do último incêndio , a
espécie dominante por toda a mata e em espaço urbano , ainda que, nas micro clareiras ,
se encontre a raposa, a toupeira, a doninha e o texug o . Os pássaros que pov oam os
diferentes habitats , encontram aqui abrig o e refúgio seguros .
O ribeiro de São P edro , ao percor rer o Pinhal do R ei, recolhe a água de outras ribeiras
que nele con vergem até desaguar junto à sua foz, na Praia V elha. Ao long o deste curso
de água está presente uma enor me v ariedade de fetos , líquenes e musg os , preser v ados
numa área relev ante de proteção florestal. Compreende-se que este ambiente de refúgio
é consequência de um ex cecional bosque de eucaliptos , também classificados como
conjunto de ár vores de interesse público 5 , localizado no talhão 246. Mas este bosque
foi amplamente afetado pela ocor rência, em 2018, de uma tempestade tropical – o
furacão Leslie – que penetrou por aqui no ter ritório continental, der r ubando centenas
de ár vores , deste g r upo que ha via sobrevivido ao incêndio do ano anterior .
Apenas numa área restrita de Pinhal, delimitado a nor te pelo Rio Lis e a sul pela praia
de Água de Madeiros – en v olv endo a po voação de São P edro de Moel –, contam-se 7
histórias a vassaladoras de incêndios . A impor tante produção de madeira retirada desta
paisag em, sem reflorestação , reduz-se a cada dia. Há inclusiv e a acácia e a tintureira, que
sendo espécies in vasoras e predadoras , já começaram a descaracterizar o Pinhal, sendo
necessária uma inter venção impor tante e indispensáv el, para o voltar a fazer renascer
das cinzas e prosperar por contínuas g erações , pois ele é uma marca verdejante que em
todos suscita emoção e afeição .
4 D .R. nº 32 II Série de 07 de fev ereiro de 1997.
5 D .R. nº 32 II Série de 07 de fev ereiro de 1997.
53
“Cheg o de Lisboa à praia e à floresta. Que expansão de encanto
na minha alma! Log o que estou aqui, o meu v erdadeiro eu
apossa-se de mim, e tenho a satisfação singular de me começar
a sentir . ” (Vieira, 1909).
A abordag em de tur ma procurou ar ticular a dimensão do tempo , tradição e memória,
numa proposta temática capaz de g erar uma rede de lug ares de visitação ou experiência,
a fim de dar a conhecer este lug ar urbano e as suas múltiplas v alências . Esta rede,
como um rizoma, proporciona múltiplos níveis de leitura e sucessiv as descober tas , em
ar ticulação com outros destinos da região centro e do país .
O exercício pretende ser reflex o direto da análise inicial, pois há um conjunto de temas
estudados que integ ram o relatório de tur ma onde se trabalharam várias frentes , desde
o v alor g eofísico até ao espaço constr uído , desde a etnog rafia à estr utura social e,
até, à história. T udo isso per mitiu tirar conclusões para justificar a estratégia, para
que as propostas urbanas ar ticulem programas e infraestr uturas que sejam verdadeiros
espelhos da leitura do ter ritório . Assim se pretendeu que acontecesse , também, com
o ex ercício que desenv olv emos , de um percurso re pleto de sensores para estim ulação
humana, imersos nesta paisag em.
Figura 38: R ede rizomática, a nível nacional.
F onte: A utoria própria.
Figura 39: R ede rizomática, distrito de Leiria.
F onte: A utoria própria.
Figura 40: R ede rizomática, concelho da Marinha Grande.
F onte: A utoria própria.
55
1.4. Estratégia de tur ma – Riz oma
O conceito de rizoma ou rede rizomática, anterior mente apresentado , foi adotado
pelos filósofos Deleuze e Guattari no livro A Thousand Plateaus (1980). Um modelo
epistemológico que faz a compilação de um sistema de redes múltiplas entre os seus
elementos . T rata-se de um conjunto de conexões v ariadas que estabelecem entre si
uma pro ximidade e/ou uma longinquidade, porém, sem n unca descaracterizar o valor
da rede temática. Esse é o objeti v o da rede rizomática, o de poder expandir-se sem um
limite definido .
“ A rhizome ceaselessly establishes connections betw een
semiotic c hains , org anizations of pow er, and circumstances
relativ e to the ar ts , sciences , and social str ug gles . ” (Deleuze,
Guattari, 1987, p . 7).
O conceito da rede rizomática surge ao long o do desen v olvimento do processo
metodológico . F oi através da rede temática múltipla que se constr uiu uma estratégia,
com base nessa sobreposição cr uzada de cadeias de v alor , em relações de escala v ariáv el,
desde a escala de pro ximidade até às escalas de território larg o , ou mesmo , de algumas
redes europeias – como a das áreas de exploração de floresta nacionais .
O rizoma coleti v o tem duas fortes v er tentes – a cultural e a da exploração ambiental –
sendo ambas potenciadoras de v er tentes turísticas complementares . Ambas se cr uzam
porque o próprio Pinhal é uma espécie de fusão das duas condições . É por entre
pinheiros que acontece a natureza e acontece a razão mais for te da cultura local, quer
para o vidro quer para a produção florestal, mas também para as ligações históricas da
floresta ao estado por tuguês . A cultura aqui, compreende as redes de criati vidade, de
ar te e de literatura. P or exemplo , o aluno J oão Viv eiros , com o tema Lug ar Literário ,
57
realça a impor tância do leg ado do político e poeta Afonso Lopes Vieira; a aluna Beatriz
Baptista, com o tema Lug ar para as Ar tes , estabelece uma infraestr utura local para
promov er , entre os residentes , as relações entre a ar te digital e a cultura contemporânea,
ou ainda, a aluna Ana Castilho , com o tema Lug ar Criativ o , força a relação entre a
cultura e a exploração da inov ação e das atividades criati v as aplicadas à realidade
ecológica e às ati vidades industriais .
Os projetos não se focam apenas na condição de ambiente e cultura. Esses são aqueles
que estão mais centrados na v er tente turística e de destino balnear . Estabelece-se uma
leitura do ter ritório que procura reinv entar um destino que, hoje, está em decadência
e, como tal, tem de reconquistar nov os públicos e alarg ar os períodos de estadia,
combatendo a sazonalidade. O mesmo acontece quando a aluna Ana Afonso , com o
tema Lug ar de Saúde e Bem-Estar , trabalha o Complexo – ar r uinado – das Piscinais da
Promoel, com o qual pretende contribuir , ati v amente, para um usufr uto an ual. Ou até,
quando pensamos numa condição mais simples de v eraneio e de lazer , como acontece
com a reinstalação da P ousada da J uventude , que é tema do Lug ar de P assag em e
Convívio , da aluna Helena P eixoto . São P edro de Moel é muito mais que uma praia e ,
como tal, o rizoma acrescenta v alor à exploração de atividades na natureza ou remete
para a história do vidro , ou para a história e património das matas .
Com o tema Lug ar de Conhecimento , desen volvido pela aluna Mafalda T opa,
saltamos para um circuito muito alarg ado , no seio das matas . R evisitam-se muitas
das estr uturas edificadas que estão perdidas e abandonadas , conv er tendo-as em
extensões viv as do Museu Nacional da Floresta, há muito definido em prog rama
jurídico , mas ainda por instalar . Esta ideia de percurso ativ o , que é ao mesmo tempo
cultural, lúdico e de autodescober ta, é no fundo um estímulo a um cer to nomadismo
urbano . T emos presentes a cultura urbana e o lazer , em simultâneo . E são , todos ,
lug ares de experiências . Quando exploramos o tema lazer log o adicionamos outras
temáticas , como a autodescober ta. Existem Lugares Sensív eis propícios à experiência,
que pretendem ser bem mais do que simples circuitos na paisag em, proporcionando
autor reconhecimento e v alorização pessoal.
Existem ainda outros casos onde a cultura, em sentido lato , se tor na mais prática e
endóg ena: na exploração da renov ação da centralidade, com o tema Lug ar Central, do
59
aluno R ogério Bar roso , ou o Lug ar para as Ar tes , que relocaliza a cultura contemporânea
no Bair ro dos Naturais . O mesmo acontece com o tema Lug ar e Cultura em Ambiente
Natural, da aluna Bárbara Machado , que impulsiona a ideia de saber viv er a cultura na
natureza, mas em ambiente profundamente urbano .
Sobre o ponto de vista das redes de relações há, inclusi ve , projetos que se encadeiam
uns nos outros , como é o caso do tema Lug ares de F ronteira, da aluna Inês R osa, que
é complementar dos Lug ares Sensív eis , sob o ponto de vista da lógica dos circuitos
locais – mas que , alter nati vamente , explora a corda de visitação das ar ribas litorais ,
desde o Lug ar Literário central, culminando num espaço de di v ersão , que é por ta
urbana nor te , per to do farol.
P or fim, o tema Lug ar de Encontro e P ar tida, pelo aluno André Galhardo , procura
instalar um centro de ser viços comerciais , fazendo a inter -relação da cultura e do
turismo , capaz de g erar incenti v os e modelos alter nativ os de exploração turística
comercial – estim ulado pelas aprendizag ens v eiculadas no Fór um Técnico .
Estamos presente uma rede rizomática sem conflitos . Quando se estabelecem relações
entre equipamentos culturais da aluna Ana Castilho , da aluna Beatriz Baptista ou da
aluna Bárbara Mac hado , todos têm relações evidentes e complementares . Quando
associamos o Centro Cívico do aluno R ogério Bar roso ao Complexo das Piscinas ,
imediatamente emerg e uma no v a dinâmica urbana, entre polaridades que, sob um olhar
que se perspeti v a muito urbano , se pode tor nar m uito impor tante . Existe ainda um outro
tipo de equipamentos que entram nesta rede de prog ramas urbanos , como o Lug ar de
Comunidade , pelo aluno J oão Costa, que explora a atração de nov os públicos residentes
per manentes . Os alunos Helena P eixoto e J oão Viv eiros desen volv em equipamentos
culturais aparentemente mais conv encionais , mas igualmente impor tantes , sob o ponto
de vista do agitar da bandeira das dinâmicas locais .
Depois de estabelecida a rede rizomática global, tor nou-se fulcral encontrar parcerias
que dão evidência à estratégia individual. O rizoma proposto pela tur ma é composto
por percursos , equipamentos coletiv os e temas de supor te , que são as grandes pedras-
-c hav e, desta alquimia urbana. P ara tal, é preciso saber onde lig ar o nó de cada projeto
ou de cada espaço público que se está aqui a constr uir . Existem, sobretudo , propostas
61
de espaços públicos e de infraestr uturas que se ag ar ram às redes de percursos , e isso é
o que melhor caracteriza o projeto para São P edro de Moel. São diferentes trabalhos
que viv em desta relação , entre as dinâmicas desejadas e o destino turístico , cultural,
natural e ambiental. Esta é a matriz da tur ma.
Alguns dos ex ercícios indi viduais , que integ ram algumas destas sinergias , dentro da
lógica da rede rizomática, não têm um fim integ ralmente concretizado em São P edro
de Moel, e ambicionam expandir -se para a Marinha Grande, ou mesmo para fora do
concelho . P or ex emplo , o tema Lug ares de Fronteira, da aluna Inês R osa, cor responde
a uma nov a for ma de percor rer São P edro de Moel através da refor mulação dos
passadiços litorais , que percor rem toda a costa portuguesa. De algum modo , este tema
lig a-se através da rede de destinos turísticos de pequenas e g randes rotas do cristianismo
ou das ciclo vias nacionais . Prov av elmente, um utilizador que desfr ute da experiência
de percor rer um passadiço procurará descobrir os outros , quer seja o passadiço do
P aiv a, de Mira ou da Costa Nov a, e também de São P edro de Moel – e integ ram todos ,
apenas , a rede da região centro . É nesta lógica que a estratégia de tur ma constrói o
destino ao nível nacional, não remetendo apenas para que São P edro de Moel seja
destino último ou isolado , como hoje lhe acontece .
O objeti v o principal consiste em colocar a estratégia de tur ma como uma lógica de
rede, em que os projetos não são peças isoladas , mesmo que, depois , tenham a sua
autonomia do ponto de vista físico .
A aluna Bárbara Machado ao desenv olver um anfiteatro , localizado no V ale do Ôlho ,
não tem um contacto físico próximo com nenhum outro projeto , mas estimula-o
visualmente . Ou seja, não é preciso marcar ou delimitar um caminho para lig ar os nós
da rede . Num outro exemplo , entre o Complexo das Piscinas e o nov o Centro Cívico ,
há o desejo de tencionar polaridades que estabelecem riqueza na zona Sul e na zona
Nor te , relativ amente à mais tradicional Praça Afonso Lopes Vieira – a antig a Praça das
Matas Nacionais . A estratégia pretende conquistar o espaço de São P edro de Moel e ,
nestes dois casos em par ticular , está à procura de públicos que residem fora deste lug ar
urbano . Estes projetos procuram encontrar e fixar uma comunidade mais alarg ada, que
aqui poderá encontrar os benefícios propostos pelo prog rama ou que , ev entualmente,
se v ai deslocar porque , no caso do Centro Cívico , tenderá a encontrar um ambiente
63
laboral mais propício para a criati vidade e o desen v olvimento de ati vidades criati v as ,
relacionadas com a cultura, os moldes e , porque não , as matas .
A estratégia global coloca ainda, pontualmente , desafios para no v as dinâmicas – como
quando o aluno J oão Costa estabelece um prog rama para o env elhecimento ativ o ,
ou a aluna Ana Afonso recoloca as terapias de água salg ada, marítima, dentro da
balneoterapia –, que tenderão a for talecer prog ramas numa lógica de relação entre
São P edro de Moel e as comunidades próximas , e, ev entualmente , até outras mais
longínquas , nalguns outros trabalhos .
O coletiv o de projetos funciona como um ex ercício de acupunctura, em que as agulhas
tocam pontos sensív eis capazes de ati v ar relações bem mais amplas .
Re de riz oma
65
Re de riz oma
Re de riz oma
1. Lugar de Comunidade
2. Lugares Dinâmicos (despor tos de raquete)
3. Lugar (parque) de A ventura
4. Lugar Produti vo
5. Lugar (de inter pretação do) Moderno
6. Lugar de Encontro e P ar tida (à descoberta)
7. Lugar à Ciência Viva
8. Lugar à Inter pretação Ambiental
9. Lugares de Convívio
10. Lugar de P assagem e Convívio (pousada jovem)
11. Lugares de F r onteira e Entretenimento
12. Lugar para as Artes
13. Lugar Central
14. Lugar de Conhecimento
15. Lugar Criativo (pedagogia, inov ação e criatividade)
16. Lugar de Encontro (ser viços da colónia balnear)
17. Lugar de Cultura em Ambiente Natural
18. Lugar Literário
19. Lugares Comuns
20. Lugar de Saúde e Bem-estar (piscinas , talassoterapia)
21. Casa-Museu Afonso Lopes Vieira
22. Café Bambi
23. Centro de Interpretação de Arquitetura Modernista
24. F arol do P enedo da Saudade
25. Centro Astronómico do Pinhal do Rei
26. P osto de vigia - P onto Nov o
Nota: a negrito indicam-se os projetos desenvolvidos em T eses de Mestrado .
67
esc . 10000
69
2. INVESTIGAÇÃO P ARA O PR OJET O
71
2.1. Objeti v os e pro g rama
Este estudo dedica-se aos ar tistas da paisag em e ao modo como eles manipulam a
imaginação , a razão e os sentidos n um só ex ercício . A experiência ar tística per mite
fazer uma análise poética ao lug ar e à sua for ma, através da identificação e compreensão
do supor te ter ritorial, que se faz espacial e temporalmente, como uma realidade
experienciada por meio dos sentidos .
O objetiv o deste exercício individual de projeto começa por associar , à paisag em de São
P edro de Moel, valores de apreciação estética, de experiência e de autodescober ta. P ara
infor mar esse desafio , pretende-se fazer uma reflexão teórica que procura analisar o
lug ar como um v eículo para a criação de projeto e identificar espaços que sensibilizem
e estim ulem o utilizador .
“Sensor y experiences become integ rated through the body , or
rather , in the ver y constitution of the body and the human mode
of being . Psychoanalytic theor y has introduced the notion of
body image or body sc hema as the centre of integ ration. Our
bodies and mov ements are in constant interaction with the
environment; the w orld and the self-infor m and redefine eac h
other constantly . ” (P allasmaa, 2005, p . 40).
T rata-se de explorar o lug ar fenomenológico como potenciador da experiência poética,
na arquitetura, com o cor po e os sentidos . Existem, hoje, inúmeras visões sobre a leitura
da paisag em, inúmeros tipos de experimentação , inúmeras tendências e opor tunidades
acerca da vivência quotidiana no lug ar . Existem ag ora inúmeras questões ao projeto:
como é que, em São P edro de Moel, posso relacionar o corpo com o espaço? Como
é que se estabelecem relações com o existente e como se retira usufr uto válido dessa
73
experiência? Como é que se trabalha sobre a imensa mancha v erde de pinheiros , e o
que é que transmite a sua impor tância às pessoas?
A escolha do tema de projeto foi rev eladora, com base no pensamento radical de
experimentar uma proposta que reivindicasse o estudo do ter ritório e da paisag em. A
ambição de relacionar o ambiente natural de São P edro de Moel com a ar quitetura está
associada ao contexto de trabalho , centrado na ideia de lug ar urbano , e depende da
inv estig ação para o projeto , para a configuração de bases teóricas de supor te à prática
arquitetónica e ambiental. O interesse pessoal provém da inv estig ação realizada sobre
a ev olução constante da paisag em, desde a compreensão do lug ar à experiência, onde
se domina o espaço como tema conce ptual e ar quitetónico . O estudo compreende
a integ ração da paisagem atra vés de ex ercícios de ar quitetura experimental e de
explorações no campo da sensibilidade humana, de modo a que se obtenha uma
realidade simbólica cujo significado dev erá per manecer radicado na referenciação da
sua cultura específica.
O tema Habitar a P aisag em surge como suporte de projeto , no seio das condições
naturais e urbanas , sobre o qual se v ai desenv olver a arquitetura da paisagem. T odavia,
a arquitetura pretende ar ticular práticas experimentais , inter venções no espaço e na
natureza que prov ocam, nos lug ares inter vencionados , uma reação sentimental e de
abstração , transfor mando-os em realidade simbólica. A interpretação da leitura, em
cada lug ar , surg e da per tinência do estudo pelo desenho à escala urbana e à escala do
objeto . Dentro desta estratégia reflete-se a interação da arquitetura com a paisag em, a
experiência imersiv a e a introspeção pessoal, como temáticas que objetiv am interlig ar
o espaço físico e a natureza através da presença humana. Impor ta compreender as
poéticas do sublime e da paisag em e reinter pretá-las hoje, pois constituem par te dos
desejos de in vestigação .
A inv estig ação para o projeto deve prev alecer sobre a simples leitura de um conjunto
de espaços simbólicos dispersos na paisag em, na qual somos conduzidos à natureza
que transfor mamos enquanto fenómeno cultural. São P edro de Moel nasce dentro de
um manto verde de pinheiros e da poética dos elementos que o estr uturam: o ribeiro ,
a praia do litoral Atlântico , a literatura e a arquitetura moder na. O exercício debr uça-
-se simultaneamente sobre o desejo de sentir os lug ares especiais e de criar relação
Figura 41: Visita de campo ao interior do Pinhal do R ei, contou com a par ticipação do J oão Beltrão .
F onte: A utoria própria, a 27 de fevereiro de 2020.
Figura 42: Visita de campo , Areeiro .
F onte: Autoria própria, a 9 de julho de 2020.
Figura 43: Visita de campo .
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 44: Visita de campo , P ombal do Rei.
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 45: Visita de campo , parque de merendas .
F onte: Autoria própria, a 8 de julho de 2020.
Figura 46: Visita de campo , P osto de vigia - P onto da Crastinha.
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
75
com as arquite turas , e ainda com a possibilidade de ativ ar sensações atra vés da riqueza
do ter ritório e da prática ar tística. Dedica par ticular atenção à condição ambiental
e à dimensão da dúvida sobre como fixar um conjunto de objetos que completam
o espaço , conv er tendo-o numa rede de lug ares intimistas . Os objetos apresentados
são o resultado da leitura do ter ritório de São P edro de Moel, são como que o vnis
pousados onde a arquitetura coloniza o lug ar . A intensidade das experiências sensoriais
e emotiv as no ambiente natural está relacionada com o processo pessoal, que env olv e
um exercício , como o de deambular – aludindo à “ flânerie ” (Careri, 2002) –, que se
conv er te n uma vertente perfor mativ a de interação com a paisagem.
A procura e o reconhecimento de momentos simbólicos apelam ao sentimento
associado ao lug ar para que se tor nem reflex o dos sentidos e da razão . A leitura
de marcas do passado está associada ao retrato da paisag em, faz-nos apro ximar e
reconhecer um conjunto de elementos que constroem a sua imag em e identidade.
É por entre os pinheiros que se rev ela o verdadeiro estím ulo aos sentidos , nasce do
poder natural e da carg a poética de elementos que o constituem: o vento , as ar ribas , os
monumentos vi vos arbóreos e os percursos pedestres como desafios de descober ta.
P osto isto , surg e a possibilidade de associar um prog rama sociocultural que seja
capaz de oferecer uma nov a realidade urbana a par tir de uma análise poética sobre
ar te , paisagem e memória. Pretende-se que esta abordagem seja capaz de promov er
uma interação com o ter ritório numa v er tente introspeti va, lúdica e experimental,
reforçando aspetos de relação indi vidual e/ou coletiv a. Quer -se pensar n um conjunto
de espaços que desafiam o espectador a experienciar diferentes for mas de olhar , tocar ,
ouvir e pensar .
P or fim, o objetiv o deste exercício começa por analisar a realidade urbana de São
P edro de Moel como fator propiciador de nov as leituras da paisag em, propondo
uma estratégia g eral de desenho urbano capaz de ar ticular memórias e vivências já
esquecidas , para reforçar nov as experiências entre residentes e visitantes . Como é que ,
em arquitetura, podemos reativ ar o uso sensorial da paisag em de modo a dialogar com
lug ares sensív eis?
77
2.2. Descodificar a paisa gem - Leitores de paisa gem
A questão de in v estig ação fez com que a análise teórica me inter rog asse, sobre , até que
ponto esta procura incessante de tentati vas de respostas , aparentemente inúteis , possa
ser a procura da explicação para a utilidade da paisag em.
Viv emos numa época materialista em que a sociedade consome arbitrariamente toda a
espécie produtos , e de v alores (Llosa, 2012), de algumas coisas “inúteis” que enfatizam as
práticas quotidianas . O Homem já não consegue associar o domínio sobre a reverência
da estética do lug ar ou (re)conhecer o seu significado sensorial – se, por ventura, fosse
necessário para ele , íntima e individualmente , apenas um pouco de tudo aquilo que o
rodeia. A ignorância destes fatores faz com que , eventualmente , as respostas “inúteis”
lhe possam transmitir um significado especial, rev elando-se como utilidades e saberes
que , com a interpretação da paisag em, podem ter um papel fundamental na cultura
contemporânea. Um poeta, um filósofo , um paisagista, um ar tista da paisag em, um
arquiteto , dev em bastar para demonstrar que as várias inter pretações pessoais , se
deixam imprimir pela impor tância da liberdade sensorial.
O ter ritório e a paisag em são v eículos de um prazer momentâneo que resulta do olhar e
das inter pretações do utilizador . O descontrolo do tempo – do linear , cronológico , que
alimenta a vertig em do consumo quotidiano – e a contemplação do espaço , sublinham
v alores semelhantes à T ríade Vitr uviana. De igual for ma, a paisag em pode remeter-nos
para o seu processo constr uti vo e de estabilidade naturalista ( fir mitas ), para a utilização
de ambientes personalizados ( utilitas ), e para sua sensibilidade estética captada através
do emergir do nosso inconsciente ( venustas ). O objetiv o passa por clarificar a projeção
da paisag em, tendo ela as mesmas implicações que um exercício de desenho em
arquitetura. A representação dessa imagem vai moldar a caracterização de um lugar
em par ticular; emerg e a contaminação de conhecimentos que , aparentemente inúteis ,
79
transmitem instr umentos úteis para o campo de in v estigação pelo projeto .
Um lug ar na paisagem é idealizado para dar resposta a um problema, nasce para
que uma sociedade concreta possa apropriá-lo e atribuir-lhe uma função espacial. Se
comparar mos a paisagem a uma obra de ar te , cultiv amos a utopia de que a sociedade se
impõe sobre ela, apesar da sua aparente inutilidade ser vir claramente para nos ilustrar
que tem funções estimulantes e que nos circunda de necessidades úteis à criação . O
limite da sua essência é caracterizado por realidades difíceis de apreender , de tal modo
que , enquanto sociedade moder na, não temos consciência da quantidade e v alor desse
saber cultural. A estas finalidades acresce a impor tância de fazer sentir aquilo que
é inútil para o utilizador , pois essas sensações serão instr umentos de supor te que
descodificam olhares de tempo e espaço .
A leitura da paisag em requer , sobre o domínio do inútil, sentir e descobrir os lug ares .
Adapta a perceção ao ato prático para que , no fundo , se descubra que é útil à medida
que o utilizador vai constr uindo a imagem estética do lugar . Se considerar mos que a
paisag em (passiv a) é útil, não lhe é reconhecida a beleza aos olhos do utilizador (ati v o),
porque ambas representam a inutilidade aliada ao culti vo do significado .
“Como sugere o Cirano de Edmond R ostand nos v ersos finais
de pièce , o inútil é necessário para tor nar todas as coisas mais
belas: “Que dites-v ous?... C’est inutile?... J e le sais! / Mais on
ne se bat pas dans l’espoir du succès! / Non! Non, c’est bien
plus beau lorsque c’est in utile!”” (Ordine , 2017, p .17).
Esse processo intensifica-se atra vés do uso da paisag em como elemento de aprendizag em.
Interfere com a profundidade da consciência sobre o seu valor relati vo . P ara tal, é
preciso reunir um leque vasto de sensibilidades , sobre estas complementaridades que
são as ar ticulações entre a sensibilidade ar tística e a sensibilidade ar quitetónica. Ou a
leitura do ter ritório , a partir de utilizadores que conhecem e que viv em a experiência
ter ritorial e local.
Ao criar uma sequência de lug ares na paisag em de São P edro de Moel, intensifica-
-se a opor tunidade de experimentar , em sítios opostos , diferentes cargas emocionais;
81
diferentes exposições sensoriais de perceção do ter ritório , sobre elementos
consequentes do tempo , da cor , do clima e da distância. No fundo , perceber como é
que se aplicam as receitas , das sensações de J uhani P allasmaa ou de P eter Zumthor , aos
tempos e v alores do presente , num quadro de existência humana atual, de consciência
social e ambiental. A abordag em desta in v estig ação implica focar na habitabilidade da
paisag em, adotando a experiência como temática espacial. Qual a relação da for ma de
habitar a paisag em e o que habitamos nela? É através da poética do espaço (Bac helard,
2008) 6 que nos apercebemos da ar quitetura ambiv alente .
Separamos os iluministas dos românticos do pitoresco , por estes últimos copiarem a
natureza e por não serem capazes de a reinv entar . A sensibilidade naturalista neg a o
extremo dos racionalistas que a domestica vam, porém, rejeita o olhar dos naturalistas
românticos que não transfor mav am a natureza por que a viam intemporal. Duas
g randes cor rentes – a racionalista purista e o iluminismo neoclássico – o contraste da
domesticação da paisag em e o passado fixo num nov o presente. Ao long o da história
da arquitetura, o pitoresco apurou o romântico , tor nando a natureza mais perfeita do
que ela alguma vez fora. Na v erdade, a natureza nunca foi bucólica nem amena, porque
os seus rios ou estav am secos , no v erão , ou pro v ocav am enxur radas e inundações no
inv er no; porque havia mau tempo e as ár v ores caiam, mas , nos parques pitorescos dos
românticos , a paisag em mantinha-se perfeita e a arquitetura desaparecia no meio de
toda a sua verdura. P elo contrário , no período da razão pura – o iluminismo – Claude
Nicolas Ledoux, para a cidade ideal de Chaux, desenha v a as casas dos super visores de
for ma a serem obser vadas à distância, atribuindo-lhes o poder de uma ordem racional
e um cor po físico que interagia com a paisag em. Dois períodos que lig am a natureza
com as sensações e com as emoções de maneira diferente . A herança desta tensão
pretende ser reflexo das escolhas em projeto , para se decidir em confor midade com
o efeito pretendido para um deter minado lug ar . A inv estig ação procura conjug ar um
equilíbrio e é isso que a contemporaneidade tem vindo a fazer com a natureza; as
fábricas abandonadas , as minas e as suas escombreiras , os ter renos tóxicos , que depois
de “traduzidos”, se transfor mam em projetos sensív eis . Como é o caso da leitura da
paisag em de P eter Zumthor para as minas Allmannajuvet, transfor madas em rotas
fenomenológicas de lig ação a um passado histórico mineiro .
6 Edição original de 1957.
Figura 47: Livreto com a recolha de depoimentos . Consultar em anex o .
F onte: Autoria própria.
83
A imag em da paisag em mantem o seu cânone tradicional constr uído no passado ,
porém essa identidade passou a ser entendida como um lugar de atmosferas percetíveis ,
através da abstração do utilizador , enquanto nar rador . T er o deleite da paisag em é
conseguir superar os limites físicos concebidos para um v asto conjunto de intérpretes ,
e perceber até que ponto essas experiências ativ am o estado real para ser capaz de
alcançar o imaginário . Será possív el a um ar quiteto conseguir transmitir o que sente na
paisag em, em projeto?
Ao long o desta in v estig ação proporcionou-se a possibilidade de uma recolha de
depoimentos de interesse a par tir de vários testemunhos , entre os quais os de arquitetos
e ar tistas , sobre as relações da arquitetura com as ar tes e com as experiências percetiv as .
Uma pluralidade de micro relatos que , de for ma indireta, infor mam múltiplos campos
de resposta, entre os quais a clarificação de significados e definições , de aplicação à
condição da paisagem contemporânea. O desafio de intensificar a leitura da paisag em,
no caso de estudo de São P edro de Moel, é o de inter pretar experiências atra vés
do desejo de sentir os lug ares especiais e de lhes conferir esse significado especial.
Manifesta-se através da proposta de uma rede de lug ares sensíveis , onde os utilizadores
têm a possibilidade de ativ ar as suas próprias experiências de perceção . A ambição de
relacionar o ambiente natural com a ar quitetura está associada ao interesse pessoal,
que prov eio da inv estig ação documental e analítica sobre a evolução constante da
paisag em, desde a compreensão do lug ar à experiência, onde se domina o espaço
como tema conce ptual e arquitetónico . A tudo isto acresce a questão fundamental
desta inv estig ação – de que modo é possív el estabelecer uma no va leitura da paisagem,
incluindo a arquitetura nas questões naturais e ar tísticas , para assim poder promov er
o habitar de cada lug ar sensív el, explorando a sua identidade par ticular? No fundo ,
trata-se de inter rog ar até que ponto estas experiências viv em da interação entre a ar te,
a arquitetura e as outras disciplinas , como a filosofia ou as sensibilidades lig adas à
fenomenologia da perceção?
O objetiv o destas contribuições enfatiza o rizoma teórico , no entendimento da
dimensão poética lig ada a um conjunto de pensamentos alheios , para que per mitam
uma melhor compreensão e atuação nos univ ersos da arquitetura e da ar te. Deter minar
um conjunto de questões comuns para ambas as cor rentes ar tísticas que , ao long o
da inv estig ação , e/ou mais tarde , enquanto profissional, seja capaz de descodificar
85
v alores no local de ação onde se desvela o “espírito do lugar” (Norberg-Sc hulz, 1991) 7 .
Inclui-se a tentativ a de perceber que tipo de papel deverá assumir , a esse respeito , a
fenomenologia da perceção , e como se lê, ou que v alor se dev e atribuir , à poética,
quando a ação na paisag em é eminentemente prática.
A abordag em às diferentes relações entre a paisag em e a perceção do lug ar , rev ela-
-se como um auxílio para a compreensão e for mulação das respostas , sobretudo se
e quando são confrontados um morador e um descodificador de paisag ens , acerca
daquilo em que diferem as suas leituras do lug ar : impor ta questionar ao arquiteto e ao
ar tista qual a sua estratégia, de perceção ou sensibilidade, quando constrói um lug ar
especial na paisag em; ou questionar um morador , a par tir do seu testemunho ativ o ,
sobre a compreensão long amente infor mada, ao long o de vários anos , acerca da sua
vivência em São P edro de Moel.
Lug ares comuns que v alidam características essenciais na paisagem.
7 Edição original de 1979.
87
2.2.1. Cultura
O que é que a cultura pode acrescentar à paisagem?
A cultura contemporânea desempenha um papel ati v o na descodificação da paisagem,
no despoletar de uma reflexão e introspeção com múltiplas leituras efémeras , que
pautadas em pensamentos afluentes , descrev em a noção do lug ar . A cultura é “alg o
anterior ao conhecimento , uma propensão de espírito , uma sensibilidade e um culti v o
da for ma que dá sentido e orientação aos conhecimentos . ” (Llosa, 2012, p . 14).
A necessidade de compreender o caráter perceti v o , presente na sociedade de
ar tistas , transfigura a imag em sensorialista, que opera encadeamentos for mados pela
imag em em movimento . A for ma do seu tempo é gerida por uma manifestação de
instabilidade – alimentada pelo essencial –, e dispersa a ideia de constr uir especulações
de contemplação em redor . A necessidade de refor mular perspetiv as contamina a
materialização de um tempo que , con v er tido em premissas , desper ta interesse no papel
da cultura neste contexto .
A inv estig ação reúne um conjunto de disciplinas que não são alheias à capacidade de
saber desper tar emoções personalizadas , atra vés de uma realidade literária, filosófica,
musical e ar tística. Como tal, é necessário perceber como atuam os discípulos que
interessam para constr uir par te desta ponte entre a paisagem e o utilizador . Impor ta
também associar a liberdade racional que m uitos desses artistas utilizaram, para que a
interpretação da paisag em possa sustentar nov os ideais de diálog o prático em projeto .
T al como na arquitetura, os planos de um poema são processos de desenho que nos
ajudam a inter pretar visões e a dissolver sentimentos através do ato de deambular . O
principal objetiv o provém da intuição , pela experiência, ao usar a imaginação literária
Figura 48: Alber to Caeiro , o sensorialista.
F onte: Autoria própria.
89
para ser capaz de a dotar de uma racionalidade perceti v a. Como é que os poetas e
filósofos transcrev em para o papel o seu sentimento relativ o à leitura do lug ar? Fizemos
uma reflexão que abordou e reúne um conjunto de ar tistas onde , a par tir da sua
experiência pessoal, desenrolam encadeamentos para uma abordag em fenomenológica
do espaço . Cada inter pretação aborda o seu espaço existencial 8 (Norberg-Schulz, 1971,
p . 24), o seu genius loci (Norberg-Sc hulz, 1991) 9 .
F er nando P essoa, poeta por tuguês do século XX, começou por dispersar a sua reflexão
pessoal num conjunto de várias personag ens que ilustram sentimentos e desencadeiam
realidades . Heterónimos v astos e singulares; desde o neg ativista e prog ressista Álv aro
Campos , ao tradicionalista Ricardo R eis , que faz recusa à moder nidade pelo seu
caráter decadente , de pois , o camponês pagão Alber to Caeiro , e o semi-heterónimo
Ber nardo Soares , que tantas e tantas v ezes se funde com o próprio or tónimo P essoa.
A escolha de uma personag em, que culmina os objetiv os da inv estig ação , pro vém da
sua atitude e da relação intrínseca com a natureza. Alber to Caeiro é reconhecido como
o impulsionador poético , faz da inter pretação dos lug ares um processo sensorialista,
neg ando a racionalidade perante a atitude contemplativ a. A constr ução da sua poesia
está dotada de simplicidade estética, poemas que se constroem através de um percurso
cogniti vo .
“P ensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fr uto é
saber -lhe o sentido . ” (Caeiro , 1946, p . 39).
O Guardador de Rebanhos é a primeira série de poemas destituídos de qualquer
compreensão objetiv a e racionalista. Caeiro assume-se como um pastor nos campos de
uma aldeia no Ribatejo , adota o atributo sensacionista, e capta, na paisag em, impressões
visuais que se deixam absor v er pelos sentidos .
Que tipo de aproximações tem a experiência pictórica de Caeiro com a filosofia
da perceção do século XX? A imag em constr uída nos poemas integ ra um olhar
absoluto sobre o real, apro xima-se dos aspetos linguísticos de Merleau-P onty , sobre
a estim ulação do campo percetiv o . Ambas as perspeti vas carecem do movimento do
8 O autor refere-se a “existential space” (Norberg-Schulz, 1971, p . 24). P ara facilidade de leitura procedeu-
-se à tradução livre .
9 Edição original de 1979.
91
corpo , não par tem da consciência, mas da procura de um estím ulo como resposta à
v ontade de experiência. No livro F enomenolo gia da Percepção , Merleau-P onty considera
que “ A consciência de si é o próprio ser do espírito em ex ercício . ” (Merleau-P onty ,
1996, p . 497).
F er nando P essoa foi um poeta er udito com g rande interesse nas vanguardas francesas
e no estilo impressionista que, mais tarde , reflete na poesia de Caeiro . Este, além de
um mero camponês , cultiv ou o g osto pela cultura literária, essencialmente, a poesia
naturalista de Cesário V erde . Esta influência v ai desper tar Caeiro , enquanto leitor , para
os cenários estr uturados em expressões poéticas e planos pictóricos , as cores e as
sensações nítidas .
“ Ao entardecer , debr uçado pela janela, / E sabendo de soslaio
que há campos em frente . / Leio até me arderem os olho s / O
livro de Cesário V erde . ” (Caeiro , 1946, p . 25).
A adoção da vanguarda Sensacionista pretende registar a realidade sob a visão pessoal,
a visão das coisas . Não se trata apenas de re presentar um lug ar na paisagem como
ele é obser v ado , impor ta pro v ocar o estím ulo exato daquilo que é sentido num
deter minado momento . F er nando P essoa procura registar as várias descodificações
que a paisag em causa no utilizador , limita-se há ar te das sensações , sendo que, “T oda a
ar te é a con versão duma sensação em objecto . ” (P essoa, 1966, p . 168). Olhar o espaço
como uma realidade esculpida em aprendizagem, da mesma for ma que, a deambulação
enfatiza as sensações atra vés do distanciamento de ati vidade racional. P ara Caeiro e
Merleau-P onty , a experiência do utilizador de paisag ens completa-se no momento em
que o cor po físico passa a ser conduzido sobre múltiplos fenómenos . A essa experiência
vivida acresce o processo de conhecimento do lugar .
Como é que se realiza a interpretação do lug ar através da linguagem lírica?
Sophia de Mello Breyner constrói um discurso temporal sobre a paisag em marítima,
que ar ticulada à viag em, explora o contacto corporal com o horizonte do Mediter râneo .
Existe na poesia contemporânea da poetisa um interesse analítico pela g eog rafia
enquanto expressão cultural, que pode ser expressa pela estim ulação de pensamentos
Figura 49: Mar , de Sophia de Mello Breyner .
F onte: A utoria própria.
93
sobre a espacialidade humana em essência. T rata-se de pensar a poesia como um no v o
significado de experiência, o lug ar como uma distância de retor no , e a consciência
espacial como um encontro entre a ter ra e o mar .
O desdobramento da imag em poética e o sujeito perpassam a viv acidade das
pequenas coisas , ex ercem a conceção de ambientes , que traduzidos , transfor mam-se
em linguag em lírica. Gaston Bachelard procura também diferir a habitabilidade do
espaço , inv ocando como essa perceção se constrói em elemento sensív el no tempo
e de interação recíproca, transfor mando a memória numa imag em poética do (in)
consciente . A arte poética nasce em virtude da experiência do olhar como elemento
intimista, a “exuberância e a profundidade de um poema são sempre fenómenos da
dupla: ressonância-repercussão . ” (Bac helard, 2008, p . 187) 10 . O espaço conv er te-se em
poesia de for ma intrínseca e em objeto emocional da memória.
A leitura dos lug ares da poetisa são , sobretudo , dominados pela visão do mar sob o
olhar indeter minado , de liberdade . A afetividade pela natureza expressa o encontro
corpóreo lig ado às sensações visuais e táteis , um contacto sobre os caminhos de areia e
a brisa marinha, na medida em que o sujeito poético encontra um lug ar intrinsecamente
lig ado ao próprio ser , à sua identidade.
“Mar , metade da minha alma é feita de maresia” (Andersen,
2013, p . 28).
O mar é o principal cenário de conotações simbólicas , muitas vezes metáfora sobre
a efemeridade da infância passada na praia da Granja. A sincronia do mo vimento
corpóreo propícia do reconhecimento do espaço , a materialização da fenomenologia.
Sophia de Mello Breyner recor re à escultura linguística, ev ocada nos substantiv os , para
fazer sobressair a v erdade dos lug ares nostálgicos em espaços imersos no tempo e no
espaço . A experiência surg e associada a um modelo processual capaz de transfor mar o
espaço em lug ar , através da identificação do eu-lírico n um tempo suspenso .
Ambos os intérpretes de paisag em, Sophia de Mello Breyner e Alber to Caeiro , valorizam
a fenomenologia como uma teoria promov edora da reflexão e interioridade pessoal.
10 Edição original de 1957.
Figura 50: F estiv al Pinhal das Ar tes (2011).
F onte: https://www .musicalmente .pt/por tfolio/pinhal-das-ar tes/
Figura 51: F estiv al Pinhal das Ar tes (2015).
F onte: https://www .musicalmente .pt/por tfolio/pinhal-das-ar tes/
95
A procura incessante de lug ares transcendentes , com lig ação à natureza, assume a
escrita como uma resposta ativ a, para que , a descrição daquela paisag em se transfor me
numa leitura subjeti v ada. A ideia de lug ar difere da experiência pessoal e do processo
fenomenológico , ou seja, transfor ma-se a par tir da apropriação que o sujeito faz nele.
Cada lug ar contém múltiplas memórias singulares que, pelos seus valores simbólicos ,
evidenciam a identidade e o ambiente de um tempo .
“In general a place is gi v en as such a character or ‘atmosphere’.
A place is therefore a qualitativ e, ‘total’ phenomenon, which
we cannot reduce to any of its proper ties , suc h as spatial
relationships , without losing its concrete nature out of sight. ”
(Norberg-Sc hulz, 1991, p . 8).
Obser v ar a paisag em é fazer um esboço de atmosferas , como realidade experienciada
por meio dos sentidos , n um deter minado ter ritório e n um deter minado tempo . Afonso
Lopes Vieira, poeta de São P edro de Moel, refugiou-se em ter ras enclausuradas de
pinheiros onde a imaginação e a razão eram percetíveis n um só lug ar . A sua pro ximidade
com a Catedral V erde e Sussur rante e a “long a voz do mar” (Vieira, 1917) evidencia a
relação íntima entre a natureza e o seu cader no de poemas . Esta sensibilidade poética
foi, mais tarde, recuperada no festiv al Pinhal da Ar tes , como ex ercício de experiência
precursora na paisag em. P aulo Lameiro , músico e org anizador do festiv al, recor reu
às lembranças da sua infância na praia da Vieira; para ele era a praia dos pobres e
também “um misto entre o mar , as redes , os g alinheiros e a ter ra-mãe das batatas e
das cebolas . ” (Lameiro , 2020). O pinhal foi sempre a fonte primária, que alimentav a os
dois g randes polos de v erão - São P edro e Vieira de Leiria -, no qual a car uma ser via
de chão nas casas e a água dos banhos quentes era aquecida com a lenha (roubada) da
mata. A procura de um espaço para realizar o Pinhal das Ar tes , dedicado à primeira
infância durante sete edições , acabou por acontecer em São P edro de Moel, de for ma
a que todas as atividades pudessem g arantir toda aquela env olvência de memórias . O
seu objetiv o principal era ar ticular as dimensões do pinhal de for ma a per mitir uma
vivência imersi v a e vinculada com a ar te do sentir .
P aulo Lameiro descrev e a chegada ao lug ar das ár vores como uma espécie de
antecâmara, filtrados por “um g rande foyer de verde bonito” (Lameiro , 2020) que
Figura 52: P oeta Afonso Lopes Vieira.
F onte: A utoria própria.
97
nos desorienta através da sua ascensão de êxtase sensorial. A escolha de um lug ar que
cumprisse os objetiv os à luz do dia e ao brilho da noite, sendo que , este filtro de pinhal
viria a ser o condutor principal, onde as famílias pudessem liber tar -se dos “r uídos
televisi v os e de jardins de infância” (Lameiro , 2020). T udo o que as crianças poderiam
retirar deste festi val remetia para os c heiros mistos de pinho , de mar , de duna, e de
toda a flora associada, desde os cardos às camarinheiras . Era evidente que todos os
percursos associados ao Pinhal das Ar tes eram percursos de flora, que evidenciav am
exatamente os aromas em layers; entre a car uma, o eucalipto e a eucacia ( caciaeucacia ); e
que são objetos explosi v os de sensações quando ali filtrados . T odas as suas ati vidades
instalav am ações de procura, e essa ação podia decor rer às seis da manhã com os
bebés a ouvir os sons dos pássaros e a sentir a humidade do pinhal, porque esse estado
aquoso fazia com que a v elocidade do som se alterasse. O músico descrevia este
momento como uma “paleta tímbrica extraordinária” (Lameiro , 2020), desde o “som
da madeira a estalar , da areia que se pisa com o calor , das cigar ras e do próprio som de
mar” (Lameiro , 2020). A escolha por um espaço virg em comprov a v a os objeti v os de
cumplicidade com a paisag em. Não ha via eletricidade, não havia qualquer amplificação
de som, não havia microfones .
A micro comunidade de São P edro de Moel acolheu ali um micro espaço , o que tor nou
tudo mais íntimo , para poder oferecer às famílias com bebés um ev ento de espetáculos
de música, de teatro e dança num contexto de descober ta cor poral. Eram ao mesmo
tempo desafiados a sentar no meio da car uma, tal como o escritor Afonso Lopes Vieira
que , muitas e muitas v ezes , de beng ala na mão , se refugiav a neste ambiente propício
de criação ar tística.
Figura 53: São P edro de Moel na década de 60. F otog rafia histórica depositada n uma base de dados dos amig os de
São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/1464421813807189/
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2.2.2. Ar tistas na paisag em
A paisag em é uma sucessão de lugares que vinculam a experiência de um ambiente
através da caraterização do espaço e da for ma, como se cria a relação entre o homem e
o ter ritório . Surg e como elemento essencial para que a troca de sensações seja receti v a à
experimentação . A perceção e a consciência de um lug ar transfor mam-se em respostas
para um relato de paisag em, que nos deixa en volv er numa viag em de sensibilidades
e imaginação . A sua identidade é o que resulta do ato de habitar (P allasmaa, 2017) e
da consequente relação com um lug ar e os seus elementos . É reconhecer o valor em
características e elementos do espaço à medida que se traduzem ideias e conexões
individuais .
A essência do lug ar expressa a personalidade da paisag em e difere-a de outras
através da fenomenologia. Existem lug ares que per manecem relembrados devido à
sua viv acidade, por influência da memória que é ev ocada pela perceção do espaço ,
dos sons e dos c heiros , dos raios de luz e dos ecos , dos passos na calçada. A década
de 60, em São P edro de Moel, leva-nos para um ambiente de memória onde se faz
ouvir o duelo entre o riso das crianças a brincar na areia da praia e as competições
frenéticas , de rally em estradas florestais . Esta recordação distingue o espaço vivido
(P allasmaa, 2017), que se estr utura em experiências interpretadas atra vés da memória
do indi víduo que perdura no tempo e no espaço; da outra experiência, do turista, que
ocupa uma mera passag em no espaço público e anula o interesse pela vivência coletiv a,
obser v ando de long e aquilo que é a realidade e a imagem do lug ar . A descodificação
das marcas da paisagem car reg a a memória de um passado pro v eniente da constr ução
de lug ares coleti vos que contam histórias e vi vências de uma sociedade , e é atra vés
dessa identidade que indissocia velmente identificamos um lugar .
A composição da paisag em anseia transpor , no lug ar , um espaço que prov oque o
101
inconsciente humano para que a qualidade estética seja percecionada. A arquitetura
contribui para que o espaço crie um sentido experimental na composição do lug ar , em
conjunto com as ações do Homem movidas pela abstração quotidiana. P or v ezes , os
atos obstr uem-nos na for ma como a nossa consciência vê e sente as bar reiras físicas ,
aquilo que nos rodeia. A perceção sensorial de um lug ar depende dessa abstração ,
depende da ativ ação quotidiana dos sentidos .
A interação da arquitetura com as questões percecionais conjug a conceitos de
experiência racional e empírica; deste modo , desenv olv e uma interação com um espaço
que é composta pela busca de significado e de genius loci (Norberg-Schulz, 1991) 11 , e
pela experiência emocional. A leitura do lugar é a descoberta de uma atmosfera que
nos atrai para as coisas que nos rodeiam, e consiste em decifrar ambientes cheios de
cor , compostos por imensos tecidos r ugosos a que chamamos de texturas , por uma
intimidade lig ada à escala cor poral, por uma har monia e por uma brisa que se intensifica
entre pinheiros . Há elementos e estr uturas espaciais que orientam a descodificação da
imag em poética da paisag em conferida pela imaginação do utilizador , nos domínios de
per tença ao lug ar (Norberg-Schulz, 1985).
“In the process of w ay-finding, the strategic link is the
environmental imag e , the g eneralized mental picture of the
exterior ph ysical world that is held by an individual. T his
imag e is the product both of immediate sensation and of
the memor y of past experience, and it is used to inter pret
infor mation and to guide action. ” (Lynch, 1960, p .4).
Entende-se que a natureza perdeu a sua imagem lírica devido à falta de capacidade do
homem para a conseguir interpretar . A presença da ar quitetura v em contribuir para que
essa intensidade se reflita no modo de explorar o lug ar fenomenológico . A necessidade
de respostas transfor ma as visões sobre a leitura da paisag em e as opor tunidades acerca
da sua vivência, em per manente estado de imersão . O arquiteto J uhani P allasmaa
teoriza a arquitetura como “existential metaphors” (P allasmaa, 2005, p . 71) 12 , um apoio
fundamental na constr ução de uma nar rati va inconsciente , sendo que, o espaço nasce
11 Edição original de 1979.
12 Edição original de 1996.
Figura 54: Planta e corte da Casa Moller (1928), de Adolf Loos , em Viena.
F onte: Colomina, 1992, p . 79.
Figura 55: “J ardin suspendu”,Villa Sav o ye (1929), de Le Corbusier , em P oissy .
F onte: Colomina, 1992, p . 99.
Figura 56: Vista do hall de entrada, Villa Sav o ye (1929), de Le Corbusier , em P oissy .
F onte: Colomina, 1992, p . 99.
103
como consequência da noção de representação simbólica do cor po . O objetiv o , mais
do que olhar ou contemplar um espaço de apro ximação à experiência fisiológica, é
par tir dessa linguag em constr utiv a em que o Homem ativ a os sentidos de modo a
deparar-se com a luz, com a sensação de intimidade ou de segurança.
Em 1992, Beatriz Colomina publicou um conjunto de ensaios sobre a questão do
utilizador no espaço , e de como a sua organização interfere com o modo de estar e de
como as relações de género diferem na prática do habitar . O foco surg e nos traços e
nas impressões que o utilizador deixa nos objetos ou no interior de uma habitação , de
for ma a desv endar a passag em do tempo no espaço . F az referência aos projetos de Adolf
Loos como espaços que sug erem ser habitados , descrev e sensações de confor to e de
intimidade atra vés de uma dimensão psicológica, e rev ela o habitante como um objeto
de estudo , por se tor nar protag onista do próprio espaço . Ao contrário da descrição dos
espaços (voltados para si mesmos) de A. Loos , o interior dos projetos de Le Corbusier
implicam um olhar de domínio sobre o mundo exterior . Ele defende a relação com
a natureza através de “la fenêtre en longueur” (Colomina, 1992, p . 112) e intitula o
habitante como um obser v ador atento que promov e a máquina de habitar . P or um
lado , na arquitetura de Le Corbusier o sujeito assume-se como um visitante que aponta
pistas e referências ao modo como a ar quitetura per mite fazer estas apro ximações aos
espaços; por outro lado , na arquitetura de Adolf Loos existem pistas para o modo de
pensar os espaços de maior per manência. Em certos momentos seria per tinente fazer
o cr uzamento das duas for mas de pensar o espaço . A questão dos diferentes modos de
habitar , ou até do enquadramento com o ter ritório , se passada para além da mera casa
e aplicada a um espaço introspetiv o na paisag em, podem revelar indícios sobre como
ensaiar percursos no espaço ou desv endar relações com a env olvente .
Experimentar um lug ar exig e um diálog o entre o espaço e o utilizador , resultado
da sensação de intimidade e de silêncio que a arquitetura nos transmite, enquanto
instr umento metafisico . Como dessemelhança, a experiência que fazemos na paisag em
expressa uma simplicidade na for ma como o utilizador se insere nos demais elementos
que a compõem, pois a natureza não depende da sua presença corporal para que se
possa exprimir . No entanto , o utilizador depende da ativ ação fenomenológica para que
a possa interpretar .
Figura 57: W alking Ar tists .
F onte: Autoria própria a partir de Careri (W alkscapes , 2002).
105
Francesco Careri no livro W alkscapes: w alking as an aesthetic practice (2002) faz um convite
ao “ Andare a Zonzo” (Careri, 2013, p . 7) 13 , um con vite à nar rativ a de percurso como
ex ercício experimental. O deambular transfor mou-se num ato simbólico alterando
a imag em da paisag em à medida que é v agueada, e constrói uma ideologia estética
através do nosso inconsciente. Se temos a possibilidade de escolher entre um caminho
linear e um caminho ignoto , este ex ercício per mite deixar que o nosso zonzo escolha a
experiência de explorar um lug ar , por nós desconhecido , através de ações e movimentos
no espaço . A paisagem (aqui) é constr uída através do andar , pelo qual o ato de caminhar
se relaciona, por meio de um olhar sensív el, com a nov a for ma de experimentação e a
nov a leitura aos lug ares que a compõem.
“Space appears as an activ e, pulsating subject, an autonomous
producer of affections and relations . It is a li ving org anism
with its own c haracter , a counterpar t with shifting moods ,
with which it is possible to establish a relationship of mutual
ex change . ” (Careri, 2002, p . 82).
A relação intrínseca do cor po com o lug ar enaltece o campo imaterial, no sentido em
que o Homem interag e com a natureza espacialmente , e a estabelece como constr ução
de vivências , de for mas e linguag ens . O relato da viag em pela New J ersey T ur npike ,
por T ony Smith, é reflexo de uma experiência “on the road” (Careri, 2002, p . 119) que
define o percurso como uma nar rativ a física do espaço , uma constr ução simbólica do
ter ritório que tem em vista a problematização dessa experiência do ato de tra vessia
como obra de ar te . Esta nar ração explora a consciência da experiência no espaço da
paisag em a par tir do campo artístico; resulta da perceção naturalista que , em conjunto
com o deambular , remete para as práticas do movimento Land Art.
“T he experience on the road w as something mapped out but
not socially recognized. I thought to myself , it ought to be
clear , that’ s the end of ar t. Most painting looks pretty pictorial
after that. There is no wa y you can frame it, you just hav e to
experience it. ” (W agstaff, 1968, p . 381).
13 Edição original de 2002.
Figura 58: A Line Made by W alking (1967), de Richard Long .
F onte: Careri, 2002, p . 147.
107
O ter ritório que supor ta este estudo insin ua múltiplos aspetos onde o espaço físico ,
a sensibilidade e a natureza se conectam com a arquitetura e a paisag em, do mesmo
modo que ati va o relacionamento do homem com o ambiente de experimentação .
No fim dos anos 60 e início dos anos 70, as obras americanas da Land Ar t surg em da
transfor mação física do ter ritório face à inter v enção humana, sob a condição renov ada
de uma relação da ar te com a natureza, em ambientes urbanos e naturais . São obras
que nos ajudam a ler sinais da história e de exploração , de destr uição , de extração
violenta de recursos da paisag em, e tudo isto acontece com tal intensidade, nos Estados
Unidos , que se acaba por se rev elar de modo , talv ez, mais evidente . A contemplação
de uma obra da Land Ar t per mite, ao visitante , a opor tunidade de interagir no espaço
ar tístico , do ponto de vista abstrato e fenomenológico , de interação com a luz, as
sensações , a temperatura e a humanidade relativ a do ar . T orna-se propícia, também,
para a apreciação física e estética do ter ritório , da mesma for ma que se constrói uma
viag em pela história daquele lug ar par ticular . Com isto enaltece-se o tempo geológico
e a história das populações nativ as americanas que acabaram por ser dizimadas , ou as
histórias de exploração , tanto de minérios como de combustív el; tudo isso se reflete
nas intenções destes ar tistas . F alemos de objetos que , simultaneamente , ajudam a
descodificar e a colonizar uma deter minada paisagem, assumindo que os ar tistas , ou os
arquitetos , são os promotores e as suas inter v enções são uma espécie de camuflagem.
Em vez de inter pretar mos ou fazer mos a leitura das consequências das inter v enções
extrativ as da paisagem, temos a oportunidade de as cam uflar , e aí o trabalho do ar tista
e do arquiteto revela-se aliado de uma nov a realidade, que v ai ser apreendida sob um
ponto de vista mais abstrato e estético . Existem dois modelos de transfor mação do
ter ritório – um mais ativista na inter venção ar tística ou arquitetónica na paisag em, e
outro como complemento à própria exploração da paisag em.
Este tipo de experiência procura, por meio da sensibilidade, um env olvimento no
espaço constr uído sobre a morfologia da beleza natural. A Line Made by W alking
(1967), projeto de Richard Long, mostra a capacidade simbólica de uma inter venção
na paisag em onde a presença humana é o resultado perfor mativ o da sua inter pretação .
Descrita como “a straight line sculpted on the g round” (Careri, 2002, p . 142), é um
cenário perceti vo atra vés da con v ergência de condicionantes naturalistas , onde o
v ento , a luz e o nosso imaginário atuam sobre o espaço constr uído . Esta cor rente
ar tística v ai re pensar a paisag em descrita, escav ada ou até mesmo esculpida, onde
Figura 59: The Great Pipe Monument. F otog rafia: R ober t Smithson.
F onte: Smithson, 1996, p . 70.
Figura 60: The F ountain Monument: Bird’ s Eye View . F otog rafia: R ober t Smithson.
F onte: Smithson, 1996, p . 70.
109
ocor rem inter venções humanas em lugares vazios , adotando uma simbologia ar tística
atemporal, sob a designação de earthw orks (Smithson, 1996, p . 69). R ober t Smithson
realça a impor tância da experiência física como for ma de apropriar o lug ar especial, em
que a ação humana é vista como o resultado da ar te , o resultado do atuar e do sentir
através do ex ercício da liberdade humana no ter ritório . T or na-se evidente que a ar te
acabou por criar um espaço atra vés do qual se vai manifestar uma outra realidade, um
outro olhar sobre as coisas , através da sua carg a poética.
Naturalism “is replaced by non-objecti v e sense of space .
T he landscape then begins to look more like a map in three
dimensions than a r ustic g arden. ” (Smithson, 1996, p . 116).
A experiência da viagem em ter ritórios desconhecidos é definida por R ober t Smithson
como uma “suburban Odyssey” (Smithson, 1996, p . 72), uma sequência de elementos
que rev elam o con vite ao percurso , por meio da nossa perceção . A nar rativ a que
Smithson explora ao long o das paisag ens de P assaic , define uma realidade abandonada,
composta por uma paisag em habitada por significados e referências desconectadas .
P ara o ar tista, as viagens são uma descober ta e uma experimentação daquilo que nos
rodeia, são visitas a exposições onde a natureza acolhe a ar te como reforço da sua
v aloração estética.
“ Actually , P assaic center was no center – it w as instead a
typical abyss or an ordinar y v oid. What a g reat place for a
g aller y! Or ma ybe an “outdoor sculpture show” w ould pep
that place up . ” (Smithson, 1996, p . 72).
A procura de no v as leituras de paisagem pro v em da interpretação que fazemos
sobre um espaço e um tempo sobreposto à necessidade instintiv a da experiência. O
deambular rev ela-se como um instr umento indispensáv el à leitura sensorial do espaço ,
evidencia um cenário de natureza, de sociedade e de teoria. No ensaio The Expanded
Field of Landscape Architectur e (1997), Elizabeth Meyer apresenta um manifesto sobre
a nov a teoria da arquitetura na paisagem, onde evidencia a experiência da visita ao
lug ar e o modo como a perceção sensorial recai sobre essa compreensão . A beleza
da paisagem é contr uída através da intuição temporal e da relação que temos com o
Figura 61: Sculpture in the Expanded Field, R osalind Krauss .
F onte: Meyer , 1997, p . 170.
Figura 62: As Expanded Field for Landscape Architecture , Elizabeth Meyer .
F onte: Meyer, 1997, p . 170.
111
ambiente , requer uma apro ximação com os materiais , as emoções e as histórias; é alg o
que dá resposta às questões sobre o papel da arquitetura e sobre aquilo que realmente é
fundamental para que se dê a troca de visões a uma sincronia perfeita com a paisagem.
A teoria do campo expandido , de Meyer , define as paisagens para a arquitetura 14 e
reflete a impor tância da apreciação e consciência do Homem, para que a experiência
do habitar a paisag em seja reflex o das suas sensações físicas .
“Landscape theor y must rely on the specific , not the
g eneral; and like situational and feminist criticism landscape
architectural design and theor y must be based on obser v ation,
on what is kno wn through experience , on the immediate and
sensor y – what is known by all the senses , not only the eye . ”
(Meyer , 1997, p . 167).
A abordag em experimental requer um confronto metafórico no diálog o com a
paisag em poética, para a constr ução de modelos perceti vos à identificação do lug ar
e à associação de v alores experimentais , culturais e emocionais . Meyer defende que a
imag em da ar quitetura se funde na beleza estética da paisagem, atra vés das experiências
necessárias para a criação de uma interpretação persuasiv a.
“ As we ll as multiple scales , landscape embodies multiple
experiences . T he g rowing influence of phenomenolog y within
the discipline highlights that ev er y site is also a place: a locus
of human experience and meaning . So the inter relationship
betw een dimensional site and experiential place is also now
central to theoretical thinking in the discipline . ” (Swaffield,
2002, p . 229).
A pesquisa documental tor nou-se fulcral para mostrar que a paisagem é hoje supor te
de projeto em arquitetura, e que não é possível desenhar sobre o ter ritório sem a
compreensão da sua dimensão e da sua estética. Representar a imag em da paisag em
coincide com a leitura que fazemos dela, em paralelo com a relação que com ela
14 A autora refere-se a “landscapes for architecture” (Meyer , 1997, p . 169). Para facilidade de leitura
procedeu-se à tradução livre .
Figura 63: Double Negative (1969) de Mic hael Heizer . F otografia: Tiag o Silv a Nunes .
F onte: Santos , 2017, p . 11.
113
estabelece a arquitetura na especificidade do lug ar . A per tinência desta estratégia g era
uma abordag em disciplinar que articula a condição projetual e o tema teórico em estudo .
Pretende-se trabalhar com a teoria sobre a prática de proj eto e, sim ultaneamente , tor nar
prático o desempenho da teoria (J oelho , 2013, p . 220).
P odemos questionar de que modo será possív el percecionar , em São P edro de Moel,
manifestações de ar tistas da paisag em, em que as experiências se intensificam em
algum momento especial?
Impor ta aqui inserir fatores de atrati vidade que , simultaneamente , per mitam combater
a efemeridade e a sazonalidade, e que realcem o poder potenciador do ter ritório para
estim ular nov as leituras , se experimentada através de redes temáticas de supor te natural.
Michael Heizer , artista da paisagem e do mo vimento Land Art, é uma referência nesta
inv estig ação para o projeto , pelo cr uzamento de temas que podem estim ular visitas ou
experiências de descober ta. Double Neg ativ e é uma dessas obras , onde as intenções
do ar tista se expressam na for ma como os utilizadores sentem este lug ar , durante
24 horas , para poderem experimentá-lo nas div ersas v ariações dos ventos e da luz, e
terem a opor tunidade de sentir o sol a passar pela incisão no ter reno , sentir o calor
do deser to e, de re pente , o tombar da sombra a entrar no v ale e conv ocar fluxos de
ar quente . A experiência que se vulg arizou fazer nestes lug ares é tudo menos o que o
ar tista queria. Mic hael Heizer afir ma va que a ar te não se pendura va nas paredes , nem
se vendia, porque a ar te é uma experiência. P ara o ar tista, as pessoas tinham de sentir e
experienciar aquilo que para ele era a leitura da sua experiência no local, limitando-se à
experiência da ausência. Hoje, as pessoas vão para v er a obra de ar te de Michael Heizer ,
com intenções bem diferentes , e esta outra experiência do habitar transfor mou a obra
num dispositiv o em que o m useu passou a estar ao ar li vre. Os ar tistas desvinculados ,
aqueles que neg aram a g aleria de ar te como um objeto de consumo , foram de cer to
modo ultrapassados pela condição reconfigurada pela sociedade de consumo , que
ar ranjou maneira de os absor ver . Neste momento , uma visita a uma obra como esta,
v ale tanto como a experiência do lugar . Há modelos de distorção onde podemos
ser conduzidos a fazer duas ou mais leituras da experiência, e é isso que se pretende
proporcionar atra vés da leitura da paisag em, múltiplas leituras através de múltiplas
experiências percecionais no mesmo lug ar .
Figura 64: Lightning Field (1977) de W alter de Maria.
F onte: https://smar thistor y .org/walter -de-maria-the-lightning-field/
115
P ara R ober t Smithson, o tempo e o espaço são a imagem da ar te , sabendo-se que a
experiência atra vés da condição artística resulta da interpretação da leitura que o ar tista
faz da paisag em. O mesmo acontece com Ric hard Long, J ames T ur rell ou Olafur
Eliasson, que são deambulantes ar tísticos que procuram encontrar uma arquitetura
escultórica, de relação com a paisag em, e constr uir lug ares físicos especiais por meio
da inter mediação de objetos estéticos .
Ser mos capazes de compreender estas manifestações ar tísticas , e isso tor na-se fulcral
para constr uir uma nov a leitura da paisagem, através da sua amplitude e do caráter
intrínseco que aceita muitos destes lug ares como perfor mativ os . No Nov o México , a
visita à obra Lightning Field, de W alter de Maria, carece da potenciação que o ar tista
estabelece sobre a hipótese de se poder ver relâmpag os , e da relação que a obra de ar te
encontrou, na interação das suas dimensões ar tística e científica com a natureza. W alter
de Maria era um ar tista ati vista e batalhav a contra a energia nuclear dos anos sessenta –
tal como Heizer –, e em consequência, transpor tou para a sua obra essa essencialidade
da experiência. T er a capacidade de catalisar sobre 400 v arões de aço ino x as descarg as
elétricas , desde as nuv ens até ao solo , é uma coisa da física. Ar tistas que trabalham com
esta dimensão física simbólica possuem um conhecimento bastante alarg ado sobre a
ciência e sobre o poder de saber comunicar a essencialidade do desenho em projeto .
São experiências que começam numa visita a um lug ar especial onde, eventualmente ,
há uma pequena ação humana. A dúvida associa-se à possibilidade de constr ução de
um nov o espaço físico com este enriquecimento . Como é possív el obter este efeito ,
com esta intensidade, noutros sítios? Prov av elmente , est e artista da paisag em escolheu
um lug ar onde a intencionalidade é lev ada ao seu limite .
O estudo dos div ersos tipos de experiências está associado à compreensão de uma
dimensão mais urbana e mais for mativ a, alg o que é muito essencial e pode vir a
g anhar uma complexidade maior , onde, aparentemente, a constr ução de um espaço
de experiência provém da inter v enção prática sobre a caracterização da paisag em
quotidiana – como na obra T he R etreat, de Nor man F oster . T rata-se de um lug ar
esbelto sobre o qual o arquiteto posiciona uma carling a abatida da Segunda Guer ra
Mundial, que enter ra parcialmente no ter reno . P ara F oster , é como que se de uma
cabana se tratasse , para onde se deslocav a quando se queria isolar de tudo o resto .
Sentir -se como um piloto a habitar a paisag em. Este tipo de experiências obrig a ao
117
olhar sobre a en volv ente como uma condição afeti v a de projeto , em que o processo de
desenho env olv e a definição e a compreensão da sua paisagem. A experiência do lugar
transfor ma-se em reconhecimento e análise através da paisagem constr uída, assumida
pelo obser v ador atento , aquele que quer sentir tudo aquilo que o rodeia através da
reflexão sobre a experiência.
Este é o estudo da paisagem em que o projeto é o filtro para a leitura da natureza.
A inv estig ação para o projeto rev ela que o tema a desen volv er responde às necessidades
em que São P edro de Moel se encontra, um lug ar em desuso que está intrinsecamente
lig ado à natureza, toda via, a realidade da Land Ar t culmina esses nov os ideais . A leitura
da sua paisag em mostra que há uma descaracterização dos lug ares que podem vir a
ser potenciadores da experimentação . É necessário conhecer o lug ar e interpretá-lo ,
para que a recuperação da história viv a se tor ne reflexo da imag em na paisag em. Este
lug ar urbano é identificado como um destino de bem-estar e de isolamento pessoal.
P orém, há lug ares sensíveis que se encontram pouco preparados para proporcionar
a experiência da v alorização ambiental de um destino como este , de potenciação da
natureza. Pretende-se , por tanto , re pensar São P edro de Moel através da implementação
de uma rede de lugares , que sejam ati v adores da instr umentação sensorial humana, em
espaços destinados à experimentação e à interiorização dessas experiências .
A per tinência deste ex ercício de projeto assenta na necessidade de implementar o seu
resultado , e é, em si mesmo , o objeto da inv estig ação e a razão de ser das arquiteturas
propostas .
119
2.2.3. Ar te na paisag em
A necessidade de refor mular os problemas discutidos sobre o papel da ar te em
conjunto com outras disciplinas , no contexto da cultura contemporânea, acrescenta
v alor sobre o método e a estratégia, ao conjunto da produção ar tística, e à possibilidade
de conceber premissas para a obra de arquitetura. T or na-se difícil clarificar todo o
campo disciplinar entre a arquitetura, a Land Ar t ou o paisagismo , por que existe, ainda,
a discussão sobre o facto de que os ar quitetos não rei vindicam a unidade disciplinar ,
enquanto que os ar tistas quebraram com essa reivindicação , tendo-lhes isso per mitido ,
inclusi v e, que a ar te adotasse nov os percursos . O ar tista da paisag em poderá ter-se
inscrito num contexto disciplinar que evidencia a existência de uma geog rafia. T alv ez
esta existência, de uma g eog rafia, recaia sobre o campo da arquitetura, de modo a que
não possa abstrair -se dessa associação disciplinar .
“ Aonde é que acaba a ar quitetura? E aonde é que acaba a ação
de um ar tista da Land Ar t?” (Antunes , 2020).
P ara o arquiteto Carlos Antunes não acaba. Ambas funcionam em simultâneo , e
prov a v elmente na arquitetura existe um ex cesso de clarificação funcionalista, existe
sempre um propósito de inter venção e de apropriação , enquanto que , na Land Ar t, não
acontece necessariamente assim. A ação de um ar tista sobre a paisagem ou a ação de
um arquiteto sobre um qualquer ter ritório , seja ele paisagem ou cidade , “são ex ercícios
de síntese e de clarificação” (Antunes , 2020). Neste sentido , o propósito da exploração
da paisag em sintetiza aquilo que, para o utilizador , é essencial sobre o ponto de vista da
perceção , um exercício que é tanto de ar quitetura como das ar tes plásticas , sabendo-se
bem que todas as operações ocor rem dentro de um espetro que melhor simplificam;
por um lado a denuncia e o ativismo , e por outro a camuflagem da própria exploração .
Figura 65: J ardim das Ondas (1988), de J oão Gomes da Silv a e F er nanda Fragateiro .
F onte: R osado , 2000, p . 112-113.
121
A adaptação da ar te a um contexto de espaço público , ser v e um coleti v o sensív el ao
caráter imersi v o da experimentação do lugar, no sentido em que essa arte possibilita o
acesso a nov os públicos e isenta-a do uso da linguag em tradicionalista da g aleria e do
museu. Um dos casos , em par ticular , onde o objetiv o efémero de ar te se desenv olv eu
como requalificação urbanística, ocor reu no recinto para a Exposição Mundial de
Lisboa de 1998, denominado Expo’98. Uma antig a zona por tuária transfor mou-se ,
até hoje, n um dos principais centros metropolitanos da cidade polin ucleada de Lisboa,
onde di v ersas disciplinas: de caráter arquitetónico , ar tístico e paisagístico; interagiram
no mesmo ter ritório sob o lema “Oceanos , um P atrimónio para o Futuro”. O arquiteto
J oão Gomes da Silv a e a ar tista plástica F er nanda Fragateiro , desenv olveram em
conjunto o projeto J ardim das Ondas , como um lug ar de per manência que ev oca uma
paisag em contemplati va e habitáv el sobre a margem do rio T ejo , n um diálog o entre as
duas disciplinas , que resultou das experiências dos ar tistas da Land Ar t.
O J ardim da Ondas foi um projeto concebido para acolher os visitantes da Expo’98
na proximidade do plano ribeirinho , moldado sobre um ter reno ondulado que se
apro xima do movimento das ondas . P ara a ar tista F er nanda F rag ateiro , saber desenhar
um espaço de liberdade implica que o seu utilizador encontre nele um meio de fug a para
o poder contemplar . E este ex ercício nasce sobre o esforço de imaginar o mo vimento
físico , “onde as for mas g eométricas definidas num modelo tridimensional se revelam
silenciosas , profundas e são depois ati vadas pelas pessoas . ” (Fragateiro , 2020). É atra vés
destas for mas onduladas que se possibilita o encontro com a paisagem.
A conexão entre as disciplinas fez com que este projeto se desenv olvesse como um
trabalho manual, lev ando a cabo encontros de visita à obra, ao uso da fotog rafia aérea
ou ao recurso a por menores constr utiv os . A perceção da modelação na paisag em não
lhes foi percetív el na sua totalidade, por isso , tor nou-se essencial recor rer a modelos
bidimensionais para que a sua estr utura fosse compreendida. O objeti vo deste projeto
cumpre a ati v ação sensorial que a ar tista e o arquiteto idealizav am, um jardim especial
“onde a relv a ondula e cresce , o betão se molda, a bor rac ha se sente quente sob o
corpo humano e as ár vores se erguem e proteg em. Um jardim é um lug ar onde as
pessoas ati v am o espaço . ” (Fragateiro , 2020).
A união da arquitetura à ar te, ou vice-v ersa, per mite emparelhar uma série de modalidades
Figura 66: O V/Nosso Futuro é Ag ora (2019/2021) em Ser ralv es , Olafur Eliasson.
F onte: F olheto Ser ralves .
123
através do cr uzamento de disciplinas . Sabendo que são campos disciplinares distintos ,
o que lhes impor ta é exatamente aquilo que relaciona as duas áreas . Existe na ar te
uma liberdade que não pode ser inscrita numa obra pura de arquitetura, porém, é essa
capacidade de experimentação que a arquitetura tenta ajustar . O encontro de nov os
temas em arquitetura per mite, de alguma for ma, redefinir limites à própria disciplina,
e esta relação com outros criativ os , provém da necessidade de transmitir naquela obra
uma outra dimensão . O arquiteto J oão Mendes Ribeiro encara a dimensão da ar te “a
par tir de uma resposta ao problema”, não a vê como uma vontade inicial de elaborar
um trabalho ar tístico mas como uma necessidade de responder a prog ramas . Da
mesma for ma que a ar te, ou as outras disciplinas , resolv em problemas com arquitetura.
Olafur Eliasson, ar tista plástico , desen v olv eu como abordagem disciplinar a exploração
de diferentes áreas de trabalho , enriquecendo assim os seus projetos através do
compar tilhamento de ideais e metodologias com outros ar tistas , arquitetos , eng enheiros
e car pinteiros . O ar tista nunca deixa de ser ar tista por compar tilhar propósitos de
outras áreas . Esta procura de nov as for mas de contextualização ou de interação social
são idealizadas através de um contributo paralelo , para a constr ução de um lug ar ou
objeto especial.
“Ev er ything I do is ar t first and foremost – so I feel I’m an
ar tist abov e all. ” (Eliasson, 2019, p .3).
Em Ser ralv es , Eliasson foi convidado a realizar um conjunto de instalações sobre o
tema “O V/Nosso Futuro é Ag ora” (2019/2021), e neste contexto , a exposição reúne
uma série de elementos escultóricos circulares para um pequeno bosque de ár v ores ,
onde relaciona a luz, a escultura e o utilizador , atra vés da escala, da materialidade e do
movimento cor poral. Existem temas que constituem la yers com os quais se adicionam
um ou dois pontos a essa complementaridade . Acima de tudo , a v erbalização e a
comunicação das experiências são a base para destes exercícios . A par tir do momento
em que as experiências são comunicadas e inter pretadas , consoante a leitura do lug ar ,
sucede a otimização infraestr utural espacial. Quem experiencia este tipo de lug ares
tem a opor tunidade de criar uma história associada a um percurso , que através do seu
movimento físico , v ai sendo ativ ada como uma simultaneidade de trajetórias e tempo
desv anecido .
Figura 67: The Mediated Motion (2001) em Breg enz, Olafur Eliasson.
F onte: https://olafureliasson.net/archi ve/artwork/WEK101206/the-mediated-motion
125
“Space cannot be defined without including our experience
of it. And singular experiences ha v e an impact on the shaping
of collecti v e spheres . ” (Eliasson, 2009, p . 83).
P ara a exposição T he Mediated Motion (2001), na Kunsthaus em Bregenz, uma das
maiores preocupações para o ar tista foi estabelecer o tipo de nar ração que o visitante
poderia criar sobre um cor redor e , por consequência, sobre o seu tempo . O objetiv o
era ser capaz de en volv er a experiência de apreciação ar tística através do mo vimento
no espaço e, para isso , colaborou com o arquiteto paisagista Günther V ogt, por estar
lig ado ao uso do espaço efémero como elemento essencialista. A exposição resultou
num conjunto atmosferas contemplati vas , em que cada andar do museu tinha o seu
tipo de ambiente , propondo uma experiência par ticular , varia va desde a simulação
de nev oeiro à plantação de cogumelos e lentilhas num jardim aquático , com cinco
centímetros de profundidade. A ponte suspensa era, para Olafur Eliasson, o objeto
em que o utilizador se tor nav a protag onista da peça, enquanto que o mo vimento físico
se traduzia numa “unpredictable social sculpture” (Eliasson, 2012, p . 39). Entre o
arquiteto paisagista, o ag ricultor , o carpinteiro ou o ar tista, quem se rev ela como autor
da obra é o movimento cor poral, por compar tilhar a intimidade com a apreciação
estética.
“T his is actually not unique to art; when architecture or
design objects , for instance, are successful, they perfor m in
the same manner b y melding aesthetic challenges with ethical
questions . ” (Eliasson, 2008, p . 37).
127
2.2.4. Ar quitetura
A condição de leitura da paisagem assenta no olhar ativ o do ar quiteto , a quem compete
a promov er uma multiplicidade de interpretações do ter ritório passiv o . Como ag ente
impulsionador , a sua carga cultural funde-se na obra atra vés da interdisciplinaridade,
e cabe-lhe a tarefa de introduzir , com a sua resposta, uma complexidade de nar rati v as ,
para que se dê a experiência espacial absoluta. Esta definição para a constr ução de
“leitores de paisag em” apro xima-se da arquitetura através da questão do lug ar e da
inscrição do corpo no espaço . P ara o arquiteto J oão Mendes Ribeiro , a relação com a
paisag em surge com a “impor tância de experimentar o espaço a par tir de um corpo
em movimento” (Ribeiro , 2020), pois é através dessa habitabilidade que o lug ar se
transfor ma e g anha significado .
“T odos aqueles que, ainda que fugazmente, refletiram sobre
esse tema, sabem que o carácter essencial da arquitectura – o
que a distingue das outras atividades ar tísticas – está no facto
de agir como um v ocabulário tridimensional que inclui o
homem. ” (Zevi, 1996, p . 17) 15 .
P odemos dizer que existe uma dimensão de arte na paisag em que completa a
arquitetura? O propósito da exploração da paisag em, nestas duas disciplinas , sintetiza
aquilo que é essencial para o utilizador . P or um lado , o ar quiteto J oão Mendes Ribeiro
refere que as inter v enções ar tísticas dos ar tistas são idealizadas a par tir de uma
nar rativ a, enquanto que , as inter venções ar tísticas dos arquitetos não env olv em essa
experimentação , recor rem à constr ução do lug ar como uma descober ta do corpo . P or
outro lado , o arquiteto Carlos Antunes menciona que essa experimentação acontece
em ambas as áreas , pois “há arquitetos que estão mais interessados nessa nar rativ a e
15 Edição original de 1948. Figura 68: Ano Zero , Mosteiro de Santa Clara-a-Nov a.
F onte: Autoria própria, a 19 de setembro de 2020.
Figura 69: Hor tus Conclusus (2019), Atelier do Cor vo , no Mosteiro de Santa Clara-a-Nov a.
F onte: Autoria própria, a 19 de setembro de 2020.
Figura 70: Campo / Contracampo (2020), J osé Pedro Croft, no Mosteiro de Santa Clara-a-No v a.
F onte: Autoria própria, a 19 de setembro de 2020.
129
ar tistas plásticos que estão mais interessados nessa experiência espacial absoluta, e o
contrário também é v erdade . ” (Antunes , 2020). Este ar quiteto deu, inclusi ve , o exemplo
da inter v enção Hor tus Conclusus , desen v olvida para a Bienal Ano Zero de 2019, em
Coimbra, que g erou uma série de discussões com outros ar tistas , por que afir mav am
que aquele dispositiv o era uma inter v enção ar tística. P ara o Atelier do Cor vo era uma
inter v enção arquitetónica e paisagística, mas admite que “também pode ser ar tística”
(Antunes , 2020). Ou seja, nenhum arquiteto é capaz de conseguir abarcar sozinho toda
a complexidade disciplinar , e esse é também o objeti v o da ar te em arquitetura, um
desafio que obrig a a refletir sobre a constr ução de uma bag agem ou instr umentação
pessoal, e de pôr em causa as convicções próprias . A ar te faz isto também, por tanto , aí
apro xima-se da arquitetura, e das suas inter v enções de pequena ou g rande escala, ainda
que não tenha um sentido funcional associado .
O ar tista J osé P edro Croft reforça a ideia de que “ A obra de ar te é um objeto de
passag em (…)” (Croft, 2001). Não lhe interessa a for ma da peça mas as múltiplas
possibilidades de “movimento antecipado dos corpos em trânsito que completam
o sentido espacial das esculturas . ” (Antunes , 2020). A ambição da ar te é também a
de experimentar nov as disciplinas e no vos conceitos n unca antes trabalhados , para
que , deste modo , coordenar o percurso do utilizador seja, por consequência, uma
constr ução do espaço expositi v o a par tir da redefinição do corpo em movimento . A
discussão entre as duas disciplinas tem vindo a tor nar -se num parado x o imperfeito ,
porque ambas experienciam temas comuns , temas que lhes interessam aplicar nas suas
áreas , por v entura, nessa micro união que seria reflex o de uma resposta reconfigurada.
Qual o por quê de coisas tão simples não serem discutidas e adotadas em conjunto?
Aquilo que pode ser olhado por nós como uma coisa inútil, g anha função ao mesmo
tempo que transfor ma e recoloca questões sobre um lugar .
“E o papel da filosofia é, precisamente, rev elar aos homens
a utilidade do inútil ou, se assim quiser mos , ensiná-los a
distinguir entre um sentido e outro a palavra ‘útil’. ” (Hadot
citado por Ordine, 2017, p . 7) 16 .
Ao ar quiteto J oão Mendes Ribeiro interessa-lhe o trabalho interdisciplinar com outros
16 Citação sobre a inutilidade do útil retirada de Pierre Hadot (Ordine, 2017).
Figura 71: Espetáculo P edro e Inês (2003), T eatro Camões , Lisboa. F otog rafia: Alceu Bett.
F onte: https://www .archdaily .com.br/br/01-58218/cenog rafia-e-arquitetura-pedro-e-ines-joao-mendes-ribeiro
Figura 72: Casa R obalo Cordeiro (2009), Coimbra.
F onte: https://www .archdaily .com.br/br/784990/casa-robalo-cordeiro-joao-mendes-ribeiro?ad_medium=galler y
Figura 73: Caixa para guardar o v azio (2005), de F er nanda F rag ateiro e Aldara Bizar ro . F otog rafia: Carlos F er nandes .
F onte: https://www .culturgest.pt/pt/prog ramacao/caixa-para-guardar-o-v azio-fer nanda-frag ateiro/
131
criativ os , a cenog rafia e a ar te como complemento da sua arquitetura. Confessa que, ao
contrário da figura central, que na arquitetura dev e ser o arquiteto , na cenog rafia esse
papel não é o do cenóg rafo mas o do encenador . A área da constr ução do espetáculo
obrig a a um trabalho conjunto entre o desenhador de luz, dos figurinos , do som;
uma parceria que introduz no espetáculo a ar te de com unicação entre disciplinas . O
espetáculo “P edro e Inês” é dos mais belos ex emplos onde a arquitetura reencontra
a impor tância do espaço no mundo ar tístico . O maior desafio foi o de conseguir
adicionar elementos naturais dentro do palco , condicionando a for ma de trabalho da
coreog rafia, enquanto que os próprios bailarinos têm necessidade de transfor mar os
movimentos e g estos , devido ao confronto com a água em pleno palco . Existe aqui
uma for te relação entre a proposta de cenog rafia e a coreog rafia, porque a matéria
com que se constrói o cenário é deter minante para os movimentos dos intér pretes , o
que tor na o cr uzamento de diferentes disciplinas fundamental para a constr ução do
espetáculo . São estas adv ersidades que constroem a complexidade da resposta.
Em Coimbra, a casa R obalo Cordeiro é um projeto onde as relações de trabalho ,
exploradas nas ar tes cénicas e ar tísticas , são transpor tadas para um trabalho de
arquitetura. Ela é reflexo de um lado mais perfor mativ o no espaço , en volv endo
necessariamente um corpo em mo vimento . O v olume saliente na fac hada posterior , em
aço cor ten, cor responde a uma sala de estudo revestida em madeira; inicialmente, uma
espécie de uma caixa abstrata em que as paredes , o teto e o pa vimento são constr uídos
com o mesmo material. É a par tir da ação de um cor po em movimento que este
lado mais perfor mati v o revela a relação entre o interior e o exterior , que surg e com o
rebatimento de di versas portadas . Dá-se a metamorfose , que per mite a transfor mação
do espaço em escritório , onde os mo vimentos inscrev em objetos de mobiliário . P ara o
arquiteto , “um espaço só define as suas possibilidades de transfor mação a par tir de um
corpo em movimento , que interag e com os espaços arquitetónicos . ” (Ribeiro , 2020).
Este espaço exigiu o ensaio de uma coreog rafia para a qual o cor po foi ensaiado , com
muita precisão , para que “o espetáculo” per mita que tudo funcione no tempo cer to e
pela ordem prevista, assegurando que se alcança o resultado desejado .
Em pura sincronia, a ar tista F er nanda Frag ateiro desenv olv e “ A Caixa para Guardar o
V azio”, onde traduz a ideia de que um objeto abstrato se pode transfor mar a par tir da
dança. T rata-se de um espetáculo/perfor mance inicialmente criado para escolas , onde
Figura 74: F or um of the Future (2018) no T eatro Riv oli. F otog rafia: J osé Campos .
F onte: https://www .depa.pt/F or um-of-the-Future
133
os alunos assistem em tor no do objeto , totalmente encer rado . São os próprios bailarinos
que o vão ativ ando e que per mitem as extensões , entre o exterior e o interior , de tal
modo que , no final do espetáculo , a posição dos espectadores se inv er teu. Quando as
caixas se expandem, são revelados múltiplos e diferentes lug ares a par tir dos cor pos
em ação , tanto na inter v enção arquitetónica, prévia, de J oão Mendes Ribeiro , como
na inter venção/objeto ar tístico de F er nanda Frag ateiro; existe alg o em com um nestas
duas obras , pequenos por menores que nos induzem a fazer comparações entre as
disciplinas .
Os arquitetos sentem-se artistas quando fazem uma obra como esta?
“P ara mim é m uito simples , não . Eu sou arquiteto e sou sempre arquiteto . ” (Ribeiro ,
2020).
“Não nos sentimos ar tistas , sentimo-nos arquitetos . Sentimo-nos um pouco mais
ar tistas , mas nunca conseguimos despir esta pele . ” (Crisóstomo , 2020).
P ara o ar quiteto J oão Mendes Ribeiro , na cenog rafia faz arquiteturas de palco , o mesmo
acontece quando projeta uma casa ou uma instalação , traduz-se sempre na constr ução
de um espaço de representação . Contudo ,
“Eu sei que cenog rafia não é arquitetura. ” (Ribeiro , 2020).
Este cr uzamento de disciplinas transpor ta para a arquitetura um interesse pela liberdade
que é vivida no campo ar tístico , pelo facto de existir uma capacidade de experimentação
na ar te que não existe num projeto arquitetónico . Em cer tas situações , os limites da
própria disciplina são redefinidos porque , quando surg e o escritório na casa R obalo
Cordeiro , aparece essa ambiguidade, nunca deixa de ser arquitetura, apenas questiona
alguns temas da arquitetura.
O atelier De pA revela que, apesar de serem arquitetos por definição profissional, na
v erdade, transpor tam para os projetos “tudo aquilo que nós somos” (Sobral, 2020),
da mesma for ma que prev alece, na sua essência, a experiência de vida (individual).
A cenog rafia “F or um of the Future” é, para eles , essencialmente um trabalho de
Figura 75: Casa no Castanheiro , em V aleflor .
F onte: Autoria própria, a 4 de outubro de 2020.
135
arquitetura, um ensaio cujo tema era a antiguidade clássica e onde questiona vam o tipo
de r uínas que são atualmente constr uídas .
“Nós achamos que as peças clássicas ou que as obras clássicas
são sempre imaculadas , com már more ou com uma pedra
clara, alg o m uito monocromático . Mas sabemos que é
exatamente ao contrário , aquelas colunas tinham cor e eram
profundamente alteradas . ” (Sobral, 2020).
O trabalho em palco transfor mou-se numa composição de pilares clássicos par tidos ,
estr uturas em betão ar mado que questionam exatamente com o que é que se iria
aparentar uma r uína, num tempo indefinido , par tindo daquilo que constr uímos hoje.
E ao lev antar essa questão , o arquiteto Luís Sobral refere que “podemos dizer que
estamos próximos da ar te , mas enquanto resposta ou processo de trabalho , fomos
claramente ar quitetos . ” (Sobral, 2020). De que modo conseguirá o arquiteto diferenciar
um lug ar na paisagem, quando é constr uído como ar quitetura, como objeto escultórico
ou como mobiliário urbano?
A Casa no Castanheiro , em V aleflor , responde a um prog rama funcional de pequena
escala e de for te relação com a paisag em. Um lug ar refúgio rodeado por um conjunto
de car v alhos e castanheiros , com o objetiv o de aliar a simplicidade arquitetónica à
introspeção pessoal. O arquiteto J oão Mendes Ribeiro ensaiou a experiência de
mostrar este alojamento hoteleiro a um g r upo de pessoas , no final da obra, e não o
reconheceram devido à sua escala. Uma pequena constr ução que se tenta dissim ular
na paisag em e que, no imaginário deles , não cumpria ou oferecia algumas das funções
estereotipadas , nomeadamente, a de uma sala de estar . Como resposta, o arquiteto
afir ma que “a sala não existe porque a sala é a copa do castanheiro . ” (Ribeiro , 2020).
Este projeto foi desenhado como espaço mínimo de habitação , e de potenciação da
constr ução em tor no do castanheiro . É uma arquitetura de ocupação temporária com
um prog rama específico , para um tempo e uma estadia precisas . Esta aproximação à
paisag em rev ela-se instantaneamente devido à presença do castanheiro , e o conjunto
é trabalhado como se a ár v ore ti vesse no interior da habitação . Assim, a copa do
castanheiro define , simultaneamente , o principal espaço de estar .
Figura 76: Caixa Vicentina (1995), T eatro da Cerca de São Ber nardo . F otog rafia: P edro R odrigues .
F onte: http://w eblog .aescoladanoite.pt/tag/joao-mendes-ribeiro/page/2/
Figura 77: Púlpito (2017), Fátima.
F onte: https://www .asbeiras .pt/2017/04/lugares-liturgicos-de-fatima-assinados-por-joao-mendes-ribeiro/
137
[Nesta obra] “não estou a desenhar um projeto ar tístico , mas
uma obra de arquitetura. Interessa-me a possibilidade de ter
a experiência nas ar tes cénicas , e de ter a experiência destes
trabalhos mais li vres do que as respostas do quotidiano . ”
(Ribeiro , 2020).
A Caixa Vicentina (1995) deu nome ao espetáculo de recitação de quatro textos de Gil
Vicente , para a companhia de teatro profissional de Coimbra. Mais uma vez, o ar quiteto
J oão Mendes Ribeiro constrói um objeto móvel à escala do corpo , que é ativ ado a
par tir da ação dos seus intérpretes . O objeti vo desta escultura era, para o espectador ,
a impossibilidade de reconhecimento de usos , um objeto completamente abstrato e
mudo , que se deixa transfor mar em lug ares muitos distintos . Desde o espaço de alcov a,
um espaço interior mínimo , a uma escada v er tical que remetia para um espaço de
elev ação de montanha. O teatro possibilita a criação destes pequenos dispositiv os , que
incitam a uma capacidade imaginativ a que nem sempre cor responde, de igual modo , de
espectador para espectador; mas tem tudo a v er com essa necessidade de constr ução
de um abrig o e de um espaço interior protegido . Como é que essa dialética entre o
interior e exterior pode ser tema de arquitetura?
Em Fátima, o arquiteto J oão Mendes Ribeiro foi desafiado a desenhar três peças de
mobiliário urbano: o ambão , o altar e as cadeiras da presidência, para o nov o altar
exterior da antig a Basílica. Como é que se idealiza a leitura de uma peça num espaço
inter no que está dentro de um outro g rande espaço exterior? O maior desafio para o
arquiteto foi perceber como é que se desencadeia a leitura do ato litúrgico , e de como
se processa a constr ução do mobiliário , em material nobre, porque ao estar exposto
no exterior tem que se lhe conferir maior resistência. Destas questões , surgiu a ideia
de escultura perene . Estas peças , em bronze fundido , transfor maram-se n um processo
ar tesanal até aí desconhecido para o arquiteto – e agora, como é que se trabalha a escultura?
J oão Mendes Ribeiro revela que as oficinas estão treinadas para fazer esculturas e
pouco familiarizadas com a leitura dos projetos de arquitetura.
“Os artistas lev am esculturas em g esso , eles não fazem a
escultura, apenas fundem o material em função do objeto em
g esso , e quem molda o g esso são os ar tistas . ” (Ribeiro , 2020).
139
O desenho destas peças não foi percebido na oficina, log o , não conseguiram fazer o
desenho da sua preparação ou entender a técnica proposta de constr ução . Inclusiv e,
o processo constr uti v o tev e de passar por um sistema produção , desde os materiais
às instr uções de montagem, que foi inter mediado pela par ticipação de um ser ralheiro
cor rente, versado em obras de arquitetura. Houv e necessidade de encontrar modos de
trabalho complementares aos da arquitetura, e também, aos da escultura.
Durante o decor rer deste conjunto de contribuições questionou-se o papel da
arquitetura na escultura, no mobiliário urbano , na paisag em e na ar te. F oi curioso
conv ersar com o arquiteto J oão Mendes Ribeiro e escutar as suas convicções sobre
o facto de ser mos ar quitetos , o que nos per mite aborda r diferentes escalas , diferentes
problemas e desafios , ou seja, afir mar que não há, vir tualmente , uma distinção entre
a arquitetura, escultura ou mobiliário urbano , pois são a mesma coisa. F oi também
precioso conv ersar com os arquitetos do atelier DepA, Luís Sobral e J oão Crisóstomo ,
e perceber que as suas peças resolv em um problema, e que atacam a questão da eficácia
constr utiv a, por tanto , não se trata apenas de ter uma metodologia mas de se ser capaz
de lev ar a conceção ao limite e de ser operativ o , continuar a ter sempre presente uma
intenção conceptual impor tante.
Conseguirá o arquiteto trabalhar sozinho estas questões , de um modo puramente
disciplinar , ou a condição ar tística dev e obrigá-lo a recor rer a saberes disciplinares
complementares , na filosofia, na fenomenologia da perceção e, ev entualmente , nos
domínios das ar tes? T emos vindo a refletir sobre o facto de a contribuição de todas
estas áreas ser cada vez mais frequente . Uma obra de ar te n unca será um projeto de
arquitetura, tal como um objeto ar quitetónico nunca será uma obra de ar te, mas , a sua
“constr ução final só será ar tística se o arquiteto recor rer a disciplinas complementares
que o ajudarão a planear , conceber e a compreender o habitar da própria obra. ”
(Nav ar ro , 2020). A arquiteta Eliana Sousa Santos questionou a pergunta for m ulada
acima, porque , pela for ma como está constr uída, parece querer isolar a figura do
‘arquiteto’ para o por a trabalhar sozinho . T endo a opor tunidade de aqui refor mular a
questão , diria “Conseguirá a arquitetura operar isoladamente?”. A sua resposta molda
(ainda) um conjunto de dúvidas e definições que, a long o tempo , se vão multiplicar . Da
mesma for ma que a paisagem cor responde a uma multiplicidade de for mas , e não a um
v azio , as minhas questões transfor mam-se em paisag em de ideias .
141
3. INVESTIGAÇÃO PELO PR OJET O
143
145
147
3.1. Opor tunidade de experiência - Constr ução do percur so
Na inv estig ação pelo projeto emerge a necessidade do desenho para dar resposta
à identificação de locais , para o estabelecimento do percurso ou rede temática, que
engloba os dispositi v os de experiência e caracteriza o modo como se potenciam
espacialmente e sensorialmente os lug ares criados . O desenv olvimento da leitura da
paisag em, em São P edro de Moel, foi o denominador comum para o definir de um
percurso pedonal como projeto estr uturante e estratégico , que tem como objeti vo
proporcionar uma viagem pelo ter ritório enquanto opor tunidade de reflexão . São
inúmeros momentos onde o con vite para o lançar de um olhar sobre a paisag em é uma
sug estão para olhar o nada, ou seja, para olhar o que estamos a ver , embarcando numa
espécie de perceção do espaço .
Ao todo , são propostas treze experiências que , de for ma imersi va, caracterizam o
projeto atra vés da ligação entre o urbano e o espaço cultural, e que são complementares
de outras por meio da relação do cor po na paisag em. T rata-se da possibilidade de
ser mos confrontados com a altitude, através de uma tor re de obser v ação , bem acima
da copa das ár v ores , ou com um espaço de repouso rodeado por uma mancha v erde
de pinheiros , ou um momento de contemplação da linha de horizonte, sobre o mar ,
enquanto ouvimos o bar ulho do v ento ou das ondas no fundo da ar riba. De pois , um
lug ar da escrita que homenag eia a literatura e a memória de Afonso Lopes Vieira,
um percurso esca v ado onde somos parcialmente env olvidos pelo solo , e um objeto
espelhado junto ao ribeiro de São P edro de Moel, preenchido com cores , luz e ecos ,
camuflado no seu ambiente paisag em. Quer-se lig ar a complexidade própria de cada
lug ar à experiência que queremos extrair dele , com o intuito de, por ex emplo , sob a ideia
de camuflagem na paisag em, procurar mos temas como a materialidade , transparência e
luz, capazes de recriar uma nov a poesia em cada espaço .
149
A experiência é o próprio lug ar que se acentua atra vés da arquitetura, enaltecendo a
perceção , pelo corpo em movimento , da condição da experiência na paisag em. Há
lug ares que se constroem para um fim, para a obser v ação de a v es , de fauna e flora,
plantas e líquenes; e há lug ares onde se pode fazer a sobreposição da experiência pessoal,
da natureza for mativ a e pedagógica. A lógica não é fec har o circuito na paisagem, mas
comunicar as opor tunidades que o percurso g era na constr ução de uma ideia como a
do rizoma, constr uído por layers . A proposta indi vidual apoia-se n um la yer de projeto
capaz de proporcionar aos utilizadores e visitantes , mesmo às pessoas que vão passar
aí apenas uma temporada, idênticas possibilidades de autodescober ta.
A proposta de percurso definiu-se a par tir da sobreposição e complementaridade
com momentos já existentes , como as v oltas dos 5 e dos 7, que cor respondem às
pequenas rotas estabelecidas na faixa de proteção litoral do Pinhal do R ei. Esta faixa
cor responde à zona de proteção per manente onde nunca se cor taram pinheiros , a
não ser para abater os que já estão demasiado velhos e fragilizados . Dev erá, contudo ,
também aqui, iniciar-se urg entemente o processo da reflorestação . O reconhecimento
de lug ares especiais completa o modelo de percurso com experiências sensoriais que
se associam a um conjunto de outras experiências de descober ta. A identificação dos
vários pontos cor responde a categ orias de experiência coletiv a e/ou individual. Do
ponto de vista da própria natureza das experiências , elas são puramente fisiológicas ,
espirituais ou de descober ta. P or ex emplo , quando se estimula a obser v ação de a v es ,
isso cor responde a uma dimensão de experiência pragmática.
A criação de uma sequência de lug ares na paisagem desafia o utilizador para a
opor tunidade de experimentar , em sítios diferentes , diferentes carg as emocionais ,
diferentes exposições sensoriais de perceção do ter ritório , em distância, em tempo ,
em cor e em clima. A reno v ação das voltas dos 5 e dos 7 enriquece a experiência de
passeio , tor nando-a, consequentemente, mais rica, complexa e alarg ada. O objeti vo é
o de expandir as v oltas de São P edro de Moel, acrescentando-lhes v alor como rotas de
passeio lúdico , pedagógico e/ou técnico .
Uma procura tão extrema da plenitude, nos reencontros em São P edro de Moel, afir ma
precisamente a fragilidade das coisas , num g esto deambulante. A descodificação de
lug ares é rev elada através do verdadeiro estímulo aos sentidos , cada “inutilidade” da
Figura 78: Pinheiros-serpentes , localizados ao long o do cordão dunar litoral.
F onte: A utoria própria, a 9 de julho de 2020.
151
carg a poética nasce de um combate contra o tempo preciso e o desafio de descober ta.
Esta possibilidade de integ rar uma rede de microarquiteturas em ambiente natural,
v ai clarificar os lug ares sensoriais , desde o V ale do Ôlho , no centro da pov oação , ao
cober to ripícola, nas marg ens do ribeiro , onde se imiscuem espécies inv asoras que
tendem a dominá-lo .
A experiência sug ere que cada lugar projetado proporcione algum isolamento , um
momento de experiência individual que integ ra realidades distintas . T odavia, os ditos
momentos especiais requerem desvios , têm de ser intencionalmente explorados para
serem descober tos . Existem vários pontos dentro do pinhal onde há a possibilidade de
obser v ar o arbusto da camarinheira ou o medronheiro , porém, isso não é com unicado
às pessoas , nem àquelas que procuram essas experiências . T erão que descobri-lo no
tempo cer to de rev elação . O enriquecer da prática é o instr umento de captação dos
públicos . As experiências adicionais são aquelas em que as pessoas são conduzidas pela
perceção e a pedag ogia, dentro do imenso mar de pinheiros , e são levados a re parar que
existem quatro tipos de ár v ores singulares , por ex emplo . Impor ta conseguir trabalhar
as opor tunidades que a condição natural v ai proporcionando , trabalhar sobre coisas
sensív eis e não ter medo de fazer delas arquitetura. Através da criação de um no v o
layer de projeto , uma enor me maioria das opor tunidades de experiência surg e como
base para a exploração da questão sensorial e da dimensão de um percurso atrativ o ,
destinado a uma experiência de tipo naturalista.
A leitura da paisag em e a procura de referências concebe-se , atualmente, per mitindo
uma v ariabilidade de experiências mais idealistas , e de outras mais pragmáticas . Ambas
fazem par te de um jog o de descober ta dos lug ares . Existem desafios que têm as mesmas
referências teóricas , históricas e paisagísticas , porém, a consolidação de referências
individualiza-se , com a contribuição inadver tida e ou intencional dos utilizadores , ao
percor rerem os diferentes tipos de experiência, quer percecional, quer emocional,
ag r upadas segundo as intenções de cada projeto , individualmente . Esta visão estratégica
de (re)encontro sensorialista assinala no v as tendências práticas à escala do objeto ,
que vêm revelar a identidade singular de cada ter ritório e, sim ultaneamente , lançar
respostas para a questão do lugar e para a relação com o utilizador , na possibilidade de
estabelecer , através da prática ar tística, noções de relação experimental e introspeti va.
Figura 79: R oteiro Desencaminharte 2018 - Ar te Aplicada ao Lug ar .
F onte: CIM, 2018.
Figura 80: “ A P aisagem é”, inter v enção da ar tista F ernanda Fragateiro , em Sistelo .
F onte: Autoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
153
O projeto Desencaminhar te 2018 apresentou uma rede de dez lug ares , no Alto
Minho , onde a concentração de genius loci (Norberg-Sc hulz, 1991) 17 estimula as várias
inter v enções na paisag em, desenv olvidas por ar tistas e por arquitetos , par tindo dos
conceitos de identidade natural. Este prog rama foi promovido pela Comunidade
Inter m unicipal do Alto Minho , com o tema Ar te aplicada ao Lugar . Dez concelhos ,
dez autores , dez inter v enções . O resultado adivinha-se com a sinalização de uma rede
que estim ula a exploração entre os dez municípios da região , como se de um guião
se tratasse. Um guião que conduz à teatralidade da paisag em e que per mite aos seus
leitores , um en volvimento ativ o nas inter v enções per manentes e uma variabilidade de
perceções que , até ao momento , jamais tinham sido expressas com o mesmo valor .
Será que, no conjunto das dez inter v enções – cinco objetos desenhados por arquitetos
e cinco por ar tistas – temos a perceção clara das suas diferenças? O arquiteto J oão
Crisóstomo refere que a presença do cor po na experiência dos “cinco desenhos de
arquitetura é, se calhar , mais intensa e mais física do que nos outros cinco” (Crisóstomo ,
2020).
A incessante procura das propostas inscritas nos espaços leva-nos à descober ta de
encantos naturais por nov os caminhos , pouco ou nada rev elados , onde o protag onista
dev e encarar esta prática como uma experiência no campo estético da paisag em. Esta
esfera de ideais menciona as ideologias da Land Ar t, desde o percurso persuasiv o como
disciplina critica à transfor mação simbólica no ter ritório , por meio da “theatricality of
objecthood” (Careri, 2002, p . 124).
Na localidade de Sistelo a ar tista F er nanda Fragateiro marcou a paisagem integ rando
nela uma simbologia cultural, que se fica a dever à colocação de seis bandeiras onde
se inscreveram frases retiradas de poemas . De modo conce ptual, elas atuam como
símbolos que unem um traçado no ter ritório , mas , principalmente , definem a paisag em
pelo seu teor emotiv o . A imagem desta aldeia r ural car reg a uma história (ainda) viv a,
marcada pela ag ricultura e a pecuária, com um conjunto de espigueiros e estábulos de
g ado . Esta paisagem fez com que a ar tista assinalasse um trajeto com seis pontos de
parag em, para que os seus visitantes reconheçam pequenos “espaços de liberdade”
(CIM, 2018, p . 148).
17 Edição original de 1979.
Figura 81: Visita de campo à inter v enção “ Sulco” do Atelier DepA, em Melg aço .
F onte: A utoria própria, a 30 de junho de 2020.
155
“Direito ao tempo e direito ao espaço (que não são senão
dois modos de declinar os nomes da liberdade). ” (CIM, 2018,
p . 148).
Na P or ta de Lamas de Mouro , em Melg aço , houve uma inter venção que absor ve todos
os elementos em v olta, que introduz o utilizador num ambiente próximo , propício
da experiência contemplati va. Os ar quitetos DepA identificaram uma “charca, entre
musgos , seix os e juncos” (CIM, 2018, p . 160) e introduziram nela um sulco , para que
o utilizador pudesse interagir diretamente com o solo e com a água, através de uma
perspeti va que confronta o poder do conhecimento com a natureza. F oram identificados
três momentos – a pradaria, a floresta e a montanha –, de relação entre o papel do lug ar
e o projeto de ar quitetura, objetos que constroem paisag em no tempo de utilização da
peça, cujo modo como são desenhados v ai sublinhar . As relações percepcionadas , por
quem experiencia os momentos sequenciais da inter v enção , rev elam o poder fur tiv o e
latente inscrito na paisag em, a par tir da capacidade que a peça tem de liber tar esse poder,
fazendo rev er ter com toda a intensidade a mensag em daquela g eog rafia. Reposiciona-
-se o cor po em perspetiv a com a escala do lugar e a dimensão da montanha, que é
apontada como destino visív el, enquadrado pela “moldura” cénica que a precede . A
arquitetura, como instr umento complementar , transfor ma-se num elemento indireto
de representação . São os dois elementos verticais – que confor mam a moldura – que
vão direcionar o utilizador para um percurso pedestre na montanha, que, apesar de
estar g rav ado no solo , os arquitetos entenderam sublinhar , rev elando o seu início .
Mais uma vez, a inter venção na paisag em surg e em for mato de mensag em àqueles
que procuram este tipo de experiências relacionais e de descober ta. São peças que se
tor nam reflex o , em menor ou maior escala, do genius loci (Norberg-Sc hulz, 1991) 18 , e
que lhe acrescentam dimensões percecionais , estabelecendo uma relação direta com a
ideia de lug ar na paisag em.
Esta peça, enquanto elemento de interpretação do lugar , é reflex o da sua leitura. Os
arquitetos procuraram estabelecer o confronto , pela pro ximidade do poder da natureza
e pelo distanciamento , que intencionalmente introduziram, ao edifício Visitor Center –
P arque Natural da P eneda-Gerês . Luís Sobral afir ma que este último “é o elemento mais
estranho que [nós] encontramos nas imediações e que propõe também uma viag em
18 Edição original de 1979.
Figura 82: Visitor Center - P arque Natural da P eneda-Gerês .
F onte: A utoria própria, a 30 de junho de 2020.
Figura 83: “Sulco”, inter v enção do Atelier De pA, em Melgaço .
F onte: A utoria própria, a 30 de junho de 2020.
157
estranha ao ter ritório . ” (Sobral, 2020). Um m useu ou centro de inter pretação deste tipo ,
propõe uma viag em entre quatro paredes , para g r upos de visitantes , mas é uma viag em
que distancia as pessoas do lugar e lhes conta uma história a par tir do conhecimento e
documentos , ignorando a realidade vizinha. P or tanto , aqui, os arquitetos desenham o
inv erso , idealizam o contacto e a inter pretação do lug ar pela sua experiência e, inclusiv e ,
propõem-na em di v ersos tempos e em coisas m uito pequenas , como a rampa. Ao
long o de 15m o utilizador é conduzido para uma imersão lenta no solo , possibilitando
a obser v ação rasante da c harca, que o projeta para outra experiência. Depois , dá-se a
aceleração com a saída rápida, subindo alguns deg raus , que lhes redireciona o olhar e
o movimento , para a segunda peça, v er tical, um pouco distante . Só a par tir de ag ora
se conduz o utilizador para a montanha e, por tanto , a contin uada ação de descober ta
é ativ ada, pelos percursos já marcados e existentes naquele ter ritório . Interessa-lhes
esta diferença na leitura do lug ar , a for ma como interpretamos a descober ta sensorial
através da experiência direta, que se constitui a par tir de um g ritante contraste com a
experiência proposta no centro de interpretação .
T rata-se também de induzir a medição de forças entre quem constrói uma mensagem,
e quem desenha o acolhimento de um leitor de paisag em como este, entre o ar tificial
e o natural. Entre o modo como , daqui a 10, 20 ou 30 anos , se experienciará este tipo
de inter venção , e o propósito da sua inscrição no lugar . Qual o poder do tempo sobre
a peça e qual a sua capacidade de se fazer valer? Como olhar a experiência no tempo
long o , do processo de apropriação e deg radação que, os elementos da natureza, sobre
ela irão produzir?
Os arquitetos confessam que “a constr ução foi penosa nesta obra” (Sobral, 2020),
desde logo , porque o desenho teve a transposição direta para a realidade , um g esto
ar tificial que ag ride o ter reno . O objeti v o desta inter v enção passa v a por não se
confundir com a natureza e que marcasse, em todos os momentos , a sua constr ução .
Apesar das condicionantes e da luta contra a natureza, os arquitetos assumiram, em
projeto , que a peça fosse camuflada na paisagem e que fosse desg astada pelo tempo .
“Nós realmente ambicionamos que esta peça seja absor vida
pelo tempo , que se transfor me , que se manche , que o soalho
empene e que fique manchado . Isto é a ambição da peça. ”
Figura 84: “Barca”, inter venção do ar quiteto P ablo Pita, em P onte da Barca.
F onte: A utoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
Figura 85: “Barca”, inter v enção do arquiteto P ablo Pita, em P onte da Barca.
F onte: Autoria própria, a 12 de agosto de 2020.
Figura 86: “Rasg o no solo do parque de lazer do Castelinho”, inter venção da ar tista Gabriela Alberg aria, em Vila
Nov a da Cer veira.
F onte: Autoria própria, a 12 de agosto de 2020.
Figura 87: “ Abrig o”, inter v enção dos arquitetos F AHR 021.3, em Caminha.
F onte: Autoria própria, a 12 de agosto de 2020.
159
(Sobral, 2020).
Uma questão quase ética. A idealização de uma peça que não tem essa imper meabilidade,
porque tem de ou dev e desparecer na paisag em, aí contraria-se em par te o prog rama
deste projeto . Se daqui a 10 ou 30 anos a peça não esti v er no lugar , ela “cumpriu o seu
propósito e deixa espaço para que outras coisas aconteçam. ” (Sobral, 2020).
A cer ta altura, questionou-se a relação de escala dos vários dispositi vos a propor
para São P edro de Moel. Os treze objetos ar quitetónicos apro ximav am-se uns dos
outros; a mesma relação física, a mesma materialidade , o mesmo contacto com o solo .
P aradoxalmente , também o projeto Desencaminhar te 2018, pode ser caracterizado
desse modo , e, também por isso , as suas peças aproximam se do cor po físico . Desse
modo , uma das questões desta inv estig ação pelo projeto obtinha a sua resposta. A
resposta advém quando , em cada lug ar , o seu propósito for a aproximação do Homem
à paisag em. Então , aí, o conjunto de momentos com escalas muito próximas passa a
fazer todo o sentido .
Uma coisa é a justificação do percurso; outra coisa é o que já existe, aquilo que
pode enriquecê-lo; e ainda uma outra coisa é o trabalhar , caso a caso , cada uma das
experiências .
O objeti v o da leitura prévia da paisag em é: pre parar o mapeamento dos lug ares
propícios às experiências coletiv as e ou individuais , e das experiências sensoriais , para
identificar quais os sentidos e aonde ativá-los; pensar experiências imersi vas e em que
tipo de ambiente se pode constr uir ou suscitar , facilmente, essa sensação de imersão;
poder intuir como a atmosfera v ariável, que vai v ariar ao long o dos ciclos do tempo ,
pode enriquecer as descober tas pessoais . Pretende-se realçar essas diferenças e, para
que isso aconteça, é necessário conhecer bem o estrato matricial, paisagista, para poder
trabalhar for malmente e espacialmente cada um desses lug ares .
Há experiências sensoriais que, prov av elmente, são mais ativ as ou intensas no escuro ,
ou de olhos fec hados – como a audição , que é especialmente ativ ada pelo r uído , pelos
sons , perante a ausência do reconhecimento da fonte sonora, visualmente inacessív el –,
ou quando estamos deitados – reduzida a pressão da gravidade e o esforço do equilíbrio
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169
Figura 88: Obser v ação do pôr do sol na ar riba, em São P edro de Moel.
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
171
–, ou em tensão e movimento – beneficiando do clima de aler ta e da necessidade de
concentração que o movimento despoleta. Os desafios colocam-se de modo div erso , na
exata medida em que somos desafiados a experimentar o vento , enfrentando-o de modo
estático , ou em movimento . T enciona-se induzir a possibilidade de experimentação
destes lug ares em horas e momentos precisos , sem contudo inibir ou condicionar a
possibilidade de uma surpresa insuspeita, que só uma ocor rência momentânea ou
for tuita, de modo inesperado , poderá suplantar . As pessoas escolhem as ar ribas e a
frente de mar para a obser v ação do pôr do sol. Estamos perante a experiência de ver –
literalmente , pela deslocação da fonte de luz – o tempo cronológico , o cromatismo e a
luminosidade v ariarem, sobre um espaço de reflexão por ex celência, o oceano . Isto pode
acontecer com todos os sentidos e em todos os ambientes . Infelizmente, não estamos
treinados para ouvir ou sentir o v ento , e ainda menos de for ma aprazível, assim como
não estamos treinados para a v ariabilidade lenta do tempo , que não nos apraz medir
com o cronóg rafo/relógio , mas que podemos apreciar acompanhando o desabrochar
de uma flor , ou a chegada atarefada de um insecto que se alimenta ao alvorecer . O ser
humano obser va o pôr do sol, o decurso do ocaso , porque é uma ação de duração
muito variáv el que pode dem orar , na nossa latitude , cerca de oito minutos . Na prática,
podemos inter rog ar -nos sobre o número de pessoas que vão v er o pôr do sol com uma
antecipação de duas horas? Prov av elmente, já se encontrav am no local, e ficaram para
usufr uir dessa experiência. Ou prepararam-na apenas com a antecipação indispensáv el
para a poder medir visualmente . Quantas vezes terão perdido o v erdadeiro ocaso ao
abandonar o local, por confundir a possibilidade lenta e rica da experiência que inclui
o tempo lento da transição cromática e o lusco-fusco , até ao escurecer , com a realidade
elementar da perda visual da fonte de luz?
A g eog rafia proporciona os locais e os pretextos que a paisag em valoriza, mas a
arquitetura acrescenta-lhes a intencionalidade, a mensagem nar rativ a, como a ar te, e a
possibilidade de reconhecimento espacial pelo corpo .
Este entendimento per mite-nos inter rog ar se, deste modo , São P edro de Moel
pode proporcionar lug ares de fr uição estética e paisagística como os dos ar tistas da
paisag em? Queremos pensar como é que um Michael Heizer , um Richard Long ou um
W alter de Maria trabalhariam este lugar urbano , onde a experiência na paisagem duraria
mais de 24 horas , como em Double Neg ativ e, onde o desafio emerge com o “sentir
173
do pôr do sol” e da intensificação das v ariações tér micas , no limiar da meseta que
ativ a as cor rentes de ar . Será que pensar os momentos de São P edro de Moel, a par tir
dessa densidade , em que a experiência se intensifica em algum momento , marcando
especialmente a perceção pela reação do cor po , poderá ser prog rama de projeto de
arquitetura? Será que precisamos mesmo da ar quitetura para tor nar única a experiência,
em qualquer hora ou em qualquer dia, no v erão ou no inv er no , ou para ter dois ou cinco
momentos do ano em que v ale a pena lá v oltar , porque as cores das ár vores mudaram?
Existe uma dimensão poética na paisagem que ultrapassa a dimensão pura da perceção ,
mas , prov av elmente, só funciona para aquelas pessoas que estão disponíveis para
realizar a experiência, sentindo-a. A arquitetura pode, seguramente , ativ ar esse desejo
ou disponibilidade, agreg ando-lhe a nar rativ a. De pois , cada pessoa se deslumbrará
com coisas diferentes , pro v av elmente, até no mesmo lugar e em tempo síncrono . Uma
pessoa pode fazer uma experiência percecional que a outra não concebe, ou n unca
chegará a experienciar do mesmo modo . O papel deste percurso é, exatamente, o de
intensificar a disponibilidade para a sensibilização humana em presença do ambiente
natural. Aqui, entra a dimensão infraestr utural, que juntamente com as condicionantes
do som, da luz e da água a cor rer , entre tantas outras , pode acrescentar v alor ao
momento especial. T rata-se de olhar a natureza neg ando a atitude passi va e analisando-a
dinamicamente , para lhe poder acrescentar uma densidade cultural, fenomenológica e
estética, antropizando cada lug ar sensível como um exercício de urbanidade , própria
dos consumos contemporâneos , mas sem a predação e sem reducionismos naturalistas ,
que a arquitetura não se pretende inferior à natureza.
Na próxima etapa, do ex ercício individual, serão concebidas as condições espaciais
infraestr uturais , para que algumas destas experiências , ativ adoras dos momentos ,
ocor ram em lugares tão profundamente urbanizados ou estabelecidos como o
miradouro no parque do ribeiro . A tor re terá de ser mais do que um objeto que é aí
pousado , obrig ando-se a transmitir a sua dimensão e toda a sua carg a poética a par tir da
paisag em. Mas , parado xalmente, ha verá uma idêntica carg a de urbanidade em qualquer
outro destes leitores de paisagem, mesmo em plena mata nacional, não os isentando da
sua própria carg a poética, pois ela não depende apenas do genius loci (Norberg-Schulz,
1991) 19 , e não reside ex clusiv amente nas condições endógenas do lug ar .
19 Edição original de 1979.
Será que a criação destas experiências em lug ares urbanos , considerados
descaraterizados e paupér rimos , alcança o mesmo valor sensorial? A ambição deste
conjunto de experiências é a de fazer a fusão dos desafios , para saltar de um objeto
como o miradouro , que é profundamente urbano , para um qualquer outro objeto que
interaja com a urbanidade, e com as for mas mais intensas com que preenchemos os
espaços que habitamos , e recordamos que pretendemos habitar , intensamente , todos
estes lug ares . Só dessa maneira o percurso na paisag em, juntamente com as arquiteturas
para São P edro de Moel e os “objetos da natureza” – as suas inúmeras e div ersas
morfologias naturais –, se irá completar , promov endo uma vida urbana que acrescenta
v alor às vivências autónomas e essencialistas , da condição natural falseada pelos usos .
A ambição de conseguir trabalhar da mesma for ma uma realidade muito concreta
como a tor re urbana, no contexto central de São P edro de Moel, e os outros leitores de
paisag em, reside no princípio da criação de momentos que almejam por serem urbanos ,
e que, ao mesmo tempo , são o salto da liber tação da urbanidade, sem perderem a
ar tificialidade – a artialisation , ou ar tialização , de Alan R og er (R og er , 1997). Este é o
g ozo do projeto , criar espaços urbanizados de descober ta e de perceção que se liber tam
da sua condição original. Atualmente, parece que apenas existem duas maneiras de se
viv er, ou somos urbanos ou somos naturalistas . Não poderá um cidadão , que viv e
convictamente um modo de vida urbano , g ozar da mesma for ma a essencialidade
de coabitar sereno a natureza, de descobrir e ouvir os pássaros , de sentir o vento?
Pretende-se conceber lug ares , em São P edro de Moel, que possam esbater fronteiras
e que sejam reflex o da experiência essencialista, promov endo a possibilidade de
acrescentar v alores de leitura sensorial e dimensões pedagógicas , ou de entretinimento ,
para serem explorados coletiv a ou indi vidualmente .
Figura 89: P onto Nov o - Leitor de paisag em.
F onte: A utoria própria.
179
3.2. Leitores de paisa gem
181
“P assav am pelo ar av es repentinas ,
O cheiro da terra era fundo e amarg o ,
E ao long e as ca v alg adas do mar larg o
Sacudiam na areia as suas crinas . ” (Andersen, 2013, p . 54).
183
01 Camufla gem
São P edro de Moel é um lug ar marcante en volvido pela ancestralidade do Pinhal do
R ei, símbolo de um re positório onde se acolhem todas as simbologias que lhe estão
associadas . Entre pinheiros ser penteia um ribeiro que “lev a um pouco da ter ra interior,
da ag ricultura e do fer ro para o mar” (Lameiro , 2020), onde, quase à c heg ada, se
transfor ma em lag oa para div er timento dos mais nov os .
Ao long o desta zona ribeirinha contemplamos uma poética extrema, onde cada lug ar,
com as suas plumag ens , é motiv o de exploração . A obser v ação de av es , fauna e flora,
plantas e líquenes , é uma ati vidade que desper ta um interesse crescente , e zonas como
o ribeiro de São P edro de Moel e a marg em do rio Lis são locais especiais para este
tipo de experiência. A procura de uma intensificação desta experiência, com sensações ,
pretende ser reflex o de um lug ar onde se pode fazer a sobre posição da experiência
pessoal e, ao mesmo tempo , uma experiência for mativ a e pedagógica na e sobre esta
esplendorosa natureza.
Localizada no talhão 248, junto ao ribeiro e a 100m do parque de merendas , destaca-
-se uma caixa espelhada camuflada na paisagem, possibilitando uma comunhão com
o meio env olv ente, que nela se reflete. A leitura da paisag em env olvente transmite ao
utilizador um estím ulo aos sentidos , entre a obser vação das várias espécies que por
ali passam, procurando sítios de re produção ou de inv er nada, abrig o e alimentação .
O cor rer da água e o olhar , que recai sobre a outra marg em do ribeiro , completam o
enquadramento .
Este dispositi vo desenha a quebra do ar rife 20, através da adição de um percurso
lig eiramente elev ado do solo , em betão ar mado , que direciona o olhar do utilizador
para uma abertura na chapa polida de aço ino x. Uma janela oferece-se como remate
Figura 90: Esquiço Camuflagem.
F onte: A utoria própria.
185
e como parag em obrig atória, para se olhar um medronheiro no meio de pinheiros .
A impor tância da reintrodução do medronheiro , enquanto cultura autóctone e
tradicional, insere-se no papel da pedag ogia social sobre o assunto das culturas regionais
e das policulturas , em silvicultura e floresta. Neste lugar isolado , a peça possibilita
experiências bem div ersas . A sua apropriação física, quando o utilizador decide ocupar
a peça, preenc he por completo aquela paisag em. O alçado nor te do cubo (2,8 x 2,8
x 2,8 m) proporciona ao utilizador a parag em temporária para o descanso , composto
pelo neg ativ o da moldura em aço . Nesse momento , subindo um deg rau em betão
ar mado , o utilizador pode começar a apropriar-se da peça, contemplando o interior do
Pinhal e espreitando atrevidamente o interior da caixa, até porque , essa obser vação só
lhe é per mitida atra vés da modelação do ripado que se rev ela na intimidade da concha.
No interior da caixa espelhada, a sua dimensão pretende estabelecer a relação do cor po
físico com a visão intimista do local. Nesta experiência, até dois utilizadores podem
experimentar o confor to de uma conv ersadeira, em for mato Chaise Longue , e ao mesmo
tempo , perceber como se pode estar totalmente camuflado na paisagem, podendo v er
e não ser visto . A perceção do contraste de materiais transmite ao utilizador diferentes
sensações , em ambientes compostos por um interior rev estido e modelado em ripado
de madeira de pinho (3,6 x 3,6 cm) e um exterior camuflado em chapa de aço ino x
polida. Um segundo momento faz o convite àquelas pessoas que pretendem estabelecer
o contacto visual com o céu, obser v ando a passag em re pentina dos pássaros . P ara
este efeito , o utilizador precisa apenas de se reclinar ou deitar , sobre a cama moldada
em ripa do . Só assim perceberá o rasg o aber to na cober tura, e poderá compreender o
ambiente , ensurdecedor , vivido nas copas dos pinheiros e eucaliptos . T al como a caixa
espelhada, o utilizador passa a estar camuflado neste ambiente , ativ ando os sentidos de
leitor de paisag em.
Um segundo percurso , per pendicular ao ar rife, direciona o utilizador até ao nív el da
água cor rente do ribeiro . A madeira reflete a mesma linguag em presente no interior da
caixa, numa espécie de rev elação exterior que ter mina n um falso tanque . Esse outro
momento induz no utilizador uma ideia falsa de retenção e estabilização da pressão da
água circundante . A submersão do cor po , mesmo que apenas parcial, repõe a verdade
a par tir do estr ado de assento , que paira sobre as águas , deixando em aber to a hipótese
de um efetiv o banho no ribeiro . É um momento de pausa que, por entre as tábuas de
Figura 91: Piscina na Chamusca da Beira (2013), do ar quiteto J oão Mendes Ribeiro . F otog rafia: do mal o menos .
F onte: https://www .archdaily .com.br/br/788342/piscina-na-cham usca-da-beira-joao-mendes-ribeiro
187
madeira, acentua a concentração de seix os , de for ma a que o utilizador , aqui sentado
contacte a natureza onde se refugia.
Este será, por ventura, um conjunto de experiências diferentes , conectadas entre a
ter ra, o céu e a água.
P ara este momento da Cam uflag em, a escolha de materiais foi definida em prog rama,
ao abrig o de um ambiente rodeado pela m ultiplicidade de troncos , folhagem e um
ribeiro . O tema dos espelhos explica, pela distorção , uma no v a realidade no lugar . F oi
colocado numa zona com características espaciais e sensoriais muito distintas das do
parque de merendas , frequentado com alguma frequência pelos moradores , mas per to
da pressão do ribeiro que, com frequência muda de aspeto de estação para estação .
O exterior , apesar procurar a camuflagem, seja com a floresta verde seja com a água
que por ali cor re, proteg e um interior bem diferente, que não deixa de esconder um
ambiente confor táv el, propício à per manência. São várias as experiências possíveis ,
ainda assim, complementam-se .
Com a mesma intenção projetual, a piscina na Cham usca da Beira, caracteriza-se
por ser um pavilhão espelhado , com o propósito de resolver a relação da casa com o
jardim. Um antig o espaço hor tícola surgiu por necessidade e, mais tarde , um prog rama
complementar de apoio à piscina, obrigou ao exercício . P ara dar resposta a este projeto ,
o arquiteto J oão Mendes Ribeiro recor re à ideia de que, às v ezes , a arte acaba por
resolv er problemas de arquitetura. A par tir da instalação da ar tista F er nanda Fragateiro ,
na Casa da Cerca em Almada, assume a ar te como um projeto e instala uma arquitetura
ausente , na “tentativ a de dar resposta a este problema an ulando a própria ar quitetura”
(Ribeiro , 2020). Com o tema da desmaterialização , a ar tista recor re ao rev estimento
de um conjunto de elementos arquitetónicos , nomeadamente escadas , para conseguir
anular a sua presença. No pa vilhão de apoio à piscina acontece exatamente o mesmo ,
uma arquitetu ra ausente, que apesar da sua escala e da sua for ma, não é percetív el. O
arquiteto explica que:
“Encontrei uma relação muito clara com a ar te , não que o
pavilhão seja um projeto ar tístico , mas se não ti v esse visitado
a instalação da F ernanda Fragateiro não me tinha ocor rido
Figura 92: P arque de merendas junto ao ribeiro de São P edro .
F onte: A utoria própria, a 27 de fevereiro de 2020.
189
esta possibilidade . ” (Ribeiro , 2020).
A referência projetual é aqui apenas material, não tem a ver com a for ma. O arquiteto
compreendeu que através do material, o aço inox polido , obteria o efeito de espelho .
Ambas as intenções de projeto têm como objetiv o refletir toda a env olv ente para anular
o projeto arquitetónico , e isto cr uza-se também com o tema da habitabilidade mínima,
explorado em peças cenog ráficas , por ex emplo . Era impor tante manter a imag em da
paisag em e encontrar , de alguma for ma, uma solução ar quitetónica que se an ulasse,
mas que desse resposta a nov as necessidades . Um prog rama mínimo num vasto espaço
v erde .
191
“O caminho é de âmbito maior
Que a aparência visív el do que está fora,
Ex cede de todos nós o exterior ,
Não para como as coisas , nem tem hora. ” (P essoa, 1990, p . 95).
193
02 Caminhar sobre (as copas dos) pinheir os
O local suscitou, desde log o , um interesse simbólico pela paisagem enquanto estratégia
de perceção , per mitindo a compreensão , quase total, da área verde que absor ve São
P edro de Moel. A existência de um caminho escondido , em ter ra batida, faz a união dos
ar rifes 17 e 18, e transpor ta o utilizador para um dos pontos mais elev ados do pinhal.
R odeados por uma mancha de monumentos v erdejantes , olhar a paisagem afasta-nos
do campo semântico , por que promo v e o absoluto descontrolo do horizonte espacial.
Localizado à cota 88, esta experiência inter rompe o caminho pré-existente , com a
instalação de uma espécie de passadiço que , em tra v essas de madeira, dá a indicação
de um momento de projeção sobre alguma coisa. E essa coisa só é verdadeiramente
desv endada quando o utilizador decide efetuar a experiência de contemplar o ter ritório .
Ao long o de 15 metros , as sensações multiplicam-se , o utilizador tem a possibilidade
de estar sentado n um banco crav ado na guarda, e de sentir o c heiro e a sei v a húmida
dos pinheiros . Ao percor rer a peça, que encaminha o utilizador para sul, a folhag em
abre-se para per mitir a obser v ação estratégica do ponto de vigia, no lado oposto
do v ale , conhecido como P onto Nov o . É ag ora que, de repente, a peça assume
plenamente a sua titularidade Caminhar sobr e (as copas dos) pinheir os , quando o utilizador
se apercebe da m udança de piso , para uma g relha metálica. Nesse momento final, de
pausa, de contemplação , a v er tig em projeta para baix o o olhar que recai sobre as copas
das ár v ores , enraizadas muito abaix o , que env olvem a peça como um c hão virtual.
T ambém o desenho da guarda, em bar rotes de madeira, per mite que pelos inter valos
da constr ução a natureza penetre e se deix e absor ver pelo espaço interior da peça, e
que , num tempo mais long o , a alcance, para que a experiência de imersão possa ser
totalmente experimentada.
Figura 93: Esquiço Caminhar sobre (as copas dos) pinheiros .
F onte: A utoria própria.
195
197
“Em todo o meu pensamento
Ser pensar a dor mitar .
Mas que há para lá do sonhar?” (F er reira, 2012).
199
03 P equeno bosque
No talhão 246, a má acessibilidade entre a P onte Nov a e a Praia V elha era, ainda em
meados do século XX, uma condicionante . Deu-se, mais tarde , a constr ução da estrada
florestal e , ao long o do trajeto , foram plantadas no v as experiências de embelezamento
v erdejante . Inclusiv e , um conjunto de eucaliptos que está classificado como ár v ores de
interesse público , desde 1997 20 .
J unto à P onte Nov a, ao apro ximar-se do conjunto de eucaliptos , o utilizador irá
aperceber -se de um caminho em betão ar mado descofrado , que pouco sobressai
do percurso existente , em ter ra batida recober ta pela car uma. Com o desniv elar do
ter reno , a cota deste ressalto transfor ma-o num pequeno muro de 50 cm de altura, que
também pode ser banco . Esta experiência pretende ser um percurso linear constr uído ,
que obrig a o utilizador a percor rer a peça sendo obrigado a um desvio , um gesto que
desenha uma reentrância, para env olver um ex ce pcional ex emplar de eucalipto , com
mais de 50 m de altura.
O Pequeno Bosque é uma peça que, ironizando entre a singularidade ex ce pcional do
ex emplar arbóreo e a multiplicidade inerente à ideia de bosque que a intitula, se
manifesta através do lado perfor mati vo do utilizador , como modo de habitar o lug ar .
Obrig a a sentar e contemplar o eucalipto de g rande por te , a par tir de baix o , exaltando
a sua altura, desde um lado; ou a per manecer e olhar para o ribeiro de São P edro de
Moel, do outro . O desenho instala a peça paralela e longitudinalmente em relação ao
ribeiro , criando um jog o de pro ximidade entre um momento de paisagem cultural e um
momento de acompanhamento do curso de água, que percor re naturalmente o v ale .
Esta experiência faz o convite a per manecer na paisag em, idealmente de usufr uto –
num espaço de deleite e prazer –, como se con vergisse ou se fundisse nela.
20 D .R. nº 32 II Série de 07 de fev ereiro de 1997.
Figura 94: Esquiço P equeno bosque .
F onte: A utoria própria.
201
203
“P aisag ens… R ecordações ,
P or que até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações . ” (P essoa, 1955, p . 35).
205
04 P arque de merendas
Na primeira visita ao local compreendemos que , à medida que nos afastamos da
mancha entristecida de pinheiros , encontramos outros residentes v erdejantes ,
pontuando casualmente algumas zonas singulares por entre as faixas “la vradas” dos
aceiros e ar rifes . F oi numa viag em à descober ta que se procurou ag ar rar o limite da
experimentação , para que, através do acentuar da perceção , pudéssemos conceber um
espaço livre e alcançáv el.
Dentro da v asta ofer ta de parques de merenda há nas matas pelo menos um que se
destaca, pelo seu simbolismo , mas também pela imagem que se con v er te em absorção .
Localizado no talhão 268, é facilmente identificado como um lug ar especial que , bem
dentro da manc ha de pinheiros , está completamente rodeado por car v alhos . O par que
de merendas é, por definição , considerado um espaço de paragem e estadia. P or isso
parece ser relev ante equipar e adequar o mobiliário urbano neste lug ar . A instalação
ordenada de um conjunto de mesas compridas proporciona encontros especiais entre
famílias . P ara apoio a estes encontros , ou a simples passeios no Pinhal, recolocaram se
caix otes do lix o , bebedouros e, no seu centro , uma ampla c hur rasqueira.
Muitas vezes não é preciso conceber objetos ou transfor mar a realidade da paisag em
numa outra coisa qualquer, porque esta realidade “inútil” já promov e contin uamente a
leitura subtil do espaço . O seu simbolismo será, em diferentes tempos cíclicos , cr ucial
para a intensificação do sentir , como a queda da folhag em ou a colheita de bolotas , que
conferem um significado acrescido ao par que. Um conjunto de experiências coletiv as
abre contornos para a obser vação de esquilos-v er melhos face à presença abundante
do seu alimento preferido nas ár vores . Da mesma for ma que, a cada quinta-feira de
Ascensão , se dá o colher da espig a de trig o em São P edro de Moel, poderá consag rar-se
neste parque uma no va tradição , da apanha da bolota?
Figura 95: Casa no Castanheiro , em V aleflor .
F onte: Autoria própria, a 4 de outubro de 2020.
Figura 96: P arque de merendas , em São P edro de Moel.
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
207
Não deixa de ser irónico que a sala de estar da Casa no Castanheiro , do ar quiteto J oão
Mendes Ribeiro , em V aleflor , seja a copa do próprio castanheiro; podemos afir mar com
convicção que o conforto , neste par que de merendas , tor na-o também sala de estar do
Pinhal do R ei. A identificação e v alorização deste momento implica apenas um jog o de
contacto com a natureza, como se o utilizador descobrisse , neste lug ar, um esconderijo
dentro do pinhal. Um espaço que se rev ela diferente pelas suas características , torna-se
refúgio de bem-estar .
209
“Ó marinheiros pinheiros ,
Gag eiros da tempestade!
Náufrag os ar rojados
À duna! Cristos preg ados
Na areia que v os tem cr ucificados:
- F azeis-me dor e saudade, a saudade de mim, a mais cr uel,
Meus pinheiros de Moel!” (Vieira, 1940).
211
05 Lugar da escrita
O percurso pela orla marítima do pinhal é a fronteira desta paisag em e , ao contrário
dos outros lug ares do projeto , este não trata apenas de um cenário natural. T erá este ,
em tempos , um lug ar de per manência do poeta Afonso Lopes Vieira, que procurou
retomar a memória dessa relação sensorial no li vro Onde a ter ra acaba e o mar começa
(1940), num poema dedicado aos pinheiros das dunas . P ela subtileza dos materiais
ou pela v ertig em prov ocada pelo movimento descendente, nas dunas arenosas , são
ativ ados modos de perceção aos quais , o poeta atribuiu um significado especial.
A 9 de julho de 2020, na última visita a São P edro de Moel, fomos à descober ta e
experienciámos o mais emblemático pinheiro-serpente, junto à praia das P edras Neg ras .
Questionou-se o porquê do momento Lugar da escrita não ser recolocado neste lug ar .
P orém, Afonso Lopes Vieira refugia v a-se entre os pinheiros , e nem todos eram especiais ,
porque era essa densidade que lhe proporcionav a uma opor tunidade de diálog o e uma
perspeti v a ímpar sobre a sua natureza, ancorada na história contada por Camões , que
tanto apreciav a. Além disso , hoje, a localização deste ex cecional exemplar de pinheiro
rastejante ombreia com o acesso a um incompreensív el parque de estacionamento da
praia; exponenciar qualquer confronto r uidoso , que não prov enha dos v entos ou do
mar , com o momento intimista de pro ximidade e criati vidade pessoal, não é de todo o
objetiv o deste leitor de paisag em.
A inter v enção apoia-se nesta premissa, define o espaço como elemento de reflexão
e homenag em à literatura, enaltecendo a perceção natural entre quem o inter preta e
quem o acolhe . J unto ao ar rife 22, na última parcela da mata, é posicionado o Lug ar da
escrita , com visão sobre o mar e relação com pinheiros-serpentes .
A peça encontra-se semienter rada na duna, e cria um momento que reflete um
Figura 97: Esquiço Lugar da escrita.
F onte: A utoria própria.
213
sentimento de g rande intimidade, para que o utilizador se apro xime do meio env olv ente ,
e os pinheiros rastejantes o possam env olv er de for ma prog ressiv a. Quase insinuando
que , ev entualmente , a v egetação pudesse acontecer mesmo lá dentro . Ao descer os
deg raus , em betão descofrado , revela-se a menção ao escritório , a mesa de trabalho do
escritor , orientada para o vão que comtempla as suas musas v erdejantes , tendo como
pano de fundo o oceano , e na retaguarda a bancada onde repousaria, acompanhando-o ,
a sua esposa.
Um primeiro momento é reflex o da imaginação e introspeção pessoal, um banco
comprido em c hapa de aço g alv anizado , com acabamento do assento em madeira, é
posicionado sob um rasg o na cober tura. Um segundo momento é o da escrita, inscrito
num caixote constr uído em sólidas peças de madeira, reaprov eitada das sulipas em
que , em tempos , assentaram os car ris do “comboio de lata” das matas , que cor reu ali
bem per to . A caixa, quase pousada na duna, interseta diag onalmente o betão , e abre
um vão que inscrev e convictamente esse segundo v olume , que se integ ra no contexto
pelo confronto material. O utilizador , ao espreitar pelo vão em madeira, habita a duna
e são os pinheiros-serpentes que o acolhem, enquanto interpreta o papel de Afonso
Lopes Vieira. Habitar este lug ar é ser-se capaz de encar nar a pele do poeta local e
assumir o seu lado lírico . Através do estudo pelo desenho , percebemos que este objeto
conquista dimensões percecionais como o dramatismo contrastante da luz, a reflexão
do som que ali ecoa, o v ento que o atrav essa transversalmente e prov oca turbulência,
que a entrada sin uosa acentua, e, por fim, a natureza in vade-o , os ramos dos pinheiros
penetram-no descobrindo as aber turas perpetradas nos muros .
A interpretação dos poemas , de Afonso Lopes Vieira, ofereceu-nos pistas para que
este momento justificasse o lug ar , o tempo preciso e necessário para o completar
da experiência e o seu simbolismo . A dimensão da arte foi encarada a partir de um
complemento , literário , como uma pista para encontrar as respostas . Se, por v entura,
não houv esse este desiderato literário , a peça não cumpriria o seu requisito .
No projeto Desencaminhar te 2018, a inter v enção J anela , em Deocriste, é definida
pelo cr uzamento de duas disciplinas , a literatura e a arquitetura. A relação com outros
criativ os , neste caso os da poesia – que assume uma simples “estrofe técnica” –, deriv ou
de uma necessidade posterior , de resolver problemas constr utiv os , filosóficos e de
Figura 98: “J anela”, inter v enção do arquiteto J oão Mendes Ribeiro , em Deocriste .
F onte: CIM, 2018, p . 66.
Figura 99: “J anela”, inter v enção do arquiteto J oão Mendes Ribeiro , em Deocriste.
F onte: CIM, 2018, p . 68.
215
escassez material, para dar outra dimensão à obra. O arquiteto J oão Mendes Ribeiro
começou por reorg anizar elementos existentes , com um orçamento limitado , e colocou
dois bancos metálicos junto à pendente do miradouro , para uma melhor relação com
a paisag em. O ar quiteto confessa que:
“Não fiz propriamente um projeto de arquitetura nem um
cader no de encarg os propriamente tradicional. ” (Ribeiro ,
2020).
Os m uros definiam o espaço do miradouro da Capela de Nossa Senhora do Crasto , e
rebocá-los , uma v ez que haviam sido descaracterizados , iria ultrapassar o orçamento
estabelecido . P ara resolv er essa impossibilidade , o ar quiteto resolveu rebocar apenas
um metro linear de muro e inscrev er aí uma frase técnica, o “ar tig o” do cader no de
encarg os inexistente, onde se expressa a vontade daquilo que ele achav a que podia e
devia ser feito . A J anela cr uza o tema habitar o espaço através da inscrição de dois
bancos namoradeiros que, de alguma for ma, esta fronteira de interior/exterior rev ela
num espaço interno imaginário , destinado à contemplação da paisag em.
A arquitetura e a produção ar tística utilizam, também aqui, a escrita para responder a
dois propósitos distintos – a questão técnica e a questão poética – de relação intrínseca
da ar te com a paisag em. Cabe à inscrição de versos retirados do poema “P escador”,
de Sophia de Mello Breyner , o reforço da relação da ter ra com mar e do lug ar com a
paisag em.
“F alta v a uma dimensão que, ev entualmente, não conseguia
dar na arquitetura senão fosse a literatura. ” (Ribeiro , 2020).
A experiência que fazemos no Lug ar da escrita , ou na J anela , cor respondem à pura reflexão
da paisagem que nos absor v e por meio da experiência cultural. A compreensão destas
inter v enções dev e ser lida através do seu todo , daí, a marcação de lug ares diferenciados
espacialmente no ter ritório . A ideia de criar um momento especial, em homenag em
à literatura, deve-se à v ontade de os escritores integ rarem, através do olhar , todos
os recantos da natureza. Afonso Lopes Vieira é considerado um leitor do mar e da
paisag em em São P edro de Moel, criador de poemas memoráv eis que transmitem o
217
pulsar dos seus sentimentos e das suas vi vências neste lug ar urbano . A ideia de usar
frases retiradas de poemas para completar a ideia projetual intensifica-se com o facto
dos escritores e/ou poetas serem alguns dos principais protag onistas na leitura de
ambientes sensív eis . Os poemas são um complemento dessa leitura, da mesma for ma
que , o músico P aulo Lameiro , fez quando realizou o F estiv al das Ar tes , integ rando
a presença da música. São inter pretações que a paisagem nos transmite e per mite
enquanto v eículo cultural.
Ainda assim, em Deocriste , será que aquele miradouro faria sentido sem a mensagem do
poema “P escador” de Sophia de Mello Breyner? Se calhar a inter venção arquitetónica
até faria, mas a mensag em que o arquiteto J oão Mendes Ribeiro escolheu, com a adição
da cultura, prov oca e pretende alcançar no utilizador , um tipo de experiência emotiv a
e pedagógica, n um diálog o com a paisag em que não existiria sem este complemento .
219
“Há muitos anos , há dezenas e centenas de anos , havia em cer to lug ar
da Dinamarca, no extremo Nor te do país , per to do mar , uma g rande
floresta de pinheiros , tílias , abetos e car v alhos . Nessa floresta morav a
com a sua família um Cav aleiro . Vi viam n uma casa constr uída numa
clareira rodeada de bétulas . E em frente da por ta da casa havia um
g rande pinheiro que era a ár v ore mais alta da floresta. ” (Andersen,
2014, p . 3).
221
06 Gr uta
07 Clareira
Será que os contos de fadas podem ir além da mera imaginação? Uma simples história
pode conv erter-se em lugar arquitetónico?
Um nov o olhar e uma nov a compressão sobre a constr ução da paisag em, com a
redefinição de estratégias de expressão física, de outras for mas experimentais e de
vir tude fenomenológica. A necessidade de dispor num ambiente qualidades de
admiração e desejo , reflete sobre a plenitude do espaço constr uído , o confronto entre
o corpo e a autodescober ta. A paisag em está lig ada a um conjunto de fer ramentas
experimentais que se con v er tem no ter ritório , de for ma a induzir no utilizador aspetos
significati v os , conv er tendo-o em alg o mais do que um mero obser v ador . Nos anos
70, os artistas da paisag em trabalham sobre o campo natural a presença da ação física,
conv er tendo-a num processo de metamorfose, como lug ar de simbolismos entre o uso
e a razão .
“Land Ar t has transfor med the sculpture-object into
constr uction of the ter ritor y through an expansion in the
landscape and in architecture . T his Ar tscape is a through,
whic h through a system of actions and reactions of different
kinds connects itself to a specific place . T he ar tw ork, lik e the
object, loses meaning as constr uction of the ter ritor y , but
takes on value because it redefines a lost space, re-becoming
architecture . ” (Galofaro , 2003, p . 127).
Uma clareira contém a experiência naturalista mais pura, a experiência do vazio na
natureza, e da relação com a luz e a projeção em altura do céu. Uma inter venção que
trabalha sobre coisas sensíveis , que se fundamentam e se intensificam junto de outras ,
Figura 100: Esquiço Gr uta.
F onte: A utoria própria.
223
comunicando-lhes aquilo que as pessoas podem vir a descobrir aos poucos . A questão
destas experiências surg e na plenitude das ações do próprio utilizador . Como é que
uma clareira pode ser um lug ar, apesar de tudo , controlado e seguro? E qual o impacto
desta experiência para um idoso e para uma criança? Prov a velmente , um proteg e-se
da sombra e do v ento , da exposição extrema, e o outro cor re no vazio conquistando
liberdade .
“T o la y m y eyes on that w ork of art again w ould more than
suffice . No w ords or questions will be necessar y . I’ll just sit
quietly with my legs crossed, a thoughtful hand on m y chin,
and admire her . Of course , I don ’ t expect she’ll g rant this
request. Indeed, after taking me this far , wh y r uin a moment
of aesthetic perfection?” (Knowles , 2000. p . 22).
Um momento que é um percurso no interior do pinhal, onde a experiência se tor na
estratégia ou puzzle de estím ulos , e na qual se concentram múltiplas apropriações no
espaço . A alta densidade de um meandro do bosque intocado pelos incêndios insinua
um v azio preenchido pela subtração aparente dos v entos , das c huv as e da luz, capaz
de induzir nele um isolamento e a concentração absoluta nos fenómenos da natureza.
P or sua vez, a leitura percecional nestes ambientes explora um esforço imediato , o do
falso silêncio que é pulsar da vida em condição não urbana. É através dele que temos a
possibilidade de entrar num estado de autodescober ta pessoal, absor v endo tudo aquilo
que se passa à nossa v olta.
No talhão 286, desenhou-se um percurso , um atalho em ter ra batida que o di vide
em duas metades . A escolha deste lug ar , afastado do meio urbano , reflete como
objetiv o a procura de isolamento pessoal. O utilizador , numa primeira fase , apercebe-
se da m udança de material no solo , que se vai repetir , quando o percurso cober to de
car uma passa a cobrir , sobrepondo-se, a um calcetado em cascalho de pedra calcária,
direcionando-o para um momento especial.
No ter reno , uma súbita descida emparedada induz o utilizador a cur var -se perante a
entrada de um esconderijo de luz difusa, contrastante; dá-se a c heg ada à g r uta. Este
momento proporciona uma aproximação e uma env olvência ímpar ao cor po; convida
Figura 101: Esquiço Gr uta.
F onte: A utoria própria.
Figura 102: Esquiço Clareira.
F onte: A utoria própria.
225
depois a sentar nos limites cônca v os , e a olhar a luz difusa que penetra a abóbada
que a cobre, desde o óculo que configura uma auréola superior . Mas o utilizador não
está perante uma g r uta natural ou tradicional, o desenho deste momento retrata a
passag em de um espaço prog ressiv amente compressiv o para uma clareira. Ao passar
do bosque ao rasg o descendente , e depois à g r uta, atra v essando a passag em baixa,
v ai-se prog ressiv amente sentindo essa tensão . Ao percor rer a g r uta de betão ar mado
descofrado e acabamento texturado , o utilizador v ai-se apercebendo das paredes
interiores abobadas com textura superficial em car uma de pinheiro . Um desenho que
remete à história deste Pinhal, sobretudo , à quantidade de pinheiros que se foram
perdendo para os fog os , e para o av assalador incêndio de outubro de 2017. Esta
constr ução potência uma antecipação da memória, ainda bem viv a, para sempre
marcada na imag em deste Pinhal, que está em absoluta contin uidade com a paisagem.
Depois , cr uzando uma outra aber tura, igualmente exig ente e compressora, o utilizador
reg ressa ao exterior , sendo conduzido a um segundo momento , de v erdadeira clareira.
No bosque abriu-se um “v azio”. A m udança de ambientes é aqui retratada como uma
sequência de espaços introspeti vos , e promo v e uma m ultiplicidade de sensações , onde
a luz se movimenta e se altera consoante o cor rer cíclico dos dias , primeiro , sob a copa
dos pinheiros , de pois , sobre as paredes abobadadas de betão , e , por fim, in v adindo um
espaço que é totalmente aberto e memoráv el. Esse banho de luz, mais do que nomear
a razão da clareira, ilumina intensamente o solo atapetado por uma caixa de areia
onde foi assentado um “calcetado”, em seções cilíndricas assentes ao alto , de troncos
de pinheiros queimados . A recente dev astação de 86% do Pinhal do Rei encontra,
neste lug ar , espaço para que as memórias antig as e a sua trágica história recente sejam
relembradas . A multiplicidade de v azios desta paisag em é sinónimo do persev erante
esforço percecional, para que a ar te e a natureza sejam elementos imersos no tempo , e
assumam a relevância das memórias .
Div ersas for mas de uso dos materiais e div ersas interpretações sensoriais remetem
ainda para a delapidação ou perda de recursos naturais e para a impor tância de os
reutilizar . Na v erdade , é um espaço constr uído onde a experiência se intensifica com
a adição de elementos naturais , mesmo que submetidos a tensões , e calcinados pelo
tempo . E um projeto que enaltece o interior ausente do pinhal, ilustrando uma história
dramática, que pode sublinhar o adv ento de outras histórias .
235
“(…) a vida podia ser apenas estar sentado na er v a, segurar um
malmequer e não lhe ar ran car as pétalas , por serem já sabidas as
respostas , ou por serem estas de tão pouca impor tância, que
descobri-las não v aleria a vida duma flor . ” (Saramag o , 19 82, p . 272).
237
08 Um jardim dentro do Pinhal
No talhão 285, justaposto ao ex ercício Lug ar Produtiv o , a desen volv er pelo aluno
Alber to Gomes , a inter v enção na paisag em tem como propósito fazer o utilizador
experienciar , mais uma v ez dentro da faixa de proteção do pinhal, um Lug ar -J ardim.
Assume um modelo org anizacional que é refém da matriz ortog onal das matas ,
percecionando-se o cr uzamento de um ar rife com um aceiro .
Aliado ao projeto indispensáv el de reflorestação , o lug ar proposto é um lug ar de
fronteira, definido pela reestr uturação do uso do solo e pela reinteg ração de div ersas
culturas autóctones . A dimensão do momento Um jardim dentr o do Pinhal cor responde a
1/12 do talhão e é, ainda, subdivido a par tir do cr uzamento do aceiro Q com o ar rife
19, em 4 parcelas . Um jardim que é supor tado pela reação entre duas condições – a
dimensão espacial e a dimensão sensorial. Estando rodeado por pinheiros-brav os , este
lug ar tem presente a água, os arbustos da camarinheira, os medronheiros , o eucalipto , o
car v alho e o pinheiro-manso , em suma, os fr utos e as flores silv estres . A cultura regional
integ ra aqui um for te papel da pedag ogia social, e ag ro-florestal, onde o utilizador é
capaz de compreender a reapropriação da paisagem atra vés da reinterpretação natural,
onde se cria espaço para que o pinhal assuma uma identidade própria.
Mas , o g rosso da experiência intensifica-se com a leitura do fr uto e da flor , com mais
intensidade durante as estações do ano em que estas e aqueles se oferecem ao desfr ute ,
do qual o que o utilizador pode beneficiar , experienciando vários tipos de sensações
no mesmo lug ar .
A produção das camarinhas , dos medronhos e do pinhão , ou mesmo dos cogumelos
selv ag ens , não são mais do que os reflex os de um viv eiro ativ o , como tantos outros
espalhados pelas matas . Mas neste será possível testar a capacidade para perenizar ,
239
ar tificialmente , uma biodi v ersidade adv ersa da produção , em monocultura, da madeira
que deu vida à principal ati vidade económica da coroa portuguesa, ao long o de séculos .
O estím ulo e convite à visita pelos homens é também completado pela presença das
bolotas de eucalipto e car v alho , capazes de atrair os esquilos e ja v alis , entre outros
animais . Os limites físicos do jardim, tão ar tificiais como os do talhonamento , ficam
inscritos no solo e marcadas as suas por tas , para que o jardim se complete como
morfologia clássica do v erde urbano , enquanto espaço natural. T ambém aqui, mas
numa escala profundamente diferente, alguns apontamentos ar quitetónicos , sublinham
a experiência da passag em interior/exterior , com uma ponte sobre um canal, duas
por tas /pór tico ou um tanque de ar mazenag em de água para reg a.
Será que um jardim entre pinheiros constitui uma anomalia absoluta? Um jardim especial
que se assume protag onista da condição cultural, em espaço recetiv o à experimentação
e à liberdade, como diria a ar tista F er nanda Frag ateiro . O utilizador tem, neste espaço , a
possibilidade de constr uir uma nar rativ a pessoal sob influência do tempo cíclico , e isso
faz-se atra vés da env olvência, e não só da per manência ou da espera. A compreensão
das coisas no espaço altera-se, (elas) vão ser diferentes noutro dia qualquer do ano , tal
como , a compreensão do utilizador pelas coisas . Mais do que um mero jardim, é um
espaço de encontro pessoal que varia com o tempo , num espaço que também se altera,
pois o jardim é sempre uma arquitetura vi v a, como a natureza que integ ra.
“Proceso ar tístico que transfor ma y embellece la naturaleza,
ya sea directamente (in situ) o ya sea indirectamente (de visu)
a través de modelos perceptiv os . ” (Colafranceschi, 2007, p .
26).
P ode ativ ar-se aqui a descoberta dos fr utos selvagens , e raros , que a extinção e
desaparecimento das espécies faz perig ar . O paladar é o modo de pro v ar, literalmente ,
os sabores , de pois da espera pelo momento da maturação adequada. Assim, será um
lug ar para a experiência do tempo cíclico , das estações do ano . E, também, para se
escr utinar a possibilidade de reintrodução das espécies , de for ma ar ticulada, produti va
e pedagógica. Será ao mesmo tempo um viv eiro-experimental e um pinhal-jardim,
onde se pode fazer a descober ta e iniciação sobre uma mata alter nati v a.
241
243
245
“Linha sev era da longínqua costa –
Quando a nau se apro xima ergue-se a encosta
Em ár v ores onde o Long e nada tinha;
Mais per to , abre-se a ter ra em sons e cores:
E, no desembarcar , há a v es , flores ,
Onde era só, de long e a abstracta linha. ” (P essoa, 1972, p . 58).
247
09 T or re urbana
O desenho das treze experiências , na paisag em, mostra que cada ponto é específico ,
cada lug ar tem a sua experiência específica. O posicionamento de uma tor re no vale do
Ribeiro do Ôlho , no centro de São P edro de Moel, é um tipo de experiência de alcance
do horizonte, de longa distância visual. Este dispositiv o transmite uma carg a visual
e uma impressão sensorial mais urbana. A questão surg e na dúvida da exaltação da
experiência que se quer infraestr uturar . Será mais impactante o efeito visual da tor re ou
o efeito sensorial que, um miradouro elev ado , proporciona e transmite ao utilizador,
com a possibilidade de ouvir o mar e obser v ar a essência do lug ar urbano? A resposta
tor na-se objeti va quando a tor re per mite conquistar e apropria o impacto maior da
urbanização , que se oferece como vista de postal ilustrado , e que aqui revela a sua
dimensão quase total. Imediatamente , outra inter rog ação advém: porque é que aquela
tor re acrescenta sensações que não temos de outra for ma? Constr uir a tor re cer ta para
o sítio cer to é difícil. T odavia, neste lug ar e com este objeto , a experiência visual g anha
uma relevância que justifica a sua presença. O utilizador tem a possibilidade de v er São
P edro de Moel. É uma tor re de obser vação para interpretação da dimensão urbana,
não é pensada ou desenhada como uma tor re para a obser var a v es , ou a natureza.
Da mesma maneira, a par tir dela, podemos obser v ar como algumas arquiteturas
especiais se imiscuem e escondem entre os pinheiros que, mesmo aqui à v olta, cobrem
as dunas que confor mam os lotes habitados .
Neste lug ar conseguimos olhar o núcleo histórico , o contexto e a env olvência verde
que , de re pente, dá espaço para acontecerem experiências div ersas . E são outras , bem
urbanas , as que revelam as intenções de projeto desenv olvidas pela tur ma. Não faz
sentido pensar esta tor re sem se pensar que alg o v ai mudar em São P edro de Moel.
T ambém é para revelar essas mudanças que ela existe, e integ ra o reinv entar da pov oação ,
Figura 103: Esquiço T or re urbana.
F onte: A utoria própria.
249
que se quer inscrita no milénio nov o . O facto de ainda se poder questionar todo o
desenho projetual e o seu detalhe, que o olhar próximo expõe, tor na a experiência
única e mais espectáv el à par tida.
Localizada no V ale do Ôlho , a T or re urbana é caracterizada pela sua transparência
constr utiv a, composta por uma estr utura e uma subestr utura em bar rotes de madeira,
hierarquizadas , que são rev estidas por um ripado apenas inter rompido em por tas ou
balcões de obser vação . Deixa-se camuflar entre os pinheiros , per mitindo inclusiv e que
a manc ha verde a penetre, pontualmente, e colonize, per manecendo no interior deste
objeto . É reflex o do meio ambiente onde se insere.
O acesso nor te à tor re faz-se a par tir da r ua Pôr do Sol, através de um atalho existente,
que lig a a cota da r ua ao v elho lav adouro existente no parque urbano . Os pa vimentos
usam caminhos traçados há muito , que são apenas delimitados com uma guia lateral
de pa vimento , em madeira, com 20 cm de altura, sinalizando o percurso . Ao long o
da descida acentuada, o utilizador tem a perceção de outros corpos , em passeio ,
outros visitantes a percor rer a tor re e a tocar entre o esqueleto e os pinheiros . Quem
percor re linear mente este percurso entra automática e obrig atoriamente no interior da
inter venção , por que, devido ao posicionamento da tor re, o seu trajeto é inter rompido .
O utilizador tem a possibilidade de descer um nível de escadas e continuar o atalho ,
ou então , subir para se cam uflar numa experiência contemplativ a entre os troncos dos
pinheiros .
A tor re apresenta-se com uma for ma paralele pipédica, que ag reg a três caixas salientes ,
per mitindo diferentes ângulos para revelação do exterior . A primeira experiência é de
encontro com o céu e as copas dos pinheiros . O utilizador entra n um espaço mínimo
env olvido por um ripado de bar rotes verticais com 2,90 m de altura, posicionados num
inter valo de 10 cm. Já a aber tura exposta a sul, a meia altura, está estrategicamente
posicionada de modo a que o utilizador compreenda e possa obser var um anfiteatro
próximo , ao ar -livre , desenhado sob o tema Lug ar de Cultura em Ambiente Natural,
pela aluna Bárbara Machado . Na retaguarda revela-se a segunda fase do crescimento
urbano , respeitando a expansão do Plano de Lima Franco .
Pretende-se associar nov os campos de descober ta, de aprendizag em e de atividade
Figura 104: Esquiço T or re urbana.
F onte: A utoria própria.
251
social, através de experiências em ambiente de natureza, no espaço urbano . A sensação
de estar ou perceber múltiplos lug ares , quando se está, apenas , num único lug ar ,
potencia a constr ução dos nós da rede rizomática em sítios precisos . A uma altura de
21,4 m do solo , o terceiro momento enquadra o núcleo urbano , per mitindo a parag em
e a contemplação da sua dimensão total. Acima, a cober tura da tor re é composta por
uma g relha em madeira capaz de atrair os pássaros , que a poderão colonizar .
Enquanto residente , F ernan da Oli v eira considera que a perceção de São P edro de
Moel é “repleta de infindáveis detalhes , de particularidades únicas , de apontamentos
curiosos” (Oli veira, 2020), que de entre a sua simplicidade “existe sempre alg o nov o
para admirar” (Oliv eira, 2020).
São experiências de vertente cultural e de exploração ambiental que , ao mesmo tempo ,
cr uzam uma rede de destinos pouco preparados , mas capazes de proporcionar lugares
especiais e de os ar ticular segundo um fio condutor .
255
“No alto mar
A luz escor re
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita. ” (Andersen, 2013, p . 59).
Figura 105: Complex o de Piscinas da Promoel.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
257
10 Miradouro
11 Dentro da ar riba
O encontro da A v . J osé Nobre Marques com a A v . das Piscinas , no limite sul de São
P edro de Moel, onde as matas se encontram de nov o com o oceano , proporciona
ao utilizador um espaço amplo , bem pavimentado , de parag em e de contemplação ,
sobranceiro sobre as praias . O olhar recai imediatamente sobre o Complexo de Piscinas
da Promoel, a nor te e um pouco abaixo , muito deg radado , vandalizado; é a referência
de um tempo outro , de g rande dinamismo . O projeto da aluna Ana Afonso ambiciona
revitalizar estes espaços instalando aí um Centro de bem-estar e T alassoterapia,
associado à recuperação dos tanques e à instalação de alguns ser viços clínicos .
Hoje, o enor me parque de estacionamento ser v e sobretudo as autocara vanas que aqui
parqueiam, explorando o segundo plano , onde uma vista de car tão postal sobre o
núcleo antig o da pov oação , é inter mediada pela praia da baía. O parque é de facto um
imenso miradouro , mas é demasiado g rande e desconfor tável para ser vivido , para
poder ser apreciado . No entanto , a sua localização é ex celente, proporcionando um
bom apoio à praia em época balnear . Contudo , a experiência que poderia proporcionar
é francamente dimin uída pela desmesura e o tratamento indiferente .
A pragmática função que dá razão de ser ao lug ar poderia ser melhorada, adaptada,
por ex emplo , com a instalação de postos de car reg amento para v eículos elétricos ,
justificando a utilização do espaço e os tempos de espera, com momentos especiais
de fr uição da paisag em, mas nada disso acontece, apesar de par tir daqui um caminho
para sul, em direção à Praia das V aleiras , percor rendo locais de extraordinária beleza.
A possibilidade de seguir a pé, marchando sobre a orla da ar riba ao long o dos talhões
litorais das matas , assegura o local como uma confluência de destinos e percursos
vários , mais ou menos urbanos .
Figura 106: Esquiço Dentro da ar riba.
F onte: A utoria própria.
259
A inter v enção projetada, bem próxima, do aluno J oão Costa, para o ar ranque da A v .
das Piscinas , tem como objeti vo instalar um prog rama edificado capaz de acolher um
lug ar fav orável ao en velhecimento ati v o .
São assim múltiplas as razões que justificam o posicionamento de um leitor de
paisag em naquele lug ar . Além disso , a sua g rande acessibilidade tor na-o praticável
a todos os tipos de utilizadores , independentemente do tempo disponível e da sua
capacidade física, democratizando a experiência, que se pretende rica, no limiar da
fronteira natural-ar tificial, do encontro da urbanidade com as matas . Na v erdade , esta
experiência individual integra realidades distintas . T odavia, os ditos momentos especiais
requerem desvios , têm de ser explorados para serem descober tos . Existem vários
pontos possibilidades de obser v ar o núcleo urbano , e pode penetrar-se uma esca vação
e entrar em nív eis do subsolo , para ser simplesmente embebido pelo mar ulhar das
ondas do mar , porém, nada disso é comunicado às pessoas , àquelas que procuram estas
experiências .
A par tir do final da placa do passeio central do parque de estacionamento , o projeto
propõe ao utilizador o acesso a dois momentos , que se desenham transversalmente –
são percursos escav ados e um pequeno Miradour o , voltado a nor te e à vila, lig eiramente
desniv elado . R ebaixado cerca de 1m, o desnív el de acesso a este Miradour o faz-se por
um pequeno lanço de escadas , onde o utilizador é convidado a entrar n uma peça alta e
estreita em betão ar mado , que enquadra São P edro de Moel, mas que , principalmente,
centra o seu F arol, no plano mais distante, em retaguarda. P odem sentir se os dois
extremos , distantes , da área urbana. A obser vação é uma experiência estática que
introduz, ainda, o sentido de lig ação suav e ao centro , pois este momento debr uça-se
sobre um caminho sobre o qual está balançado , que se dirig e ao Complexo das Piscinas ,
que de pois atrav essa. P odemos falar de uma outra dimensão imersi v a, na condição
constr uída, como par te da experiência urbana. Mas o caminho não é acessív el a par tir
daqui. O seu início não se rev ela ainda.
O segundo momento encontra-se seguindo a direção axial da placa central do
estacionamento , onde se abre o acesso a um percurso escav ado . Entra-se n uma “mina”
e penetra-se o solo , seguindo em direção ao mar . A luz mediada, que acompanha o
av entureiro , encandeia-o no final do percurso . O utilizador reencontra o horizonte
Figura 107: Esquiço Dentro da ar riba.
F onte: A utoria própria.
261
sobre o mar , e também a constr ução já anterior mente percebida do caminho . T rata-
-se de um passadiço em betão que se desenha transversalmente . A par tir daqui está
acessív el, e estabelece a obrigação de tomar uma decisão , de fazer o utilizador escolher
a sua próxima etapa: pode caminhar ao long o de 80 m, para nor te , para reencontrar o
Miradour o , o momento panorâmico sobre o Complex o das Piscinas , que surg e ag ora
sobranceiro , elev ado e inacessív el, antes de o caminho dobrar , pela segunda vez, em
direção ao Complex o das Piscinas renov ado; já cerca de 100 m adiante, mas em direção
a sul, há um outro momento , Dentr o da ar riba . Este terceiro lug ar , inscrito na paisag em
de modo aparentemente orgânico e quase sem desenho , é esca vado na orla da ar riba,
e é acedido lateralmente, a par tir de um trecho de caminho de pé posto , mais antig o .
No seu final, um outro caminho vai penetrando a rocha. O utilizador é, no vamente ,
conduzido para um percurso escav ado que lhe transmite, desde log o , um sentido de
compreensão que o cor po experimenta ao ser eng olido no solo . T ambém importa a
escala do lug ar, o seu baixo pé-direito , face à amplitude do horizonte e à elevação do
lug ar sobre a rebentação . Este lug ar especial rev ela-se à c heg ada ao miradouro esca v ado
na ar riba, onde o utilizador é assoberbado pela espuma das ondas e o mar ulhar do mar
a afag ar as rochas . O encontro com o infinito pode ser também o reencontro com o
eu, uma experiência de reflexão pessoal.
P ode também associar-se a este lug ar um conjunto de outras experiências coleti vas ,
que complementam a da autodescober ta.
Esta reflexão conduz o utilizador , enquanto visitante ou morador , a uma experiência
simbólica. R ecordamos um momento em que , a cer ta altura, se questionou a impor tância
do papel da memória e da identidade de São P edro de Moel. Então , o arquiteto J oão
Serejo respondeu:
“P orque é que nos deliciamos e detemos a olhar o mar , uma e
outra vez? As ondas vão variando , mas sabemos que a água é
a mesma, e sabemos que as ondas se irão sempre manifestar
nessa água. Quando o procuramos , sabemos exactamente o
que vamos encontrar , mesmo que desconheçamos a variante
com que ele se v ai v estir e apresentar . É por saber mos
precisamente que vamos encontrar exatamente o mesmo , que
Figura 108: Esquiço Dentro da ar riba.
F onte: A utoria própria.
263
é for te a v ontade de v oltar junto a ele, e é total a capacidade
que a sua presença tem de nos fazer abrandar e atentar . É uma
cer teza, como a nossa casa…” (Serejo , 2020).
Isto só acontece num lug ar em que o seu caráter urbano comunica diretamente com
os sentidos .
265
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271
“Sopra o v ento , sopra o v ento ,
Sopra alto o v ento lá fora;
Mas também meu pensamento
T em um v ento que o devora. ” (P essoa, 1955, p . 133).
273
12 Caixa dos v entos
P osicionada junto ao parque de estacionamento da Praia das V aleiras , a Caixa dos ventos
faz o remate do aceiro R, sendo uma peça com acesso direto . É mais um estrato desta
paisag em constr uída que se apro xima do mar , e que expõe o utilizador aos limites da
sua perceção .
Neste lug ar o ar tificialismo é o acesso , no sentido em que se ag reg a à microarquitetura
e à componente v eg etal. Constr uir diferentes momentos sobre a mesma experiência,
da presença do mar e do confronto com a sua g eog rafia litoral, implica uma sequência
de modos diferentes de sentir a mesma coisa: a contemplação do oceano , a perceção
da dimensão da falésia, o r uído , por vezes ensurdecedor , e a dimensão sonora div ersa,
dos v entos . Este é um dispositi v o que desafia o utilizador a ouvir a composição
sonora do mar e do v ento , ao mesmo tempo que obser v a o infinito , ou as linhas que
sucessi v amente se desenham no mar , ao encontro da costa.
P ara quem realiza um percurso na paisag em ou para quem visita a praia de automóv el,
é entre os talhões 304/319 que , de re pente, o dispositiv o integ ra o contexto . Ganha
sentido quando o utilizador decide instalar -se no limite da ar riba, para um concer to , em
que a composição é quase musical. T rata-se de um abrig o de madeira, com 5,5m de altura,
desenhado apenas para a experiência indi vidual, que se intensifica quando o utilizador ,
ao penetrá-lo , desce um pequeno lanço de escalas e se posiciona, estrategicamente
sentado num banco corrido em betão ar mado . Sabendo que o vento predominante
prov em de NW (noroeste), cabe ao utilizador , dentro desta caixa acústica, compreender
o sentido giratório do v ento que opera a “flauta”. P ara que esta experiência de cor rente
musical se intensifique, introduziram-se fios metálicos na aber tura que , na cober tura,
per mite a exaustão , promov endo a vibração sonora que estimula os sentidos .
Figura 109: Esquiço Caixa dos v entos .
F onte: A utoria própria.
275
T al como F er nando P essoa, no poema “Sopra o vento , sopra o v ento” (1955), a
experiência individual, de for ma mais ou menos consciente, procura agar rar as
características endóg enas do lug ar e acentuá-las , projetando-as num movimento
ascendente .
277
279
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o
Que ela é.
Mas porque a amo , e amo-a por isso ,
P orque quem ama n unca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar…” (P essoa, 1946, p . 24).
281
13 Refúgio
Depois da experiência na Caixa dos V entos , seguindo ao longo do aceiro R, o utilizador
afasta-se do mar e do lug ar urbano , e procura nov as relações de apropriação na
paisag em, no ambiente natural. No talhão 318, junto à estrada para a Nazaré, dev erá
aperceber -se da existência de um caminho transversal ao aceiro , desenhado e sinalizado
com guias em madeira crav adas no pavimento , que cintam a ter ra batida. Direciona
para um outro momento especial.
O Refúgio é um dispositiv o constr uído que cumpre uma exig ente dimensão conceptual.
E ela só se completa atra vés da nar rati v a pessoal, pois oferece espaço para a apropriação
e inter pretação de cada utilizador . T rata-se mais uma vez de uma caixa, com um exterior
em madeira e betão , que de imediato dá pistas para as múltiplas experiências que nela
se podem desen v olv er , densificando a sua dimensão simbólica.
Ao circundar a peça, o utilizador v ai encontrar umas escadas , no alçado nor te , que
convidam ao reencontro com a paisagem; pretende-se estabelecer uma ligação direta
com o lado perfor mati v o de quem habita esta peça e de quem a obser v a. A par tir
do interior , uma g a v eta em betão ar mado convida à per manência e à contemplação
exterior . P ara esta experiência, o utilizador necessita de se deitar na peça para entrar na
tal g a v eta, que o env olv e enquanto lhe per mite espreitar o céu exterior . Desenha-se um
cenário insólito , visualmente quase iconog ráfico .
T ambém a partir do interior , outras escadas per mitem o acesso a uma v aranda elev ada
que , pela sua dimensão mínima, constrói uma abstração desafiante à imaginação do
utilizador . F ace a um medronheiro plantado estrategicamente, o utilizador per mite-
-se alcançar os ramos , para experimentar os fr utos e sentir o seu tra v o singular . É
uma natureza autónoma mas condicionada, a desta ár vore singela de médio por te , que
Figura 110: Esquiço R efúgio .
F onte: Autoria própria.
283
integ ra a arquitetura como se dela fizesse parte .
Esta inter v enção supor ta ainda mais uma experiência corporal, de dimensão
igualmente simbólica: a terceira dimensão ocor re no alçado oeste . P erante a presença
do medronheiro , o utilizador é con vidado a baixar -se , ao encontro do nív el do solo ,
que v erá de uma perspeti v a rasante , sentado n um banco em már more, constr uindo
uma perspetiv a ímpar do ter reno . Se os medronhos são , aqui, a ativ ação do paladar,
ao contemplar o chão cober to de car uma, o utilizador per mite-se delimitar a área de
influência dos pinheiros , e a presença da peça que a inter rompe, para per mitir mais uma
experiência temporal, que a sombra, ou a deriv a das nuv ens no céu, assinalam. Impor ta
questionar qual é a arquitetura, o supor te físico constr uído , ou a espécie autóctone, que
com ela ombreia, em diálog o cúmplice .
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Rizoma de pr ojeto
291
3.3. Considerações finais
O papel do desenho tev e uma crescente influência no caminho percor rido ao
long o desta in v estig ação , desde a leitura de projetos de referência à produção de
pensamento em desenho , como processo disciplinar . Crer que o desenho tem apenas
um lado expositiv o é considerar que só existem desenhos exibicionistas – destinados
à comunicação pública, em modo expositiv o . A inutilidade do desenho passa a ser
considerada útil quando , em ar quitetura, a base da ar tisticidade conjug a, e se conjuga,
no processo de trabalho . No livro Desenhar em pr ojecto: sete percursos (2020) podem
perceber -se diferentes interpretações – de desígnio –, por diferentes autores , daquilo
que é a sua crença ou confiança no desenho , daquilo que os motiv a enquanto método
disciplinar . A arquiteta Désirée P edro , por exemplo , retrata o desenho como uma
interpretação poética do espaço , que carece de fer ramentas essenciais , específicas , para
que nele se dê a constr ução da síntese espacial. Este conjunto de práticas traduz-se
como “desenho a m uitas mãos” (P edro , 2020, p . 45), onde a projeção da luz ou do
v azio são igualmente medidos e idealizados sobre o papel. Mas , de algum modo , a
inter rog ação do arquiteto António Bettencour t sobre o porquê de desenhar , realça
uma utilidade do desenho muito pragmática e objeti va. A simples resposta “Desenho
porque projecto” (Bettencour t, 2020, p . 58) traduz-se na procura de um meio para dar
respostas a um corpo ar quitetónico , inserido n um lug ar específico sob condicionantes
específicas .
Acima de tudo , desenha-se para que o espaço se tor ne lugar, para que quem o representa,
o conheça e o possa habitar .
O lug ar identificado nesta dissertação – que é o objeto de estudo – representa um
conjunto de conjeturas sobre as condicionantes de transfor mação , ou as possibilidades
para estabelecer relações , entre o contexto existente e a sua história. São P edro de
293
Moel é considerado um lug ar urbano , mas , acima de tudo , é um lug ar habitado por
uma família especial de residentes , que se rev ela muito sensível às suas paisag ens , e
que transmite intensamente essas sensibilidades . P odemos falar de uma sociedade
paisagista, como nos ensinou A ugustin Berque , mas intuímos que a própria natureza
g eog ráfica do lug ar condiciona essa prévia condição cultural.
P or sua v ez, a conjugação do lug ar com a experiência física de o reconhecer ou com
ele interagir , problematiza a inv estig ação que se quer desenv olver em e para o projeto .
A perceção sensorial, que se revela através da experiência do cor po e se desenv olve ,
confronta-nos com um enredo de momentos significativ os capazes de evidenciarem
o genius loci (Norberg-Schulz, 1991) 21 – o espírito do lug ar –, que é por isso , também,
constr ução cultural, como a paisag em.
“… el lug ar ha aparecido como un singular contenido del
conocimiento ar quitectónico , contenido especialmente lig ado
al proceso de refundación del proyecto . La propia idea de
lug ar , como fuente y como objetiv o , incor pora en sí misma
esa referencia al pro yecto . ” (Riv as , 1992, p . 16).
P erante o confronto inter pretativ o ou experimental, este lugar retém na paisag em
uma amplitude de estímulos ativ adores da perceção sensorial, que nos submerg e, e
enquanto elementos ati vos , par ticipantes , tor namo-nos ag entes liber tadores , desse
esforço modelador disciplinar de desenho .
A leitura da paisag em, traduzida ou conv er tida em rede de lug ares de experiência,
identifica um tipo de sensações e emoções que lhe são inerentes , e que não temos
noutro lug ar , e nunca, seguramente, da mesma maneira. São ar quiteturas denominadas
de leitores de paisag em, porque reforçam e intensificam a experiência sensív el prévia,
de reconhecimento de um lug ar par ticular . Este processo dá-se atra vés do lado
perfor mativ o do utilizador que , ag reg ado às condicionantes da experiência, acaba por
ser intensificado no tempo cíclico e na hora cer ta.
T al como o conceito de lug ar, as treze experiências não são inde pendentes; o caráter
21 Edição original de 1979.
295
intrínseco do sítio e a ação cor poral, são clarificadores da reconstr ução de g estos e
movimentos que, acumulados , estabelecem aquilo que é a perceção do conhecimento
e do objeto . Impor ta fazer a síntese da compreensão da paisag em, ao mesmo tempo
que se per mite explorar o desenho , detalhado , da arquitetura moder na em confronto
com o linear da folhag em v erde que a rodeia.
Esta nar rativ a projeta-se sobre um lug ar en volto no esquecimento . A ideia não é
constr uir paisag ens mas , apenas , identificá-las e ativá-las , através da instalação de
microarquiteturas , cuja função é valorizar e reaprov eitar tudo aquilo que São P edro
de Moel pode oferecer , no seu contexto ter ritorial. P ara que tal aconteça, o corpo é
premissa necessária para ativ ar o espaço enquanto lug ar , e a experiência deambulatória
e sensorial, enquanto constr utoras de paisag ens . A arquiteta J oana Nav ar ro afir ma que:
“O Homem é um constr utor de paisagem! É o único elemento
apto e capaz de transfor mar a natureza numa experiência
estética. P or tanto , se existe paisag em, existe uma constr ução . ”
(Nav ar ro , 2020).
A redescober ta da paisag em pelas ar tes , a par tir do final dos anos 60, como um
conjunto de fenómenos imersos , embebidos na condição própria dos ter ritórios , mas
indissociáv eis das leituras que sobre eles são estabelecidas , transfor mou o modo de
compreender e incorporar a experiência de habitar o lug ar . A in v estig ação para o projeto
procurou estabelecer , ar ticulando , um diálog o com um entre a cultura contemporânea,
a ar te e a arqui tetura, aplicadas à paisag em e ao ter ritório . Em resposta ao desfasamento
encontrado entre os seus v alores específicos , exploraram-se, através de um conjunto
de par ticipações obtidas em modo de comunicação pessoal e direta, as opor tunidades
multidisciplinares e as fer ramentas teóricas no campo expandido . Procurou-se tor nar
prática a teoria como área de experimentação , e aprender a sintetizar v alores da
paisag em por meio da resposta artística, fazendo a transposição dessas experiências de
aprendizag em para a arquitetura.
No prog rama “Primeira P essoa” do canal r tp1, Fátima Campos F er reira inter rog a o
arquiteto Eduardo Souto Moura sobre uma ev entual intenção , por par te da obra de
arquitetura, de se querer posicionar no mundo ar tístico . Entre os socalcos e as vinhas
297
do Douro , o arquiteto afir ma que a piscina da Quinta do Crasto , em Gouvinhas , é
apenas arquitetura, por que tem uma função explícita. Afir ma ainda que a ar quitetura:
“Não pode ser inde pendente , como a ar te dev e ser . A ar te é
ela própria, não deve nada a ninguém, não quer dizer nada a
ninguém. O que não quer dizer que , mais tarde , [a ar quitetura]
não possa ser ar te . ” (Moura, E. 2020).
A proposta concretizada como projeto para um conjunto de inter v enções , singulares ,
de pequena escala, possiv elmente – pelo menos par te delas – efémeras , dev e ser
vista como um exercício de arquitetura, embora não existam estereótipos ou reg ras
base . O que ev entualmente poderia conduzir a um resultado no domínio da “obra de
ar te”, seria a interação e aplicação de saberes próprios de disciplinas complementares .
Pudemos concluir que apenas desse modo a arquitetura concebe a constr ução ar tística.
R elati v amente à constr ução da paisagem e à potenciação das suas leituras e mensag ens ,
cabe à ar quitetura como às artes a responsabilidade de contribuir contín ua, intencional
e conscientemente , quer como promotoras de instr umentos de descodificação e
leitura, como de modeladoras dos espaços e geometrias das suas for mas . As ações
de artialisation (R oger , 1997) dos espaços e elementos naturais , são combinadas com
os ar tefactos , que se acrescentam às g eog rafias de supor te , proporcionando relações
de comunicação e diálog o . A dimensão simbólica será, nesse processo , indistinta da
experimentação sensorial, quando conjuntamente se constituem como experiência.
299
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SUMÁRIO DE FIGURAS
Figura 1: Exposição “ A E I O U: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, no Colégio das Ar tes da UC .
F onte: A utoria própria, a 6 de nov embro de 2020.
Figura 2: Visita de campo .
F onte: A utoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 3: Azulejo identificado no antig o lav adouro público , localizado no V ale do Ôlho .
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 4: F arol do Penedo da Saudade (1921), em São P edro de Moel.
F onte: Grilo , 2001, p . 201.
Figura 5: Entrada de São Pedro de Moel (1881). F otog rafia histórica de positada numa base de dados dos amig os
de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/1944933675755998/
Figura 6: São P edro de Moel (1890).
F onte: Grilo , 2001, p . 197.
Figura 7: A antiga Praça das Matas Nacionais , São P edro de Moel (s/d). F otog rafia histórica depositada n uma base
de dados dos amig os de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/g roups/117409711691761
Figura 8: Planta de apresentação do Anteplano de Urbanização de São Pedro de Moel (1947), autor Lima F ranco .
F onte: www .mg rande.net.
Figura 9: Complexo de Piscinas da Promoel (1976), São P edro de Moel. F otog rafia histórica depositada numa base
de dados dos amig os de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/2689039571345401/
Figura 10: Casa J oão Carlos Frazão . Autor António Dinis Baroseiro J unior . Data de constr ução 1956.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 11: Desenho Miguel J oaquim de Car valho (1853), São P edro de Moel.
F onte: imagem www .mg rande.net
Figura 12: Praça Principal (1940), São P edro de Moel.
F onte: imagem www .mg rande.net
315
Figura 13: R evisão e ampliação do Anteplano de Urbanização (1962).
F onte: Quinta, 2010, p . 42.
Figura 14: Casa Antonio Marques R eis . Autor F rederico George. Data de constr ução junho de 1964.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 15: Casa Marques R oldão . A utor J oão J osé Tinoco . Data de constr ução julho de 1952.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 16: A utor J osé Char ters Monteiro . Data de constr ução 1978-1985-1990.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 17: (R e-)P ensar São P edro de Moel 2020, no A uditório da R esinagem, Marinha Grande.
F onte: https://www .cm-mg rande .pt/pag es/350?news_id=1763
Figura 18: Os trabalhadores e as crianças trabalhadoras , na antig a Fábrica de Vidros da Marinha Grande (1913).
F otografia histórica de positada numa base de dados dos amigos de São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/1508938516022185/
Figura 19: Museu do Vidro , Marinha Grande.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 20: Museu do Vidro , Marinha Grande.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 21: Interior da Casa J oão Simões . Autor J oão P edro Mota Lima Pinto e Cunha. Data de constr ução 1953.
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 22: Exterior da Casa J oão Simões . Autor J oão P edro Mota Lima Pinto e Cunha. Data de constr ução 1953.
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 23: Análise de plantas no interior da Casa João Simões . Autor J oão P edro Mota Lima Pinto e Cunha. Data
de constr ução 1953.
F onte: A utoria própria, a 16 de outubro de 2019.
Figura 24: Casa Victor Manuel Gallo . A utor Manuel T ainha. Data de constr ução outubro de 1971.
F onte: A utoria própria, a 17 de outubro de 2019.
Figura 25: Casa-Museu Afonso Lopes Vieira.
F onte: Cardielos , 2020.
Figura 26: Exlibris Afonso Lopes Vieira.
F onte: Castilho , 2019.
Figura 27: A ula de Cristina Nobre no ter raço da Casa-Museu.
F onte: Afonso , 2019.
Figura 28: T er túlia, no Café Bambi, a 16 de outubro de 2019.
F onte: Serejo , 2019.
Figura 29: Caminhada pela v olta dos 7, com a biólog a Sónia Guer ra.
317
F onte: A utoria própria, a 18 de outubro de 2019.
Figura 30: Caminhada pela v olta dos 7, com a biólog a Sónia Guer ra.
F onte: A utoria própria, a 18 de outubro de 2019.
Figura 31: P onto Nov o - P osto de vigia.
F onte: A utoria própria, a 18 de outubro de 2019.
Figura 32: Exposição pública dos resultados da unidade cur ricular de Atelier de Projeto II, na esplanada do Café
Bambi.
F onte: A utoria própria, a 21 de junho de 2020.
Figura 33: Professor João P aulo Cardielos e Presidente de C . M. da Marinha Grande, Cidália F er reira; no interior
do P osto de T urismo .
F onte: A utoria própria, a 21 de junho de 2020.
Figura 34: Exposição pública dos resultados da unidade cur ricular de Atelier de Projeto II, na esplanada do Café
Bambi.
F onte: A utoria própria, a 21 de junho de 2020.
Figura 35: Maquete exposta no P osto de T urismo .
F onte: Machado , 2020.
Figura 36: Análise relativ a aos Espaços Naturais .
F onte: Atelier de Projeto II.
Figura 37: Pinheiro-serpente centenário , classificado como ár vore de interesse público .
F onte: A utoria própria, a 9 de julho de 2020.
Figura 38: R ede rizomática, a nível nacional.
F onte: A utoria própria.
Figura 39: R ede rizomática, distrito de Leiria.
F onte: A utoria própria.
Figura 40: R ede rizomática, concelho da Marinha Grande.
F onte: A utoria própria.
Figura 41: Visita de campo ao interior do Pinhal do R ei, contou com a par ticipação do João Beltrão .
F onte: A utoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 42: Visita de campo , Areeiro .
F onte: A utoria própria, a 9 de julho de 2020.
Figura 43: Visita de campo .
F onte: A utoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 44: Visita de campo , P ombal do Rei.
F onte: A utoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 45: Visita de campo , parque de merendas .
319
F onte: A utoria própria, a 8 de julho de 2020.
Figura 46: Visita de campo , P osto de vigia - P onto da Crastinha.
F onte: A utoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 47: Livreto com a recolha de depoimentos . Consultar em anex o .
F onte: A utoria própria.
Figura 48: Alber to Caeiro , o sensorialista.
F onte: A utoria própria.
Figura 49: Mar , de Sophia de Mello Breyner .
F onte: A utoria própria.
Figura 50: F esti val Pinhal das Ar tes (2011).
F onte: https://www .musicalmente .pt/por tfolio/pinhal-das-ar tes/
Figura 51: F esti val Pinhal das Ar tes (2015).
F onte: https://www .musicalmente .pt/por tfolio/pinhal-das-ar tes/
Figura 52: P oeta Afonso Lopes Vieira.
F onte: A utoria própria.
Figura 53: São Pedro de Moel na década de 60. F otog rafia histórica depositada n uma base de dados dos amig os de
São P edro de Moel, via facebook.
F onte: https://www .facebook.com/1451683738414330/photos/a.1451686328414071/1464421813807189/
Figura 54: Planta e corte da Casa Moller (1928), de Adolf Loos , em Viena.
F onte: Colomina, 1992, p . 79.
Figura 55: “J ardin suspendu”,Villa Sav oye (1929), de Le Corbusier , em P oissy .
F onte: Colomina, 1992, p . 99.
Figura 56: Vista do hall de entrada, Villa Sav oye (1929), de Le Corbusier , em P oissy .
F onte: Colomina, 1992, p . 99.
Figura 57: W alking Ar tists .
F onte: A utoria própria a par tir de Careri (W alkscapes , 2002).
Figura 58: A Line Made by W alking (1967), de Ric hard Long .
F onte: Careri, 2002, p . 147.
Figura 59: The Great Pipe Monument. F otog rafia: R ober t Smithson.
F onte: Smithson, 1996, p . 70.
Figura 60: The F ountain Monument: Bird’ s Eye View . F otog rafia: Robert Smithson.
F onte: Smithson, 1996, p . 70.
Figura 61: Sculpture in the Expanded Field, R osalind Krauss .
F onte: Meyer , 1997, p . 170.
321
Figura 62: As Expanded Field for Landscape Architecture , Elizabeth Meyer .
F onte: Meyer , 1997, p . 170.
Figura 63: Double Negative (1969) de Mic hael Heizer . F otog rafia: Tiag o Silv a Nunes .
F onte: Santos , 2017, p . 11.
Figura 64: Lightning Field (1977) de W alter de Maria.
F onte: https://smar thistor y .org/walter -de-maria-the-lightning-field/
Figura 65: J ardim das Ondas (1988), de J oão Gomes da Silva e F er nanda Fragateiro .
F onte: Rosado , 2000, p . 112-113.
Figura 66: O V/Nosso Futuro é Ag ora (2019/2021) em Ser ralv es , Olafur Eliasson.
F onte: F olheto Ser ralves .
Figura 67: The Mediated Motion (2001) em Breg enz, Olafur Eliasson.
F onte: https://olafureliasson.net/archiv e/ar twork/WEK101206/the-mediated-motion
Figura 68: Ano Zero , Mosteiro de Santa Clara-a-Nov a.
F onte: Autoria própria, a 19 de setembro de 2020.
Figura 69: Hor tus Conclusus (2019), Atelier do Cor vo , no Mosteiro de Santa Clara-a-No va.
F onte: Autoria própria, a 19 de setembro de 2020.
Figura 70: Campo / Contracampo (2020), J osé P edro Croft, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova.
F onte: Autoria própria, a 19 de setembro de 2020.
Figura 71: Espetáculo P edro e Inês (2003), T eatro Camões , Lisboa. F otog rafia: Alceu Bett.
F onte: https://www .archdaily .com.br/br/01-58218/cenog rafia-e-arquitetura-pedro-e-ines-joao-mendes-ribeiro
Figura 72: Casa R obalo Cordeiro (2009), Coimbra.
F onte: https://www .archdaily .com.br/br/784990/casa-robalo-cordeiro-joao-mendes-ribeiro?ad_medium=g aller y
Figura 73: Caixa para guardar o v azio (2005), de F er nanda Fragateiro e Aldara Bizar ro . F otog rafia: Carlos F er nandes .
F onte: https://www .culturgest.pt/pt/prog ramacao/caixa-para-guardar-o-v azio-fer nanda-frag ateiro/
Figura 74: F or um of the Future (2018) no T eatro Ri voli. F otog rafia: J osé Campos .
F onte: https://www .depa.pt/F or um-of-the-Future
Figura 75: Casa no Castanheiro , em V aleflor .
F onte: Autoria própria, a 4 de outubro de 2020.
Figura 76: Caixa Vicentina (1995), T eatro da Cerca de São Bernardo . F otog rafia: P edro R odrigues .
F onte: http://weblog .aescoladanoite.pt/tag/joao-mendes-ribeiro/page/2/
Figura 77: Púlpito (2017), Fátima.
F onte: https://www .asbeiras .pt/2017/04/lug ares-liturgicos-de-fatima-assinados-por-joao-mendes-ribeiro/
Figura 78: Pinheiros-serpentes , localizados ao long o do cordão dunar litoral.
F onte: Autoria própria, a 9 de julho de 2020.
323
Figura 79: R oteiro Desencaminhar te 2018 - Arte Aplicada ao Lug ar .
F onte: CIM, 2018.
Figura 80: “ A P aisagem é”, inter v enção da ar tista F ernanda Fragateiro , em Sistelo .
F onte: Autoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
Figura 81: Visita de campo à inter venção “Sulco” do Atelier DepA, em Melg aço .
F onte: Autoria própria, a 30 de junho de 2020.
Figura 82: Visitor Center - P ar que Natural da P eneda-Gerês .
F onte: Autoria própria, a 30 de junho de 2020.
Figura 83: “Sulco”, inter venção do Atelier DepA, em Melg aço .
F onte: Autoria própria, a 30 de junho de 2020.
Figura 84: “Barca”, inter venção do arquiteto P ablo Pita, em P onte da Barca.
F onte: Autoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
Figura 85: “Barca”, inter venção do arquiteto P ablo Pita, em P onte da Barca.
F onte: Autoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
Figura 86: “Rasg o no solo do parque de lazer do Castelinho”, inter v enção da ar tista Gabriela Alberg aria, em Vila
Nov a da Cer veira.
F onte: Autoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
Figura 87: “ Abrig o”, inter v enção dos arquitetos F AHR 021.3, em Caminha.
F onte: Autoria própria, a 12 de ag osto de 2020.
Figura 88: Obser vação do pôr do sol na ar riba, em São P edro de Moel.
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 89: P onto Novo - Leitor de paisagem.
F onte: Autoria própria.
Figura 90: Esquiço Camuflagem.
F onte: Autoria própria.
Figura 91: Piscina na Chamusca da Beira (2013), do ar quiteto J oão Mendes Ribeiro . F otog rafia: do mal o menos .
F onte: https://www .archdaily .com.br/br/788342/piscina-na-c hamusca-da-beira-joao-mendes-ribeiro
Figura 92: P ar que de merendas junto ao ribeiro de São P edro .
F onte: Autoria própria, a 27 de fev ereiro de 2020.
Figura 93: Esquiço Caminhar sobre (as copas dos) pinheiros .
F onte: Autoria própria.
Figura 94: Esquiço P equeno bosque .
F onte: Autoria própria.
Figura 95: Casa no Castanheiro , em V aleflor .
F onte: Autoria própria, a 4 de outubro de 2020.
325
Figura 96: P arque de merendas , em São P edro de Moel.
F onte: A utoria própria, a 27 de fevereiro de 2020.
Figura 97: Esquiço Lugar da escrita.
F onte: A utoria própria.
Figura 98: “J anela”, inter v enção do arquiteto J oão Mendes Ribeiro , em Deocriste .
F onte: CIM, 2018, p . 66.
Figura 99: “J anela”, inter v enção do arquiteto J oão Mendes Ribeiro , em Deocriste .
F onte: CIM, 2018, p . 68.
Figura 100: Esquiço Gr uta.
F onte: A utoria própria.
Figura 101: Esquiço Gr uta.
F onte: A utoria própria.
Figura 102: Esquiço Clareira.
F onte: A utoria própria.
Figura 103: Esquiço T or re urbana.
F onte: A utoria própria.
Figura 104: Esquiço T or re urbana.
F onte: A utoria própria.
Figura 105: Complex o de Piscinas da Promoel.
F onte: A utoria própria, a 15 de outubro de 2019.
Figura 106: Esquiço Dentro da ar riba.
F onte: A utoria própria.
Figura 107: Esquiço Dentro da ar riba.
F onte: A utoria própria.
Figura 108: Esquiço Dentro da ar riba.
F onte: A utoria própria.
Figura 109: Esquiço Caixa dos v entos .
F onte: A utoria própria.
Figura 110: Esquiço R efúgio .
F onte: A utoria própria.
327
ANEX OS
Análise de São P edro de Moel, realizada em Atelier de Projeto II
P ainel final de 1º semestre
F otog rafias da maquete e exposição , inaugurada a 21 de junho de 2020
F otog rafias do projeto Desencaminhar te 2018
329
331
333
Maquete à escala 1: 2.000, exposta no P osto de T urismo .
Cidália F er reira, Presidente de Câmara da Marinha Grande, na abertura da exposição no P osto de T urismo .
Maquete à escala 1: 2.000, exposta no P osto de T urismo .
335
Exposição pública dos resultados do primeiro semestre, a 21 de julho de 2020.
Exposição pública dos resultados do primeiro semestre, a 21 de julho de 2020.
337
Br uno F er reira da empresa Drone - V oa aky .
J oão Beltrão .
Arquiteto J oão Serejo .
“ A T or re”, inter venção do atelier STILL urban, em Monção .
F onte: Afonso , 2020.
339
“P or ta-Caça do Mosteiro de Sanfins”, inter venção do arquiteto Barão-Hutter , em Sanfins .
341
343
345
347
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353
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371
373
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4
5
5
377
4
5
5
Q ue tipo de experiência(s) pr opor ciona es te lug ar?
03
vis ual experiência criati v a ve rão
outono
indi vidual pedago gia dia
noite
5
e sc . 1.50 e sc . 1.20
e sc . 1.20
e sc . 1.50
indi vidual vis ual
auditi v a
ve rão
inver no
dia pedago gia
3
Q ue tipo de experiência(s) pr opor ciona es te lug ar?
03
vis ual experiência criati v a ve rão
outono
indi vidual pedago gia dia
noite
5
e sc . 1.50 e sc . 1.20
e sc . 1.20
e sc . 1.50
indi vidual vis ual
auditi v a
ve rão
inver no
dia pedago gia
3