Full text
SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 Resumen: Luís Vaz de Camões, no poema épico Os Lusíadas, refere os Campos Tartésios (III, 100) e o rio Tarteso (VIII, 29). O objectivo deste artigo é explicar a presença destas referências geográficas no poema, analisando a vida do poeta (e as discussões em torno desta) e a sua relação com o contexto cultural e intelectual no Portugal do século XVI, bem como alguns aspectos da construção deste brilhante testemunho da literatura portuguesa. Após a discussão deste contexto, analisa-se a discussão em torno das fontes clássicas, portuguesas e espanholas que, provavelmente, o autor utilizou para escrever o poema, o que é comparado com as poucas informações que detemos quando tentamos reconstruir a vida do poeta. Neste sentido, é provável que Camões tenha adquirido alguns conhecimentos na Índia e não apenas em Portugal. Concluise que as prováveis fontes para Tartessos n’Os Lusíadas são o Dictionarium de A. A. Nebrija e o Libro de Grandezas y cosas memorables de España, de Pedro de Medina, escrito em 1548 (i.e., antes da partida de Camões para a Índia), especialmente o primeiro na versão latina do termo (tartessus/ tartessius). Analisam-se, igualmente, as regras da métrica que, provavelmente, obrigaram o poeta a incluir, n’Os Lusíadas III, 100 e VIII, 29, os termos campos tartésios (uma alternativa a campos de Tarifa) e Tarteso (uma alternativa a Guadalquivir, Bétis e outros sinónimos utilizados no poema). Do ponto de vista historiográfico, Camões não estava interessado neste tema, uma vez que tenta, primeiro, dar ao seu país uma espécie de identidade colectiva e uma mensagem nacionalista (Lusíadas = filhos de Luso). Estas referências levam-nos a incluir Camões na história da recepção de Tartessos na historiografia ibérica. Palavras - chave: Luís de Camões; Tartessos; Fontes; Nebrija; Pedro de Medina; Métrica; Historiografia. Abstract: Luís Vaz de Camões, in the epic poem Os Lusíadas, refers the tartessian fields (III, 100), and the river Tartessus. The aim of this paper is to explain the presence of these geographical references in the poem, analyzing the poet’s life (and the discussions around it) and his relationship to the Portuguese cultural and intellectual context in the 16th Century, as well as some aspects of the construction of this brilliant testimony of the Portuguese literature. After the definition of this context, we analyze the discussion about the classical, Portuguese and Spanish sources that the poet probably used to write the poem, which is compared to the scarce CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS CAMÕES AND TARTESSOS: READING AROUND TWO EXCERPTS OF THE LUSIADS PEDRO ALBUQUERQUE* À Professora Annabela Rita, por me ter encorajado a perseguir os meus sonhos. À Dudu… * Arqueólogo. Bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, na UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa). Gostaria de agradecer a várias pessoas que tornaram este trabalho possível e aliciante: Ana Margarida Arruda, que me sugeriu o tema e me encorajou a desenvolvê-lo; a Rui Morais, pelos seus preciosos apontamentos à minha dissertação de Mestrado (Albuquerque, 2008); a José Brissos, José Horta, Nuno Simões Rodrigues, Margarida Miranda e Américo Costa Ramalho, pelos sábios conselhos para esta investigação. A Manuel Álvarez Martí-Aguilar, por ter fornecido dois admiráveis trabalhos. Finalmente, ao meu irmão, cunhada, mãe e pai, por todo o apoio, carinho e paciência em todos os meus momentos. Todas as imprecisões deste trabalho devem-se, sobretudo, ao seu autor.
138 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 I. NOTA INICIAL «Nunca com Semiramis gente tanta/ veio os Campos idáspicos enchendo;/ nem Atila, que Itália toda espanta,/ chamando-se de Deus açoute horrendo,/ Gótica gente trouxe tanta, quanta/ do Sarraceno bárbaro, estupendo,/ co’o poder excessivo de Granada,/ Foi nos campos tartésios ajuntada» Os Lusíadas, III, 100 «Olha, por seu conselho e ousadia,/ de Deus guiada só e de santa estrela,/ só pode ver o que impossíbil parecia:/ vencer o povo ingente de Castela./ Vês, por indústria, esforço e valentia,/ outro estrago e vitória clara e bela/ na gente, assi feroz como infinita,/ que entre o Tarteso e Guadiana habita?» Os Lusíadas VIII, 29 Estes excertos d’Os Lusíadas motivaram a realização de um estudo que, como o título indica, consiste numa série de leituras que podem ser feitas sobre o significado da inclusão de Tartessos no maior testemunho literário português. Quando abordamos um autor como Luis Vaz de Camões (=LC), um primeiro aspecto a considerar é a copiosa bibliografia de leituras críticas e de perspectivas que se debruçaram sobre a sua obra, desde a publicação da «Edição Princeps» d’Os Lusíadas em 15721. Durante estes quatrocentos anos, foram múltiplos os olhares e interpretações que se lançaram sobre os 8816 1. Veja-se, por exemplo, a quantidade de títulos, adiante citados, publicados em 1972 e 1980 e inscritos, respectivamente, nas celebrações da publicação do poema e da morte do poeta (Fig. 1), sistematizadas em obras como, por exemplo, Exposições bibliográficas, como a de 1972, organizada por J.V. de Pina Martins, bem como outras compilações (Correia, 1985; Matos, 1995, e AAVV, 1980). Vejase, nesta última referência, a quantidade de edições do poema publicadas até 1980. Para este trabalho, consultaram-se as edições de Emanuel Paulo Ramos (2000, da Porto Editora), de Hernâni Cidade (publicada pela RBA editores em 2005) e, para aspectos pontuais, as edições fac-similadas d’Os Lusíadas, com comentários de Faria e Sousa, bem como de Epifânio da Silva Dias (ambas de 1972). versos desta obra, distribuídos em dez Cantos, não estando ao alcance deste trabalho e do seu autor uma exposição mais detalhada da recepção da obra camoniana. Esta pode dividir-se em três fases (Amora 1973: 178-9). A primeira decorre entre 1572 (edição comentada pelo Censor Inquisitorial Frei Bartolomeu Ferreira) e 1825, caracterizando-se pela análise do valor d’Os Lusíadas relativamente a outros2. Em termos de crítica literária, subdivide-se em duas fases: 1572 – 1746, com a divulgação do poema através de edições comentadas, das quais se destacam as de Faria e Sousa e João Franco Barreto. A crítica neo-clássica (Willis, 1972), que procedeu à revisão dos trabalhos anteriores e foi marcada por uma leitura ao carácter literário do poema, tanto em Portugal como em outros países, antecedeu o que pode chamar-se de leitura romântica d’Os Lusíadas. A publicação de Camões, de Almeida Garrett (1825), marca o início da segunda fase, em que as atenções se viraram para o significado do poema enquanto ícon de expressão nacional(ista)3 e para a análise da realidade histórica subjacente. O que equivale a dizer que LC foi, neste período, tido como um representante do ideal Romântico. Este entusiasmo prolongou-se até à celebração do terceiro centenário da publicação d’Os Lusíadas (1872), altura em que se impôs o Realismo 2. «Reduzindo ao essencial a crítica feita ao poema, neste período, poderíamos dizer que, então, se estabeleceu que Os Lusíadas eram (ou não eram) o mais perfeito modelo de poema heróico, portanto superior (ou inferior) aos modelos antigos e modernos desse géneros (…)» (Amora, 1973: 178). No final do artigo (p. 206), num espaço reservado às críticas de outros autores, Arnaldo Saraiva nota que Amora assinalou, não sem razão, que um poema como o de Garrett pode também ser considerado como uma crítica (entendida por Amora ao longo deste trabalho como «juízo de valor»). 3. 10 de Junho é, por isso, dia de manifestações explícitas ou encobertas de (desadequados) movimentos nacionalistas e xenófobos que provocam desalento ao autor destas linhas, que espera que esse dia assinale, para todas e todos sem excepção, uma reflexão sobre a igualdade e sobre o país que temos e para onde queremos leválo. Se para o caminho que agora se vai traçando, se para um outro, alternativo. information that we deal with, when we try to reconstruct the poet’s life. In this context, it’s probable that Camões could have acquired some knowledge in India and not only in Portugal. We reach the conclusion that the probable sources for Tartessus in Os Lusíadas were the A. A. Nebrija’s Dictionarium and Pedro de Medina’s Libro de Grandezas, wrote in 1548 (i.e., before Camões’ departure to India), especially the first one in the latin version of this word (Tartessus/ Tartessius). We analyze as well the metrical rules that, probably, forced the poet to include in Os Lusíadas III, 100 and VIII, 29 the words campos tartésios (an alternative to campos de Tarifa) and Tarteso (an alternative to Guadalquivir, Betis and other synonyms used in the poem). In the historiographical point of view, Camões was not interested in this theme, because he tries, first, to give to his country a kind of identity and a nationalist message (Lusíadas = sons of Lusus). These references lead us to include Camões in the history of the reception of Tartessus in Iberian historiography. Key words: Luís de Camões; Tartessus; Sources; Nebrija; Pedro de Medina; Metrics; Historiography
139 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS e se iniciou uma fase de mais ampla divulgação da bibliografia passiva e activa do poema camoniano. Ou seja, do valor nacional promovido pelo Romantismo, LC passou a ser tomado como um valor universal, motivando estudos mais sistemáticos sobre a sua vida e sobre a documentação disponível para a interpretação do poema. Aos estudos que incidiram sobre «a linguagem, o conteúdo de saber e particularmente o conteúdo de ideias e sentimentos» (Amora, 1973: 179), acrescentaram-se outros que analisaram vários documentos para definir o percurso de vida do poeta (Storck, 1890, apud Amora, 1980: 10). Paralelamente, introduz-se o estudo da geografia na crítica do poema camoniano. Em 1883, A.C. Borges de Figueiredo publica uma Carta da Geographia dos Lusíadas de Luis de Camões (1883b), acompanhada por uma nota explicativa (1883a), onde afirma que a sua obra era a primeira dedicada a esta questão (1883a: VI – VII). Este autor procurou, dentro das informações dispersas pela Epopeia, as “raízes” da concepção geográfica camoniana, concluindo, por exemplo, que LC, «á primeira vista, se afferou muito á cosmographia de Ptolemeu, desprezando a teoria de Kopernico» (1883a: 11)4. A análise da realidade contemporânea do poeta, bem como a realização de estudos biográficos e bibliográficos, de tendência historicista, foram dois aspectos criticados por uma nova vaga crítica a partir de finais do século XIX, que se prolongou até aos Anos 30 da centúria seguinte5. Neste contexto, destacam-se nomes como José Maria Rodrigues (1905)6, Carolina Michaelis, Epifânio da Silva Dias, entre outros (cf. Amora, 1980: 11 – 12), que procuraram resolver os «mistérios da biografia do poeta» e analisar alguns «pormenores da obra», sobressaindo o estudo das fontes do poema camoniano. Em termos de juízo de valor, como apontou Amora (1973), esta tendência analítica não se diferencia muito do programa anterior, mas foi suficientemente assinalável, ao ponto de conduzir à inauguração, na Faculdade de Letras de Lisboa (por Epifânio S. Dias) 4. Manteve-se a ortografia original. Apesar desta novidade em termos de estudos, complementada, anos mais tarde, por Luciano Pereira da Silva (pertencente à fase seguinte dos estudos camonianos), numa obra intitulada Astronomia dos Lusíadas, publicada em 1913 – 1915 e reeditada pela Junta de Investigações do Ultramar em 1972, o primeiro a integrar LC no contexto da Geografia foi o próprio fundador desta ciência: Alexander Von Humboldt (Ribeiro, 1980: 153 – 7). Para levar a efeito o seu trabalho, Borges de Figueiredo analisou com maior atenção o Canto III, especialmente, 6 – 20, por Vasco da Gama, bem como o Canto X (79 – 89). 5. Estes estudos foram marcados pelo simbolismo, nacionalismo e espiritualismo. 6. Consultou-se a edição fac-similada da obra, publicada em 1979, correspondendo sempre à referência de Rodrigues, 1905. de uma disciplina dedicada, exclusivamente, aos estudos camonianos, logo ocupada por J. M.ª Rodrigues, no âmbito das celebrações do nascimento do poeta, em 1924 (Amora, 1980: 12). Hernâni Cidade foi discípulo de Rodrigues (cf. Cidade, 1942), ocupando, entre 1932 e 1934, o cargo deixado vago por aquele nos «Estudos Camonianos». Esta mudança conduziu a uma reformulação do pensamento que marcou o início da terceira fase. A prioridade passou a ser a análise dos «valores especificamente artísticos de sua forma e de seu conteúdo» (Cidade, 1951, apud Amora, 1973: 179; 1980: 14), destacando o poeta enquanto agente recriador. Esta tendência marcou a realização de vários Congressos Internacionais de Camonistas a partir da celebração do quarto Centenário da publicação d’Os Lusíadas (Carvalho e Silva, 1984: 649 – 651), que trouxeram como novidade a revisão da história da crítica textual, bem como a introdução de novas fontes (R. Bismut, apud Carvalho e Silva, 1984: 652) e uma análise sistemática da «herança clássica» na poesia camoniana e no Renascimento Português7. A análise dessa «herança» 7. Parte desta bibliografia é apresentada no ponto V («Fontes de inspiração ou superação»). Deve ser complementada com a nossa edição online da bibliografia recolhida, onde se assinalam, por Figura 1. Revista Ocidente (1972)
140 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 é incontornável neste estudo, merecendo, por isso, um breve apontamento ao conceito de «clássico». Este adquire três vertentes diferentes na língua latina. A reforma censitária atribuída a Sérvio Túlio colocava o classicus na primeira das cinco classes de Roma, ordenadas consoante a riqueza individual. Na escola, era classicus o autor «lido e estudado», o que antecede o conceito estético do Classicismo Helenístico proposto no Cânone de Alexandria: o de classicus scriptor, ou autor destacado pelos seus dotes na utilização da língua materna, orientado para a perfeição. O sentido hoje aplicado de classicus parece surgir pela primeira vez, segundo Curtius (1957, apud Aguiar e Silva, 1962: 4), em 1548, por Thomas Sibillet na obra Arte poétique François, prolongando-se ao longo do século XVIII, com o sentido de autor excelente e estudado8. O termo «clássico» é utilizado neste trabalho como uma convenção conceptual, onde se enquadra a mole heterogénea de autores da Antiguidade Greco-latina que está, eventualmente, presente no poema camoniano. Não se trata de julgar a qualidade das obras que serão aqui focadas, mas antes de tentar perceber que informações bebidas, directa ou indirectamente, destes autores, podem contribuir para a construção do poema e da sua originalidade. Em particular, de tentar procurar compreender como LC olhou e recebeu esses discursos, e como os reproduziu, recriando-os, no seu. E como, neste, introduziu Tartessos. As estrofes que abrem este texto inserem-se no discurso histórico de Vasco da Gama ao Rei de Melinde (III, 100) e na descrição das bandeiras por Paulo da Gama ao Catual de Calecute (VIII, 29). Sugerida pela Professora Ana Arruda, esta análise coloca, à partida, dois problemas. exemplo, estudos que se desenvolveram em torno da relação entre Os Lusíadas e o Antigo Testamento. Veja-se o comentário de Ramalho, 1971 – 1972 à organização de um Curso de Férias em Coimbra (1972), dedicado à tradição clássica. Igualmente incontornável é o magnífico trabalho de Luís de Sousa Rebelo (1980). 8. O «clássico» passa a ser um conceito de referência nos estudos literários com Mme. De Stäel e Goethe, que lhe dão uma conotação estética em comparação com a literatura Romântica. Mme. De Stäel, em De l’ Allemagne substitui as designações opostas de Literaturas do Meio-dia e Literaturas do Norte por Poesia Clássica e Poesia Romântica, do mesmo modo que Goethe, considerado como o “fundador” do Romantismo (Bernal, 1993: 207) e como representante de um Helenismo renovado que rompera com o anterior Humanismo latino (R. Pfeiffer, apud Bernal, 1993: 206). Goethe é herdeiro dos trabalhos do Setecentista Winckelmann, que foi o primeiro a separar os conceitos «Gregos» e «Romanos» na sua História da Arte, de 1764, que tinham sido unificados por Cícero e que evitaram a classificação de «bárbaro» por parte dos Gregos em relação ao Latim (Pereira, 2007a: 76 – 7). Remeto a leitora ou o leitor para o notável e exaustivo estudo de V. Aguiar e Silva (1962). O primeiro diz respeito aos significados que o termo tem nestes versos. No caso de III, 100. 8, LC refere-se aos «campos tartésios» e em VIII, 29,8, a um rio. Esta diferenciação indica, pelo menos, várias proveniências distintas, entre as quais, pelo menos, Pompónio Mela, Plínio e Estrabão, assinalados pelo poeta no episódio do Adamastor (V, 50). O segundo é subsidiário do primeiro. As bases do poema camoniano não parecem esgotar-se no mundo greco-latino, estendendo-se a outros autores portugueses (Garcia de Resende, Rui de Pina, João de Barros, etc.), espanhóis (entre outros, Juan de Mena e, provavelmente, como veremos, Antonio de Nebrija e Pedro de Medina) e até mesmo italianos. Por exemplo, tanto Afrânio Peixoto (1932) como Hernâni Cidade (1981: 121 e 132) apontam que J.M.ª Rodrigues (1905) não valoriza o suficiente a presença da influência espanhola nos versos camonianos. Porém, mesmo os autores que se dedicaram a este ramo da intertextualidade d’Os Lusíadas9, incidiram sobre as fontes poéticas na Lírica e na Épica camoniana, deixando de lado outras obras de índole historiográfica produzidas no outro lado da fronteira e que, ao que sabemos, foram valorizadas por Epifânio Dias, ao comentar Lus. III, 17 - 20 (apud Ribeiro, 1971 e Pinho, 2007b: 142 – 3)10. Esta análise, note-se, não parece chocar com o interesse camoniano pela Cronística e Historiografia portuguesas. A análise que apresento incide sobre oito linhas de força: (I) a vida do poeta e a sua inclusão no (II) contexto do Humanismo, que terão influenciado a aprendizagem de LC e, consequentemente, (III) a construção do poema. É aqui que se incluem algumas das (V) «fontes» de LC, a partir das quais é possível explicar a estruturação dos Cantos (VI) III e (VII) VIII, onde surge Tartessos. Dediquei algumas palavras à questão da (VIII) métrica, de modo a procurar justificar a escolha de Campos Tartésios e de Tartesso, respectivamente, em III, 100 e VIII, 29. É com este quadro de referências, bastante concreto e, ao mesmo tempo, limitado, que vamos debruçar-nos sobre estes dois excertos do poema camoniano, cujos resultados são apresentados no ponto IX: «Tartessos n’Os Lusíadas». É, portanto, momento de passar para o segundo ponto, mas não sem antes deixar um comentário a este trabalho: o seu verdadeiro valor não está naquilo que 9. Veja-se, para além dos autores já citados, Lemos e Almoyna, s.d.; Dasilva, 1998; Castro, 2004; Extremera Tapia, 2005; de referir também os estudos sobre o bilinguismo Português – Castelhano no século XVI: Lemos e Almoyna, s.d; Vázquez Cuesta, 1981. 10. Consultei uma edição fac-similada da 2ª edição (1916/ 1918, 2 Vols.) d’Os Lusíadas, com comentários de Epifânio da S. Dias (1972).
141 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS apresenta, mas no uso que dele se faz, e na crítica da leitora ou do leitor. A sua originalidade está na conjugação de informações retiradas de temáticas muito diversas, estudadas e apresentadas por autoras e autores que se debruçaram sobre o apaixonante mundo de LC e da crítica Camoniana. II. LUÍS DE CAMÕES (1524/ 1525 – 1580) « Tendo vivido quase isolado dos seus pares, nenhum deles em sua vida se lhe refere e só depois da morte mereceu de um ou outro raro amigo uma breve alusão, que na ausência geral delas, atinge valor de preciosa.» Hernâni Cidade (1984: 136) «Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo/ de vós não conhecido nem sonhado?/ Da boca dos pequenos sei, contudo,/ que o louvour sai às vezes acabado./ Nem me falta na vida honesto estudo,/ com longa experiência misturado,/ nem engenho, que aqui vereis presente,/cousas que juntas se acham raramente.» Os Lusíadas X, 154 Os elementos disponíveis para a reconstituição de uma biografia de LC são escassos e, não raras vezes, duvidosos. A começar pelo seu nascimento. Calcula-se que terá nascido em 1524 ou 1525 (Lopes & Saraiva, 1998: 317)11, em lugar incerto (Coimbra? Lisboa? Porto?), levando a que não se saiba, com precisão, com que idade terá iniciado os seus estudos em Coimbra. A data desta entrada parece ser posterior a Dezembro de 1539, data limite de um documento identificado, na Torre do Tombo, por Cândido dos Santos, e publicado em 1973, onde não figura o nome de LC (Cruz, 1984). Por esses anos, D. Bento de Camões, tio do poeta, era Prior de Santa Cruz de Coimbra, o que leva a pensar, juntamente com a escolaridade que parece reflectir-se no poema, na possibilidade de entrada nos cursos de Artes e/ou Gramática (Cruz, 1984: 36). Não devemos, porém, descartar a hipótese de conhecimentos adquiridos na Índia (Ramalho, 1980a: 1-2), atendendo, por exemplo, a X, 154, mas, por outro lado, parece evidente que detinha um excelente conhecimento 11. Faria e Sousa corrigiu a data de 1517 para 1525, baseandose no registo da Armada de 1550, onde figura o jovem LC, com a idade declarada de 25 anos. Para um esquema genealógico da família do poeta, veja-se a excelente edição escolar d’Os Lusíadas organizada por Emanuel Paulo Ramos (D.L. 2000). Veja-se, igualmente, Livermore, 1984 e, para o «honesto estudo» de LC, Pereira, 2007b: passim. de Latim e, com menos probabilidade, de Grego (Pereira, 2007a: 71 – 3; Ramalho, 1984: 495)12. Terá iniciado os seus estudos num período de maior abertura às transformações intelectuais de além – fronteiras, como veremos, o que conduziu ao conhecimento de algumas obras da Antiguidade, acessíveis em textos, originais ou traduzidos, impressos ou manuscritos, ou mesmo coligidos e sistematizados em compêndios, manuais e dicionários. Seria fastidioso (e, na verdade, inútil) fazer aqui uma exposição detalhada do que se pensa que foi a vida do poeta. Apenas de assinalar uma vida difícil e até mesmo errante durante os seus anos de juventude, depois de 1542, ano em que, provavelmente, deixara Coimbra para ir para Lisboa, onde se estabeleceu até 1545, partindo depois para Ceuta, onde perdeu um olho. Regressado em 1548, no ano seguinte enquadrase na vida cortesã, pelo menos até 16 de Junho de 1552, dia fatídico, que, motivado pela agressão de um funcionário do Paço com uma espada, o levou à Prisão do Tronco. A pena durou até 7 de Março do ano seguinte, depois de uma carta de perdão, não deixando outra alternativa a LC que não a de embarcar para a Índia na nau S. Bento, regressando apenas em 1569, já com a sua epopeia nas mãos. Em 1572, publica Os Lusíadas e morre em 10 de Junho de 1580. É este, em traços muito gerais, o provável rumo da vida do poeta nas suas andanças pelo mundo. Vejamos agora alguns aspectos do seu ambiente cultural. III. O AMBIENTE CULTURAL DE CAMÕES O ambiente cultural de LC deve ser visto na perspectiva do Humanismo13 e das dificuldades impostas pelo pensamento escolástico (censura), bem como na vida universitária do Portugal Quinhentista. 12. A hipótese de um bom conhecimento de Latim é muito provável, atendendo a vários «latinismos» utilizados pelo poeta na sua obra, aos quais vou referir-me mais adiante. A questão da aprendizagem do Grego levou-me a introduzir, no capítulo das fontes de LC, a discussão em torno da leitura dos originais gregos dos Poemas Homéricos. 13. Para uma discussão sobre o conceito e as suas manifestações, cf. Ribeiro, 1980: 17 – 99, com bibliografia. O termo surge em 1808 com F.J. Nyethamer, «para definir uma concepção pedagógica na qual se dá o primado aos estudos clássicos», acrescentando-se que «por humanista deve entender-se fundamentalmente o estudioso e cultor das artes humanitatis e litterae humaniores, expressões ciceronianas, cujo sentido indica que o conhecimeto dessas letras torna o homem mais humano pelo que elas lhe revelam sobre a sua natureza e condição» (Ribeiro, 1980: 69). Para a relação entre LC e o Humanismo em Portugal, veja-se Ramalho, 1971 – 1972a; 1984; Pina Martins, 1981.
142 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 Silva Dias assinala o confronto entre a Escolástica e o Humanismo no sentido de se tornarem «hegemonias culturais» (1981: 13 – 21, apud Barreto, 2000: 89), em que a primeira procura salvaguardar o domínio no seu rebanho, protegendo-o do segundo. Este aspecto é notório em 1548, ano em que se inicia um domínio humanista do ensino, culminando em 1555, com a entrega do Colégio das Artes à Companhia de Jesus14. Assim, «o programa humanista é, ao longo de 1540 – 1560, neutralizado ou integrado na Escolástica» (Barreto 2000: 90). Entre estas duas hegemonias, surge uma cultura discursiva – a dos Descobrimentos e da Expansão –, um conjunto heterogéneo que reflecte as partes interessadas neste processo: Coroa, Igreja e restante sociedade. Os seus discursos, não pertencendo a nenhuma das hegemonias e, portanto, mais abertos a novas informações, pouco ou nenhum impacto tiveram nos programas de ensino, apesar do interesse das suas observações para a actualização dos conhecimentos de então15. Basta, por exemplo, dizer que, à excepção dos Guias Náuticos (de Évora e de Munique), obras de Astronomia náutica, Livros de Marinharia, Roteiros e Diários de Navegação, encontravam-se manuscritas e tinham, portanto, uma circulação muito limitada. Paralelamente, a Cartografia náutica teve inovações extraordinárias, com consequências directas para o aumento de informações geográficas do mundo extra-europeu, sendo ela mesma uma consequência directa das viagens e da observação das novas terras16. A confrontação com o saber antigo torna-se, portanto, um resultado óbvio de um período de profunda transformação, que foi o de LC. O que justifica a dimensão do Homem no seu poema, como muito bem explica Pina Martins: «Exaltando o génio dos Portugueses no seu acto colectivo mais importante para a história do Mundo, Camões exalta implicitamente a capacidade do homem para resolver dificuldades tidas até então como insuperáveis: as do Oceano com os seus segredos e medos, o misterium maris em que Os Lusíadas aparece reduzido à sua dimensão de realidade cognoscível» (1981: XVIII). 14. Veja-se o estudo de Américo Ramalho (1980 – 1981), onde o autor apresenta, com algum pormenor, a vida universitária no período compreendido entre 1548 e 1554. 15. Assim, os «sistemas de trocas entre os três componentes chave do Renascimento Português tem a ver com o princípio nuclear de cada uma das culturas. A Escolástica e a Humanista são culturas de orientação sapiencial – doutrinária enquanto que a cultura da Expansão apresenta uma orientação científico – objectiva» (Barreto, 2000: 93). Este artigo representa uma interessante reflexão, sustentada por uma bibliografia sólida, sobre a dimensão filosófica destas três culturas discursivas, bem como sobre as diferenças existentes entre elas. 16. Volto a remeter para Barreto, 2000: 102ss, onde o autor apresenta bibliografia sobre este tema. «O campo doutrinário – ideológico é o lugar do encontro e da transição entre a cultura da expansão e as culturas humanista, escolástica e popular sobre a expansão» (Barreto, 2000: 111). É neste contexto que começam a surgir discursos dominados por três orientações distintas (Dispersão, Autorização e Concentração), caracterizados pelas suas diferentes posições em relação ao processo que LC, em parte, descreve e exalta. A Dispersão representa uma postura crítica face ao Mercantilismo e à decadência que a Expansão pode provocar para o País. A Historiografia e os discursos políticos e jurídicos surgem como formas de Autorização da Expansão. Na Historiografia, por exemplo, a prioridade é, claramente, dada à diáspora e à sua história17, servindo, posteriormente, de base para afirmar a sua grandeza face ao Imperium de Roma (1581, na primeira História de Portugal, da autoria de Fernando Oliveira: apud Barreto, 2000: 111). Como expressão da Concentração surge, entre outras, a obra que motivou esta investigação, uma vez que nela se apresenta e valoriza o sentido da Expansão, ao mesmo tempo que enquadra, como veremos a seu tempo, a viagem de Vasco da Gama num processo histórico iniciado com Luso. O ensino universitário resume, na perfeição, a luta entre estas hegemonias culturais (Dias, 1981: 13 – 35; Barreto, 2000: passim). As Universidades mantiveramse agarradas ao espírito “medieval” desde 1377, ano em que D. Fernando funda uma em Lisboa. Mais tarde, nos meados de Quatrocentos, D. Pedro procura, sem sucesso, fundar uma Universidade em Coimbra, seguindo os modelos de Paris e Oxford. O «piscar de olhos» a outras tendências de finais do século XV deu-se apenas em 1501. «É então que – à revelia da autoridade universitária – se condimenta o medievalíssimo texto gramatical de João Pastrana com alguns elementos extraídos do renascentista Élio António Nebrija» (Dias, 1981: 30. O sublinhado é meu). Este último nome é de extrema importância para este trabalho, e tanto mais o é que, em 1525, durante o reinado de D. João III, a Universidade deu abertura aos seus docentes para optar pela sua obra. É um período em que este Rei procurou estabelecer uma reforma no ensino, apesar da resistência por parte do meio universitário lisboeta. Com isto, a solução encontrada foi a fundação de uma Universidade em Coimbra no ano de 1536, recorrendo ao convite de professores nacionais e estrangeiros. 17. Neste contexto figuram nomes como Gomes Eanes de Zurara (c. 1410 – 1474), Gaspar Correia (c. 1490 – c. 1563), Fernão Lopes de Castanheda (c. 1514 – 1559), João de Barros (1496 – 1570), Damião de Góis (1502 – 1574) e Diogo do Couto (1542 – 1516).
143 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS Este panorama permite pensar que foi num ambiente renovador (entre 1536 e 1555) e de entusiasmo generalizado pela Expansão (Matos, 1983: 5 – 11) que se integra parte da vida estudantil do poeta, o que se reflectiu, como continuaremos a ver, numa verdadeira epopeia (humanista) portuguesa. IV. OS LUSÍADAS: ALGUNS ASPECTOS «Vistes que com grandíssima ousadia/ foram já cometer o céu supremo;/ vistes aquela insana fantasia/ de tentarem o mar com vela e remo;/ vistes e ainda vemos cada dia/ soberbas e insolências tais, que temo/ que do mar e do céu em poucos anos/ venham deuses a ser, e nós humanos» Os Lusíadas VI, 2918 «Ora, n’Os Lusíadas, a descoberta não é apenas a motivação do poeta (…), mas também e principalmente a matéria – prima do poema» (Matos, 1983: 8). O tema central d’Os Lusíadas é a viagem de Vasco da Gama à Índia, inserindo-a na História de Portugal. Nesta introduzem-se elementos como a concepção da Geografia do seu tempo, os conhecimentos da sua sociedade contemporânea, a História de Portugal e da Antiguidade, Mitologia e Literatura Clássicas, etc. Estes elementos vão de encontro ao seu principal objectivo: engrandecer, preservando, os feitos dos Portugueses através de um discurso poético e, ao mesmo tempo, histórico. Transmitindo a História num discurso épico19, o poeta realiza um sonho de gerações anteriores: imortalizar os feitos portugueses, ao mesmo tempo que revela a superação dos autores e modelos antigos através da Epopeia, considerada, não sem razão, como a maior aspiração da poesia20. 18. Apud Matos, 1983: 8. 19. Note-se, por exemplo, que Epifânio da Silva Dias assinalou que a tempestade enfrentada pelas naus comandadas por Vasco da Gama era pura ficção, baseando-se em Castanheda, enquanto que Saraiva afirma, pelo contrário, que se tratou apenas de uma transposição de uma etapa para outra (apud Oliveira, 1998: 417). Ou seja, estes episódios ganham um carácter literário, uma vez que o poeta cria mais um obstáculo que se localiza próximo da concretização do objectivo. 20. Para a discussão sobre a origem da épica grega, veja-se o interessante artigo de M.L. West (1988) e, mais recentemente, a síntese de M.ª H. Rocha Pereira, A.C. Ramalho e V.M. Aguiar e Silva na Enciclopédia Verbo (1999: Cols. 487 – 496), onde se expõem as várias manifestações deste estilo na Grécia, em Roma, nas Idades Média, Moderna e Contemporânea. Há que assinalar que a definição moderna de géneros literários iniciou-se depois de 1945, retomando, em parte, o que Quintiliano já havia assinalado quando distinguiu quatro géneros literários (Inst. Orat. X): Poesia, História, Eloquência e Filosofia (Chassignet, 1998: 155). Veja-se, para uma análise estilística da épica latina, Biville e Dangel, 1997: passim. O Canto I lança a narrativa quando as naus já se encontram no Oceano Índico (19)21 e coloca-a em simultâneo com o Consílio dos deuses (20 – 41)22. Este episódio marca um interregno na sequência da viagem: na estrofe 42, os navegantes encontram-se «Já lá da banda do Austro e do Oriente,/ entre a costa etiópica e a famosa/ Ilha de São Lourenço (…)» e encaminham-se para Mombaça, onde se prepara uma traição (105). A última estância, pode dizer-se, é a reflexão que o poeta faz sobre o «bicho da terra tão pequeno» (ou sobre a condição humana) e que retoma nos Cantos IV (Velho do Restelo), V (Adamastor) e no VI (Tempestade). Esta fase antecede a viagem de Mombaça até Melinde no Canto II, onde o Rei pretende ouvir a História de Portugal, que culmina na partida das naus e no Velho do Restelo. É nesta fase que se dá a primeira intervenção divina, que dá conta da função de intermediários e agentes das forças naturais entre o Homem e Deus. Chegados a Melinde, os navegantes parecem querer seduzir o seu ajudante no sentido de procurarem ajuda para concretizar o seu objectivo23. Isto antecede o discurso do Gama ao Rei de Melinde nos dois Cantos seguintes. O Canto V, por sua vez, encerra um ciclo: relata a viagem entre Lisboa e Melinde, colocando no percurso histórico a missão de Vasco da Gama. A História de Portugal, narrada nos Cantos III e IV, abarca o período compreendido entre Luso e os anos de 1561 – 1562 (Sena, 1980, apud Oliveira, 1998: 409)24. Tal percurso temporal parece ser apresentado como 21. Para trás ficaram a proposição (1-3), a invocação (4-5) e a dedicatória (6 – 18). De acordo com a expressão de Horácio na sua Arte poética (148 – 149), a narrativa é lançada in media res: «semper ad euentum festinat et in medias res/ non secus ac notas auditorem rapit (…)» ou, traduzido: «Sempre se apressa para o desfecho e arrebata o auditor para o meio da intriga como se esta já lhe fosse conhecida» (trad. Pinho, 2007a: 122, n. 169). Em http://www.thelatinlibrary.com/horace/arspoet.shtml encontra-se uma versão online do texto latino (cons. 5/10/09). O lançamento da narrativa d’Os Lusíadas, pode dizer-se, dá-se in extrema res, ou seja, inicia-se quase em Melinde, na última etapa da viagem. 22. Sigo neste trabalho a proposta de Salgado Júnior, seguida por Sena, que utiliza o sentido de consilium identificado na edição princeps d’Os Lusíadas, em alternativa a concilium. Diz Sena que «não se trata de uma mera questão ortográfica. Se é certo que os deuses olímpicos poderiam ser bispos e cardeais da “igreja mitológica”, reunidos em concílio presidido pelo Papa (Júpiter), mais certo será que apenas se reúnam em “consílio” (conselho), para decidirem sobre as coisas do Oriente» (1980: 131 e n.4). 23. Para o enquadramento deste episódio-tipo na narrativa, vejase o excelente trabalho de Claude Bremond (1966). 24. Estes acontecimentos, note-se, são posteriores aos que são narrados e, como tal, são apresentados na profecia de Tétis a Vasco da Gama e representam o período contemporâneo do poeta. Veremos mais adiante que este percurso histórico, iniciado com Luso, não recua à chegada de Jafet e do seu filho Tubal à Península Ibérica, como em Pedro de Medina ou noutros historiadores espanhóis.
144 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 uma unidade na qual se destaca um sentido missionário de luta contra os Mouros e, com menor incidência, de luta contra a Nobreza Castelhana25. Estes aspectos, estudados por Paulo Oliveira (1998) na relação que faz entre a Literatura e a História no poema camoniano, permitem destacar o valor da Expansão marítima enquanto acto missionário de expansão da Fé. Ou seja: é a continuação da Cruzada26. Das 244 estrofes dedicadas ao percurso histórico dos Portugueses, a maioria é dedicada à Guerra Santa (Oliveira, 1998: 411 – 3). O que importa destacar neste capítulo é a passagem por Me25. Este aspecto adquire uma forma interessante nas traduções para Castelhano, em que os tradutores chegaram mesmo a alterar o sentido de alguns versos, de modo a dar uma visão mais favorecida da representação camoniana. Tal é o caso de duas traduções de 1580, uma de Benito Caldera (imp. Alcalá de Henares) e outra de Luís Gómez de Tapia (imp. Salamanca), patrocinadas pelas respectivas universidades. Estas traduções são analisadas em pormenor por Nicolás Extremera Tapia (1998), pelo que vou apontar alguns casos expostos pelo autor: LC, em III, 34. 1, diz «Eis que se ajunta o soberbo Castelhano»: Caldera traduz como «Veis que se junta luego el Castellano». Em III, 99.1: «Este sempre as soberbas castelhanas»; «Éste las amenazas castellanas» (Caldera), «Despreciador de fuerzas castellanas» (Tapia). Estes casos multiplicam-se também na tradução de Henrique Garcés, publicada em 1591. Será apenas em 1818 que surgirá uma tradução com novos parâmetros, mais concordantes com o ideal Romântico, em Espanha, da autoria de Lamberto Gil. 26. Assim, logo na segunda estância do Canto I, o poeta afirma que «E também as memórias gloriosas/ daqueles reis que foram dilatando/ a Fé, o Império, e as terras viciosas/ de África e Ásia andaram devastando». linde enquanto episódio estruturante da construção da epopeia: é onde o presente da viagem (iniciada, na narrativa, em I, 19) se encontra com o passado (IV – V). O segundo ciclo do poema, iniciado no Canto VI, diz já respeito ao presente da viagem e ao seu desenvolvimento até à conclusão. Vejamos como se dividem as intervenções do poeta e os temas ao longo do percurso narrativo (tabela 1), de modo a sintetizar a sua distribuição na epopeia. Outro tanto pode ser dito sobre o título –Lusíadas –, que identifica os portugueses como descendentes de Luso, filho de Baco. Trata-se de um neologismo, cuja criação foi reivindicada por André de Resende em Carmen eruditum et elegans Angeli Andreae Resendii Lusitani, adversus stolidos politioris litteraturae oblatratores, impresso em Basileia (1531) por Froben. Numa nota ao poema Vincentius levita et martyr (1545), o autor assinala, em duas ocasiões (II, 24 e 48), a origem mitológica do termo, baseando-se em Plínio (Nat. III, 8)27, bem como 27. «In universam Hispaniam M. Varro pervenisse Hiberos et Persas et Phoenicas Celtasque et Poenos tradit. Lusum enim Liberi patris aut lyssam cum eo bacchantium nomen dedisse Lusitaniae et Pana praefectum eius universae». Tradução de Amílcar Guerra (1995: 29): «Refere Marco Varrão que à Hispânia em geral chegaram Iberos, Persas, Fenícios, Celtas e Púnicos; que os mistérios (lusus) de Liber Pater ou o delírio (lyssa) das Bacantes com ele deram o nome à Lusitânia e Pã, seu prefeito, a toda ela». N’Os Lusíadas, LC cita, por três vezes, esta personagem (III, 21, VIII, 2 e 3: cf. infra). O texto de Resende é também citado por H.H. Post (1972: 293). Tabela 1: Distribuição das intervenções do poeta e temas da sua epopeia (segundo Sena, 1980). Cantos Poeta Viagem Deuses História de Portugal totais I 20 52 34 — 106 II — 82 31 — 113 III 2 — — 141 143 IV — — — 104 104 V 9 91 — — 100 VI 5 55 39 —99 VII 24 63 — — 87 VIII 392 4 — 99 IX 7 18 70 —95 X14 2 140 — 156 Somas 84 455 318 245 1102 %8 41 29 22 100
145 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS a filológica, recorrendo a Lucrécio28. Já no século XX (1933), Alfredo Pimenta descobre, na Torre do Tombo, Antiquarum Lectonium Libri XVI, de Rhodiginus, publicado em 1516, identificando Lusiades nymphae, onde o autor assinala uma passagem do grego (do século III) Ateneu (Νυμφῶν… Λουσιάδων). A este aspecto dedicaram-se, posteriormente, Bernardo Xavier Coutinho e J. M.ª Rodrigues (Ramalho, 1980b: 221 – 236)29. Esta palavra adquire um sentido identitário, distinguindo os «filhos de Luso» daqueles que não o são, aplicando-se, por exemplo, à diferenciação Portugueses/Espanhóis afirmada por LC. Esta identificação esbate-se quando o inimigo comum é o «Mouro» e há uma afirmação da Cristandade30, levando a questionar as várias transformações que a Identidade pode ter numa mesma sociedade, ou no mesmo «Eu». A identificação de Portugal com a Lusitânia parece surgir em 1481 numa oração de D. Garcia de Meneses (Bispo de Évora), ganhando consistência a partir da conquista de Granada em 1492 (Ramalho, 1984: 492). Estas diferenças são, igualmente, fundamentais na comparação entre o que foi feito na Historiografia Portuguesa e na Espanhola no século XVI, enquanto construções de Identidades. Estes discursos têm em comum a pesquisa de textos antigos, interpretados no sentido de definir as “raízes” destas civilizações europeias, por isso vale a pena entrar, agora, no capítulo das «fontes» d’Os Lusíadas. V. «FONTES» DE INSPIRAÇÃO OU SUPERAÇÃO «É que a poesia, sendo arte autêntica, é vida transposta na dignidade da palavra, e a palavra valiosa não se compraz com exercícios puramente teoréticos. Ela é um produto do humano; é tempo; é história: o seu presente só é explicável pelo seu passado 28. «Aeneadum genetrix, hominum divomque voluptas,/ alma Venus, caeli subter labentia signa/ quae mare navigerum, quae terras frugiferentis/ concelebras, per te quoniam genus omne animantum/ concipitur visitque exortum lumina solis (De Rerum Natura I, 1-5). O excerto faz parte de uma invocação a Vénus, e é traduzido por Alfred Ernout (1966) deste modo: «Mère de las Énéades, plaisir nus nourricière, toi par qui sous les signes errants du ciel, sons se peuplent de créatures, puisque c’est à toi que toute espèce vivante doit être conçue et de voir, une fois sortie des tenèbrees, la lumière du soleil (…). http://www.thelatinlibrary.com/lucretius/lucretius1.shtml, consultado a 16 de Outubro de 2009. 29. Remeto para o artigo de Ramalho publicado nesta obra, intitulado «A palavra Lusíadas», onde apresenta uma excelente síntese desta discussão. Do mesmo autor, veja-se o artigo publicado em 1984. 30. Esta questão é notória no episódio da batalha do Salado (III, 99 – 117) e o seu futuro só será explicável pelo seu presente. O problema das fontes é (…) um problema fundamental ao nível de toda e qualquer pesquisa crítica que aspire a ser rigorosa e exacta». J.V. de Pina Martins (1972: 199) Nestas palavras, entrevê-se uma necessidade premente: procurar entender, no contexto de elaboração d’Os Lusíadas, os textos ou os conhecimentos que LC pode ter presentes, não excluindo, claro, situações que podem resultar de coincidências. Torna-se essencial dividir a análise em três grupos: (1) os «clássicos»31, (2) os autores portugueses e (3) os autores espanhóis, cada qual com o seu peso no poema. Desta apresentação não sai –convém salientar – uma resenha de todas as fontes de LC, o que está fora do alcance de um único trabalho32. «Cessem do sábio Grego e do Troiano/ as navegações grandes que fizeram;/ cale-se de Alexandre e de Trajano/ a fama das vitórias que tiveram;/ que eu canto o peito ilustre Lusitano,/ a quem Neptuno e Marte obedeceram./ Cesse tudo o que a musa antiga canta,/ que outro valor mais alto se alevanta.» Os Lusíadas I, 3 É tradição anterior a LC a comparação entre Portugueses e «clássicos»33, aqui utilizada no sentido de superação nas Letras, na História e na Memória póstuma34. O uso de cessar e calar (em latim, cedat e taceat) parece resumir a postura do poeta perante es31. Não se justifica, neste contexto, separar Gregos de Romanos, uma vez que esta separação resulta dos estudos de Winkelmann, no século XVIII, sobre a Arte da Antiguidade. O que quer dizer que Camões entendia estas duas realidades como uma só, da qual se consideraria, eventualmente, um herdeiro. 32. Como afirma Luís de Albuquerque (1981: 35): «Il est évident que l’immense acquis culturel de Camões permettra dificillement à quelqu’un d’oser un jour indiquer, même avec une probabilité minime, tous les livres qu’il peut avoir lus. La question, posé ainsi en termes aussi généraux, cesse, à mon avis, d’avoir quelque sens. Cependant elle en aura déjà un si nous extrayons tel ou tel passage très concret et nous en cherchons l’origine; dans ce cas nous pouvons trouver très souvent dans la littérature existant à son époque la source ou les sources où le Poète trouva l’information dont il manquait» (o sublinhado é do autor). 33. Esta tendência, nota Pereira (2007a: 63) vem já do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende. Para a relação entre este texto e o poema camoniano, veja-se, igualmente, Miller, 1972: passim. 34. Sistematicamente (IV, 5; IV, 20; III, 131; III, 133; III, 136), LC revela «a preocupação de fornecer contrapartidas romanas aos heróis e feitos portugueses» (Pereira, 2007a: 74). Note-se que este herói colectivo opõe-se ao herói individual dos épicos antigos. Cataldo Sículo escreveu a D. Manuel uma carta onde expõe uma comparação entre a celebração de Eneias (que viajou da Frígia para Itália) e os antepassados do rei, que «com maior frequência, passaram contra os mouros em África, apesar de dois inimigos que se opunham, a saber,
152 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 sobre aquilo que pretendia relatar. A sua obra, intitulada História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, foi publicada em oito livros entre 6 de Março de 1551 e 1561, sendo este último póstumo58. Se João de Barros e Castanheda foram fundamentais (como fontes historiográficas) na construção do discurso camoniano sobre a viagem de Vasco da Gama, por outro lado não podemos deixar de destacar Rui de Pina (1440 – 1522), uma vez que o seu nome está associado à escrita da «História oficial» dos reinados de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II. D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso IV, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II (Rodrigues, 1905: 85), durante o reinado deste último59. Consequentemente, torna-se incontornável na análise do discurso do Gama ao rei de Melinde, no tocante ao passado da sua nação. Atendendo à análise de Rodrigues, os «campos tartésios» não fazem parte da descrição de Rui de Pina60 (cf. Ramalho, 1984: 497). Por outro lado, no séc. XVII, a Micrologia de J. Barreto dá conta de uma série de autores espanhóis que podiam ter alguma relação com o poema camoniano (Juan de Mena, Garcilaso de la Vega, Boscán e D. Luís de Góngora)61. A recepção da estética poética do país vizinho não parece assumir, no contexto que tratamos aqui, uma importância extrema, uma vez que Tartessos não parece ser um tema da poesia espanhola dos sécu58. I (Coimbra, 1551, emendada e acrescentada em 1554), II e III (Coimbra, 1552), IV e V (Coimbra, 1553), VI e VII (Coimbra, 1554) e VIII (Coimbra, 1561), segundo Ferreira, 1998: 292. Os livros IX e X consideram-se perdidos (Rodrigues, 1979: 65, n. 1). Esta obra foi publicada pouco tempo antes do regresso de LC de Ceuta. 59. A versão digital dos originais encontram-se na base de dados digital da Biblioteca Nacional (http://purl.pt) (cons. a 29/08/09). 60. Há que ter em linha de conta as andanças do poeta, bem como as datas de publicação das várias crónicas que Rodrigues analisa, uma vez que podem fazer concordar com a ideia exposta. Jorge de Sena (1970: 166, n. 5) assinala que a de D. Afonso Henriques (Duarte Galvão) terá sido publicada em 1726. As de Rui de Pina (Sancho I, Afonso II, Sancho II, Afonso III e D. Dinis), entre 1727 e 1729, acrescentando-se a de Afonso IV, publicada em 1653 (i.e., 100 anos depois do embarque do poeta para a Índia), e as de D. Duarte e D. Afonso V, ambas de 1790. Fernão Lopes é, também, um autor cujas publicações viram a luz do dia em data mais tardia: D. Pedro I (1735), D. Fernando (1816), D. João I (1ª e 2ª partes: 1644). As Décadas da Ásia, de João de Barros, foram impressas em 1553 (1ª e 2ª) e 1563 (3ª), i.e., num momento em que LC se encontra fora de Portugal. A obra de Castanheda, por seu turno, viu os três primeiros livros impressos em 1551 – 2, do 4º ao 7º em 1556 e o 8º em 1561. É, por isso, mais provável o conhecimento directo de Castanheda ou de Barros, sem excluir, obviamente, os sumários destas obras, mais acessíveis. No entanto, J. de Sena não parece considerar a circulação de informações orais (que, p.e., sustentam o método historiográfico de Castanheda). Estas foram recolhidas na Índia, o que abre a possibilidade de aquisição de informações neste país por parte de LC. 61. De acordo com o comentário introdutório à edição de 1982 por Aníbal Pinto de Castro. los XV e XVI (?). No entanto, tanto Pedro de Medina (1548) como Florián de Ocampo (1541; 1543; 1553; cf. Lavoura, 2001: 305 – 306), para citar apenas dois autores anteriores a LC, tratam este assunto com alguma profundidade e não são mencionados por Barreto. Quer isto dizer que uma hipotética presença da Historiografia espanhola no poema camoniano ainda não foi sujeita a uma análise mais profunda, pelo menos na produção intelectual dos estudos camonianos no século XX. Maioritariamente, estes estudos concentram-se na poesia espanhola quando procuram averiguar estas relações. Mesmo o comentário de Faria e Sousa a VIII, 29 assinala Juan de Mariana e Tomas Tamayo, revelando que, provavelmente, desconhecia Pedro de Medina e Ocampo. Já Epifânio Dias não assinala Pedro de Medina nestes contextos, como fez, por exemplo, no seu comentário a III, 17. A tela de fundo da Historiografia Espanhola parece ser diferente daquela que norteou o mesmo discurso em Portugal, sobretudo por questões políticas. Aos “Lusíadas” interessava discursar e reflectir a Expansão do conhecimento e da Fé. O discurso da Crónica de Florián de Ocampo, historiador oficial de Carlos V, apresentava duas faces: uma, voltada para o interior, destinava-se a promover a unidade (política, religiosa e territorial) do povo espanhol; outra, orientada para o exterior, legitimava a política expansionista dos Reis Católicos (Martí – Aguilar, 2000: 3). O século XVI marca, assim, a consolidação de uma tradição historiográfica que remontava ao Génesis veterotestamentário as raízes da realeza espanhola. Visto que, neste contexto, LC seria um receptor externo, é muito provável que a questão não tenha despertado o seu interesse, visto que promove na sua obra um sentimento de independência que não se adequa ao discurso historiográfico do outro lado da fronteira. Não obstante, é momento de fazer um balanço, começando por assinalar que «Na obra de um poeta, por mais genial que seja a sua originalidade, há sempre matéria larga para inventariar, quer o legado espiritual que herdou ou que lhe foi transmitido pela geração a que a sua dá continuidade, quer o que ele próprio pessoalmente assimilou dos ambientes de facto ou ideias por que lhe decorreu a vida.» Hernâni Cidade, 2004: 9. A inventariação das «fontes» de LC é um desiderato de difícil conclusão e não deve cingir-se à leitura do poema. Isto porque, como oportunamente assinala R.M. Rosado Fernandes (1980: 3), o poeta é, ao mesmo tempo que o agente de recriação, co-herdeiro
153 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS dessa tradição (historicamente localizada) de recepção do legado literário da Antiguidade. Este aspecto levanta um problema fundamental, já assinalado: o do contacto «em primeira mão» com estes textos. Um exemplo parece ser o de Tito Lívio, que inspirou João de Barros, enquanto que este terá inspirado algumas passagens d’Os Lusíadas62. A crítica camoniana concentrou-se, desde os seus primórdios, no estudo das fontes (quellenforschung), originando um conjunto de abordagens interessante. Não é assunto deste trabalho assinalar todas as considerações que se teceram sobre esta questão ao longo de quatro séculos de leituras d’Os Lusíadas, sendo um estudo que está muito longe das minhas capacidades. Tal não impede de assinalar dois trabalhos importantes: a edição d’Os Lusíadas comentadas por Faria e Sousa (1639) e uma edição de 167063, onde surge, pela primeira vez, um índice de nomes próprios, da autoria de Franco Barreto, que originou a Micrologia. Existem diferenças fundamentais entre uma e outra obra. Enquanto que a primeira explica o conteúdo de cada estrofe, a segunda elabora uma espécie de dicionário, ordenado alfabeticamente, como surge explícito no título: Micrologia/ em a qual se explicam todos os nomes próprios, istorias, fabulas, nomes peregrinos e lugares escuros conteudos em os Lusíadas de Luis de Camões (…). Com um comentário de grande erudição, Barreto apresenta um conjunto importante de referências sobre Tartessos, indo mais longe do que o próprio Faria e Sousa no tocante a termos como Bétis, Guadalquivir, Tarifa e Tartessos. Reflecte um extraordinário sentido crítico que vai de encontro à explicação desses nomes no poema, às autoridades e à discussão de algumas opiniões de um modo que pretendia esclarecedor para qualquer leitor do texto camoniano. Estando seguro de que este texto terá conseguido chegar a uma pequena parcela desta realidade, uma ilação a tirar é a necessidade de um estudo mais profundo sobre estas questões, que englobasse múltiplas perspectivas e disciplinas, não só do poema camoniano, como também dos outros autores que terão servido de base à elaboração d’Os Lusíadas. Neste sentido, haveria que assinalar que o tema em análise – Tartessos em LC – está entre estes dois campos, levantando dificuldades que o autor destas linhas procurou superar. Vejamos, agora, os Cantos onde LC inseriu Tartessos. 62. Ver nota 54. 63. Trata-se da reedição de uma publicação de 1663, «que apresentava a novidade de trazer, à cabeça de cada canto, o argumento ou súmula do seu conteúdo (…)» (prefácio A.P. de Castro à obra de Barreto, 1982: XV). As edições de 1663 e 1670 foram impressas ba casa de António Craesbeek de Melo. VI. O CANTO III «Mas tu, em quem mui certo confiamos/ acharse mais verdade, ó Rei benigno, e aquela certa ajuda em ti esperamos, que teve o perdido Ítaco em Alcino;/ A teu porto seguro navegamos,/ conduzidos do intérprete divino,/ que – pois a ti nos manda – está mui claro/ que és de peito sincero, humano e raro.» Os Lusíadas, II, 82 Um primeiro aspecto que se destaca nesta estrofe é a presença do Rei de Melinde como personagem ajudante e como protagonista de uma cena-tipo da narrativa de viagem: a hospitalidade. A forma, de acordo com o pensamento de Propp, determina o conteúdo (Morfologia Skazki = Propp, 2006), o que é válido, por exemplo, para a anterior análise das influências de Virgílio, Homero e Flaco n’Os Lusíadas. Não se trata de reduzir a riqueza do poema às sequências estáveis de Propp, mas antes de assinalar que este episódio é fundamental, uma vez que permite ao poeta, inspirado pela Musa, introduzir uma mensagem pela «boca» do protagonista. O mesmo ocorre no Canto VIII com a curiosidade do Catual. Este papel é detido, na Odisseia, por Alcínoo, que pede a Odisseu que descreva os homens cruéis, injustos, amigos do estrangeiro64 e com temor aos deuses (Od. VIII, 572 – 6 e IX, 170 – 176). Na Eneida (II e III), por seu turno, a hospitalidade de Dido permite introduzir a vida de Eneias (cf. Pinho, 2007a). Isto em relação às semelhanças. A diferença fundamental é que o episódio narrado por LC reflecte uma etapa da viagem de Vasco da Gama, se seguirmos o relato do Piloto e de outros historiadores contemporâneos do navegante português (Campos, 1998: 122)65. Neste sentido, o ouvinte é colocado na sequência, vivendoa intensamente: o discurso narrativo, através da sua linearidade e simplicidade, torna os “factos”, mesmo os incoerentes, mais assimiláveis e compreensíveis, perpetuando e fazendo ressonância do pensamento que se pretende dominante. Note-se que a intervenção do poeta nos Cantos III e IV é quase inexistente, cabendo a 64. Albuquerque (em prep.), onde exponho o porquê de considerar que o termo φιλόξεινος deve ser traduzido como «amigo do estrangeiro» e não como «amigo do hóspede». Das quatro vezes que o termo é utilizado na Odisseia, o sentido de φιλόξεινος enquadra-se em situações em que o protagonista ainda não foi reconhecido pelos seus anfitriões. Ou seja, mesmo considerando o duplo sentido de ξεῖνος como «estrangeiro» e «hóspede», parece evidente que, antes de ser reconhecido como «hóspede» (h. antigo da família ou novo h.), aquele que chega e beneficia da hospitalidade é «estrangeiro». 65. Gaspar Correia, João de Barros e Damião de Góis. Para as restantes etapas da viagem, cf. Ferreira, 1998: 77.
154 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 primazia à História de Portugal (143 estrofes no III e 104 no IV), tal como é salientado por J. de Sena (tabela 1), que por sua vez não é assinalada ao longo de todos os restantes Cantos. Neste contexto, há que verificar a distribuição dos temas ao longo das estrofes do Canto III, de modo a poder «isolar» Tartessos. Vasco da Gama descreve a Europa (III, 6 – 20), ao ponto de dar a sensação, como muito bem aponta Sebastião Pinho (2007b: 137), de que se está perante uma carta cosmográfica. Entre a estrofe 6 e a 20 deste Canto, sobressaem alguns aspectos que foram apontados por A. Salgado Júnior (1949) em relação à visão humanista da Geografia quinhentista. Um desses aspectos é a concepção do Homem enquanto Ser permanente e enquanto produto da sua geografia66, a ponto de fazer integrar neste Canto a representação de duas Europas, em tudo coincidentes com o mapa geo-político Romano: a Europa Bárbara por um lado (LC inicia a analepse no NE europeu) e a Europa do Império por outro, na procura de um equilíbrio entre a configuração antiga e a moderna da sua Europa, apreendida e representada com os olhos de um humanista. Particularmente interessante é a “visualização” da Espanha (17 – 19), em que LC lidou com duas realidades distintas – a divisão das províncias romanas e a sua actualidade política –, no meio das quais havia o processo de conquista de terras aos Muçulmanos (que não retomou esta divisão). O poeta integrou esta antiga realidade nas estrofes 17 – 19, sobretudo na última, citando o Tarragonês, as Astúrias, o Galego e Bétis como antigas realidades da Hispânia (Tarraconensis, Gallaecia, Asturia e Baetica), equilibrando-as com Navarra, Castela, Leão e Granada. Aragão parece ser assimilada a Tarraco, se tivermos em consideração o Dictionarium de Nebrija, como aponta Salgado Júnior (1949: 289). Toda esta ordem geográfica, iniciada com a Europa do NE, tem por objectivo terminar na Lusitânia para, a partir daí, iniciar o discurso sobre a «sanguinosa guerra». Antes disso, detenhamo-nos mais um pouco na «larga terra», assinalando um aspecto tão 66. Embora não seja evidente nesta descrição, bem como na apresentação mais lata da «Máquina do Mundo», as considerações que Salgado Júnior tece em torno da questão dão a entender que LC faz uso da concepção determinista de Aristóteles (cf. Política VII, 7), aproveitada, politicamente, para justificar a escravatura (Bernal, 1993: 196 – 7). Isto porque, assinala aquele autor (1949: 282) que LC assinala mais diferenças entre os Europeus Modernos e os Africanos e Asiáticos seus contemporâneos do que entre o Europeu Antigo e o Europeu Moderno, sendo neste contexto que deve entender-se o sentido de “permanência” do Homem Europeu, idenficado por LC com o Homem do Imperium Romano (o Império Turco era considerado como artificial e transitório). importante como interessante da representação da Europa camoniana: «Eis aqui se descobre a nobre Espanha,/ como cabeça ali da Europa toda (…) (III, 17). «Eis aqui, quase cume da cabeça/ de Europa toda, o Reino Lusitano» (III, 20). Depois de Borges de Figueiredo (1883a: 22) comentar, sumariamente, estas passagens, Epifânio da Silva Dias (ed. 1972) assinalou a obra de Pedro de Medina e a História de S. Domingos (I, 2, 4), de Frei Luís de Sousa, como fontes literárias de LC para a elaboração desta descrição (Ribeiro, 1971 Pinho, 2007: 1423)67. Para Pinho, esta sugestão não é convincente, uma vez que existiriam, naquele tempo, representações iconográficas ginecomórficas da Europa, nomeadamente a de Johan Pusch, publicada por Christian Wechel em Paris (1537; fig. 4), cujas origens podem rastrear-se já no século XIV, no Mapa «Opicinus de Canistris», datado de 1334 – 1338 (Pinho, 2007b: 159, mapa XI; fig. 3)68. Estas representações são, provavelmente, as únicas anteriores a LC, visto que a sua proliferação, pelas mãos de Heinrich Bunting, se dá após a morte do poeta em 1580 (Fig. 5). Outra hipótese é a consulta, por parte de LC, do Compendium Geographiae Disciplinae (Basileia: Ioannem Oporinum), da autoria de Guillaume de Postel, publicada em 1561, quando o poeta se encontrava fora de Portugal. O autor deste Compendium refere C. Wechel, descrevendo também uma Europa ginecomórfica69. 67. Ribeiro (1971) faz uma pequena nota a Epifânio Dias, bem como à Etnografia Portuguesa de J. Leite de Vasconcellos (1936), que abre com a citação de Lusíadas III, 20. Tomei contacto com esta sugestão depois da consulta da obra de Pedro de Medina, na qual se encontra, como veremos a seu tempo, esta mesma descrição (Cap. I). Foi com esta referência que decidi aprofundar um pouco mais a questão da representação da Europa por parte de LC, visto que poderia haver aqui uma indicação complementar à ideia de que Pedro de Medina pode, igualmente, ter sido consultado pelo poeta, a julgar também pela coincidência da interpretação de Tartessos como Carteia (i.é., Tarifa). 68. Codice Vaticano Latino 6435, fol. 84v. 69. Ao que deve acrescentar-se que o coração representa o berço dos Habsburgo (figs. 4 e 5). A representação da Roma Imperial como um símbolo universalizante parece ter feito com que os poderes peninsulares projectassem sobre os novos mundos descobertos esta concepção. A «Espanha, cabeça ali da Europa toda» parece sintetizar este sentimento de universalização, sobretudo da Fé. Esta imagem serviu de suporte iconográfico ao Rei espanhol Filipe II, coroado em 1556, que se afirmava como «un nuevo Augusto Cristiano, el heredero de los emperadores romanos y cristianos y el elegido por dios para regir el mundo» (Villá i Tomás, 2001: 266). Veja-se, igualmente, Pinho, 2007b: passim.
155 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS Pedro de Medina, Postel e a cartografia ginecomórfica da Europa são três hipóteses prováveis e que não se excluem mutuamente70. O significado do termo quasi, exposto no poema camoniano (III, 20), pode ser um elemento de análise da última hipótese. Trata-se, eventualmente, de um latinismo que não adquire um sentido espacial, mas antes o de «como que» (Pinho, 2007b: 167). Acrescenta este autor que «a imagem da figura feminina dos mapas ginecomórficos confirma esta posição absoluta [como extremo ocidental da Europa] quando apresenta Lusitania gravada na parte superior 70. Cf. supra a citação da Geographia de João de Barros, hoje irremediavelmente perdida, que pode ter sido, segundo Orlando Ribeiro (1980: 159-160 e 175-176) a principal fonte do conhecimento geográfico de LC, a par de Ptolomeu. Em 1980, encontrava-se em preparação uma Geografia Restituta, da autoria de O. Ribeiro e S. Daveau. Uma pesquisa na base de dados da BN e da Biblioteca da Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa não revelou qualquer resultado, pressupondo-se que este trabalho nunca chegou a ser publicado. Quanto a Pedro de Medina, a análise que será adiante pode reforçar a proposta de Epifânio Dias. da haste frontal da coroa da jovem rainha e lhe sobrepõe, ainda, o escudo de armas de Portugal, de modo a não deixar qualquer espaço superior vazio» (id., ibid.). No entanto, a julgar pelo carácter visualista de descrição camoniana, é possível que LC se refira, com precisão e mestria, a uma representação iconográfica e não tanto a um texto. Esta característica, consubstanciada pela aparição do verbo «Ver» por 444 vezes n’Os Lusíadas (o mais frequente a seguir ao verbo «Ser», com 697), volta a repetir-se no Canto VIII, que vamos ver de seguida, bem como no Canto X que, pela própria natureza da análise aqui proposta, não vai ser considerada. A «sanguinosa guerra» (História de Portugal) é, então, enquadrada neste excurso geográfico e, «no conjunto, ocupa uma parte considerável do poema» (Castelo-Branco, 1984: 115), detendo o segundo lugar dos * Para outras versões deste mapa, veja-se, no mesmo site (cons. 6/10/09): http://www.henry-davis.com/MAPS/LMwebpages/230A. html (/230B.html; /230B3.html; /230C.html) Figura 3. Opicinus de Canistris, «Ecclesia libera a seductore» http://www.henry-davis.com/MAPS/LMwebpages/230.html (cons. 6/10/09)*
156 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 temas tratados por LC, com 245 estrofes, logo a seguir à viagem (cf. Tabela 1). É neste contexto e (note-se) não no anterior que surge a referência aos campos tartésios. Esta importância deriva da própria vida do poeta, decorrida entre as armas e as letras (Berardinelli, 2000: 57 – 58), como manifesta em VII, 7971. Revelador é, também, o tratamento que dá no Canto III às batalhas de Ourique (42ss) e Salado (99 – 117), e pelo destaque que dá ao percurso dos reis: D. Afonso Henriques (III, 42 – 68 e 77 – 82), outros reinados (85 – 90 e 94 – 95), D. Dinis (III, 96 – 98) e D. Fernando (138 – 143). No caso de Inês de Castro (118 – 136), Paulo Oliveira (1998) assinala que o poeta valoriza este espisódio por apresentar um fim literário. A importância conferida a D. Afonso Henriques e às Batalhas de Ourique e do Salado revelam que a temática 71. «Olhai que há tanto tempo que, cantando/ o vosso Tejo e os vossos Lusitanos,/ a Fortuna me traz peregrinando,/ novos trabalhos vendo e novos danos:/ agora o mar, agora esperimentando/ os perigos Mavórcios inumanos,/ qual Cânace, que à morte condena,/ nu[m] a mão sempre a espada e noutra a pena» (o verso 8 é citado por Berardinelli, 2000: da «Guerra Santa» assume grande relevância no espírito do poeta, acrescentando-se que «(…) quando, no canto oitavo, Paulo da Gama fala sobre as figuras pintadas nas bandeiras, a luta contra os mouros será, novamente, um aspecto recorrente» (Oliveira, 1998: 415). Ou seja, revelam o que se entende como «visão camoniana da História», na qual a luta contra o Mouro e a afirmação da independência de Portugal face a Castela (durante a Revolução de 1383, exposta já no Canto IV e retomada no VIII) assumem o lugar de maior destaque, desvalorizando-se o Povo enquanto interveniente deste processo (Castelo – Branco, 1984: 126 – 130). A História de Portugal, apresentada pelo Gama, dá a entender que o poeta a apreende e transmite com um sentido moral e político, aproximando-se da concepção da História como magistra vitae72 ou como exemplo 72. Só no Canto III: 31, 33, 69, 74, 136 e 139, com críticas negativas; 41, como exaltação. Acrescentam-se outras do Canto IV, das quais prescindimos (4, 44, 57 – 58 e 95). Estes excertos são citados, neste mesmo contexto, por F. Castelo – Branco (1984: 116 – 119), artigo para o qual remeto um complemento útil desta questão. J.V. de Pina Martins (1981: XX) também salienta a crítica social camoniana, em parte baseada em Erasmo e Petrarca. M.ª H. da Rocha Figura 4. Europa – Virgo, de Johan Pusch (1537), apud Pinho, 2007b
157 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS da grandeza de um povo (Tito Lívio, Tácito; cf. Hartog & Casevitz, 1999: 190ss). LC parece também recorrer à Divina Providência, como apontámos no contexto da presença da mitologia greco-latina no poema, para apresentar episódios de guerra como o cerco de Santarém (III, 82), a Batalha do Salado (III, 110)73, ou mesmo no milagre ocorrido em Ourique, sobre o qual Pereira (2007b) salienta que, em X, 154. 5-8 (v. supra, esta estrofe), LC aponta três características fundamentais do orador, definidas por Cícero: «estudo», «experiência» e «engenho» (citando Corrêa da Silva). Para além disso, Cícero deve ser valorizado (a par de Dionísio de Halicarnasso, Quintiliano, Plínio-o-Moço, Salústio e Plutarco) como defensor da ideia da História como magistra vitae (cf. Hartog & Casevitz, 1999: 146 – 181). 73. Nesta, destaca-se a diferença numérica dos soldados de um e outro lado do campo de batalha, em claro desfavor dos Cristãos: «Estão de Agar os netos quase rindo/ do poder dos Cristãos, fraco e pequeno,/ as terras como suas repartindo/ antemão, entre o exército agareno,/ que, com título falso, possuindo/ está o famoso nome «Sarraceno»;/ assi também com falsa conta e nua/ à nobre terra alheia chamam sua». assenta a aclamação de D. Afonso Henriques como Rei (III, 45 – 46)74. Este aspecto dá a entender que LC se baseia no Providencialismo Histórico (ou finalista teológico) de Santo Agostinho. Para o autor da Cidade de Deus, esta entidade divina é um «regulador omnisciente e omnividente da história» (Soares, 2004: 433), pelo menos desde Caim, a partir do qual surgem as duas cidades (Hartog & Casevitz, 1999: 260 – 264). A História apresentada pelo Gama parece, por seu turno, querer provar que Portugal – e a sua realeza – era um país eleito e protegido por Deus, detendo a missão de expandir a Fé75. 74. A questão dos milagres na exposição histórica camoniana entronca com a discussão levantada em torno de LC enquanto «Cristão-novo» (Castelo – Branco, 1984: 122 – 4). 75. M.ª Luísa Castro Soares (2004) chega a utilizar o excerto de III, 20, anteriormente apontado para explicar a concepção da cartografia ginecomórfica, num outro sentido, isto é, a «cabeça/ da Europa toda» significa «cabeça do império temporal de Deus na terra». Figura 5. Europa […] in forma virginis. Itinerarium Sacrae Scripturae, Halmstadt (1581/ 1587) (apud Vilá i Tomàs, 2001: 266)
158 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 Os campos tartésios surgem, então, integrados num discurso histórico que valoriza a luta contra o Mouro (Batalha do Salado), excluindo-se do discurso geográfico. Voltaremos a verificar a pouca importância deste tema no Canto VIII. VII. O CANTO VIII Este Canto é marcado por uma magnífica exposição que coloca o ouvinte/ leitor perante uma sequência iconográfica de 25 personagens, com o mesmo carácter visualista apontado para a descrição da Europa (Pinho, 2007b: 133ss). O papel do Catual, que pede a Paulo da Gama a explicação do significado das bandeiras, é, por isso, similar ao do Rei de Melinde. Tal como no Canto III, o primeiro nome que surge é o de Luso: «Este que vês, é Luso, donde a fama/ O nosso Reino Lusitânia chama» (VIII, 2). Curiosamente, LC parece dar um sentido escatológico à Península Ibérica: «Do Douro e Guadiana o campo ufano/, já dito Elísio, tanto o contentou,/ que ali quis dar aos já cansados ossos/ eterna sepultura e nome aos nossos» (VIII, 3)76. Os outros que se seguem parecem ser, criteriosamente, escolhidos, atendendo ao comentário de J. de Sena à estrutura deste canto: «As bandeiras que o Gama levava consigo, para ilustrar-nos complementarmente acerca da História narrada nos Cantos III e IV, não tinham, nas suas figuras, ninguém morto havia menos de trinta e três anos da sua partida de Lisboa. Isto é como se, para figurar-se numa bandeira, fosse necessário um período purgatório, igual à idade perfeita, a de Cristo… Por outro lado, Camões não insere, nas bandeiras, ninguém morto depois de 97 anos de diferença para a data máxima que inclui (e nas profecias) no poema (cerca de um século)» (1980: 154 – 5, os sublinhados são do autor). Mesmo excluindo este comentário, verifica-se que o objecto central desta descrição das bandeiras está muito longe de poder integrar o rio Tarteso como um elemento preponderante da História de Portugal, tal como se verificaria no Canto III. No entanto, o discurso descritivo e visualista de Paula da Gama, dirigido ao Catual, ocupa 42 de 99 Estâncias (1 – 42), enquanto que outras 50 são dedicadas à viagem (43 – 46; 51 – 96), 4 aos deuses (com a última intervenção de Baco no poema, em 47 - 50) e 3 à intervenção do poeta (97 – 99) 76. cf., supra, a questão dos «Lusíadas» ou «filhos de Luso». Pode levantar-se uma questão interessante em torno deste aspecto, tendo em linha de conta que Luso é filho de Baco e que este tem uma postura agressiva contra os seus descendentes. Para um melhor esclarecimento desta aparente contradição, cf. Jorge de Sena (1980: 154). sobre a traição (Sena, 1980: 117 e 155). Este Canto, de acordo com a análise de H.Post (1972: 312 – 313), terá sido escrito durante a estadia de LC em Goa (1553 – 1556; 1560 – 1567), embora o autor seja cauteloso nesta afirmação. Começa a desenhar-se um pequeno panorama da pouca importância de Tartessos no poema camoniano, parecendo mostrar que uma razão plausível para a introdução de deste nome é a métrica. VIII. MÉTRICA A Métrica – do Grego metrikê – é, por definição, uma construção baseada na sequência de sílabas que compõem um verso. A sua análise (quantitativa) não só pressupõe a compreensão da formulação do verso, como também, neste caso, permite reconstituir um conjunto determinado de opções que LC pode ter manejado (Gomes, 1999: cols. 748 – 9)77. Antes de ver as implicações desta regra no poema camoniano, deve assinalar-se a diferença entre a métrica grega (metra)/ latina (pé) e a das línguas românicas. Na primeira, é necessária uma alternância entre sílabas longas e breves existentes num verso. A segunda fundamenta-se numa construção silábico – acentual, em que o ritmo é marcado pela intensidade das sílabas (átonas e tónicas). A partir do segundo quartel do século XVI, o decassílabo italiano entra em Portugal com o regresso de Sá de Miranda que, entre 1521 e 1526, esteve em Itália. De acordo com esta concepção, o verso heróico devia ter duas sílabas tónicas (6ª e 10ª). É este esquema que LC adopta na construção do seu poema78 e que vai pesar na reconstituição de alguns sinónimos que o próprio poema oferece. Em muitos casos, estas imposições terão obrigado o poeta a fazer algumas escolhas entre os vários significados de termos que precisava de utilizar, entre eles topónimos, hidronímicos, corónimos, etc. Neste sentido, os campos tartésios seriam um sinónimo de campos de Tarifa, que LC refere mais adiante no seu poema (III, 108). Do mesmo modo, o rio Tartesso encontra correspondência com Betis (III, 19, 60 e 85), Guadalquibir (IV, 9) e «o rio que Sevilha vai banhando» (III, 75). Permita-se-me exemplificar. Em III, 108, LC escreve: «Juntos os dois Afonsos, finalmente/ nos campos de Tarifa estão defronte/ da grande multidão de 77. As considerações deste capítulo baseiam-se neste artigo. 78. Para uma exposição das variantes da Métrica, cf. Gomes, 1999: passim, bem como a bibliografia aí referida.
159 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS cega gente». Vejamos a segunda opção neste encadeamento: [nos campos tartésios estão defronte]. A 6ª e 10ª sílabas (assinaladas a negrito) são átonas. Do mesmo modo, tão-pouco poderia o poeta escrever, em III, 100, [foram nos campos de Tarifa ajuntada], precisamente pelo mesmo motivo. O mesmo pode aplicar-se à leitura de VIII, 29. Colocando a hipótese nestes termos, teríamos uma resposta viável para a introdução de campos tartesios em III, 100, e Tarteso em VIII, 29. Note-se que estas alternativas encontram-se todas nos Cantos III e IV que, como vimos, foram consagrados à exposição da descrição da terra e à História de Portugal, apresentando uma composição silábica distinta. Assim, falta responder a uma outra questão: a proveniência das interpretações de Tartessos como cidade associada a Tarifa, e como um rio que se chamou Betis e, no tempo de LC, Guadalquibir. IX. TARTESSOS N’OS LUSÍADAS Deparamo-nos com um problema de fontes. As que J.M.ª Rodrigues aponta não permitem uma correspondência directa com os oitavos versos, o que obriga, naturalmente, a procurar outras alternativas que possam ser coerentes e possíveis. Esta ausência dos comentários do autor de Fontes dos Lusíadas é explicável se tivermos em linha de conta que em nenhuma das fontes portuguesas e italianas que analisou (relembro que desvalorizou as espanholas) parece haver uma ligação a Tartessos. Parto do princípio (talvez equivocado) que LC é o primeiro autor, daqueles que se apontaram, a colocar aquele nome na história da recepção renascentista portuguesa. Para permitir uma confrontação mais ajustada, vejamos o que Rodrigues (1905: 105) cita de Rui de Pina: «[ElRey de Marrocos, Alliboacem] passou em pessoa & veyo há Aljazira y cõ elle, segundo o mais comum testemunho, passaram dos acontiados & perçebidos sessenta myl de cauallo & quatro çentos myl homeens de pee, com que tamben se ajuntou ElRey de Graada com todo seu poder… Domingo a XXVII dias do mees de Outubro chegaram (os dous reus christãos) a pena do çeruo, donde os espantosos arrayaes dos mouros ia pareciam sobre Tariffa…» Cronica del rei dom affonso (…), fls. 52 e 52v Os Lusíadas III, 100 e este excerto da Crónica de Rui de Pina mostram como um discurso sobre o mesmo tema pode variar em termos de composição, embora apresentem uma terminologia comum. Enquanto que o primeiro utiliza Tartessos como Tarifa, o segundo menciona apenas este segundo topónimo. Surgem duas hipóteses viáveis: a primeira relaciona-se com a Geografia antiga e o segundo com a Historiografia. Excluindo Rui de Pina, pela ausência de Tartessos no seu texto, resta procurar fontes onde o tema – e, inclusive, a relação Tartessos/ Tarifa – pode interessar, e aí teríamos de recorrer à historiografia espanhola contemporânea de LC, bem como a outros autores da Antiguidade, adiante expostos, que localizam Tartessos em Carteia. Esta relação foi valorizada por Pedro de Medina quando escreve o Libro de Grandezas y cosas memorables de España, publicado em 1548. Voltaremos a esta obra mais adiante, mas importa reter que este autor também trata a batalha que LC e RP assinalam e não é considerado por Faria e Sousa que, ao comentar III, 100 e VIII, 29, afirma: [III, 100]. Os Campos Tartesios. Está dicho con Ausonio epist.19 Tartesia Calpe son aquellas tierras que yacen vezinas al promontorio Calpe, llamadas assi por Tarifa, que se llamo Tartesia, Ciudad puesta a las raizes de las colunas de Hercules, fin de España; i una dellas es este monte: i en esta campaña se juntò essa Morisma, i fue vencida de los Reyes Portugues, i Castellano. [VIII, 29] Que entre o Tarteso, e o Guadiana habita. Quiere dezir, la gente de Andaluzia, mas particularmente de aquella que habita entre o rio Guadiana, i el Guadalquivir, que ya se llamó Tarteso: de que diximos sobre la e.100 del c.3. I véanse los Geografos; i a Mariana; i a Don Tomas Tamayo en su docta defensa. Uma primeira exclusão a fazer da análise de Faria e Sousa em 1639 é a presença de autores como Juan de Mariana e Tomas Tamayo, uma vez que estes são posteriores a 1580. A estas referências juntam-se Geógrafos subtilmente mencionados (em VIII, 29) e o Epigrama de Ausónio (III, 100)79. Contudo, há que delimitar o vasto campo de ocasiões em que Tartessos surge, circunscrevendo-o à identificação desse nome com a cidade de 79. Na verdade, Ausónio fornece duas referências a Tartessos. No epigrama 6 (invitatio ad paulum): «(…) Paule, Camenarum celeberrime Castaliarum/ alumne quondam, nunc pater,/ aut avus, aut proavis antiquior, ut fuit olim tartesiorum regulus». ou, traduzido: «(…) Paulus – once the most famous child of the Castalian Camenae, now their father or grandfather, as was of old the kinglet of Tartessus». Mais adiante (XXIII), diz que «Condiderat iam Solis equos Tartesia Calpe/ stridebatque freto Titan iam segnis Hibero». Ou, traduzido: «Now had Tartessian Calpe hidden the Sun’s coursers and Titan, now feeble, plunged hissing ‘neath the Iberian wave». As traduções são de Hugh E. White (1967).
160 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 Carteia (= Tarifa) e com um rio, prescindindo de outros – igualmente importantes – registos80. Tal implica ter em consideração as informações que o poeta teve à sua disposição durante o seu «honesto estudo» ou, em última análise, na sua «larga experiência» de vida. A análise deste aspecto implica, consequentemente, ponderar as interpretações sobre Tartessos com as quais pode ter tido contacto. Em 1672, João Franco Barreto desenvolve um comentário mais minucioso, não se referindo a qualquer história ou crónica espanhola, como Faria e Sousa, mas procurando apontar paralelos com outros autores. Referindo-se aos Tartesios Campos, «Os de Andalusia, chamada assi de Tartesso, lugar antiquissimo de Espanha, que delle se chamou tambem Tartesia; e Avieno por esa rasam chama Tartesio ao rio Betys. Plinio no proemio do livro terceyro, Tito Libio, lib. 8. Pomponio Mela lib. 2 dizem, que Tartesia he a mesma que Carteia (que he Tarifa como acima dissemos) mas Silio Itálico as divide (…) em o Livro 3 (…)»81. A relação Tartessos = Cidade = Carteia tem como representantes Apiano (Ib. 63), Estrabão (III 2, 14), Mela (II, 5, 96), Plínio (Nat. III, 7) e Sílo Itálico (III, 396), três dos quais, como vimos, explicitamente expostos por LC em V, 50. O leque de obras que relacionam Tartesso com um rio é mais amplo: Argonáuticas Órficas (1242), Aristóteles (Mete. 350a. 36), Avieno (OM 215 – 225; 252 – 259; 267 – 302), Escimno (Éforo, 164), Estêvão de Bizâncio (s.v. Tartêssós), Estrabão (III 2, 11), Macróbio (Sat. V, 21, 19), Pausânias (VI, 19, 3) e Estesícoro de Himera (Gerioneida, PMG 184). Vimos atrás a possibilidade de uma recepção indirecta dos textos antigos em LC. Podemos, por isso, recorrer a uma hipótese que foi sugerida por Américo Costa Ramalho (1975) num artigo intitulado «Sobre o nome de Adamastor»: O Dictionarium de Aelius Antonius Nebrija (apud Fernandes, 1980: 7, n. 12; Ramalho, 1980a: 10-11)82, actualmente disponível na Biblioteca Nacional de Portugal (=BNP). Consultaram-se as edições microfilmadas de 1520, 1536, 1543 e 1545, procurando identificar alterações e acrescentos nos termos Baetica, Carteia e Tartessos (com os respectivos derivados). O lapso cronológico destas edições é, creio, suficiente para obter uma boa visão de conjunto sobre 80. Continua a ser de extrema utilidade a obra editada por Jaime Alvar e J.M.ª Blázquez (1993), onde se apresenta um detalhado corpus sobre as referências literárias a Tartessos, da responsabilidade de M.ª M. Myro (p. 201 – 214). Veja-se, igualmente, Blázquez, 1969. 81. Apresenta-se, mais adiante, esta citação de Silio Itálico. 82. A acrescentar a Gramática de Nebrija, que não foi consultada neste trabalho. a questão aqui tratada, e pode ser enquadrado no que antes mencionei sobre a introdução da obra de Nebrija no meio universitário português. Em relação directa com o assunto que nos importa, Martí – Aguilar (1996: 84-5) comenta que «Nebrija (…) se integra también entre los historiadores semi-oficiales de Fernando el Católico, y ejemplifica en gran medida la dialéctica historiográfica que en parte heredarán los historiadores del siglo XVIII. Pese a su excelente formación clásica, se sentía profundamente obligado respecto a su patria (…). En su opinión, España ha sido un imán para los invasores desde los tiempos primitivos, siendo hasta su tiempo presa y botín de los extranjeros. Lógicamente, el fin de esta situación y con ello la restitución de la unidad de España desde sus orígenes, se encarnaría en los Reyes Católicos». Vejamos, então, os termos que tivemos oportunidade de consultar na sua obra. Tarifa não aparece mencionada no Dictionarium, mas surge, por exemplo, como vulgo de Carteia na edição de 1545, impressa em Antuérpia, bem como no Dictionarium Latino – Hispanicum et vice versa Hispanico – Latinum, numa posterior edição de 1570, também impressa em Antuérpia, associada a Tartessos (i.e.. Tartessus = Carteia = Tarifa). Esta e outras explicações encontram-se dispersas, entre significados e edições, do modo exposto na tabela 2: A partir desta pequena amostra, verifica-se que, entre 1520 e 1536, surgem dois novos termos relacionados com Tartessos, dos quais se destaca tartessius, a, um. LC utiliza os campos tartésios partindo, provavelmente, da formulação de equidade Tartessos = Cidade da Bética = Carteia, utilizando tartessius a partir de uma edição posterior a 1520. Mesmo a edição de 1536 viu a luz do dia quando LC teria doze ou treze anos de idade, o que equivale a dizer que podia ser consultada em Coimbra, partindo do pressuposto que terá havido, como vimos, liberdade de opção para a escolha da obra de Nebrija a partir de 1525. A utilização de Tarteso dá também a entender que o poeta recorreu ao termo latino Tartessus, que surge com esta forma na edição de 1545, substituindo a fórmula grega com terminação em –os, presente nas edições anteriores (1520a, 1520b, 1536 e 1543). Ou seja, LC pode ter tido acesso a um Dictionarium como este que tivemos oportunidade de assinalar, sem, necessariamente, ter recolhido essas informações em todos os autores «clássicos» (ou de alguns deles), visto que tanto a interpretação do termo n’Os Lusíadas como a etimologia empregue parecem ir de encontro a este documento. Vejamos outra hipótese possível. A 1 de Outubro de 1548, a casa de Domenico de Robertis (Sevilha)
161 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS termina a impressão do Libro de Grandezas y cosas memorables de España83, de Pedro de Medina. Este realiza um estudo interessante sobre o passado da sua «España», no qual valoriza particularmente a (também sua) Andaluzia, bem como a explicação etimológica de vários nomes atribuídos às várias regiões espanholas e “lusitanas”. É momento de relembrar a hipótese proposta por Epifânio Dias no seu comentário a III, 17. Logo no primeiro capítulo («Como España es principio y cabeça de 83. Graças aos esforços das funcionárias da Biblioteca Nacional, foi possível consultar esta obra na edição original de 1548. Na sua apresentação destaca-se um mapa esquematizado da Península Ibérica, representando cidades, regiões e acidentes geográficos. Regista-se também a presença de quatro barcos na área do Mediterrâneo e um junto à baía de Cádiz. Devo apontar que o artigo de Sabio González (2003) baseia-se nos comentários posteriores (1595) de Diego Pérez de Mesa, transcrevendo um texto que se encontra alterado pelo comentador e que não corresponde, ipsis verbis, à edição original de 1548. No entanto, esta alteração não parece comprometer o sentido do texto. todas regiones del mundo de su assiento y figura»), surge uma descrição geral da Península Ibérica que recorre à mesma representação ginecomórfica já assinalada: «[España] es principio y cabeza de todas las otras regiones del mundo. Esto muestran algunos autores, entre los quales, uno es Plino Veronense84 que en el libro que hizo de la discreción del mundo dize: la redondez de la tierra se divide en tres partes: que son Europa, Africa y Asia y para decir destas comiença 84. Pedro de Medina recorre a uma tradição local de Verona, que pretendia assinalar ali o local de nascimento de Plínio. cf.Paratore, 1987: 687. A passagem de Plínio a que se refere identifica-se em Nat. III, 3: «Terrarum orbis universus in tres dividitur partes, Europam, Asiam, Africam. origo ab occasu solis et Gaditano freto, qua inrumpens oceanus Atlanticus in maria inferiora diffunditur. hinc intranti dexterea Africa est, laeva Europa, inter has Asia. termini amnes Tanais et Nilus.XV p. in longitudinem quas diximus fauces oceani patent,V in latitudinem, a veco Mellaria Hispaniae ad promunturium Africae Album, auctore Turranio Gracile iuxta genito» (http://www. thelatinlibrary.com/pliny.nh3.html, cons. 16 de Outubro de 2009). Tabela 2: Bétis, Carteia e Tartessos em várias edições do Dictionarium de Nebrija Edições Termo no Dictionarium 1520a 1520b 1536 1543 1545 Baetica regio est Hispaniae quam Baetis ficat xxxx Baetica tertia pars Hispaniae sica Baeti flu. Dicta vulgo el Reyno de Granada. x Baeticus, a, um. Adject. Ut color Baeticus hoc est. x Baeticus, a, um. Res ad Baeticam pertinens. x Baetis fluuius à quo Baetica prouincia dicta xxxx Baetis, fluuius Hispaniae a quo Baetica prouincia dicta vulgo Guadalquebir x Carteia ciuitas fuit Hispaniae ad Calpe xxxx Carteia, ciuitas Hispaniae ad Calpen Plinio. Vulgo Tariffa x *Tartessiacus, a, um. Sil. It Tartessiacus tendit ad littora portus x x *Tartessius, a, um. Ouid. Prefferat occiduas tartessia littora phoebus x x Tartessos civitas est baeticae aedem quae Carteia x ? x x Tartessos idem est qui Baetis pottea dictus x?x Tartessus, ciuitas est Baeticae aedem quae Carteia Põp. [Mela] x Tartessus, ide[m] est q[uae] Betis pottea dictus. Guadalquebir x Cota de Microfilme BN: F2417 F2408 F2322 F2323 F2315
168 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2008.i17.07 PIRES, M.ªL.G. (1982): A crítica camoniana no século XVII. ICALP, Lisboa. POST, H.M. (1972): “A cronologia da composição de várias passagens de Os Lusíadas”, Ocidente 83: 293-316. PROPP, V. (ed.) (2006): Morfología del Cuento. Editorial Fundamentos, Madrid. RAMALHO, A.C. (1971-1972): “A introdução do Humanismo em Portugal”, Humanitas 23-24: 435-452 [reimp. Em Ramalho, 1980b: 1-20]. RAMALHO, A.C. (1979): “Sobre a cultura de Camões”, Colóquio. Letras 47: 70-73. RAMALHO, A.C. (1980a): Estudos Camonianos, 2ª ed. Coimbra. RAMALHO, A.C. (1980b): Estudos sobre o século XVI. Fundação Calouste Gulbenkian, Paris. RAMALHO, A.C. (1981-1982): “Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554)”, Humanitas 33-34: 3-30. RAMALHO, A.C. (1984): “Camões e o Humanismo Renacentista”, IV Reunião Internacional de Camonistas: 485-501. Universidade dos Açores, Ponta Delgada. RAMOS, E.P. (2000): Os Lusíadas de Luís de Camões. Edição organizada por (…). Porto Editora. Porto. REBELO, L.S. (1980): A Tradição Clássica na Literatura Portuguesa. Livros Horizonte, Lisboa. RIBEIRO, O. (1980): “Camões e a geografia”, Finisterra XV: 153-199. RODRIGUES, J. M.ª (1979): Fontes dos Lusíadas. 2ª Ed. Prefácio de António da Costa Ramalho. Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa. SABIO GONZÁLEZ, R. (2003): “La historia de Tarifa según dos autores del siglo XVI: Pedro de Medina y Diego Pérez de Mesa”, Aljaranda: Revista de estudios Tarifeños 50: 9-14. Tarifa. SALGADO JÚNIOR, A. (1950): “«Os Lusíadas» e o tema das Argonáuticas (I – ideia dum problema; II – Esboço da sua história)”, Ocidente 38: 277-294. SALGADO JÚNIOR, A. (1951): “«Os Lusíadas» e o tema das Argonáuticas (III – Primeiros aspectos da Lição recolhida de Valério Flaco: do sonho de D. Manuel ao aparecimento do Adamastor)”, Ocidente 40: 261-284. SENA, J. DE (1980): A Estrutura de «Os Lusíadas» e outros estudos camonianos e de poesia peninsular do século XVI, 2ª ed., [1ª ed. 1970]. Edições 70, Lisboa. SIMÕES, M.ª A.P. (1990): Catálogo dos Impressos de Tipografia Portuguesa do século XVI. A colecção da Biblioteca Nacional. Biblioteca Nacional, Lisboa. SOARES, M.ªL. DE C. (2004): “Providencialismo Histórico e Ideias Político-Sociais n’Os Lusíadas de Camões”, Humanitas 56: 433-459. UNIVERSIDADE DE COIMBRA (1970): Catálogo dos reservados da Biblioteca geral da Universidade de Coimbra. Por ordem da Universidade, Coimbra. VASQUEZ CUESTA, P. (1981): “O bilinguismo castellano-português na época de Camões”, Actas do Centro Cultural Portugués 16: 807-828. VILÀ I TOMÀS, L. (2001): Épica e imperio. Imitación virgiliana y propaganda política en la épica española del siglo XVI. Tesis doctoral dirigida por María José Vega Ramos. Universitat Autònoma de Barcelona. WEST, M.L. (1988): “The Rise of the Greek Epic”, Journal of Hellenic Studies 112: 151-172. WILLIS, R.C. (1972): “«Os Lusíadas» and its Neoclassical critics”, Ocidente 83: 269-293. Fecha de entrada: 17-11-2009 Fecha de aceptación: 28-12-2009