Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras
Abstract
O artigo apresenta as lutas dos trabalhadores rurais boias frias no Brasil, valorizando sua riqueza e protagonismo em momentos históricos em que elas eram invisibilizadas tanto pela ditadura como por visões pré-concebidas de quem seriam os sujeitos das lutas por reforma agrária. O universo empírico da pesquisa é a região de Ribeirão Preto e Araraquara, no estado de São Paulo, representativa das contradições entre uma agricultura produtivista e a proletarização de um amplo contingente de trabalhadores. A partir deste contexto, propõe-se uma metodologia centrada nas especificidades das lutas, não deduzidas das condições objetivas, mas marcada pelas experiências vividas pelos trabalhadores e pela identificação de seus interesses.
Full text
Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras From the Mills to the settlements: the struggles of the sugarcane cutters in the 20th century among invisibilities and reinterpretations Vera Lucia Silveira Botta Ferrante1 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0679-3852 Henrique Carmona Duval2 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5791-7579 Osvaldo Aly Junior3 ORCID: https://orcid.org/000-0001-9509-5791 Universidade de Araraquara (Brasil) 1 ([email protected]). Licenciada em Ciências Sociais pela UNESP, doutora e livre docente pela UNESP! professora titular aposentada da UNESP! Atualmente coordenadora do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente, da UNIARA, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural (NUPEDOR), Pró Reitora em Pós-Graduação Strictu Sensu da UNIARA, Universidade de Araraquara. Bolsista Produtividade IA do CNPq. Membro do corpo editorial da revista Retratos dos Assentamentos! ganhadora do prêmio Visconde de Cairu de 1978, Instituto Roberto Simonsen pelo livro FGTS: ideologia e repressão. 2 ([email protected]). Professor Adjunto do Centro de Ciências da Natureza, Universidade Federal de São Carlos, campus Lagoa do Sino. Graduado em Ciências Sociais (Licenciatura e Bacharelado) pela Unesp/Araraquara, Mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal de São Carlos, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. Pós-Doutorado pelo PPG Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Uniara). É professor no PPG em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Uniara) e no PPG em Agroecologia e Desenvolvimento Rural (UFSCar). Pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural (Nupedor) e editor da revista Retratos de Assentamentos. Atualmente é vicediretor do Centro de Ciências da Natureza (CCN-UFSCar). 3 ([email protected]) Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Mestre pelo Programa de Ciência Ambiental da USP e Doutor pelo Instituto de Geociências da USP. Professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente da UNIARA, Araraquara, SP. Foi gestor público nas Prefeituras de Santos e Santo André na área do abastecimento e da segurança alimentar, e junto à Superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) do estado de São Paulo. Compõe o coletivo da Diretoria da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), o Grupo de Trabalho Estudos Críticos sobre o Desenvolvimento Rural do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), e é pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural (NUPEDOR).
456 Vera Lucia Silveira Botta Ferrante, Henrique Carmona Duval y Osvaldo Aly Junior Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 Recibido: 30-04-2022 Aceptado: 25-05-2022 Resumo O artigo apresenta as lutas dos trabalhadores rurais boias frias no Brasil, valorizando sua riqueza e protagonismo em momentos históricos em que elas eram invisibilizadas tanto pela ditadura como por visões pré-concebidas de quem seriam os sujeitos das lutas por reforma agrária. O universo empírico da pesquisa é a região de Ribeirão Preto e Araraquara, no estado de São Paulo, representativa das contradições entre uma agricultura produtivista e a proletarização de um amplo contingente de trabalhadores. A partir deste contexto, propõe-se uma metodologia centrada nas especificidades das lutas, não deduzidas das condições objetivas, mas marcada pelas experiências vividas pelos trabalhadores e pela identificação de seus interesses. Palavras-chave: modernização da agricultura, boias frias, luta pela terra, experiência. Abstract The article presents the struggles of rural workers in Brazil, valuing the wealth of these struggles in moments when they were made invisible both by the dictatorship and by preconceived visions of who would be the subjects of the struggles for agrarian reform. The research universe is the region of Ribeirão Preto and Araraquara, in the state of São Paulo, that expresses the contradictions between a highly modernized agriculture and the proletarianization of a large contingent of workers. From this context, the construction of a methodology centered on the workers' experiences is prioritized, calling attention to the specificities of the struggles, without deduced the objective conditions, but including the imagination of its agents, by the lived experiences and by the identification of their interests. Keywords: modernization of agriculture, boias frias, land clain, experience. Introdução Este artigo apresenta uma síntese de um momento da história do Brasil, mais especificamente da região de Ribeirão Preto e Araraquara, que mostra a riqueza das lutas dos boias frias invisibilizadas tanto pela ditadura como
457 Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 por visões pré-concebidas de quem seriam os sujeitos das lutas por reforma agrária. Isso resultou dos problemas do processo da escravidão e seu fim, da passagem ao trabalho livre assalariado que excluiu grandes massas do campo, sem reconhecer-lhes direitos, muitas vezes por uma interpretação equivocada da realidade. A região de Ribeirão Preto apresenta historicamente uma agricultura altamente capitalizada, com elevados índices de produtividade e proletarização rural. Representada como um polo de atração migratória, a região reproduz fatores de expulsão e atração, implicando em um contraditório movimento populacional. A expansão da cana-de-açúcar acarreta uma maior demanda de mão-de-obra, o que explica a vinda de migrantes temporários para a região. Entretanto, a substituição forçada da produção de alimentos das pequenas propriedades implicou em expropriação, emigração ou movimento de proletarização, processo esse não linear, nem de resultados únicos, mas que redundou em perdas, quer as mesmas tenham ou não significado um rompimento definitivo da relação vivida na terra. Movimento este que se reproduz de forma ampliada no território nacional e que implica na perda de competitividade e das condições de vida da agricultura familiar na terra, forçando a migração para as cidades e provocando concentração da terra. Por outro lado, a atração de mãode-obra temporária nas colheitas e até seu estabelecimento definitivo no estado de SP produz efeito semelhante nos locais de origem desses trabalhadores. Em nosso entender, as diferenciações e contradições são peças constitutivas indissociáveis da proposta de analisar a construção de luta dos boias frias nesta região de grandes canaviais e laranjais. O retrato usualmente apresentado da região ressalta sua inserção crescente no mercado mundial de produtos e no processo de modernização agrícola, discutido na produção teórica, com raras exceções, por suas determinações estruturais. Tais lutas, em grande parte, invisibilizadas, exigem uma interpretação desprovida de preconceitos e de um dever ser que não se mostra adequado às releituras propostas neste dossiê de 200 anos de independência. A identidade econômica da região de Ribeirão Preto, marcada fortemente pela presença dos canaviais e laranjais, constituiu-se, em algumas análises, o nó górdio para a explicação da mudança da natureza das lutas dos boias frias. Dessa perspectiva, o circuito de modernização acelerada da agricultura paulista, a concentração do capital e da força de trabalho volante, são apontados como elementos que teriam criado condições para a “auto-identificação desses trabalhadores enquanto categoria, pré-condição para sua mobilização política” (D’Incao, 1985). A mudança no perfil da categoria de boias frias pela apropriação de um saber marcado pelo exercício continuado de uma atividade no conjunto da produção rural é discutida no bojo do processo de modernização do polo mais
458 Vera Lucia Silveira Botta Ferrante, Henrique Carmona Duval y Osvaldo Aly Junior Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 capitalizado do Estado (Alves, 1991). Evidentemente, as mudanças ocorridas na base produtiva têm que ser levadas em conta. Não são produto de um acaso histórico. Sob a identidade econômica presente, há marcas nada idílicas de um processo expropriador. O objetivo deste artigo é retratar a grande agricultura paulista, sob um outro olhar, voltado à compreensão da construção das lutas dos trabalhadores, especialmente a dos boia frias, preocupado em desvendar, no interior das cifras, expressões históricas de confrontos e antagonismos. Fragmentos das Lutas: O Passado/Presente Nossa preocupação foi reunir elementos expressivos para sustentar a concreticidade de um outro olhar sobre a região. As resistências dos colonos, as greves dos sujeitos que foram proletarizados, no início da década de 60, a reconstrução através da memória de seus protagonistas, de reivindicações, lutas políticas tornam esse outro olhar necessário para a compreensão das dissonâncias que ocorrem no “desenvolvimento agrícola”. A região não apresenta linearmente projetos e programas de valorização do capital. Tensões, mutações, antagonismos, conflitos de interesses são constitutivos desse campo social, ainda que muitas vezes tais elementos componham um lado pouco visível da resistência. As perdas sociais acumuladas ao longo desse processo penalizam significativamente os boias frias. Analisá-las, implica em compreender o presente/passado da vida desses sujeitos, a exclusão/expropriação de determinados segmentos sociais e as manifestações diferenciadas de ações de resistência contestadoras dos rumos assumidos historicamente pelo processo de mudanças ditadas pela lógica do capital. Os contornos desse confronto diferenciam-se em diferentes conjunturas. Sem desfechos programados, o cenário do epicentro das lutas na década de 1980 remontava atos dos anos 50 e 60, muito pouco conhecidos. A modernização agrícola não foi, nem é, isenta de lutas. Munições, faíscas e atritos podem ter provocado cicatrizes e feridas nos sujeitos expropriados. Há lutas, mobilizações envolvendo direta ou indiretamente a terra, ainda que as mesmas sejam envoltas em uma capa de silêncio produzido ou representadas pela ótica do insucesso dos trabalhadores. Sob matrizes distintos, a história da modernização põe e repõe práticas de violência (Ferrante, Bastos, Chaia, 1987). Desse processo, não estão ausentes os boias frias, ainda que a terra não apareça imediatamente em suas lutas. A reconstrução de suas vidas, os depoimentos colhidos, indicam um longo processo migratório. Acompanhar
459 Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 suas andanças e caminhadas exige que olhemos a modernização do campo paulista sob um prisma pouco usual, da ótica dos expropriados da terra. O fato de migrarem de um lado para o outro, tem a ver com o sentimento de buscarem uma alternativa que não seja a do assalariamento. A determinação de serem migrantes pode ser apontada tendencialmente como fator gerador de um movimento de difusão inter-regional de formas e estratégias de luta. O caráter migrante não dilui, mas pode reforçar a resistência dos trabalhadores. Assim, ainda que não incluídos como protagonistas diretos do campo de lutas pela terra, podem ter, na condição de ex-parceiro, ex-arrendatário, expequeno proprietário, ex-posseiro, participado de confrontos, nos quais a terra entra em questão. Sua demanda por terra pode ter contornos específicos. Pode significar a luta contra estratégias patronais voltadas para sua expulsão do mercado de trabalho, luta contra o insuficiente atendimento de suas necessidades de reprodução social, luta na condição de migrante, ex-pequeno proprietário, exparceiro ou ex-arrendatário por reingressar na terra, situação perdida ou da qual foi expulso. A expulsão do campo não foi necessariamente traumática. O invólucro atrativo, através do qual é apresentada a cidade, pode ter gerado expectativas, sonhos e projetos que se frustram com a progressiva constatação do quadro de carências que os impede minimamente de reproduzir suas condições de vida. Diferentes tempos entrincheiram-se na luta pelas perdas e insuficiências acumuladas. Pesquisas demonstraram reavaliações das leituras usualmente feitas do processo de desenvolvimento e modernização da agricultura paulista, apresentando-a inserida em um ciclo de violência (Bastos et al., 1988; Reis, 1987). O material levantado na pesquisa de mapeamento das lutas em São Paulo aponta, entre 1964 e 1981, a existência de 242 mobilizações envolvendo a posse de terra, sendo que os conflitos de assalariados rurais, por se desenvolverem em cadeia ou serem encobertos pelo invólucro das invisibilidades, não foram propriamente quantificados. Ou seja, mesmo com a repressão da ditadura sobre o movimento de trabalhadores rurais, houve muita mobilização no período militar, muitas das quais silenciadas ou que nem chegaram ao conhecimento. Daí a importância de trazê-las à tona nesse processo de olhar a nossa história. Há, entretanto, expressões de suas lutas, a demarcar igualmente sinais de confronto. Resistência e expropriação rural: a expulsão disfarçada Na década de 60, sob as marcas iniciais do processo de expropriação, respaldadas pelo manto “protetor” do Estatuto do Trabalhador Rural,
460 Vera Lucia Silveira Botta Ferrante, Henrique Carmona Duval y Osvaldo Aly Junior Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 o sindicalismo rural, engatinhando4, é posto sob repressão. O preço da regulamentação da legislação trabalhista foi a ampla expulsão de trabalhadores residentes e sua conversão em trabalhadores assalariados temporários, remunerados pelo tempo de trabalho, não mais pelo tempo de produção. Praticamente, o E.T.R legalizou a liberação da terra para os fazendeiros, abrindo as comportas de um caminho de compromissos que parece transformar as conquistas dos trabalhadores em espaços vazios. Entretanto, as lutas dos trabalhadores rurais, esporádicas, mantidas sob silêncio, se fizeram presentes, em forma de greves localizadas, voltadas à obtenção de direitos ou pelo pagamento de salários atrasados. Há outras dimensões de lutas, apesar das mesmas ocultarem-se em terrenos instituídos, tratados ou tidos como isentos de tensões. Encontra-se, nesse caso, as lutas que têm a Justiça do Trabalho como cenário. A Junta de Conciliação e Julgamento atesta um movimento crescente de ações trabalhistas na década de sessenta a indicar que a legalização de relações de trabalho no E.T.R. não traz a consagração “de fato” dos direitos. Na década de 70, sob novas facetas do Estado, com uma situação de assalariamento já implantada, com promessas de proteção revigoradas, o movimento sindical rural dá sinais de ressurgimento, ainda que nem de longe se possa falar em uma escala energizante. O Estado, através do Funrural, procura anestesiar esse revigoramento – cujos efeitos não se fazem sentir genericamente – atrelando ainda mais o sindicalismo às malhas do assistencialismo previdenciário. Entretanto, as lutas manifestas no cotidiano, as chamadas lutas por migalhas, nas ruas dos canaviais foram inequivocamente sinais de resistência às regras patronais. No campo legal, a regulamentação do dissídio coletivo, por iniciativa de Sindicatos da região, parece mostrar uma tentativa de fortalecimento – ainda frágil – do poder de barganha da categoria. Na década de 80, a reorientação do Estado, a estruturação de novas lutas, a publicização dos movimentos dos boias frias, seus desdobramentos, não só ampliam o campo de conflitos, como viabilizam a expressão de lutas préexistentes. No início dos anos 80, há dois elementos significativos das lutas desses trabalhadores na região: um movimento de resistência contra a decisão patronal de instituir 7 ruas no lugar de 5 como regra de trabalho, dirigido pela CPT e dirigentes sindicais e uma greve em uma Usina – Tamoio – um típico império do açúcar até final da década de 60 (Ferrante, 1984). A partir dos movimentos grevistas de 1984, os boias frias passam a ser vistos como sujeitos instauradores de sua história, como se não houvesse um 4 Em 1963 foi criada a Comissão Nacional de Sindicalização e foi aprovado o Estatuto do Trabalhador Rural isso levou ao avanço da organização sindical no campo que, logo em seguida, após o golpe de 1964, passou a sofrer brutal repressão.
461 Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 passado por trás dos atos coletivos dos saques e incêndios que pipocam nas ruas e no eito dos canaviais. Por outro lado, a inserção dos boias frias em movimentos de luta pela terra na região, a partir de 1985, oferece uma concreta contrapartida à interpretação da proletarização rural como ruptura completa da relação com a terra, movimento usualmente encarado como venda pura e simples da força de trabalho. As formas de aproximação à terra podem ser outras5. Há que se redimensionar a noção de tempo histórico e a recriação de novos significados atribuídos à terra, questão a ser retomada ao longo desse artigo. Boias frias e a relação com a terra: Reavaliações em pauta A relação dos boias frias com a terra, ponto polêmico de inflexão, é negada em muitos diagnósticos sobre as condições de existência dos boias frias. Segundo esse olhar, os cortadores de cana da região, da segunda geração de boias frias, ao contrário de seus pais que guardam grande apego à terra, são marcados pelo paradoxo de sempre terem morado na cidade (Marini, 1984). Há, de fato, boias frias de segunda ou terceira geração que nunca foram proprietários dos meios de produção, o que lhes dá, segundo algumas análises, a condição de assalariados puros e alienados do processo produtivo, expropriados do saber gerado na relação com a terra, formados na aprendizagem de um outro saber, alimentado pelo manejo do facão, pela habilidade de colher laranja etc., que lhes garante uma condição específica, na divisão social do trabalho, a de cortador de cana ou apanhador de laranja, fator de gestação de possíveis identidades. Ou seja, alguém que não detém mais o conhecimento da complexidade que envolve a produção agropecuária. Tal concepção deve ser cuidadosamente avaliada: de um lado, pela controvertida discussão teórica sobre identidade social, de outro, pelas perspectivas concretas de estarem os boias frias, no movimento de demanda pela terra ou na inserção nos cadastros, nos possíveis assentamentos, demonstrando sinais de ser necessária outra discussão sobre sua constituição social. Assim, a apresentação dos boias frias como perdedores da terra, do saber tocar a lavoura, e a explicação de seu reaparecimento no cenário político como portadores de reinvindicações urbanas devem ser cuidadosamente analisadas, reavaliadas, para não se correr risco de apresentar os boias frias como um bloco homogêneo, que teriam no processo de perdas sofridas, rompido 5 Veja-se a respeito as contribuições de Moacir Palmeira (1990), que concebe a expropriação das relações sociais ao campesinato, não como totalidade, mas como um processo que envolve lutas, e por não ter um resultado certo, único, deixa de ter sentido pensá-lo em termos de uma adequação funcional antecipatória a uma posterior proletarização, ou muito menos, o que tornou mais frequente nos últimos anos, abordá-la simplesmente como efeito perverso da modernização. Assim, a revitalização da demanda por terra por parte dos boias frias repõe a discussão da não consolidação linear da proletarização e de sua necessária inserção no processo de desenraizamento/re-enraizamento.
462 Vera Lucia Silveira Botta Ferrante, Henrique Carmona Duval y Osvaldo Aly Junior Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 qualquer relação com o passado como se a memória lhes tivesse sido extirpada drasticamente na erradicação da terra. Postos como sem passado, sem memória, os boias frias têm demonstrado, no curso de suas experiências concretas, a reinversão de atributos que estigmatizavam sua história. A história da expropriação do campo paulista é pouco registrada e retratada por atos vivos de resistência. A tarefa de tornar visíveis lutas envoltas em uma rede de invisibilidades não se apresenta como imediatamente viável nem transita por caminhos isentos de dificuldades. A busca de entender respostas não explicitadas em ações de resistência e tornar visíveis contornos emudecidos, exigiu que lançássemos mão de vários registros, vários olhares sobre a história desse processo e a participação dos trabalhadores – homens e mulheres – nessa trajetória. Os diferentes registros, sob matizes diversos, permitem resgatar expressões de luta, ainda que não se possa afirmar que o material obtido atenda plenamente à necessidade de recompor a história viva de um passado mantido sob silêncio. Retratos dessa história vêm de entrevistas, de anos de campo – sob distintos olhares – sobre as condições de vida, a exploração do trabalho dos boias frias, as estratégias e alternativas trilhadas pelos trabalhadores. Falavam em nome dos boias frias, denunciavam as mutilações sofridas em seu tempo de vida e de trabalho, mas a expressão direta dos próprios trabalhadores é subestimada. Assim, resgatar memórias de um passado vivido das lutas através dos depoimentos de sujeitos que participaram ou se lembram dessas lutas, apesar das dificuldades enfrentadas, representou o esforço de analisar lutas invisíveis pela própria fala dos seus poucos participantes ainda vivos à época da pesquisa de campo. O trabalho de reconstruir, pelos sujeitos, lutas invisíveis pequenas lutas ou a resistência cotidiana (Scott, 2011) no dizer dos outros – mostrou que os boias frias, excluídos no campo social e político, foram ao longo de mais de duas décadas, formando uma história. A afirmação de que os movimentos de Guariba representaram a criação de um novo sujeito social e histórico deve ser repensada, no seu fazer-se, nos seus antecedentes, poros invisíveis, mas não ausentes, de sua prática social, de construção de suas lutas. Mesmo antes de 1960, ainda que não possamos falar propriamente de lutas de assalariados rurais ou de boias frias, a imprensa alternativa deu conta de que antes da constituição demarcada do mundo dos canaviais, há registro de mobilizações reveladoras de que as lutas estavam presentes no campo paulista, anteriormente à configuração histórica da categoria boias-frias, ou seja, no bojo do processo de constituição da proletarização rural. Vejamos dados reveladores dessa mobilização no Estado de São Paulo: em 1949, greve em Lutécia, Vera Cruz, Araçatuba, levadas adiante por camponeses, colonos, trabalhadores agrícolas, reivindicando melhor sistema de medidas, pagamento de atrasados e
463 Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 de salários. Na década de 50, greves em Lins(1952) por aumento salarial, em Marília (1953), Ourinhos e Fernandópolis, envolvendo assalariados, turmas de trabalhadores, colonos, motivadas por atrasos no pagamento, rebaixa de salário e contra pulverização do cafezal; em Santa Cruz do Rio Pardo, Cosmópolis, Pompéia, Oriente, Serrana (1954), envolvendo, colonos, assalariados, trabalhadores de usinas de açúcar, por reivindicações de aumento no preço da colheita, contra o preço ascendente de gêneros alimentícios, desconto de aluguel de casa, por pagamento de férias, salário mínimo, são um claro indício de que as fazendas paulistas não eram reservatórios de trabalhadores calados. Dados do Jornal Vóz Operária, Terra Livre, Imprensa Popular apresentados por Medeiros (1989). Mesmo quando as greves não foram a forma predominante de luta, manifestavam-se lutas, pela conquista dos direitos. Na região em estudo, há registro de algumas greves, tais como as de Ribeirão Preto (1955/56) envolvendo trabalhadores levados pela luta por pagamento de salário-mínimo, de horas extras, férias, descanso remunerado. Tais lutas, registradas quase que unicamente pela Imprensa Alternativa são evidentes marcas de que a história das transformações da agricultura paulista não se construiu a par de resistência. Destacando que isso tudo aconteceu num contexto de brutal violência, repressão e censura. A tentativa de resgatála a partir de diferentes registros, não necessariamente anunciados da mesma forma, impõe-se como desafio. A publicização das lutas dos boias frias paulistas Face às greves de 1984, - marca da era Guariba – explicações centradas na incapacidade de resistência dos assalariados volantes, na sua frágil organização, fruto da sazonalidade e mobilidade espacial, e no atraso congênito do sindicalismo rural paulista, revelam-se inadequadas, empobrecidas mesmo. De outro lado, a compreensão da história das lutas dos assalariados volantes, a mudança de sua natureza e sua relação com o movimento sindical rural exigiram o repensar as condições de vida e trabalho dos boias frias. No passado, sob diferentes formas, vivendo em espaços vigiados, os boias frias empreenderam ações de resistência. No entanto, o cotidiano do seu trabalho, sua situação de privação e a exclusão da cidadania que lhes é imposta permanentemente também são questionados. Com o avanço da mecanização, parecem voltar à condição de invisibilidade. Suas reivindicações, suas práticas de resistência, manifestas algumas vezes na esfera reprodutiva, devem ser compreendidas em uma relação de unidade – ainda que contraditória – face às relações de dominação e comando vivenciadas no momento do processo produtivo. As implicações do espaço urbano ter se
470 Vera Lucia Silveira Botta Ferrante, Henrique Carmona Duval y Osvaldo Aly Junior Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 raio de ação lhes era absolutamente vedado. Trata-se da relação dos boias-frias com experiências constitutivas de um projeto camponês. A demanda pela terra por agentes até então tidos como excluídos desse circuito é, sem dúvida, um ponto de inflexão. Com isso, não se pretende afirmar que a luta pela terra perpassa homogeneamente toda a categoria dos boias frias, dando-lhe o patamar necessário à construção de um projeto político. A participação dos boias-frias no processo de luta pela terra e a constituição de assentamentos na região investigada reiteram a necessidade de outra avaliação dos rumos da expropriação e proletarização rural. No bojo de preocupação em analisá-las da perspectiva da construção das lutas dos boiasfrias, há que se pensar na transformação possível dos proletários rurais e em sua constituição social em proprietários ou candidatos a uma área de terra na condição de assentados. Ainda mais, a constituição de um assentamento em uma usina desativada – Tamoio,- no interior da qual, no início de 80 ocorreu uma greve isolada que permaneceu por mais de 5 anos como se não demonstrasse nenhum sinal de vida ou de vivência dos trabalhadores, reforça a nossa proposta analítica de descobrir, por trás de um movimento genericamente apreendido em suas determinações estruturais, ecos das vozes e lutas de trabalhadores para rumos antes nunca navegados ou pouco visibilizados. A quebra do estigma da estranheza entre campesinato e política não implica mecanicamente no rompimento do silêncio atribuído aos filhos da modernização, os boias frias expropriados da terra. Se o campesinato foi, por força de distorções teóricas, com sérias implicações políticas, isolado como sujeito político, a concepção de história unicamente como desenvolvimento das forças produtivas e das alterações que tal desenvolvimento promove, nas relações sociais não implicou no reconhecimento dos boias-frias, dos assalariados rurais, enquanto atores políticos, com direito a influenciar os rumos e rédeas do processo de modernização da agricultura. No bojo da controvérsia, parecia não haver espaço para reflexões sobre o peso histórico possível dos assalariados rurais. Se o crescimento da classe operária no campo e na cidade era alavanca fundamental do processo histórico de transformação da sociedade, havia a convicção de que as perspectivas de explicitar-se um antagonismo com o capital estariam reservadas ao operariado urbano. Aos assalariados rurais pensados erroneamente da ótica de sua completa expropriação, sem a recuperação das mediações com o seu passado, estaria reservado o silêncio. A exclusão dos direitos de se expressar politicamente e de se constituir como sujeitos sociais permeia a discussão das lutas dos boias-frias. Aparecem nas análises sobre a modernização da agricultura como fator de produção fundamental ao movimento do capital despojados de quaisquer características de contestação.
471 Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 Exceção a esse enfoque, a perspectiva dos boias-frias conterem, além do caráter afirmador do sistema, a possibilidade histórica da práxis negadora é contemplada em análises que apontam a temporariedade do trabalho volante, a principal dificuldade para a realização desta práxis. Tempos passados, as teses sobre proletarização rural adquirem novos contornos, sem ser afastada a sua compreensão como expressão de um processo de rompimento com o passado vivido na terra, mantendo-se significativamente nas análises, referências às uniformidades existentes entre as reivindicações dos boias frias e as do proletariado urbano. Dimensões que foram questionadas no curso do presente trabalho. Procurar compreender seus clamores, em formas de lutas visíveis ou de espaços de silêncio não significa partir do pressuposto de que no campo político, os assalariados devem ser discutidos somente pela ótica da agricultura modernizada, mas pela história camponesa do país. Bibliografia Alves, F. J. C. Modernização da Agricultura e Sindicalismo: As Lutas dos Trabalhadores Assalariados Rurais na Região de Ribeirão Preto. Tese (Doutorado em Ciências Econômicas) - Universidade de Campinas, Campinas, 1991. Bastos, E.; Bugai et al. Mapeamento dos movimentos sociais rurais no Estado de São Paulo, 1964-1987. Relatório de Pesquisa, 1988 (mimeo). D’Incao, M. C.. O movimento de Guariba: o papel acelerador da crise econômica. Revista Política e Administração, Rio de Janeiro, n.2, 1985. Ferrante, V. L. S. B.; Bastos, Bugai, E.; Chaia, V. L. N. Modernização agrícola no circuito da violência. Revista São Paulo em Perspectiva, São Paulo, Seade, vol.1, p.18-30, 1987. Ferrante, V. L. S. B. Tamoio olha! Tem nó na cana. Perspectivas, São Paulo, n.7, p. 31-46, 1984. Marini, W. O Estado de São Paulo, p.18, 20 mai. 1984. Martins, J. S.. Os camponeses e a política no Brasil. 1. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1981. Medeiros, L. S. História dos movimentos sociais no campo. Rio de Janeiro: Fase, 1989. Palmeira, M.. Modernização, Estado e Questão Agrária. Revista Estudos Avançados. Cem Anos de República. São Paulo, USP, 1990. Reis, J. S. F. Lutas pelo acesso à terra: ocupações e acampamentos. Relatório de projeto de pesquisa, Cedec, São Paulo, 1987 (mimeo).
472 Vera Lucia Silveira Botta Ferrante, Henrique Carmona Duval y Osvaldo Aly Junior Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 25, nº 51. Tercer cuatrimestre de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2022.i51.20 Sader, E.; Paoli, M. C. P. M.. Sobre “classes populares” no pensamento sociológico brasileiro. A aventura antropológica: teoria e pesquisa. São Paulo: Paz e Terra, 2004. Scott, J. C. Exploração normal, resistência normal. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n.5, p.217-243, 2011. Sigaud, L. M. . Os Clandestinos e os direitos. São Paulo: Duas Cidades, 1979. Thompson, E. A Miséria da Teoria: ou um planetário de erros. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.