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"Eu já falei que tenho algo a dizer, e disse": As rodas de conversa na pesquisa com jovens - Potencialidade e limites para o fazer da pesquisa

González Monteagudo, José; Fabia Alves, Miriam

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1 “Eu já fale que tenho algo a dizer, e disse...”: as rodas de conversa na pesquisa com jovens - potencialidades e limites para o fazer da pesquisa Miriam Fabia Alves, Universidade Federal de Goiás (Brasil) José González-Monteagudo, Universidade de Sevilha (Espanha) (VERSIÓN PREPRINT) [M. F. Alves, J. González-Monteagudo (2019). "Eu já falei que tenho algo a dizer, e disse": As rodas de conversa na pesquisa com jovens - Potencialidade e limites para o fazer da pesquisa, in I. B. Oliveira, L. F. Peixoto, M. L. Sussekind (Orgs). Estudos do cotidiano, currículo e formação docente: questões metodológicas, políticas e epistemológicas. Curitiba (Paraná, Brasil): CRV, 155-168. ISBN 978-85-444-3563-2] “Deixa, deixa, deixa Eu dizer o que penso desta vida Preciso demais desabafar... Eu já falei que tenho algo a dizer, e disse...” (Marcelo D2) A música desabafo de Marcelo D2 traduz um pouco do esforço que temos realizado nas pesquisas com jovens em Goiás, no sentido de incentivá-los a dizer, de ouvir as suas vozes, de valorizar suas narrativas e o que eles têm a dizer, de compreender suas realidades a partir de suas narrativas. Esforço que tem se materializado por meio das rodas de conversa como estratégia de coleta de dados que objetiva permitir uma aproximação com a realidade dos jovens e suas visões de mundo, expressas nas narrativas. É com esse desafio que buscamos ouvir a voz dos jovens e fazer valer o verso da canção “eu já falei que tenho algo a dizer, e disse”. A possibilidade de “deixar dizer” e “eu tenho algo a dizer, e disse” nos motivou nas pesquisas que realizamos com os jovens em Goiás, bem como a escrita deste texto, no qual buscamos apresentar uma discussão sobre as potencialidades e limites do uso das rodas de conversa para o fazer da pesquisa com juventudes. Para alcançar o objetivo, reunimos, a partir da bibliografia da área, um conjunto de reflexões sobre a metodologia da pesquisa com jovens, retomando a produção sobre o tema e a 2 apresentando um estudo dos artigos publicados nos periódicos A1, no período de 2014 a agosto de 2018, disponíveis no SciELO 1 . A exposição do texto está organizada em três partes: na primeira parte apresentamos um estudo das pesquisas com os jovens no Brasil, a partir do levantamento feito no SciELO; na segunda parte as rodas de conversa e como elas estão sendo utilizadas nas nossas pesquisas com os jovens em Goiás; e por último, a discussão sobre as potencialidades e limitações do uso das rodas de conversa na pesquisa com jovens. 1 A pesquisa com jovens: diálogos com a produção da área Buscando compreender melhor as metodologias utilizadas nas pesquisas com juventudes, ampliar a reflexão sobre a utilização das rodas de conversa nestas investigações, constatamos que há pouca sistematização sobre as rodas na pesquisa com jovens. Tal afirmação não desconsidera o avanço das pesquisas sobre juventudes no Brasil, nas últimas duas décadas, conforme podemos constatar no estado da arte coordenado por Sposito (2009a; 2009b), mas também nas inúmeras pesquisas individuais e em grupos, dentre as quais destacaria: Dayrell, Carrano, Maia (2014), Brenner e Carrano (2014), Groppo, Zaidan Filho, Machado (2008). A ampliação do número de pesquisas, bem como do escopo metodológico utilizado, revelam o crescimento da área e também sua visibilidade, manifesta de forma mais organizada na atuação dos Observatórios de Juventudes, que também cumpriram papel fundamental na articulação dos grupos de pesquisa e da produção da área em diferentes formatos e linguagens. Para melhor compreender as metodologias que estão sendo utilizadas para o fazer da pesquisa com jovens, fizemos um levantamento das pesquisas publicadas nos periódicos brasileiros da área de educação classificados como A1 2 , que estavam disponibilizados no portal do SciELO. O mapeamento foi feito no próprio portal 1 O SciELO – Scientific Electronic Library Online (Biblioteca Científica Eletrônica em Linha) é um site para a publicação eletrônica cooperativa de periódicos científicos na Internet. Maiores informações estão disponíveis em http://www.scielo.org/php/level.php?component=56&item=1&lang=pt 2 “O Qualis-Periódico é um sistema usado para classificar a produção científica dos programas de pósgraduação no que se refere aos artigos publicados em periódicos científicos.” A classificação dos periódicos é feito por cada área de avaliação, sendo o mais elevado classificado com A1, e os demais A2, B1, B2, B3, B4, B5, C. 3 utilizando como buscador as palavras “Juventude”, “Juventudes” e “Jovens”. Após uma primeira busca constatamos que havia mais publicações com o termo “Jovens” e por isso escolhemos utilizá-lo como balizador para a busca final, que teve como recorte temporal (2014-agos./2018). Também optamos por um recorte geográfico selecionando as pesquisas e nesse levantamento optamos por focar as pesquisas realizadas com os jovens brasileiros e publicadas em periódicos do Brasil 3 . As revistas brasileiras com maior número de publicação são da área da saúde, sendo que o Caderno de Saúde Pública possuía 443 publicações e Ciência & Saúde Pública tinha 350 artigos publicados sobre o tema. Na área da educação, encontramos 304 artigos publicados nas revistas Educação e Revista, Educar em Revista, Educação e Sociedade, Revista Brasileira de Educação e Cadernos de Pesquisa, que possuem a maior quantidade de artigos no período investigado. O Quadro 1 indica a quantidade dos artigos publicados nesta área por periódico: Quadro 1: Artigos publicados sobre Jovens em revistas de educação Revista Artigos publicados Artigos Publicados entre 2014 a 2018 Educação e Pesquisa 72 31 Educar em Revista 65 28 Educação e Sociedade 65 21 Revista Brasileira de Educação 55 14 Cadernos de Pesquisa 47 12 Total: 304 106 Fonte: Elaboração dos autores A partir do levantamento dos 106 artigos que publicaram a temática, fizemos a leitura dos resumos que nos permitiu realizar algumas análises: 1) a maior parte dos artigos identificam as pesquisas como qualitativas e resultantes de estudos bibliográficos e documentais, narrativas, etnografia, estudos longitudinais, investigação participante, estudo experimental; 2) a minoria dos trabalhos publicados compõe o chamado grupo das pesquisas quantitativas tendo sido identificados dois trabalhos como estudos quantitativos, dois como estatísticos, dois como quali-quantitativos; 3) os resumos informam uma variedade de fonte de dados: entrevistas, questionários, experimentos, grupos focais, grupos de discussão, textos de internet, observações, histórias de vida. 3 Esse recorte foi motivado por uma primeira busca. Dentre os periódicos da área de Humanas constatamos que as revistas Latioamericana de Ciencias Sociales (Colombia) e Última Decada (Chile) tinham o maior número de artigos publicados, sendo 210 e 133 respectivamente no período buscado. 4 Na busca que realizamos, um dado chamou a atenção: dos 106 resumos lidos, 26 deles não contém nenhuma informação sobre como foi feita a pesquisa e apenas com a leitura do texto completo foi possível identificar os métodos e procedimentos utilizados. Esse fato poderia nos ajudar a pensar os critérios de publicação dos artigos nas revistas e, ao mesmo tempo, indica a necessidade de maior cuidado na divulgação dos nossos dados de pesquisa. Em relação ao levantamento realizado, poderíamos dizer que ele também permite analisar a riqueza das pesquisas da área e a diversidade de procedimentos e metodologias. Por outro lado, este estudo revelou um flanco a ser explorado: o uso das rodas de conversa na pesquisa com jovens. Nesta perspectiva, nossa tentativa é de sistematizar a experiência que temos realizado com as rodas de conversa e contribuir com algumas questões para o debate metodológico. 2 Rodas de Conversa e pesquisas com jovens – experiências em Goiás A “Roda de Conversa” já era vivenciada, na Casa da Juventude Pe. Burnier 4 de Goiânia, desde o principio dos anos 2000, como metodologia de trabalho com os jovens nas atividades formativa ou na de discussão de temas específicos. Em 2009, ao iniciarmos a pesquisa “A Juventude Quer Viver – Condição juvenil e redes de Proteção: o caso de Goiás” 5 a escolha da roda de conversa decorreu dessa experiência formativa. Quando utilizamos as rodas de conversa, pela primeira vez como metodologia de pesquisa, as caracterizamos como “um dos instrumentos utilizados como fonte para pesquisa” uma vez que a opção metodológica era a pesquisa-ação buscando “uma interação entre os diferentes sujeitos da pesquisa” (SILVA; NETA, 2010, p.54). Assim, as rodas de conversa eram descritas como 4 A Casa da Juventude Pe. Burnier, mais conhecida como CAJU, era uma organização não governamental mantida pela Companhia de Jesus, que tinha sede em Goiânia-Goiás e realizava o trabalho de acolhida e formação de jovens. 5 A pesquisa tinha como objetivo discutir os aspectos relacionados à condição juvenil em Goiás, tomando como referência a voz dos jovens e suas concepções acerca do que é ser jovem, da vida e do futuro, da morte, da família. As rodas de conversa foram vivenciadas com diferentes grupos de jovens nas cidades de Rio Verde, Luziânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Caldas Novas e Goiás. Os resultados da pesquisa foram divulgados nos seguintes meios: o livro A Juventude Quer Viver: Condição Juvenil e Redes de Proteção em Goiás, o livro Rodas de Conversa: a Juventude Quer Viver; o vídeo A Juventude Quer Viver. 5 Um espaço privilegiado de interlocução com os sujeitos da pesquisa, uma vez que a dinâmica que se constitui, no decorrer de sua execução, possibilita que as pessoas envolvidas falem, escutem, discutam e exponham sua opinião a respeito dos temas em debate (p.54) Importa ressaltar que à época, a pesquisa foi realizada em conjunto com a Campanha A Juventude Quer Viver 6 , tendo como participantes diferentes grupos de jovens de espaços distintos (escolas, igreja, associação). Neste momento já se atribuía às rodas de conversa, a partir das experiências já realizadas na Casa da Juventude, a potencialidade de intervir na realidade dos jovens e a possibilidade deles virem a se reconhecer como sujeitos sociais com direitos. Por isso, desde o início, os jovens foram considerados interlocutores privilegiados no desenvolvimento de ações afirmativas e políticas públicas para as juventudes. A roda de conversa buscava também provocar reflexões sobre concepções das realidades dos jovens, sobre as condições de violência e morte que marcavam suas vidas nestas cidades. As “rodas se tornaram canais responsáveis por trazer à tona as vozes, as expressões e os gestos dos jovens e colocá-los em cena [...] contribuindo para a quebra de estigmas e preconceitos” (SILVA; NETA, 2010, p.55), e desempenharam um papel importante para a Campanha. Importa destacar que as rodas foram mediadas por jovens que participavam das atividades formativas da Casa da Juventude e também da Campanha A Juventude Quer Viver, e que, apesar de ter como preocupação central manter uma escuta respeitosa da voz dos jovens dos diferentes grupos, eram jovens com uma formação aprofundada o que os identificaria como jovens pesquisadores do que apenas mediadores de um diálogo. Era esperado que estes jovens mediadores pudessem contribuir com as reflexões e sensibilizassem os participantes para a Campanha. No entanto, do ponto de vista metodológico, constatamos alguns problemas com a coleta de dados, pois nem todas as rodas foram gravadas e apesar de ter sempre um pesquisador da equipe de pesquisa acompanhando as atividades, houve 6 A Campanha Nacional “A Juventude Quer Viver” Contra a Violência e o Extermínio de Jovens, teve inicio em 2004 e foi coordenada pela Casa da Juventude Pe. Burnier, aglutinando diferentes sujeitos e instituições, dentre as quais as Pastorais da Juventude do Brasil vinculadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Conselho Nacional de Juventude, Rede Ecumênica de Juventude, Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, Coletivo Jovem da Via Campesina, agremiações diversas do Movimento Estudantil, organizações juvenis de partidos políticos, dentre outras. A Campanha objetivava debater e se posicionar sobre temas urgentes para o combate a violência e o extermínio dos jovens, tais como a redução da maioridade penal, o uso e trafico de drogas o sistema penitenciário, dentre outros. (ALVES, 2018) 6 comprometimento no registro e as narrativas dos jovens não foram devidamente transcritas. Essas reflexões feitas ao final do trabalho, em 2011, foram consideradas quando elaboramos um novo projeto de pesquisa, que foi submetido ao edital da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) 7 . Em 2014, oficialmente, iniciamos a pesquisa “Juventude em Goiás: vivências em rodas de conversa com jovens em escolas públicas das cidades mais violentas no Estado — possibilidades de intervenção” 8 . A pesquisa teve como finalidade investigar as representações sociais dos jovens sobre violência, religião e educação. Ao longo desse período, trabalhamos com os jovens do 3o ano do ensino médio, matriculados em escolas públicas estaduais das cidades de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Luziânia e Rio Verde, cidades emblemáticas da situação de violência que Goiás tem constantemente vivenciado. A produção de dados da pesquisa incluiu, dentre outros instrumentos, a realização de rodas de conversas com os alunos. Ao longo da definição do desenho da pesquisa refletimos sobre as rodas de conversa como fonte de dados e sobre sua concepção na pesquisa. No percurso de planejar e estudar o caminho que seria trilhado foi necessário rever algumas estratégias e a metodologia de atuação. Voltamos ao debate metodológico sobre a pesquisa qualitativa e o nosso fazer neste arcabouço. Do ponto de vista metodológico, fomos aperfeiçoando as rodas de conversa que passaram a ser compreendidas como estratégia da pesquisa e instrumento para a coleta de dados que deveriam seguir alguns princípios fundamentais: criar um espaço que permitisse aos jovens expressar suas narrativas; o respeito à voz dos jovens; evitar o direcionamento de suas narrativas; criar um espaço que permitisse aos jovens expressar suas narrativas; utilizar diferentes recursos (músicas, filmes, fotos, imagens) para fomentar o debate e a reflexão. Como estávamos realizando uma pesquisa com objetivos definidos, as rodas foram temáticas, ou seja, havia um roteiro pré-definido que encadeava os temas educação-religião-violência de forma a buscar responder às problemáticas propostas 7 A equipe de pesquisa foi formada por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e do Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa sobre Juventude (Cajueiro). 8 Parte dos resultados da pesquisa realizada foi divulgada no livro Juventudes: educação e religião em cenários de violência (ALVES; MATUTINO, 2016). 7 pelo projeto. O roteiro elaborado, mesmo sendo muito estruturado, não impedia os jovens de “dizer” sobre outros assuntos e temas que emergiram nas discussões. Para cumprir com estes objetivos as rodas foram planejadas com antecedência: elaboração do roteiro (que segue em anexo), escolha das estratégias e recursos materiais necessários; seleção e capacitação dos jovens mediadores; contato com as escolas e agenda para a realização das rodas; a organização da equipe de pesquisa para acompanhar as rodas em cada cidade/escola. Os jovens mediadores, em idades semelhantes as dos jovens entrevistados na pesquisa, foram escolhidos entre os estudantes do curso de Educação Física da Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia de Goiás da Universidade Estadual de Goiás, e dentre as atividades, vivenciaram a experiência da roda de conversa que iriam mediar com os jovens das escolas de ensino médio. Um debate que fizemos, ao longo do planejamento da pesquisa, diz respeito ao papel dos pesquisadores na realização da roda de conversa, uma vez que estes eram responsáveis pelo planejamento da roda, pela elaboração do roteiro e das estratégias, pela capacitação dos mediadores e pela escuta nas rodas. Chegamos ao consenso que a equipe de pesquisa, durante a realização da roda, deveria apenas acompanhar a sua execução, observando e registrando, e não interferindo na condução da conversa entre os mediadores e os jovens participantes. Estas práticas nos levaram a refletir sobre algumas questões metodológicas da utilização das rodas na pesquisa. 3. As rodas de conversa na pesquisa com jovens: potencialidade e limites para o fazer da pesquisa Poderíamos indagar se as diferentes fontes de dados (entrevistas, questionários, experimentos, grupo focal, grupos de discussão, textos de internet, observação, história de vida) dos artigos publicados nos periódicos A1 também poderiam ser chamadas de “roda de conversa”. Inicialmente nossa reflexão aponta elementos que diferenciam as rodas de outras fontes de dados. Consultando os artigos que encontramos que tratam das rodas de conversa, dentre os quais citamos Melo e Cruz (2014), Moura e Lima (2014), também constatamos que a 8 forma como as descrevem as rodas de conversa são distintas do nosso fazer de pesquisa e se assemelham a outras técnicas de coleta de dados. Moura e Lima (2014) inserem a roda de conversa “no âmbito da pesquisa narrativa” e a utilizaram para discutir docência superior e o conhecimento da experiência, mas, nesse caso, os pesquisadores participaram do diálogo, nos seguintes termos: “inserimo-nos no contexto, não apenas para impulsionar o diálogo, mas também para participar ativamente dele” (p.103). Melo e Cruz (2014, p.32) afirmam que a escolha da “técnica – Roda de Conversa” se fundamentou em sua característica de permitir que os participantes expressem, concomitantemente, suas impressões, conceitos, opiniões e concepções sobre o tema proposto, assim como permite trabalhar reflexivamente as manifestações apresentadas pelo grupo. Para que a atmosfera de informalidade e descontração pudesse ser mantida, utilizou-se o termo Roda de Conversa para referir-se aos encontros, pois se entende que esse termo é adequado, tanto ao ambiente escolar, quanto ao grupo de alunos. Partem do princípio que as rodas permitem a livre expressão dos participantes e afirmar que o termo “Roda de Conversa” foi utilizado para manter um ambiente de informalidade, ou seja, para fomentar a participação do grupo. Para os autores a roda de conversa também pode ser considerada “uma espécie de entrevista em grupo” e que por sua “possibilidade de interação entre os participantes, a técnica da Roda de Conversa assume as mesmas características da técnica do grupo focal” (p.33). Não negando a riqueza deste debate, gostaríamos de explicitar nossa posição, com base nas experiências que temos realizado. Consideramos que Grupo Focal, Grupo de Discussão e Rodas de Conversa, compõem um leque de opções para um modelo de coleta de dados em que as pessoas se reúnem para apresentar suas impressões, conceitos, opiniões e concepções sobre o tema, mas diferem no seu jeito de fazer. O grupo focal, compreendido como técnica complementar de coleta de dados, na qual o investigador atua como moderador iniciando e encerrando cada tema; tem um roteiro preparado anteriormente e que serve de guia para o investigador e conta com a 9 participação homogênea de sete a dez participantes, pode ser feito em algumas sessões a depender do tema e dos objetivos da pesquisa (CRUZ NETO; MOREIRA; SUCENA, 2002). Se estabelecemos algumas comparações entre o grupo focal e as rodas de conversa, podemos avaliar que o papel do pesquisador difere nas rodas de conversa, em que o pesquisador participa de todo o desenho da roda, porém não intervém em sua realização. Weller (2006) sistematiza o fazer dos grupos de discussão na pesquisa com adolescentes e jovens. Para a autora o grupo de discussão objetiva privilegiar “as interações e uma maior inserção do pesquisador no universo dos sujeitos, reduzindo, assim, os riscos de interpretações equivocadas sobre o meio pesquisado” (p.241) e deve ser compreendido como método de pesquisa que constitui “uma ferramenta importante para a reconstrução dos contextos sociais e dos modelos que orientam as ações dos sujeitos” (p. 246). Nesse modo de fazer da pesquisa o “tópico-guia de um grupo de discussão não é um roteiro a ser seguido à risca”, o que não significa a ausência de “critérios para a condução dos grupos de discussão”, tais como a primeira pergunta ser feita para todos os grupos, uma vez que se “pretende analisa-los comparativamente” (p.249). Nesta perspectiva, o entrevistador é responsável por, formular questões que gerem narrativas e não a mera condução das questões norteadoras, iniciar a discussão com uma pergunta ampla, e “intervir somente quando solicitado ou se perceber que é necessário lançar outra pergunta para manter a interação do grupo” (p.249). Se comparamos o grupo de discussão com as rodas de conversa, podemos constatar que, no primeiro, o pesquisador assume um papel importante durante a sua realização, mesmo que seja a organização do grupo, a ordem das falas, seja de responsabilidade do próprio grupo, enquanto nas rodas de conversa o pesquisador não interfere em sua condução e quem coordena a roda, a ordem das falas é o jovem mediador. Esse debate, aqui iniciado, ainda tem muito a ser aprofundado, especialmente considerando a complexidade das temáticas envolvidas quando se pesquisa as juventudes. No entanto, voltando ao nosso tema, as potencialidades das rodas de conversa para a pesquisa com jovens, podemos dizer que estas tem uma dinâmica mais livre, uma vez que a condução se dá pelos jovens capacitados para a sua execução e o pesquisador assume um papel de ouvinte e de quem registra a