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Recepção transmidiática : incursões pela Teoria Ator-rede

Azambuja, Patrícia; Monteiro Leite, Marcio

Abstract

Propomos aqui uma análise de campo ambientada em espaço transmidiático, e utilizamos como ferramenta metodológica o Princípio da Simetria com base na Teoria Ator-rede. Seguindo a ideia de rastrear conexões, a partir de uma escrita etnográfica, o método propõe pensar o social menos como categoria de base analítica - posta antecipadamente e desvinculada do campo das experiências - e mais como algo focado no processo contínuo. As práticas sociais e midiáticas são articuladas aqui para além dos limites humanos (ou exclusivamente técnicos), enfim, o ator-rede se estabelece não como uma entidade fixa, mas, através de fluxos com base nos quais o método irá descrever a propagação de associações.

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16 Recepção transmidiática: incursões pela Teoria Ator-rede Patrícia Azambuja 1 Universidade Federal do Maranhão [email protected] Márcio Monteiro Universidade Federal do Maranhão [email protected] Resumo: Propomos aqui uma análise de campo ambientada em espaço transmidiático, e utilizamos como ferramenta metodológica o Princípio da Simetria com base na Teoria Ator-rede. Seguindo a ideia de rastrear conexões, a partir de uma escrita etnográfica, o método propõe pensar o social menos como categoria de base analítica - posta antecipadamente e desvinculada do campo das experiências - e mais como algo focado no processo contínuo. As práticas sociais e midiáticas são articuladas aqui para além dos limites humanos (ou exclusivamente técnicos), enfim, o ator-rede se estabelece não como uma entidade fixa, mas, através de fluxos com base nos quais o método irá descrever a propagação de associações. Palavras-chave: Teoria Ator-rede. Netnografia. Transmídia. Resumen: Proponemos aquí un análisis de campo transmedia ambientado en el espacio y el uso del principio de simetría basada en la teoría del actor-red como una herramienta metodológica. Siguiendo la idea de rastreo de conexiones de una escritura etnográfica, el método propone considerar lo social como una categoría de menor base analítica - llamado por adelantado y sin relación con el campo de la experiencia - y como algo más centrado en un proceso continuo. Las prácticas sociales y los medios de comunicación se articulan aquí más allá de los límites humanos (o puramente técnicas), por último, el actor-red se establece no como una entidad fija, sino a través de los flujos en los que el método se describe la propagación de las asociaciones. Palabras clave: Teoría Actor-red. Netnografia. Transmedia. Abstract: Propose here an analysis of cross-media field set in space, as a methodological tool and use the principle of symmetry based on ActorNetwork Theory. Pursuing the idea of tracing connections from an ethnographic writing, the methodology proposes to consider less the social as a category of analytical basis - called in advance and unrelated to the field of experience - and as something more focused on continuous process. Social and media costumes are here articulated beyond human limits (or purely technical), anyway, the actor-network is established not as a fixed persona, but trough flows on which the method will describe the spread of associations. Keywords: Actor-Network Theory. Ethnography. Cross-Media. 1 Projeto de Pesquisa “Performances Cognitivas em Interfaces Convergentes”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Maranhão - FAPEMA 17 O sociólogo francês Bruno Latour (1994) apresenta a si próprio e a seu grupo de amigos 2 como estudiosos de situações estranhas que a cultura intelectual não consegue classificar. Também se autodenominam “sociólogos, historiadores, economistas, cientistas políticos, filósofos, antropólogos [...] acrescentando sempre o genitivo: das ciências e das técnicas” (LATOUR, 1994: 9). No interior de instituições científicas, buscam descrever as tramas atravessadas por acontecimentos ligados à ciência e a toda mistura responsável por tecer as teias do corpo social. Seguem as tramas aonde elas os levem, tomando como meio de transporte a noção de rede. “Mais flexível que a noção de sistema, mais histórica que a de estrutura, mais empírica que a de complexidade, a rede é o fio de Ariadne destas históricas confusas” (LATOUR, 1994: 9). Apesar de serem considerados por demais calculistas e instrumentais, às vezes, marginais, Latour avisa que isso acontece por equívoco no entendimento dos seus trabalhos, pois suas pesquisas não estão interessadas em discutir a natureza ou o conhecimento puros (ontologia e epistemologia), mas as suas relações, os seus envolvimentos com coletivos, sujeitos e objetos, sem redução a uma coisa ou a outra. 1. Sociologia das Associações: rede sociotécnica Um dos amigos de Latour, John Law (2008), discorre sobre a formação interdisciplinar no campo CTS - Ciência, Tecnologia e Sociedade, propondo a análise das diferenças e das sobreposições entre este campo e a Sociologia, com foco na necessidade de buscarem-se métodos de investigação condizentes com realidades performativas 3 . Para isso, pondera na relação entre a sociologia do conhecimento científico, o campo estudado e uma metodologia pragmática, a possibilidade de inclusão que ele identificou como Princípio de Simetria. Para ele, “[...] theory is done in the form of case studies” 4 (LAW, 2008: 630), uma “etnometodologia” 5 em descompasso com a ideia de grandes narrativas, que traça relações entre ciência, aspectos culturais, práticas cotidianas e estudos de caso empíricos. Bruno Latour (1997) retoma o conceito ao analisar questões de dominação entre instrumentos técnicos e seres humanos, a partir de um exemplo clássico, “armas matam pessoas”, e do dualismo existente na busca por possível agente no processo: a arma, o cidadão ou outra criatura (uma arma-cidadão ou um cidadão-arma)? Este movimento precisa ser simétrico. Nem sujeito, nem objeto são fixos ou independentes. “Em sentido algum se pode dizer que os humanos existem como humanos sem entrarem em contato com aquilo que os autoriza e capacita a existir (ou seja, agir) [...] Objetos que existem simplesmente como objetos, apartados de uma vida coletiva, são desconhecidos” (LATOUR, 1997: 221). Este “alguém mais”, Latour (2001) chama de “ator híbrido”. 2 Pesquisadores do campo de estudo “Ciência, Tecnologia e Sociedade” (CTS). 3 Em oposição à idéia de construção social edificada sob bases absolutas, John Law (2008) coloca em discussão a noção de processo contínuo e performativo. 4 Tradução nossa: “A teoria é feita sob a forma de estudo de caso”. 5 Bruno Latour (1997) analisa a etnometodologia como um movimento de reação ao abuso da metalinguagem em sociologia. “Em lugar de imputar aos atores sociais, a cada vez, interesses, cálculos, classes, hábitos, estruturas, supondo-os marionetes da sociedade, a etnometodologia quer esvaziar a sociologia de toda a sua metalinguagem e quer tomar o ator e sua prática como o único sociólogo competente […] Entre o sociólogo que põe ordem e o ator que acrescenta desordem, é melhor confiar no ator – e pior para a desordem” (LATOUR, 1997: 28). 18 Simetria, como princípio metodológico, propõe, em primeiro lugar, pensar o social menos como categoria de base analítica, posta antecipadamente e desvinculada da rede de relações heterogêneas geradas no campo das experiências, e mais como algo focado no processo contínuo. Seguindo a ideia de tentar descrever sem explicar, rastreando as conexões a partir de uma escrita etnográfica, a Antropologia Simétrica - Sociologia das Associações (LATOUR, 1994, 2005) - redefine a noção de social para além dos limites humanos, como um rastro de associações (e reassociações) entre elementos heterogêneos (humanos e não-humanos). Uma abordagem historicamente conhecida como Teoria Ator-rede (Actor-Network-Theory). Para o autor, de tão estranho e confuso, o termo merece ser mantido, isso porque a TAR (ANT para a sigla em inglês) nem pretende a universalidade de uma teoria, pois é mais compatível com a proposta de método; nem privilegia os aspectos humanos daqueles normalmente conhecidos como atores sociais. Por outro lado, a sigla ANT e seu significado em inglês - formiga – funcionam perfeitamente como analogia para a importância das pequenas conexões. Pensando no contexto contemporâneo de transmidialidade 6 - de onde são levantadas possibilidades de maior dinamismo e liberdade por parte da audiência, buscamos compreender essas novas cenas midiáticas como complexas estruturas sociotécnicas em transformação. Buscando experimentar, portanto, metodologias para rastrear instabilidades e realidades em processo. Neste sentido, a ideia de processualidade é totalmente coerente com a abordagem proposta pela TAR. Assim, o social passa a ser entendido não como um domínio especial da realidade, mas como um princípio de conexões rastreáveis. E, na ação de montar (e remontar) as conexões sociais, a sociedade passa a ser compreendida como coletivo. Não há grupos, mas formação de grupos, possivelmente identificados através da visualização de rastros e controvérsias nas ligações temporárias entre os atores (ou actantes) 7 destes coletivos. Para Latour (2005:34), agregados sociais não são como grupos estáveis ou como algum tipo de objeto ou convenção, mas fazem parte de um universo que ele chamou de “fontes de incertezas”: um campo de definição performativo. Estudos vinculados à TAR, portanto, alertam para a necessidade de definições menos dogmáticas. A regra não pode ser a ordem. Para os sociólogos das associações, a regra é performativa, e as exceções, os conflitos, a criação também devem ser contabilizados ou estabilizados nas redes analisadas. Nesse caso, Latour (2000) apresenta sua primeira regra metodológica: “Estudamos a ciência em ação, e não a ciência ou a tecnologia pronta; para isso, ou chegamos antes que os fatos e máquinas se tenham transformado em caixas-pretas, ou acompanhamos as controvérsias que as reabrem” (LATOUR, 2000: 421). O objetivo central deste artigo é, portanto, apresentar resultados e análises de um trabalho empírico capaz de ratrear conexões possíveis entre sociedade e técnica em cenário de comunicação transmídia. A partir da perspectiva metodológica que não faça distinção entre natureza, sociedade e objetos técnicos, buscamos perceber presenças e ausências no encadeamento proposto pela teia de relações entre experiências 6 Analisado por Henry Jenkins (2008), possibilita a experiência de narrativas se expandirem para além da sua plataforma original. Situações através das quais os conteúdos oriundos dos mais diversos meios e linguagens vão sendo desdobrados em outros espaços – televisão, laptops, celulares, revistas etc., com o objetivo de fragmentar a narrativa e complementá-la. 7 De acordo com Bruno Latour, a palavra ator, do inglês actor, se limita a humanos, por isso, muitas vezes utiliza actante (actant), termo emprestado da semiótica, para incluir não-humanos no entendimento sobre coletivo. 19 humanas, processos comunicacionais e seus aparatos de mediação. A caixa-preta 8 com a qual pretendemos mexer dá conta de um contexto de digitalização em rede que pressupõe - a partir do crescente número de terminais e modos de recepção a eles associados - maior liberdade de escolha e participação nos fluxos de informações, ao contrário do que historicamente é proporcionado pelos dispositivos convencionais (a televisão, por exemplo). Enfim, estamos à procura de instabilidades e controvérsias capazes de abrir as caixa-pretas. 2. Teoria Ator-rede em cenário transmídia Para a análise das práticas sociais com as quais nos deparamos, desconsideramos a definição pré-realista do social que coloca em primeiro plano o participante humano, para então desvelar o mundo social para além deste. Segundo Latour (2005), é preciso privilegiar os mediadores, cuja proliferação gera o que podemos chamar de quaseobjetos e quase-sujeitos. Os membros humanos e o contexto social devem ser colocados em segundo plano. A sociedade, percebida aqui em seu sentido coletivo, passa a existir a partir desses vínculos provisórios de novas associações e não como uma estrutura de laços sociais fixos. O ator-rede, então, não é mais visto como um ponto; assume forma de estrela, de onde os vínculos o fazem existir. Os enlaces primeiro e os atores depois. Esta perspectiva persegue a Teoria Ator-rede: conexões e quase-objetos são os verdadeiros centro do mundo. Para Latour (2005), implantar controvérsias significa ampliar o número de participantes e configurar rearranjos para o ator-rede através de novas possíveis associações. São os vínculos que o fazem existir. Neste sentido, utilizar a metodologia com base na TAR é dar condições para que outros actantes possam fazer parte do coletivo observado, e assim trazer à tona elementos ausentes à primeira vista. A etapa seguinte é tentar seguir a maneira como os próprios actantes estabalizam as controvérsias, para assim, buscar entender suas motivações e desdobramentos. Hoje, situações com a internet chamam a atenção por seu potencial de conexão entremeios. As comparações entre Web e televisão, por exemplo, sempre aparecem para os nossos informantes e demonstram no poder de escolha da Web o seu maior trunfo. Neste caso, nos deparamos com questões relacionadas à possível autonomia do espectador-usuário 9 , e passamos a compreender a interatividade como um vínculo não exclusivamente associado à técnica ou aos hábitos e influências sócio-culturais, mas como estabilizações temporárias com as quais nossos informantes lidam nos momentos de interação com os suportes comunicacionais. Assim, propomos aqui mapear momentos nos quais a programação de TV eventualmente é conectada às redes 8 “A expressão caixa-preta é usada em cibernética sempre que uma máquina ou um conjunto de comandos se revela complexo demais” (LATOUR, 2000: 14). Há, portanto, relação com fatos ditos incontestáveis, os quais adquirem estabilidade ao conseguirem neutralizar incertezas e controvérsias ao seu redor. Neste caso, a caixa-preta está fechada; ficando a cargo de algum tipo de polêmica ou mudança no cenário geral de existência do fato o poder de reabri-la. 9 Apesar de ainda sabermos muito pouco sobre as transformações no indivíduo receptor de mensagens por meios digitais – possivelmente mais ativo em relação ao consumo de informação - já são chamados de diversas formas, entre elas: leitor imersivo ou usuário, (SANTAELLA, 2004), interagente (PRIMO, 2003), interator (MURRAY, 2003), participador (MACIEL, 2009) ou teleusuário (BRACKMANN, 2010). 20 virtuais com o objetivo de “ampliar” – pela complementação com banco de dados, informações e imagens adicionais ou espaço para troca de opiniões pessoais – o processo comunicacional de um conteúdo específico. Em seu trabalho sobre redes sociais digitais, Lúcia Santaella e Renata Lemos (2010) percorrem este mesmo caminho, no entanto, sugerem cuidado na possível confusão entre rede de actantes e algum conceito de redes em contexto exclusivamente técnico digital. A Teoria Ator-rede diferencia-se das teorias de redes sociais “por ampliar de maneira até desconcertante a noção de atores ou actantes para além do dominio humano, alcançando quaisquer entidades não-humanas e não individuais” (SANTAELLA; LEMOS, 2010: 28). Para as pesquisadoras, a TAR “não pretende adicionar redes às teorias sociais, mas reconstruir a teoria social a partir das redes” (SANTAELLA; LEMOS, 2010: p.28). Assim, actantes não são entidades fixas, são fluxos com base nos quais o método irá descrever a propagação de associações. Santaella e Lemos (2010) propõem reorganizar e estender as explicações de Latour (1997) sobre as redes científicas nos laboratorios aos estudos de redes sociais na internet. E apesar de algumas críticas em torno da sua negligência às estruturas mais amplas de poder, para elas, a TAR nos ajuda a evitar o funcionalismo presente em muitos estudos de mídia, ela também insiste na hibridação do que é chamado de relações sociais; além disso, ela impede que as mídias sejam identificadas com a sociedade como um todo, assim como nos fornece uma linguagem precisa para formular como os fluxos complexos de atores representam uma forma distinta de poder (SANTAELLA E LEMOS, 2010: 46). O afastamento que o próprio Latour (2005) promove entre a TAR e a internet compreende-se pelo entendimento da Web como ligação entre tecnologias ou pessoas a partir de elementos que se repetem. Ao contrário, a TAR se propõe ao heterogêneo e ao imprevisível. O ator-rede não é pré-existente, ou um ponto isolado interligado a outro. A rede estabelece-se no domínio da experiencia e de conexões rastreáveis. Alguns pesquisadores justificam na Teoria Ator-rede um método privilegiado “na habilidade de trazer insights para compreender a tumultuada complexidade das RSIs” (SANTAELLA; LEMOS, 2010: 48) - Redes Sociais na Internet - e preparada para dar conta dos múltiplos actantes, sejam as diversas plataformas, softwares, códigos de linguagens, sujeitos, suas intenções ou cenários de recepção. As “conversas e trocas de indivíduo a indivíduo são apenas uma superficie visível que a TAR pode transformar em dizível (SANTAELLA E LEMOS, 2010: 48). Neste contexto de novas possibilidades técnicas em cenário de concorrência midiática, a programação da televisão começa a se deixar contaminar pelas características hipermidiáticas da internet. Alguns produtos televisivos passam a utilizar diferentes plataformas para distribuição e acesso. Henry Jenkins (2008) descreve este cenário de mudanças, onde a cinematografia clássica, séries ou reality shows televisivos incorporam um fluxo de conteúdo que perpassam múltiplos suportes midiáticos, influenciados sobretudo pelo comportamento migratório do público que vai em busca de suas próprias experiências de entretenimento. Em linhas gerais, o pesquisador nos descreve um espaço de produção e circulação de conteúdo que se distancia de um pólo centralizador, de caráter massivo, e passa a descrever uma concepção pós-massiva de 21 onde são estimulados novos comportamentos ligados aos produtos de entretenimento, baseados inclusive no que chamou de cultura da participação. Assim, situações mais complexas começam a tornar-se possível nas rotinas da audiência televisiva, e questões vinculadas ao maior poder de participação, cooperação e subversão das grades ganham destaque nas discussões envolvendo TV e internet . A influência da “amiga” Madeleine Akrich (1998) à TAR prevê a intervenção ativa do usuário no processo, uma vez que considera incompleta a configuração dos dispositivos técnicos. Com base na Sociologia das Inovações, segundo a qual as pessoas reinventam os objetos técnicos a partir dos seus próprios usos, faz uma leitura da Cultura da Matéria, pelo viés da tecnologia, buscando observar nos objetos técnicos o acirramento de suas funções práticas. A conexão entre usuário e o momento prático com objetos técnicos pode alterar significativamente a gama de intenções pretendidas para os dispositivos. Os usuários liberam algumas estratégias inovadoras e são o que Certeau (2009) chama de dimensão tática do uso, para a qual os objetos não estão reduzidos aos seus programas pré-estabelecidos. Há sempre a possibilidade de desvios de sua função original, rearranjada por seu comportamento tático no momento de uso. As formas de uso sempre podem ser subvertidas. Neste sentido, uma das grandes lições que as tecnologias da inteligencia vêm dando é que, quando as aplicações tecnológicas chegam à mentes e mãos dos usuários, estes produzem desvios mais ou menos drásticos no planejamento originalmente esperado. O uso, portanto, flexibiliza o programa. Os procesos bottom-up (de baixo para cima) refinam e trazem resultados que não estavam previamente codificados (SANTAELLA; LEMOS, 2010: 50). 3. Novos desafios metodológicos A nossa observação de campo, portanto, parte das controvérsias, dos desvios no uso, dos exemplos saudáveis de anarquia ou, algumas vezes, submissão, enfim, dos muitos exemplos nos quais os serviços disponíveis pela internet podem exacerbar a troca de informação, de afetividade, humor, ou mesmo, gerar “pequenos acenos de presença” (SANTAELLA E LEMOS, 2010: 52). Os dispositivos móveis começam a proporcionar uma vivacidade initerrupta entre humanos e os pequenos sinais de presença são tão ou mais importantes do que os conteúdos do que é comunicado, o que aumenta a frequência da função fática da linguagem e das interjeições exclamativas, uma insistente litania de mensagens expressivas curtas (SANTAELLA E LEMOS, 2010: 52). Entretanto, não é objetivo central deste trabalho confirmar ou refutar as caixas-pretas, mas, levantar as instabilidades capazes de reabri-las, buscando na complexidade das múltiplas situações de convergência entre TV e Web detalhar as possibilidade e algumas de suas motivações. Assim, buscamos seguir o conselho de Lúcia Santaella e Renata Lemos (2010: 8): “Não é prudente se debruçar monograficamente sobre um fenômeno quando ele ainda se encontra em estado de fervura”. Tão cautelosa quanto Santaella e Lemos (2010), a professora Maria Immacolata Vassallo Lopes (2011) pondera em torno dos desafios metodológicos na passagem da 22 recepção televisiva para as novas mídias: “até onde podemos aprender com as experiências de pesquisa de recepção, e o quanto devemos começar de novo?” (LOPES, 2011: 1). A pesquisadora separa dois momentos de recepção com a televisão – antes e depois dos processos que incentivam a transmidiação e a interatividade – e afirma que os desafios com a internet são ampliados, e nos convoca a estarmos abertos às experiências de pesquisa com os chamados web métodos. Lopes (2011) mantem sua preocupação focada no grau e no modo de participação das audiência diante das situações complexas de multiplicação das telas e modos de uso: da sua mobilidade, características e linguagem. Assim, as pesquisas de recepção com os novos meios começam a repensar suas ferramentas metodológicas, principalmente, quando a figura do receptor passa a incorporar também o perfil de produtor de narrativas e informação. A criação das obras e suas situações de interação começam a assumir características de autoria compartilhada. Para Lopes (2011), em conteúdos que implicam o uso da internet, as pessoas compartilham um maior número de informações e, ao que tudo indica, estão mais envolvidas com o processo de recepção. Por este motivo, questões sobre as ferramentas e o enfoque para as pesquisas empíricas, segundo a pesquisadora, devem estar pautados por um protocolo multi-metodológico. Já para Raquel Recuero (2009) os estudos de agrupamentos sociais no ciberespaço são ainda pouco conhecidos no Brasil e estão em fase de construção de suas bases empíricas. Seguem, a partir da observação sistemática dos fenômenos, no sentido de “verificar padrões e teorizar sobre os mesmos. Estudar redes sociais, portanto, é estudar os padrões de conexões expressos no ciberespaço. É explorar uma metáfora estrutural para compreender elementos dinâmicos e de composição dos grupos sociais” (RECUERO, 2009: p.22). Assim, a etnografia virtual também pode incorporar efeito performativo no sentido em que o pesquisador participa da criação destes artefatos culturais ao penetrar por entre seus fluxos de conexões e analisar as suas motivações, tanto no espaço online como nas situações offline. Neste sentido, escolhemos alguns programas de televisão - SWU/2011 10 , Acesso MTV 11 e BBB 12 12 - e passamos a acompanhar por alguns dias, via sites de relacionamento (especificamente, Facebook 13 e Twitter 14 ), as transmissões e, paralelamente, os comentários sobre a programação. 10 O SWU é um festival de música que acontece anualmente no interior do estado de São Paulo. A sustentabilidade é a temática central do evento, e a edição de 2011, realizada entre os dias 12 e 14 de novembro, foi transmitida pela Rede Globo. Segundo os organizadores, cerca de 180 mil pessoas participaram desta edição. 11 O programa Acesso MTV é veiculado diariamente pela MTV Brasil. Traz informações sobre o universo da música e trechos de videoclipes. Ao longo do programa, perguntas feitas pelas apresentadoras e respondidas pelos telespectadores por meio das redes sociais. Algumas respostas são selecionadas e lidas ao vivo. 12 Em sua décima segunda edição, o Big Brother Brasil é um reality show produzido pela Rede Globo. Na versão brasileira do programa, os participantes ficam confinados durante os meses de janeiro, fevereiro e março, e disputam o prêmio de R$ 1,5 milhão. 13 Sistema criado em 2004 e teve como objetivo inicial criar uma rede de contatos que funcionasse através de perfis e comunidades. O Facebook (http://www.facebook.com) é o segundo maior site de rede social no Brasil e sofreu um crescimento de 192% sua quantidade de visitantes, de 8 milhões para 24,5 milhões em junho de 2011. Fonte: Relatório da comScore Media Metrix. 23 As redes sociais ou comunidades virtuais se constituíram a partir da comunicação mediada por computador, transformando a noção de “lugar” geográfico das relações sociais. Uma transformação de começa não necessariamente ligada à internet, mas com o “advento das cartas, do telefone e de outros meios de comunicação mediada [que] iniciaram as trocas comunicacionais, independente da presença” (RECUERO, 2009: 135). Estas comunidades se constituem sob a forma aglomerados de pessoas que possuem algum tipo de relacionamento ou interesse comum, e que através de sites pela internet estebelecem outros vínculos. Raquel Recuero (2009: 13) “se propõe a pensar as redes sociais na internet reconhecendo-as justamente como agrupamentos complexos instituídos por interações sociais apoiadas em tecnologias digitais de comunicação”. Uma rede social, na sua forma digital de mediação, estabelece alguns padrões de conexões entre os seus diversos participantes, assim como o que acontece como os grupos sociais não-virtuais. Os usuários se tornam identificáveis pelos perfis que diponibilizam nas suas páginas, pelas associações que fazem a grupos de amigos ou comunidades, pelos comentários que produzem e, a partir das interações entre estas diversas ações - matérias-prima das relações e dos laços sociais - nós começamos a rastrear e buscar entender o que motivava esses participantes e quais seriam os seus interesses centrais. Especificamente sobre os sites de relacionamento, os fluxos de troca de informação acontecem de forma assíncrona e reativa - alguns usuários vão apenas reagindo aos estímulos lançados por outros participantes ou dentro de um círculo limitado de atores – no sentido em que Primo (2003a) relaciona ao “uso que está pronto”. No entanto, além disso há ferramentas síncronas para conversas em tempo real. E os sites em questão também oferecem um espaço de decisões multidirecionais e inventidas: campos disponíveis (murais e timelines) para lançar questões, fotos, vídeos, fazer comentários pessoais, e realizar um amplo diálogo entre as diferentes partes envolvidas, com poder de converter estes espaços de relacionamento em arena de discussão e negociação criativa, a partir da conexão entre vários comentários. 4. Penetrando a rede em processo Uma análise panorâmica das redes denuncia que os sites também assumem uma faceta afetiva, ligada à intimidade, que ora parece irrestrita e ora, como fortalecimento de relações pré-existentes. São praticamente diários os cumprimentos lançados para a rede de amigos. Mas, se alguns cumprimentos parecem ecoar no vazio, assim como nos veículos convencionais, outros denunciam que estas redes, apesar de originalmente extensas, na verdade, tem o poder de confirmar laços íntimos de amizade. Após uma análise mais geral, buscamos localizar possíveis informantes nos espaços onde as interações aconteciam: direto nos perfis de comunidades vinculados aos programas de 14 É um tipo de site (http://twitter.com/) que apresenta uma estrutura semelhante ao dos blogs, no entanto, permite apenas a inserção 140 caracteres (tweet) a partir da pergunta: o que você está fazendo? Por este motivo, convencionou-se chamá-lo de microblogging. Foi fundado em 2006 e funciona a partir da escolha de seguidores e pessoas a seguir,assim, filtrando as informações que deseja receber. O Twitter não é muito popular no Brasil, ocupa o quarto espaço no ranking de sites de redes sociais e alcançou 12 milhões de visitantes no mês de junho de 2011. Fonte: Relatório da comScore Media Metrix. 24 televisão já mencionados. A partir dos comentários lançados pelos usuários íamos buscando identificar suas rotinas e características, assim como, tentando estabelecer um contato mais direto, via canal de mensagens. 4.1. Interação “com” e “sobre” televisão A frequência e o teor dos comentários nos levavam a interpelar os participantes, no entanto, a diversidade de interesses e as formas de comportamento já demonstravam o grau de complexidade no campo. Assim, buscamos algumas estabilizações provisórias ao separar dois grupos de participantes: 1) os que faziam comentários para os programas de televisão e; 2) os que faziam comentários sobre os programas de televisão. Como já descrito por Jenkins (2008), as narrativas e conteúdos audiovisuais estão sendo desdobrados para os formatos digitais, sendo também distribuídos em suas versões adaptadas via Web. A razão pode ser tanto atender a uma demanda de espectadores mais exigente e qualificada, como explorar outros espaços de comercialização desses conteúdos televisuais. Neste caso, passamos a perceber um comportamento típico do fã e @BarbaraCastro é um bom exemplo para ilustrar esta situação. Antes mesmo do programa Acesso MTV voltar das férias à sua programação normal, ela já postava tweets clamando por seu retorno. Ao longo do programa ao vivo, não era diferente, a informante sempre postava tweets com comentários ou com respostas às perguntas das apresentadoras. Visivelmente, neste período, estava entre as mais entusiasmadas. Questões materiais nos ajudaram a tentar entender uma participação tão ativa. No caso da fã em questão, utilização de conexão via celular e notebook. De certo que o programa estimulava esta participação, colocando perguntas diretas aos espectadores e lendo ao vivo algumas respostas postadas. Isto certamente ajudava a alimentar o grau de intimidade entre os espectadores-usuários e o programa, assim como, a reciprocidade e a confiança entre os mesmos. Com @BarbaraCastro não era diferente. Disse que a sua motivação era que em algum dia o seu nome fosse citado ou alguém do programa falasse com ela. Quando perguntamos o que sentiria: “O QUE SENTIRIA? Eu iria começar a pular, gritar, correr pela casa e ficar rindo sozinha” (Entrevista via Twitter, janeiro de 2012). Mas, o que observávamos em geral eram comentários que pareciam dizer algo apenas para si mesmos. Eles existiam para o puro prazer de alguém expressar-se. Vale lembrar a afirmação de Santaella e Lemos (2010) sobre o contato contínuo possível pelos dispositivos móveis e pelas redes de encontro ou troca, quando privilegiam aqueles “pequenos sinais de presença” (p. 52), tão importante quanto os conteúdos existentes nas manifestações. Um dos nossos informantes entrevistados, @Pouquinho, ratifica o que as autoras chamam de “breves acenos”, e diz: “O Face [Facebook] é um espaço para discussões menos sérias e não para grandes questões” (Entrevista presencial, janeiro de 2012). Mesmo em situações nas quais os programas (ou as transmissões) utilizam os murais e timelines para prospectar espectadores, os comportamentos são bem variados. Curiosamente, alguns reproduzem situações parecidas com as de prestação de serviços dos programas de rádio: envio de beijos, promoções, sorteios etc. O que parece servir de estímulo para os teleusuários. @Angelica, inclusive, disse que participa dos progra-