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As ânforas do Teatro Romano de Olisipo (Lisboa, Portugal): campanhas 2001-2006

Filipe, Victor

Abstract

O texto que se dá à estampa consiste no estudo das ânforas romanas exumadas nas intervenções arqueológicas realizadas no teatro romano de Lisboa nas campanhas de 2001, 2005 e 2006. Trata-se de um conjunto relativamente amplo e tipologicamente diversificado recolhido em contextos arqueológicos relacionados com a edificação e remodelação do edifício. Estes contentores testemunham, em Olisipo, a importação de produtos alimentares de vá- rios locais do império desde meados do século II a.C. até ao terceiro quartel do século I d.C., constituindo-se como importantes indicadores para o estudo da dinâmica comercial de Olisipo.

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SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL): CAMPANHAS 2001-2006 AMPHORAE FROM THE ROMAN THEATRE OF OLISIPO (LISBON, PORTUGAL): 2001-2006 CAMPAIGNS VICTOR FILIPE* Resumo: O texto que se dá à estampa consiste no estudo das ânforas romanas exumadas nas intervenções arqueológicas realizadas no teatro romano de Lisboa nas campanhas de 2001, 2005 e 2006. Trata-se de um conjunto relativamente amplo e tipologicamente diversificado recolhido em contextos arqueológicos relacionados com a edificação e remodelação do edifício. Estes contentores testemunham, em Olisipo, a importação de produtos alimentares de vários locais do império desde meados do século II a.C. até ao terceiro quartel do século I d.C., constituindo-se como importantes indicadores para o estudo da dinâmica comercial de Olisipo. Palavras chave: Teatro romano, Olisipo, ânforas, comércio, produtos alimentares. Abstract: This text consists in the study of the Roman amphorae recovered in the archaeological excavations accomplished in the Roman theatre of Lisbon in the 2001, 2005 and 2006 campaigns. It is a relatively wide and typologically diversified set, collected in archaeological contexts related with the construction and remodelling of the theatre. These containers testify, in Olisipo, the importation of alimentary products from several places of the empire from the middle of the 2nd century B.C. to the third quarter of the 1st century A.D., representing important indicators for the study of the commercial dynamics of Olisipo. Keywords: Roman theatre, Olisipo, amphorae, trade, alimentary products. 1. INTRODUÇÃO O estudo que aqui se apresenta corresponde a um trabalho desenvolvido em 2008 no âmbito da dissertação de Mestrado em Pré-História e Arqueologia, apresentado pelo autor à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, versando sobre as ânforas de Época Romana documentadas nas intervenções arqueológicas levadas a cabo no Teatro Romano de Lisboa em 2001, 2005 e 2006. Desde logo, o desenvolvimento deste tema revestia-se de alguns aspectos que se consideraram pertinentes e, simultaneamente, aliciantes: a existência de um conjunto expressivo e diversificado de materiais anfóricos provenientes de escavações recentes e com contextos bem definidos, permitindo uma leitura das diacronias e sincronias; o facto destes contextos se reportarem a um período histórico relativamente curto e bem definido no tempo - do principado de Augusto ao de Nero -, sobre o qual a informação se mantém assaz * Bolseiro de Doutoramento em Arqueologia: UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa), FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). Correo-e: victor[email protected] Recepción: 18 de diciembre de 2013. Aceptación: 23 de enero de 2014 130 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 escassa na cidade de Olisipo, especialmente no que se refere à dinâmica comercial e dieta alimentar; por fim, a associação desta realidade arqueológica aos momentos de construção e remodelação do teatro romano de Lisboa. Tendo em conta as especificidades da amostra, optou-se por estruturar o trabalho em três partes. Na primeira, apresenta-se o suporte estático do território no contexto geográfico do vale do Tejo e fachada atlântica e sintetiza-se a evolução histórica de Olisipo até à época de construção do teatro. Paralelamente realiza- -se um breve resumo das intervenções recentes levadas a efeito no teatro romano de Lisboa, apresentando-se os contextos arqueológicos e as leituras estratigráficas, procurando-se estabelecer um faseamento diacrónico através das sincronias documentadas e a sua associação e interpretação com os momentos de construção e remodelação do edifício público. Seguidamente, privilegiando-se os vários aspectos relacionados com a morfologia, tipologia, cronologia, conteúdo e âmbitos de produção e difusão apresentam- -se e caracterizam-se sumariamente as tipologias identificadas, procurando-se determinar as distintas áreas de proveniência. Por fim, analisam-se os dados quanto ao seu significado quantitativo e qualitativo, e determinam-se as várias leituras e apreciações possíveis, procurando integrá-las no estudo da economia antiga de Olisipo. Refira-se ainda que o texto que agora se publica foi, como já se mencionou, redigido em 2008, tendo- -se aqui optado por não realizar uma actualização do mesmo, com excepção da revisão de um ou outro pormenor. Embora o referido texto se mantenha genericamente actual, há naturalmente algumas questões que aqui se abordam que conheceram algum desenvolvimento desde então (para além, naturalmente, das questões que pouco mais representam - para este estudo, claro está - que meros “pontos no mapa”). Tal é o caso, por exemplo, da questão das ânforas ovoides produzidas no vale do Guadalquivir, que foram recentemente sistematizadas no trabalho monográfico de Rui Almeida (2008) e num extenso artigo por García Vargas, Rui de Almeida e González Cesteros (2011). Ainda assim, e independentemente da elevada qualidade dos referidos trabalhos e do seu relevante contributo para o estudo daquelas produções, considera-se que esses resultados não alteram significativamente as leituras que então foram feitas acerca das dinâmicas comerciais e hábitos de consumo na cidade de Olisipo, a partir do estudo do conjunto anfórico do teatro romano de Lisboa. (Figura 1) 2. O VALE DO TEJO, OLISIPO E O TEATRO ROMANO 2.1. O vale do Tejo O primitivo núcleo urbano de Lisboa desenvolveu- -se na colina onde hoje se implanta o castelo de São Jorge, à entrada do Tejo, junto a um antigo esteiro de rio onde desaguavam várias ribeiras. Ladeada a Oeste pelo esteiro de rio e a Sul pelo próprio Tejo, o sopé da colina do castelo reunia excelentes condições portuárias, que, aliás, viriam a estar na origem do seu crescimento e desenvolvimento. A Norte, sobressaem colinas calcárias e montes vulcânicos flanqueados por pequenas linhas de água, onde se exploravam os ricos vales aluviais caracterizados por uma agricultura rica e variada (Gaspar 1994: 12). Acerca da geografia dos arredores de Lisboa, Orlando Ribeiro faz a seguinte descrição: «…os barros basálticos dão campos limpos e abertos destinados à cultura do cereal; os calcários secundários, charnecas abandonadas ao mato e pasto; os calcários terciários cobrem-se de olivedo; as baixas argilosas, de hortas regadas; o pinhal reveste as colinas de arenito improdutivo» (Ribeiro 1998: 154). O rio Tejo, verdadeira estrada de acesso ao interior, regulou e moldou, desde tempos antigos, o desenvolvimento da urbe que se fixou à entrada do seu estuário, fornecendo-lhe uma importância estratégica ímpar que ainda nos dias de hoje mantém. Esta imensa via fluvial permitiu que desde cedo se estabelecesse o contacto entre os povos da bacia mediterrânica e aqueles que habitavam as regiões do interior a montante da sua foz, fomentando, assim, importantes intercâmbios culturais e comerciais. As particularidades topográficas do local onde se implanta a actual cidade de Lisboa permitiam um amplo controlo visual da região envolvente, principalmente da entrada do rio e do seu acesso ao interior, bem como da margem Sul, aliada a excelentes condições naturais de defesa. Outros factores houve, decorrentes da sua localização geográfica específica, que potenciaram o seu desenvolvimento económico e lhe concederam o estatuto de importante centro urbano desde o primeiro milénio a.C. A riqueza aurífera das areias do Tejo era bem conhecida na antiguidade e aparece referida nas fontes clássicas (Plínio-o-Velho, 4, 115), do mesmo modo, aliás, que é referida a abundância de pescado (Estrabão, III, 3, 1). As actividades directa e indirectamente relacionadas com a exploração dos recursos marinhos e fluviais pautaram, em grande medida, a economia de Olisipo, 131 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 dando origem a importantes indústrias de transformação do pescado, de fabrico e produção de envases cerâmicos e de exploração do sal, factores que viriam a dotar este centro urbano de uma forte componente industrial, particularmente vocacionada para a transacção de produtos piscícolas. Estrabão descreve de forma algo curta e concisa a região da foz e do vale do Tejo, mas fá-lo de forma eloquente: O Tejo, na foz, tem cerca de vinte estádios de largura, e tão grande é a sua profundidade que por ele navegam barcos de dez mil ânforas. Nas planícies que ficam a montante, forma, na maré-cheia, dois estuários que alagam uma superfície de cento e cinquenta estádios e tornam a planície navegável. No estuário, que fica mais a montante, envolve uma ilhota com uns trinta estádios de comprimento e pouco menos de largura, coberta de vegetação e de vinhas (Estrabão, III, 3, 1 - tradução de A. Espírito Santo, 2004: 412-413) Em suma, a sua localização geográfica, entre o Norte atlântico e o Sul mediterrânico, na foz de um extenso e navegável rio, reunindo condições que lhe permitiram afirmar-se como um importante pólo de contacto cultural e comercial entre o interior, a fachada atlântica e o mar Mediterrâneo, bem como explorar quer as férteis Figura 1. Localização do teatro romano na planta de Lisboa e da cidade na Península Ibérica. 132 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 terras das imediações quer a riqueza que o Tejo oferecia, granjeou-lhe a importância que desde cedo se começou a desenhar. 2.2. Olisipo Embora existam vestígios de ocupações antigas na área do morro do castelo e vales circundantes, enquadráveis no Paleolítico (Muralha 1988), no Neolítico Antigo, Calcolítico e Idade do Bronze (Muralha et al. 2002: 246; Angelucci et al. 2004: 27), foi sobretudo a partir da Idade do Ferro que aqui se desenvolveu um centro urbano de dimensão considerável. Os vestígios conhecidos para este período permitem esboçar um quadro do que terá sido a ocupação sidérica de Lisboa, alicerçados, principalmente, nos dados das intervenções arqueológicas levadas a cabo nos últimos vinte anos. Os resultados dessas intervenções, desenvolvidas na área do primitivo núcleo urbano de Olisipo, têm vindo sucessivamente a confirmar as considerações que Ana Margarida Arruda (2002) teceu em relação ao povoado da Idade do Ferro que terá existido em Lisboa. Entrevê-se um povoado de grandes dimensões, porventura o maior povoado orientalizante do território actualmente português, «… de importancia capital y una población probablemente muy numerosa.» (Arruda 2002: 129), o que, aliás, vem de encontro ao que Estrabão (III, 3, 1) relatou, afirmando que Olisipo era uma das duas cidades mais importantes do vale do Tejo. De facto, os dados disponíveis deixam perceber que a área ocupada abrangia o topo da colina do castelo e as suas encostas até ao rio Tejo, a Sul, ao esteiro de rio, a Oeste, na actual Baixa, e até à actual Rua da Regueira, Alfama, a Este, onde corria um pequeno curso de água, cristalizado na toponímia da cidade no nome da rua. Ainda segundo Ana Margarida Arruda, Olisipo poderá ter representado, na gestão do território envolvente, um papel relevante, «…não podendo descartar-se a hipótese de se estar perante o sítio que, ao coordenar as actividades comerciais e de gestão dos recursos, assumiria o papel de “Lugar Central”.» (Arruda et al. 2000: 29). Mercê de condicionalismos próprios da investigação, os vestígios conhecidos atribuíveis a uma primeira fase da ocupação sidérica de Lisboa, com claras influências orientalizantes e conjuntos artefactuais de carácter marcadamente mediterrânico, são em maior número que aqueles que se reportam à fase subsequente. Os dados arqueológicos da Rua de São João da Praça (Pimenta et al. 2005), do Palácio do Marquês de Angeja (Filipe et al. 2005) e do castelo de São Jorge (Pimenta 2005), vêm contribuir para um avolumar de informação demonstrativo daquilo que Ana Margarida Arruda intitulou de «conservadorismo orientalizante» (Arruda 2002: 258), evidenciando uma continuidade cultural, contrariamente ao que acontece em outras regiões do interior, verificável quer na importação de produtos alimentares envasados em contentores anfóricos de proveniência meridional, quer de cerâmica grega de verniz negro e figuras vermelhas (Pimenta 2005), muito provavelmente igualmente difundida no ocidente peninsular pelos mercadores daquela região. Dentro dos locais intervencionados que têm contribuído para o que hoje se conhece acerca da ocupação sidérica de Olisipo poder-se-ão referir, entre outros, o claustro da Sé de Lisboa, com ocupação pelo menos desde o século VI a.C. (Amaro 1993; Arruda et al. 2000; Arruda 2002); o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, séculos V a III a.C. (Amaro 1995; Bugalhão 2001); a zona da alcáçova islâmica do castelo de São Jorge, onde se registaram contextos estratigráficos bem preservados com uma diacronia de ocupação que abrange grande parte do I milénio a.C., desde o século VII até à chegada dos primeiros contingentes militares romanos no terceiro quartel do século II a.C. (Gomes et al. 2003; Pimenta 2005); a Rua de São Mamede (Silva et al. 2005); o Palácio do Marquês de Angeja, com uma diacronia de ocupação compreendida entre o século VII a.C. e a romanização (Filipe et al. 2014); a Rua São João da Praça (Pimenta et al. 2005); e a Casa dos Bicos (Amaro 2002). Em relação ao topónimo pré-romano, Olisipo, que nos é transmitido quer pelas fontes clássicas (Estrabão e Plínio-o-Velho, por exemplo) quer pela epigrafia (Silva 1944), este denuncia claras influências mediterrânicas, tendo sido sugerido que a sua origem etimológica se deveria procurar no mundo fenício (Fontes 1947). A terminação em «-ipo» relaciona-se com outros topónimos situados, sobretudo, na região da actual Andaluzia e na fachada atlântica peninsular (Fabião 1993: 143), deixando antever uma mesma realidade linguística (Guerra 2000). Em traços largos, é este o panorama hoje conhecido para a Lisboa pré-romana, e a realidade que os romanos encontraram quando, no contexto da conquista romana da Península Ibérica, ocuparam esta região. O palco da primeira fase das guerras travadas em solo hispânico situou-se essencialmente na zona Este e sudeste da Península Ibérica, bastante longe, portanto, da área geográfica que aqui nos ocupa. Existe, 133 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 porém, uma referência ao ocidente peninsular no período da segunda guerra púnica (218-206 a.C.), concretamente no inverno de 210 a.C. A informação transmitida é contraditória, por um lado Políbio (10, 7, 4) refere que Asdrúbal, filho de Giscão e chefe de exército cartaginês, invernou com o seu exército na Lusitânia, junto à foz do Tejo; por outro, Tito Lívio (26, 19, 20) afirma que o mesmo chefe cartaginês teria invernado com o seu exército nas imediações de Cádis (Fabião 1993: 210). Ainda que a informação de Políbio esteja correcta, não deixa de ser estranho que o exército invernasse em local tão distante do palco de guerra, deixando antever, nesse caso, algum foco de instabilidade suficientemente importante para fazer deslocar, numa altura tão delicada, um exército para local tão afastado (idem: 211). Essencialmente militar, a ocupação romana da Península Ibérica nos finais do século III e no dealbar do século II a.C. pautava-se principalmente pela exploração e pelo estabelecimento da ordem no território controlado. Em 197 a.C., a Península Ibérica é dividida em duas províncias: a Hispânia Ulterior, a ocidente, e a Hispânia Citerior a oriente, naquilo que se constituiu como a primeira divisão administrativa do território (idem: 212). Apenas com o final das “Guerras Lusitanas” (155-139 a.C.) se voltam a ter referências sobre Olisipo e o vale do Tejo nas fontes clássicas (Pimenta 2005: 24). Embora nem sempre o registo arqueológico se consiga articular com as informações narradas pelos autores clássicos, no caso da mais antiga presença romana na cidade de Olisipo logrou-se estabelecer uma ligação entre as fontes clássicas e os dados fornecidos pela arqueologia. Estrabão, referindo-se à temerária campanha militar levada a cabo por Décimo Júnio Bruto no ocidente peninsular em 138 a.C., naquela que se constituiu como a primeira grande investida efectuada pelos contingentes militares romanos nesta zona da Península Ibérica, referiu-se a Olisipo nos seguintes moldes: Para montante de Móron o curso navegável é ainda mais longo. Servindo-se desta cidade como base de operações, Bruto, cognominado o Calaico, atacou os Lusitanos e submeteu-os. Fortificou Lisboa para dominar o curso do rio e, deste modo, manter livre a navegação fluvial e o transporte de abastecimentos, a tal ponto estas eram as cidades mais importantes das margens do Tejo.» (Estrabão, III, 3, 1 - tradução A. Espírito Santo, 2004). Integráveis neste âmbito cronológico, concretamente entre 140 e 130 a.C., são alguns contextos recentemente escavados na antiga alcáçova islâmica de Lisboa e estudados por João Pimenta (2005). O autor, embora sublinhando que os contextos são limitados quanto à percepção do tipo de ocupação que ali ocorreu, sugere, como proposta de trabalho, que se possa tratar de evidências de uma instalação militar romana (idem: 130). É inegável a importância que os dados recolhidos naquelas escavações têm para a compreensão das primeiras ocupações romanas na actual cidade de Lisboa (e ocidente peninsular), quer pela riqueza de informação que aportaram, quer pelos parcos testemunhos desta época conhecidos em outras partes da cidade. Também na Rua São João da Praça, no âmbito de uma intervenção de emergência, foram detectados contextos conservados que abrangem um arco temporal que se estende desde meados do século III a.C. até à chegada dos primeiros contingentes romanos (Pimenta et al. 2005). Voltando à campanha militar encetada por Décimo Júnio Bruto, de acordo com as fontes, este general terá então estabelecido o seu quartel-general no vale do Tejo junto à cidade de Móron, cuja exacta localização se desconhece, não descurando, todavia, a retaguarda, tendo, através da fortificação de Olisipo, criado condições para garantir um fácil abastecimento por via marítima ao seu exército (Fabião 1993: 217). Ainda relativamente à localização de Móron, segundo Fabião (idem), há que buscá-la em três locais - Chões de Alpompé, Alpiarça (Alto do Castelo) ou Santarém, embora a primeira hipótese seja a mais consistente (Fabião 2006: 28). O papel que o vale do Tejo terá tido no contexto das acções militares desenvolvidas por Roma no extremo ocidente peninsular não se esgota na campanha de Décimo Júnio Bruto, deixando-se entrever igualmente nas operações militares levadas a cabo por C. Júlio César, já em 61-60 a.C., contra os Lusitanos. O então Pretor da província da Ulterior estabeleceu o seu quartel-general em Scallabis e avançou para Norte recorrendo ao apoio de meios navais (Fabião 1989: 46), tendo, por certo, Olisipo desempenhado um papel activo no âmbito das actividades transversais que estas movimentações militares sempre estimulam. Entre 31 e 27 a.C., Olisipo recebeu o estatuto de municipium civium Romanorum e, com ele, a designação de Felicitas Iulia Olisipo (Faria 1999: 37), indício evidente da importância que esta urbe detinha à época. Durante o principado de Augusto assiste-se a uma enérgica reestruturação urbanística na cidade de Olisipo, tendo então sido construídos alguns dos edifícios públicos mais emblemáticos de período romano que hoje se conhecem nesta cidade, como o teatro - que aqui 134 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 nos ocupa - e, presumivelmente, o fórum e as termas (Alarcão 1994; Fernandes 1997; Silva 1999; Bugalhão 2001). Esta reestruturação inscreve-se num conjunto de reformas mais amplo empreendido por Augusto na Hispânia, e no restante império, constituindo-se como um testemunho do impulso urbanizador daquele que é normalmente designado como o primeiro imperador romano (Le Roux 1995; Fabião 2006). 2.3. O teatro romano O teatro romano de Lisboa localiza-se na encosta Sul da colina do castelo de São Jorge, no local onde actualmente confluem as ruas da Saudade e de São Mamede. Embora de modestas dimensões, quando comparado com outros teatros romanos da mesma época, este importante equipamento de lazer da Lisboa romana evidencia-se pela excelência da sua construção e técnicas construtivas adoptadas, bem como pelo hábil e eficaz aproveitamento da topografia do terreno (Fernandes 2006: 194). A descoberta deste edifício nos tempos modernos deve-se ao terramoto de 1755. Com efeito, foi durante as obras de reconstrução da cidade, em 1798, que ele foi identificado e desaterrado sob a orientação dos arquitectos Francisco Xavier Fabri e Manuel Caetano de Sousa. Seria em 1964, mais de um século e meio depois de Francisco Fabri propor ao rei a salvaguarda das ruínas, que, na sequência da aquisição de alguns dos edifícios construídos sobre o teatro romano, se viriam a efectuar as primeiras intervenções arqueológicas no local. A iniciativa coube a D. Fernando de Almeida, então Presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses e professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Almeida 1966: 563; Fernandes 2007: 30). Estas intervenções arqueológicas viriam a ter continuidade entre 1966 e 1967 sob a direcção de Irisalva Moita, na altura conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa. A área intervencionada na década de sessenta corresponde essencialmente à zona que havia sido identificada e registada por Francisco Xavier Fabri e Manoel Caetano de Sousa nos finais do século XVIII, redescobrindo-se a zona da orchestra e o embasamento do muro do proscaenium, tendo-se ainda posto a descoberto outras estruturas, como o início dos degraus da imma cavea a Norte, e o arranque da parede Sul do aditus maximus a Este (Moita 1970: 7-37; Fernandes 2006: 182). Embora Irisalva Moita tenha continuado a desenvolver esforços no sentido de garantir a continuação das intervenções arqueológicas no local, os trabalhos viriam a ser interrompidos, por dificuldades diversas, em 1967. (Figura 2). Entre 1985 e 1988 o Instituto Arqueológico Alemão procedeu ao levantamento gráfico exaustivo dos vestígios arqueológicos do teatro romano de Lisboa. O trabalho foi dado à estampa em 1990, juntamente com uma proposta sobre a dimensão total do monumento (Hauschild 1990: 348-392), hoje posta em causa face aos novos dados entretanto obtidos no decurso das recentes intervenções (Fernandes 2007: 30). Data de 1987 a criação do entretanto extinto Gabinete Técnico do Teatro Romano de Lisboa, então sob a responsabilidade de Adriano Vasco Rodrigues. As intervenções arqueológicas iniciar-se-iam em 1989, sob a responsabilidade de António Dias Diogo, prolongando-se até 1993. Durante estes anos as intervenções centraram-se sobretudo na zona das bancadas, a Norte, sob a rua da Saudade, onde se exumou parte da cavea e do aditus maximus, a Este. Procedeu-se ainda ao desmonte de parte das fachadas dos edifícios da rua da Saudade, parcialmente demolidas na década de sessenta (idem: 30 e 31). Ainda durante estas campanhas, foi identificado um dos vomitoria, localizado no topo da imma cavea, então posta a descoberto, bem como um pequeno muro em pedra vã que Dias Diogo considerou particularmente importante na definição da cronologia de alteração da funcionalidade do teatro, possivelmente na segunda metade do século V (Diogo 1993: 222 e 224). Os resultados destas campanhas viriam a ser parcialmente publicados por Dias Diogo em 1993. O mesmo autor publicaria, anos mais tarde, conjuntamente com Eurico de Sepúlveda, o estudo das lucernas provenientes das intervenções arqueológicas realizadas entre 1989 e 1993 no teatro romano (Diogo e Sepúlveda 2000: 153-161), bem como o estudo das ânforas aí exumadas (Diogo 2000: 163-179). (Figura 3) Em 1998 foi desactivado o Gabinete Técnico do Teatro Romano de Lisboa e, simultaneamente, apresentado por Ana Cristina Leite (Chefe de Divisão dos Museus e Palácios do Departamento de Património Cultural da Câmara Municipal de Lisboa) um Programa de Recuperação e Valorização do Teatro Romano, que compreendia um conjunto de objectivos que englobavam: a conservação e restauro das estruturas colocadas a descoberto em anteriores intervenções e respectiva musealização; criação do Museu do Teatro Romano; intervenção arqueológica dos locais a serem afectados pelas obras para instalação do futuro museu; integração urbana e reabilitação da área envolvente (Fernandes 2007: 31). 135 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 Figura 2. Levantamento e proposta de dimensão total do teatro romano de T. Hauschild (1990), e localização das intervenções arqueológicas de 2001, 2005 e 2006. Figura 3. Aspecto geral sobre a área de escavação do pátio, observando-se em cima à esquerda o muro do postcaenium (fotografia do autor, 2012). 136 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 É neste projecto que se inserem as mais recentes intervenções arqueológicas levadas a cabo no teatro romano de Lisboa em 2001, 2004, 2005 e 2006, sob a direcção científica de Lídia Fernandes 3. REALIDADE ARQUEOLÓGICA E SIGNIFICADO DOS CONTEXTOS ESTRATIGRÁFICOS O conjunto cerâmico objecto deste estudo provém integralmente das intervenções arqueológicas levadas a cabo em 2001, 2005 e 2006 na zona localizada a Sul do teatro. Proceder-se–á aqui apenas à análise dos contextos de Época Romana documentados nas escavações de 2005 e 2006. Nos depósitos atribuíveis ao terceiro quartel do século I d.C. regista-se sobretudo a presença de materiais tardo-republicanos e do principado de Augusto, bem como da Idade do Ferro, claramente descontextualizados, testemunhando uma ocupação ininterrupta nesta zona da cidade pelo menos desde o século VII a.C. até ao terceiro quartel do século I d.C. (Fernandes 2007: 35). A formação destes depósitos corresponde a uma acção de aterro intencional aparentemente realizada num único momento, estando certamente relacionada com as obras de remodelação do teatro romano, que se sabe terem ocorrido no ano de 57 d.C., durante o reinado de Nero, através da inscrição do frons pulpitum do proscaenium, oferecida por Caius Heius Primus, seviro augustal, que dedicou ao imperador as obras do proscaenium e da orchestra (Fernandes 2007: 35; Fernandes e Filipe 2007: 230). A associação de cerâmicas de paredes finas datáveis do principado de Augusto e do período de Tibério a Nero, de lucernas da mesma época, de várias formas de terra sigillata itálica e sudgálica com produção genericamente balizada entre 15 a.C. e 60 d.C. (Sepúlveda e Fernandes 2009), a par da existência de ânforas de tipo Dressel 20, Verulamium 1908 e algumas variantes possivelmente mais tardias de Haltern 70, aponta, como atrás se referiu, para uma cronologia coincidente com a data de remodelação do teatro, isto é, 57 d.C., ou, eventualmente, para um momento posterior não muito distante. Nos níveis mais antigos em que foram recolhidas ânforas romanas - camada 24 da vala 11, camada 16 das valas 9 e 11 e camada 11 da vala 10 - regista-se a presença de Greco-Itálicas, Dressel 1 Itálicas, Lamboglia 2 e Mañá C2 (T-7.4.3.3.) a par de um fragmento de cerâmica de engobe vermelho pompeiano da forma 6 de Aguarod Otal (1991), produzida a partir de Augusto, e de terra sigillata itálica com produção atestada a partir de 27 a.C. Estes depósitos encostam à base do muro do postcaenium e correspondem a um aterro presumivelmente efectuado num momento imediatamente após a construção da referida estrutura, sendo, portanto, coevos da construção daquele importante equipamento de lazer da cidade de Olisipo. A existência dos supracitados níveis de aterro de época romana parece encontrar explicação na construção de uma plataforma nivelada entre o muro do postcaenium e o paredão que delimita o espaço a Sul, igualmente construído naquele período, e que permite vencer um desnível natural bastante acentuado em relação à rua Augusto Rosa, constituindo-se, assim, como um patamar artificial coetâneo da construção do teatro e perfeitamente articulado naquele conjunto edificado (Fernandes 2007: 35). Nas camadas 12a, 18, 11a, 18b, 20 e 22 da vala 11, e 13 da vala 10, que se sobrepõem aos depósitos anteriormente descritos, observa-se a associação de uma moeda de Augusto, cerâmica de engobe vermelho pompeiano e terra sigillata itálica a ânforas de tipo Greco-Itálico, Dressel 1 Itálica, Mañá C2 (T-7.4.3.3.), T-9.1.1.1., Oberaden 83, Haltern 70 e Ovóides Lusitanas, remetendo- -nos, à semelhança dos níveis anteriormente referidos, para um horizonte cronológico genericamente enquadrável no principado de Augusto. (Figura 4). Com base nas especificidades estratigráficas e nas características dos materiais cerâmicos atrás referidos, e seguindo de perto não só os dados cronológicos fornecidos pelas ânforas, mas também a cronologia de produção de algumas das tipologias de terra sigillata itálica exumadas em níveis correspondentes à remodelação do teatro, algumas das quais com produção bastante circunscrita no tempo (entre 15 a.C. e 5 d.C.; entre 1 e 15 d.C.; e outras a partir de 15 e 10 a.C.), poder-se–á propor que a construção do teatro romano terá ocorrido algures durante os primeiros quinze ou vinte anos da nossa Era, proposta que, aliás, está de acordo com aquelas que Lídia Fernandes tem apresentado com base nos estudos que tem vindo a efectuar sobre as soluções e elementos arquitectónicos utilizados neste espaço cénico (Fernandes 2006, 2007 e 2008; Sepúlveda e Fernandes 2009). Assim, relativamente ao período romano, e perante os dados anteriormente expostos, poder-se-ão estabelecer duas fases cronológicas distintas para os contextos preservados: — Fase 1: Enquadrável nos finais do principado de Augusto/inícios de Tibério e coetânea da construção do teatro romano. Verifica-se a associação de ânforas Greco-Itálicas, Mañá C2 (T-7.4.3.3.), T-9.1.1.1., 137 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 Dressel 1, Lamboglia 2, Oberaden 83, Haltern 70 e Ovóides Lusitanas, juntamente com terra sigillata itálica com produção atestada a partir de 27 a.C., cerâmica de engobe vermelho pompeiano - forma 6 de Aguarod Otal (1991) - e uma moeda de Augusto. A presença de numerosos materiais do período de Augusto nos contextos da fase seguinte sublinha a existência de uma intensa ocupação deste espaço durante esta primeira fase, da mesma forma que demonstra terem existido, posteriormente, grandes perturbações nos níveis precedentes. — Fase 2: Traduz-se num conjunto de depósitos integrantes de um aterro que terá, presumivelmente, ocorrido durante um curto espaço de tempo, relacionando-se directamente com as obras de remodelação do teatro, realizadas no ano de 57 d.C.. Para além de inúmeros materiais de cronologias mais antigas, que se estendem diacronicamente desde a Idade do Ferro até à primeira metade do século I d.C., constata-se a presença de ânforas cronologicamente enquadráveis no segundo e terceiro quartéis do século I d.C., de tipo Dressel 20, Verulamium 1908 e algumas variantes tardias de Haltern 70, tal como de cerâmicas de paredes finas datáveis do período de Tibério a Nero, de terra sigillata sudgálica da mesma época, de terra sigillata itálica produzida durante a primeira metade do século I até ao ano 60 do mesmo século, e de lucernas de período idêntico. Figura 4. Perfil estratigráfico a Oeste do pátio (modificado a partir de Fernandes e Filipe 2007). 144 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 Figura 9. ânforas oleícolas béticas (Guadalquivir): Oberaden 83. 145 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 comuns a todos - asas com uma depressão longitudinal no dorso e com uma digitação no remate ao ombro, fundos cónicos invariavelmente preenchidos com uma bola de argila, bordo em banda e a generalização do opérculo em argila -, indiciando uma origem análoga no espaço e no tempo, e o mesmo “saber fazer” (idem: 669 e 670). (Figuras 9 e 10)). Se tivermos em conta a variedade e similitude formal que caracteriza os três tipos, Ovoide 6, Oberaden 83 e Haltern 71, rapidamente nos apercebemos que, quando perante pequenos fragmentos de bordo, a sua classificação se reveste inevitavelmente de contornos falíveis. A atribuição do tipo Oberaden 83 aos exemplares do teatro romano de Lisboa (pelo menos alguns deles) não está, face ao que se referiu, isenta de possíveis equívocos. A similitude formal, principalmente ao nível dos bordos, entre esta forma e as formas Ovoide 6 e Haltern 71 traduz-se na possibilidade de existirem alguns fragmentos de bordo que, na realidade, pertençam a um dos outros tipos. Da mesma forma, os nºs 780 e 781, que neste trabalho se atribuem ao tipo Haltern 70, apresentam características formais ao nível do bordo que os aproximam substancialmente do Subgrupo 1 e 2 do Grupo IX de Santarém (Almeida 2008), podendo, eventualmente, tratar-se de exemplares dessa tipologia. Sublinhe-se que o referido tipo foi produzido na bacia do Guadalquivir a partir do segundo quartel do século I a.C., estando documentado em locais como Santarém (Almeida 2008), Mesas do Castelinho, Lomba do Canho (Fabião 1989, 1998b e 2000) e Conímbriga (Buraca 2005). Identificou-se ainda a marca de oleiro L. HOR (L. Horati - n.º 653). Foi aplicada sobre uma asa curta, de secção subcircular e com uma depressão longitudinal no dorso, de uma ânfora produzida com as típicas pastas do Guadalquivir. Embora se tenha optado por agrupar este fragmento na tipologia Oberaden 83 - pelas características morfológicas mas também pelo facto de aquela marca ser conhecida sobretudo em ânforas de tipo Oberaden 83, tipologia que se encontra bem representada no teatro -, as suas características morfológicas poderiam igualmente autorizar a sua classificação dentro dos tipos Ovoide 6, Haltern 70 ou Classe 67. (Figura 11). Figura 10. ânforas oleícolas béticas (Guadalquivir): Dressel 20 (2422, 2429, 2552, 230, 2407, 2632, 2624, 2438, 2494, 611, 735, 2425, 662 e 707). ânforas oleícolas Norte africanas (Tripolitânia): Tripolitana Antiga (2456 e 688). 146 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 Trata-se de uma marca bem documentada na fachada atlântica, estando registada no Castro de Vigo (Hidalgo Cuñarro 1987; CEIPAC 4863), Castro de Santa Tecla (Beltran Lloris 1970; CEIPAC 27236), Castro de Vieito, Ponte de Lima (Silva 2008), Santarém (Almeida 2008), La Alcudia, Elche (Márquez Villora e Molina Vidal 2001; CEIPAC 24073), Baetulo, Badalona (Comas i Solá 1997; CEIPAC 18061) e Mahón, Menorca (De Nicolas 1979; CEIPAC 12612). Parece clara a relação entre a marca do teatro e aquelas identificadas em Santarém e em outros locais da Península Ibérica, nomeadamente os exemplares do Noroeste da península, indiciando uma rede de abastecimento comum, muito provavelmente enquadrável na rota atlântica. O exemplar do teatro romano provém de um depósito medieval. Contudo, as marcas relacionáveis documentadas em Santarém foram exumadas em níveis atribuíveis a Augusto/inícios de Tibério (Almeida 2008) e a peça de Baetulo em contextos datáveis entre 27 e 1 a.C. (Comas i Solá 1997), pelo que a marca do teatro romano dever-se-á, muito provavelmente, enquadrar no mesmo âmbito cronológico. 4.4. Ânforas piscícolas As ânforas destinadas ao transporte de produtos piscícolas são sobretudo provenientes da região meridional peninsular e da Lusitânia, com a excepção de um único fragmento de bordo de Mañá C2 (T-7.4.3.1.), fabricada na área de Cartago-Tunes, constituindo-se como uma imitação/evolução dos modelos da região da Tripolitana produzidos a partir do último quartel do século III a.C. (Ramón Torres 1995: 206). Da região meridional peninsular estão presentes as ânforas piscícolas T-9.1.1.1., Mañá C2 (T-7.4.3.3.), Greco-Itálicas hispânicas, Classe 67, Dressel 12 e Dressel 7-11, abarcando um arco cronológico que se estende desde a presença romana mais antiga no extremo ocidente peninsular, terceiro quartel do séc. II a.C., até ao terceiro quartel do séc. I d.C.. A forma melhor representada é a Mañá C2 (T7.4.3.3.), tendo sido recolhidos 30 fragmentos de bordo produzidos nas oficinas do “Círculo do Estreito de Gibraltar, em contextos romanos da Fase 1 e da Fase 2, bem como em níveis medievais e modernos. As Mañá C2 (T-7.4.3.3.) equivalem a 14,22% do NMI, sendo uma das tipologias melhor representadas. Quanto às Dressel 7-11, foram identificados 16 fragmentos de bordo, correspondendo a 8% do NMI. Com excepção do fragmento n.º 2380, que apresenta as típicas pastas do Guadalquivir, todos os exemplares são provenientes da região costeira da Bética. A maioria destas ânforas foi exumada em contextos romanos da Fase 2, e as restantes em níveis medievais e modernos. As T-9.1.1.1., Greco-Itálicas hispânicas, Classe 67 e Dressel 12 têm pouca representação no conjunto, tendo-se documentado três fragmentos de bordo do primeiro tipo e um bordo de cada uma das outras formas. As ânforas de produção lusitana do conjunto do teatro romano integram-se, crono e tipologicamente, no conjunto das mais precoces produções anfóricas plenamente romanas fabricadas na Lusitânia, tendo vindo nos últimos anos a ser genericamente designadas de “Ovoides Lusitanas” (Morais 2003; Pimenta et al. 2006; Morais e Fabião 2007; Filipe 2008; Fabião 2008). Figura 11. Marca sobre asa de ânfora Oberaden 83 (Guadalquivir): L. Horati. 147 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 Foram identificados quarenta fragmentos de bordo que encontram bons paralelos formais em alguns exemplares de Alcácer do Sal (Pimenta et al. 2006: 306, fig. 5), de Santarém (Arruda et al. 2006: 240 e 242, figs. 3 e 4), de Lisboa (Morais e Fabião 2007: fig. 1, concretamente o n.º 1; Fernandes et al. 2006; Filipe 2008), de Abul (Mayet e Silva 2002: 130 a 136, figs. 52 a 58), de Setúbal (Silva 1996: 54, fig. 4) e do Pinheiro (Mayet e Silva 1998: 89 e 90, figs. 19 e 20), ou mesmo em algumas peças do Castro de Santa Tecla (Morais e Fabião 2007: 132). Cerca de metade deste conjunto é proveniente de níveis medievais e modernos, tendo-se registado treze exemplares em contextos romanos da Fase 2, terceiro quartel do século I, e sete fragmentos de bordo em contextos da Fase 1, enquadrável no principado de Augusto. É inegável a importância do reconhecimento destes conjuntos anfóricos nos centros de consumo, cujas características formais nos reportam aos materiais tardo-republicanos apresentados por Rui Morais e Carlos Fabião (Morais 2003; Morais e Fabião 2007), contribuindo, entre outros factores, para uma melhor percepção do que terá sido a geografia de distribuição destes contentores, a sua expressão quantitativa e variedade formal. (Figuras 12-15) Contudo, um denominador comum parece acompanhar quase todos os casos expostos (diria mesmo todos com excepção daqueles recolhidos em níveis augustanos em Santarém e em níveis republicanos na rua dos Correeiros em Lisboa): a inexistência de materiais recolhidos em contexto primário e associados a estratigrafias seguras que permitam comprovar a antiguidade dessas produções e precisar a cronologia da sua produção e difusão. O estado fragmentado da esmagadora maioria desses materiais tem impedido, de igual modo, uma melhor tipificação destas ânforas. Trata-se de produções que terão tido início por volta de 30 a.C., podendo eventualmente recuar até meados desse século, e ter-se-ão estendido até ao primeiro terço/ meados do século I d.C. (Morais e Fabião 2007: 131). 4.5. Ânforas destinadas a outros conteúdos Para além das ânforas destinadas a transportar vinho, azeite e produtos piscícolas, foram ainda identificados dois fragmentos (um fundo e uma asa) do tipo Richborough 527, ânfora destinada a transportar “Alun”, produzida na Ilha de Lipari no Sul de Itália, entre o segundo quartel do século I a.C. e o século III/ inícios do século IV d.C. (Borgard 1994: 197; 2005: 157 e 158). 5. APRECIAÇÃO QUANTITATIVA No quadro geral dos materiais cerâmicos exumados no decurso das recentes intervenções no teatro romano de Lisboa, as ânforas correspondem, com excepção, talvez, da cerâmica comum, à categoria quantitativamente mais expressiva. De entre a totalidade de peças existentes, foram identificados e seleccionados 532 fragmentos, a que correspondem 209 bordos, 247 asas e 76 fundos, atribuíveis a 19 tipologias distintas, traduzindo-se num Número Mínimo de 211 Indivíduos (NMI), acrescentando-se ainda um conjunto de 44 opérculos. A apreciação quantitativa do presente conjunto afigura-se pertinente numa perspectiva de análise global, uma vez que uma percentagem significativa destas ânforas foi documentada em contextos de época Medieval, Moderna e Contemporânea. Por outro lado, e no que se refere aos materiais exumados em contextos de época romana, quantitativamente o conjunto em apreço adquire especial significado se se tiver em conta que provém de contextos genericamente balizados entre o período de Augusto e o terceiro quartel do século I d.C., ou seja, reporta-se a um período relativamente curto e bem circunscrito no tempo, permitindo uma leitura privilegiada sobre os ritmos de consumo e dinâmica comercial de Olisipo durante este período. Acrescente-se ainda que, de acordo com os pressupostos de Molina Vidal (1997: 47), a amostra do teatro romano pode considerar-se de “fiabilidade aceitável”, uma vez que a quantidade de bordos é superior a 200. No conjunto global das ânforas do teatro romano (NMI) destaca-se o predomínio das produções meridionais hispânicas, que correspondem a 67%, particularmente os fabricos atribuíveis à região do Guadalquivir que representam 65% dentro das produções do Sul peninsular. A Lusitânia constitui-se como a segunda região produtora melhor representada, 19%, enquanto a Península Itálica, sobretudo representada pelos vinhos tirrénicos e adriáticos, corresponde a 13%. As produções africanas correspondem apenas a 1%, e materializam- -se em um exemplar de Mañá C2 (T-7.4.3.1.), contentor piscícola proveniente da região de Cartago/Tunes, e um outro de tipo Tripolitana Antiga, ânfora oleícola procedente da região da Tripolitânia, na actual Líbia. Os preparados piscícolas parecem ter sido os produtos preferentemente importados, representando 44% do total de NMI, quer numa fase mais recuada, em ânforas Mañá C2, T-9.1.1.1. e Greco-Itálicas Hispânicas, quer a partir do terceiro/último quartel do século I a.C., em contentores de tipo Classe 67, Dressel 7-11, Dressel 12 e Ovoides Lusitanas. No que diz respeito à fase mais 148 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 Figura 12. ânforas piscícolas da baía gaditana: Mañá C2 (T-7.4.3.3.). ânfora piscícola Norte africana: Mañá C2 (T-7.4.3.1.) (2595). 149 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 Figura 13. ânforas piscícolas da região meridional hispânica: Dressel 7-11 (região costeira: 2555, 715, 665, 600, 833, 601, 2538, 725, 2549, 666, 2385, 2437, 2521, 2484, 2634, 663, 2664, 2432 e 776; Guadalquivir: 2380); T-9.1.1.1. (4754, 599 e 591), baía gaditana; Greco-Itálica (2529), baía gaditana; Classe 67 (169), Guadalquivir; e Dressel 12 (2603), Guadalquivir. 150 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 Figura 14. ânforas piscícolas de produção lusitana: Lusitanas antigas. 151 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 recuada, não deixa de ser curioso que no teatro romano as ânforas piscícolas hispânicas se registem em maior número (55%) que as vinárias itálicas (42%) - e dentro destas últimas uma maior quantidade de Greco-Itálicas -, algo que não sucede, por exemplo, no castelo de São Jorge (Pimenta 2005) e em Santarém (Arruda e Almeida 1999; Bargão 2006), onde se assiste a uma clara preponderância das últimas, especialmente do tipo Dressel 1. ((Figuras 16 e 17). Sobrepondo estes dados com os relativos às ocupações republicanas do castelo de São Jorge verifica-se, principalmente a partir da segunda metade do século I a.C. e inícios do século seguinte, um acentuado decréscimo das importações itálicas em Olisipo em detrimento dos produtos provenientes da bética. O vinho itálico é gradualmente substituído pelo vinho meridional hispânico, embora a presença de tipologias como a Dressel 2-4 possa indicar a continuidade da importação de vinhos itálicos, ainda que em percentagens quase residuais. O vinho representa 34% no total de NMI. Relativamente ao vinho bético (62% das ânforas vinárias), está principalmente documentado pela presença significativa de ânforas produzidas na região interior do vale do Guadalquivir que se destinariam ao transporte do apreciado líquido, como as Haltern 70 (45%), Verulamium 1908 (13%), Dressel 2-4 (1%) e ânforas de tipo Figura 15. ânforas piscícolas de produção lusitana: Lusitanas antigas. Península Itálica 42% Baía Gaditana 55% Norte de África 3% Figura 16. Representação das áreas produtoras em Época republicana (NMI). 152 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 Urceus (1%), bem como por ânforas produzidas nas regiões costeiras daquela província, como a Dressel 28 (1%). (Figuras 18 e 19). (Tabela 1). O desabrochar da indústria piscícola na Lusitânia a partir, pelo menos, do último quartel do século I a.C., representado no teatro por um conjunto bastante expressivo das mais precoces produções anfóricas daquela província, vem aduzir algumas mudanças nos ritmos de importação e nas dinâmicas comerciais de então. De facto, pelo que os dados do teatro indicam, o consumo de preparados piscícolas béticos em Olisipo parece diminuir, relativamente ao período anterior, verificando-se, a partir do principado de Augusto, a predominância dos produtos de origem lusitana, representando 65%. No que se refere ao azeite, foram identificadas 46 ânforas destinadas ao seu transporte (22% do total de NMI), constatando-se que foi importado quase exclusivamente da província da Bética (98% das ânforas oleícolas), concretamente da região do vale do Guadalquivir, com excepção de uma ânfora da forma Tripolitana Antiga (2%), proveniente da região da Tripolitânia no Norte de África. Num período mais recuado observa-se a importação do azeite africano em fracas quantidades. A partir do principado de Augusto o azeite bético começa a chegar em grandes quantidades transportado primeiro em ânforas de tipo Oberaden 83, e depois, já em meados/terceiro quartel do século I d.C., nas suas sucessoras Dressel 20. (Tabela 2). 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dados que foram expostos ao longo deste trabalho permitem tecer algumas considerações acerca do significado da amostra disponível, autorizando uma análise dos aspectos relacionados com a origem dos contentores identificados e dos produtos transportados, e possibilitando, ainda que partindo de um conjunto obviamente truncado - aliás, condição intrínseca a todos Península Itálica 1% Bética costeira 11% Guadalquivir 61% Lusitânia 27% Vinho e derivados 42% Produtos piscícolas 56% Azeite 2% Vinho e derivados 30% Produtos piscícolas 39% Alumen 1% Azeite 30% Figura 17. Representação das áreas produtoras em Época Alto Imperial (NMI). Figura 18. Produtos importados e consumidos em Época republicana (NMI). Figura 19. Produtos consumidos em Época Alto Imperial. 153 SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 AS ÂNFORAS DO TEATRO ROMANO DE OLISIPO (LISBOA, PORTUGAL) : CAMPANHAS 2001-2006 Tabela 1. Tabela geral da quantificação por NMI das ânforas do teatro romano (não estão incluídos 31 fragmentos de tipologia indeterminada e 44 opérculos). Conteúdo Tipologias Nº Fragmentos NMI NMI % República NMI % Total Proveniência República Vinho Greco-Itálica 94 14 22,58% 6,64% Península ItálicaDressel 1 Itálica 11 17,74% 5,21% Lamboglia 2 1 1 1,61% 0,47% Peixe T-9.1.1.1. / CCNN 3 3 4,83% 1,42% Baía GaditanaMañá C2 / T-7.4.3.3. 54 30 48,39% 14,22% Greco-Itálica Hispânica 7 11,61% 0,47% Mañá C2 / T-7.4.3.1. 1 1 1,61% 0,47% Cartago-Tunes Azeite Tripolitana Antiga 2 1 1,61% 0,47% Tripolitânia Total República 162 62 100%, Conteúdo Tipologias Nº Fragmentos NMI NMI % Alto Império NMI % Total Proveniência Meados séc. I a.C. - Alto Império Vinho Dressel 2-4 Itálica 3? 10,67% 0,47% Península Itálica Dressel 2-4 Guadalquivir 3? 10,67% 0,47% Guadalquivir Haltern 70 93? 32 21,48% 15,17% Tipo Urceus 1 1 0,67% 0,47% Verulamium 1908 9 9 6,04% 4,27% Dressel 28 1 1 0,67% 0,47% Bética Costeira Peixe Classe 67 1? 10,67% 0,47% GuadalquivirOvoide 1 1 1 0,67% 0,47% Dressel 7-11 Guadalquivir 2 1 0,67% 0,47% Dressel 7-11 Bética costeira 20? 15 10,07% 7,11% Bética Costeira Lusitanas antigas 104 40 26,85% 18,96% Lusitânia Azeite Oberaden 83 99 31 20,81% 14,69% Guadalquivir Dressel 20 14 9,39% 6,64% Outros produtos Richborough 527 2 1 0,67% 0,47% Ilha de Lipari Total Alto Império 339 149 100% Total da amostra 501* 211 100% 160 VICTOR FILIPE SPAL 24 (2015): 129-163 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2015i24.06 Lídia Fernandes (Museu do Teatro Romano de Lisboa, CML) devo a oportunidade de estudar o conjunto anfórico do teatro romano e o incansável acompanhamento que, desde o primeiro ao último dia, lhe dedicou. Ao Dr. João Pimenta (Câmara Municipal de Vila Franca de Xira) a possibilidade de observar as pastas das ânforas do Castelo de São Jorge e compará-las com as do teatro. Ao Marco Calado pela ajuda na triagem dos materiais distribuídos por incontáveis contentores. E finalmente à Anabela de Castro, por significar parte deste trabalho. 7. BIBLIOGRAFIA Alarcão, J. (1994): “Lisboa romana e visigótica”, in Lisboa subterrânea: 58-63. Lisboa, Lisboa Capital Europeia da Cultura 94. Almeida, F. (1966): “Notícias sobre o teatro de Nero, em Lisboa”. Lucerna 5: 561-571. Almeida, R. (2008): Las Ánforas del Guadalquivir en Scallabis (Santarém, Portugal). Una aportación al conocimiento de los tipos minoritarios. Col.lecció Instrumenta, 28. Barcelona, Universidad de Barcelona. Amaro, C. (1993): “Vestígios materiais orientalizantes do claustro da Sé de Lisboa”. Estudos Orientais IV - Os Fenícios no território Português: 183-192. Lisboa, Instituto Oriental da Universidade Nova de Lisboa. Amaro, C. 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