A VEZ DOS HATSAPPERS: NOVAS FORMAS DE CIBERATIVISMO THE WHATSAPPERS’ TURN: NEW FORMS OF CYBERACTIVISM WEBER, Izabel (Universidade de Coimbra) [email protected] BASTONE, Paula (Universidade de Coimbra)
[email protected] BARBOSA, Sérgio (Universidade de Coimbra) ser[email protected] Resumo: Este artigo investiga como o uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC’s), em particular, o WhatsApp, vem se apresentando como elemento central para a convocação e a mobilização de ciberativistas nas formas contemporâneas de participação política. A pesquisa verificou o potencial mobilizador do WhatsApp para além das abordagens dicotômicas que, por um lado, defendem entusiasticamente o potencial democratizador da internet como uma espécie de “ágora digital”, por outro, observam sua expansão como tendência à alienação e à desmobilização. Conclui-se, a partir da análise empírica, que os múltiplos usos do WhatsApp representaram novas formas de participação política traduzidas em mecanismos de ativação da cidadania e impacto positivo nas formas coletivas de sociabilidade do grupo. Palavras-chaves: WhatsApp; TIC’s; Ciberativismo; Participação Política. Abstract: This article investigates how the use of Information and Communication Technologies (ICTs), in particular WhatsApp, has been presented as a central element for the convening and mobilization of cyberactivists in contemporary forms of political participation. For that, it was focused on how the users of the "# United against the coup" group organized protests in 2016 in the city of Florianópolis in Brazil, in what is commonly known as cyberactivism. The article verified the mobilizing potential of WhatsApp in addition to dichotomous approaches that, on the one hand, enthusiastically defend the democratizing potential of the internet as a sort of "digital agora", on the other, observe its expansion as a tendency towards alienation and demobilization. It is concluded from the empirical analysis that the multiple uses of WhatsApp represented new forms of political participation translated into mechanisms of activation of citizenship and positive impact on the collective forms of sociability of the group. Keywords: WhatsApp; ICT; Cyberactivism; Political Participation. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 430
1. Introdução Este texto investiga o uso político do WhatsApp com objetivo de analisar modalidades de participação política no âmbito da bibliografia sobre ciberativismo e TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação). Em específico, buscamos entender o papel do WhatsApp na convocação e mobilização dos usuários inscritos em um grupo do aplicativo intitulado “# Unidos Contra o Golpe” ou UCG (iniciais utilizadas pelos usuários). O WhatsApp é um “aplicativo de mensagens multiplataforma que permite trocar mensagens pelo celular sem pagar por SMS”.103 Foi criado em 2009 e teve seu auge em escala mundial no ano de 2012. Desde então, vem passando por várias atualizações nas suas funcionalidades. Em apenas quatro anos de existência cresceu mais que o Facebook e seus números de penetração em diferentes países aumentam exponencialmente (Gutiérrez-Rubí, 2015). Isso levou a que, em fevereiro de 2014, o Facebook tenha anunciado a compra do aplicativo por 16 bilhões de dólares.104 Os usuários desse aplicativo podem enviar imagens, vídeos e documentos em PDF, fazer ligações sem custos desde que haja conexão com a internet. Dentre as funcionalidades, destacamos: conversa em grupos permitindo partilhar todo tipo de informação com os usuários inscritos (que é o canal investigado por este trabalho); a modalidade WhatsApp Web, que sincroniza conversas do dispositivo móvel para outro dispositivo, ou seja, no computador pessoal é possível retomar as conversas presentes no aplicativo do celular; e a execução de chamadas de voz e de vídeo e ligações nacionais e internacionais.105 O UCG foi criado a partir do desejo de lutar contra o golpe106 que se organizou no ano de 2016 no Brasil e reivindicou o retorno de Dilma Rouseff à presidência da república. A indignação com a situação política do Brasil motivou os usuários inscritos no grupo do WhatsApp a refletirem e discutirem o cenário que o país atravessou nesse ano. Nosso objetivo é investigar o espaço de política criado neste grupo do WhatsApp sem estabelecer uma relação causal entre o UCG e participação política, mas desvendar o conteúdo social presente neste processo e captar esse novo estilo de participação criado pelos WhatsAppers, verificando o potencial mobilizador do aplicativo móvel para além das abordagens dicotômicas que, por um lado, defendem entusiasticamente o potencial democratizador da internet como uma espécie de “ágora digital” (Shirky, 2008), por outro, observam sua expansão como tendência à alienação e à desmobilização (Morozov, 2009). Compreender, portanto, se os múltiplos usos do WhatsApp representaram novas formas de participação política e se foram traduzidos em mecanismos de ativação da cidadania e impacto positivo nas formas coletivas de sociabilidade do grupo. Para isso, a estratégia metodológica adotada foi a netnografia do referido grupo desde o ingresso deste pesquisador em meados de Abril de 2016. A partir da netnografia, realizamos a análise das informações postadas pelos usuários do grupo no mês de setembro de 2016 (que será apresentada em outro momento) e quinze entrevistas semi-estruturadas com residentes de Florianópolis inscritos no UCG. Este artigo está dividido em duas seções. Na primeira parte, elucidamos uma discussão teórica sobre como os WhatsAppers estão no rol de estudos sobre o ciberativismo, revisamos a bibliografia sobre 103 Disponível em: https://www.whatsapp.com/?l=pt_br Acesso em: 02 de Maio de 2016. 104 Disponível em: http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2014/02/criado-em-2009-whatsapp-cresceu-mais rapido-quefacebook-em-4-anos.html Acesso em: 04 de dezembro de 2016 105 Disponível em: https://www.whatsapp.com/features/ Acesso em: 03 de Dezembro de 2016. 106 Este pesquisador está em comum acordo com os WhatsAppers investigados e, portanto, considera que a saída da presidenta Dilma Rouseff foi um golpe. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 431
a temática das TIC’s e ressaltamos como novas práticas participativas podem utilizar o WhatsApp como ferramenta de politização. A seção dois é dedicada à análise empírica, a partir da combinação das metodologias supracitadas: em um primeiro momento tecemos considerações sobre a netnografia e, em seguida, priorizamos alguns resultados das entrevistas realizadas com os WhatsAppers de Florianópolis. As considerações finais revelam um “novo olhar” sobre como ver e fazer a política no século XXI. 2. Quem são os whatsappers? Os WhatsAppers são todos aqueles usuários que realizam o uso intenso do WhatsApp, com a possibilidade de utilizá-lo também para participação na vida política. Pelo aplicativo, o usuário é capaz de acumular funções políticas, pessoais, familiares, laborais por meio da criação de grupos e envio de mensagens de texto, mensagens de voz, links, e imagens. A denominação dos WhatsAppers é similar ao termo Avaazers - quaisquer indivíduos que decidem por assinar uma petição e aceitem receber informações das campanhas realizadas pela plataforma digital do Avaaz107. Com a adesão enorme de usuários ao WhatsApp em todo o planeta, o Brasil seguiu o mesmo caminho: “A crescente penetração do aplicativo se fazia presente em 56% dos aparelhos móveis brasileiros em 2014” (SAVAZONI & COPELLO, 2016, p. 118).108 A expansão da tecnologia móvel aliada ao barateamento dos preços dos smartphones culminou em um maior acesso à rede virtual pela população brasileira (Hansen, 2016). Gutiérrez-Rubí (2015) destaca que os grupos de usuários no WhatsApp relacionam indivíduos, que constroem comunidade de interesses e promovem ação autônoma e criativa de articulação. Há o que o autor denomina de mobile lifestyle: comportamento social e individual que relaciona, empodera e promove ação coletiva e autônoma a partir do uso do smartphone. No nosso cotidiano, por exemplo, desde que saímos de nossos lares todos os dias vemos o quanto é comum ter algum indivíduo “clicando” a todo instante em seu celular. Esse mobile lifestyle é percebido, por exemplo, nos grupos do WhatsApp ao aproximar pessoas com interesses comuns através da própria iniciativa individual que se inicia com o administrador do grupo. “Por sua dimensão global e por seus mais de 700 milhões de usuários em todo o mundo, o WhatsApp se revela, de forma esmagadora, uma ferramenta indispensável para a política” (GUTIÉRREZ-RUBÍ, 2015, p. 9, tradução nossa). Trata-se de uma ferramenta comunicacional que facilita a organização em grupo, é versátil, tem abrangência global e forte potencial para diversas formas de ação coletiva. E, não menos importante, tem reverberação crescente em diversas esferas da vida social, sendo usado em ambientes de trabalho, meio acadêmico, campo esportivo, esfera privada, campanhas política, movimentos sociais, e para qualquer outro grupo de pessoas afins. O uso político do WhatsApp, dessa forma, tem sido uma das marcas nas novas formas de ciberativismo. Estudos mostram que o “baixo interesse por aplicações para celulares e tecnologias móveis não foi capaz até o momento de formar uma categoria própria” (BRAGATTO & NICOLÁS, 2012, p. 20). Ao investigar as formas de participação política do UCG no WhatsApp, pretendemos: 107 A Avaaz é uma rede de campanhas global de 44 milhões de pessoas que se mobiliza para garantir que os valores e visões da sociedade civil global influenciem questões políticas nacionais e internacionais. ("Avaaz" significa "voz" e "canção" em várias línguas). Membros da Avaaz vivem em todos os países do planeta e a equipe de organização está espalhada em 18 países de 6 continentes, operando em 17 línguas. Além do sistema de petições online, a Avaaz tem campanha ativa no Facebook e no Twitter. Disponível em: https://secure.avaaz.org/page/po/ Acesso em: 10 de julho de 2017. 108 No senso comum, a população brasileira rebatizou o aplicativo como “ZapZap”. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 432
“compreender melhor os fenômenos de participação política nas sociedades contemporâneas, reconhecendo que nem todos os movimentos e associações estão dispostos a participar dos espaços institucionais de partilha do poder” (Pereira, 2012, p. 84). Neste contexto, os diferentes movimentos de indignação que sacudiram o mundo nos últimos anos, - como a Revolução Egípcia, o movimento 15-M na Espanha, o Ocuppy nos Estados Unidos, as Jornadas de Junho no Brasil em 2013 - mostraram-se, apesar de seus limites, capazes de oxigenar a democracia e compartilharam as seguintes características entre si: rejeição dos partidos políticos, baixa confiança nas formas convencionais de organização política, formação e mobilização via internet. O advento das TIC’s aliada à democratização da internet permitiu tanto a comunicação direta entre os indivíduos, quanto à distribuição da informação de forma multidirecional e horizontal. É relevante, por isso, repensar o processo de funcionamento do poder político frente às constantes transformações expostas pela globalização no século XXI, reconhecendo que os indivíduos, por não confiarem nas tradicionais formas de fazer política, não se sentem representados politicamente pelo atual quadro institucional (BARBOSA, 2016; 2017). Como resultado: os índices de participação nas eleições de países com mais longa tradição democrática vêm declinando nas últimas décadas, assim como as filiações às principais instituições representativas (CASTRO & REIS, 2012). Percebe-se, desta maneira, a formação de uma lacuna na capacidade comunicativa entre o Estado e os cidadãos. De um lado, o poder político continua em uma esfera local; de outro, os cidadãos acumulam não só uma insatisfação generalizada justificada pela separação entre governantes e governados, como também demonstram pouca vontade de se engajarem em um sistema político carente de ferramentas comunicacionais comuns ao cotidiano dele. Há, então, um “descompasso” entre uma sociedade civil que pleiteia por repostas rápidas e eficientes, ao mesmo tempo em que os canais da participação política sinalizam não acompanhar essas demandas requeridas. Enfrentamos uma série de desafios quanto à compreensão dos valores que orientam e embasam as ações dos atores no campo político e também acerca das formas de sua socialização. Neste trabalho, consideramos que percepções de situações sociais experimentadas pelos WhatsAppers investigados podem passar por impressões e avaliações subjetivas acerca dos fenômenos políticos. Em verdade, a formação das “paixões” na política, elemento-chave considerado por Chantal Mouffe (2016) na construção de formas coletivas foi diagnosticado no grupo investigado como uma avaliação subjetiva da motivação política. Por paixão, Chantal entende “um certo tipo de afeto comum que é mobilizado no campo político na constituição de formas de identificação” (Errejón & Mouffe, 2016, p. 53, tradução nossa) e “desempenham um papel fundamental na política, e a tarefa da política democrática não é superá-las por meio do consenso, mas elaborá-las de uma forma que estimule o confronto democrático” (Mouffe, 2015, p. 5). O confronto entre identidades diversas no UCG permitiu florescer a “paixão” como elemento ímpar na constituição do espaço coletivo dentro do grupo. Foi o elemento que deu fôlego ao modus perandi do UCG, à medida que o choque de opiniões diversas entre os usuários foi crescendo concomitante ao entrosamento, que acabou por se transformar num ator coletivo. A partir dessas ideias, as TIC’s têm possibilitado novas formas de atuação política para além dos canais institucionais, “aumentando a capacidade de mobilização e a articulação dos cidadãos e possibilitando um maior envolvimento dos atores sociais” (Penteado et al, 2015, p. 1598). As formas de ativismo digital sinalizam novas possibilidades de mobilização política ao sugerir reconfigurações de práticas participativas. A saber, “compreendeu-se que a internet não traz Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 433
modificações automáticas; nós, usuários, é quem configuramos e utilizamos as ferramentas de maneiras diversas, com objetivos pontuais, influenciados por inúmeros fatores” (Marques, 2011, p. 10). Não há, portanto, uma relação mecânica entre o WhatsApp e participação política: esta TIC “não promove automaticamente a participação política e nem sustenta a democracia; é preciso, antes, olhar tanto para as motivações dos sujeitos quanto para os usos que eles fazem dela, em contextos específicos” (Maia, 2011, p. 69). Mais do que isso: O que se pode oferecer, na verdade, é um surplus para os cidadãos participarem da vida pública, visto que há uma apropriação social da tecnologia digital que é imediata, pouco custosa e muito eficiente, além de não demandar sacrifícios enormes para o indivíduo engajar-se politicamente (Barbosa, 2016, p. 56). O ciberativismo pode ser definido de forma geral como qualquer tipo de ação que utilize as TIC’s como ferramenta política. Em específico, “corresponde a práticas comunicacionais que, utilizando plataformas, redes e suportes digitais, sobretudo na internet, visam entrosar e dar maior visibilidade a lutas no interior da sociedade” (Eisenberg, 2015, p. 131). Suas modalidades incluem um repertório variado de ações dispostas a fortalecer conexões entre comunidades (Eisenberg, 2015) desde ferramentas de interação do meio online como campanhas virtuais, grupos de discussão, fóruns, chats, petições até as assembléias, atos públicos, passeatas, panfletos e protestos ocorridos meio offline. Considera-se, neste estudo em questão, que todo usuário inscrito no UCG é WhatsApper e, portanto, ciberativista. O sociólogo italiano Paolo Gerbaudo (2012; 2014; 2016; 2017; 2017a; 2017b) talvez seja uma das vozes mais ativas no que tange o ciberativismo no mundo contemporâneo. O modo inaugural como o sociólogo versa sobre a noção fluida e de natureza dinâmica, assimétrica e complexa de diferentes mobilizações em escala mundial nos reserva grandes desafios teórico-conceituais e metodológicos. Trata-se de pensar novas metodologias que possam avaliar formas de ação coletiva que começam no ambiente online e termina no offline. Neste trabalho, em específico, procuramos entender como o grupo criado no WhatsApp em Florianópolis serviu como espaço proveitoso para formação de uma identidade coletiva que evoluiu de forma contingente e atingiu proporções que nem mesmo os usuários do grupo imaginavam em suas expectativas iniciais.Os WhatsAppers do UCG organizaram e articularam redes de protestos por meio de diferentes modalidades de participação. A pesquisa sobre os WhatsAppers revelou que os mundos online e offline estão conectados em um só, porque: “a análise de como eles se relacionam, seja via atores offline que deflagram movimentos virtuais ou intervêm na comunicação virtual, seja nos momentos posteriores, quando a dinâmica política se desloca para outros espaços” (Sorj, 2016, p. 13) é pautada por práticas de intervenção por meio de um “novo tecido democrático online/offline” (Sorj, 2016, p. 18). 3. Radiografia do ucg O UCG foi criado no dia 30 de Março de 2016 às 19:19 (horário de Brasília) por um usuário de Florianópolis em um período próximo à votação pela Câmara dos Deputados do pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rouseff. O grupo chegou a ter 256 usuários inscritos e nasceu com o propósito de reivindicar a volta de Rouseff à presidência. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 434
No momento em que este texto era escrito, o UCG tinha cerca de 190 usuários, sendo aproximadamente mais de cem registrados no grupo com o DDD (+48)109. O número de usuários varia de um dia para outro, já que tanto podem entrar novos como sair antigos. No grupo, praticamente todos os números foram inscritos como administradores, o que permite adicionar novos integrantes e sinaliza uma organização de forma horizontal. A grande maioria dos inscritos provém da região Sul do país, especialmente da cidade de Florianópolis, mas estando presentes WhatsAppers de outras regiões e alguns do exterior. Houve então uma transnacionalização do grupo sem qualquer pretensão inicial para isso. O UCG é formado por um grupo heterogêneo de atores sociais, tais como: educadores, engenheiros, petroleiros, geólogos, médicos, psicólogos, psicanalistas, arquitetos, sindicalistas, estudantes universitários, dentistas, atores, poetas, cronistas, bancários, músicos, professores universitários, mestres, doutores e políticos. Os integrantes do grupo se posicionam majoritariamente como defensores de uma ideologia de esquerda: se orientam basicamente para a promoção da igualdade e para a mudança da ordem social. Bobbio (1994) explica que na esquerda percebemos o princípio do igualitarismo; o laicismo; a crítica das limitações ético-religiosas; a inexistência de conceitos absolutos de bem e mal; os interesses dos trabalhadores, que devem prevalecer sobre a necessidade de crescimento econômico; o antifascismo; e a identificação permanente com as classes inferiores da sociedade. A “conotação central da noção de esquerda apresentada por Norbeto Bobbio é com a ideia de igualdade. Segue sendo usada no mundo político e tem que ser mantida” (Errejón & Mouffe, 2016, p. 131, tradução nossa). Este pesquisador criou um modus operandi para qualificar o modo de ação do UCG baseado em sua netnografia. O grupo se uniu sob um projeto de esquerda formado por vários atores sociais. Os WhatsAppers criaram possibilidades de participar num coletivo e isso não envolveu uma solução necessariamente racional, e sim o florescimento das “paixões”. Eles se uniram, mas reconheceram os direitos de outros usuários a exporem seus pontos de vista sobre o contexto político brasileiro. Houve o dissenso, mas com uma base de consenso, princípios éticos e morais que foi essencial para se organizarem em conjunto. O modus operandi do UCG não decorreu necessariamente de uma estrutura programática, mas simplesmente daquilo que os usuários viveram de forma participativa aberta à todos os membros do grupo. Para isso, utilizaram os dispositivos do WhatsApp para interagir socialmente, motivados pela indignação com a situação política brasileira e propelidos pelo entusiasmo de criar novas ações políticas que revelaram valores pró-democráticos. O grupo teve sua evolução de forma contingencial e despertou demandas, frustrações e projetos de se unirem contra a onda da “direita que saiu do armário” (MESSENBERG, 2016) e o início do governo Temer no Brasil. Uma das questões fundamentais nesta pesquisa foi decifrar como esse modus operandi (Quadro 1) permitiu um espaço proveitoso para potenciais formas de participação política e aproximação de vínculos entre os usuários. 109 Esse DDD equivale a usuários da Grande Florianópolis e da região sul do Estado de Santa Catarina. Há também DDD (+47) E (+49) que equivalem a outras regiões do Estado. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 435
Quadro 1. Fatores estruturantes e Modus Operandi dos WhatsAppers no UCG Três motivações-chave para criação do grupo Contexto político brasileiro que favoreceu a união do UCG Criação do Grupo no WhatsApp Resultado: Modus operandi UCG - Parlamentares conservadores - Mídia tradicional parcial - Judiciário Espetacularizado - Impeachment de Dilma Rouseff; - Início do Governo Temer; - Cortes drásticos no orçamento das políticas sociais, redução de benefícios, destituição de direitos, seja no mundo do trabalho, seja nas políticas sociais e nos serviços públicos; - Medidas anti-sociais como a aprovação da PEC 241 ou PEC 55; - Interações via postagens a um custo reduzido e de forma interativa; - Convocação de protestos, a partir do cruzamento online (WhatsApp / off-line (ruas); - Espaço coletivo de articulação; - Inserção da política na prática cotidiana; - Paixão como elemento irracional que permitiu maior coesão ao grupo. - Processo organizativo na forma de redes: identificam problemas; compartilham informações; convocam protestos; buscam soluções conjuntas; e ainda desenvolvem formas de solidariedade para garantir o respeito ao direito de outros usuários exporem seus pontos de vista. Sua organização descentralizada é basicamente formada por diversos protagonistas que não reconhecem uma liderança formal Fonte: Elaboração do autor Já nas entrevistas, traçamos informações diversas, onde colocamos as experiências subjetivas como parte da redação e buscamos um significado comum entre as entrevistas realizadas e a netnografia deste pesquisador “seguindo os atores” do UCG, desde o momento de seu ingresso. A partir daí, entramos em contato mais profundo com as informações disseminadas no grupo. A opção por entrevistas semi-estruturadas se justifica por qualificar a análise de trajetórias dos WhatsAppers juntamente com sua intensidade da participação política, a partir de suas percepções e motivações, além de mapear os repertórios de atividades desempenhadas por eles desde seu início no meio virtual até sua repercussão no meio offline. Dessa forma, foram exploradas questões do tipo “como o uso do WhatsApp mudou o perfil de atuação na política” e, “se houve uma maior participação na política a partir do incremento desta ferramenta ou não”. Para responder a estas perguntas, as entrevistas110 proporcionaram aos WhatsAppers a refletirem sobre o uso político da ferramenta. Por meio de um roteiro semiestruturado, evidenciamos a interpretação de suas motivações para participarem da vida política, a partir dos conteúdos valorativos expressos no discurso dos entrevistados. Procuramos, então, frisar o sentido subjetivo que os atores sociais dão às suas próprias ações no grupo do UCG. Dentre os entrevistados temos engenheiros agrônomos, estudante de história, aposentada, ativista política, psiquiatra, pedagogo, empresária, jornalista, dentista, candidatos a vereadores, graduando de design, consultora em relações internacionais. Garantimos uma elasticidade nas entrevistas realizadas quanto ao nível de participação dos entrevistados. Assim, nosso esforço foi pontuar os principais aspectos enumerados pelos WhatsAppers, procurando costurar os pontos chaves apresentados no roteiro. 110 Optamos por realizar 15 entrevistas, e de alguma forma este número foi razoavelmente suficiente para interpretar o “modo de agir” do UCG e, por isso, decidimos encerrar na entrevista de número 15, permitindo a viabilidade da pesquisa. As entrevistas foram gravadas por este pesquisador. Mais detalhes podem ser encontrados em: BARBOSA (2017). Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 436
A maioria dos entrevistados tem pós-graduação ou pelo menos uma graduação e no geral a média é de 3 a 5 salários mínimos como renda mensal familiar, ocupando distintos cargos de trabalho. Dentre eles, temos jovens e também usuários mais velhos111. Não há uma data específica para entrada de cada um no grupo, variando de um entrevistado para o outro: ingressaram no intervalo de Abril a Julho de 2016. As principais motivações para participarem do UCG foram: indignação com a realidade política brasileira, luta pelos valores democráticos, reunião de pessoas contra o impeachment da presidenta Dilma Rouseff, ação prática permitida pelo WhatsApp, encontro de pares, desespero perante o governo Temer, sentimento de pertencimento a uma causa, compartilhamento de informações não veiculadas pela mídia tradicional, preocupação com a ascensão de ideias protofacistas em todo o território brasileiro, debate sobre soluções para a crise política, informações sobre os protestos.Vimos então um ecletismo de justificativas, mas com um sentimento comum de “tomar parte de algo”, “integrar”, “vontade coletiva de agir”, “construir”, “existir no mundo” expressando, ao fim e ao cabo, o desejo de “unir-se contra o golpe”. O WhatsApp ajudou a divulgar informações que não estavam sendo cobertas pela mídia tradicional. Para os entrevistados, o UCG tratou sobre questões relevantes da política, um grupo auto-avaliado como crítico do cenário político brasileiro, mais do que simplesmente expressar apenas opiniões alheias e “achismos”. O entrevistado 2 afirma: “o UCG consegue ter uma maior visibilidade de como as pessoas e enxergam a política brasileira. Os usuários do grupo usam o diálogo como forma de fortalecimento do grupo”. Do grupo, surgiram novas redes de conexões via formação de outros grupos no WhatsApp. Em seguida, realizaram também links com o Facebook. Um das questões elencadas por praticamente todos entrevistados é o desuso do Twitter, embora revelarem fazer seu uso quando fossem convocados para o que se convecionou chamar “tuitaço”.112 Segundo um o entrevistado 3, “o Twitter não estou usando, não está mais na moda”. Os entrevistados revelaram que o uso do WhatsApp facilitou a formação de opiniões e reflexões sobre política. Talvez seja este o diferencial desta TIC frente ao Facebook, uma vez que o recrutamento de pessoas por esta plataforma é mais veloz e a troca de informações mais instantânea: o fato de imagens, vídeos e notícias em geral serem compartilhadas de maneira rápida resultou em um considerável efeito político na opinião de alguns entrevistados. Vários WhatsAppers comentaram que a forma como se vê a política é diferente, devido à difusão ágil da informação, conforme esta afirmação do entrevistado 4: “às vezes no ato não conseguimos ter contato com os outros usuários. Vemos as bandeiras, os cartazes e não há oportunidade para o diálogo, quando voltamos para o WhatsApp podemos discutir um tema que não houve espaço para debatê-lo no protesto”. Os entrevistados ressaltaram que há uma melhoria na disseminação de notícias: o muitos-paramuitos no WhatsApp têm um caráter mais efêmero e obrigátorio do que no Facebook: “no sentido de que se no Facebook você pode escolher as pessoas que irão ler suas postagens, no grupo do WhatsApp assim que é postada uma mensagem, todos os usuários inscritos obrigatoriamente irão ler” (Entrevista 5). 111 Não houve a possibilidade de traçarmos o perfil de todos os WhatsAppers do grupo devido ao caráter fluido de entrada e saída do UCG. Por isso, o perfil apresentado aqui é restringido aos quinze usuários entrevistados. 112 Manifestação feita pela publicação maciça de tuites para protestar, geralmente por motivos políticos. Dispon]ivel em http://noticias.band.uol.com.br/brasil/noticia/100000799934/tuita%C3%A7o-pede-ren%C3%BAncia-de-micheltemer.html Acesso em 10 de Fevereiro de 2017. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 437
Visitar páginas no Facebook, criar eventos dentro de uma comunidade são algumas das atividades listadas que os usuários do UCG puderam fazer a partir do WhatsApp. O entrevistado 6 ressaltou ainda que criou uma página no Facebook a partir do que vinha sendo debatido no grupo do UCG e revelaram acompanhar mais o grupo do WhatsApp do que propriamente o Facebook. Vimos que o caminho online/offline é ambíguo: por um lado, relataram situações em que estiveram com uma pessoa do seu lado com quem conversa no mundo online, mas que no mundo real não foi possível identificar; de outro, reconheceram que há interação no protesto, facilitada, sobretudo, pela convocação que se inicia no meio online. Vários entrevistados salientaram a formação de lideranças no grupo, conferindo esse título às pessoas que mais postam mensagens e organizam as principais atividades do UCG, embora reconheçam que tais protagonistas não se vêem como líderes. O entrevistado 7 identificou que participa de outros grupos que se originaram do UCG: “Eu participo de um grupo de confecção de material e cartazes e de um grupo de leitura que se originaram do grupo mãe.” Diagnosticamos também que, no momento da entrada de um usuário no grupo, subitamente o novo integrante é transformado em administrador do grupo, tendo a opção de adicionar novos usuários caso assim o queira. A partir daí, foi criada uma lógica em que todos passaram a ser administradores do grupo. Cada usuário contribuiu de alguma forma com o fortalecimento dos laços sociais no UCG, seja com conhecimento, leitura ou reflexões sobre as informações postadas. Foi bastante citado pelos entrevistados o fato de postarem informações do jornalismo independente “Mídia Ninja”, como uma capacidade de contra-informação dos veículos da mídia tradicional. Não houve um caráter programático a ser seguido, além de ser livre a expressão de cada um no grupo. Este talvez seja o maior diferencial do UCG na sua forma de atuação. Se nosso dia tem apenas 24 horas e é cada vez mais acelerado, os WhatsAppers encontraram uma forma peculiar de agir, pois, além de participarem das atividades do grupos, combinaram responsabilidades pessoais e profissionais com a possibilidade de aproximar a participação política à vida cotidiana. O UCG mostrou que o virtual e o real estão conectados em único mundo. Significa dizer: um modo novo de promover interação e de circular um mutirão de informações. Mais ainda: “os cidadãos comuns no centro dos debates, das iniciativas e das práticas. Isso aproxima o ativismo social e a cidadania ao mundo da vida e das experiências vividas pelas pessoas” (BRINGEL & PLEYERS, 2015, p. 15). Os principais motivos que levaram os integrantes do UCG a participarem da política é o desejo de um futuro melhor: a maioria dos entrevistados declarou participar desde muito jovens do mundo político. Embora reconheçam ter uma participação assídua, afirmaram que a política deveria oferecer mais canais para participação. Os usuários do UCG que foram entrevistados começaram a fazer o uso do WhatsApp depois de 2013, como também revelaram participar de outros grupos políticos na plataforma móvel. O entrevistado 8 revelou usar o WhatsApp somente para fins políticos e declara participar também de outros grupos do aplicativo. Avalia que o UCG é um grupo eclético e que se inicia no âmbito local da cidade de Florianópolis e toma proporções internacionais. Vimos que houve uma transnacionalização do grupo ao obter a adesão de outros usuários de diferentes localidades do Brasil e também no exterior, para além da esfera local. O modus operandi do UCG foi de fundamental importância para difundir informações não veiculadas pela mídia tradicional. Esta plataforma permitiu dar voz a um público que não encontrou seu espaço em um período pós-impeachment. Isso foi um fator preponderante para motivação de Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 438