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(GTX - VIDA) Vidas duplas: Arte e redes sociais Doutoranda Helena Hernández Acuaviva (Universidade de Sevilla/ UNESP) Dra. Rosangella Leote (UNESP) Resumo A vida que as pessoas mostram nas redes sociais geralmente é uma seleção cuidadosa de experiências concretas, que assumem a forma de fotografias, vídeos e/ou pequenos textos adocicados. É uma espécie de narrativa de vida idealizada, onde o usuário destaca os aspectos mais atraentes de sua história de vida. Entretanto, os perfis on-line carecem de contexto e o que é mostrado nem sempre corresponde à realidade das pessoas por trás deles. Nosso objetivo é refletir, a partir de uma perspectiva criativa, sobre as vidas possíveis -reais e fictíciasdaqueles que habitam a internet. Para isso, discutiremos a partir de propostas artísticas que as destacam e que utilizam as redes como meio de criação. Entre diversas obras, escolhemos quatro onde identificamos diferentes aspectos: Excellences & Perfections - Amalia Ulman (narrativa ficcional), Intimidad Romero - Intimidad Romero (desidentificação), Born Nowhere - Laís Pontes (identidades múltiplas) e Luther Blissett - César Escudero Andaluz (anonimato múltiplo). Palavras-chave: Arte em rede; Persona On-Line; Persona Off-Line; Redes Sociais; Vidas On-Line. Abstract The life that people show on social media is usually a careful selection of concrete experiences, which take the form of photographs, videos and/or sweet little texts. It's a sort of idealized life narrative, where the user highlights the most attractive aspects of their life story. However, online profiles lack context and what is shown does not always correspond to the reality of the people behind them. Our aim is to reflect, from a creative perspective, on the possible lives - real and fictional - of those who inhabit the internet. For this, we will discuss artistic proposals that highlight them and that use networks as a means of creation. We have chosen four artworks from which we have identified different aspects: Excellences & Perfections - Amalia Ulman (fictional narrative), Intimidad RomeroIntimidad Romero (disidentification), Born Nowhere - Laís Pontes (multiple identities), Luther Blissett - César Escudero Andaluz (multiple anonymity). Keywords: Online Lives; On-Line Personae; Off-Line Personae; Social Networks; Web Art. INTRODUÇÃO Vivemos na sociedade de transparência (HAN, 2020), onde as imagens se tornam imediatas, nuas, hiperexpostas e vazias no espaço virtual. Uma transparência que é, nas palavras de Byun-Chul Han, “... a total promiscuidade do olhar com o que é visto” (HAN, 2020, p. 32). 1
Uma sociedade condenada ao mesmo, a viver uma vida acelerada, sem demora na percepção e na contemplação estética, recriada em uma cena teatral em que cada indivíduo desempenha um papel dentro de sua própria bolha, retroalimentada por aquilo que está próximo e com dificuldade de sair das margens estabelecidas. Uma sociedade controlada, com falta de privacidade e uma certa superexposição de sua intimidade. Desde o surgimento do Facebook em 2004 até os dias de hoje, as redes sociais cresceram exponencialmente em nossas vidas e, como todos sabemos, isso se deve à facilidade com que podemos nos comunicar com outras pessoas. Estar conectado a diferentes canais ao mesmo tempo faz parte do nosso dia a dia: podemos estar enviando um e-mail para nosso chefe enquanto conversamos no WhatsApp com nosso vizinho, respondendo a uma história no Instagram de alguém que mora em outro continente, reagindo a uma receita de um influenciador no TikTok e comentando um vídeo no YouTube. Acrescentaríamos que, desde a pandemia global da COVID-19 em 2020, o uso de nossos dispositivos digitais marcou um ponto de virada na forma e na velocidade com que nos comunicamos virtualmente uns com os outros. Desde então, embora os aplicativos móveis já existam há anos, normalizamos as chamadas para nos encontrarmos com outras pessoas por meio do WhastsApp, Teams, Discord, Skype ou Zoom. Da mesma forma, a arte, sempre aberta a novas transformações e sem ficar atrás das mudanças sociais, se beneficiou da internet e das redes sociais on-line para uma experimentação notável. Com isso, graças às tecnologias digitais e seu potencial comunicacional e interativo, a criação artística testemunhou uma grande mudança discursiva e representacional. Ao longo das próximas páginas, apresentamos exemplos de projetos artísticos que mergulharam nas redes, usando-as como seu próprio meio de criação, que invertem seu sentido padrão e criticam os comportamentos automatizados que assimilamos. Refletimos sobre as formas de habitar esses espaços virtuais e analisamos as características dos diferentes trabalhos, bem como as suas possibilidades. Também destacamos a projeção da identidade na persona on-line a partir de diferentes pontos de vista artísticos e a problematização contemporânea da construção da identidade na era das redes sociais. Por meio de diferentes formas de expressão, trazemos questões relacionadas à fluidez da 2
identidade na sociedade contemporânea e às redes sociais como uma extensão do eu. Localizamos que essa projeção pode ser dar de forma diametralmente oposta no sentido da representação do indivíduo que desenvolve a obra artística, assumindo gradações diversas da aparição do eu, que qualificamos de quatro tipos diferentes: narrativa ficcional, desidentificação, identidades múltiplas e anonimato múltiplo. VIDAS POSSÍVEIS NAS REDES SOCIAIS Na era das redes sociais on-line, os usuários têm a necessidade de mostrar seu lado mais íntimo e particular: compartilhar fotos de suas viagens em família ou reuniões de amigos no Instagram Stories, expressar sua opinião no X, fazer um Twich ao vivo do que estão fazendo em um momento específico ou mostrar suas preferências pessoais em vídeos curtos do TikTok. Um voyeurismo permitido pelos próprios usuários, que se exibem com a pretensão de serem observados por outros. Como diria o professor e ensaísta espanhol Juan Martín Prada, neste momento a prioridade do usuário é “mostre a si mesmo” (MARTÍN PRADA, 2015, p. 157). Ou seja, dentro desses ambientes conectados, o interesse em ter um avatar que se esconde atrás de uma máscara e age por trás de uma representação fictícia não atrai os usuários. Quanto mais fiéis as imagens forem ao que uma câmera poderia capturar, mais interesse causam entre os usuários. Tudo se concentra no reconhecimento de alguém por meio de sua exposição constante em centenas de dados reais, que enfatizam a identidade de cada indivíduo. Especificamente no mundo da arte, essas plataformas on-line “gratuitas” foram interpretadas por muitos criadores como novos suportes para experimentos e pesquisas criativas. A atração de explorar a Web 2.0 desde seu início foi considerável e imediatamente atraiu interesse imediato, tanto de artistas quanto do resto da sociedade. Neste artigo, vamos nos concentrar em uma seleção de quatro projetos, dentre os vários exemplos existentes que nos parecem ser os mais adequados para descrever as possíveis vidas nas redes sociais: Excellences & Perfections de Amalia Ulman (narrativa ficcional), Intimidad Romero de Intimidad Romero (desidentificação), Born Nowhere de Laís Pontes (identidades múltiplas) e Luther Blissett de 3
César Escudero Andaluz (anonimato múltiplo). Por meio das práticas artísticas atuais, fica claro que, como comenta Martín Prada, corremos o risco de sermos prisioneiros da nossa própria imagem, alimentando uma fascinação narcisista, refletida nas representações em mídias sociais (MARTÍN PRADA, 2023, p. 102).1 Tais trabalhos se encontram num espectro de desvio do eu biográfico para um eu descentralizado e em diferentes pontos de um vetor de representação que caminha de um alto grau de idealização e exibicionismo para um de apagamento e anonimato da pessoa que desenvolve a obra. Observamos que entre esses dois limites opostos, representados na imagem a seguir (Fig. 1), o restante das criações artísticas referentes à identidade coexistem nas redes sociais. Figura 1 - Vetores de utilização de personas on-line na web art. Fonte: Das autoras, 2024. Desenvolvemos estes vetores considerando ideias que partem da Psicologia social (TURKLE, 1995; GERGEN, 2006). Em 1991, o psicólogo e professor Kenneth J. Gergen trouxe o conceito do “eu saturado” no livro The Saturated Self: Dilemmas Of Identity In Contemporary Life 2, onde revela as modificações necessárias sobre o reconhecimento da identidade do 2O livro foi publicado em 1991, nos EUA, mas utilizamos a versão de 2006, traduzida para espanhol El yo saturado: Dilemas de identidad en el mundo contemporáneo na editora Paidós em Barcelona. 1E, assim como parece ser evidente nessas relutâncias em se submeter ao registro fotográfico e suas codificações objetivantes, em muitas das práticas artísticas atuais é claro que, como novos narcisistas na era digital, estamos em perigo com nossa própria imagem. Estamos aprisionados nas codificações de representação que são fortes na mídia social. A paixão narcisista é o que nos leva ao circo imaginário do eu que a mídia social promove (MARTÍN PRADA, 2023, p. 102). 4
indivíduo (GERGEN, 2006, p.70). Esta não poderia mais ser tomada como indivisível, mas sim, multifacetada e sujeita a negociações constantes com o meio, perpassado e recondicionado pelas tecnologias. Naquele momento, as comunidades virtuais ainda não tinham tanto impacto no cotidiano como tem apresentado atualmente, mas suas observações foram precisas. Já em 1995, a psicóloga e socióloga Sherry Turkle, no livro Life on the Screen (TURKLE, 1995), texto pioneiro sobre a interpretação do sujeito em comunidades virtuais, analisou experimentos que demandavam a possibilidade de uso de avatares ou de personagens fictícios para interação, demonstrando que a personalidade fictícia não poderia ser separada da identidade do indivíduo que agia na comunidade. Ela aplicou o conceito de persona, advindo do teatro, para tratar do indivíduo que interatuava em grupo virtual, explicando a diferença de operação on-line eoff-line das pessoas. A persona pode ser definida como uma máscara social para interações humanas. A partir de suas ideias fica claro que qualquer perfil que alguém cria na internet se trata de uma extensão da própria identidade. Como se fossem camadas do self. Essa condição é eficiente para abrirmos, sem pretensão de fechar, um estudo sobre como oself do artista, ao ser desmembrado em personas, pode ser ele mesmo a matriz da obra em rede. NARRATIVA FICCIONAL Começaremos com a peça Excellences & Perfections (Fig 2.) da artista multidisciplinar espanhola de origem argentina e residência em Los Angeles, em Los Angeles, Amalia Ulman. Esse trabalho foi uma performance on-line de quatro meses em que ela criou com seus próprios perfis no Instagram e no Facebook, uma narrativa fictícia ou não real em primeira pessoa, reproduzindo certos padrões e modelos de comportamento típicos das influencers3ou celebridades com perfis nessas redes sociais. Ela fez todo o possível para recriar esse tipo de feed: usando legendas e hashtags, criando um ritmo em seus posts, incluindo informações 3A artista utiliza o conceito de it-girls que, originalmente, significava mulheres que chamavam atenção mesmo sem querer. Hoje o conceito está banalizado sob a palavra “influencer”. O termo it-girl ficou conhecido nos anos 20, através da escritora inglesa Elinor Glyin. O termo It girl pode ser consultado em Wikipedia, The Free Encyclopedia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=It_girl&oldid=1220040615> Acesso em: <25/04/2024> 5
“autênticas” sobre sua intimidade ou emoções -como uma imagem com um amante ou um momento de desespero-. Para isso, ela passou por uma transformação extrema e semi-ficcional: por um lado, ela fingiu ter feito um aumento de seios e até mesmo uma cirurgia, manipulando as imagens com o Photoshop e usando um sutiã acolchoado; por outro lado, ela fez mudanças em sua imagem que não eram falsas, como seguir rigorosamente a dieta Zao Dha e frequentar aulas de pole dance. Esse trabalho, foi intencionalmente tornado público pela artista um mês após sua conclusão -o projeto terminou em 14 de setembro de 2014, quando Ulman publicou uma fotografia em preto e branco de uma rosa com “THE END-EXCELLENCES AND PERFECTIONS.” como legendapor meio do evento em andamento First Look, que abriga uma série de projetos digitais com curadoria e apresentação conjunta da Rhizome e do New Museum (FIRST LOOK). Figura 2 - Excellences & Perfections (Amalia Ulman, 2014). Fonte: https://webenact.rhizome.org/excellences-and-perfections/ DESIDENTIFICAÇÃO No caso oposto ao de Amalia Ulman, encontramos Intimidad Romero, uma artista independente cuja identidade é desconhecida. Ela é reconhecida desde 2010 por se apresentar como uma obra de arte 2.0 no Facebook, intitulada com seu próprio nome: Intimidad Romero 6
(Fig 3.). Essa intervenção artística consistiu em um personagem misterioso que oculta, parcialmente por meio do uso de pixels, fotografias digitais íntimas em seu perfil na rede social (PRADA, 2015, p. 163). Ao ocultar as características de identificação de Intimidad e seu entorno, a artista estava criando um burburinho entre seus seguidores e, assim, incentivando o fluxo de imagens e a interação por meio de comentários. Dessa forma, por trás da desidentificação e do anonimato como recurso criativo, podemos refletir criticamente sobre a dinâmica interpessoal e pessoal da vida cotidiana nas redes sociais, oferecendo uma alternativa resistente aos danos que elas causam à nossa intimidade ou privacidade e produzindo um “vazio” nelas, subvertendo os códigos convencionais dessa plataforma. Com tudo isso, o artista consegue desenvolver uma ação que critica a própria mídia por dentro, diante da espetacularização da vida cotidiana (DAFT GALLERY). Figura 3 - Intimidad Romero (Intimidad Romero, 2011). Fonte: https://www.facebook.com/intimidadromero IDENTIDADES MÚLTIPLAS Por fim, observamos que tanto a artista brasileira Laís Pontes quanto o artista espanhol 7
César Escudero Andaluz usam múltiplas identidades como material para sua produção artística. Por um lado, vamos nos concentrar no projeto de social media art Born Nowhere (Fig 4.) de Laís Pontes, criado em 2011, que consiste em uma série de autorretratos fictícios, dotados de novas personalidades por meio do retoque digital que o Facebook usa no processo de criação. Seu principal objetivo era criar múltiplas identidades e, para isso, publicou cada rosto na rede social sem nenhuma informação adicional, pedindo aos seus seguidores que contribuíssem com suas ideias e sugestões para moldar os personagens: seus nomes, biografias e traços de personalidade. Aqui, a participação é essencial para o desenvolvimento do projeto. Depois que as contribuições dos usuários foram compiladas, a artista elaborou a descrição final que acompanharia cada imagem correspondente. Para isso, ela levou em conta três fatores da teoria da personalidade: o que uma pessoa realmente é, o que ela quer ser e o que os outros pensam que ela é. E, com isso, podemos ver como cada nova personalidade seria influenciada pela psicanálise chamada “projeção” (LENSCULTURA) e pelos estereótipos que temos de nós mesmos. Em outras palavras, a pessoa vê o que quer ver de acordo com seu próprio histórico e suas fantasias. Figura 4 - Born Nowhere (Laís Pontes, 2011). Fonte: www.facebook.com/Project.Born.Nowhere Parece apropriado mencionar que, um ano após o nascimento do projeto Born Nowhere, ele evoluiu para Born Now Here (LAIS PONTES). Em Born Now Here, Laís Pontes transformou 8
as identidades de alguns dos personagens criados em seu primeiro projeto descrito -Julia, Stacy, Shena e Ámbare abriu um perfil pessoal no Facebook para eles. Essa é uma performance on-line com as contas de cada personagem. Para refletir as diferentes personalidades, diferentes objetos foram atribuídos a cada uma delas e, dessa forma, foram apresentados comportamentos reais típicos dessa rede social. A artista também misturou elementos das biografias virtuais fictícias com realidades pessoais e físicas de sua própria existência. Depois, ela deu esses personagens virtuais a outras pessoas, dando-lhes a liberdade de revelar suas identidades: acabou consistindo nas conversas de cada participante consigo mesmo, com suas próprias preocupações, medos, ansiedades e sonhos. Por outro lado, encontramos o projeto artístico Luther Blissett (Fig 5), de César Escudero Andaluz, em vigor desde 2012. Esse trabalho é também um perfil do Facebook (LUTHER BLISSETT) cujos amigos virtuais têm o mesmo nome. Com isso, podemos ver como sua identidade está escondida atrás de múltiplos anônimos e bem como o mistério reina nessa obra, onde todos são um só. Além disso, também com o mesmo nome, ele trabalhou na Luther B Taylor Painting, estudou na Luther College, mora em Luther (Michigan) e é de Luther (Oklahoma). Esta obra é inspirada no Luther Blissett Project (LBP), um plano de cinco anos no qual um grande número de artistas, intérpretes e ativistas sociais europeus se propuseram a chamar a si mesmos de Luther Blissett4, como um “autor imaginário” (LOVINK, 2021, p.187), para criar juntos uma lenda de herói popular (LBT) do verão de 1994 (LUTHER BLISSETT). Aqueles que inventaram esse nome múltiplo rejeitaram explicitamente tanto os direitos autorais quanto o monopólio de seu uso (AUTÔNOMO A.F.R.R.I.K.A. GRUPPE). Esse pseudônimo de uso múltiplo é uma “reputação aberta” compartilhada e foi criado de acordo com as necessidades do coletivo que queria abandonar o conceito de In-dividuum, por ser totalmente reacionário, antropocêntrico e associado a conceitos como direitos autorais e, portanto, precisava adotar a ideia de um Con-dividuum. Nas palavras dos próprios autores, eles tiveram que adotar “uma 4Por razões ainda desconhecidas, o nome Luther Blissett foi tomado emprestado de um jogador de futebol britânico de origem afro-caribenha na década de 1980. Disponível em: <https://www.lutherblissett.net/> Acesso em: <23/03/2024> 9