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SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 A CISTERNA DE MONTE MOLIÃO (LAGOS, PORTUGAL) THE MONTE MOLIÃO CISTERN (LAGOS, PORTUGAL) FRANCISCO B. GOMES UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa; Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Fundação para a Ciência e Tecnologia. UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa. Correo electrónico: franciscojbg[email protected]. http://orcid.org/0000-0003-0664-6374 CARLOS PEREIRA UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa; Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Fundação para a Ciência e Tecnologia. Dirección: UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Alameda da Universidade, 1600-214, Lisboa. Correo electrónico: carlos_samuel_pereir[email protected]. https://orcid.org/0000-0002-4116-3602 ANA MARGARIDA ARRUDA UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa; Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Dirección: UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Alameda da Universidade, 1600-214, Lisboa. Correo electrónico: [email protected]. https://orcid.org/0000-0002-7446-1104 Resumo: Conhecida desde o século XIX, a cisterna de Monte Molião constitui o elemento arquitectónico mais destacado do sítio e o único equipamento putativamente público ali documentado até ao momento. A sua escavação em 2011 e 2014 permitiu obter importantes dados sobre a sua tipologia e as técnicas empregues na sua construção, bem como documentar a estratigrafia correspondente à sua colmatação. Foi assim possível determinar que esta estrutura corresponde ao modelo dito a bagnarola, de origem púnica, podendo datar-se do final da Idade do Ferro ou de Época Romana Republicana, tendo sido sujeita a reparações durante este último período. Por outro lado, o último período de utilização desta cisterna parece ter-se verificado entre o Principado de Augusto e o reinado de Tibério, seguindo-se um período de abandono e o seu eventual entulhamento, datado pelos materiais aqui estudados da segunda metade do século I. Abstract: Known since the 19th century, the cistern of Monte Molião is the most notable architectural element in the site and the only likely public infrastructure identified so far in this settlement. Its excavation, undertaken in 2011 and 2014, has brought to light important data about its typology and construction techniques; a complete stratigraphic sequence corresponding to its filling has also been documented. This structure can be attributed to the so-called a bagnarola model which originated in the Punic world and could have been constructed either in the Late Iron Age or in the Roman Republican period, having also been repaired in the latter period. Its last period of use, on the other hand, seems to fall within the reign of Augustus or Tiberius, being followed by a period of abandonment and eventually by its intentional filling which, based on the material studied here, can be dated to the second half of the 1st century. Palavras-chave: estruturas hidráulicas; Algarve; época romana; arquitectura púnica; arquitectura pública. Key words: hydraulic structures; Algarve; Roman times; Punic architecture; public architecture. Recepción: 14 de enero de 2019. Aceptación:23 de abril de 2019 Gomes, F. B., Pereira, C. y Arruda, A.M. (2019): “A cisterna de Monte Molião (Lagos, Portugal)”. Spal 28.2: 235-278. DOI: http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21
236 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA 1. INTRODUÇÃO A cisterna implantada sensivelmente no topo de Monte Molião era, até há pouco tempo, a mais bem conservada e conhecida estrutura arqueológica do sítio localizado na margem esquerda da Ribeira de Bensafrim (figs. 1 e 2). Ainda que se trate de um monumento escavado na rocha, não se projectando, portanto, em altura, a verdade é que o seu impacto é grande, sobretudo pela visibilidade que, apesar de tudo, adquire, pelas suas dimensões e estado de conservação. Por outro lado, foi, até ao início dos trabalhos arqueológicos levados a efeito na última década, a única construção antiga visível, situação que decorria do facto de, no século XIX, ter sido parcialmente esvaziada. A estrutura destinada ao armazenamento de água foi descrita com precisão por Estácio da Veiga, que refere expressamente que assistiu à sua “escavação”, realizada a mando do proprietário do terreno, o Sr. João Pimenta, por trabalhadores da propriedade, tendo deixado registado que «...a construção mais regular que observei foi uma cisterna elliptica, com 4m,35 de profundidade, 1m,76 de largura e 6m,80 de comprimento» (Veiga 1910: 222). Esta “escavação” antiga concretizou-se na área SE, tendo implicado não só a evacuação de todos os sedimentos neste sector, mas também o desmonte da totalidade dos componentes construtivos e mesmo a destruição parcial do fundo da estrutura. A cavidade, com mais de 4 m de profundidade, que ficou aberta, foi sendo utilizada como área de despejos de lixos e de restos diversos ao longo do século passado, despejos que iam sendo tapados com terras ou pedras de média dimensão. Esta utilização ficou bem demonstrada durante a escavação de 2011, quando se recuperaram esqueletos completos de animais domésticos, concretamente de cães e de gatos, nas camadas de terra que entulharam, em momentos diversos, a fossa que resultou da “escavação” da área Sul da cisterna de Monte Molião no final do século XIX. No âmbito do protocolo que une a Câmara Municipal de Lagos e a Faculdade de Letras de Lisboa em torno Figura 1. Localização de Monte Molião (Lagos, Portugal). Mapa de base: Global Multi-Resolution Topography (GMRT), Version 3.4. (adaptado).
237A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 2. Planta topográfica do sítio com localização dos respectivos sectores e alargamentos efectuados nas várias campanhas. O círculo assinala a localização da cisterna.
238 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA deste importante sítio arqueológico do Sul de Portugal, e que se tem consubstanciado em trabalhos de campo e de gabinete, bem como na publicação dos dados neles obtidos, a cisterna foi, em 2011 e 2014, alvo de escavação arqueológica e de intervenção de conservação e restauro. Os resultados alcançados com estes trabalhos trouxeram importantes dados sobre técnicas construtivas usadas em época antiga, pelo menos para a edificação de estruturas hidráulicas, tendo possibilitado também obter informação sobre um momento ainda relativamente mal caracterizado da ocupação do sítio, a dinastia júlio-cláudia, ainda que apenas no que se refere à cultura material. 2. CARACTERIZAÇÃO ARQUITECTÓNICA E CONSTRUTIVA As vicissitudes da história da cisterna do Monte Molião, reflectidas no registo arqueológico que pôde documentar-se nas campanhas de escavação de 2011 e 2014 (fig. 3), geraram umas condições particularmente interessantes para o estudo das técnicas construtivas empregues na realização deste tipo de estruturas hidráulicas. Com efeito, esta cisterna apresentava uma zona em muito bom estado de conservação que permitiu compreender até certo ponto a configuração original da mesma e os acabamentos que a adaptavam à sua funcionalidade (fig. 4). Por outro lado, contudo, possuía uma zona profundamente alterada por violações que podem datar- -se, como já ficou dito, do final do século XIX (fig. 5). No entanto, e sem querer minimizar o impacto negativo destas acções na conservação da cisterna e dos depósitos contidos no seu interior, a verdade é que a profunda afectação da estrutura na sua extremidade meridional permitiu observar certos aspectos relacionados com a construção e com eventuais reparações estruturais que de outra forma não teria sido possível documentar. Figura 3. Planta da cisterna de Monte Molião.
239A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Assim, e em face dos dados recolhidos na escavação, pode precisar-se que o alvéolo desta cisterna, escavado nas bancadas de calcário que compõem o substrato geológico local, foi revestido por uma estrutura de alvenaria composta por seixos rolados de quartzito unidos por um ligante argiloso de natureza fortemente plástica, de coloração esverdeada (figs. 6 e 7). Esta alvenaria apresenta uma espessura algo irregular, entre os 0,31 e os 0,69cm, possivelmente como resultado da necessidade de regularizar o alvéolo subjacente. A superfície desta alvenaria foi, por sua vez, revestida e regularizada recorrendo a uma técnica em três passos: em primeiro lugar, a superfície da alvenaria foi normalizada mediante a aplicação de uma argamassa de cal e areia de grão mais grosseiro (c 2,2 a 3,5cm); sobre esta, aplicou-se uma camada de cal e areia fina (c 0,8 cm), possivelmente com adição de cinzas, servindo de reboco; finalmente, a superfície foi cuidadosamente acabada com uma capa de cal fina (c 0,3cm), bem alisada (figs. 6 e 8). Em relação à base da cisterna, a documentação das técnicas construtivas empregues só foi possível graças à existência no seu sector Sudeste de uma zona onde o desmonte da estrutura de alvenaria aquando das violações antes comentadas se prolongou em profundidade, afectando também o revestimento da base (fig. 5). Figura 4. Aspecto da cabeceira Norte da cisterna de Monte Molião, onde se aprecia o bom estado de conservação da estrutura e do seu revestimento interno.
240 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA Assim, a observação do corte produzido pela interface da referida violação permitiu apreciar que o fundo do alvéolo escavado na rocha terá sido revestido com recurso a um aparelho de alvenaria de seixos e argila esverdeada, em tudo similar ao das paredes laterais, a que se seguia uma espessa (10 cm) camada de opus caementicium, capeada por uma argamassa de cal e areia de grão grosseiro, que, na zona de contacto com as paredes laterais, se aplicou de forma a gerar um ângulo arredondado, em meia-cana suave. Esta característica, típica das estruturas hidráulicas, elimina a existência de ângulos nos quais se poderiam acumular impurezas passíveis de contaminar a água depositada (Bonetto et al. 2012: 2606) e permite reforçar a área de contacto entre a parede e o fundo do depósito, por natureza estruturalmente frágil. A existência do referido corte permitiu ainda constatar um episódio de reparação ou de repavimentação, que consistiu na aplicação de uma camada relativamente fina (c de 2/3cm) de opus signinum (fig. 9). Esta situação foi perfeitamente constatada do ponto de vista estratigráfico, como se pode observar pelas imagens da figura 9 e não ofereceu quaisquer dúvidas. Embora imprecisa, a cronologia desta reparação parece poder enquadrar-se no período Romano Republicano devido à presença de uma quantidade apreciável de fragmentos cerâmicos de proveniência itálica (cf. infra). Figura 5. Aspecto da cisterna após a escavação; a seta assinala a área de aprofundamento da fossa de violação do século XIX na interface da qual foi possível documentar a técnica construtiva do fundo da cisterna e o episódio de repavimentação de Época Romana Republicana.
241A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 na porção central do pavimento da cisterna verificou-se a existência de uma pequena depressão de morfologia irregular, com cerca de 10cm de profundidade, que a priori caberia interpretar como um elemento destinado a facilitar a limpeza do depósito de água. A estrutura resultante, com uma orientação, aproximadamente, norte – Sul, apresenta uma configuração estreita e alongada, com extremidades semicirculares bastante regulares, o que, como adiante se comentará, permite a sua integração no grupo bem tipificado das cisternas ditas a bagnarola (fig. 10). Tal como hoje se conserva, este depósito apresenta um comprimento máximo na ordem dos 6,56m e uma largura máxima em torno aos 1,55m; a sua profundidade máxima restituível alcança os 4,34m. O cálculo da volumetria desta estrutura permite afirmar que a mesma teria uma capacidade aproximada de 42,34m3, o que equivale a cerca de 42.340 l. Não pode, no entanto, excluir-se que a volumetria original desta cisterna fosse algo superior. A zona envolvente encontra-se, com efeito, muito exposta aos efeitos da erosão, sendo hoje facilmente observável o avançado estado de desagregação das bancadas calcárias superficiais, nomeadamente no lado ocidental da estrutura. Não é por isso impossível que a cisterna fosse originalmente um pouco mais profunda. Figura 6. Estrutura de alvenaria e revestimento da cisterna visto em corte na interface da violação do século XIX.
242 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA Figura 7. Exemplo do tipo de seixo utilizado na construção da alvenaria da cisterna. Figura 8. Aspecto da superfície do revestimento interno da cisterna na zona mais bem conservada da cabeceira Norte.
243A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Infelizmente, não dispomos de dados relevantes para a discussão do sistema de cobertura desta cisterna, do qual não se conservam quaisquer vestígios. Assim, e no sentido de tentar restituir esse sistema, podemos unicamente evocar algumas situações documentadas em cisternas tipologicamente comparáveis à do Monte Molião. Deste modo, pode recordar-se que as cisternas a bagnarola, tipicamente muito estreitas, contam com frequência com coberturas muito simples, constituídas por grandes lajes aplicadas horizontalmente sobre a estrutura ou, em alguns casos, por lajes colocadas obliquamente e apoiadas entre si formando coberturas de duas águas (Wilson 2001: 67; Baklouti 2010: 185; Bonetto et al. 2012: 2607; Lara Medina 2018: 151). A ausência de dados seguros não nos permite asseverar qual destas soluções terá sido empregue no sítio algarvio. Finalmente, e do ponto de vista das soluções de alimentação da cisterna, deve assinalar-se uma vez mais que os efeitos da erosão em toda esta zona superior do Monte Molião condicionam sobremaneira as leituras possíveis. Ainda assim, foi possível reconhecer à superfície a existência de um pequeno canal de secção semicircular escavado na rocha que desaguaria no ângulo Sudeste da cisterna (fig. 11, A). no interior deste conservam-se ainda restos de opus signinum que, somados à pendente que apresenta, sugerem que o mesmo terá servido para canalizar as águas pluviais para o interior da cisterna, funcionando como adutor; não pode, contudo, precisar- -se o tipo de estrutura de captação do qual partiria. A utilização do opus signinum nesta estrutura poderia levar a pensar que a mesma corresponde a um acrescento contemporâneo ao episódio de repavimentação antes comentado. Mais difícil de interpretar é um conjunto de estruturas rectangulares com esquinas arredondadas escavadas na rocha no rebordo oriental da cisterna. As mesmas não continham quaisquer depósitos arqueológicos no seu interior, o que dificulta o seu enquadramento cronológico e, por extensão, a interpretação da sua relação com a construção em análise. A primeira destas estruturas, implantada de forma perpendicular à cisterna e conectada com esta no seu terço norte, apresenta uma configuração rectangular alongada, hoje muito alterada, com um comprimento máximo da ordem dos 37,5cm e uma largura máxima de 10,5cm. A sua profundidade é de aproximadamente 13cm. Esta fossa comunica na sua esquina Nordeste com um aparente canal de forma irregular, não documentado em extensão (fig. 11, B). Uma segunda estrutura, igualmente rectangular, apresenta uma implantação ligeiramente oblíqua com respeito ao eixo da cisterna, comunicando com a mesma na sua porção intermédia. Apresenta um comprimento máximo de 27,5cm, uma largura de 33cm e uma profundidade máxima de 11cm (fig. 11, c). Esta estrutura não se apresenta conectada a nenhum outro elemento reconhecível. Finalmente, uma terceira estrutura de aspecto mais complexo comunica com a cisterna no seu terço meridional. Esta fossa apresenta um primeiro patamar de configuração grosso modo quadrangular, com um comprimento máximo de 50cm para uma largura máxima de 45cm e uma profundidade entre os 11 e os 15cm Figura 9. Aspecto do estrato de repavimentação de Época Romana Republicana e estratigrafia de construção. A – Aparelho de alvenaria de seixos e argila; B – Camada de opus caementicium; C – Argamassa de cal e areia; D – Repavimentação de opus signinum; E – Revestimento da base da cisterna.
250 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA a inutilização da cisterna. A Fase V, que fazemos corresponder a um derrube de estruturas que estariam na envolvente imediata, ofereceu um reduzido número de artefactos – 22 –, o que se pode explicar justamente pela formação das respectivas unidades Estratigráficas. Por fim a grande quantidade de materiais arqueológicas da Fase VI – 248 – não é de estranhar, uma vez que é possível considerarmos que os seus níveis arqueológicos correspondem ao entulhamento que selou, definitivamente, a estrutura negativa aqui estudada. O conjunto do espólio exumado no interior da cisterna totaliza 924 artefactos (Quadro 1), dos quais somente 552 foram passíveis de integração no faseamento estabelecido. Os restantes foram recolhidos quer no contexto tardio da Fase VII – 138 –, estando aqueles que se encontravam em contexto primário já estudados e publicados detalhadamente (Arruda e Gomes 2013) – quer em estratos de revolvimento modernos/contemporâneos que afectaram irremediavelmente a conservação dos depósitos primários (234). Apenas os materiais que se conservavam em contexto foram estudados de forma aprofundada neste trabalho, sendo apresentados nas páginas seguintes repartidos pelas distintas fases documentadas no enchimento da cisterna. 4.2. Fase III – a última utilização da cisterna Como foi referido, a Fase III corresponde, genericamente, à última utilização da cisterna, integrando unidades que correspondem a níveis de lodos e limos, nos quais se depositaram alguns materiais arqueológicos. Por este motivo, esta fase incorpora sobretudo cerâmicas comuns, a maioria associada ao consumo, recolha e transporte de água, em apreciável estado de conservação. Porém, e embora o conjunto apresente, sobretudo, cerâmicas comuns, foram reconhecidos outros materiais que permitem tecer algumas considerações acerca da cronologia deste momento em que a cisterna ainda era utilizada para a contenção de água. Infelizmente, nenhum dos quatro fragmentos de ânforas recolhidos permitiu representação gráfica, mas deve, ainda assim, sublinhar-se que três deles Figura 13. Perfil estratigráfico da secção Norte da cisterna, escavada em 2011; nesta zona, os níveis de Época Romana encontravam-se preservados, não tendo sido afectados pela intervenção do século XIX.
251A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 correspondem a produções do vale do Guadalquivir, um dos quais aparenta corresponder a um contentor do tipo Haltern 70. Embora a produção deste tipo anfórico se tenha iniciado no último terço do século I a.n.e. (García Vargas 2000: 67-70; García Vargas et al. 2011) e de o seu fabrico se ter mantido até período tardo-flávio, como parecem comprovar os contextos de La Venta del Carmen, em Cádis (Bernal Casasola e Lorenzo Martínez 1998), o apogeu da sua comercialização pode ser colocado no período augusto-tiberiano. Por outro lado, e como veremos, a sua associação, no mesmo contexto, a outros materiais permite considerar um momento relativamente antigo. A peça restante é um fundo de forma e produção indeterminada. Apesar de os quatro fragmentos de cerâmica de paredes finas itálica serem de difícil classificação, um deles (fig. 15, nº 1) parece poder incluir-se na forma II de Mayet (1975: 34), cuja correspondência à forma III de Marabini (1973: pl. 3, n.º 26 e 29) tem sido assumida. Este tipo começou a ser produzido durante o século II a.n.e., mas é aceitável a sua perduração até à segunda metade da centúria seguinte (Marabini 1973: 58; Ricci 1985: 245), tendo-se mesmo proposto que alcance a época de Augusto (López Mullor 1990: 99). outro fragmento desta mesma categoria cerâmica, correspondente a um fundo (fig. 15, nº 2), foi integrado na forma III, genericamente datada da segunda metade do século I a.n.e. (Mayet 1975: 29), mais concretamente do seu último terço (Passelac 1993: 513). Merecem particular destaque dois exemplares da forma Mayet VIII, equivalente à forma Ricci 1/193 e 1/194 (fig. 15, nº 3), para a qual se apontou uma datação balizada entre os meados do século I a.n.e. e o período augustano (Mayet 1975: 39). os contextos de recolha destes exemplares em Monte Molião permitiram, porém, sugerir o início da sua produção em momentos ligeiramente mais recuados (Sousa e Arruda 2018). A cerâmica comum é a categoria predominante, totalizando 32 fragmentos, dos quais 24 foram passíveis de classificação, distribuindo-se por várias formas que, embora em âmbito doméstico tenham tido distintas funcionalidades, estariam, neste caso, integradas num contexto evidentemente relacionado com a água. Também no que se refere à origem, é grande a diversidade, contando-se com 16 recipientes produzidos na área da Baía de Cádis, 14 do vale do Guadalquivir e apenas um de produção local/regional. As tigelas são a forma mais bem documentada, representando um terço da totalidade de peças de cerâmica comum. Dos dez exemplares, cinco são originários da Bética costeira (fig. 15, nº 4 a 7) e os restantes do vale do Guadalquivir (fig. 15, nº 8 a 11). São recipientes Figura 14. Distribuição das categorias cerâmicas pelas distintas fases de enchimento da cisterna do Monte Molião.
252 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA polivalentes, mas tem sido destacada a sua utilização, sobretudo, para beber (Girón Anguiozar 2017: 318), o que permite admitir o consumo de água no local. Apresentam uma considerável variedade morfológica, situação que, apesar de tudo, não é critério de diferenciação cronológica ou funcional. Os exemplares recolhidos nos estratos da Fase III possuem bordo aplanado ou reentrante, sem evidente tratamento das superfícies, que se apresentam meramente alisadas, e integram- -se na forma 17 da tipologia elaborada para a Baía de cádis (Girón Anguiozar 2017: 318-320), à qual é atribuída uma cronologia que abrange toda a época romana-republicana e alto-imperial. São todos da variante 1, maioritariamente da sub-variante a), reconhecendo- -se alguns da e), tipo que foi já descrito e caracterizado para os contextos deste sítio algarvio (Sousa e Arruda 2014). destacamos particularmente um dos exemplares, de perfil completo (fig. 15, nº 4), que encontra paralelo numa peça publicada por Enrique García Vargas e Ester López Rosendo (2008: 305, Fig. 17, nº 1) da figlina de Rabatún, em Jerez de la Frontera, atribuída à primeira fase de produção da oficina, datada genericamente entre 20 a.n.e. e 20 (García Vargas e López Rosendo 2008: 308). Cinco outras tigelas têm origem no vale do Guadalquivir, sendo passíveis de inclusão no tipo 2.4 da tipologia de María Victoria Peinado (2010: 137-138), realizada a partir do conjunto cerâmico produzido nos fornos de Los Villares de Andújar. Um fragmento com características de fabrico que permitem considerá-lo oriundo do vale do Guadalquivir foi reconhecido como taça, forma que distinguimos da anterior, já que o seu diâmetro de bordo é inferior ao diâmetro máximo. A presença desta forma nos sítios romanos do Algarve não é uma novidade, pois foi já reconhecida em outros sítios e em outros contextos (Pereira 2018: 102). Embora menos frequentes na Fase III, os potes oferecem uma maior diversidade formal, mas não quanto à origem, pois apenas um é proveniente das figlinae litorais da Bética, enquanto os restantes cinco foram fabricados nas do vale do Guadalquivir. nos estratos da Fase III identificámos um exemplar produzido no vale do Guadalquivir (fig. 15, nº 12), do tipo 3.1 de Peinado (2010: 148-150), que tem equivalência no 13.5 da tipologia elaborada para as cerâmicas comuns da Bética litoral (Girón Anguiozar 2017: 247253). Este tipo em concreto tem correspondência com a forma 1.2 de Mercedes Vegas (1973:11-12) e é frequente, sobretudo, nos sítios do litoral da Bética, como parece ser o caso de Jardín de Cano, em El Puerto de Santa María (López Rosendo 2008), ou Los Prados, em Jerez de la Frontera (Girón Anguiozar 2017: 253). Segundo os contextos onde tem vindo a ser identificado, tem-lhe sido atribuído uma cronologia entre o século I a.n.e. e o final do II (Ibidem). Apesar de algumas diferenças, incluímos na mesma forma outros dois exemplares (fig. 15, nº 13 e 14; fig. 16, nº 1), que cabem, no entanto, em outra variante, concretamente a 13.14 da tipologia de Lourdes Girón (2017: 260-261). Ambos, contudo, exibem pastas que permitem considerá-los produções do vale do Guadalquivir. Este tipo de potes, de perfil globular, colo curto e cilíndrico ligeiramente exvertido, bordo engrossado no exterior de perfil triangular e fundo côncavo, é frequente nessa área também em contexto funerário (López de la orden 2003: 112-113, fig. 1, nº 4) e pode-se atribuir-lhe uma cronologia idêntica à da forma anteriormente abordada. Tanto nas produções das figlinae litorais como nas das que se localizariam mais para o interior, este tipo apresenta frequentemente, na superfície exterior, pintura em bandas horizontais, o que também foi reconhecido em três peças deste conjunto de Monte Molião, dois provenientes da Bética costeira (fig. 16, nº 2) e o restante do vale do Guadalquivir. Embora estas formas sejam genericamente denominadas “potes” e como tal consideradas quanto à sua funcionalidade, a verdade é que a sua diversidade morfológica é relativamente grande. Alguns recipientes incluíveis nesta categoria formal podem ser considerados urcei, vasos que, segundo fontes clássicas (Girón Anguiozar 2017: 41-42), se utilizavam, entre outras funções, para conter água. Deve chamar-se desde já aqui a atenção para o facto de não se tratar do recipiente que, há pouco anos, Rui Morais designou de “tipo urceus” (Morais 2007), mas sim de outra forma, que a autora da tipologia construída para a cerâmica comum da Bética costeira, que aqui seguimos, denominou de urceus. Este tipo específico de potes possui duas asas em fita, corpo globular, bocal largo e bordo invertido, aplanado no exterior (Pinto e Morais 2007: 241-242). no lado interno, o bordo apresenta sempre uma depressão, mais ou menos acentuada, que se destinava ao encaixe de uma tampa. A base pode ser plana, por vezes com uma saliência lateral, mas são igualmente frequentes os fundos simples com pé indicado e base plana. A cronologia avançada para esta forma é confirmada pelas características e contextos associados a estes recipientes, frequentemente funerários (Pereira 2018: 115), os quais terão sido particularmente predominantes durante a segunda metade do século I e a primeira do II (Vegas 1973: 113-117). Todavia, a datação do início da
253A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 15. Materiais da Fase III da cisterna de Monte Molião. nº 1 a 3 - cerâmica de Paredes Finas; nº 4 a 14 – cerâmica comum.
254 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA sua produção pode ser mais antiga (Girón Anguiozar 2017: 332), como ficou provado na calle Troilo de cádis (Sáez Romero 2008: 519). o tipo integra a forma 18 da tipologia de Lourdes Girón (2017: 329-333), correspondendo a maioria dos exemplares de Monte Molião à variante 18.1 (fig. 16, nº 3 e 4), forma que a autora considera plurifuncional, mas especialmente vocacionada para o transporte. Para tal hipótese muito contribuíram as considerações de Ponsich e Tarradel (1965: 65-68, fig. 40), que consideraram que em cotta, em Marrocos, a forma estava relacionada com o transporte de garum. Em outros sítios, como é o caso de Ostia, a mesma foi associada à conservação de alimentos, a partir de início do século I (Pavolini 2000: 203). o contexto do seu aparecimento em Monte Molião deve, portanto, ser devidamente valorizado, apesar da sua presença em ambientes funerários algarvios também estar documentada (Pereira 2018: 102-103). Os púcaros estão também presentes na fase mais antiga de enchimento da cisterna. Embora apenas tenha sido recolhido um exemplar neste contexto (fig. 17, nº 1), a forma associa-se igualmente à ingestão de líquidos, entre eles a água. Tal como foi já referido, as fontes clássicas fornecem esclarecedoras passagens acerca do uso destes recipientes (lagoenae), especificamente para o consumo do vinho (Séneca, Epistolae, cXVIII, 15) e da água (columela, De Re Rustica, XII, 11). Este tipo, classificado por Lourdes Girón como forma 11 (Girón Aguiozar 2017: 195-200), apresenta, nessa tipologia, uma grande variedade de subtipos, situação que se relaciona com o facto de a autora reunir nesta forma recipientes que podem ter tido funções distintas. o exemplar lacobrigense apresenta perfil piriforme, carena bem marcada nas faces interna e externa na metade inferior do corpo, colo inexistente, bordo ligeiramente encurvado e base simples (Girón Anguiozar 2017: 209-211). Frequentemente, estes recipientes estão munidos de uma asa, que arranca do bordo ou imediatamente abaixo dele, nos das figlinae do litoral bético, e da parte inferior do bordo nos fabricados no Alto Guadalquivir (Peinado Espinosa 2010: 215, fig. 4.24). A forma, equivalente ao tipo 44.4 de Mercedes Vegas (1973: 102-103), apresenta uma cronologia bastante dilatada, desde o século II a.n.e. até ao III (Girón Anguiozar 2017: 211). Porém, parece evidente uma evolução formal dentro deste tipo em concreto, cujos exemplares mais antigos se inspiram nos modelos metálicos de tipo Piatra neamt (Py 2016, tipo BB-1531), facto que pode justificar a ampla difusão destes púcaros por todo o Mediterrâneo (Vegas 1973: 103). É o caso do exemplar que agora se dá à estampa, que ostenta fortes semelhanças com aqueles recipientes metálicos, pelo que parece credível atribuir-lhe uma cronologia antiga, coeva da dos outros materiais antes abordados, que consideramos produções tardo-republicanas ou augustanas. Também os jarros estão relacionados com a manipulação de líquidos, embora possamos admitir que algumas formas em concreto possam ter sido utilizadas para a ingestão destes. É o caso concreto da forma 11.18 (Girón Anguiozar 2017: 218-219), de que se reconheceu um exemplar (fig. 17, nº 2) integrável na variante b), tipo de recipiente por vezes dotado de uma asa de apoio para o polegar. Estes recipientes ostentam paredes encurvadas, perfis piriformes ou elípticos, terminando em bases simples, umbilicadas. O bordo é exvertido, de forma quadrangular e, por vezes, moldurado. Este tipo de jarros assemelha-se ao tipo 43.1 de Mercedes Vegas (1973: 100-103), para o qual a autora propõe uma cronologia entre a viragem da Era e o século IV. Outros autores, porém, já sublinharam a maior presença desta forma em contextos alto-imperiais, admitindo o seu fabrico e utilização desde o último quartel do século I a.n.e. (Girón Anguiozar 2017: 219). outros dois exemplares (fig. 17, nº 3 e 4) são passíveis de integração na mesma forma, mas as características das suas pastas indicam uma área de produção localizada no vale do Guadalquivir. São recipientes globulares, de paredes curvas, colo indiferenciado do corpo, base simples, plana, por vezes convexa – como é o caso em apreço – e bordos aplanados. É frequente a presença de uma asa. Este tipo tem paralelo com a forma 348 de Santrot e Santrot (1979: 162), documentada sobretudo em contextos do século I. Embora não possam ser relacionadas de forma clara com o consumo ou transporte de água, as tampas funcionaram como elementos que se podem associar aos restantes recipientes, até porque a coincidência entre os diâmetros é notória em, pelo menos, um dos casos (fig. 17, nº 5). Foram reconhecidos dois exemplares, um produzido no vale do Guadalquivir, sendo outro de produção local/regional. Ainda integrável no grupo da cerâmica comum, identificou-se um fragmento inclassificável de cerâmica de engobe vermelho pompeiano, parecendo corresponder ao fundo plano, revestido, no interior, por um engobe espesso, que não parece corresponder a uma produção itálica. As questões acerca da imitação desta categoria de cerâmica itálica foram já abordadas por outros autores (Arruda e Viegas 2002: 222-223; Girón Anguiozar e costa García 2009), pelo que nos dispensamos de aprofundar a temática. Ainda assim,
255A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 16. Materiais da Fase III da cisterna de Monte Molião. Cerâmica comum e pintada.
256 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA é conveniente lembrar que estas “imitações” estão documentadas em outros sítios do território actualmente português, concretamente em Braga (delgado 1994), em coimbra (carvalho 1998), em conímbriga (Alarcão 1975) e na cidade das Rosas, Serpa (caeiro 1978). No Ocidente Peninsular, estas produções estão predominantemente atestadas durante o principado de Augusto (Aguarod otal 1991: 58). Merece ainda destaque a presença de outras peças, que, infelizmente, não permitem grandes considerações, por se apresentarem bastante fragmentadas ou por não facultarem datações precisas. É o caso de um fragmento de lucerna inclassificável e de nove artefactos metálicos. Destes últimos, a maioria integra a categoria de elementos utilitários (pregos), que podem ter sido utilizados em estrutura mecânica de extracção da água do interior da cisterna ou numa eventual cobertura. O conjunto inclui ainda um fragmento de unguentário (fig. 17, nº 6), com revestimento interno de tonalidade negra, idêntico aos do Grupo B de Cuadrado (1977-1978; v. tb. Py 1993) ou do Grupo c de Muñóz Vicente (1987), particularmente dos datados dos dois últimos séculos antes da viragem da Era, sem que reconheçamos um inequívoco paralelismo com qualquer das variantes. Tal como foi considerado para outros exemplares algarvios (Pereira 2018: 115-116), pode tratar-se de uma produção avançada dentro desta série, eventualmente das últimas décadas do século I a.n.e., ou da primeira metade da centúria seguinte. 4.3 Fase IV: utilização pontual como lixeira Os níveis desta fase, correspondente a um momento em que a cisterna terá sido utilizada como lixeira, permitiram a recolha de um total de 226 artefactos, distribuíveis por várias categorias. Destas, as mais numerosas são as ânforas (48) e as cerâmicas comuns (94). destaque-se ainda uma considerável quantidade de cerâmicas de paredes finas (21), de cerâmicas campanienses (14) e de artefactos metálicos (31). das 48 ânforas, 10 não permitiram classificação. As restantes ostentam pastas que delatam produções béticas, itálicas, norte-africanas e lusitanas. As primeiras incluem produções do vale do Guadalquivir (25) e do litoral (oito) (Arruda e Viegas 2016). da primeira região, registaram-se 17 ânforas de tipo Haltern 70 (fig. 18, nº 16) correspondentes, sobretudo, à “versão clássica” (Arruda e Viegas 2016: Fig. 5, nº 5 e 7 e Fig. 6 nº 1 e 9), datável desde Augusto a calígula (Berni 2011: 80-107); uma da Classe 67, cuja produção está documentada, até ao momento, apenas em El Rinconcillo (García Vargas et al. 2011: 260-261), o que permitiu fixar o início da sua produção em momento central do segundo terço do século I a.n.e.; duas de tipo oberaden 83 (fig. 19, nº 1 e 2), cuja produção se prolonga até um momento indeterminado em torno à viragem da Era (García Vargas et al. 2011: 237-238); duas dressel 7/11(fig. 18, nº 9) (Arruda e Viegas 2016: 449, fig. 6, nº 11), que se assemelham às dressel 7, forma que García Vargas considerou o único tipo dentro daquele grupo a ser produzido no baixo Guadalquivir (2000, fig. 6, n.º 10-13). As produções lusitanas são aqui muito escassas. Das sete contabilizadas, duas correspondem a fragmentos inclassificáveis. das restantes, três pertencem à forma Haltern 70 (fig. 18, nº 7 e 8) e ostentam pastas que foram atribuídas ao Algarve ocidental (Arruda e Viegas 2016: 458, fig. 10, nº 1-2). duas asas podem ter pertencido a ânfora(s) dressel 14, não permitindo grandes considerações (Arruda e Viegas 2016: 460), devendo, ainda assim, recordar-se que estes são os recipientes mais tardios neste contexto, mesmo admitindo que possam corresponder a importações dos vales do Tejo ou Sado, onde os mais antigos indícios da sua produção podem recuar até ao início do segundo quartel do século I (Silva 1996). Além destes contentores anfóricos, outros foram reconhecidos, mas tudo indica que correspondem a material residual, representando 19% desta categoria (nove exemplares). Trata-se de ânforas de tipo d de Pellicer, da baía gaditana, dressel 1 itálicas e Mañá c2 (T. 7.4.3.1 e 7.4.3.3.) norte-africanas e gaditanas. Estes contentores oferecem datações anteriores à que se atribui a este contexto concreto e, como tal, poderão resultar de sedimentos que teriam a finalidade de selar os lixos atirados para o interior da estrutura hidráulica. A terra sigillata itálica está presente em quantidades reduzidas, tendo sido contabilizados seis fragmentos, dos quais apenas três permitiram classificação (Arruda e dias 2018). os pratos de paredes baixas, convexas e fundo plano da forma Consp. 4 registam-se na sua variante mais simples (fig. 19, nº 3), que pode ser datada de um momento anterior à fundação de oberaden (Ettlinger et al. 1990: 58). Foram também reconhecidos recipientes que integravam o serviço II de Haltern, as taças de tipo consp. 22 (fig. 19, nº 5), apresentando uma forma cónica com o bordo vertical, côncavo e com decoração externa em guilhoché (Ibidem). A forma Consp. 23.2 corresponde igualmente a uma taça que resulta da evolução da forma anterior. Esta variante foi datada de meados do século I (Ettlinger et al. 1990: 92).
257A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 17. Materiais da Fase III da cisterna de Monte Molião. nº 1 a 5 – cerâmica comum; nº 6 – unguentário de cerâmica.
258 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA A única peça de terra sigillata sudgálica destaca- -se pelo estado de conservação e também pelo facto de corresponder a uma produção antiga, ainda de “tipo itálico” (fig. 19, nº 4). Trata-se de uma forma consp. 22 (Ettlinger et al. 1990: 90-91), sem se tornar possível distinguir a variante uma vez que não dispomos de lábio. No fundo interno, está impressa a marca L. PACONIUS, em cartela quadrangular. Quer a forma, quer a marca, quer o próprio fabrico indicam uma origem nas oficinas de Montans, correspondendo aos primeiros produtos aí fabricados, até porque o oleiro é, segundo Martin (2001: 231), um dos pioneiros na produção destes recipientes nesta área geográfica, muito concretamente na primeira década do século I. A terra sigillata hispânica soma apenas dois fragmentos que, infelizmente, não permitiram classificação. Todavia, atendendo ao facto de ambos ostentarem características tecno-petrográficas que permitem a sua inclusão no grupo da terra sigillata hispânica precoce, não parece descabido supor que se trate de produções coetâneas à dos restantes materiais. A cerâmica de paredes finas é relativamente abundante nos estratos da Fase IV da cisterna de Monte Molião, totalizando 21 fragmentos. Todavia, como é habitual nesta cerâmica, o elevado estado de fragmentação não permitiu a classificação da maioria deles. A forma mais frequente é a VIII de Mayet (13 fragmentos), (fig. 19, nº 6 e 7) equivalente ao tipo Ricci 1/193, com perfis arqueados, bordos altos e paredes muito finas, aproximando-se dos da variante VIII c daquela investigadora francesa (Mayet 1975: 39), 12 dos quais apresentam pastas muito semelhantes aos exemplares de produção itálica (Sousa e Arruda 2018: Grupo 2). o restante ostenta uma pasta de difícil adscrição geográfica, mas que pode integrar uma produção meridional. destacam-se ainda dois bordos (fig. 19, nº 8), exvertidos e engrossados, que podem corresponder à forma XXXI de Marabini, com equivalência no tipo Ricci 1/59, produzida entre o século II a.n.e. e o período augustano (Marabini 1973: 100-101; Ricci 1985: 257). Os estratos desta fase incluem ainda 14 vasos de cerâmica campaniense, com características que acusam origens napolitanas (um) e calenas (dois). Porém, a maioria do conjunto insere-se nas chamadas imitações de campaniense itálica de pastas cinzentas. Os recipientes itálicos encontram paralelo em exemplares da forma Lamb. 27/F. 2831 (fig. 19, nº 10), no caso do exemplar napolitano, Lamb. 8/F. 2311 (fig. 19, nº 11) e Lamboglia 5/7/F. 2275b (fig. 19, nº 12), no caso das produções calenas. Porém, nenhuma destas produções deverá ter perdurado até aos primeiros decénios após a viragem da Era, o que nos obriga a considerá-los materiais residuais. Mais numerosa é a cerâmica campaniense de pasta cinzenta, representada por um total de 11 fragmentos, dos quais apenas seis são classificáveis, integrando-se na forma 5/7 de Lamboglia (fig. 19, nº 13 e 14). Estes fabricos têm vindo a adquirir cada vez mais relevância nos conjuntos desta categoria, não sendo o de Monte Molião excepção (dias 2010; 2015). de facto, e no caso dos conjuntos do Ocidente, foi proposta uma difusão entre meados do século I a.n.e. e princípio do principado de Augusto (Alves et al. 2014: 173), sendo anterior em outras áreas da Península Ibérica (Roca e Principal 2007; Revilla e Roca 2010). no entanto, outros autores alertaram já para o facto de ser difícil tentar estabelecer um momento rígido para o final destas produções do vale do Guadalquivir, propondo que a sua amortização possa, inclusive, prolongar-se após o principado de Augusto (Ruiz Montes e Peinado Espinosa 2012: 124), como alguns casos parecem comprovar (Adroher Auroux et al. 2001; Berrocal Rangel e Ruiz Triviño 2003: 127). Por outro lado, tudo indica que estas produções subsistem, efectivamente, após a viragem da Era, até porque vasos com pastas e acabamentos com estas mesmas características “imitam” formas de outras categorias cerâmicas, nomeadamente a terra sigillata itálica, como acontece no Patio de Banderas do Real Alcázar de Sevilha, onde estão documentadas na 1ª fase imperial, datada entre 15 a.n.e. e 35 (Ramos Suárez e García Vargas 2014: 144-146), tornando possível propor uma cronologia de meados do século I para o final da produção da “cerámica gris bruñida republicana”, quando copiam formas de terra sigillata (Adroher Auroux 2014: 287). A cerâmica comum, alguma pintada, é abundante nesta fase. No total, contabilizaram-se 97 fragmentos, dos quais 27 não permitiram classificação. As produções identificadas delatam origens itálicas (dois), béticas costeiras (71), béticas do Guadalquivir (18) e também, em alguns casos, locais/regionais (sete). o repertório formal é variado, notando-se agora a presença de formas abertas, como alguidares, almofarizes ou pratos. Os alguidares estão representados neste contexto apenas por três bordos (fig. 20, nº 1 a 3), todos produzidos no vale do Guadalquivir. São recipientes plurifuncionais, que podiam, segundo as fontes clássicas (Varrão, De Lingua Latina V: 119; Celso, De Medicina IV: 31), servir para lavar e preparar alimentos ou mesmo ser utilizados na higiene pessoal. Independentemente da função, este recipiente parece ter estado sempre relacionado com a água (Girón Anguiozar 2017: 39). Embora as características tecno-petrográficas
259A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 18. Materiais da Fase IV da cisterna de Monte Molião (desenhos de catarina Viegas, adaptado). nº 1 a 6 – Ânforas Haltern 70 do vale do Guadalquivir; 7 e 8 – Ânforas Haltern 70 de produção lusitana; 9 – Ânfora dressel 7/11 do baixo Guadalquivir.
266 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA Um deles integra-se na forma Consp. 4.6.1 e data-se em meados do século I (Arruda e dias 2018), sendo o restante inclassificável, tal como acontece com o de terra sigillata hispânica. Para o fundo de cerâmica de paredes finas, já estudado (Sousa e Arruda 2018: fig. 5, nº 48), propôs-se a sua integração na forma Mayet VIII, uma vez que partilha com os análogos dos contextos mais antigos do enchimento da cisterna as mesmas características morfo-petrográficas. Merece ainda destaque o conjunto de cerâmicas comuns e pintadas (10 fragmentos), dos quais a maioria é proveniente da Bética costeira, com excepção de um único, com pasta que permite considerá-lo uma produção do vale do Guadalquivir. A primeira destas peças parece corresponder a uma bilha, de bordo triangular e colo estreito, conservando ainda o arranque da asa (fig. 23, nº 1). Apesar de se tratar de uma produção da Bética litoral e de ter sido já identificada por outros autores (Pinto e Morais 2005: 243, fig. 16, nº 146), a forma não está contemplada na tipologia de Lourdes Girón, parecendo estar incluída na grande categoria das lagoenae. Este recipiente em concreto também não aparece no repertório da cerâmica comum dos contextos do Patio de Banderas em Sevilha, apresentando, contudo, algumas semelhanças com as bilhas da fácies II Imperial (Vázquez Paz et al. 2018: 139, fig. 6). Um outro fragmento integra esta última categoria, concretamente a forma 11.14.a (fig. 23, nº 2), representando uma variante que ainda não tinha sido identificada nos contextos mais antigos do enchimento da estrutura hidráulica. Trata-se de uma forma globular, de colo estreito e bordo exvertido e engrossado. O fragmento conserva ainda o arranque da asa. Lourdes Girón propõe para a forma uma cronologia alto-imperial (Girón Aguiozar 2017: 214). Os urcei continuam a aparecer nestes contextos (fig. 23, nº 3), concretamente os da forma 18.1 (Girón Aguiozar 2017: 331), o que, tendo igualmente em consideração os restantes materiais, pode significar que esta fase não é temporalmente distante da precedente. O único fragmento de cerâmica campaniense de pasta cinzenta identificado, que não permitiu classificação, corresponderá a material residual. 4.5. Fase VI: amortização e entulhamento da cisterna os contextos atribuídos à Fase VI englobam potentes estratos com abundantes restos arquitectónicos, argamassas de revestimento e de pavimentos e frequentes pedras de dimensões consideráveis. Estas realidades comprovam que se trata de um entulhamento premeditado, que selou definitivamente a estrutura. A quantidade de materiais recolhida é apreciável (248 artefactos), sendo os mesmos diversificados, quer cronologicamente quer do ponto de vista das categorias identificadas. A variabilidade cronológica resultará do facto de a cisterna ter sido entulhada com sedimentos e restos arquitectónicos anteriores ao momento desta amortização, mas também contemporâneos da mesma, como é o caso de fragmentos de opus tessellatum. Uma vez que a maioria do conjunto de materiais se encontra em contexto secundário, não sendo relevante para a discussão da datação desta fase, algumas categorias e formas concretas são apenas mencionadas, dando-se em contrapartida especial destaque àquelas que seriam coevas da referida amortização. Entre as ânforas, conta-se a presença de exemplares itálicos do tipo dressel 1, do tipo Mañá c2, gaditanos e africanos, do tipo Castro Marim 1, do Baixo Guadalquivir, bem como de um fragmento de um contentor de tipo Carmona de produção gaditana, todos republicanos, e um de tipo Haltern 70, produzido no vale do Guadalquivir. Um fragmento de lucerna pode dar um relevante contributo para a datação do momento em que se selou a cisterna. Integra-se no tipo Andújar (Pereira e Arruda 2016: 168, fig. 17, nº 1), preponderante durante a primeira metade do século I, ainda que o final da sua produção possa alcançar a época flávia (Sotomayor et al. 1976: 135). Os três fragmentos de terra sigillata itálica (Arruda e dias 2018) parecem estar em conformidade com as considerações efectuadas para a lucerna. Um deles não permitiu classificação, mas os restantes integram a forma Consp. 4, para a qual foi sugerida uma datação tiberiana (Viegas 2011: 132), embora em Monte Molião possa alcançar a segunda metade do século I (Arruda e dias 2018). A terra sigillata hispânica precoce está representada por três fragmentos (fig. 23, nº 4), dos quais somente dois permitiram classificação, nos tipos I e III de Martínez (1989). Ainda que esta categoria tenha começado a importar-se durante a primeira metade do século I para os sítios algarvios, foi já sublinhado que subsiste durante a segunda metade desse mesmo século (Viegas 2011: 320). Os dois fragmentos de terra sigillata sudgálica são inclassificáveis, não permitindo, portanto,
267A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 22. Materiais da Fase IV da cisterna de Monte Molião. Cerâmica Comum.
268 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA considerações de ordem cronológica, mas a sua abundância em contextos do Monte Molião durante a segunda metade do século I deve ser tida em consideração. As restantes cerâmicas finas oferecem cronologias consideravelmente mais antigas quando comparadas com as que considerámos contextualmente seguras. É o caso da cerâmica campaniense (sete fragmentos), distribuída pelas produções napolitanas, calenas e de imitações de pasta cinzenta (fig. 23, nº 5 a 7), da de tipo Kuass (oito fragmentos), ou da de paredes finas (três fragmentos), da qual se identificou um bordo do tipo Mayet II e um fragmento do tipo VIII, que conserva ainda o colo da peça e ostentando uma máscara aplicada (fig. 24). Além destes, identificou-se ainda um fragmento de cerâmica ática de verniz negro. Algumas formas de cerâmica comum são antigas, como é o caso dos pratos de bordo em aba pendente ou das “tinajas”, mas outras podem entender-se enquanto continuidade das importações ou imitações das produções béticas. Este parece ser o caso dos urcei (fig. 23, nº 8 e 9) e de alguns jarros (fig. 23, nº 10 a 12). Os dados obtidos através da análise do conjunto cerâmico contemporâneo da formação destes estratos permitem propor que o entulhamento definitivo da cisterna terá ocorrido em momento indeterminado da segunda metade do século I. 4.6. Fase VII: uma fossa de despejos do Baixo Império Englobamos na Fase VII um contexto muito particular documentado junto à cabeceira norte da estrutura e já anteriormente estudado (Arruda e Gomes 2013). os estratos correspondentes à colmatação intencional da cisterna (Fase VI) foram cortados nessa zona pela abertura de uma fossa destinada ao despejo de entulhos. no interior desta interface negativa identificaram- -se dois níveis de enchimento, muito similares entre si, formados por areias soltas, cinzas e/ou cal, que incorporavam uma grande quantidade de material de construção, nomeadamente tegulae, imbrices, tijolos de quadrante e restos de reboco com pintura vermelha escura (idem: 154). O conjunto artefactual que acompanhava estes elementos construtivos era relativamente reduzido e díspar, compondo-se fundamentalmente de espólios que podem considerar-se residuais. Os materiais que podem, em contrapartida, associar-se de forma directa a este episódio de uso oportunista da cisterna como entulheira são escassos, mas ainda assim significativos. O conjunto de materiais primários desta fase inclui um prato de terra sigillata clara c, da forma Hayes 50B, três páteras de terra sigillata clara d, da forma Hayes 58B, uma ânfora lusitana de tipo Almagro 51C, produzida nos ateliers do Tejo/Sado, e restos de bojo de uma ânfora Africana Grande da Tripolitânia (idem: 151-154). Considerado globalmente, este conjunto de materiais cerâmicos permitiu datar este episódio de reutilização da antiga cisterna de um momento impreciso da segunda metade do século IV (idem: 155), cronologia que podemos agora afinar graças ao estudo do conjunto numismático (v. infra), situando este contexto no final daquela centúria, ou mesmo mais provavelmente no início do século V. Este horizonte corresponde, portanto, a um período em que o povoado se encontrava já abandonado. A dinâmica que resultou na formação deste contexto é por isso difícil de restituir e de enquadrar, parecendo de momento um epifenómeno isolado na história da ocupação do Monte Molião. 4.7. Os numismas da cisterna do Monte Molião A escavação dos sedimentos de enchimento da cisterna de Monte Molião permitiu também a recolha de um conjunto de numismas que totaliza 11 exemplares. Infelizmente, a maioria é proveniente dos estratos revolvidos resultantes da “escavação” da estrutura no final do século XIX. Assim, apenas seis foram recolhidos claramente em contexto, três nos estratos da Fase IV e três nos da Fase VII. Deve sublinhar-se que todos correspondem a perdas individuais, distribuindo-se por quatro ases, dois semis, um antoniano, dois quadrantes, um meio centenional e outro correspondente a uma fracção de centenional. Deste conjunto, cinco oferecem cronologias anteriores à viragem da Era, concretamente um as, dois semis e dois quadrantes. Destes, merece destaque o correspondente a um as partido de oSSET (fig. 25), datado do século I a.n.e., recolhido em estratos da Fase IV, e que ostenta uma figura segurando um cacho de uvas (RIC I 58; Villaronga 1994: 396), iconografia típica nas cunhagens desta ceca. Esta moeda foi claramente partida de forma intencional para se poder converter em dois semis, situação que foi frequente entre os séculos II e I a.n.e., devido à escassez de numerário circulante. Os restantes numismas que ofereceram datações romano-republicanas correspondem a cunhagens algarvias, duas de Cilpes e duas, eventualmente, de Ossonoba. Os primeiros foram produzidos em bronze, ostentando o típico atum virado para a direita, possuindo um peso que varia entre 3 e 6g. Os
269A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 Figura 23. Materiais da Fase V da cisterna de Monte Molião. nº 1 a 3 – cerâmica comum. Materiais da Fase VI. nº 4 – Terra Sigillata hispânica; nº 5 a 7 – cerâmica campaniense; nº 8 a 12 – cerâmica comum.
270 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA de Ossonoba são de chumbo, exibindo também a presença de um atum, mas virado para a esquerda, com um peso que varia entre 2,3 e 2,9g. Destes numismas, apenas dois foram recuperados em estratos da Fase IV da cisterna, sendo os restantes provenientes de unidades revolvidas. Ainda que igualmente descontextualizado, outro numisma oferece uma datação coetânea com os níveis de enchimento (fig. 26). Trata-se de um as augustano, cunhado em 7 em Roma por P. Lurius Agrippa (RIC I 427; Sutherland, 1984), apresentando o busto de Augusto no anverso, voltado para a direita, contendo, no reverso, a inscrição de Agripa. Nos estratos da fase mais tardia, a VII, foram recolhidos três numismas de bronze, concretamente dois ases e um antoniniano. Os ases foram ambos cunhados em Roma, sob os reinados de Calígula (RIC I 58), entre 37 e 41, e de Cláudio (RIC I 113), entre 41 e 42. o antoniniano corresponde a uma cunhagem de Roma, do reinado de Galieno (RIC V-I 355) e, portanto, mais tardia (260-268), mas ainda assim residual posto que o contexto em questão foi já datado do século IV (Arruda e Gomes 2013: 155). Figura 24. Fragmento de Paredes Finas do tipo Mayet VIII, que conserva uma máscara aplicada. Figura 25. As partido de oSSET, datado do século I a.c. (RIc I 58).
271A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 A existência de dois outros numismas, correspondentes a centenionais, obrigam igualmente a considerar uma cronologia mais tardia para a ocupação baixo-imperial da envolvente da cisterna. Um deles é um meio centenional de Honório (RIC X 149; Mattingly et al. 1923), datável de 393-395, com um peso de 1.0g, apresentando o busto do imperador virado para a direita, no anverso e, no reverso, Honório a cavalo, caminhando para a direita. O outro, de peso idêntico, pode considerar-se uma imitação hispânica correspondente a uma fracção de centenional de Constâncio II, cópia que terá sido realizada na segunda metade do século IV. Embora estes numismas sejam provenientes de estratos revolvidos, correspondentes a violações recentes, remetem para um momento que pode ser considerado de finais do século IV/inícios do V, e devem, portanto, ser relacionados com a ocupação tardia no contexto da qual se geraram os níveis da Fase VII da cisterna. 4.8. A cronologia da construção, utilização e abandono da cisterna de Monte Molião Alguns contextos coetâneos à estrutura hidráulica de Monte Molião foram já datados entre os principados de Augusto e de Calígula, cronologia que foi suportada pelo estudo da terra sigillata itálica recolhida no interior da cisterna (Arruda e dias 2018). o trabalho que concretizámos sobre a totalidade do espólio recuperado permitiu ir mais além na definição desta proposta, que tem também em consideração a sequência estratigráfica e a respectiva leitura relativa, e alguns detalhes construtivos. Como já atrás referimos, a construção de estruturas negativas é sempre difícil de datar, a não ser através de extrapolações elaboradas a partir de dados referentes à sua utilização. Neste caso concreto, o facto de termos comprovado a existência de uma reparação do fundo da cisterna em época republicana, reparação que designámos como Fase II, permite admitir que esta estrutura foi edificada ou durante a Idade do Ferro, que em Monte Molião está datada entre o século IV e o final do século III a.n.e., ou então já em época romana republicana, no século II a.n.e. Tendo em consideração os paralelos aduzidos no ponto 2, parece que a segunda cronologia será mais adequada para a construção desta estrutura, que foi reparada, muito possivelmente, ainda antes da viragem da Era. Os materiais da Fase III, acima estudados detalhadamente, evidenciam a utilização intensiva da cisterna durante o final do século I a.n.e., uso que pode ter-se prolongado nas primeiras décadas do seguinte. Figura 26. As augustano, cunhado em 7 em Roma por P. Lurius Agrippa (RIC I 427).
272 SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 FRANCISCO B. GOMES / CARLOS PEREIRA / ANA MARGARIDA ARRUDA O abandono desta estrutura terá tido lugar ainda durante a primeira metade do século I, como os espólios recolhidos nos estratos da Fase IV, fase em que serviu como lixeira, claramente documentam. O seu derrube parcial terá acontecido em meados deste mesmo século (Fase V), e o seu entulhamento e amortização definitiva na segunda metade daquela centúria, possivelmente em época flávia (Fase VI). o “episódio” da Fase VII está bem datado do final do século IV/início do V. Temos consciência que esta sequência cronológica (quadro 1) é porventura excessivamente comprimida. Mas a verdade é que os diversos estratos comprovam uma sucessão de realidades distintas, que se seguem no tempo, mas que nunca ultrapassam o século I, com excepção, naturalmente da Fase VII. 5. A CISTERNA DO MONTE MOLIÃO NO CONTEXTO DA OCUPAÇÃO DO SÍTIO. O estudo que concretizámos permite ainda uma série de observações finais que parecem relevantes e importa discutir. Em primeiro lugar, deve destacar-se o facto de a cisterna de Monte Molião corresponder ao mais ocidental exemplo de uma estrutura hídrica a bagnarola, Quadro 1. distribuição das fases atribuídas à cisterna de Monte Molião, cronologias. Interpretação Cronologia Nº total de artefactos (nmi) Categorias e formas representativas Fase I Construção do reservatório — — — Fase II Repavimentação da base Época romana-republicana Inertes com pastas itálicas — Fase III Última utilização da cisterna Final do séc. I e 1º decénios do seguinte 56 – Ânforas (Haltern 70); – Paredes Finas (Mayet II, III e VIII); – Cerâmica comum; – Lucerna; – Unguentário; Fase IV Utilização pontual como lixeira Segundo quartel do séc. I d.C. 226 – Ânforas (Haltern 70; classe 67; ovóide 6; dressel 7/11); – Terra sigillata (itálica consp. 4 e 23.2; sudgálica de”tipo itálico” consp. 22; hispânica precoce); – Paredes Finas (Mayet VIII, Marabini XXXI); – Campaniense de pasta cinzenta; – Cerâmica comum; Fase V Derrube parcial da estrutura Meados do séc. I d.C. 22 – Ânforas (Haltern 70); – Terra sigillata (itálica consp. 4.6.1); – Paredes Finas (Mayet VIII); – Cerâmica comum; Fase VI Entulhamento da cisterna Época flávia 248 – Ânforas (Haltern 70 flávia); – Lucerna de “tipo Andújar”; – Terra sigillata (itálica consp. 4; hispânica precoce Martínez I e III; sudgálica inclas.); – Cerâmica comum; Fase VII Fossa do Baixo Império Final do séc. IV/início do séc. V 138 – Ânforas (Almagro 51c); – Terra sigillata (norte africana clara d).
273A cISTERnA dE MonTE MoLIão (LAGoS, PoRTuGAL) SPAL 28.2 (2019): 235-278 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 http://dx.doi.org/10.12795/spal.2019.i28.21 realidade que pode e deve relacionar-se com as influências púnico-gaditanas que o sítio sofreu desde a sua fundação, no século IV a.n.e. (Arruda et al. 2011), e que se mantiveram ao longo de toda a sua ocupação, muito especialmente na época republicana, tendo já por diversas vezes sido valorizadas. Por outro lado, esta situação remete para a antiguidade da construção da cisterna, cuja datação pode situar-se entre os séculos IV e II a.n.e. de acordo com as sequências estratigráficas observadas e com os detalhes da construção e cronologia da primeira reparação. Certo é que esteve em utilização entre a época republicana e a 1ª metade do século I. O tipo de estrutura, as suas dimensões e capacidade remetem para o seu carácter público. Mesmo que se admita que esta cisterna não foi o único recurso do grupo no que se refere ao abastecimento de água potável, tudo indica que representou um importante papel nesse domínio, podendo defender-se que o “bairro” republicano identificado no Sector c se serviu dela, não sendo também improvável que a água que nela se ia depositando fosse transportada para o mais distante Sector A do povoado em recipientes apropriados para o efeito. As outras estruturas de armazenamento de água de época republicana que certamente existiram são de momento desconhecidas, bem como aliás as que estiveram em funcionamento a partir da 2ª metade do século I e durante todo o século II. Estes reservatórios teriam de ser de consideráveis dimensões, dada a intensa ocupação do sítio nessa mesma época e sobretudo uma actividade oleira (Arruda et al. 2010) que, evidentemente, carecia de água em quantidades apreciáveis. Agradecimentos A escavação da cisterna de Monte Molião e a elaboração do presente estudo foram desenvolvidos no âmbito do projecto MOLA – O Monte Molião na Antiguidade III, integralmente financiado pela câmara Municipal de Lagos através de um protocolo estabelecido com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e com a UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. BIBLIOGRAFIA Adroher Auroux, A. (2014): “cerámica Gris Bruñida Republicana (GBR): el problema de las imitaciones en ceramología arqueológica”, em R. Morais, A. Fernández e M. Sousa (eds.), As produções cerâmicas de imitação na Hispania. Monografias Ex officina Hispana II: 281-290. Porto, universidade do Porto. Adroher Auroux, A.; Caballeros Cobos, A e López Marcos, A. (2001): “Excavación arqueológica de urgencia en la calle Palacio s/n (Guadix, Granada)”. Anuario Arqueológico de Andalucía 1997 III: 285292. Adroher Auroux, A.; Carreras Monfort, C.; Almeida, R. de; Fernández Fernández, A.; Molina Vidal, J. & Viegas, c. (2016): “Registro para la cuantificación de cerámica arqueológica: estado de la cuestión y una nueva propuesta. Protocolo de Sevilla (PRcS/14)”. Zephyrus LXXVIII: 87-110. https:// doi.org/10.14201/zephyrus20167887110 Aguarod otal, c. (1991): Cerámica romana importada de cocina en la Tarraconense. Zaragoza, Institución Fernando el Católico. Alarcão, A. (1975): “céramiques à engobe rouge non grésé”, em J. de Alarcão e R. Étienne (eds.), Fouilles de Conímbriga, VI. Céramiques diverses et verres: 51-58. Paris, Éditions De Boccard. Alves, c.; Mataloto, R. e Soria, V. (2014): “As produções de imitação da campaniense itálica em pasta cinzenta no Sul do território actualmente português”, em R. Morais, A. Fernández e M. Sousa (eds.), As produções cerâmicas de imitação na Hispânia. Monografias Ex officina Hispana II: 165176. Porto, Universidade do Porto. Arruda, A. e dias, I. (2018): “A Terra Sigillata Itálica de Monte Molião, Lagos, Portugal”. Portugália, Nova Série 39: 159-178. http://dx.doi. org/10.21747/09714290/port39a4 Arruda, A. e Gomes, F. B. (2013): “o monte Molião (Lagos) no Baixo Império: um epifenómeno”. Conimbriga 52: 147-163. http://dx.doi. org/10.14195/1647-8657_52_5 Arruda, A.; Sousa, E.; Pereira, c. e Lourenço, P. (2011): “Monte Molião: um sítio púnico-gaditano no Algarve (Portugal)”. Conimbriga 50: 5-32. http:// dx.doi.org/10.14195/1647-8657_50_1 Arruda, A. e Viegas, c. (2002): “As cerâmicas de “engobe vermelho pompeiano” da Alcáçova de Santarém”. Revista Portuguesa de Arqueologia Vol. 5.1: 221-238. Arruda, A. e Viegas, c. (2016): “As ânforas alto-imperiais de Monte Molião”, em R. Járrega e P. Berni (eds.), Amphorae ex Hispania: paisajes de producción y consumo. Monografias Ex officina Hispana III: 446-463. Tarragona, Institut català d’Arqueologia clàssica.
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