Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas
Abstract
O presente artigo vai considerar alguns problemas da obra de Huizinga, Homo Ludens, onde foi proposto o fator social “play” como constante e base da civilização humana, enfim, que “tudo é play”. A crítica terá em conta parte dos principais argumentos aí apresentados, o que resulta na análise do que se considera ser uma confusão conceptual entre “play” e “game”, ou “ludicidade” e “jogo”; uma contradição entre os próprios termos do autor aquando de uma comparação entre um suposto “play” do passado e o que entende ser o do presente; e um engagement que se co-relaciona com os dois pontos anteriores. Com este trajeto, a hipótese huizingiana de um “falso-jogo” também deve ficar esclarecida.
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Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Huizinga, everything is “play” or how everything, after all, can be “false-play”: a few problems Paulo Antunes1 Centro de Ética, Política e Sociedade (CEPS-Uminho, Portugal) ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3603-0127 Recibido: 09-01-2024 Aceptado: 18-06-2024 Resumo O presente artigo vai considerar alguns problemas da obra de Huizinga, Homo Ludens, onde foi proposto o fator social “play” como constante e base da civilização humana, enfim, que “tudo é play”. A crítica terá em conta parte dos principais argumentos aí apresentados, o que resulta na análise do que se considera ser uma confusão conceptual entre “play” e “game”, ou “ludicidade” e “jogo”; uma contradição entre os próprios termos do autor aquando de uma comparação entre um suposto “play” do passado e o que entende ser o do presente; e um engagement que se co-relaciona com os dois pontos anteriores. Com este trajeto, a hipótese huizingiana de um “falso-jogo” também deve ficar esclarecida. Palavras-chave: Conflação, Cultura, Elitismo, Puerilidade, Seriedade. 1 ([email protected]) Investigador integrado no Centro de Ética, Política e Sociedade (CEPS), Universidade do Minho. Pós-doc. financiado pelo projeto exploratório O Interesse Público. Uma Investigação Político-Filosófica/The Public Interest. A Politico-Philosophical Investigation (EXPL/FER-ETC/1226/2021; doi.org/10.54499/CEECINST/00157/2018/CP1643/ CT0004), associado ao CEPS, 2024. Doutor em Filosofia (bolseiro FCT: SFRH/BD/116938/2016) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), 2021. Membro da Associação de Filosofia do Desporto em Língua Portuguesa (AFDLP).
92 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Abstract This article will consider some problems with Huizinga’s work, Homo Ludens, in which the social factor “play” was proposed as a constant and the basis of human civilisation, in short, that “everything is play”. The critique will take into account some of the main arguments presented therein, resulting in an analysis of what is considered to be a conceptual confusion between “play” and “game”, or “ludicity” and “game”; a contradiction between the author’s own terms when comparing a presumed “play” of the past with what he considers to be that of the present; and an engagement that is co-related with the two previous points. With this path, the Huizingian hypothesis of a “false play” should also be clarified. Keywords: Conflation, Culture, Elitism, Puerility, Seriousness. Civilization to-day is no longer played, and even where it still seems to play it is false play – I had almost said, it plays false, so that it becomes increasingly difficult to tell where play ends and non-play begins. This is particularly true of politics. Huizinga (1949, p. 206) In its purest expressions, scholarship – of play or any other topic – occurs because people wish to understand the world and the extent of human capability. […] so studies of play have been responses to contemporary concerns and commitments. Henricks (2015, p. 5) 1. Breve apresentação O presente artigo vai considerar criticamente alguns aspetos da obra de Johan Huizinga (1872-1945) 2, Homo Ludens, aceite como a obra fundadora do moderno estudo do(s) jogo(s) (Nguyen, 2017, p. 2), onde, por meio de uma tese, no mínimo, “imaginativa” (Henricks, 2006, p. 10), foi proposto o fator social “play” como constante e base da civilização humana. Enfim, de certa maneira, que “tudo é jogo”, ou o tem na origem. A nossa preocupação não se vai deter exclusiva nem principalmente na omnipresença da categoria “play”, mas a partir daí conta-se avançar para o que nos parece ser parte dos principais problemas do texto e que não têm deixado de fazer escola. 2 Este pensador do século xx ainda é o historiador neerlandês mais lido e estudado, tendo sido professor de História na Universidade de Groningen entre 1905 e 1915 e na Universidade de Leyden desde 1915 (Geyl, 1961, p. 231).
93 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Antes de lá chegarmos, tomemos as seguintes três notas, sem desvendar o essencial, relacionadas respetivamente com cada um dos três pontos que vão a estudo. O “play” tem para o historiador dos Países Baixos uma origem “pura” que perpassa a sua formalidade para as diversas atividades humanas, desde as artes à política, à guerra, e aos demais fatores socias. Será nas crianças que se apresenta mais límpido, sem a mediação dos adultos, dado que esta mediação pode fazer do “play” um “falso-play”, como para o autor acontece na época contemporânea (verificável desde a primeira inscrição que encima o nosso texto3). Este decair do “play” também se associa a uma “seriedade” que começava a tomar conta da sociedade 4, seria o caso da profissionalização do desporto ou da perda de “fair play” na política. P. ex., nesta deixavamse os modos de contenda alegadamente sadios que teriam existido desde o século xviii para trás, sobretudo no estilo parlamentar. O pessimismo (1949, p. 191 ss.) que daí se vai extrair – que por vezes assume tons quási-apocalípticos – apresenta uma relação muito especial com o seu contexto: Huizinga escrevia em plena ascensão nazi na Alemanha, evento que o angustiava, ao mesmo tempo que repudiava, ao jeito da altaroda, a participação das massas na vida quotidiana 5. Mas Huizinga não enceta esta trajetória teórico-política sem empecimento conceptual, digamos assim, e é este que nos vai guiar nas próximas páginas. Com efeito, a partir de uma parte das suas principais ideias, atrás superficialmente tocadas, seguem-se resumidamente os três momentos para exposição e crítica, o que vamos considerar uma confusão conceptual entre “play” e “game”, ou “ludicidade” e “jogo”; uma contradição entre os próprios termos do autor aquando de uma comparação entre o “play” (sobretudo como é visto em terras ocidentais) no passado e no presente; e um engagement político-ideológico que se co-relaciona com os outros dois pontos 6. Com isto, a hipótese huizingiana de um “falso3 Agora traduzida: «[a]tualmente, a civilização já não se joga e, mesmo onde parece jogar, é um falso jogo [false play] – eu quase tinha dito, joga falso de modo que se torna cada vez mais difícil distinguir onde acaba o jogo e começa o não-jogo [non-play]. Isto é particularmente verdade no que respeita à política». 4 «Nunca uma época se tomou a si própria com uma seriedade mais portentosa. A cultura deixou de ser “jogada” [played]». - «Never had an age taken itself with more portentous seriousness. Culture ceased to be “played”» (Huizinga, 1949, p. 192). 5 Aí, no percurso seguido pelos europeus, encontra-se, seguramente, o que o levou a elogiar o que considerava uma certa “ingenuidade” americana na política em relação à Europa (1949, pp. 207-208). 6 No que respeita sobretudo à nossa preocupação com este último ponto, talvez nos encontremos mais próximos, contudo, sem emular o projeto, da análise de Sutton-Smith (1997, p. 3), autor cuja obra se debruçava sobre “os fundamentos ideológicos das teorias do jogo” (the ideological underpinnings of play theories). Outros autores (DaCosta, 2014) também têm relevado a importância de se pensar a relação entre a ideologia e o desporto, os jogos, etc.
94 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 jogo”, o outro lado da moeda ao qual temos de ir, também deve ficar mais bem esclarecida. É tempo de irmos a jogo. 2. “Play”, etimologia e “seriedade”: sobre uma confusão conceptual Seremos concisos na exposição do que é o entendimento de “play” do nosso autor, até porque não é apenas sobejamente conhecido (ainda que reconheçamos que nem sempre seja consultado na academia), como tem sido abordado já por várias vezes no campo da filosofia (p. ex., Eco, 1985; Duflo, 1997, pp. 35-46; e Ketchum, 2018) 7. Muito rapidamente, podemos ser inteirados da sua noção de “play” por esta passagem inaugural: O JOGO [play] é mais antigo do que a cultura, pois esta, por mais inadequadamente definida que seja, pressupõe sempre a sociedade humana, e os animais não esperaram que o homem lhes ensinasse o seu jogo. [...] a civilização humana não acrescentou nenhuma característica essencial à ideia geral de jogo (Huizinga, 1949, p. 1) 8. Com este excerto em particular, e a obra no geral, Huizinga procurava destacar uma dimensão cultural humana que quase todos os outros autores menosprezavam (seja concedido o seu mérito), a que implica a predisposição para o “play” – como se percebe, mais extenso do que apenas brincadeira, recreação ou ludicidade – entendendo-o anterior (e propiciador) à civilização e igualmente presente noutros seres vivos. No que concerne a uma abrangência do “play” na humanidade, confirma-se o esforço do autor, entre os capítulos IV e X, para apresentar a “jurisdição”, a “guerra”, a “arte” (cénica, musical, etc.), a “literatura”, o “conhecimento”, a “ciência”, a “política”, a “mitopoiese”, a “filosofia” e a “poesia” como parte ou fundadas por aquele. Mas este “play” é mais propriamente definido como estando dentro de certos limites fixos de tempo e de lugar, de acordo com regras livremente aceites, obrigatórias, fixas e de forma ordenada. Ou seja, o autor faz estender a um “play” tendencialmente mais espontâneo, uma dimensão formal menos espontânea e mais relacionada com o jogo (game) “instituído”. 7 Não obstante atalhar-se caminho, aconselhamos a leitura das páginas 11 a 20 de Henricks (2006) para uma síntese muito bem conseguida, e naturalmente mais ampla do que a nossa breve exposição, do se encontra de fundante no primeiro capítulo de Huizinga (1949), conjugado com algumas questões da restante obra. 8 «PLAY is older than culture, for culture, however inadequately defined, always presupposes human society, and animals have not waited for man to teach them their playing. […] human civilization has added no essential feature to the general idea of play».
95 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Como se entrevê pelo elenco, os problemas com a proposta de leitura histórico-cultural de Huizinga começam quando se instala a confusão entre estas duas dimensões da prática, entenda-se, humana. A confusão patenteiase quando o autor, em bom português, mistura “alhos com bugalhos”, i. e., quando mistura “play” com “game” 9, quando a “brincadeira”, o “joguetear”, a “ludicidade”, etc., açambarcam a totalidade deste, do que é normalmente mais institucionalizado, e tendencialmente reduzido às suas regras (trata-se de uma problemática formalista que vamos deixar para outro estudo). Huizinga não distingue em nenhuma passagem entre o que pode ser um e outro. Se o texto original alemão andou às voltas com “spiel” (jogo), a versão inglesa utiliza quase sempre “play”, mesmo quando se esperava “game” 10. Já a tradução portuguesa que consultámos utiliza quase sempre “jogo” (Huizinga, 2003), tal como vai aparecer na própria versão neerlandesa: «[s]pel is ouder dan cultuur» (1950, p. 28), cuja palavra para “jogo” colhe evidentes semelhanças com a alemã (Spiel ist ӓlter als Kultur, 1938, p. 9) 11. E não é que o autor não reconheça momentos de uma diferença, pois vai apresentar o que é a separação de “play” e “game” em quase todas as línguas de relevo, desde o grego antigo, ao sânscrito, ao chinês, ao japonês, ao árabe e hebreu, inclusive ao algonquino (língua ameríndia), só que, perante esta não integração dos termos, contrasta a língua que acabou por os integrar, o latim, cujo termo “ludus” (lúdico), de “ludere”, abarca dos jogos infantis, à recreação, aos concursos, às representações litúrgicas e teatrais, aos jogos de azar, e assim por diante (1949, p. 35). Não obstante o que considera um acerto latino, Huizinga (1949, p. 36) é levado a lamentar que este aspeto não tenha passado para as línguas que o seguiram, acabando por ser substituído por um derivativo de “jocus”, ainda do 9 Eco (1985, pp. 292-293), chama a atenção para a mistura de uma performance que poderá vir de um tipo de “jogar-se” com o “jogo” que normalmente é mais abstrato. 10 E às vezes é o reverso, espera-se por “play” e aparece “game”: «[a] prova [contest] tem todas as características formais e a maior parte das características funcionais de um jogo». - «[t] he contest has all the formal and most of the functional features of a game» (Huizinga, 1949, p. 48). Não é que não possamos entender que a “prova” ou “competição” assim se possam enquadrar, mas o autor pretende manter o que considera a unidade entre o “contest” e o “play”, e aqui fá-lo através do termo “game”. 11 Aproveitamos para aqui o esclarecimento que é feito pelo tradutor da obra de Suits (2017, pp. 7-8 n.), cuja advertência devia ser mais vezes emulada em textos que apresentam as mesmas dificuldades: «[o] verbo to play não tem uma equivalência perfeita em português, dado que é ambíguo entre diversos tipos de actividade que, todavia, têm em comum o aspecto lúdico da acção (pode significar “jogar”, “tocar” um instrumento, “brincar”, etc.). Assim, o leitor deve ter em mente esta ambiguidade, para se orientar, à medida que, em cada situação específica, tenhamos de optar por traduzir play ora por “lúdico”, “acto lúdico”, “jogar”, “brincar”, “joguetear” ou por qualquer construção que se ajuste melhor ao caso e torne o texto mais compreensível». Num sentido não muito distante até podemos dizer que a própria tradução portuguesa de Homo Ludens denuncia a confusão: «[t]oda a obra [Homo Ludens] vive da polissemia da palavra “jogo”, que será utilizada sempre que possível, ainda que, por vezes, se imponha o recurso a palavras como “brincar”, “tocar” e outras do mesmo campo semântico» (Huizinga, 2003, p. 17 n.).
96 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 latim, mais associado ao gracejo e ao gozo, o qual, segundo ele, já não captaria a mesma amplidão de sentido 12. A despeito do interesse que possa ter um debate etimológico, às páginas tantas podemo-nos desviar, como julgamos ter acontecido com o autor, e deixar de perceber que a língua, as palavras como são utilizadas e compreendidas, refletem um modo de vida e uma sociabilidade que faz derivar um modo de comunicação. Quer dizer, não é por uma língua se expressar de uma determinada maneira acerca do “play” que faz deste o que é, pois este será alguma coisa que pode ser melhor ou mais mal expressa, e a língua vai-se adaptando e aproximando (quando não se afasta). Huizinga até pode ter isto presente, mas perde-se um pouco nos labirintos etimológicos 13. Uma vez perdido, outra das questões que nos parece que o levou a não acertar realmente no ponto foi o descurar do uso metafórico para a maior parte dos seus exemplos, quando devia simplesmente optar pelo esclarecimento de uma dimensão distinta entre o “play” e o “game”, não deixando ambos de se cruzar (no mínimo, estas duas dimensões devem ser vistas como dois conjuntos que, representados por um diagrama de Venn, se intersetam) 14. É verdade que o indica uma ou outra vez, mas quase sempre para dizer que a separação do “play” da cultura é que se torna alegórica e não para indicar que a sua extensão à quase totalidade dos eventos culturais é que pode ser uma metáfora. Étimos e alegorias à parte, o problema é mesmo conceptual, i. e., de “teoria do jogo”. No seu caso, reiteramos, ele apresenta uma conceção que não tem bem assentado do que está a falar (entenda-se, ainda assim, que o problema não é necessariamente um problema “lógico” ou meramente definitório, pois nem sempre uma conceptualização apurada traduz-se numa teoria com correspondência real, embora ajude). É, por isso, que se é regularmente confrontado com comparações entre o joguetear das crianças, ou a brincadeira (play) destas, e uma partida de xadrez, entenda-se, de um “game”, “jogo”, e passagens como esta acabem por não 12 Steiner (2003, pp. 9 e 12) destaca os trechos huizingianos sobre este assunto como o que parece ter feito emergir nele o “filólogo do indo-europeu”, mas também, sem pejo na aspereza, apresenta as suas incursões linguísticas e etimológicas como “próprias de um amador”. 13 Por isso, ficamo-nos por aqui: há um bom motivo para a evolução das línguas no sentido de, mantendo a existência de “play” (lúdico, como preferimos entender), dar visibilidade e destaque a “jogar/jogo”, “spielen/spiel”, “jouer/jeu”, “jugar/juego”, etc., como no passado, noutras línguas, se distinguiu as duas dimensões, que no inglês “play” ou “to play” podem-se confundir caso não se recupere (ou propositadamente se exclua) a palavra “game”. É claro que os problemas, depois, podem ser outros, por exemplo, falta poder conjugar qualquer coisa como “ludicar”. Esta questão é relevante porque é normalmente pelo inglês que melhor se distingue cada um destes conceitos, uma vez que as outras línguas têm tendido para variações de jogar para “to play”, e entram em dificuldades quando querem falar de “play” num sentido “lúdico”, “recreativo”, etc. (p. ex., Tekinbas; Zimmerman, 2004, p. 72; e Hurka, 2019, p. 17). Huizinga usou “play”, mas não delimitou minimamente a sua utilização. 14 Eis um exemplo, a propósito dos “dilemas” servirem para estudar o comportamento humano: «[o] s jogos são, afinal, um espelho da própria vida» (Deulofeu, 2010, p. 40, e, para maior aprofundamento da questão do “jogo” ou do “jogar” e da “metáfora”, Henriot, 1989).
97 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 surpreender: «[a] arena, a mesa de cartas, o círculo mágico, o templo, o palco, o ecrã, o campo de ténis, o tribunal de justiça, etc., são todos, na sua forma e função, parques de jogos […]» (Huizinga, 1949, p. 10) 15. Se apelidar este exercício de “confusão” parece pouco munificente com o autor, vejamos como ele (1949, p. 31) inclui o “agón” (disputa), do grego, normalmente associado à competição e ao tipo de “game” que se pode esperar, p. ex., de uns jogos olímpicos, dentro da estrutura formal do “play”, assemelhando a sua função a um “festival”: ou tudo é “competição” ou toda a competição é festa. Mais à frente também vai dizer (1949, p. 55) que o agonístico é mais vincado na cultura chinesa do que na grega e com isso pretende provar que aí também se expõe mais evidentemente o caráter lúdico (ludic character), acabando, no apontamento, por confluir “ludicidade” e “game” (onde coloca eventos como a travessia de um rio, a subida de uma montanha, cortar lenha ou apanhar flores…) com maior obviedade, pois já não se trata apenas de “play”. O agonístico e o antitético, no “play”, estão dados desde o início (Huizinga, 1949, p. 75), este é anterior à civilização e impregna-se em inúmeros exemplos históricos daqueles elementos 16, desde os gladiadores no coliseu ao potlatch, disputa indígena americana por vezes bastante violenta, ou seja, além de “play” e “game” confluírem, ainda se podem confluir com a crueldade 17. Não obstante a conflação (conflation, Carlson, 2011, pp. 75 e 81-84) dos conceitos em causa, Huizinga também operava distinções, só não é a que temos propugnado. E.g., o autor ensaia (1949, pp. 44-45) uma oposição (ainda que pouco convincente) entre “play” e “earnest” (seriedade) ou “work” (trabalho), entendendo que o primeiro é positivo, e, o segundo, negativo: o significado de “earnest” define-se e esgota-se pela negação de “play”, como “não jogar”, e pouco mais. O significado de “play”, por outro lado, não é de modo algum definido ou esgotado pelo facto de ser chamado de “não-earnest” ou “não sério” (not serius). 15 «The arena, the card-table, the magic circle, the temple, the stage, the screen, the tennis court, the court of justice, etc., are all in form and function play-grounds […]». Mais à frente a pança vai engordando, e os exemplos avolumam-se: «[o] relvado, o campo de ténis, o tabuleiro de xadrez e a malha de pavimento não se distinguem formalmente do templo ou do círculo mágico». - «The turf, the tennis-court, the chessboard and pavement-hopscotch cannot formally be distinguished from the temple or the magic circle» (Huizinga, 1949, p. 20). O “círculo mágico” corresponde ao momento, fora da realidade habitual, em que os envolvidos aderem e estão no “play”. 16 Steiner (2003, p. 9) vai indicar que se pressente nestas passagens a influência de “o nascimento da tragédia” nietzscheana, de 1872, a propósito dos “elementos agónicos” que se entendem aí presentes no crescimento da civilização. 17 O psicólogo Burghardt (2005, pp. 385-389) aceita-o perfeitamente, inspirado por um desabafo de Darwin, disserta sobre o “play” poder ser cruel. Já um autor recente, Eberle (2014, p. 228), cuja publicação surge numa sugestiva revista americana – American Journal of Play –, mesmo aceitando em parte uma linhagem huizingiana na abordagem do tema, não deixa de referir que a: «[…] alegria tingida de crueldade não é brincadeira [play]». – «[…] glee tinged with cruelty is not play». Cf., ainda, Caillois, 1958: passim, que abordará várias vezes a violência e o agón, e Eco, 1985, p. 294, que vai comentar precisamente o ato ameríndio referido.
98 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Para o neerlandês, o “play” é uma coisa em si e, como tal, é de uma ordem superior à “seriedade”, uma vez que esta procura excluir o jogo, enquanto o jogo pode muito bem incluir a seriedade (na verdade, o “não-jogo” deverá ser o oposto – prenunciando-se a falsidade –, a “seriedade” ainda não o é totalmente)18. No próximo ponto vamos ver um pouco melhor como é que esta questão se desenvolve. Composto o aparato, o que vimos identificando como “confusão conceptual” praticamente se autopromove quando o próprio autor admite que define melhor a ideia de “play” como “uma função do jogo (play) – a função lúdica (ludic function), de facto” (1949, p. 28) 19. Afinal de contas, em que é que ficamos em termos etimológicos e sérios? Para não evocar termos culturais que eram o que no fundo estava em causa. É de um “play” incipiente e primeiro ou de um “game” formalizado que se trata? Esta confusão virá a contribuir para uma contradição em Homo Ludens (deixando para outro trabalho o que há de contraditório entre um “play” todoabarcante e o seu próprio formalismo, entre outros aspetos). Por sinal, Huizinga começa a contradizer-se quando, mais à frente, começa a aprofundar estes mesmos dados como parte formal de um “falso-jogo”: o que foi ou pode ter sido visto como “play”, prepara-se para deixar de o ser. 3. Do passado e do presente do “play”: a contradição huizingiana Depois de expor todos os fatores sociais como “play”, Huizinga vai avançar, no capítulo xii, com o material que justifica o seu pessimismo. Neste espaço o autor vai analisar as situações que no passado seriam “play” (especialmente em matéria “desportiva”), mas agora – no seu tempo e a despeito da situação anterior – ou já não existiam, ou existindo, já não o eram, ou então eram “falseplay” (que se confunde com o “não-play”, recorde-se a epígrafe). 18 Aqui, Huizinga aproximar-se da leitura de Guardini (1919, p. 151), teólogo alemão que, inclusive, a propósito da relação entre o “play”, o “trabalho” e a “seriedade”, remata que “não se trata de trabalho, mas de jogo”. Havemos de voltar a frisar a sua compatibilidade com este autor. 19 A nossa posição fica mais bem composta, com particular conveniência, se aceitarmos – nem que seja provisoriamente, pois noutro espaço havemos de a deixar pelo caminho – a definição de Suits (1978, p. 124) para “lúdico”: «[…] x está a jogar se e só se x tiver feito uma reafectação temporária para atividades autotélicas de recursos primariamente afetados a fins instrumentais». - «[…] x is playing if and only if x has made a temporary reallocation to autotelic activities of resources primarily committed to instrumental purposes», o que destapa com especial evidência o facto de nem tudo o que é do âmbito da ludicidade, poder ser “jogo”, sobretudo se se tiver em conta de que este não é sempre autotélico, às vezes nem mesmo na sua formalidade. A questão pode ficar arrumada com a seguinte adenda, acerca do que se pode tratar realmente o desvelo huizingiano: «[…] o interesse de Huizinga pelas actividades lúdicas, pelo homem nas suas horas festivas, persistiu» (Steiner, 2003, p. 8), ou seja, mais uma vez o “jogo” não se pode confundir totalmente com a ludicidade, ou um “play” mais genericamente tomado, pois, como entendido, nem todo o jogo é representante de uma “hora festiva”.
99 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Huizinga (1949, pp. 195-196) introduz a ideia de que «[…] o torneio, com a sua encenação altamente dramática e os seus adornos aristocráticos, dificilmente pode ser considerado um desporto [sport]» 20, o que distingue o tipo de eventos contemporâneos dos anteriores. Isto acontece mesmo quando dantes ele até considerava o teatro como uma forma de “play”, passando agora a entender que quando um “torneio”, que dantes também era quase “play puro”, se “dramatiza”, acaba a perder a sua dimensão de “play”, quando, até de acordo com a sua própria conceção alargada, deveria estar a ganhar uma dimensão suplementar. Isto para não falar das variações que a palavra central – “play” – foi tomando ao longo da obra, tendo passado nestas páginas a “sport”. Ainda a propósito do desporto, um dos seus principais problemas pode ser encontrado resumidamente neste excerto: «[...] tornou-se profano, “não sagrado” [unholy] em todos os sentidos e não tem qualquer ligação orgânica [organic connection] com a estrutura da sociedade, muito menos quando prescrito pelo governo» (1949, pp. 197-198) 21. A nova faceta desportiva atacava a dimensão ritualista (litúrgica) do “play” que o autor identificava na base da civilização, a ligação da estrutura religiosa de associação e crença definhava. Face à experiência mais imediata, pode-se afirmar que, mais uma vez de acordo com a sua própria conceção, a “profanidade” não deveria perder o “play”, talvez este apenas se laicizasse como as restantes áreas da sociedade, e o problema de Huizinga era não o aceitar 22. Por conseguinte, não é casual quando o autor (1949, p. 197) exclui o desporto profissional do âmbito do “play”, fá-lo porque o entende como parte de uma “earnest” já não compatível com este. Ao invés, a nosso ver, esta condição de jogo – a profissional – seria perfeitamente compatível com uma noção de “jogo” que se percebesse não confluída com uma lúdica 23. 20 «Now the tournament, with its highly dramatic staging and aristocratic embellishments, can hardly be called a sport». 21 «[…] sport has become profane, “unholy” in every way and has no organic connection whatever with the structure of society, least of all when prescribed by the government». 22 Já Caillois (1958, p. 150,1), ao debater Huizinga, aceita perfeitamente a secularização que para este parece ser parte do problema, senão o principal: «[o] espírito do jogo é essencial à cultura, […] A sua função social mudou, não a sua natureza. A transferência e a degradação que sofreram despojaram-nas do seu significado político ou religioso. Mas esta depreciação só revelou, ao isolá-la, o que continham dentro de si, que não era outra coisa senão a estrutura do jogo». - «Lesprit de jeu est essentiel à la culture, […] Leur fonction sociale a changé, non pas leur nature. Le transfert, la dégradation qu’ils ont subie, les ont dépouillés de leur signification politique ou religieuse. Mais cette déchéance n’a fait que révéler, en l’isolant, ce qu’ils contenaient en eux qui n’était rien d’autre que structure de jeu». 23 Retomando a questão da confusão, este é mais um dos sintomas, pois quando ele opõe o desporto moderno ao jogo medieval devia entender a sua relação como a de um antepassado e o seu desenvolvimento, em vez de uma contraposição absoluta. Fomos dar com o mesmo preconceito em Caillois (1958, p. 36,4): «[q]uanto aos profissionais […], [estes] não se devem encarar como jogadores, mas como indivíduos em ofício. Quando jogam, é a outro jogo qualquer» - «Quant aux professionnels […], il est clair qu’ils ne sont pas en ceci joueurs, mais hommes de métier. Quand ils jouent, c’est à quelque autre jeu», asserção que vai ao cúmulo de distinguir por completo o mesmo
106 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 sentimento de superioridade do autor, que expunha o seu acinte por uma democracia alargada, terá o seu zénite no seguinte fragmento (1949, p. 205): Vimos grandes nações perderem toda a honra, todo o sentido de humor, a própria ideia de decência e de fair play. Este não é o lugar para investigar as causas, o crescimento e a extensão desta bastardização mundial da cultura; a entrada de massas semieducadas no tráfego internacional da mente, o relaxamento da moral e a hipertrofia da técnica desempenham, sem dúvida, um grande papel 38. A “puerilidade” é, assim, um chapéu que alguém (Huizinga garantidamente) do alto da sua “torre de marfim” procura vestir a quem não se ajuste a uma determinada maneira de pensar, e eventualmente praticar, o “play”, digno das mais altas classes, apesar de um enraizamento primitivo 39. Assim se costura o engagement que sobressai entrelinhas em Homo Ludens, com um elitismo, pela via do “privilégio” (quando menos, mais do que polvilhado por um pessimismo 40, é-o por um tipo de saudosismo por vezes difícil de calar em relação à era pré-moderna – “a vida medieval estava repleta de jogos”, 1949, p. 179, melancolizava 41), a partir do qual o seu tom conservador também se faz perceber em algumas passagens 42. O que não quer dizer que um 38 «We have seen great nations losing every shred of honour, all sense of humour, the very idea of decency and fair play. This is not the place to investigate the causes, growth and extent of this world-wide bastardization of culture; the entry of half-educated masses into the international traffic of the mind, the relaxation of morals and the hypertrophy of technics undoubtedly play a large part». Passagens como esta até o colocam em linha com os “teóricos da elite”, como Pareto, Mosca e Michels, ainda em voga no seu tempo e influentes em diversos movimentos, muitas vezes pessimistas, europeus. Entre outras coisas, eles naturalizavam a divisão entre massas e elite. Ainda que uma ligação, entre o autor e estes teóricos, não tenha sido estabelecida pelos seus críticos (nota 32), há ideias que são constitutivas: o governo por uma elite, ou oligarquia, é inevitável como uma “lei de ferro” (Michels, 1911, pp. 377-392). 39 Romein (apud Geyl, 1961, p. 256) também denuncia como Huizinga tendia a falar confinado na tranquilidade do seu próprio estudo. 40 Poeticamente sintetizado por Steiner (2003, p. 10): «Homo Ludens fecha com uma nota de tristeza: as ninfas e os pastores já não dançam». 41 Noutras palavras, Geyl (1961, p. 236) indica-o como um “passado idealizado”. Mas podemos muito bem estabelecer um paralelo com o tipo de “saudosismo” que vigorou na forma de um movimento estético em Portugal, até perto dos anos de 1920, talvez Huizinga só não acompanhasse a temática rácica, ou possamos substituir “rácico” por “play”: «[e]u creio num destino messiânico da minha raça, e sinto, por isso, Saudade. […] É preciso que o povo, sintetizado numa élite, encontre nela os seus instintos rácicos convertidos em conscientes ideias definidas, orientadoras de uma nova acção política e social» (Pascoaes apud Barata-Moura, 1998, p. 202). 42 Servimo-nos do seguinte para o ilustrar: «[a]ssim, o século XIX é visto pelo seu pior lado. Mas as grandes correntes do seu pensamento, independentemente da forma como eram vistas, eram todas inimigas do fator lúdico na vida social. Nem o liberalismo nem o socialismo lhe deram qualquer alimento». - «Thus the 19th century seen from its worst side. But the great currents of its thought, however looked at, were all inimical to the play-factor in social life. Neither liberalism nor socialism offered it any nourishment» (Huizinga, 1949, p. 192). O que não deixa de ser curioso, no mínimo, que um dos seus compatriotas, Nieuwenhuys (1969, pp. 140-141; Ketchum, 2018), militante de esquerda, tenha retirado uma “utopia” a partir do que chamava – inspirado por Huizinga – de o “mundo do homo ludens”, do ser humano jogador, capaz de servir para uma “nova Babilónia”. Talvez tivesse cruzado a sua leitura de Homo Ludens com outros textos de Huizinga, pois de outros textos – p. ex., Herfsttij der
107 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 ponto de vista socialmente engajado seja um problema em si, o “objetivismo” absoluto é um exercício assaz difícil (ou impossível) de concretizar, mas a questão prende-se em como a sua perspetiva não foi declarada e no modo como influiu (mais uma vez propendendo para a contradição e até confusão) no conteúdo, e.g., não fica inteiramente claro que tipo de relação a “puerilidade” pode ter com a “seriedade”. 5. Desfraldar da bandeira axadrezada: notas finais Chegados aqui, podemos conceder que Huizinga (1949, p. 208) não estava inteiramente certo de que o “play” fosse acabar de vez, dado que a “falsidade” do jogo não o impedia totalmente. Mas, na mesma medida em que alargou (confundiu) os critérios, também se expôs a uma contradição na sua análise comparativa, revelando o seu enviesamento posicional 43. É porque o autor confunde o “play” com o “game” que contradiz o primeiro, especialmente quando se depara, entre outras questões, com o desporto moderno, “sério” e massificado, e o opõe ao seu ideal de “play”, e fá-lo decisivamente a partir de uma determinada dis-posição social. Quando, verdadeiramente, está sempre a falar do mesmo, da ludicidade inerente (a uma parte) das relações interpessoais humanas em sociedade, com mais ou menos “game”, obscurecida por um tipo de “play” todo-abarcante, que não destrinça o objeto de uma metáfora sobre o próprio (ao que se pode aplicar a intuição, se algo é tudo, logo, será nada) 44. De pouco serve ao autor aceitar o desenvolvimento histórico-cultural transformativo, processual, quando acaba por defender uma noção de “play” que deveria ter suspendido esse desenvolvimento, ainda para mais na sua forma aristocratizada. Faltou-lhe perceber também que a atitude perante o “play”, o modo de estar e de diversão não tem sempre os mesmos protagonistas, nem as mesmas formas Middeleeuwen (1919), talvez a sua obra mais famosa, mais tarde traduzida para inglês, The Waning of the Middle Ages (1924) – seguem-se intuições como esta, mas depois abandonadas pelo próprio, que tomamos de empréstimo: «[…] o jogo cultural é a forma assumida, face à pressão económica não resolvida, pela mistificação ideológica das classes hegemónicas, que projetam num ideal (ludicamente vivível) a perfeição que renunciam a realizar no concreto social». - «[…] il gioco culturale è la forma che assume, di fronte alla pressione irrisolta dell’economico, la mistificazione ideologica delle classi egemoni che proiettano in un ideale (vivibile ludicamente) la perfezione che rinunciano a realizzare nel concreto sociale» (Eco, 1985, p. 290). 43 Em parte, é isto que Tekinbas e Zimmerman (2004, p. 75) pretendem elucidar quando indicam que a generalidade inclusiva da definição de Huizinga é a sua maior fraqueza, não distingue, entre “play” e “game” e que alguns elementos da sua proposta estão “intimamente ligados à agenda ideológica” de Homo Ludens. 44 Estas questões entrelaçam-se com uma dimensão “metafísica”, especulativa, que vamos preferir discutir noutro espaço, com maior detalhe.
108 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 de ser, ainda quando a “recreação” e o “jogo” possam ser idênticos. Todavia, o que parece ser certo é que o tipo de “play” que Huizinga pretende ressalvar, não apenas pode encontrar um traço desde tempos arcaicos até à bufonaria aristocrática, pelo menos até ao século xviii, como se mantém depois disso, em vez de (não tão) estranhamente se perder quando as “massas” começam a “jogar” o mesmo “jogo”. Sabe-se que estas umas vezes desequilibram o tabuleiro, outras, equilibram, mas quase sempre provocam o arremesso do dito por parte daqueles que exasperam pela sua participação, e este poderá ser um exemplo disso – lembremos como o colocava, falando de uma “bastardização mundial da cultura” 45. Apesar de tudo, o nosso objetivo não foi exclusivamente político (ou ideológico), só que a política parece estar em surdina do princípio ao fim da obra huizingiana, e isso mereceu o nosso empenho analítico e crítico. A este respeito podemos recuperar a segunda epígrafe, através da qual o autor que a redige lembrava – justamente enquanto comentava Huizinga – que “os estudos sobre o jogo têm sido respostas a preocupações e compromissos contemporâneos” 46, e, inclusive, como o nosso autor alertava para as questões acerca de um declínio do “play” serem “particularmente verdade no que respeita à política”. Por certo, não se tratou somente de denunciar o caráter elitista, com os contornos identificados, e que é tantas vezes esquecido 47, e se a questão não pode ser colocada como a de um “não-jogo” ou “falso-jogo” apenas com os arraiais assentes em Homo Ludens – afinal, nem tudo o que existe hoje pode ser “falso-play” – 48, também não se pode fundir conceitos de natureza real diversa ou parcialmente conjugável, nem passar a ver um evento estruturado 45 Tal como o insuspeito Eco (1985, p. 298) indica, com Marx era possível o trabalho desmascarar as regras do jogo da mercadoria-dinheiro, mas em nenhum momento Huizinga se aproximou deste tipo de análises ou metáforas. Efetivamente, ele (1936, p. 17) entendia a revolução como uma “ameaça” lançada pelo Marxismo. 46 Não deixando de ser elucidativa a primeira parte da citação, agora igualmente traduzida: «[n]as suas expressões mais puras, o estudo – do jogo ou de qualquer outro tema – ocorre porque as pessoas desejam compreender o mundo e a extensão da capacidade humana». 47 Este tipo de exercício de “olvido” aparece em várias leituras, além da que já vimos na nota 41, e.g., encontra-se em Russell et al. o que nos assoma como acrítico – no sentido de uma exposição à superfície do material, sem questionar pelos seus fundamentos –, acabando por se aceitar o entendimento huizingiano sobre a relação entre o “play” e a “filosofia” (Huang; Ryall, 2018, p. 81); Skweres (2017, pp. 7-9) apresenta semelhante desempenho quando procura recuperar e relacionar o homo ludens com a filmografia americana; e nem vale a pena aprofundar como o neerlandês foi tão influente nos movimentos artísticos que procuravam escapar ao homo faber, sendo o surrealista uns dos principais, ou como até os situacionistas se deixaram inspirar pelo homo ludens (Pederson, 2021, pp. 39, 41 e 73). 48 É facilmente percebível que nem tudo é “play” ou sequer “game”, mas cremos que, para efeitos relacionáveis com o que pode não ser “play”, ou que se apresenta como tal, será mais válida a definição de “pseudojogo” (Deulofeu, 2010: p. 63) do que a de “falso-jogo”, pois entende-se imediatamente assumido que se trata de algo que se faz passar por “play”, sem “pseudo” acusações de uma “seriedade” ou atribuições a uma “pueril postura”, e ainda menos com intenções todo-abarcantes.
109 Huizinga, tudo é “play” ou de como tudo, afinal, pode ser “falso-play”: alguns problemas Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 por regras em todo o lado (passe o formalismo, só para efeitos de uma distinção instantânea) 49. Aqui, tratou-se, outrossim, de um exercício de revisitação para aclarar/declarar que o “game” está bem vivo entre nós, o “play” igualmente e todos os campos em que ambos se cruzam. Com efeito, não será como Huizinga o entendia. Em remate, arrancando do seu contexto um fragmento de Eco (1985, p. 288), estamos convictos de que «[…] Homo Ludens é uma promessa sugerida e não formulada, além de que não mantida» 50, porquanto ainda que nem tudo seja criticável e superável, podendo aparecer passim algo que mantenha validade conceptual e prática, no essencial, a “teoria (especulativa) do jogo” huizingiana terá de colapsar perante os problemas que fomos levantando (nem que seja por ele não fazer uma teoria do jogo, mas uma teoria do comportamento lúdico, ao que um equivocado “play” não se exime 51). Cabe a quem se interessa pelo tema (de preferência, interdisciplinarmente 52) re-formular o que seja reformulável, des-elitizar, mais do que prometer. 49 Fica o nosso compromisso de voltarmos ao tema para expormos com o merecido detalhe uma noção de “play” e “game” que não se fique essencialmente pela recusa da sua conflação absoluta, ou, aqui e ali e sintetizando, identifique o primeiro mais com um momento social estruturado, e o segundo com a recreação, a brincadeira, etc. 50 «[...] Homo ludens è una promessa suggerita e non formulata, oltre che non mantenuta [...]». 51 Precisamente a propósito do nosso autor: «[n]ão se trata de uma teoria do jogo, mas de uma teoria do comportamento lúdico». - «Non fa una teoria del gioco, ma una teoria del comportamento ludico», (Eco, 1985, p. 291). 52 Com a salvaguarda de que não se apela ao que Henricks (2006, p. 4) denuncia quando refere que os académicos escutam uns e outros com muita atenção nos encontros interdisciplinares, mas depois voltam para os seus próprios paradigmas, ao invés, escuta-se o seu apelo para uma síntese conjunta.
110 Paulo Antunes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 26, nº 57. Tercer cuatrimestre de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2024.i57.04 Referências bibliográficas: Barata-Moura, J. (1998): Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho. Burghardt, G. M. (2005): The Genesis of Animal Play. Testing the Limits, Cambridge, Massachusetts; London, England, A Bradford Book, The MIT Press. Caillois, R. (1958): Les jeux et les hommes. Le masque et le vertige, Édition revue et augmentee, Paris, Gallimard, 1992. [epub] Carlson, C. (2011): “The ‘Playing’ Field: Attitudes, Activities, and the Conflation of Play and Games”, Journal of the Philosophy of Sport, 38, pp. 74-87. DaCosta, L. P. (2014): “Sport and Ideology”, in Torres, C. R. (ed.), The Bloomsbury Companion to the Philosophy of Sport, London etc., Bloombury, pp. 212-227. Deulofeu, J. (2010): National Geographic – Teoria dos Jogos: Prisioneiros com dilemas e estratégias dominantes (edição especial), Lisboa, RBA Revistas Portugal, 2018. Duflo, C. (1997): Jouer et philosopher, Paris, PUF. Duncan, M. C. (1988): “Play Discourse and the Rhetorical Turn: A Semiological Analysis of Homo Ludens”, Play and Culture, 1, pp. 28-42. Eberle, S. G. (2014): “The Elements of Play. Toward a Philosophy and a Definition of Play”, Journal of Play, 6 (2), pp. 214-233. Eco, U. (1985): “Huizinga e il gioco”, in Eco, Sugli Specchi e altri saggi, III edizione. Tascabili Bompiani, 1990, pp. 283-300. Feezell, R. (2010): “A Pluralist Conception of Play”, Journal of the Philosophy of Sport, 37, pp. 147-165. Geyl, P. (1961): “Huizinga as Accuser of His Age” [Huizinga als aanklager van zijn tijd], History and Theory, 2 (3), 1963, pp. 231-262. Guardini, R. (1919): “Liturgy: Playful and Serious” [Vom Geist der Liturgie], in Kuehn, H. R. (sel.), The Essential Guardini. An Anthology of the Writings of Romano Guardini, Chicago, Liturgy Training Publications, 1997, pp. 147-154. Henricks, T. S. (1988): “Huizinga’s Legacy for Sports Studies”, Sociology of Sport Journal, 5, pp. 37-49. _____. (2006): Play Reconsidered: Sociological Perspectives on Human Expression, Urbana, IL, University of Illinois Press. _____. (2015): Play and the Human Condition, Urbana etc., University of Illinois Press. Henriot, J. (1989): Sous couleur de jouer: la métaphore ludique, Paris, Corti.
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