90-110 Nº 65 | VERANO 2024 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 Acessibilidade comunicativa: palavra-chave para um jornalismo democrático e cidadão Communicative accessibility: a keyword for democratic and citizen journalism Samara Wobeto Universidade Federal de Santa Maria | Avenida Roraima, 1000, 97105-900 Santa Maria, RS | Brasil 0009-0000-4812-3649 |
[email protected] Viviane Borelli Universidade Federal de Santa Maria | Avenida Roraima, 1000, 97105-900 Santa Maria, RS | Brasil 0000-0003-0643-2173 |
[email protected] Luan Moraes Romero Universidade Federal de Santa Maria | Avenida Roraima, 1000, 97105-900 Santa Maria, RS | Brasil 0000-0003-4495-6672 |
[email protected] Recepción 27/02/2024 · Aceptación 29/04/2024 · Publicación 15/07/2024 Resumo Este artigo faz parte de uma pesquisa maior desenvolvida como requisito para conclusão do curso de Jornalismo, que objetivou a construção de uma ferramenta de indicadores de qualidade para a acessibilidade comunicativa no jornalismo. A discussão teórica se centra nos entrelaçamentos entre o jornalismo, a democracia e a cidadania em sua relação com a temática. São argumentos centrais a ausência de acessibilidade nas práticas jornalísticas, o que a torna uma lacuna, e as formas estigmatizadas de representação dos públicos com deficiência. O desconhecimento de jornalistas acerca das tecnologias assistivas e formas de acessibilizar também é parte do problema. Argumentase que não é possível ter um jornalismo verdadeiramente democrático e cidadão sem acessibilidade comunicativa. Para atingir o objetivo do artigo, usa-se a revisão bibliográfica (Barrichello, 2016) para delimitar campos teóricos e normativos. Os últimos são guias, legislações e orientações de acessibilidade para a comunicação tanto em nível nacional quanto internacional, que permitem, junto às teorias do jornalismo e da acessibilidade, estabelecer critérios para a construção dos indicadores. Com os mesmos redigidos, eles são testados nos sites de dois veículos jornalísticos, com entrevistas semi-abertas (Gil, 2008) de usabilidade com pessoas com deficiência, e outras com os editores dos veículos analisados. Conclui-se que a acessibilidade não é prioridade destes veículos jornalísticos, o que se evidencia pela baixa pontuação e pelos registros de ausências de tecnologias assistivas, da cultura jornalística que não prioriza valores de acessibilidade e do desconhecimento das melhores formas de incorporar a mesma em uma rotina produtiva. Palavras-chave: acessibilidade comunicativa, jornalismo, democracia, cidadania, indicadores de qualidade.
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 91 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 Abstract This article is part of a larger research project developed as a requirement for the completion of the Journalism course, which aimed to build a tool of quality indicators for communicative accessibility in journalism. The theoretical discussion focuses on the intertwining of journalism, democracy and citizenship in relation to the theme. Central arguments are the absence of accessibility in journalistic practices, which makes it a gap, and the stigmatized forms of representation of audiences with disabilities. Journalists’ lack of knowledge about assistive technologies and how to make them accessible is also part of the problem. It is argued that it is not possible to have truly democratic and citizen journalism without communicative accessibility. To achieve the aim of the article, a literature review (Barrichello, 2016) was used to delimit theoretical and normative fields. The latter are guides, legislation and accessibility guidelines for communication at both national and international level, which, together with theories of journalism and accessibility, allow us to establish criteria for the construction of indicators. Once these were drafted, they were tested on the websites of two news outlets, with semi-open interviews (Gil, 2008) on usability with people with disabilities, and others with the editors of the outlets analyzed. The conclusion is that accessibility is not a priority for these news outlets, as evidenced by the low scores and records of the absence of assistive technologies, the journalistic culture that does not prioritize accessibility values and the lack of knowledge of the best ways to incorporate it into a production routine. Keywords: communicative accessibility, journalism; democracy, citizenship, quality indicators. 1. Introdução A acessibilidade comunicativa na prática jornalística, hoje, representa uma lacuna. São várias as pesquisas que apontam ausência de tecnologias assistivas em produtos jornalísticos (González-Perea, 2018; Beraldo, 2021; González-Perea & Rodríguez-Ascaso, 2022; Barbosa, 2023) e estigmatização dos públicos com deficiência em notícias, reportagens e outros formatos (Freitas, 2021; Gomes & Moutinho, 2021). Além disso, a inserção da acessibilidade em veículos jornalísticos e nas rotinas produtivas é apontada como necessidade por pesquisas da área da Comunicação e do Jornalismo já há algum tempo (Bonito, 2015; González-Perea, 2018; Conceição-Silva, 2021; Beraldo, 2021; Freitas, 2021; Pereira, 2021; Campanhã, 2021; González-Perea & Rodríguez-Ascaso, 2022; García-Prieto et al., 2022; Barbosa, 2023). Esta temática integra uma preocupação que é dos movimentos sociais minoritários que lutam por representatividade, mas que também deveria ser do Jornalismo enquanto campo e enquanto tribo. Apesar da existência de leis que exigem a acessibilidade em sites que são mantidos por empresas brasileiras ou com sede no país (Brasil, 2015), estas não são cumpridas. Bonito (2015, p. 67) define a problemática a partir do conceito de leis invisíveis: “elas existem, mas como não são cumpridas a rigor, tem favorecido àquelas instituições que ocupam o lado hegemônico da cultura visiocêntrica e prejudicado os direitos civis conquistados pelas PDV no Estado de Direito em vigor no país”. Quando proposta a discussão acerca da acessibilidade no jornalismo, é necessário elencar, em um primeiro momento, as problemáticas que envolvem a dimensão comunicativa da questão. Primeiramente, a acessibilidade não é parte integrante de uma cultura jornalística e de rotinas produtivas (Bonito, 2015; Beraldo, 2021; Wobeto, 2023). Do ponto de vista técnico, isso implica na ausência de tecnologias assistivas1 e, consequentemente, de informação acessível a públicos com 1. “[...] produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social”. (Brasil, 2015, s.p).
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 92 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 deficiência (Bonito, 2015; Beraldo, 2021; Freitas, 2021; Wobeto, 2023) - que somam quase 18,9 % da população brasileira (IBGE, 2023). Para Beraldo (2021), “as discussões sobre inovação e modelos de negócio no jornalismo digital não contemplam a acessibilidade como pauta” (p. 118). A autora elenca que esse jornalismo que não pauta o ser acessível provoca três exclusões: quando o conteúdo de uma notícia não é acessível, quando a responsabilidade pelas questões de acessibilidade é elencada às pessoas com deficiência pela sociedade, e quando os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização das legislações não cumprem seu papel. Portanto, para Beraldo, “a acessibilidade de notícias em redes digitais passa primeiramente pela legitimação social das pessoas com deficiência como sujeitos de direitos” (2021, p. 121). Esta problemática perpassa não somente a realidade brasileira. Pesquisadores como GonzálezPerea (2018) e González-Perea & Rodríguez-Ascaso (2022) apontam, em seus estudos na Espanha, um cenário que se assemelha ao do Brasil. Jornalistas são responsáveis pela geração e reforço de determinadas barreiras nos veículos nos quais trabalham (González-Perea, 2018). Apesar disso, também contribuem para a formação de barreiras à infraestrutura e design dos sites e dos sistemas de publicação (CMS). Da mesma forma que a legislação brasileira, a espanhola também exige que os sites de administração ou financiados com recursos públicos e de empresas que prestam serviços na internet sejam acessíveis (González-Perea & Rodríguez-Ascaso, 2022). A partir disso, os autores elencam que a acessibilidade deve ser também uma competência dos jornalistas (González-Perea & Rodríguez-Ascaso, 2022), e que esta preocupação deve começar já na formação destes profissionais (González-Perea, 2018). Outra questão fundamental na discussão sobre a acessibilidade e o jornalismo é do ponto de vista da representação: formas de narrar e hierarquizar produtos jornalísticos, como notícias e reportagens, podem privilegiar modos dominantes de falar sobre pessoas com deficiência. Em matérias que falam destes públicos, por exemplo, estas não são as fontes principais ou sequer são consideradas como entrevistadas (Freitas, 2021). Além disso, formas de narrar que priorizam uma perspectiva de superação e de heroísmo são capacitistas e só contribuem para reforçar estereótipos e preconceitos vigentes (Wobeto & Borelli, 2020). No cenário brasileiro, o tipo de representação heróica, que evoca o tom de superação, é muito comum em eventos como os Jogos Paralímpicos, em que há, para Gomes & Moutinho, “destaque para os feitos extraordinários e a compaixão aumentaria a audiência do desporto paralímpico, gerando maior retorno comercial” (2021, p. 319). Ou seja, o discurso jornalístico que evidencia as deficiências e suas temáticas afins também é aquele que espetaculariza e sensacionaliza (Wobeto, 2023). O entendimento do jornalismo como profissão que perpetua preconceitos e maneiras dominantes de representação ancora-se em Moraes (2022, p. 21), que concebe o campo a partir das escolhas de hierarquias que diz “quem são as pessoas e lugares que valem mais - e, portanto, as pessoas e lugares que valem menos”. Para a autora, quando o jornalismo se apresenta como neutro e acima de paixões, ele é “responsável pela estigmatização de pessoas e grupos e, consequentemente, por seus apagamentos” (2022, p. 21). Neste contexto, é necessário pontuar que parte das prioridades do Jornalismo remonta ao seu surgimento, que tem base no capitalismo (Marcondes-Filho, 2000; Genro-Filho, 2012). E esta lógica capitalista e industrial também interfere no interesse das empresas jornalísticas em investir
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 93 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 em produções jornalísticas acessíveis (Wobeto, 2023). Para Bonito & Guimarães (2023), com o final da Segunda Guerra Mundial e suas consequências, as pessoas com deficiência passaram a ser mais visíveis na sociedade, e isto implica, futuramente, em sua luta por reconhecimento e direitos. No entanto, para Bonito & Guimarães (2023, p. 93), a criação de meios de comunicação não incorporou essa necessidade, já que estas mídias “foram desenvolvidas por pessoas típicas e sem a consultoria de pessoas com deficiência”. Dessa forma, Bonito & Guimarães (2023, p. 95) afirmam que “é preciso tirar o foco da deficiência das pessoas e colocá-lo nas mídias”. A partir do entendimento de que as pessoas com deficiência já existiam quando os meios de comunicação foram criados, pode-se, de acordo com Bonito & Guimarães (2023, p. 95), “concluir que foram as mídias que nasceram com deficiências relativas à falta de acessibilidade”. Portanto, é preciso compreender as organizações jornalísticas responsáveis pelos veículos de comunicação como empresas que visam o lucro, já que estas estão inscritas em uma lógica capitalista em que a informação é transformada em um produto a ser vendido. Assim, é necessário considerar a acessibilidade como parte inerente do fazer jornalístico. No entanto, ao contrário das histórias de superação - que vendem e tem potencial de sensacionalização -, o aspecto técnico da acessibilidade não parece ser prioridade de empresas jornalísticas. Apesar disso, recursos assistivos como a descrição de imagens são considerados como elemento de melhoria de SEO para ranqueamento de sites em sistemas de busca (Pedrosa, 2020). Isso evoca uma brecha para pensar a acessibilidade de modo estratégico, tanto do ponto de vista de posicionamento das organizações jornalísticas quanto da possibilidade de elencar os recursos assistivos2 como centrais na busca por um campo mais democrático e cidadão. Neste artigo, parte-se da premissa de que há um campo de estudos de deficiência e mídia em construção (Ellcessor et al., 2021; Garcêz, 2021), que elenca potencialidades de investigações que interseccionam as duas áreas. Entende-se que esta pesquisa se situa neste meio, não só por estudar objetos jornalísticos frente à mirada comunicativa da acessibilidade, mas também por se embasar em conceitos de autores que têm estudado o tema e têm se tornado referências basilares para estes estudos. Destaca-se que o artigo resulta de parte de uma investigação de conclusão de curso em Jornalismo, em 2023, e que é produto de uma trajetória de quatro anos de iniciação científica, com continuidade na pós-graduação em nível de mestrado. A pesquisa objetivou a criação de indicadores de qualidade para a acessibilidade comunicacional em veículos jornalísticos (Wobeto, 2023), e é retratada aqui, principalmente, sob a ótica da reflexão estratégica da acessibilidade comunicativa como uma palavra-chave para um jornalismo verdadeiramente democrático e cidadão. 2. Jornalismo: democrático para quem? A inserção da acessibilidade comunicativa no jornalismo está essencialmente ligada à garantia da democracia e da cidadania. Antes de chegar a esta afirmação, no entanto, é necessário dar um passo 2. Os recursos assistivos são diversos e podem ser elencados em audiodescrição (ABNT, 2016; Carpes et al, 2016; Motta e Romeu Filho, 2010), Legendagem para Surdos e Ensurdecidos (EBC, 2018; Naves et al, 2016) e Janela de Libras (EBC, 2018), caracteres ampliados (ABNT, 2016), leitor de tela (Salton, Dall Agnol e Turcatti, 2017), Princípios da Acessibilidade Cromática para Daltonismo (Pereira, 2021), entre outros.
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 94 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 atrás e remontar ao surgimento da profissão, que se baseia no capitalismo, mas que só se impulsiona a partir da luta pela garantia dos direitos humanos (Marcondes-Filho, 2000). Na realidade brasileira, esta vinculação é tão forte que o Jornalismo se diz estandarte da democracia, em ligação com o chamado “quarto poder”, que seria responsável por vigiar os outros três poderes políticos - o Executivo, o Legislativo e o Judiciário (Traquina, 2005). O jornalismo, assim, é instituído como o “cão de guarda” da sociedade (Marcondes-Filho, 2000) e, neste papel, detém poder de formação de opinião pública, o que não deixa de ser, também, um poder político (Traquina, 2005). Moraes (2022) afirma que é uma profissão que sempre estigmatizou e exotificou o Outro, e que funciona, pelo discurso, como um reprodutor de violências, seja pela forma como representa as populações marginalizadas, seja pela ausência das mesmas nas notícias e nas redações. Com isso, para Moraes, construímos “cidadanias precarizadas, representações miúdas e violências consentidas” em uma “democracia que jamais deu conta de populações imensas, como as de pessoas negras e as indígenas, em um país que pouco combateu a pobreza, mas muito combateu o pobre” (2022, p. 18). A crítica é para com o modelo democrático liberal, que, para Moraes (2022, p. 103), “sempre permitiu - e permite - o extermínio de populações não brancas e não proprietárias”. Um aspecto importante quando se fala de democracia são os direitos. Para Mata (2006), estes estão articulados a partir dos cidadãos como sujeitos de necessidades, de demandas e de decisão. Se os sujeitos de necessidade estão nos meios como demonstração de marginalização da vida em comum, constituída por deveres e direitos, se os sujeitos de demanda visibilizam a caudacidade ou debilidade de formas políticas de representação anteriores, os sujeitos de decisão constituem o modelo midiático da democracia: o que se constrói com o voto individual, com a eleição desde a intimidade doméstica mediante recursos a algum dispositivo técnico ou desde a interpelação igualmente técnica que produzem as pesquisas de opinião sobre variadas questões de caráter político. (Mata, 2006, p. 10, tradução própria) No entanto, no emaranhamento com as mídias, a principal maneira como os sujeitos são representados é pela necessidade, que evidencia precariedades (Mata, 2007). Nesse entendimento, de acordo com Mata (2006), “a informação sobre nós mesmos e a realidade que fazemos e vivemos e que os meios nos proveem através de milhares de palavras e imagens não é o único alimento para pensarmos e atuar” (p. 8, tradução própria). A autora pontua que, nas sociedades em processos de midiatização (Verón, 1997), estas mesmas palavras e imagens alcançam tanta força que não podemos pensar sem elas, ou seja, Mata (2006) diz que “podemos reconhecê-las como regulações discursivas que expressam, instauram e reproduzem regulações sociais” (p. 8, tradução própria). Em outras palavras, na medida em que os meios de comunicação retratam as pessoas sobretudo como sujeitos de necessidade, há ausências de representações que reconhecem e lutam pelos direitos dos cidadãos, o que é o caso das pessoas com deficiência, conforme já argumentado anteriormente, a partir de Freitas (2021) e Gomes & Moutinho (2021). A partir disso, Mata (2006) propõe o conceito de cidadania comunicativa - proposição importante para pensar os estudos de acessibilidade no Brasil. Este diz respeito aos direitos civis, que incluem “a liberdade de expressão, o direito à informação, a possibilidade de exigir a publicidade de assuntos públicos, etc.” (2006, p. 13, tradução própria). É uma noção que se interliga com as referências identitárias que, para Mata (2006), “implica o desenvolvimento de práticas tendentes a garantir
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 95 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 os direitos no campo específico da comunicação” (p. 13, tradução própria). Ou seja, pensando na legislação brasileira, que garante às pessoas com deficiência o acesso à informação em sites brasileiros (Brasil, 2015), o que inclui os jornalísticos, esta possibilidade de acesso é imprescindível para que este público seja considerado sujeito e, logo, cidadão. Ao não oportunizar o acesso ao público com deficiência por meio da construção de produtos jornalísticos acessíveis, os meios de comunicação ignoram este como público consumidor (Beilfuss & Bonito, 2017; Bonito & Santos, 2018), e negam sua cidadania. Dialoga-se também com Beraldo (2021) quando questiona para quem o jornalismo é produzido. A maneira como os diferentes formatos jornalísticos são construídos diz muito sobre quem são os públicos consumidores. Quando constrói produtos sem acessibilidade, o jornalismo evidencia que não é feito para pessoas com deficiência. Isto vai ao encontro do que diz Bonito (2015) quando afirma que a hegemonia cultural em que vivemos compõe uma disputa que é de forças políticas entre pessoas sem deficiência e aquelas com deficiência. Bonito (2005) afirma que “o primeiro grupo, em situação mais confortável, detém as lógicas da hegemonia cultural vigente, enquanto que o segundo grupo está à mercê dessas lógicas” (p. 60). A acessibilidade é uma questão de Direitos Humanos na medida em que a Declaração Universal de Direitos Humanos coloca como universal e inalienável o direito à liberdade de expressão, opinião e informação (Centers, 2000). Tendo o Jornalismo um papel social de informar e comunicar, Beilfuss & Bonito (2017, p. 4) estabelecem que ele “dá ao receptor a capacidade de que ele crie sua opinião e exerça o seu papel de cidadão, assim, quando não há informação acessível, não há respeito aos Direitos Humanos”. Gentilli (2005) coloca que o direito à informação tem ligação direta com a cidadania, além de que o jornalismo é parte constituidora decisiva de uma democracia representativa. O Jornalismo é, para Gentilli (2005, p. 142), “o instrumento que viabiliza o direito à informação, onde os jornais desempenham a função de mediadores e os jornalistas, individualmente, de representantes do leitor, telespectador e ouvinte, como indivíduos, consumidores e cidadãos”. Portanto, a partir da reflexão dos autores e estudos elencados, evidencia-se que a discussão da cidadania gira em torno da questão de direitos o que, no caso das pessoas com deficiência, é basilar e representa uma luta de décadas pelo mínimo - que neste caso é a garantia do acesso à informação. Como dito, Bonito (2015) concebe que há legislações invisíveis - que existem no papel, mas que não são cumpridas e muito menos fiscalizadas. Exemplo brasileiro é a inserção de audiodescrição em faixas da grade de programação televisiva de canais da TV aberta, cuja obrigatoriedade é prevista desde 2011, mas desde então também é adiada por meio de recursos judiciais pelas próprias redes de televisão (Bonito, 2015)3. Esta é apenas uma amostra da problemática de direitos de acessibilidade no Brasil, pois nem as legislações são cumpridas pelos veículos de comunicação. Portanto, ao entrelaçar o jornalismo, a democracia, a cidadania e a acessibilidade, pode-se assegurar que, sem acessibilidade - em específico a comunicativa -, não há como o jornalismo se colocar como uma profissão que assegura a plena democracia e que promove a cidadania de todas as pessoas (Wobeto, 2023). Ao exilar pessoas com deficiência do acesso à informação, o jornalismo reforça a prioridade de determinados públicos do espaço de noticiar, narrar e representar, o que encontra a concepção de Moraes (2022) sobre os espaços e pessoas que valem mais. Beraldo (2021, p. 117) questiona: “Para quem o jornalismo 3. Argumentos usados para a revogação de portarias foram a transição do modelo analógico pro digital, a falta de mão de obra especializada para a construção de audiodescrição e tradução em Libras e a ‘impossibilidade’ de adequação dos conteúdos ao vivo. São justificativas que atendem aos interesses das emissoras de Rádio e Televisão brasileiras (Romeu Filho apud Bonito, 2015).
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 96 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 é feito?”. Ao responder a essa pergunta, evidenciamos quais são os públicos considerados cidadãos. No jornalismo, portanto, pessoas com deficiência não são classificadas com potencial de consumidoras, o que, para Beraldo (2021, p. 125), perpetua valores excludentes nas redações e deixa “as pessoas com deficiência à margem da participação cidadã”. É nesse complexo contexto que propomos pensar a acessibilidade comunicativa como uma palavra-chave de um jornalismo verdadeiramente democrático e cidadão. A garantia da cidadania está diretamente ligada ao direito de acesso à informação, o que, por sua vez, só é possível para todos os públicos também por meio da acessibilidade comunicativa em produtos jornalísticos. Sem acessibilidade, portanto, o Jornalismo não é promotor de cidadania e, na medida em que não atua como fiador de direitos, não pode ser considerado plenamente democrático. O jornalismo, atualmente, não é democrático para as pessoas com deficiência, ou seja, é falho na proposição de seu papel social, na garantia de direitos e, portanto, de cidadanias. Com isso, parte-se para a discussão metodológica. 3. Procedimentos metodológicos Para alcançar o objetivo da investigação, que é a proposição de construção de indicadores de qualidade, desenvolveu-se um caminho metodológico que pode ser resumido nas etapas descritas a seguir. 3.1. Revisão de literatura Com embasamento em Barrichello (2016), é definida como uma pesquisa sobre o que já foi publicado sobre determinada temática para a construção de argumentos (Gash apud Barrichello, 2000); esta foi a primeira etapa da investigação, dividida na leitura e revisão de documentos teóricos - sobre jornalismo, comunicação e acessibilidade - e normativos (legislações, guias, manuais e normas de acessibilidade, base para a construção dos indicadores). Os últimos são a base para o entendimento das necessidades de acessibilidade em site, nas tecnologias assistivas essenciais para acessibilizar processos de comunicação e informação. Isto, inclusive, é fundamental para o desenvolvimento dos indicadores de qualidade e dos critérios dos mesmos. 3.2. Definição dos veículos a serem analisados Esta coleta de dados segue a perspectiva do jornalismo que tem circulação numa dada região para além da cidade sede (Borelli, 2015). A partir de dados de acesso consultados no Instituto Verificador de Comunicação (IVC) e da Associação Nacional de Jornais (ANJ), definiu-se em dois os veículos que constituem o corpus, que tem similaridades populacionais da cidade-sede e características semelhantes de estrutura do site. Aqui, estes serão denominados como Veículo 1 e Veículo 2. O primeiro localiza-se em uma cidade do nordeste do Rio Grande do Sul (que é a unidade federativa mais ao sul do Brasil) que tem cerca de 523 mil habitantes (IBGE, s.a.), é faz parte de uma empresa maior com tradição no estado, foi fundado em 1948 (75 anos), tem circulação diária e está no ambiente digital desde 2008. Já o Veículo 2 fica em uma cidade no sul do Rio Grande do Sul, com aproximadamente 343 mil habitantes (IBGE, s.a.), foi fundado em 1890, também tem circulação diária e tem versão online desde 1997.
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 97 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 3.3. Redação dos indicadores A partir das bibliografias, estabeleceram-se os critérios para os indicadores. Eles foram divididos em quatro categorias de análise: a produção jornalística, a empresa jornalística, o nível técnico do site e a legislação. Os indicadores são divididos nestes eixos e a hierarquia dos pesos dos indicadores é a seguinte: a. Produção jornalística: é o processo que possibilita que os produtos jornalísticos construídos pelos profissionais sejam acessíveis. Apesar desta etapa depender do nível técnico do site e do respaldo da empresa jornalística, caso o profissional jornalista não incorpore recursos assistivos em seu processo de produção, não haverá acessibilidade comunicativa e, logo, acesso à informação por pessoas com deficiência. É a etapa em que a mudança cultural das redações pode ocorrer e, por isso, tem peso 4. b. Empresa jornalística: é o posicionamento da organização jornalística, com a implantação da acessibilidade no site e no processo produtivo, que respalda a acessibilidade comunicativa como uma decisão editorial. É a instância que pode investir financeiramente, tanto por meio da qualificação técnica quanto da formação humana de seus profissionais. Caso a acessibilidade comunicativa não seja uma decisão editorial, permanecem as iniciativas isoladas que, apesar de importantes, não significam uma mudança cultural. Por isto, este eixo tem peso 3. c. Nível técnico do site: define-se como as características básicas que o veículo precisa ter para a implementação da acessibilidade. Caso o jornalista tenha uma atuação concernente à acessibilidade comunicativa e as infraestruturas do site não possibilitem a atuação, tem-se um processo incompleto e falho. Tem peso 2. d. Legislação: considera-se o mínimo que o site jornalístico precisa ter, e não somente por conta do cumprimento da legislação, mas pela definição de diretrizes e normativas necessárias para que uma grande parcela da população tenha garantido o acesso à informação. Por considerar que estes itens deveriam ser cumpridos, delimita-se com peso 1 (Tabela 1). Tabela 1 Quadro teórico e normativo para a construção dos indicadores Eixo de análise Aporte Autores Produção jornalística Teórico e normativo Medina (1995); Wolf (2009); Motta & Romeu-Filho (2010); Bonito (2015); ABNT (2016); Carpes et al., (2016); Naves et al., (2016); EBC (2018); Beraldo (2021); Carlón (2021); Freitas (2021); Pereira (2021); Conteúdo & Unicap (2022a; 2022b); Moraes (2022) Empresa jornalística Teórico Wolf (2009); Traquina (2005; 2013); Genro-Filho (2012); Bonito (2015); Beraldo (2021) Nível técnico do site Normativo W3C (2018) Legislação Normativo Brasil (1962; 1988; 2000; 2001; 2002; 2004; 2005a; 2005b; 2009; 2015) Fonte. Elaboração própria, 2024.
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 98 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 3.4. Testagem dos indicadores Com a elaboração e definição dos indicadores feita com base nos guias e normativas, foi realizada a testagem. No teste de aplicabilidade, os indicadores possíveis são aplicados nos sites dos veículos jornalísticos definidos para entender se, por meio deles, é possível fazer um diagnóstico da qualidade da acessibilidade comunicativa. A testagem segue um protocolo pré-definido e é registrada para análise. Os testes foram feitos a partir de observação manual com ajuda de softwares como o Nvidia Corporation (NVDA), que é um leitor de tela, e o Coblis - Color Blindness Simulator, um software simulador de daltonismo. Na mesma etapa, foram feitos testes de usabilidade com pessoas com deficiência por meio de entrevistas (Gil, 2008). Três participantes testaram os sites do Veículo 1 e do Veículo 2 para verificar os elementos previstos nos indicadores: uma pessoa cega, uma pessoa surda e uma pessoa com daltonismo. Foram elaboradas perguntas acerca da acessibilidade dos dois veículos no eixo visual, auditivo e cromático. Os testes de usabilidade são complementares aos de aplicabilidade na medida em que funcionam como mais uma entrada de dados para verificar a valia dos indicadores. Por fim, como última etapa de testagem, foram realizadas entrevistas semi-abertas (Gil, 2008) com os editores de cada veículo, já que alguns indicadores dizem respeito ao dia-a-dia de uma redação jornalística e às questões editoriais4. 3.5. Análise dos testes e dos indicadores A última etapa foi a análise e a discussão dos resultados, com reescrita da redação dos indicadores que apresentaram falhas no decorrer do processo, necessidade de ajustes e, ao final, foi feita uma nova testagem dos mesmos. A fim de sistematizar o caminho metodológico percorrido, elencamos um quadro com as respectivas etapas, objetivos e teorias utilizadas (Tabela 2). É importante mencionar que a metodologia elencada para o trabalho tem limitações, principalmente no que se refere à aplicação da ferramenta para geração de um ranking mais amplo, com mais veículos jornalísticos, conforme será relatado no próximo tópico. No entanto, este é um estudo exploratório, cuja intenção é criar uma ferramenta capaz de avaliar a qualidade da acessibilidade comunicativa em veículos jornalísticos. Não houve tempo hábil para aprofundar a ferramenta a partir dos níveis de sucesso do W3C, por exemplo, mas esta pode ser uma próxima etapa de investigação e, com isso, viabilizar melhorias na possibilidade de expandir o estudo para analisar sites de outras mídias. Além disso, esta ferramenta também não dá conta do cenário internacional, visto que a legislação de cada país com relação à acessibilidade tem suas especificidades. É necessário elencar, além disso, que a combinação de diferentes procedimentos metodológicos foi necessária para a criação da ferramenta, principalmente pelo campo de estudos da área da Comunicação em interface com a acessibilidade ainda estar em construção. O fato de haver poucas investigações impacta nas pesquisas em andamento visto que não há marcos teóricos tradicionais estabelecidos. A emergência do campo denota, também, criação de procedimentos metodológicos próprios, o que pode ser percebido neste tópico. Com isso, partimos para a discussão dos resultados. 4. Nas etapas dos testes de usabilidade e das entrevistas, tanto as pessoas com deficiência quanto os editores assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, que informa os procedimentos e objetivos da pesquisa.
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 105 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 comunicação, o que inclui as atitudinais e tecnológicas, além da eliminação das mesmas barreiras. Recursos assistivos como Janela de Libras, legenda oculta/LSE, legenda simples, audiodescrição e caracteres ampliados devem estar disponíveis. Os formatos dos produtos jornalísticos têm de ser possíveis de acesso por meio de softwares leitores de tela, caracteres ampliados e impressão em Braille. Símbolos de recursos de acessibilidade necessitam estar visíveis no site, e, caso haja presença de publicidade, esta também deve ser acessível. Um destaque necessário para a potencialidade da ferramenta criada é que a mesma não isola o processo de produção jornalística das decisões editoriais, da base técnica acessível do site e da legislação que rege as normativas de acessibilidade brasileiras. Isso é importante para evidenciar aspectos diversos da acessibilidade comunicativa, cuja implementação ampla é complexa, mas possível. Por exemplo, um veículo jornalístico pode ter um site com nível técnico acessível, que possibilita inserção de descrição de imagens, mas cujos profissionais jornalistas não têm conhecimento técnico para a feitura do mesmo recurso. Além disso, há uma visão ampla no sentido de compreender formatos tradicionais, como o texto e a imagem, em conjunto com formatos jornalísticos emergentes, como o podcast, o infográfico e recursos multimídia, além das redes sociais digitais. É importante evidenciar, neste processo, que entende-se o jornalismo como uma profissão que não deve estar centrada em si mesma, visto que vários dos elementos citados nesta pesquisa - em especial os de nível técnico - não devem ser de responsabilidade deste profissional, mas estão no conjunto de atuação de uma empresa jornalística, o que incorpora outros profissionais. A divulgação do conteúdo jornalístico em redes sociais digitais é outro exemplo, já que a profissão de social media, hoje, é feita tanto por jornalistas quanto por outros profissionais da área, como relações públicas, produtores editoriais e publicitários e publicitárias. 5. Discussão e conclusões Os resultados encontrados na investigação indicam que o Jornalismo não pode se considerar verdadeiramente democrático e cidadão sem a acessibilidade comunicativa como regra. Isto porque, a partir das etapas de testagem da ferramenta construída, principalmente a de entrevistas com as pessoas com deficiência, a identificação de lacunas e de ausência de recursos assistivos denota que estas pessoas encontram barreiras no momento de consumir um produto jornalístico. No processo de construção e testagem da ferramenta de avaliação da qualidade da acessibilidade comunicativa em veículos jornalísticos, foram encontradas lacunas do ponto de vista técnico e representativo que os estudos elencados no aporte teórico já mostraram. Assim, a investigação evidencia a permanência das barreiras de acesso e, logo, da possibilidade de pessoas com deficiência exercerem suas cidadanias e usufruírem de direitos. Além disso, as baixas pontuações que os veículos analisados tiveram a partir dos indicadores refletem uma baixa qualidade dos níveis de acessibilidade aplicados, principalmente com relação à produção e à empresa jornalística, mas também em relação à legislação. Isso reflete um cenário em que os veículos não priorizam a acessibilidade e também desconhecem os caminhos para tal. As empresas não investem em tecnologias, nem na formação de seus profissionais (Wobeto, 2023; Beraldo, 2021) e tampouco buscam tornar as redações mais diversas (Medina, 2021).
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 106 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 São poucas as práticas e discussões na área de Comunicação e do Jornalismo acerca desta temática, o que torna as pesquisas sobre este entrelaçamento necessárias. Em um campo de estudos que está em estágio inicial e de construção, é necessário que investigações sejam feitas, testadas e aprofundadas. Assim, a potencialidade da ferramenta construída também se enquadra nisto, a partir da identificação da qualidade da acessibilidade de veículos jornalísticos, identificação de suas lacunas e caminhos para melhorias. Estes apontam para a implantação de tecnologias assistivas nas mídias jornalísticas, na implantação de rotinas jornalísticas que considerem a prática da acessibilidade comunicativa e na construção de textos que não estigmatizam os públicos com deficiência. Estes aspectos passam, também, pela inserção de práticas pedagógicas de acessibilidade comunicativa na formação de jornalistas. Além disso, estes resultados apontam questionamentos importantes e pertinentes com relação ao debate proposto no campo teórico. Como o Jornalismo quer colocar-se como estandarte da democracia sem acessibilidade em suas práticas? Esta discussão remonta, novamente, à conceituação de Bonito & Guimarães (2023), quando afirmam que a deficiência está nas mídias, e não nas pessoas. Profissão que se propõe como estandarte da democracia e promotora de cidadania, o jornalismo precisa reconhecer suas falhas e inserir a prática da acessibilidade comunicativa como parte da rotina produtiva. O estágio em que o campo se encontra hoje é inicial, e mostra apenas um reconhecimento da problemática nos processos produtivos e nas maneiras de representar o público com deficiência. O caminho para a mudança é longo, e exige mais do que posturas e iniciativas isoladas de profissionais jornalistas, mas a disposição de todo o campo para romper com as formas cristalizadas de representações capacitistas do público com deficiência e demais minorias, além da qualificação do aspecto técnico da produção jornalística, o que inclui a implantação de tecnologias assistivas em todo o processo produtivo. Reforça-se que, sem a acessibilidade comunicativa, o jornalismo não consegue comunicar para todas as pessoas, e, consequentemente, falha na missão democrática e cidadã em que se coloca como seu papel social. Declaración sobre la contribución específica de cada una de las autorías, según la taxonomía CrediT • Conceptualización: Autor 1, Autor 2, Autor 3. • Curación de datos: Autor 1. • Análisis formal: Autor 1, Autor 2. • Adquisición de fondos: Autor 1, Autor 2. • Investigación: Autor 1, Autor 2. • Metodología: Autor 1, Autor 2, Autor 3. • Administración del proyecto: Autor 1, Autor 2, Autor 3. • Recursos: Autor 1, Autor 2, Autor 3. • Software: Autor 1, Autor 2, Autor 3. • Supervisión: Autor 2, Autor 3. • Validación: Autor 1. • Visualización: Autor 1, Autor 2, Autor 3. • Redacción – borrador original: Autor 1. • Redacción – revisión y edición: Autor 1, Autor 2, Autor 3.
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 107 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 Viviane Borelli e Luan Moraes Romero atuaram como orientadora e coorientador do trabalho, a partir da supervisão e orientaram a coleta e tratamento dos dados, além da sistematização dos resultados. Agradecimentos Agradecemos às pessoas com deficiência e aos editores dos veículos 1 e 2 que contribuíram para esta pesquisa por meio das entrevistas. Aos avaliadores do trabalho na defesa da monografia, pelas sugestões e comentários. E, por fim, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal (Capes), que financia a bolsa de pesquisa no nível do Mestrado, e que tornou possível a construção deste artigo. Semblanza de los autores Samara Wobeto é jornalista e mestranda em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (POSCOM/UFSM), bolsista Capes, integrante do Grupo de Pesquisa Circulação Midiática e Estratégias Comunicacionais (Cimid/UFSM). Viviane Borelli é docente do Programa de Pós-graduação em Comunicação e do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), líder do Grupo de Pesquisa Circulação Midiática e Estratégias Comunicacionais (Cimid/UFSM), doutora em Ciências da Comunicação pela Unisinos. Luan Moraes Romero é jornalista, mestre em Comunicação e doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (POSCOM/ UFSM), integrante do Grupo de Pesquisa Circulação Midiática e Estratégias Comunicacionais (Cimid/ UFSM). Referências ABNT. (2016) NBR 16452. Associação Brasileira de Normas Técnicas, Brasil. Barbosa, S. (2023). #ACESSEJOR. Por um jornalismo digital acessível, inclusivo e inovador (170 p.). Editora LabCom, Covilhã. https://bit.ly/4aReI43 Barrichello, E. (2016). A autoria na elaboração de uma tese. In C.P. Moura; M.I.V. Lopes (Orgs.) Pesquisa em Comunicação - Metodologias e Práticas Acadêmicas (p. 129 - 152). EdiPUCRS. https://bit.ly/3VXhmRJ Beilfuss, L.P. e Bonito, M.A. (2017). Existe mesmo um jornalismo em prol da cidadania? In Anais XVIII Congresso de Ciências da Comunicação da Região Sul - Intercom Sul (p. 1 - 15). Intercom Sul. Beraldo, C.T. (2021) “Quem cabe no seu todos?” Jornalismo e Deficiência Visual: um estudo sobre a acessibilidade e usabilidade em notícias em redes digitais. Universidade Federal da Bahia. Bonito, M. (2015). Processos da comunicação digital deficiente e invisível: Mediações, usos e apropriações dos conteúdos digitais pelas Pessoas com deficiência visual no Brasil. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Bonito, M., & Guimarães, L. (2023). (Re)Pensar as Deficiências das Mídias e dos Processos Comunicacionais. In: BARBOSA, S. (Ed.). #ACESSEJOR. Por um jornalismo digital acessível, inclusivo e inovador. Editora LabCom, Covilhã. https://bit.ly/4aReI43
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 108 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 Bonito, M., & Santos, L.C.D. (2018). Procesos comunicacionales inclusivos: una mirada bajo la óptica de la accesibilidad comunicativa (p. 202-211). Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, 15(29). https://doi.org/10.55738/alaic.v15i29.502 Borelli, V. (2015). A circulação da notícia na sociedade em processo de midiatização: o caso de jornais de abrangência regional. Rizoma, 3(1), 36-48. https://doi.org/10.17058/rzm.v3i1.6153 Campanhã, M. R. (2020). Audiodescrição e Cidadania: Processos Comunicacionais de sujeitos cegos aos usos e apropriações da rede social WhatsApp. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Carlón, M. (2021). A modo de glosário. Cátedra Semiótica de Redes Universidad de Buenos Aires. https://bit. ly/3vBlUmg Carpes, D. S. (Org.). (2016). Audiodescrição: práticas e reflexões. Editora Catarse. https://bit.ly/4aMqkoZ Centers, U.N.I. (2000). Declaração Universal dos Direitos Humanos. Centro de Informações das Nações Unidas para o Brasil – Unic. Conceição-Silva, M. C. (2021) Aplicativo de notícias ao pé do ouvido. Inclusão de garantia de autonomia nas apropriações de notícias online por pessoas com deficiência visual. Universidade Católica de Pernambuco. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (1988). Presidência da República, Brasil. https://bit. ly/49w2L2M Conteúdo, M.Z, & Unicap (2022a). Acessibilidade Jornalística - Um problema que ninguém vê. Estudo sobre a oferta e o consumo de conteúdo jornalístico por pessoas cegas e com baixa visão no Brasil. Universidade Católica de Pernambuco. Conteúdo, M.Z., & Unicap (2022b). Por um jornalismo acessível. Manual de boas práticas para a produção de conteúdo jornalístico acessível às pessoas com deficiência visual. Universidade Católica de Pernambuco. Decreto nº 3.956, de 8 de outubro de 2001 (2001). Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. Presidência da República. https://bit.ly/3PVXj2e Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004 (2004). Regulamenta as Leis nºs 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Presidência da República, Brasil. https://bit.ly/3xwsw5M Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005 (2005a). Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o artigo 18 da Lei 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Presidência da República, Brasil. https://bit.ly/3xxYYF1 Decreto nº 6.949, de 25 de outubro de 2009 (2009). Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Presidência da República, Brasil. https://bit.ly/49CsAOB EBC. (2018). NOR 704. Empresa Brasileira de Comunicação. Ellcessor, E., Hagood, M, & Kirkpatrick, B. (2021). Rumo a um campo de estudos de deficiência e mídia. Revista Culturas Midiáticas, João Pessoa, (15), 6-37. https://bit.ly/4auMOeH Freitas, T.A. (2021). Representações sociais de pessoas com deficiência em notícias do portal G1. Universidade Federal de Santa Catarina. Garcêz, R.L. (2021). Entrevista com Katie Ellis. Revista Culturas Midiáticas, João Pessoa, (15), 38-43. https://doi. org/10.22478/ufpb.2763-9398.2021v15n.61593
AcESSIbIlIdAdE cOmuNIcAtIVA: pAlAVRA-chAVE pARA um jORNAlISmO dEmOcRátIcO E cIdAdãO Samara Wobeto / Viviane borelli / luan moraes Romero 109 ámbItOS. REVIStA INtERNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 65 · VERANO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i65.05 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 90-110 García-Prieto, V., Aguaded, I., & García-Rojas, A.D. (2022). Diversity and public television: analysis of subtitling as an accessibility service. Communication & Society, 35(2), 121-135. https://doi.org/10.15581/003.35.2.121-135 Genro-Filho, A. (2012). O Segredo da Pirâmide. Para uma teoria marxista do jornalismo. Editora Insular. Gentilli, V. (2005). Democracia de Massas: jornalismo e cidadania. Estudo sobre as sociedades contemporâneas e o direito dos cidadãos à informação. EDIPUCRS. Gil, A. C. (2008). Métodos e técnicas de Pesquisa Social. Editora Atlas S.A. Gomes, S. R., & Moutinho, M. C. B. (2021). Identidades mediatizadas: o enquadramento da deficiência e de atletas paralímpicos em narrativas globais. Revista Culturas Midiáticas, João Pessoa, (15), 308-326. https://doi. org/10.22478/ufpb.2763-9398.2021v15n.60174 González-Perea, L. (2018). La accesibilidad de los medios de comunicación digitales en España: responsabilidad de los periodistas en la generación de contenidos inclusivos. index.comunicación, 8(1) 225-253. https://bit. ly/3QkFbj1 González-Perea, L., & Rodríguez-Ascaso, A. (2022). Dificultades y retos para periodistas en la producción de contenidos accesibles para Internet. Revista Española de Discapacidad, 10(2), 91-110. https://bit.ly/43PD0JL IBGE (2023). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD): Pessoas com Deficiência 2022. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Instrução Normativa da Secretaria Geral da Presidência da República nº 1, de 2 de dezembro de 2005 (2005b). Referente à acessibilidade na publicidade e nos pronunciamentos oficiais. Presidência da República. https://bit.ly/43QGxYd Lei nº 4.169, de 4 de dezembro de 1962 (1962). Oficializa as convenções Braille para uso na escrita e leitura dos cegos e o Código de Contrações e Abreviaturas Braille. Presidência da República. https://bit.ly/3xvHfOt Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000 (2000). Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade para pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Presidência da República. https://bit.ly/43X8ttA Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 (2002). Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e dá outras providências. Presidência da República. https://bit.ly/3VO5Kk1 Lei nº13.146, de 6 de julho de 2015 (2015). Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Presidência da República. https://bit.ly/4aPS2kY Marcondes-Filho, C. (2000). A Saga dos Cães Perdidos. Hacker Editores. Mata, M. C. (2006). Comunicación y ciudadanía. Problemas teórico-políticos de su articulación. Unisinos, revista Fronteiras - estudos midiáticos, São Leopoldo, 8(1), 5-15. https://bit.ly/4cQqQ7q Medina, A. (2021). El rol de los medios de comunicación en el cambio de paradigma sobre la discapacidad. In R. Alves (Org.). Diversidad en Periodismo Latinoamericano (p. 108 - 117). Centro Knight para el Periodismo en las Americas. https://bit.ly/49qFWxu Medina, C. (1995). Entrevista: o diálogo possível. Editora Ática S.A. Moraes, F. (2022). A pauta é uma arma de combate. Subjetividade, prática reflexiva e posicionamento para superar um jornalismo que desumaniza. Arquipélago. Motta, L., & Romeu-Filho, P. (Orgs.) (2010). Audiodescrição. Transformando Imagens em Palavras. Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo. https://bit.ly/3TRGEhu Naves, S. B., Mauch, C., Alves, S.F., & Araújo, V. L. S. (Org.). (2016). Guia para produções audiovisuais acessíveis. Ministério da Cultura e Secretaria de Audiovisual. https://bit.ly/4dQDfIX
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