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Cadernos de História da Educação, v.20, p.1-22, e044, 2021 ISSN: 1982-7806 (on-line) https://doi.org/10.14393/che-v20-2021-44 DOSSIÊ A primeira comunhão feminina entre dois lados do oceano (Brasil e Espanha): imagens arquivadas de educação e religião The first female communion between two sides of the ocean (Brazil and Spain): archived images of education and religion La primera comunión femenina entre dos lados del océano (Brasil y España): imágenes archivadas de educación y religión Pablo Álvarez Domínguez Universidad de Sevilla (Espanha) https://orcid.org/0000-0003-0538-2565 http://lattes.cnpq.br/3047309926173426 [email protected]s Maria Celi Chaves Vasconcelos Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Brasil) http://orcid.org/0000-0002-3624-4854 http://lattes.cnpq.br/9511377122315447 maria2.ce[email protected] Resumo O estudo refere-se a arquivos que contêm imagens fotográficas femininas sobre o momento de realização da primeira comunhão, ritual ao qual as meninas estavam submetidas por suas famílias, como um dos cinco sacramentos principais da Igreja Católica. O objetivo central está em analisar os retratos produzidos expressamente para esse fim, o dia da primeira comunhão, com foco em aspectos como a postura, a indumentária, os objetos de cena, o mobiliário, a simbologia religiosa presente etc. De forma mais específica busca-se comparar imagens produzidas no Brasil e na Espanha, durante a primeira comunhão de meninas, na primeira metade do século XX, examinando-se as peculiaridades próprias de cada país. Os procedimentos metodológicos remetem a uma pesquisa qualitativa e histórico-documental que utiliza o método comparado de investigação. Entre os resultados obtidos consta-se a relação estreita entre a primeira comunhão com as práticas escolares, caracterizando-se como um momento ritualizado no contexto do próprio cronograma escolar. Palavras-chave: Primeira comunhão. Rituais religiosos. Brasil e Espanha.
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 2 Abstract The study refers to archives containing female photographic images about the moment of the first communion, a ritual to which the girls were subjected by their families, as one of the five main sacraments of the Catholic Church. The main objective is to analyze the portraits expressly produced for this purpose, the day of the first communion, with a focus on aspects such as posture, clothing, stage objects, furniture, religious symbols present, etc. More specifically, we seek to compare images produced in Brazil and Spain, during the first communion of girls, in the first half of the 20th century, examining the peculiarities of each country. The methodological procedures refer to a qualitative and historical-documentary research, which uses the comparative method of investigation. Among the results obtained is the close relationship between the first communion with school practices, characterized as a ritualized moment in the context of the school schedule itself. Keywords: First communion. Religious rituals. Brazil and Spain. Resumen El estudio se refiere a archivos que contienen imágenes fotográficas femeninas sobre el momento de la primera comunión, ritual al que las niñas fueron sometidas por sus familias, mediante uno de los cinco sacramentos principales de la Iglesia Católica. El objetivo principal es analizar los retratos realizados expresamente a tal efecto, el día de la primera comunión, a través de un enfoque centrado en analizar aspectos como la postura, la vestimenta, los objetos escénicos, el mobiliario, los símbolos religiosos presentes, etc. Más concretamente, buscamos comparar imágenes producidas en Brasil y España, durante la primera comunión de niñas, en la primera mitad del siglo XX, examinando las peculiaridades de cada país. Los procedimientos metodológicos se vinculan a una investigación cualitativa e histórico-documental, que utiliza el método de investigación comparativo. Entre los resultados obtenidos se encuentra la estrecha relación entre la primera comunión con las prácticas escolares, caracterizada como un momento ritualizado en el contexto del propio horario escolar. Palabras clave: Primera comunión. Rituales religiosos. Brasil y España. Recebido: 04/11/2020 Aprovado: 24/02/2021
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 3 Introdução Uma das fotografias que está sempre presente como parte do acervo de memórias da infância de quem viveu esse período em meados do século XX, é a do ritual da primeira comunhão. Momento esperado pelas famílias, exigido pela igreja católica, estimulado pelas escolas e ensaiado pelas crianças que eram preparadas para “o grande dia”, a primeira comunhão incorporou ao sacramento eclesiástico um elaborado rito de passagem 1 que, para as meninas, continha adereços relativos à simbologia que pretendia imprimir à ocasião. A Igreja Católica, por meio de seus Códigos e Constituições eclesiásticas, é detentora dos mesmos rituais e cerimônias espalhadas pela cristandade, a partir das determinações papais, fazendo com que seus sacramentos ocorram de maneira exatamente igual em grande parte do mundo católico ocidental sob égide do Vaticano, com pouquíssimas variações relacionadas às peculiaridades culturais e às permissões de sincretismos que foram incorporadas ao longo dos séculos. Dessa forma, a Igreja católica se converte, desde os mais remotos tempos, em formadora de um modelo cristão comum de cerimônias rituais, possível de ser identificado em qualquer país do mundo, por se basear em uma doutrina única, adaptável às diferentes sociedades e aplicável a qualquer língua. Entre os ritos que são amplamente praticados e convertidos como festejos públicos em quase todos os países católicos está a primeira comunhão, estabelecida para as crianças quando já estão com o processo de alfabetização consolidado, já atingiram um nível de abstração para compreender as subjetividades presentes no catecismo e também para proceder à confissão dos seus “pecados” que antecede a iniciação à eucaristia. De acordo com Scholl e Grimaldi (2013, p.352), citando o Papa Pio X, “as crianças deviam comungar logo que pudessem ter a mínima noção do que iam receber, mesmo que o resto de sua formação seguisse depois”. Como modelo adotado de forma muito semelhante na maioria dos países, esse rito envolve as famílias, as paróquias e as escolas, observando as responsabilidades previstas nas próprias prescrições da Igreja. Por um lado, o rito sagrado é o mesmo, baseado na doutrina, detalhado nos catecismos, ensaiado em suas etapas de preparação, profissão de fé, confissão e comunhão, com todo o simbolismo e as insígnias necessárias para aproximarem o céu e a terra nesse pacto que irá acontecer entre os “novos” fiéis e a Igreja. Por outro lado, a festa profana, também semelhante, envolve a preparação da cerimônia de exibição pública, especialmente das meninas, como miniaturas de santas, anjos, noivas de Cristo, requerendo, igualmente, uma elaboração cuidadosa das famílias, quase sempre, tendo como fim último, ser eternizada em uma fotografia edificante, capaz de captar não só uma imagem, mas as sensações e a perenidade instantânea do momento vivido. O estudo em pauta refere-se à primeira comunhão como objeto de investigação, a partir da análise de arquivos que contêm imagens fotográficas femininas sobre esse momento ritual, ao qual as meninas estavam submetidas por suas famílias, como um dos cinco sacramentos principais da Igreja Católica, em todo o mundo. O objetivo central está em analisar as imagens produzidas expressamente para esse fim, o dia da primeira comunhão, com foco em aspectos como a postura, a indumentária, os objetos de cena, o mobiliário, a simbologia religiosa presente etc. De forma mais específica evidenciam-se imagens rituais, como os “santinhos” 2 , produzidas no Brasil e na Espanha, durante a primeira comunhão de 1 O conceito de rito de passagem utilizado nesse trabalho remete a Arnold Van Gennep (1873 -1957), em sua obra “Os ritos de passagem”, entendido como período intermediário, liminar, marginal ou fronteiriço que o sujeito percorre para se enquadrar no plano coletivo. Entre os ritos de passagem Gennep identifica aqueles cujo objetivo é agregar-se ao mundo sagrado, o que só se pode fazer pondo em ação esquemas próprios da religião. 2 Grazziotin e Bastos (2017, p.576) identificam os santinhos como cartões impressos com “pequena imagem que representa a figura humana de Cristo, Virgem Maria ou de um santo”.
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 4 meninas, na primeira metade do século XX, examinando-se as peculiaridades próprias dessa simbologia em cada país. No que tange aos procedimentos metodológicos, trata-se de uma pesquisa qualitativa e histórico-documental que parte de um estudo teórico sobre a primeira comunhão como rito religioso, para, a seguir, analisar a materialidade das imagens fotográficas obtidas sobre essa cerimônia, utilizando, por fim, o método comparado de investigação. Reconhecendo o uso da imagem como documento histórico educativo (DEL POZO, RABAZAS, 2010; 2012), entre as fontes acessadas no estudo foram pesquisados arquivos pessoais (CUNHA, 2019), além de acervos privados e públicos possuidores de imagens fotográficas de cerimônias de primeira comunhão, com ênfase em arquivos com imagens do Colégio Notre Dame de Sion em Petrópolis, uma escola católica feminina, onde essa era uma das solenidades mais importantes do ano letivo, e no acervo do Museo Pedagógico da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Sevilha (MPFCCEUS) (ÁLVAREZ; REBOLLO; NÚÑEZ, 2016), que possui uma coleção de fotografias relativas a essas cerimônias em diferentes locais da Espanha, especialmente em Andaluzia. Para tratar de um tema que tem seus primeiros registros junto à própria popularização dos mecanismos fotográficos, tornou-se necessário delimitar um período de análise para o detalhamento dos aspectos de materialidade que podem ser depreendidos das imagens pesquisadas. Nesse sentido, optamos pela primeira metade do século XX, considerando que, no período entre guerras, houve um avanço e difusão do catolicismo no mundo e a consolidação do Código de Direito Canônico de 1917 3 . A primeira comunhão como um rito religioso: dever das famílias, párocos e professores O século XX está marcado por sua localização em meio aos dois Concílios Ecumênicos da Igreja Católica da era moderna, o Concílio Vaticano I realizado entre 1869 e 1870 e o Concílio Vaticano II de 1962 a 1965, sendo que, ambos, cada um em seu tempo, procuravam dar respostas às questões da contemporaneidade, desde conciliar a “oposição entre fé e razão”, até a tentativa de “ampliar os horizontes da autoconsciência da Igreja católica em vários aspectos” (RIBEIRO, 2006, p.72).Na “Declaração de Fé Católica”, a partir do Concílio Vaticano I, a profissão de fé observava que existiam sete sacramentos da “Nova Lei”, “instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo e necessários para a salvação, ainda que cada pessoa não precise recebê-los todos”. São eles: batismo, confirmação, eucaristia, penitência, extrema unção, ordem e matrimônio (CONCÍLIO VATICANO I, 1870, s/p.). Quanto à eucaristia, sua preparação era fundamental para recebê-la, pois era considerado que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue, juntamente com a Alma e a Divindade, de Nosso Senhor Jesus Cristo; e que ali ocorre a conversão de toda a substância do pão em Seu Corpo e de toda a substância do vinho em Seu Sangue; a esta conversão a Igreja Católica chama “transubstanciação” (CONCÍLIO VATICANO I, 1870, s/p.) Na última ceia que Jesus Cristo celebrou com os Doze Apóstolos podemos encontrar a base da primeira comunhão como ritual cristão e como ato cerimonial e sacramental, tendo 3 O Código de Direito Canónico “Codex iuris canonici” foi promulgado por Bento XV em 1917. O Código entrou em vigor em 19 de maio de 1918, e é conhecido pelos seus dois Papas idealizadores, como Código Pio-Beneditino.
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 5 a sua origem no século XIII, especificamente em 1215, quando o Concílio de Latrão decidiu que apenas os menores que houvessem alcançado a idade da discrição (entre doze e quatorze anos) podiam receber este sacramento (RICO, 2006). Assim, a eucaristia revertia-se em um dos mais importantes sacramentos da Igreja Católica, visto que, após o batismo, era quando o cristão já consciente, na infância, aderia de “livre vontade” à religião. De acordo com Pereira (2012), a primeira comunhão é o ato de receber a eucaristia pela primeira vez, o que difere da comunhão da pessoa adulta, já iniciada na vida cristã, que ocorre em todas as missas, quando recebe a eucaristia. Para esse autor, a comunhão é a essência da vida da Igreja e está imbricada de “um conjunto de elementos simbólicos que formam não só uma cerimônia repleta de signos e de representações, mas também algo medular da religião católica” (PEREIRA, 2012, p.34). O autor aborda esse sacramento como o “elo” que permeia todos os outros sacramentos, configurando um pacto social com o sagrado, cuja iniciação se dá pela primeira comunhão, que é vista como rito de passagem e de iniciação à adesão à comunidade religiosa. Para Pereira (2012, p.35-36), a comunhão se trata de um “pacto social inclusivo” e a sua iniciação, a primeira comunhão, faz parte dos chamados “sacramentos de iniciação cristã”, existentes desde os primeiros cinco séculos do cristianismo, quando era realizada antes e/ou junto do batismo, tendo em vista que este já ocorria com o indivíduo adulto. A prática de obrigar as crianças a se confessar e comungar ocorre por volta do século XIII, quando a idade da razão era considerada entre os 7 e 8 anos. Entre o Concílio Vaticano I e Vaticano II, essas idades variaram de acordo com as recomendações eclesiais, observando-se que as crianças fizessem a primeira comunhão quando já estivessem alfabetizadas. O Código de Direito Canônico (CDC) de 1917, vigente durante o período em que esse estudo se concentra, prescrevia no seu cânone 853 que “qualquer baptizado, não proibido por lei, pode e deve ser admitido à comunhão”, mas a eucaristia somente deveria ser dada às crianças que tivessem o conhecimento e o gosto por este sacramento, ou seja, com idade para “distinguir o corpo de Cristo da comida habitual, e adorá-la com reverência”, exceto em perigo de morte. (CDC, 1917, cân. 854). Outra condição prescrita no CDC de 1917 era “um conhecimento mais completo da doutrina cristã e uma preparação mais cuidadosa, nomeadamente que, de forma adequada à sua idade” (Ibidem). Ainda assim, caberia ao confessor “o julgamento sobre os arranjos suficientes dessas crianças para a primeira comunhão”, bem como aos pais ou aqueles que tomam o lugar dos pais (Ibidem). Ou seja, o pároco era responsável por garantir que as crianças chegassem “à mesa sagrada” em pleno uso da razão e com provisões de catequeses suficientes. Além do pároco, o cânone 860 imputava a responsabilidade pela primeira comunhão a todo o círculo mais próximo da criança, tornando esse sacramento uma obrigação coletiva que envolvia a família, a igreja e a escola: “A obrigação do preceito da comunhão, que incumbe aos impubes, recai também principalmente sobre os seus responsáveis, a saber, pais, tutores, confessor, professores e pároco”. Adiante, os cânones 1329 e 1330 reforçavam o dever catequético dos párocos como “um dever especial e muito sério”, de preparar os filhos para receberem com dignidade os sacramentos da penitência e da primeira comunhão (CDC, 1917). As normas do CDC de 1917 perduraram ao longo de grande parte do século XX, considerando que o próximo Código de Direito Canônico só será promulgado pelo Papa João Paulo II em 1983, como Constituição Apostólica “Sacrae Disciplinae Leges” (CDC, 1983). Contudo, no que tange à primeira comunhão, continuou sendo um importante pacto sacramental, entre os principais que regiam a vida religiosa: “os sacramentos do batismo, da confirmação e da santíssima Eucaristia acham-se de tal forma unidos entre si, que são indispensáveis para a plena iniciação cristã” (CDC, 1983, cân. 842). Para tanto, deveria ser precedido de formação catequética “ampla e aprofundada”, ministrada durante “tempo
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 6 conveniente”, preparando devidamente as crianças para a primeira recepção da eucaristia (CDC, 1983, cân.777). Além disso, mais uma vez se reiterava: Para que a santíssima Eucaristia possa ser administrada às crianças, requer-se que elas tenham suficiente conhecimento e cuidadosa preparação, de modo que, possam compreender o mistério de Cristo, de acordo com sua capacidade, e receber o Corpo do Senhor com fé e devoção (CDC, 1983, cân. 913). Novamente, no CDC de 1983, era imputada aos pais a responsabilidade pela busca da paróquia, observância da preparação, marcação e realização, o mais breve possível, do sacramento da primeira comunhão: É dever, primeiramente dos pais ou de quem faz as suas vezes e do pároco, cuidar que as crianças que atingiram o uso da razão se preparem convenientemente e sejam nutridas quanto antes com esse divino alimento, após a confissão sacramental; compete também ao pároco velar que não se aproximem do sagrado Banquete às crianças que ainda não atingiram o uso da razão ou aquelas que ele julgar não estarem suficientemente dispostas (CDC, 1983, cân. 914). Nesse contexto de imposição da Igreja, famílias, paróquias e colégios acabaram por transformar a obrigação em um ritual público, que ia do mais simples ao mais elaborado evento, dependendo das condições do grupo de participantes, refletindo nas práticas religiosas as diferenças sociais facilmente notáveis em cerimônias eclesiásticas com o mesmo fim. Pereira (2012, p.36) aponta que ao atingir a família, a primeira comunhão se torna uma festa de visibilidade social para a comunidade, incrementando-se “todos os elementos de solenização”, entre eles as vestes, os ornamentos, as flores. Sua magnitude também passa a ser dramatizada em um cenário de anjos, círios, procissões, decorações, incensos, lembranças impressas, cânticos, e, o mais importante, imortalizar o momento por meio de fotografias que conseguissem captar não apenas a cenografia, mas também o personagem com a postura que denotasse estar devidamente capacitado para aquela ocasião. No cortejo preparado para a encenação do ritual, é muito significativa a hierarquia que pode ser observada na distância entre o sagrado e o mundano, entre os dirigentes e os dirigidos. Além disso, se por um lado a dimensão social dos festejos pode diminuir a conotação teológica da cerimônia, por outro, essa mesma dimensão atrai “vínculos entre a Igreja e o fiel, e, à vista disso, torna-se conveniente para ambas as partes” (PEREIRA, 2012, p.38). Pereira (2012) observa, ainda, citando Durkheim, que é natural que as crianças diante dos elementos de poder, força e mistério presentes nas cerimônias de primeira comunhão sintam temor, dependência e, até mesmo, entusiasmo. No dia da celebração dessa cerimonia sagrada, o que a criança vê a sua volta, de todos os lados, o que se oferece aos seus sentidos, o que chama atenção são as múltiplas imagens da eucaristia, desdobradas em símbolos como as indumentárias brancas ou de outras cores, mas confeccionadas especialmente para esse evento, as velas, flores, imagens sacras, enfim, tantos símbolos que são as extensões do sagrado, como o próprio ritual litúrgico e o certificado sobre o qual se firma o pacto com Deus e com a Igreja. [...] A primeira comunhão, colocada assim, de forma ritualística, no centro da vida das crianças, torna-se
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 7 profundamente representativa, fixando sobre elas seus significados simbólicos, porque, segundo orientações recebidas na catequese, a hóstia consagrada é o único objeto concreto da presença divina que elas podem visualizar (PEREIRA, 2012, p.48). Nessa perspectiva, as imagens vividas durante a primeira comunhão, entendida como sacramento principal que marca o mistério cristão (MIRALLES; 2000), são eternizadas nas fotografias tiradas para esse fim, fazendo com que o ritual “sobreviva” na memória, por meio dos símbolos relacionados a ele. A fotografia da primeira comunhão seria como um atestado de concretização do rito de passagem que, segundo Gennep (2011), sairia do mundo anterior profano para ingressar na zona sagrada, um novo mundo alcançado por meio daquele rito de entrada então imortalizado pela imagem. Vestidas de anjos ou pequenas Imaculadas: as imagens da comunhão de meninas Pierre e Marie-Claire Bourdieu (2006) no artigo “O camponês e a fotografia”, recorrendo a uma etnografia da aldeia do Sudoeste francês onde o autor passou sua infância, analisam os usos sociais e o sentido das fotografias e da prática fotográfica na sociedade camponesa do Béarn, nos inícios de 1960, não em si mesmas e por si mesmas, “mas como sociogramas leigos que possibilitam um registro visual das relações e papéis sociais existentes” (p.31). Os autores demonstram que as fotografias foram introduzidas no ritual das cerimônias da aldeia, no início do século XX, correspondendo à importância social de cada uma delas: primeiro as de casamento e, por volta de 1930, as de primeira comunhão. Assim, as fotografias deviam ser objeto de uma leitura sociológica e possibilitar uma representação suficientemente crível, mas “nunca” por suas “qualidades técnicas e estéticas” (2005, p.34). Pierre e MarieClaire Bourdieu (2006) acreditavam que “fotografar grandes cerimônias é possível porque – e apenas porque – essas imagens captam comportamentos que são socialmente aceitos e socialmente regulados, ou seja, já solenizados. Nada além do que deve ser fotografado pode ser fotografado” (p.34). A fotografia não era uma representação individual, mas a identificação de um papel social. O tema da primeira comunhão foi, portanto, um dos primeiros que passou a vigorar no “universo do retrato fotográfico”, nas palavras de Scholl e Grimaldi (2013, p.353). Além disso, esse rito, que era próprio da pré-adolescência, vai, cada vez mais, sendo vinculado à infância, conforme demonstram as fotografias (Idem). Nesse contexto de atribuir a realização da primeira comunhão entre a infância e a adolescência, nas primeiras décadas do século XX, à educação das jovens meninas é caracterizada por Philippe Lejeune (1997, p.107-108), a partir dos registros em seus diários, em duas fases: até os 14 ou 15 anos, ocorria a primeira fase, “que girava em tomo de um evento central e obrigatório, a primeira comunhão, esperada, preparada, depois lembrada e comemorada. Era um período de segurança para as garotas. Tudo estava organizado, e elas mal tinham alguma escolha a fazer”. E, a seguir, a segunda fase, já voltada à preparação para o casamento. Assim, as fotografias da primeira comunhão marcavam o ápice social esperado da primeira fase da vida das mulheres católicas, eternizando a imagem do comportamento regulado e aceito para cada uma delas, ao cumprir o seu rito de passagem. De acordo com Mansk (2009, p.245) os ritos de passagem são caracterizados por elementos simbólicos comuns que têm como objetivo valorizar e demarcar a iniciação. No caso da primeira comunhão tratada como um “rito iniciatório”, esses símbolos estão presentes no uso “da água, uso da unção e imposição de mãos, da veste”, entre outros elementos que visavam consolidar e manter a prática ritualística. Dessa forma, era importante que estivessem expostos
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 8 no cenário e na postura fotografada, a fim de corroborar a observação das prescrições necessárias à iniciação. Beleli (2012, p.16) ao recordar suas memórias da primeira comunhão nos anos de 1960 ressalta a “centralidade que as meninas ganhavam na preparação do evento – o frisson na escolha de modelos dos vestidos e seus adereços –, que não passava despercebido ao olhar de certa ‘inveja’ de alguns meninos”, atuando como meros coadjuvantes. Assim, as fotografias testemunham algo que já podia ser percebido, a primeira comunhão era uma cerimônia, prioritariamente, feminina e os meninos cumpriam um papel secundarizado até nas imagens. O ritual funcionava como uma preparação para o casamento, no qual a noiva é a protagonista, aquela cujas fotos podem ser individuais, e para quem a preparação envolve uma mescla de tradição, sensibilidades, afetos e memórias. Como ressalta a autora: Um ponto alto na preparação era a permissão para usar guirlandas ou grinaldas, em alguns casos, as mesmas usadas pelas mães ou avós em suas bodas. Em busca deste acessório especial, baús e memórias reviradas evocavam lembranças de momentos percebidos como únicos. Primeira comunhão e casamento se encontravam em tempos e espaços distintos, como se o primeiro evento já fosse uma preparação para o segundo, destino “apropriado” para a maioria das mulheres (BELELI, 2012, p.17). Quanto ao aspecto de gênero, Scholl e Grimaldi (2013, p.368) corroboram, nos anos de 1960, a permanência da prática de separação do grupo de meninos do das meninas para a primeira comunhão, mesmo nos colégios mistos, assim como os autores destacam a “precedência do grupo feminino na comunhão em relação ao grupo masculino”. Embora a primeira comunhão fosse o ponto alto das cerimônias dos colégios católicos e especialmente aqueles destinados às mulheres, sobretudo, na primeira metade do século XX, quando essas instituições eram muito procuradas, Jacques (2016) afirma que o mesmo ocorria em escolas evangélicas, ainda que buscassem manter-se laicas. Em seu estudo relativo ao Colégio Farroupilha de Porto Alegre, escola de ensino privado fundada por alemães, a autora conclui, a partir de entrevistas realizadas, que “mesmo sendo uma escola laica, os ofícios religiosos para católicos e evangélicos norteavam as práticas educativas da instituição” (JACQUES, 2016, p.7). As cerimônias de primeira comunhão realizadas no Colégio Farroupilha possuíam os mesmos traços vislumbrados nos colégios católicos, com semelhante simbologia relatada pelas entrevistadas da pesquisadora, em que os bancos da igreja eram enfeitados com laços brancos e com as flâmulas do colégio, os alunos entravam em fila um atrás do outro, com uma vela na mão que era acesa e colocada junto aos bancos da nave central. As meninas vestiam branco, assim como as professoras, e entravam segurando um lírio também branco nas mãos (JACQUES, 2016). As imagens eternizadas através das fotografias também têm a característica de aproximar gerações de mulheres, na medida que o rito de passagem é imposto a todas as adeptas da religião católica romana. Assim, quando revisitadas por suas protagonistas já adultas, podem ser rememoradas da forma como descreve Osman Lins em seu livro “Marinheiro de primeira viagem”, analisado por Nakagome (2014). O autor registra: Dia santo jardim manhã sol sentado banco presenciando pai mãe dois avós empenhados fotografar duas meninas primeira comunhão trajes litúrgicos uma séria outra sorridente. Imaginar como olharão meninas retratos dentro quarenta anos. Haverão comparar
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 9 fotografias primeira comunhão netas achando-as parecidas consigo não acreditando passagem tempo lembrando ternura pais avós silenciosos morta claridade desta manhã festiva (LINS, 1980, p.65, apud NAKAGOME, 2014, p.443). A ideia da semelhança entre as fotografias das avós e das netas é explicitada por Reznick e Gonçalves (2003, p.79) quando demonstram que a primeira comunhão se reveste de uma concepção de “festa cíclica, repetitiva”, na qual os mesmos elementos se reproduzem e estão retratados nas imagens ainda que no intervalo de décadas, sua “temporalidade é variável”. Desse modo, a primeira comunhão não poderia ser datada unicamente pelos elementos de cena de suas fotografias porque se assemelham e todos vivem esses acontecimentos repetidamente, em tempos dissonantes, em contextos completamente distintos, em países diferentes, como no caso do Brasil e da Espanha. De acordo com os autores, a primeira comunhão “possibilita uma percepção ambígua em relação ao tempo” (REZNICK e GONÇALVES, 2003, p.79). Além disso, Magueta (2015), em estudo aprofundado sobre a prática da fotografia na primeira comunhão, chama atenção para o fato de que os cenários seguem um modelo constante dos manuais de catequese utilizados de forma atemporal, com os mesmos objetos recomendados para compor o retrato: o genuflexório, o altar, crucifixo, castiçal com velas, terço, missal, vasos de flores, imagens sacras ou painéis-cenários com cenas que podiam ser escolhidas entre uma ou duas, sendo comum a de Cristo cercado de iluminação. Tais “painéis-cenários”, por vezes, faziam parte do estúdio do fotógrafo contratado, ou mesmo de um pequeno estúdio montado no próprio local da cerimônia para captar as imagens da ocasião. Em menor escala, é possível que algumas fotografias fossem tiradas nas próprias casas das crianças, antes ou depois da cerimônia, conforme a disponibilidade de contratação exclusiva da família. De acordo com a autora (MAGUETA, 2015, p.67), “as câmeras de estúdio na década de 1940 ainda se apresentavam presas aos tripés”. Diante dessa limitação, as crianças eram imobilizadas, durante algum tempo, obedecendo as ordens do fotógrafo, que manuseava sua câmera sobre o tripé, para que as meninas, vestidas de santas imaculadas, eternizassem o tão esperado dia da comunhão. A postura também seguia o padrão das “neocomungantes”, que deveria evidenciar a devoção, com a pose ajoelhada ou em pé e as mãos unidas em oração, segurando o terço e o missal. Para Magueta (2015, p.175), os catequizandos eram orientados, conforme os manuais da década de 1940, a adorar o corpo de Cristo, e, portanto, a postura mais verificada é a de joelhos, protagonizando uma “fantasia” do acontecimento, que contava com a “anuência de todos os envolvidos, em diferentes níveis – fotógrafos, família, fotografado”. A maioria das fotografias individuais do dia da primeira comunhão é de corpo inteiro, especialmente por se tratar de meninas, cujas roupas e adereços foram elaborados para serem mostrados, fotografados e guardados. Assim, desde a grinalda, a medalha no cordão, até o sapato, o ângulo do registro fotográfico procurava preservar ao máximo as possibilidades de visualização dessa indumentária. Uma vez reveladas, as fotografias passavam a fazer parte dos álbuns familiares, a maioria deles de papel cartão verde, coberto por uma folha de seda para não manchar as fotografias, presas com pequenas cantoneiras em cada página, ou simplesmente coladas. Na capa dos álbuns, paisagens ou figuras de crianças, estofadas, pintadas ou aplicadas em trabalho de marchetaria ou metais, com acabamento em um cordão finalizado por um pingente de franjas que servia como marcador, fazia de alguns, verdadeiras obras de arte. Os álbuns emolduravam as fotografias que se pretendiam tão perenes quanto seu invólucro. As imagens que escolhemos para apresentar nesse estudo, no que se refere à primeira comunhão no contexto brasileiro, na primeira metade do século XX, são relativas
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 16 (Bíblia Sagrada. Antigo Testamento. Salmo 45:9). Jesus, que é a palavra que se fez carne, se faz presente na vida da menina através dos conteúdos que guarda no missal. O missal, que substitui a Bíblia, simboliza o convite à menina para entrar na vida cristã. «Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Santos Evangelhos. São Mateus, 4, 3-4). Rosário também carrega uma bolsinha na qual, como todas as meninas, guardaria os santinhos que depois da festa daria como lembrança deste dia para sua família e amigos. Todos esses adereços foram comprados por diferentes membros da unidade familiar, que, como presentes, ofereciam tudo de melhor para aquelas que estavam se preparando para receber Deus para sempre em seus corações. A entrada na comunidade eclesiástica, a partir deste dia, apresentava-se como motivo de orgulho, especialmente para as famílias cristãs praticantes. Neste dia, as meninas eram também encomendadas à Virgem Maria ou a outras santas, geralmente a padroeira de suas vilas e cidades. No caso de Huelva, a patrona a que eram confiadas as meninas é à Virgem de la Cinta. Imagem 6 – Fotografia da primeira comunhão de Rosario, uma menina de Huelva (Espanha). Fonte: Arquivo do MPFCCEUS. Data: 23/05/1945. Comunhão, que provém do latim "communio", significa "participar em comum". E é o momento que, em comunidade, reúnem-se familiares, amigos e pessoas que compartilham crenças religiosas mais ou menos semelhantes, para celebrar a união de um de seus membros com Deus, sobretudo, se for uma menina, de quem é esperada uma vida virtuosa como a da santa padroeira. Na mesma linha da fotografia anterior, conhecemos na Imagem 7, Manuela, uma menina de Gibraleón, uma vila de Huelva, cuja padroeira é Sant’Ana. A menina aparentemente de classe média, com vestido branco imaculado e sapatos a combinar, mostra-se pura e pronta para receber a Deus pela primeira vez. A fotografia é tirada por um profissional e datada do final de maio, pouco antes das festividades de Corpus Christi. Perfeitamente coberta da cabeça aos pés, Manuela posa sorridente e inocente para imortalizar a alegria de uma data tão importante no calendário de sua vida. Tanto o tecido do vestido como o véu de Manuela são de qualidade superior aos da fotografia anterior. Neste caso, estão decorados com tiras bordadas, as quais representam as boas obras que esta jovem irá realizar ao longo de sua vida. Para a ocasião, Manuela usa um crucifixo no pescoço, em vez de um rosário, como o que aparece na Imagem 6. O crucifixo nos lembra que, a partir daquele momento, os ensinamentos de Jesus devem ser seguidos, tomando cada um a sua própria cruz. “Se alguém quer ser meu discípulo, tem que negar a si mesmo, tomar sua cruz e me seguir”. (Santos Evangelhos. Novo Testamento. São
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 17 Mateus, 16:24). Na foto, Manuela segura uma vela que representa a luz de Cristo, que a guiará e a iluminará em seus passos até a vida eterna, assumindo o compromisso de ser ela mesma também, uma luz no mundo. Ao lado da vela, encontra-se um ramo de flores brancas, cujo significado espiritual está relacionado com a necessidade de expressar, com delicadeza, um testemunho de fé. As flores brancas devem ser entendidas como signo de louvor, oração e devoção à Maria, mãe de Jesus, exemplo a ser seguido por toda a mulher cristã. Mais uma vez, a menina aparece fotografada com seu missal de orações e sua bolsinha. A fotografia, em formato de cartão postal, contribui para imortalizar a tão sublime recordação cristã. Imagem 7 – Fotografia da primeira comunhão de Manuela, uma menina de Gibraleón, Huelva (Espanha). Fonte: Arquivo do MPFCCEUS. Data: 29/05/1940. Como no caso brasileiro, na Espanha, a tradição de troca de santinhos no dia da primeira comunhão entre amigos e familiares era uma prática muito difundida em todo o país. Santinhos, que, como as fotografias, têm servido de vestígios para a reconstrução de tempos históricos educativos de outrora. Trata-se de objetos que, sem voz, nos falam de memórias e emoções ligadas à primeira comunhão como rito social, cultural e religioso. Entre eles, destacam-se os santinhos que faziam parte destes ritos, tanto no Brasil, como na Espanha, de forma muito semelhante. A seguir, na Imagem 8, observa-se um santinho que Mª. Antonia oferece à amiga, a título de parabéns. Nele, se vê a imagem de São Luís Gonzaga, padre jesuíta italiano, padroeiro da juventude, que aparece representado como um homem jovem, vestido com uma batina preta e um sobrepeliz. Seus adereços mais característicos são um lírio, referindo-se à sua inocência; uma cruz, referindo-se à sua piedade e sacrifício; uma caveira, referindo-se à sua morte prematura; e um rosário, referente à sua devoção à Virgem Maria. Certamente, a escolha de um santinho com esta imagem para ilustrar o dia da primeira comunhão não é casual, sobretudo, se considerarmos que uma boa cristã deveria ser inocente, prestativa, devotada e sacrificar-se pelo próximo.
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 18 Imagem 8 - Santinho oferecido a uma menina por sua amiga, como lembrança e felicitações no dia de sua primeira comunhão, Sevilha (Espanha) 10 . Fonte: Arquivo do MPFCCEUS. Data: 16/07/1939. O rito de distribuição dos santinhos na Espanha, no dia da primeira comunhão, corresponde ao desejo de imortalizar a lembrança de um significativo momento familiar, memorável e histórico como o da primeira eucaristia. Os santinhos contribuíam para dar um testemunho do evento, e para isso, no verso, eram descritos os detalhes dessa efeméride. Em primeiro lugar, aparece o nome e os sobrenomes da menina que comungava pela primeira vez, precedidos por um desenho de um cálice e do corpo de Cristo. Abaixo, indicava-se o nome da paróquia ou capela onde se celebrou a primeira comunhão, a data e o nome da respectiva vila ou cidade. Normalmente, os santinhos eram feitos de papel pergaminho e/ou de outro tipo de material de qualidade, com motivos dourados ou prateados, e, na frente, um desenho ou ilustração de caráter angelical ou mariano. Seguem, na Imagem 9, diversos modelos de santinhos, tanto verticais quanto horizontais, cujas inscrições confirmam os registros assinalados. A menina Elvira Hitos Cortez fez a sua primeira comunhão em Huelva, no dia 17 de maio de 1937, no Colégio do Santo Ángel de la Guardia e, para imortalizar este dia, ofereceu à família e aos amigos um santinho no qual um anjo posa de lado, placidamente, e, à sua direita, encontra-se uma imagem da hóstia sagrada. Trata-se de um Colégio pertencente à Congregação das Irmãs do Santo Ángel de la Guarda, que foi fundado em 1880, como a primeira escola da cidade, que atendia, prioritariamente, à educação e à formação feminina, com preferência para as camadas sociais mais necessitadas. 10 Transcrição do verso do santinho: Muchas felicidades te desea tu amiga que pide por tí a Jesús. Mª. Antonia Jurado. Sevilla - 16-7-39.
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 19 Imagem 9 – Fotografias de santinhos recordatórios da primeira comunhão 11 . Fonte: Arquivo do MPFCCEUS. Data: 1937. De acordo com Grazziotin e Bastos (2017), os santinhos representavam muito mais do que a simples imagem estampada, possuindo um “valor simbólico”, além de sua prática de distribuição ultrapassar as fronteiras entre os países, podendo ser encontrada em diferentes sociedades, com características idênticas relativas às subjetividades do ato de oferta, do recebimento e da simbologia que carregavam ao serem distribuídos em uma data tão solene. A semelhança das circunstâncias que envolviam a primeira comunhão no Brasil e na Espanha demonstram, guardadas as peculiaridades de cada lugar, que as imagens arquivadas de educação e religião relativas à primeira comunhão feminina são muito próximas, embora a distância que separa esses países esteja dimensionada entre os dois lados do oceano. Considerações finais A partir da análise dos arquivos de imagens fotográficas femininas produzidas no Brasil e na Espanha, sobre o momento de realização da primeira comunhão, com foco em aspectos como a postura, a indumentária, os objetos de cena e a simbologia existente, percebemos que a religião estava presente no currículo das escolas, por meio das aulas de catequese e a primeira comunhão era o ápice de preparação dessas aulas. Para tanto, era utilizado o catecismo católico ensinado tanto por padres e freiras catequistas, quanto por professores leigos quando se tratava de escolas públicas. De acordo com Pintassilgo (2002, p.555), no que se refere ao ensino básico, a educação religiosa católica é “um dos mais importantes elementos do currículo escolar elementar, tendo como finalidade clara e inequívoca a socialização das crianças e jovens nos princípios do catolicismo”, o que vai se estender até adiantado o século XX. 11 Transcrição do verso dos santinhos do original em espanhol: a) Has alimentado Señor a tu pueblo con el manjar de los Ángeles y lo has saciado con Pan Celestial y divino. / Adoremos a Jesús con los Ángeles y pidámosles que le presenten nuestros votos em favor de los seres que nos son queridos. (Mons. De Segur.). b) Recuerdo de la Primera Comunión de la niña Elvira Hitos Cortez. Celebrada em la Capilla del Santo Ángel el día 17 de mayo. Huelva, 1937.
Cadernos de História da Educação, v.20, p. 1-22, e044, 2021 | 20 O material fotográfico examinado denota “a imbricação do ritual da primeira comunhão com a cultura escolar”, como já havia concluído Jacques (2016, p.12), a partir de entrevistas, que corroboram a relação estreita entre a primeira comunhão com as práticas escolares, caracterizando-se como um momento ritualizado no contexto do próprio cronograma escolar. Além disso, verifica-se que a primeira comunhão era um ritual com marcante protagonismo feminino, no qual o papel dos meninos era o de coadjuvantes ao das meninas, cuja pose, vestimenta e indumentária carregava significados relativos à profissão de fé exigida no momento da eucaristia. Embora fossem as principais protagonistas do “pacto social inclusivo” e do rito de passagem de iniciação à vida consciente cristã católica, às mulheres também era infringida maior responsabilidade por guardarem o sacramento recebido e delas era cobrado maior rigor na observação de sua conduta social, moral e sexual. Aos coadjuvantes da cerimônia, os meninos, também eram menos rigorosas as marcas de formação que envolviam, por vezes, esses pactos, e havia maior flexibilização na concepção dos pecados. Certo é que a igreja aliada à escola constituía junto à família um potente triunvirato de formação, não sendo possível deixar de cumprir com os ritos estabelecidos no CDC em vigor, que responsabilizava a todos pela formação dos jovens católicos. Como demonstram as imagens fotografadas e as escritas nos santinhos dados como lembrancinhas, a primeira comunhão era um rito de iniciação obrigatório, e até pouco tempo, o mais importante da fase de infância da vida de todas as meninas. As antigas fotografias da primeira comunhão, desgastadas pelo tempo, referem-se a este tema que tem sido secundarizado do ponto de vista histórico, mas que necessariamente vincula-se com a nossa memória e que precisa ser historicizado. Com as melhores roupas e trajes compatíveis com a sua classe social e com as suas condições econômicas, as meninas eram preparadas física e espiritualmente para receber Jesus pela primeira vez, no tão festejado dia de sua primeira comunhão. No entanto, também é preciso reconhecer que essa era uma prática pouco inclusiva, pois as meninas de famílias com recursos econômicos limitados, que não tinham possibilidade de arcar com os custos requeridos para a ocasião, sentiam a inoportuna diferenciação de ter que comparecer e assistir ao ato religioso com vestidos muito mais simples e modestos que as outras, quando não os obtinham emprestados ou doados por caridade. Ainda assim, o ato da primeira comunhão tem sido historicamente a festa por excelência de toda a família e da comunidade eclesiástica; e as fotografias ligadas à história deste ato religioso evidenciam os momentos de alegria e júbilo vividos por todos ao celebrar este acontecimento. Além disso, em ambos os países, Brasil e Espanha, os vestidos das meninas do dia de sua primeira comunhão são marcos de memória, que não se apagam, mesmo para aquelas cujas fotografias se perderam ou que, por razões econômicas, não foram fotografadas, demonstrando que essa indumentária representava muito mais do que uma simples vestimenta naquele dia tão especial. Contudo, não podemos perder de vista que as aceleradas mudanças que transformam os ritos podem levar ao abandono, durante um período de transição, de objetos considerados em desuso. Nesse sentido, as fotografias de primeira comunhão das meninas, assim como os santinhos, são apresentados como interessantes documentos iconográficos de cunho histórico educacional, que necessitam do olhar atento de pesquisadores, tendo em vista que podem ajudar a reconstruir e interpretar passagens da história da educação feminina.
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