[Re]interpretar e [Re]habilitar o Mosteiro de Santa Cruz
Abstract
Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia
Full text
Dissertação no âmbito do Mestrado Integrado em Arquitetura, orientada pelo Professor Doutor João Mendes Ribeiro e coorientada pelo Professor Doutor Rui Pedro Mexia Lobo e apresentada ao Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Fevereiro de 2022 Gabriela Marques Rebelo [RE]INTERPRETAR E [RE]HABILITAR O MOSTEIRO DE SANTA CRUZ
[Re]interpretar e [Re]habilitar o Mosteiro de Santa Cruz Gabriela Marques Rebelo Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura sob orientação do Professor Doutor João Mendes Ribeiro e coorientação do Professor Doutor Rui Pedro Mexia Lobo Departamento de Arquitetura, FCTUC, Fevereiro de 2022
Nota: O documento segue com o novo Acordo Ortográfico; Utiliza-se para citações a norma APA, edição 6ª; O símbolo “ ” indica que existe conteúdo na parte posterior da página Para a melhor compreensão do projeto
Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto SANTACRUZ - Reconstituição digital em 3D do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em 1834 (referência PTDC/ART-DAQ/30704/2017 - POCI-01-0145-FEDER-030704), financiado por FEDER - Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional através do COMPETE 2020 - Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI) e por fundos portugueses através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Resumo Desde cedo na história de Portugal, particularmente da cidade de Coimbra, o Mosteiro de Santa Cruz estabeleceu-se como um ponto de referência, tanto para o desenvolvimento urbanístico da cidade como para impulsionamento cultural do próprio país. Construído no século XII, este Monumento Nacional foi, ao longo de diferentes períodos da história, alvo de diversas reformas marcantes. Parte integrante deste conjunto, a Fonte da Manga, de carácter renascentista e construída durante a reforma do período Joanino, assumia-se inicialmente como elemento central de um claustro, o terceiro do antigo Mosteiro. No entanto, com o passar do tempo não só se perdeu este contexto e esta relação, mas também o caráter central desta peça carregada de história e simbolismo. A inexorável passagem do tempo e o progressivo desenvolvimento da sociedade citadina vieram a evidenciar, principalmente na contemporaneidade, uma negligência de todo o conjunto. A diluição deste edificado que outrora se assumia coeso, paralelamente com a dispersão do espólio do mosteiro por diversos pontos da cidade que em nada remetem para a história e contexto do mesmo, resulta na desvirtualização do Mosteiro. O espaço central da Fonte da Manga, outrora fisicamente interligado com o Mosteiro, encontra-se, atualmente, desprotegido e descaracterizado, carecendo de um elemento que lhe dê identidade ou que remeta para essa associação como parte integrante do todo. Desta forma, a presente dissertação, tendo como tema central “Construir no Construído”, assumiu como principal objetivo propor uma nova leitura do conjunto do Mosteiro e da Fonte da Manga, permitindo a sua recontextualização no espaço urbano da cidade. Assim, decompôs-se este objetivo em três outros: 1. a reunião de todo o espólio existente e a sua musealização e exposição no espaço do Mosteiro; 2. a atribuição de uma nova funcionalidade e vivência a este monumento; e 3. a reformulação da relação entre a Fonte da Manga, o Mosteiro e a Cidade. Uma vez estabelecidos os objetivos, tornou-se necessário definir a metodologia a abordar. Neste sentido, estipularam-se, também, três métodos essenciais: 1. a listagem do espólio; 2. a proposta do núcleo interpretativo e museológico; 3. a criação de dois volumes em ripado de madeira que remetem para a ideia de claustro, outrora aqui existente, e que, simultaneamente, restabelecem a ligação entre o edificado. Em suma, procurou-se estabelecer um diálogo entre a preexistência e novo, numa linguagem coerente, redesenhando simultaneamente o espaço urbano envolvente. Palavras-chave: Mosteiro de Santa Cruz, Fonte de Manga, Reabilitação, reuso, património, Museu, Restauro, Núcleo cultural.
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15 INTRODUÇÃO A presente dissertação surge no âmbito da disciplina de Atelier II de Projeto, orientada pelo professor doutor João Mendes Ribeiro, com o tema Construir no construído, para reflectir sobre a cidade na atualidade, em particular num contexto urbano histórico. O objeto de estudo é o Mosteiro de Santa Cruz, em particular a Fonte da Manga, e o exercício prático que se propõe consiste na adaptação do Mosteiro a um museu, que tem como base fundamental de trabalho a criação de um Projeto de Valorização, Reabilitação e Conservação. A dissertação decorreu do tema que foi proposto e desenvolveu-se em primeira instância numa fase de grupo, onde se definiu a estratégia urbana para a globalidade da zona de intervenção, o mosteiro e os edifícios da sua envolvente. Posteriormente, na fase individual, incidir-se-ia sobre os edifícios e espaços previamente definidos na fase da estratégia urbana geral. O trabalho desenvolveria, nesta fase, a caracterização volumétrica, forma, espacialidade e programa da proposta, evoluindo no sentido da definição das opções materiais e construtivas, referentes tanto às intervenções de restauro e reabilitação, como de novas construções, fundamentadas nas teorias interpretativas de autores ligados às correntes italianas do restauro crítico. Para entendermos efetivamente a proposta, reparte-se esta investigação em dois grandes capítulos: a Contextualização e Estado de Arte, referentes à recolha que informação e compreensão do objeto de estudo, e a Proposta, associado à vertente prática da intervenção. O primeiro capítulo, Contextualização e Estado da Arte, surge da necessidade de compreensão deste Monumento Nacional na contextualização da cidade. Nesse sentido, seria especialmente importante entender o contexto histórico que durante a Reforma Joanina, levaria à construção do Claustro da Fonte da Manga e de que modo as alterações da malha da baixa de Coimbra afetariam, no início do séc. XX, a tipologia do claustro que lhe era próprio. Sendo assim, torna-se essencial englobar a informação sobre a sua evolução urbana até à contemporaneidade, reproduzindo assim uma consciencialização histórica, que fundamente as opções de projeto e justifique a relação entre os novos edifícios propostos e aqueles a reabilitar.
17 Em sucessão destas aprendizagens é necessária a listagem do Espólio do Mosteiro 1 , numa perspetiva de análise histórica e de identidade do lugar. Juntamente com este tema cronológico, questiona-se a filosofia de como intervir numa pré-existência renomada, com história e arquitetura. Ao mesmo tempo, procura-se fundamentar a proposta num conjunto de teorias de restauro, já exploradas por diversos autores e arquitetos, com o objetivo de perceber qual a melhor abordagem de intervenção no Monumento, pois cada teoria origina um resultado diferente, podendo ter repercussões diversas no meio citadino. A par deste conjunto de resoluções, acrescenta-se ainda a questão museológica, de como adaptar todos os elementos que constroem um complexo museológico, em concordância com os diversos pontos culturais da cidade. O segundo grande capítulo, a Proposta, investe no desenvolvimento prático do projeto da presente dissertação, em que o primeiro subcapítulo vai de encontro aos grandes obstáculos que hoje se colocam. Posteriormente, surge a análise urbana da área de intervenção desenvolvida, emergida no entendimento da função dos edifícios, que se virá refletida no exercício de projeto. A estratégia geral será o capítulo onde se define o desenho da intervenção, desenvolvida primeiramente pelo grupo e posteriormente a nível individual. Neste capítulo, é possível entender o conhecimento aplicado no traçado da ideia, que define estratégia urbana geral desde o núcleo como conceito. Na continuação do projeto, a fase individual, no capítulo da Estratégia Individual aprofunda o programa do edifício-museu, o desenho da proposta até ao momento central, a Fonte da Manga, as suas relações com o novo edifício e ainda as definições compositivas e construtivas, no contínuo envolvimento na linha de pensamento sustentável, entre o uso e o reuso. O programa e a extensão do Mercado serão também alvo de atenção, no intuito de conceber um meio contemporâneo, com o objetivo de convergir numa estratégia que resolva a espacialidade e a acessibilidade que melhor se adapta e respeita a dinâmica da urbe. Por fim, a apresentação de diversos desenhos rigorosos, fotomontagens e esquiços que acompanharam o desenvolvimento e realização do projeto – [Re]interpretar e [Re]habilitar o Mosteiro de Santa Cruz. 1 Identificado no capítulo referente aos Anexos.
19 I. CONTEXTUALIZAÇÃO E ESTADO DA ARTE II. A história do edifício, relação com a cidade e espólio A fundação da obra Românica O mosteiro de Santa Cruz, localizado na baixa de Coimbra, considera-se um dos cenóbios com mais destaque não só nesta cidade, como também em todo o país, tendo sido erguido na primeira metade do século XII, a partir de 1131, com a proteção de D. Afonso Henriques (Craveiro, 2011). O espaço cedido para a construção do Mosteiro, em terreno anteriormente conhecido por Banhos Régios e situado numa área exterior às muralhas, foi proveniente de uma doação feita por D. Afonso Henriques ao Arcediago D. Telo (Alarcão, 2008; Craveiro, 2011) e na qual o próprio terreno, numa época precedente à construção, descrevia-se: “A norte, o morro desce íngreme sobre um vale de falha que a avenida de Sá da Bandeira e a rua de Olímpio Nicolau Rui Fernandes hoje ocupam. Corria por esse vale um ribeiro que teria sua origem ao cimo do actual Parque de Santa Cruz. Nos inícios do séc. XII, chamava-se torrente dos Banhos Régios.” (Alarcão, 2008, p. 13). Nesta área viria também a fazer parte uma zona “que incluía (…) o horto comprado para o efeito à diocese em 1129” (Craveiro, 2002, p.25), que foi igualmente doada, mas apenas no ano de 1137, completando, assim, uma reunião de espaços amplos e centrais que proporcionariam uma narrativa de crescimento e expansão numa cidade que viria a ser palco de momentos notórios. Ao longo dos tempos, este complexo crúzio foi-se ajustando às épocas consoante os movimentos artísticos presentes em Portugal. O Mosteiro passou então por três fases significativas - o Românico, o Manuelino e o Joanino, definindo e esculpindo assim uma obra que manifesta arte. Contudo estes estilos culturais “… deixaram a sua marca na estética e na organização espacial da construção do edifício religioso, e por outras construções posteriores” (Couto, 2014, p.11), a Sacristia e o Santuário. O culminar de todas estas circunstâncias culturais, políticas e religiosas deste Mosteiro definem, então, todo um percurso que influenciou o que é hoje a cidade de Coimbra. Na dinamização dos modelos românicos em Portugal foram várias as obras construídas em
21 solo português, dispersas pelo país, que se podem encontrar em cidades como Coimbra, Lisboa, Porto, entre outras. No caso da cidade de Coimbra, encontram-se com mais destaque as Sés de Coimbra e o imponente Mosteiro de Santa Cruz. A fundação do Mosteiro reflete-se “…num tempo de intensa renovação espiritual que orientava expressamente a vida dos cónegos para a oração, para a leitura dos textos sagrados e para a ajuda assistencial aos pobres.” (Cruz, 1963 in Craveiro, 2011, p.20). Um espaço concentrado na devoção e doutrina, através de um motivo religioso que se rege pela regra de Sto. Agostinho, uma nova conduta canonical. (Craveiro, 2011). O mosteiro encontrava-se envolvido no centro da elite política e religiosa. Esta situação, providenciada pelo reconhecimento dos grandes nomes que o guiavam e supervisionavam, repercutia-se numa proteção dos poderes régios e dos estados papais. Sendo assim, tal hegemonia resultou num “… privilégio de Isento colocando o mosteiro sob a protecção directa do papado.” (Craveiro, 2002, p.27). Desta forma, tornou-se assim possível uma garantia da sua longevidade, reforçada pelo forte desenvolvimento demográfico e urbano da cidade de Coimbra, cultivando uma dinâmica cultural expansiva em simbiose com o mosteiro (Gomes, 2000). No decorrer da Idade Média, os crúzios geraram um considerável património, auxiliado pelo crescente espólio. Todas estas mais valias permitiram que o Mosteiro fosse considerado um dos mais importantes mosteiros da europa (Gomes, 2000). No que toca à identificação dos espaços estabelecidos no século XII, estes não sofreram grandes alterações até às reformas do período manuelino (Craveiro, 2002). A Igreja do Mosteiro foi construída no estilo românico que se apresentava como um “laboratório experimental” numa construção correspondente à “… primeira obra do segundo período do romântico coimbrão (…) de um românico tecnicamente mais evoluído em Coimbra” (Craveiro, 2002 in Couto, 2014, p.27). (Fig.3) Foi concebida com uma nave e três capelas laterais, sendo a nave coberta com abóbada de berço. Sobre o nártex primitivo, localizado na entrada da Igreja, o que resta atualmente são apenas pequenos detalhes e vestígios, salientados nas paredes laterais da inicial construção românica (Vieira, 2001). A fachada desta igreja remonta a uma evolução de épocas construtivas desde o românico até século XVIII. Anteriormente ao claustro do Silêncio existia um primitivo claustro românico que foi devastado com o tempo (Vieira, 2001).
Fig. 3 - Planta da Igreja Românica de Santa Cruz, reconstituição por Manuel Real, Adaptada de Couto (2014). Fig. 4 e 5 - Esboço da Igreja Românica de Santa Cruz adaptado de Vieira (2001, p. 21)
23 No lugar deste, surgiu o atual Claustro do Silêncio, considerado por muitos um dos mais célebres claustros portugueses (Vieira, 2001). De acordo com Vieira, este claustro “…engloba em si e nos seus anexos, motivos mais que suficientes para uma demorada visita que, para além de repouso espiritual que proporciona, nos faz peregrinar, revendo a arte e história nos sucessivos séculos da sua existência…” (Vieira, 2001, p.44). Este claustro não seria o único do Mosteiro, subsistia também, um claustro de humilde dimensão, pertença do mosteiro anexo das Donas, que viria a dar lugar ao Claustro da Portaria (Craveiro, 2011). Segundo o que foi apurado, este convento feminino faria parte da cerca conventual, e estaria disposto a norte da Igreja crúzia, com pouca dimensão (Craveiro, 2011). Parte integrante do Mosteiro de Santa cruz, o Mosteiro das Donas e o respetivo claustro, juntos ocupariam então, o corrente espaço da atual Câmara Municipal de Coimbra (Couto, 2014). A nordeste do mosteiro, encontrava-se a imponente Torre dos Sinos do Mosteiro de Santa Cruz, datada do século XII, onde foi colocada no final do século XX a Fonte dos Judeus e a escadaria adjacente, mantendo-se estes últimos na atualidade (Gomes, 2000). A progressiva dilatação social do Mosteiro Medieval acabou por ter um efeito direto no planeamento territorial e urbano nas áreas em redor, e com isso estabelecer um robusto poder urbanístico (Craveiro, 2011). Ao mesmo tempo, era preservada a imagem de poder, mediante uma contínua preocupação dos crúzios, no cuidado e coleção das relíquias (Craveiro, 2011). O mosteiro, como recorrente ponto de paragem, espiritual e religioso, oferecia circunstâncias propícias a favor de tal sucesso, através da “ajuda assistencial” e do “descanso”, que se repercutiam nos ideais da comunidade crúzia (Craveiro, 2011). Estes contextos previamente referidos, coadjuvaram o Mosteiro a tornar-se um ponto de referência. Pertencentes a uma parte do percurso religioso do mosteiro, as relíquias dos mártires de Marrocos 2 “… são, assim, alvo dessas preocupações expositivas que passam pela promoção da sua acessibilidade aos fiéis e pela dignificação do espaço envolvente...” (Craveiro, 2011, pp. 21-22) acrescentando-se assim mais tesouros ao repertório espiritual do mosteiro em dinamização. (Fig. 6) Apesar do repertório artístico imenso deste mosteiro conquistado até à altura, as generalidades das peças medievais habitam não no mosteiro, mas sim em espaços museológicos, bibliotecas e também arquivos nacionais. 2 “…também conhecidos por protomártires franciscanos…” tinham como função difundir o evangelho, no começo do século XIII (Vieira, 2001, p.71). No entanto, não terminam a sua missão, uma vez que se tornaram prisioneiros e consequentemente mártires no ano de 1220 (Vieira, 2001).
Fig.9 - Calvário, por Cristóvão de Figueiredo, 1522-1530 Fig. 10 - Ecce Homo, por Cristóvão de Figueiredo, 1522-1530
32 Fig. 11 - Conjunto escultórico da Última Ceia de Cristo, do escultor Hodart
33 dormitório, prolongava o mosteiro 22 braças, cerca de 48,4 metros, para nascente, consagrando o Claustro da Manga, e para poente, entroncava no bloco definido pela nova livraria.” (Dias, 1983 & Garcia, 1923 citado em Couto, 2014, p.91). (Fig. 12) Aquando da extensão dos dormitórios, Diogo de Castilho empreitou uma estrutura organizada e dividida em duas volumetrias, na qual a sua ligação constituía um ângulo de noventa graus, resultando assim, num gesto idêntico ao formato “T”. (Couto, 2014). O conjunto das celas repartidas funcionariam como unidade padrão repetida. Esta seria uma tipologia que João de Castilho viria a reproduzir no dormitório do Convento de Cristo, no momento da sua ampliação (Lobo, 2006). A enfermaria seria colocada no piso intermédio com diferentes dimensões, com a capacidade de doze celas igualmente racionalizadas tal como o bloco do dormitório, fixando-se então a oriente do recente claustro da Manga. A construção do Claustro da Portaria veio substituir parte do Mosteiro das Donas (Craveiro, 2011; Couto, 2014) e procedeu-se à construção de um outro novo: o Claustro da Manga. Estas construções desdobraram-se a partir do âmago já existente do claustro do Silêncio e com especial “…incidência nas três alas norte, nascente e poente.” (Craveiro, 2011, p.35). A livraria situar-se-ia na ala poente do claustro do silêncio, “…precisamente na confluência entre o claustro do Silêncio e a nova portaria…” (Couto, 2014, p.47).
Fig. 12 - Claustro da Fonte da Manga, dormitórios do Mosteiro de Santa Cruz e Torre dos Sinos
35 A Fonte do Claustro da Manga Em 1527, Fr. Brás de Barros dá entrada no mosteiro invocado por D. João III. Aquando da sua chegada, põe em prática a reforma espiritual de influência franciscana no mosteiro, com o objetivo de corrigir os costumes do clero, e repondo, à semelhança da regra primitiva da ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, a obrigatoriedade da clausura juntamente com os votos de obediência, pobreza e castidade. “A tarefa reformadora levada a cabo no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a sua Casa mais importante, só poderia espelhá-la; e o ideal de vida simples, regressado à pureza das Escrituras e dos escritos dos Padres da Igreja, deu aqui frutos que atingiram um singular ponto de maturação.” (Abreu, 2008-2009, p. 36). Os ideais desta reforma podem ser identificados em três obras, sendo duas escritas pelo próprio Fr. Brás: o Memorial de Cõfessores, a pedido dos crúzios como guia orientador e o Livro das Constituições e Costumes, que daria a conhecer as bases da reforma brasiana. A terceira obra referencial seria a tradução, feita pelo reformador, do Espelho de Perfeycam, de Hendrik Herp, como um instrumento de disciplinação dos vícios, combatendo as atitudes mundanas em função da salvação da alma e perfeição espiritual (Abreu, 2008-2009, p. 40). Os espaços propostos desta reforma regiam-se pelos lemas presentes nas obras supracitadas, proporcionando as condições ideais para acatar com devido rigor a clausura, o recolhimento e o silêncio. “Tal interdependência entre a reforma de costumes e a dos espaços monásticos verifica-se em quase todas as situações” (Abreu, 2008-2009, p. 38). A construção da Fonte executada pelo escultor e arquiteto João de Ruão, por volta de 1533 e 1535, tornar-se-ia um marco na reforma renascentista do mosteiro (Abreu, 2008-2009). Inicialmente conhecida como Claustra terceira da Enfermaria, a peça desenvolveu-se a partir da linguagem metafórica, na exposição do sentido eremítico de recolhimento interior, e na transposição das doutrinas difundidas no Espelho de Perfeycam (Abreu, 2008-2009). Esta Fonte resulta no traçado em dupla cruz de centro marcado articulado de um programa escultural e jogos de água (Abreu, 2008-2009).
Fig. 13 – ilustração do Fonte e Claustro da Fonte da Manga, desenho de Albrecht Haupt
37 “O conjunto, pese embora a sua invulgaridade, mostra-se herdeiro de toda a tradição monacal do Ocidente na figuração do hortus conclusus claustral como paraíso terrestre. A divisão quaternária do seu espaço remete para os quatro rios genésicos que, brotando do centro edénico, do local onde cresce a Árvore da Vida, correm axialmente no sentido dos quatro pontos cardiais. O edificado central da Fonte da Manga, de carácter antiquizante, por sua vez socorre-se de formas geométricas arquetípicas na acentuação de tal carácter sagrado e cósmico, sobretudo da conjugação do círculo com o quadrado.” (Abreu, 2008-2009, p. 40). Juntamente a estas associações simbólicas adiciona-se a passagem da vida mundana para um nível espiritual através dos sete degraus, necessários para a aproximação da perfeição espiritual. “Esta vitória alcança-se com a conquista progressiva de virtudes, equivalentes aos dons do Espírito Santo, que são sete” (Abreu, 2008-2009, p. 41). A chegada ao templete, no centro da planta, seria onde se encontraria a “Fons Vitae, ou a água regeneradora do espírito” e purificadora de todo o pecado (Abreu, 2008-2009, p. 41). Ainda os quatro edifícios satélite, ao redor do templete, seriam os espaços dedicados à introspeção, recolhimento e clausura. Torna-se assim reconhecível a transcendência que advém da arquitetura desta obra, carregada de simbolismos tanto míticos, como espirituais, através dos números, geometrias e evocações tipológicas que permitem o religioso aceder ao espiritual através do corpóreo (Abreu, 2008-2009). O surgimento da denominação que perdura até aos dias de hoje, a Fonte do Jardim da Manga, é divulgada na Descripçam e Debuxo de Mosteyro de Santa Cruz de Coimbra por Francisco Mendanha, na qual sugere a ideia de que D. João III teria desenhado o claustro na manga da roupa que tinha vestida, ou então, de que nasceu porque o rei mantinha uma atenção constante enquanto se faziam as obras, trazendo preso na manga da sua roupa real o desenho do que se iria edificar (Boletim da biblioteca geral da universidade de Coimbra, 1957). Segundo a seguinte descrição são expostas as características do conjunto da Fonte num tom esclarecedor:
Fig. 14 – Desenho do Claustro da Fonte da Manga
39 “… Claustro da Manga, o qual é muito galante e tem muito que ver para os que visitam o Mosteiro. É todo pintado a fresco, tanto paredes como o madeiramento do teto, que é de tábua lisa e plana, segundo o costume de Portugal. O pátio deste Claustro não é de lajes ou jardim, mas sim de água, embora não faltem pedra e verdura para perfeição da obra.” (DGEMN, 1957 citado em Parreira, 2015, p.161). Parte deste conjunto Claustral, a cúpula, de função protetora, eleva-se do nível da fonte, mantendo a sua estrutura sob oito colunas clássicas materializadas com pedra de Ançã (Basto, 2015). Os arcobotantes conectam-se por vínculos radiais, que por sua vez são rematados pelos quatro oratórios em plena concordância com a geometria do Jardim (Basto, 2015). O encanto por esta obra repercutiu-se e ao que tudo indica, terá até sido replicada. Este modelo reproduzido ter-se-ia estabelecido no claustro dos Evangelistas do Escorial, concluído em 1593, à semelhança do coimbrense, ambas possuidoras de uma centralização definida, interdependências entre os elementos e ainda a cristalização da Fonte da Vida (Craveiro, 2011). No texto de Pedro Navascués Palacio, El Patio y templete de los Evangelistas de el Escoria,l sobre a fonte do claustro do Escorial, refere que outros autores nomeadamente Kubler sustentam a ideia da sua replicação. Ainda Santiago Sebastián indica essa possibilidade, diretamente ligada à viagem do autor da obra do escorial, Juan Herrera, acompanhado de D. Felipe II às cortes e eventualmente à Fonte da Manga, sendo estas conclusões posteriormente contestadas por Pedro Navascués, afirmando que este conjunto não estabelecia ligações diretas do ponto de vista arquitetónico: “Para mí, el conjunto de la fuente, templete y capillas o celdas de la Manga nada tiene que ver con el Patio de los Evangelistas desde el punto de vista arquitectónico. Es decir, ni el proyecto, ni el mundo de ideas y modelos a los que pertenece, ni las formas ni materiales, así como tampoco las soluciones constructivas ni el papel jugado sobre el plano pueden compararse con el Templete escurialense.” (Palacio, 1987, PP. 67-68).
Fig. 19Retábulo do Santuário Fig. 20 – Santuário
47 que devido à dissolução das ordens religiosas resultaram no desvio e destruição de parte do espólio crúzio. Toda uma revolução que acabou por ditar a perda e dispersões das suas riquezas patrimoniais, com diversos espaços do mosteiro ocupados. No entanto, o que foi salvaguardado do espólio pertencente à livraria seria encaminhado para diversas instituições, entre os quais o Museu Machado de Castro no centro da alta, porém tardiamente, apenas em 1911. A partir deste momento, seguiram-se vários momentos datados de modificações, substituições e alterações de parte do mosteiro e envolvente, que guiar-lho-ia ao Mosteiro do presente. Em 1867, assinala-se a ocupação dos terrenos pertencentes a Santa Cruz, referentes ao antigo horto do mosteiro, que seriam ocupados pelo Mercado Municipal. (Fig. 21) Posteriormente, o mercado recebeu uma ampliação e constrói-se o novo pavilhão dedicado à comercialização do peixe (Fig. 22), concluída entre 1905 e 1907, pela autoria do arquiteto Silva Pinto. (Relvão, 2014). Ainda em 1999 é aprovada a construção do novo mercado D. Pedro V, salvaguardando o Pavilhão do Peixe. No Mosteiro, em 1877, desaparecia o Claustro da Portaria, afim da construção da Câmara Municipal de Coimbra. (Fig. 23) A partir da segunda metade do século XIX, começou-se a desenvolver a cartografia urbana, à exceção dos simples levantamentos militares (Relvão, 2014). No entanto só na década de 1870 é que “…começou a surgir uma nova consciência do planeamento urbano.” (Relvão, 2014, p. 236). No esforço de equiparar a cidade aos exemplos internacionais, é criado um concurso que almeja o estudo e planeamento da cidade pelos novos métodos de cartografia. O concurso, lançado em 1872, do levantamento atualizado de Coimbra é atribuído aos irmãos Francisco e Cesar Goullard, e em 1874, constitui-se a planta topográfica da cidade de Coimbra. (Fig. 24) Esta planta permitiu o início do estudo fundamentado e ainda a ampliação do tecido urbano na promoção “…da cidade higiénica, moderna e ordenada. O município na posse deste instrumento fundamental para o planeamento urbano, encetou uma nova forma de encarar a construção da cidade para lá da resposta imediata aos problemas que a assolavam.” (Relvão, 2014, p. 237), sendo assim, com o recurso a cartografias científicas e profissionais destacados, tornou-se possível a expansão da cidade. “Demorou, porém, a concretizar‐se esta cidade moderna. Por um lado, a expansão da cidade, ao contrário dos exemplos
Fig. 21 - Mercado Municipal de D. Pedro V, 1870-1880 Fig. 22Pavilhão do peixe
Fig. 23 - Câmara Municipal de Coimbra Fig. 24 – Planta da Cidade de Coimbra, de Francisque e César Goullard, 1874.
51 europeus, não era uma consequência da densidade existente, mas antes de mais a vontade de progresso sonhada pela edilidade.” (Relvão, 2014, p. 432). A imponente Torre dos Sinos, parte emblemática da cidade, viria então a ver o seu fim, propositadamente destruída a 3 de Janeiro de 1935. A decisão da sua demolição foi fomentada pelo facto de a torre encontrar-se em iminente perigo de desabamento em pleno cenário citadino (Gonçalves, 1980 citado em Alarcão, 2013). (Fig. 25 e 26) No início do século XX, foi construída a Avenida Sá da Bandeira sobre o antigo vale de Santa Cruz, ligando assim a baixa à alta de Coimbra. (Fig. 27). Na década de trinta, foi erguido o Edifício dos Correios (CTT), no local da antiga Estação Telégrafo-Postal, que seria afetada por um incêndio, no início de 1926, e o edifício da Direção Regional da Cultura do Centro (DRCC) onde outrora existiu o lanço do segundo dormitório que encerrava, a poente, o claustro da Fonte da Manga. (Relvão, 2014). A Fonte da Manga, outrora enquadrada por um claustro que teve o seu fim em 1888, onde foram arrasadas as alas norte e nascente e, posteriormente, os incêndios que afetariam essa zona em 1917 e 1922, tornaram o espaço descaracterizado. A partir desse momento, a peça central foi deixada em desgraça até à intervenção da Direção Geral dos Edifícios e Monumento Nacionais (DGEMN), iniciando o projeto de reintegração e recuperação da Fonte da Manga pelo arquiteto Luiz Benavente, a qual foi encarregue a partir de 1931 (Relvão, 2014). A Fonte do Claustro da Manga foi classificada em 1934, segundo a Direção Geral do Património Cultural, como Monumento Nacional. Dois anos depois, iniciaram as obras de recuperação da peça e a construção do Restaurante Jardim da Manga, concluídas em 1940. Na própria fachada do mosteiro surgiram alterações. A Igreja S. João Baptista, antiga paroquial, revive, no que ainda é presentemente, o conhecido Café Santa Cruz. Em relação à Igreja centenar, “em 1940, o receio de bombardeamentos ditava a cobertura do portal da igreja.” (Craveiro, 2011, p. 59). Na primeira metade do século XX, é ainda erguida a galeria pertencente ao Claustro do Silêncio, pela Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). “O refeitório manteve-se então na tutela da Câmara, adquirindo a designação de “Sala da Cidade”, e funciona hoje como espaço expositivo privilegiado na ligação da comunidade ao núcleo museológico possível no complexo monástico.” (Craveiro, 2011, p. 135).
Fig. 25 e 26 - Demolição da Torre sineira, em 1935
Fig. 27 – Avenida Sá Bandeira Fig. 28 - Vista do edifício da DRCC
63 apenas concedidas a uma parte da população com maior poder económico e financeiro. Este grupo de pessoas seria o único que poderiam endereçar convites ao resto da população (Suano, 1986). Só bastante tempo depois é que foi possível a abertura desses museus privativos (Suano, 1986) “…ou seja, aberto ao público em geral, sem distinções, local livre, de caráter educativo, cuja missão é recuperar, preservar e disseminar a memória coletiva por meio de seus objetos.” (Lacerda, 2021). “Sabemos que cultura é um termo amplo e complexo, podendo ser definido a partir de diversos pontos de vista. Sob a análise antropológica, cultura é o conjunto de costumes, tradições, hábitos e manifestações de uma população, que constrói sua identidade e seu modo de vida e os transmite geração após geração. O museu tem o papel de informar e educar por meio de exposições permanentes, atividades recreativas, multimídias, teatro, vídeo e laboratórios.” (Lacerda, 2021). O Museu será, então, um espaço capaz de estimular a curiosidade, as reflexões e o debate na promoção da socialização e dos princípios da cidadania a fim de promover a “…sustentabilidade das transformações culturais.” (Lacerda 2021). “Antes de mais nada, não podemos nos esquecer que o museu é o local último no longo processo de perda de funções originais – ou processo de museificação – pelo qual o objeto atravessa. Fora do seu contexto original, valorizado por características a ele totalmente alheias, o objeto deixa de ser objeto e passa a ser “documento” e aquilo que ele tem de mais intrínseco, que é ser produto e vetor de ação humana, (…) não é levado em consideração. O primeiro estudo do objeto deveria ser sempre aquele que nos permite atingir as maneiras segundo as quais os homens se organizam em sociedade para produzi-lo e quais eram suas funções nessa sociedade.” (Suano, 1986, p. 88). O objeto, como indica a autora, tem o seu processo: começa como objeto, seguindo-se a museificação, e no final é documento, isto é, o objeto quando retirado do seu local de origem perde
65 por vezes parte da identidade intrínseca ao mesmo (Suano, 1986). Quando se recupera um objeto é necessária uma nova integração e, dependendo do seu caráter, isto pode ser solucionado através da sua reposição no primitivo lugar, ou quando não é possível, a sua instalação num espaço propício ao esclarecimento do seu passado. Neste momento entra o conceito de coleção/ espólio, que engloba um conjunto ou um singular número de objetos, que devem ser dispostos, selecionados e organizados (coleção) numa exposição de forma que a sua narrativa seja lida de maneira translúcida, complementando, desse modo, a sua história, pertencendo assim ao presente, pois todo o processo envolvido na exposição recorre aos métodos da atualidade. Os objetos deste trabalho identificam-se como peças, utensílios, instrumentos, quadros, indumentária, espaços e tudo o que transmite a vivência no mosteiro e na sua envolvente, enquanto a coleção estrutura os objetos que formam um encadeamento adequado numa exposição que resulta da metodológica dispersão dos objetos dentro de um percurso.
67 Cartas e Convenções Internacionais sobre o Património A cidade de Coimbra, como cidade histórica, retém na sua urbe bastantes edificações antigas, que requerem uma especial atenção devido ao seu peso histórico e de carácter erudito. Assim sendo, seria sensato uma abordagem projetual fundamentada no conhecimento de reabilitação e conservação do património. Este capítulo reflete o pré-pensamento perante a obra, neste caso o mosteiro e a sua bagagem histórica, de modo a criar uma linha de pensamento fiel à identidade da cidade e do próprio complexo monástico de Santa Cruz, repercutindo-se nas ações arquitetónicas apresentadas em projeto. A leitura dos textos provenientes das cartas e convenções de monumentos e patrimónios, identificam pontos essenciais sobre como tratar e preservar a história. O mosteiro de Santa Cruz categoriza-se hoje como Monumento Nacional, parte do Património Cultural de Portugal, de perseverante função religiosa e cultural (Silva, 2006). As temáticas introduzidas na conservação e restauração são possíveis de aprofundar através da obra escrita de vários estudiosos, que desenvolveram conhecimento filosófico entre teorias de restauro. “O homem teve, desde sempre, sentido de fazer perdurar no tempo todos os objectos que fossem úteis às suas necessidades, reparando aquilo que tivesse alguma função específica. O prioritário não era preservar testemunhos históricos, mas sim reparar algo que deixou de exercer as funções para que foi concebido, se necessário alterando-o. Originalmente, o edifício não é compreendido como um bem que possui valor histórico ou cultural, mas sim como um bem útil ou que representa algo nessa época. Só neste caso fará sentido fazer o edifício perdurar no tempo. A actividade de restauro tem origem nos séculos XVIII e XIX. Até esta data, os monumentos sofreram diversas acções de conservação, alteração de uso e renovação, que não devem ser designadas de restauro, tal como hoje é entendido. Assim como a história da arquitectura se modificou ao longo dos anos, alterando técnicas de construção e fundamentalmente os estilos de concepção e decoração, também edifícios já
69 existentes conheceram novas fachadas e ornamentações.” (Luso, Lourenço & Almeida, 2004). Posteriormente, no século XX, o hábito do restauro e conservação evoluiu bastante devido à existência das cartas e convenções internacionais sobre o Património, as quais apoiaram a proteção dos monumentos e reunião de fundos monetários para a progressão, cada vez maior, da diligência segura do património. No seu início, marcada pela Carta de Atenas, datada de 1931, onde a organização - Serviço Internacional de Museus - delineou pela primeira vez, internacionalmente, uma doutrina estipulando parâmetros e princípios gerais no que toca à administração e legislação dos Monumentos Históricos, a valorização dos monumentos, os materiais do restauro, as degradações dos monumentos, a técnica de conservação, a conservação dos monumentos e a colaboração internacional, num meio que propunha um início de uma vida propícia e justa ao Património (Carta de Atenas, 1931). Em Veneza, em 1964, o Serviço Internacional de Museus ressalta o valor da primeira carta, a Carta de Atenas, que contribuiu de forma essencial, para o desenvolvimento de grande dimensão da existência física de documentações entre organizações como a UNESCO e ICOM e ainda a criação do Centro Internacional para o Estudo e Preservação e Restauro dos Bens Culturais (Carta de Veneza, 1964). Ao longo destas cartas foram sempre adicionados critérios de valor importantíssimo para o património, adequadas ao seu tempo de modo a manter constante a supervisão do património, desde preocupações económicas, ressaltadas na Carta de Viena em 2009 até às “…relações entre o patrimônio tangível e intangível e os mecanismos culturais e sociais internos do espírito do lugar.” (Carta de Québec, 2008, p. 2), e que cada vez mais abrange um horizonte material e imaterial das criações do Homem. As Cartas, Convenções e Recomendações posicionam assim o património e a cultura como instrumento de desenvolvimento sustentável. Gradualmente se observou uma preocupação na preservação e valorização dos edifícios preexistentes, e alguns pela conservação do património cultural. No entanto, o que tem tomado mais destaque é o âmbito da sustentabilidade tornando-se assim uma preocupação, cada vez mais, recorrente nas políticas governamentais e no sector da construção. Este parâmetro de sustentabilidade vem deste modo a ser crucial para um mundo
71 melhor a nível ambiental, mas também proliferando a mensagem de sensibilização na preservação do meio ambiente. Juntamente com o fator do crescimento sustentável, as abordagens vão-se alterando: “No mundo de hoje, já não faz mais sentido a demolição integral das preexistências para a construção do novo a partir de uma folha em branco. Ao contrário, observa-se, cada vez mais, uma espécie de reconciliação com o passado, em que os resquícios materiais de outros tempos deixam de ser obstáculos para a criação e passam a ser objeto central do projeto contemporâneo, promovendo diferentes diálogos entre o antigo e o novo.” (Vetrone, 2018, p.1). Nesta reflexão exprime-se uma diferente preocupação perante a obra, uma possível via através da conexão entre o preexistente e o contemporâneo. No entanto nem sempre foi assim, tratando-se de um resultado de diferentes juízos e conceitos ao longo dos tempos. O aumento das práticas de intervenção nos edifícios preexistentes ajudou a impulsionar “…alguns dos principais teóricos ligados à preservação do patrimônio a desenvolver uma série de conceitos para lidar com essa nova realidade no âmbito da arquitetura contemporânea.” (Vetrone, 2008).
Fig. 33 – Categorias interpretativas de Giovanni Carbonara
79 “Em seu texto Il moderno sull’antico. Lettura dell’intervento contemporâneo, Vivio defende que, a intervenção sobre o existente constitui um desafio projetual mais complexo do que a construção à partir do zero, e que, por esta razão, é certamente um estímulo ao desenvolvimento de novas experiências e projetual mais complexo do que a construção à partir do zero, e que, por esta razão, é certamente um estímulo ao desenvolvimento de novas experiências e teorias arquitetônicas. Neste contexto, a autora aborda, entre outros aspectos, a questão da relação temporal das intervenções com as obras preexistentes, de modo que, suas categorias interpretativas assimilam também essa componente, além daquelas ligadas à dialética formal e linguística já trabalhadas pelos outros autores.” (Vetrone, 2018, p. 14). Vivio defende a criação de nove categorias assumindo o caráter temporal inerente à obra (presente - passado) mas mantendo a honorabilidade da preexistência: (Conservação - destruição). Estas categorias são vinculadas por quatro grupos de acordo com a relação temporal da peça, que são: Negação da existência; oposição/ Ruído; Autonomia do novo; Contraste dialético; Integração diferenciada; Continuidade sem cuidado com a distinção; Lógica da harmonia; Mínima intervenção e Não intervenção. As abordagens de cada autor possuem quase sempre lógicas semelhantes, apesar de algumas oscilarem entre si. No entanto, a abordagem de Beatrice Vivio veio a tornar-se, neste prisma de evolução, mais completa que os restantes, pois o valor temporal torna o objetivo mais claro e límpido. Seria possível criar um quadro de ideias sintetizadas na qual Vetrone explicita em que momento as ideias se sobrepõem. A partir desse esquema a definição de cada autor torna-se mais evidente, e assim mais fácil de adaptar ao monumento/ obra. “A partir da interpretação das categorias propostas por Varagnoli, Carbonara e Vivio, fica evidente a presença de dois importantes aspetos na leitura da intervenção na preexistência: a Linguagem e a Materialidade de cada intervenção. É possível adicionar um terceiro aspeto
Fig. 34 – Esquema sobre as categorias interpretativas de Beatrice Vivio, exploradas em projeto.
81 relevante para a leitura dos projetos: a relação de Uso e Função. Este aspeto abrange o estudo das questões programáticas e funcionais intrínsecas à preexistência, colocadas em confronto com as novas exigências contemporâneas, além de uma preocupação com a incorporação de valores relativos à espacialidade preexistente no projeto do novo. Além destes três aspetos, as categorias propostas por Vivio evidenciam ainda uma quarta componente para a análise, que diz respeito às relações de Temporalidade entre a obra preexistente e a intervenção contemporânea, que nenhum dos outros autores aponta de maneira direta. Ao elaborar o conceito de diálogo entre passado e presente, bem como as diferentes formas que os valores destes tempos podem sobrepor-se ou equilibrar-se dentro do projeto, Vivio abre um leque de leituras possíveis que tende para uma percepção da intervenção como um processo de ruptura ou de continuidade temporal.” (Vetrone, 2019, pp. 76-88). As modalidades que se aproximam da via neste presente trabalho situam-se no grupo de interação antigo – novo no equilíbrio e diálogo, nas quais vão ver-se aplicadas em diferentes situações, consoante o espaço, o valor histórico, o valor cultural, o valor material e imaterial em específico, pois devido à dimensão do mosteiro e envolvente, será necessário pensar não só no todo, mas nas partes que o compõem. A figura 29, ilustra assim as vertentes a serem conectadas com o projeto prático. A reformulação do edifício é determinada neste projeto pelas suas qualidades e fatores, como a estrutura, a materialidade, a espacialidade, a ambiência, a estética e a qualidade que juntas e ponderadas, permitem a sua possível reutilização na atual malha urbana, pensamento este aplicado ao longo do desenvolvimento do projeto.
Fig. 35 – Esquema do cruzamento das categorias propostas por Varagnoli, Carbonara e Vivio
83 III. PROPOSTA III.I Problemática e Objetivos e Pertinência As camadas da história deste complexo monástico ajudam a entender os problemas atuais, referentes ao mosteiro e à sua envolvente e a perceber uma série de relações que se criaram e perderam ao longo do tempo, de modo a dar corpo à nossa proposta. É com esta reflexão em mente que se desenvolve a ideia de construir no construído, na adaptação do sistema museológico, traduzindo-se na pertinência programática e de desenho que acima de tudo, preservem o préexistente, respeitando a sua integridade. Localizado num espaço singular da urbe, entre a Baixa e a Alta de Coimbra, o mosteiro foi influenciado pela expansão urbanística da envolvente, na relação da atual Praça 8 de Maio com o amplo boulevard, a Avenida Sá Bandeira. A revolução liberal e a extinção das ordens religiosas afetaram o mosteiro, com a ocupação das suas dependências pelos mais diversos serviços públicos, com a dispersão do espólio, com a dissolução de espaços como o antigo Claustro da Manga, episódios que conduziram o antigo conjunto monástico à situação presente. Os edifícios como a Câmara Municipal de Coimbra, o edifício da Direção Regional de Cultura do Centro, o edifício dos Correios, o Restaurante do Jardim da Manga e o Café Santa cruz, com função comercial ou administrativa, fazem agora parte da área anteriormente circunscrita ao antigo mosteiro. A construção do restaurante, apesar de trazer um novo ambiente ao antigo Claustro da Manga, não demonstra relação com o complexo monástico. Na envolvente da Fonte da Manga, é notória a descaracterização. A fonte encontra-se aprisionada entre dois edifícios, os CTT e a DRCC, que nem a acolhem nem a libertam, realçando ainda, que o primeiro destes edifícios avança sobre os limites originais do antigo claustro, contribuindo para o desequilíbrio da aclamada simetria e geometria do conjunto. Apesar da notoriedade do mosteiro, a construção de novos edifícios, de diferentes funções, impede a leitura coerente do mesmo, não fazendo jus ao que outrora foi um grandioso complexo monástico, tendendo, assim, a perder a sua identidade como um todo. Estas consequências traduziram-se no afastamento da relação original com a cidade, culminando na necessidade de requalificar o espaço, em particular o da Fonte da Manga. No espaço do antigo Claustro da Fonte da Manga, carecendo de um sustento corpóreo, propõe-se a instalação de volumes
Fig. 36 – Vista da área de intervenção. Fig. 37 – Vista da área de intervenção.
Fig. 38 – Enquadramento atual da Fonte da Manga. Fig. 39 – Vista lateral da fonte da Manga, lado do CTT Fig. 40 – Vista lateral da fonte da Manga, lado da DRCC
87 que a suportem e deem um novo ambiente ao espaço, servindo simultaneamente o propósito do museu. A implementação do Museu propõe uma nova leitura do espaço, conferindo uma nova razão de ser ao divergente conjunto de edifícios, pela atualização das suas dependências. Ao programa dos edifícios adicionados ao mosteiro é, assim, acrescentada a criação de um novo foco cultural da cidade, que terá também a função de centro interpretativo. Numa cidade em que grande parte da atenção é desviada para a Universidade de Coimbra, torna-se necessário definir as estratégias que permitam formar um novo Núcleo Cultural que insira o Mosteiro numa rede de monumentos a visitar, objetivando não só atrair massa turística, mas também a população local, através do somatório de peças pertencentes ao espólio do Mosteiro de Santa Cruz. O antigo Pátio da Inquisição, com intervenção de João Mendes Ribeiro, os Colégios da Rua da Sofia, o antigo Celeiro, a zona da antiga torre demolida, o Edifício dos Correios, o mercado D. Pedro V e a Fonte da Manga, seriam um conjunto com extremo potencial para o desenvolvimento de um articulado conjunto museológico e cultural, de grande interesse para a cidade. Estes edifícios fariam parte do núcleo que se propõe, o Núcleo Cultural e Museológico, que valorizará a história da evolução do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, tendo como peça de destaque a Fonte da Manga. A envolvente monástica sofre também pela intensa e longa linha viária que segue junto ao alçado norte do Mosteiro (Rua Olímpio Nicolau Fernandes que provém da rua da Sofia e segue até à Av. Sá da Bandeira), com o constante fluxo de carros e de transportes públicos rodoviários que provocam um constante ruído sonoro e visual, impedindo a contemplação do Mosteiro, com calma e tranquilidade. Esta questão é resolvida no nosso projeto, com uma sequência de ajustes: na Rua Olímpio Nicolau Fernandes procede-se à redução da largura da via e à minimização da circulação de carros, permanecendo a circulação dos transportes (Metro Mondego) e de veículos de emergência, ação esta que impede também a circulação viária ativa na rua da Sofia. Defende-se a adoção da linha do metro como sistema de circulação de mobilidade rápida que liga os pontos fundamentais da cidade, como por exemplo a beira-rio, a Universidade e os hospitais. Ainda na envolvente, ao longo da rua Olímpio Nicolau Fernandes e diante da Av. Sá Bandeira, encontramos o Mercado D. Pedro V, destacado pela sua densidade volumétrica, de corpo alongado coberto, situado no fundo de um vale. Esta amplificação aparenta falta de ligações aos vários níveis de cota ao redor, e também, de comunicação pedonal às ruas adjacentes e ainda de espaços livres e verdes.
95 Numa segunda instância, o objetivo seria entender as transformações que existiram na preexistência, desde a sua criação até aos dias de hoje, envolvendo a sua forma, num movimento de expansão ou compressão. A Fig. 48 e 49 representam as transformações datadas entre 1845 e 1874, demonstrando já alterações na forma do complexo monástico, como a perda do corpo que afunilava no limite da Rua Olímpio Nicolau e a Praça de Sansão (Atual Praça 8 de Maio) que fazia a união entre a atual PSP e o atual Mosteiro. Na planta de reconstituição de Fernando Couto, que redesenha a situação do Mosteiro em 1834, já demonstra o referido claustro que desapareceu a oeste onde surgiria a Câmara Municipal de Coimbra e ainda se vê a imponente torre dos Sinos, os dormitórios, o celeiro e o claustro das Donas. Na planta atual podemos entender a fragmentação desta instituição, como outrora grande centro, reduzida apenas ao seu claustro do Silêncio, à sua Igreja, ao desamparo do seu antigo celeiro e ainda a uma pequena amostra do que era o Claustro da Fonte da Manga. Pode-se observar que a Fonte da Manga vai sendo cada vez mais isolada do complexo, fazendo com que fique separada do conjunto. Estes espaços foram tendo alterações compondo-se de maneira irregular até aos dias de hoje, perdendo estas conexões e afinidades. Na análise à planta da cidade de Coimbra, de Francisque e César Goullard, 1873-74 e a reconstituição de Fernando Couto, de 1834, na figura 51 e 52, verifica-se que a forma original apresentar-se-ia simétrica. No entanto, atualmente a sua forma discorda destas plantas, no que se conclui que esta a peça central foi retalhada. Estas irregularidades teriam sido executadas em obras posteriores, em particular no arranjo da DGEMN (1936-1940), e possivelmente na construção do edifício dos CTT em 1935-39. Além da perda da forma original que prolongava os tanques até aos limites do quadrado, a Fonte tornou-se assimétrica, com uma forma sem sentido perante a peça. Este tema do quadrado torna-se assim pertinente para este trabalho, devido a todo o simbolismo e essência do que outrora foi este Claustro, tão referenciado pelo formador que impulsionou esta obra, Fr Brás Barros.
Fig. 48 – Planta de Edifícios Classificados na atualidade Fig. 49 – Planta de Funções
Fig. 50 - Planta topográfica da cidade de Coimbra 1845 Fig. 51 - Planta de Coimbra, irmãos Goullard, 1873 - 74
Fig. 52 - Planta reconstrutiva do Mosteiro de Santa Cruz, 1834, com identificação do Claustro da Fonte da Manga Fig. 53Planta do Mosteiro de Santa Cruz, atualidade, com identificação da Fonte da Manga
Fig. 54Planta rigorosa dos irmãos Goullard, datada de 1873-1874; Fig. 55 - Planta da fonte do claustro da Manga do mosteiro de Santa Cruz, posterior as obras da DGEMN (1936-1940) adaptada do Boletim da DGEMN dedicado à intervenção na Fonte da Manga, nº 89, de Setembro de 1957
103 III.III. Estratégia Geral Proposta Geral – do urbano ao programa Museológico A estratégia geral deste projeto vai de encontro ao processo prático desenvolvido, enriquecido pelo traçado da ideia e subdividido pela fase inicial, a nível de grupo e posteriormente a nível individual. Deste modo vai ser possível entender o projeto globalmente, numa escala maior da intervenção. A união dos elementos do grupo refletiu e ponderou sobre os principais problemas na dinâmica e extensão cultural da zona de intervenção. A primeira via vai enfatizar a criação de um ideal que agarre todo o potencial ao dispor da cidade, na ideia de Núcleo Cultural. O desenho deste projeto irá perfazer o tópico da Estratégia Geral. A área de intervenção, devido à sua extensão, seria partilhada entre o grupo, sendo dividida por edifícios e zonas, consequentemente deixando liberdade na execução pessoal de cada indivíduo do grupo, com o intuito da concordância em grupo, em prol de uma resolução conectada. O grupo seria constituído por quatro elementos, onde o tema da revitalização do Claustro do Jardim da Manga, a sua envolvente, Edifício dos Correios e Biblioteca do Museu (Último piso do edifício da D.R.C.C.) ficaria sob a autoria de quem escreve a presente Dissertação, culminando assim no tema central deste trabalho. A parte correspondente ao Mosteiro existente juntamente com a Igreja de Santa Cruz e edifício da Direção Geral da Cultura (à exceção do último piso), seria referente à colega Carolina Magalhães. O tema da Torre Sineira e respetivo Centro Audiovisual era reservado à colega Laura Paulos e por fim o tema da extensão do Mercado e sua envolvente ao colega Bruno Santos. Na continuação deste exercício sustentável, propõem-se a alternativa de retirar o trânsito automóvel da Rua da Sofia e da Rua Olimpo Nicolau Rui Fernandes, fazendo o seu cruzamento apenas por transportes públicos e pedonais, salvo exceções, e ainda o aproveitamento do projeto do Metro Mondego. Começando pelo urbano, as vias de maior afluência, a Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, que se guia até à Avenida Sá Bandeira, e a Rua da Sofia, reduzir-se-ia a largura das ruas, valorizando o pedonal e a comunicação com a Praça Oito de Maio, concedendo na medida certa o espaço necessário para os transportes públicos. A opção por um bom sistema de transportes públicos
Fig. 59 – Maquete de intervenção, fase de grupo, escala 1:200
Fig. 60 – Maquete de intervenção, fase de grupo, escala 1:200
111 Fig. 62 - Axonometria explodida da proposta envolvente do Jardim da Manga
Fig. 64 -Corte transversal da proposta da Fonte da Manga 0 10 Fig. 63 - Corte Longitudinal da proposta da Fonte da Manga 0 10
115 III.IV. Estratégia individual Núcleo Cultural – As três expansões e o programa A ideia de Núcleo Cultural prolonga-se no desenvolvimento individual. No entanto, ramifica-se em três títulos, que dão a possibilidade de observar e organizar cada construção segundo cada propósito no projeto. O Núcleo Cultural estende-se assim na zona apresentada na Fig. 65, indicando os pontos que serão pertinentes à formação da ideia proposta de revalorização do Mosteiro e da peça central. Os edifícios deste projeto estão organizados em três novos subtemas que mantêm entre si uma relação conceptual – a proliferação do conhecimento e da vivência, unidos pela sua proposta funcional. O motivo da união destes edifícios é expressamente refletido na ideia de cidade avant-garde, viabilizando a criação de espaços novos e contemporâneos, e abdicando dos que se encontrariam obsoletos. Os subtemas intitulam-se de Espaço Museológico, Espaço Histórico e ainda Espaço de instalações Comerciais e zona verde. O Espaço Museológico, já criado no capítulo da Estratégia Geral, conferido à instalação do museu, recorre a zonas existentes e a zonas propostas, que não criem conflitos na preservação ideológica deste trabalho. O Espaço histórico inclui toda a zona de poder histórico em torno do Mosteiro, que padece de relevância. Já o Espaço de Instalações Comerciais e zona verde é neste caso referente à zona do mercado onde se encontram parques de estacionamento e ligações às ruas. O primeiro conjunto, engloba o mesmo Núcleo Museológico definido a nível de grupo. O Novo Museu integra o Edifício dos correios, de característica robustas e com forte impacto para quem o observa, tornando-se assim indicado para a entrada do Museu. Este edifício, sendo uma construção do século XX, possui a sua estrutura concebida com conhecimento e tecnologia, algo que propicia ao seu uso e reintegração, promovendo assim a política de reabilitação no planeamento urbano da cidade, valorizando-o e obedecendo aos padrões de sustentabilidade implementadas na formulação dos programas e objetivos deste projeto. No próprio Mosteiro vão ser usados para além das peças de exposição, o espólio, espaços como a Sala da Cidade, os Claustros, as Capelas, o Santuário, e a sua Igreja, promovendo a compreensão do Mosteiro, como um lugar que outrora foi habitado por religiosos. A sua
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117 adaptação museológica passa pelos critérios integrados no Método Artístico e Criativo de Restauro, onde o pré-existente coabita com o contemporâneo na relação de diálogo, quer estética, quer temporalmente. Passaria então, o Mosteiro a exercer funções museológicas em concordância com a conservação, juntamente com os volumes propostos na área da Fonte da Manga, com atenção a um espaço de restauração de serventia a quem o visita. O novo Museu restrutura o interior do Mosteiro, preservando os locais com qualidade estrutural e funcional, assim como a adaptação do edifício dos correios como espaço de chegada e respetivas administrações, juntamente com um espaço de especial dedicação à Exposição Temporária, onde permite a anunciação de peças artísticas de naturezas diversas. Esta área de exposição vem a ocupar o piso térreo, acompanhado de uma galeria que se relaciona visualmente com a Fonte da Manga e ainda espaço de oficinas, providenciando um local em que seria possível o restauro das obras de arte. No centro da formulação do projeto, surgiria como tema a peça central da Fonte da Manga, um espaço que pede uma reutilização, que requer atenção e sensibilidade. O tema do claustro surge na intenção de reviver o espaço, mas também na necessidade de relembrar a sua pré-existência, objetivando a dignificação da Fonte. Esta intervenção vai poder oferecer uma nova linguagem contemporânea regida pela forma geométrica do quadrado que repousa à sua volta, contornando-o e permitindo uma comunicação entre o edifício dos Correios e o edifício da Direção Geral da Cultura. O desenho aqui proposto, através da sua elevação materializada, viabiliza não só a circulação museológica, como também a circulação exterior pública, permitindo que o cidadão atravesse a Fonte da Manga, contemplando-o enquanto percorre o seu natural trajeto. O intuito deste volume é claro: reviver o espaço e cultivar a ideia de preservação e cuidado, tornando-se o centro para toda uma rede de edifícios existentes e propostos. Este conjunto que forma o grupo do Espaço Museológico, compreendido entre vários edifícios de características e cronologias diferentes, permite a organização de espaços necessários à adaptação de um Museu, isto com a construção de espaços administrativos, restauração, espaço de exposições temporárias e ainda uma biblioteca. O segundo grupo apresenta-se unificado pela Cultura adjacente ao Mosteiro, desdobrandose em funções de serventia à cultura e à história. Engloba os Colégios da Rua da Sofia, o Pátio da
119 Inquisição, o antigo colégio das artes, reabilitado pelo Professor e Arquiteto João Mendes Ribeiro e ainda o Edifício que é atualmente atribuído à PSP. Neste tema surgem também construções contemporâneas referentes à antiga Torre do Mosteiro e à Fonte dos Judeus. O idealizado era absorver toda a informação possível sobre estes colégios em função da partilha da sua narrativa, assim como a possibilidade de visita ao público. Adiciona-se a este núcleo, a proposta do centro audiovisual, acompanhado da elevação da Torre e o Centro Cultural, no Edifício que outrora foi o Celeiro do Mosteiro (Atual PSP) que encerra este tema. O terceiro grupo envolve-se na temática do Comércio, onde o Mercado D. Pedro V e a sua extensão entra e serve de palco de transformações de modo a apoiar a sustentabilidade e dinamizar as instalações de comércio. Cria-se uma zona de plantação no terraço desta construção, as hortas urbanas, demonstrando dedicação à população, ao mesmo tempo que acrescenta zonas verdes à cidade, cultivando a ideia de partilha e reuso. A seguinte planta da cobertura geral da proposta, Fig. 67, apresenta o desenhado resultante, acompanhado de todos os edifícios proposto e zonas verdes, incluídas nos núcleos. O tema dos núcleos aplicado em desenho vem então criar os espaços da nova extensão do mercado e do tratamento do interior da Fonte da Manga. O conjunto monástico e os edifícios da envolvente perfazem os espaços museológicos que seriam expostos no seguinte capítulo, e as plantas sequentemente apresentadas fariam a base para a explicação do percurso Museológico. Sendo um conjunto de edifícios de diferentes épocas, nomeadamente de construções e aparências díspares, seria necessário a consciencialização dos espaços e das plantas para posteriormente ser explicada a organização e escolha dos percursos propostos. Os percursos influenciam a criação do projeto, logo, a sua explicação torna-se essencial, e só posteriormente será analisada as definições Compositivas e construtivas da proposta. A segunda planta, fig. 68 ira mostrar parte do edifício dos Correios e parte do tratamento das cotas junto à extensão do mercado. No edifício dos Correios demonstra-se os espaços de documentação e arquivos pertencentes ao complexo do Museu. Já a nascente da extensão do mercado, a nova zona de estacionamento dedicado a cargas e descargas pertencentes ao mercado e respetiva extensão.
126 Fig. 69 – Planta da cota 34.5 Fig. 70 – Planta da cota 30
Fig. 71 – Planta da cota 30 0 10 Fig. 71 – Planta da cota 27
129 Percurso museológico e público O percurso público do museu seria dividido em três caminhos. O primeiro seria relativo à exposição permanente, dando a conhecer o espólio e a narrativa do Mosteiro, seguida pela exposição temporária, que promovia a anunciação de artistas e a demonstração das suas peças e, por último, o percurso exclusivo à Igreja de Santa Cruz. Todo o conjunto do espólio artístico seria acompanhado de um painel, pouco intrusivo, com o intuito de servir de apoio informativo, relativamente às informações técnicas, ou seja, as suas características, materialidade, época de criação, restaurações e ainda autoria, de modo a construir um percurso de aprendizagem. O percurso pertencente à Igreja de Santa Cruz faria parte apenas dos espaços pertencentes à mesma. Este caminho de caráter curto seria acompanhado das capelas da Igreja, o altar e ainda os túmulos régios. O percurso do espaço Museológico inicia-se no edifício dos Correios, que se tornou um elemento propício para a escolha da entrada do Museu, sendo um edifício que se destaca a quem provém do mercado e das ruas ao seu redor. O espaço amplo do piso de entrada permite a criação do foyer, a bilheteira/ receção. Este piso acomodaria os espaços pertencentes ao bengaleiro/ cacifos de apoio ao visitante, e também as instalações sanitárias. Ainda na ocupação deste piso acrescentamse espaços de lazer e workshop, dedicados ao programa do museu. O percurso principal é iniciado pelos novos volumes, sendo uma ponte de ligação que atravessa a Fonte, permitindo a sua contemplação, conectando os edifícios dos CTT e da DRCC, produzindo um momento de contraste entre o novo e o existente. No seu interior, através de painéis indicativos, exibe-se a introdução histórica do Mosteiro e do antigo claustro da Fonte da Manga, através de suportes fotográficos e artísticos. No volume de menor dimensão, tangente ao edifício da DRCC, seriam exibidas peças do espólio com menor proporção na adequação do espaço. As aberturas nestes volumes demonstram-se pontuais, indicatórias de vistas especificas. Na continuação do percurso, encontra-se a conexão que permite a entrada no piso do edifício da DRCC, onde é possível aceder ao Santuário, elevado nos pisos altos, um espaço oval de características do Rococó.
130 Na chegada à galeria do piso superior do claustro do silêncio, é observado um conjunto de
131 Na chegada à galeria do piso superior do claustro do silêncio, observa-se imagens e painéis provenientes da evolução do mesmo e as suas devidas restaurações. Ao longo deste claustro seria possível visitar vários espaços, onde a primeira sala dedicar-se-ia às peças de maior dimensão, seguida de uma visita ao Coro alto da Igreja de Santa Cruz, que permite a vista ampla do espaço interior da igreja. No seu piso intermédio edifício da DRCC, a entrada seria feita por rampas até chegar à sala do primeiro piso, de longo comprimento e que iria suportar as peças de pequena dimensão, caracterizadas pela escultura em madeira, incluindo os grupos escultórios dos mártires de Marrocos. Através do acesso vertical acede-se ao piso superior da ala nascente do Mosteiro, referente aos antigos dormitórios, espaço este que receberia uma abóbada de berço, ao longo do corredor, à memória da que havia no mesmo lugar. Este corredor seria interrompido por entradas que acedem às salas de exposição de menor dimensão, criando sensação de contraste. Os espaços laterais, de menor dimensão, seriam interligados por entradas, expondo a paramentaria, e do lado oposto os arquivos de fotografias dos antigos dormitórios. As peças de tamanhos, em conjunto, demasiado grandes para os espaços tradicionais do mosteiro, seriam então expostas no próximo espaço a ser explorado do percurso, a sala da cidade. Esta sala exibiria as pinturas pertencentes aos dois antigos retábulos da Igreja de Santa Cruz, peças criadas por Cristóvão de figueiredo, Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão. Ainda na capela desta sala a recolocação das esculturas de Hodart, A Última Ceia, provenientes do Museu Machado de Castro. Já no piso térreo do Claustro do silêncio, a sua espacialidade e decoração é apresentada como exposição, a par das capelas que expandem pontualmente ao seu redor, e entre elas, a capela do senhor dos Passos, que permite a passagem até ao espaço da Igreja. Na Igreja de imenso significado religioso, observa-se a capela-mor, os pertencentes túmulos régios, o púlpito, as capelas e ainda a entrada da Sacristia. Neste último espaço, o percurso passaria pela Sala do Lavabo e ainda a capela das relíquias/ tesouro. O caminho enviesado da Sacristia permitiria a continuação da visita. Esta entrada daria comunicação com a sala do capítulo vinculada com a Capela de São Teotónio e ainda anexada com a capela dos arcanjos, que merece ser apreciada devido ao altar em pedra característica do mosteiro, a pedra ançã, pelo escultor Marcos
132 espada de D. Afonso Henriques e a cruz de D. Sancho I. Posteriormente visitar-se-ia, a black box, que
133 Pires. A sala do capítulo seria a conexão de volta ao Claustro do silêncio, que seguiria para o piso térreo do edifício da DRCC, que presenteava a visita com peças recuperadas do espólio, como a espada de D. Afonso Henriques e a cruz de D. Sancho I. Já no novo espaço criado, onde se situava a restauração diante da Fonte da Manga numa black box, onde se projetaria conteúdo cinematográficO sobre o Mosteiro. A finalização do percurso seria na Loja do Museu, esta com vista para a Fonte e com acesso à restauração. O percurso temporário seria igualmente acedido pelo foyer da entrada principal. A sala expositiva seria acedida pelas escadarias, onde se encontraria a exposição, no espaço central do piso térreo do edifício dos Correios, que usufruiria da visualização das zonas das oficinas, permitindo a observação de peritos durante o restauro de obras. Em concordância com o percurso permanente, seria finalizado no mesmo local a loja do Museu. No programa surgiria também a parte privada, os acessos dos funcionários do Museu, que seria acessível pela Rua Martins de Carvalho, entrada adjacente do edifício dos Correios, já existente. O espaço de chegada era dedicado a zonas de alimentação, balneários e respetivos sanitários. A articulação dos caminhos seria vertical, onde os elevadores dariam então acesso a todos os pisos, incluindo a zona administrativa, situada no último piso do edifício. Este último piso dedicar-se-ia ao serviço administrativo, com salas de reunião, direção, secretariado, gestão, divulgação e comunicação, servidores informáticos, tesouraria e arquivo. As cargas e descargas do espólio a apresentar no Mosteiro, seriam feitas através do ascensor, localizado na mesma rua do acesso privado, ao lado do Santuário, com espaço suficiente para mover peças de grandes tamanhos. A ligar o espaço de cargas e descargas às oficinas, encontrar-se-ia o armazém, com locais específicos consoante o tamanho das peças, com apoio de armários de correr. As oficinas situadas no piso térreo, teriam a sua entrada pela galeria nova do edifício dos Correios, de modo a facilitar o acesso dos profissionais. O caminho público que cruza a Fonte da Manga foi pensado de modo a ser intuitivo na sua travessia. O acesso pedonal pode provir tanto da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, como da Rua Martins de Carvalho. No caso do caminho público a partir da Rua Nicolau, de maior afluxo, torna-se clara a chegada, sendo o conjunto da Fonte escondido pelo volume de ligação entre o edifício dos Correios e da DRCC, com o objetivo de provocar curiosidade a visitá-lo. A entrada é feita por entre os pilares que definem a medida do quadrado, enquanto se observa a peça central.
135 Ao contornar a fonte, pelo lado do edifício dos Correios, encontrar-se-ia uma galeria, ritmada com a estrutura do edifício onde surgiriam três aberturas que iluminariam o interior da sala de exposições temporárias. Pelo lado do edifício da DRCC, o caminho seguiria entre os pilares até chegar ao acesso que demonstra a entrada para o próximo piso, guiando o visitante até à restauração do Museu e à sua Loja. Este espaço serve tanto o público, como os visitantes do museu. A Rua Martins de Carvalho, como rua convergente de várias outras, oferece o percurso oposto, permitindo a visualização do todo, a Fonte e os novos volumes, trazendo a sensação oposta do caminho da Rua Nicolau, no intuito de que cada visita traga uma sensação diferente. A Fonte por sua vez, pode ser contemplada tanto de longe, como de perto, podendo atravessar-se centralmente em direção à sua cúpula, e tornandose assim possível observar com proximidade a peça. Em ambas as direções, seria possível cruzar a Fonte da Manga juntamente com o jardim e contemplá-la.
142 Fig. 78 – Planta cota 27 – Piso térreo da Fonte da Manga
143 suas paredes em pedra. Na sua fachada propõe-se a alteração apenas das caixilharias, pois estas aparentam falta de isolamentos tanto sonoros, como térmicos. O seu interior, começando no primeiro piso de entrada, seria onde se aplicaria os novos revestimentos simplificados com gesso cartonado e a camada de isolamento térmico. Os tetos planificar-seiam em placas igualmente de gesso cartonado, dando assim unidade ao espaço, e tangentes às paredes. As novas paredes interiores seriam forradas com o isolamento sonoro de lã de rocha, de modo a conferir conforto entre espaços, replicadas em todos os pisos. A iluminação por sua vez seria embutida nos tetos à exceção das oficinas e do piso administrativo que merecem luzes dedicadas à proximidade e ao detalhe. Os acessos seriam reutilizados, devido à sua boa forma e à sua espessura, que permitem a instalação de elevadores que acedem aos pisos do programa museológico e administrativo. No centro deste edifício encontra-se uma claraboia que ilumina toda a entrada Foyer do Museu, substituída por peças envidraçadas de formatos quadrangulares, atualizando o espaço. O piso administrativo tem a galeria com aberturas de luz à volta da claraboia, permitindo uma circulação fluída. As salas administrativas funcionam ao redor da galeria, contendo salas de reuniões, secretariado, instalações informáticas, entre outras, que também são iluminadas naturalmente pelas aberturas das fachadas e da galeria. No piso térreo, onde se forma a nova galeria da Fonte da Manga, os vãos das janelas seriam abertos até à linha do chão da Fonte da Manga, de modo a criarem um deambulatório. Já a parede interior do limite da galeria, seria definida pela textura em betão aparente do lado exterior à semelhança da construção da nova loja do museu. No interior aplicar-se-ia o mesmo revestimento usado no restante edifício. As entradas de luz seriam como um rasgo na parede. Através da sua caixilharia de vidro duplo, fixo, conduziriam os isolamentos e proporcionariam vistas direcionadas à Fonte. As oficinas seriam auxiliadas de móveis e grandes mesas, possibilitando o trabalho em peças de diversos tamanhos. As aberturas de luz, num piso enterrado em duas das quatro frentes, seriam ideais para as condições das peças, não deteriorando os materiais das mesmas. As paredes e espaços desta função seriam acomodadas com o mesmo registo, com divisões de vidro para a observação dos visitantes da exposição temporária. Fig. 79 – Estudo dos vãos da fachada do edifício dos CTT Fig. 80 – Resultado da fachada do edifício dos CTT
144 Fig. 81 – Detalhe construtivo e corte e longitudinal do Edifício dos CTT e intervenção
Fig. 82 – Corte longitudinal do Edifício dos CTT, intervenção e o edifício da DRCC
147 O intuito destes Volumes que se instalariam à volta da Fonte da Manga, seria a proposta de uma massa que transmitisse leveza e suspensão. A explicação e introdução destes termos reflete-se na intenção de projeto. A visão destes volumes integra-se na dialética Críticocriativa/ reinterpretação, que reflete a intenção do projeto na “…exaltação da preexistência em termos de qualidade figurativa e de rigor metodológico do novo posto a serviço do antigo.” (Vetrone, 2018, p.12) em que o novo coexiste com o preexistente, em harmonia. A suspensão refere-se à elevação dos volumes a uma cota que permite a passagem e a criação de uma galeria, elevada pelos pilares que definem alinhamentos. Permite-se assim o distanciamento em altura dos volumes, propondo a coabitação do espaço da Fonte com o envolvente. Já a leveza entende-se pela dimensão aligeirada dos pilares, e pela fina espessura dos materiais que compõem a fachada tanto exterior, como interior da Fonte, indicando uma ideia de detalhe aproximado. A simbiose significa neste projeto a interação e comunicação entre os edificados, a ponte que liga os edifícios perante um espaço público, a ideia de uma ponte virada para a Fonte. Esta nova instalação engloba um conjunto de três peças, a primeira de maior proporção, fazendo frente à Fonte. O segundo, de menor tamanho, ajustado aos alinhamentos do edifício da DRCC., e ainda uma pala que acompanha a geometria do quadrado, permitindo o seu acesso a nível superior e a nível térreo. A forma exibida dos volumes que contornam o Jardim são definidas através dos alinhamentos entre os edifícios a que fazem frente. Esta instalação é construída em módulos metálicos, definidos por pilares, vigas, e ainda treliças apenas no encontro com o edifício dos Correios, de modo a ser uma peça independente de carácter leve. O encosto nos edifícios é feito de maneira tangente, acentuando a ideia de autonomia. Já a sua estrutura metálica responde à praticidade procurada no projeto, através da extrema resistência que suporta a estrutura das peças projetadas. Estes módulos seriam assim encaixados por fixações aparafusadas também metálicas, que permitem assentar a substrutura das ripas e das chapas de zinco agrafadas. As aberturas definidas entre os pilares são, à semelhança das aberturas do claustro do silêncio, espaçadas com cinco aberturas a cada lado. Os pilares estruturais pousam num piso caraterizado com a pedra, muito usada no Mosteiro, a pedra ataíja, que é usada para contornar Fig. 83 – Render da intervenção, vista da Rua Martins de Carvalho Fig. 84 – Render da intervenção, vista da Rua Olímpio Nicolau Fig. 85 – Render da intervenção, vista da esplanada do restaurante do museu
Fig. 88 – Fotografia da Maquete de estudo da intervenção, escala 1:200 Fig. 89 – Fotografia da Maquete de estudo da intervenção, incluída na exposição do projeto “SANTACRUZ”, escala 1:200 Fig. 86 e 87 - Estudo da luz no Volume de menor dimensão
149 a Fonte e definir o percurso. O exterior da proposta materializa-se em ripados de madeira, verticais, como um material que não dê um aspeto robusto, mas sim leve, como podemos ver na obra de reabilitação, Villa Castro, localizada em Malta e realizada pelos escritórios AP Valletta e Jens Bruenslow. Esta obra mantém-se, assim, em harmonia com as materialidades envolventes e em constante comunicação com a preexistência, coincidindo na intenção deste projeto. No propósito da leveza, os ripados intercalam-se de modo a dar transparência à volumetria. Este material componente das fachadas, inspirado na referência de Villa Castro, suporta-se por longas ripas de madeira horizontais, que por sua vez são fixadas à estrutura vertical, os pilares metálicos. Estes pilares metálicos seriam acompanhados das chapas em zinco que fazem uma camada geral à volta dos volumes, e permitiria não só o suporte das ripas no telhado como também a proteção do isolamento térmico. A estrutura do telhado, por sua vez, funcionaria com uma laje colaborante, permitindo vencer longos vãos com pouca espessura. Este teto acompanhar-se-ia de camadas referentes ao isolamento acústico, suporte de pladur perfurado com componentes e ainda iluminação dedicada à exposição, perfazendo assim um espaço de exposição. Os edifícios que fazem a fachada do Jardim encontram-se em desequilíbrio em termos de alturas entre os seus pisos, como se pode ver na fig. 82. O edifício do Correios possui uma construção de pés direitos altos, em desconcordância com os do edifício da DRCC, que apesar de mais contidos, perfazem uma diferença contrastante. O desencontro dos pisos dos edifícios referidos é resolvido no interior da proposta, na massa de maior dimensão, através de uma plataforma mais alta, o mezanino, que permite a observação do espaço, a sala expositiva, que segue no piso mais baixo de amplas dimensões. A iluminação direciona-se aos objetos em exposição, e uma secundária indicando o caminho, tendo em conta a experiência que se quer transmitir segundo o estudo do objeto museológico. O espaço, devido à sua dimensão tem uma abertura de luz, horizontal e esbelta, proporcionando uma vista panorâmica para a peça central, sombreada espaçadamente com a materialização exterior, não permitindo a vista completa, enquanto que a abertura do próximo volume permite a visão completa, num formato vertical e esguio. Estas janelas pontuais são axialmente ligadas ao centro da Fonte da Manga.
150 Fig. 90 – Detalhe construtivo do encontro do volume com o edifício dos CTT e o edifício da DRCC Legenda: Parede em Pedra; 2. Camada tela de impermeabilização 4mm; 3. Lajetas de betão 3cm; 4. Pedestais; 5. Camada de forma de betão leve; 6. Camada dupla Pára-vapor 3mm; 7. Laje de Betão; 8.Isolamento térmico 10cm; 9. Tubular para fixação 7x16 cm; 10. Calha da Iluminação Compar linear erco; 11. Placa de madeira 2mm ; 12. Camada de enchimento; 13. Isolamento acústico 5mm; 14. Soalho de madeira Pinho tratado 4,5cm; 15. Barrote de Madeira 10x5cm; 16. Perfil de fixação; 17. tábua de madeira 4x2,5cm; 18. Gesso cartonado 13mm; 20. Camada de regularização; 21. Camada de lã de rocha; 22.Blackout; 23. Fixação metálica do gesso cartonado; 24. Parede de betão branco 35cm; 25. Solo compactado; 26. Terreno; 27. Fundações do Edifício; 28. Lajetas de Ataíja Creme 3x80cm; 30. Manta de Impermeabilização 5mm; 31. Laje colaborante 12cm; 32. Ripas de Madeira 9x9cm; 33. Caleira 34. Perfil metálico 4,2x18cm ; 35. Guarda em Madeira 8cm; 36. Perfil Ipe, 430x170mm; 37. Isolamento térmico 16cm ; 38.Caixilho ebe style, vidro duplo fixo; 39. Caixilho ebe style, vidro duplo, batente; 40. Tubular 16cm; 41. Viga em Madeira 23x23 cm 42. Camada reguladora 8cm; 43. Barrote de madeira 4cm; 44.Avac; 45. Peitoril da janela em Pedra; 46.Enchimento argamassa; 47. Bio-reboco à base de cal 3cm; 48. Isolamento acústico 11cm; 49. Iluminação; 50. Chapa metálica 3cm; 51. Manta impermeabilizante 2cm; 52.Soalho em Madeira Carvalho europeu 20x3cm; 53. Porta de correr em madeira 2,5cm; 54. Painel expositivo em aço corten; 55. Vidro de proteção da peça expositiva 7mm; 56. Manta Geotextil 3mm; 57. Estrutura de suporte de peças em Madeira; 58.Ripa de madeira 9x6 cm; 59. Tampo de Madeira secção 19 x 5,25 cm; 60. Contraplacado marítimo 21mm; 61. Tela impermeabilizante de baixa espessura 62mm; 62.Pedra de Ataíja Creme 4cm 63. Estrutura de betão; 64. Perfil Heb 200, 200x200mm; 65. Perfil metálico em I 42cm; 66. Isolamento térmico com espuma de projeção 100mm; 67. Teto acústico perfurado Pladur Fun C3-8 Micro 13mm; 68. Viga metálica 20 cm; 69. Caixilho de vidro duplo de ebe style, porta; 70. Fixação metálica da Viga; 71. Viga de madeira 18 cm; 72. Lage de betão 27 cm; 73. Placa metálica; 74. Manta impermeabilizante; 75. Pilar redondo 20cm; 76. Painel expositivo ; 77. Pedestal em borracha; 78. Parede estrutural 30cm; 79. Muro de contenção; 80. Isolamento térmico 10cm; 81. Viga metálica 21 cm; 82. Camada impermeabilizante 83. gesso cartonado 20cm; 84. Iluminação Compar linear erco, 85. Isolamento térmico 8cm; 86. Perfil Heb 500, 500x200mm; 87. Fixação da Iluminação Compar linear erco; 88. Tubular preenchido com isolamento22x20 cm; 89. Fixação metálica em L das ripas de madeira; 90. Dupla camada de isolamento térmico 15cm 91. Membrana acústica 62mm; 92. Massame de betão armado com rede de malhasol; 93. Brita; 94. Membrana impermeabilizante 1mm; 98. Isolamento térmico 7cm; 99. membrana impermeabilizante 4mm; 100. Massame de betão armado com rede malhasol; 101. lã de rocha 10cm; 102. Peitoril em chapa metálica; 103. Lã de rocha 8cm; 104. Isolamento térmico 11 cm; 105. Chapa de zinco com junta agrafada; 106. Membrana pitonada 10mm; 107. Camada de forma em betão leve; 108. Viga de madeira em vista 9x9cm; 109. Viga de suporte em madeira, em corte 7x7cm; 110. Isolamento térmico, 111. Fixação metálica da chapa de zinco; 112. Ripa de madeira de fixação 5x5cm; 113. Cantoneira de abas iguais 120x120mm; 114. Fixação metálica da viga; 115. barrote de madeira 11x3,5cm; 116.Tubular6x5cm; 117. Rufo; 118. Telha; 119.Ripado e contraplacada em madeira 20x40cm; 120. Tela pára vapor 6mm; 121. Isolamento térmico com poliutireno extrudido 40mm; 122.Painel de OSB, 18mm; 123. Vara em madeira 70x70mm; 124.Lã de rocha 40mm, intervalo das varas; 125. Madre em Madeira 17x10cm; 126. Cumeeira; 127. escora 12x12cm; 128. Parede existente 129. Tarugo em madeira 19x5cm;130. Enchimento betão leve; 131. Lã de rocha 5cm; 132. Viga em madeira 18x18cm; 133. Dupla manta de polietileno; 134. Caixa de brita 15cm; 135. Gesso cartonado 13mm; 136. Gesso cartonado 13+13mm;137. Placa de osb 3cm; 138. Alvenaria de pedra 30x22cm; 139. Blocos de pedra, preenchimento do vão,78x44cm;