Por um conhecimento sensível dos processos arquitetónicos
Abstract
Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia
Full text
Dissertação no âmbito do Mestrado Integrado em Arquitetura, orientada pelo Professor Doutor Pedro Maurício de Loureiro Costa Borges, e coorientada pelo Professor Doutor José Marques Carriço e apresentada ao Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Fevereiro de 2022 João António da Silva Paralta POR UM CONHECIMENTO SENSÍVEL DOS PROCESSOS ARQUITETÓNICOS POR UM CONHECIMENTO SENSÍVEL DOS PROCESSOS ARQUITETÓNICOS
POR UM CONHECIMENTO SENSIVEL DOS PROCESSOS ARQUITETÓNICOS
aos meus pais e aos meus avós Alumiô (Luiza Lian e Bixiga 70, 2018) O meu coração se encheu de amor Cai na terra pra nascer a flor Pra nascer a flor Limpou o céu Lagrima prismática encheu o rio E o meu coração encheu de amor Agradecimentos à Sofia por me ter feito acreditar que era possível concluir este trabalho, por me ter apoiado do princípio ao fim e pela lição de companheirismo que nos deu. Este trabalho também lhe é dedicado. ao professor Pedro Maurício Maurício Borges por me encorajar neste caminho desde a primeira conversa e pelo apoio e profissionalismo durante todo o processo. ao professor José Carriço pela disponibilidade e atenção para me ouvir e pelas três matérias incisivas e decisivas que me indicou. à professora Sandra Xavier pela partilha de ideias desde o tempo do Há Baixa e pelo apoio fundamental para a elaboração das matérias relativas à antropologia. ao David pela força incondicional e pela possibilidade de sonho partilhado com toda a comunidade da Oficina. à Teresa pelo exemplo de amizade, visão e firmeza, que mais uma vez esteve presente. A ela lhe devo isto e muito mais. ao Fred pela oportunidade não só de aprender como de partilhar e construir arquitetura. e ao Henrique e Christine pelo apoio na reta final, sempre caloroso, animado e construtivo.
AGRADECIMENTOS Agradecimentos à Sofia por me ter feito acreditar que era possível concluir este trabalho, por me ter apoiado do princípio ao fim e pela lição de companheirismo que nos deu. Este trabalho também lhe é dedicado. ao professor Pedro Maurício Maurício Borges por me encorajar neste caminho desde a primeira conversa e pelo apoio e profissionalismo durante todo o processo. ao professor José Carriço pela disponibilidade e atenção para me ouvir e pelas três matérias incisivas e decisivas que me indicou. à professora Sandra Xavier pela partilha de ideias desde o tempo do Há Baixa e pelo apoio fundamental para a elaboração das matérias relativas à antropologia. ao David pela força incondicional e pela possibilidade de sonho partilhado com toda a comunidade da Oficina. à Teresa pelo exemplo de amizade, visão e firmeza, que mais uma vez esteve presente. A ela lhe devo isto e muito mais. ao Fred pela oportunidade não só de aprender como de partilhar e construir arquitetura. e ao Henrique e Christine pelo apoio na reta final, sempre caloroso, animado e construtivo.
Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 A arquitetura costuma ser julgada pelas suas qualidades formais, esquecendo-se que é também um objeto social. No âmbito da prática, da teoria e também da opinião pública é geralmente entendida segundo as suas características visuais e plásticas. Porém, a questão social da arquitetura, que tem que ver com os utilizadores dos edifícios, os construtores, os arquitetos, os engenheiros civis e agentes públicos e privados, habitualmente não é tida em conta nas narrativas, quer as da prática, quer nos vários panoramas da teoria. A arquitetura tem também de ser percebida/ assumida como fenómeno social. As questões subjetivas e humanas devem ser reconhecidas como fatores que dão forma aos edifícios. No processo de produção arquitetónico, quer no projeto e quer na construção, são as subjetividades e as circunstâncias sociais que substanciam e efetivamente dão forma aos edifícios, refletindo uma simultaneidade dos fatores inerentes a uma intervenção arquitetónica: humanos (social e cultural) e tecnológicos (material e objetiva). Esta perspetiva motiva uma investigação por um conhecimento sensível dos processos arquitetónicos, recorrendo a referências do campo da arquitetura e a ferramentas das ciências sociais que possibilitam a compreensão e descrição dos fenómenos sociais-arquitetónicos. A investigação disserta sobre como abordar de modo sensível intervenções arquitetónicas, considerando em particular, a ideia de razão sensível de Michel Maffesoli, a de observação participante de Tim Ingold, a entrevista não impositiva de Maria Rubio, algumas descrições de intervenções apresentadas por arquitetos e, por fim, duas experiências práticas de compreensão e exposição de processo de produção. A investigação culmina num conjunto de apontamentos no sentido de dar conhecimento dos processos de produção. Palavras-chave: Processo, ciências sociais, razão sensível, observação participante, compreensão.
Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos RESUMO A arquitetura costuma ser julgada pelas suas qualidades formais, esquecendo-se que é também um objeto social. No âmbito da prática, da teoria e também da opinião pública é geralmente entendida segundo as suas características visuais e plásticas. Porém, a questão social da arquitetura, que tem que ver com os utilizadores dos edifícios, os construtores, os arquitetos, os engenheiros civis e agentes públicos e privados, habitualmente não é tida em conta nas narrativas, quer as da prática, quer nos vários panoramas da teoria. A arquitetura tem também de ser percebida/ assumida como fenómeno social. As questões subjetivas e humanas devem ser reconhecidas como fatores que dão forma aos edifícios. No processo de produção arquitetónico, quer no projeto e quer na construção, são as subjetividades e as circunstâncias sociais que substanciam e efetivamente dão forma aos edifícios, refletindo uma simultaneidade dos fatores inerentes a uma intervenção arquitetónica: humanos (social e cultural) e tecnológicos (material e objetiva). Esta perspetiva motiva uma investigação por um conhecimento sensível dos processos arquitetónicos, recorrendo a referências do campo da arquitetura e a ferramentas das ciências sociais que possibilitam a compreensão e descrição dos fenómenos sociais-arquitetónicos. A investigação disserta sobre como abordar de modo sensível intervenções arquitetónicas, considerando em particular, a ideia de razão sensível de Michel Maffesoli, a de observação participante de Tim Ingold, a entrevista não impositiva de Maria Rubio, algumas descrições de intervenções apresentadas por arquitetos e, por fim, duas experiências práticas de compreensão e exposição de processo de produção. A investigação culmina num conjunto de apontamentos no sentido de dar conhecimento dos processos de produção. Palavras-chave: Processo, ciências sociais, razão sensível, observação participante, compreensão.
Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Architecture is often judged by its formal qualities, forgetting that it is also a social object. In the realm of practice, theory, and public opinion, are generally understood according to their visual and plastic characteristics. However, the social issue of architecture has to do with the users of buildings, builders, architects, civil engineers, and public and private agents. Those are not taken into account in the narratives, either in practice or in the various overviews of theory. Architecture must also be perceived and assumed as a social phenomenon. Subject and human issues must be recognized as factors that shape buildings. The architectural production processes are the subjectivities and social circumstances that substantiate and effectively shape buildings. This phenomenon reflects a simultaneity of factors inherent to an architectural intervention: human (social and cultural) and technological (material and objective). This perspective motivates an investigation for a sensitive knowledge of architectural processes, using references from the field of architecture and tools from the social sciences that enable the understanding and description of social-architectural phenomena. The investigation discusses how to approach architectural interventions sensitively, considering, in particular, Michel Maffesoli's idea of sensitive reason, Tim Ingold's participant observation, Maria Rubio's non-imposing interview, some descriptions of interventions presented by architects, and finally, two practical experiences of understanding and exposing the production process. The investigation culminates in a set of notes to provide knowledge of production processes. Keywords: Process, social sciences, sensitive reason, participant observation, subjective.
Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos ABSTRACT Architecture is often judged by its formal qualities, forgetting that it is also a social object. In the realm of practice, theory, and public opinion, are generally understood according to their visual and plastic characteristics. However, the social issue of architecture has to do with the users of buildings, builders, architects, civil engineers, and public and private agents. Those are not taken into account in the narratives, either in practice or in the various overviews of theory. Architecture must also be perceived and assumed as a social phenomenon. Subject and human issues must be recognized as factors that shape buildings. The architectural production processes are the subjectivities and social circumstances that substantiate and effectively shape buildings. This phenomenon reflects a simultaneity of factors inherent to an architectural intervention: human (social and cultural) and technological (material and objective). This perspective motivates an investigation for a sensitive knowledge of architectural processes, using references from the field of architecture and tools from the social sciences that enable the understanding and description of social-architectural phenomena. The investigation discusses how to approach architectural interventions sensitively, considering, in particular, Michel Maffesoli's idea of sensitive reason, Tim Ingold's participant observation, Maria Rubio's non-imposing interview, some descriptions of interventions presented by architects, and finally, two practical experiences of understanding and exposing the production process. The investigation culminates in a set of notes to provide knowledge of production processes. Keywords: Process, social sciences, sensitive reason, participant observation, subjective.
16 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 2 | Participação na construção de telheiro de casa de uso coletivo na aldeia de Coenços, Miranda do Corvo (2019)
17 Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos | Introdução Da primeira intenção em estabelecer uma metodologia, caracterizada por uma predeterminação teórico-prática, passou-se para a perspetiva oposta: um modo de compreender os edifícios aberto às circunstâncias das pessoas, dos utilizadores aos arquitetos e à orgânica do processo de produção da arquitetura. Michel Maffesoli apontaria o caminho: maneira de reconhecer a pluralidade dos mundos, tanto no plano do macrocosmo geral, do (Maffesoli, 1998, p. 122). É a razão sensível possível da concretude dos fenómenos sociais, tomando- (Maffesoli, 1998, p. 247). A sensibilidade, no sentido da empatia, dá a tónica desejada à abordagem ao processo de produção arquitetónica. O âmbito da dissertação deixa de estar focado na sua vertente participativa para abranger todo o espectro da vivência inerente ao processo de produção dos edifícios. A sensibilidade empática de Michel Maffesoli não pressupõe ou predetermina um tipo de arquitetura - todas são fenómeno social e circunstância do projeto e da construção de edifícios. Por sua vez, o campo de pesquisa da dissertação, mais do que a prática, é o da teoria da arquitetura e o modo como, no próprio campo disciplinar, se encara e pode refletir sobre o porquê e o como se construiu determinado objeto arquitetónico. A questão a que se procurará dar resposta ao longo da dissertação é: de que modo se pode aceder a um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónica considerando em simultâneo as suas circunstâncias humanas e materiais? A partir desta questão pretende-se conhecer e experimentar modos de conhecer processos de produção no sentido de alimentar uma reflexão mais organizada e substanciada da implicação social da arquitetura. Assim, procurar-seão teorias e sensibilidades para uma abordagem empática e aproximada às pessoas e aos lugares. A pergunta base da dissertação procura a resposta através de uma racionalidade capaz de
18 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 3 | Visita ao Campo de la Cebada em Espanha, um local gerido e construído pela comunidade próxima e assessorado pelo atelier Todos por la Praxis (2016)
19 Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos | Introdução (Yaneva, 2012, p. xv). É sobre a possibilidade de incorporar as questões formais e tecnológicas dos edifícios e as subjetividades das pessoas e as circunstâncias dos lugares. Esta pesquisa necessitou de contributos de outras disciplinas, por um lado porque a teoria da arquitetura por norma não se dedica aos temas do social, por outro devido à complexidade e organicidade dos fenómenos sociais. Num primeiro momento foram recolhidas referências de crítica à teoria da arquitetura entendida como normativa nos âmbitos teóricos não só da arquitetura, como da economia e das ciências sociais. A par com isto, constatando a pertinência em compreender a arquitetura a partir do seu processo de produção, foram investigadas matérias sobre abordagens sensíveis às questões subjetivas e coletivas implicadas na arquitetura. Recorreu-se às ciências sociais para saber como aceder, observar e registar as questões das pessoas e das comunidades implicadas nas intervenções arquitetónicas. Em paralelo, foi recolhida documentação e investigaram-se perspetivas teóricas e/ ou práticas sobre o assunto. A par foram visitadas intervenções arquitetónicas de caráter social, em Portugal, Espanha e Brasil, além da participação direta na organização do projeto Há Baixa. O campo teórico da dissertação resulta assim de uma combinação teórica disciplinar que, pelo seu carácter social, necessita das ciências sociais para conhecer processos de projeto e construção em arquitetura. Correspondendo à cronologia processual da dissertação, o primeiro capítulo tem como intenção a aproximação à questão da forma social dos edifícios para justificar a sua inclusão no debate teórico-prático disciplinar. Fica assinalada uma abordagem favorecida pela empatia para com as pessoas e os lugares, entendendo a arquitetura desde logo como um objeto social projetado e construído simultaneamente por questões subjetivas e por fatores técnicos e objetivos. O segundo capítulo dedica-se a explorar possibilidades de aproximação recorrendo não só à teoria da arquitetura, como também às ciências sociais. Para basear a ideia de compreensão a partir do processo de produção, é fundamentada a pertinência das abordagens de natureza sensível capazes de acolher e compreender as particularidades próprias de cada intervenção e da circunstância social.
20 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 4 | Ocupação informal da Praça do Comércio, Coimbra, com o evento Praça é Palco (2016)
21 Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos | Introdução Dando continuidade à pesquisa, o terceiro capítulo aprofunda a [sem traço] investigação sobre procedimentos de observação, registo, descrição e apresentação dos processos de produção. Como complemento de investigação, são ensaiadas abordagens a dois processos de produção arquitetónica que permitem experimentar o conhecimento adquirido, experiência que se converterá ela própria em conhecimento. A dissertação culmina, no quarto capítulo, com um conjunto de apontamentos reunidos como resumo dos conteúdos expostos no capítulo anterior. Correspondendo à questão e ao objetivo lançados, ficam indicados procedimentos que conformam um modo sensível de conhecer os processos de produção arquitetónica. Este conteúdo constitui-se como sumário de uma teoria e uma prática de abordagem possível aos processos de produção arquitetónica. Por outro lado, o sumário pode servir igualmente para alimentar a reflexão sobre a compreensão dos edifícios por intermédio dos seus processos de produção.
Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 1. Aproximar Reflexões introdutórias sobre implicação social da arquitetura As ruas tem voz, tem cor, tem cheiro e tem vontade Ruas Tem Voz (Guerrilha dos Coelhos Mutantes, 2019) 1. Aproximar Reflexões introdutórias sobre implicação social da arquitetura As ruas tem voz, tem cor, tem cheiro e tem vontade Ruas Tem Voz (Guerrilha dos Coelhos Mutantes, 2019)
Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos APROXIMAR1 Reflexões introdutórias sobre implicação social da arquitetura
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25 Por um conhecimento sensível do processo de produção arquitetónico | Aproximar ENTENDIMENTO PRÉVIO O entendimento de uma sociedade pode ser feito, de certo modo, a partir da leitura da sua arquitetura, se a considerarmos como expressão construída da sua cultura, das suas necessidades e circunstâncias. Georges Bataille escreveu para a revista Documents em 1929 que (Bataille, 1929). Considera-se por isso que o real entendimento da arquitetura só é possível se for entendida a partir do cruzamento de subjetividades complexas de que é feita - um entendimento que vai muito além de uma leitura meramente formal. Nesta linha, a perspetiva referida por Sérgio Vaz mostra-se ajustada à circunstância complexa e diversa da sociedade contemporânea num esforço por compreendê-la: s de análise e de diagnóstico que se sobrepõem a qualquer (Vaz, 2013). O projeto e a construção das cidades tem que ver com a adaptação às pré-existências físicas e às circunstâncias humanas, a partir das quais as sociedades podem progredir tanto social como economicamente (Vaz, 2013). À medida que o entendimento da sociedade se aprofunda, uma abordagem justa da sua arquitetura precisa de estar para lá da forma, já que cada objeto por si e, ao fim ao cabo, a cidade como um todo, são resultado de circunstâncias únicas e específicas. Neste caso, refere-se (Holanda, 2007). A arquitetura é efetivamente um elemento identitário, cuja produção resulta de um processo dinâmico a partir do qual as pessoas reconstroem as próprias lógicas e as lógicas coletivas, ao mesmo tempo que serve para reinterpretar a sociedade e os factos do mundo (Duarte, 2010).
32 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 7 | Momento em que dois trabalhadores do Mercado Municipal de São Paulo atravessam a rua que mostra a dinâmica local (2020)
33 Por um conhecimento sensível do processo de produção arquitetónico | Aproximar (1985, p.28). Neste sentido, procurar entender um objeto arquitetónico sem aceder à diversidade de fatores que lhe dão origem e aos modos pelos quais foi concebido, representa uma abordagem insuficiente e redutora. A alma da sociedade expressa pela arquitetura, como Georges Bataille escreveu, tem a sua razão determinada pela circunstância das pessoas e só será percetível a partir da compreensão aprofundada do que a constitui. Para compreender a razão de ser dos edifícios - o porquê e como foram construídos -, torna-se necessário aprofundar uma abordagem que tem mais a ver com a ideia de produção arquitetónica do que com a de objeto construído. Esta compreensão remete para uma interação com as pessoas implicadas em determinada intervenção que são quem projeta, gere e constrói a arquitetura. TEORIA REDUCIONISTA A questão da compreensão dos edifícios relativa à pertinência dos temas da proximidade e da implicação social serve de mote para refletir sobre a leitura reducionista que vulgarmente lhe é feita. Apesar das crenças na sua capacidade transformadora da sociedade, a arquitetura acaba por ser limitada por interesses particulares de elites sociais, económicas e políticas. Josep Montaner e Zaida Muxí falam do surgimento da ideia de estado-nação no início do século XVIII como um precedente de exercício de poder a larga escala a que a arquitetura e os arquitetos tiveram de dar resposta (Montaner & Muxí, 2011, p. 27). Neste período, os Estados precisavam de se consolidar e a construção de equipamentos como museus, fábricas, alfândegas, portos, hospitais ou quartéis consolidava a ideia da arquitetura enquanto prática de poder. Com a Arquitetura Moderna, um século mais tarde, fortaleceu-se uma ideia de justiça social, motivada em parte pelos conflitos do pós-guerra. Ainda assim, apesar dos esforços, os arquitetos afastavam-se pouco da relação com a tendência económica dominante. Nomes consagrados como Le Corbusier, Mies Van der Rohe ou Óscar Niemeyer foram construindo e alimentando uma ideia de arquitetura de autor comprometida, ora por governos ora por grandes orçamentos. A marca do autor funcionava e gerava distintos produtos com destaque plástico e
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35 Por um conhecimento sensível do processo de produção arquitetónico | Aproximar visual. São exemplos consagrados de arquitetura moderna a Vila Savoye, desenhada para a família Savoye (1929), com negócios no ramo dos seguros, o Seagram Building (1958) desenhada como sede da destilaria com o mesmo nome ou o plano piloto de Brasília (1957) encomendado pelo presidente da república do Brasil Jucelino Kubitschek. Em paralelo, registam-se exemplos de arquitetura sensível à circunstância das pessoas ou grupos sociais que normalmente não são contemplados pelo desenho de projeto. Diversos casos se destacam pelo compromisso com as questões sociais e as subjetividades das pessoas. De entre outros, assinalam-se o plano para a aldeia de Gurna no Egipto (1952) da Hassan Fathy, o projeto de mais de 100 parques infantis em Amsterdão (1947) por Aldo Van Eyck ou os projetos de reabilitação do Solar do Unhão (1963) e a Igreja do Espírito Santo do Cerrado (1982) da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. Intervenções com relativa expressão na história da arquitetura, que na contemporaneidade dificilmente dispõem de destaque ou aprofundamento teórico. Não é intenção reduzir o trabalho de nenhum dos arquitetos mencionados, mas não é justo que fiquem isentos de responsabilidade uma vez que os seus estatutos logram com os edifícios referidos. É neles que se concentram os modos convencionais de receção da arquitetura. Na contemporaneidade este panorama exacerba-se, como mostrará Pedro Arantes, adiante. Não seria fácil contrariar uma ideia de arquitetura que começou a ser cultivada no Renascimento, numa conjuntura que incentivou à sua profissionalização enquanto prática ocupada em exclusivo com o desenho. Vitrúvio defendia a distinção entre o projetista e construtor, por seu lado Leon Battista Alberti defendia que o carpinteiro devia ser um (Ingold, 2013), comandante de uma força heterónoma. A ideia de arquiteto como mestre de obras defendida por William Morris e, pela qual, o próprio três séculos mais tarde vai lutar. Morris propõe a revitalização da produção artesanal em oposição à alienação causada pela produção industrial face ao empobrecimento do espaço, da cidade e da vida social. De alguma forma, contagiaria a luta de certas vanguardas
36 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 8 | Tabela ‘Arquitetos ganhadores das quatro principais condecorações’ (Arantes, 2012)
37 Por um conhecimento sensível do processo de produção arquitetónico | Aproximar modernas com as exigências morais e garantias do básico e do essencial para todas as pessoas (Montaner & Muxí, 2011, p. 44). De maneira contraditória, a arquitetura moderna defendia uma arte económica, coletiva e partilhada, mas, ao mesmo tempo, perseguia a todo o custo a genialidade e a novidade das obras individuais, livres e emancipadas, desligadas da sociedade que queriam libertar. (Montaner & Muxí, 2011, p. 43) Hoje, com o acesso facilitado à informação, torna-se possível conhecer vários tipos de arquitetura. De diversas escalas, métodos, públicos, etc., contacta-se com práticas socialmente conscientes com mais facilidade. De qualquer forma, a arquitetura de caráter autoral e heterónomo - vulgo starsystem - prevalece e continua a provar que não é capaz de atender as pessoas sem dinheiro para a pagar. Falta-lhe sensibilidade, ferramentas e, a ela própria - à prática -, condições para operar em meios de carência financeira. Isto acaba por afastá-la desses cenários socioeconómicos e, por consequência, fazer com que seja entendida como serviço exclusivo das classes mais favorecidas da sociedade. O facto de o capitalismo neoliberal (Stiglitz, 2019) se ter consolidado como modelo socioeconómico nas últimas décadas, acaba por deixar pouco espaço para modos de viver independentes do lucro ou que não queiram depender tanto dele para existir. NAMORAR O CAPITALISMO A arquitetura não é exceção e o capitalismo limita-a também. De acordo com Pedro Gadanho, a arquitetura tem cada vez mais dificuldade em ir para lá das mais-valias económicas que pode assegurar para as pessoas que nela investem. Apresenta-se como produto de consumo, como confirma Rem Koolhaas quando afirma que frequentar um museu, uma livraria e até escolas se está a tornar num ato semelhante ao de fazer compras (Arantes, 2012, p. 124). É uma mais-valia que acaba por se traduzir em valores financeiros quantificáveis, como um produto transacionável (Gadanho, 2006, p. 8). Assim, como pergunta João Costa no artigo Sobre uma
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39 Por um conhecimento sensível do processo de produção arquitetónico | Aproximar condição disciplinar em arquitetura (2018), qual é afinal a sua pertinência quando não consegue ser mais do que garantia de valor acrescentado? É em torno desta criação de valor que o mercado actual da arquitectura se estrutura: procuro um arquitecto se o capital investido na sua contratação valorizar o objecto produzido em mais do que o investido. Só nesta esfera faz sentido apontar a defesa da qualidade da produção arquitectónica portuguesa com base no reconhecimento internacional e actuação dos seus prémios Pritzker. (Costa, 2018) A cultura e o estímulo da arquitetura de autor com as suas idiossincrasias enquanto prática elitista, têm como consequência a comunicação de conteúdos amplamente orientados para o artifício da forma. Os campos teóricos e de análise podem conseguir alongar-se nas compreensões, mas dificilmente apresentam perspetivas capazes de relacionar o carácter técnico da arquitetura com as circunstâncias sociais ou ambientais que implica. A estes temas técnicos deviam somar-se outros que tratam da construção social e, pensando no conjunto, que não se fizessem entendimentos parciais e redutores (Yaneva, 2012, p. 6). Entendimentos da arquitetura que impliquem o social, o meio ambiente ou descrições detalhadas sobre o modo como o projeto foi concebido raramente são colocados. O arquiteto brasileiro Pedro Arantes2 relaciona o starsystem com o sistema económico dominante atual, o que facilita o entendimento do caráter reducionista do modo de compreender a arquitetura convencional. Arantes constata que o ato de projetar e o seu caráter artesanal do fazer material se reduz à medida que se desenvolvem práticas de projeto através da programação informática mais complexas e vistosas. Nos casos mais ruidosos, assiste-se a um processo que o 2 Pedro Fiori Arantes é arquiteto e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com uma pesquisa sobre as transformações na forma e nos processos produtivos na arquitetura contemporânea. Autor de diversos artigos sobre arquitetura, políticas públicas, tecnologia e cidades. Integra desde 1999 o grupo Usina CTAH, entidade sem fins lucrativos que presta assessoria técnica a movimentos populares na área de habitação e reforma urbana.
40 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 9 | Tabela ‘Tipos de Projetos publicados nas revistas Arquitectura Viva, Architectural Review e GA Document (Arantes, 2012)
41 Por um conhecimento sensível do processo de produção arquitetónico | Aproximar arquiteto chama de disneyficação da paisagem, com um ideário criativo que vai para além do humano e dos universos de formas inimagináveis pela racionalidade analógica (Arantes, 2012, p. 162). O Walt Disney Concert Hall em Los Angeles ou a Casa da Música no Porto são alguns exemplos de grande escala. Segundo Sharon Zukin, é a inovação plástica e formal de uma (Arantes, 2012). O papel atual do arquiteto na dinâmica do dinheiro, do poder e do conhecimento é tipificado por Gadanho (2016) como sendo uma abordagem top-down em detrimento do bottom-up, e é assim mais obediente aos aspetos comerciais de curto prazo da prática arquitetónica e menos correspondidos com as necessidades do usuário a longo prazo e na sociedade em geral (Bachman & Bachman, 2017). Pedro Arantes considera assim que o arquiteto vai passando a produtor de significados (Arantes, 2012, p. 156). Concluise que a crescente objetificação da arquitetura se reflete num tipo de leitura e compreensão que não faz jus à complexidade de fatores e elementos que a constituem. A teoria da arquitetura perde capacidade para encarar a orgânica real da prática, acentuando a separação entre o que é material e objetivo do que é social e subjetivo. A norma é a de uma prática verticalmente organizada, tendencialmente não inclusiva, pouco consciente quer das questões sociais inerentes, quer das questões ambientais que lhe dão forma. Deste modo, a arquitetura acaba por se assumir como prática heterónoma e autoritária. De acordo com Josep Montaner e Zaida Muxí, o ideal de perfil profissional da década de 1980, de arquitetos envolvidos com o ensino universitário e representantes de atelieres de pequena escala, representado por nomes como James Sterling, Giorgio Grassi, Álvaro Siza ou Rafael Moneo, vem
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49 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir PERTINÊNCIA DA APROXIMAÇÃO No seguimento do tema lançado no capítulo anterior, considera-se desde logo o ponto de vista de Leonard Bachman e de Christine Bachman exposto em Interseccionalidade, Opressão e Oportunidade em Arquitetura (2017). Neste artigo apresentam argumentos sobre a cumplicidade da arquitetura com lógicas de opressão social. Porém, antes de apresentar argumentos, introduzse a interseccionalidade4, uma teoria de abordagem ampla, diversa e crítica assente no pressuposto da justiça social. No campo da arquitetura, para abordagens de objetos construídos que se querem aprofundadas, a interseccionalidade é de grande pertinência, pois permite fazer uma correlação das questões e dos fatores materiais e sociais de determinada intervenção a partir de uma perspetiva sensível às problemáticas da sociedade. Desta forma, considera-se a simultaneidade das questões subjetivas das pessoas implicadas com as respostas projetuais e construtivas pelas quais se optou, com a consciência das implicações sociais, económicas e culturais (Bachman & Bachman, 2017). Neste artigo são identificados temas do foro social relacionados com a prática da arquitetura que permitem tomar contacto com uma ideia de compreensão dos objetos arquitetónicos para além da leitura formalista. 4 O conceito de interseccionalidade surgiu no final dos anos 1960 em conjunto com o movimento feminista multirracial. Surgiu como crítica do feminismo e oferece uma perspetiva de interação entre género, raça e outras categorias de diferenças individuais, práticas sociais, acordos institucionais e ideologias culturais, assim como os resultados dessas interações em termos de poder.
50 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 10 | Projeto para o museu Guggenheim de Taichung , Taiwan, da arquiteta Zaha Hadid
51 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir foi referido acima e que pode ter exemplo na tentativa do diretor da Fundação Guggenheim, Thomas Krens, de expandir internacionalmente o modelo lucrativo do Museu Guggenheim Bilbao. A tentativa de construção de filiais lucrativas da cadeia de museus iada no fenómeno da (Arantes, 2012) contava com a participação de projetos de famosos arquitetos como estratégia de atração de público. Cada projeto mais vistoso que o outro, acabariam por não sair do papel por falta de dinheiro para os levar adiante. São alguns exemplo o Guggenheim Abu Dabi (Frank Gehry), para Guadalajara (Jean Nouvel), Vilna (Daniel Liberskind), Taichung (Zaha Hadid) ou Las Vegas (Rem Koolhaas) (Arantes, 2012, p. 42). Outro apontamento sobre este tema é o oportunismo de alguns arquitetos supostamente comprometidos com as questões sociais, como é o caso de Alejandro Aravena. O projeto da Quinta Monroy, em Iquique no norte do Chile, um conjunto habitacional que teoricamente se adapta às necessidades das pessoas, é um exemplo de suposta arquitetura socialmente comprometida (Massad, 2016) consiste na construção parcial das habitações financiadas pelo governo, em que uma restante parte é deixada por construir na expectativa de que as famílias continuem a intervenção de acordo com as suas necessidades. Acontece que, como se trata de habitação para famílias carenciadas, estas não têm como continuar a construção e acabam por habitar as casas em condições precárias. Por outro lado, coexistem no universo da arquitetura figuras e grupos que apresentam abordagens socialmente responsáveis que importam assinalar, como é o caso de Recetas Urbanas em Espanha, que coordenou, de entre outros, o processo de autoconstrução de um refeitório pela sua comunidade escolar, incluindo pais, psicóloga, professoras e as próprias crianças. Desta forma foi possível reunir força de trabalho para um edifício muito necessário, mas para o qual não havia dinheiro para construir. O projeto de Recetas Urbanas, por intermédio de autoconstrução e de materiais baratos e algumas reutilizações como janelas ou contentores, foi construído.
52 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 11 | Cozinha Comunitária das Terras da Costa na Costa da Caparica, Lisboa, assessorado pelo Atelier Mob em coautoria com Colectivo Warehouse Em Portugal, o Atelier Mob está envolvido em vários projetos que servem comunidades, como é o caso da Cozinha Comunitária das Terras da Costa na Costa da Caparica, em coautoria com o coletivo Wharehouse que começou por ser um pretexto para trazer água para um bairro que não tinha água canalizada. A cozinha foi construída pela comunidade e o atelier acompanhou o processo desde o início. O projeto aproveitou madeiras de demolição de outra obra e construise à medida que ia sendo angariado dinheiro ou materiais para o continuar. No fim, a associação do bairro conseguiu o espaço de reunião comunitária que desejava e passou a ter água canalizada. Um outro tema do âmbito social que implica a arqu (Bachman & Bachman, 2017), um tema corrente dada a fragmentação das comunidades locais e a consequente perda de identidade territorial (Caló, 2012) e de significado enquanto bem comum. Um exemplo de mercantilização ou privatização do espaço público é o processo de reabilitação do Porto Maravilha no Rio de Janeiro. Esta região portuária era, antes da iniciativa privada e da construção do Museu do Amanhã (2015) projetado por Santiago Calatrava, um espaço público frequentado pela população que residia nos bairros contíguos ao porto - à altura cerca de 10 000 famílias, na maioria pessoas de classe baixa. Esta parceria público-privada acabou por se tornar numa intervenção urbana que excluiu o contributo das comunidades locais. A certa altura o processo, que era gerido pelo Ministério das Cidades Brasileiro, é tomado por privados, incluindo construtoras, que passaram a coordenar as operações. A intervenção urbana deixa de estar focada na promoção de habitação e espaço público para todos, para servir uma empreitada rentável para o mercado imobiliário (Outras Mídias, 2016). Por outro lado, existem significativos exemplos de apropriação e reivindicação do espaço público por parte de comunidades com a assessoria de atelieres de arquitetura, como é exemplo El Campo de Cebada , em Madrid. Este espaço cuja reabilitação (de 2011) foi autoconstruída pela comunidade, foi assessorada, de entre outros, pelo coletivo Todos por la Praxis. A ocupação - já desmantelada - foi lugar de reunião de grupos e associações da região de Madrid que puderam de orgânicos, produções teatrais de escolas locais e manifestações políticas por formações
53 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir Em Portugal, o Atelier Mob está envolvido em vários projetos que servem comunidades, como é o caso da Cozinha Comunitária das Terras da Costa na Costa da Caparica, em coautoria com o coletivo Wharehouse que começou por ser um pretexto para trazer água para um bairro que não tinha água canalizada. A cozinha foi construída pela comunidade e o atelier acompanhou o processo desde o início. O projeto aproveitou madeiras de demolição de outra obra e construise à medida que ia sendo angariado dinheiro ou materiais para o continuar. No fim, a associação do bairro conseguiu o espaço de reunião comunitária que desejava e passou a ter água canalizada. Um outro tema do âmbito social que implica a arqu (Bachman & Bachman, 2017), um tema corrente dada a fragmentação das comunidades locais e a consequente perda de identidade territorial (Caló, 2012) e de significado enquanto bem comum. Um exemplo de mercantilização ou privatização do espaço público é o processo de reabilitação do Porto Maravilha no Rio de Janeiro. Esta região portuária era, antes da iniciativa privada e da construção do Museu do Amanhã (2015) projetado por Santiago Calatrava, um espaço público frequentado pela população que residia nos bairros contíguos ao porto - à altura cerca de 10 000 famílias, na maioria pessoas de classe baixa. Esta parceria público-privada acabou por se tornar numa intervenção urbana que excluiu o contributo das comunidades locais. A certa altura o processo, que era gerido pelo Ministério das Cidades Brasileiro, é tomado por privados, incluindo construtoras, que passaram a coordenar as operações. A intervenção urbana deixa de estar focada na promoção de habitação e espaço público para todos, para servir uma empreitada rentável para o mercado imobiliário (Outras Mídias, 2016). Por outro lado, existem significativos exemplos de apropriação e reivindicação do espaço público por parte de comunidades com a assessoria de atelieres de arquitetura, como é exemplo El Campo de Cebada , em Madrid. Este espaço cuja reabilitação (de 2011) foi autoconstruída pela comunidade, foi assessorada, de entre outros, pelo coletivo Todos por la Praxis. A ocupação - já desmantelada - foi lugar de reunião de grupos e associações da região de Madrid que puderam de orgânicos, produções teatrais de escolas locais e manifestações políticas por formações
54 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 12 | Atividade artística no Campo de la Cebada, Espanha
55 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir anarquistas outrora adormecidas (Corsín Jimenez, 2017). Para Alberto Jimenez, antropólogo que acompanhava a atividade de El Campo , apesar de ter fracassado enquanto espaço papel da academia e a sua relação com a cidade, incluindo a organização de uma Universidade Popular, agora na sua terceir (Corsín Jimenez, 2017). Um segundo exemplo da audição das comunidades no projeto de espaços públicos é um projeto de arquitetura que é quase uma não-intervenção na Place Léon Auroc (1996) projetada pelo atelier francês Lacaton&Vassal . Chamado à partida para fazer o projeto de embelezamento de uma praça da cidade de Bordéus, depois de uma visita ao lugar, os arquitetos ficaram com a sensação de uma atmosfera de harmonia e tranquilidade formada ao longo do tempo (Lacaton & Vassal, 1996). Depois de algumas conversas com os moradores, decidiram não propor nada além - substituição do cascalho, limpeza da praça (Lacaton & Vassal, 1996). Ainda sobre a questão socioespacial, um fenómeno de maior escala que implica a arquitetura é a gentrificação. Este fenómeno que vem sendo um habitué nos centros urbanos, especialmente nos de maior concentração populacional, consiste na substituição das comunidades locais - muitas vezes pessoas carenciadas - por classes mais altas da população (Guimarães, 2017). Portugal não é exceção, com a substituição das pessoas e das comunidades dos centros históricos por residências de classe alta ou por alojamentos turísticos, como é o caso do Sapientia Boutique Hotel em Coimbra projetado pelo atelier DepA . Outro exemplo de impacto comprovado são as obras da Cidade Olímpica de Pequim (2008), que implicaram o desalojamento de 1,25 milhões de pessoas (Tilve, 2021). Considerando em particular as pessoas que constroem os edifícios, Leonard e Christine [das mesmas] (Bachman & Bachman, 2017). Casos de exploração estão expostos no panorama da construção civil em Portugal. De toda a maneira, na literatura e teoria dedicada à arquitetura há muito pouca matéria escrita sobre o assunto que implica a prática, que apresenta um tipo de relação de
56 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 13 | Trabalhadores no Estádio Olímpico de Pequim, projetado por Herzog & De Meuron
57 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir trabalho fundamentalmente heterónoma (Ferro, 1976), com vários níveis de dependência e subjugação dos trabalhadores liderada pelos responsáveis do projeto que inclui o arquiteto. Alguns exemplos atuais de exploração e escravidão de trabalhadores da construção civil publicamente conhecidos são a construção dos estádios do Mundial de Futebol de 2022 no Qatar (Cantona, 2022), que já causou a morte de centenas de pessoas, grande parte imigrantes que trabalhavam em condições desumanas e sem direitos assegurados (Amnistia Internacional, 2016). Outros casos são exemplo de abuso dos trabalhadores. Renzo Piano obrigou os pedreiros da obra do IRCAM (Institut de Rechercher et Coordination Acoustique/Musique em Paris) a lixar todos os tijolos da obra para obter uma precisão milimétrica que achava necessária para o projeto. Na China, na construção do estádio Olímpico de Pequim, muitas dúvidas se levantaram. Houve manifestações, inspeções por instituições que zelam pelos direitos dos trabalhadores e foi comprovado que estes eram muito mal pagos, trabalhavam 17 horas por dia, tinham que partilhar camas com colegas e alimentavam-se mal (Mccabe, 2008). Por seu lado, Jacques Herzog, responsável pelo projeto, afirmava que nada tinha a fazer a respeito da organização das questões da obra, na China ou em qualquer outra parte do mundo (Arantes, 2012, p. 236). Em sentido contrário, identificam-se vários casos de projetos e construções que consideram a condição dos trabalhadores, geralmente em processos de autoconstrução e autogestão, como é o caso do Conjunto Habitacional Paulo Freire no Brasil, um conjunto habitacional gerido por cem famílias; ou da Plataforma Pro-comedor em Espanha, um caso de autogestão e autoconstrução por uma comunidade educativa de Sevilha ou mesmo o próprio exemplo do Processo SAAL em Portugal. da arquitetura, que, pela sua necessidade de recurso a materiais e energia deve ser considerada. As implicações em prejuízo do meio ambiente são grandes pela escala e quantidade de materiais necessários para a construção. Alguns impactos negativos como a extração abusiva das matérias como pedra ou madeira, o transporte intercontinental de materiais, como ilustra Pedro Arantes relativamente ao revestimento do Museu Guggenheim Bilbau:
64 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 15 | Episódio de entrevista a Michel Maffesoli para o canal Fronteiras do Pensamento (2016)
65 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir A arquitetura, como foi referido, obedece a determinados conceitos socioeconómicos que lhe condicionam a atuação. Os tipos de respostas e abordagens formais dadas têm a ver com um equívoco no entendimento do que é imaginar o futuro (Gatt & Ingold, 2013). Segundo Tim Ingold, um urbanista ou um formulador de políticas públicas entende que deve prever uma forma, conceptualizar ele próprio a resposta, em vez de se dedicar a assessorar um caminho em aberto e não definido a priori . O contexto de trabalho do arquiteto é, muitas vezes, condicionado por questões de dinheiro, de poder ou de conhecimento. E é mais obediente à formalização das exigências comerciais de curto prazo do que sensível às necessidades de longo prazo das pessoas (Gadanho, 2006). RAZÃO SENSÍVEL ARQUITETÓNICA A teoria da arquitetura dá tanto respaldo à arquitetura elitista do starsystem e ao seu caráter autoral, como à leitura e interpretação formalista que aborda temas como a questão visual, de escala ou particularidades tecnológicas a respeito da construção dos edifícios. Em relação à crítica da arquitetura, Pedro Arantes, Kenneth Frampton, Luis Fernández-Galiano e Mark
66 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 16 | Tabela das ‘Revistas mais influentes’ (Arantes, 2012)
67 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir Widgley são os nomes mais considerados a nível mundial. Em Kenneth Frampton, o mais lido implantação correta sobre o sít (Arantes, 2012, p. 248) bem como no controlo dos esforços estruturais. No caso das publicações mais lidas, a revista El Croquis é a de maior expressão, sendo uma publicação que se dedica à (Arantes, 2012, p. 249). As narrativas dominantes no campo da teoria e da história da arquitetura normalmente não consideram as questões do social, o que impede que se dediquem ao aprofundamento das questões complexas da própria produção. Não vão muito além de referências ao visual, funcional ou tecnológico. O que está abaixo e por dentro disso, como as motivações subjetivas ou coletivas, as circunstâncias particulares relacionadas com as pessoas e os lugares não são fáceis de encontrar no campo da teoria crítica da arquitetura.
68 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 17 | Tabela de categorizações criticada (Yaneva, 2012)
69 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir 6 7 6 Josep Maria Montaner é arquiteto, professor da Escola de Arquitetura de Barcelona (ETSAB-UPC) e autor de uma vasta obra teórica sobre arquitetura, com cerca de 35 livros. É colaborador habitual de revistas de arquitetura e dos jornais espanhóis El País e La Vanguardia e é desde 2015 conselheiro de habitação no município de Barcelona. 7 Zaida Muxí é arquiteta, professora da Escola de Arquitetura de Barcelona (ETSAB-UPC) e coordena, junto a Josep Maria Montaner, o Mestrado Laboratório da Habitação no século XXI da UPC. É pesquisadora interessada especialmente nas seguintes áreas: estudos de género em planeamento e arquitetura; habitações e bairros e o impacto da globalização no tecido urbano.
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71 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir Neste sentido deve ser fomentado, em primeiro lugar, um contacto empático com os edifícios e o seu cosmo particular. Primeiro deveriam ser reunidos dados suficientes sobre as origens e os factos da forma. Michel Maffesoli, fazendo o enlace com a reflexão, propõe a materialização de uma espiritualidade aberta, empenhada em respeitar a diversidade que encontra em cada situação. Isto significaria uma compreensão da forma feita a partir dos
72 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 18 | Autoconstrução de estrutura do espaço cultural La Carpa, Sevilha, assessorada pelo atelier Recetas Urbanas
73 Por um conhecimentos sensível do processo de produção arquitetónico | Sentir fenó (Maffesoli, 1998). (...) sensibilidade é bem expressa naquilo que pode ser denominado como um empirismo especulativo que se mantenha o mais próximo possível da concretude dos fenómenos sociais, tomando-os pelo que são em si próprios, sem pretender fazer com que entrem num molde preestabelecido, ou providenciar para que correspondam a um sistema teórico construído. (Maffesoli, 1998, p. 247) O caráter aprofundado da abordagem às formas e aos edifícios o explorado ao longo do texto remete para uma ideia de compreensão dos edifícios a partir do seu processo de produção. Isto implica necessariamente o projeto e a sua consequente materialização por via da construção. É todo um campo que se abre, em sentido contrário da crítica especializada e exclusiva que compreende a partir de um filtro e que põe termo ao entendimento do que podem significar os edifícios. Assim, torna-se mais óbvia uma abordagem multidisciplinar, apoiada nas ciências sociais, que contribuem tanto com perspetivas como com ferramentas para interagir com as pessoas, com a sociedade e com a cidade. Como ponto de partida para uma ação que leve em conta a eventual pertinência disciplinar da reflexão, considera-se o conselho de Leonard e Christine Bachman, no mesmo sentido da reclamação de Josep Montaner e Zaida Muxí, de Sérgio Ferro, de Albena Yaneva, de Tiago Mota Saraiva ou de Santiago Cirugeda. De algum modo, o discurso e a experiência destes autores no campo da arquitetura apontam para uma prática que abrace a inclusão bottom-up (Bachman & Bachman, 2017). Uma inclusão baseada na luta por prioridades projetuais equilibradas, que considerem as pessoas que vão construir e usar os edifícios e que resista pela recusa do projeto de cunho estritamente autoral, plástico e heterónomo. Que saiba, ao fim e ao cabo, encarar a arquitetura como aquilo que é: um fenómeno social.
80 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 20 | Episódio de entrevista a Tim Ingold realizada pelo Núcleo de Estudantes de Antropologia da Universidade de Coimbra (2021)
81 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder As referências interessam para compreender os fenómenos sociais a partir de uma relação entre a própria antropologia e a arquitetura. Esta relação, já existente no campo da antropologia, facilita o cruzamento interdisciplinar necessário e é trazida na esperança de entender o contributo da área para a teoria e a prática da arquitetura. A perspetiva antropológica pela via da etnografia, se possível fazendo observação participante, explicita uma intenção de recolher informação, descrever processos e de, no seu durante, refletir crítica e ativamente numa atitude de esperança. A razão deste cruzamento interdisciplinar é transmitida por Otto e Smith: (...) parece haver uma afinidade genuína entre design e etnografia como processos de investigação e descoberta que inclui a maneira interativa como o processo e o produto estão interconectados e o envolvimento reflexivo de antropologia e design, o compromisso com a prática concreta e a ação reflexiva é essencial para ambos. (Otto & Smith, 2013) Na ótica de Tim Ingold8, teórico que apresenta uma perspetiva vinculada à aproximação afetiva às circunstâncias que estuda, a etnografia tem que ver com a produção de uma descrição. E deve compilar, por via da esc (Ingold, 2018). Para Ingold, a etnografia deve ser sensível, detalhada e fiel ao que procura descrever. Complementando a ideia de etnografia de Ingold, Emerson, Fretz e Shaw (2013, p. 381), em Notas de Campo na Pesquisa Etnográfica , escrevem sobre dois dos seus elementos mais significativos: por um lado, a 8 Tim Ingold, nascido em 1948, é um antropólogo social britânico, atualmente catedrático de Antropologia Social na Universidade de Aberdeen. É membro da Academia Britânica e da Royal Society of Edinburgh. Tim Ingold é um intelectual de referência nas discussões sobre evolução humana. No diálogo com a biologia e a psicologia sobre a compreensão do processo evolutivo, ele nega a rutura entre a história natural e a história cultural e defende a ideia de uma continuidade entre os processos biológicos e os culturais.
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83 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder construção do próprio caminho pelo etnógrafo de acordo com as circunstâncias que encontra e as relações que estabelece, por outro, a aprendizagem na descrição daquilo que pode observar e compreender. Para Emerson et al . (2013, p. 537), não existe imersão etnográfica desengajada e passiva. O pesquisador tem que se aproximar das pessoas com quem interage e deve participar ativamente na sua circunstância quotidiana, pois só assim poderá compreender o significado das suas próprias experiências e atividades. Por sua vez, Tim Ingold vai mais além ao defender a intensificação da participação por meio de observação participante , que é mais do que a simples observação-registo. Dividindo o conceito em duas partes: observar é ver, ouvir e sentir o que acontece; participar (Ingold, 2016, p. 407). De acordo com Ingold, etnografia, que tem que ver com fazer um estudo sobre as pessoas, de observação participante, que trata de estudar com as pessoas (Ingold, 2019, p. 10). Observação participante é, a par da ideia de estar com as pessoas, uma proposta de abordagem antropológica com potencial de mudança na sua própria execução. Tem que ver com um critério particular que passa por perceber se os antropólogos são capazes de se corresponder com as pessoas como cocriadores de hipotéticos futuros e facilitadores de conhecimento e práticas transformadoras. Observação participante difere da etnografia convencional pela capacidade de pensar - refletir - em diálogo com os atores sociais. Não se trata apenas de descrever o que se viu e ouviu, mas de recorrer ao que se experimentou e aprendeu sobre o que é a vida, para especular sobre o que esta poderá ser no futuro. A observação participante não está restrita à observação e descrição a posteriori . Existe uma dimensão interventiva que pressupõe correspondência de perspetivas e intenções entre o observador e o observado, num diálogo que tem que ver com o que aconteceu, mas que reflete efetivamente sobre futuros.
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85 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Através da imersão, o pesquisador de campo vê, de dentro, como as pessoas conduzem suas vidas, como elas desempenham seus afazeres quotidianos, o que consideram significativo e como o fazem. A imersão na pesquisa etnográfica, consequentemente, confere ao pesquisador acesso à fluidez da vida de terceiros e melhora sua sensibilidade para processos e interações. (Emerson et al., 2013, p. 356) Esta imersão possibilita a experiência por si mesmo das rotinas e circunstâncias em que as pessoas vivem as suas vidas (Emerson et al., 2013, p. 356). A possibilidade de presenciar e participar da circunstância em estudo, exige um acolhimento das coisas tal como elas são, não pode haver rumo ou fim pré-estabelecido (Ingold, 2016, p. 409). Significa viver uma vida junto com o (Ingold, 2016, p. 409). No essencial, a observação e a descrição devem ser feitas da forma mais aproximada possível, porém sem exigir a correspondência referida por Tim Ingold, uma vez que pode não ser possível de estabelecer. Por outro lado, a participação é sempre desejável pois permite assistir in loco aos fenómenos a conhecer. Neste âmbito, é assinalada a abordagem antropológica sobre intervenções arquitetónicas de Albena Yaneva. A referência retirada de um livro escrito pela própria, sobre o tema da antropologia aplicada a circunstâncias sociais relacionadas com os edifícios, pode ajudar a imaginar um cenário de investigação sobre arquitetura a partir da perspetiva da antropologia. Não se trata de uma abordagem por via de observação participante, no entanto, a perspetiva apresentada e a metodologia utilizada pela antropóloga para alcançar informação é um exemplo a considerar. Como já foi referido pela autora, o ato de desenhar e construir é evidentemente interdisciplinar, interliga pessoas, as suas vidas, comunidades e culturas, materiais e o meio ambiente e interfere tanto a nível local quanto global.
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87 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder O livro de Albena Yaneva, Mapping Controversies in Architecture (2012), explora o tema da complexidade de fenómenos sociais associados a determinada intervenção, aos quais chama de controvérsias. O livro reúne argumentos e experimenta o mapeamento das controvérsias. Para a antropóloga, explorar os temas controversos é um modo dinâmico de expor o desenho e o social. Na sua visão, os fatores e os atores nunca estão sozinhos. O cenário social e cultural inerente ao processo deve ser entendida (pela investigação) no decorrer do projeto e da construção. Nenhum fenómeno está fora, longe ou para lá do construído (Yaneva, 2012). Esta perspetiva cruzada é necessária e tem que ver com a reflexão sobre o que foi e para o que será construído. Não existem apenas seres humanos e grupos humanos, mas também naturais e técnicos, indivíduos e instituições: vigas e sonhadores, engenheiros e estudantes melhor maneira de descrever as muitas questões com as quais administradores, arquitetos, pesquisadores urbanos e cidadãos têm que lidar diariamente. (Yaneva, 2012, p. 60) Do ponto de vista metodológico, Albena Yaneva apresenta meios para chegar às controvérsias. ode começar com uma simples centelha de curiosidade, seguida por uma rápida pesquisa no Google (Yaneva, 2012, p. xvi) A sua abordagem arranca a partir de qualquer indício de informação disponível. Ou seja, para além da típica entrevista etnográfica, exploram-se quaisquer conteúdos disponíveis nas redes, desde documentos, debates, vídeos, livros, entrevistas, fotos, etc. Neste caso, a profundidade da investigação tem que ver com a informação prévia disponível. Albena Yaneva deixa as divisões disciplinares de lado e vai atrás das controvérsias, documenta-as e mapeia-as à medida que se desenrolam. Acredita que, desta forma, se mobilizam
88 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 21 | Entrevista a Santiago Cirugeda no pátio do seu atelier em Sevilha, Espanha (2016)
89 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder atores à medida que as suas influências vão surgindo, rastreia as suas declarações e as suas interpretações inerentes ao processo e vai elaborando a rede de controvérsias. A partir da (Yaneva, 2012, p. 3) em arquitetura. O contributo de Yaneva para a etnografia de processo de projeto e construção é generoso. Para além de esclarecer o universo intrincado de que é feito toda e qualquer intervenção arquitetónica, Yaneva apresenta uma abordagem ampla e polivalente de acordo com o panorama sempre complexo da arquitetura. APONTAMENTOS SOBRE ENTREVISTAR No caminho para a elaboração do modo de trabalho, tornou-se necessário ler bibliografia que elucidasse para modos de entrevista e que promovessem a recolha de informação. A ideia passou por conhecer abordagens de carácter aberto e não impositivo, no sentido de motivar as pessoas a descrever a sua experiência. Por outro lado, o contexto específico da dissertação, centrado na descrição de processos de produção de arquitetura, tende a abordar temas do campo da arquitetura, o que confere à abordagem, por via do processo de produção, um viés interdisciplinar. O desafio passa por investigar abordagens cujo objetivo é registar testemunhos de forma não impositiva, que estimulem a exposição das subjetividades e dos pontos de vista das pessoas. Nesse sentido torna-se necessário perceber a possibilidade de mediar uma interação no sentido de garantir espaço à pessoa para dizer o que entender que deve ser dito. A entrevista como técnica de pesquisa social contém, na própria raiz de sua existência, imposições. Em primeiro lugar, constatamos que os temas discutidos são os de interesse do pesquisador / entrevistador, não do entrevistado e, em segundo lugar, há o fato de ser aquele que faz as perguntas, enquanto o segundo é limitado para respondê-los. (Jociles Rubio, 2006, p. 39)
96 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 24 | Pedreiros traçam uma parábola com lama para iniciar uma abóbada
97 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder terceiro, a relação do arquiteto com a circunstância local, manifestando a sua sensibilidade e sentido crítico para questões locais da comunidade, da economia e da arquitetura. Há nesta abordagem muito mais do que os assuntos puramente técnicos que dizem respeito ao arquitecto. Há questões socioculturais delicadas e de grande complexidade, há a questão económica, há a questão da relação do projecto com o Governo, e por aí fora. Nenhuma destas questões podem ser deixadas de parte, pois todas se relacionam entre si, e qualquer omissão distorceria a imagem global. (Fathy, 1973, p. 10) A narrativa estrutura-se a partir da sucessão orgânica dos episódios que compuseram o processo e o índice do livro é o seu primeiro exemplo. Aqui, o autor declara a base organizativa composta por introdução da experiência do arquiteto pré-projecto, a circunstância do projeto para a nova aldeia, a sua construção e, por fim, uma retrospetiva pós-intervenção. É notória a sucessão de episódios, pequenos trechos dedicados ao processo, sempre ilustrados com fotos e recurso a falas dos vários intervenientes. Este primeiro capítulo dedica-se à contextualização da questão de Gurna. No início o autor descreve, entre outras coisas, a sua simpatia por técnicas de construção locais. Num episódio particular narra o contacto com dois experientes pedreiros que sabiam construir abóbadas segundo uma técnica antiga quase desaparecida: Estabelecidas as condições, os pedreiros pediram-nos que lhes fizéssemos os face maior tinham duas ranhuras paralelas desenhadas com os dedos na -los a secar, e uma semana depois fomos ao local da obra. Quando íamos a caminho reparei que, para além das enxós, os pedreiros não tinham outros utensílios. Perguntei-lhes: «Onde estão as
98 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022
99 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder vossas colheres?» «Não precisamos de colheres», responderam-me, «basta-nos a enxó.» (Fathy, 1973, p.20) Este capítulo termina com o episódio da escolha do local para a implantação de Nova (Fathy, 1973, p. 30) comprado por expropriação. No segundo capítulo o autor descreve a abordagem à complexidade sociocultural local, subsistência dos habitantes de Gurna após a sua mudan de Gurna-a- (Fathy, 1973). Pelo caminho fundamenta o programa e desenha um estudo prévio. Começa pelo traçado e configuração da aldeia, em que decide constituir grupos irregulares de casas, com áreas variáveis habitações idênticas que muitas vezes se consideram ser tudo aquilo que os pobres (Fathy, 1973, p. 81). Depois de apresentar a abordagem geral, define o programa incluindo programa público, como uma mesquita, o mercado, teatro e escolas, as habitações e infraestruturas sanitárias como a construção de um lago artificial para filtrar a água de forma a evitar a propagação de uma perigosa doença da região. Continuando com o terceiro capítulo, refere a pormenorização projetual e descreve a correnteza de casas anexas ao khan ês temporadas (Fathy, 1973). O arquiteto descreve detalhadamente os vários episódios que condicionaram a construção de Nova
100 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 25 | Imagem parcial da Praça Principal de Nova Gurna
101 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Gurna. Para além dos entraves explícitos por parte das entidades públicas e dos assistentes com quem trabalhava, uma parte dos aldeões não queriam mudar-se para o lugar de Nova Gurna9 e (Fathy, 1973, p. 158). O quarto capítulo, com que encerra o livro, descreve os seus últimos esforços para manter a construção da aldeia. Hassan Fathy descreve os momentos a seguir: (Fathy, 1973). O sonho de Nova Gurna tropeçava na má vontade do governo egípcio e o arquiteto abandona o projeto. Em jeito de retrospetiva, numa análise arquitetónica, mas também socioeconómica pós-intervenção, aquando do regresso em janeiro de 1961, constata que a construção estava como a tinha deixado e as consequências estavam à vista: Esta interrupção da construção reflete-se no artesanato. Os miúdos que tinham trabalhado de forma tão promissora com Talha Effendi estão agora crescidos. São todos eles jovens e cerca de 20 anos e estão todos no desemprego. O velho moallem dos tecelões da aldeia, Iskander, morreu, e apesar de o filho ter tomado o seu lugar, as tecelagens tradicionais de berda e monayar estão a desaparecer. (Fathy, 1973, p. 167) O livro Arquitectura Para os Pobres é entendido c e o pós-intervenção num conjunto que configura a ideia de narrativa processual. A componente descritiva, ilustrada com imagens e desenhos, incluiu a participação dos intervenientes com relato de episódios cronologicamente enquadrados. Neste exemplo, fica também apontada a 9 As comunidades da velha Gurna, situada nas montanhas de Luxor, recusavam-se a mudar de lugar porque, para além da relação de afeto com lugar que a comunidade já habitava há várias gerações, não havia a garantia de sustento económico em Nova Gurna.
102 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 26 | Maria Figueira na obra da casa de Montemor, projeto de Miguel Figueira
103 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder morfologia da narrativa - do pré ao pós intervenção -, a organização cronológica do processo, a descrição aprofundada de episódios e a consciência da circunstância das pessoas por parte do arquiteto. A Minha Casa de Montemor (2008), Miguel Figueira Esta é uma breve descrição processual a partir da experiência da Maria Figueira, então com 5 anos de idade, filha do arquiteto Miguel Figueira, que desenhou e participou da construção A Minha Casa de Montemor publicação Opúsculo 10 (Dafne Editora). O texto é de uma criança que acompanhou o processo de construção que, apesar de pouco influente, até pela idade, descreve de forma clara e dedicada as suas vivências. Não se trata de uma exposição muito profunda no sentido em que não é extensa, pois os episódios são poucos e não consideram o processo de projeto. Ainda assim, permite-lhe o acesso e a participação na construção da casa. É igualmente possível constatar a descrição de momentos, com uma certa organização cronológica na narrativa, pautada pelo decorrer do processo, desde a construção ao uso pós-intervenção. O facto de a descrição ser narrada por uma criança é um bom exemplo da possibilidade de relato por qualquer interveniente - não tem que ser feito por um arquiteto ou técnico de construção civil. A descrição sensível evidenciada pelo pormenor e cuidado dos episódios, revelam o carácter afetuoso da narrativa que inclui os trabalhadores da construção, os momentos partilhados com família e amigos. Além da planta, o meu pai também quis construir a sua casa, até teve um ajudante do Uzbequistão, com um dente de ouro, o Fáseli. Havia também o Joaquim, que é pai de uma amiga minha e o Carlos, pedreiros. Um amigo do meu pai, o Careca, vinha ajudar quando era preciso. Nas madeiras vieram o Sr. José, o filho e o genro, que também é Carlos. O Sr. Vítor, electricista, trouxe o terceiro e último Carlos que por lá passou. O canalizador, o Sr. Sequeira, vinha com um ajudante,
104 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 27 | Fotomontagem do exterior da casa de Montemor, projeto de Miguel Figueira
105 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder o Tiago, que toca numa banda de garagem à noite e estuda viola de dia. O Sr. Fernando dos ferros e o Vasco da cozinha, que é pai de um colega da Marta na escola primária, também ajudaram. (Figueira, 2008) Este parágrafo é exemplo da proximidade e empatia estabelecida com as pessoas afetas à intervenção que facilitam a descrição dos pormenores como os interesses pessoais dos construtores, as suas características particulares, o tipo de relações entre essas pessoas ou quem fez o quê e com que frequência. Na sequência do texto, Maria Figueira vai fazendo outros tipos de descrições, uma boa parte delas de carácter arquitetónico. A certa altura descreve a organização espacial da casa, a sucessão de espaços e a relação entre o rés-do-chão e o primeiro e que tem muitos degraus (para aí uns onze, acho que são mesmo onze) e foi muito difícil de fazer porque é toda em pedaços de madeira colada, (Figueira, 2008). A articulação espacial, a sequência da construção implícita e o fator ambiental com a reutilização de madeiras que resultam na escada de acesso ao piso superior, são algumas das questões apresentadas que revelam tanto a sensibilidade da criança como a do pai ao desenhar e planear a construção. O momento da construção é referido algumas vezes, na perspetiva da Maria Figueira, (Figueira, 2008) e cenário de invenções e (Figueira, 2008). Desta descrição é possível perceber uma base cronológica inerente ao processo e particularidades da construção como um percalço com o fornecimento das madeiras que atrasou a mudança para a (Figueira, 2008). No fim são revelados alguns episódios não relativos à arquitetura, mas à casa como lugar das vivências da família.
112 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 30 | Livro Arquicteturas Colectivas (2012) por Recetas Urbanas
113 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Arquitecturas Colectivas (2010), Santiago Cirugeda Arquitecturas Colectivas é uma publicação que reúne a história de partilha de perspetivas e intervenções de vários coletivos espanhóis que, por intermédio de Santiago Cirugeda - fundador do atelier Recetas Urbanas - tiveram acesso a contentores marítimos com os quais construíram infraestruturas para as suas respetivas causas. A publicação é composta por um livro que contextualiza e descreve o processo de distribuição e gestão coletiva dos contentores e a rede de entreajuda a que deu origem esta sinergia. E é acompanhado por um conjunto de 5 desdobráveis A4 com cinco páginas cada, que descrevem a circunstância de cada intervenção narrada, em parte, pelos próprios intervenientes. Olá Santi! Verificapor isso, em teoria, não se pode construir nada ali. O proprietário esteve a fazer (estou a ver se o encontramos para perguntar se ainda tem licença de construção). Eu falei com David Straddle3 e a ele não o espantava nada essa qualificação do solo, disse que tínhamos que convencer a câmara municipal da mobilidade dos contentores, sem mencionar a cimentação, e assim dar-nos-iam uma permissão ei, talvez te ocorra alguma (Cirugeda, 2010) Esta transcrição exemplifica o caminho de luta e esforço dos coletivos para conseguir implantar os contentores e da forma partilhada como foram gerindo as várias situações. Neste caso os próprios intervenientes participam da escrita das várias narrativas, a equipa de Santiago Cireguda precisou apenas de organizar os vários depoimentos no contato direto com os casos. São várias as ilações possíveis de retirar para o argumento da dissertação. Desde logo, o cuidado na contextualização exposta no livro que aborda perspetivas sobre o papel das instituições
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115 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder públicas, das questões sociopolíticas inerentes e sobre como reutilizar contentores de um ponto de vista técnico e funcional. Há uma sensibilidade relativa aos temas de outras formas de existir económica e artisticamente. No fim, a interseção da arquitetura com as circunstâncias de cada coletivo apresentada como um serviço, que procura e propõe soluções que consideram as pessoas, o ambiente e a sociedade. Depois de contextualizar a gestão dos contentores, Arquitecturas Colectivas apresenta dez narrativas acompanhadas por desenhos e imagens, em que são sucintamente descritos os processos de projeto e construção de cada intervenção. A brevidade destas narrativas tem que ver com o objetivo reivindicativo da publicação, que procura comunicar clara e rapidamente as lutas sociais associadas à intervenção. Aqui o uso dos contentores é apresentado desde o contexto prévio da instalação até às expectativas pós a intervenção. Como salvaguarda, menciona-se a pouca profundidade da narrativa, comparativamente com o objetivo da dissertação. Verifica-se, por outro lado, uma organização de base cronológica - com contexto, processo em si e futuros especulados a partir do passado e presente da intervenção. Verifica-se também a descrição de episódios, a inclusão da voz das pessoas que participaram do processo e asensibilidade por parte da equipa de arquitetura que considera os fatores sociais, culturais, económicos e ambientais. Cada intervenção - neste caso é tomado como exemplo a estrutura de La Araña - começa com a página de apresentação do projeto com uma foto da intervenção, a menção às entidades responsáveis pela estrutura, quem projetou e executou, com o programa a que estava dedicado, à área de implantação, ao custo e às datas de construção e inauguração. A página seguinte, intitulada Intro , como o próprio nome diz, introduz a estrutura, enquadrando as circunstâncias a a ocupar espaços, polivalente assume, que outro edifício: ligados a ele a nível logístico, mas (Cirugeda, 2010).
116 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 31 | Um dos 5 desdobráveis, no caso a descrição do processo de La Araña
117 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Cada pedaço de narrativa é ilustrado com fotos da estrutura incluindo os contextos em que está inserida. A terceira página, intitulada aventura , conta o processo de construção de La Araña a partir do momento em que o arquiteto responsável pelo seu desenho interage com o 10 e alonga- (Cirugeda, 2010) na sua própria oficina ambulante. É notório que a descrição processual neste caso não se aprofunda para além das logísticas associadas à construção, porém, a referência ao processo é inequívoca e a materialização destas curtas narrativas é de grande valor para imaginar uma exposição dos processos. O desdobrável encerra com Los deseos - os desejos e expectativas - onde é apontado o balanço pós-intervenção. São assinaladas algumas questões positivas da construção e dos seus objetivos em desenvolvimento pela equipa de arquitetura, estúdio instalado no local e ter terreno ao redor: tínhamos amplo espaço para experimentar com (Cirugeda, 2010). A seguir é apresentado um email, que é parte de um diálogo de intervenientes, que relata a continuidade das reivindicações de Recetas Urbanas: Já assegurámos o lugar, em La Cartuja, com a ajuda da Junta de Inovação de Andaluzia. Acho que é importante montá-lo, porque eles começam a apoiar a criação de equipamentos portáteis, e o nosso estúdio será um bom modelo. (Cirugeda, 2010) O carácter cronológico da narrativa é uma referência clara pela forma como os conteúdos são organizados - segundo uma lógica de pré-projecto, projeto e construção e pós-intervenção - e é complementada por desenhos e imagens do processo. No decorrer percebe-se a inclusão de vários intervenientes do processo, como o engenheiro que facilitou a estrutura de apoio de La 10 A Araña é uma estrutura metálica composta por um contentor elevado do chão por vigas de metal instaladas por Santiago Cirugeda e o atelier Recetas Urbanas. Existem várias disponíveis e a uso que o atelier cede a coletivos urbanos ou rurais por ocasião de alguma causa particular que os assista. Segundo Cirugeda, a estrutura de montagem rápida é usada especialmente quando alguém ou um coletivo precisa de ocupar um terreno e precisa de o fazer repentinamente.
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119 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Araña ou as interações com coletivos de estudantes do município de Gandia e outros coletivos de arquitetura como Straddle3, Rehasa e Pista Digital (Cirugeda, 2010). Ao logo da narrativa, a sensibilidade maffesoliana da equipa de arquitetos é um aspeto marcante. O próprio escritório participa neste processo desde o início, com uma posição marcada pelo ativismo social a partir de uma arquitetura consciente das circunstâncias particulares. As várias sensibilidades sobressaem de várias maneiras, como na ocupação de infraestruturas públicas de forma reivindicativa, propondo a ocupação do Mosteiro de São Clemente, itinerantes no interior do edifício e espaços públicos da cidade, para vincular o equipamento a outros bairros e por sua vez (Cirugeda, 2010). Também nas questões ambientais e económicas, esse ativismo é notado, respetivamente, pelo reaproveitamento dos contentores e pela poupança de recursos. Por fim, toda a atenção dada às circunstâncias das pessoas e dos grupos envolvidos nos projetos revelam a sensibilidade de Santiago Cirugeda e de Recetas Urbanas através do comprometimento pelas lutas por diversidade de existências sociais, culturais e económicas. Vivienda, todo el poder para los usuarios (1977), John F. C. Turner O arquiteto John Turner é um distinto defensor da produção habitacional desenhada, construída e administrada pelos próprios habitantes (Turner, 1977, p. 18). Numa pesquisa realizada em alguns países da América Latina na década de sessenta, reuniu argumentos acerca da importância da participação dos utilizadores na produção das suas habitações. Em correspondência com o tema em estudo nesta dissertação, a argumentação para um entendimento da arquitetura a partir dos processos experienciados e a formalização de uma abordagem nesse sentido tornam a leitura de Vivienda, todo el poder para los usuarios essencial. As perguntas sobre os efeitos da habitação na vida das pessoas só se podem formular mediante palavras que descrevam processos e relações. A palavra
120 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 32 | Sistema de fases de projeto (Turner, 1977)
121 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder «habitação», portanto, deveria empregar-se mais na sua aceção de «processo» do que como unidade de habitação. Os verdadeiros valores são aqueles baseados na relação entre elementos que intervêm na habitação: os atores, as suas atividades e realizações. (Turner, 1977, p. 79) Este parágrafo do livro de John Turner cunha aquele que é o tema essencial desta dissertação: a ideia de que só a partir de um entendimento por via dos processos observados é possível saber dos impactos e também dos significados da arquitetura para a vida das pessoas. Invertendo o raciocínio, se se quiser ter noção do impacto e do significado de qualquer edifício na vida de pessoas, será sempre por via de uma compreensão da razão pela qual as coisas aconteceram, como foram feitas e por quem. A partir de um estudo sobre a produção habitacional, o autor leva a cabo um aprofundamento que será sempre uma referência para qualquer iniciativa que pretenda dedicar-se ao entendimento dos comos e dos porquês da arquitetura. A abordagem de John Turner é referência para o estudo em causa nesta dissertação por apresentar vários elementos que contribuem para a questão do processo. Desde logo, a confirmação da observação e organização da narrativa com base no processo, que estrutura os conteúdos recolhidos, e que se baseia na argumentação do autor. Em segundo lugar, as amostras de descrição que, apesar de exporem pouco o aprofundamento levado a cabo, narram efetivamente fragmentos de processo. Por último, a relevância dada aos fatores inerentes ao projeto de arquitetura, apresentando-se como exemplo de sensibilidade e senso crítico para as questões da socioeconomia local cruzada com as de economia e política nacional e internacional. Assim, expõe uma ideia de disciplina ampla e comprometida, demonstrando que a arquitetura afeta e é afetada por diversos fatores que estão para além da sua forma aparente. Na sequência da sua observação, avança um sistema que defende a participação das baseado na sua experiência de contacto com as populações que habitavam as favelas peruanas, é objeto academicamente legitimado. E tem que ver com a necessidade de confrontar as
128 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 34 | Dia de construção no projeto Há Baixa (2016)
129 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder CASOS DE ESTUDO Serão agora expostos alguns aspetos de autocrítica em relação a duas abordagens a intervenções feitas na primeira pessoa. Estas abordagens serviram para experienciar e entender com mais clareza os temas da compreensão e apresentação dos processos e dá azo a esta partilha que se constitui como conhecimento adquirido e que serve como matéria reflexiva. Cabe, antes de mais, apresentar as duas intervenções estudadas. A primeira é o Mutirão Paulo Freire, que está localizado no bairro Inácio Monteiro, Cidade de Tiradentes, na zona leste do município de São Paulo (Brasil). Este é um Conjunto Habitacional construído em regime de autogestão por 100 famílias da periferia de São Paulo que se reuniram através da UMM (União Movimentos de Moradia) e do MST (Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto), que foi terminado ano de 2010. A segunda é o Atelier de Costura da Glória (Coimbra, Portugal), uma intervenção que esteve inserida no projeto Há Baixa, promovido por estudantes de Arquitetura e Design da Universidade de Coimbra. A ação do grupo passava por reabilitar espaços públicos, comerciais e privados da Baixa de Coimbra com o apoio logístico e financeiro de instituições locais e apoio material de empresas. A iniciativa focava-se na organização de duas semanas de obra no mês de julho, tendo-se realizado nos anos de 2016 e 2017. As descrições destes dois casos estão apresentadas em anexos, onde poderão ser vistas integralmente, bem como consultadas para efeito de clarificação de algum ponto aqui referido. As intervenções apresentadas em anexo foram o Conjunto Habitacional Paulo Freire (Brasil) e o Atelier de Costura da Glória (Portuga), cuja abordagem se deu considerando já algumas diretrizes das referidas leituras bibliográficas. A opção pelo C. H. Paulo Freire deveu-se à admiração pelo carácter social do projeto e à possibilidade de contacto com algumas das pessoas implicadas. Na sequência da leitura das referências da antropologia, surge a necessidade de ter um processo narrado a partir de uma observação participante e, nesta condição, é escolhido o Atelier de Costura.
130 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 35 | Vista geral do Conjunto Habitacional Paulo Freire
131 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Os dois exercícios de entendimento de processos no âmbito desta dissertação são motivados, antes de tudo, pela vontade de compreender o porquê e como determinada intervenção arquitetónica foi pensada, desenhada ou construída. Uma curiosidade que surge sempre que acontece um contacto mais demorado com alguma intervenção com a intenção de compreender a implicação desse processo na vida das pessoas. Nesta perspetiva, todos os aspetos interessam na medida em que a compreensão adquirida procura cruzar-se com as questões gerais e particulares da vida social, económica e cultural. Esta curiosidade é da questão do projeto pensado e construído pelo porquê e pelo como . Das possibilidades de futuro pelo desenho e da questão técnica da construção a várias escalas pelo gosto em construir. Mas é sobretudo das circunstâncias relacionadas com a vivência que determinada intervenção arquitetónica pode gerar e pela consciência de que a arquitetura implica e é implicada. É de um interesse motivado por uma ideia de justiça social para a qual a arquitetura consegue, de maneira ampla, contribuir. Pela diversidade de técnicas, lugares e pessoas. E é sobre esta afetação da arquitetura que John Turner escreve: Os verdadeiros problemas são o sofrimento humano e a poluição, associados à habitação, o seu fornecimento e administração. Os métodos quantitativos não podem descrever relações mútuas entre as pessoas, os objetos e a natureza, relação na qual, precisamente, se fundamenta a experiência e os valores humanos. (Turner, 1977, p. 79) A ideia de abordagem ao processo foi sendo estruturada a partir de pesquisas bibliográficas que decorriam ao mesmo tempo das primeiras conversas com intervenientes dos dois casos abordados. Temas como a organização cronológica dos acontecimentos, a importância de ouvir as várias pessoas e técnicos responsáveis ou os modelos de conversa com os mesmos.
132 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 36 | Espaço do Atelier da Glória no dia da inauguração (2016)
133 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder No sentido de organizar a conversa com os intervenientes dos dois casos, houve o cuidado em fazer uma abordagem interessada em perceber os caminhos, problemas e opções inerentes ao universo do projeto e da construção. Depois de firmado o processo necessariamente composto por desenho e por construção, foi aconselhada, pelo Professor José Marques Carriço, a leitura da dissertação de doutoramento da arquiteta Débora Sanches. Esta pesquisa apresentava uma perspetiva de processo repartida em 7 fases (já referidas) e, considerando esta perspetiva, expande-se o espectro da compreensão desejada a partir do entendimento das possíveis fases de uma intervenção. A sequência de processo estruturada por Débora Sanches serviria de base para elaborar um esquema de questões para os intervenientes do C. H. Paulo Freire. Nesta altura procurava-se a lógica de abordagem que melhor considerasse a questão das pessoas envolvidas. Ao mesmo tempo que avançavam as conversas com as habitantes do conjunto habitacional, faziam-se leituras sobre formulação de entrevista que privilegiassem a opinião e perspetiva das pessoas entrevistadas. A abordagem ao caso do Atelier de Costura acontece depois de algumas leituras etnográficas - e meio ano após o contacto com os intervenientes do C. H. Paulo Freire. Embora mantendo a mesma base, a mesma intenção e os mesmos conteúdos, são testadas algumas alterações na abordagem aos intervenientes do Atelier. Estas alterações são influenciadas por leituras do campo da antropologia que exploram a ideia de aproximação às pessoas, escuta sensível e entrevistas de cariz aberto ou semiaberto, como é o caso do artigo científico da antropóloga Maria Rubio. A partir daqui elaboram-se um conjunto de questões que tem como princípio abrir a conversa no sentido de facilitar a descrição das vivências. O resultado é a melhoria no cuidado e na atenção às questões particulares que facilita, entre outras coisas, maior à vontade das pessoas para aprofundarem determinados episódios da sua memória afetiva, exposição de pontos de vista diversos, que ora reforçam episódios ora revelam outros. Baseadas no esquema referido, estas abordagens acabam por estar focadas na recolha de episódi que são a base da reconstituição das duas intervenções. A elaboração de uma narrativa por
134 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 37 | Construção da estrutura de aço do Conjunto Habitacional Paulo Freire
135 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder intermédio do seu testemunho propicia um contacto o mais próximo possível às circunstâncias particulares de cada caso. De seguida, são percorridas ambas as experiências e apontados os aspetos mais relevantes da construção das duas narrativas. A abordagem ao Conjunto Habitacional Paulo Freire avançou com a intenção de chegar à fala com vários dos intervenientes do processo. Mais do que ter muitos depoimentos, era importante contar com a diversidade de perspetivas segundo a função de cada pessoa, favorecendo o cruzamento de opiniões de acordo com a sua condição no processo. Neste caso, houve a possibilidade de interagir com três arquitetos, uma cientista social e três residentes que tinham participado do projeto e da construção. Foram, ao todo, sete depoimentos - uma minoria, considerando a centena de famílias relacionadas com o processo. Considera-se também que ficou cumprido o critério da diversidade de depoimentos, vinculado a uma intenção de descrição baseada na memória e subjetividades das pessoas que participaram do processo. Neste sentido, não é possível alcançar todos os campos subjetivos relacionados com o edifício, nem um em particular, nem todos no geral. Sem esquecer que o processo não tem início firmado nem fim previsto, dá-se a saber o conteúdo que foi possível recolher, considerando de antemão que a narrativa fica, ela própria, aberta e disponível para que lhe continuem a ser acrescentados conteúdos. Aquando da primeira abordagem, apesar da vontade de escutar, da conversa afável e da empatia que se estabeleceu com habitantes, cientista social e arquitetos, verificou-se uma imposição do ponto de vista pré-estabelecido pela estrutura rígida elaborada inicialmente. O faseamento do processo levado como guião, ao qual se recorreu sempre que se elaborava uma questão, dificultou o aprofundamento dos temas que eram caros às pessoas. Depois disso, e após algumas leituras, a segunda visita aos habitantes, ainda que tenham recorrido a temas préestabelecidos no guião, já permitiu explorar conteúdos apresentados pelas pessoas. Com esta vontade de escutar as pessoas, de ir acedendo e registando episódios na medida em que memórias subjetivas iam fluindo, as questões do guião acabavam por perder valor formal ou seriam até
136 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 38 | Momento pausa durante a construção do Conjunto Habitacional Paulo Freire
137 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder mesmo ignoradas. Muitas vezes as pessoas lembravam-se de questões paralelas que tinham acontecido noutras fases do processo, o que impossibilitava de o seguir à risca. As referências da Débora Sanches mantiveram-se necessárias mais para organizar depoimentos do que para seguir um guião. Os pontos estruturantes do processo acabaram enquadrados da seguinte forma: a priori ajudam a pautar os conteúdos que podiam ser abordados e a posteriori organizavam a informação recolhida segundo a cronologia dos acontecimentos narrados. Sendo, de preferência, acompanhados por transcrições de depoimentos que eram gravados e depois transcritos para posteriormente integrarem o texto de apresentação da intervenção. A abordagem ao C. H. Paulo Freire ficou assim marcada por uma certa rigidez e fecho da entrevista, mas que se traduziu numa experiência necessária para constatar o condicionamento que representa uma abordagem por entrevista via perguntas fechadas e com temas pré-estabelecidos. De toda a forma, a empatia que se estabeleceu, a demora das conversas e os pedaços de abertura exercitados permitiram aprofundamentos que levaram à apresentação de episódios que explicitam vários dos porquês e dos comos desta intervenção. Um exercício metodológico assinalado, que surgiu na sequência da montagem dos conteúdos da narrativa, foi a elaboração de uma linha do tempo que servia para organizar a sequência dos acontecimentos - numa relação direta entre datas e episódios. Esta organização ajudou a pautar de forma sucessiva os principais temas a descrever, sempre que possível, assinalando a data dos que eram considerados mais significativos. A construção da descrição do processo foi enriquecida pelo contributo direto das pessoas que dele participaram através da citação das suas falas. Durante a recolha e tratamento de depoimentos, houve acesso a informação escrita, desenhada e videográfica produzida no âmbito do processo. A assessoria técnica que coordenou o projeto do C. H. Paulo Freire produziu um texto que documentava a luta por moradia dos habitantes do Conjunto cronologicamente organizado e que contribuiu para a estruturação da descrição pretendida. Para além do texto, estavam disponíveis desenhos técnico e fotografias, quer do processo quer da intervenção terminada, que ajudaram a contextualizar e a ilustrar a
144 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 42 | Momento de projeto de peça de mobiliário durante o projeto Há Baixa (2016)
145 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Porém, no caso da participante 3, a experiência foi importante porque permitiu conhecer e conviver com outras pessoas do Departamento de Arquitetura: Participante 2: As pessoas que participaram falaram sobre a pertinência do projeto, e também gostava que pudesses dizer, daquilo que é a tua opinião e da experiência da altura, o que é que significou para ti o Há Baixa. Participante 3: Claro, acho que foi um complemento aquilo que temos no DARQ. E não só, aquilo foi um workshop e eu, por exemplo, sou uma pessoa muito fechada e deu-me oportunidade de conhecer outras pessoas, de outros anos. E mesmo o tempo que nós não estávamos em obra, podemos partilhar experiências e as realidades que as outras pessoas estavam a ter nos anos à frente. Eu não Participante 2: Participante 3: De anos diferentes. Imagina, isto não tem muito a ver, mas ainda hoje a Catarina Pereira me ligou, eu não tinha qualquer relação com ela e depois disso procurámos casa juntas, fomos viver juntas e somos das melhoras amigas. Também se deveu ao Há Baixa. (Entrevista 13/01/2022) Por outro lado, os depoimentos da própria Inês relativos à sua experiência abriram espaço para uma reflexão em relação ao modo como havia sido elaborado o plano de intervenção. Foi feita uma relação entre o plano e o modo de projetar que se desejava para o projeto, que procurava incluir os participantes no desenho. Este pedaço de conversa é um bom exemplo da reflexão apontada: Participante 3: Na decapagem da porta lembro-me que gastei, e aquilo era caríssimo, dois boiões [de decapante] e mesmo assim não foi suficiente, também demora mil ano a decapar a porta. Lembro-me assim mais desses infortúnios!
146 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 43 | Dona Glória a dar entrevista para a Agência Lusa no decorrer da intervenção (2016)
147 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Participante 2: É interessante pensar que nós [comissão organizadora] primeiro inventámos um plano. Ou seja, nós achámos que a madeira era uma demão e estava bom, que a porta se decapava num instante. Mas é interessante perceber como depois no terreno, foram duas ou três cabeças que planearam a obra, mas depois foram umas nove pessoas a inventar soluções na hora para tentar resolver. (Entrevista, 13/01/2022) Por fim, constata-se que a quantidade de informação prévia fez de facto diferença. Um exemplo disso foi o tipo de conversa que se gerou com as pessoas entrevistadas; neste caso, mais solta porque foram feitas menos questões diretas. A determinação por fazer uma entrevista que motivasse a exposição das opiniões e pontos de vista das pessoas implicadas aconteceu mais na abordagem aos intervenientes do Atelier da Costura do que no caso do C. H. Paulo Freire. Para isso contribuiu o facto de neste caso ter sido considerado mais conteúdo - datado e ilustrado. Como conclusão desta experiência de registo, pode dizer-se que, em ambos os casos, foi possível narrar o processo de forma a elucidar o que aconteceu em cada um dos processos de intervenção arquitetónica. Conforme desejado, de alguma forma, são possíveis de compreender o processo ao longo da descrição, num exercício que tenta no essencial fazer um resgate do processo de intervenção arquitetónica - - a partir da junção de vários episódios - - resgatados e organizados segunda a ordem pela qual se sucederam. O exercício mostra que o C. H. Paulo Freire pedia maior quantidade de depoimentos para atingir um nível de profundidade semelhante ao do caso do Atelier da Costura. Mostra que quantos mais depoimentos, mais profundidade. Por outro lado, é necessário referir que não é necessária imensa informação para se ficar com uma ideia do que foi o processo, do que o motivou, como foi decidido e como foi construído. E admite-se que, apesar de se terem ouvido algumas pessoas, a condição necessária é a recolha de depoimentos de cada setor de atividade: arquitetura, utilizadores e construtores. E, se os houver, de outros intervenientes.
148 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 Fig. 44 | Visita aberta de apresentação das intervenções da primeira edição do Há Baixa (2017)
149 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder Neste sentido, é interessa considerar como válida qualquer descrição que reúna as condições atrás referidas e a elas some uma narrativa cronologicamente articulada e com recurso a imagens e desenhos ilustrativos, bem como depoimentos de episódios mencionados. Deve ser admitido igualmente que qualquer caso é possível de ter alguma história, episódio ou processo interessante de ser contado. Por mais curto que possam ser. Comparando um caso com o outro no aspecto da abordagem, assume-se que a brevidade de intervenção do Atelier da Costura, juntamente com o registo fotográfico intenso e sistemático, permitiu que se descrevesse qualquer dinâmica de quase todos os dias de trabalho. Isto acontece por duas razões: são dois tipos de contacto diferentes e duas escalas de intervenção também diferentes. Num caso, a aproximação é feita a partir de fora e no outro de dentro. Por outro lado, um caso é uma intervenção de dois meses com um destinatário apenas, o outro é uma intervenção de 9 anos para 100 famílias. Conversar com as 100 famílias do C. H. Paulo Freire seria uma tarefa muito longaque exigiria, provavelmente, uma gestão mais racional da informação recolhida. No caso do C. H. Paulo Freire, aquando da conversa com as construtoras e residentes, a minha postura foi mais de pergunta e escuta, com o diálogo a acontecer principalmente entre as três pessoas com quem se conversou, que iam debatendo e relatando momentos entre si. No caso do Atelier da Costura, o diálogo desenrolou-se mas, aqui, entre mim e a pessoa que relatava o seu testemunho. O nível de envolvimento e, por consequência, de conhecimento do processo permitiram que se desenrolasse um diálogo que motivou, em conjunto, o desvelar informação e episódios. No fim, assinala-se que conversas com vários intervenientes podem ser proveitosas uma vez que a possibilidade de resgatar pedaços do processo é maior. Para além de que se assiste autenticamente a um pedaço de filme, perfeitamente reeditado pelos intervenientes que exteriorizam muito emotivamente os acontecimentos da altura. Das duas experiências de campo, o caso em que a abordagem foi feita em observação participante, permitiu um entendimento mais aprofundado das circunstâncias e dos diversos pontos de vista relatados. Como realça Tim Ingold, a demora e o aprofundamento no contacto com a vivência e a circunstância do processo
150 Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022
151 Arquitetura, outros modos de compreender e refletir | Proceder são fatores que intensificam e agilizam a sua compreensão. A referida experiência de campo foi mais rica em compreensão das várias dimensões subjetivas, uma vez que decorreu num contexto em que se desenvolveram vínculos pessoais ao longo da intervenção.
Baixa de Coimbra | Fevereiro 2022 4. Refletir Para um conhecimento sensível dos processos arquitetónicos Eu quero ser melhor e maior, eu aguento, ensina-me já E tudo o que eu não sei O que eu não faço bem ensinaste-me mal Tem paciência p'ra mim Dá me amor e carinho quando eu me sinta pior E se não resultar o melhor é mudar de método Mudar de Método (B Fachada, 2020) 4. Refletir Para um conhecimento sensível dos processos arquitetónicos Eu quero ser melhor e maior, eu aguento, ensina-me já E tudo o que eu não sei O que eu não faço bem ensinaste-me mal Tem paciência p'ra mim Dá me amor e carinho quando eu me sinta pior E se não resultar o melhor é mudar de método Mudar de Método (B Fachada, 2020)
Por um conhecimento sensível dos processos de produção arquitetónicos REFLETIR4 Para um conhecimento sensível dos processos arquitetónicos