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Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho: Ativar a Felicidade através da Arquitetura

Martins, Filipa Oriana Faria

Abstract

Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia

Full text

Dissertação no âmbito do Mestrado Integrado em Arquitetura, orientada pelo Professor Doutor João Paulo Vergueiro de Sá Cardielos e apresentada ao Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Dezembro de 2022 Filipa Oriana Faria Martins REGENERAR O QUARTEIRÃO DAS ARTES DE MONTEMOR-O-VELHO ATIVAR A FELICIDADE ATRAVÉS DA ARQUITETURA Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho Ativar a felicidade através da arquitetura I AGRADECIMENTOS Ao professor João Paulo Cardielos, à Sara e ao grupo Montemor-o-Fixe, pela confiança, apoio constante, e por muitas vezes, acreditarem mais do que eu neste projeto; À Rita e à Inês, por todas as horas partilhadas; À Ana e à Margarida, pelo exemplo; À Família de Casa e aos Amigos do Darq por me guiarem nos últimos 5 anos; Em especial, ao David e aos meus Pais, por me permitirem ser feliz neste sonho tornado agora realidade! III RESUMO Como é que a procura da felicidade se relaciona com a arquitetura? Vivemos focados na aceleração, a sociedade moldou-nos assim. Somos a civilização que mais recursos tem ao dispor, mas também, provavelmente, a mais triste de sempre. Somos condicionados a definir e concretizar objetivos pessoais para que a felicidade reine no nosso futuro. Mas, será que é no futuro que precisamos desta felicidade prometida? Hoje, nesta condição contemporânea tão singular, encontramos um Baixo Mondego desvalorizado, refém de soluções do século XIX, datadas, que já não correspondem às necessidades do presente. É uma região caracterizada pelos costumes e tradições rurais que, pela ascensão da era da máquina, se tornou equívoca e se deixou cair no esquecimento. É imperiosamente necessária a montagem de uma estratégia focada no cruzamento da preservação de uma cultura ancestral, conservadora, com os novos paradigmas e necessidades do futuro. Montemor-o-Velho é o epicentro para a definição desta estratégia, contemplando possíveis ligações, preservando os valores produtivos, atrativos e, principalmente, os humanos. Surgiu assim a definição de uma rede de lugares, coletivamente esboçada, capazes de ativar cruzamentos de gerações, de valores e de quotidianos distintos. Numa maior aproximação ao núcleo histórico da cidade, tornou-se bem evidente a necessidade de promover intervenções com vista à sua reabilitação. A regeneração do espaço público e a recuperação do imenso edificado devoluto e arruinado, podem facilmente potenciar a procura de uma condição de conforto e qualidade de vida que estimulem novos modelos de auto organização da sociedade e de partilha entre a comunidade. Ao atuar segundo os propósitos de um modo de habitar colaborativo, associado ao desenho tradicional dos espaços, procurouse promover condições de segurança e bem-estar, capazes de estimular diversos e renovados modos de vida. Criar oportunidades de cruzamento, para que se torne evidente e inevitável a interação entre visitantes e moradores locais. É importante agir sobre os modos de vida dos residentes remanescentes, mas, sobretudo, atrair V novos residentes ao lugar. Os equipamentos e os espaços públicos devem ajustarse, para complementarem as qualidades espaciais, que hoje fazem do burgo velho um lugar tão atrativo quanto descaracterizado e abandonado. A escala do lugar, o seu valor histórico e a sua condição ambiental, que a proximidade e envolvência do centro administrativo antigo reforçam, são valores que urge potenciar. A descoberta do ‘Quarteirão das Artes’, um velho projeto municipal entretanto abandonado, revelou uma realidade em perda. Importou-nos percebê-lo bem, e escalar a sua ambição para a potenciar. Também, integrá-lo numa ideia mais ampla de regeneração urbana que seja capaz de convocar os estímulos para um reabitar do burgo antigo, em consonância com a sua essência e poder de atratividade intrínsecos, que a evolução urbanística recente tem tendencialmente desvalorizado. Montemor-o-Velho é, sem dúvida, um lugar ideal para conjugar ritmos de vida. Através da promoção da inclusão e equidade, ambicionamos criar condições favoráveis à evolução dos modelos de felicidade individuais e coletivos. O principal desafio prende-se com a capacidade de transposição das motivações teóricas para alguns projetos objetivos, concretizáveis nos mais simples espaços físicos. Palavras-Chave: Montemor-o-Velho, Burgo Histórico, Quarteirão das Artes, Cidade Intergeracional, Felicidade pela Arquitetura Imagem 1: Diagrama dos principais aglomerados urbanos no Baixo Mondego Coimbra Figueira da Foz Montemor-o-Velho 0 5 km 1 INTRODUÇÃO O Baixo Mondego é local e objeto de estudo para onde se desenvolveu e desenhou, através de projetos de arquitetura, uma estratégia que encara o Território e a Paisagem como desafios de articulação com a Natureza. Este é um exercício que tem como objetivo compreender os pontos de desequilíbrio territoriais, e apontar as marcas que eles deixam no quotidiano de cada cidadão. Por se tratar de um projeto de intervenção prática, tornou-se fundamental reconhecer o território, identificar as problemáticas, ameaças e desafios inerentes ao mesmo. Identificaramse um conjunto de lugares singulares que permitiram gerar uma rede de pontos que serviram de pivôs para a criação e potenciação de novas dinâmicas urbanas. O próprio nome da região indica-nos o Rio Mondego como ponto chave deste território e, por isso, são as zonas que o flanqueiam que faz sentido analisar. Uma paisagem forte, onde contrasta o vale com o rio e todos os seus afluentes, enquanto fatores únicos que sempre caracterizaram este lugar. Em primeira instância, são as cidades de Coimbra e Figueira da Foz que se destacam e marcam distintivamente a presença na zona Centro de Portugal. Acolhendo mais de 75 por cento da população da região do Baixo Mondego, estas duas cidades conseguem oferecer um bem-estar relativo aos seus residentes, por possuírem um conjunto de atrativos espaciais, físicos e socioculturais que acabam por estimular as vivências, atratividade e permanência dos seus habitantes. O mesmo já não acontece nas pequenas vilas e aldeias distribuídas pelos quase 45km de extensão que separam estes dois grandes núcleos urbanos. Apesar do também elevado valor cultural, histórico, natural e paisagístico, ou desportivo, que os municípios de Montemor-o-Velho, Condeixa e Soure apresentam, continua a ser significativa a perda de população, de ano para ano, na generalidade dos seus núcleos históricos. Por outro lado, mesmo nos poucos sítios onde a facilidade de transporte — nomeadamente, na margem esquerda, devido ao caminho-de-ferro — permitiu a instalação de subúrbios residenciais da cidade de Coimbra, não se conseguiu travar o abandono do património edificado mais antigo, contribuindo para a imagem desequilibrada e empobrecida das aldeias e lugares. São variados os fatores que contribuem para esta realidade, mas o que é facto é que, nos últimos 10 3 anos, foram mais de 3500 as pessoas que, só em Montemor-o-Velho, escolheram a periferia urbana para se fixar e começar uma nova vida. Esta é uma realidade fácil de ler quando, ao olhar os dados apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística de 2021, se destaca o aumento em 10% da população idosa e a perda de mais de 20% dos habitantes entre os 25 e 64 anos de idade, nesta localidade. As pessoas não estão contentes com o meio onde vivem, obrigando-se a ir à procura de ambientes mais confortáveis para aí permanecer. Certamente, nem todos os habitantes estão talhados para todos os ambientes urbanos, mas, seguramente, nenhum estará vocacionado para habitar os lugares do abandono ou desmazelo urbanos. Como é que a arquitetura pode potenciar qualidades para garantir a permanência ou o retorno a uma condição de vida mais feliz? Esta é a questão-chave que, desde sempre, norteou esta proposta enquanto desafio de investigação. Assim, o primeiro passo implicou perceber quais os motivos que levam a população de Montemor-o-Velho a deixar o seu centro, e até, a partir para as cidades vizinhas — a identificação precisa do problema, através da caracterização do território e dos seus lugares de eleição. A metodologia deste trabalho dividiu-se em três momentos principais. O primeiro, que se desenvolveu integralmente em grupo, centrou-se na análise e reconhecimento integral do território do Baixo Mondego. Estudaram-se temas específicos como a demografia, a história e o património construído, as características geofísicas – hidrografia, topografia e características dos solos –, analisaram-se as redes viária e ferroviária, e as demais infraestruturas, bem como o estado de conservação e ocupação do edificado, e os principais equipamentos construídos. Já sob a perceção de um olhar sobre o território bastante comprometedor, completouse uma análise SWOT, para clarificar forças e fraquezas, oportunidades e ameaças. Impunha-se compreender, entender com rigor para esboçar de modo sustentado os desafios e propostas para o futuro. Na segunda etapa, o objetivo foi procurar clarificar a definição de felicidade para o mundo da arquitetura. O conceito de felicidade é muito vasto e, desde sempre, muitos teóricos, filósofos ou sociólogos, nos apresentaram diferentes definições para aquilo que entendem que é o ‘ser feliz’. Neste capítulo, a resposta ao que se entende 5 por felicidade parte da visão de um arquiteto, e vai-se em busca de uma felicidade que está intimamente relacionada com as experiências espaciais. Pretende-se compreender a ambiência de um lugar e o modo como ele permite estimular a experiência de felicidade, ou de satisfação. “[…] precisamos de locais onde os valores exteriores reforcem as aspirações que acalentamos.” (Botton, 2006, p. 118) Admiramos ou achamos belo um edifício porque lhe identificamos qualidades que valorizamos nas nossas vidas. Alain de Botton, na sua obra Arquitetura da Felicidade, expõe em que medida é que um edifício é capaz de comunicar connosco evidenciando diferentes estados de espírito ou sensações. Este tipo de experiências, muitas vezes, passa despercebido aos olhos dos diferentes utilizadores, mas tal como esse autor referencial, acreditamos que, na conceção de um espaço, isso pode transformar-se em algo absolutamente fundamental. O cuidado com a qualidade de vida que os nossos edifícios oferecem aos seus habitantes não é uma ideia totalmente nova. Jan Gehl, arquiteto e urbanista dinamarquês, trabalhou sempre nas questões do planeamento urbano com esta preocupação inerente e foco nas pessoas. A evolução abrupta da tecnologia e da comunicação, com a revolução industrial, obrigou o mundo a crescer ao mesmo ritmo. As cidades e o seu planeamento não foram exceção. O ser humano deixou de ser uma prioridade na gestão desta equação, e passaram-se a valorizar soluções “fáceis” para as necessidades que se achava serem fundamentais, perdendo-se assim os valores humanistas, como a simples proximidade nas relações quotidianas. Assim, usar recursos com base na sua sustentabilidade, introduzir novas dinâmicas em áreas urbanas que valorizam os espaços públicos, e que dão espaço para as expressões individual e coletiva, são questões que Gehl aprofundou na sua obra Cidades Para Pessoas. “(...) as nossas cidades podem ser melhores se forem pensadas para aqueles que as criaram: as pessoas”. (Gehl, 2010, p. XII) A povoação de Montemor-o-Velho não é nada indiferente a esta realidade. Localizada entre dois grandes núcleos urbanos é hoje um local muito artificializado, por ter sofrido amplas alterações experimentadas ao longo dos séculos XIX e XX. As 7 pessoas abdicaram da qualidade dos espaços, das escalas muito humanas das suas paisagens de proximidade e territórios, e abandonaram os núcleos mais pequenos, ficando reféns das circunstâncias e modos de vida “modernos” que nunca lhes foram centrais ou intrínsecos. Em Montemor-o-Velho, é no núcleo histórico que existe maior decadência e perda de população, e perdeu-se o espírito de vizinhança, estando aí totalmente esquecidos, ou adormecidos, os valores culturais e de partilha dentro da comunidade. Perante a consciencialização face a esta realidade, foi imediata a nossa decisão de fixar aqui o desenvolvimento da proposta individual. Encontrámos aqui um centro histórico no qual se apostou em infraestruturas de qualidade, mas que não as tem sabido valorizar. Consideramos, por isso, urgente e necessário agir para tentar rejuvenescer o espírito deste bairro progressivamente esquecido durante a contemporaneidade. Depois, na terceira etapa, desenhou-se uma proposta que esboça uma solução urbanística e urbana, e que reinventa alguns dos sistemas e oportunidades atuais, incorporando conhecimento, criatividade e tecnologia, propondo programas construídos e recorrendo aos meios disponíveis para atrair massa-crítica jovem à região. Para isso, conceitos como Happy City e Creative City tornaram-se fundamentais para a construção e modelação de um estreitar das relações entre moradores, novos residentes e visitantes, que conjuntamente podem ativar uma condição de vida mais feliz neste lugar. Central, a proposta para a renovação do Quarteirão das Artes está apoiada no sentido de partilha, de participação e de inspiração junto de outras gerações, e desenhou um espaço híbrido e central pensado para todos. Singelo, mas versátil para a promoção de atividades marcadas pela cultura, a pedagogia e a interação social, em ambiente intergeracional e multicultural. Um espaço onde diferentes atividades possam acontecer em simultâneo, cursando pessoas, cruzando experiências e saberes entre diferentes gerações de ativistas e artistas, e públicos diversos entre múltiplos agentes. A condição de vida genuína foi-se banalizando no processo da construção moderna da cidade. Mas há, ainda, importantes valores locais e saberes residuais dispersos que urge convocar. É por isso, agora, importante cruzar o desenho e o planeamento urbanos para potenciar esta emergente e urgente procura da felicidade. 9 O que estabelece hoje, com firmeza, a satisfação das pessoas, é o sentido de comunidade e das interações que se estabelecem dentro dela. É necessário garantir espaços urbanos confortáveis e adequados para as complementaridades de uma vida doméstica com qualidade. Novos espaços públicos, bem como as condições administrativas e orçamentais, para ativar as dinâmicas que lhes devem dar vida — porventura, o “calcanhar de Aquiles” da primeira tentativa local de um quarteirão para as artes. A arquitetura promove a felicidade quando nos revemos na qualidade do espaço ou do ambiente que ele é capaz de proporcionar. Quando isto acontece, ao nível de um edifício, servem-se as pessoas que o ocupam, mas quando o efeito é conseguido ao nível de um bairro, ou de um espaço público urbano, serve se em absoluto toda a comunidade, ativando-se vizinhanças, cumplicidades e outras qualidades genuínas, que a tornam apetecível e querida, ambicionada e, acima de tudo, atrativa. Imagem 5 : Ponte Açude de Coimbra 17 Ao longo do século XX, a gestão das consequências das cheias era muito complicada afetando toda a agricultura que se tentava fixar nas margens do rio. Em alternativa, começou a apostar-se nas plantas com ciclos vegetativos menores, nas culturas do arroz e do milho, transformando a região num dos mais fortes produtores de cereais do país. Foi em 1966, com o anunciado “Plano Geral de Aproveitamento Hidráulico da Bacia do Mondego”, elaborado pela Direção Geral dos Serviços Hidráulicos, que assentava na construção das Barragens da Aguieira e de Fronhas, e ainda do Açude de Coimbra, que se pretendeu que o conjunto das infraestruturas assegurassem o objetivo de controlar o caudal, garantir o armazenamento de água e as regas para as culturas extensivas — a instalar num segundo novo ordenamento e cadastro agrícola —, e ainda, a produção de energia hidroelétrica. No caso do Açude, o objetivo era também proteger a ‘baixinha da cidade’, ao criar um espelho de água na frente urbana ribeirinha, capaz de assegurar uma cota e volume de água suficientes para o funcionamento do canal. Este desenvolvimento foi concluído apenas em 1981, e alterou, também, as condições hidrotérmicas e geoclimáticas da cidade. As sucessivas transformações do Baixo Mondego tornam bem evidente a ingerência da ação humana no funcionamento dos equilíbrios naturais que compunham este território, e, sobretudo, na sua paisagem, causando enorme impacte nos sistemas naturais que o caracterizavam — o rio, o vale extremamente fértil e todos os ecossistemas inerentes. Tal como o mapeamento sugere, todas as áreas situadas em cotas baixas são inundáveis e facilmente acumulam bastante água, que, por sua vez, se continua a revelar um fenómeno pouco controlado, malgrado todos os esforços e investimentos efetuados. O efeito cíclico das águas, em repetidos picos de pluviosidade muito intensos, mantém-se. E isso é devastador para as populações locais, especialmente depois de todas as medidas de prevenção e contenção ensaiadas para regularizar e estabilizar o seu curso. Também, o próprio sistema urbano não se tem conseguido atualizar, encontrando formas de solucionar esta questão, levando as populações a afastar-se, procurando fixar-se noutras áreas, em cotas mais seguras e próximas das sempre renovadas infraestruturas de mobilidade. Imagem 6 : Frente Ribeirinha de Montemor-o-Velho 19 A relação ribeirinha da cidade de Montemor-o-Velho com o rio alterou-se imenso ao longo do tempo. Se ele já percorreu a sua frente urbana e a navegação animava as suas margens, envolvendo parcialmente a muralha do velho Burgo, hoje corre aqui apenas um canal secundário, associado ao Rio Velho, que em tempos fluiu ao longo desta margem direita do vale. Também este é, hoje, um fator de desvalorização urbana que importa reconsiderar. Se, por um lado, parte da margem urbana é vulnerável, por outro, ela pode constituir-se como um poderoso fator de preferência e qualificação urbana. Imagem 7 : Linha de Defesa do Mondego 21 1.2. HISTÓRIA E PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Um território não é, de modo algum, completamente estático. As intervenções do homem, e as do fluir dos tempos, moldam a paisagem de um território em várias direções. Na região do Baixo Mondego encontram-se vestígios de ocupação desde o período Neolítico até à Idade Média, com especial enfoque logo na época do Ferro, durante século VIII-VII a. C. A navegabilidade do rio não terá sido indiferente a estas ocupações, pelas oportunidades de comércio proporcionadas. A chegada do império romano à Península Ibérica coincidiu com um dos maiores períodos de guerras púnicas (entre Roma e Cartago) que tiveram lugar entre 264 e 146 a. C. Assim, os romanos só se terão estabelecido na região do Baixo Mondego nos primeiros séculos antes de Cristo, procedendo a uma ocupação extensiva, dando continuidade à ocupação já estabelecida pelos “povos” pré romanos. Destacam se, neste período, duas grandes cidades: a de Conímbriga (junto a Condeixa), considerada ainda hoje como uma das mais importantes nas rotas romanas da península; e a cidade de Aeminium, que corresponde à atual Coimbra. Nesta época, o rio era ainda bastante alargado e profundo, e por isso o tráfego marítimo tinha uma grande predominância. A qualidade dos solos tangentes ao rio era também de uma enorme qualidade, pelo que chegavam para abastecer as principais cidades da zona bem como os exércitos romanos que lutavam a norte. O período sob domínio muçulmano, a partir de 714, foi muito conturbado, dando origem a várias disputas e conflitos de poder internos. A cidade foi conquistada por Hermenegildo Guterres que submeteu toda a região do Baixo Mondego ao seu poder. A partir de 1034 e até 1064 aumentaram as tensões na região. Durante este período os saques e a instabilidades voltam a reinar e sucedem-se as campanhas de razias. Após a conquista de Coimbra, toda a região ficou sob a administração de D. Sesnando (moçárabe) que promoveu campanhas de reorganização do território, incentivou a criação de novas aldeias e organizou as defesas da região. Nesta época, o rio fazia a fronteira entre o norte cristão e o sul árabe, tendo sido construída uma linha de fortificações que incluía os castelos de Avô, no rio Alva, Penacova, Lousã, Coimbra, Penela, Soure e Montemor. Imagem 8 : Aglomerados Urbanos no Baixo Mondego 23 Durante todo este período e até à cidade estar sob posse de D. Afonso Henriques, a região do Baixo Mondego foi “vítima” de devastações constantes, ora por invasões vindas de sul, ora vindas de norte. Só em 1064 é que Fernando Magno conseguiu conquistar definitivamente Coimbra e a linha do Mondego. No Baixo Mondego, durante o século XII, as pessoas vão-se fixando nas periferias dos centros urbanos, principalmente de Coimbra e Montemor. Nos séculos seguintes registou-se um grande crescimento de pequenas povoações, e com elas, mais arroteamentos e áreas para a agricultura. As salinas tiveram também um papel importante no desenvolvimento local, pois o sal era essencial para a conservação dos alimentos, tal como o pescado. Estes produtos transitavam por via fluvial, e pelos diversos portos do rio, passando por Montemor, Coimbra e chegando mesmo até Penacova. Do curso médio vinha a lenha e as madeiras da floresta central. O desenvolvimento da vila de Montemor esteve, nesta época, intrinsecamente ligado ao desenvolvimento de Coimbra, que era o núcleo urbano mais importante do Baixo Mondego. Na região os recursos primários e a produção agrícola eram fundamentais para a dinamização local do comércio. A paisagem era, neste território, marcada principalmente pelas diversas culturas agrícolas: os pomares, os campos de cereal, os vinhedos, os produtos hortícolas, entre outros. Todavia, com a chegada da peste Negra e a mortandade por ela provocada, instalou-se uma crise e os campos foram abandonados, sucedendo se um malsucedido êxodo para as cidades. O desenvolvimento do concelho alicerçou-se então em três núcleos populacionais: Montemor-o-Velho, Pereira e Tentúgal. Nos seus campos produzia se, para além do milho, o linho e o trigo, criava-se gado bovino e cavalar, construíram-se solares, remodelaram-se igrejas e conventos. Deste período destacam-se as figuras de Diogo de Azambuja, Fernão Mendes Pinto e Jorge de Montemor. A decadência parece ter começado nos inícios do século XVII e continuado no século seguinte; Em 1771, a Figueira da Foz foi elevada a vila e, consequentemente, o termo de Montemor ficou diminuído. Unidade territorial 1900 1950 1960 1970 1981 1991 2001 2011 2021 Portugal 5.446.760 8.510.240 8.889.392 8.663.252 9.833.014 9.867.147 10.356.117 10.562.178 10.344.802 Baixo Mondego 202764 296052 305481 298755 329957 328858 340309 332326 317787 Coimbra 54711 98027 106404 110160 138930 139052 148443 143396 140838 Condeixa-a-Nova 11602 14020 13555 17865 13257 13027 15340 17078 16735 Figueira da Foz 42500 56862 57631 53525 58559 61555 62601 62125 58962 Montemor o Velho 21967 27978 27925 26410 27274 26375 25478 26171 24547 Soure 20144 26176 26575 22025 22570 21704 20940 19245 17261 Imagem 9 : Variação da População entre 1900 e 2021 25 1.3. DEMOGRAFIA As pessoas são, sem dúvida, o elemento primordial para a definição de qualquer lugar, região ou país. O bem-estar social e o desenvolvimento de qualquer comunidade irá sempre depender das condições físicas que um lugar pode oferecer. Por isso, torna-se fundamental identificar não só o número de pessoas, como também os tipos de alojamento onde vivem, para se perceber as suas condições de habitabilidade. Desta forma, o recenseamento da população torna-se fundamental para a administração de qualquer comunidade. A partir da fundação da nacionalidade portuguesa, são vários os documentos que apresentam resultados dos primeiros dados populacionais para o território português. Porém, só a partir de 1864 é que se efetivou o primeiro Recenseamento Geral da População Portuguesa. Este recenseamento apresentou um número limitado de características, apurando apenas a população por distritos, concelhos e freguesias, segundo o sexo, idade e estado civil, indicando também o número de fogos. Apurou também o número global da população de direito ou legal, cujo resultado se apontou para: 4 286 995 habitantes. Com a exceção da década de 1960, quase cem anos depois, a realidade do crescimento populacional em Portugal, ainda que em diferentes ritmos, tem sido positiva. São vários os fatores que influenciam o crescimento populacional, como a mobilidade espacial, interna ou externa, as taxas de fecundidade ou mortalidade, o progressivo envelhecimento demográfico bem como o aumento da esperança média de vida. O período salazarista justificou, em grande parte, a queda populacional dessa altura, obrigando as pessoas a sair em busca de melhores rendimentos para sustentar as suas famílias. A implantação da democracia, com a Revolução dos Cravos, em 1974, veio trazer alguma estabilidade e desenvolvimento ao país, fomentando algum regresso de emigrantes e a estabilização, de novo, dos valores populacionais. As condições de vida melhoram, a taxa de mortalidade diminui e a esperança média de vida aumentou. Assim, é entre os anos setenta e oitenta que acontece a maior taxa de subida dos indicadores populacionais em Portugal, numa única década, chegando aos 15%. - Poluição das águas - Despovoamento através de migração para outros concelhos - Acessibilidades de ligação a outros territórios ineficientes - Alterações climáticas - Potencial Turístico em várias vertentes (agrícola, rural, natureza, património) - Integração e revitalização dos espaços naturais com áreas circundantes - Localização central entre dois grandes pólos (Coimbra e Figueira da Foz) - Presença constante do elemento Água (Rio) - Vastas áreas de Agricultura - Presença de Solos Férteis - Diversidade de Património - Presença de espaços destinados ao desporto (Centro Náutico) - Biodiversidade - Presença de Espaços Naturais preservados - Clima Ameno - Estado de degradação do edificado - Acessibilidades internas ineficientes - Conflito na relação Humana com o meio natural - Agricultura insustentável (monocultura e uso de produtos químicos agressivos ao solo) - Água (inundações) OPORTUNIDADES FRAQUEZASFORÇAS AMEAÇAS Imagem 12 : Análise SWOT concebida pela turma de Atelier de Projeto ID 33 1.4. ANÁLISE SWOT Com o objetivo de alcançar um conhecimento mais aprofundado sobre o Baixo Mondego, foi realizada ainda uma análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats) com o intuito de identificar as Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças neste território. Esta análise surge como uma ferramenta auxiliar ao desenvolvimento de uma estratégia cuidada, que visa iniciar e dar continuidade a projetos de resolução dos problemas e desafios existentes, explorando ao máximo as oportunidades de melhoria e valorização do município de Montemoro-Velho, e suas relações com os territórios limítrofes. Tanto os fatores internos ao território (forças e fraquezas), como os fatores externos ao mesmo (oportunidades e ameaças), apresentaram-se de forma ambígua, retratando vantagens, mas também desvantagens. Com esta análise SWOT surge a oportunidade de identificar e equilibrar estas duas vertentes contrárias. A zona do Baixo Mondego apresenta um grande potencial físico natural, com características que valorizam a região. Os ecossistemas únicos existentes servem de abrigo para algumas espécies nativas, que vivem apenas em áreas específicas, assim como para uma diversidade de outras espécies presentes nos espaços naturais que compõem esse território. Os vales tornam-se local de encontro destas áreas diversificadas, onde os espaços se chocam e se diluem, variando as atividades humanas que vão acontecendo, quer de grande ou de pequena escala, alterando completamente os recursos e as paisagens. Todos estes aspetos, tanto os naturais como os humanos, têm um grande impacto na forma de viver e desenvolver das diferentes localidades da região, e devem ser tidos em consideração ao estudar as forças e fraquezas da área, pois podem ser um fator propulsionador no aumento da riqueza e qualidade de vida da região. Este é, também, um território de ligação equilibrada entre as atividades humanas e os espaços naturais, propiciando a regeneração da natureza e fauna locais, sem comprometer as necessidades humanas. Além dos recursos naturais, no território do Baixo Mondego, nomeadamente, no periférico a Montemor-o-Velho, existe um vasto património histórico-cultural. Importa valorizar este património, muito ignorado nos aspetos de conservação e relevância para a construção de uma identidade local, associando-o a programas de investigação do património, turismo cultural, eventos múltiplos, entre outros. Imagem 13 : Principais Eixos de Expansão do Aglomerado Urbano 35 O mau estado de conservação de uma parte significativa do edificado de Montemor é, seguramente, uma enorme fraqueza identificada nesta análise. É possível dividir o ambiente construídos em 3 núcleos. O primeiro corresponde à parte central e histórica da vila. A partir da cota mais alta, onde se situa o castelo que em tempos terá alojado a vila, expande-se por toda a colina envolvente, onde encontramos um coração residencial concentrado de edifícios antigos. Muitos deles, hoje, estão votados ao abandono e à ruína, que foi acontecendo ao longo do tempo. Aqui emerge a primeira vontade de intervenção, a necessidade de rejuvenescer este bairro surge como principal premissa nesta intervenção. Este seria um processo que, desde logo, beneficiaria não só a população local como tornaria Montemor bem mais e atrativo. O segundo núcleo, ainda em expansão embora muito pouco construído, situa-se na cota mais baixa e estende-se desde o núcleo histórico em direção ao Rio Mondego, que, entretanto, se afastou, mercê das transformações do século passado. Desenha se a partir do mercado e é caracterizado por uma ampla zona verde que se estende até e ao longo do Rio Velho, e alonga-se até ao Centro de Alto Rendimento. O terceiro núcleo corresponde à expansão recente e poderosa de Montemor para Nascente-Norte, ao longo do novo desenho da EN-111, onde se encontram os edifícios e condomínios residenciais mais recentes, bem como alguns edifícios um pouco mais antigos, mas bem conservados, onde foram fixados ou acolhidos inúmeros programas públicos relacionados com a saúde, a segurança pública, os serviços de educação da comunidade, entre outros. A localização de Montemor-o-Velho é uma oportunidade ideal para explorar e tirar proveito da dicotomia entre cidade e campo, e as vantagens que cada ambiente tem para oferecer. Este território encontra-se entre dois núcleos urbanos bastante prósperos, Figueira da Foz e Coimbra, e as possibilidades de relações e programas, como por exemplo, a rede de castelos do Mondego, ou a biodiversidade dos pauis, torna a sua localização uma oportunidade a investigar também. Olhando para a localização e relação entre zonas mais urbanizadas e atrativas, é importante pensar nas suas ligações. A oferta e tipologia das vias existentes deve ser avaliada, quer as externas, da rede nacional ou regional, quer as internas, de Imagem 14 : Campos Agrícolas de Montemor-o-Velho 37 nível municipal ou intermunicipal. As necessidades atuais da população e de quem se pretende atrair para este território não estão a ser devidamente respondidas. No que diz respeito às principais vias de comunicação e mobilidades pesadas, existe uma boa oferta, com rede de autoestradas, itinerários principais e complementares, e linha ferroviária, que parecem suprir as necessidades imediatas das ligações nacionais. Também suprem as necessidades no eixo de Coimbra à Figueira da Foz; contudo, as mesmas não favorecem ligações transversais ao corredor fluvial do Baixo Mondego. Na verdade, a barreira física e fronteira antiga que o rio estabeleceu, naturalmente, continua presente e nada parece desenhar-se no sentido de mitigar esse constrangimento. As margens estão distantes por ausência de corredores adequados e ligações fáceis. A estreita proximidade geográfica é claramente contrariada pela condição infraestrutural, omissa ou desqualificada. Assim, podemos concluir que, tal como acontece com as ligações externas, onde se verifica que as conexões locais aos corredores transversais rodoviários, de grande velocidade, não servem adequadamente a região, também nas ligações internas podemos afirmar que não evoluíram no sentido de aproximar as margens e estreitar cumplicidades entre populações próximas, residentes a curta distância, mas distantes face aos serviços de mobilidade e transporte disponíveis. Quanto às ligações em mobilidade suave, entrando aqui as ciclovias e vias para pedestres, podemos afirmar que são inexistentes, ou meros projetos truncados e inacabados. A água do Rio Mondego, da qual Montemor usufrui para os regadios dos campos e para acolher aquele que é o maior centro desportivo náutico do país, é a mesma água que provoca constrangimentos nos períodos mais chuvosos. Entendese que essa relação ambígua que o território tem com o rio, confere força e fraqueza, simultaneamente, e deve ser devidamente analisada e transformada para uma relação resiliente, de equilíbrio entre ser humano e natureza, através de programas diversos que podem ser de foro turístico, cultural, desportivo, entre muitos outros. Neste mesmo sentido de análise, surge o tema da agricultura que pode ser mais bem desenvolvida ao reinventar-se e apostar noutras colheitas ou formas de produção mais ecológicas. Assim, esta atividade deixaria de conferir fraqueza ao território para ser uma frente de força e identidade regional, com espelho nesta localidade. Imagem 15 : Vida Quotidiana em Montemor-o-Velho 39 Montemor-o-Velho é uma vila cheia de potencial para atrair e albergar novos residentes e para satisfazer diferentes necessidades dos seus habitantes, visitantes e demais públicos ocasionais. O que falta, neste momento, é um reconhecimento e valorização adequados do território, e um entendimento das oportunidades de crescimento em equilíbrio, que a paisagem favoravelmente potencia, fazendo frente aos objetivos do desenvolvimento sustentável preconizados pela ONU. Imagem 16 : Cabana Representativa da Infância 41 2. A FELICIDADE NA ARQUITETURA 2.1. COMO ME OCORREU INVESTIGAR A FELICIDADE? Desde que me lembro que afirmo ser feliz! Mesmo ainda sem consciência da aceção da palavra, repetia vezes sem conta que eu sim, seria a pessoa mais feliz do mundo. Hoje, questiono-me porque o faria, e encontro a resposta talvez nos encontros anuais de toda a família no verão. Nas tardes passadas na floresta com os primos a fazer competições da melhor cabana construída. Os eucaliptos maiores serviam para a estrutura, os troncos mais secos eram utilizados para erguer as paredes, desfiavam-se as folhas de espadaneira para conseguir fixar tudo e acabávamos com os galhos perdidos para a cobertura e os tapetes de musgo para o revestimento do chão. Embora os idiomas falados não fossem os mesmos, era ali que sentia a felicidade plena. Talvez ali tenha começado o sonho de perseguir a arquitetura, que já então inocentemente esboçava, e a vontade de poder transportar este sentimento para os outros e para o espaço construído. Nos primeiros anos da licenciatura fui aprendendo como realmente se erguiam as paredes ou se montavam as estruturas, e a cada ideia que resultava nas longas conversas com os professores, sentia-me com oito anos novamente. Numa visita ao Pavilhão de Barcelona, projetado originalmente pelo arquiteto Mies Van Der Rohe, senti o verdadeiro poder que a arquitetura pode ter. O ato de criar espaços com uma simples conjugação de planos, fascinou-me. A escolha aparentemente simples dos materiais e o rigor da construção é algo tão natural que nos faz perder no tempo enquanto o observamos. Esqueci-me da complexidade do mundo, enquanto apreciava a junção do travertino com os panos de vidro. Serena, deixei de sentir as barreiras das divisões verticais entre o que é espaço interior e exterior. Estava feliz. Mies Van Der Rohe conseguiu transmitir-me felicidade na forma mais pura e simples da geometria que ali desenhou. Durante o tempo de confinamento, no início do ano letivo de 2021-22, o Núcleo de Estudantes do Departamento de Arquitetura (NUDA) organizou umas palestras com diferentes arquitetos conhecidos. Num primeiro momento de descoberta, e já muito empolgada com o tema, tive a oportunidade de conversar com alguns deles e Imagem 19 : Capa do livro “Cidades para Pessoas” do Jan Gehl 49 2.2. COMO DESENHAR A FELICIDADE? São já muitos os mestres, os filósofos e psicanalistas que estudaram e estudam o conceito de Felicidade. De Epicuro a Erich Fromm, são inúmeras as definições desta palavra. Individual ou coletivamente, constante ou momentânea, com mais ou menos sofrimento ou prazer, a felicidade nunca vai poder ser entendida de uma só forma. Esta será sempre a primeira premissa que se deve entender e aceitar. Ao entender a perspetiva dos arquitetos de referência próximos sobre o como traduzir a felicidade na profissão, revelou-se o passo seguinte: tratava-se de ir à procura dos mestres que já trabalharam esta questão do bem-estar social ou do conforto individual, para conseguir compreender alguns conceitos e partir para uma proposta sustentada. Ser feliz é, talvez, o desejo que mais se ambiciona para o futuro. É a acreditar que um dia seremos felizes que trabalhamos diariamente, porém, é sobre uma constante aceleração que temos vivido. Produzir mais e melhor é o objetivo para o qual a ‘Era da Máquina’ nos condicionou a habituar. Não ter tempo e ficar horas presos no trânsito, ou deixar para mais tarde pois ...“agora não dá muito jeito”, são desculpas constantes que invocamos na gestão das nossas vidas, até que acabamos por nos esquecer do desejo inicial. Ser feliz! O mesmo acabou por acontecer com a gestão dos nossos territórios. “Em sintonia com a florescente expansão urbana, o desenvolvimento da cidade transferiu-se para profissionais, os urbanistas. Teorias e ideologias começaram a substituir a tradição como base para o desenvolvimento. O modernismo teve enorme influência, com sua visão de cidade como máquina e com suas partes separadas por função. Aos poucos, um novo grupo, o de [planeadores] de tráfego, entrou em cena com suas ideias e teorias de como garantir as melhores condições – para o tráfego de veículos.” (Gehl, 2010, p XIV) Jan Gehl já nos alertou para a gravidade deste problema. Há décadas que a dimensão humana parece ter sida deixada de lado quando se pensa no planeamento urbano das cidades. Percebemos a dimensão do problema quando vemos a Imagem 20 : Esquisso de Automóveis na Alta de Coimbra 51 acomodação que o veículo automóvel tem no nosso dia a dia. O último século mostrounos o crescimento exponencial, massivo e praticamente intolerável da adesão que o automóvel tem tido nas nossas vidas. Cada um tem o seu, e é incrível como surge sempre uma qualquer justificação para o usar, obrigando à invasão dos espaços públicos, desmedidamente. Naturalmente, são as praças, os centros históricos, as ladeiras ou até os passeios que acabam por sofrer uma mutação funcional: deixam de ser espaços públicos de qualidade e de agregação e passam a ser autênticos parques de estacionamento. “…para além de nos empurrarem contra as paredes das ruas estreitas precisam ainda de espaço para estacionar, resultando na utilização inapropriada dos espaços públicos, indispensáveis para a vida em comunidade. Hoje, saio de casa em cima da hora com a minha cápsula, conduzo-a até à frente do edifício onde trabalho, e entro, à pressa, sem pisar a calçada – isto é, se o parque já não estiver cheio. E mesmo que esteja ainda não aprendi a lição e amanhã volto com o carro. Não interessa onde o arrumo despois, qualquer canto serve. […] ao subir as escadas monumentais – que me lembram porque é que preferia o carro – sou privado da recompensa que a subida promete. Sinto pena dos arquitetos do Estado Novo que rasgaram a Alta: agora em vez de ver a estátua de D. Dinis e, no plano de fundo, a Cabra, sou confrontado com uma muralha de máquinas e um exercício de agilidade, encolhendo a barriga para poder passar por entre os espelhos dos carros estacionados. Mas que importa? Que interessa para o meu quotidiano que o arquiteto tenha tido o cuidado de desenhar o espaço? Ao menos estacionei perto da faculdade!” (Carvalho, 2019, p.32-33) Passaram-se a valorizar as soluções “fáceis” para as necessidades que parecem fundamentais, perdendo-se assim outros valores, como a proximidade das relações quotidianas. O ser humano deixou de ser uma prioridade. As pessoas fecham-se em casa, nas escolas e nos escritórios, reduzindo a cidade às deslocações mínimas entre os inúmeros interiores que habitamos. Contribuirá esta corrida diária para a nossa felicidade? Felizmente, já se começaram a introduzir alguns princípios para a moderação do tráfego e voltou a crescer o interesse pela construção de áreas dinâmicas e de Imagem 21 : Cultura da Bicicleta na Cidade de Copenhaga 53 uso misto. As cidades crescem rapidamente e o crescimento urbano vai continuar acelerado nos próximos anos. De uma forma geral, e em todas as cidades e meios urbanos, serão necessárias mudanças cruciais em relação aos prossupostos de planeamento e às suas prioridades. A visão de cidades vivas, seguras, sustentáveis e saudáveis é hoje um desejo universal, e é urgente cumpri-lo. A cidade sustentável cresce quando grande parte do seu sistema de transporte passa a ser feito por meio da mobilidade suave, ou seja, deslocando-nos a pé, de bicicleta ou em transportes públicos. Reduzem-se os consumos, limitam-se as emissões tóxicas, e os níveis de ruído também diminuem, acentuando-se assim benefícios económicos e ambientais.. “Reforça-se o potencial para uma cidade segura quando mais pessoas se movimentam pela cidade e permanecem nos espaços urbanos” (Gehl, 2010, p. 6) Há décadas que a cidade de Copenhaga tem adotado estas preocupações e tem vindo a restruturar, ano após ano, os seus espaços públicos e as redes viárias. Os habitantes são convidados a pedalar mais, removeram-se faixas de rodagem e áreas de estacionamento para instalar um conjunto de ciclovias, alterando claramente os padrões de uso da cidade. Este movimento aumentou significativamente entre 1995 e 2005 e, em 2008, mais de 37% da população afirmou utilizar a bicicleta como meio quotidiano de transporte pessoal. Assim, a cidade vai melhorando sistematicamente as condições de vida urbana, promovendo a movimentação e a intensificação das relações interpessoais. Ainda que as escalas das cidades não sejam idênticas, nem os ritmos urbanos precisem todos das mesmas medidas, é necessário começar por reforçar alguns objetivos para que se consiga garantir, não só aos moradores, mas também às pessoas que estão de passagem, uma sensação de conforto e segurança em conformidade com as suas atividades diárias. Os edifícios construídos precisam de nos garantir essa realidade. É indispensável tornar a cidade viva, destacar as oportunidades sociais e culturais, tornando os espaços públicos atrativos e capazes de acolher e transmitir as oportunidades para uma imensa variedade de funções urbanas. Imagem 22 : Catedral de Westminster 55 Mas, pode um edifício comunicar estas vontades? A verdade é que ... “pode ser estranho iniciar uma conversa sobre o que um edifício está a dizer.” (Botton, 2013, p.108) mas a resposta pode ser positiva. No fundo, todos têm algo que nos querem dizer ou uma ideia para transmitir, basta estarmos recetivos e atentos às histórias que eles nos querem contar. Talvez tenha sido a arquitetura religiosa a primeira a atribuir importância ao papel que o ambiente construído tem na determinação da identidade. O próprio princípio da arquitetura religiosa tem, na sua origem, a noção de que o lugar onde estamos determina de forma marcante aquilo em que somos capazes de acreditar. “Impelido pela chuva e pela curiosidade, entrei no átrio cavernoso, mergulhado numa escuridão profunda na qual se destacava um milhar de velas votivas (…). Havia aroma de incenso e sons de orações murmuradas. No centro da nave, pendia do teto um crucifixo de dez metros de altura, com Jesus de um lado e Sua mãe do outro (…) rodeado de anjos (…). O ruído fútil do mundo exterior dera lugar ao respeito e ao silêncio. As crianças mantinham-se ao lado dos pais e olhavam em redor com um ar de confusa reverência. (…) O anonimato da rua ficara ali subordinado a um tipo especial de intimidade. Tudo o que era sério na natureza humana parecia ser trazido á superfície: pensamentos sobre limites e infinito, sobre fraqueza e a sublimidade. (…) Ao fim de 10 minutos na catedral, uma série de ideias que teriam sido inconcebíveis lá fora começaram a assumir um aspeto de razoabilidade. Sob a influência do mármore, dos mosaicos, da escuridão e do incenso, parecia completamente provável que Jesus fosse o filho de Deus e que tivesse caminhado sobre o mar da Galileia.” (Botton, 2013, p, 121,122) O mesmo pode acontecer com os edifícios comuns com os quais estamos habituados a lidar no dia a dia. Conceitos que parecem impensáveis a uns quarenta metros de distância, podem, através de uma obra arquitetónica, tornar-se bem reais. Então, como é que encontramos a felicidade num edifício? O sentido de beleza e a perspetiva acerca de uma boa vida estão interligados. Somos capazes de admirar uma pessoa e o seu comportamento ou apreciar objetos e determinadas ações quando, no fundo, lhes identificamos valores que achamos Imagem 23 : Criatividade no Ambiente Urbano 57 louváveis. Normalmente valorizamos atributos positivos, como a amizade, a bondade, a subtileza, a força ou a inteligência. O mesmo acontece com os edifícios que nos rodeiam. Os materiais, as formas e cores utilizadas, tudo nos acaba por transmitir, sempre, uma qualquer ideia ou convicção, da qual acabamos por gostar mais ou menos consoante o valor que lhe identificamos. Assim como recordamos a infância através do cheiro de um detergente ou de uma chávena de chá, podemos evocar em todas as arquiteturas uma cultura ou história, simplesmente ao reparar num determinado angulo ou expressividade das suas linhas retas. Stendhal, escritor francês, ofereceu-nos uma expressão encantadora sobre a ligação entre o gosto visual e os nossos valores, quando escreveu “a beleza é a promessa da felicidade” (Botton, 2013, p. 109). O amor pelo que achamos belo interliga-se com as qualidades que necessitamos para progredirmos enquanto seres humanos. Ao entender que a humanidade nunca chegaria a um consenso no que diz respeito aos gostos visuais ou preferências éticas, sublinhou ainda: “há tantos estilos de beleza quantas as perspetivas de felicidade” (Botton, 2013, p. 109). De uma forma indireta, contamos que os edifícios que nos rodeiam nos recordem os estados de espírito ou ideias que respeitamos. Procuramos associações de paz nos nossos quartos, metáforas de generosidade e harmonia nas nossas cadeiras e um ar de honestidade e fraqueza nas nossas torneiras. Mas, bastarão estes detalhes para garantir um ambiente feliz no espaço? “É necessário criar as condições físicas prévias ou uma plataforma a partir das quais a base das atividades ou a atmosfera de uma cidade se possam desenvolver. Um «ambiente criativo» é um lugar que contem os requisitos necessários em termos de infraestruturas para gerar um fluxo de ideias e invenções. Um ambiente pode ser um edifício, uma rua ou um bairro (…)” (Landry 2017, p. 26) Se, por um lado, Alain de Botton nos mostra como nos aliamos à felicidade individual nos espaços construídos, como nos satisfazem as linhas simples ou a complexidade do ornamento em cada edifício, a ideia de Cidade Criativa, que nos apresenta Charles Landry, é sem dúvida fundamental para a construção de atmosferas ideais para o conforto coletivo das comunidades. Imagem 27 : Fotomontagem Ilustrativa da Estratégia de Turma 65 Vamos em busca de uma simbiose, de uma nova mentalidade, de um novo modelo espacial que assuma a responsabilidade sobre o papel que tem na transformação da paisagem e do território que ocupa, e que o faça de forma mais consciente e equilibrada, visando não só a regeneração da natureza em tudo o que ainda for possível, mas também a preservação da própria existência das comunidades e a sua qualidade de vida. Colocam-se, assim, as pessoas, os seres humanos enquanto espécie que é principal interveniente, como centro na esfera de ação. ESPAÇOS NATURAIS - ÁGUA Soluções baseadas na natureza Zonas de recreio Renaturalização Expansão Filtração Cidade esponja ESPAÇOS NATURAIS VERDES Soluções baseadas na natureza Parques Regeneração Biodiversidade Agricultura Floresta Pauis OCUPAÇÃO HUMANA Turismo Desporto Tecnologia Mobilidade Economia EQUILÍBRIO Ecologia Felicidade Prosperidade Sustentabilidade Identidade Simbiose Imagem 28 : Diagrama de Cores e Conceitos de Base para a Estratégia Territorial 67 3.2. DEFINIÇÃO DAS CORES Promover diretamente a proximidade, a mobilidade suave, a inclusão social e a defesa do património natural, são intenções que acreditamos ser capazes de ver desenvolvidas com pequenas mudanças de atitude, a partir de pequenas intervenções, criando um evento em cadeia até gerar grandes mudanças. De forma a sintetizar e clarificar a leitura de toda a estratégia pensada para o território, foi criado um sistema de cores que organiza o pensamento e ações de intervenção, no Baixo Mondego, de acordo com a essência dos espaços que tratam. É frequente o cruzamento dos diversos temas, onde as intervenções englobam mais de uma cor, o que revela a simbiose indissociável entre os vários elementos. Dividimos assim, as nossas intervenções em quatro vertentes principais: o Verde, o Azul, o Vermelho e o Amarelo, que expressam a estratégia assente sobre os dois pilares estruturantes: os espaços naturais e os espaços urbanizados. 3.2.1. VERDE – ESPAÇO NATURAL As cidades, enquanto habitat humano por excelência, constituem-se de diferentes formas e organizações pelo mundo. A forma como as construímos e o cuidado com a relação com o espaço natural é que se tem mostrado desajustado, em todos os sentidos. Existe uma exploração intensa como se as consequências não nos afetassem no futuro. No entanto, o seu imenso crescimento, acompanhado de todos os seus desfechos, evidenciaram a necessidade de integração ativa de espaços verdes na cidade, obrigando a adotar estratégias de simbiose que capazes de conduzir relações urbanas diárias e intensas com o meio natural. Le Corbusier foi um dos mestres da arquitetura a perceber a emergente mudança de linguagem na forma de pensar e construir as cidades e os seus edifícios. Se até meados dos anos trinta era defendida a ideia de que os edifícios deviam ser quase como envelopes, independentes, capazes de permanecer a uma temperatura estável de 18ºC, completamente autónomos relativamente ao ar exterior, as temperaturas exteriores e às atmosferas envolventes, como é por exemplo o edifício governamental Centrosoyuz Building contruído em Moscovo, na Rússia em 1933. É a partir do início da década de cinquenta que se dá uma mudança radical de Imagem 29 : Potencial Agrícola do Baixo Mondego 69 sensibilidade quanto aos contextos climáticos. Corbusier percebe a necessidade que a cidade tem de funcionar como um mecanismo que envolve diversos órgãos e diversas camadas e transporta-a não só para os edificios governamentais, como é o caso do Assembly Palace em Chandigarh, construído entre 1951-1962. “Espaço Verde Urbano” é a definição mais direta que temos desta necessidade de reaproximação do espaço urbano com o espaço natural. No entanto, é necessário perceber que este conceito tem de ir alem da beleza associada a um parque ou a um jardim. Nesta estratégia, atribuímos o Verde a todas as áreas naturais e de paisagem primária existente: as hortas ou quintais, as encostas revestidas, a vegetação de proteção das vias, as zonas de proteção ambiental, a vegetação das margens dos rios e lagos, as zonas agrícolas e as zonas florestais, de produção ou conservação. Todos estes espaços são importantes para o controlo e dinamização do clima, tal como para melhoria da qualidade do ar, do conforto térmico ou para a permeabilização dos solos. Neste território, são particularmente atraentes as comunidades biológicas que o caracterizam, cujo potencial deve ser valorizado, regenerado e até expandido, de modo a conectarem-se e a favorecer o reforço dos corredores ecológicos. A contribuição que estes espaços podem ter na prevenção e mitigação dos efeitos das alterações climáticas é enorme e são considerados, nesta estratégia, como instrumentos de planeamento territorial e urbano que contribuem para a sua sustentabilidade. O olhar atento sobre a agricultura torna-se fundamental na definição desta estratégia, principalmente pela escala que tem na ocupação deste território. O uso abusivo da água, a constante erosão dos solos e a exploração intensiva em monocultura, são problemas que esperamos ver resolvidos introduzindo novos modelos e praticas regenerativas. Os projetos desenvolvidos pelo André Martins com a Comunidade Agro-Produtiva Experimental e pela Maria Vicente com as Piscinas Naturais orientam-se exatamente nestas diretrizes: diversificar a produção, potenciar a regeneração dos solos em conjunto com a pecuária e a silvicultura sustentável, associando com a participação das comunidades adjacentes. Estas medidas são baseadas nas questões e soluções apresentadas no conceito de Cidade Imagem 30 : Dique em Montemor-o-Velho 71 Esponja, que procura garantir uma maior absorção de água pelos solos, o que é o processo natural, além do aproveitamento da água das chuvas e a convivência pacífica com o rio. O objetivo passa por colocar estas práticas à disposição da urbanidade e do meio ambiente, para que sirva, futuramente, como exemplo e caso de estudo para a implantação de mudança de paradigmas noutros territórios. 3.2.2. AZUL – ESPAÇO NATURAL É já longa a batalha das tensões do percurso do rio Mondego com as suas comunidades adjacentes. A sua artificialização é tal que hoje, restringe-se apenas aos seus usos técnicos. Não deixamos de parte esta realidade, e por isso, atribuímos o Azul, às intervenções que se cruzam com o percurso destas águas, aptas de atribuir novas estratégias de contenção, sem o reprimir, mas sim de maneira a libertar-se. Identificamos algumas zonas frágeis, que resultam das constantes cheias, e consideramos um dos pontos de partida essenciais. As interceções do rio com os seus afluentes incitam uma súbita mudança da direção das águas, aumentando e capacidade e velocidade normal do caudal. Ao analisar transversalmente estas zonas, é fácil perceber que as soluções dos diques, por norma, estão a uma cota mais alta na margem sul, o que acarreta problemas graves na margem oposta em época de cheias. Assim, sem querer insistir em soluções já usadas e sem grande eficiência, partimos para uma solução que cumpra e respeite a vontade própria da natureza, aumentando a largura do leito do rio, bem como a criação de bacias de retenção nas interseções dos vários afluentes com os trajetos principais. Isto permitirá um alívio e uma melhor distribuição do caudal do Mondego e afluentes, reequilibrando deste modo, o contraste existente entre as duas margens - entre os rios velho e novo. Embora não estando em total concordância com algumas das soluções que já existem ao longo do rio mondego, descartá-las não será opção. Agimos assim numa espécie de manipulação dos diques, por exemplo, para a construção de locais de uso sazonal ou regular ao longo de todo o ano, na tentativa de encontrar uma simbiose quase natural entre a água, as pessoas e o meio urbano envolvente. Imagem 31 : Vila de Montemor-o-Velho 73 O ciclo da água e a forma como este funciona e se relaciona com o meio urbano, é fundamental para atingirmos a sustentabilidade necessária deste território, e como a visão que temos é holística, a consideração de todos os espaços naturais que o caracterizam e a sua relação com a urbanidade são também alvo de um estudo aprofundado para atingir esta coesão. 3.2.3. VERMELHO – ESPAÇO E SISTEMA URBANO Atribuímos o Vermelho aos espaços e intervenções relacionados com a ocupação e posicionamento da sociedade atual. Com a rápida revolução cognitiva, o ser humano foi-se libertando da natureza e dos recursos endógenos de que já foi, um dia, totalmente dependente. Começou por explorar e domesticar o meio ambiente com o intuito de explorar recursos, para depois encetar modos de produção capazes de satisfazer outras necessidades, que levaram à criação de estratégias de ação coletiva, acabando por gerar, em massa, as novas sociedades. Estas são hoje mais interdependentes, e reféns dos sistemas de distribuição e mobilidade, do que da condição territorial local. Por definição, a nossa estratégia começa pela reflexão sobre o papel que os pequenos aglomerados, nomeadamente, nesta região específica, devem cumprir na fixação de uma identidade e afirmação da coesão territorial, e como se podem estabelecer as ligações entre os vários subsistemas que eles integram. Montemor-o-Velho, como sabemos, está no epicentro de uma geografia urbana difusa, de carácter suburbano, assumidamente rural. No atual modelo, tem de ombrear com a atratividade e visibilidade dos dois grandes polos urbanos que ocupam os extremos da região, Coimbra e Figueira da Foz. É um município que, como os da sua vizinhança, coabitam numa região ainda ligada a tradições e costumes rurais, o que nos permite assumir o seu desenvolvimento de uma perspetiva que não envolve os habituais constrangimentos físicos que um grande centro urbano implica. Consideramos que a economia é um tema central e transversal a todos os temas que propomos. Hoje, tudo depende da resposta positiva que se dá a esta questão, e embora se pretenda mudar este estigma, assente na ideia de crescimento Imagem 34 : Paul do Taipal 81 e bem servidos pelas novas rodovias, nas pequenas cidades próximas, acentua um fenómeno reconhecível nos espaços do velho burgo medieval e central de Montemor. A requalificação urbana deste território pode passar pela reabilitação dos edifícios que o permitam, e assim atribuir programas que dinamizem os próprios aglomerados. Neste sentido, surge o projeto Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-oVelho – Ativar Modos de Vida Saudáveis e Felizes. 3.2.4. AMARELO – NOVO ANTROPOCENO Vivemos num sistema complexo, numa época onde o nosso planeta se altera dramaticamente, e por isso, devemos refletir sempre na importância e no papel que ocupamos. Nesta nossa era, de quase domínio total sobre os ecossistemas, existe a sensação de estarmos num ponto de charneira entre um passado e um futuro absolutamente distintos. As portas da ciência que temos à nossa frente prometem revolucionar as raízes fundamentais que geram e guiam os alicerces das próximas sociedades, desta forma, compete-nos, enquanto seres humanos definir que tipo de futuro ambicionamos. Trabalhamos para um mundo distópico, ou devemos tentar reequilibrarmonos com os ecossistemas e biodiversidade, e todo o potencial criativo da natureza? A verdade é que os atuais paradigmas que enfrentamos requisitam estabilidade, sustentabilidade e prosperidade. E é sobre eles que se foca o nosso trabalho. Atribuímos o Amarelo à consciência do impacto que temos no mundo. Como arquitetos, construtores e intervenientes no espaço, devemos projetar o futuro que queremos viver. O grande poder que temos em mãos deve ser utilizado de forma gradual, e antes de partir para grandes revoluções, devemos ser capazes de induzir padrões de bem-estar gerais, seja através da construção do meio urbano ou da reconstrução de espaços naturais para a biodiversidade, seja através de intervenções mais pequenas ou de maior escala. O mundo atravessa atualmente uma grave crise pandémica, que tem sido importante para pensar. Pensar no verdadeiro impacto que toda a tecnologia teve na nossa forma de estar e de compreender o mundo, pensar na mentalidade consumista que se tem vindo a implantar e pensar um sentido mais comunitário 83 para a vida das populações. Embora ainda não dominemos o verdadeiro impacto deste crescimento fugaz, sentimos que é apenas do Homem que poderá surgir o primeiro passo, da consciencialização e compreensão da forma como cada nação é capaz de responder, ou não, às necessidades de cada um. Assim, o Amarelo é a cor central, comum a todas as intervenções propostas, que em conjunto se propõem reinventar o Baixo Mondego, para proporcionar maiores e melhores oportunidades às suas populações, aumentando a sua qualidade de vida e os limiares de felicidade que podem ambicionar experimentar, nas ações do seu quotidiano. Imagem 35 : Burgo Muralhado 85 3.3. O BURGO Como foi descrito nos capítulos anteriores, Montemor-o-Velho é hoje uma cidade desvalorizada. Podemos olhá-la como uma pequena povoação, central no Baixo Mondego, com todas as características para aí se poder usufruir de uma enorme qualidade de vida, ou para experiências de excelência, mas que, no entanto, se deixou levar pela ascensão da era da máquina, com todas as “falsas ilusões” e comodidades que esta tendencialmente oferece, caindo num declínio já inúmeras vezes visto e revisto. O que vamos apelidar de Burgo desenha-se sobre a colina do castelo, como um casario modesto, disperso e entrecortado por ruas e caminhos estreitos. Constitui, no entanto, um corpo contínuo, contornando as muralhas históricas pelos quadrantes nascente, sul e poente. Hoje, está muito reduzido à condição de ruína e memória arqueológica. Muito marcado pelo muros e barbacãs da velha muralha remanescente à cota alta, estende-se até à frente ribeirinha através de uma malha envolvente, de origem híbrida, medieval e moderna, que se fechava na estrada nacional que corria junto ao rio. O desvio da antiga estrada nacional (EN-111) de ligação a Coimbra, que outrora percorria a zona baixa da cidade frente ao rio e seguia para nascente, vinda do litoral, esvaziou muitas das dinâmicas urbanas, arrastando-as para norte e poente. os residentes foram atraídos pela ilusão fácil da mobilidade e acessibilidade rodoviárias, pelos acessos desimpedidos e pela progressiva instalação de equipamentos e outros serviços urbanos. Esta pluralidade da oferta puramente funcional já foi, em tempos, o principal fator de valorização da escolha dos locais de residência — e ainda o é para algumas famílias clássicas com filhos em idade escolar —, mas o paradigma está a mudar, e as escolhas, hoje, assentam noutras qualidades urbanísticas e urbanas. Aparentemente estruturante, a nova via de circulação fez com que se configurasse um novo futuro para aquele lugar. Tudo se perspetivava para que a dispersão urbana acontecesse, alheando-se do pequeno bairro histórico, qual “velha senhora” ladeada por um “séquito” de significativos e incaracterísticos “dormitórios periféricos”, que servem sobretudo a cidade capital regional, alojando os “escravos” da comutação quotidiana para Coimbra. Misturaram-se por aí os serviços e indústrias, Imagem 36 : Acessos Mecânicos 87 os pequenos bairros ou novos quarteirões residenciais indiferenciados, sem história nem valor particulares. Espraiou-se Montemor, num processo insensível e ilusório, onde quase se perdeu o velho burgo histórico que urge agora resgatar! Apesar de tudo, ao longo dos anos, os executivos municipais foram reconhecendo algumas dessas fragilidades que a povoação tem acumulado, e até avançaram com diversas estratégias de reabilitação urbana. O município tem identificados e decretados os instrumentos de reabilitação urbana, como as ARU, ORU e PERU, que delimitam as zonas mais sensíveis e degradadas pelo tempo, com alvo principal no seu património cultural e edificado. Defendem o seu centro histórico ou as áreas naturais protegidas, com vista à construção de uma renovada paisagem urbana consolidada. Há mesmo, inclusive, já instalados, alguns programas e espaços públicos reabilitados, e equipamentos especiais, que vão ao encontro desses objetivos pré estabelecidos. Os Acessos Mecânicos, que unem diretamente a cota alta à cota baixa facilitando o acesso a todos os habitantes, ou as reabilitações do Teatro Esther de Carvalho e do palacete onde está instalada a recente Biblioteca Municipal, ou do Velho Mercado, tal como a instalação da Casa de Chá dentro das muralhas do Castelo, são obras existentes que, melhor ou pior, tentaram e revelam a perseguição de uma política municipal capaz de impulsionar o processo desejado de regeneração urbana, incentivando novas gerações a habitar e usufruir do seu centro histórico. Também assim acontece com os programas de revitalização do comércio tradicional e a captação de novas atividades, e com o estímulo às dinâmicas económicas e culturais locais. Diferentes objetivos, diversas estratégias, mas sempre a ambição de habitar uma cidade feliz, acolhedora e inclusiva, onde o papel de todos e de cada um pode ser reconhecido e valorizado, numa complementaridade coletiva, cúmplice e comunitária. Partimos, assim, num primeiro momento, para uma estratégia que identifica o conjunto de polos mal aproveitados e abandonados, e que propõe novos programas de inclusão. Com base na cultura, o objetivo é, desde logo, o de criar modos de vida sociais mais interessantes para os moradores envelhecidos deste bairro, atraindo para aqui novos habitantes, proporcionando-lhes uma melhor qualidade de vida, numa incontornável cenografia ambiental desenhada à escala das pessoas, equilibrando a felicidade da comunidade como a felicidade pessoal de cada indivíduo. Edificios Públicos Edifícios Devolutos com Potencial para Programas de Reabilitação Urbana Edifícios Devolutos com Proposta de Habitação Colaborativa 1. Muralha 2. Posto de turismo 3. Igreja de Santa Maria da Alcáçova 4. Teatro Esther de Carvalho 5. Novo Mercado 6. Junta de Freguesia 7. Igreja de Misericórdia 8. Câmara Municipal 9. Santa Casa da Misericórdia 10. Igreja de São Martinho 11. Biblioteca Municipal Legenda: Imagem 37 : Planta de localização dos edifícios devolutos, escala 1:2000 Quarteirão do Artes 89 Para que tudo isso aconteça, importa fixar objetivos claros, encontrar os públicos certos, convocar os meios e os instrumentos adequados. Este meandro do velho burgo a poente é uma bolsa especial. Entre ruelas que envolvem a Igreja e o seu adro, sobranceiro ao novo Parque Lagunar — proposto e desenhado pela colega Maria Vicente —, que se fixa na frente ribeirinha, surgem, por entre muros e ruínas, pontos de vista únicos sobre o vale, ressaltando as paisagens sublimes e o conjunto de oportunidades para o recreio e o lazer, ou desporto informal, que servirá de modo muito positivo os futuros residentes. O primeiro passo é bastante simples, atribuir programa ao conjunto edificado e grandemente devoluto, que se alonga pelo mais relevante percurso, encurvado e circular, sublinhando a topografia. Ele percorre o bairro seguindo pela rua Mendes Pinheiro até à rua Direita do Castelo. A decisão recaiu sobre a possibilidade de, face à curta extensão e proximidade, lhe reatribuir a velha função de alojamento, mas segundo novos programas de Habitação Colaborativa. Ao encontrar alguns espaços para serviços comuns e estadias coletivas, pode ativar-se a independência individual de outros idosos que, em conjunto e proximidade, poderão potenciar os seus saberes e experiência, partilhando-os e beneficiando da entreajuda, e da partilha, de um modo natural e inclusivo. Essas residências, juntamente com aquelas que ainda estão hoje habitadas neste bairro, passarão a oferecer uma ambiente mais seguro e coeso para se coabitar, nestes novos tecidos urbanos reabilitados. Em paralelo, todos os outros edifícios com maior capacidade edificatória — pois na generalidade o parque é muito diminuto —, poderão acolher novas famílias, de escalões etários ativos, pelo que a possibilidade de alargar a integração de um modo intergeracional irá certamente ocorrer. Jovens ativos e sem filhos, ou com crianças pequenas, podem beneficiar muito deste ambiente seguro e relaxado, sobretudo se o teletrabalho, que se avizinha como futuro promissor, se tornar uma realidade recorrente. Um processo singelo como este, de regeneração urbana criativa e inovadora, destina-se a grupos interligados de alojamentos que podem funcionar, duplamente: num regime de coabitação (‘co-housing’); articulado com um regime livre de arrendamento apoiado ou rendas bonificadas. Podemos e estamos a falar de uma parte da cidade, e de fogos, ativados como escolhas conscientes, destinadas a simplificar e otimizar a qualidade de vida de diferentes grupos etários, evitando a uns, a institucionalização e a perda de independência, com a correspondente perda Imagem 41: Diagrama com a marcação das entradas principais do Quarteirão das Artes 97 dos espaços domésticos podem ser reencontradas. assim, abrem-se, a partir de todos os quadrantes desta intervenção possíveis ligações a um jardim central, onde reside o coração público deste programa múltiplo. Através de pequenos rasgos préexistentes, entre casas ou muros, permitem-se vias de penetração e cruzamentos que se intersetam neste centro do Quarteirão das Artes. E, sobre cada uma dessas penetrações, abrem-se diferentes conteúdos programáticos, que maioritariamente aproveitam e integram as construções preexistentes A partir de um dos patamares dos acessos mecânicos ao castelo, o Quarteirão das Artes ganha visibilidade e abre-se, com acesso direto ao espaço da galeria de exposições. Esta será apenas uma porta convite, insinuante, que nada oferece de óbvio, pois penetra por baixo o programa e só aos poucos vai revelar as inúmeras possibilidades de exploração. Rompe-se no imponente muro branco que dá suporte ao último lanço de escadas rolantes, criando esta porta nascente, e abrindo um percurso interior que revela aos poucos mais surpresas. Inicialmente é um espaço tenso, que desenha um longo corredor com cerca de dezasseis metros de extensão entre muros, também de contenção de terras, que conduzem a uma generosa sala de exposições e atividades dividida em dois patamares. Por se tratar de um espaço novo, que nesta cota baixa procura estabelecer articulações espaciais, é o betão à vista que ressalta como revestimento em contraste com a pedra de granito tradicional, muito usada em Montemor-o-Velho. A galeria para exposições, muito informal, liberta-nos para dois percursos alternativos. O primeiro, seguindo uma rampa que conduz ao patamar inferior da sala, onde se vai reduzindo a tensão criada pela dureza do betão e os muros de contenção. O espaço torna-se mais claro, abrem-se três generosas aberturas, de expressão vertical, por onde penetra a luz de nascente e sul. O pé-direito cresce e o circuito termina numa nova entrada/saída, rasgada na parede antiga da rua de contorno. Esta é também uma alternativa e escapatória de segurança, que ajuda a desenhar a permeabilidade do quarteirão. Mais uma vez, aqui, a construção nova de betão rasga o muro tradicional e característico do lugar, mas agora, pelo lado sul do mesmo. Imagem 42: Esquisssos dos Espaços Multiusos 99 O outro percurso percorre tangencialmente a galeria e termina com o acesso a uma caixa de escadas, onde incide luz vinda de um piso superior. Através dela chegamos à cota 35.50, onde se inscreve o centro ou coração deste projeto. Constrói-se, sobre os antigos abrigos de apoio agrícola, um novo corpo que segue os padrões tradicionais locais, com desenho recriado, que fomenta a criatividade e polivalência num espaço multiusos. Este é, claramente, um espaço principal, que se concebe seguindo o alinhamento do novo muro que fecha agora o perímetro do quarteirão pelo lado norte. No seu interior foi desenhado um amplo espaço, com painéis que o permitem compartimentar, adaptando-o às necessidades específicas de cada workshop ou formação que aí venha a decorrer. Uma estrutura em madeira, evocando as construções tradicionais e populares com a pedra existente, dialogam com os soalhos em pinho, em espaços invadidos pela luz natural. As salas, polivalentes, abrem-se ou fecham-se consoante o tipo de atividade que se pretende implementar. O mobiliário, simples e adaptável, faz parte deste exercício da criação do espaço. As portadas em ripado de madeira, pelo exterior, permitem o ensombramento e a proteção da radiação excessiva, mas também permitem reduzir a permeabilidade visual, sempre que for necessário. É um espaço novo, que se liga a um corpo existente a norte, e que se abre completamente para o interior do quarteirão. Pretende-se que, através dos panos de vidro e das portadas em ripado de madeira, que se elevam e estendem a cobertura do pequeno alpendre, sob o beirado da cobertura, se deixe de sentir a barreira entre interior e exterior. Possibilita-se assim que, nos dias de sol, o jardim funcione em total continuidade com a sala, aumentando o espaço de trabalho, e que deixe de ser percetível a reduzida área em metros quadrados, que efetivamente define cada módulo da sala. Ainda sobre este momento, importa referir a inscrição, no nível inferior e sob o volume existente no gaveto norte, de um pequeno auditório que aproveita o desnível do solo e alarga o espectro de atividades possíveis no quarteirão. Descolaram-se edifícios existentes, isolando volumes e programas, e abriu-se uma passagem estreita no lado poente, que aproveitou o percurso pela rua/escadaria que remata a Rua Imagem 43: Esquissos das Residências de Artistas 101 Direita do Castelo. Aqui o pequeno auditório é o programa de referência, associado a um pequeno módulo habitável, destinado a acolher convidados especiais. Quanto aos volumes existentes, reabilitaram-se sempre que possível, e mantêm-se as técnicas utilizadas, isto é: paredes estruturais em pedra, por vezes com rebocos pintados pelo exterior, e gessos cartonados pelo interior, para ocultarem as camadas de material isolante térmico. Próximos desta esquina sul/poente do Quarteirão surgem, portanto, os programas do pequeno auditório e do alojamento para convidados, que são completados ainda com a pequena loja para a apresentação e comercialização de produtos de referência regionais. Na mesma linha de pensamento que a do antigo programa municipal, não só se reabilita a residência para artistas, como se cria outro adicional, no edifício de pedra a vista que remata o longo muro de contorno, quando se circunda o quarteirão de poente para nascente, à cota mais baixa, pelo lado sul. Estas residências são pensadas como espaços para trabalho e, ainda, para ações de pedagogia e partilha. Assim, no piso inferior fixaram-se as áreas habitáveis e, na cota superior, os espaços de interação pontual, ou de aprendizagem e experimentação. É importante lembrar que todas as artes são aqui possíveis, desde as Belas-Artes, mais clássicas, às mais variadas formas de expressão musical, à dança ou à escrita criativa, ao teatro mas também às artes de rua, entre tantas e tantas outras disciplinas que, hoje, colonizam e animam o mundo das formas de expressão criativas. As ligações entre as artes e o design, com as artes performativas populares, ou as danças reginais, podem também ser alvo de eventos e ações dinâmicas, capazes de ativar populações, públicos diversos e diferentes grupos etários. Com o espaço de habitar no rés do chão e com um espaço de trabalho ou exposição no piso superior, estas habitações para artistas são, também elas, espaços polivalentes e preparados de modo flexível, para acolher agentes variados de áreas disciplinares muito distintas que farão deste “Quarteirão das Artes” um “hub” para a criatividade, onde vai fervilhar a dinâmica cultural, que é o pilar certo — embora recente (2009) e apenas o quarto —, para um desenvolvimento sustentável que os espaços arquitetónicos pretendem, também eles, proporcionar e ativar. Imagem 44: Planta de cobertura da proposta, escala 1:500 103 Fecha-se assim um ciclo que interessa aos visitantes ocasionais ou turistas, tal como a públicos mais especializados, interessados nos campos das artes e ciências sociais. É possível pensar que a atratividade do conjunto será virtualmente infinita, desde que se cumpram, em paralelo, as condições mínimas para a implementação dos programas de atividade! Na verdade, a arquitetura cria apenas a infraestrutura espacial. Contudo, num programa de regeneração urbana, importam outras condições de partida. Quando há oportunidades as comunidades aproveitam-nas, invariavelmente! E, depois de lançadas, elas tendem a alcançar pontos de equilíbrio que permitem que se auto sustentem por muito tempo. Trata-se de imaginar o programa e criar as condições adequadas, para que os processos sejam ativados. À arquitetura cumpre perceber o potencial espacial e fazer a sua exploração, de modo sensível e adequado, e assim, ativar a felicidade num todo! Imagem 45: Relação do Quarteirão das Artes com o Castelo de Montemor- -o-Vellho 105 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como é que a arquitetura potencia qualidades para garantir a permanência ou o retorno de uma condição de vida mais feliz? Perceber todas as esferas de ação que um grande território como o Baixo Mondego, ou numa escala menor, como Montemor-o-Velho, se nos revelam, permite nos chegar a um inequívoco parecer positivo, como resposta a esta questão fundamental. Apesar de individual, este é um trabalho que começou em equipa. Levantaramse questões, problemáticas, entenderam se atitudes e, acima de tudo, incitaram-se propostas conscientes que acreditamos, sem dúvida, que melhorariam a condição de vida não só dos habitantes, como também as de todos os ambientes vivos em cada paisagem caracterizadora do lugar. Confrontar o tema da Felicidade com os discursos de quem pensa o espaço, ou gere um território, pode parecer, em primeira instância, um elemento a desvalorizar. Mas a incontornável verdade, é que os lugares só funcionam no seu todo se, neles, as pessoas se sentiram confortáveis e felizes, se houver as dinâmicas certas que estimulam as pessoas a intervir, a participar. O Quarteirão das Artes é exemplo desta situação. Apesar dos esforços para ativar algumas funções, a vila e o centro histórico foram caindo no esquecimento, perdendo as suas gentes e tradições. E nada é mais triste do que assistir à decadência de todo um território, arrastando as povoações e os seus habitantes. A arquitetura tem um papel fundamental em todas estas questões, quando, ao garantir a qualidade dos espaços, garante o conforto e estimula a permanência e atividades dos seus habitantes. A forma como é possível influenciar ou intervir no quotidiano de cada pessoa, aproximando-nos delas, é algo que me fascina e que com este trabalho pude perceber muito melhor. Sentir o como, e o aquilo que devemos fazer, fazendo-o cada vez melhor. 113 SUMÁRIO DE IMAGENS Imagem 1 : Diagrama de Principais Aglomerados do Baixo Mondego (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 2 : Rio Mondego (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 3 : Castelo de Montemor-o-Velho (Fotografia de Christopher Ferreira) Imagem 4 : Ínsuas do Rio Mondego em Coimbra (Fotografia retirada do seguinte link: https://www.pinterest.pt/pin/448248969156177985/) Imagem 5 : Ponte Açude de Coimbra (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 6 : Frente Ribeirinha de Montemor-o-Velho (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 7 : Linha de Defesa do Mondego (Ilustração da turma de Atelier de Projeto ID) Imagem 8 : Aglomerados Urbanos no Baixo Mondego (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 9 : Variação da População entre 1900 e 2021 (Autoria da colega Sara Almeida, baseado em INE - Censos 1900, 1950, 1960, 1970, 1981, 1991, 2011 e INE – Resultados Provisórios dos Censos de 2021) Imagem 10 : Grupos Etários nas Unidades Territoriais em Estudo (INE –Censos de 2021) Imagem 11 : Nível de Escolaridade nas Unidades Territoriais em Estudo (INE –Censos de 2021) Imagem 12 : Análise SWOT concebida pela turma de Atelier de Projeto ID (Ilustração da turma de Atelier de Projeto ID) Imagem 13 : Principais Eixos de Expansão do Aglomerado Urbano (Ilustração da colega Sara Almeida) Imagem 14 : Campos Agrícolas de Montemor-o-Velho (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 15 : Vida Quotidiana em Montemor-o-Velho (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 16 : Cabana Representativa da Infância (Fotografia da autora) Imagem 17 : Autora com o arquiteto Eduardo Souto de Moura (Fotografia da autora) Imagem 18 : Arquiteto Carlos Antunes na Visita ao Atelier do Corvo (Fotografia da colega Ana Grave Ribeiro) 115 Imagem 19 : Capa do livro “Cidades para Pessoas” do Jan Gehl (Fotografia da autora) Imagem 20 : Esquisso de Automóveis na Alta de Coimbra (Ilustração de António Carvalho in revista Nu #45) Imagem 21 : Cultura da Bicicleta na Cidade de Copenhaga (Fotografia in Cidades para Pessoas de Jan Gehl, p. 10) Imagem 22 : Catedral de Westminster (Fotografia in Arquitetura da Felicidade de Alain de Botton) Imagem 23 : Criatividade no Ambiente Urbano (Fotografia in As Origens e os Futuros da Cidade Criativa de Charles Landry, p. 18 ) Imagem 24 : Cultura e Futuro na Cidade (Fotografia in As Origens e os Futuros da Cidade Criativa de Charles Landry, p. 43) Imagem 25 : Margens do Mondego (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 26 : Propostas desenvolvidas pelos elementos da turma (Ilustração da autoria da turma) Imagem 27 : Fotomontagem Ilustrativa da Estratégia de Turma (Ilustração da autoria da turma) Imagem 28 : Diagrama de Cores e Conceitos de Base para a Estratégia Territorial (Ilustração da autoria da turma) Imagem 29 : Potencial Agrícola do Baixo Mondego (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 30 : Dique em Montemor-o-Velho (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 31 : Vila de Montemor-o-Velho (Fotografia do Christopher Ferreira) Imagem 32 : Mapa da Rede Ciclável proposta pela colega Júlia Rodrigues (Desenho da colega Júlia Rodrigues) Imagem 33 : Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho (Fotografia de Beatriz Calheiros) Imagem 34 : Paul do Taipal (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 35 : Burgo Muralhado (Fotografia de Christopher Ferreira) Imagem 36 : Acessos Mecânicos (Fotografia da autora) 117 Imagem 37: Planta de localização dos edifícios devolutos, escala 1:2000 (Autoria própria) Imagem 38 : Antiga Casa de Chá, no Castelo de Montemor-o-Velho (atual posto de turismo) (Fotografia da colega Sara Almeida) Imagem 39: Esquissos do Quarteirão das Artes (Autoria própria) Imagem 40: Maquete do Projeto Casa da Cultura, Horbelev (Dinamarca) , 2013 Fotografia retirada do seguinte link: https://www.archdaily.com.br/br/954916/casa-de-culturahorbelev-kulturgard-werk) Imagem 41: Diagrama com a marcação das entradas principais do Quarteirão das Artes (Autoria própria) Imagem 42: Esquissos dos Espaços Multiusos (Autoria própria) Imagem 43: Esquissos das Residências Artísticas (Autoria própria) Imagem 44: Planta de cobertura da proposta, escala 1:500 (Autoria própria) Imagem 45: Relação do Quarteirão das Artes com o Castelo de Montemor-o-Vellho (Fotografia pela autora) 119 ANEXOS - Entrega de Atelier de Projeto I, 1º semestre - Entrega de Atelier de Projeto II, 1 º semestre - Fotos da maquetes de trabalho - Esquissos 121 129 131 Legenda: 1. Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho - Filipa Oriana Martins 2. Corredor Desportivo e de Lazer - Karina Telles Linhas de água existentes Intervenções nos cursos de água Rede ciclavel Propostas desenvolvidas 567 43 1 2 89 Planta COTA 12,00 m e 14,00 m 03 (Re) Habitar o Bairro Ativar a Felicidade através da Arquitetura FCTUC . Departamento de Arquitetura . MIA Filipa Oriana Faria Martins Proposta Escala 1:500 Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho: Ativar a Felicidade através da Arquitetura FCTUC . Departamento de Arquitetura . MIA Filipa Oriana Faria Martins Planta Geral de Intervenções 01 Proposta: Escala 1:10 000 3. Programa de Apoio ao Ciclista - Júlia Rodrigues 4. Piscinas Naturais e Unidade de Tratamento fitossanitário de Águas Residuais - Maria Viciente 5. Comunidade Agro Produtiva experimental em Ereira - André Martins 6. Ponte Pedonal da Quinta de Arnes - Sara Almeida 7. Centro de Recuperação Física e Mental associado ao turismo de Saúde e BemEstar - Carolina Ribeiro 8. Centro Interpretativo das Águas do Mondego - Pablo Santos 9. Porta Ferroviária do Baixo Mondego - Sara Almeida Legenda: 1. Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho 2. Corredor Desportivo e de Lazer (Karina Martins) 3. Programa de Apoio ao Ciclista (Júlia Rodrigues) 4. Piscinas Naturais e Unidade de Tratamento fitossanitário de Águas Residuais (Maria Vicente) Linhas de água existentes Intervenções nos cursos de água Rede ciclável Propostas desenvolvidas 4 3 2 1 Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho: Ativar a Felicidade através da Arquitetura FCTUC . Departamento de Arquitetura . MIA Filipa Oriana Faria Martins Planta de Intervenções Adjacentes 02 Proposta Escala 1:3000 Equipamentos Públicos N Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho: Ativar a Felicidade através da Arquitetura FCTUC . Departamento de Arquitetura . MIA Filipa Oriana Faria Martins Planta Geral do Edificado 03 Proposta Escala 1:1000 Rua Fernão de Pina Rua Jorge de Montemor Rua Fernão Mendes Pinto Rua Direita Rua Conselheiro Mendes Pinheiro do Castelo Legenda: Muralha Posto de Turismo Igreja Santa Maria de Alcáçova 11 10 9 8 75 4 6 3 2 1 Praça da República 1 2 3 Teatro Esther de Carvalho Novo Mercado 4 5 6 Igreja de Misericórdia Câmara Municipal 7 8 9 Igreja de São Martinho Biblioteca Municipal 10 11 Junta de Freguesia Santa Casa da Misericórdia Equipamentos Públicos Edifícios Devolutos com Potencial para Programas de Reabilitação Urbana Edifícios Devolutos com Proposta de Habitação Colaborativa N Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho Planta de Coberturas 04 Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho: Ativar a Felicidade através da Arquitetura FCTUC . Departamento de Arquitetura . MIA Filipa Oriana Faria Martins Proposta Escala 1:200 Q u a r t e i r ã o d a s A r t e s 8 N Muros Áreas Públicas Áreas de Serviço Lugar de Encontro Atravessamentos (Entradas principais) Legenda 1. Espaço Multiusos (ateliers) 2. Mini-Auditório 3. Cafetaria 4. Estúdio Convidados 5. Loja Produtos Regionais 1 3 2 4 56 7 8 8 9 10 6. Camaratas para Monitores 7. Casa Artista 1 8. Galeria de Exposições 9. Biblioteca / Sala Leitura 10. Casa Artista 2 Espaço Multiusos Cafetaria Estúdio Convidados A B C Casa Artista 1 Galeria de Exposições D E F Casa Artista 2 Jardim Interior G H Biblioteca / Sala de Leitura A A B C DF E G H Legenda: Entradas Possiveis para o Quarteirão das Artes Lugares de Encontros Planta - Vermelhos e Amarelos 05 Regenerar o Quarteirão das Artes de Montemor-o-Velho: Ativar a Felicidade através da Arquitetura FCTUC . Departamento de Arquitetura . MIA Filipa Oriana Faria Martins Proposta Escala 1:100