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Saúde Mental: A Arquitetura como Terapêutica. Alojamento Temporário e Clínica Médica das Fontainhas

Nunes, Catarina Alexandra Gonçalves

Abstract

Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia

Full text

Dissertação de Mestrado no âmbito do Mestrado Integrado em Arquitetura, orientada pelo Professor Doutor José Fernando de Castro Gonçalves e apresentada ao Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Dezembro de 2022 Catarina Alexandra Gonçalves Nunes SAÚDE MENTAL: A ARQUITETURA COMO TERAPÊUTICA ALOJAMENTO TEMPORÁRIO E CLÍNICA MÉDICA DAS FONTAINHAS Saúde Mental: A Arquitetura como Terapêutica Alojamento Temporário e Clínica Médica das Fontainhas       Catarina Alexandra Gonçalves Nunes Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura Sob orientação do Professor Doutor José Fernando Gonçalves Departamento de Arquitetura, FCTUC, dezembro de 2022 Nota à edição O documento segue o novo Acordo Ortográfico; Utiliza-se para citações, por decisão da autora, a norma bibliográfica APA (American Psycological Association) 7ª edição; O símbolo “ “ indica que existe conteúdo na parte posterior da página; Para a melhor compreensão do projeto, propõe-se o acompanhamento da leitura com os desenhos em anexo. Agradeço, Ao meu orientador, professor doutor José Fernando Gonçalves, pela exigência e acompanhamento ao longo do trabalho. Ao arquiteto Jorge Carvalho, à arquiteta Désirée Pedro, à Drª. Paula Valente e ao Dr. Manuel Quartilho pela colaboração e partilha de conhecimento interdisciplinar. Aos meus amigos de sempre, por me terem acompanhado nesta etapa, pela paciência e palavras assertivas. À minha família de Coimbra, Alexandra Martins, Inês Almeida, Adriana Luís, Francisco Vaz e Maria Rocha, pelo apoio, amizade e por todos os momentos partilhados. Ao meu irmão Eduardo pela constante motivação e compreensão. Em especial aos meus pais, por tudo. RESUMO A presente dissertação surge no âmbito da unidade curricular de Atelier de Projeto, que, através do tema “O Estrangeiro”, promove uma reflexão sobre o papel dos arquitetos na sociedade, desafiando a sua capacidade de projetar edifícios e cidades nas quais todos se sintam integrados. O contexto político e social atual é caracterizado por diversas problemáticas, entre elas as alterações climáticas a que somos expostos, a recente pandemia provocada pela COVID-19, assim como a atual guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Estes acontecimentos têm provocado um aumento significativo dos fluxos de migração, vendo-se estas populações, de origens variadas, obrigadas a deixar os seus países em busca de um futuro com melhores condições. Paralelamente aos refugiados e migrantes, é também essencial mencionar as pessoas em situação de sem-abrigo, pois são também um grupo marginalizado na sociedade, cujo número tende a aumentar perante as crises ambientais, económicas e sociais. Neste sentido, e tendo como local de intervenção as Fontainhas, na cidade do Porto, este atelier propõe o desenvolvimento de um novo desenho urbano, assim como a implantação de um programa social. Entre as opções apresentadas, foi desenvolvido um alojamento temporário, com o intuito de criar um espaço de abrigo, que confira dignidade e conforto aos simbolicamente denominados “estrangeiros”. Através de uma análise do público-alvo, torna-se evidente uma nova problemática – a saúde mental. A população em causa apresenta elevadas taxas de incidência de doenças mentais, devido aos seus contextos de vida. Todavia, estas são frequentemente desvalorizadas, o que promove o seu agravamento. Procurando uma arquitetura sensorial, em constante ligação com o estudo psiquiátrico da influência do espaço na mente, pretende-se refletir acerca de como este pode ter influência direta no estado psicológico dos utilizadores. Privilegiando a privacidade e a identidade de cada um, explora-se assim a ligação entre a Arquitetura e a Psiquiatria, num processo em que uma se assume como ferramenta da outra, surgindo o projeto como reflexo desta conexão. Palavras-Chave: Arquitetura, Psiquiatria Cultural, Saúde Mental, Integração Social, Identidade ABSTRACT This dissertation arises within the scope of the Atelier de Projeto curricular unit, which, through the theme “The Foreigner”, promotes a reflection on the role of the architects in society, challenging their ability to design buildings and cities in which everyone feels integrated. The current political and social context is characterized by several issues, including climate change to which we are exposed, the recent pandemic caused by COVID-19, as well as the current war between Ukraine and Russia. These events have caused a significant increase in migration flows, with these populations, from various origins, forced to leave their countries in search of a future with better conditions. Alongside refugees and migrants, it is also essential to mention homeless people, as they are also a marginalized group in society, whose number tends to increase in the face of environmental, economic and social crises. In this sense, and having as its intervention site the Fontainhas, in the city of Porto, this studio proposes the development of a new urban design, as well as the implementation of a social program. Among the options presented, it was decided to develop a night shelter, with the aim of creating a shelter space that confers dignity and comfort to the symbolically called “foreigners”. Through an analysis of the target audience, a new problem becomes evident – mental health. The population in question has high incidence rates of mental illness, due to their life contexts. However, these are often undervalued, which promotes their aggravation. Looking for a sensory architecture in constant connection with the psychiatric study of the influence of space on the mind, it is intended to reflect on how it can have a direct influence on the psychological state of the users. Privileging the privacy and identity of each one, the connection between Architecture and Psychiatry is explored, in a process in which one assumes itself as a tool for the other, with the project emerging as a reflection of this connection.  Keywords: Architecture, Cultural Psychiatry, Mental Health, Social Integration, Identity 2 qualidades, é emergente uma requalificação do espaço urbano. Assim sendo, e após ser elaborada a proposta urbana em grupo, foi desenvolvido, individualmente, o projeto para um alojamento temporário, destinado a refugiados e também a pessoas em situação de sem-abrigo, cujo número vem tendencialmente a aumentar. Pretende-se projetar um espaço de abrigo, que confira dignidade e conforto às pessoas mais desfavorecidas, ajudando-as a criarem um futuro com todas as condições que são delas por direito. Segundo o “Relatório de Análise de Dados – Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-abrigo do Município do Porto”, em 2019, existiam, à data, 560 sem-abrigo, dos quais 40 a viver na rua e 420 em alojamentos temporários. Em geral, o “sem-abrigo padrão” do município está também bastante exposto à possibilidade de desenvolver doenças físicas e mentais, devido à falta de acompanhamento e também à comum ligação com o consumo de álcool ou substâncias psicoativas ilícitas, sendo esta uma das possíveis causas ou consequências desta situação social. (Câmara Municipal do Porto, 2019b). Após uma reflexão sobre os dados apresentados, e um estudo das necessidades do público-alvo, surge uma nova problemática – a saúde mental. Apesar de serem constantemente desvalorizadas, as doenças mentais representam uma parte significativa das patologias existentes, especialmente em pessoas em situação carenciada. É urgente compreender que “(...) não existe saúde sem saúde mental (…).” (Quartilho, 2020, p. 14). De acordo com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, 12% do total de doenças em todo o mundo são do foro mental, valor este que aumenta para os 23% se apenas considerarmos os países desenvolvidos. Este tipo de patologias tem vindo a tornar-se na principal origem da incapacidade de integração na sociedade, e os números de afetados são alarmantes. Anualmente, cerca de 165 milhões de pessoas são diagnosticadas com uma doença mental, sendo que apenas um quarto dos doentes recebe tratamento, e apenas 10% recebe tratamento considerado adequado. (Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental). A nível nacional, estas patologias representam 11,8% das doenças, verificando-se que 22,9% dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica. Portugal é o segundo país na Europa com maior incidência destas doenças. (Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental). Após esta análise, é percetível que este tipo de patologia tem vindo a tornar-se na principal origem da incapacidade de integração na sociedade. De modo a realçar a importância da saúde – física e mental - no processo de integração social, foi tomada a opção de expandir o programa proposto, desenvolvendo também uma clínica médica, direcionada quer para os utentes do alojamento, quer para a restante população. A densidade de refugiados e pessoas em situação de sem-abrigo tem aumentado significativamente, porém, a sua saúde mental tem sido constantemente desvalorizada, apesar de estar comprovada a relação entre os processos migratórios e o surgimento de patologias mentais. É a partir deste contexto, e da consciência do seu impacto na sociedade a nível global, que surge a motivação para esta intervenção. É urgente criar mecanismos de apoio, social e económico, que auxiliem esta população no processo de reintegração, para que possam, de novo, prestar o seu contributo para a evolução da sociedade. “Pessoas saudáveis, cidades saudáveis. Cidades saudáveis, pessoas saudáveis.” (Quartilho, 2022). 3 4 É neste aspeto que se pretende que a arquitetura contribua, projetando espaços que promovam o bem-estar físico e psicológico da comunidade. Neste sentido, quer a proposta urbana, quer o edifício projetado, têm a intenção de desenvolver um espaço no qual se promove a comunidade, a integração social e a valorização da cultura de cada um. Não se visa formatar as pessoas para um novo modo de vida socialmente aceite, mas sim, fazê-las compreender as necessidades existentes na sociedade atual, para que, através do acompanhamento psicológico, sejam capazes de ter iniciativa para voltarem a ser pessoas ativas na sociedade. Através deste pensamento, surge um edifício pensado sensorialmente, no qual cada material utilizado, cada rasgo de luz colocado e cada percurso definido, tem a intenção de criar um ambiente terapêutico, que estimule a harmonia do espaço, e, consequentemente, auxilie o processo de tratamento de doenças psicológicas. A conceção de um ambiente sensorial está diretamente relacionada, não só com os aspetos anteriormente referidos, como também com as cores, texturas, e capacidade de absorção térmica e acústica dos acabamentos utilizados. Não obstante, são também aplicados os critérios estudados na arquitetura hospitalar psiquiátrica que se entendem adequados e vantajosos para os programas em causa. Entre eles, é possível destacar regras de segurança, normas de higienização, assim como diretrizes de organização espacial obrigatórias para espaços de saúde. A intenção é projetar um espaço que confira uma atmosfera de conforto, serenidade e pertença. “(...) a harmonia dos espaços, o facto de os espaços serem concebidos e criados de uma forma harmoniosa, tendo em conta o bem-estar das pessoas que os vão usar, poderá estar associado à promoção do bem-estar e da saúde mental (...)”. (Valente, 2022). 5 6 Estrutura e Método O processo de investigação baseia-se quer numa vertente teórica, através da leitura de referências bibliográficas, quer numa vertente prática, através do desenho. Além disto, todo o processo é complementado por visitas a casos de estudo e entrevistas, o que permite um contacto direto com a população e a compreensão das suas reais necessidades. A presente dissertação está divida em três capítulos, os quais refletem todo o processo de desenvolvimento da mesma. Neste sentido, o primeiro capítulo inicia-se com a contextualização do tema do atelier, refletindo sobre as problemáticas que este coloca e a sua relevância. Posteriormente, é apresentado o local de intervenção selecionado, seguido da sua contextualização histórica, a qual permite compreender a evolução do lugar ao longo dos últimos séculos. Após esta abordagem, é então possível referir os objetivos de intervir nesta área, assim como a sua pertinência. Posto isto, num segundo momento do capítulo, é apresentada a proposta de requalificação urbana elaborada em grupo. Esta inclui uma detalhada análise ao lugar, seguida da explicação do método e da estratégia de trabalho, e, por fim, os desenhos finais da proposta. Por sua vez, o capítulo II diz respeito à fase inicial da segunda etapa do trabalho, isto é, a reflexão teórica que antecede a intervenção individual. Assim sendo, este inicia-se com uma reflexão pessoal sobre as problemáticas colocadas pelo atelier, sendo abordado o aumento dos fluxos migratórios, relacionando-o com a instabilidade política, económica e social que caracteriza a sociedade. A partir desta problemática, é feita uma caracterização do público-alvo da intervenção, evidenciando a sua grande probabilidade de desenvolver doenças do foro mental. Com base nos aspetos mencionados, é, posteriormente, introduzido o tema individual de investigação. Isto é, após a clarificação da problemática geral, foi estabelecido um tema específico – a influência da arquitetura na saúde mental – que define parâmetros segundo os quais o desenho arquitetónico é desenvolvido. Por fim, é ainda feita uma clarificação dos princípios gerais para o desenvolvimento de uma atmosfera terapêutica, evidenciando os critérios que a definem. Após a explicação das problemáticas e da escolha do conceito teórico para o projeto, surge o terceiro capítulo, no qual são apresentadas as obras de referência, sendo realizada uma reflexão sobre a sua pertinência. Estas obras são referência pois foram projetadas segundo as mesmas preocupações sensoriais, espaciais ou funcionais presentes no projeto, independentemente do seu programa. Por fim, o capítulo termina com a proposta individual, sendo apresentado o projeto para uma clínica médica e um alojamento temporário destinado a refugiados e pessoas em situação de sem-abrigo. Nesta fase, são justificadas todas as opções tomadas, desde o método e a estratégia adotados, a localização da área de intervenção, o programa escolhido e a sua ampliação, assim como, finalmente, a definição material e construtiva. 7 8 Fig. 2 - Fontainhas I (Re)Desenhar cidade: Intervenção urbana e social 1.1 Objeto de estudo: Lugar das Fontainhas O atelier em causa promove uma reflexão sobre o papel dos arquitetos na sociedade, assim como sobre a influência que as suas intervenções podem ter na evolução da mesma. Partindo deste princípio, promove-se também uma reflexão sobre as problemáticas sociais, políticas e económicas que predominam atualmente, e sobre o impacto das suas consequências. Com base nas premissas referidas, o enunciado proposto é caracterizado por dois momentos distintos de intervenção, sendo a primeira fase do trabalho elaborada em grupo, e a segunda individualmente. Numa primeira fase, e tendo como local de intervenção o lugar das Fontainhas, no Porto, é proposta a elaboração de um projeto de requalificação urbana. Este pretende não só criar espaço público de qualidade, como também contribuir para a consolidação do lugar e, consequentemente, para a sua integração na restante cidade. Num segundo momento do exercício, é proposta a implantação de um edifício de caráter social, à escolha entre um centro comunitário, um edifício de banhos públicos ou um alojamento temporário. Este edifício deve estar diretamente relacionado com a proposta urbana, contribuindo para a coesão total do projeto. Todos os programas referidos têm como público-alvo pessoas em situação de sem-abrigo, refugiados e migrantes, fazendo assim a relação com as problemáticas teóricas previamente mencionadas. Relativamente à área selecionada para a intervenção, o lugar das Fontainhas, este localiza-se na freguesia do Bonfim, no Porto. Ao longo do século XIX, este local tornou-se no principal polo industrial da cidade, sendo nele predominante a indústria têxtil. Devido à multiplicação dos edifícios industriais, foi notório um aumento do fluxo de população que se deslocou para esta região e nela se instalou, tratando-se, maioritariamente, de operários fabris. Consequentemente, foi necessário encontrar uma solução para alojar esta população acrescida, tendo nesta época surgido uma nova tipologia de habitação social. Este conjunto de habitações ficou conhecido como “ilhas”, tratando-se de construções com dimensões mínimas e poucas condições de habitabilidade. Atualmente, os equipamentos industriais referidos já não se encontram em funcionamento, permitindo o aparecimento de novas atividades económicas. Entre elas, é relevante referir o comércio e a restauração, assim como o turismo. Este último tem sido um elemento essencial no processo de divulgação do lugar, promovendo a cultura e o património local. 9 10 Fig. 3 - Relação entre a escarpa e o rio Douro Fig. 5 - Entrada de uma ilhaFig. 4 - Alameda das Fontainhas O lugar das Fontainhas é reconhecido pela sua vincada cultura, a qual é caracterizada por diversas tradições. Além do simbolismo da habitação social, é ainda essencial referir eventos festivos e comerciais, tais como as festas de São João e a feira da Vandoma, respetivamente. Por outro lado, esta é ainda uma zona com um enorme potencial devido à sua proximidade com o rio Douro e às vistas privilegiadas que este proporciona. Como se torna evidente, trata-se de um lugar central e com um enorme potencial, porém, sem o investimento que caracteriza a restante cidade. Isto deve-se ao facto de o contexto de habitação social e modo de vida precário que caracterizaram a época industrial ter perpetuado até à atualidade, sendo notória a falta de investimento no lugar e a sua consequente degradação. Deste modo, é clara a pertinência de uma intervenção urbana e arquitetónica, a qual permita não só criar espaço público de qualidade, como também introduzir equipamentos que promovam o bem-estar não só dos habitantes locais, como de toda a comunidade. 11 18 Fig. 12 - Planta de análise dos espaços verdes, Fontainhas Fig. 11 - Planta de análise das vias, Fontainhas 1.1.2 Análise de estudo Ao iniciar o processo de trabalho, e através de visitas ao terreno, foi de imediato notório um distanciamento do lugar das Fontainhas em relação à restante cidade, sendo evidente a falta de investimento quer na recuperação do espaço urbano, quer na reabilitação da habitação social existente. A ponte do Infante, por sua vez, assume-se, simbolicamente, como um ponto de quebra que separa o centro histórico do Porto, reabilitado e valorizado, do lugar das Fontainhas, esquecido como um subúrbio na cidade. Deste modo, surgiu de imediato a necessidade de realizar uma análise geral do local de intervenção, de modo a tomar conhecimento do estado de conservação do mesmo, reconhecendo as suas principais fragilidades e o seu potencial. Assim sendo, a análise incidiu em vários aspetos essenciais para a elaboração de uma proposta de planeamento urbano, sendo eles a identificação do tipo de edificado e o seu estado de conservação, os serviços existentes, a qualidade e tipos de espaços verdes, o estado de conservação das vias assim como os eixos de organização dos lotes nos quarteirões habitacionais. Tal como referido inicialmente, um dos principais problemas detetados foi a forma como a Ponte do Infante simboliza um ponto de quebra entre duas zonas da cidade. Isto é, de um lado encontramos uma área mais regular, com espaços bem organizados e com capacidade para acolher e dar resposta às necessidades da população. Esta é uma área central, tendo uma grande importância histórica e turística, o que justifica o investimento nela feito. Por sua vez, do outro lado da ponte, encontra-se o lugar das Fontainhas, onde rapidamente se deteta uma desorganização e degradação do espaço, sendo também evidente a falta de acessos à restante cidade. Relativamente às vias, a análise incidiu em três vertentes distintas: acessos rodoviários, pedonais e ferroviários. Os acessos rodoviários assumem uma grande importância na organização do espaço e da cidade, pois condicionam o modo como as pessoas se movimentam. Através da análise do lugar, verificou-se que na zona habitacional este tipo de acessos são poucos e com dimensões reduzidas, contrariamente ao que acontece na restante envolvente, onde as ruas têm dimensões generosas. Apesar de a zona das ilhas ser, maioritariamente, acedida através da Rua de Gomes Freire e da Rua de S. Vítor, com as características já referidas, estão também presentes no local de estudo vias importantes como a Rua Duque de Saldanha, a Rua das Fontainhas e a Rua Alexandre Herculano, que permitem a fazer a ligação do lugar à restante cidade. Neste sentido, apesar de as rodovias do local assegurarem a conexão com a envolvente, é percetível um nível de qualidade inferior ao que predomina em outras áreas da cidade, o que influencia os percursos da população, e, consequentemente, promove o seu afastamento. Por sua vez, os acessos pedonais são escassos e localizam-se principalmente junto à Ponte do Infante, sendo o mais evidente a Alameda das Fontainhas. Além disto, existem também os passeios 19 20 Fig. 14 - Planta de análise das funções do edificado, Fontainhas Fig. 13 - Planta de análise do estado de conservação do edificado, Fontainhas de circulação junto às rodovias, porém com pouca qualidade. Por último, é ainda considerada a linha ferroviária existente que, percorrendo a encosta, faz a ligação entre a estação de Porto-Campanhã e Porto-São Bento. Este elemento por vezes é identificado como um problema, devido ao seu impacto paisagístico e acústico, porém, é também possível torná-lo num aspeto benéfico para o local. Relativamente aos espaços verdes, estes foram analisados fazendo a distinção entre três categorias: espaço verde público, espaço verde privado e logradouros. Deste modo, e com base no processo de análise realizado, foi possível verificar que os quarteirões da envolvente do lugar das Fontainhas são qualificados com a presença de elementos naturais, fazendo estes parte do espaço verde público. Ainda nesta categoria, é possível identificar algumas praças assim como a encosta, sendo esta última a maior área de espaço verde público existente no lugar, evidenciando um grande potencial. Relativamente ao espaço verde privado, este consiste em terrenos sem construção e com a presença de elementos naturais. Foram identificados três pontos de maior prevalência, estando um deles presente na envolvente da Praça da Alegria, outro na envolvente do antigo asilo da mendicidade e, por fim, o último junto ao Largo Padre Baltazar Guedes. Por fim, foi ainda analisada a presença de logradouros, espaço verde pertencente às habitações, o qual apresenta uma enorme presença no lugar. Tratando-se de uma área caracterizada pela presença de várias zonas habitacionais, é inerente a estas que surgem os logradouros, justificando a sua grande frequência. Em relação à análise do edificado, esta permitiu identificar um número significativo de construções abandonadas, assim como outras a necessitar de reabilitação devido ao seu avançado estado de degradação. Além disto, ficou também evidente a escassez de programas de serviços básicos neste local, obrigando a população a deslocar-se a outras zonas da cidade para dar resposta às suas necessidades. Após o processo de análise realizado, foram detetados cinco principais aspetos negativos no lugar, cuja importância é central no planeamento urbano de uma cidade. Assim, e servindo como base para a estratégia posteriormente definida, ficou clara uma falta de conexão entre os diferentes espaços assim como com a restante cidade. Isto poderá ser também consequência da evidente desvalorização da identidade da tipologia habitacional predominante, assim como da cultura do lugar. Por sua vez, é também notória a falta de qualidade dos acessos existentes, assim como um reduzido número de espaços verdes para uso da população. Por outro lado, é ainda evidente a escassez de programas que consigam dar resposta às necessidades básicas da população. 21 22 Fig. 15 - Sistema de apropriação da escarpa 1.2 Projeto de grupo: Requalificação urbana A primeira etapa do projeto desenvolvido diz respeito a uma proposta elaborada em grupo, a qual se centra em questões de planeamento e reabilitação do espaço público. Pretende-se, nesta fase, ter um olhar crítico sobre o património, o edificado e o espaço público existente, verificando qual a sua importância no lugar e no contexto histórico da cidade. De modo a obter o conhecimento necessário para a criação de uma opinião crítica sobre o tema, é essencial recorrer a uma análise geral do lugar, quer em termos arquitetónicos e urbanos, como também em termos culturais, pois este é um fator determinante na forma como o espaço público é utilizado. Tomado conhecimento dos aspetos anteriormente referidos, é então definida uma estratégia de intervenção urbana cujo objetivo é não só requalificar o lugar, como também contribuir para a integração e valorização da comunidade na cidade. Além disto, pretende-se também criar um contacto próximo com os habitantes, dialogando de modo a compreender quais as suas verdadeiras necessidades e ambições. Com base num processo de arquitetura participativa, é possível não só obedecer ao enunciado programático proposto, como também tornar inerente ao projeto de arquitetura a capacidade de se tornar num mecanismo social. O espaço público é compreendido como um mecanismo capaz de transformar o modo de vida da população, influenciando as suas rotinas diárias, a forma como se movimentam na cidade, assim como, consequentemente, o seu estado psicológico. A preocupação fundamental do grupo, que originou a estratégia posteriormente explicada, relaciona-se com a criação de um espaço público dinâmico, com diferentes vertentes programáticas, que permita e impulsione as relações interpessoais entre utilizadores. Todavia, tudo isto é pensado preservando a cultura e identidade do lugar, valorizando as dinâmicas já existentes. Em suma, a intenção é desenhar o espaço de modo a que este contribua para a melhoria da qualidade de vida daqueles que dele usufruem, tirando partido de todas as ferramentas que a arquitetura tem ao seu dispor. “A questão emergente é, pois, planear e desenvolver o espaço urbano de forma a possibilitar mais prosperidade económica, mais justiça social e territorial, mais bem-estar e mais saúde à população.” (Nogueira, 2020, p.440). 23 24 1.2.1 Objetivos e pertinência da intervenção A intervenção em causa surge a partir do Atelier de Projeto, o qual chama a atenção para duas problemáticas centrais na sociedade atual: a importância do planeamento urbano e a necessidade de implementação de programas com vertente social. Ambos os parâmetros refletem uma preocupação com a relação entre o espaço e os utilizadores, demostrando que este deve ser desenhado com base nas necessidades e características da comunidade. A partir das premissas referidas, é escolhido o local de intervenção, já mencionado, o qual se enquadra adequadamente no contexto teórico apresentado. Neste sentido, e a partir da caracterização do local de intervenção anteriormente realizada, é proposto o desenvolvimento de um novo desenho urbano, que permita tirar proveito de todo o potencial existente. Estando o lugar das Fontainhas localizado numa zona privilegiada, com uma envolvente paisagística, morfológica e social dotada de um enorme potencial, é proposta a realização de uma intervenção que realce e permita usufruir das características únicas do lugar. Isto é, que torne o espaço público mais confortável e aprazível para os seus utilizadores, e consequentemente, que promova a integração desta área no plano de investimento urbano da cidade. “Uma cidade saudável procura proporcionar à sua população mais saúde e melhor qualidade de vida, permitindo-lhe o desenvolvimento de todas as suas potencialidades.“ (Nogueira, 2020, p. 440). É de acordo com este pensamento que se pretende desenvolver uma proposta de intervenção urbana que estimule o sentido de comunidade e pertença, promovendo o bem-estar físico e psicológico da população. Pretende-se que esta estratégia teórica seja materializada através da valorização do espaço e património existente, reabilitando-o e explorando-o de forma a valorizá-lo. Numa segunda fase do projeto, é proposto o desenvolvimento de um programa de caráter social, o qual pretende ser um mecanismo de combate às desigualdades sociais e dificuldades económicas que predominam na área de intervenção. Além disto, o objetivo é que este programa também auxilie o processo de reintegração social de refugiados e pessoas em situação de sem-abrigo, cuja densidade tem aumentado significativamente. De entre as opções apresentadas, centro comunitário, edifício de banhos públicos ou alojamento temporário, optou-se por desenvolver o projeto para um alojamento temporário, valorizando o significado simbólico do “abrigo”, a que todos nós, enquanto cidadãos, temos direito. Tal como foi possível compreender, ao longo da investigação teórica, a atualidade é caracterizada por uma série de problemáticas que têm vindo a provocar o empobrecimento geral da população, sendo 25 26 emergente a criação de espaços desenhados e pensados para acolher os mais carenciados. Espaços nos quais se sintam integrados e onde lhes sejam fornecidas ferramentas para serem capazes de voltar a ter uma vida ativa na sociedade. Além disto, o lugar das Fontainhas é também um local pertinente para a implantação deste tipo de programa devido ao contexto de habitação social já existente. Dele fazem parte as ilhas, antiga tipologia desenvolvida no século XIX que surgiu com o objetivo de acolher operários fabris numa época de grande prosperidade industrial. Por outro lado, este lugar é ainda caracterizado pela presença do atual Colégio dos Salesianos, que no passado se destinava a acolher crianças órfãs. Como se torna evidente, as Fontainhas sempre se assumiram como um local de acolhimento para a população mais frágil e desfavorecida, independentemente das circunstâncias que deram origem a esse contexto de vida. Atualmente, esta parte da cidade continua ainda a ser marcada pela presença de uma população maioritariamente envelhecida, com dificuldades económicas e a viver em habitações com poucas condições de habitabilidade. A partir do tema de trabalho apresentado, e de acordo com a contextualização das problemáticas sociais que lhe são inerentes, é neste capítulo que se pretende refletir sobre a definição de uma estratégia de projeto que não só valorize o espaço de intervenção, como também, simultaneamente, ajude a atenuar as consequências das problemáticas já mencionadas. Deste modo, toda a intervenção, desde a primeira até à última fase, é desenvolvida segundo princípios que estimulem a sensação de conforto, partilha e comunidade. Pretende-se que os utilizadores adquiram a sensação de pertença e que o espaço estimule a criação de dinâmicas interpessoais. A grande ambição do trabalho em causa, que se justifica com a relevância das problemáticas sociais e económicas existentes a nível a mundial, é conseguir conferir à arquitetura a capacidade de influenciar positivamente o estado psicológico dos seus utilizadores, contribuindo, diariamente, para o bem-estar físico e psicológico da população. 27 Fig. 18 - Planta da estratégia de grupo usufruindo do seu potencial. Este edifício pretende prestar auxilio ao nível dos cuidados do corpo, e, neste sentido, trata-se de um lugar simbólico para o implantar. Isto é, a escolha desta localização justifica-se com o simbolismo da cultura das ilhas, assim como com as poucas condições de habitabilidade que ainda hoje as caracterizam. Assim, pretende-se que este programa venha ajudar a combater as dificuldades económicas que ainda predominam nas ilhas, permitindo a todos terem acesso a boas condições de higiene. Por sua vez, propõe-se a implantação do alojamento temporário num terreno sem intervenção, localizado na encosta e delimitado pela Rua de Gomes Freire e pelo Largo Padre Baltazar Guedes. Trata-se de um local com grandes dimensões, boa exposição solar e uma vista privilegiada sobre o rio Douro e Vila Nova de Gaia. Com base nestas características, prevê-se que seja um bom local para implantar um edifício residencial, tendo em conta que permitirá aos utentes usufruir do espaço exterior, tornando-o numa componente fundamental do projeto. Em termos arquitetónicos, é proposto um volume que acompanhe os limites do terreno, tirando partido da morfologia existente. Além disto, sendo este um local já caracterizado pela habitação social e pelos hábitos de acolhimento, é também simbolicamente apropriado implantar nele um alojamento temporário. Tal como referido inicialmente, além da definição dos locais de implantação dos programas individuais, o projeto é constituído por um conjunto de propostas de grande e pequena escala, localizadas ao longo da área de estudo. De modo a focar a atenção numa área concreta, foi definido um núcleo de intervenção, o qual se encontra delimitado por vias de acesso importantes, tais como a Rua das Fontainhas, a Avenida de Rodrigues Freitas, a Rua Duque de Saldanha e a sul, o rio Douro. As intervenções estão categorizadas entre principais e secundárias, de acordo com a sua escala, sendo pertinente referir que as principais estão localizadas na encosta e no interior dos quarteirões habitacionais, e as secundárias dizem respeito a intervenções pontuais que ajudam a consolidar a proposta global. Relativamente à intervenção na área habitacional, esta é motivada por uma ambição do grupo em preservar a identidade das ilhas. Sendo uma tipologia habitacional característica do lugar, pretende-se mantê-la como referência cultural. Neste sentido, além da reabilitação das habitações que necessitem, a proposta consiste, principalmente, na remodelação dos logradouros existentes, convertendo-os em pátios públicos e privados. Isto é, espaços destinados à comunidade ou aos habitantes locais, respetivamente. Os pátios públicos são espaços dos quais toda a população pode usufruir, podendo estes ser utilizados como espaços de estar ou apenas como uma via de acesso. Trata-se da criação de um espaço verde de pequena escala, que permite não só criar zonas de lazer para a população, como também permite criar um novo conjunto de ligações entre as diferentes zonas do lugar. Trata-se de criar espaço público de qualidade, que permita à população usufruir do potencial do seu local de residência. Por sua vez, os pátios privados consistem na remodelação dos logradouros das habitações, que, agrupados, formam espaços com generosas dimensões para usufruto dos residentes. Pretende-se que estes sejam espaços de convívio e partilha, nos quais é possível realizar atividades lúdicas e didáticas, promover as relações interpessoais entre habitantes e também a valorização da cultura do lugar. De modo a que a proposta ganhe um caráter realista, o processo de remodelação dos pátios foi previsto em três fases, refletindo preocupação com os processos reais de compra e venda. Além das questões legais, o faseamento pretende também permitir à população ter um período de tempo para se adaptar à nova utilização do espaço. Deste modo, o objetivo é que o ritmo da intervenção acompanhe o ritmo da mudança de mentalidade da comunidade. Fig. 19 - Fotomontagem esquemática. Imagem ilustrativa de um pátio público Fig. 21 - Perfil de estudo. Relação entre pátio privado e edifício de Banhos Públicos Fig. 20 - Fotomontagem esquemática. Imagem ilustrativa de um pátio privado 35 36 Fig. 25 - Faseamento de construção de pátios públicos e privados - área final Fig. 23 - Faseamento de construção de pátios públicos e privados - fase 2 Fig. 24 - Faseamento de construção de pátios públicos e privados - fase 3 Fig. 22 - Faseamento de construção de pátios públicos e privados - fase 1 Fig. 26 - Fotomontagem esquemática. Imagem ilustrativa dos elevadores verticais Fig. 28 - Perfil de estudo. Relação entre a encosta e a envolvente Fig. 27 - Fotomontagem esquemática. Imagem ilustrativa da reabilitação da antiga fábrica de cerâmica e da construção de um auditório ao ar livre O segundo foco de intervenção do grupo diz respeito à escarpa, para a qual foram projetados uma série de programas que visam o seu aproveitamento total, usufruindo de todo o seu potencial. Trata-se do núcleo de intervenção que mais evidencia a estratégia do grupo - “Percursos” - sendo nele proposta a criação de uma rede de caminhos pedonais que atravessam a encosta em vários níveis, permitindo à população desfrutar de um espaço natural e da vista que este proporciona. São ainda definidas diversas plataformas, com programas lúdicos, didáticos e comunitários, estando estas atividades destinadas a toda a comunidade. Entre os programas definidos, é pertinente referir a criação de hortas comunitárias, áreas de jardinagem, miradouros, assim como um pequeno espaço comercial. Por sua vez, são também criados espaços sem programas específicos, deixando a sua utilização ao critério dos utilizadores. É ainda pertinente referir a implantação de pequenas construções destinadas a oficinas de carpintaria e artes manuais. Por outro lado, é necessário realçar a proposta de reabilitação da antiga fábrica de cerâmica, adaptando-a para um centro de exposições no âmbito educativo. Inerente a este programa, surge ainda a criação de um auditório ao ar-livre, na cota inferior da Ponte do Infante, tirando partido do declive existente. Prevê-se que este seja utilizado para a realização de sessões de cinema ao ar-live, o qual seria projetado na referida ponte. Todos estes lugares são acedidos através dos percursos criados, evidenciando a sua pertinência, pois permitem tirar partido de toda a encosta. Por outro lado, esta proposta, além de qualificar o espaço, pretende também incentivar a prática de exercício físico e de um estilo de vida saudável. Mais uma vez, o objetivo é que a arquitetura promova o bem-estar físico e mental das pessoas, sendo isto concretizável, neste caso, através do planeamento urbano. Contudo, tomado conhecimento de que os habitantes das Fontainhas são pessoas maioritariamente envelhecidas, e de modo a garantir que todos têm acesso aos programas implantados na escarpa, independentemente das suas condições físicas, foram também projetados dois elevadores verticais, que fazem a ligação direta entre a Alameda das Fontaínhas, a encosta e a via rodoviária na cota inferior. Além disto, e mantendo a lógica da criação de uma rede urbana de pequena escala, que permite não só desfrutar de todos os espaços, como também ter maior facilidade em aceder a qualquer local da envolvente, propõe-se ainda a reativação da Ponte D. Maria Pia como uma ponte pedonal. Através desta proposta intensifica-se também o incentivo à atividade física já promovido na escarpa. Junto à Ponte Maria Pia, é ainda implantado um terceiro elevador vertical, de menor escala, devido às mesmas problemáticas que justificam a sua implantação na encosta. Este tem associado um miradouro na cota superior, e permite o acesso ao espaço comercial localizado na escarpa, relacionando-se assim com as restantes propostas. Tal como referido inicialmente, além dos núcleos de intervenção principais, foram ainda detetados outros focos de intervenção de escala reduzida. Neste sentido, e de modo a complementar a restante proposta, foi definido um conjunto de cinco intervenções secundárias, as quais procuram solucionar problemas localizados. Estas situam-se em zonas opostas da área de trabalho, estando três presentes na envolvente da Ponte do Infante, e as restantes junto à envolvente da zona habitacional. Relativamente ao núcleo de intervenção a oeste, propõe-se a ocupação de um terreno sem intervenção com a construção de um edifício de habitação, na Rua das Fontainhas. Através da sua implantação, pretende-se não só estabilizar a frente de rua como também promover a reabilitação dos edifícios devolutos na envolvente. Associado às habitações, é proposta a criação de um estacionamento privativo para os residentes. Como consequência da intervenção, é também pertinente remodelar o espaço público envolvente, criando acessos que permitam fazer a ligação entre as diferentes cotas. Junto a 37 38 Fig. 29 - Perfil síntese da proposta este lugar, é proposta a reorganização da praça do bairro de S. Vítor, de modo a adaptá-la à escala das habitações. Com a intenção de uniformizar o espaço, é ainda projetado um novo edifício habitacional que pretende estabilizar a forma do lugar. Por sua vez, é feita uma pequena intervenção no espaço exterior do Colégio de Nossa Senhora da Esperança, promovendo uma reorganização do estacionamento já existente e a criação de um novo parque subterrâneo. Relativamente ao segundo conjunto de intervenção, este é composto por duas propostas. Uma delas diz respeito à remodelação do largo padre Baltazar Guedes, transformando-o numa praça de receção para o Colégio dos Salesianos. Além disto, é ainda aproveitado o declive existente para a criação de um parque de estacionamento subterrâneo. Por sua vez, prevê-se a implantação de novos edifícios habitacionais na Rua de Gomes Freire e na Rua de S. Vítor, com o intuito de acolher as pessoas desalojadas das habitações que seja necessário demolir ou reabilitar. Por último, considera-se pertinente a reabilitação de edificado devoluto com vista a acolher garagens privadas para os habitantes. 39 40 Fig. 30 - Destruição do território ucraniano causada pelo conflito com a Rússia II Reflexão teórica: Arquitetura e Saúde Mental 2.1 Problemática: O aumento dos fluxos migratórios A segunda fase do projeto inicia-se com uma reflexão pessoal sobre as problemáticas colocadas pelo atelier, despertando um olhar atento sobre a sociedade. Neste sentido, e com base numa análise da sociedade atual, é evidente que predomina um contexto de instabilidade - política, económica e social - que tem despertado um clima de insegurança a nível global. De entre um vasto conjunto de problemáticas que marcaram a última década, é essencial referir acontecimentos como ataques terroristas e descriminações raciais e de género, que ocorrem diariamente, sem que os consigamos evitar ou punir de forma eficaz. Por outro lado, o reaparecimento de doenças como o Ébola, Legionella e gripe A, contribuiu para acentuar o clima já referido. Além dos aspetos mencionados, existem ainda inúmeros outros acontecimentos que têm contribuído para a deterioração económica da sociedade. Entre eles, é pertinente referir a Guerra na Síria, iniciada em março de 2011 e ainda a decorrer, sendo já considerada o pior desastre humanitário atual. (Nações Unidas,b). Além disto, é também oportuno mencionar a recente pandemia provocada pela COVID-19, que surgiu em Dezembro de 2019, na China, e se alastrou por todos os continentes, assim como a chegada ao poder do grupo de rebeldes Talibãs no Afeganistão. Estes alcançaram de novo o poder em Agosto de 2021, após a retirada das tropas norte-americanas, e a consequente dissolução do governo existente. Por sua vez, e ainda decorrer atualmente, a 24 de Fevereiro de 2022, iniciou-se a invasão da Ucrânia pela Rússia, a qual tem gerado um clima de destruição total. Como se torna evidente, vivem-se tempos controversos, não só na Europa como em todo o mundo, o que tem perturbado o clima de estabilidade e evolução que se ambicionava. Através da contextualização do estado atual da sociedade, é também possível compreender que esta é caracterizada por um empobrecimento da população, o que por sua vez provoca um novo problema: o aumento dos fluxos migratórios. De acordo com o Glossário sobre Migração, um fluxo migratório consiste na “Contagem do número de migrantes que se deslocam ou têm autorização para se deslocar para (ou de) um país a fim de ter acesso a um emprego ou fixar-se durante um determinado período de tempo.” (Organização Internacional para as Migrações, 2009, p.29). A deslocação de pessoas em massa, que se veem obrigadas a deixar os seus países de origem em busca de um futuro com melhores condições noutro local, é um processo bastante complexo e demorado, devido a todas as limitações encontradas ao longo do percurso até ao país de destino. 41 42 Fig. 31Síria: Rasto de destruição provocado pela guerra Devido à frequência deste tipo de movimentos, e ao consequente aumento de migrantes e refugiados, foram desenvolvidos mecanismos de apoio a estas comunidades. Entre eles, é possível mencionar, em 1951, a fundação da Organização Internacional para as Migrações. Trata-se da principal organização nesta área social, focando-se em “(...) garantir a gestão ordenada e digna da migração para o benefício de todos, para promover a cooperação internacional em questões de migração, para auxiliar na busca de soluções práticas para problemas de migração e prestar assistência humanitária aos migrantes necessitados, incluindo refugiados e deslocados internos.” (Nações Unidas,a). Além disto, foi também desenvolvida uma plataforma, intitulada “Sou um Migrante”, a qual partilha “(...) as experiências de migrantes de todas as origens e em todas as suas viagens migratórias.”. (Nações Unidas,a). Por outro lado, foi ainda desenvolvido um vasto leque de instituições governamentais dedicadas ao estudo e apoio da reintegração social desta comunidade. De entre as várias existentes, é essencial referir o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu, o Conselho da União Europeia, a Comissão Europeia, o Comité Económico e Social Europeu e o Comité das regiões, sendo todas estas instituições responsáveis pela criação, aprovação e promulgação de políticas europeias para a migração. Por sua vez, o Tribunal de Justiça da União Europeia, tem como função verificar a aplicação e o cumprimento das leis por parte dos estados-membros. A Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira e o Serviço Europeu de Polícia, exercem funções ao nível do controlo de fronteiras e combate ao tráfico de seres humanos, respetivamente. Por fim, a Agência da União Europeia para o Asilo, a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia e ainda a Agência da UE para a Gestão Operacional de Sistemas Informáticos, asseguram a proteção dos direitos humanos assim como os registo de todos os dados dos processos. A partir da contextualização apresentada, torna-se evidente que os fluxos migratórios são, atualmente, uma problemática central na sociedade. De acordo com as Nações Unidas, “Em 2017, o número de migrantes internacionais em todo o mundo (...) alcançou os 258 milhões (de 244 milhões em 2015).” (Nações Unidas,a). De modo a atenuar a gravidade dos factos referidos, é necessário assegurar o investimento em mecanismos de apoio social a migrantes e refugiados, com a intenção de os apoiar no processo de integração e adaptação a uma nova cultura e a um novo lugar. É essencial garantir que este grupo social seja capaz de preservar a sua integridade física e psicológica, de modo a que se torne de novo produtivo e possa contribuir para a evolução económica e social da comunidade. 43 50 Relativamente aos refugiados e à especificidade do seu contexto de vida, o psiquiatra Manuel Quartilho refere que “Nós sabemos que a experiência migratória é uma experiência stressante, e que, eventualmente, há pessoas que transportam consigo uma certa vulnerabilidade, o que faz com que no processo migratório descompensem do ponto de vista clínico, e, portanto, tenham aquilo a que nós chamamos uma doença mental, seja ela qual for. Nós sabemos que é assim.” (Quartilho, 2022). A partir destas declarações, fica evidente a relação entre os traumas gerados pelo processo migratório e o surgimento de doenças do foro psiquiátrico. Tal como o Dr. Quartilho refere, não é possível fazer a ligação direta entre determinado contexto e determinada patologia, porém, é do conhecimento público que esta população tem, de facto, uma forte incidência de doenças psiquiátricas. Além do processo migratório, também a possível dificuldade de adaptação a um novo país e a uma nova cultura pode gerar problemas psicológicos. Isto é, “O processo migratório está associado a situações de descompensação clínica, e há até condições clínicas específicas, que de alguma forma, favorecem essa tese. Estou a pensar, por exemplo, na esquizofrenia. Pessoas migrantes, que de alguma forma são descriminadas no país de acolhimento, e que a desenvolvem.” (Quartilho, 2022). Por outro lado, também as pessoas em situação de sem-abrigo se encontram abrangidas pelo mesmo problema. Apesar de o seu contexto de vida ser distinto, também esta comunidade apresenta uma significativa fragilidade psicológica consequente dos seus determinantes sociais da saúde. Tal como refere o psiquiatra, “Eu acredito que muitas das pessoas que vivem na condição de sem-abrigo, que vivem na rua, muitas dessas pessoas têm, de facto, patologia mental específica. Eventualmente, são pessoas com quadro clínicos psicóticos, nomeadamente, a esquizofrenia.” (Quartilho, 2022). No entanto, apesar da referência à esquizofrenia, é pertinente salientar, mais uma vez, que não existe uma ligação obrigatória entre este contexto e uma patologia específica. Importa realçar que “São pessoas muitas vezes afetadas por experiências de privação material em idade precoce ou por outro tipo de experiências de adversidade que, de alguma forma, culminaram nesta condição de sem-abrigo. Portanto, não tem de haver uma patologia mental específica, não tem de haver um diagnóstico psiquiátrico específico, mas há muitas vezes uma situação de mal-estar físico e mental que resulta de uma trajetória biográfica complicada.” (Quartilho, 2022). 51 52 2.3 Conceito: Influência da Arquitetura na saúde mental O trabalho em causa reflete sobre o papel da arquitetura na sociedade, tentando compreender de que forma esta pode contribuir para uma positiva evolução da mesma. Numa época de grande desenvolvimento tecnológico e científico, é cada vez mais valorizado o conhecimento interdisciplinar, e é a partir deste conceito que se pretende estudar e refletir sobre uma possível relação entre a arquitetura e a psiquiatria. Isto é, compreender de que forma, através do conhecimento psiquiátrico, é possível projetar espaços que influenciem o estado psicológicos dos utilizadores. Neste caso, pretende-se, através da relação entre as duas disciplinas referidas, identificar qual a melhor estratégia para projetar um alojamento temporário destinado a pessoas com grande probabilidade de desenvolverem algum tipo de patologia mental. O objetivo centra-se em tornar o projeto de arquitetura em algo mais do que apenas uma questão programática e funcional. Deste modo, a intenção é projetar um espaço que contribua para o bem-estar dos utentes, para a melhoria da sua saúde mental e, consequentemente, facilite o processo de reintegração social. De modo a obter opiniões válidas sobre esta estratégia, foram realizadas duas entrevistas a médicos psiquiatras, para que, de acordo com o seu conhecimento, pudessem identificar a proposta como algo viável, ou não. A escolha dos psiquiatras a serem entrevistados deveu-se não só ao seu percurso profissional, como também ao espaço clínico no qual decorreria a entrevista. Este último parâmetro é relevante para o processo de trabalho pois permite comparar as diferentes sensações que os diferentes tipos de espaço de consulta provocam, sendo assim possível beneficiar do conhecimento obtido através de uma experiência pessoal. Assim sendo, foi, numa primeira fase, entrevistada a Dra. Paula Valente, psiquiatra e psicoterapeuta na cidade do Porto. A entrevista decorreu na sua clínica, sendo este um espaço pensado à medida do utilizador, privilegiando as questões de privacidade e de conforto visual e acústico inerentes ao processo terapêutico. Quando questionada acerca da possível relação entre a arquitetura e a psiquiatria, a Dra. Paula começou por esclarecer que “Eu não diria tão especificamente entre a psiquiatria e a arquitetura, mas diria de uma forma mais genérica entre a arquitetura e a saúde mental. E aí podemos pensar em saúde mental de uma forma global e podemos também pensarnaquilo em que a arquitetura poderá ajudar na promoção do bem-estar e da saúde mental. Não só em relação à conceção e construção de clínicas ou hospitais psiquiátricos mas também em relação aoplaneamento e conceçãode habitação e ao planeamento das cidades em geral.” (Valente, 2022). De acordo com esta afirmação, e com a restante entrevista, compreende-se que é, de facto, possível, fazer uma relação entre as duas disciplinas. Não da forma inicialmente prevista, mas sim encarando a arquitetura como uma forma de promover 53 54 a saúde mental. Deste modo, é evidente a vantagem de obter conhecimento multidisciplinar, o qual permite explorar a arquitetura como um mecanismo produtor de bem-estar. Posteriormente, com a intenção de obter uma nova opinião sobre o tema em causa, foi realizada uma segunda entrevista, neste caso ao Dr. Manuel Quartilho, médico psiquiatra no CHUC, em Coimbra. A entrevista decorreu no seu gabinete médico no CHUC, sendo uma experiência contrastante com a anterior. Ao longo da conversa, quando questionado acerca do mesmo tema, o Dr. Quartilho afirmou também que considera possível uma relação entre arquitetura e saúde mental, referindo que “(...) acredito que haja, de facto, uma relação, da mesma forma que há uma relação entre cidade e saúde mental, haverá com certeza uma relação também entre o lugar em que a pessoa vive e a saúde mental. Haverá com certeza uma relação entre a arquitetura e a saúde mental.” (Quartilho, 2022). Com base nesta afirmação, torna-se percetível que o lugar influencia o utilizador, sendo assim possível transformar uma experiência espacial em algo benéfico para a saúde mental. Após a realização das entrevistas, e também com base na experiência espacial obtida, ficou evidente que a relação entre a arquitetura e a saúde mental é algo plausível e viável, sendo possível usar esse tema como conceito definidor de uma estratégia de projeto em qualquer tipo de programa. Por sua a vez, a ligação entre arquitetura e psiquiatria, inicialmente proposta, será viável quando se tratar de um programa dedicado à saúde mental, de acordo com a psiquiatra Paula Valente. Neste sentido, é então necessário identificar qual o método adequado para o desenho do espaço, de modo a refletir esta ligação, deixando evidente que “(...) a harmonia dos espaços, o facto de os espaços serem concebidos e criados de uma forma harmoniosa, tendo em conta o bem-estar das pessoas que os vão usar, poderá estar associado à promoção do bem-estar e da saúde mental (ao contrário dos espaçosdegradados, sobrelotados ou vandalizados, quer em instituições de saúde mental quer em cidades). A harmonia dos espaços espera-se que possa ajudar na harmonia interior.” (Valente, 2022). 55 56 Fig. 36 - Livro “The eyes of the skin - Architecture and the senses”, de Juhani Pallasmaa Fig. 37 - Livro “ Habitar”, de Juhani Pallasmaa 2.3.1 Princípios para o desenvolvimento de uma atmosfera terapêutica Com base na opção estratégica pretendida, foram estudadas diferentes obras e autores, de modo a obter referências para a criação de um lugar no qual todos, independentemente das suas características, se sintam acolhidos. Numa primeira fase, é essencial começar por fazer uma distinção entre os conceitos de espaço e lugar, tendo em conta que, tanto os arquitetos como os psiquiatras, lhes conferem um significado distinto. Isto é, “O lugar é a interpretação do espaço, estando assim na essência da existência e da identidade humanas. É a experiência que cada indivíduo tem dos lugares que define as suas vivências, as suas pertenças, as suas identidades. A familiaridade transforma o espaço em lugares.” (Nogueira, 2020, p. 438). A partir da explicação apresentada, surge a intenção de tornar o projeto num “lugar”, no qual todos se integrem e do qual se possam apropriar. Desta forma, faz sentido estudar autores como Juhani Pallasmaa, que escreve sobre a importância de projetar criando atmosferas que interferiram com a perceção sensorial dos utilizadores. De acordo com o autor, “Toda a experiência comovente com a arquitetura é multissensorial, as características do espaço, matéria e escala são medidas igualmente por nossos olhos, ouvidos, nariz, pele, língua, esqueleto e músculos. A arquitetura reforça a experiência existencial, nossa sensação de pertencer ao mundo, e essa é essencialmente uma experiência de reforço da identidade pessoal.” (Pallasmaa, 2011, p. 39). Refletindo sobre a expressão apresentada, é possível compreender que o autor defende uma arquitetura pensada sensorialmente, isto é, uma arquitetura que interaja com os utilizadores e com os seus sentidos. Através deste método, é possível criar diferentes experiências espaciais em cada utilizador, de acordo com a sua perceção individual do espaço. “A atmosfera comunica com a nossa perceção emocional (…)”, (Zumthor, 2006, p.12) e é a partir deste conceito que, por sua vez, Peter Zumthor define nove pontos fundamentais que devem ser considerados no momento de projetar. O primeiro ponto diz respeito ao corpo da arquitetura, isto é, o seu volume construído, e o impacto da construção. Esta deve ser pensada tendo em consideração todas as suas componentes e características, como se de um verdadeiro corpo se tratasse. O segundo ponto diz respeito à consonância dos materiais. Estes devem ser escolhidos e experimentados tendo em conta a forma como reagem quando são conjugados. Existe um conjunto infinito de composições construtivas e materiais que devem ser exploradas em busca da atmosfera pretendida. Por sua vez, o terceiro e quarto ponto dizem respeito ao som do espaço e à temperatura do espaço, estando estes diretamente relacionados com os materiais adotados e com a forma com estes se adequam ao uso do 57 58 Fig. 38 - Livro “Atmosferas”, de Peter Zumthor Fig. 39 - Livro “Questions of perception: Phenomenology of Architecture”, de S. Holl, J. Pallasma, A. Pérez-Gómez espaço. O quinto ponto está relacionado com as coisas que me rodeiam, isto é, a envolvente e aquilo que a caracteriza. Os objetos que são detalhadamente escolhidos para contribuirem para o processo de criação da atmosfera pretendida. De seguida, é abordado o tema entre a serenidade e a sedução, que se relaciona com a forma como nos movimentamos no espaço arquitetónico. A forma como o desenho interior nos guia em determinada direção, ou nos permite vaguear, explorando cada compartimento Os dois pontos seguintes dizem respeito à tensão entre interior e exterior e aos degraus da intimidade, refletindo sobre as questões da privacidade e da escala, respetivamente. Por fim, é ainda considerada a luz sobre as coisas, sendo este um ponto se realça a importância de estudar os conceitos de luz/ sombra e a sua importância na caracterização de um lugar. (Zumthor, 2006). De acordo com este pensamento, é pertinente introduzir um novo conceito que diz respeito à relação entre a arquitetura e os sentidos do corpo humano, a fenomenologia. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty estudou e refletiu sobre a fenomenologia e a perceção do mundo, partilhando as suas conclusões através do livro Phenomenologie de la Perception. Na sua investigação, escreveu também sobre as reações e os métodos de leitura do Homem, incluindo a sua relação com a arquitetura. Neste sentido “(…) é possível tratar as relações entre Arquitetura e o homem, em que o espaço é responsável por estimulá-lo, física ou psicologicamente, a partir das suas características. A esta relação estão associadas questões como a perceção espacial, fruição sensorial e fenomenologia na Arquitetura (…)”. (Lourenço, 2016, p. 27). Com diretrizes semelhantes, é utilizada para o desenho da clínica a metodologia Evidence Based Design, popularizada por Roger Ulrich, e que consiste numa humanização dos ambientes hospitalares. “Estes ambientes caracterizam-se, de grosso modo, pela relação entre os espaços interiores e o espaço exterior, sobretudo se o espaço exterior for ajardinado, tratado, com vistas paisagísticas e de boa orientação, mas também pela caracterização dos espaços internos através do conforto dos diversos níveis (térmico, acústico, de iluminação), e se a experiências de permanência oferecer qualidades de ambientes domésticos.” (Silva, 2020, p. 31). De acordo com as conclusões retiradas das entrevistas realizadas, assim como do estudo teórico, verificou-se que a metodologia da arquitetura sensorial corresponde à caracterização do espaço ideal feita pelos psiquiatras. Isto é, um espaço harmonioso, cuja ventilação, acústica e térmica tenham sido detalhadamente estudadas para estimular uma sensação de conforto, promovendo uma melhor adaptação e apropriação do espaço. É, simultaneamente, importante que se estímule o sentido de pertença e comunidade, de modo a facilitar o processo de reintegração, e, consequentemente, dinamizar as relações interpessoais. 59 66 Fig. 43 - Vista exterior do edificado Fig. 45 - Planta ilustrativa da área residencialFig. 44 - Apropriação do corredor como espaço de estar 3.1.2 Homes for Senior Citizens, Peter Zumthor A obra Homes for Senior Citizens, localiza-se em Chur, na Suíça e foi projetada pelo arquiteto Peter Zumthor entre 1989 e 1993. O edifício consiste numa residência para idosos, sendo destinado a pessoas com idade avançada, porém, que mantêm a sua autonomia e capacidade de morarem sozinhas. A construção em causa foi pensada de modo a relacionar-se diretamente com a envolvente, tirando partido do espaço exterior, que permite um contacto próximo com um ambiente natural. Relativamente à função programática do edifício, e após uma análise do projeto, é possível compreender que o autor dá resposta ao programa residencial referido através de uma estratégia diferente da habitual. Isto é, este recorre à elaboração de apartamentos, ao invés de quartos, o que confere maior privacidade e conforto aos seus utilizadores. Por sua vez, a ligação da área privada às restantes zonas do edifício é assegurada através da criação de corredores com generosas dimensões, que acabam por se assumir também como espaços comuns e de estar. As dimensões e versatilidade do espaço permitem também a colocação de mobiliário semelhante ao doméstico, o que contribui para a estimulação de um ambiente familiar. Com base na análise dos diferentes espaços interiores, privados e comuns, tornou-se clara a intenção de criar uma atmosfera que transmita a sensação de familiaridade aos utentes. Isto é conseguido não só através do desenho e organização do espaço, como também através da materialidade adotada, o que confere aos espaços interiores do edifício um caráter próximo do doméstico. Por sua vez, é ainda relevante referir que está presente a preocupação de manter a relação visual com o exterior e de tirar partido da incidência de luz natural, sendo os alçados caracterizados por grandes vãos envidraçados. Além dos referidos vãos, as fachadas são ainda caracterizadas pela marcação das uma métrica regular, o que confere simplicidade e ritmo ao edifício. Posto isto, esta obra apresenta-se como uma referência pertinente para o trabalho em desenvolvimento, não só devido às semelhanças programáticas, como também às semelhanças entre ambos os conceitos de projeto. Inicialmente, este complexo começou por ser estudado em função do seu programa residencial, com a intenção de compreender o modo como o espaço é organizado, assegurando todas questões de privacidade, acessibilidade e conforto. Todavia, ao longo do processo, tornou-se clara a pertinência de uma análise mais detalhada, tentando compreender de que forma a organização do espaço interior, assim como a materialidade, foram exploradas de modo a criar uma atmosfera de serenidade e conforto, facilitando a adaptação. 67 68 Fig. 46 - Transformação dos espaços de circulação em espaços de estar Fig. 48 - Pátio exteriorFig. 47 - Receção 3.1.3 Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, Atelier do Corvo A Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, localizada em Condeixa, consiste numa Instituição Particular de Solidariedade Social no âmbito da saúde mental. Sendo um edifício especializado e de grande escala, presta serviço em diferentes áreas de intervenção, entre elas psiquiatria, psicogeriatria, incapacidade intectual, reabilitação psicossocial e ambulatório. Nesta última estão incluídas consultas das várias especialidades inerentes ao acompanhamento médico. Trata-se de um edifício com grande capacidade de receção de utentes, estando apto para consultas externas e internamento. O projeto de arquitetura foi desenvolvido pelo Atelier do Corvo, em 2020, tendo a encomenda sido promovida pelas Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. A obra em causa consiste na remodelação do antigo edifício Bento menni, ao qual acresceu uma ampliação do volume, dedicada aos serviços administrativos. Do conjunto arquitetónico também faz parte a Igreja da Ressurreição. Tratando-se de uma reabilitação, e devido à necessidade de cumprir todos os requisitos funcionais e programáticos impostos, foram realizadas diversas transformações no edifício existente. Entre elas é fundamental referir a ampliação da área de intervenção para Nascente, o acréscimo de um novo piso, assim como a demolição da cobertura de duas águas. Apenas os elementos estruturais foram preservados, sendo aproveitados para a definição da linguagem e ritmo interior pretendidos. Em termos programáticos, o edifício é, maioritariamente, dedicado à saúde mental, estando destinado não só à realização de consultas, como também ao internamento de doentes mentais profundos. Porém, está também disponível o acompanhamento médico nas restantes especialidades, sendo este necessário ao longo do internamento dos utentes. Refletindo sobre as características dos diferentes estágios e graus de doença mental acolhidos, foram desenhados quartos com diferentes tipologias. Isto é, foram projetados quartos individuais e triplos pelos quais são distribuídos os utentes, de acordo com a sua patologia e a sua capacidade de socialização ou necessidade de privacidade. Além dos quartos, foram ainda projetados pequenos apartamentos individuais destinados a doentes mais autónomos, demonstrando assim preocupação com a sua privacidade e a valorização da sua autonomia. Porém, devido à especificidade do programa, foram impostas várias condicionantes, principalmente ao nível da segurança e acessibilidades. Não obstante, apesar destas imposições, existiu, por parte dos autores do projeto, a intenção de contrariar a atmosfera hospitalar que, frequentemente, predomina nestes lugares. 69 70 Neste sentido, e tal como a autora refere na entrevista realizada, esteve sempre inerente a este projeto a intenção de desenhar um espaço que, apesar de todos os requisitos hospitalares obrigatórios, pudesse também ser aprazível e confortável. Através da criação de diferentes atmosferas ao longo da sequência dos espaços, com escalas e materialidade distintas, pretendeu-se desenhar um espaço à medida do utente, no qual este se sinta acolhido e valorizado, despoletando o sentimento de pertença. Um espaço dinâmico mas simultaneamente acolhedor. Um verdadeiro lar para os que terão a necessidade de viver nele o resto das suas vidas. Este conceito de projeto foi possível devido à estratégia utilizada para o desenho interior. Tal como a arquiteta refere, os espaços de circulação foram desenhados como ruas, sendo profundos e com dimensões generosas. (Pedro, 2022). Foram criados ritmos através do avanço e recuo de volumes, o que contribuiu para conferir dinamismo ao espaço. Por sua vez, a materialidade foi também escolhida com a intenção de transmitir o máximo de conforto possível, transformando a atmosfera hospitalar na atmosfera de um lar. Não obstante, dada a exigência do programa em causa, toda a estratégia anteriormente referida foi desenvolvida e aprovada juntamente com uma equipa de psiquiatras, psicólogos e enfermeiros, de modo a que as escolhas arquitetónicas não interferissem no processo de tratamento médico. Desta forma, conciliando duas áreas disciplinares distintas - arquitetura e psiquiatria/psicologia - foi possível desenhar um espaço à medida daqueles que o utilizam, com a intenção de facilitar o processo de integração e adaptação a uma nova realidade. Como se torna evidente, após a explicação apresentada, este edifício é um caso de estudo pertinente, pois foi desenvolvido segundo as mesmas preocupações conceptuais presentes no projeto em desenvolvimento. Tal como neste último, também no caso de estudo houve a intenção de conciliar diferentes áreas de investigação, de modo a obter uma resposta arquitetónica o mais eficiente possível. A materialidade e os ritmos interiores adotados permitiram criar diferentes atmosferas ao longo da sequência dos espaços, o que torna esta obra numa referência essencial ao desenvolvimento de qualquer programa dedicado à doença/ saúde mental. O que se pretende, em ambos, é estudar a criação de diferentes ambientes, através da materialidade e da forma, de modo a que estes contribuam para a promoção da saúde mental. 71 72 Fig. 49 - Área de entrevista Fig. 51 - Receção e ligação à sala de esperaFig. 50 - Área de trabalho individual do psiquiatra 3.1.4 Medical Clinic, aNC arquitetos A Medical Clinic localiza-se na cidade do Porto, e foi projetada pelo atelier aNC arquitetos, em 2014. Tratando-se de um espaço destinado à realização de psicoterapias, foi projetada segundo um conceito arquitetónico distinto do habitual “(…) distanciando-se dos espaços de saúde higienistas e aproximando-se de um ambiente reservado, íntimo e acolhedor.” (aNC arquitetos). Apesar de ser um projeto de pequena escala, é evidente, no desenho interior, a preocupação em pensar a sequência dos espaços, diferenciando-os pela sua forma e materialidade, sem nunca descorar a questão da privacidade. Sendo este um local dedicado à saúde mental, foi também ele pensado como uma ferramenta simbólica de auxilio aos tratamentos prestados. Tal como referiu o autor do projeto, o espaço “(…) foi pensado para afetar psicologicamente e para conferir serenidade. Pelo menos, talvez seja o mínimo, tenta retirar tenção à entrada no espaço e, portanto, ao retirar tensão, dar espaço à relação entre a médica e o paciente.” (Carvalho, 2022). Isto é, o projeto foi desenvolvido privilegiando conceitos como silêncio e privacidade, criando uma atmosfera de acolhimento e conforto, a qual beneficia os tratamento realizados. Este objetivo é conseguido através do estudo da forma, da materialidade, da incidência de luz natural e da escala utilizada, resultando num espaço que reflete não só a preocupação com o cumprimento dos parâmetros funcionais exigidos, como também pretende conferir o máximo de conforto e serenidade aos utentes. Por outro lado, é ainda essencial realçar que o projeto foi desenvolvido obedecendo a diretrizes recomendadas pela psiquiatra proprietária do espaço, o que comprova a viabilidade da relação entre ambas as disciplinas. Tal como a própria afirma, “(…) A forma como são concebidas atualmente, pelos arquitetos, as instituições e ambientes terapêuticos, também ajudará a construira imagem de como é vista a doença mental (...) e aí o diálogo com os técnicos de saúde mental poderá ser uma mais valia.” (Valente, 2022), demonstrando assim os benefícios do trabalho multidisciplinar. Isto é, a linguagem arquitetónica utilizada na conceção de espaços dedicados à saúde mental, poderá também influenciar a forma como este tipo de patologias são encaradas pela sociedade, contribuindo para a diminuição do estigma existente. Neste sentido, o projeto em causa torna-se numa referência arquitetónica pertinente, pois consiste num exemplo de capacidade de síntese entre a complexidade do programa e a simplicidade do espaço. Além disso, apresenta semelhanças conceptuais com o programa em desenvolvimento, pois está presente a preocupação de transformar a arquitetura em algo mais do que apenas requisitos funcionais. 73 74 Fig. 52 - Fotomontagem da proposta 3.2 Proposta: Alojamento temporário e clínica médica Numa segunda fase de desenvolvimento do projeto, e sendo proposta a implantação de um programa de caráter social, foi possível escolher entre a implantação de um centro comunitário, edifício de banhos públicos ou de um alojamento temporário. Entre as opções referidas, optou-se pela última, devido à necessidade e impacto social deste programa. Isto é, optou-se pelo desenvolvimento de um alojamento temporário, pois trata-se de um programa capaz de combater as problemáticas associadas ao tema teórico do atelier, sendo também caracterizado por uma versatilidade que lhe permite adaptar-se às demais exigências do futuro. Por outro lado, o programa foi também selecionado devido à sua simbologia, reforçando a ideia de que todos os cidadãos, independentemente da etnia, do género ou da classe social, todos têm direito a possuirem um “abrigo”, um lugar de acolhimento. Desta forma, este conceito faz ainda mais sentido sabendo que este espaço se destinará a refugiados e pessoas em situação de sem-abrigo, estando inerente a intenção de promover e facilitar o processo de reintegração social desta população, combatendo a descriminação e exclusão à qual estão expostos. Aliada a esta intenção, surge também a preocupação com a saúde mental do público-alvo, pois é do conhecimento público que as suas circunstâncias de vida promovem o aparecimento de doenças mentais. É de acordo com estes aspetos que surge o objetivo de projetar um espaço que seja algo mais do que apenas um local para habitar, sendo este desenvolvido com base numa série de preocupações além das inicialmente previstas. Além do enunciado proposto, foi ainda tomada a opção de desenvolver uma nova vertente programática, uma clínica médica e de psicoterapia, tendo esta opção surgido após o estudo teórico da problemática do atelier e das características do público-alvo. Desta forma, tenta-se evidenciar a importância da saúde e da saúde mental no processo de reintegração social, e é a partir deste pensamento que surge a estratégia para o projeto. Por outro lado, foi também constante a ambição de incluir no projeto espaços destinados a atividades em grupo, podendo estas ser de caráter didático ou lúdico. Foi ainda reconhecida a pertinência de desenhar espaços especialmente dedicados à estimulação das relações interpessoais. Espaços onde se promovem momentos de convívio, nos quais se possam relembrar memórias, descrever culturas e partilhar os desejos para o futuro. O local de intervenção também se encontra perfeitamente enquadrado com este tipo de programa, sendo já caracterizado por um vasto contexto histórico de habitação social. Esta zona continua bas75 82 Fig. 56 - Relação da área de implantação com a envolvente próxima Fig. 57 - Impacto visual da área de implantação 83 enunciado proposto, permitindo assim desenvolver um programa complementar ao inicialmente previsto. Além das características do espaço, também o próprio contexto histórico do lugar onde o terreno se localiza o torna pertinente para a intervenção. Isto é, com base numa breve análise histórica, é possível compreender que, junto ao Largo Padre Baltazar Guedes, se localiza o Colégio dos Salesianos, sendo este um marco arquitetónico do lugar. Trata-se de um edifício com vários séculos de história, que foi abandonado e deixado em ruínas após o Cerco do Porto, que se deu entre 1832 e 1833. Posteriormente, ainda no século XIX foi reabilitado tornando-se no Real Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça da Cidade do Porto, fundado pelo padre Baltazar Guedes, inicialmente noutra localização. Mais tarde, o edifício foi adquirido pela Fundação Salesianos, tendo sido, recentemente, reabilitado e transformado num colégio privado, o chamado Colégio dos Salesianos. Por sua vez, é também neste local que se localizam as ilhas, tipologia de habitação social característica do século XIX, maioritariamente destinada a operários da indústria têxtil. São habitações caracterizadas pelas suas dimensões mínimas, com poucas condições de habitabilidade, nas quais ainda hoje em dia apenas habitam famílias carenciadas. Como se torna evidente, este lugar é caracterizado, ao longo dos séculos, por um contexto de fragilidade social e económica, sendo o processo de acolhimento de desfavorecidos um valor já inerente e típico desta população. Deste modo, a implantação de um alojamento temporário destinado a refugiados e pessoas em situação de sem-abrigo torna-se bastante pertinente, não só pelas características do terreno de intervenção e pelo potencial da sua localização, como também pelo contexto em que se insere, sendo um mecanismo que poderá também contribuir para atenuar as fragilidades da comunidade. É com esta intenção que se pretende que, apesar da vertente residencial ser apenas destinada ao público-alvo referido, as restantes vertentes culturais, sociais e médicas do edifício sejam de acesso público, estando ao dispor de toda a comunidade. 84 Fig. 58 - Identificação das diferentes componentes programáticas 3.2.3 Implantação e organização programática Após o processo de análise realizado, assim como a definição da estratégica conceptual pretendida, foi possível dar início ao desenvolvimento do desenho arquitetónico para a proposta do alojamento temporário e clínica médica das Fontainhas. Numa primeira fase de definição de volumes, optou-se por uma estratégia de implantação que contribui também para a consolidação da proposta urbana, enquadrando-se nos seus princípios gerais. Isto é, propõe-se a implantação de um edifício construído pelo limite exterior do terreno, que, fazendo a frente de rua, evidencia a fronteira entre o espaço público e privado. Por outro lado, relativamente ao interior das plataformas, são estipuladas estratégias distintas em cada uma delas. Na plataforma da cota inferior, responsável por acolher o programa de saúde e o estacionamento privativo, a construção proposta utiliza todo o espaço de intervenção disponível, sendo o volume estendido até aos limites existentes. No centro do volume é criado um grande pátio que cumpre não só os requisitos funcionais necessários como também é integrado no conceito arquitetónico utilizado no programa. Por sua vez, na plataforma superior, a estratégia é distinta. Devido às suas generosas dimensões, optou-se por dividir o espaço e criar dois pátios, através da implantação de um novo volume central, tendo estes funções distintas. Desta forma, é possível tirar proveito do espaço exterior existente, estando o seu desenho incluído na estratégia do projeto. Neste sentido, a proposta é caracterizada por um conjunto de volumes que se encontram diagonalmente entre si, os quais representam diferentes funções. Como se torna evidente, a estratégia adotada para a implantação pretende não só integrar-se no planeamento urbano proposto, como também tirar o máximo proveito das características espaciais e envolventes da área de intervenção. Assim, não só a localização dos volumes como também a distribuição das diferentes áreas funcionais inerentes ao programa foram estabelecidas de modo a ser possível usufruir o máximo do espaço exterior, da exposição solar e vista paisagística que o local proporciona. Desta forma, a envolvente natural é adotada como parte essencial do conceito arquitetónico, sendo uma mais-valia para os objetivos ambicionados. De modo a ter uma noção exata sobre a escala da intervenção, é pertinente referir que o terreno em causa tem uma área total de 3133.68 m2, estando eles distribuídos por duas plataformas em níveis distintos. Relativamente ao programa, este foi sendo construído ao longo do desenvolvimento do projeto, com base na investigação realizada sobre o público-alvo e as suas especificidades. Além disto, foi também pensado para poder ser usado, em determinadas vertentes, pela comunidade, de modo a ser um mecanismo que contribua para a integração e não para a criação de mais fronteiras entre classes sociais. Neste sentido, além da área residencial destinada pessoas em situação de sem-abrigo e refugiados, são 85 86 Fig. 59 - Receção da clínica Fig. 61 - Sala polivalente Fig. 60 - Receção do alojamento Fig. 62 - Panta de cobertura criadas, no mesmo edifício, áreas de acesso público, tais como uma clínica médica, um refeitório social e espaço para atividades lúdicas e didáticas. De modo a fazer uma distinção entre as diferentes zonas, aproveitou-se a topografia do terreno para a distribuição dos programas, estando a componente pública na plataforma à cota inferior e a componente privada na plataforma superior. No nível inferior do terreno, é possível começar por verificar o desenvolvimento de um estacionamento privativo aos utentes e funcionários do edifício, sendo o acesso feito através da Rua de Gomes Freire. Deste modo, é possível tirar o máximo proveito do espaço de intervenção disponível, começando a proposta à cota 59.5. O estacionamento tem 18 lugares de capacidade, dos quais quatro são destinados a pessoas com mobilidade reduzida. Além disto, são também incluídas neste espaço três arrecadações com dimensões generosas, destinadas ao armazenamento de produtos alimentares, de limpeza e outros mecanismos inerentes ao bom funcionamento e manutenção do edifício. Neste espaço existe ainda um bloco de acessos verticais, o qual permite, através do uso de escadas ou elevador, fazer o acesso aos quatro pisos existentes. Sendo o estacionamento também destinado a cargas e descargas, foi incluído um elevador apenas destinado a esta função, fazendo a distinção entre acessos para o público e acessos de serviço, apenas destinados a funcionários. Ainda nesta plataforma, o piso superior, que se encontra à cota 63.5, é destinado à implantação da clínica médica, sendo esta destinada quer aos utentes do alojamento quer à restante comunidade. Trata-se de um programa desenvolvido em torno de um grande pátio central, o que permite, simbolicamente, estimular o sentido de comunidade e conforto. O programa é constituído por diversas áreas clínicas, pretendendo prestar apoio nos principais serviços de saúde. Neste sentido, relativamente à saúde física, foram projetados quatro gabinetes de medicina geral e um de enfermagem, assegurando o acompanhamento de todos os utentes. Estes estão localizados a oeste, usufruindo da vista e da luz natural existente. Em relação à saúde mental, e sendo essa uma questão central no desenvolvimento do projeto, foram incluídos três consultórios com funções distintas. Assim, existe um consultório de psicologia, um de psiquiatria e um de psicanálise, dando resposta aos diferentes tipos de patologias ou necessidades existentes. Com a intenção de assegurar as questões de privacidade inerentes ao tratamento psicológico, estes gabinetes usufruem de salas de espera privativas. Estando direcionados a sul, ambos os espaços, de espera e de consulta, usufruem da paisagem para o rio Douro e Vila Nova de Gaia. Por sua vez, foram ainda projetados mais três espaços destinados a atividades específicas, sendo eles uma sala de terapia de grupo, uma sala de fisioterapia e uma sala Snoezelen, que consiste num espaço multi-sensorial, recomendado não só para pessoas com demência mas também para combater situações de stress e ansiedade. Deste modo, em uma área total de 739.69 m2, incluindo espaços de circulação, de espera e de serviço, tenta-se dar resposta às principais necessidades dos utentes. O pátio, com 208.77 m2, é também uma parte central do projeto, permitindo não só cumprir os requisitos funcionais exigidos como também pode ser utilizado para a realização de atividades terapêuticas exteriores. O piso seguinte faz a ligação entre as duas plataformas, estando dividido em duas áreas com desnível de um metro. Este piso é o que apresenta maiores dimensões, 1414.82 m2, sendo composto por diferentes funções. À cota 69, junto ao cruzamento da Rua de Gomes Freire, Rua das Fontainhas e Rua Duque Saldanha, encontra-se a entrada do edifício, a qual é feita a partir de um pátio público. Nesta cota, além da receção e administração, e da zona de serviços composta pela lavandaria e arrecadações, é também possível encontrar uma das áreas residenciais, sendo esta composta por sete apartamentos 87 88 Fig. 63 - Quarto duplo Fig. 65 - Vista para o exterior a partir de um quarto Fig. 64 - Corredor de distribuição dos quartos Fig. 66 - Panta à cota 61 Fig. 67 - Planta à cota 65 Fig. 68 - Corte G destinados a famílias de refugiados. A sua capacidade prevista é entre duas e quatro pessoas, porém, tem condições para a colher um maior número, dependendo do mobiliário adotado. Estes pequenos apartamentos fazem também uma referência simbólica às ilhas, tipologia habitacional característica do lugar. Todos eles têm uma entrada privada e acesso direto ao pátio terapêutico, de modo a preservar os princípios de identidade e independência das famílias acolhidas. Ainda neste piso, mas à cota 68, o programa imediatamente por cima da clínica, diz respeito ao refeitório público e aos serviços a ele inerentes. Trata-se de um espaço amplo, com capacidade para cinquenta e seis lugares sentados. Além disto, o refeitório usufrui ainda de um vasto pátio exterior, que permite não só desfrutar da vista para o rio Douro, como também servir refeições ao ar livre, se necessário. Ainda à cota 68, este espaço tem continuidade, no interior, para uma zona multifuncional, isto é, uma área que pode ser adaptada às diferentes necessidades. Prevê-se que este espaço seja utilizado como biblioteca/ auditório, porém, tem características que também lhe permitem ser um espaço de convívio ou de realização de atividades lúdicas e didáticas. Por sua vez, o piso superior, implantado à cota 73.5 e com 981.60 m2, cumpre apenas a função residencial, sendo responsável por acolher dezoito quartos, preferencialmente destinados a pessoas em situação de sem-abrigo. Entre estes, dez são duplos, destinados a pessoas com boa capacidade de interação interpessoal, e oito são individuais, destinados a pessoas com algum tipo de patologia mental associada ou com dificuldade em partilhar o espaço privado. Apesar das tipologias definidas, todos os quartos têm capacidade para colher um maior número de pessoas, dependendo do mobiliário utilizado. Além do edifício projetado, também o espaço exterior se assume como uma importante componente do projeto, sendo essencial para a materialização do conceito arquitetónico, isto é, a promoção do bem-estar físico e mental dos utentes. Conforme se tornou percetível ao longo da explicação apresentada, a intervenção proposta inclui a presença de 3 pátios, tendo eles funções e escalas distintas. O primeiro pátio a ser referido é o de entrada, sendo a sua função apenas a receção das pessoas. É através deste pátio que se tem acesso à entrada e zona do receção do edifico, sendo a partir daí feita a distribuição para as diferentes áreas. O segundo pátio está localizado na clínica, e cumpre requisitos funcionais e terapêuticos. Por um lado, o pátio permite iluminar as zonas de circulação assim como as salas de espera, sendo também útil no processo de ventilação. Além da questão funcional, prevê-se que este seja também um complemento dos processos terapêuticos realizados nas consultas, estando disponível para a realização de terapias ao ar livre e qualquer tipo de atividade exterior que se julga benéfica para os tratamentos em causa. Além disto, este pode ainda ser adotado como um espaço de estar exterior destinado ao entretimento de jovens e crianças. Por fim, em relação ao terceiro pátio, pretende-se que este seja um lugar de comunhão entre os dois programas, sendo destinado quer aos utentes do alojamento, quer aos da clínica. Trata-se de um espaço com generosas dimensões, 1041.27 m2, e neste é projetado um jardim terapêutico com o intuito de auxiliar no tratamento de doenças mentais. Este espaço é composto por três componentes distintas, estando nele presente uma zona dedicada ao cultivo, uma outra dedicada a jardinagem, e ainda um espaço destinado à prática de exercício físico. Desta forma, é possível estimular vários sentidos simultaneamente, tais como o tato, o olfato e visão. Sabendo que o aparecimento de distúrbios psicológicos está diretamente relacionado com percursos de vida traumáticos, com dificuldades económicas e com o envelhecimento, é de prever que quer o público-alvo da intervenção, quer a comunidade envolvente, estejam bastante expostos ao desenvolvi 89 90 Fig. 69 - Pátio de entrada do alojamento Fig. 71 - Pátio da clínica Fig. 70 - Jardim do alojamento Fig. 74 - Corte H Fig. 72 - Panta à cota 70.5 Fig. 73 - Planta à cota 75 mento destas patologias. Neste sentido, julga-se pertinente a implantação de um jardim terapêutico, reconhecidamente benéfico no tratamento de Alzheimer e outras demências. Além desta funcionalidade, e devido às suas dimensões, é possível que o espaço seja simultaneamente utilizado apenas como zona de estar exterior dos utentes do alojamento, usufruindo assim da vista e do contacto com a envolvente natural. Em ambos os casos, o intuito é que o este espaço seja uma ferramenta produtora de bem-estar, seja através do tratamento de doenças concretas, seja através da estimulação de uma atmosfera de serenidade. Como se torna evidente, além do programa residencial inicialmente proposto, o projeto acolhe outras vertentes programáticas, sendo estas consequência das preocupações que surgiram ao longo da fase de análise do lugar e do público-alvo. Assim, pretende-se projetar um espaço que para além cumprir o enunciado a que se propõe, seja também capaz de despertar outro tipo de sensações nos seus utilizadores, contribuindo assim para o seu bem-estar e, consequentemente, para um processo de reintegração social mais fácil. 91 92 98 de projeto. A clarificação deste conceito de projeto apenas foi possível devido a um processo de investigação teórico e prático, que permitiu compreender a sua validade e pertinência. Assim sendo, a proposta desenvolveu-se com base em referências arquitetónicas, referências bibliográficas, entrevistas e visitas a casos de estudo, tendo sido os dois últimos fatores essenciais para a aproximação à problemática e ao público-alvo. O objetivo deste trabalho centra-se em, através de uma investigação multidisciplinar, em que além da arquitetura se estudam áreas como psicologia, psiquiatria, sociologia e antropologia, compreender como se pode desenhar o espaço de modo a transformá-lo num mecanismo promotor de bem-estar. Esta é uma ambição gerada a partir da necessidade de atenuar as consequências negativas que a instabilidade política, económica e social nos provoca a nível psicológico. Por sua vez, pretende-se realçar que a complexidade e exigência inerentes ao programa e ao tema de estudo escolhidos tornaram este projeto ainda mais desafiante e motivador. Este não será, certamente, o único modo de dar resposta às problemáticas colocadas pelo atelier, contudo, julga-se que seja uma forma pertinente de o fazer, chamando a atenção para a capacidade que arquitetura tem de ser mais do que apenas um mecanismo funcional. Por fim, é ainda pertinente referir que o trabalho em causa foi bastante enriquecedor a nível pessoal, pois permitiu não só explorar e adquirir novas competências de pesquisa e investigação, como também contribuiu para o desenvolvimento de um pensamento estratégico que confere relevância às atuais problemáticas da sociedade. Além disto, a metodologia adotada permitiu desenvolver um conhecimento multidisciplinar, através do contacto com disciplinas como a psicologia, psiquiatria e antropologia, conseguindo assim dar resposta à maior quantidade de problemáticas possível, através do projeto. Neste sentido, e devido a todo o conhecimento obtido, foi possível não só criar uma nova visão sobre a arquitetura, como também sobre a relevância do papel dos arquitetos na sociedade. 99 100 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  Administração Central do Sistema de Saúde (2011). Recomendações Técnicas para Serviço de Medicina Física e Reabilitação. Câmara Municipal do Porto. (2018). ARU do Bonfim - Área de Reabilitação Urbana Câmara municipal do Porto. (2019)a. Diagnóstico à Realidade Social do Porto: O Cenário em 2018  Câmara Municipal do Porto. Estratégia Municipal para a Integração de Pessoas em Situação de Sem Abrigo 2020-2023  Câmara Municipal do Porto. (2019)b. Inquérito de caracterização das pessoas em situação de sem abrigo Câmara Municipal do Porto. (2020). Mapeamento e Perfil das Respostas da Rede Social do Porto  Câmara Municipal do Porto. (2019)c. Plano de Desenvolvimento Social: 2019-2021 Domingos, P., Xavier, M. (2019). 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Desenho da autora. Figura 30 - Destruição do território ucraniano causada pelo conflito com a Rússia. Fotografia de Sergii Kharchenko / NurPhoto / Getty. Fonte: https://www.newyorker.com/podcast/politics-and-more/a-ukrainian-diplomat-on-the-future-of-russian-aggression - p.40 Figura 31 - Síria: Rasto de destruição provocado pela guerra. Fotografia de Aleppo Media Center, dpa picture-alliance. Fonte: https://www.deutschlandfunkkultur.de/aleppo-in-syrien-zehntausende- -zivilisten-in-lebensgefahr-100.html - p. 42 Figura 32 - Processo migratório de refugiados. Fonte: https://eacnur.org/es/actualidad/noticias/eventos/la-onu-firma-el-pacto-mundial-sobre-refugiados - p. 44 Figura 33 - Pessoa em situação de sem-abrigo. Fotografia de Ben Kerckx | PIXABAY. Fonte: https:// www.jpn.up.pt/2020/04/07/camara-do-porto-vai-alargar-programa-de-rastreios-a-sem-abrigo-e-pessoas-com-deficiencia/ - p. 46 Figura 34 - Livro “Cultura, Medicina e Psiquiatria”, de Manuel Quartilho. Fonte: https://mbooks. pt/produto/cultura-medicina-e-psiquiatria/ - p. 48 Figura 35 - Livro “Psiquiatria Social e Cultural - Diálogos e Convergência”, de Manuel Quartilho. Fonte: https://books.google.pt/books/about/Psiquiatria_Social_e_Cultural.html?id=XlbsDwAAQBAJ&printsec=frontcover&source=kp_read_button&hl=pt-PT&redir_esc=y#v=onepage&q&f=- false - p.48 Figura 36 - Livro “The eyes of the skin - Architecture and the senses”, de Juhani Pallasmaa. Fonte: https://www.amazon.co.uk/Eyes-Skin-Architecture-Senses/dp/0470015780 - p. 56 Figura 37 - Livro “ Habitar”, de Juhani Pallasmaa. Fonte: https://www.wook.pt/livro/habitar-juhani-pallasmaa/19560865 - p. 56 Figura 38 - Livro “Atmosferas”, de Peter Zumthor. Fonte: https://www.fnac.pt/Atmosferas-Peter- -Zumthor/a6808591 - p. 58 Figura 39 - Livro “Questions of perception: Phenomenology of Architecture”, de S. Holl, J. Pallasma, A. Pérez-Gómez. Fonte: https://www.amazon.com/Questions-Perception-Phenomenology-Steven-Holl/dp/0974621471 - p. 58 Figura 40 - Sala polivalente. Fotografia da autora, setembro de 2021 - p. 62 Figura 41 - Galeria de distribuição. Fotografia da autora, setembro de 2021 - p. 62 Figura 42 - Pátio central. Fotografia de João Ferrand e Mariana Themudo. Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/01-50452/centro-comunitario-sao-cirilo-e-edificio-de-escritorios-nuno-valentim-e- -frederico-eca-arquitectos/50452_50456?next_project=no - p. 62 Figura 43 - Vista exterior do edificado. Fotografia de Filipe Oliveira, março de 2007. Fonte: https:// zumthor.org/project/masans/ - p. 66 Figura 44 - Apropriação do corredor como espaço de estar. Fotografia de Pedro Varela, abril de 2007. Fonte: https://zumthor.org/project/masans/ - p. 66 Figura 45 - Planta ilustrativa da área residencial. Fotografia de Hélène Binet. Fonte: https://www. atlasofplaces.com/architecture/homes-for-senior-citizens/ - p. 66 116 117 Figura 46 - Transformação dos espaços de circulação em espaços de estar. Fotografia de Rita Caniceiro | Archdaily. Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/968645/casa-de-saude-rainha-santa-isabel-atelier-do-corvo/6143d660f91c8168820000de-casa-de-saude-rainha-santa-isabel-atelier-do-corvo-foto?next_project=no - p. 68 Figura 47 - Receção. Fotografia de Rita Caniceiro | Archdaily. Fonte: https://www.archdaily.com. br/br/968645/casa-de-saude-rainha-santa-isabel-atelier-do-corvo/6143d665f91c813a2f0000d0-casa-de-saude-rainha-santa-isabel-atelier-do-corvo-foto?next_project=no - p. 68 Figura 48 - Pátio exterior. Fotografia de Rita Caniceiro | Archdaily. Fonte: https://www.archdaily. com.br/br/968645/casa-de-saude-rainha-santa-isabel-atelier-do-corvo/6143d5c3f91c813a2f0000ca- -casa-de-saude-rainha-santa-isabel-atelier-do-corvo-foto?next_project=no - p. 68 Figura 49 - Área de entrevista. Fotografia da autora, maio de 2022. p. 72 Figura 50 - Área de trabalho individual do psiquiatra. Fotografia da autora, maio de 2022. p. 72 Figura 51 - Receção e ligação à sala de espera. Fotografia da autora, maio de 2022. p.72 Figura 52 - Fotomontagem da proposta. Desenho da autora. p. 74 Figura 53 - Maquete de estudo, janeiro de 2022. Fotografia da autora, janeiro de 2022. p. 78 Figura 54 - Desenho de processo. Fotografia da autora. p. 78 Figura 55 - Identificação da área de implantação, dezembro de 2022. Imagem produzida pela autora a partir de fotografia aérea do Google Earth. p. 80 Figura 56 - Relação da área de implantação com a envolvente próxima. Fotografia de Ana Couto. p. 82 Figura 57 - Impacto visual da área de implantação. Fotografia de Ana Couto. p. 82 Figura 58 - Identificação das diferentes componentes programáticas. Desenho da autora. p. 84 Figura 59 - Receção da clínica. Imagem produzida pela autora. p. 86 Figura 60 - Receção do alojamento. Imagem produzida pela autora. p. 86 Figura 61 - Sala polivalente. Imagem produzida pela autora. p. 86 Figura 62 - Planta de cobertura. Desenho da autora. Figura 63 - Quarto duplo. Imagem produzida pela autora. p. 88 Figura 64 - Corredor de distribuição dos quartos. Imagem produzida pela autora. p. 88 Figura 65 - Vista para o exterior a partir de um quarto. Imagem produzida pela autora. p.88 Figura 66 - Planta à cota 61. Desenho da autora. Figura 67 - Planta à cota 65. Desenho da autora. Figura 68 - Corte G. Desenho da autora. Figura 69 - Pátio de entrada do alojamento. Imagem produzida pela autora. p. 90 Figura 70 - Jardim do alojamento. Imagem produzida pela autora. p. 90 Figura 71 - Pátio da clínica. Imagem produzida pela autora. p. 90 Figura 72 - Planta à cota 70.5. Desenho da autora. Figura 73 - Planta à cota 75. Desenho da autora. Figura 74 - Corte H. Desenho da autora. Figura 75 - Alçado sul (D). Desenho da autora. Figura 76 - Alçado norte (B). Desenho da autora. Figura 77 - Corte G com pormenor construtivo. Desenho da autora. p. 94 Figura 78 - Corte E com pormenor construtivo. Desenho da autora. p. 94 Figura 79 - Corte com pormenor construtivo. Desenho da autora. 118 119 ANEXOS Entrevistas realizadas pela autora Material de processo Desenhos de projeto Painéis de apresentação 120 Anexo 1: Entrevista 1 Fonte: Entrevista realizada pela autora Entrevistador: Autora Entrevistado: Arquiteto Jorge Carvalho Data: 7 de abril de 2022 O meu nome é Catarina Nunes, sou estudante de arquitetura na Universidade de Coimbra e encontro-me neste momento no 5º ano a desenvolver a minha tese de mestrado sob a orientação do professor doutor José Fernando Gonçalves. A tese é composta pelo projeto de arquitetura, que tem sido desenvolvido em Atelier de Projeto desde o 4º ano, e por um tema teórico, escolhido por mim, o qual define regras para o desenho arquitetónico. Relativamente ao programa do projeto, este atelier propunha o desenvolvimento de programas sociais, à escolha entre um centro comunitário, um edifício de banhos públicos ou um alojamento temporário. Todos estes equipamentos têm como público-alvo pessoas em situação de sem-abrigo, refugiados e migrantes, sendo o local de intervenção o lugar das Fontainhas, no Porto. Após a contextualização do atelier e do trabalho proposto, eu optei por desenvolver um alojamento temporário destinado a pessoas em situação de sem-abrigo e refugiados. Com base nas problemáticas políticas, económicas e sociais que predominam atualmente, optei por relacionar o projeto de arquitetura com a saúde mental, sendo a minha tese intitulada “Saúde Mental: A Arquitetura como terapêutica”. O objetivo é, através deste ciclo de entrevistas, em que tenho tido contacto com arquitetos e psiquiatras, perceber de que forma as características do espaço podem influenciar a saúde mental, e, posteriormente, aplicar esses critérios no projeto. Neste sentido, e de forma a tornar mais explícita a importância da saúde mental e do acompanhamento psicológico no público-alvo, optei por expandir o programa e projetar também uma clínica médica e de psiquiatria, no mesmo edifício do alojamento. Após a explicação do trabalho que estou a desenvolver, e tendo como referência o projeto que desenvolveu para uma clínica psiquiátrica, desenvolvi algumas questões para lhe colocar. Quando lhe foi proposto projetar um espaço dedicado à saúde mental, procurou recomendações de algum psiquiatra/ psicólogo em relação à organização do espaço, ou o projeto foi desenvolvido apenas segundo os requisitos funcionais e programáticos necessários? Neste caso, a encomenda foi feita pela doutora Paula Valente, que é especialista em psiquiatria e também com formação em psicanálise. Uma das funções que aquele espaço tem de desempenhar são os tratamentos. Portanto, no fundo, cumprir a função tem de ser para cumprir a função de tratar as pessoas. E, portanto, não há diferença entre os cuidados e forma de tratar e a função, as duas são a mesma coisa. Tudo foi discutido com ela, no entanto nunca notei que houvesse uma prescrição objetiva quanto a características psicológicas, ou uma determinação por via da psicologia do espaço ou da perceção. Nesse sentido, as qualidades que se pretendia que o espaço tivesse eram qualidades genéricas, de bem-estar. Embora houvesse uma que era mais objetivável, que era a questão da insonorização. Muitas das pessoas que procuram tratamento psiquiátrico têm inseguranças, medos, e, portanto, a questão do conteúdo das conversas não ser ouvido é importante. Por um lado pelo respeito pelas pessoas, porque começam a lidar com assuntos muito íntimos, e por outro porque muitas vezes tratam-se 121 de pessoas que são híper sensíveis a essas questões da privacidade. Além destas recomendações mais genéricas e das qualidades do espaço, havia que responder com dimensionamento de espaços para atividades específicas do tratamento. Então em relação às características do espaço, a não ser a questão acústica, o resto ficou mais à sua responsabilidade, à responsabilidade do arquiteto? Foi. Durante o desenvolvimento do projeto, fez alguma consulta de psicologia/ psiquiatria, de modo a perceber quais são, para si, as características ideais para este tipo de programa? A sua experiência pessoal teve influência no projeto? Não, não de todo. O estudo que houve foi pesquisa de referências na cultura arquitetónica e conversas com a dona da obra acerca das características desejáveis.  Então, enquanto arquiteto, não considera importante termos a experiência no espaço e sabermos como é aquele contexto, o contexto da consulta, para percebermos como é que nós próprios nos sentiríamos confortáveis? Bem, eu conheci o consultório anterior dela, mas é impossível termos a experiência de uma consulta com outra pessoa por razões de sigilo, e até porque a presença de um estranho anula a possibilidade de sucesso de uma consulta. Eu estava a perguntar no sentido de o professor ir a um psicológico ou psiquiatra ter uma consulta, para saber como se iria sentir no espaço. Não me passou pela cabeça, estou a ser questionado pela primeira vez quanto a essa questão, mas o que me dá ideia é que ao contrário de outras situações que são desdramatizadas socialmente, no caso de uma doença psiquiátrica, parece que não é assim. Há muitas pessoas que estão doentes e não têm a força sequer para reconhecer e não arranjam forças para se irem tratar, porque requer alguma autodisciplina. Implica um processo, diz-me a Paula Valente. Implica um processo dentro da pessoa, de chegar a um estado de uma certa gravidade, para a pessoa reconhecer a necessidade de se tratar. Ou seja, a experiência de quem vai a uma consulta é uma experiência de alguém que está muito fragilizado, e parece-me que é impossível eu simular isso. Eu não estando nessa situação, vou lá e não vou sentir nada do que sentem essas pessoas. E por outro lado, há muitos tipos de patologias e, portanto, o que as pessoas sentem é muito diferente. Às vezes os problemas não são só medos, são de outros tipos, portanto são experiências muito diferentes. Não sei se se pode simular essa experiência, tenho a impressão que não é possível. Ao longo do desenvolvimento do projeto, teve contacto com o público-alvo para perceber qual a opinião deles sobre as características do espaço ideal para receber acompanhamento psicológico? Não, não tive. Mas tive essa informação através da Paula Valente, procurei ter essas informações. O que ela diz é que muitas pessoas aparecem com tais problemas na estrutura do seu ser, que ou têm híper sensibilidade a determinados aspetos do mundo exterior, ou têm insensibilidade relativamente a outros aspetos. Por vezes, mesmo as coisas mais belas e harmoniosas lhes parecem monstruosas. Noutros casos, são-lhes indiferentes, ou mesmo as coisas mais monstruosas lhes são indiferentes. Uma coisa curiosa que ela conta é que por vezes, e isto já é um feedback no funcionamento deste espaço, determinadas pessoas, ao fim de alguns meses, porque os tratamentos são muito demorados, ao fim de 122 alguns meses há uma consulta em que dizem “Olhe, este espaço da clínica é bonito.” ou “Este espaço é interessante.”, e ela percebe “Esta pessoa está a ficar curada.”. E, portanto, indo agora mais diretamente à pergunta, provavelmente alguém que não é um clínico, a falar com uma pessoa e a fazer perguntas, não vai receber uma resposta objetiva em relação aos espaços. Na explicação que acompanha os desenhos do projeto, refere que “A conceção desta clínica para psicoterapias reflete sobre os códigos arquitetónicos desta tipologia arquitetónica.” Pode explicar melhor no que consistem estes códigos arquitetónicos? Se lhe foram recomendados por algum especialista ou se estão relacionados com a arquitetura hospitalar psiquiátrica, por exemplo? A ideia que eu tenho, e isto foi discutido também com a Paula Valente, é que os espaços de saúde em geral, por boas razões, pelas razões certas, têm de ser asséticos. No entanto, os espaços de saúde mental, em grande parte, seguem também estas características, e a assepsia leva à escolha de determinados materiais e geometrias que levam à qualificação de um ambiente clínico, que é tido como frio, como técnico. Há uma tradição de desenhar os espaços de saúde mental inseridos nesta linha, e isto constitui códigos também. No fundo, estas características da assepsia codificaram-se numa arquitetura que é tida como técnica. Quando entramos num hospital temos a noção, e é verdade, que estamos a entrar numa máquina. É uma máquina tanto porque o edifício está superequipado com artefactos tecnológicos, como também, no seu funcionamento, ele é otimizado para tudo o que são fluxos, para uma grande eficiência. Isto cruzado com a assepsia completa estes códigos de uma máquina. O que se pretendeu aqui foi tentar afastar desses códigos e ir buscar mais os códigos do conforto. Também, por outro lado, a pequena escala aqui permitia aproximar mais da escala do que era o antigo consultório médico doméstico. Portanto, favorecer uma sensação de proximidade e intimidade entre o paciente e o clínico. A necessidade de assepsia nos espaços de saúde tem a ver com virem muitas pessoas com doenças infeciosas e concentrarem-se no mesmo local. Aqui isso não se passa, são outro tipo de patologias, e, portanto, o espaço fica livre dessa restrição e é possível explorar uma linguagem arquitetónica mais relacionada com a intimidade e bem-estar e tentar enfatizar os códigos de conforto. Quando digo “códigos” tem a ver com algo que está codificado na cultura. Refere também que, neste projeto, pretende “(...) distanciar-se dos espaços de saúde higienistas e aproximar-se de um ambiente reservado, íntimo e acolhedor.”. Isto significa que o espaço foi projetado para, ele próprio, ter influência e contribuir positivamente para a reabilitação dos doentes? Ou é só uma preocupação com o conforto, mas o espaço não foi pensado para afetar psicologicamente? Ele foi pensado para afetar psicologicamente e para conferir serenidade. Pelo menos, talvez seja o mínimo, tenta retirar tenção à entrada no espaço e, portanto, ao retirar tensão, dar espaço à relação entre a médica e o paciente. Pelas razões que disse anteriormente, não sei se o espaço tem mais poder do que isso. Obviamente que o espaço não tem o poder de tratar ninguém, mas se puder retirar alguma carga de tensão e intimidação, que por vezes os espaços de saúde têm, pelo menos o espaço não trata mas dá espaço para o que o tratamento aconteça. Considera que é possível projetar um espaço de modo a que este seja uma ferramenta terapêutica? Não me acredito que algo possa ter uma relação assim, que seja uma causa direta. Se tivermos uma comparação entre o mesmo paciente a receber o mesmo tratamento, mas em espaços diferentes, em que um deles foi pensado através de características terapêuticas, os tais códigos arquitetónicos, e o outro não, considera que o espaço em que estão a ser tratados faz diferença? Se pode ajudar 123 a tornar o processo mais rápido, visto que normalmente são processos lentos? Sim, penso que sim. Agora o grau em que isso acontece, temos de ter alguma cautela e não nos iludirmos com o poder da arquitetura face aos outros meios do tratamento. Mas isto não é uma questão de acreditar, vamos ser objetivos, porque isto não pode ser uma questão de fé. Se calhar devias entrevistar a Paula Valente, porque pelo que ela me diz, isso tem importância. Agora qual a importância e como se mede essa importância em comparação com as outras componentes do tratamento, temos de ter alguma cautela e talvez ela seja melhor pessoa para definir isso.  Relativamente à linguagem interior do projeto, as cores e os materiais de acabamento foram escolhidos de acordo com algum critério que define que estes contribuem para o bem-estar mental dos pacientes? Qual foi o critério para a escolha dos acabamentos? A insonorização, como expliquei anteriormente, era um parâmetro importante. Por outro lado, nós demos também importância não só a que a insonorização estivesse assegurada, mas que essa insonorização fosse percebida. Portanto, dotar os espaços de absorção acústica maior do que a que é habitual, reduzir o tempo de reverberação, o que consiste numa evocação da insonorização, embora sejam coisas diferentes. Nós sentimos a absorção acústica e isso leva-nos a confiar mais na insonorização, embora os valores de insonorização possam ser os mesmos com reverberações mais longas. Essa foi uma estratégia, jogar com essa mensagem proporcionada pelo tratamento acústico. Uma outra questão foi usufruir do envidraçado para o exterior, a organização dos espaços tentou tirar partido disso e não interromper o envidraçado longo. Deixar que fosse um só compartimento ao longo do envidraçado. Aí é uma questão de relação com a natureza, de otimização daquilo que já lá estava. A cota do teto foi acertada pelo exterior, para valorizar essa transparência, através do encontro do teto com o caixilho. Em termos das cores, e não só as cores, a textura da cortiça e conferir-lhe uma cor que mantivesse a textura da cortiça num dos espaços, permitiu ter também uma evocação a uma referência orgânica, na medida em que nós conseguimos perceber que é um material mole, e mesmo para quem não perceber muito do que é o material, provavelmente mantém a noção de que é um material de origem natural. Muitas vezes isso é um código para conforto, não tanto de um ponto de vista clínico, mas genérico. Então a questão dos acabamentos interiores esteve mais relacionada com questões arquitetónicas e não tanto com questões psicológicas? Tem a ver com o desejo de criar um espaço de intimidade e conforto, portanto está. Mas criar um espaço íntimo e de conforto não determina que a solução seja esta. Esta encaixa-se nessa ideia, mas haverá outras respostas.  Para si, enquanto arquiteto, quais foram os principais desafios ao projetar um espaço dedicado à saúde mental? Parece-me que não termos a restrição da assepsia é que faz uma diferença muito grande. Abre muitas outras possibilidades para o projeto. Se calhar é mais fácil fazer um espaço sem assepsia do que outros espaços de saúde que têm essa necessidade. Para finalizar, se tivesse de sintetizar, qual foi o seu conceito de projeto ao desenvolver este programa? Foi tentar projetar um espaço que influencie a saúde mental? Foi apenas cumprir todos os requisitos funcionais necessários? Foi tentar criar uma nova perspetiva da arquitetura psiquiátrica ou apenas seguir os critérios que já existem? Eu gostaria que se inserisse numa linhagem de projetos que trabalha para que nos espaços de saúde os 130 em salas. Ao circularem nos corredores podem terminar o circuito de distribuição numa bow window que se vira para a paisagem, onde um banco lhes permite sentarem-se e interagir com outras pessoas que passam. O material que escolhemos também foi muito importante nesse sentido. Pretendiam que usássemos em todos os pavimentos o vinílico por uma questão de facilidade de limpeza, e nós sugerimos que se usasse o vinílico apenas nos quartos e, nestes espaços públicos interiores de distribuição, propusemos o mosaico hidráulico, que é usado desde sempre neste edifício. Tem uma resistência incrível, e a cor que usamos é uma cor que, de alguma maneira, se aproxima da madeira, que era o elemento que queríamos usar. Seria a madeira que forraria as paredes, evitando esta conotação com um ambiente hospitalar. Mas não conseguimos que os quartos fossem revestidos a madeira, tendo-o apenas conseguido realizar num quarto, que foi o protótipo. Essa resolução foi tomada pelo cliente por ter havido uma derrapagem orçamental por parte das especialidades. Não estava contabilizado o número de cabos e redes infra-estruturais, e foi preciso diminuir quase quinhentos mil euros, que se pouparam na arquitetura. Portanto, os quartos ficaram apenas com os armários em madeira e as paredes em gesso cartonado. A calha técnica que foi desenhada para definir através de um rasgo toda a rede de equipamentos e simultaneamente ter luz na parede/ cabeceira das camas, seria em madeira e passou a ser em gesso cartonado.  Pegando naquilo que estava a referir, a questão dos pavimentos em madeira nos quartos teve só a ver com o problema orçamental ou com requisitos técnicos? Não, não podíamos pôr madeira nos quartos, não nos é permitido, de todo. Tem a ver com a questão da manutenção e limpeza. Nós queríamos trazer mosaico para dentro dos quartos, até porque tínhamos pavimento radiante, mas não queriam, queriam mesmo que fosse vinílico. E essa é uma das recomendações que nós tivemos de respeitar. Alguns destes doentes mentais por vezes podem usar a violência com os outros e sobre si próprios. Podem-se magoar, e uma das questões que foi colocada é que não podíamos ter mosaico. A madeira estava fora de questão por causa da higienização permanente, e mosaico não por causa das pessoas poderem magoar-se. Essa resolução teve implicações mesmo no desenho dos móveis. Por exemplo, não poderia haver chaves, nem poderia haver nada cortante. A ventilação das janelas teve de ser estudada para que o espaço que abre seja mínimo, de modo a ninguém poder passar, teria de ser trancado, e uma série de outras questões de segurança. Para além das intenções de projeto que referiu, existiram algumas condicionantes impostas pelo dono de obra? Se sim, foram exigências relacionadas com o tipo programa (dedicado à saúde mental) ou questões de estilo arquitetónico? Foram sempre questões relacionadas com a segurança. Por exemplo, estas questões das janelas, a questão dos objetos cortantes ou a questão das escadas. As escadas de emergência, que são acessíveis a todas as pessoas, têm de ter uma proteção, por causa da bomba da escada, que tínhamos de ter por causa da segurança contra os incêndios, uma vez que se previram tubagens onde se ligam as mangueiras para fornecer a água para as situações de emergência. O projeto de segurança contra incêndios necessitava de uma bomba de escadas, mas simultaneamente é perigoso para as pessoas caírem e se atirarem, porque muitas destas pessoas têm intenções suicidas, portanto era uma situação que deveríamos acautelar. A questão do cruzamento do projeto de segurança com a “segurança” dos utentes foi complexa, porque é obrigatório cumprir os regulamentos que obrigam a que haja saídas de evacuação de x em x espaço, mas simultaneamente a segurança dos utentes implica que as saídas deverão ser abertas, e estar em zonas em que seja possível aos funcionários conseguirem controlar as pessoas que por ali passam. Porque essas pessoas vão sair para o exterior, mas esse exterior tem de ser também, de alguma maneira, 131 condicionado. Ou seja, sim, todas essas questões tiveram que ser tidas em conta. Tratando-se de um projeto dedicado à saúde mental, procurou recomendações de algum psiquiatra/ psicólogo em relação à organização do espaço? Considera pertinente esta relação entre o arquiteto e o psiquiatra, de modo a que juntos, percebam quais as características do espaço ideal para se realizar o tratamento psicológico? Acho fundamental. Nós recorremos ao psiquiatra, psicólogos e enfermeiros da instituição, e a uma série de recomendações, sobretudo bibliografia francesa, que são as regras que as Irmãs adotaram e que nós investigamos. Algumas delas são um bocadinho distintas da informação que estudamos para o Cavalo Azul, porque aí recorremos a alguma bibliografia anglo-saxónica. Isto tem a ver com questões como barreiras arquitetónicas, as cores, a temperatura dos materiais, a preocupação de, por exemplo, nas zonas muito abertas, que têm uma relação com o exterior, perceber se a incidência solar pode provocar encadeamento, porque essa situação poderá provocar crises. Houve uma série de questões que tiveram de ser mesmo estudadas. Dou como exemplo a primeira coisa que quisemos fazer quando chegamos lá: todos os quartos tinham grades e obviamente não queríamos manter, por isso tiramos todas as grades. Mas essa decisão obrigou a pensar num tipo de caixilharia que não podia ser oscilo-batente, porque não nos garantia que numa situação de descontrolo de um paciente ele não conseguisse, com força, partir a porta. Portanto, teve de ser estudado um sistema que garantisse que a porta ficaria estanque. É fundamental haver um trabalho sério de levantamento das necessidades programáticas com psiquiatras e psicólogos ligados à saúde mental, porque se tratam de situações muito específicas e delicadas. Todo o nosso esforço e dedicação passou sempre por tentar pensar no ponto de vista de quem vai viver lá, do paciente, mas também de quem trabalha lá e por isso precisa de ter zonas de descanso e de pausa confortáveis, que lhes permitam ter a capacidade de, efetivamente, descansarem, porque é um trabalho muito violento e intenso. Tudo isso teve de ser tido em conta porque há uma série de condicionantes e restrições que balizam as soluções. Por isso, neste projeto, a nossa preocupação com os espaços exteriores, com os pátios que vão buscar luz e com a relação com o exterior, obviamente são uma resposta arquitetónica, mas resultam também da consulta desta bibliografia específica e das conversas com a psiquiatria, com a psicologia e com muitos outros técnicos envolvidos neste processo de tratamento e acompanhamento da doença mental. Ao longo do desenvolvimento do projeto, teve contacto com o público-alvo para perceber qual a opinião deles sobre as características do espaço ideal para receber acompanhamento psicológico? Os pacientes para quem projetámos não têm essa capacidade. São doentes mentais profundos. Obviamente, tivemos contacto com eles porque fizemos o levantamento dos espaços. Íamos lá com muita frequência para tirar medidas ao espaço e nessas alturas cruzávamo-nos com os doentes, mas muitos deles não têm capacidade de interagir. Portanto, essa questão, neste caso, não foi possível. Mas parece-me, pelo eco que recebemos, que sim, que as pessoas estão, de alguma maneira, satisfeitas. Dentro do que é possível estarem satisfeitas, porque muitas delas não sairão mais dali. Mas sim, os espaços passaram a ser muito mais generosos, luminosos, mais confortáveis. Considera que é possível projetar um espaço de modo a que este seja uma ferramenta terapêutica? Isto é, neste tipo de programa, é pertinente projetar um espaço sensorial que tente, de algum modo, contribuir positivamente para o processo de cura de doenças mentais? Claro que sim, concordo completamente. Como temos vários graus de doença mental, temos que ter distintas respostas. Há desde a doença mental profunda, onde as pessoas não saem da cama, até aos 132 pacientes que têm autonomia. Estas pessoas como têm um grau de doença mental menos profundo, conseguem ser autónomas, e nesse caso podem ter um apartamento. Por exemplo, pessoas com Alzheimer, podem ter uma vida autónoma, mas têm de poder ser vigiadas, porque perdem o sentido de orientação, entre uma série de outras coisas. É por isso possível que estas pessoas possam ter, neste edifício, os seus apartamentos autónomos com uma relação direta com o exterior mas simultaneamente controlada. Têm a sua vivência autónoma, conseguem ter acesso a todos os cuidados médicos, têm acesso a um ginásio, uma sala de fisioterapia, piscina, entre outras coisas, e continuam a ter o seu espaço privado. Em algumas das alas que falamos, temos quartos que são triplos e quartos que são individuais, dependendo do grau da doença que cada pessoa tem. Além disto, temos os apartamentos individuais. É uma solução que é cada vez mais usada nos países europeus que estão a trabalhar neste sentido, sobretudo para doentes com Alzheimer e para a terceira idade.  Relativamente às cores, por exemplo, foram escolhidas de acordo com algum estudo ou não existiu nenhum tipo de referência? Tivemos, mas não as seguimos à risca. Optamos pelos materiais crus. O mosaico hidráulico tem uma determinada cor, foi escolhido para ter alguns pigmentos mais suaves e pontuado por alguns elementos mais coloridos. Evitamos usar cores muito fortes, só nos pátios de iluminação dos serviços técnicos é que temos um amarelo torrado mais forte. Tirando essa exceção os tons são os dos materiais. Quando usamos o betão e a pedra procuramos que tenham uma reverberação telúrica em contraponto à madeira de sicómoro, que é uma madeira clara, com um tom tépido, e que transmite um certo conforto. Também usámos o branco nos revestimentos interiores de paredes e tetos procurando um ambiente sereno em que apenas os materiais sobressaiam discretamente, sem ruído. Optámos por usar a cor antracite para tudo o que fosse metal, porque queríamos acentuar a ideia de ser um material frio, e que não é para estar sempre a tocar nele. Mantivemos essa ideia nos caixilhos, que também são dessa cor. No exterior, usamos a pedra, o granito azul favaco. Escolhemos o granito apesar de grande parte do complexo usar tijolo e alvenaria rebocada. Mas há um edifício, o de São José, onde estão as consultas externas, e que é recente, em que a equipa projetista decidiu usar placagem de granito e essa opção tornou-o numa estranha exceção. Hesitamos muito entre o calcário, que é uma pedra da região e o tijolo maciço, mas as Irmãs não estavam muito convencidas desta última solução e então optamos por ir para uma placagem de pedra. A dúvida estava entre o calcário e o granito. Acabámos por optar pelo granito, para tentar coser o que já tinha sido feito, tentando dar uma nova inteligibilidade a este setor. Mas como o tijolo continuava a ecoar, decidimos usar a pedra com uma estereotomia próxima do tijolo manufaturado. Este granito, o azul favaco, foi escolhido porque permite que haja mudança de cor ao longo do dia. Umas vezes é mais cinzento, outras vezes é mais azulado, e quando chove fica completamente azul. E isso interessava-nos muito, porque esta mudança de cor que o edifício ia tendo ao longo do dia e das estações, como se fosse uma carapaça que ia tendo diferentes reverberações da cor através da luz, dava-lhe uma subtil inconstância e imprevisibilidade que o tornava mais rico, menos monótono e igual todos os dias. Existiu alguma recomendação ou preocupação específica em relação ao desenho dos quartos? Se sim, qual a intenção? As recomendações que tivemos, sobretudo nos quartos de três unidades, tinham a ver sempre com a questão das acessibilidades. As camas são médicas, com grades, funcionam quase como macas, que podem entrar e sair, por isso seria necessário que fosse simples executar manobras, mas também haver espaço para os pacientes, quando estão no quarto, não se sentirem confinados. Na relação com os 133 armários, não houve esse tipo de recomendação, mas partimos do princípio que era uma inerência, que as manobras pudessem ocorrer com facilidade e que não deveriam existir obstáculos à sua execução. Os armários foram estudados para conseguir que cada paciente tivesse a sua parte, a sua zona privada, porque isso é uma coisa importante, neste tipo de pacientes. Poderíamos, por preconceito, pensar que são pessoas que não têm consciência do que é seu, mas têm. E também é importante que sintam que a sua privacidade está garantida, e que continuam a estar na posse daquilo que é seu. A questão das manobras com as camas foi importante na criação das bolsas das casas de banho, espaços de desafogo que garantem que se possa circular e virar, sobretudo no confronto com o desenho irregular do corredor. As portas tiveram que ser feitas de modo a garantirem que uma cama possa sempre passar porque basicamente é o equipamento mais complexo que temos ali. Passando uma cama, a cadeira de rodas passa. Para si, enquanto arquiteta, quais foram os principais desafios ao projetar um espaço dedicado à saúde mental? Projetar um espaço para a saúde mental é sempre um exercício complexo. Qualquer projeto é um projeto complexo, evidentemente, mas este tem acrescido ainda mais as suas próprias condicionantes. Neste caso, em particular, a pré-existência, porque era uma pré-existência que tinha algumas limitações e por isso é que nos obrigou, para conseguirmos responder às exigências técnicas do programa, a crescer. Cresceu mais um piso e cresceu na dimensão dos quartos e dos espaços de tratamentos e refeitórios, tendo passado a ter uma implantação em cruz, para conseguir albergar o programa. Por isso é que se tomou a opção de apenas manter a estrutura, porque aqueles vãos não nos interessavam de todo, não eram aquele tipo de fenestrações e grades que queríamos, não era aquela linguagem que pretendíamos, e a partir do momento em que foi preciso crescer não fazia sentido estar a manter a mesma linguagem. Mantivemos a estrutura existente que estava impecável, e aumentamos o edifício, porque ele teve de crescer, horizontalmente e verticalmente. O edifício foi estudado para perceber se ele estava preparado para suportar mais essa carga funcional e de revestimento para podermos consequentemente alterar a linguagem. Este projeto foi muito complexo precisamente pela especificidade do programa. A quantidade de gabinetes que tinha de ter, os refeitórios para cada unidade funcional, a questão de cada uma das alas ter de funcionar independentemente, mas simultaneamente comunicar com o bloco central que distribui para ambas as alas. Nesta pré-existência, foi necessário acomodar um programa denso e muito maior que incluía uma bateria de gabinetes e de elementos que são essenciais ao atual funcionamento destas áreas, como o armazenamento de medicamentos, os depósitos de lixo, as salas de reuniões de funcionários e salas de estar dos pacientes. A grande complexidade foi inserir todo o novo programa em algo que já existia e conseguir um edifício coerente e íntegro. A isto acresce a especificidade da doença mental e as barreiras que ela implica, isto é, como balizar e definir áreas de proteção e segurança e como é que essas barreiras são integradas no espaço e fazem parte integrante da arquitetura. Eu diria que muitas vezes acabamos por assumir essas barreiras e elas acabam por condicionar muitas das opções que tomamos. Para finalizar, queria só perguntar, mais diretamente, se a sua intenção neste projeto foi criar um espaço que contribuísse positivamente para o processo de cura de doentes mentais. Enquanto utopia e vontade nossa, sim, isso está sempre subjacente. Mas eu acho que nós não temos de modo algum essa capacidade. A arquitetura não cura tudo, pode ajudar muito, mas não tem essa capacidade, de conseguir resolver todos esses problemas. É um problema que implica muitos cruzamentos disciplinares, não podendo por isso estar a solução do problema apenas num dos muitos 134 intervenientes. Agora acredito que será muito mais aprazível, a quem está ali, viver num espaço que não lhe proporciona sempre a mesma visão, a mesma perspetiva, 24 horas por dia, a mesma imagem e atmosfera. Daí a nossa preocupação de haver pontos de vista diferentes, volumes diferentes que criem novas profundidades, aproximações. Que a luz entre, e quando entra a perceção do espaço é completamente diferente. Que se consiga perceber que o tempo vai mudando lá fora, que vai ficando dia e que vai ficando noite, que as estações do ano também vão passando. Sim, isso é muito importante, claro que sim. Mas quando temos muitos pacientes a ter de viver nestes espaços, e com patologias tão graves, não é a arquitetura que vai conseguir resolver isso só por si. Em termos de perguntas, terminei, não sei se tem algo que gostasse de acrescentar ou se quer referir algo que tenha sido importante para si ao longo do desenvolvimento do projeto. A bibliografia de referência é francesa, como disse. Em relação às obras de referência, estudámos uma série de edifícios, analisámos o hospital de Corbusier para Veneza, os sanatórios de Alvar Aalto, um lar do Zumthor na Suíça mas, curiosamente, o que fizemos não tem nada a ver com o que pesquisámos. Talvez porque são programas, que pela sua escala, não tinham a ver com o espaço que nós tínhamos que fazer. No entanto, sabíamos que tínhamos que ver como é que estes arquitetos resolveram algumas questões que a nós também se colocavam. A verdade é que as questões técnicas que nós tínhamos para resolver eram tão específicas, e estavam muito agarradas aquele local, que basicamente as referências são mais formais e espaciais, tendo-as usado para resolver questões da desmaterialização do volume, dos espaços de estar e das relações entre o exterior e o interior. Nós tínhamos uma métrica muito marcada por uma estrutura pré-existente e um programa com condicionantes técnicas muito específicas. 135 Anexo 4: Entrevista 4 Fonte: Entrevista realizada pela autora Entrevistador: Autora Entrevistado: Arquiteto Nuno Valentim Data: 17 de maio de 2022  O meu nome é Catarina Nunes, sou estudante de arquitetura na Universidade de Coimbra e encontro-me neste momento no 5º ano a desenvolver a minha tese de mestrado sob a orientação do professor doutor José Fernando Gonçalves. A tese é composta pelo projeto de arquitetura, que tem sido desenvolvido em Atelier de Projeto desde o 4º ano, e por um tema teórico, escolhido por mim, o qual define regras para o desenho arquitetónico. Relativamente ao programa do projeto, este atelier propunha o desenvolvimento de programas sociais, à escolha entre um centro comunitário, um edifício de banhos públicos ou um alojamento temporário. Todos estes equipamentos têm como público-alvo pessoas em situação de sem-abrigo, refugiados e migrantes, sendo o local de intervenção o lugar das Fontainhas, no Porto. Após a contextualização do atelier e do trabalho proposto, eu optei por desenvolver um alojamento temporário destinado a pessoas em situação de sem-abrigo e refugiados. Com base nas problemáticas políticas, económicas e sociais que predominam atualmente, optei por relacionar o projeto de arquitetura com a saúde mental, sendo a minha tese intitulada “Saúde Mental: A Arquitetura como Terapêutica”. O objetivo é, através deste ciclo de entrevistas, em que tenho tido contacto com arquitetos e psiquiatras, perceber de que forma as características do espaço podem influenciar a saúde mental, e, posteriormente, aplicar esses critérios no projeto. Neste sentido, e de forma a tornar mais explícita a importância da saúde mental e do acompanhamento psicológico no público-alvo, optei por expandir o programa e projetar também uma clínica médica e de psiquiatria, no mesmo edifício do alojamento. Após a explicação do trabalho que estou a desenvolver, e tendo como referência o Centro Comunitário São Cirilo, que já tive oportunidade de visitar, desenvolvi algumas questões para lhe colocar. Tal como refere na descrição que acompanha o projeto, “O programa foi-se elaborando - não existia nenhum edifício construído de raiz com esta especificidade, apenas centros adaptados.” Começando por fazer a ligação à forma como eu interpretei o meu enunciado, quando lhe foi proposto projetar um programa de caráter social, com um público-alvo com tantas fragilidades, a questão da saúde mental teve influência na forma como desenvolveu o projeto? Se sim, como? É uma pergunta pertinente mas como compreenderá Catarina, nós estávamos a responder a um programa que era totalmente novo no país em 2000/ 2001/ 2002. Quando se começou a falar disto, nós sentíamos os migrantes de leste a chegar a Portugal, curiosamente, ucranianos e moldavos. E, portanto, os jesuítas no Porto identificaram esta comunidade, que na altura vagueava nas ruas do Porto sem apoio. Estava a ser explorada, estava a ser como uma das grandes omissões sociais. Isto é ou não é também uma espécie de problema de saúde mental? Eu julgo que todas as situações de enorme carência e fragilidade, abandono, alcoolismo e incapacidade de integração são problemas que têm, inevitavelmente, uma dimensão de fragilidade psicológica associada, que é necessário tratar, cuidar. Por exemplo, a questão da cultura portuguesa, a questão do ensino do português, a questão da integração 136 laboral. Preocupou-nos essa fragilidade no todo, e não tanto especificamente a questão da saúde mental. Sabíamos, desde a origem, que era importante ter um gabinete médico, um gabinete de enfermagem, um gabinete de apoio à inserção no mercado de trabalho, um gabinete dos serviços de estrangeiros e fronteiras, um gabinete de apoio jurídico, um gabinete de apoio religioso, porque sabemos que esse apoio também é muito importante na ajuda da integração, e um gabinete de apoio à família, às especificidades de cada família. Portanto, nós fomos montando o programa com base nesse levantamento de necessidades que se tornavam evidentes em estruturas muito iniciais, como por exemplo, em Lisboa, o Jesuit Refugee Service. Foi, de facto, construído um bocadinho empiricamente, nem a Segurança Social sabia como catalogar o nosso tipo de apoio de equipamento e de programa, porque não existia nada semelhante. Mesmo a criação de dormitórios e quartos de apoio, foi algo que foi surgindo, porque inicialmente não havia. A ideia era encontrarem-se espaços exteriores para as famílias estarem, mas depois foi-se chegando à conclusão que, mesmo a nível de encaminhamento de financiamentos e de resposta de emergência social, era importante ter uns quartos de emergência, para mulheres, homens e famílias. Portanto, esta não é uma resposta direta à sua pergunta, mas é a resposta que lhe posso dar em relação à construção do programa comum para quem está numa situação de fragilidade social e de enquadramento da sociedade. Para além das intenções de projeto que referiu, existiram algumas condicionantes ou recomendações impostas pelo dono de obra? Se sim, foram exigências relacionadas com a organização do programa ou com questões de carácter arquitetónico? O dono de obra sempre foi muito dialogante e aberto aos nossos contributos. Foi um programa construído à volta da mesa, com contributos nossos, de assistentes sociais, dos jesuítas e do tal Jesuit Refugee Service, portanto, foi um programa construído de forma participada. Não pelos utentes, porque não havia essa capacidade, esse tempo, mas participada pelas pessoas que poderiam, de alguma maneira, vir a dar contributos. É evidente que também houve coisas que, eventualmente, não foram previstas mas que se foram adaptando com o tempo. Dou-lhe um exemplo, o espaço de rouparia, para acolher as dádivas de roupas, eram arrecadações na cave que acabaram por se transformar em rouparias para poder acolher isso. Não estava inicialmente previsto mas chegou-se à conclusão que era óbvio que se tinha de ter um espaço para esse apoio. Ainda neste preciso momento, São Cirilo não tem mais espaço de arrumo e pediu-nos ajudar para identificar espaços para acolher mobiliário que possa ajudar os ucranianos, que estão chegar neste momento ao país, a instalarem-se em casas devolutas que não têm mobiliário. Eles estão a receber muitas dádivas de mobiliário que vão ajudar estas famílias a instalarem-se cá no Porto. Tratando-se de um projeto de caráter social, procurou recomendações de algum assistente social, psiquiatra ou psicólogo, em relação ao tipo de programas a incluir e à organização do espaço? O projeto tinha de passar pela segurança social, portanto a segurança social teve de se pronunciar formalmente sobre isso. Na equipa que estava à volta da mesa havia várias valências e vários contributos disciplinares. Eu acho que a questão da saúde mental não é propriamente o foco. Há aqui um foco na fragilidade social e de acolhimento, de contextualização, de enquadramento. E não um foco na questão tão psíquica, que eu admito que possa ter sido até um bocadinho descorada. Mas o foco era, mesmo a nível arquitetónico, era utilizar as ferramentas que estão ao nosso dispor e que sempre estiveram para gerar boas conduções de vida. Isto é: espaço, luz, ventilação. Foi muito curioso ver a reação das assistentes sociais e dos políticos quando visitaram o centro, porque eu acho que não estavam à espera de um espaço que, com poucos meios, privilegiasse esta dimensão espacial e arquitetónica. Sobre 137 os psiquiatras, nós temos outra experiência, como sabe, que são os Albergues Noturnos do Porto, que são a primeira linha de apoio aos sem-abrigo na cidade. Esses sim, tiveram uma preocupação e um foco maior na dimensão do desvio da doença, até porque a equipa que definiu o programa era uma equipa de psiquiatras. Os sem-abrigo são uma comunidade com muitas especificidades. Há propostas de integração na sociedade que estão, de alguma maneira, estudadas e validadas e que se tem a consciência que ajudam esta comunidade a sair da sua situação de fragilidade social e que melhoram também o seu estado de espírito mental. Portanto, destes dois trabalhos, com uma dimensão muito social, eu diria que aquele que está mais próximo da questão da doença mental e do problema psíquico até serão mais os Albergues Noturnos do que propriamente o Centro São Cirilo. Mas então aproveito o que acabou de referir para lhe perguntar se foram feitas, por essa equipa de psiquiatras, algumas recomendações específicas em relação à organização do espaço. Em relação a São Cirilo não. Nos Albergues sim, havia recomendações muito específicas quanto ao número máximo, por exemplo, de pessoas. Por exemplo, um dos exercícios que fizemos foi reduzir o número de pessoas por camarata e por quarto, porque sabíamos que era um foco de problemas, e fazer um dimensionamento mais equilibrado. A arquitetura da pré-existência possibilitou isso, mas também uma reorganização da distribuição masculina e feminina e até das famílias ao longo do próprio edifício. Também a questão da cor é muito curiosa, porque foram os próprios utentes que escolheram a cor do edifício. Ele tem um tom um bocadinho hospitalar, no interior e no exterior. Não houve ali uma cedência a qualquer tipo de tentação excessiva de domesticidade porque é suposto ser um espaço de transição, de tratamento. É um equipamento, de facto, e por isso ele tem um ar um bocadinho hospitalar como, achamos nós, convém numa situação de primeira passagem de reintegração. Porque é sempre um situação de abrigo temporário. Ao longo do desenvolvimento do projeto, teve contacto com o público-alvo, de modo a perceber quais as suas reais necessidades? Já compreendi que no processo de desenvolvimento do Centro Comunitário São Cirilo não foi possível, mas nos Albergues Noturnos entendi que sim. Sim, em conversas e no próprio dia a dia deles. Tentamos perceber quais eram as dinâmicas do dia a dia, os rituais, as horas. Os rituais, não só dos utentes mas também da própria limpeza e higienização para um tipo de espaço desta natureza. Até o pormenor do nível de aquecimento. Nós não podemos ter um espaço destes aquecido como temos as nossas casas, porque são pessoas que vieram da rua. Portanto, o nível de aquecimento deve ser algo intermédio. Mas também, ao mesmo tempo, a ventilação, por causa das patologias, tem que ser muito grande. Portanto sim, houve um contacto próximo com a equipa de psiquiatras, psicólogos e com os utentes. Aliás, há um vídeo que eu acho que lhe interessa ver, que é um vídeo dos prémios “Simon” sobre os Albergues Noturnos, onde é muito interessante ver como é que o Laudelino fala do edifício. O Laudelino é um antigo utente que agora é vigilante e porteiro dos Albergues. É muito curioso ver em paralelo a história da reabilitação do edifício e a história da reabilitação do próprio Laudelino, é muito interessante. Relativamente à forma e organização do edifício, ela é bastante marcada pela existência de pátios. Estes foram criados apenas para assegurar a iluminação natural e a separação de programas, conforme refere na descrição do projeto, ou foram criados também com um caráter simbólico: símbolo de comunidade e local de convívio e partilha? Há pátios simbólicos, digamos assim, quase inacessíveis mas fundamentais para trazer ventilação, luz e vegetação para o interior, por exemplo, dos quartos e dos gabinetes. Há três ou quatro naturezas de 138 pátios. Há pátios que marcam. Por exemplo, o primeiro pátio, que marca a entrada no centro, é um pátio fundamental para separar o edifício de escritórios, que agora está ocupado pelo CEF, do Centro. Ao mesmo tempo, ele permite que o edifício de escritórios fique suspenso, que entre luz por baixo do edifício. Ele tem essa função muito arquitetónica, espacial e de banhar com luz os primeiros programas mais ligados ao exterior, que são as salas de aula e as salas de estar. Depois há um pátio interior muito funcional, no sentido de fazer chegar a luz aos gabinetes e aos quartos, mas também permitir pôr vegetação, uma sequência de oliveiras, que traz esse lado natural para o interior dos quartos e dos gabinetes. Depois há um terceiro pátio, o pátio central, o grande pátio, que é, de facto, um espaço fundamental para iluminar os compartimentos mas também para fazer atividades. É nesse espaço que está solta a capela, que tem, curiosamente, uma geometria muito semelhante ao vosso Colégio das Artes, em Coimbra. Eu fiz esta proposta sem pensar no vosso pátio mas a pensar num claustro que conhecia em Veneza, que tinha uma biblioteca circular no meio do claustro. Foi essa a referência que tinha na memória. E depois ainda existe um pátio completamente de serviço, de estendal de roupa, onde permite ter equipamentos. Portanto, sobretudo um pátio para ventilação. Há pátios para todos os gostos e que tinham estes objetivos muito diferentes. Mas como o edifício se desenvolve em extensão e num piso só, eles foram quase uma espécie de recurso óbvio e natural, sem dispensar também, naturalmente, o seu simbolismo, Em relação ao programa, mais especificamente aos quartos, não foi possível visitá-los por questões de privacidade. Gostava de lhe perguntar se existiu alguma recomendação ou preocupação específica em relação ao desenho dos quartos e à materialidade escolhida. Nos Albergues o exercício era muito claro porque nós sabemos que a cada sem-abrigo corresponde uma cama, uma cadeira, uma tomada, um armário e um ponto de luz associado a uma mesinha de cabeceira. Era isto o programa, dentro de um espaço comum que nunca deveria ter mais de 6, 7 ou 8 utentes. No caso de São Cirilo, nós sabíamos que os quartos eram sobretudo duplos, para homens, mulheres e famílias. O layout resultou muito da geometria arquitetónica do próprio edifício. Tentamos, naturalmente, que fossem quartos com boa luz, têm uma boa janela. Nós deixamos umas frestas de ventilação que eles rapidamente se encarregaram de tapar com fita cola, por causa, eventualmente, do desconforto sentido, mas para nós era importante esta questão ventilação. Tinha um bom estore de sombriamento exterior, para não ter sobreaquecimento. Eu acho que era muito funcional, com uma boa luz, seja para estar, seja para ler. Tinha um espaço também de apoio de leitura. Tinha um bom roupeiro. Mas lá está, foi também um programa construído por nós, com bom senso arquitetónico, com o espaço disponível, com a nossa própria experiência. Mas então não houve nenhuma recomendação por parte de nenhum utente? Não. Relativamente à materialidade geral do edifício (cores e materiais de acabamento) foi escolhida de acordo com alguma condicionante funcional ou orçamental, ou foi uma escolha relacionada com a identidade arquitetónica pretendida? Como eu lhe disse há pouco, nós privilegiamos a luz e o espaço. É quase como se a materialidade fosse, eu sei que não se pode dizer isto em arquitetura, mas é como se fosse secundária. Nós não tínhamos dinheiro, portanto, sabíamos que as paredes iam ser rebocadas e pintadas, que o pavimento ia receber um linóleo ou um vinílico e os quartos de banho iam ter azulejo. O dinheiro não dava para muito mais. Quanto às cores, a paleta foi muito neutra, clara. Imaginámos também que pudessem existir 139 dádivas de mobiliário, que os trabalhos produzidos no próprio centro começassem a invadir a paredes. Que fosse por si próprio ganhando essa cor, e por isso apostámos num fundo de grande neutralidade, para permitir essa apropriação. O grande corredor central foi inicialmente pensado como uma galeria, onde eles iam expor os seus trabalhos. No final da descrição do projeto refere que apesar de todas as condicionantes, procurou desenhar uma casa luminosa e humana, capaz de transmitir esperança aos imigrantes que a irão habitar. Isto reflete algum tipo de preocupação com a saúde mental, ou com o desenvolvimento de um espaço sensorial? Considera que é possível projetar um espaço de modo a que este seja uma ferramenta terapêutica? Isto é, um espaço sensorial que tente de algum modo contribuir para atenuar as fragilidades psicológicas do público-alvo? Eu acho que a arquitetura ajuda muito no nosso bem-estar, sem qualquer dúvida. Uma casa com luz bem orientada, com a possibilidade de ter um espaço interior e exterior, um espaço também com pouca luz e de recolhimento. Eu acho que a arquitetura pode melhorar muitíssimo o nosso dia a dia como se viu agora durante estes tempos de confinamento. Sem qualquer dúvida, acredito na arquitetura como estratégia para melhorar a vida das pessoas e da comunidade. Acho que o arquiteto tem de ser ensinado a fazer isso naturalmente, automaticamente, sempre. É como pensar nas questões ambientais, térmicas e acústicas, isso devia ser algo que nasce, inevitavelmente, junto com a boa arquitetura, com a arquitetura que se preocupa em responder à maior quantidade de problemas possível. Portanto, não acho que tenha sido com esse foco, mas acho graça que das minhas palavras retire essa intenção que, claramente, nunca deixou de estar na nossa mesa e no nosso subconsciente, que é como é que o dia a dia destas pessoas pode ser o melhor possível dentro desta casa temporária. Para si, enquanto arquiteto, quais foram os principais desafios ao projetar um programa de caráter social destinado a um público-alvo tão frágil e, possivelmente, com características tão diferentes entre si? Como é que pessoas de culturas tão diferentes se podem sentir igualmente integradas neste edifício? Essa questão foi pensada? É uma pergunta de difícil resposta. Eu não quero dizer que essa questão foi pensada levianamente. Que essa questão esteve sempre no nosso subconsciente, desenhar um espaço que possa acolher e integrar o melhor possível quem chega a este país, isso sem qualquer dúvida. Com a dimensão que tínhamos, com o programa que tínhamos para resolver com os meios que tínhamos, muito limitados. Porque o custo foi muito controlado. Este edifício construiu-se com 500€ por m2, que já na altura era um valor quase milagroso. Portanto, eu gostava de dizer-lhe que sim. Que com os meios que tínhamos, com o orçamento que tínhamos, com o conhecimentos que tínhamos, fizemos um edifício focado nesse acolhimento. Mas a arquitetura é sempre uma resposta contextualizada e que responde a esse objetivo com os meios que tem. Com a geometria e o espaço que tem disponível, com o orçamento que tem disponível. Portanto, é evidente que se os meios fossem ilimitados, se o espaço fosse ilimitado, se o foco fosse exclusivamente o bem-estar dessas pessoas, a resposta seria totalmente outra. A arquitetura é uma arte de síntese multidisciplinar, é sempre um exercício de síntese, um exercício de reunião e de estratégia, de processos com várias origens. Nunca estamos a pensar numa “arquitetura para a doença mental”, uma “arquitetura para acolher os migrantes”, ou uma “arquitetura para acolher os sem-abrigo”. É evidente que o objetivo é esse, mas é um objetivo inserido dentro de imensas exigências. É um objetivo principal com imensos outros objetivos, como cumprir o orçamento, não exceder a volumetria que temos disponível, reintegrar a maior quantidade de matéria herdada possível porque estamos a fazer uma reabilitação. Em ambos os casos, ser capaz de acolher um número determinado de