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Antinaturopatismo

Costa, António M. Amorim da

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AntinAturopAtismo 1316 Consciente do impacto da filosofia de Haeckel, cuja obra Os Enigmas do Universo, “se correspondesse ao título, seria o procurado dicionário universal” (Id., Ibid., 222), Leonardo Coimbra ataca violentamente o “haeckelismo”, que acusa de enfermar do “vício cousista”, ao reduzir toda a realidade, incluindo a consciência e suas produções, a uma “substância universal” elementar: “O monismo de Haeckel é um naturalismo que se fixa na matéria e na evolução”. Visando destruir o haeckelismo no seu próprio terreno, Coimbra qualifica-o de retrógrado e anticientífico: “Haeckel tem de tirar a consciência da Substância universal, por isso regressa a um animismo pré-científico, que coloca no átomo e na molécula, rudimentos de sentimento e consciência. Nesta altura, deixa Haeckel de ser um sábio equivocado no meio do trabalho filosófico para ser uma cegueira proselítica e uma teimosia de ordem sentimental, ou uma inteligência sem lógica, e sem pudor” (Id., Ibid., 223). Como vemos, o objeto da crítica de Leonardo vai além da filosofia naturalista, visando o ethos que, em seu entender, está ligado à sua expressão haeckeliana. A tensão naturalismo/antinaturalismo baixa de intensidade a partir dos anos 20 do séc. xx. Bibliog.: BOMBARDA, Miguel, Consciência e Livre Arbítrio, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1898; COIMBRA, Leonardo, Obras de Leonardo Coimbra, Porto, Lello e Irmão, 1983; HAECKEL, Ernst, Os Enigmas do Universo, Porto, Lello e Irmão, 1926; LIMA, Arthur Vianna de, Exposé Sommaire des Théories Transformistes de Lamarck, Darwin et Haeckel, Paris, Librairie Delagrave, 1885; QUENTAL, Antero de, Obras Completas, vol. iii, Lisboa, Comunicação, 1991. Adelino Cardoso Antinaturopatismo Estudo e tratamento das doenças através de processos naturais, deixando que o próprio corpo reaja com a sua energia vital quando livre das toxinas que se acumulam devido a maus hábitos adquiridos durante a vida, a naturopatia é um movimento naturalista nascido no séc. xix, misto de terapia e filosofia de vida, afirmando-se como a arte de curar recorrendo à vis medicatrix naturae, a força curativa da natureza. Usado pela primeira vez por John Scheel, médico em Nova Iorque, para caracterizar a prática médica a que se dedicava – uma terapia baseada na rejeição de todo e qualquer tipo de remédios ou medicamentos da indústria farmacêutica, substituindo-os por uma terapia baseada num sistema de prevenção da doença utilizando exclusivamente métodos naturais, quer através da alimentação, da hidroterapia (cura com a água), da geoterapia (cura com argila), da fitoterapia (cura com plantas florais) e de práticas de exercício físico – o nome “naturopatia” foi popularizado, em 1902, pelo médico alemão Benedict Lust (1872-1945), que o utilizou para designar uma terapia nutricional, insistindo numa dieta natural, assente na fitoterapia, na manipulação vertebral, no exercício, na homeopatia, na hidroterapia e na eletroterapia. Absolutamente convicto da bondade destas práticas de saúde, tornou-se o seu grande apóstolo e, sofrendo ele mesmo de tuberculose, usou-as no seu próprio tratamento. Fundou a primeira Escola Americana de Naturopatia, em Nova Iorque, e também a Associação Americana de DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1316 24/07/18 19:39 AntinAturopAtismo 1317 Naturopatia, a primeira associação profissional de médicos naturopáticos. Em 1918, criou e dirigiu a Enciclopédia Universal Naturopática, pugnando por uma terapia sem medicamentos, o mesmo fazendo através da revista Nature’s Path, também por ele criada e dirigida. Ao longo de todo o séc. xx e nos primeiros anos do séc. xxi, a naturopatia difundiu-se rapidamente pela Europa e pela América, sendo criadas grandes escolas em alguns dos países mais influentes na prestação dos serviços de saúde, nomeadamente Alemanha, Espanha, Estados Unidos da América e diversos países da América do Sul, e foi incentivada pela Organização Mundial de Saúde. Centrada na força curativa da natureza, a naturopatia pode ser considerada como uma medicina holística; a base de toda a sua atuação é a afirmação do homem como um pequeno universo, um microcosmos no seio do macrocosmos que é toda a natureza em que está inserido. Assim, o organismo que é o ser humano não pode ser tratado como mera parte do Universo, pois forma com ele um todo (holos); não são as partes que permitem compreender o todo, mas o todo, que é muito mais do que a mera soma das suas partes, que permite compreender as partes. São as mesmas as leis gerais que regem o Universo e todos os seus constituintes, leis que regem de igual modo os diferentes constituintes do homem e tudo aquilo de que este é feito. Em consequência, o corpo humano não deve ser tratado como uma máquina, como o faz, desde o séc. xvii, a filosofia mecanicista de Descartes e de Newton. Na abordagem ao seu estado de saúde ou de doença, não se deve negligenciar nunca o estudo sistémico da natureza de organismo vivo que ele é. Por mais útil e necessária que possa ser a descrição reducionista do seu funcionamento, será sempre uma descrição incompleta, podendo tornar-se altamente perniciosa e ineficaz. As diferentes partes do corpo humano devem ser tratadas como um sistema integrado, cujas propriedades não podem ser reduzidas às das suas unidades menores. Neste sentido, porquanto comungam das ideias da filosofia alquímica, as diferentes terapias naturais defendidas e praticadas pelos naturopatas – desde a terapia nutricional, à fitoterapia, à homeopatia, à manipulação vertebral, à terapia do exercício, à hidroterapia, à eletroterapia e a outras do género – têm sido consideradas muitas vezes como medicinas alquímicas. À sua visão holística está associada uma visão vitalista, considerando que a vida é algo mais do que a soma dos processos bioquímicos e defendendo que o corpo tem uma inteligência inata que sempre se esforça por alcançar a saúde, pelo que cada corpo doente possui em si o necessário para se curar a si mesmo. Daí que o verdadeiro naturopata não receita medicamentos, antes buscando em cada caso as medidas terapêuticas mais indicadas e ideais para restaurar e estimular as capacidades funcionais do organismo atingido Benedict Lust (1872-1945). DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1317 24/07/18 19:39 AntinAturopAtismo 1318 pela doença. Para tanto, entende que não precisa de ser médico nem possuir um diploma de prática médica; sem negar a utilidade dos cursos e das práticas que possam ajudá-lo a decidir quais são as melhores medidas terapêuticas a tomar nas variadas situações concretas com que poderá deparar, entende que o que mais o poderá ajudar será sempre a sua própria experiência de vida, colhida no contacto direto com a natureza. As suas práticas ao serviço da saúde devem ser tidas e tratadas como uma medicina natural, apresentando-se como medicinas alternativas à medicina tida como convencional, a medicina ensinada e praticada pelas escolas académicas das universidades, a medicina alopática. Dada a natureza tendencialmente materialista da ciência e da sociedade ocidental dos começos do séc. xxi e o positivismo que informa a sua cultura, a naturopatia, ao englobar no seu objeto não apenas o corpo mas também o espírito, pretendendo tratar a saúde do ser humano apenas no quadro de um ser holístico, não consegue ser aceite como uma ciência. Os profissionais da medicina académica, mesmo quando nela veem aspetos e resultados positivos, não deixam de a ver como uma medicina insólita e mostram-se renitentes e em oposição frontal à inclusão das suas práticas no currículo dos seus cursos. Para muitos médicos da medicina alopática, fazê-lo seria um autêntico absurdo. Não sendo reconhecido como verdadeiro médico, o naturopata cai muitas vezes na ilegalidade quando diz ser médico ou quando retira ou receita remédios sem autorização médica. As suas práticas não se enquadram no sistema sanitário oficial e convencional. E não é só pelo carácter acientífico das suas práticas, em confronto aberto com o carácter científico com que se afirma a medicina convencional, apoiada em projetos de investigação sistemática e comprovação experimental certificada, que a naturopatia instiga contra si os defensores da medicina alopática; contra ela estão também os interesses da indústria farmacêutica, na defesa dos fármacos sintéticos que a medicina convencional utiliza e prescreve. Por mais positivo e louvável que possa parecer o programa de defesa da saúde que os naturopatas afirmam ser o seu, baseado na eliminação de maus hábitos – sobrealimentação, consumo de drogas, horários inadequados de vida, preocupações em demasia, aberrações sociais e sexuais, etc. –, orientado para a criação de hábitos corretores de práticas erradas ou abusivas através de bons exercícios de uma correta respiração, de corretas atitudes mentais face aos acontecimentos do dia a dia e duma sã moderação na busca da própria saúde e dos bens materiais, acompanhado de uma cultura de princípios de ação eficaz – jejum adequado, seleção de alimentos, banhos de luz e ar, hidroterapia, osteopatia, manipulação vertebral, cromoterapia e outros –, o seu difícil enquadramento na cultura que enforma e domina o mundo ocidental dos começos do séc. xxi (ao contrário de muito que caracteriza as culturas tidas como do mundo oriental) é a grande fonte do antinaturopatismo destas sociedades. Bibliog.: ACHARAN, Manuel Lezaeta, Medicina Natural ao alcance de Todos, 13.ª ed., Mexico, Pax, 2008; KUHNE, Louis, New Science of Healing or the Doctrine of the Oneness of All Diseases, Leipzig, ed. do Autor, s.d.; VASEY, Christopher, Pequeno Tratado da Naturopatia, Lisboa, Europa-América, 2009. António M. Amorim da Costa DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1318 24/07/18 19:39