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Antiparacelsismo

Costa, António M. Amorim da

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AntipArAcelsismo 1408 Osório de, “Jansenismo”, in AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.), Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. iii, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, pp. 7-10; Id., “Pombalismo”, in AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.), Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. iii, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, pp. 462-464; FELÍCIO, Manuel da Rocha, Portugal e a Definição Dogmática da Infalibilidade Pontifícia. Teologia, Magistério e Debate Público, Viseu, Instituto Superior de Teologia, 2000; FERREIRA, Manuel Pinho de, A Igreja e o Estado Novo na Obra de D. António Ferreira Gomes, Salamanca, Universidad Pontificia, Facultad de Derecho Canónico, 2004; LEITE, A., “Concordatas”, in AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.), Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. i, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, pp. 423-429; MARCOS, Rui Manuel de Figueiredo, A Legislação Pombalina. 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XX: a Lei da Separação de 1911, Cascais, Principia, 2009. Pedro Carlos Lopes de Miranda Antiparacelsismo Nascido em Einsieden, perto de Zurique, em 1493, Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, de pseudónimo Paracelso, começou por trabalhar como aprendiz nas minas de Villac, onde seu pai se estabelecera. Depois, principiou a sua formação escolar como discípulo de Tritemius (1462-1516). Ao longo de várias décadas, dedicou-se ao estudo da medicina, frequentando várias universidades e percorrendo durante anos os mais diversos recantos do mundo, à procura do que neles se fazia nesta área. Apaixonado pelo neoplatonismo, tornou-se um estudioso da natureza na tentativa de bem entender o corpo humano e de buscar as melhores soluções para as enfermidades que tratava. Apaixonado pela Bíblia, devotou profundo interesse ao estudo da astrologia, da alquimia, da cabala e da magia. Mas foi a medicina que ocupou o primeiro lugar nas suas atividades de clínico e de professor, nos mais diversos locais em que teve ocasião de ensinar durante toda a sua vida. Homem do Renascimento, em vez de se apaixonar pela filosofia e pelas práticas dos antigos, cedo se tornou um adversário acérrimo das doutrinas de Aristóteles, cuja autoridade combateu por todos modos e com a mais dura linguagem. Lutou com igual radicalismo e intolerância contra a medicina galénica e a astronomia de Ptolomeu, menosprezando os colegas, cujos livros e atos considerava serem apenas cópias de Hipócrates e de Galeno, indo a ponto de queimar publicamente obras de Aristóteles, Galeno e Avicena, e DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1408 24/07/18 19:39 AntipArAcelsismo 1409 opondo-se com toda a veemência à circulação de qualquer obra redigida em latim, por entender que o ensino devia ser ministrado em vernáculo, no seu caso, o alemão. No seu hermetismo, defendeu o princípio de uma rigorosa correspondência e analogia entre o macrocosmo (o universo exterior ao homem) e o microcosmo (o universo do corpo humano), afirmando existir entre ambos uma relação constante e recíproca. Para ele, o verdadeiro médico deveria encontrar a verdade apenas e só nos dois livros divinos: a Revelação (a Bíblia) e a criação (a natureza). Na sua interpretação da criação, defendeu uma química apoiada nos tria prima, o enxofre, o mercúrio e o sal, e uma medicina centrada nos arcana, os arcanos, princípios incorpóreos eternos com o poder de transmutar os doentes. Na sua intransigência à cultura dos antigos, negou qualquer valor à prática da medicina galénica, defendendo em seu lugar uma medicina em que ao médico caberia preparar os arcana e em cada um deles descobrir, utilizando todos os métodos químicos possíveis, a força inata e vital que neles está oculta, a sua quinta-essência, o seu archeus, único modo de combater as doenças. A sua missão seria prepará-los, manuseando devidamente o calor com o calor, o frio com o frio, o húmido com o húmido, o seco com o seco, etc., na certeza de que o similar se cura pelo similar. A química deveria, pois, ser iatroquímica, química espagírica, uma química votada à cura das doenças. Contra as práticas da medicina galénica, estava convencido de que quase todos os minerais submetidos à análise podiam revelar-se muito eficazes, pois detinham grandes segredos curativos e vivificantes, permitindo levar a novas combinações perfeitamente eficazes para certas doenças mentais ou físicas. Notou que toda a substância dotada de vida orgânica, embora aparentemente inerte, encerrava uma grande variedade de potências curativas. Em conformidade com o que apregoava, ele próprio se dedicou à preparação de medicamentos sob a forma de extratos alcoólicos e de tinturas, com utilização do ópio, do enxofre, do mercúrio, do ferro, do arsénio, do sulfato de cobre, do sal; e aconselhava banhos repetidos com soluções minerais. Em Paragranum (1530) expôs e legou aos seus discípulos as suas crenças neste domínio, podendo esta obra ser tida como uma verdadeira farmacologia. Para além da sua filosofia química, Paracelso deu exemplo vivo de uma total dedicação do médico aos seus doentes, movido pelo mais desinteressado espírito de sacrifício, nas diversas terras e nações por onde viajou. A sua fama foi em aumento, com as muitas e prodigiosas curas que se dizia terem sido por ele realizadas. Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, de pseudónimo Paracelso (1493-1541). DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1409 24/07/18 19:39 AntipArAcelsismo 1410 Esta fama cresceu ainda mais depois da sua morte, em Salzburgo, no ano de 1541, com apenas 48 anos. Não tardou que a memória do homem controverso que fora em vida se transformasse numa crescente admiração pelo considerado grande arauto de uma nova química, a iatroquímica. No final do séc. xvi, existia já uma imensa literatura sobre a matéria médica por ele defendida, e um século depois, eram já centenas os textos paracelsianos publicados. Muitos médicos notáveis de França, da Alemanha e de Inglaterra se confessaram seus seguidores, sendo de destacar, entre muitas outras, algumas das mais notáveis figuras da química dos sécs. xvi-xvii, como Jean Baptiste van Helmont (1577-1644) e François de la Boë (1614-1672), mais conhecido por Silvius, na Bélgica e em França, Otto Tachenius (c. 1610-1680), André Libavius (1550-1616) e Johannes Hartmann (1563-1631) na Alemanha. É esta filosofia química e o conjunto de práticas dela resultante, com origem na vida e obra de Paracelso, que constituem o chamado paracelsismo. Não tardou, porém, que o paracelsismo se tenha tornado um foco de controvérsia. Para isso terá contribuído a circunstância de Paracelso ter sido, durante toda a sua vida, e nos mais diversos locais por onde passou, uma figura muito polémica. E terá ajudado, sobretudo, o progressivo aparecimento de uma corrente de filosofia natural que questionava o carácter de experimentalismo e observação que Paracelso defendia. O facto de a abordagem médica de Paracelso diferir tanto daquilo que era aceitável até então estabeleceu um enorme confronto entre os paracelsianos e o sistema médico oficial em vigor, um confronto tornado mais agudo pelo impacto provocado pelos humanistas, muitos deles grandes admiradores dos tratados de fisiologia e anatomia dos antigos, e defensores convictos da medicina de Galeno. O mais virulento opositor de Paracelso e das suas doutrinas foi talvez o seu compatriota Thomas Liebler Erastus (1523- -1583), o qual, num escrito publicado em Basileia, em 1572-1573, com o título Disputatione de Medicina Nova Philippi Paracelsi, o rotulou de um “obscurantista de estilo tenebroso e ideias confusas” (ERASTUS, 1572, 2), refutando com toda a veemência a possibilidade de qualquer reação química por ação do calor, do mercúrio, do enxofre ou do sal. Na sua opinião, Paracelso saberia muito bem que as ideias que defendia eram falsas e por isso teria optado por apresentá-las de um modo confuso, usando uma linguagem bárbara infernal e apresentando-se como inventor de coisas com que nada tinha que ver. Nesta sua investida frontal contra Paracelso, Erasto atacou sem quaisquer contemplações o homem e as suas doutrinas, nomeadamente a teoria dos tria prima, considerando que nada tinham de construtivo. A este virulento ataque se juntou um grande número de médicos e farmacologistas ingleses ligados à chamada revolução puritana, numa luta acesa entre médicos e farmacêuticos, um conflito aberto entre galenistas e paracelsianos, em que estes eram acusados de serem partidários de Calvino, razão bastante para não deverem merecer grande credibilidade. Como paradigma da rejeição de Paracelso por muitos destes médicos e farmacêuticos, refira-se Richard Baxter (1615-1691), que considerava Paracelso uma prova da existência do demónio, considerando-o um “conjurado bêbado que mantinha conversas com o demónio, a origem das suas doutrinas” (ORME, 1830, XX, 294). Contra a farmacologia de Paracelso, defensora da utilização dos minerais, nomeadamente o antimónio, DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1410 24/07/18 19:39 AntipArAcelsismo 1411 e defendendo o regresso à medicina galénica, se pronunciariam os influentes Jean Béguin (1550-1620) e Michael Sendivogius (1566-1636). A uma tomada de posição de regresso a Galeno contra Paracelso, juntar-se-ia o combate ao que consideravam o antirracionalismo (&Antirracionalismo) de Paracelso, para quem a razão seria uma faculdade corrupta. Sob a influência do empirismo racionalista de Francis Bacon (1561-1626) e a defesa crescente das teorias corpusculares e mecanicistas, nomeadamente com Pierre Gassendi (1592-1655), René Descartes (1596-1650) e, um pouco mais tarde, John Dalton (1766-1844), a química assumia novos caminhos – com Johann J. Becher (1635-1682) e Georg E. Stahl (1659-1734), a teoria do flogisto, com Antoine L. Lavoisier (1743-1794), a teoria do oxigénio –, e afastava-se por completo do sistema de Paracelso. O médico português Jacob de Castro Sarmento (1691-1762), na sua obra Materia Medica Physico-Historico-Mechanica, publicada em Londres, em 1735, dá-nos conta do antiparacelsismo que ia crescendo no seio da comunidade científica de então e resume deste modo as principais razões para o facto: “a química que pode ser de tanto serviço à Medicina, quando bem aplicada, a principiaram a introduzir, errada e vergonhosamente uns homens ignorantes, e entusiásticos, de que o principal e cabeça foi Paracelsus; e com os seus fingimentos e enganos tiveram quase pervertido e arruinado de todo um sólido e verdadeiro Projeto. Mas não chegaram as suas quimeras a ter efeito; tanto pelas falácias que experimentaram os que punham a sua confiança neles; como pelas Obras de diversos Homens famosos desse tempo, (e do Príncipe deles todos, depois, o ilustre Bacónio) que trouxeram a demonstração, que as Artes e Ciências, em lugar de conjeturas, só se podem aumentar por próprias e exatas experiências, e por conclusões verdadeiras e sólidas” (SARMENTO, 1735, XLIV). Bibliog.: DEBUS, Allen George, “La philosophie chimique de la Renaissance et ses relations avec la chimie de la fin du xvii e siècle”, in ROGER, J. (org.), VIIIe Congrès International de Tours – Sciences à la Renaissance, Paris, Vrin, 1973, pp. 274-281; DURAND, M. H., “Entre Paracelse et Lémery: la chimie française au début du xvii e siècle”, in ROGER, J. (org.), VIIIe Congrès International de Tours – Sciences à la Renaissance, Paris, Vrin, 1973, pp. 261-272; ERASTUS, Thomas Liebler, Disputatione de Medicina Nova Philippi Paracelsi, Basileia, G. Castelvetro, 1572; GOLDAMER, Kurt, “La contribution de Paracelse à la nouvelle méthodologie scientifique et à la théorie de la connaissance”, in ROGER, J. (org.), VIIIe Congrès International de Tours – Sciences à la Renaissance, Paris, Vrin, 1973, pp. 229-243; ORME, W., The Practical Works of Rev. Richard Baxter, vol. xx , London, James Duncan, 1830; PAGEL, Walter, Paracelse: Introduction à la Médecine Philosophique de la Renaissance, Paris, Arthaud, 1963; SARMENTO, Jacob de Castro, Materia Medica Physico-Historico-Mechanica, London, s.n., 1735. António M. Amorim da Costa Jacob de Castro Sarmento (1691-1762). DicANTIS_4as_M-N-O-P_1205-1583.indd 1411 24/07/18 19:39