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1364 A CASA DAS SETE MULHERES: PERFIS FEMININOS NOS ESPAÇOS ROMANESCO E TELEVISIVO - A MEMÓRIA E A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES Batista, Edilene Ribeiro1 Departamento de Literatura Universidade Federal do Ceará – UFC/Brasil [email protected] RESUMO: No ano de 2003, um dos canais televisivos mais famosos do Brasil – a Rede Globo anunciava a minissérie baseada no romance de Leticia Wierzchowski - A casa das sete mulheres. O enredo retratava, tal como no espaço romanesco, a história de sete perfis femininos, no período da Revolução Farroupilha2 (ocorrida no Rio Grande do Sul, no século XIX), utilizando-se, para isso, da narrativa, em diário, da personagem Manuela. Embora o texto original tenha sofrido algumas alterações para que fosse adaptado à linguagem televisiva, a essência do enredo traçado por Wierzchowski permaneceu na apresentação da trama. Sendo assim, mostrava-se, em rede nacional, que um romance escrito por mulher ganhava repercussão significativa na mídia brasileira. Outrossim, o fato histórico apresentado na minissérie em questão, se analisado por uma perspectiva de gênero, comprovava que, em tempo de guerra, a força e a coragem femininas podiam ser demonstradas fora do campo de batalha. Tendo em vista o exposto acima, propomos, neste trabalho, a realização de uma análise da obra citada, no intuito de refletirmos sobre como se dá o processo de construção da identidade feminina, em A casa das sete mulheres, a partir da memória, considerando, para isso, duas linguagens diferenciadas: a romanesca e a televisiva. PALAVRAS-CHAVE: Gênero. Escrita Feminina. Memória. Identidade. Televisão. Romance. ___________________________________________________ 1. Edilene Ribeiro Batista é doutora em Literatura Brasileira, professora do Curso de Letras e docente do Programa de Pós-Graduação em Letras, do Departamento de Literatura, da Universidade Federal do Ceará – UFC, em Fortaleza/Brasil. Pesquisadora na área de gênero, faz parte do GT da ANPOLL “A Mulher na Literatura” (na linha de pesquisa ”Resgate”); coordena o grupo de estudo/pesquisa “Outras Vozes: Gênero e Literatura” (www.generoeliteratura.com.br). Autora de livros e de diversos artigos em revistas e capítulos em obras teóricas, tem participado, com comunicações orais, em congressos internacionais, como no Chile, no México, na Itália e na Inglaterra. 2. A Revolução Farroupilha, também conhecida como Guerra dos Farrapos (1835-1845), foi um fato histórico, de caráter republicano, ocorrido no Rio Grande do Sul. Contra o governo imperial do Brasil, essa revolta resultou na declaração de independência da província em questão, dando origem à República Rio-Grandense.
1365 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS SOBRE GÊNERO, ESCRITA FEMININA E MEMÓRIA Para realização do estudo aqui proposto, utilizaremos o método bibliográfico. Nosso suporte teórico está pautado em estudiosas, tais como: Butler (2008), Perrot (2005), Silva (2009), Silva & Santos (2011) e Zinani (2006), entre outras. Introduziremos nossa análise com reflexões sobre gênero, escrita feminina e memória. Desde 1970, o termo “gênero” tem sido utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Partindo desse pressuposto, podemos inferir que, conceitualmente, gênero pode ser compreendido como uma categoria que nos auxilia a compreender representações inerentes ao masculino e ao feminino, construídas3 na prática social, que reforçam as questões da diferença, sendo naturalizadas pelos indivíduos. Como estabelece Soihet, “a palavra [gênero] indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ‘sexo’ ou ‘diferença sexual’” (SOIHET, 1997: 101), definindo a submissão imposta às mulheres como uma violência simbólica que se estabelecia a partir de uma relação de dominação que, ainda hoje, precisa ser reavaliada. Assim, nos estudos de gênero, observamos que os significados, culturalmente atribuídos a homens e mulheres, são articulados de acordo com o interesse, a situação e a relação em que se encontram, representando, costumeiramente, manifestação de poder do chamado sexo forte sobre o considerado sexo frágil. Essa questão, entretanto, tem sido revista por estudiosas feministas que têm trabalhado no sentido de comprovarem que as mulheres são sujeitos políticos e agentes da História. Para Butler, “devemos questionar as relações de poder que condicionam e limitam as possibilidades dialógicas” (BUTLER, 2008: 35). A esse respeito, acrescenta Eni de Mesquita Samara: “...a relação entre os sexos não é, portanto, um fato natural, mas sim uma interação social construída e remodelada incessantemente, nas diferentes sociedades e períodos históricos. Por isso é importante conhecer a estruturação e a evolução dos ‘sistemas de gênero’, ou seja, dos conjuntos de papéis sexuados, assim como as suas relações e representações que definem culturalmente o feminino e o masculino lhes concedendo identidade.” (SAMARA, 1997: 39,40). Pelo exposto acima, verifica-se que os estudos de gênero enfatizam a necessidade de rejeição da oposição binária homem vs mulher, desconstruindo tal concepção e propondo uma reversão da construção hierárquica sustentada por uma sociedade patriarcal misógina onde o mito da superioridade masculina ainda se faz presente. ____________________________________________ 3. Simone de Beauvoir, em O segundo sexo, já estabelecia, para comprovar esse processo de construção, que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Reafirmando tal postulado, Butler dirá que gênero é “uma relação entre sujeitos socialmente constituídos, em contextos especificáveis. Este ponto de vista relacional ou contextual sugere que o que a pessoa ‘é’ – e a rigor, o que o gênero ‘é’ – refere-se sempre às relações construídas em que ela é determinada” (BUTLER, 2008: 29).
1366 Atualmente, as discussões de gênero englobam, entre tantas outras temáticas, os direitos da mulher, a questão da desigualdade, a busca pela alteridade, a construção de identidade, a escrita feminina, a literatura realizada por mulheres... Quanto a esse último tópico citado, podemos afirmar que a produção literária feminina foi, durante muito tempo, negligenciada pela sociedade, sendo subvalorizada. Segundo Elaine Showalter, pesquisadora americana, toda expressão literária de uma cultura colonizada passa por três fases dentro da história de seu próprio desenvolvimento, a saber: 1. Imitação: nessa etapa, prevalece os modos da tradição dominante. 2. Protesto: aqui, há um posicionamento contra os valores imitados na primeira etapa (imitação), advogando-se a favor dos direitos da minoria e sua autonomia. 3. Autodescoberta: período representado pela busca da identidade. A manifestação literária feminina, no Brasil, na atualidade, parece estar em um misto de protesto e autodescoberta, e a Teoria e Crítica Literária Feminista caminha em busca do entendimento da dinâmica da produção literária realizada por mulheres e posiciona-se contra os efeitos da opressão e da dominação patriarcal na literatura. Essa constatação nos faz lembrar Toril Moi quando ela afirma que a estratégia textual de autoria feminina consiste em revisitar, desconstruir4 e reconstruir imagens de mulheres construídas por escritores, desconstruindo especialmente os paradigmas polarizados do anjo e do demônio atribuídos à mulher. As estratégias propostas objetivam, entre outras questões, garantir a livre expressão da mulher, visto que os homens falaram, constantemente, no decorrer da história, em seu nome. Para Judith Lowder Newton, “escrever subversivamente [...] é uma forma de luta – e uma forma de poder” (in WARHOL, 1997: 892). Pelo exposto pela Autora, vê-se que a literatura pode ser analisada por um prisma ideológico onde a proposta de desconstrução, ou mesmo de subversão textual, deve passar, inicialmente, pela análise do processo de produção do texto. Segundo Catherine Belsey, a desconstrução tende a localizar significações em áreas consideradas marginais pela crítica tradicional. Talvez seja essa uma das razões pelas quais a literatura realizada por mulheres esteja, aos poucos, ganhando espaço – pela “descoberta” de novos significados que antes foram negligenciados. Esse seria, por exemplo, o caso de Manuela – personagem de A casa das sete mulheres, que narra, em seu diário, seguindo o fluxo ______________________________________________________ 4. O conceito de desconstrução é aqui empregado de uma forma menos teórica do que aquela exposta por Derrida. Em nosso trabalho, utilizamos este termo para definir o processo de interrogação das "verdades" patriarcais expostas nos textos selecionados. da memória, a vida de sete perfis femininos durante o período da Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul do século XIX.
1367 Para Massaud Moisés, é difícil traçarmos o limite exato entre autobiografia e memória uma vez que, em ambas, ocorre um extravasamento do “eu”. Normalmente, as mulheres registravam seu dia-a-dia em diários íntimos cuja prática, segundo Michelle Perrot, era recomendada às moças por seus confessores e, mais tarde, por seus pedagogos, “como um meio de controle de si mesmas” (PERROT, 2005: 35). Para não terem seus segredos revelados, muitas delas destruíram seus cadernos, temendo a ironia e/ou a incompreensão de seus herdeiros. Afirma Perrot que a “imagem das mulheres ateando fogo em seus cadernos íntimos ou em suas cartas de amor na noite de sua vida sugere a dificuldade feminina de existir de outra forma além do fugaz instante da palavra e, consequentemente, a dificuldade de reencontrar uma memória desprovida de traços” (PERROT, 2005: 37). Registrando a memória do privado, muitas vezes voltada para a família e/ou para a vida íntima, mulheres, por meio desse tipo de registro, firmavam a sua identidade, ganhando o mundo da palavra em épocas que a elas era destinado o silêncio. Nesse contexto, “a memória das mulheres é verbo” (PERROT, 2005:40), representa, pois, o discurso dos deserdados que, embora inferiorizado, pode rememorar o cotidiano. Essa situação será encontrada em A casa das sete mulheres, objeto de nosso trabalho. Essa obra, de Leticia Wierzchowski, reproduz, tanto na linguagem romanesca quanto na minissérie televisiva brasileira homônima, apresentada pela Rede Globo, no ano de 2003, a representação da coragem feminina que, por meio da escrita, subverte o discurso hegemônico de uma ordem patriarcal dominante. Nessa narrativa, tomando a palavra (seja a Autora, seja a personagem Manuela), o sujeito feminino desafia o silêncio a ele imposto e resgata a força da mulher que reescreve a história, propondo, a partir dessa atitude, a tomada de consciência sobre a importância do feminino (com seu olhar e experiências diferenciados) nos mais diferentes contextos, como se verá neste estudo. ENTRE O ROMANCE E A TELEVISÃO Leticia Wierzchowski é uma escritora gaúcha que tem, entre as suas publicações, a obra A casa das sete mulheres. Nesse romance, a Autora, mesclando realidade e ficção, desenvolve um romance histórico5, aos moldes de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, sobre a Revolução Farroupilha, tendo como cenário o Rio Grande do Sul, no século XIX. Embora a obra em questão esteja repleta de passagens masculinas, frias, envoltas em sangue e morte, o texto relata, por outro lado, a guerra sob uma perspectiva feminina a partir de uma visão intimista desenvolvida na forma de um diário escrito pela personagem Manuela. A esse respeito, afirma Silva que “Leticia Wierzchowski, na obra A casa das sete mulheres, permite ao leitor conhecer e reconhecer aspectos característicos da região sul do Brasil, mais especificamente do Rio Grande do Sul, a partir da Revolução Farroupilha e, principalmente, dos relatos originados com base nesse evento segundo a história oficial e ficcional construída no discurso das personagens femininas, as quais retratam as mulheres que viveram em meio a esse conflito na primeira metade do século XIX, manifestando aspirações, sensações e vivências presentes em suas rotinas durante a guerra” (SILVA, 2009: 13,14).
1368 O olhar das mulheres sobre a batalha, a vida e a morte se faz perceber nesse romance. Será a própria Autora quem dirá, em entrevista na internet, que A casa das sete mulheres surgiu da leitura de Os varões assinalados, de Tabajara Ruas, que contava a Revolução Farroupilha sob o ponto de vista dos grandes Caudilhos Republicanos. Dessa leitura, surge a ideia de contar a história pelo seu avesso, por um prisma diferenciado – o das mulheres (in: http://www.wmulher.com.br/print.asp?id_mater=1516&canal=mulheres). Continuará a Autora afirmando que, para ela, o romance A casa das sete mulheres “é como uma daquelas bonecas russas, que estão dentro uma da outra, e a gente vai abrindo e abrindo e sempre encontra mais uma bonequinha” (in: http://www.novacultura.de/0204mulheres.html). Assim ela define a estrutura textual dessa obra que traz uma história dentro da outra, ou seja, cada personagem feminina tem seu próprio drama, com um enredo completando outro. Serão dez capítulos, assim como foram dez os anos de confrontos da guerra. De qualquer forma, a consciência histórica, ligada à memória coletiva, estará presente tanto no texto romanesco quanto na minissérie televisiva, isso porque tal sentimento se mantém, como afirma Silva, “nas narrativas que utilizam fatos passados em seus enredos e detém sentimentos comuns presentes nos indivíduos, transitando entre o passado permeado de lutas e o presente minado de desafios, muitos dos quais ainda relacionados a esse mesmo passado” (SILVA, 2009: 03). Ao focalizar a narrativa histórica sob uma perspectiva feminina, Wierzchowski possibilitará a percepção de que a escrita realizada por mulheres personifica heranças sociais, literárias e culturais tanto do silenciado quanto do dominador em um contexto regido pelo falocentrismo. Na obra em questão, seus dez capítulos constitutivos estarão entremeados pelos “Cadernos de Manuela”. Assim, a representação das personagens será mediada por Manuela, por meio de seu diário. Essa estrutura textual utilizada pela Autora concederá a esse romance, considerado tradicional, um caráter inovador pois, por meio da escritura, Wierzchowski recontará um dos fatos históricos sul-rio-grandense, possibilitando uma visão renovada dos acontecimentos. É a partir do espaço privado, pela narrativa intimista de um diário, que a mulher chegará ao espaço público – a Revolução. __________________________________________ 5. Dentre as influências literárias de Leticia Wierzchowski encontra-se o escritor Érico Veríssimo. Assim como em O tempo e o vento há uma saga histórica, em A casa das sete mulheres essa saga se dá no percurso da Revolução Farroupilha, mostrando, entre outras questões, o olhar feminino sobre a guerra e a mudança física e psicológica das personagens no decorrer dos dez anos de confronto. No universo do romance construído pela Autora, a casa assumirá um papel importante. É de dentro dela que ocorre a trama de sete mulheres, e esta casa estará, ainda, à mercê de um pampa sangrento e belicoso. Assim, se a casa representa o universo feminino no contexto da obra, o pampa retrata o universo masculino em um vasto campo de batalha e negociações políticas. Dessa forma, A casa das sete mulheres aponta para dois polos guerreiros: o da guerra revolucionária e o da “guerra” pela vida empreendida com bravura pelas sete mulheres que dão título ao romance. Dirá a Autora: “A força motriz desse épico são as gentes, os agentes da
1369 revolução, aqueles que lutaram nos campos de batalha, e aqueles que esperaram nas estâncias, defendendo suas propriedades e seus filhos” (in: http://www.novacultura.de/0204mulheres.html). E em comentário à obra, Tabajara Ruas afirmará: “Somente um talento literário instintivo e visceral poderia conduzir essa narrativa claustrofóbica e íntima com o sopro épico que varre as páginas do livro. As mulheres daquela casa viviam naturalmente na expectativa das notícias da guerra, que demoravam e eram lentas como as estações que se sucediam. Cartas, recados, bilhetes escritos às pressas trazidos por solitários mensageiros com meses de atraso não bastavam para redimir da solidão [...]. Para contar essa história, Leticia transpõe todas as fronteiras. História e ficção, realidade e fantasia, o natural e o sobrenatural se interpenetram no cotidiano das sete mulheres, cada dia mais violento e sufocante e imutável” (Trecho da orelha da obra). Transformado em minissérie pela Rede Globo de Televisão, apresentada entre 7 de janeiro e 8 de abril de 2003, totalizando 52 capítulos escritos por Maria Adelaide Amaral e Walter Negrão, com colaboração de Lúcio Manfredi e Vincent Villari, o romance de Leticia sofreu alterações e contou com uma trilha sonora que teve, entre seus/suas intérpretes, Adriana Mezzadri e, como compositor, Marcus Viana. A direção ficou a cargo de Teresa Lampreia, com direção geral de Jayme Monjardim e Marcos Schechtmann. A minissérie apresentou Eliane Giardini, Camila Morgado, Samara Felippo, Mariana Ximenes, Daniela Escobar, Nívea Maria e Bete Mendes como as sete mulheres, e ainda Thiago Lacerda, Giovanna Antonelli e Werner Schünemann, como os grandes heróis da Revolução Farroupilha, vivendo seus personagens figuras verídicas, que complementaram a história do país, sendo os mesmos, grandes ícones nacionais. Ao final da história, depois de tantas mortes, Manuela (uma das sete mulheres da trama) será a única personagem que sobreviverá. Assim, cinquenta e cinco anos após a Revolução Farroupilha, com sua voz madura e envelhecida pelos anos, ela fará a tessitura das vidas das pessoas com quem conviveu à medida que tecerá a própria narrativa por meio de seu diário, um dos gêneros discursivos mais utilizados por mulheres no decorrer do século XIX, contexto em que as personagens de Leticia Wierzchowski estão inseridas. Para Helena Parente Cunha, a mulher, em virtude de ter sido destinada ao âmbito do privado, desenvolveu esse discurso narrativo confessional, muitas vezes de queixa ou de revolta. Assim, em seu diário, Manuela explanará essas queixas em forma de críticas sobre a guerra: “Por que se lutava e por que se morria? Nunca hei de sabê-lo. E nenhum regime sob o céu me haverá de justificar esta guerra” (WIERZCHOWSKI, 2002: 267). A esse respeito, dirá Silva: “Manuela, sobrinha do General Bento Gonçalves, subverte o discurso hegemônico patriarcal, contrariando às demais, na medida em que expõe seus sentimentos, angústias e discordâncias durante os dez anos de guerra, relacionados à família, ao confronto ou mesmo à sociedade da época. Seus relatos, sob a forma de um diário, transmitem ao leitor impressões muito pessoais, mas perfeitamente relacionáveis às demais mulheres, já que os diálogos ocorridos entre as moradoras da estância muitas vezes demonstravam suas insatisfações” (SILVA, 2009: 11).
1370 Ainda sobre o diário (do latim diariu(m)) - obra em que se registram, diária ou quase diariamente, acontecimentos, impressões, confissões, será dele que Manuela se utilizará como forma de trabalhar sua movimentação interior que, como diria Cláudia Castanheira, “alternadamente emerge e submerge, subvertendo momentaneamente sua realidade pelo resgate das lembranças” (in Água viva, nº1, ano1, p.48). Essas lembranças serão recorrentes em Manuela. Em leitura a seus cadernos, já no fim da Revolução, ela dirá: “Eu os lia como se não tivessem saído das minhas mãos, linhas traçadas por outra mulher, uma que acreditava no amor, no futuro. Não eu, moça sem horizontes, inundada de saudades que nunca haveriam de se aplacar” (WIERZCHOWSKI, 2002: 477). Embora obrigadas a uma vida de reclusão, as mulheres que viviam na casa à beira do Rio Camaquã não eram derrotistas. Elas se socializavam orientadas por D. Ana e D. Antônia que procuravam manter a família unida por meio de manobras variadas. Eram, por isso mesmo, “guerreiras”, mas não com a semântica bélica que essa palavra pode conotar. Guerreiras porque tentavam afastar o medo e o desencanto das mulheres que ali moravam; guerreiras porque as faziam acreditar, a cada dia, na vida, dando-lhes apoio emocional; guerreiras, ainda, porque dirigiam corajosamente todas as questões administrativas da casa, assumindo toda a responsabilidade na ausência dos homens: “As duas regiam a vida da família, com manobras dignas de uma batalha. Lutavam contra o horror daquela guerra, com todas as forças. Dia após dia, D. Ana e D. Antônia nos roubavam das garras do medo e do desencanto, e nos protegiam naquela redoma de paredes caiadas, onde para tudo havia um horário e uma norma, menos para a desesperança. - Quando uma mulher desacredita, está tudo perdido. Era isso que dizia D. Antônia. E foi isso que aprendi naqueles dez anos que passamos juntas, esperando” (WIERZCHOWSKI, 2002: 155 , 156). A coragem frente aos acontecimentos deverá ser preservada entre essas mulheres e será uma das marcas desses perfis femininos afeitos à espera e à dor emocional, já que não tinham outra opção, considerando a época em que viveram. Enfim, nessa relação entre o real e o ficcional, Wierzchowski proporá a análise tanto da mulher-observadora como da mulher – participante que se encontra envolvida nas situações e decisões derivadas da Revolução. Tais questões podem ser vislumbradas no decorrer da narrativa e nas linhas dos "Cadernos de Manuela". Talvez seja por esse tom fortemente intimista, confessional que o diário, enquanto marca de um gênero cultivado principalmente pelo feminino, tenha sido considerado, por tanto tempo, uma tipologia textual menor. Em tempos de isolamento, Manuela sobreviverá às intempéries escrevendo e, com essa ação, demonstrará seu posicionamento subversivo. É em seu diário que ela transcreverá seus
1371 pensamentos e estados de alma. Nele, assim como em todo romance, estará delineada a ideia de que a guerra pela vida é melhor que a guerra pela morte e de que a mulher do pampa precisa ser forte para suportar e sobreviver às adversidades e à espera. Dirá Manuela: “Sim, sempre os homens se vão, para as guerras, para as suas lides, para conquistar novas terras, para abrir os túmulos e enterrar os mortos. As mulheres é que ficam, é que aguardam. Nove meses, uma vida inteira. Arrastando os dias feito móveis velhos, as mulheres aguardam... Como um muro, é assim que uma mulher do pampa espera pelo seu homem. Que nenhuma tempestade a derrube, que nenhum vento a vergue, o seu homem haverá de necessitar de uma sombra quando voltar para a casa... Minha avó Perpétua dizia isso, disse-nos isso muitas vezes ao contar das guerras que meu avô lutara. É a voz dela agora que ecoa nos meus ouvidos (WIERZCHOWSKI, 2002: 72). A força das mulheres da casa à beira do Camaquã é emocional e não física. Por isso, não é o discurso do homem que repercute nelas, mas sim o da avó - a voz que resistiu ao tempo e se fez relembrar e ecoar na memória das demais personagens femininas da obra, redirecionando seus olhares e reavaliando o papel feminino no ambiente social. Essa força silenciosa (mas nem por isso menor) presente nesses perfis femininos é mais afeita à realidade das mulheres do século XIX, por isso foi escolhida pela Autora para caracterizá-las. Entre rezas e rosários, as mulheres, na casa à beira do Camaquã, esperam. É a coragem delas frente às adversidades que as fazem “viver, de algum modo” (WIERZCHOWSKI, 2002: 304), valorizando o princípio da honra. Entre uma carta e outra, leitura essa compartilhada entre todas elas, cada uma desempenhava seu papel. De Caetana, diz a narradora: “De certa forma, era uma espécie de general sem divisas nem tropas que enfrentava dezenas de pequenas pelejas por dia” (WIERZCHOWSKI, 2002: 405). De D. Antônia, encontramos: “Era o esteio daquela gente, sabia disso. Sabia que Bento esperava isso dela, onde quer que estivesse. Ela não tivera filhos, mas tinha aquelas irmãs, as sobrinhas, a cunhada e os meninos. Precisava cuidar deles” (WIERZCHOWSKI, 2002: 430). Assim como essas duas personagens femininas, as demais também realizavam sua função em silêncio, sem choro, e porque não dizer com bravura: “A sobrinha [Manuela] sofria em silêncio, fiel ao código das mulheres do pampa: ali não se choravam lágrimas vãs, não se lanhava o rosto; ali, vencia-se a vida dia após dia, com dignidade, fé e trabalho” (WIERZCHOWSKI, 2002: 360). Tanto no romance quanto na minissérie televisiva, é a partir de um espaço privado que as mulheres analisam os acontecimentos do mundo público, mediadas pela autoridade narrativa de Manuela. É de dentro da casa que as mulheres tecerão suas críticas, seus comentários sobre a guerra. Em sua tessitura textual, Manuela nos relatará que, na ausência dos homens, cabia a elas a administração da casa e dos bens da família o que implicava na manutenção da propriedade - papel que D. Antônia executará com competência: “Faltava pouco para o jantar. D. Antônia examinava os papéis da venda de uma ponta de gado. Estava séria. A guerra ia empobrecendo-os lentamente, as coisas já não eram como antes. Agora trabalhavam para manter as terras, quase nada sobrava, e, às vezes, chegava mesmo a faltar. Mas sempre dava-se um jeito” (WIERZCHOWSKI, 2002: 295).
1372 Entre os afazeres domésticos, a administração dos bens da família e as notícias sobre os horrores da guerra, uma das questões observadas nesses perfis femininos era o valor concedido à maternidade. É com desvelo, por exemplo, que Perpétua cuidará de seus filhos, valorizando mais a vida que a luta. A questão da maternidade foi, desde o início dos tempos, um diferencial entre homens e mulheres. Segundo Rose Marie Muraro, “a inveja primitiva que o homem tinha da procriação [...] é exorcizada pela iniciação dos rapazes. Estes são afastados de suas mães na puberdade e renascem de maneira ritual para o mundo masculino” (MURARO, 1995: 65). Segundo a pesquisadora Cristina Stevens, "apesar de não se conhecer quando a espécie humana descobriu o papel do homem na procriação, foi essa consciência que fez surgir no homem a necessidade de controlar a fecundidade da mulher e sobretudo a legitimidade do 'produto final' que seria o herdeiro da terra, agora também já tornada propriedade do homem" (in A Mulher na Literatura - vol.9, p.195). De acordo com os princípios da sociedade patriarcal e a ótica religiosa ocidental, o papel da mãe está relacionado à imagem de Maria – “pura, assexuada, bondosa, aquela que é capaz de sacrificar-se constantemente, vivendo em função da família” (FERREIRA, 2002: 208). Essa naturalização do amor materno será responsável pela imposição, às mulheres, de um modelo de abnegação e resignação próximo de uma santa. Tal ideologia também representa uma forma de dominação. A maternidade estará diretamente associada às questões da virgindade tão resguardada na sociedade patriarcal. Em A casa das sete mulheres, embora haja um discurso de preservação da castidade, teremos exemplo de transgressão desse princípio em Mariana. Apaixonada por João Gutierrez, Mariana se deixa envolver pela paixão, ficando grávida de João. A atitude dessa personagem bem pode simbolizar uma reação à repressão e ao tempo de espera a que ela foi submetida. Mariana transgride o código social em que foi criada ao se entregar a um homem, e mestiço. Incompreendida pela mãe, essa personagem amadurecerá por meio do sofrimento a ela impingido. Entretanto, mesmo com a ausência do apoio materno, Mariana não se dobrará frente às adversidades. Ela irá parir, heroicamente, seu filho em casa de D. Antônia: “Agora a dor começou. Nunca viu o mar, mas recorda a descrição que o italiano Garibaldi fez dele certa vez. Essa dor deve ser como a maré. Vem em ondas. Mas aumenta cada vez mais. Uma dor quente. Ela sente que o corpo abre passagem para o filho, que os ossos se deslocam, que uma força interna empurra tudo para baixo. Não consegue manter as pernas fechadas. Não consegue pensar. Talvez apenas recorde o rosto de João. O rosto de João flutuando naquele mar de dor. E a vontade de ver o seu filho. A vontade atroz de segurá-lo, de libertá-lo daquele ninho de carne” (WIERZCHOWSKI, 2002: 440). Também será na estância de D. Antônia que Mariana criará o filho e esperará pelo retorno de João, mostrando, por meio de suas escolhas e atitudes, que determinados comportamentos considerados ideais devem ser questionados e contestados.