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A Via Light: a educação pela beleza

Oliveira, Cássia Maria Baptista de

Abstract

O artigo toma o conceito de utopismo dialético apresentado por David Harvey no livro Espaços de Esperança para propor a pesquisa etnográfica com os citadinos nos espaços de convivência social localizados na Via Light, em Nova Iguaçu, como processos de sociabilidade em formas espaciais. O tema da pesquisa tem como foco os lugares de convivência social que produzem a intensificação do desenvolvimento geográfico desigual em termos de padrão e de perspectivas de vida, no sentido de refletir sobre as culturas emudecidas na contemporaneidade. Defende-se a ideia de que a pesquisa nos espaços de convivência social pode produzir a materialização do utopismo do processo social, promovendo o político da amizade, tendo como apoio as contribuições teóricas da filosofia de Agamben e de Foucault.

Full text

1 Eixo: Rede ini a Cidade Vi ual e U ópica: No os Ho izon es C í icos pa a Pensa a Ação e a Rep esen ação A Via Ligh : A Educação pela Beleza Cássia Ma ia Bap is a de Oli ei a1 Resumo O a igo oma o concei o de u opismo dialé ico ap esen ado po Da id Ha ey no li o Espaços de Espe ança pa a p opo a pesquisa e nog á ica com os ci adinos nos espaços de con i ência social localizados na Via Ligh , em No a Iguaçu, como p ocessos de sociabilidade em o mas espaciais. O ema da pesquisa em como oco os luga es de con i ência social que p oduzem a in ensi icação do desen ol imen o geog á ico desigual em e mos de pad ão e de pe spec i as de ida, no sen ido de e le i sob e as cul u as emudecidas na con empo aneidade. De ende-se a ideia de que a pesquisa nos espaços de con i ência social pode p oduzi a ma e ialização do u opismo do p ocesso social, p omo endo o polí ico da amizade, endo como apoio as con ibuições eó icas da iloso ia de Agamben e de Foucaul . Pala as-cha e: mode nidade le e, sociabilidade, cidade. Via Ligh : The Educa ion o Beau y Abs ac The a icle akes he concep o dialec ical u opianism p esen ed in he book by Da id Ha ey Spaces o Hope o p opose e hnog aphic esea ch wi h he ownspeople in social li ing spaces loca ed on Via Ligh in No a Iguaçu, as p ocesses in spa ial o ms o sociabili y. The heme o he esea ch ocuses on he places o social in e ac ion ha p oduce he in ensi ica ion o une en geog aphical de elopmen in e ms o s anda d o li ing and p ospec s in o de o e lec on he con empo a y cul u es mu ed. I de ends he idea ha esea ch in he a eas o social in e ac ion can p oduce he ma e ializa ion o social u opianism o p ocess, p omo ing poli ical iendship, ha ing as suppo he heo e ical con ibu ions o philosophy o Agamben and Foucaul . Keywo ds: mode ni y ligh weigh , sociabili y, ci y A Via Ligh : A Educação pela Beleza 1 Oli ei a, Cássia Ma ia Bap is a. Fo mação em Psicologia. Dou o ado em Educação. P o esso a adjun a da Uni e sidade Fede al Ru al do Rio de Janei o. e-mail: [email p o ec ed] 2 Cássia Ma ia Bap is a de Oli ei a Es e a igo az a a en u a de um passeio pela Via Ligh na cidade de No a Iguaçu, escolhida como elemen o de e e ência pa a en ende mos os p ocessos de sociabilidade nos espaços de con i ência social localizados nes a a enida. A a essia pela cidade em nos pe mi ido poli iza o obje o des a pesquisa que es á sendo desen ol ida com dois es udan es do cu so de Pedagogia da UFRRJ, com bolsa de iniciação cien í ica, sendo uma do CNPq e a ou a da Fape j. A pesquisa que es á em andamen o em o apoio inancei o da Fape j. A igu a do apei o, de Benjamin, nos mo eu a ecolhe as imagens dos shopping-cen e s, do cen o gas onômico e dos edi ícios come ciais que co espondem aos emplos de consumo na Via Ligh , ca ac e ís ica impo an e des a no a e apa do capi alismo. Como a gumen a Wal e Benjamin (2007), a cidade é o e dadei o luga sag ado do lâneu . “A cidade é seu empo, seu local de cul o”. O c onis a ca ioca João do Rio (2008) ambém lemb ou que “a ua é um a o de ida das cidades, a ua em alma”. T azemos es a a enida como imagem que na a a in ensi icação do desen ol imen o geog á ico desigual em e mos de pad ão e de pe spec i as de ida, a im de e le i sob e as cul u as emudecidas na con empo aneidade. A Via Ligh A Via Ligh é uma ia exp essa do es ado do Rio de Janei o com 10,65 quilôme os de ex ensão, o icialmen e denominada RJ-081, que liga o município do Rio de Janei o ao município de No a Iguaçu. No sen ido Rio de Janei o a No a Iguaçu, ela começa na Pa una, bai o que dema ca os limi es dos municípios do Rio de Janei o e de São João de Me i i, e e mina em No a Iguaçu, no en oncamen o que o e ece condições de acesso à Es ada de Madu ei a, à linha é ea e ao cen o u bano de No a Iguaçu, a a essando ês municípios da Baixada Fluminense: São João de Me i i, Nilópolis e Mesqui a. Nes a ia, a a iculação en e os municípios e en e os bai os do p óp io município dá-se po meio de c uzamen os e iadu os. As passa elas da odo ia dão em ma agais, deixando as pessoas ulne á eis a aciden es e à iolência. Ao longo da a enida não há segu ança e ela é o e a o do abandono, com mo o is as, pedes es e animais en en ando o isco de colisão, a opelamen o e mo e. 3 A Via Ligh oi cons uída no go e no de Ma cello Alenca , em 1998, obje i ando desa oga o ânsi o da Rodo ia P esiden e Du a e se uma impo an e ligação iá ia do G ande Rio. Apesa de se uma ia pa alela à Du a, não conseguiu se o na uma al e na i a a ela, mas é conside ada a p incipal a enida do município de No a Iguaçu. Além disso, ela se e pa a in eg a a Linha Dois do me ô do Rio de Janei o, que e mina na Pa una, à No a Iguaçu po meio das linhas de ônibus pa a se di igem aos municípios que ma geiam a ia. Também colabo a com iagens ápidas da Baixada a Madu ei a e à Ba a da Tijuca. En e an o, o go e nado do es ado do Rio de Janei o, Sé gio Cab al Filho, em 2010, e omou o p oje o de desa oga a Du a a pa i da ideia de liga o Rio de Janei o a No a Iguaçu com a cons ução de dois echos. O p imei o echo implica dois segmen os: um en ol e ia a cons ução da ex ensão sul, passando pelos bai os de Cos a Ba os e Guadalupe, onde ha e ia um en oncamen o com a A enida B asil; o ou o passa ia pela Es ada Rio do Pau, na Pa una, a é a A enida B asil, en e os bai os de Ba os Filho, Honó io Gu gel, Rocha Mi anda, Tu iaçu e Madu ei a. Es a ex ensão aca e a a cons ução do Pa que de Madu ei a, a inclusão de dois úneis, qua o pon es e dois iadu os, além de es ende a Linha Ama ela. O segundo echo implica a cons ução da ex ensão no e, que p olonga a Via Ligh a é Queimados, passando po bai os pe i é icos de No a Iguaçu: o echo a é o bai o de Rosa dos Ven os ica ia sob a esponsabilidade da P e ei u a de No a Iguaçu. Além des e p oje o, há a in enção de cons ução da T ansbaixada, ia que ica á às ma gens do io Sa apuí, que passa á pela Via Du a e BR-040 pa a e i a o uso da Linha Ve melha. A Via Ligh o na -se-á um co edo exp esso que ope a á em sis ema BRT, com in aes u u a de ias seg egadas, desde o e minal de No a Iguaçu, na á ea cen al do município, a é o bai o de Madu ei a, na cidade do Rio de Janei o. Funciona á com ônibus a iculados e, in eg ada à T ansB asil, T ansCa ioca, T ansOes e e T ansOlímpica, que azem pa e do conjun o de ob as iá ias que isam p epa a o Rio pa a as Olimpíadas de 2016, passa á a se uma al e na i a aos amais da Supe ia. Com a implan ação da BRT Via Ligh , p e ende-se “p opo ciona economia de empos de iagens, o imização do desempenho do anspo e público, edução de cus os ope acionais, e po encializa á a o mação de cen alidades u banas, com ge ação de melho ia na qualidade de ida dos cidadãos da Baixada Fluminense” (Disponí el em: www.no aiguacu. j.go .b /no icias). A Via Ligh é pe i é ica nos municípios de São João de Me i i, Nilópolis e Mesqui a, e apenas em No a Iguaçu ela co a o cen o da cidade, indo do bai o da Luz a é o bai o Ma co 2, com cons ução de no as p aças e ja dins e sinalização comple a. Con o me no ícia da Via Ligh publicada no jo nal O Dia (12de ma ço de 4 2012) Disponí el em: h p://odia.ig.com.b /po al/1), o sec e á io municipal de T ânsi o e Se iços Públicos (Sem esp), Rholme Júnio , disse que, com a abe u a da a enida, os conges ionamen os nos a edo es de e ão diminui , melho ando a qualidade de ida dos mo ado es dos bai os ligados pela Via Ligh , e que os seus p incipais obje i os são: “melho a o á ego nas ias do en o no, desa oga o ânsi o na Es ada de Madu ei a. P imei o, amos libe a o ânsi o domés ico e, depois, pa a as linhas de ônibus”. De aco do com a a qui e a, Ca la Ne es, que abalha na p e ei u a de No a Iguaçu, a Via Ligh se o na a p incipal a enida do município po que o p oje o oi adap ado às necessidades da cidade, colocando em p á ica o seu plano es a égico, cujo obje i o p incipal e a o na a cidade um cen o me opoli ano ge ado de opo unidades come ciais, indus iais e de se iços, melho a a qualidade dos se iços públicos e da es u u a u bana, além de p ese a o pa imônio ambien al, his ó ico e cul u al. Após a sua cons ução, a a qui e u a dos p édios ganhou aspec os mais mode nos, passa a ha e a p eocupação com o belo, com a es é ica e com o in es imen o em paisagismo e cons oem-se ja dins e á eas de con i ência social ao longo da a enida. Inicialmen e, a Via Ligh oi pensada como á ea de laze , pa a se echada nos inais de semana, como se az no A e o do Flamengo, município do Rio de Janei o, mas essa ideia icou cada ez mais dis an e po causa do enga a amen o diá io na cidade das 7 ho as da manhã às 7 ho as da noi e. As uas pa alelas às o es da Via Ligh passa am a e 50m de la gu a (an es e am de 10m), mudando a manei a de e a cidade, que ganha aspec os de me ópole. Nos anos 90, a população p a ica a espo es, como ciclismo, caminhada, ska e e u ebol. Hoje, a p á ica de espo es icou menos in ensa de ido ao c escen e núme o de assal os e à al a de segu ança. Com o c escimen o da cidade, a Via Ligh o nou-se obsole a. Inicialmen e, ela oi planejada pa a e ês pis as, mas hou e a edução pa a duas pis as po o dem do go e nado do es ado de en ão. Ela ambém se o nou o local das mani es ações polí icas de No a Iguaçu. Assim, a cons ução da Via Ligh se con igu a como di iso de águas pa a a cidade: de uma cidade que ainda conse a a um o ma o colonial, com calçadas es ei as, onde cada qua ei ão e a echado po mu os que o ma am um pa edão, pa a uma me ópole que i e os p oblemas de enga a amen o, insegu ança e al a de limpeza u bana. A demolição dos mu os pa a cons ui a g ande a enida que in e liga a cidade de um lado ao ou o aumen a a sua isão e o na Via Ligh a imagem dessa me ópole que i e a in ensi icação do p ocesso de desen ol imen o geog á ico desigual em e mos de pad ão e de pe spec i as de ida, e le indo, des a o ma, as cul u as emudecidas na con empo aneidade. 5 A Via Ligh e o P og esso: U opismo Dialé ico A paisagem dos edi ícios come ciais, shopping-cen e e cen o gas onômico na Via Ligh é ica pa a ala da a iculação en e a p odução do espaço e a do empo inco po adas ao pensamen o u ópico, como p opôs Da id Ha ey (2011) quando es abeleceu o u opismo dialé ico a pa i do en endimen o que an o o espaço como o empo são cons uções sociais. O iajan e que segue pela Via Ligh à noi e obse a a luz das o es de uma cidade que passou a se ma a ilhosa: a cidade de No a Iguaçu ilus ada nos ca ões- pos ais. A linha e a p oje ada pela a enida que liga a cidade de um lado a ou o ans o ma as suas la gas ias em um passeio que sepa a duas cidades – a bela e a saqueada – possibili ando pensa a Via Ligh como um “espaço he e o ópico”2 aos olhos de quem a ê, que buscam a ou a imagem da cidade não mais associada à iolência e ao abondono. Ao se pe co e em as pis as la gas da a enida, ica a imagem da sucessão de mu os pin ados e ja dins que ap esen am beleza. Dian e da Via Ligh , es abelece-se o con as e en e a sua “beleza” e o “abandono” dos bai os. Tudo o que se ê inspi a a sepa ação espacial en e as duas cidades, e a passagem pela Via Ligh o na cla as as necessidades econômicas e cul u ais de mudança de uma cidade conside ada o a pe i é ica em elação ao Rio de Janei o – comp eendido como cen o – o a cidade- do mi ó io, cujos habi an es, em sua maio ia, abalham em ou a cidade, ol ando apenas pa a do mi ali. Deixa-se pa a ás a ideia de a enida como um não luga 2 Nos es udos sob e a his ó ia do espaço e de uma comp eensão de he e ogeneidade, Foucaul iden i ica como espaços he e o ópicos cemi é ios, colônias, bo déis e p esídios de ido ao a o de que eles acen uam a di e ença, a di e sidade, a escolha, a al e idade e o “ou o”. P esume que udo o que acon ece nos espaços de “Ou idade” é in e essan e e de ce o modo “acei á el” ou “ap op iado. Ele emp ega es e e mo pa a pensa o concei o de “he e o opia” cunhado po ele no li o As pala as e as coisas (1981) e depois e omado numa pales a em que essusci a o p oblema de u opia e, ao mesmo empo, oge dele. He he ing on (1997) apud Ha ey esume o concei o de he e o opia des a o ma: “como espaços de o denação luida. A he e o opia o ganiza uma pa cela do mundo social de uma manei a dis in a do ambien e que a ci cunda. Essa o denação luida ma ca esses espaços como Ou o e lhes pe mi e se em conside ados exemplos de manei as al e na i as de aze as coisas [...] Logo, a he e o opia e ela que o p ocesso de o denamen o social é jus amen e p ocesso, em ez de coisa. No li o As pala as e as coisas, Foucaul , conside a que ‘as u opias p opo cionam consolo: ainda que elas não enham um luga conc e o, há mesmo assim uma egião an ás ica, impe u bada em que podem se desen ol e ; ab em cidades com as as a enidas, com ja dins cul i ados à pe eição, países em que a ida é ácil, mesmo que seja quimé ica a es ada que a eles conduz. As he e o opias são pe u bado as, é p o á el que de ido a solapa em sec e amen e a linguagem [...] As u opias pe mi em a ábula e o discu so: es ão em con inuidade com o que há de ca ac e ís ico na linguagem [...] [as he e o opias] dissecam a ala, azem com que as pala as es aquem, con es am na on e a p óp ia possibilidade da g amá ica; elas dissol em mi os e es e ilizam o li ismo de nossas ases’” (Ha ey, 2011, p. 241-243). 6 (Bauman, 2001, p. 120).3 A pin u a de painéis com Mad e Te eza de Calcu á e Gandhi ap esen am-se como ob as de a e, p oduzindo na população o cuidado com o espaço público. Os esiden es dos bai os de No a Iguaçu – aqueles que cos umam a a essá- la de ônibus ou que chegam de em – sabem que nela na egam a espe ança, o sonho, a mo e e a lu a pela ida, undindo a um só empo o p esen e e o passado. Nessa junção de empo, podem se comp eendidas as con adições in e nas da cidade que con inua ge ando qualidades desiguais em e mos de pad ão e de pe spec i as de ida. É eno me a população que conhece as di e sas mani es ações da iolência u bana. Em seus bai os esquecidos, in isí eis, há o indício de que ali a ida nada ale. Há a ocupação do solo ao edo da Via Ligh pelas classes médias e al a que colocam a necessidade de seg egação e de se es abelece em on ei as en e a cidade bela e a cidade abandonada. Do een Massey4 explica essa necessidade a pa i da ideia eacioná ia do luga , e des aca os p oblemas que en ol em al noção. Pa a Massey, a p imei a ques ão diz espei o ao a o de os luga es e em iden idades singula es e essenciais e não múl iplas, que pode iam se is as como on e de iqueza e con li o. De aco do com a au o a, a p ecisão de se es abelece em on ei as, a im de que o bai o ganhe uma iden idade que se cons ói a pa i de uma his ó ia in oje ada, es á “baseada na sondagem do passado e [na] p ocu a de o igens in e nalizadas” (p. 182) – es a é a segunda ques ão que se en en a quando se busca o sen ido do luga . A e cei a ques ão diz espei o à ideia de iden i ica o local com os mo ado es que ali esidem, po que as comunidades podem exis i sem es a em na mesma á ea. Po ou o lado, em seu in e io há pessoas ocupando di e en es posições, o que implica múl iplos sen idos do luga . Des a pe spec i a, o que dá a es e espaço um p opósi o p og essis a não é uma his ó ia longa e in e nalizada, mas a elação que ele es abelece com o que se encon a no mundo mais amplo, o que pe mi e a in eg ação de o ma posi i a – global e local. Segundo es a au o a, o concei o p og essis a do luga pode se desen ol e de mui os modos. Um deles é concei ua o local em e mos de in e ações sociais que ag upam, in e ações es as que são is as como p ocessos. O ou o é pe cebe que as on ei as, no sen ido de di isões dema ca ó ias, não são necessá ias pa a a 3 Um não luga “é um espaço des i uído das exp essões simbólicas de iden idade, elações e his ó ia: exemplos incluem ae opo os, au oes adas, anônimos qua os de ho el, anspo e público” (Bauman, Zymun . Mode nidade Líquida. Rio de Janei o: Zaha , 2001). 4 Massey, Do een. "Um sen ido global do luga ". In: A an es, An onio A. (o g.). O espaço da di e ença. Campinas: Papi us, 2000. p.177-185. 7 concei uação de um luga em si. O e cei o modo diz espei o à comp eensão de os luga es es a em eple os de con li os. No mundo da globalização, os emplos de consumo ganham no a impo ância po que es ão es ei amen e elacionados à ensão en e global e local, e elando a p incipal ca ac e ís ica dos espaços públicos de con i ência social. Nos dias de hoje, a dispensa de in e ação, que lança os ci adinos em um p ocesso de compa imen ação e agmen ação do e i ó io, p oduz em seus a o es di e en es o mas de ida e modos de in e i . Is o po que os emplos de consumo acolhem e bene iciam o sonho de comunidade e ambém omen am a polí ica do medo co idiano que implica medo de con a o com o es anho, es e como ep esen an e do pe igo que az in ensa ansiedade, insegu ança e ameaça. A polí ica do medo co idiano p oduz a ideia de es ilo de ida em “comunidade echada” pa a os sem-comunidade, o que supõe a homogeneidade como es ilo de ida. Fica assim desca ada a noção do “bem comum”, con ibuindo pa a subs i ui o obje o da polí ica, ou seja, em luga da isão de uma sociedade que se impo a com a jus iça social, há uma ou a que em como opção consumi espe áculos que encenam a o e a de conselhos pa a a polí ica- ida. Re o çam-se assim a solidão, a exibição das con issões públicas da in imidade e a exposição na ida pública dos medos p i ados. Do pon o de is a de Bauman, “o que pa ece es a em jogo é uma ede inição da es e a pública como um palco em que d amas p i ados são encenados, publicamen e expos os e publicamen e assis idos” (2001, p. 83). Nessa ia p oje ada, os habi an es se echam em luga es públicos que en am elimina a su p esa e o aciden e, p opiciando a ans o mação desses luga es públicos em emplos de consumo que p o egem os ci adinos da al a de segu ança, mas que os p i am de exe ce a libe dade na ida u bana. En a nesses emplos é pode es a na cidade, mas não aze pa e da cul u a pública. O que signi ica, en ão, compa ilha a ida nesses emplos de consumo? Tais luga es, di e en es de ou os, podem se ap o ei ados sem medo, mas excluem o isco da a en u a – o que es a é di e imen o pu o, sem mis u a ou con aminação. Eles se iam capazes de o e ece a p á ica da ci ilidade?5 Há mui os locais nas cidades que se ap oximam do que se pode chama de espaço público de con i ência social, mas aos quais não se pode da o nome de 5 “A ci ilidade, como a linguagem, não pode se 'p i ada'. An es de se o na a a e indi idualmen e ap endida e p i adamen e p a icada, a ci ilidade de e se uma ca ac e ís ica da si uação social. É o en o no u bano que de e se 'ci il', a im de que seus habi an es possam ap ende as di íceis habilidades da ci ilidade” (Bauman, 2001, p. 112). 8 espaço ci il.6 Uma cidade com espaços públicos u banos mas sem espaço ci il pode ia ainda se chamada de cidade? Na de inição clássica de Richa d Senne (apud Bauman, 2001, p. 111), cidade é “um assen amen o humano em que es anhos êm chance de se encon a em”. Em uma cidade na qual os luga es públicos só o e ecem o encon o en e semelhan es, há a possibilidade de se ap ende a p á ica indi idual da ci ilidade sem a condição de es anhos se encon a em na condição de es anhos? Pa a Senne , a ida u bana eque a ci ilidade.7 Há á ias manei as de se alcança uma cidade. Ela se ap esen a de modo di e en e pa a quem chega po e a, po ma ou pelo a . Po e a, os que passam pela a enida eem os c uzamen os e os iadu os. Mas em odas as di eções o açado da a enida em sua comple a ex ensão en a impedi o encon o com es anhos e o gas a a pé o empo ocioso. As a qui e u as dos edi ícios come ciais, do shopping-cen e , do cen o gas onômico ap esen am-se numa o dem que a es a a al a de con a o. Suas linhas con ínuas e pa alelas signi icam a mo e da ua, a mo e do espaço que, ans o mado em luga de passagem, en aquece as elações en e as pessoas, uma ez que é nele que elas se ocam, se pe cebem, se ap oximam e se dis anciam. A ua, eduzida à a e a exclusi a do á ego, expu ga “ odas as a uais pe u bações causadas po caminhan es sem umo, ociosos, gen e a lana ou simplesmen e passan es ao acaso” (Bauman, 1999, p. 50). Esse es aziamen o das uas a i ma a mo e das ideologias, o en elhecimen o das iloso ias e ce o modo de aze a a e polí ica, ão ma can e pa a a ge ação dos anos 70. Essa mo e nos le a a indagações: Que u opias nos echa no passado? Que u opias nos ab e o u u o? Que espe anças pe demos? Que espe anças ainda cul i amos? Se a cen alidade da u opia e da espe ança o a i mada pela equi alência en e o Reino de Deus (pa aíso pe dido, sag ado, eologia) e o Reino da Libe dade (sociedade sem classes, p o ano, ma e ialismo), cuja apo eose se ia a inda do Reino de Deus e, de manei a simul ânea ou sinônima, a do Reino da Libe dade, en ão, a equi alência en e a sociedade sem explo ação e o Reino de Deus nos ap oxima ia do im da his ó ia e da u opia. 6 “Signi ica, an es e acima de udo, a disponibilidade de espaços que as pessoas possam compa ilha como pe sonae públicas – sem se em ins igadas, p essionadas ou induzidas a i a as másca as e 'deixa - se i ', 'exp essa -se', con essa seus sen imen os ín imos e exibi seus pensamen os, sonhos e angús ias. Mas ambém signi ica uma cidade que se ap esen a a seus esiden es como um bem comum” (Bauman, 2001, p. 112). 7 “[...] a a i idade que p o ege as pessoas umas das ou as, pe mi indo, con udo, que possam es a jun as. [...] A ci ilidade em como obje i o p o ege os ou os de se em sob eca egados com nosso peso” (Senne apud Bauman, 2001, p. 112). 9 Benjamin con a uma his ó ia em que o p o ano na mode nidade es á de aco do com a edi icação do sag ado; o conhecimen o como dou ina ap esen a uma dimensão de é, de ce ezas e c enças undamen adas que agilizam a elação en e eologia e polí ica, ou seja, o p o ano man ém uma conexão com a eligião quando seu sen ido se o na um conjun o de dou inas e p á icas que em dimensão de c ença egida pela ideologia do p og esso; essa c ença impede o comba e ao ascismo, po que ac edi a que a his ó ia caminha no sen ido do p og esso. Assim, pe de-se a possibilidade de ino ação polí ica. Mas se ganha a lemb ança de que emos de oma cuidado pa a não con ai o ana ismo ób io dos an i abagis as, dos ege a ianos, dos paci is as, dos ambien alis as mili an es, e ambém as suas o mas mais su is, que o e ecem a elicidade nas me cado ias dispos as em p a elei as di undindo o “ja dim de in ância global”, ou seja, ans o ma as me cado ias em imagens de elicidade, in an ilizando a espécie humana. Nes e sen ido, nós nos indagamos sob e as manei as com que p oduzimos as di e en es o mas de in eg ação nos espaços de con i ência social, sob e a ida cole i a, as elações de gêne o, os es ilos de consumo, a elação com a na u eza e os e ei os p oduzidos po essas in e ações, uma ez que a comp eensão das consequências é um undamen o essencial pa a ap o unda a isão do u opismo dialé ico ap esen ado po Da id Ha ey (2011), que des aca o echamen o e a au o idade como p oblemas a se em e le idos na ma e ialização de um p oje o quando se p e ende pensa as u opias, as al e na i as libe a ó ias ou emancipa ó ias a pa i da me á o a da “ eia da ida”. Um Sen ido de Pesquisa nos Espaços de Con i ência Social na Via Ligh Comp eende as o mas de in eg ação nos espaços de con i ência social na Via Ligh signi ica uni a pesquisa à pala a in e enção pa a p oduzi ou a elação en e eo ia e p á ica, assim como en e sujei o e obje o, como nos alam Passos e Bene ides. [A] in e enção es a á associada à cons ução e/ou à u ilização de analisado es. Os analisado es se iam acon ecimen os – no sen ido daquilo que p oduz up u as, que ca alisa luxos, que p oduz análise, que decompõe. Eles analisam as múl iplas elações que compõem o campo an o em seu ní el de in e enção quan o em seu ní el de análise (Passos & Bene ides, 2000, p. 73). Na pesquisa-in e enção, sujei o-pesquisado e sujei o-pesquisado se cons i uem no p ocesso, a pesquisa sendo o momen o de in e enção, que em como mo e o ques ionamen o do “sen ido” da ação. Ela se in e essa pelos mo imen os,