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O culto das celebridades na informação da SIC

Gonçalves, João Carlos Gaspar

Abstract

Este relatório é o resultado de um estágio de seis meses na Informação da SIC generalista, cinco dos quais integrado na editoria do “Jornal de Sábado”. O trabalho é uma reflexão sustentada na minha observação enquanto estagiário; e no meu olhar enquanto putativo repórter, e respetiva análise de enunciados jornalísticos por mim criados e inseridos na temática em análise do culto das celebridades. A fragmentação do público através da sua dispersão pela televisão generalista, a televisão por cabo e a internet levou a uma crescente preocupação do jornalismo em responder face às lógicas de mercado. Esta realidade em plena expansão, alicerçada em conceitos cada vez mais híbridos da cultura popular e do jornalismo cultural, levou a que as celebridades se estabelecessem enquanto enunciado jornalístico, mesmo em espaços noticiosos tidos como mais rígidos, formais e tradicionalmente dedicados às hard news, como os principais blocos informativos de uma televisão generalista. Esta conjuntura aliada à absorção das lógicas de visibilidade das próprias celebridades em várias áreas de atuação, a crescente fabricação de celebridades através de estratégias de comunicação e a fusão do ícone na arte, levam a que cada vez mais as celebridades se estabeleçam enquanto produto cultural de valor simbólico. Atuando com os media enquanto objeto mediático e, paralelamente, usando os media para autopromoção, tornando-os em objeto das suas estratégias comunicativas. A inclusão das celebridades nos jornais não é pacífica para os investigadores das ciências da comunicação. Alguns autores consideram que a inclusão das celebridades no enunciado jornalístico cessa com o dever dos jornais em difundir conteúdos que visem o serviço público e que permitam ao cidadão desenvolver o sentido crítico. Já outros investigadores defendem a necessidade de entretenimento do indivíduo e a função deste tipo de notícias na promoção da coesão social. Este impasse teórico e legislativo, dá total independência para a inclusão das celebridades nos media de acordo com os critérios de noticiabilidade e da liberdade editorial. Tornando-se imperativo analisar até que ponto o entretenimento e o jornalismo se estão a fundir, e se a inclusão destes enunciados se digladia com os limites do jornalismo. Refletindo-se na existência de uma tendência de evolução do jornalismo para um jornalismo de mercado e o “infotainment”. Este é o ponto de partida para este Relatório de Estágio, no qual pretendo analisar alguns conteúdos jornalísticos difundidos nos espaços informativos da SIC, onde as celebridades se consubstanciem enquanto enunciado jornalístico; e determinar os fatores que marcam o culto das celebridades na informação do canal.

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1 O Culto das Celebridades na Informação da SIC João Carlos Gaspar Gonçalves Relatório de estágio de Mestrado em Ciências da Comunicação Agosto de 2015 Relatório de Estágio apresentado para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação, especialização em Estudos dos Media e do Jornalismo, realizado sob a orientação científica da Professora Doutora Cristina Ponte e sob a co-orientação científica do Professor Doutor Jacinto Godinho. Declarações Declaro que este Relatório de Estágio é o resultado da minha investigação pessoal e independente. O seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia. O candidato, ____________________________________ (João Gaspar Gonçalves) Lisboa, 27 de agosto de 2015 Declaro que este Relatório de Estágio se encontra em condições de ser apresentado a provas públicas. A orientadora, ___________________________ (Cristina Ponte) Lisboa, 27 de agosto de 2015 Declaro que este Relatório de Estágio se encontra em condições de ser apresentado a provas públicas. O co-orientador, ___________________________ (Jacinto Godinho) Lisboa, 27 de agosto de 2015 Agradecimentos Assim chega ao fim mais uma etapa do meu percurso académico e pessoal. Um percurso conturbado e difícil. Regi sempre a minha vida por uma busca constante de superação. Uma busca por dar o melhor de mim. Uma busca por evolução. Uma busca por enriquecimento. No fundo uma palavra resume todo esse percurso: aprendizado. Um aprendizado que nem sempre foi fácil. Um caminho que implicou amadurecimento, sucesso e lágrimas. Este Relatório de Estágio é fruto da minha primeira experiência no mercado de trabalho. No mundo do trabalho, no mundo da televisão, tudo é mais intenso no sentir e no viver. Nesse mundo do trabalho há que corresponder a expectativas e resultados. Enfrentar figuras do nosso imaginário televisivo, político e social. Responder às exigências de uma equipa e aos princípios das políticas de qualidade de um canal. Na SIC encontrei dever, rigor e exigência com amor. Desde logo fui abraçado e integrado na equipa do “Jornal de Sábado”, conduzida com mestria pela profissional do jornalismo e que muito admiro, Maria João Ruela. À João devo muito do que sei em televisão e jornalismo, devo um exemplo de entrega à profissão, devo grandes oportunidades e votos de confiança. A João apostou em mim, nas minhas potencialidades e deu-me uma escola de liberdade com responsabilidade. Permitiu-me concretizar projetos cada vez maiores e pôs sempre como máxima o meu aprendizado. A ti devo uma grande evolução profissional e pessoal. A ti agradeço a verdade com que sempre brindaste a nossa interação e que sem ela não me seria possível evoluir e crescer. O meu obrigado a toda a equipa que me apoiou com colo e escola. À Isabel Osório que me ensinou o que é escrever em televisão e o abc do jornalismo. Um obrigado também pelo olhar sempre carinhoso com que me acompanhou ao longo de cinco meses. À Cláudia Araújo pelo exemplo de profissionalismo e de entrega. A todo o afeto que me deu e a tudo quanto me ensinou relativamente à pesquisa em jornalismo e o tratamento das fontes. Um agradecimento também à Patrícia Mouzinho pelo olhar sempre útil, afetuoso e crítico, ao qual devo amadurecimento profissional e pessoal. Um agradecimento especial também à Catarina Marques, ao Rui Pedro Reis, à Cristina Boavida e à Raquel Marinho. Um trabalho é muito mais do que uma imagem num ecrã. Um trabalho faz-se em equipa. Uma equipa de editores, repórteres de imagem e pessoal técnico que muito me ajudou e ensinou. Uma equipa me que acolheu com amor. Desde o olhar com colo da Isabel todos os dias que entrava na SIC e a quem me refugiava sempre que a confiança assim o pedisse. À Eduarda Rocha da Silva e à Eduarda Batalheiro pelo amor incondicional e por todos os ensinamentos de bem fazer televisão. Academicamente devo agradecer a todos os professores que sempre me acompanharam no meu processo de aprendizagem perante a vida. Aos professores Cristina Ponte e Jacinto Godinho por todo o profissionalismo e lado humano com que me brindaram nesta jornada. Pessoalmente agradeço aos meus pais, sem eles nada disto era possível. Aos amigos por todo o colo e ânimo que me deram, na figura da Susana Morais, Rute Sousa e Diana Rocha. Aos colegas de jornada na vida e nas secretárias. E ao amor da minha Avó. Resumo Este relatório é o resultado de um estágio de seis meses na Informação da SIC generalista, cinco dos quais integrado na editoria do “Jornal de Sábado”. O trabalho é uma reflexão sustentada na minha observação enquanto estagiário; e no meu olhar enquanto putativo repórter, e respetiva análise de enunciados jornalísticos por mim criados e inseridos na temática em análise do culto das celebridades. A fragmentação do público através da sua dispersão pela televisão generalista, a televisão por cabo e a internet levou a uma crescente preocupação do jornalismo em responder face às lógicas de mercado. Esta realidade em plena expansão, alicerçada em conceitos cada vez mais híbridos da cultura popular e do jornalismo cultural, levou a que as celebridades se estabelecessem enquanto enunciado jornalístico, mesmo em espaços noticiosos tidos como mais rígidos, formais e tradicionalmente dedicados às hard news, como os principais blocos informativos de uma televisão generalista. Esta conjuntura aliada à absorção das lógicas de visibilidade das próprias celebridades em várias áreas de atuação, a crescente fabricação de celebridades através de estratégias de comunicação e a fusão do ícone na arte, levam a que cada vez mais as celebridades se estabeleçam enquanto produto cultural de valor simbólico. Atuando com os media enquanto objeto mediático e, paralelamente, usando os media para autopromoção, tornando-os em objeto das suas estratégias comunicativas. A inclusão das celebridades nos jornais não é pacífica para os investigadores das ciências da comunicação. Alguns autores consideram que a inclusão das celebridades no enunciado jornalístico cessa com o dever dos jornais em difundir conteúdos que visem o serviço público e que permitam ao cidadão desenvolver o sentido crítico. Já outros investigadores defendem a necessidade de entretenimento do indivíduo e a função deste tipo de notícias na promoção da coesão social. Este impasse teórico e legislativo, dá total independência para a inclusão das celebridades nos media de acordo com os critérios de noticiabilidade e da liberdade editorial. Tornando-se imperativo analisar até que ponto o entretenimento e o jornalismo se estão a fundir, e se a inclusão destes enunciados se digladia com os limites do jornalismo. Refletindo-se na existência de uma tendência de evolução do jornalismo para um jornalismo de mercado e o “infotainment”. Este é o ponto de partida para este Relatório de Estágio, no qual pretendo analisar alguns conteúdos jornalísticos difundidos nos espaços informativos da SIC, onde as celebridades se consubstanciem enquanto enunciado jornalístico; e determinar os fatores que marcam o culto das celebridades na informação do canal. Palavras-Chave: culto das celebridades; infotainment; entretenimento; interesse do público; audiência; serviço público; jornalismo de mercado; jornalismo cultural; cultura popular. Abstract This report is the result of a six months intership at SIC’s general channel news report, five of which integrated in the writting of “Jornal de Sábado”. This work is a reflection based on my observation as an intern, in my view as a putative reporter and analysis of journalistic utterances created by me inserted into the thematic of analysis of celebrity cult. The public’s fragmentation, spread across generalist televison, cable televison and the internet, lead to an increasing concern in journalism to respond to the market’s logic. This reality, built on hybrid concepts of popular culture and cultural journalism, also lead celebrities to establish themselves while journalistic utterance, even in informative programmes known as rigid, formal and tradicionaly dedicated to hard news, such as the main news of a general television. This conjecture together with the visibility logic of celebrities in several areas of expertise, the growing fabrication of celebrities through communication strategies and fusion of icon in art, makes possible for celebrities to establish themselves as cultural products of simbolic value, performing with the media as a high profile object and, at the same time, using the media for self promotion, becoming an object of their own communication strategies. The integration of celebrities in news reports isn’t peacefull amongst communication sciences investigatores. While some authors consider that the inclusion of celebrities in the journalistic utterance ceases the news duty to broadcast content that is considered public service and that allows the citizen to develope a critical sense, others defend the necessity of the individual’s entertainment and the report of these types of news to promote social cohesion. This theoretical and legislative deadlock gives total independence to the admittance of celebrities in the media within the criteria of newsworthiness and editorial freedom. It is imperative to analyse to what extent entertainment and journalism are fusing and if these utterances battle journalistic limits, reflecting on an evolution trend from journalism to a market journalism and “infotainment”. This is the starting point to the internship report, through which I intend to analyse a few journalistic contents broadcasted on SIC’s informative space, where celebrities substantiate as journalistic utterance, and which factors determine the cult of celebrities in the channel’s news report. Keywords: celebrity cult, infotainment, entertainment, public interest, ratings, public service, market journalism, cultural journalism, pop culture. Índice I - Introdução .......................................................................................... 1 II – Caracterização da Instituição de Acolhimento ............................... 4 III – Experiência de Estágio e Desempenho de Funções ...................... 6 IV – A Cultura de Celebridades e a Construção da Notícia 4.1. Ponto Prévio ......................................................................... 13 4.2. Lógicas e Dinâmicas de Visibilidade das Celebridades. .... 13 4.3. A Cultura Popular e o Jornalismo Cultural ......................... 14 4.4. O Poder da Imagem e as Celebridades ................................ 16 4.5. Processo de Construção das Celebridades nos Media ........ 16 4.6. A Problemática do “Fã”. ...................................................... 18 4.7. Papel dos Media: Socialização e Serviço Público .............. 21 4.8. Jornalismo de Mercado ........................................................ 22 4.9. Infotainment e Serviço Público ........................................... 23 V – Reflexão de uma Prática de Estágio ............................................. 26 5.1. Reportagem “Ganhar Dinheiro com os Blogues” ............... 26 5.2. Reportagem “ModaLisboa”. ................................................ 31 5.3. Reportagem “Violetta”......................................................... 35 5.4. A Idolatria no “Primeiro Jornal” ......................................... 36 Conclusão ............................................................................................. 41 Referências Bibliográficas .................................................................. 45 Anexos ................................................................................................. 49 1 I - Introdução O relatório de estágio pretende usufruir da condição de acesso à redação da SIC para estudar a cultura de fãs, o culto das celebridades e o seu papel na linha editorial da sua informação. Numa sociedade de media comerciais, televisão fragmentada e media digitais sôfregos por atualizações de informação a cada segundo, é perentório estudar o papel da cultura das celebridades no espaço informativo televisivo. No presente relatório encontra-se uma caracterização sumária da instituição de acolhimento, com a datação dos principais marcos da SIC, nomeadamente a expansão internacional e no cabo. Segue-se um enquadramento da experiência de estágio e das funções desempenhadas, de acordo com os objetivos a que me propunha responder no findar desta etapa, uma breve passagem pelo trabalho desenvolvido, os constrangimentos passados e o aprendizado desta experiência de seis meses na informação de um canal generalista. O papel da cultura das celebridades nos media compreende conceitos fluídos e sujeitos a várias interpretações de diferentes teóricos, após uma revisão da literatura, estabeleci oito tópicos de enquadramento teórico. Numa primeira etapa defino o conceito de celebridade e estabeleço as lógicas e dinâmicas de visibilidade nos media. Passando pela apropriação das celebridades e dos seus enunciados pela cultura popular e as novas dinâmicas do jornalismo cultural. Sendo imperativo aqui estudar o processo da construção das celebridades nos media, estabelecendo os contextos e as categorias em que surgem nos media tradicionalmente dedicados às hard news. A idolatria pressupõe a existência de “fãs”, cabendo aqui uma análise crítica das ações e dos princípios que definem o “fã” e o modo como são absorvidos e tratados nos enunciados jornalísticos. Analisando também como os próprios ”fãs” se apoderam dos enunciados mediáticos e as relações que se estabelecem através de um veículo comum de pertença. Tendo os media como função a prestação de um serviço público, suportando-me em teóricos das ciências da comunicação, analisei de que modo os media se alheiam ou não destas funções e se estamos perante um “jornalismo de mercado”, onde ocorre uma mutação entre o jornalismo e o entretenimento, o denominado “infotainment”. 8 Os conteúdos que enformam esta peça jornalística são facilmente adaptáveis ao entretenimento, tendo sido alvo de cobertura noticiosa também pelo programa de entretenimento matinal, da SIC, “Queridas Manhãs” e por revistas dedicadas ao social e ao mundo rosa. Vislumbram o esbater das fronteiras entre os enunciados e conteúdos jornalísticos do principal jornal de uma estação generalista, por um lado, e revistas de um segmento mais social e programas de entretenimento, por outro, ao partilharem o mesmo alvo de cobertura noticiosa. No decorrer de reportagens, como a cobertura da “ModaLisboa” e a realização de uma peça sobre a capacidade geradora de receitas dos blogues, percebi, que não existe, de todo, uma necessidade de promoção das celebridades do grupo Impresa. Existe sim um claro impedimento do foro contratual em que celebridades de outros universos participem nas produções do canal concorrente. Aquando da entrevista da apresentadora e Diretora de Conteúdos Não Informativos, da TVI, Cristina Ferreira, no decorrer da “ModaLisboa”, fui aconselhado pelos colegas de redação a solicitar autorização para integrar a entrevista na reportagem. A qual me foi dada de imediato. Contudo, nota-se um claro receio instituído junto da redação em dar destaque a figuras da concorrência. Denotando-se assim a importância geradora de receitas das empresas dos media e uma relutância em publicitar indiretamente figuras e produtos do canal concorrente. Já que o interesse na entrevista era, única e exclusivamente, a descrição dos bastidores do maior evento de moda português. Devo destacar também todos os constrangimentos que tive na realização da reportagem “Ganhar Dinheiro com os Blogues”, por figuras públicas de outros canais de televisão que se recusaram veementemente a participar na peça informativa. Por parte da coordenadora tive total liberdade de contactar os ícones que melhor se enquadravam na problemática a desenvolver, mesmo sendo de canais concorrentes. Contudo, e apesar de vários contactos, quatro figuras públicas, através dos seus agentes, ou pessoalmente, recusaram o convite devido a exigências contratuais. Como já referi, concluí que não existe uma tentativa de incluir, necessariamente, celebridades com vínculo contratual ao grupo Impresa nos jornais, mas somente uma solução e necessidade de responder às exigências contratuais dos canais de televisão e do mercado, dados os constrangimentos impostos. Outra prática comum que observei no decorrer da reportagem, já que implicou grande dedicação, dada a duração de praticamente sete minutos da mesma, foi o 9 chamado “bater à capelinha”: contactos de seis figuras públicas a oferecerem-se para participar na reportagem. Essa iniciativa rapidamente caía por terra, ao saberem que o foco da reportagem era unicamente esclarecer o público de quanto e como ganham dinheiro na blogosfera. Depois de uma semana de agendamento de quatro entrevistas, o receio das figuras públicas em acabar com a ideia idílica que passa ao público no processo de construção e fabricação de celebridades, por parte das indústrias mediáticas, foi tal que recusaram em massa as entrevistas. Tiveram de ser agendadas e marcadas com outros indivíduos mediáticos. Outro modo de operar comum que notei neste universo foi a necessidade das próprias empresas em colocar celebridades como exemplo da realidade a demonstrar ao público. No decorrer da reportagem sobre as “Resoluções de Ano Novo”, relativamente a plásticas e alterações físicas, os Centros e Clínicas Estéticas indicavam apenas e só figuras públicas para dar o testemunho das transformações. Uma forma não só de rentabilizar o próprio investimento nas cirurgias, mas também um modo de cativar e agradar o público. Relativamente à postura do público face a estes conteúdos, se, por um lado, parecem condenar este tipo de opção editorial; por outro, consomem-na de forma entusiasta. Afirmo isto com base na minha experiência no decorrer do estágio. A reportagem intitulada “Ganhar Dinheiro com os Blogues” por mim realizada, esteve, ininterruptamente, seis dias na lista das mais vistas do site da “SIC Notícias”. Reproduzida no Youtube e alvo de inúmeras críticas nas redes sociais. Se, por um lado, eram criticados os protagonistas e a linha de atuação editorial, por outro, era fortemente visualizada e disseminada pelo público nas redes sociais. Retomando ainda à experiência da “ModaLisboa”, devo dizer que tive um pedido imediato da coordenação, o de entrevistar “cromos”. Analogia dada a frequentadores do espetáculo de moda e que se vestem de forma exuberante. Denotando-se aqui a forte tendência para o entretenimento e animação do público. Este apelo recorrente ao entretenimento, mas fortemente contestado na redação, foi constante em peças que se tornavam “chatas” e “entediantes” para o público, apesar de informativas. Existe uma preocupação e exigência de responder às lógicas de mercado e eficácia junto ao público. Optando por peças rápidas, leves e de fácil assimilação. 10 A linguagem dos produtos jornalísticos também foi algo que me despertou a atenção. Apesar da lógica tendência para o registo oral e coloquial das peças, característica inerente ao próprio dispositivo mediático, parece haver uma tendência por optar por termos linguísticos de pouca riqueza lexical. Se essa opção para alguns jornalistas é tida como uma mais-valia, outros, como observei, alheiam-se da obrigação de socializar o público, dotando-o de uma maior capacidade crítica. Desse modo, poderiam enriquecer o debate público com um maior investimento e especialização dos conteúdos, e até mesmo do ponto de vista de incremento do léxico do telespectador. No sentido de procurar clarificar e compreender as lógicas que enformam o culto das celebridades e as vivências do “fã” na adolescência, consubstanciando-se aqui enquanto um público mais vulnerável a este tipo enunciados, acompanhei toda a cobertura dada aos concertos da personagem juvenil da Disney ”Violetta”. Na tentativa de compreender ainda melhor as lógicas de mediação que se estabelecem entre o texto jornalístico e o “fã”, proponho-me também analisar as reações dos fãs face à reportagem já enunciada “Ganhar Dinheiro com os Blogues”. Para uma análise ainda mais completa e minuciosa, observei e anotei o comportamento das agências de comunicação no decurso das reportagens para tentarem implementar e difundir, de forma direta ou indireta, produtos ou figuras públicas. Procurei também ver de que modo a própria seleção das imagens se protegia de uma associação direta à publireportagem, como no caso da reportagem ao livro do “Clube do Livro SIC”, “Por trás das Grades”. Do ponto de vista metodológico tive total liberdade e autonomia para trabalhar de acordo com a minha consciência enquanto ser humano e profissional. Era incentivada uma postura de autonomia com responsabilidade aos estagiários. Com liberdade e tempo para aprender e errar. Testemunho um acompanhamento e apoio quase familiar a todos os estagiários por parte da equipa onde estavam integrados. Tenho ainda a realçar todo o acompanhamento que tive por parte da coordenadora e de toda a equipa do “Jornal de Sábado” em apoiar o meu processo de aprendizagem e o meu crescimento pessoal e profissional. Auxiliaram-me em todos os processos de construção de uma notícia, desde a pesquisa, aos contactos, à redação do enunciado e à seleção das imagens. 11 Esse acompanhamento teve sempre a preocupação de não adulterar a minha visão jornalística dos factos e a opção editorial dos mesmos. Mesmo na correção dos textos, notava-se no jornalista sénior uma clara preocupação em nunca se perder a identidade do redator, questionando sempre se concordava ou não com a alteração. No decorrer do processo de edição tinha total autonomia, sempre com o conselho do editor, para escolher quais as imagens que melhor se enquadravam no meu enunciado jornalístico. Editores, jornalistas, produtores e coordenação estiveram sempre disponíveis para apoiar e ajudar em todas as dificuldades inerentes a um processo de aprendizagem. Durante as reuniões de conteúdos era-me solicitada a opinião e a participação ativa com a sugestão de temas, e até mesmo a minha visão como contributo para as peças dos jornalistas. Um verdadeiro trabalho de equipa, sustentado no diálogo, na troca de ideias e na cooperação entre os ativos da editoria. Foram-me dadas grandes oportunidades como entrevistar figuras do universo político ao futebolístico, em peças de grande dimensão, a ultrapassar os quatro e os seis minutos. Vieram no seguimento de peças importantes, como as mudanças dos horários dos bares noturnos no Cais do Sodré, após a realização de uma grande reportagem sobre essa temática e que desencadeou a mudança da legislação junto dessas zonas de divertimento noturno. Fui apoiado para crescer enquanto jornalista e pessoa. Orientado para enriquecer e crescer na carreira a que me propunha desempenhar, e respeitado enquanto ser humano e profissional. Num crescendo de oportunidades cada vez com maior dimensão, no rigor e na visibilidade. Destaco o apoio que tive na aproximação a celebridades e ativos do grupo Impresa, para discutir e conversar sobre o relatório de estágio e concretização de entrevistas. Devo dizer que me foram possibilitadas várias entrevistas e conversações privadas muito enriquecedoras para perceber todo o universo subjacente à construção das celebridades e à produção de notícias de celebridades nos media. Enalteço ainda os meios que foram postos ao meu dispor, por parte da coordenadora e da equipa, no sentido de eu evoluir enquanto profissional. Tive acesso a uma professora de voz, de modo a ganhar ferramentas para futuramente ter capacidades e meios para sonorizar as peças jornalísticas. Acompanharam-me no treino diário de voz 12 com jornalistas, que assumiram o papel de professores nesta tarefa de me capacitar para desempenhar a profissão para a qual me propus e estudei. 13 IV - A Cultura de Celebridades e a Construção da Notícia de Celebridades 4.1. Ponto Prévio O culto das celebridades cada vez mais se consubstancia enquanto matéria noticiosa. Há uma mutação da figura da celebridade e dos produtos culturais, vislumbrando-se uma fusão entre o ícone e a arte. O próprio conceito de celebridade sofreu um processo de hibridação e de afastamento do meio artístico. A celebridade agora é a figura com visibilidade pública. E essa publicidade pode ser dada através do seu trabalho ou de lógicas da vida privada que, ganham, cada vez mais, estatuto de produto cultural de valor simbólico. A fusão da informação e do entretenimento, no denominado “infotainment” e a necessidade de lucro das empresas detentoras dos media, aliada à crescente profusão das estratégias de comunicação, no sentido a que a investigadora Ana Jorge (2012) chamou de processo de “celebrificação” na criação de figuras dos mais variados segmentos sociais e políticos, leva à apropriação deste tipo de enunciados nos media tradicionais. Neste sentido, torna-se imperativo estudar o processo do culto das celebridades na construção das notícias e o espaço que lhe é dado nos meios convencionais. Assim, suportando-me em teóricos da área, pretendo fazer uma revisão da literatura existente em redor desta temática, esclarecendo conceitos e delimitando-os, de modo a operacionalizar a análise e a extração de conclusões. 4.2. Lógicas e Dinâmicas de Visibilidade das Celebridades nos Media Para melhor responder à questão de partida, parto do conceito de celebridade delineado por Hartley (2004: 39), segundo o qual: as celebridades são entidades admiráveis pela sua identidade nos media, podendo ser procedentes das mais variadas áreas, a música, desporto, moda, crime, cinema, televisão e rádio. Para o autor, a área de atuação das próprias celebridades transporta uma série de significados que lhe são próprios, mas cada vez mais ocorre uma acumulação na atuação das celebridades em diferentes áreas. As celebridades são encaradas enquanto negócio, rentabilizando a sua imagem associando-se a várias áreas de atuação, como a perfumaria, moda, blogues, livros, entre outros segmentos (Hartley, 2004: 39). A intertextualidade das celebridades foi em grande parte beneficiada pelos media no processo a que Ana Jorge (2012) chamou de ‘celebrificação’, verificando-se uma articulação entre a vida pública e privada (Gamson, 1994; Couldry, 2003), 14 ocorrendo muitas vezes a sua sobreposição. Assim, os media acabam por apropriar-se do poder de legitimação das celebridades, traduzindo-se em verdadeiros ‘cães de guarda’ da sua visibilidade pública. Por sua vez, os critérios que legitimam a visibilidade dada a diferentes celebridades variam de acordo com campo em que as mesmas atuam. Logo, pode aferir-se que ocorrendo uma apropriação de diferentes linhas de atuação no processo de ‘celebrificação’, torna-se cada vez mais complexo definir essas lógicas de reconhecimento, ficando a cargo das escolhas editoriais dos media e das suas intenções editoriais e comerciais. As lógicas e as dinâmicas de visibilidade das celebridades nos media são classificadas por John Fiske (cit. por Evans e Hesmondhalgh, 2005), de uma forma operativa e mecânica. Primeiramente, Fiske atribui uma autonomia à celebridade na produção dos enunciados que vão circular nos media, alicerçados nas suas linhas de atuação públicas, tais como, o cinema, a moda, a música e os media. Os próprios media cada vez mais funcionam numa lógica de hibridação, sendo simultaneamente objeto de atuação por parte dessas celebridades e, posteriormente, sendo elas mesmas alvo de cobertura mediática, tornando-se objeto dos media. Numa lógica de visibilidade sustentada numa inexistência de textos de atuação, ocorrendo uma profissionalização da arte do aparecer e do voyeurismo. Assim, de acordo com Fiske (cit. por Evans e Hesmondhalgh, 2005), os media tradicionais seguem as performances de atuação das celebridades, dando visibilidade aos seus textos, exercendo uma promoção que, por sua vez, vai desencadear na consagração da celebridade sob as diretrizes do que foi delineado primeiramente pela indústria, desde as revistas, às indústrias cinematográficas. Não deixando de lado o papel dos media na apropriação do papel de produtores de textos de atuação nesta indústria, recorrendo a paparazzi, tabloides, reality shows e as denominadas revistas cor-de-rosa. Os media tradicionais passam o papel de ação para as audiências, os “fãs” reproduzem, comentam e fazem circular os textos jornalísticos. Esta linha de atuação foi facilitada pelas redes sociais que permitiram a acumulação de papéis, alicerçados no conceito a que Toffler denominou de ‘prosumer’, atuando em simultâneo enquanto produtores e consumidores numa lógica interativa alimentada pela web 2.0. 4.3. Cultura Popular e Jornalismo Cultural 15 O crescimento do culto das celebridades nos media internacionais, prende-se, segundo Dora Santos Silva (2009: 93), com a “diversidade de práticas e costumes da cultura popular, originando uma cultura a que Garcia Canclini intitulou de híbrida”. Neste sentindo, o jornalismo cultural abarcou os produtos da cultura de massas, e assim, começou a crescer o recurso às celebridades enquanto conteúdo dos media mais tradicionais. O culto das celebridades é simultaneamente constituinte da (e constituído pela) própria sociedade e as práticas culturais que a enformam. Apesar de sujeita a várias interpretações e para uma melhor operacionalização da pesquisa, parto da premissa de jornalismo cultural corroborada por Riviera (2003: 19), citado por Silva (2009: 93), segundo a qual seria: Uma zona muito complexa e heterogénea de meios, géneros e produtos que abordam com objetivos criativos, reprodutivos e informativos os terrenos das belas-artes, ‘belasletras’, as correntes de pensamento, as ciências sociais e humanas, a chamada cultura popular e muitos outros aspetos que têm a ver com produção, circulação e consumo de bens simbólicos, sem importar a sua origem e o seu destino. Este conceito híbrido de jornalismo cultural consubstancia as celebridades enquanto produtos mediáticos. E esta realidade em profunda profusão, aliada ao despoletar da web 2.0 e a emergência das redes sociais e dos blogues, traduziu-se numa desfragmentação das audiências, levou os canais de televisão, nomeadamente as privadas, a investir nas celebridades enquanto bens simbólicos e produto cultural. Foram assim redefinidas as “diretrizes editoriais e a ampliação da definição de jornalismo cultural, já que a diversidade de conteúdos culturais presentes em diversos sites, com milhares de visitantes, despertou a atenção dos editores para darem algo novo” (Silva, 2009: 96). Um dado relevante avançado pela autora é o impacto da música e do cinema nos media portugueses. Para Silva (2009: 98) este impacto deve-se ao poder de marketing das indústrias cinematográficas e discográficas, responsáveis pela criação das celebridades e da sua construção enquanto produtos culturais de valor simbólico, através de estratégias de comunicação e divulgação muito eficazes. A pressão da agenda e a difusão de atividades culturais difundidas pelas indústrias culturais também cria uma necessidade da profusão deste tipo de conteúdos nos media tidos como convencionais e tradicionais, mais dedicados às hard news. A autora chega mesmo a apontar dados reveladores desta tendência: A título de exemplo, à data do estudo, a indústria cinematográfica ocupava 42% do espaço dedicado à cultura pelo Diário de Notícias; no Público, constituía um espaço 16 semelhante (embora fora das páginas culturais). A indústria discográfica ocupava 26% do espaço cultural do DN e 50% do espaço dedicado aos artigos culturais pelo Público (Silva, 2009: 98) A investigadora alerta ainda para o conceito cada vez mais hibrido de celebridade e produto mediático. As fronteiras entre as artes e os ícones que as enformam são cada vez mais ténues. E as estratégias de comunicação das indústrias culturais tendem a criar cada vez mais um atributo de espetacular em redor das celebridades (Silva, 2009: 99). Imiscuindo a celebridade na própria arte, transformando a celebridade em produto e não a arte como tal. O foco dos media internacionais e nacionais está em profunda mutação e é cada vez mais difícil fazer uma distinção entre o que se consubstancia enquanto área cultural ou valoração da celebridade. Assim, cresce nos media a proliferação de celebridades, porque é cada vez mais difícil separar a arte do ícone. A crítica está a perder espaço para um jornalismo de divulgação (Silva, 2009: 100). 4.4. O Poder da Imagem e as Celebridades Ana Santiago (2013: 3), citando Martins (2011a: 77), afirma que no tempo presente “a imagem constitui a própria forma da nossa cultura”. A hegemonia da imagem marca o advento da web 2.0 e dos meios de comunicação. A autora defende que a imagem perdeu o valor enquanto apontamento estético ou ilustrativo numa notícia, para se consubstanciar enquanto produto cultural e informativo autónomo. Apoiando-se na visão do autor Casasús (1979: 58-60) diz que a imagem se constituiu enquanto “elemento informativo autónomo, fundamental e indispensável, que dá ao público a versão visual dos acontecimentos em regime de difusão simultânea para todo o mundo” (Santiago, 2013: 4). A autora, sustentando-se na tese de Torres (2011: 84), defende que esta cultura da imagem e a sua crescente mediatização leva à mutação das práticas culturais e à acentuação do interesse pelo ícone, desencadeando numa alteração das ideologias pelo culto das celebridades (Santiago, 2013: 4, citando. Alexandre, 2001: 121). A autora adianta como marco para o início desta tendência a primeira metade do século XX, onde o cinema através das estratégias de comunicação das indústrias cinematográficas “cria as “estrelas” e difunde a sua imagem em todo o mundo como o primeiro grande produto cultural” (Santiago, 2013: 4). 4.5. Processo de Construção das Celebridades nos Media 17 O crescimento das indústrias culturais estende-se ao mundo da música, da televisão e, consequentemente, à política, moda, desporto e até mesmo à web. Grande parte desse crescimento deve-se à apropriação desses produtos pelos media convencionais, levando à sua disseminação e proliferação junto das massas. Assim, “atualmente, já nada escapa ao sistema do vedetariado. As estrelas abundam, sendo a sua imagem difundida e planetarizada pelos jornais, a televisão e a rede da web” (Lipovetsky e Serroy, 2010: 92-101, citados por Santiago, 2013: 4). Para Holllander, citado por Santiago (2013: 15), esta imediaticidade em se tornar célebre deve-se porque “são exemplares em auto-promoção e conseguem obter uma sustentada atenção dos media” (Hollander, 2011: 65). Os media são simultaneamente produtores de celebridades e veículos de promoção das mesmas. A criação de um ícone envolve estratégias de comunicação precisas que se consubstanciam enquanto fabricação cultural. E nesse processo está subjacente a representação de um indivíduo por intermediários culturais, ou seja, por agentes, publicitários, fotógrafos, promotores e outros profissionais cujo trabalho passa pela apresentação pública de pessoas que possam merecer uma atenção duradoura do público (em Portugal, temos o caso de Bibá Pitta e Cinha Jardim) (Santiago, 2013: 5). Eduardo Cintra Torres (2011: 87-89) destaca três tipologias de celebridades difundidas no meio televisivo. A primeira tipologia engloba as celebridades que têm notoriedade e visibilidade públicas através da sua profissão e do trabalho que desenvolvem enquanto agentes culturais, isto é, atores, músicos, a destacar. A segunda tipologia desencadeia-se e ocorre através do despoletar de “celebridades ou famosos”, cuja “presença da individualidade (corpo, emoções, vida privada, roupas, etc.) sobrepõe-se ou segue a par com a sua vida profissional”. Ocorre aqui uma profissionalização da vida privada e sua exploração e difusão enquanto produto mediático de valor simbólico, consubstanciando-se enquanto profissionalização da figura da celebridade. A terceira tipologia prende-se e é denominada por Eduardo Cintra Torres por “conhecidos”, pessoas anónimas e iguais ao grande público, que se tornam célebres pela sua presença no ecrã, através de programas televisivos como o daytime televisivo e os reality shows. Assim, as celebridades tornam-se “um conteúdo humano, apelativo às audiências, a baixo custo” (Jorge, 2011: 634, citada por Santigo, 2013: 7). Este fenómeno mediático fomentou a proliferação e a criação de uma imprensa especializada e a profissionalização de figuras que não existiam, como os paparazzi. 24 No entanto, o público tem outra visão sobre o tema. Ao consumir um ou outro tipo de conteúdo, as pessoas buscam sempre a distração. O consumo de enunciados mediáticos é “feito no tempo livre”. Assim, para o público e recetor final da mensagem, “o entretenimento é simplesmente aquilo que entretém, vale dizer, a ausência de tédio”. A separação de informação e entretenimento “não tem sentido para o recetor, pois o oposto da mensagem de entretenimento veiculada pela mídia não é o conhecimento informativo, mas o conteúdo que não lhes agrada, as matérias enfadonhas, que não atraem a atenção” (Dejavite, 2007: 7). Dejavite (2007: 8-9) contesta a caracterização do público amorfo de Habermas. E defende que o público tem a clara noção da distinção entre a informação e o entretenimento, mas opta, deliberadamente, pela segunda opção com vista à interação social e ao lazer. Segundo Maffesoli (2003: 15), citado por Dejavite (2007: 10): no fundo o leitor interessa-se pelo que lhe diz respeito. [...] Por mais que isso horrorize os críticos politicamente corretos, as pessoas não querem só informação na mídia, mas também e fundamentalmente ver-se, ouvir-se, participar, contar o próprio cotidiano para si mesmas e para aqueles com quem convivem. A informação serve de cimento social; mais do que saber se Bush vai ou não invadir o Iraque, um leitor, um ouvinte, um telespectador distante da área desse conflito quer saber, com frequência, de coisas muito menos sérias, mas não menos importantes para a coesão social. Os jornalistas gostam de imaginar o contrário e de ver-se como protagonistas de grandes aventuras. O leitor está louco para saber o final da novela ou como foi tal festa num clube da moda (Dejavite, 2007: 10). Um estudo realizada pelo instituto Ipsos/Marplan, citado por Dejavite (2007: 10), mostra que numa amostra de 53.920 pessoas, em 12 cidades brasileiras, de diferentes géneros e estratos socioeconómicos, há uma clara predisposição do público para assuntos ligados ao entretenimento, nomeadamente a vida das celebridades e personalidades famosas. Exigindo mesmo este tipo de conteúdos nas publicações. Face a este impasse, torna-se cada vez mais fundamental para os media, ávidos por receitas financeiras, aderirem a este tipo de conteúdos. A autora defende ainda que a notícia light é um conteúdo legítimo, pois é solicitado pelo recetor que quer se inteirar e entreter ao consumir as informações jornalísticas que lhe interessam, sem contudo, deixar de adquirir conhecimentos necessários à sua sobrevivência (Dejavite, 2007: 12) A pergunta que é imperativo colocar é: Até que ponto o interesse do público se sobrepõe ao serviço público? Apesar de amplamente confundidos e imiscuídos, o conceito serviço público e interesse do público são díspares. Afinal, nem tudo o que é de interesse do público presta um real serviço público. E com o crescente desenvolvimento dos media digitais e da televisão por cabo, as televisões generalistas tendem, cada vez mais, a confundir estes conceitos e a torná-los enquanto sinónimos. 25 Ora vejamos, o serviço público engloba a prestação e difusão de serviços para o bem de uma comunidade. Informar os telespectadores de forma independente, promover o exercício crítico e reflexivo, e incitar o debate público. O interesse do público ou serviço ao público engloba, também, tudo o que visa satisfazer os interesses e gostos de uma comunidade. Para Felisbela Lopes (1999: 5-6) o serviço público e o interesse do público deveriam unir-se através de uma “programação diversificada nos planos regional, político e cultural”. Tendo os canais de televisão generalistas, uma obrigação maior a televisão de serviço público, o dever de “de refletir nas suas emissões realidades multiformes, não apenas aquelas que chegam às maiorias, mas também aquelas que se restringem a grupos minoritários.” Contudo, defende que as televisões privadas generalistas transformaram-se em “mercadoria cuja sobrevivência estará irremediavelmente dependente da audiência” (Lopes, 1999: 4). Alguns autores, como Herlander Elias (2011), encaravam com otimismo o despoletar da televisão por cabo e a fragmentação do público consoante os seus gostos de interesses. Já a investigadora Felisbela Lopes (1999: 4) alerta que a passagem da televisão analógica para a digital pode trazer, pelo contrário, uma homogeneização dos conteúdos dos canais por cabo, tal como se verificou nos canais generalistas privados, adotando “como política prioritária, a promoção do interesse público daquilo que divulgam”. Vai ainda mais longe ao afirmar a obrigatoriedade de prestar um serviço ao público pode ser substituída por lógicas de rentabilidade. Se a rentabilidade é feita à custa dos utilizadores dos serviços, há que saber atraí-los e, se possível, em grande número. Lentamente erguer-se-á uma lógica de trabalho que terá forçosamente de ir ao encontro do interesse do público. Por aqui podemos já encontrar algumas pistas legitimadoras do serviço público de televisão (Lopes, 1999: 4). É inequívoco que todos os media têm de ter fins empresariais e obter benefícios que visem o lucro. Contudo, é também claro que têm que potenciar o bom funcionamento democrático, como fim político geral; devem estar ao serviço da liberdade de expressão e do direito à informação como fins jurídicos constitucionais; e têm que procurar o aperfeiçoamento técnico, contributo para uma melhor e mais rápida informação. Todavia estamos numa fase de impasse, em que existe um conflito entre fins. Por um lado, os media devem ter por objetivo contribuir para a formação geral e ético-moral do público. Por outro, têm satisfazer os desejos do público e responder às suas apetências. 26 V – Reflexão de uma Prática de Estágio Perante o dilema de prestação de serviço público e da captação de lucro, as celebridades tornam-se uma mercadoria atrativa para despertar as audiências. Traduzindo-se num modo fácil e rápido de captação de público, de forma a conseguir lucros com a publicidade. Logo torna-se imperativo analisar até que ponto as celebridades têm lugar no produto que é considerado unanimemente como uma prestação de serviço público: os espaços noticiosos da editoria “Jornal de Sábado”. Assim, pretendo analisar criticamente seis peças jornalísticas transmitidas nos período noticiosos da SIC generalista das 13 e das 20 horas, de acordo com a tabela 1, em anexo. Nomeadamente as reportagens difundidas no período informativo das 20 horas, maioritariamente ao sábado, da cobertura da ModaLisboa; “Ganhar Dinheiro Com os Blogues”; e a divulgação do concerto da personagem juvenil da Disney “Violetta”. E as restantes difundidas no jornal das 13 horas, nomeadamente, as reportagens “Aulas da Blaya”; “Resoluções de Ano Novo”; e a divulgação do livro do “Clube do Livro SIC”, “Por Trás das Grades”. A partir do material noticioso produzido, tendo em conta a pesquisa efetuada em termos de enquadramento teórico e revisão literária, apresentam-se os resultados, devidamente analisados de acordo com os objetivos propostos e a pergunta de partida. Devo desde já esclarecer, que a minha análise está comprometida pela falta de distanciamento em relação ao material noticioso em análise. Os enunciados jornalísticos a analisar foram por mim realizados, conduzidos e delineados, sempre com um pressuposto de serviço público no quesito de informação e de entretenimento com base à sua interação social. Relativamente à reportagem da cobertura da digressão da cantora “Violetta”, a única em análise que não é da minha autoria, acompanhei todo o processo de realização da mesma. Ficam aqui claros todos os constrangimentos e condicionantes de uma análise independente do material noticioso em destaque, devido à minha observação participante e autoria nos enunciados jornalísticos. 5.1. Reportagem “Ganhar Dinheiro com os Blogues” A reportagem “Ganhar Dinheiro com os Blogues”, com a duração de 6 minutos e 24 segundos, foi transmitida pelas 20 horas e 37 minutos, no dia 3 de abril de 2015. Apesar da peça jornalística ter sido difundida a uma sexta-feira de Páscoa, os conteúdos do jornal foram produzidos pela coordenação do “Jornal de Sábado”. A reportagem traz 27 o caso de três figuras públicas: Cláudio Ramos, Vanessa Martins e Ana Gomes que graças à visibilidade na blogosfera se tornaram atrativas para as marcas e conseguem auferir rendimentos da sua função enquanto bloggers. Esta matéria noticiosa além de mostrar uma realidade cada vez mais comum nas vivências da internet, traz também um estereótipo de celebridade que se enquadra na visão de Hartley (2004: 39). A reportagem mostra-nos figuras com alguma notoriedade pública, procedentes da televisão, moda e da web, e que através do alargamento das áreas de atuação das próprias celebridades, nomeadamente no caso da criação de um blogue, transportaram novos significados que as estabeleceram como produtos culturais de valor simbólico em vários outros segmentos. A ponte entre o privado e o público é cada vez mais ténue e de difícil separação. Os casos aqui expostos são um exemplo flagrante do conceito cada vez mais híbrido de celebridade. Por um lado, figuras públicas do universo da moda e da televisão, como o Cláudio Ramos e a Vanessa Martins que ganharam visibilidade graças à sua profissão, mas acumularam a sua área de atuação artística com a criação de um blogue. Por outro, Ana Gomes, uma figura anónima, ganhou notoriedade e espaço na rádio e nas revistas através de um processo de “celebrificação” (Jorge, 2012), suportado num diário virtual que a fabricou enquanto figura mediática. Se, por um lado, as lógicas de construção da notoriedade pública destas três figuras são díspares, por outro, as lógicas de hibridação do termo celebridade partilham do mesmo pressuposto, lógicas de visibilidade atribuídas à esfera privada e a sua constante mutação em esfera pública. A legitimação destas novas celebridades é atribuída aos media, detentores do poder de lhes dar ou não visibilidade. E sendo cada vez mais difícil aferir as lógicas de reconhecimento, cabe aos media, através da sua linha editorial e intenções editoriais e comerciais, a sua determinação. Aqui é possível analisar as lógicas e as dinâmicas de visibilidade das celebridades nos media classificadas por John Fiske (cit. por Evans e Hesmondhalgh, 2005). Há uma clara autonomia da celebridade na produção dos enunciados que vão circular nos media, alicerçados nas suas linhas de atuação públicas, sustentados, neste caso, na esfera privada. Notando-se que cada vez mais os próprios media funcionam numa lógica de hibridação, sendo simultaneamente objeto de atuação por parte dessas 28 celebridades e sendo elas mesmas alvo de cobertura mediática, tornando-se objeto dos media. A investigadora Dora Santos Silva admite que este tipo de enunciados tem um grande impacto nos media portugueses (Silva, 2009: 98). O jornal que difundiu esta reportagem foi líder de audiências no seu horário, com um share de 26,6%. Foi o terceiro programa mais visto da televisão portuguesa e o segundo mais visto do canal, segundos dados da empresa auditora de audiências televisivas GFK. Sucesso esse revelado também através da internet, onde permaneceu, interruptamente, durante seis dias no top do oito mais vistos do sítio da internet da ‘SIC Notícias’. O atributo do espetacular dado às celebridades levou a que se torne cada vez mais difícil separar a arte do ícone. E estando em análise o papel captador de capital financeiro da blogosfera, torna-se ainda mais difícil estabelecer esta distinção. Além de podermos criticamente analisar até que ponto não estamos perante um jornalismo de divulgação (Silva, 2009: 100), e os próprios limites da informação e da publireportagem. A meu ver tal situação não se pode pôr em causa, porque é de interesse público informar o telespectador dos bastidores desta realidade em plena expansão, onde são muitas vezes surpreendidos com publicidade subentendida e alvos para promoção de lucro para fins particulares através de um clique. Para não falar de que não ocorreu nenhuma imposição para a inclusão de celebridades do grupo Impresa. Muito pelo contrário, todos os contactos foram feitos a celebridades do canal concorrente, a TVI, devido a uma maior projeção na blogosfera, mas foram amplamente recusados pelas exigências de foro contratual. Dado a este impasse e recusa, regista-se uma necessidade em apelar às celebridades contratadas do grupo que se está inserido e a que pertence o canal televisivo. A publicidade dada a estas figuras foi uma consequência indireta da necessidade de recorrer ao exemplo para melhor criar o enunciado jornalístico. Existindo uma preocupação em não divulgar os links dos blogues e em fugir às imagens dos próprios sítios da internet. Ilustrando as figuras nos seus universos imagéticos que lhes são associados, como estúdios de rádio e de televisão, e uma produção de moda. Assim, posso afiançar, que ocorreu nesta reportagem uma fusão das necessidades de serviço público e de serviço ao público. Por um lado, prestou serviço público ao telespectador, informando-o dos meandros da publicidade na blogosfera e como pode ser usado para capitalizar o lucro das marcas e dos detentores de blogues. 29 Por outro, correspondeu às necessidades de alimentar o interesse do público e de captar rentabilidade financeira através das audiências. Outa preocupação no decorrer da peça e que vai de encontro ao que a investigadora Ana Santiago (2013: 3), citando Martins (2011a: 77), afirma, é que no tempo presente “a imagem constitui a própria forma da nossa cultura”. A hegemonia da imagem é de tal modo importante e se quer atrativa que foi alvo de várias conversas junto da coordenação, sempre com o intuito de fugir à tradicional imagem de trabalho numa secretária e ao computador. Denotando-se aqui a tese da autora, segundo a qual, a imagem perdeu o valor enquanto apontamento estético ou ilustrativo numa notícia, para se consubstanciar enquanto produto cultural e informativo autónomo (Santiago, 2013: 4). Esta reportagem é um exemplo cabal do poder das indústrias da comunicação na criação destas celebridades. Numa fase inicial, foram marcadas quatro entrevistas com outras figuras mediáticas do universo da web, as quais foram amplamente recusadas, por considerarem que chocavam com as estratégias de comunicação por elas preconizadas, nomeadamente o público tomar conhecimento que ser blogger é uma atividade remunerada. Enquanto isso, recebi seis telefonemas de figuras públicas a autoproporem-se para serem incluídas na reportagem, o que mostra o papel defendido por Holllander (2011: 65), citado por Santiago (2013: 15), da importância dos media em lhes dar atenção e também do poder dos mesmos em tornar a sua imagem “planetarizada” (Lipovetsky e Serroy, 2010: 92-101, citados por Santiago, 2013: 4). Neste enunciado jornalístico temos as três tipologias de celebridade enfatizadas por Eduardo Cintra Torres (2011: 87-89). A primeira compreende celebridades como Vanessa Martins e Cládio Ramos, figuras que têm notoriedade e visibilidade públicas através da sua profissão e do trabalho que desenvolvem enquanto agentes culturais na moda e na televisão. A segunda tipologia mostra o quanto as áreas de atuação das celebridades estão espalhadas por vários segmentos e o quanto é difícil estabelecer tipologias quanto à sua definição, pois temos no caso do Cláudio Ramos e da Vanessa Martins uma sobreposição ou caminho lado a lado da vida profissional com a pessoal, através do blogue e das próprias revistas da especialidade. Ocorrendo aqui uma profissionalização da vida privada e sua exploração e difusão enquanto produto mediático de valor simbólico, consubstanciando-se enquanto profissionalização da figura da celebridade. A terceira tipologia denominada por “conhecidos”, pessoas 30 anónimas e iguais ao grande público, que se tornam célebres pela sua presença no ecrã, ou neste caso, através da web, como o exemplo da blogger aqui apresentada Ana Gomes. O recurso às celebridades, neste caso, deve-se, em parte, à sua capacidade de despertar a atenção do público, mas também por se consubstanciarem como um elemento familiar para o telespectador. Ao escolhermos bloggers anónimos perder-se-ia este poder de identificação e de emoção, que, segundo Conboy (2011: 130), citado por Santiago (2013: 7), é uma característica das próprias celebridades, pois traz um grande potencial emotivo para os media. A figura do “fã” aqui é de suma importância avaliar, pois a forma como interagiu e se apropriou do enunciado jornalístico denota as suas formas de atuação. Para Thompson (1999: 223), as relações de emotividade e racionalidade podem-se relacionar entre si e a própria emoção se pode interligar com enunciados culturais mais objetivos e racionais. A forma como os “fãs” se apropriaram deste enunciado é ilustradora do carater emotivo e racional que enforma as práticas comportamentais que se estabelecem enquanto “fãs”. Por um lado, tivemos o comportamento padrão atribuído ao “fã histérico”, um conceito dado por Ana Jorge (2012: 41), e que se define por caracterizações das manifestações dos fãs, nos media, na ordem do conflituoso e do espetacular. Em consideração, o modo como Cláudio Ramos definiu os “fãs” e as suas críticas enquanto “invejosos” e outros termos pejorativos, na sua declaração pública às reações do público face à reportagem no seu blogue, consubstanciado aqui enquanto media secundário. A também caracterização do “fã” como captador de relações sociais defendida por Thompson (1999: 231), mostra um papel ativo dos indivíduos na apropriação dos produtos vinculados pelos media e na forma como os incorporam no quotidiano. Assim, apesar de vários telespectadores acederem através dos media a uma experiência comum, a forma como a apropriam segue as lógicas dos contextos de vida. Neste sentido, se para muitos foi motivo para o achincalhamento nas redes sociais, para outros, com vivências sociais e culturais díspares -, como o editor da revista ‘Sábado’ e autor do blogue ‘O Arrumadinho’-, Ricardo Martins Pereira, serviu como mote para uma reflexão e discussão sobre a blogosfera. Este comportamento crítico mostra, por sua vez, a qualidade do “fã” numa perspetiva construtivista de Lyn Thomas (2002: 8), notório da importância da situação social e cultural, na qual engloba quesitos como o género, a 31 ‘raça’, a etnicidade, a classe e a sexualidade, que têm um papel crucial na interação dos indivíduos na absorção dos textos de atuação das celebridades. Ana Jorge (2012: 294-296) mostra, através da sua investigação, a possibilidade de determinados indicadores relativos ao género, idade e estrato social possibilitarem uma menor impermeabilidade. A autora conclui que nos mais jovens há uma clara preponderância do culto das celebridades nas suas vidas. Apesar dos componentes sociais e culturais que Lyn Thomas estabelece como essenciais para mediar os efeitos da idolatria nos jovens, é importante reforçar também que o culto das celebridades funciona como base de entendimento comum nos mais jovens, estabelecendo-se ou reforçando-se a partir daí contatos e amizades. A tese autora Ana Jorge (2012: 271-273) de que as lógicas do culto das celebridades são impostas pelos pares, vislumbra-se nas redes de diálogo que se estabeleceram através desta reportagem, como a visível, a título de exemplo, no blogue juvenil “Lucky 13”, onde vários jovens debateram criticamente a reportagem numa zona de comentários que se estabeleceu como uma espécie de fórum. 5.2. Reportagem “ModaLisboa” A reportagem da minha autoria sobre a “ModaLisboa”, transmitida no “Jornal da Noite”, de sábado, do dia 14 de março de 2015, pelas 20 horas e 39 minutos, com a duração de 3 minutos e 47 segundos, acompanha o processo de criação da conceção da maquilhagem para um desfile do Dino Alves no atelier do estilista durante a semana, os bastidores do desfile, o desfile em si, um olhar sobre a plateia e as tendências de maquilhagem e roupas para a primavera/verão. Segundo dados da medidora de audiências GFK e difundidos pelo blogue da especialidade “A Televisão”, o diário informativo foi líder de audiências no seu segmento, com 27,5% de share e 1.206.500 espetadores. Traduzindo-se no segundo programa mais visto do dia, entre a televisão por cabo e a televisão generalista. Segundo as lógicas e as dinâmicas de visibilidade das celebridades nos media classificadas por John Fiske (cit. por Evans e Hesmondhalgh, 2005), o facto do convite para a realização da peça ter sido endereçado pela marca de maquilhagem detentora de uma cadeia de lojas internacionais “Sephora” e patrocinadora do evento “ModaLisboa”, põe em causa a autonomia da produção do enunciado jornalístico. Afinal, a criação do enunciado partiu da própria marca, através do convite endereçado à coordenação, tal como a própria produção da reportagem e a marcação das entrevistas junto do atelier do 32 estilista Dino Alves e da responsável pela maquilhagem da “ModaLisboa”, Antónia Rosa. A forma como a produção do enunciado foi realizada enquadra-se na linha de atuação dos próprios media, que cada vez mais dão espaço a difusão de desfiles e das tendências da moda. Notando-se aqui a lógica de hibridação dos próprios media, o “Jornal da Noite” foi, simultaneamente, objeto de atuação por parte da marca de cosméticos e das próprias celebridades e posteriormente, sendo a marca e as figuras públicas alvo de cobertura mediática, tornou-se objeto dos media. A reportagem em análise pode-se inserir no conceito de jornalismo cultural corroborada por Riviera (2003: 19), citado por Silva (2009: 93), no que concerne à “cultura popular” e à “produção, circulação e consumo de bens simbólicos, sem importar a sua origem e o seu destino”. O conceito cada vez mais hibrido de celebridade estabelecida como produto mediático é visível nesta reportagem na forma como as marcas estão impregnadas no sistema mediático e nos próprios media e em como é difícil escapar às suas amarras. Para além de, como já vimos, o evento “ModaLisboa” ser patrocinado pela marca “Sephora”, o desfile do Dino Alves era patrocinado pela marca de gelados “Magnum” e a presença de uma das entrevistadas na reportagem, a apresentadora Cristina Ferreira, enquanto embaixadora da própria marca. Mostrando o quanto as fronteiras entre as artes, as marcas e os ícones são cada vez mais ténues. E as estratégias de comunicação das indústrias culturais tendem a criar cada vez mais um atributo de espetacular em redor das celebridades (Silva, 2009: 99). Juntando a celebridade na própria arte, a arte na própria marca, transformando a celebridade num produto com alto valor simbólico e comercial. O foco mediático dos media nacionais está em profunda mutação e é cada vez mais difícil fazer uma distinção entre o que se consubstancia enquanto área cultural, valoração da celebridade e até mesmo publireportagem. Assim, cresce nos media a proliferação das celebridades e das marcas, porque é cada vez mais difícil separar a arte do ícone. A crítica está a perder espaço para um jornalismo de divulgação (Silva, 2009: 100). E se por um lado, se podem questionar os limites do jornalismo, ao promover uma marca divulgando as suas tendências de maquilhagem, logótipo da marca e entrevistando uma responsável da “Sephora”, prendendo-se com um jornalismo de divulgação. Por outro, a divulgação do maior evento de moda do país, o crescimento da moda portuguesa no panorama nacional e internacional e uma preocupação crescente do público com a imagem, torna-se imperativo a sua divulgação. Afinal, neste caso, 33 estamos a prestar um serviço público, com a divulgação de uma fatia importante da economia portuguesa e a dar visibilidade a um dos maiores eventos da cultura portuguesa. E, por outro lado, indo de encontro ao interesse do público, satisfazendo os seus gostos no que concerne a ser informado sobre as tendências e entretido com as roupas das celebridades. Assim, o jornal prestou a dupla tarefa “de refletir nas suas emissões realidades multiformes, não apenas aquelas que chegam às maiorias, mas também aquelas que se restringem a grupos minoritários” (Lopes, 1999: 5-6). E cumprir também a sua função enquanto produto financeiro e “mercadoria cuja sobrevivência estará irremediavelmente dependente da audiência” (Lopes, 1999: 4). A investigadora Ana Santiago, sustentando-se na tese de Torres (2011: 84), defende que esta cultura da imagem e a sua crescente mediatização altera as práticas culturais e aumenta o interesse pelo ícone, desencadeando numa alteração das ideologias pelo culto das celebridades (Santiago, 2013: 4, citando Alexandre, 2001: 121). O poder da cultura da imagem é notório na forma como foi solicitada pela coordenação a inclusão de entrevistas e imagens de “cromos”. Termo usado para descrever os frequentadores da “ModaLisboa” que se vestem de forma exuberante e criativa. Exemplo da mudança do paradigma dos meados do século XX, com a consubstanciação da “imagem em todo o mundo como o primeiro grande produto cultural” (Santiago, 2013: 4). A construção das celebridades difundidas na reportagem enquadra-se, em parte, na tríade de tipologias difundidas pelos media de Eduardo Cintra Torres (2011: 87-89). Assim, temos a presença da apresentadora Cristina Ferreira e do manequim Luís Borges, que tiveram a sua visibilidade pública enquanto agentes culturais na área da televisão e da moda; e que aqui assumem a forma da segunda tipologia apresentada por Cintra Torres, pois a sua presença no enunciado jornalístico é pela sua “individualidade (corpo, emoções, vida privada, roupas, etc.)”, sobrepondo-se à vida profissional. Por outro lado, ocorre aqui também a construção da figura da celebridade na sua área de atuação e enquanto profissionais da área, consubstanciada na figura do consultor de moda, Pedro Crispim, a falar das próximas tendências de moda e dos manequins a relatarem todo o processo de preparação para um desfile. A terceira tipologia é denominada por Eduardo Cintra Torres por “conhecidos”, pessoas anónimas e iguais ao grande público que se tornam célebres pela sua presença no ecrã, que aqui é trazida pela 40 A reportagem “Por trás das Grades” traz ainda um potencial emotivo com os contornos dramáticos da própria história que, para Conboy (2011: 130), citado por Santiago (2013: 7), representa um traço da atuação jornalística em crescimento. Por outro lado, compreende também características do denominado “infotainment”, para Dejavite (2007: 12) consubstanciado como género jornalístico. Em consideração, a sua absorção pelos media desencadeou-se em produtos mediáticos de várias orientações editoriais, desde revistas de especialidade, às chamadas revistas rosa, a programas de daytime. Esta reportagem enquadra-se ainda no referido “jornalismo de mercado” (McManus, 1994), o público transforma-se em cliente e as notícias em produto publicitário do “Clube do Livro SIC”. Observando-se uma tendência da inclusão destes livros na linha editorial da informação da SIC. O mesmo conteúdo foi ainda tratado através do mesmo enquadramento, pressuposto e enunciado, por parte da informação e entretenimento do canal, demonstrando, como já vimos, uma alegada fusão entre o jornalismo e o entretenimento. Para Dejavite (2007: 2) o “infotainment” rege-se por lógicas de informação e de serviço público, e por preocupações de entretenimento. Os pressupostos que caracterizam esta peça enquanto serviço público já foram amplamente descortinados nesta análise. Por sua vez, reitero que é de extrema importância atender a outras “necessidades de informação do recetor de hoje”, como base à prestação de um serviço de “coesão social” e de monotorização e sustentação dos temas que norteiam e direcionam as relações e convívio social (Maffesoli, 2003: 15, citado por Dejavite 2007: 10). 41 VI – Conclusão A cultura de fãs impõe-se como conteúdo noticioso nos media nacionais e internacionais. E a SIC não escapa a esta tendência de inclusão das celebridades enquanto produto noticioso de valor simbólico. Alerto também que a definição do culto das celebridades enquanto prática comum da linha editorial da informação da SIC é precipitada e injusta. Cinco meses de experiência e de observação das lógicas de noticiabilidade de um jornal não podem definir os critérios de noticiabilidade de um produto informativo. A minha análise resulta de contingências temporárias e de agenda. Resultantes dos eventos culturais e marcos históricos/sociais, compreendidos no período de novembro a março, tais como, a inclusão de conteúdos de Ano Novo e de eventos culturais marcantes, como concertos e eventos de moda. Para não falar das notícias sempre constantes, na época de Natal, de soluções para antecipar os excessos gastronómicos das festas. Dadas estas linhas introdutórias, posso afiançar que é difícil demarcar a importância da cultura das celebridades na informação da SIC. As celebridades surgem nos jornais, tidos enquanto conteúdos formais e mais tradicionais, e esta absorção do culto das celebridades nos media informativos deve-se às próprias contingências do mercado publicitário e do meio social. O conceito de ‘celebridade’ é cada vez mais híbrido e imiscui-se em várias áreas de atuação, resultando numa mutação da arte no ícone. A própria impregnação da publicidade em várias áreas de atuação, desde eventos culturais, às próprias estratégias de comunicação, no processo de construção das celebridades, deixa pouca margem aos enunciados jornalísticos para escaparem às teias da idolatria. Agravando-se a isso a necessidade constante de despertar o interesse do público cada vez mais disperso e fragmentado. A mutação do jornalismo e do entretenimento, consubstanciando-se no “infotainment,” pode-se considerar enquanto processo de evolução normal do jornalismo, não como uma prática que defina toda a produção jornalística, mas uma parte do complexo universo de temas do jornalismo. As necessidades de entretenimento do telespectador devem ter-se em conta e a sua inclusão com lógicas de serviço público, como em muitos dos casos aqui apresentados, pode ser uma solução para escapar ao “jornalismo de mercado”. Juntado o serviço público e o 42 interesse do público no mesmo produto, usando as celebridades e o seu poder de captação de atenção, enquanto exemplos de enunciados jornalísticos com o pressuposto máximo de serviço público. Nas reportagens aqui analisadas não se verificou uma primazia da captação de audiências a todo o custo, como alguns teóricos teimam em alertar, mas um acompanhamento racional das lógicas de mercado e a difusão de mensagens importantes como a captação de receitas publicitárias na internet; eventos culturais de destaque e que levam o nome do país além-fronteiras; promoção de hábitos saudáveis; e transmissão de exemplos de vida e de histórias que podem servir de alerta para realidades sociais que nos escapariam, sem um olhar atento dos media. Os factos que marcam fenómenos de agendamento deste tipo de conteúdos são, em parte, pressionados pela agenda cultural e pela necessidade de reproduzir os eventos de agenda. Por outro lado, são impulsionados pelo conceito cada vez mais dilatado de cultura popular, a qual enforma uma vasta variedade de enunciados culturais que, por sua vez, vão alterar os enunciados do próprio jornalismo cultural, cada vez mais híbrido. Graças à absorção do ícone da arte e uma sobreposição das lógicas da vida privada na visibilidade pública. Por outro lado, cabe ao jornalista uma maior atenção para não ser levado na corrente das estratégias de comunicação, cada vez mais de guerrilha, e impregnadas em áreas de atuação que até há bem pouco tempo estavam livres do processo de “celebrificação” (Jorge, 2012), como a política. E dado o hiato jurídico na delimitação do que é realmente estabelecido enquanto pressuposto publicitário numa peça jornalística, torna-se imperativo para o próprio jornalista uma maior preocupação com a ética e deontologia, para melhor exercer um exercício crítico face a estes enunciados poluídos pelas estratégias de propaganda. O público, apesar de considerado enquanto entidade amorfa por muitos teóricos conservadores das ciências da comunicação, para Dejavite (2007: 10) parece ter a noção das informações que visam a sua coesão social e as informações que lhe permitem exercer o sentido crítico e o agir em sociedade. Posto isto, não podemos retirar toda a responsabilidade do jornalismo face à sua prestação de serviço público e de socialização. Devendo prestar especial atenção face aos grupos mais vulneráveis da 43 sociedade, como os jovens, de modo a minimizar os danos na mediação e apropriação deste tipo de conteúdos. Em traços gerais, os fatores marcam a cultura de celebridades na informação da SIC, com base nas peças aqui analisadas, prendem-se com:  O tratamento noticioso dados às celebridades é de acordo com a expansão das suas áreas de atuação, nomeadamente na apropriação de várias áreas de atuação mais tradicionais, como a música, a dança e a escrita; mas assenta também em lógicas de visibilidade pública alicerçadas na esfera da vida privada, cada vez mais consubstanciada enquanto produto mediático de valor simbólico.  Os enunciados jornalísticos seguem as mutações da própria cultura popular, resvalando num jornalismo cultural que dá enfoque às celebridades enquanto um produto cultural com notoriedade pública e de valor simbólico. Visibilidade essa que segue lógicas, em simultâneo, dos media usados enquanto objeto de publicitação das celebridades e as celebridades enquanto objetos dos media.  As celebridades surgem no enunciado jornalístico enquanto exemplo com potencial emotivo, crescente tendência observada por teóricos da área, através do seu poder de canalizar e despertar as audiências, verificando-se sempre um pressuposto de serviço público como valor máximo.  Há uma clara preocupação de responder às necessidades de entreter o público, a par da prestação de serviço público, recorrendo às celebridades enquanto exemplos e testemunhos de informações de serviço público a transmitir.  Verifica-se uma tendência para a inclusão dos livros do “Clube do Livro SIC” nos enunciados jornalísticos, sempre que o tema seja de interesse jornalístico e de serviço público.  Ocorre também a inexistência de constrangimentos face à inclusão de celebridades do grupo Impresa nos enunciados jornalísticos, consubstanciando-se enquanto uma necessidade face aos imperativos contratuais das celebridades. 44  O tratamento noticioso dado ao “fã juvenil, compreende as lógicas que definem o comportamento padrão estabelecido pelos media enquanto “fã histérico”, categorizado pela investigadora Ana Jorge (2012). Incidindo o texto jornalístico em atributos na ordem do “espetacular”, como o valor dos bilhetes do concerto da “Violetta”; e no “conflituoso”, focando a informação em quesitos normativos de um comportamento padrão juvenil como “faltar às aulas”. No limite cabe ao jornalista resistir à pressão das indústrias culturais e da própria indústria dos media em produzir conteúdos vendáveis. Estamos perante uma ameaça ao núcleo básico de princípios que enformam o jornalismo, cabendo ao profissional adaptar-se à inclusão das lógicas do culto das celebridades na informação, com uma atenção redobrada para analisar criticamente e escapar, assim, às estratégias de marketing das indústrias culturais. Por falta de experiência, e à distância, concluo que eu próprio fui levado por estas lógicas na produção de conteúdos noticiosos. Os media mudaram os princípios que definem as próprias celebridades e as características que as enformam, que não podem ser serem identificadas e catalogadas conforme dê jeito ao argumento. O que interessa é que o campo do jornalismo continua também a ser um campo de conflito em que as velhas formas de legitimação do ser célebre ou da fama estão a ser pulverizadas pelas novas narrativas impostas pelas lógicas das redes sociais. 45 VII - Referências Bibliográficas Artigos, Livros/Capítulos e Tese de Doutoramento Alexandre, M. (2001). O Papel da Mídia na Difusão das Representações Sociais. Rio de Janeiro, Comum. http://www.sinpro-rio.org.br/imagens/espaco-doprofessor/sala-de-aula/marcos-alexandre/opapel.pdf, acesso em 10-04-15. Amorim, P. (2007). A representação jornalística do design na perspectiva do infoentretenimento. Sergipe, Universidade Federal de Sergipe, http://sbpjor.kamotini.kinghost.net/sbpjor/admjor/arquivos/ind_._patricia_amorim.pdf, acesso em 02-04-15. Cazadeira, P. E. 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A Polémica Reportagem sobre os Blogues, Lisboa, O Arrumadinho, http://oarrumadinho.sapo.pt/a-polemica-reportagem-sobre-blogues-na345253, acesso em 10-05-15. 49 VII – Anexos Tabela 1 - Listagem das Reportagens em Análise Título Data de Difusão Horário (Horas) Duração (Minutos) Link da Reportagem “Ganhar Dinheiro com os Blogues” 03-04-15 20:37 06:24 http://sicnoticias.sapo. pt/pais/2015-04-03Ganhar-dinheiro-comos-blogues “Moda Lisboa” 14-03-15 20:39 03:47 http://sicnoticias.sapo. pt/cultura/2015-0314-Modalisboa-traztendencias-doproximo-invernodurante-o-fim-desemana “Violetta” 24-01-15 20:53 03:38 http://sicnoticias.sapo. pt/cultura/2015-0124-Vendidos-72-milbilhetes-para-osconcertos-de-Violetta “Aulas da Blaya” 16-12-14 13:35 02:52 http://sicnoticias.sapo. pt/desporto/2014-1206-Aulas-alternativascom-exercicios-aosom-de-kizomba-ekuduro “Por Trás das Grades” 07-02-15 13:27 02:36 http://sicnoticias.sapo. pt/cultura/2015-0207-Livro-Por-trasdas-Grades-contahistoria-de-francesaaprisionada-pelos-pais “Resoluções de Ano Novo” 10-01-15 13:32 04:02 https://www.youtube. com/watch?v=RkIkc3 o99b0