Design de Mobiliário Adaptável ao Crescimento da Criança
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FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO MESTRADO EM DESIGN INDUSTRIAL | MDI DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA LILIANA FIGUEIREDO RIBEIRO DISSERTAÇÃO SUBMETIDA PARA SATISFAÇÃO DO GRAU DE MESTRADO EM DESIGN INDUSTRIAL ORIENTADOR PROFESSOR DOUTOR GONÇALO FURTADO OUTUBRO DE 2012
‘A ciência do design baseia-se em fornecer o máximo com o mínimo’ (Richard Buckminster Fuller) !
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | i AGRADECIMENTOS Aos meus dois grande pilares, os meus pais, pelo carinho, confiança e apoio incondicional com que sempre me presenteiam. Nas maiores e menores adversidades da vida, proporcionaram-me a melhor formação e educação, recheada de valores preciosos e insubstituíveis. A minha mais sincera homenagem e agradecimento profundo. A todas as pessoas que me influenciaram e acompanham nesta caminhada universitária. Aos docentes, colegas e amigos da Especialização em Design e Desenvolvimento do Produto, e do mestrado em Design Industrial da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Foi uma honra pertencer a esta faculdade, quer pela excelência na aprendizagem, assim como pelo companheirismo e apoio sentido pelos docentes e colegas. Às amizades do design studio, o nosso ponto de encontro na troca de saberes e risos. Amizades que perduram e conhecimentos que ficam. Ao meu orientador, Professor Doutor Gonçalo Furtado, pela colaboração e apoio prestado no desenvolvimento desta dissertação de mestrado, o meu obrigado. Aos amigos de sempre, Xana, Sandra, João e Jota. Ao companheirismo e amizade partilhada desde o primeiro momento, V. Isabel e Ju. Sem esquecer os amigos, Tânia, Lisa e Miguel. Um obrigado a todos os que me acompanham a celebrar as vitórias, a ultrapassar as derrotas e a vencer com amor e amizade os desafios que surgem na caminhada da vida.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA ii RESUMO O fenómeno de desenvolvimento da criança, engloba uma série de transformações corporais que se fazem sentir com especial expressão até à adolescência. As alterações físicas e cognitivas que ocorrem durante este período criam novas e repentinas exigências na configuração dos objetos à sua volta. O mobiliário, que assegura a realização das atividades, pode ser adaptável e ajustável ao crescimento da criança, garantindo segurança, utilidade e flexibilidade. As preocupações económicas e a escassez de recursos ambientais estão cada vez mais presentes no nosso quotidiano, e por isso, procuram-se soluções a longo prazo, multifuncionais, rentáveis e amigas do ambiente. O design de mobiliário adaptável ao crescimento da criança, enquadra-se no modo de vida dinâmico atual, e subentende-se que permite uma utilização mais prática e duradoura. Para permitir a adaptação às necessidades humanas, o design deve seguir determinados princípios que possibilitam a transformação. Especialmente no design para crianças, e uma vez que a abrangência de idades e diferenças antropométricas é considerável, a segurança e ergonomia são parâmetros importantes e indispensáveis ao desenvolvimento de mobiliário adaptável. O presente trabalho constitui uma abordagem teórica e prática ao tema. Na primeira parte, é feita uma abordagem teórica ao dois grandes tópicos principais: crescimento e desenvolvimento; e mobiliário geral e específico. A abordagem mais prática que define a segunda parte do trabalho, é feita de uma catalogação organizada sobre exemplos de mobiliário que se enquadram na categoria de design adaptável ao crescimento da criança. A catalogação foi dividida e analisada de forma sintética, e em função de dois modos de estar principais: sentar e deitar. Detona-se que embora os objetos flexíveis e multifuncionais apresentem uma história considerável no passado evolutivo do Homem, o design de mobiliário para crianças e em especial aquele que possibilita a adaptação ao seu crescimento, é um tema mais recente. Os exemplos apresentados culminam numa importante referência sobre o que já foi desenvolvido neste tema, e embora existam pequenas lacunas que podem ainda ser melhoradas e desenvolvidas neste âmbito, o desenvolvimento deste tipo de produtos tem sido crescente. Conclui-se que os objetos adaptáveis, transformáveis e ajustáveis simplificam a vida do ser humano, contribuem para uma qualidade de vida melhor, e asseguram que o mesmo produto permaneça presente na vida do Homem por mais tempo, evitando um final prematuro. PALAVRAS-CHAVE: Crescimento . desenvolvimento . mobiliário adaptável . multifuncionalidade . sustentabilidade . ecodesign . design transformável. adaptabilidade
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | iii ABSTRACT The phenomenon in child development, encompasses a series of body changes that are felt with particular expression through adolescence. The physical and cognitive changes that occur during this period lead to new and sudden demands on the configuration of the objects around him. The furniture, which ensures the vast majority of activities, can be adaptable and adjustable to the child's growth, ensuring security, flexibility and greater utility. Economic concerns and the scarcity of environmental resources are increasingly present in our daily lives, and therefore seek solutions to long-term, profitable, multifunctional and environmentally friendly. The furniture design adaptable to the growth of the child, fits the current dynamic way of life, and it is understood that enables a more practical and durable. To allow adaptation to human needs, the design should follow certain principles that enable transformation. Especially design for children, and since the range of ages and anthropometric differences are considerable, safety and ergonomics are important parameters are essential for the development of adaptable furniture. The present work is a theoretical and practical approach to the subject, thus dividing it into two major parts. In the first, there is a theoretical approach to two large main topics, growth and development, and general and specific furniture. In practical approach that defines the second part of the work is done on a cataloging organized examples of furniture that fall into the category of design adaptable to the child's growth. The catalog was divided and analyzed in summary form, and function in two main ways of being: sit and lie down. Detonates that although flexible and multifunctional objects have a considerable history in human evolutionary past, the design of furniture for children and especially one that allows the adaptation to their growth, it is a newer theme. The examples presented culminate in a major reference on what has already been developed in this area, and although there are small gaps that can still be improved and developed in this context, the development of such products has been increasing. We conclude that the objects adaptable, adjustable and convertible simplify human life, contribute to a better quality of life, and ensure that the product remains the same in this man's life for longer, avoiding a premature end. KEYWORDS: Growth . development . adaptable furniture . Multifunctionality . sustainability. eco-design. transformable design . adaptability
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 1 ÍNDICE Agradecimentos i Resumo ii Abstract iii Índice de figuras e gráficos 03 Índice de abreviaturas 06 PARTE I 01 introdução 07 1.1 Enquadramento do tema 08 1.2 Objeto e objetivos 10 1.3 Estrutura da dissertação 11 1.4 Enquadramento teórico 12 02 crescimento e desenvolvimento na criança 17 2.1 A criança 18 2.1.1 A vida da criança ao longo dos séculos e das civilizações 18 2.1.2 A criança e as suas atividades 22 2.2 Crescimento e desenvolvimento - definições e conceitos 27 2.2.1 Origem da ideia de desenvolvimento humano 29 2.3 Abordagens teóricas 32 2.4 Fases e etapas 37 2.4.1 Crescimento 37 2.4.2 Desenvolvimento 41 2.5 Fatores de influência 44 2.5.1 Fatores de influência intrínsecos 44 2.5.2 Fatores de influência extrínsecos 45 2.6 Variação de crescimento da criança a nível mundial variações a nível social e cultural 47 03 mobiliário geral e específico 49 3.1 Mobiliário - conceitos e definições conceito de móvel e princípios de design adaptável 50
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 2 3.2 História do mobiliário geral e específico evolução nos interiores das casas na história das civilizações | o mobiliário de criança através do tempo 55 3.3 Design de mobiliário para crianças - considerações 66 3.4 Ergonomia e usabilidade considerações 68 3.5 Sustentabilidade e ecodesign do consumismo atual à procura de soluções sustentáveis 72 PARTE II 04 levantamento de casos exemplo 77 4.1 Levantamento de casos exemplo 78 Sentar // comer . aprender . brincar 80 Dormir // dormir . aprender . brincar 90 4.2 Análise crítica e comparativa 103 05 indicadores de projeto 107 Cadeiras 109 Berços | Camas 109 Mesas | Secretárias | Fraldários 110 06 conclusão 111 6.1 Conclusões gerais 112 6.2 Perspectivas futuras 115 07 referências bibliográficas 117
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 3 ÍNDICE DE FIGURAS E GRÁFICOS Figura 01. Conjunto de brinquedos do antigo Egito. 18 Figura 02. Ilustração de escola na antiga Grécia, Ludus, c. 500d.c. 19 Figura 03. Pintura em vaso de rapaz a brincar com um yo-yo, c. 440 d.C. 19 Figura 04. Ilustração de trabalho infantil na Alemanha: as crianças a produzirem lã para a industria, c. 1847. 21 Figura 05. Esquema de atividades e crescimento associado, na criança. 22 Figura 06. Ilustração das fases de crescimento na criança. 38 Figura 07. Ritmos de crescimento nas diversas partes do corpo (até aos 25 anos). 41 Figura 08. Desenvolvimento motor da criança no primeiro ano de vida. 42 Figura 09. Sequência de desenvolvimento motor na criança até aos 15 meses, Shirley (1931). 43 Figura 10. Estatura de meninos de 5 anos de idade de países desenvolvidos e estratos sociais e económicos altos e baixos de países em desenvolvimento. 48 Figura 11. Lego Bricks, 1949. 52 Figura 12. Sequência de imagens do sofá modular, kids furniture, Designkin Desai. 52 Figura 13. Retractor, elemento expansivo da cozinha cubex, De Konick, 1932. 53 Figura 14. Cadeira No. 14, 1859, Michael Thonet. 54 Figura 15. Banco do antigo Egito desdobrável, encontrado nas tômbolas de Kha Deir elmedina, c. 1400 a.C. 55 Figura 16. Bacio para crianças, representado numa pintura de um vaso Grego. 56 Figura 17. Ilustração de berço asteca. 56 Figura 18. Ilustração de swaddling na antiga Grécia e Idade média. 57 Figura 19. Roman Lectus, Grécia antiga. 57 Figura 20. Ilustração de uma armação permanente para criança e berço com tiras, c. 1657. 59 Figura 21. Ilustrações de cadeira alta e baixa de criança, século XVII. 59 Figura 22. Exemplos de berços do século XVII. 60 Figura 23. Ilustração de cama convertível em piano, 1866. 60 Figura 24. Cama convertível em piano, c.1865. 60 Figura 25. Cabine de sala transformável em cama (fechado e aberto), c.1870. 61 Figura 26. Gebruder Thonet, Cadeira alta de criança, transformável, 1890. 61 Figura 27. Cadeira convertível em carrinho, época vitoriana (1837-1901). 62 Figura 28. Ilustração de cama de bebe, século XIX. 62 Figura 29. Cama de criança e sofá do século XIX. 62 Figura 30. Ilustração de Balouço de bebe, J. H. Wygant & R. P. Paulison, patente de 1872. 63 Figura 31. Folheto de cadeira transformável em balouço, 1901. 63 Figura 32. Ilustração Taylor ‘Infanseat’, cadeira alta, assento para bacio e acento de carro, 1924. 63 Figura 33. Cadeira multifuncional, architectmade,1957. 64 Figura 34. Tabelas antropométricas da criança, até aos 2 anos. 70 Figura 35. Ciclo de vida do produto segundo o marketing. 74 Figura 36. Energia dos produtos. Valores aproximados da energia consumida na matériaprima, fabrico, utilização e fim de vida dos produtos: cadeira, bicicleta, automóvel e aspirador. 75 Figura 37. Fases de avaliação do ciclo de vida. 75
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 4 Figura 38. Cadeira ‘tripp trapp chair’. 80 Figura 39. Imagem exemplificativa da cadeira ‘tripp trapp chair’ em utilização com usuários de diferentes idades. 80 Figura 40. Cadeira ‘Leander Highchair’. 81 Figura 41. Imagem exemplificativa da cadeira ‘leander highchair’ em utilização com usuários de diferentes idades. 81 Figura 42. Cadeira ‘bambini’. 82 Figura 43. Variações da Cadeira ‘bambini’. 82 Figura 44. Cadeira ‘crescere’. 83 Figura 45. Imagem exemplificativa da cadeira ‘crescere’, em usuários de diferentes idades (variações da altura e profundidade do assento). 83 Figura 46. Cadeira ‘droog highchair’ em 4 alturas. 84 Figura 48. Imagem exemplificativa da cadeira ‘droog highchair’ em 4 alturas. 84 Figura 48. Cadeira ‘carota’. 85 Figura 49. Imagem exemplificativa da cadeira carota em utilização com usuários de diferentes idades. 85 Figura 50. Conjunto ‘otomo’. 86 Figura 51. Sequência de imagens do conjunto ‘otomo’ em utilização com usuários de diferentes idades. 86 Figura 52. Secretaria ‘progressive kasam 3 in 1 desk’. 87 Figura 53. Representação das 3 alturas possíveis da secretaria ‘progressive kasam 3 in 1 desk’. 87 Figura 54. Variação do fraldário ‘leander changing table’ para secretária. 88 Figura 55. ‘Stokke Care’. 89 Figura 56. Variações possíveis do fraldário ‘stokke care’. 89 Figura 57. Berço ‘stokke sleepi’. 89 Figura 58. Variações da cama ‘stokke sleepi’. 89 Figura 59. ‘Leander bed’ em modo berço. 90 Figura 60. Variação do berço/cama ‘leander bed’. 90 Figura 61. Ioline crib. 91 Figura 62. Possibilidades de utilização de ‘ioline crib’. 91 Figura 63. Variação da cama ‘classic todler bed’. 92 Figura 64. Berço ‘rocky’. 93 Figura 65. Variações da cama ‘rocky’. 94 Figura 66. Berço ‘Rotolino’. 95 Figura 67. Variação do berço para cama ‘Rotolino’. 95 Figura 67. Variação da cama ‘Duetto’. 95 Figura 68. Studio crib’. 96 Figura 69. Variações da cama ‘studio crib’. 96 Figura 70. ‘yiahn bassinet’ em modo berço. 97 Figura 71. Variações de ‘yiahn bassinet’. 97 Figura 72. Variação do berço ‘BE cot’. 98 Figura 73. Variação da cama ‘BE small’. 98 Figura 74. Conjunto cama ‘eternity bed’. 99 Figura 75. Ilustração das possíveis utilizações da cama ‘eternity bed’ em idades diferentes. 99 Figura 76. ‘kit smart kid’ em modo berço. 100 Figura 77. Variação do ‘kit smart kid’. 100 Figura 78. Conjunto das quatro peças que compõem o kit ‘dylan’. 101 Figura 79. Exemplo de possível conjugação de ‘dylan’. 101 Figura 80. Berço convertível ‘combi arc’. 102
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 11 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO A presente dissertação encontra-se estruturada em duas partes principais, I e II. Numa primeira parte, de âmbito teórico, são abordados os temas principais ‘crescimento e desenvolvimento da criança’, e ‘mobiliário geral e especifico’, ao longo de 3 capítulos. O capítulo 1, Introdução, descreve o enquadramento do tema, objeto e objetivos, estrutura da dissertação e enquadramento teórico. O capítulo 2, foca a temática do Crescimento e Desenvolvimento da Criança, desenvolvendo-se em subcapítulos focando na temática ‘a criança’, ‘definições e conceitos de crescimento e desenvolvimento’, ‘abordagens teóricas’, ‘fases e etapas’, ‘factores de influência’, e ‘variação do crescimento da criança a nível mundial’. O capítulo 3, foca o tema ‘mobiliário geral e específico’, subdividindo-se em ‘definições e conceitos’, ‘história do mobiliário normal ao adaptável’, ‘design de mobiliário para criança’, ‘ergonomia e usabilidade’, e ‘sustentabilidade e ecodesign’. Numa segunda parte de âmbito mais prático, faz-se um levantamento de casos exemplo existentes, onde é feita a recolha de dados referentes ao mercado atual, sendo estes catalogados e sucintamente analisados, apresentam-se no capítulo 4, Levantamento de casos exemplo. O capítulo 5, intitulado de Indicadores de projeto, indica considerações a ter em conta no desenvolvimento de produtos em futuros projetos nesta área. O capítulo 6, apresenta as conclusões da dissertação assim como as perspetivas futuras de desenvolvimento neste domínio. Por fim, o capítulo 7, intitulado de referências bibliográficas apresenta a bibliografia utilizada no decorrer da dissertação, que pode servir de ponto de partida para futuras investigações. O trabalho realizado no âmbito do mestrado em design industrial, culminou numa dissertação que se admite ter utilidade, servindo não só como referência de pesquisa, mas também como ponto de partida para o desenvolvimento de projetos na área do mobiliário adaptável ao crescimento da criança. Reúne informação relevante sobre a criança e o seu crescimento, e apresenta linhas guia importantes para o desenvolvimento de projetos no âmbito.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 12 ENQUADRAMENTO TEÓRICO É através dos objetos que o Homem estipula normas e leis que funcionam como um elo sócio cultural e económico. Estes, estabelecem funções não apenas práticas mas também estéticosimbólicas cujas representações enviam mensagens e símbolos no que refere a status, classe, género e identidade. Desde o começo da sua existência que o ser humano tem sido assim um ‘designer espontâneo’, transformando e criando a matéria-prima em objetos úteis e necessários para a sua sobrevivência. Importa assim iniciar o tema com uma breve abordagem às definições de design e designer. Segundo Denis, a origem imediata da palavra ‘design está na língua inglesa, na qual o substantivo design se refere tanto à ideia de plano, desígnio, intenção, quanto à configuração, arranjo, estrutura (e não apenas de objetos de fabricação humana, pois é perfeitamente aceitável, em inglês, falar do design do universo ou de uma molécula).’ Expõe ainda que a origem mais remota da palavra está no latim designare, verbo que abrange ambos os sentidos, o de designar e o de desenhar. Percebe-se que, do ponto de vista etimológico, o termo já contem nas suas origens uma ambiguidade, uma tensão dinâmica, entre um aspecto abstrato de conceber/projetar/atribuir e outro concreto de registar/configurar/formar. (DENIS, 2000) Foi no ano de 1588 que, pela primeira vez o termo Design foi mencionado e descrito como um plano desenvolvido pelo homem ou um esquema que possa ser realizado. (BURDEK, 2006) Ainda no dicionário da língua Portuguesa, encontramos a definição de design como a ‘Disciplina que visa a criação de objetos, ambientes, obras gráficas, etc., ao mesmo tempo funcionais, estéticos, e conformes aos imperativos de uma produção industrial; conjunto de objetos criado segundo estes critérios (ex.: vender design); aspecto de um produto criado segundo esses critérios (ex.: design inovador); criado, concebido segundo os critérios do design (ex.: móveis design).’ Sobre este prisma, o design está por toda a parte e de facto, torna-se difícil encontrar uma definição que o defina completamente. Para Victor Papanek, o design permite ‘a satisfação profunda que provém apenas de levar uma ideia a bom termo e ao seu desempenho efetivo. Pode ser comparado às emoções despertadas pela construção de um papagaio de papel e por fazê-lo voar: uma sensação de conclusão, prazer e realização. Isso enriquece-nos como profissionais e como seres humanos, e dá-nos prazer por aquilo que fazemos.’ (PAPANEK, 1995) Para Heskett, Design é uma das características básicas do que é ser humano, e um determinante essencial na qualidade de vida do Homem. Ele afeta todos em cada detalhe, e em cada espeto do que se faz em cada dia. (HESKETT, 2005) Embora na nossa sociedade a palavra design seja muitas vezes confundida com o desenho, é cada vez mais utilizada e percebida como uma disciplina que visa conceber e projetar produtos que solucionam problemas e necessidades da sociedade. É o design quem gera e influencia o ambiente do nosso dia-a-dia, criando conforto, utilidade e segurança ao utilizador.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 13 O design diz respeito à resolução de problemas, tende a ser holístico na sua finalidade e geralmente procura a simplicidade. (FIELL, 2006) É o designer quem coloca em prática o design. Embora o styling1 seja muitas vezes complementar do design, é muitas vezes confundido com este último. (FIELL, 2006) Alguns consideram o design como uma poderosa ferramenta utilizada para atribuir mais valor e alcançar diferenciação num mercado cada vez mais competitivo e desafiante. No entanto, é muito mais do que isso e impõe conhecimentos interdisciplinares que devem ser integrados para o alcance de bons resultados. O design está longe de ter um percurso sem obstáculos e é muito mais do que desenhar. É projetar, conceber, idealizar, funcionar. (DESIGN, 1993) É um conjunto de substantivos que visam a criação e desenvolvimento de novas soluções para problemas que podem surgir a qualquer hora, em qualquer lugar, em qualquer parte do mundo. Segundo Haskett, a capacidade humana para o design tem-se mantido constante, embora os significados e métodos se tenham alterado, paralelamente com a mudança tecnológica, organizacional e cultural. (HESKETT, 2005) De acordo com Design, ‘O nosso designer ideal distingue-se na história da humanidade, manifestando-se ao longo do tempo apenas com ligeiras alterações de competências. Encontramolo há três milhões de anos a atar um pau a uma pedra lascada, preparando-se para ir à caça; como oleiro na China durante a dinastia Sung; como carpinteiro naval, talhando a proa de um belíssimo (e altamente funcional) barco Vicking ou como desenhador de equipamento de navegação ao serviço de Isabel I; construindo um campanário barroco na Austrália; ou concebendo um sistema informático avançado em Sillicon Valley, na Califórnia. Em todas estas circunstâncias encontramos o nosso designer completamente à vontade.’ (DESIGN, 1993) Papanek afirma que ‘Os designers têm a posição poderosa de afetar os aspetos ambientais dos produtos que concebem.’ (PAPANEK, 1972) A evolução tecnológica despoletou uma procura por novas e excitantes inovações e, hoje mais do que nunca, os designers debatem-se com a demanda por produtos novos, emocionantes e altamente distintivos. Como refere Bonsiepe, ‘o designer é ao mesmo tempo sujeito e objecto, influenciando a cultura e sendo influenciado por ela de forma dinâmica.’ (Bonsiepe in: VASCONCELOS, 2009) Papanek ressalta ainda ‘o aparecimento de uma nova estética constituída por considerações ambientais e ecológicas será imprevisível em termos de forma, cor, textura e variedade, e ao mesmo tempo, incrivelmente excitante.’ (PAPANEK, 1995) Segundo Fiell, pode dizer-se que o design como disciplina surge após a revolução industrial, originalmente proveniente da Inglaterra entre 1750 a 1850. Este fenómeno trouxe o progresso da industrialização e desencadeou um ponto de viragem na história, afetando os estilos de vida vividos até então. Juntamente com o crescimento da população e o aumento económico da classe média, a 1 Filosofia que visa o tratamento sobre aparência da superfície (as qualidades expressivas do produto).
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 14 mecanização dos processos de produção alterou a fabricação e venda dos produtos. Antes disso os objetos eram manufaturados, significando isto, que a concepção e realização de um objeto estava frequentemente a cargo de um criador individual. Com o aparecimento do processo industrial de fabrico e a divisão do trabalho, o design (como concepção e planeamento) foi separado do ato de fabrico e execução. (FIELL, 2005) O final do século XIX foi marcado pelo Idealismo do Design na Europa, com os movimentos Art & Crafts2, Art Noveau3 e Jugendstil4. Nesta fase surge também a Art Déco como estilo. (FIELL, 2005) A unificação do design com a produção industrial surge com a Bauhaus em 1919, escola de Arquitetura e Desenho Industrial do Arquiteto alemão Walter Groupius. Em 1933, esta escola buscava conciliar o idealismo social (produtos de qualidade, artísticos e baratos) com a realidade comercial, usando a indústria e a tecnologia. Inicialmente fundada em Weimar, transferiu-se para Dessau em 1925, mas acabou por ser fechada pelo regime nazista em 1933. (PEDROSO, 2007) Como aludido, com a revolução industrial, a produção tradicional dera lugar à produção em série e à automatização dos processos. Os produtos passaram a ser produzidos em grande quantidade e comercializados à escala mundial. O design industrial surge neste contexto como concepção e planeamento de produtos para produção em grande quantidade. (MALDONADO, 1991) Segundo Pedroso, no que respeita à indústria de mobiliário portuguesa, algumas oficinas de produção artesanal e as fábricas, nas quais predominava ainda o trabalho manual, perceberam que a época era de mudança. Em Portugal, A Sousa Braga Filhos Lda; a Olaio móveis e decoração; a Jerónimo Osório de Castro depois FOC, mais tarde Longra e a Altamira, foram as que mais rapidamente aderiram aos novos desafios. (PEDROSO, 2007) Nestas empresas, a produção manual de mobiliário, onde muitas vezes se produzia uma peça única por encomenda, cedeu lugar gradualmente, à produção mecanizada onde o operário e a ferramenta (máquina) passavam a coexistir. (PEDROSO, 2007) Pedroso ressalta ainda o novo papel da mulher na sociedade, que como resultado trouxe a redução no tempo disponível para as atividades domésticas, desencadeando uma procura por novos equipamentos que dessem resposta a novas exigências funcionais. Como resultado, a própria articulação dos espaços é direcionada para uma maior funcionalidade. (PEDROSO, 2007) De facto e, segundo Vasconcelos, a história e o desenvolvimento do design poderia ser escrita através dos próprios materiais e tecnologias. (VASCONCELOS, 2009) Hoje em dia, os avanços 2 Movimento estético que surgiu em Inglaterra no século XIX. Defendia o artesanato como uma alternativa à mecanização e à produção em massa. 3 Inspirado no estilo arts & crafts, o movimento art noveau era semelhante. Constitui um estilo decorativo moderno e livre nas imitações históricas que tinham caracterizado o século XIX. 4 Arte decorativa semelhante à art nouveau.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 15 tecnológicos e materiais permitem criar e desenvolver com a ajuda de tecnologias como o CAD5. Esta tecnologia, permite gerar protótipos tridimensionais (3D) bastante realistas. Segundo Fiell, a informação derivada de programas CAD pode ser traduzida por CAM6. O CAM permite auxiliar o controlo das máquinas e robots usados no processo de produção. A combinação CAD/CAM permite desde logo uma precisão e um aumento de produção significativo, e ajuda a facilitar a aplicação de dados ergonómicos ao design de produtos, sistemas e ambientes. (FIELL, 2006) Embora a revolução industrial tenha tornado os métodos de produção mais eficientes, reduzido os custos de manufactura e venda, aumentando a variedade de artigos e estimulando o consumo, trouxe também consequências nocivas para a sociedade. A poluição ambiental, visual e o excessivo consumismo são consequências bem evidentes nos dias de hoje. (BUNCHANAN et al., 2010) A mente do consumidor foi treinada para hábitos de consumo excessivos e a continuar assim, caminhamos para uma sociedade com baixíssima qualidade de vida. Por forma a assegurar a sobrevivência e bem-estar das gerações futuras, torna-se imperativo mudar mentalidades e procurar soluções que possam ser mais equilibradas e favoráveis para o mercado e para o Homem. No nosso entender, produzir objetos mais flexíveis, menos poluentes e com prazo de vida maior, será uma das soluções a privilegiar. (CHAPMAN, 2007) 5 CAD, Computer Aided Design (desenho assistido por computador). Desenvolvido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos anos 50. 6 CAM, Computer Aided Manufacturing (manufatura assistida por computador).
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 16
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 17 cap. 02 CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO NA CRIANÇA Crescimento e desenvolvimento são dois termos que se definem como parte do mesmo processo embora requeiram abordagens diferentes para a sua compreensão. O desenvolvimento da criança como conceito, não existia antes do século XIX. Um conjunto de ideias mais antigas sobre a história natural e humana despoletadas por Charles Darwin representam o ponto de partida para a origem sobre o estudo do desenvolvimento na criança. Muitas foram as contribuições prestadas por autores e especialistas como Jonh Lock, Sigmund Freud, Jean Piaget, Erik Erikson, entre muitos outros que a par da evolução da sociedade, foram mudando e estabelecendo novos e importantes parâmetros de desenvolvimento. As etapas e características que hoje definimos com algum rigor, não eram sequer consideradas em gerações passadas. O crescimento é o fruto de uma interação complexa entre hereditariedade e ambiente. Com a evolução dos modos de vida e da sociedade em si, a criança de hoje debate-se com uma série de novos desafios tecnológicos e ambientais. As diferenças culturais e sociais representam um fator comparativamente significativo no crescimento da criança.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 18 2.1 A CRIANÇA 2.1.1 A VIDA DA CRIANÇA AO LONGO DOS SÉCULOS E CIVILIZAÇÕES No contexto em que a criança é o objeto de estudo, o modo como hoje estruturamos e classificamos a vida da criança descende de uma evolução significativa como seres humanos e sociedade. Neste sentido, importa fazer uma pequena viagem pela vida da criança ao longo dos séculos e das civilizações humanas. Segundo Lambert, no antigo Egito, era comum um casal ter muitos filhos, e até aos quatro ou cinco anos, as crianças ficavam em casa com as mães. A partir desta idade, as raparigas aprendiam a fazer trabalhos relacionados com a casa, enquanto que os rapazes poderiam escolher entre ir trabalhar e aprender com o pai ou seguir outro caminho, como por exemplo, ser soldado (profissão bastante popular durante o novo reinado). Os mais afortunados e pertencentes à elite desses tempos, tinham a oportunidade de receber uma educação mais formal, naquilo que seria o mais parecido com a escola de hoje em dia. (LAMBERT, 2012) Figura 01. Conjunto de Brinquedos do antigo Egito. ‘A casa da Vida’ era uma mini escola associada a um templo. Neste local, cheio de textos e materiais guardados pelos sacerdotes do templo, apenas uma pequena minoria era aceite para estudar e aprender neste espaço. As crianças começavam desde cedo a trabalhar, e ler e escrever era um privilégio que a maioria não tinha acesso na altura. As brincadeiras eram feitas com bonecos e animais feitos de madeira e piões. Mesmo que o modo de vida exigisse uma atividade mais dura e diferente à de hoje em dia, as crianças eram recebidas com alegria, e consideradas como uma bênção divina. (DOLLINGER, 2003) Na antiga Grécia (3000 - 431a.c), segundo Lambert, quando uma criança nascia não era considerada como uma pessoa até que fizesse cinco dias de idade, onde era realizada uma cerimónia especial para que esta se tornasse parte da família. Os pais tinham direito de abandonar os filhos e muitas vezes estranhos adotavam os bebés abandonados, tornando-os seus escravos. As raparigas eram menos importantes do que os rapazes e era costume casarem-se aos 15 anos, com rapazes bem mais velhos do que elas. O papel das mulheres era casar e criar filhos. Apenas (Fonte: Egy King Homepage. Disponível em: http://egyking.blogspot.pt/2012/08/ancien t-egyptian-toys.html, acedido a 11 de Setembro de 2012)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 19 eles frequentavam a escola, e aqui, aprendiam a ler e escrever, e tinham disciplinas como matemática, música, poesia, dança e atletismo. A disciplina era severa e era frequente bater nas crianças. (LAMBERT, 2012) Segundo Bbc, nos pequenos tempos livres, jogavam com piões, bonecas, modelos de cavalos com rodas, aros e cavalos de balanço feitos em madeira. (BBC, 2012) Leas refere que na Roma antiga (800a.c - 500d.c), muitos dos habitantes eram escravos e como tal, as crianças tornavam-se escravas muito cedo. Os filhos e filhas de boas famílias frequentavam a ludus7 a partir dos 7 anos, com o objetivo de aprender a ler, escrever e fazer contas simples. As raparigas deixavam a escola quando atingiam os 12 ou 13 anos, enquanto que os rapazes continuavam os estudos, aprendendo geometria, história, literatura e oratória (a arte de falar em público). As crianças romanas brincavam com bonecas de madeira ou barro e aros. Os rapazes jogavam à bola e os jogos de tabuleiro eram comuns. (LEAS, 2006) Para os Astecas, Lambert define a educação como algo muito importante. As crianças macehualtin8 frequentavam a escola local chamada telpochcalli, onde aprendiam habilidades básicas de trabalho, elementos de guerra e boa cidadania, e ainda fundamentos sobre a história e religião. Algumas das crianças que se destacavam de forma brilhante eram enviadas para o calmecac9 ou o cuicacalli10, onde teriam maior preparação para avançar na carreira. Para além da escola, todas as crianças ajudavam as famílias a cultivar a terra. Os pais criavam os seus filhos com cuidado e certificavam-se que as crianças tinham responsabilidades e dominavam os conhecimentos básicos necessários. A educação das meninas baseava-se no treino para o casamento, que acontecia por volta dos 14 anos. Os filhos eram advertidos contra os vícios do jogo, roubo, bebida, e quando se comportavam mal, o castigo era severo e doloroso. (LAMBERT, 2012) 7 Ludus, escola primária. 8 Trabalhadores, construtores, etc. 9 Local gerido por sacerdotes que ensinavam sobre assuntos religiosos e administrativos. As atividades extra religiosas eram um dever ao qual deviam de assistir, assim como aprender sobre astronomia, poesia, escrita e história. 10 Escola militar, onde os rapazes eram treinados para a guerra. A rivalidade entre escolas levava a constantes lutas. Figura 02. Ilustração de escola na antiga Grécia, Ludus, c. 500 d.C. (Fonte: http://edu.glogster.com/media/3/12/5 8/57/12585702.jpg, acedido a 11 de Setembro de 2012.) Figura 03. Pintura em vaso de rapaz a brincar com um yo-yo, c.440 d.C. (Fonte: http://historyoftheancientworld .com, acedido a 11 de Setembro de 2012.)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 20 Lambert expõe que as crianças Incas eram tratadas de forma muito severa, com o objetivo de as endurecer. Quando as meninas atingissem os 10 anos de idade, as mais bonitas eram selecionadas para aqllakuna11. Os rapazes aprendiam a pescar, cultivar e outras habilidades. Os mais nobres tinham um amataus12 que os treinava para governar. (LAMBERT, 2012) Durante a Idade Média (séc. V - XV), a infância terminava muito cedo. Nas famílias mais ricas, as raparigas eram obrigadas a casar por volta dos 12 anos e os rapazes pouco mais tarde do que os 14 anos. As crianças começavam a ajudar a família assim que podiam, o que normalmente acontecia aos 6 ou 7 anos de idade. (LAMBERT, 2012) No início do século XVI, Lambert profere os modos de vida como ‘moralistas e a doutrina cristã levada ao extremo, fazendo com que muitos meninos frequentassem escolas religiosas.’ Os homens mais ricos deixavam dinheiro aos padres para que estes rezassem pelas suas almas. Após algumas mudanças na religião, na década de 1540, as escolas foram fechadas e os rapazes passaram a frequentar uma espécie de jardim-de-infância, denominado de ‘escola pequena’, seguindo mais tarde para a escola da gramática quando completassem os 6 anos de idade. (LAMBERT, 2012) Segundo Horn, a disciplina nas escolas era selvagem e os professores batiam nas crianças com frequência, utilizando varas com ramos de bétula. O dia da escola começava às 6 da manhã no verão e às 7 horas no inverno, e durava normalmente 5 horas. Eles frequentavam a escola 6 dias por semana e poucos eram os feriados. (HORN, 2009) Um pouco mais tarde e já perto do final do século XVII, Lambert afirma que também as meninas passaram a frequentar escolas para raparigas, onde aprendiam escrita, música e bordados. Ainda assim, era considerado mais importante que elas aprendessem ‘realizações’ do que estudassem matérias acadêmicas. Como de costume, as crianças mais pobres continuavam a não ir à escola, e aos 6 ou 7 anos começavam a fazer alguns trabalhos domésticos. Quando não trabalhavam podiam brincar e jogar aos mesmos jogos com que durante séculos se entretiveram. Este modo de vida continuou presente ao longo do século XVIII. (LAMBERT, 2012) Com diferenças socias e de género ainda sempre muito presentes, a disciplina continuou a ser restrita e o punimento corporal um ato muito comum. (DeMAUSE, 1974) Para muitas crianças, o modo de vida que se iniciou com o começo do século XIX agravou-se, afirma Lambert. Com a revolução industrial, a demanda por trabalho feminino e infantil cresceu. O trabalho até então feito em casa ou nas proximidades para ajudar a família, passou a ter outros contornos. Crianças de 5 anos trabalhavam nas minas de carvão, meninos subiam às chaminés para as limpar e muitas outras trabalhavam em fábricas têxteis mais de 12 horas por dia. Embora com um começo difícil, aos poucos algumas leis começaram a ser impostas para defender as crianças destes atos bárbaros. (LAMBERT, 2012) Algumas Igrejas fundaram escolas para crianças pobres e a 11 As meninas eram retiradas das suas famílias e enviadas para a ‘casa das mulheres escolhidas’, aqllakuna, onde aprendiam sobre a religião Inca e habilidades como cozinhar e fazer tecelagem. Quando fizessem 14 anos, ou se tornavam sacerdotisas ou casavam com Incas importantes. 12 Tutor.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 27 2.2 CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO definições e conceitos Antes de avançar no tema, é importante delinear algumas terminologias usadas para definir os dois tópicos abordados neste capítulo, crescimento e desenvolvimento. Neste contexto e a título exemplificativo, no dicionário da língua portuguesa podemos encontrar definição para o crescimento como o ‘desenvolvimento progressivo (em altura, volume ou intensidade); o desenvolvimento como um ato ou efeito de desenvolver; aumento, progresso; ampliação; explanação; minuciosidade; incremento; propagação [...].’ Se falamos em crescimento, falamos em criança, em infância e em crescer. Também no dicionário da língua portuguesa encontramos definições para criança como ‘um menino ou menina no período da infância; [Figurado] Pessoa estouvada, pouco séria, de pouco juízo; educação; [Antigo] Criação, cria.’ A infância que provêm do latim ‘infans, significa incapaz de falar; período de vida humana desde o nascimento até à puberdade; começo, princípio, os primeiros anos; [Figurado] as crianças.’ Define-se ainda o termo crescer como ‘desenvolver-se; tornar-se maior; aumentar; sobejar; avançar para alguém com modos agressivos;’ Perante tais definições, de facto, crescer é tornar-se maior e desenvolver-se. É amadurecer. Associa-se ao termo criança, uma pessoa com pouco juízo, porque ela encontra-se a atravessar um processo de mudança que a faz não ter a noção exata de como agir e distinguir o bem do mal. A formação da personalidade e da capacidade de conseguir distinguir ações ocorre, em grande parte, durante esta fase e, a esta etapa de aquisição de competências, dá-se o nome de infância. Segundo Cahan, a noção de crescimento na criança parece óbvia e intuitiva. O bebé nasce pequeno, frágil, incapaz de compreender o que se passa à sua volta e conhecendo o mundo de forma limitada. É aos poucos que adquire corpo e conhecimento, e se torna num adulto. Psicólogos, professores e outros profissionais que lidam com crianças diariamente evocam o termo desenvolvimento como forma de perceber e distinguir as etapas físicas, psicológicas, cognitivas, sociais e morais. (CAHAN, 2006) É comum utilizar o termo crescimento para representar apenas o desenvolvimento físico. No entanto, crescer não é apenas tornar-se maior. Este desenvolvimento físico faz parte de um desenvolvimento cognitivo, que acontece de forma progressiva e faseada. (SAÚDE, 2002) Assim, crescimento e desenvolvimento são dois fenómenos diferentes na sua concepção fisiológica, paralelos em seu curso e integrados em seu significado, são dois fenómenos num só. (SANTOS, 2006) Definem-se como dois conceitos que, embora se complementem e façam parte do mesmo processo, exigem abordagens diferentes e especificas para a sua percepção, descrição e avaliação. Desta forma, muitas das causas que afectam o crescimento também afectam o desenvolvimento e assim vice-versa. (SAÚDE, 2002)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 28 Do ponto de vista biológico, o crescimento compreende alterações no tamanho, forma e função celular. É definido como um aumento físico do corpo, podendo ser mesurado em gramas, quilogramas, centímetros e metros. Traduz o aumento do tamanho das células - (hipertrofia), ou do seu número - (hiperplasia), e reflete o aumento da massa corporal. Teoricamente deve ser estudado desde o momento da fecundação do óvulo até à velhice, pois o crescimento celular ocorre durante toda a vida de um indivíduo. Entretanto, o que realmente importa é observar e avaliar os padrões de crescimento que ocorrem desde o momento do nascimento até à adolescência, uma vez que o término desta fase interrompe o crescimento corporal. (SANTOS, 2006) O crescimento é um processo contínuo e dinâmico, proveniente de instruções do código genético de cada um e sujeito a variações em função de influências externas, como o ambiente. É considerado o indicador mais importante de saúde na criança, sendo portanto, obrigatória a sua monitorização durante toda a infância e adolescência. A avaliação sequencial de medidas serve para um diagnóstico sobre o crescimento dos indivíduos na comunidade, com o objetivo de promover a saúde. (SAÚDE, 2002) O carácter de cada individuo vai sendo progressivamente formado à medida que a criança cresce, traduzindo-se em atitudes, vontades, formas de estar, etc. Enquanto que o crescimento é quantitativo, pode ser medido e ocorre entre um período de tempo limitado, o desenvolvimento é qualitativo e, o seu término só acontece no final da vida de cada indivíduo. (SANTOS, 2006) Constitui o ganho de novas funções e capacidades ou o aperfeiçoamento destas ao longo do tempo. É um conceito amplo e abrangente que se refere a uma transformação progressiva, que inclui além do crescimento, a maturação, a aprendizagem e os aspectos psíquicos e sociais. Cada estádio14 de desenvolvimento é definido por diferentes formas de pensamento. (SAÚDE, 2002) Os estádios cognitivos são regulares e, por isso, a criança deve atravessar cada um segundo uma sequência ordenada. Todo este processo ocorre sobre o efeito de influências sociais, económicas e culturais, que ampliam, restringem ou mesmo anulam determinados aspectos do desenvolvimento da criança. (SANTOS, 2006) É o crescimento quantitativo, medido em centímetros, que favorece e representa a alteração corporal da criança e a faz ter necessidades diferentes no que respeita aos objetos. E é este que aqui se pretende abordar com especial atenção. 14 Período; fase.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 29 2.2.1 ORIGEM DA IDEIA DE DESENVOLVIMENTO HUMANO ‘From day comes night, and from the boy comes the man.’ (Aristotle, On the Generation of Animals, 350 BC.) Segundo Cahan, a ideia de desenvolvimento na criança não existia como conceito antes do século XIX. Antes deste tempo as crianças eram vistas como versões miniatura dos adultos. A disciplina era severa e, embora as atividades fossem semelhantes às de hoje em dia, o tempo para brincar era escasso e aprender era um privilégio para alguns. (CAHAN, 2008) Ainda que muito longe do que hoje se define e classifica tal processo, foi aos poucos e com a contribuição de muitos autores que se iniciou a descoberta do processo de desenvolvimento na criança. (ALDRIDGE, 2006) Cahan relata que, por volta do século XVI, a ideia da criança era baseada na crença do pecado original puritano. A doutrina cristã era assente na ideia de que as crianças nascem como ignóbil, seres malignos que só podem ser civilizados e salvos do pecado através de duras e punitivas práticas educativas. Aproximadamente um século depois, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) propôs que o cérebro de uma criança ao nascer é como uma tábua rasa ou uma louça em branco, o que significa que as características humanas são atingidas através da experiência. Assim, Locke defendia a ideia de que os pais devem interagir com os seus filhos, a fim de ‘‘escrever’ sobre os traços de ardósias que transformam as crianças em membros bem-sucedidos da população em geral.’ (CAHAN, 2008) Segundo Cahan, no século XVIII, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) propôs a visão da ‘bondade inata’, acreditando que as crianças são ‘bons selvagens’ que nascem com bem e que deveria ser permitido crescer com pouca interferência ou orientação dos pais. (CAHAN, 2008) A ideia de desenvolvimento não começa ou termina nas crianças. O desenvolvimento na criança serve para demonstrar a conexão entre o desenvolvimento da evolução e da civilização. A criança torna-se num pilar de ligação entre a história natural humana. (NEWMAN, 2006) Segundo Cahan, até ao final do século XIX, os desenvolvimentistas15 afastaram as visões conflituantes da religião e da filosofia e começaram a seguir o estudo da infância aplicando o método científico. Uma série de avanços haviam liderado o caminho para o estudo científico do desenvolvimento infantil e, os cientistas estavam a começar a discutir a importância da natureza e da criação. O segredo da concepção havia sido descoberto e algumas descobertas médicas, juntamente com melhoria de condições sanitárias resultou na sobrevivência de mais crianças durante a infância. Além disso, foram decretadas leis de trabalho infantil que permitiram às crianças passar mais tempo na escola. Assim, pais e educadores tomaram consciência da necessidade de abordar as questões relacionadas com o desenvolvimento da criança. Ainda, a ciência eminente da 15 Defensores das teorias sobre o desenvolvimento humano.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 30 psicologia trouxe a percepção de que as pessoas pudessem aumentar a auto-compreensão através do conhecimento sobre o que as havia afetado na infância. Foi neste século, conhecido como o século da história, do desenvolvimento e do progresso, que o campo sobre o estudo do desenvolvimento da criança foi surgindo e esta, passou a ter um lugar importante e de destaque para a ciência. (CAHAN, 2008) Charles Darwin (1809-1882) enfatizou a natureza do desenvolvimento do comportamento infantil. Foi Darwin, o criador da teoria da evolução das espécies, que gerou o estudo do desenvolvimento da criança através da crença de que os seres humanos se poderiam compreender melhor se se estudassem as suas origens. Ainda antes das publicações das teorias do Inglês naturalista Charles Darwin, o autor e editor escocês Robert Chambers (1802-1871), publicou o livro ‘Vestiges of the Natural History of Creation’, sustendo a teoria de que juntamente com a lei da gravitação existe uma outra grande lei, a lei do desenvolvimento. Capturando o espírito optimista deste tempo, o filosofo Inglês Herbert Spencer (1820-1903), defendeu que o desenvolvimento humano era lógico, não acidental e necessário. No livro ‘On the origin of Species’, publicado por Charles Darwin em 1859, é apresentada a teoria da evolução das espécies através da seleção natural. Sustendo a ideia de que a evolução ocorre de forma gradual, numa mudança não progressiva onde sobrevive o mais forte. ‘Não é o mais forte que sobrevive. Nem o mais inteligente. Mas o que melhor se adapta às mudanças.’ (NEWMAN, 2006) James Mark Baldwin (1861-1934) e John Dewey (1859-1952), dois distintos psicólogos filósofos, defenderam teorias poderosamente contrastantes. Para Baldwin, o processo de desenvolvimento estava direcionado pela natureza para um alcance da verdade, beleza e bondade. Contrariamente, Dewey acreditava que este processo se baseia nos valores culturais e históricos em que o individuo se insere. (CAHAN, 2008) O maior avanço no estudo sobre o desenvolvimento da criança, ocorre perto do início do século XX, quando G. Stanley Hall16 (1844-1924) publicou o livro ‘The Contents of Children’s Minds’ que, pela primeira vez, estabeleceu a adolescência como um período distinto de desenvolvimento. Considerado como o ‘pai da adolescência’, é conhecido pela formatação de temas em psicologia, educação e cultura popular. Com a publicação em 1883 do livro, Hall estabeleceu-se como líder no estudo da criança, movimento que teve como objetivo utilizar as descobertas científicas sobre o que as crianças sabem e quando elas aprendem. Procurando uma fonte de regeneração pessoal e social, Hall voltou-se para a teoria da evolução para um ideal de base biológico sobre o desenvolvimento humano, cuja ótima condição para tal era a saúde. Entre 1930 e 1940, os institutos de pesquisa foram criados em varias universidades, indicando que a psicologia da criança tinha sido estabelecida como uma verdadeira ciência com práticas profissionais. (CAHAN, 2008) 16 G. Stanley Hall. Teoria sobre Hall baseada em: Hall, G. Stanley. International Encyclopedia of Social Sciences, 1967. Disponível em: http.://www.encyclopedia.com/topic/Granville_Stanley_Hall.aspx, acedido a 29 de Julho de 2012.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 31 Arnold Lucius Gesell (1880-1961) foi também um pioneiro no campo de estudo sobre o desenvolvimento da criança, onde a pesquisa sobre marcos de desenvolvimento ainda é amplamente usada por psicólogos, pediatras e outros profissionais que trabalham com crianças. Gesell reconheceu a importância de fatores inatos e externos no desenvolvimento infantil. Ele acreditava que as crianças passam por fases com uma sequência fixa, dentro de um determinado período de tempo, com base em habilidades inatas humanas. Ele defendeu que as crianças devem ser apoiadas no crescimento natural das suas capacidades e que desta forma, os pais não devem impor um controle restrito nem permitir uma liberdade excessiva. A sua obra influenciou muitos teóricos do século XX, estimulando a pesquisa para descobrir as condições necessárias para suportar o crescimento normal e desenvolvimento psicológico para todas as crianças. (GESELL, 2008) NOTA CONCLUSIVA Na maioria das abordagens sobre a infância são identificados períodos distintos em que as crianças dominam habilidades específicas e enfrentam tarefas novas. Nos últimos séculos a visão sobre a criança e o seu desenvolvimento mudou drasticamente. Valorizamos agora a infância como um período especial de crescimento e mudança, que não era sequer considerada antes. Concebemos a noção de que a infância é um período de vida único, recheado de eventos e estabelece uma base importante para a fase da adolescência e mais tarde da adulta, e é altamente diferenciada desta última. Hoje o estudo sobre o desenvolvimento da criança, constitui uma abordagem interdisciplinar que deriva de uma variedade de disciplinas que incluem a psicologia, psiquiatria, sociologia, antropologia, biologia, genética, ciência familiar, educação, história e medicina. A investigação sobre o desenvolvimento continua a evoluir e com a ajuda dos avanços tecnológicos têm havido progressos na sua compreensão. Levantam-se ainda novas questões na construção de novas ideologias e contestam-se resultados anteriores para aumentar ainda mais a quantidade de conhecimento científico. Percebe-se que educar as crianças não é simplesmente enchê-las de conhecimento, mas em vez disso, é essencial interagir com elas.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 32 2.3 ABORDAGENS TEÓRICAS Como já vimos no sub capítulo anterior, o estudo sobre o desenvolvimento da criança não era considerado antes do século XVI e, só a partir do século XIX é que este se estabeleceu como disciplina. Durante algumas décadas, psicólogos e profissionais que trabalharam com crianças, estudaram e analisaram o seu desenvolvimento, gerando teorias que ainda hoje são seguidas por outros profissionais. Existem inúmeras, algumas das maiores são conhecidas como as grandes teorias e serão essas que aqui se pretende descrever e analisar com algum pormenor. Praticamente todas descrevem o processo utilizando estádios de desenvolvimento. Outras, menos conhecidas e por isso mais pequenas, focam-se apenas em aspectos limitados do desenvolvimento, assim como o desenvolvimento social ou cognitivo. Neste vasto leque de teorias e defensores, pretende-se aqui fazer uma abordagem àquelas que mais influenciaram e contribuíram para a percepção atual que define a criança, o seu modo de estar e aprender. Para Rebelo, as teorias psicanalíticas procuram entender o desenvolvimento humano a partir de motivações conscientes e inconscientes da criança, focando os seus conflitos internos durante a infância e pelo resto do ciclo vital. De entre os seguidores de estas teorias destacamos Sigmund Freud com a teoria psicossexual e Erikson com a teoria psicossocial. (REBELLO, et al.) Segundo Newman, Sigmund Freud (1835-1930) salientou a importância sobre os eventos e as experiencia vivenciadas durante a infância. Para Freud, a personalidade é em grande parte estabelecida até aos cinco anos e as experiencias vividas até aí desempenham um papel muito importante no desenvolvimento da personalidade e continuam a influenciar o comportamento mais tarde. A teoria freudiana é uma das teorias mais conhecidas e também das mais controversas. Freud focou-se mais em desordens mentais em vez de funções normais. Ele descreve o desenvolvimento da criança como uma série de estádios psicossexuais. Tal como outras teorias, os estádios de desenvolvimento apresentam uma sequência predeterminada que pode proceder a um resultado bem-sucedido ou fracassado, levando este último a uma personalidade doentia. Os estádios de desenvolvimento baseiam-se numa determinada zona erógena e ao todo são cinco: oral, anal, fálica, latência e genital. Na fase oral, do nascimento aos 18 meses, a criança fixa-se em prazeres orais (sucção). Mediante a maior ou menor fixação sobre esta atividade, pode levar a uma personalidade oral, cuja tendência será para fumar, beber álcool, comer mais ou até roer as unhas. A fase anal, dos 18 meses aos 3 anos, o foco de prazer da criança está na eliminação e retração das fezes. Esta pode resultar numa obsessão por limpeza, perfeição e controle (anal retentiva), ou o seu oposto, na confusão e desorganização (anal explosivo). Dos 3 aos 6 anos de idade, a fase fálica centra-se na zona de prazer dos órgãos genitais. Freud acreditava que nesta etapa, o rapaz desenvolve um desejo sexual inconsciente pela mãe e por causa deste motivo se torna rival do seu pai, procurando atenção e afeto da mãe. Esta fase é conhecida e descrita como o complexo de
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 33 Édipo17. Freud acrescentou ainda que, à semelhança dos rapazes, também as meninas desenvolvem uma atração inconsciente pelo pai, chamando a este - complexo de Electra18 (proposto em 1913 por Carl Gustav Jung). Se esta etapa não ocorrer de forma positiva, como resultado, poderá levar a depravados sexuais e à fraca ou confusa identidade sexual. A fase da latência, ocorrente desde os 6 anos de idade até à adolescência, os interesses da libido são suprimidos e direcionados para outras áreas como atividades intelectuais e interações sócias. Desenvolvem-se habilidades sociais, de comunicação e autoconfiança. Por fim, a fase genital, começa no início da puberdade e é nesta que os impulsos sexuais são novamente despertos, focando e direcionando estes para os pares do sexo oposto. Segundo Freud, esta ultima fase do desenvolvimento dá-se até ao final da vida. (NEWMAN, 2006) Erik Humburger Erikson (1902-1994) psicólogo e psicanalista, defendia que o desenvolvimento ocorre ao longo da vida do ser humano. Para Erik, cada ser humano passa por oito estádios de desenvolvimento até ao final da vida. Um dos elementos principais desta teoria é o desenvolvimento da identidade do ego. Segundo Erikson, a identidade vai-se modificando à medida que se vivem novas experiências dia após dia. Ele defendia que a vida vai-nos mostrando uma série de desafios e lições que nos ajudam a crescer. Em cada etapa, Erikson acreditava que as pessoas experienciam um conflito que serve como ponto de viragem no desenvolvimento que pode ou não ser ultrapassado. Dos oito estádios, consideremos apenas os cinco primeiros, correspondentes até à adolescência. No primeiro estádio (do nascimento aos 18 meses), confiança versus desconfiança, o bebé aprende a confiar ou desconfiar do seu ambiente. O segundo estádio, autonomia versus vergonha ou dúvida, ocorre entre os 18 meses e os 3 anos de idade. Durante esta fase, a criança utiliza as suas habilidades motoras e mentais para tentar ser mais independente e descobrir o seu próprio corpo. Nesta etapa elas precisam de aprender e decidir por elas próprias, caso contrário, a falta de atividade e uma proteção excessiva pela parte dos progenitores, fará com que a auto estima seja baixa, levando à vergonha. O terceiro estádio, iniciativa versus culpa, entre os 3 e os 5 anos de idade, ocorre como resultado das várias capacidades que a criança desenvolve até então. O sentido de realização nas tarefas e a capacidade de ultrapassar falhas, faz com que a criança tenha iniciativa para continuar. Caso contrario, se for rebaixada e desencorajada por criticismo, os sentimentos de incompetência começam a emergir, sentindo culpa. O quarto estádio acontece entre os 6 e os 12 anos. Durante esta fase, as crianças recebem aprovação pelas capacidades assim como, ler, escrever e fazer contas. Nesta idade escolar, os professores, amigos e colegas influenciam o seu futuro desenvolvimento. O criticismo e o desencorajamento (tal como na fase anterior) pode levar à frustração, e neste caso, os sentimentos de inferioridade e incompetência começam a emergir. (MELO, 2009) 17 Figura mitológica grega que acidentalmente matou o seu pai, e se casou com sua mãe. 18 Figura mitológica grega, filha de Agamemnon, a qual quis que o irmão se vingasse da morte do pai de ambos matando por fim, a sua mãe, Clytemnestra.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 34 ‘É humano ter uma longa infância; é civilizado ter uma infância maior ainda. Uma longa infância torna o homem mais capacitado, mas também lhe deixa um resíduo de imaturidade que perdura para o resto da sua vida.’ Erik Erikson (MELO, 2009) Segundo a teoria cognitiva, o desenvolvimento é construído a partir de uma interação entre o desenvolvimento biológico e as aquisições que se fazem com o meio envolvente. (NEWMAN, 2006) O psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), defendeu que as crianças pensam de maneira diferente dos adultos e propôs a teoria de desenvolvimento cognitivo baseada em quatro estádios de desenvolvimento: senso-motor; pré-operacional; operacional e operacional formal. Segundo a sua teoria, as crianças podem ser entendidas como pequenos cientistas que sozinhos constroem ativamente o seu conhecimento e compreensão do mundo através da interação com o ambiente, cometendo erros e aprendendo com eles. Segundo ele, a criança tem todos os mecanismos para aprender sozinha desde que a interação com o ambiente aconteça. O estádio sensório-motor ocorre desde o momento do nascimento até aos 2 anos de idade. Neste, as crianças experienciam o mundo através do movimento e dos sentidos, tentando estabelecer contacto através destas ações. A fase pré-operacional dá-se dos 2 aos 7 anos, onde as crianças adquirem capacidades motoras que as faz alcançar a imaginação e a fantasia, tornando-as mais egocêntricas durante este período. Na fase operacional dos 7 aos 11 anos, iniciam o pensamento lógico mas de forma pouco sólida, necessitando de ajudas práticas para que este se torne mais coerente. Nesta etapa, elas tornam-se menos egocêntricas e mostram mais maturidade emocional. O estádio operacional formal, ocorre depois dos 11 anos, em que as crianças desenvolvem o pensamento abstrato e podem agora estabelecer e manter o pensamento de forma lógica. (ALDRIDGE, 2008) Lev Vygotsky (1896-1934), foi o primeiro psicólogo a considerar o processo histórico-social no desenvolvimento do indivíduo, que define a teoria sociocultural. Ao investigar o desenvolvimento na criança, considerou que neste as condições culturais e sociais são muito importantes. Sendo a cultura, a sociedade, a história e a vivência que molda a forma de ser e de estar de cada individuo. Ao contrário do que defendia Piaget, Lev sugeria que a criança não precisa do ambiente, desde que seja incentivada a aprender. É a interação entre o sujeito e o meio, e as relações intra e interpessoais que são estabelecidas que o faz adquirir conhecimentos. (REBELLO et al.) No entanto e, tal como Piaget, Lev foi um dos primeiros a considerar a criança como ela própria e não um adulto em miniatura. Ele acreditava que a linguagem é a ferramenta chave para o desenvolvimento cognitivo e, introduziu o termo discurso privado, referindo que este representa o pensamento em voz alta da criança. (CAHAN, 2006) O psicólogo americano Albert Bandura (1925), propôs a teoria conhecida como a teoria da aprendizagem social. De acordo com esta teoria as crianças aprendem através da observação que fazem aos outros. Ao contrário das teorias comportamentais e, para este psicólogo, o desenvolvimento não se dá apenas pela observação externa, mas também pelos fatores intrínsecos
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 35 de cada um, assim como a sensação de satisfação, de orgulho, de realização. Conceitos que também levam à aprendizagem. (GRYCH & FINCHAM, 2001) Em 1970, o psicólogo americano demonstrou que as crianças aprendem através da interação social. Para Bandura, as crianças copiam os adultos à sua volta. Ele testou a reação das crianças ao verem um filme em que os adultos batiam em bonecos. A reação das crianças foi repetir o que viam os adultos fazer. (SCHLINGER, 1995) Como refere no seu livro, a aprendizagem seria extremamente trabalhosa, para não mencionar perigosa, se as pessoas tivessem que confiar apenas nos efeitos das suas próprias ações para as informar do que fazer. Felizmente, o comportamento humano é aprendido pela observação: pela observação aos outros forma-se uma ideia de como os novos comportamentos são executados, e mais tarde, noutras ocasiões, este código informativo serve como guia para a ação. (BANDURA, 1977) Para os defensores da teoria comportamental, as crianças nascem como tabuas rasas que vão aprendendo tudo pelo ambiente através do processo de imitação ou reforço. Foca-se em como o ambiente molda o comportamento e aprendizagem da criança. Distingue-se das outras teorias porque não considera os pensamentos e sentimentos interiores e, puramente valoriza o facto de a experiência moldar cada um de nós. De entre os seguidores desta teoria, encontramos Ivan Pavlol, John B. Watson, e B. F. Skinner. (DeROBERTIS, 2008) Destaca-se B. F. Skinner (1904-1990), autor e psicólogo que defendia que as crianças aprendem por observação. Tal como Piaget, ele descreveu as crianças como ‘pequenos cientistas’, que constroem o seu próprio mundo através da sua lógica, observação e experiência. A criança aprende se será recompensada ou não pelos seus atos, sejam eles bons ou maus. Skinner desenvolveu a teoria do reforço, isto é, para mudar uma conduta, é preciso mudar as consequências dessa mesma. Isto acontece através das ações: estímulo - resposta - consequência - resposta futura. (ALDRIDGE, 2006) Os psicólogos que seguem esta teoria acreditam que o comportamento humano segue determinadas regras, conhecidas como associação e reforço. Quer isto dizer que a aprendizagem no ser humano se dá através da experiência. Se uma criança ao tocar numa vela se queimar, vai associar a chama à dor. Este ato ao ser repetido vai reforçar a lição de não tocar na chama. Os defensores da teoria comportamental acreditam que é assim que a aprendizagem acontece. (DeROBERTIS, 2008) Nas décadas de 30 e 40, alguns seguidores da teoria comportamental, começaram a centrar-se no comportamento da criança e particularmente nos estilos de aprendizagem. Este foco produziu teorias sobre as fases iniciais de desenvolvimento na criança que, influenciam ainda hoje as teorias educacionais. (CAHAN, 2006)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 36 NOTA CONCLUSIVA Constatamos que as teorias se deparam com a mudança ao longo do tempo e são extremamente influenciadas e definidas por este. É importante examinar a psicologia de desenvolvimento como um todo, em vez de aceitar o trabalho de um ou outro teórico e especialista como uma verdade só. Sem o trabalho de Piaget, Bandura, Erikson, Freud, e outros que aqui falamos, as teorias sobre a psicologia do desenvolvimento e a teoria cognitiva e educativa não existiriam e provavelmente a educação seria muito diferente. Atualmente, a mais recente abordagem à infância inclui a identificação de distintos períodos de desenvolvimento que abrangem momentos especiais de crescimento e mudança, e o domínio de novas competências. Embora seja verdade que há ainda muito a ser feito para melhorar a vida de todas as crianças, a metodologia de hoje dirige uma grande quantidade de pesquisa e financiamento no cuidado e educação de crianças pelo mundo inteiro. (NEWMAN, 2006) Viver numa sociedade em que a infância é pensada como uma série de estádios de desenvolvimento tem efeitos na criança. Por exemplo, a escola é organizada segundo uma série de progressões na idade. Separando-as não só dos adultos, mas também das outras crianças com idades diferentes. Organizar a vida da criança segundo estas regras, acaba por também influenciar naquilo que ela própria pode alcançar.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 43 Figura 09. Sequência de desenvolvimento motor na criança até aos 15 meses, Shirley (1931). A estatura final que cada um alcança, é o resultado da interação entre a sua carga genética e os factores do meio ambiente que permitem a maior ou menor expressão do seu potencial genético. Poucas funções biológicas dependem tanto do potencial genético como o crescimento. A qualquer momento, desde a concepção e especialmente em crianças pequenas, factores ambientais podem perturbar o ritmo e a qualidade desse processo. O alcance dessa meta biológica depende em muito de condições ambientais em que se dá o crescimento da criança sendo a sua influência marcante. (SAÚDE, 2002) (Fonte:http://www.what-when-how.com/Child-development/motor-developmentchild-development/, acedido a 18 de setembro de 2012.)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 44 2.5 FATORES DE INFLUÊNCIA De acordo com Saúde, a sequência regular e previsível de crescimento físico e desenvolvimento psicomotor, sofre influências continuas de fatores intrínsecos e extrínsecos que provocam variações no decorrer do processo, e tornam o curso de desenvolvimento de cada criança distinto e singular. Segundo Santos, os dois principais factores de influência responsáveis pelas características físicas e cognitivas que tornam cada ser humano único, são o meio ambiente (fator extrínseco) e a hereditariedade (fator intrínseco). Estes terão a sua influência positiva ou negativa na criança. (SAÚDE, 2002) Pretende-se aqui dar especial atenção sobre a importância do meio ambiente, na medida em que é este que proporcionará toda uma estrutura relacionada com o mobiliário. 2.5.1 FATORES INTRÍNSECOS Segundo Santos, compreende-se por fatores intrínsecos a herança genética. Esta é definida no dicionário da língua portuguesa como a ‘propriedade dos seres vivos transmitirem as suas características aos descendentes.’ Do ponto de vista do crescimento, a herança genética recebida pelo pai e mãe estabelece um potencial ou alvo que pode ser atingido. É esta que determina as características físicas visíveis da criança, tal como a cor dos olhos, do cabelo, tipo de pele, sexo, raça, etc. A genética determina não só uma ampla variedade de atributos normais dentro de uma espécie, mas também a transmissão de genes defeituosos que influenciam negativamente o ritmo de crescimento e desenvolvimento. (SANTOS, 2006) Segundo Newman, ao conjunto de características que um individuo recebe por hereditariedade denomina-se de genótipo. A manifestação deste é revelada através do fenótipo que, segundo o mesmo, constitui o conjunto de características observáveis num organismo. Assim, a aparência de cada um é determinada em grande parte pelo fenótipo, em consequência do seu genótipo e do ambiente que o rodeia. (NEWMAN, 2006) Como é referido por Engle, et al., ao contrário das influências ambientais, as influências genéticas tendem a ser mais consistentes em todas as idades, uma vez que estará sempre presente. Poucas funções biológicas dependem tanto do potencial genético como o crescimento. No entanto, alcançar a meta biológica depende em muito das condições ambientais onde se dá o crescimento da criança. (ENGLE, et al., 2009) ‘Nature is all that a man brings with himself into the world; nurture is every influence that affects him after his birth. The distinction is clear: the one produces the infant such as it actually is, including its latent faculties of growth and mind: the other affords the environment amid which the growth takes
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 45 place, by which natural tendencies may be strengthened or thwarted or wholly new ones implanted’. (Galton, 1874) 2.5.2 FATORES EXTRÍNSECOS De acordo com Saúde, ‘a influência do meio ambiente ocorre desde a vida intrauterina quando, a partir de um certo momento, o crescimento do feto é limitado pelo espaço da cavidade intrauterina e está dependente da saúde, nutrição e estado físico da mãe.’ Ainda segundo o mesmo autor, os fatores extrínsecos que influenciam o crescimento depois do nascimento incluem alimentação, cuidados de saúde, higiene, cuidados gerais com a criança, posição familiar, social e económica. O meio ambiente inclui também condições geográficas e físicas, atividade física e interação familiar. Um exemplo desta última é a baixa estatura encontrada em crianças com problemas na afetividade e vítimas de violência doméstica. Nesta situação, também conhecida como ‘baixa estatura óssea psicossocial’, existe não só atraso no crescimento, mas também no desenvolvimento ósseo, neuropsicomotor e emocional. Ainda um outro exemplo que demostra a importância do meio externo, tal como a condição geográfica, é a aceleração do crescimento que se faz sentir em grandes centros urbanos, representando não só por uma estatura mais elevada, como também por uma maturidade biológica alterada. (SAÚDE, 2002) Doenças, desnutrição, estádios infamatórios, etc., trazem um prejuízo enorme para o crescimento, e faz com que este não se processe de forma adequada. Uma boa alimentação e a prática desportiva promovem um avanço na idade óssea em relação à cronológica. (SANTOS, 2006) Quanto mais jovem for a criança, mais pendente e vulnerável é em relação ao ambiente. Isso faz com que condições favoráveis ao crescimento sejam função, não apenas dos recursos materiais e institucionais com que a criança pode contar (alimentação, morada, saneamento, serviços de saúde, creches, pré-escolas e escolas), mas também dos cuidados gerais como o tempo, a atenção, o afeto da mãe, a família e a sociedade como um todo lhe dedicam. Tempo, atenção e afeto definem a qualidade do cuidado infantil e, quando maximizados, permitem a otimização dos recursos materiais e institucionais de que a criança dispõe. (SAÚDE, 2002) Nas crianças menores de cinco anos, a influência dos fatores ambientais é ainda mais importante que a dos factores genéticos para a expressão do seu potencial de crescimento. Os fatores genéticos têm uma influência mais marcante nas crianças maiores de 5 anos. É no adolescente e no jovem que o potencial genético mais se representa. (NEWMAN, 2006) Durante os primeiros anos de vida, a criança começa a interagir com o ambiente que a rodeia e neste processo está incluída a família e a sociedade em geral. Aprender a viver em família e em sociedade é uma das partes mais importantes do desenvolvimento, onde estes intervenientes interpretam um papel muito relevante no processo. A criança necessita de estabelecer relações afetivas e de se estruturar como sujeito para ganhar uma identidade própria. (SAÚDE, 2002) A posição familiar em que a criança se encontra, o número de irmãos, os amigos, o nível financeiro dos progenitores, a educação a que tem acesso, o país onde vive, a cultura em que está
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 46 inserida, a alimentação e as condições climatéricas a que está sujeita são influências ambientais que condicionam e influenciam o seu desenvolvimento. (SANTOS, 2006) Embora a genética desempenhe um papel na capacidade de desenvolvimento da criança, a evidência mostra a importância da genética/ambiente na forma como esses genes são expressos, e no papel importante que as variações ambientais desempenham nos processo de desenvolvimento e educação. É possível que estas influências ambientais sejam ainda mais importantes em condições de pobreza, desnutrição e maus tratos. (ENGLE, et al., 2009) Existe um maior aumento de mortalidade infantil entre crianças com um nível socioeconómico mais baixo e estas apresentam uma maior tendência para sofrer de problemas como asma, níveis mais elevados de chumbo e outras doenças respiratórias. (ENGLE, et al., 2009) Na maioria das vezes as famílias não podem pagar cuidados médicos, o que significa que as crianças não têm os recursos necessários para detetar e tratar problemas de saúde. A falta de recursos económicos criam um impacto significativo e profundo no seu desenvolvimento, levando-a muitas vezes a desenvolver comportamentos negativos e violentos. (SANTOS, 2006) Cinquenta porcento dos problemas relacionados com o comportamento que a criança pode desenvolver numa situação de pobreza, podem ser prevenidos com educação parental. (ENGLE, et al., 2009) Tal como defendeu Freud, o meio ambiente em que a criança é criada contribui para a formação integral da sua personalidade e nível de inteligência, podendo mesmo promover ou impedir a evolução de determinadas doenças físicas ou mentais. (NEWMAN, 2006) Ridley afirma que ‘a mãe natureza não impediu claramente a determinação das nossas capacidades intelectuais para cegar o destino de um gene ou genes; Ela deu-nos pais, aprendizagem, linguagem, cultura e instrução para nos podermos programar.’ (Ridley, in: TRAWICK-SMITH, 1997) O mobiliário que se encontra inserido no ambiente em que a criança cresce, pode proporcionar um bem-estar e melhorar as suas condições de vida. Uma criança que vive num meio ambiente pobre, com poucos recursos sociais e económicos normalmente gera um declínio no crescimento. ‘A minha cama era pequena e eu dormia com a minha irmã. Eu não dormia bem e de manhã acordava rabugenta. Na escola tinha sono e não prestava atenção às aulas. Durante o dia não tinha atividade e sentia o corpo sem energia.’19 19 Relato baseado em: UNICEF, Vídeo. Eat Sleep Learn Play for Save the Children. Disponível em: http://www.vimeo.com/20915053, acedido a 2 de Fevereiro de 2012.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 47 2.6 CRESCIMENTO NA POPULAÇÃO MUNDIAL variações a nível social e cultural Se o crescimento depende em grande parte do ambiente que rodeia a criança, as diferenças culturais que separam as sociedades em muito contribuem para que este ocorra de forma díspar em vários países. Sabemos também que a influência ambiental afeta mais as crianças até aos 5 anos. Os recursos sociais, económicos e familiares, sejam eles bons ou maus acabam por refletir-se nas atitudes, comportamentos e capacidades futuras da criança. Segundo Engle, et al., a cultura, as condições climatéricas, os hábitos de vida e a própria sociedade influencia e determina o potencial de crescimento. As praticas parentais e as ideias sobre o desenvolvimento da criança são largamente determinadas por ideias culturais. ‘[...] as culturas têm uma ampla gama de valores para as competências e habilidades que as crianças devem desenvolver e quando elas devem ser exibidas. As habilidades podem surgir mais cedo se forem encorajadas e incentivadas numa cultura em particular.’ (ENGLE, et al., 2009) Segundo Saúde, em 1974 Habitcht demonstrou que crianças menores de 5 anos de diversas nacionalidades, crescem a um ritmo semelhante (à exceção dos orientais e algumas tribos africanas), desde que submetidas a boas condições de vida. O mesmo não acontece de modo similar às crianças de países desenvolvidos, ao passe que as de baixo nível socioeconómico crescem a um ritmo mais lento. Num outro estudo feito com filhos de imigrantes japoneses que nasciam e viviam nos Estados Unidos, estes eram mais altos que os seus parentes que permaneciam a viver no Japão. Atualmente com o desenvolvimento que o Japão alcançou, essa diferença desapareceu, enfatizando assim a influência que os factores ambientais exercem sobre a tendência secular de crescimento em grupos populacionais. Ainda um outro estudo feito com 300 pares de gémeos homozigotos20 criados separadamente, e em condições sócio económicas bem diferentes, demonstrou uma variação média de 6 cm de altura quando adultos, sendo que os indivíduos criados em ambientes carentes e com acesso limitado à saúde foram sempre mais baixos que os seus irmãos. (SAÚDE, 2002) Na figura 5 podemos verificar as diferenças sobre a estatura entre meninos com 5 anos de idade, em 9 países diferentes, com estratos socioeconómicos altos e baixos. Os de estratos mais altos são maiores do que os de estratos mais baixos. Constatamos ainda diferenças no crescimento relacionadas com a localização geográfica. No Brasil, os meninos de baixo estrato socioeconómico, ainda assim apresentam diferenças em relação a outros do mesmo nível mas em áreas mais urbanas. Em áreas urbanas como São Paulo, apresentam estaturas maiores do que os do Nordeste rural, por exemplo. (SAÚDE, 2002) 20 Termo genético para indicar uma genética semelhante.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 48 Figura 10. Estatura de meninos de 5 anos de idade de países desenvolvidos e estratos socioeconómicos altos e baixos de países em desenvolvimento. De acordo com Lida, as diferenças culturais e populacionais resultam em crescimentos diferentes. Os árabes, por exemplo, tem os membros (braços e pernas) relativamente mais longos do que os europeus, enquanto que os orientais têm membros mais curtos. Os povos que habitam regiões de climas mais quentes têm o corpo mais fino e os membros superiores e inferiores relativamente mais longos. Aqueles de clima mais frio têm o corpo mais cheio, são mais volumosos e arredondados. (LIDA, 1990) Ainda e, segundo Coffey, na índia as crianças nascem mais pequenas e com menos peso. Elas crescem mais lentamente, em comparação com crianças mais saudáveis, e à medida que crescem os índices de peso e altura e diminuem cada vez mais. (COFFEY, 2012) Gráfico 3. Gráfico nível de crescimento de crianças indianas até aos 3 anos. (Fonte: Rice Homepage, How small is too small?. Disponível em: http://riceinstitute.org/wordpress/2012/04/18/howsmall-is-too-small/, acedido a 26 de Agosto de 2012.) (Fonte: SAÚDE, 2002.)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 49 cap. 03 MOBILIÁRIO GERAL E ESPECÍFICO Móveis são objetos dinâmicos que permitem a possibilidade de se adaptar a várias necessidades ou situações. É através de certos princípios de design que se permite a adaptação e transformação dos objetos ao crescimento da criança. Este capítulo reúne informação referente ao mobiliário em geral, que permite a adaptação A ideia de mobiliário que se possa adaptar a necessidades relacionadas com o crescimento não surge há muito tempo atrás. No entanto, os objetos flexíveis e multifuncionais têm uma longa história nas sociedades e civilizações antigas. O mobiliário infantil só começou a ser idealizado de forma mais cuidada e rigorosa a partir do século XIX. Para realizar um design eficaz, é fundamental ter em conta os fatores ergonómicos e antropométricos da criança. Desta forma, a usabilidade do produto é testada. Na procura por soluções amigas do ambiente, o eco design possibilita a redução dos impactos ambientais associados aos processos de fabricação e distribuição.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 50 3.1 CONCEITOS E DEFINIÇÕES conceito de móvel e princípios de design adaptável Desde que o homem passou a ter uma habitação fixa, começou a desenvolver peças de mobiliário que pudessem dar apoio às tarefas nos interiores das casas. Segundo o dicionário da língua portuguesa, o temo mobiliário, é utilizado para definir o conjunto de objetos que se destinam a apoiar as várias atividades humanas, assim como sentar e deitar. Serve ainda como objeto de decoração, para sustentar objetos e armazenar outros, como são exemplo as cómodas, prateleiras e estantes. Segundo Fiell, estes objetos, denominados de móveis, podem ser feitos de diversos materiais, tal como madeira, metal, plástico e vidro, e são um elemento essencial nos interiores das casas. (FIELL, 2006) No dicionário da língua portuguesa, define-se a palavra móvel como algo ‘que pode ser movido ou mudado. = Móbil, Movível ≠ Fixo, Imóvel; [...] Instável, variável. ≠ Constante; objecto de mobília.’ Assim, e como a própria palavra indica, móveis são objetos que podem ser movidos. Não são estáticos e imóveis, podem ser transportados, modificados e transformados. Embora a grande maioria dos móveis sejam muitas vezes utilizados como peças imóveis, que permanecem no mesmo local por um longo período de tempo, pequenos móveis como cadeiras e mesas são constantemente movíveis e utilizadas no sentido pleno da designação de móvel. Como afirma Bruno Munari, ‘a única constante do mundo é a mudança. Se alguém procurar detêla, detêm-se a si mesmo e envelhece mal.’ (MUNARI, 1981) A mudança nas relações humanas, no conceito familiar e no interior das casas que se vive atualmente, alterou necessidades e hábitos relacionados com o mobiliário em si. Como afirma Colombo, ‘os hábitos mudam, o interior das casas têm que mudar com eles.’ (Colombo, in: VASCONCELOS, 2009) Os espaços, cada vez mais pequenos, procuram muitas vezes soluções inteligentes e flexíveis o suficiente, para uma fácil transformação. Neste prisma, o conceito de mobiliário adaptável enquadra-se no estilo de vida atual, não só pelas necessidades e preocupações que surgem em relação ao espaço nos interiores das casas como pelas preocupações ambientais, cada vez mais patentes na sociedade. De acordo com Schwartz, multifuncional, versátil, mutável, ajustável, transformável, convertível, são termos que gravitam em torno do design adaptável. No dicionário da língua portuguesa, o termo adaptar define-se como ‘tornar apto, fazer com que uma coisa se combine convenientemente com outra; acomodar; apropriar.’ Neste prisma, design adaptável é aquele se adapta a mais do que uma circunstância, ou à mesma mas em sentidos diferentes. Este permite modificar o objeto, convertendo-o ou combinando-o com
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 51 outro para suportar outras funcionalidades. E se segundo o dicionário da língua portuguesa, o ‘que tem varias funções ou utilidades’ define o termo multifuncional, é também por isso, multifuncional. Um produto multifuncional pode assim ser ajustável e moldável à situação e/ou função, possibilitando a conjugação de vários produtos num só. A adaptabilidade permite ao usuário utilizar o mesmo produto em mais do que uma situação, e este fator acarreta benefícios económicos, sociais e práticos. (SCHWARTZ-CLAUSS, et al., 2002) No caso do mobiliário adaptável ao crescimento, este pode adaptar-se às alterações físicas da criança, ‘crescendo’ com ela mas dando apoio ao mesmo modo de estar (por exemplo, sentar); ou dando apoio a diferentes modos de estar consoante outras atividades que surgem também no decorrer do processo, tal como é exemplo a introdução da criança na vida escolar. Quando um produto é posto de lado e ainda se encontra em perfeitas condições de utilização, a adaptabilidade torna-se aqui numa mais-valia. O objectivo do design adaptável ao crescimento é assim fazer com que este tenha um nível de utilização maior e por isso possa durar mais tempo, não só acompanhando a criança no seu crescimento, mas também reduzindo desta forma, o seu impacte ambiental e económico. Fazer com que o mobiliário seja adaptável ao crescimento da criança e, às alterações físicas que esta apresenta, é fazer com que este se possa transformar e modificar à medida que a criança cresce, apoiando em atividades que surgem como reflexo do crescimento físico. É por isso flexível e versátil e, não apenas muda e transforma a sua localização física, mas também a sua função e organização em relação ao ambiente, influenciando os hábitos e a relação entre utilizador e ambiente. Interagem com o usuário, na medida em que não são estáticos e procuram satisfazer requisitos que exigem mudanças funcionais ao longo do seu tempo de vida. A mudança é inevitável e os objetos que conjugam várias funções são idealizados por forma a responder a diferentes funções ou necessidades dos utilizadores. Design flexível é aquele que permite a multifuncionalidade, é mutável. Este, é susceptível de ser mudado, podendo alterar localmente ou completamente o seu aspecto formal. Pode ser multifuncional alterando a configuração da peça através dos movimentos do objeto. No entanto, design multifuncional não significa necessariamente modular. Um objeto pode ser multifuncional sem que seja necessário alterar a sua forma. Através de simples movimentos rotativos na peça, esta pode oferecer mais do que uma solução de utilização. O conceito de mobiliário adaptável surge muitas vezes através da utilização de sistemas modulares. No dicionário da língua portuguesa define-se o termo modular como proveniente ‘do latim modulor, -ari), medir, regular, marcar o ritmo, compor versos, tocar; construir por módulo.; cantar, ler ou dizer com modulação.; varia a altura ou a intensidade da voz.; [Física] Varia a frequência ou a amplitude de ondas electromagnéticas; (módulo + -ar); relativo a módulo; composto por módulos.; [Arquitetura] Que utiliza as ordens arquitectónicas coríntia, dórica e jónica.’
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 52 Como vemos, a palavra modular é aplicada em diferentes áreas e consoante estas o seu significado é alterado. Segundo Martins, enquanto que na electrónica são considerados módulos, as componentes de peças que podem estar inseridas dentro do carro (por exemplo); para o design, toda a estrutura de uma peça pode ser conseguida através da modularidade. (MARTINS, 2002) Segundo Vasconcelos, utilizando diferentes componentes, podem formar vários produtos num só, se conjugados. Possibilita a criação de, com um numero de peças semelhantes ou diferentes, e utilizando uma geometria estudada para efetuar a montagem, uma vasta gama de possibilidades. Esta possibilidade de criar várias soluções, torna o objeto rentável uma vez que poderá alcançar um nível de utilização maior do que outros que não se enquadrem nesta categoria. (VASCONCELOS, 2009) Hilstrom refere que ‘os produtos modulares cumprem várias funções globais através da combinação de blocos de construção ou módulos.’ (Hilstrom in: VASCONCELOS, 2009) Assim, este tipo de design implica que o produto se relacione com outros. A modularidade permite mudança, através da expansão, reorganização, personalização, e a flexibilidade, tornando um objeto capaz de se transformar outro totalmente diferente. (MARTINS, 2002) O jogo didático Lego21, talvez tenha sido um dos primeiros produtos modulares a ser desenvolvido através de um conjunto de peças diferentes que, utilizando o mesmo sistema de ligação comum, permite executar uma variedade infinita de brinquedos. Figura 11. Lego Bricks, 1949. Um exemplo de design de mobiliário utilizando o conceito modular é o sofá kids furniture de Designkin Desai. Este permite que a criança possa criar várias zonas de estar diferentes, utilizando peças que encaixam facilmente umas nas outras. Figura 12. Sequência de imagens do sofá modular, kids Furniture, Designkin Desai. 21 Proveniente das palavras alemãs ‘LEg GOdt’ (play well), desenvolvido pela empresa Lego em 1949. (fonte: Lego Homepage. Disponível em: http://www.lego.com, acedido a 20 de Agosto de 2012.) (Fonte: http://www.interiordesign-center.com/cute-modular-sofa-kids-furniture-design-by-designskin.html, acedido a 12 de Setembro de 2012) (Fonte: http://www.lego.com, acedido a 12 de Setembro de 2012)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 59 Figura 20. Ilustração de uma armação permanente para criança e berço com tiras, c. 1657. Figura 21. Ilustrações de cadeira alta e baixa de criança, século XVII. Segundo Lambert, até meados do século XVII, os quartos privativos eram pouco comuns. As camas estavam presentes em muitas das áreas da casa e serviam também para sentar, assim como hoje é utilizado o sofá. Os primeiros tipos de berços utilizados foram de certa forma semelhantes aos de hoje e eram colocados ao pé da cama dos pais. Eram baixos e feitos maioritariamente em madeira, e quase todos tinham pés arredondados para poder balouçar o bebé. As casas eram pequenas e com poucas divisórias e por isso era comum as crianças dormirem no quarto dos pais. (LAMBERT, 2012) (Fonte: http://periodfurniture-carved.co.uk/history/part9/history-9.htm, acedido a 4 de Setembro de 2012.) (Fonte: Kid History Homepage. Disponível em: http://www.kidhistory.org/p42x44.html, acedido a 3 de Setembro de 2012.)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 60 Figura 22. Exemplos de berços do século XVII. No final do século XVII, o mobiliário tornou-se um pouco mais confortável e decorado. As madeiras como o mogno e a nogueira começaram a ser utilizados a partir de 1680. As peças eram decoradas utilizando técnicas diferentes das vistas até então. A madeira esculpida era preenchida com madrepérola. As madeiras mais baratas foram revestidas com pedaços de madeira mais cara e a lacagem, proveniente de Inglaterra, levou a que o mobiliário começasse a ser revestido com cores brilhantes. Mais tarde, novos tipos de mobiliário foram introduzidos, assim como a estante para livros. Ainda nesta época, tornou-se bastante popular o relógio de parede e as cómodas. Estofadas e acolchoadas, as cadeiras tornaram-se mais confortáveis e comuns nas casas das pessoas mais ricas e ainda nesta altura, apareceram as primeiras poltronas. Apesar de todos estes avanços, o mobiliário nas casas mais modestas, permaneceu bastante básico. (LAMBERT, 2012) Um retrato familiar de uma família Suíça, datado de 1601 mostra uma criança sentada numa cadeira mais baixa. Acredita-se que este representa um dos mais antigos exemplos desse tipo de mobiliário. (HEGNER, 2008) Nesta época, alguns objetos de mobiliário multifuncional e transformável começaram a surgir. Um exemplo disso é o piano transformável em cama, desenvolvido por Charles Hess em 1866. 12/08/12 Convertible+Bed+Room+Piano1866.jpg (426×550) 1/14.bp.blogspot.com/-‐‑Jyryca8sPOc/TbWtHLTn4yI/…/Convertible+Bed+Room+Piano1866.jpg (Fonte: 4.bp.blogspot.com/‐ Jyryca8sPOc/TbWtHLTn4yI/.../Convertible+Bed+Room+Piano1866.jpg, acedido a 12 de Agosto de 2012.) (Fonte: Furniture styles Homepage. Disponível em: http://www.furniturestyles.net/a merican/antique/beds/cradles.ht ml, acedido a 4 de Setembro de 2012.) (Fonte: design sponge Homepage. Disponível em: http://www.designsponge.com/2010/02/past -present-murphy-beds.html, acedido a 3 de Setembro de 2012.) Figura 23. Ilustração de cama convertível em piano, 1866. Figura 24. Cama convertível em piano, c.1865.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 61 Segundo Azzearito, no século XIX, por volta de 1870 a prática de esconder o leito tornou-se numa arte extremamente prática. Também a falta de espaço no interior de algumas casas fez com que se começasse a esconder a cama, surgindo assim a cabine/cama. Esta servia como cama e sinalizava o círculo social ao qual a família pertencia. Um exemplo de mobliário flexível e transformável que começou a emergir na sociedade e nos modos de vida da altura. (AZZEARITO, 2010) Figura 25. Cabine de sala transformável em cama (fechado e aberto), c.1870. A busca de objetos multifuncionais e transformáveis chegou ao mobiliário de criança, principalmente numa grande variedade de cadeiras. Cadeiras altas e baixas que, de forma flexível, se transformavam para dar apoio a diferentes atividades. Assim, temos o exemplo da cadeira alta para as refeições, que se transformava em cadeira baixa com mesa para a criança brincar (figura 26). (SCHWARTZ-CLAUSS, et al., 2002) Figura 26. Gebruder Thonet, Cadeira alta de criança, transformável, 1890. Segundo Hegner, as razões que estão por detrás de cadeiras altas e baixas, prendem-se com a independência da criança. As cadeiras mais baixas são feitas para tornar as crianças mais (Fonte: SCHWARTZ-CLAUSS, et al., 2002.) (Fonte: design sponge Homepage. Disponível em: http://www.designsponge.com/2010/02/pastpresent-murphy-beds.html, acedido a 3 de Setembro de 2012.)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 62 independentes, enquanto que as altas trazem a criança para o nível de um adulto à mesa, com o objetivo de as ensinar a comportar-se. (HEGNER, 2008) Figura 27. Cadeira convertível em carrinho, época vitoriana (1837-1901). Foi no século XIX que os berços começaram a evoluir para camas. As crianças, que até aqui dormiam com os pais, passaram a ter a sua própria cama. Segundo Lambert, adquiriu-se a percepção de que o berço ao nível do chão representava perigo para a criança, na medida em que esta podia facilmente sair dele, causando insegurança. Assim, os berços passaram a ser mais altos e com barreiras laterais para que a criança não pudesse sair. Ainda que se utilizassem berços no primeiro ano de vida, estes deixaram de ser tão comuns para serem substituídos por camas pequenas ainda assim grandes o suficiente para que a criança pudesse dormir até perto dos 2 anos de idade. (LAMBERT, 2012) Segundo Lambert, a infestação de animais em camas de madeira, fez com que houvesse uma transformação nas camas de bebé. A madeira foi inicialmente substituída por ferro mas voltou passado pouco tempo com acabamentos melhorados e mais seguros para a criança. À medida que as casas foram aumentando e o espaço interior se tornou suficientemente grande para definir quartos separados, as crianças passaram a ter o seu próprio quarto. (LAMBERT, 2012) (Fonte: Antique Helper Homepage. Disponível em: http://www.antiquehelper.com/item/312765, acedido a 3 de Setembro de 2012.) Figura 28. Ilustração de cama de bebe, século XIX. Figura 29. Cama de criança e sofá do século XIX (Fonte: http://www.1stdibs.com/furniture_item_zoom.php?id=619229&vi ew=1, acedido a 12 de Setembro de 2012.) (Fonte: http://wikipédia.com, acedido a 12 de Setembro de 2012.)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 63 Segundo Lambert, com a revolução industrial no começo do século XIX, a produção em massa acentuou-se ainda mais. A era tecnológica e a manufatura assistida por maquinaria apropriada, fez com que no inicio do século XX, a classe trabalhadora passasse a ter melhores condições de vida, e as casas passaram a ser mais recheadas de mobiliário. Se até aqui o mobiliário infantil era raro e o acesso a ele era separado por classes económicas, a partir desta altura tudo mudou. (LAMBERT, 2012) Surgem novos dispositivos móveis para criança, assim como o carrinho e o assento para o carro. Começa-se a dar mais importância ao conforto e ao crescimento da criança, introduzindo objetos que promovem a brincadeira. (CRAWLEY, 2006) Segundo Periale, o Taylor-Tod Infanseat de Frank F. Taylor Co., Inc., datado de 1924, é uma combinação de cadeira alta, assento para bacio, assento para carro e ainda balouço, pendurando-o com umas cordas ao teto. Este objeto multifuncional foi um grande êxito de vendas nos anos 20 e 30. (PERIALE, 2010) Figura 32. Ilustração Taylor ‘Infanseat’, cadeira alta, assento para bacio e acento de carro, 1924. (Fonte: http://blog.library.si.edu, acedido a 3 de Setembro de 2012.) (Fonte: The virtual museum Homepage, disponível em: http://www.thevirtualdimemuseum.com/2009/03/vi ctorian-baby-swings.html, acedido a 3 de Setembro de 2012) (Fonte: Google Patentes. U.S.A. 1972, acedido a 3 de Setembro de 2012) Figura 30. Ilustração de Balouço de bebe, J. H. Wygant & R. P. Paulison, patente de 1872. Figura 31. Folheto de cadeira transformável em balouço, 1901.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 64 Em 1957, o designer industrial alemão Enter Kristian Vedel (1923-2003), desenvolveu a cadeira de criança que serve também como mesa para adultos. Projetada para crescer com a criança, esta cadeira ainda se encontra atualmente em produção pela ‘architectmade’, e é um exemplo perfeito da visão do designer. Vedel foi um dos primeiros designers a defender que o mobiliário de criança não devia ser uma versão miniatura dos adultos e a sua filosofia influenciou o design Escandinavo. A cadeira é reconfigurável para servir múltiplas funções. Ela serve como cadeira de criança, como mesa, como objeto que interage com a criança para ela brincar, mesa-de-cabeceira, de local para armazenar ou exibir outros objetos. (A.R.T, 2011) Este terá sido um dos primeiros exemplos de design adaptável ao crescimento. Figura 33. Cadeira multifuncional, architectmade,1957. Durante muito tempo, não existiram móveis feitos especificamente para crianças. Estes eram réplicas de móveis para adultos, simplesmente com medidas mais pequenas. Durante anos, o berço e esporadicamente a cadeira constituíam o universo de mobiliário para criança. O mobiliário infantil reflete a forma como os adultos vêm e percebem as necessidades, exigências e conforto das crianças. É sobretudo o espírito do tempo que determina a compreensão da forma, função e criação do mobiliário infantil. Hoje, os interiores das casas têm todo o tipo de mobiliário. Embora continuem a ser os mais desfavorecidos que têm menos mobiliário e de certa forma muito básico, os modos de vida são (Fonte: http://www.art-rethought.com/blog/tag/interior-design/, acedido a 5 de Setembro de 2012.)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 65 outros e como consequência, os interiores das casas são bem mais confortáveis e atendem a todo o tipo de necessidades. Embora existam ainda alguns povos primitivos com os quais podemos estabelecer algum paralelismo com a época pré-histórica, a qualidade de vida do Homem evoluiu tremendamente. Séculos e milénios se passaram até que a era da tecnologia se instalou e trouxe com ela o avanço no desenvolvimento de produtos. O conceito de móvel evoluiu consideravelmente ao longo dos séculos. É um conceito vasto e amplo que abrange uma série de possibilidades. Mais do que nunca, podemos criar soluções extremamente versáteis e multifuncionais, que se adaptem a diferentes situações, alterando aspetos formais e simbólicos. Atualmente existem uma série de móveis que apoiam não só o crescimento da criança, assim como como outras atividades relacionadas com ela.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 66 3.3 DESIGN DE MOBILIÁRIO PARA CRIANÇAS considerações O desenvolvimento de um produto é um processo multidisciplinar que implica conhecimentos que têm necessariamente de ser integrados, para um bom resultado. Especialmente no design para crianças, assegurar a sua proteção e segurança é fundamental. A segurança é o fator mais importante nas considerações de design e espaços infantis. Segundo Playthings, um ambiente seguro incluí: equipamento feito de materiais não tóxicos, assim como a madeira, estantes estáveis e objetos fixos com esquinas arredondadas. Para além destas, a fácil limpeza e manutenção são outras caraterísticas a ter em conta, pois as crianças tendem muitas vezes a brincar, comer e até dormir no mesmo sítio. (PLAYTHINGS, 2008) De facto, o móvel constitui um dos elementos essenciais de um espaço infantil. Segundo Hegner, entre 1930 e 1960, designers da Escandinávia reconheceram que as crianças gostam de utilizar o mobiliário como parte integrante da sua brincadeira. (HEGNER, 2008) De acordo com Fiell, o design para crianças divide-se essencialmente em duas categorias - equipamento e brinquedos. Dentro da categoria do equipamento encontramos o mobiliário. Este deve ser bem desenhado e ergonomicamente solucionado para o conforto e bem-estar. (FIELL, 2006) O conforto, o bem-estar físico e psicológico, contribuem para um crescimento saudável. Interessa lembrar que no design adaptável ao crescimento da criança, a criança é o público-alvo, o que requer uma atenção minuciosa ao fator segurança. Segundo Fiell, devem assim privilegiar-se formas que assegurem conforto e segurança. (FIELL, 2006) Importa ainda referir o aspeto exterior, o que deve normalmente transmitir boa sensação à criança, pois o caráter lúdico também influencia no bem-estar da criança. De acordo com Hegner, o mobiliário infantil para casa, têm uma longa história. No entanto, na esfera pública o fenómeno é mais recente e, existem diferenças no design desenvolvido para o interior das casas e espaços públicos. Embora hoje em dia, estas diferenças sejam cada vez menos acentuadas e as crianças possam encontrar os mesmos tipos de móveis na creche e em casa, as considerações são um pouco distintivas. Segundo Hegner, o design de mobiliário infantil para casa é mais centrado no conforto, estilo e entretenimento. Por outro lado, os modelos para escolas, jardins-de-infância, locais de ensino e outros alguns espaços públicos, apresentam design que refle higiene, aprendizagem e desenvolvimento da criança. (HEGNER, 2008) Segundo Richardson, por muito que as crianças necessitem de mobiliário que possa evoluir com elas, precisam também de um design robusto que possa ter bastante uso e ainda assim resistir com uma boa aparência. (RICHARDSON, 2008)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 67 Segundo Soares, a estabilidade e segurança é o fator mais importante quando se fala em mobiliário infantil. O mobiliário para crianças tem necessariamente que proporcionar segurança para os pais e criança. Os móveis e os electrodomésticos são uma das principais causas de morte acidental nas crianças. (SOARES, 2009) Segundo Soares, o uso do mobiliário infantil envolve não apenas a criança, mas também aqueles envolvidos no seu cuidado. Os pais ou outros demais responsáveis pela criança, são utilizadores indiretos no processo. (SOARES, 2009) Especialmente no design adaptável, para que este se possa transformar e atender às necessidades, são os adultos que desempenham a tarefa de o transformar. É muito importante que o mobiliário infantil não tenha peças soltas, assim como parafusos, etc., que podem ser acidentalmente consumidos pelas crianças. De acordo com Soares, para garantir a segurança e bem-estar às crianças e pais (usuários indiretos), que durante o manuseio das crianças assumem posturas e realizam movimentos de deslocamento de peso que podem causar danos físicos, parâmetros ergonómicos e normas de segurança devem ser seguidos para proporcionar conforto e satisfação. O berço, é citado como o mais representativo sobre acidentes que envolvem mobiliário para criança, principalmente durante a faixa etária dos oito meses aos quatro anos. Segundo o mesmo autor, os componentes de risco no mobiliário podem ser esquinas vivas, gavetas dispostas em escadas, puxadores pontiagudos, instabilidade e dimensionamento incorreto. Segundo o mesmo ator, é também Importante que o berço não facilite a subida ou descida da criança. Os materiais não podem ser tóxicos, principalmente em camas e berços, onde é comum o bebé colocar a boca. (SOARES, 2009) No design para crianças consideram-se ainda as diferenças de género. O género funciona de diferentes maneiras: ‘as ideologias de género, por exemplo, prescrevem características e comportamentos aceitáveis para homens e mulheres e são específicas a região, religião, idade, classe, etnia, etc. a atribuição de género refere-se a comportamentos esperados de um indivíduo em virtude dele ser homem ou mulher. a identidade de género denota como um homem ou uma mulher apropriam aspectos das ideologias de género como parte do seu senso do eu.’ (Londa Schiebinger, 2001) Durante séculos as diferenças de género foram bem visíveis e marcantes nas sociedades, definindo estatutos e direitos. Os conceitos de masculinidade e feminilidade refletem e reforçam as relações de poder na sociedade e são alterados ao longo do tempo. (Steven Lubar, 1998). No entanto, e no que respeita o mobiliário, estas diferenças praticamente não se refletem no desenvolvimento e escolhas destes. É importante projetar para um universo global de crianças, sem fazer distinções.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 68 3.4 ERGONOMIA E USABILIDADE considerações Para que o design consiga atingir os seus objetivos, necessita de recorrer a várias ciências. A ergonomia é uma delas e, têm por objetivo estudar parâmetros relacionados com a melhoria do bem-estar humano, tornando-se por isso muito importante no desenvolvimento de mobiliário, em especial de mobiliário infantil. No dicionário da língua portuguesa encontramos a definição para ergonomia, como o ‘conjunto de estudos que têm por objetivo a organização do trabalho em função do fim proposto e das condições de adaptação do homem ao seu trabalho.’ Segundo Lida, foi principalmente a partir da segunda guerra mundial (1939-1945), que a ergonomia se começou a desenvolver como ciência. O seu objectivo passa por estudar os aspectos anatómicos, fisiológicos e psicológicos do homem, em relação com os objetos, mais propriamente o seu ambiente de trabalho. Embora a ergonomia seja uma disciplina autónoma recente, mesmo que de forma inconsciente, a sua prática sempre esteve presente na história da humanidade. A partir do momento em que o Homem começou a produzir e manusear os seus próprios objetos, moldou-os e adaptou-os, para que com eles pudesse realizar melhor as suas tarefas. A palavra ergonomia, surge das palavras ‘ergo’, que significa trabalho, e ‘nomos’, princípios ou leis. Foi o investigador polaco Wojiciceh Jastrzebowiski, que a definiu pela primeira vez como a ‘ciência do trabalho’. (LIDA, 1990) Ainda de acordo com Lida, a ergonomia procura garantir que as restrições humanas são atendidas e apoiadas por opções de design. A produção em massa, muitas vezes, não tem em conta que os humanos apresentam diferentes formatos e tamanhos. O design ergonómico é centrado no humano e focado na usabilidade. No fundo a ergonomia é uma espécie de engenharia humana que estuda e analisa o homem nas suas proporções. Centra-se na análise sobre as interações entre Homem e máquina31, utilizando metodologias próprias. É portanto uma ciência e não um atributo, conjugando características que têm vindo a ser estudadas desde o seu início e que contribuem para o bom desenvolvimento do produto. (LIDA, 1990) Para que o design possa ser bem-sucedido, deve ter em conta as medidas do ser humano. Principalmente na fase de crescimento, que se caracteriza pela constante transição física, a estrutura óssea encontra-se ainda em formação e por isso também mais frágil. Desta forma, os riscos de fratura são maiores e é necessário ter um cuidado acrescido no desenvolvimento de equipamentos infantis. 31 Considera-se máquina não só no sentido de máquina/trabalho mas também de objetos.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 75 Figura 36. Energia dos produtos. Valores aproximados da energia consumida na matéria-prima, fabrico, utilização e fim de vida dos produtos: cadeira, bicicleta, automóvel e aspirador. A avaliação do ciclo de vida43, é uma das ferramentas mais importantes quando se fala em ecodesign. Segundo Belmira, esta visa minimizar o impacte ambiental do produto durante a globalidade do seu desenvolvimento. É feita sobre toda a vida do produto, incluindo a extração de matérias-primas para o produzir, até ao final da vida, quando o produto deixa de ter uso e é descartado como resíduo. A avaliação do ciclo de vida, incluí sete fases: 1. Aquisição de matériaprima (extração dos recursos naturais); 2. Processamento da matéria-prima para obtenção dos materiais; 3. A matéria é processada e transformada em produtos; 4. Embalagem; 5. Transporte e Distribuição; 6. Uso; 7. Descarte e reciclagem.44 Figura 37. Fases de avaliação do ciclo de vida. (adaptado de: NETO, 2011) 43 Conhecido também por LCD - Life cycle design. 44 NETO, Belmira (2011). Apontamentos para a disciplina de ecodesign. Fotocopiado. Extração da matéria prima! processamen to da matéria! Transformaçã o em produtos! Embalagem ! Transporte e Distribuição! Uso! Descarte e Reciclagem! (Fonte: ASHBY, 2007.)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 76 O aumento de ciclo de vida do produto pode certamente ajudar a conservar a matéria-prima. A utilização de materiais mais resistentes e duráveis, aliada a um design forte, pode prolongar a vida dos produtos e consequentemente o tempo de utilização. Esta preocupação deverá ser ainda mais visível no design para crianças, tendo em conta que elas crescem rapidamente e em pouco tempo surgem necessidades novas. O conceito de mobiliário adaptável ao crescimento é ecológico pela sua própria natureza. É possível reduzir a procura por novos produtos, se estes satisfizerem as necessidades advindas do crescimento infantil, permanecendo assim durante mais tempo em utilização. Se aliado a este fator, os móveis forem feitos com materiais ecológicos, de forma compacta ou modular, que se possam facilmente montar e desmontar, diminui o impacto ambiental e promove a reutilização. Projetar o mobiliário a longo prazo, traduz um futuro sustentável. Victor Papanek foi dos primeiros designers a ter consciência sobre o impacto ambiental dos produtos na sociedade e previu algumas das consequências que vemos agora acontecer. Tal como ele refere, ‘Com a progressão geométrica da população mundial, já não nos podemos dar ao luxo de aumentar a produção, o consumo, o desperdício.’ (PAPANEK,1995) Pedir aos consumidores para comprar menos não é suficiente, é preciso alterar hábitos e é aqui que o designer tem a sua quota-parte de responsabilidade.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 77 cap. 04 LEVANTAMENTO DE CASOS EXEMPLO Este capítulo apresenta um levantamento organizado, que tem por base dar a conhecer algum do mobiliário desenvolvido no âmbito do design adaptável ao crescimento da criança. A cada uma das quatro atividades associamos determinados móveis. No entanto, estes não são estáticos e uma cadeira pode servir de cadeira, de mesa, de zona de apoio, etc. Os exemplos são analisados de acordo com o grau e o tipo de adaptabilidade que apresentam.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 78 4.1 LEVANTAMENTO E DESCRIÇÃO DE CASOS EXEMPLO pesquisa de mercado Com o intuito de dar a conhecer os produtos desenvolvidos no âmbito do design adaptável ao crescimento da criança, procede-se a uma pesquisa de mercado. Esta foi feita recorrendo a livros e a sites na internet, com o objetivo de os expor através de uma ficha catalográfica, onde os exemplos são identificados com imagens e texto explicativo. A catalogação dos exemplos é assim feita utilizando uma ficha catalográfica onde são inseridas as informações referentes ao produto, nomeando nome, autor, empresa, descrição, ano, materiais, e outras informações que possam ser relevantes, assim como a história por detrás do seu desenvolvimento ou outras informações sobre o produto. O levantamento de casos exemplo serve para demostrar, expor e analisar, o que tem sido feito no âmbito do design de mobiliário adaptável ao crescimento da criança. O campo de pesquisa foi limitado ao mobiliário desenvolvido para o ambiente familiar e cuja vertente se enquadra na categoria da ecologia e sustentabilidade. Servem os presentes exemplos para a realização de uma análise mais detalhada sobre os produtos que se encontram neste nicho de mercado. Entendendose por nicho de mercado, os produtos de mobiliário adaptável ao crescimento da criança. Às atividades principais que a criança realiza no ambiente familiar, comer, dormir, aprender e brincar, associamos móveis específicos que preenchem cada uma das categorias. Na atividade comer, aprender e brincar, encontramos mobiliário como cadeiras, mesas, secretárias, baloiços, estantes e até baús. No dormir, camas, berços e sofás fazem parte do universo de mobiliário infantil. Consideram-se ainda pequenos móveis de apoio como aparadores ou fraldários, importantes no princípio de vida da criança. Uma vez que o mesmo objeto de mobiliário pode ser utilizado para mais do que uma atividade, observam-se dois modos de estar: sentar e deitar. Estes, permitem fazer uma divisão mais concreta no mobiliário relacionado com as atividades da criança. Após toda a pesquisa e desenvolvimento teórico realizado nos capítulos anteriores, consideramse duas formas de acompanhar o crescimento da criança; utilizando móveis que se convertem e adaptam à antropometria da criança nas várias fases, continuando a dar apoio à mesma atividade, como por exemplo, um berço que se transforma em cama, através do aumento no seu comprimento; ou utilizando móveis que se convertem de forma a dar apoio a mais do que uma atividade, como por exemplo, um berço que se transforma em secretária. Dá-se assim apoio ao crescimento, quando surge outra atividade na vida criança, como é a introdução do processo de aprendizagem (vida escolar).
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 79 O levantamento encontra-se dividido em duas partes, considerando os dois modos de estar da criança: sentar e deitar. A estes estão associados determinados móveis, não querendo com isto dizer que fiquem restritos a estes.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 80 SENTAR // comer . aprender . brincar Figura 38. Cadeira ‘tripp trapp chair’. (Fonte: Stokke Homepage. Disponível em: http://www.stokke.com/highchair/tripp-trapp-productconcept/grow.aspx, acedido a 7 de Julho de 2012.) Figura 39. Imagem exemplificativa da cadeira ‘tripp trapp chair’ em utilização com usuários de diferentes idades. (Fonte: Stokke Homepage. Disponível em: http://www.stokke.com/highchair/tripp-trapp-productconcept/grow.aspx, acedido a 7 de Julho de 2012.) Nome do produto Tripp trapp chair Autor Peter Opsvik Empresa Stokke, Noroega (www.stokke.com) Ano 1972 Descrição Estável e segura, a cadeira Tripp Trapp Chair é fácil de ajustar. A criança pode movimentar-se à vontade com segurança. Pode ajustar-se a altura e a profundidade para um melhor suporte da postura, assegurando que a criança está sempre à altura perfeita para comer, brincar e interagir. O apoio aos pés é regulável para um conforto maior. Ao elevar a criança à altura de uma mesa comum, encoraja hábitos de alimentação saudável e promove um ambiente social. Materiais Madeira faia e alumínio Outras informações Preço: 400€
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 81 Figura 40. Cadeira ‘Leander Highchair’. Fonte: Leanderform Homepage. Disponível em: http://www.leander.com/produkter/high-chair/-concept, acedido a 12 de Julho de 2012. Figura 41. Imagem exemplificativa da cadeira ‘leander highchair’ em utilização com usuários de diferentes idades. (Fonte: Leanderform Homepage. Disponível em: http://www.leander.com/produkter/high-chair/- concept, acedido a 12 de Julho de 2012.) Nome do produto Leander Highchair Autor Stig Leander Nielsen Empresa Leanderform, Dinamarca (www.leanderform.dk) Ano 2007 Descrição Pensada para os hábitos alimentares e promover a socialização entre amigos e família desde pequeno, esta cadeira promove à criança uma sensação de liberdade de movimentos. Assegura uma postura correta nas várias idades da criança. Suporta, apoia e conforta a criança a partir dos 6 meses de idade. Feita em madeira moldada, material flexível e amiga do ambiente. Formas suaves e orgânicas, consistentes nas costas e cinta para proporcionar segurança à criança. Materiais Madeira e alumínio Outras informações Preço: 300€
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 82 Figura 42. Cadeira ‘bambini’. (Fonte: Sasaki Homepage. Disponível em: http://sdii.jp/product/chair/bambini.shtml, acedido a 30 de Agosto de 2012.) Figura 43. Variações da Cadeira ‘bambini’. (Fonte: Sasaki Homepage. Disponível em: http://sdii.jp/product/chair/bambini.shtml, acedido a 30 de Agosto de 2012.) Nome do produto Bambini Autor Toshimitsu Sasaki Empresa Sasaki Design International, Japan (www.sdii.jp) Ano 2003 Descrição A cadeira acompanha o crescimento da criança a partir dos 6 meses, e a sua utilização não tem limite de idade. É facilmente ajustável para quem se quiser sentar, seja bebé, criança ou adulto. Transforma-se facilmente numa cadeira que é ajustável em quatro alturas diferentes. O kit para suporte do bebe é imprescindível para apoiar a criança pequena na cadeira e é vendido separadamente. Virando a parte da frente para baixo, a cadeira transforma-se facilmente num baloiço de brincar.. Materiais Madeira (carvalho silvestre) | Para além do efeito em madeira natural, existem 4 cores disponíveis para o assento (verde, azul, branco, castanho e vermelho) Outras informações Cadeira à venda no site: www.japantrendshop.com, preço: 459 € (kit bebé: 123€)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 83 Figura 44. Cadeira ‘crescere’. (Fonte: Sasaki Homepage. Disponível em: http://sdii.jp/product/chair/crescere.shtml, acedido a 30 de Agosto de 2012.) Figura 45. Imagem ilustrativa da cadeira ‘crescere’, em usuários de idades diferentes. (variações da altura e profundidade do assento) (Fonte: Sasaki Homepage. Disponível em: http://sdii.jp/product/chair/crescere.shtml, acedido a 30 de Agosto de 2012.) Nome do produto Crescere chair Autor Toshimitsu Sasaki Empresa Sasaki Design International, Japan (www.sdii.jp) Ano 2003 Descrição Cadeira ajustável em altura. Pode ser utilizada a partir dos 4/5 anos até ao resto da vida. Acompanha o crescimento da criança através de mecanismos de ajuste em altura e profundidade do assento. (fig. 45) Materiais Madeira Outras informações Cadeira à venda no site: www.japantrendshop.com, pelo preço de: 459 € (kit bebé: 123€)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 84 Figura 46. Cadeira ‘droog highchair’ em 4 alturas. (Fonte: maarjesteenkamp Homepage. Disponível em: http://www.maartjesteenkamp.nl/workspage.html#, acedido a 28 de Julho de 2012.) Figura 47. Imagem exemplificativa da cadeira ‘droog highchair’ em utilização com usuários de idades semelhantes. (Fonte: maarjesteenkamp Homepage. Disponível em: http://www.maartjesteenkamp.nl/workspage.html#, acedido a 28 de Agosto de 2012.) Nome do produto Droog Highchair Autor Maartie Steenkamp Empresa Maartje Steenkamp, Holanda (www.maarjesteenkamp.nl) Ano 2003 Descrição A cadeira é pensada para o crescimento da criança e à medida que a criança cresce, mais baixa fica a cadeira. ‘Serrar as pernas da cadeira é tão definitiva como o fato de a criança nunca voltar a ficar pequena.’ A cadeira vem com uma serra pequena e instruções impressas. A partir de um ano de idade até aos 4/5 anos. Materiais Madeira Outras informações Vencedora do ‘reddot design award’ 2006. Preço: 235€
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 91 Figura 59. ‘Leander bed’ em modo berço. (Fonte: Leander Homepage. Disponível em: http://www.leander.com/products/bed/about-bed, acedido a 7 de Julho de 2012.) Figura 60. Variação do berço/cama ‘Leander bed’. (Fonte: Leander Homepage. Disponível em: http://www.leander.com/products/bed/about-bed, acedido a 7 de Julho de 2012.) Nome do produto Leander Bed Autor Stig Leander Nielsen Empresa Leanderform, Dinamarca (www.leanderform.dk) Ano 2003 Descrição Berço transformável em cama. Extensível até 150 cm de comprimento. Dos 0 meses aos 6/7 anos de idade. A cama é transformável através de mecanismos de encaixe/desencaixe das peças que a compõem. Materiais Madeira faia e alumínio Outras informações Vencedora do prémio ‘best baby furniture of the year’, na Holanda em 2006. Preço: 800€
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 92 Figura 61. Ioline crib (Fonte: Kalon Homepage. Disponível em: http://www.kalonstudios.com/ioiline-crib, acedido a 7 de Julho de 2012.) Figura 62. Possibilidades de utilização de ‘ioline crib’. (Fonte: Kalon Homepage. Disponível em: http://www.kalonstudios.com/ioiline-crib, acedido a 7 de Julho de 2012.) Nome do produto IOLINE Crib Autor Kalon, empresa Empresa Kalon, USA (Los Angels) (www.kalonstudios.com) Ano 2003 Descrição Berço com colchão ajustável em altura. Ao retirar as barreiras laterais altas do modo berço, e colocando outras mais baixas, este converte-se em cama de criança até aos 6/7 anos de idade. Pode ainda ser utilizado como banco ou zona de estar ao retirar todas as barreiras laterais. Materiais Madeira de bamboo Outras informações Preço: 2.185€ (à venda no site)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 93 Figura 63. Variação da cama ‘classic todler bed’. (Fonte: oeuf Homepage. Disponível em: http://www.oeufnyc.com/theoeuftoddlerbedconvertionkit.aspx#sectio n=overview, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Nome do produto Classic Todler bed Autor Sophie Demenge, Michael Ryan Empresa oeuf, USA (www.oeufnyc.com) Ano 2003 Descrição Berço transformável em cama de criança, através da utilização de um kit convertível. Este trás umas laterais mais baixas para quando a criança cresce e já não precisa das laterais tão altas. O berço vem com uma zona de apoio ou fraldário que se encontra na parte de cima e pode facilmente ser retirado. Colchão ajustável em 3 alturas Para crianças entre dos 0 meses aos 6 anos (aproximadamente). Materiais Madeira de bétula e eco-MDF Outras informações Preço: 720 € | Kit convertível: 190 € (à venda no site) A ‘oeuf’ foi fundada em 2002 por Sophie e Michael, que depois de terem sido pais, decidiram direcionar a área de negocio para o mobiliário para criança, produzindo objetos práticos, com estilo, e para pais conscientes sobre os problemas do ambiente.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 94 Figura 64. Berço ‘rocky’. (Fonte: Jall & Tofta Homepage. Disponível em: http://www.jaellundtofta.de/eng/content/rocky , acedido a 28 de Agosto de 2012.) Figura 65. Variações da cama ‘rocky’. (Fonte: Jall & Tofta Homepage. Disponível em: http://www.jaellundtofta.de/eng/content/rocky , acedido a 28 de Agosto de 2012.) Nome do produto Rocky Autor Jall & Tofta Empresa Jaellundtofa, Alemanha (www.jaellundtofta.de) Ano - Descrição Mobiliário 4-em-1. Combinação entre berço e cadeira para os pais. À medida que a criança cresce, o berço pode ser rodado a 180º tornando-se assim numa cama para crianças, com o comprimento de 140cm. As laterais podem ser amovidas conforme a necessidade e segurança da criança. Dos 0 meses aos 7 anos de idade (aproximadamente). Materiais Madeira. Disponível em madeira natural, branco e cinza. Outras informações Preço: 990€ (à venda no site da marca)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 95 Figura 66. Berço ‘Rotolino’. (Fonte: TATI Homepage. Disponível em: http://tati.foppapedretti.it/index.php?option=com_content&view=arti cle&id=50&Itemid=65&lang=en, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Figura 67. Variação do berço para cama ‘Rotolino’. Figura 67. Variação da cama ‘Duetto’. (Fonte: TATI Homepage. Disponível em: http://tati.foppapedretti.it/index.php?option=com_content&vi ew=article&id=50&Itemid=65&lang=en, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Nome do produto Rotolino LT Autor Rotolino LT Empresa TATI, Itália (www.tati.foppapedretti.it) Ano 2006 Descrição Berço convertível em cama. Dos 0 meses aos 12 anos, pode ter até 2 metros de comprimento. Dentro do mesma linha, esta marca desenvolveu também a ‘Duetto’, um berço que se converte em cama (até aos 12) ou sofá de estar (até aos 14 ou mais). Materiais Madeira, MDF e Polímero (rodas) Outras informações Preço: 890€ (Fonte: TATI Homepage. Disponível em: http://tati.foppapedretti.it/index.php?option=com_conte nt&view=article&id=50&Itemid=65&lang=en, acedido a 2 de Agosto de 2012.)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 96 Figura 68. Variações da cama ‘studio crib’. (Fonte: babyology. Disponível em: http://babyology.com.au/furniture/nurseryworks-studio-crib-is-themodern-space-saver.html, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Figura 69. Variações da cama ‘studio crib’. (Fonte: babyology. Disponível em: http://babyology.com.au/furniture/nurseryworks-studio-crib-is-the-modernspace-saver.html, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Nome do produto Studio Crib Autor TRUCK Products Architecture Empresa Nurseryworks, USA (www.nurseryworks.net) Ano 2007 Descrição Berço em madeira natural, seguro e de fácil utilização. Possui uma gaveta por baixo que serve de arrumos e pode ser utilizada à parte. A altura do colchão é ajustável. Quando o bebé cresce e deixa de necessitar das barreiras laterais, estas são facilmente removíveis, transformando-se numa pequena cama ou ainda num sofá. Numa das partes laterais do berço, para além de arrumação, existe uma peça que quando puxada para fora dá apoio e serve como fraldário ou secretaria. Até crianças com 6/7 anos. Materiais Madeira Outras informações Preço: 1,700 € (à venda no site)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 97 Figura 70. ‘yiahn bassinet’ em modo berço. (Fonte: Yiahn Homepage. Disponível em: http://www.yiahn.com, acedido a 2 de Maio de 2012.) Figura 71. Variações de ‘yiahn bassinet’ (Fonte: Yiahn Homepage. Disponível em: http://www.yiahn.com, acedido a 2 de Maio de 2012.) Nome do produto Yiahn Bassinet Autor Chul Min Kang Empresa Kalon, USA (Los Angels) (www.yiahn.com) Ano 2007 Descrição O berço Yiahn pode ser utilizado como berço dos 0 aos 3 meses, para armazenar brinquedos e livros (mini estante com duas gavetas) dos 4 meses aos 4 anos e como mesa e cadeira dos 4 aos 8 anos. Pensado para o bebe que se torna criança, oferece apoio aos primeiros anos de vida e pode ser convertido sempre que necessário. Funciona por encaixe de várias peças (módulos) que se montam e desmontam facilmente sempre que for preciso. Materiais Compensado de bambu, aço inoxidável, metal cromado e lençol de algodão. Colchão: espuma de alta densidade, resistente ao fogo e humidade. Outras informações O designer Chul Min Kang desenvolveu este berço transformável para o seu filho Yiahn.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 98 Figura 72. Variação do berço ‘BE cot’ (Fonte: BE Homepage. Disponível em: http://www.mobiliariobe.com/colecciones.php?c=9&p=1, acedido a 3 de Agosto de 2012.) Figura 73. Variação da cama ‘BE small’ (Fonte: BE Homepage. Disponível em: http://www.mobiliariobe.com/colecciones.php?c=9&p=1, acedido a 3 de Agosto de 2012.) Nome do produto BE COT Autor BE Empresa Be, Espanha (www.mobiliariobe.com) Ano 2009 Descrição Berço ajustável em duas alturas do colchão, transformável em secretaria. Quando a criança entra na fase escolar, pode utilizar o seu berço como secretaria, virando-o ao contrário. Medidas de 100x134x67 cm (altura x comprimento x profundidade, em modo secretária). A mesma empresa desenvolveu também a cama de criança ‘BE small’. Quando a criança cresce, a base da cama converte-se em estante. Medidas de 58x157x80 cm (altura x comprimento x profundidade, em modo cama). Materiais MDF (fibra de média intensidade) lacado, ABS e aço. Outras informações Preço ‘Be cot’: 613,20 € (à venda no site) Preço ‘Be small’: 676,78 € (à venda no site)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 99 Figura 74. Conjunto cama ‘eternity bed’. (Fonte: Nonjetable Homepage. Disponível em: http://www.nonjetable.com/product.php?id_product=55&id_lang=1, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Figura 75. Ilustração das possíveis utilizações da cama ‘eternity bed’ em idades diferentes. (Fonte: Nonjetable Homepage. Disponível em: http://www.nonjetable.com/product.php?id_product=55&id_lang=1, acedido a 2 de Agosto de 2012.) Nome do produto Eternity Bed Autor Meri von Rentein Empresa Nonjetable, França (www.nonjetable.com) Ano 2006 Descrição Vendido em pack, incluí um conjunto completo de mobiliário necessário para o quarto da criança: uma cama com uma placa na cabeceira que pode ser colocada em ambos os lados, uma mesa grande baixa com armazenamento para brinquedos, uma mesa de cabeceira baixa que serve também de armazenamento e um banco/baú. Este último, serve de aumento no comprimento da cama quando colocado ao fundo desta. Para crianças dos 3 anos até ao resto da vida. Materiais Madeira natural sem tratamento Outras informações Preço: 1,600 € (à venda no site)
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 100 Figura 76. ‘kit smart kid’ em modo berço. (Fonte: Adensen furniture Homepage. Disponível em: http://www.adensen.com/?lang=en&selected=22&id=1&cat=16, acedido a 25 de Maio de 2012.) Figura 77. Variação do ‘kit smart kid’ (Fonte: Adensen furniture Homepage. Disponível em: http://www.adensen.com/?lang=en&selected=22&id=1&cat=16, acedido a 25 de Maio de 2012.) Nome do produto Kit SMART KID Autor Heiki Must, Pavel Sidorenko Empresa Adensen Furniture (www.adensen.com) Ano 2006 Descrição ‘kit smart kid’ consiste num conjunto de peças que associadas podem ser utilizadas para formar um berço, com arrumação em gavetas laterais e inferiores. (imagem x) no berço, a altura do colchão é ajustável. Convertível em quarto com cama, secretaria, gavetas de arrumação e quadro/local de brincadeira (figura 77). Adequado para crianças até aos 10 anos de idade. Todos os móveis que compõem o conjunto podem ser utilizados várias vezes, consoante e situação e necessidade. Materiais Madeira e alumínio Outras informações Preço: 595 € (à venda no site)
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 107 cap. 05 INDICADORES DE PROJETO Após o levantamento e análise dos casos exemplo, este capítulo fornece indicadores importantes a ter em consideração no desenvolvimento de mobiliário infantil em geral, e algumas considerações sobre o mobiliário adaptável ao crescimento da criança.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 108 O design de produtos implica conhecimentos importantes sobre o usuário a que se destina. No desenvolvimento de mobiliário infantil, este, impõe conhecimento sobre a criança. E se a criança é o utilizador principal, este tipo de mobiliário dever ter em conta cuidados acrescidos de segurança e conforto. Por este motivo, devem ser evitadas esquinas vivas e saliências pontiagudas que possam de alguma forma magoar a criança. Assim, salienta-se a importância de cantos e formas arredondadas. Mais do que tudo o produto deve corresponder às necessidades do usuário. No contexto de mobiliário adaptável ao crescimento é importante definir a faixa etária que se pretende abranger. De um modo geral, os móveis devem ser bem desenvolvidos a nível de resistência. A escolha do material é aqui um fator de bastante relevância, na medida em que determinará não só a qualidade do móvel mas também a possibilidade de o tornar adaptável através de mecanismos de encaixe, desencaixe, rotação, etc. Qualidade, resistência, segurança e fácil manutenção são alguns dos itens que definem um bom design. A qualidade do produto em muito vai depender do material a utilizar. Uma estrutura instável, pouco segura, que é facilmente sujeita a empenos não é uma boa solução. O material deve ainda promover uma economia de recursos naturais e económicos. A qualidade e resistência adquire-se utilizando materiais duráveis tal como a madeira. A madeira, para além de ser um material sustentável, possibilita uma variedade de soluções multifuncionais e transformáveis. No design de mobiliário infantil, é importante que os materiais sejam robustos o suficiente para aguentar a atividade da criança e, ao mesmo tempo ter em conta resistência e leveza. Ao utilizar um móvel por mais tempo, prevê-se que este possa permanecer na vida da criança durante um longo período de tempo e a resistência deve ser um fator de grande importância. É ainda importante que estes sejam resistentes não só ao uso mas também à deterioração. São por isso necessários materiais não tóxicos e facilmente laváveis, para não por em risco a vida da criança. Ao abordar a temática do mobiliário em geral e, em especial do adaptável, sabemos que este necessitará da intervenção humana para que se transforme. Neste sentido, a leveza do material facilita não só o transporte deste o ato da compra mas também em casa, na montagem e transformação do mesmo. A estabilidade é outro fator a ser considerado no desenvolvimento de mobiliário infantil. A criança é muito ativa e um movimento mais brusco pode por em causa a sua segurança, principalmente em cadeiras. É importante também que o material tenha um acabamento antiderrapante. Deve-se evitar arestas ou ângulos perigosos em zonas mais expostas. A existência destas, causa não só perigo para a criança mas também faz com que o material fique mais frágil e se possa deteriorar mais facilmente.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 109 O mobiliário infantil deve evitar peças soltas ou elementos pequenos e facilmente removíveis. Estes muitas vezes tendem a chamar atenção da criança, no sentido de os levar à boca, podendo causar a sua morte. Sabemos que as crianças são muito ativas, o que implica uma escolha de mobiliário que deve ter em conta como primeiro plano a segurança e bem-estar da criança. No ambiente doméstico, o mobiliário infantil recai normalmente sobre cadeiras, mesas, camas, berços e fraldários. Neste sentido, seguem-se algumas recomendações a ter em conta no seu desenvolvimento. CADEIRAS A base das cadeiras deve ser larga e conter um mecanismo de bloqueio/proteção, assim como um cinto de segurança ou uma barreira que as impeça de sair da cadeira, principalmente quando a criança é ainda bebé. O assento deve ser em forma quadrangular e com esquinas arredondadas por questões de segurança. A estabilidade é um fator de enorme relevância quando se fala em cadeiras. Especialmente as cadeiras altas que pretendem trazer a criança para um nível mais alto, estas devem ser estáveis e seguras o suficiente para não tombarem. Em cadeiras altas, é de extrema importância o apoio dos pés. O corpo ficará mais apoiado e a postura mais correta aquando a existência deste item. O acento da cadeira deve ter um rebordo arredondado para que a criança não se magoe nos músculos inferiores das pernas. A profundidade do assento deve ser ajustável consoante o nível de adaptabilidade que se pretende. A postura lombar é em grande parte promovida pela disposição do corpo e, em cadeiras altas ou baixas, estas devem promover uma boa postura. Relativamente ao desenvolvimento de cadeiras adaptáveis ao crescimento da criança, estas, devem ter em conta as diferenças de tamanho do usuário, dependendo das faixas etárias que se pretende abranger. BERÇOS | CAMAS Segundo Santos et al., o berço, é um dos móveis infantis que apresenta um elevado nível de acidentes com crianças e bebés. As ocorrências mais comuns que envolvem o berço são quedas, pernas e braços presos e, até a cabeça, podendo causar asfixia. (SANTOS et al., 2009) Salienta-se a importância da estabilidade, o berço não deve ter saliências onde possa ficar preso um botão da roupa do bebé, ou qualquer outro objeto assim como a corrente da chupeta. Quando existe uma lateral em ripas que permite subir e descer, é importante que esta seja segura e a abertura não deve estar ao alcance do bebé. O estrado do berço deve poder ser regulável em pelo menos 2 alturas. Os berços devem apresentar resistência e estabilidade ao impacte. Segundo a apsi45, as medidas de espaçamento 45 Associação para a promoção da segurança infantil.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 110 entre as aberturas das grades devem ser superiores a 6 cm e a altura mínima da grade deve ser de pelo menos 60cm. Os espaçamentos entre a grade não devem ser suficientemente grandes para permitir a passagem da cabeça do bebé. É importante que o colchão seja firme e, este deve estar bem ajustado ao tamanho da cama. Segundo a apsi, quando há existência de rodízios, estes devem ter travões para uma maior segurança do berço ou cama. As camas de criança, especialmente até aos 5/6 anos de idade, devem possuir uma lateral ou grade de segurança amovível em ambos os lados. Esta deve ser estável e ter uma altura mínima de 16cm em relação à parte superior do colchão. MESAS | SECRETÁRIAS | FRALDÁRIOS As mesas devem ter espaço suficiente para mover as pernas. Segundo Routio, o espaçamento entre mesa e pernas deverá rondar os 10cm. Os tampos devem ser resistentes e laváveis. (ROUTIO, 2007) Segundo a apsi, o fraldário deve ter um rebordo elevado para a segurança do bebé. É ainda importante que este tenha espaço para o que a mãe necessita à mão, por forma a não deixar o bebé sozinho, pois rapidamente pode rebolar e cair.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 111 cap. 06 CONCLUSÃO Neste capítulo são feitas considerações conclusivas sobre a dissertação. Apresentam-se conclusões gerais e perspetivas futuras de investigação.
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 112 6.1 CONCLUSÕES GERAIS Existe uma crescente preocupação com a qualidade de vida da criança e dos objetos à sua volta. O mobiliário, auxilia praticamente todas as atividades infantis e por isso, as preocupações com a qualidade, segurança e conforto destes objetos são cruciais. O ambiente familiar é um importante local de crescimento. Cada vez mais, se procuram soluções que se possam adaptar ao crescimento da criança. A primeira parte deste trabalho de investigação, consistiu numa abordagem teórica aos temas principais de desenvolvimento. Sendo a criança o objeto de estudo desta dissertação, o primeiro capítulo começa por fazer uma abordagem à vida da criança ao longo dos séculos e das civilizações. Constatamos que o modo como hoje estruturamos e classificamos a vida da criança em muito se relaciona com a própria evolução dos costumes e modos de vida. A criança nem sempre foi vista da mesma forma de cultura para cultura, no entanto e de um modo geral, a vida era dura e o tempo para brincar e estudar era escasso e, em alguns casos, inexistente. Atualmente, as atividades da criança centramse em comer, aprender, brincar e dormir. O modo como definimos o crescimento e desenvolvimento da criança, não existia como conceito antes do século XIX. O desenvolvimento na criança nem sempre foi considerado ao longo da história das civilizações humanas. Foi através de um conjunto de ideias mais antigas sobre a história natural e humana despoletadas por Charles Darwin que representam o ponto de partida para o início de estudos mais aprofundados sobre o conceito. Neste sentido, muitas foram as contribuições prestadas por autores e especialistas como Jonh Lock, Sigmund Freud, Jean Piaget, entre outros. Concluímos que as várias teorias que surgiram deparam-se com a mudança temporal e social, sendo por isso definidas e influenciadas por estes factores. O modo como hoje estruturamos a vivência da criança, acabe por afetar nas próprias capacidades que ela pode alcançar. A criança era vista como um adulto miniatura e começava a trabalhar desde muito cedo. Os termos crescimento e desenvolvimento fazem parte do mesmo processo embora requeiram abordagens diferentes para a sua compreensão e classificação. Conhecer as mudanças físicas e todas as alterações corporais que se fazem sentir é vital para projetar produtos que possam atender às necessidades e comportamentos da criança. Ao investigar o processo de desenvolvimento na criança, conclui-se que o crescimento não ocorre de forma congénere de criança para criança. Este cresce e estabiliza com a idade, ocorrendo o seu máximo até à pré-adolescência. Todo este complexo fenómeno acontece sobre influências genéticas e ambientais muito importantes e determinantes para o resultado final da estatura de cada
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 113 um. No entanto, constatamos que mais do que a carga genética, é o ambiente que rodeia a criança que ajuda no favorecimento ou desfavorecimento do processo. O período de maior crescimento ocorre até aos 10/11 anos e este, é acompanhado pelo desenvolvimento motor que determina muitas das características mentais da criança. A sequência regular e previsível de crescimento e desenvolvimento ocorrem sobre influência de fatores intrínsecos e extrínsecos que tornam o curso de cada criança distinto e singular. Concluímos que são os fatores extrínsecos que mais contribuem para o crescimento e desenvolvimento saudável da criança e, nestes encontra-se o mobiliário. Neste sentido, o terceiro capítulo aborda a temática do mobiliário geral e específico. Ao longo da história humana, o mobiliário sempre definiu classes sociais. Eram e, continuam ainda a ser, os mais desfavorecidos e com baixos recursos económicos que apresentam mais ausência destes equipamentos. O mobiliário infantil, ainda hoje, sublinha a posição social da criança em relação ao meio. É notória uma evolução no mobiliário de criança à medida que houve evolução no conhecimento sobre o desenvolvimento da criança. Design adaptável é inovador, dinâmico, não estático, interage e participa nas necessidades do usuário e, responde às preocupações sustentáveis da atualidade. O que merece atenção a estes objetos é a possibilidade de aumentar a sua prática e eficiência. No caso de mobiliário adaptável ao crescimento da criança, é importante ter em conta os dados disponibilizados pela Ergonomia e Antropometria, uma vez que estas possibilitam a criação de mobiliário centrado na relação entre criança e objeto. Embora existam registos de peças de mobiliário para crianças, assim como uma variedade de cadeiras, o mobiliário não era pensado especificamente para as crianças. O design de mobiliário para criança sempre foi influenciado e definido pelo período e visão pedagógica da sociedade. Depois da revolução industrial, o consumismo passou a ser um fenómeno social complexo. O consumidor é um agente económico pressionado a comprar. O desenvolvimento de produtos que possam ser adaptáveis e transformáveis ao crescimento da criança e principalmente numa fase de grandes despesas, pode ser uma solução. A economia e os mercados globais estão a mudar e as necessidades dos consumidores também. Projetar produtos que se possam transformar para apoiar necessidades provindas do crescimento da criança torna-se mais vantajoso na medida em que o ciclo de vida dos produtos é aumentado. A segunda parte deste trabalho, é constituída pela realização de um levantamento de casos exemplo. Compreende-se que há uma tendência crescente no desenvolvimento de mobiliário adaptável ao crescimento, especialmente para o modo de estar: deitar. O levantamento de casos exemplo constitui uma importante referência visual e teórica, no sentido que compõe e divide necessidades, analisa benefícios e desvantagens que são importantes para a criação ou melhoria de novas soluções. Concluímos que o mobiliário infantil pode ser bastante adaptável, podendo apoiar diferentes atividades da criança. O mobiliário pode ser transformável em várias peças importantes no ambiente
| DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA 114 familiar da criança. Concluímos também que são principalmente os países nórdicos que mais tendem a desenvolver mobiliário deste tipo. Em Portugal, poucos são os exemplos de mobiliário adaptável ao crescimento da criança, no entanto, a empresa Trama tem bons projetos desenvolvidos na área. Denota-se que a simplicidade nas linhas, facilita o processo de produção e permite ainda uma combinação mais eficaz com outros móveis e estilos. Constatamos que embora com graus de adaptabilidade bastante elevados, alguns modelos à venda no mercado não contêm alguns parâmetros importantes e necessários de segurança. Concluímos que a utilidade e flexibilidade dos móveis permitem a possibilidade de conseguir conjugar diferentes produtos num só. É importante reconhecer que o design tem evoluído cada vez mais no sentido de melhoria da qualidade de vida do ser humano. A tendência para o multifuncional e modular permite a flexibilidade de soluções que podem poupar os recursos naturais do planeta. Considerando o contexto atual de uma situação económica e ambiental frágil, o desenvolvimento de produtos de mobiliário adaptáveis às circunstâncias parece ser uma alternativa viável ao ser humano. Especialmente na fase de crescimento, que em pouco tempo é necessário alterar objetos para servir outros propósitos relacionados com o crescimento, perspectiva-se uma utilização mais ampla e duradoura. Em suma, expecta-se que a realização deste trabalho possa servir como base de pesquisa sobre o tema, ou na realização de trabalhos futuros. Apresenta referências úteis para o desenvolvimento de mobiliário adaptável ao crescimento para um ambiente doméstico tal como mesas, cadeiras, camas e berços. O estudo e recomendações apresentadas, são uma mais valia para os designers que pretendam desenvolver projetos nesta âmbito. Porventura espera-se que este estudo possa também contribuir para despertar o interesse a designers e empresas para a realização de novos e melhores produtos neste âmbito. Especialmente a industria portuguesa, que parece não apostar muito no desenvolvimento de produtos nesta área.
DESIGN DE MOBILIÁRIO ADAPTÁVEL AO CRESCIMENTO DA CRIANÇA | 115 6.2 PERSPECTIVAS FUTURAS Com a finalização deste trabalho de investigação, podemos aqui delinear algumas perspetivas futuras de investigação, bem como melhorias e falhas encontradas no decorrer da dissertação. Especialmente no decorrer da segunda parte, a análise de mercado foi limitada a referências como livros e sites. A análise aos casos exemplo focou-se em características descritivas e visíveis no produto, o que trouxe algumas restrições nas análise e conclusões retiradas. Seria interessante analisar alguns deles em utilização no dia-a-dia. Convêm também referir que a presente dissertação explorou os exemplos de mobiliário adaptável, feitos com materiais sustentáveis, preferencialmente a madeira. Contudo, existe toda uma vasta panóplia de outros exemplares desenvolvidos noutros materiais, tal como o plástico. É de referir ainda que a pesquisa foi limitada aos equipamentos desenvolvidos para o ambiente familiar. Poderia assim ser interessante alargar o âmbito de pesquisa, considerando também equipamento para locais públicos, tal como escolas, espaços comerciais, etc. Por fim, a próxima fase de desenvolvimento deste trabalho de investigação passaria por desenvolver um projeto de design de mobiliário adaptável ao crescimento da criança, tal como uma cadeira ou berço/cama.
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