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Análise da atividade dos ajudantes de lar e das suas condições de trabalho numa perspetiva de género

Vítor Manuel Monteiro Figueiredo

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Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Rua Dr. Roberto Frias, s/n 4200-465 Porto PORTUGAL VoIP/SIP: [email protected] ISN: 3599*654 Telefone: +351 22 508 14 00 Fax: +351 22 508 14 40 URL: http://www.fe.up.pt Correio Eletrónico: f[email protected] MESTRADO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA E HIGIENE OCUPACIONAIS Dissertação apresentada para obtenção do grau de Mestre Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto ANÁLISE DA ATIVIDADE DOS AJUDANTES DE LAR E DAS SUAS CONDIÇÕES DE TRABALHO NUMA PERSPETIVA DE GÉNERO Vítor Manuel Monteiro Figueiredo Orientador: Professora Doutora Liliana Maria da Silva Cunha (Professor Auxiliar Convidado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto) Arguente: Professor Doutor Camilo José Lopes Valverde (Professor Auxiliar na Universidade Católica) Presidente do Júri: Professor Doutor João Manuel Abreu dos Santos Baptista (Professor Associado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto) ___________________________________ 2014 Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género I AGRADECIMENTOS A realização deste trabalho não poderia ser concretizada sem a ajuda, apoio e compreensão de algumas pessoas que me auxiliaram neste trajeto de forma direta ou indireta e por isso a todas elas o meu muito obrigado. À Professora Liliana Cunha, pelo seu interesse demonstrado no estudo, pela sua disponibilidade para explicar abertamente as temáticas envolventes ao estudo e pela disponibilidade para reunir sempre que necessário e também pelas correções e sugestões que certamente melhoraram este trabalho. À Dra. Liliana Salgado, Diretora do Serviço de Apoio Social da Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso por ter permitido e apoiado a realização deste estudo. À Instituição Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso, por ter permitido a realização deste estudo sobre os ajudantes de lar no Lar José Luiz D`Andrade, e por ter sido tão bem recebido nesta casa. À Dra. Sílvia Ribeiro do Serviço de Higiene e Segurança da Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso, pelo tempo gasto na elaboração de documentos que foram facultados e cuja utilização teve uma importância relevante no desenvolvimento do estudo e pelo apoio dado na elaboração do mesmo. À Dra. Sandra Sousa, Coordenadora do Lar José Luiz D`Andrade, pelo interesse demonstrado na temática do estudo, pelo apoio dado na elaboração do mesmo e pelos documentos facultados de elevada importância para o estudo. Aos Ajudantes de Lar do Lar José Luiz D`Andrade, que sempre se demonstraram interessados e empenhados em colaborar no estudo, sem o tempo despendidos por eles, este estudo não seria possível realizar. Ao MESHO, Mestrado de Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais, pela oportunidade da realização da dissertação nesta temática. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género III RESUMO Este estudo pretende analisar as condições de trabalho dos ajudantes de lar, nomeadamente os seus constrangimentos, dificuldades e a possível existência de diferenças nas condições de trabalho e exposição a riscos, tendo em conta a dimensão género. Em relação à metodologia aplicada, após a escolha da instituição que mais se enquadrava nos objetivos do estudo, realizou-se uma primeira abordagem aos trabalhadores, de forma a obter a confiança dos mesmos para desenvolver uma análise do seu trabalho. Posteriormente procedeuse a uma análise observacional (qualitativa) da atividade de trabalho de alguns ajudantes de lar, previamente selecionados, descrevendo o que fazem concretamente e complementando estas observações com o registo das verbalizações que efetuaram no decurso desta análise. Para a obtenção de dados de todos os ajudantes de lar, foi aplicado o INSAT Inquérito Saúde e Trabalho, o que permitiu a realização de uma análise quantitativa, tendo os dados sido tratados com recurso à ferramenta estatística SPSS statistics 20. Com base nestas opções metodológicas, e assumindo uma perspetiva de género, os resultados obtidos tornaram visíveis as diferenças entre homens e mulheres, no que toca às tarefas desempenhadas no lar e aos utentes a que prestam cuidados. De facto, os trabalhadores masculinos apoiam, exclusivamente, utentes do mesmo sexo e as trabalhadoras femininas apoiam, sobretudo, as utentes do sexo feminino. Isto ocorre devido ao facto de os utentes terem essas exigências e, desse modo, o trabalho está organizado de forma a ter pelo menos um homem em cada turno. Não obstante, os resultados obtidos traduziram também outras diferenças entre os trabalhadores desta atividade. Os constrangimentos registados incidiram na escolha dos turnos de trabalho, da antiguidade, das relações de trabalho e da experiência profissional necessária para o trabalho. Os trabalhadores de turnos diferentes não estão expostos às mesmas condições de trabalho, salientando diferenças sobretudo, no tempo total de trabalho, no ritmo de trabalho e nas tarefas desempenhadas. No que toca à antiguidade, os trabalhadores mais novos apresentam uma maior dificuldade na escolha de turnos, e os mais antigos queixam-se sobretudo do cansaço sentido. Ao nível das relações de trabalho, pode referir-se que os trabalhadores sentem que alguns utentes não os tratam da melhor forma, não dando o devido valor ao seu trabalho e, por vezes, chegam a referir que devido ao ritmo de trabalho não têm tempo para ouvir os utentes. Os riscos profissionais apontados foram a exposição a agentes biológicos e a maior incidência de lesões músculo-esqueléticas, tendo em conta as exigências próprias da sua atividade e as condições em que ela é exercida. Tornaram-se evidentes as relações entre trabalho e saúde, uma vez que os trabalhadores referiram sofrer de lesões músculo-esqueléticas e, ainda, de problemas como ansiedade e irritabilidade. A análise da dimensão grupo etário foi fundamental para compreender as diferenças existentes entre os trabalhadores de diferentes faixas etárias, uma vez que a partir dos 35 anos de idade prevalecem os problemas de saúde, sendo estes agravados pelo trabalho. Torna-se importante salientar as dificuldades dos trabalhadores de idade mais avançada na realização desta atividade, o que revela as exigências físicas associadas. No que toca às sugestões de melhoria do trabalho, os ajudantes de lar referiram que a existência de um enfermeiro no turno da noite facilitaria a avaliação da necessidade de um utente ir ao hospital, uma vez que os trabalhadores revelaram dificuldade em avaliar essa necessidade. Uma outra proposta prende-se com as vantagens de realização de trabalho em equipa, de forma a diminuir o risco de lesões músculo-esqueléticas. Palavras-chave: lares de idosos, ajudantes de lar, género, relações trabalho-saúde, riscos profissionais Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género V ABSTRACT This study aims to analyze the working conditions of household helpers, focusing on the constraints, difficulties and the possible existence of differences regarding work conditions and exposure to risks, taking into account the gender. The methodology applied during this work, began by choosing the most adequate institution for achieving the objectives of the study, in which there was an initial approach to workers, in order to obtain their confidence to develop an analysis of their work. Subsequently, a (qualitative) observational analysis of previously selected work activities of some household helpers was done, describing specifically what makes each activity and complementing these observations with the record of utterances which were made during this analysis. In order to obtain data for all household helpers, the INSAT (which roughly translates to “Health and Work Inquiry”) was applied, which allowed the execution of a quantitative analysis. A statistical analysis of the data was conducted using SPSS statistics 20 software. Based on these methodological choices, and assuming a perspective based on gender, the results show visible differences between men and women regarding their work performance in the home and which users they care for. Results show that men care exclusively for users of the same sex, and female workers support especially the female users. This is due to the fact that users have these requirements, and thus the work is organized so as to have at least one man at every turn. Nevertheless, the results also revealed other differences between workers of this activity. Registered constraints show influence on the choice of shifts, seniority, labor relations and professional experience required for the job. Workers from different shifts are not exposed to the same work conditions, particularly emphasizing differences in total work time, pace of work and tasks performed. With regard to seniority, younger workers have greater difficulty in selecting shifts and older complain of fatigue above all else. In terms of labor relations, it can be said that workers feel that some users do not treat them in the best way, not showing appreciation for their work. Workers sometimes even claim that because of the pace of work, they do not have time to listen to what the users have to say. The highlighted professional risks are the exposure to biological agents and the higher incidence of musculoskeletal injuries, taking into account the specific requirements of their activities and the conditions under which these are practiced. The relationship between work and health became evident the, since workers reported suffering from musculoskeletal injuries and also problems such as anxiety and irritability. The analysis of the age group size was a fundamental key to understanding the differences between workers of different ages, since after 35 years old most individuals start to become more susceptible to health problems, which are aggravated by work. It is important to highlight the difficulties felt by older workers in this activity, which indicates the associated physical demands. Regarding suggestions for the improvement of working conditions, household helpers mentioned that the existence of a nurse on the night shift would facilitate the assessment of the need for a user to go to the hospital, since workers revealed difficulty in assessing this need. Another proposal concerns the advantages of doing performing some work activities collectively, in order to reduce the risk of musculoskeletal injuries. Keywords: nursing home, household helpers, gender, work and health, occupational hazards. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género VII ÍNDICE PARTE 1 ......................................................................................................................................... 1 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 3 2 ESTADO DA ARTE ........................................................................................................... 7 3 OBJETIVOS, MATERIAIS E MÉTODOS ...................................................................... 17 3.1 Objetivos da dissertação ............................................................................................ 17 3.2 Materiais e métodos .................................................................................................. 17 PARTE 2 ....................................................................................................................................... 21 4 RESULTADOS ................................................................................................................. 23 4.1 Caracterização da Santa Casa da Misericórdia ......................................................... 23 4.2 Caracterização dos ajudantes de lar .......................................................................... 24 4.3 Resultados da análise observacional ......................................................................... 26 4.4 Resultados análise observacional e relações com resultados do INSAT .................. 30 4.5 Resultados obtidos através da aplicação do INSAT .................................................. 34 5 DISCUSSÃO ..................................................................................................................... 39 5.1 Influência da dimensão género no trabalho ............................................................... 39 5.2 Constrangimentos percebidos ................................................................................... 40 5.3 Riscos profissionais ................................................................................................... 42 5.4 Impacto do trabalho na saúde dos ajudantes de lar ................................................... 43 5.5 Dimensão grupo etário no trabalho ........................................................................... 44 5.6 Sugestões de melhoria ............................................................................................... 45 6 CONCLUSÕES E PERSPETIVAS FUTURAS ............................................................... 47 6.1 Conclusões ................................................................................................................ 47 6.2 Perspetivas futuras ..................................................................................................... 48 7 Bibliografia ........................................................................................................................ 51 Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género PARTE 1 Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 3 1 INTRODUÇÃO O estudo desenvolvido nesta dissertação de mestrado tem como foco de análise a atividade real de trabalho dos “ajudantes de lar”, responsáveis pelo apoio social a idosos em instituições, neste caso, em lares de idosos. A dimensão género impõe-se, desde logo, na análise, sabendo que esta atividade é tradicionalmente desempenhada por mulheres. De certo modo, corrobora-se a assunção de que homens e mulheres estão expostos a riscos profissionais diferenciados e de que, consequentemente, as questões da saúde no trabalho continuam a revelar uma desigualdade no que à dimensão género diz respeito (Castelhano & Nogueira, 2011). Não obstante, mais do que uma naturalização deste tipo de discursos, importa efetivamente analisar as situações de trabalho concretas e dar visibilidade à especificidade das questões que a partir dessa análise emergem. Ainda que a atividade dos ajudantes de lar seja marcada por uma forte presença feminina em detrimento da presença masculina, existem instituições de lares de idosos onde homens e mulheres desempenham a mesma atividade. Desconhece-se, ainda assim, se se encontram nas mesmas condições, se existe uma divisão do trabalho, e se estão expostos a riscos ocupacionais diferenciados, tendo como referência a dimensão género (Ferreira, 2012). O debate em torno da atividade dos trabalhadores ajudantes de lar impõe-se, tendo em conta o aumento da população envelhecida, contribuindo para que haja necessidades sociais que determinam o desenvolvimento desta atividade de trabalho e a sua maior expressão num futuro próximo. Os dados oficiais do último Censos 1 (2011) e também da PORDATA (2012) traduzem precisamente esta realidade: a população portuguesa tem diminuído, mas o índice de envelhecimento tem registado um aumento - em 2012 existiam cerca de 129,4 idosos por cada 100 jovens, verificando-se um aumento relativamente a 2011 1 . Para 2050, a previsão é para uma diminuição da população Portuguesa e para um aumento do índice de envelhecimento sendo que se pode atingir um número de 243 idosos por cada 100 jovens (Gabinete de Estratégia e Planeamento, 2012). A resposta a estas necessidades sociais pode potenciar o aumento do número de instituições de apoio e de cuidados continuados a idosos, e ao exercício desta atividade por um número crescente de profissionais. Essas instituições são designadas por lares de idosos ou lares da terceira idade, que consistem em alojamento coletivo, de utilização temporária ou permanente, para idosos em situação de maior risco de perda de autonomia (Gabinete de Estratégia e Planeamento, 2012). Por sua vez, os trabalhadores que prestam tais cuidados a idosos podem ser designados, em conformidade com a entidade patronal a que se encontrem vinculados, de ajudantes de lar ou ajudantes de ação direta, sendo ambas as designações formalmente aceites. Segundo a Portaria n.º 67/2012 de 21 de março, no artigo 12.º, “uma estrutura residencial deve dispor de pessoal que assegure a prestação dos serviços 24 horas por dia”, devendo dispor no mínimo de “um(a) ajudante de ação direta, por cada 8 residentes” e de “um(a) ajudante de ação direta, por cada 20 residentes com vista ao reforço no período noturno”. Assim, segundo a legislação em vigor, a presença destes trabalhadores é obrigatória, podendo ser de ambos os sexos. 1 Dados obtidos através do Sítio pordata.pt [Acedido em Fevereiro de 2014] http://www.pordata.pt/Portugal/Indicadores+de+envelhecimento+segundo+os+Censos-525 http://www.pordata.pt/Portugal Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 4 Introdução Ainda assim, e como foi já foi referido, esta atividade é normalmente desempenhada por mulheres, sabendo também que existem questões históricas e culturais que em muito contribuíram para que a responsabilidade pela prestação de cuidados fosse considerada intrinsecamente feminina. Era a mulher que assumia o papel de cuidadora dos filhos, do marido, da casa, pelo que a atribuição do papel de prestação de cuidados a terceiros nem supunha um questionamento das razões que naturalizaram a atribuição deste tipo de tarefas às mulheres (Carvalho, 2012). Deste modo, procurou-se, no âmbito desta dissertação, analisar a atividade dos ajudantes de lar, examinando as tarefas desempenhadas, os constrangimentos sentidos, a eventual existência de divisão de trabalho entre homens e mulheres e as condições de trabalho, bem como, as diferenças na exposição a riscos de trabalho entre os indivíduos de sexo feminino e masculino. Pretendeu-se também, identificar outras características associadas à atividade dos ajudantes de lar, nomeadamente as relações entre estes e a forma como isso afeta o seu trabalho. Em relação à distribuição sexual no trabalho, verifica-se uma predominância do sexo feminino para determinados trabalhos e do sexo masculino para outro tipo de atividades. No entanto, ao longo do tempo, tem-se verificado um acréscimo de mulheres a trabalhar em áreas consideradas, outrora, masculinas. Atualmente, ainda se verificam desigualdades na prática laboral entre o sexo feminino e o masculino e que parecem não advir das capacidades/formação específica para determinado trabalho mas sim, de questões culturais, o que será abordado adiante neste estudo. Sob o ponto de vista da higiene e segurança ocupacionais, este estudo pode ser muito útil para os técnicos de segurança e higiene no trabalho, uma vez que pode dar a conhecer características da atividade de trabalho, dos coletivos de trabalho e das dificuldades verificadas neste contexto. Os trabalhadores são o ponto central da segurança e higiene no trabalho, sem eles não seria necessário a sua proteção e são os primeiros que devem salvaguardar a sua segurança e a dos colegas de trabalho. Devem também transmitir informações acerca das condições de trabalho que ponham em causa a segurança e saúde. Os trabalhadores são os melhores conhecedores da sua atividade de trabalho e dos riscos existentes nos seus locais de trabalho e por isso podem contribuir para a obtenção de informação privilegiada por parte dos técnicos de segurança e higiene (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 2012). A avaliação de riscos de uma atividade de trabalho tem de ser participada, ou seja, o empregador ou o seu representante não deve atuar sozinho mas sim, promover a participação dos trabalhadores na avaliação e também informar os mesmos das conclusões obtidas e das medidas a tomar (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 2007). Os empregadores e chefias devem criar condições para que o trabalhador seja ouvido e envolvido na tomada de decisões relativas à segurança e saúde no trabalho. Muita das vezes, isso não acontece, a mais-valia deste estudo está na realização de uma análise centrada no ponto de vista do trabalhador para fazer chegar aos empregadores informações sobre os constrangimentos sentidos pelos trabalhadores que só podem ser aferidas através de um contacto direto com os mesmos, analisando o seu trabalho em contexto real (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 2012). Importa realçar que não há muitos estudos realizados em Portugal sobre cuidadores de idosos, no entanto existe um estudo semelhante a este, mas com o principal objetivo de levantamento de riscos existentes, partindo do princípio que um determinado risco tem a mesma influência em diferentes indivíduos num mesmo contexto. Por outro lado, este estudo pretendeu realizar uma análise observacional das tarefas desempenhadas pelos ajudantes de lar, sendo essa análise integrada com o ponto de vista dos Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 5 trabalhadores, de forma a ter em conta as características individuais na avaliação das condições de trabalho. Deste modo, este estudo pretende analisar a atividade de ajudantes de lar, analisando o peso da dimensão género nessa atividade de trabalho, no lar José Luiz D`Andrade pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 7 2 ESTADO DA ARTE Este capítulo está dividido em cinco pontos, no primeiro ponto caracteriza-se de forma sumária as instituições de lares de idosos em Portugal. No segundo ponto, realiza-se uma caracterização dos ajudantes de lar em Portugal, também se efetua uma breve análise das tarefas desempenhadas por estes trabalhadores e ainda se refere um estudo realizado sobre estes trabalhadores. No terceiro ponto, apresenta-se o enquadramento legal, aplicável a instituições e aos ajudantes de lar que realizam atividade em lares de idosos. No quarto ponto, abordar-se vários estudos já realizados no âmbito da distribuição dos trabalhadores em função da dimensão género e apresenta-se as metodologias adotadas, bem como as principais conclusões desses estudos. No quinto ponto, expõe-se as relações entre saúde e trabalho, onde se salienta o impacto que o trabalho pode ter para a saúde dos trabalhadores, sendo isso um fator importante de estudo. 2.1 Trabalho em lares de idosos Os lares de idosos são instituições através das quais se dá uma resposta social desenvolvida em alojamento coletivo, de utilização temporária ou permanente, para idosos em situação de maior risco de perda de autonomia. Os lares destinam-se a acolher pessoas idosas (ou outras pessoas cuja situação ao nível de saúde física ou mental justifique) que se encontram desinseridas do meio familiar ou social e como já foi referido que não apresentem capacidade de autonomia na satisfação das suas necessidades básicas e que têm livre e espontânea vontade de serem colocadas numa instituição social (Bonfim , Garrido, Saraiva, & Veiga, 1996; Carvalho, 2012). Os lares têm por base determinados objetivos (Bonfim , Garrido, Saraiva, & Veiga, 1996; Carvalho, 2012): • Atender e acolher pessoas idosas cuja situação social, familiar, económica e/ou de saúde, não permita resposta alternativa; • Proporcionar serviços adequados à satisfação das necessidades dos residentes (alimentação, higiene, cuidados médicos e apoio psicossocial); • Proporcionar alojamento temporário como forma de apoio à família (doença de um dos elementos, fins de semana, férias e outras); • Prestar os apoios necessários às famílias dos idosos, no sentido de preservar e fortalecer os laços familiares. • Fomentar a intergeracionalidade, ou seja, o relacionamento entre os utentes de várias faixas etárias; • Prevenir o isolamento social dos idosos, bem como assegurar a monitorização do estado psicológico e físicos dos mesmos; • Fomentar sentimentos de segurança, interação e autoestima nos utentes. O número de lares de idosos no País tem aumentado muito nos últimos anos. Sabe-se que, atualmente, o número de lares deverá rondar os 1800, cerca de 1300 enquadrados no setor da economia social e cerca de 500 referentes ao setor lucrativo (Bonfim , Garrido, Saraiva, & Veiga, 1996; Carvalho, 2012). Não se pode olhar apenas para o número de lares, mas sim para o número de utentes que podem ser colocados num lar de idosos, através do número de camas existentes. Segundo a Carta Social de 2012, existe em termos de estruturas residenciais para idosos (lar de idosos e residência), em Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 8 Estado da arte Portugal continental, a capacidade para dar resposta a 79997 idosos (Gabinete de Estratégia e Planeamento , 2012). Para se ter a noção do quanto cresceu a rede de serviços e equipamentos no que toca à resposta social a pessoas idosas, devem-se não só englobar as estruturas residenciais para idosos, mas também os centros de dia, os serviços de apoio domiciliário e os centros de convívio. Deste modo, pode-se aferir que de 2000 até 2012, as respostas sociais dirigidas à população idosa aumentaram cerca de 40%, o que significa um crescimento global de 2000 novas respostas sociais a esta população (Gabinete de Estratégia e Planeamento , 2012). Na figura 1, apresenta-se a evolução da capacidade das respostas para pessoas idosas, em Portugal continental no período de 2000 a 2012. Através da figura 1, pode-se verificar que a capacidade de respostas sociais aumentou ao longo dos anos, tendo a capacidade de resposta do Serviço de Apoio Domiciliário aumentado 98% e a capacidade de resposta através de Estrutura Residencial para Pessoas Idosas aumentado cerca de 43%, sendo os Centros de Dia os que tiveram um aumento de capacidade mais discreto. Já no que toca a Centros de Convívio, a capacidade desta resposta social tem diminuído, estando a cair em desuso (Gabinete de Estratégia e Planeamento , 2012). Segundo dados da Carta Social de 2012, existe uma boa relação oferta-procura das respostas sociais face à população idosa existente. Na maior parte dos distritos do país, existe uma oferta que supera a procura. Contudo, nas áreas metropolitanas de Porto e Lisboa, isso já não acontece, devido ao facto de nesses locais existir um número elevado de idosos, que apresentam uma maior procura em relação à oferta (Gabinete de Estratégia e Planeamento , 2012). Pode-se então constatar que, futuramente, certos equipamentos sociais, como as estruturas sociais para idosos, apresentarão um crescimento marcado, devido ao aumento do número de idosos com necessidades de institucionalização. Isto abre caminho para a atividade de ajudante de lar, já que são estes que cuidam dos idosos, prestando os cuidados básicos de higiene e alimentação (Gabinete de Estratégia e Planeamento , 2012). Figura 1Evolução da capacidade das respostas sociais para pessoas idosas (Gabinete de Estratégia e Planeamento, 2012). Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 9 2.2 Ajudantes de lar Os ajudantes de lar são técnicos que trabalham diretamente com os idosos, auxiliando-os na alimentação, na higienização e na prestação de cuidados básicos de saúde. Tradicionalmente, estes trabalhadores são do sexo feminino e com poucas habilitações literárias, entrando na área por necessidade de emprego e não tendo, muita das vezes, qualquer formação específica no trabalho com idosos (Ferreira, 2012). Estes trabalhadores têm, frequentemente, formação no seu local de trabalho, de forma a adquirirem determinadas competências e conhecimentos que vão favorecer a qualidade do serviço prestado ao idoso. Muitas vezes, nos sistemas de formação, não existe uma abordagem ao stresse e à carga emocional a que estes trabalhadores se encontram sujeitos. Segundo Oswald, Gunlmann e Ackermann cite em Barbosa (2011) “a abordagem de reabilitação, focalizada na maximização das capacidades do idoso com demência e na interação idoso-cuidador é determinante para a promoção e manutenção da mobilidade, da funcionalidade e da estimulação dos idosos e para a diminuição da sobrecarga física e psicológica dos cuidadores formais” (Ferreira, 2012; Gameiro, 2012). Segundo um estudo realizado em 2012, em que se entrevistaram e analisaram trabalhadores de lar designados como cuidadores de idosos, concluiu-se que muitos deles não tinham um curso, mas possuíam alguma experiência pessoal na tarefa de cuidar de idosos, uma vez que já tiveram a seu cargo a prestação de cuidados a um familiar idoso. Este estudo revelou que muitos desses trabalhadores não tinham pensado em trabalhar nesta área, mas a necessidade de obter um emprego foi o fator determinante. Muitos deles referiram que tomaram o gosto pela profissão com o decorrer do tempo, realçando a importância do trabalho desempenhado (Ferreira, 2012). No entanto, no estudo foi também referido que, nos primeiros tempos, os trabalhadores apresentaram dificuldades na adaptação ao trabalho, devido ao facto de não estarem habituados a realizar determinadas tarefas, como, por exemplo, as mudas de fraldas a idosos. Em termos gerais e segundo a literatura, os ajudantes de lar desempenham diversas funções, nomeadamente (Carvalho, 2012; Ferreira, 2012; Gameiro, 2012): • Prestar acompanhamento diurno ou noturno aos idosos, guiando e auxiliando as deslocações, estimular a conversação, verificando os interesses e motivações de cada idoso; • Participar na ocupação dos tempos livres; • Prestar cuidados de higiene total ou parcial do idoso e colabora na prestação de cuidados de saúde; • Realizar a mudança de fralda ao idoso quando necessário; • Assegurar uma alimentação regular do idoso; • Recolher os utensílios utilizados na alimentação do idoso; • Realizar higienização do espaço físico; • Requisitar, repor e distribuir o material de higiene, conforto e medicamentos; • Transportar idosos por cadeira de rodas, quando necessário; • Acompanhar o idoso ao hospital ou outro serviço de saúde sempre que se justifique; • Proceder à substituição da roupa da cama, das casas de banho e vestuário dos idosos, • Proceder ao acondicionamento, arrumação, distribuição, transporte e controlo das roupas lavadas e à recolha de roupas sujas e sua entrega na lavandaria; • Realizar higienização oral do idoso; • Ajudar a vestir e calçar o idoso, sempre que se justifique. Verifica-se que as tarefas mais relevantes são a higienização, a alimentação e a mobilização do idoso. Contudo, também realizam outras pequenas tarefas, que não estão relacionadas diretamente com o idoso, como, por exemplo, fazer as camas e arrumar/realizar a higiene do Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 16 Estado da arte infrapatológicos, traduzem-se não raras vezes de forma discreta, ainda que tenham associado estados de sofrimento. Falamos, nomeadamente, de problemas que se podem manifestar por dores nas articulações, perda de audição, problemas no sono, ansiedade, fadiga, entre outros, podendo dar origem a problemas de saúde mais profundos, sendo indispensável não os desvalorizar, mas antes sabê-los apreender para melhor os prevenir (Barros-Duarte, Cunha, & Lacomblez, 2007). Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 17 3 OBJETIVOS, MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 Objetivos da dissertação Este estudo tem por base a análise da atividade de trabalho de ajudantes de lar que prestam cuidados básicos aos utentes de lares de idosos. Este estudo foi realizado num lar de idosos (lar José Luiz D`Andrade), pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso. O presente estudo pretende explorar a atividade de trabalho dos ajudantes de lar, tendo em conta a dimensão género. Para isto, são analisadas as caraterísticas do trabalho, as condições em que este ocorre e, ainda, as exigências, constrangimentos e dificuldades dos trabalhadores. Este estudo inclui, ainda, a avaliação da atividade dos ajudantes de lar, a partir da ótica dos próprios trabalhadores, permitindo obter conclusões acerca do trabalho real. Com isto, pretende-se identificar particularidades, que possam levar à existência de diferenças entre os trabalhadores, salientando, novamente, a variável género. Tentou-se também, estudar o impacte das condições de trabalho na saúde e bem-estar dos ajudantes de lar, bem como, analisar as funções desempenhadas pelos trabalhadores do sexo masculino e feminino, de forma a avaliar a existência de diferenças entre os dois géneros. Para além disto, pretendeu-se analisar questões associadas às condições de trabalho, no que toca à escolha dos turnos, carga de trabalho e tarefas realizadas. Trabalhadores que desempenham diferentes tarefas, que apresentam diferentes condições de emprego e de trabalho, estão, forçosamente, expostos a diferentes riscos ocupacionais. Isto remete para a importância deste estudo, no âmbito da segurança e higiene no trabalho, uma vez que só conhecendo a atividade de trabalho, pelo ponto de vista do trabalhador, é possível conhecer as caraterísticas que os diferenciam. 3.2 Materiais e métodos A metodologia geral seguida neste trabalho passou por dar a conhecer o estudo e os seus objetivos e solicitar autorização para a realização do mesmo na instituição Santa Casa Misericórdia de Santo Tirso, através da marcação de uma reunião que permitiu a exposição dos objetivos e do plano metodológico que se pretendia seguir. Inicialmente, realizou-se um contacto inicial com o lar José Luiz D`Andrade, de forma a conhecer as especificidades da instituição e os ajudantes de lar. Depois desse contacto inicial, foi realizada uma análise qualitativa, ou seja, uma análise observacional da atividade de trabalho e dos coletivos de trabalho. Esta análise observacional consistiu na observação de trabalhadores de cada um dos turnos (manhã, tarde e noite), de forma a estudar como estes desempenham as tarefas, as reações a determinadas situações que lhes são impostas, a forma como se relacionam com os colegas e com os idosos, e ainda, efetuar o registo de todas as verbalizações proferidas por esses trabalhadores. A análise observacional é uma mais-valia, uma vez que permite obter informação sobre o trabalho real, analisando as relações entre os trabalhadores, as posturas e tarefas realizadas, e ainda, recolher verbalizações, que através de uma entrevista ou inquérito não seria possível obter. Para isto, pretende-se estudar um conjunto de trabalhadores que representem todos os turnos de trabalho, grupos etários e géneros. Deste modo, afere-se que os resultados não são inócuos, uma vez que dependem da escolha dos acontecimentos que o observador assiste e da sua interpretação para responder às questões a que se propõe (Guérin, Laville, Daniellou, Duraffourg, & Kerguelen, 1991; Leplat, 2000). Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 18 Objetivos e metodologia As verbalizações proferidas pelos trabalhadores são de extrema importância, uma vez que a observação, por si só, não permite apreender o significado das atitudes ou ações realizadas, ou seja, as observações são limitadas no tempo e as verbalizações ajudam a situar estas temporalmente. As verbalizações proferidas pelos trabalhadores são espontâneas, uma vez que decorrem da análise observacional realizada (Guérin, Laville, Daniellou, Duraffourg, & Kerguelen, 1991; Leplat, 2000). Deste modo, a análise observacional permite obter dados privilegiados acerca da atividade exercida, uma vez que se pretende observar de forma sistemática os trabalhadores, e também registar os seus comportamentos e verbalizações no decorrer da atividade de trabalho. Um outro instrumento de trabalho utilizado neste estudo foi o INSAT, inquérito saúde e trabalho, elaborado por Barros-Duarte, Cunha e Lacomblez (2013), para determinar as características das condições de trabalho. Os autores referem que o objetivo deste inquérito é “compreender de que forma os trabalhadores avaliam as características e as condições do seu trabalho, o seu estado de saúde e que tipo de relações estabelece entre a saúde e o seu trabalho” (Barros-Duarte, Cunha, & Lacomblez, 2007). O INSAT foi solicitado às autoras, que concederam autorização para a sua aplicação neste estudo. Este inquérito detém uma grande variabilidade de questões para a compreensão do contexto do trabalho e centra a sua preocupação nos pequenos problemas de saúde. O autopreenchimento leva a uma consciencialização das condições de trabalho por parte dos trabalhadores. A análise integrada dos resultados deste inquérito sustenta-se no desenvolvimento de uma “estatística aberta”, onde as interpretações deverão ser acompanhadas de uma reflexão cuidadosa, tendo em conta a complexidade das relações saúde-trabalho (Barros-Duarte & Cunha, 2010). À medida que se aplicou o inquérito, recolheram-se verbalizações dos trabalhadores, de forma a sustentar os dados obtidos (Barros-Duarte, Cunha, & Lacomblez, 2007). Este inquérito encontra-se dividido em sete partes: o trabalho, condições e características do trabalho, condições de vida fora do trabalho, formação e trabalho, saúde e trabalho, a minha saúde e o meu trabalho e a minha saúde e o meu bem-estar. A primeira parte é designada “o trabalho”, onde se apresentam questões associadas à situação de trabalho, caracterização do tipo de atividade, tipo de vínculo laboral e horário de trabalho. A segunda parte intitulada de “condições e características do trabalho”, refere-se à análise da exposição dos trabalhadores a determinadas condições e encontra-se dividida em três categorias. A primeira categoria diz respeito ao ambiente e constrangimentos físicos, nomeadamente ruído, vibrações, ambientes térmicos, exposição a radiações, agentes biológicos e químicos, cargas, posturas, entre outros. A segunda categoria são constrangimentos organizacionais e relacionais, nomeadamente tempos de trabalho, ritmos, autonomia e margens de iniciativa, relações de trabalho e contacto com o público. Por fim, a terceira categoria considera as características do trabalho, constituída por apreciações sobre o trabalho atual (Barros-Duarte, Cunha, & Lacomblez, 2007). A terceira parte é chamada de “condições de vida fora do trabalho”, na qual o trabalhador identifica o seu estado civil, o número de filhos, se consegue conciliar a vida de trabalho com a vida fora de trabalho e ainda, o grau de incómodo que isso lhe causa. Tem ainda de determinar o tempo gasto em deslocações para o trabalho e o tempo gasto em tarefas domésticas. A quarta parte é indicada como “formação e trabalho”. Nesta parte, pede-se ao trabalhador para identificar se tem estatuto de trabalhador-estudante e questiona-se o mesmo quanto ao número de formações nos últimos 12 meses, horas de formação e razões para essa formação. A quinta parte é designada “saúde e trabalho”, na qual se pede ao trabalhador para indicar se já teve algum acidente de trabalho e, em caso afirmativo, se o acidente levou a alguma incapacidade e a qual corresponde na Tabela Nacional de Incapacidades. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 19 O trabalhador também tem de indicar se tem alguma doença profissional e, em caso afirmativo, declarar se ficou com alguma incapacidade reconhecida e a qual corresponde na Tabela Nacional de Incapacidades. Nesta parte do inquérito, o trabalhador deve também indicar se faltou mais de três dias ao trabalho e, se sim, por que motivos. No final da quinta parte, existem ainda, questões associadas aos riscos profissionais e equipamentos de proteção individual e coletiva (Barros-Duarte, Cunha, & Lacomblez, 2007). A sexta parte é denominada “a minha saúde e o meu trabalho”. Nesta parte, o trabalhador tem de identificar quais os problemas de saúde que sofre (dores de cabeça, dores de costas, problemas de visão, perturbações de voz, problemas de audição, problemas de pele, dificuldades respiratórias, dores musculares e articulações, dores de estomago, varizes, ansiedade ou irritabilidade, fadiga generalizada, desânimo generalizado e sonolência ou insónias) e, no caso de responder afirmativamente, deve identificar a origem desse problema. Para além disto, o trabalhador indica se tem alguma doença crónica e, se sim, os medicamentos que consome frequentemente. Por fim, o trabalhador deve responder à questão sobre como está a sua saúde, escolhendo uma de cinco opções: muito boa, boa, razoável, má ou muito má. Seguidamente, indica se considera que o seu trabalho afeta positivamente, negativamente ou de forma nenhuma a sua saúde. A sétima parte é nomeada de “a minha saúde e o meu bem-estar”. Nesta parte, aplica-se o Perfil de Saúde Nottingham, nomeadamente a versão portuguesa do Centro de Estudos e Investigação em Saúde de 1997. Após a aplicação do inquérito e recolhidos os dados, procuraram-se variáveis que caracterizassem os trabalhadores, o seu trabalho e a sua saúde e que permitissem diferenciar os trabalhadores, investigando diferenças ao nível da dimensão género. Para tal, usou-se a ferramenta de estatística SPSS statistics 20. Entretanto, relacionaram-se os dados obtidos da análise qualitativa e quantitativa, de forma a verificar a existência de concordância entre os resultados e reforçar, assim, as conclusões do estudo. Contudo, também se tiveram em conta os dados obtidos a partir de cada análise isoladamente, o que permitiu tirar ilações importantes dos mesmos. No final, pretendeu-se ainda, restituir os dados obtidos dos trabalhadores, de forma a serem validados pelos mesmos, no sentido de assegurar que traduzem a realidade que evidenciam. Na figura 2 apresenta-se um cronograma das atividades realizadas na construção da dissertação. Figura 2 - Cronograma de atividades relativas à realização da dissertação. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 20 Objetivos e metodologia Legenda: Na primeira linha temporal, encontra-se o período inicial onde se realizou a pesquisa teórica que serviu de base para a construção da dissertação; terminada essa fase de pesquisa realizou-se a identificação de lares de idosos que se enquadravam no tema da dissertação; selecionou-se o lar a considerar e procedeu-se aos contactos para formalizar a análise no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso, iniciando-se também o contacto com os trabalhadores; na segunda linha temporal indica-se o período de realização das observações em contexto real, e da aplicação do INSAT, bem como de inserção dos dados na matriz SPSS e de tratamento estatístico dos dados, seguido do período de análise das relações entre os dados das observações e do INSAT e, por fim, da restituição e validação dos dados. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor PARTE 2 Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 23 4 RESULTADOS Neste capítulo, apresentam-se os dados obtidos através do estudo realizado na Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso. Este estudo centra-se na atividade de trabalho dos ajudantes de lar do lar José Luiz D`Andrade. Deste modo, apresenta-se, no primeiro ponto, o enquadramento histórico e as características da instituição. No segundo ponto, caracterizam-se os ajudantes de lar, expondo-se dados sobre a idade, sexo, antiguidade, distribuição pelos turnos de trabalho, entre outras informações. Nesta parte, explicase a forma de seleção dos trabalhadores envolvidos na análise observacional e expõem-se as razões dessa escolha - o mesmo acontece com os trabalhadores envolvidos na aplicação do inquérito INSAT. O terceiro ponto refere-se à análise qualitativa, ou seja, os resultados obtidos da análise observacional, onde são expostas as características do trabalho dos ajudantes de lar e ainda, as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores ao longo de um dia de trabalho. Posteriormente é feita uma descrição e distribuição por categorias das verbalizações obtidas, relatando-se alguns exemplos. Esta categorização das verbalizações vai de encontro aos dados obtidos através do INSAT, relacionando deste modo os dados recolhidos através das duas abordagens metodológicas. No quarto ponto, apresentam-se os dados mais significativos obtidos da análise quantitativa, em que se utilizou o INSAT. 4.1 Caracterização da Santa Casa da Misericórdia A instituição nasceu através de um conjunto de ações levadas a cabo por vários beneméritos de Santo Tirso. Assim a 3 de Julho de 1885 e sob a forma de uma Irmandade, nasce a Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso. Esta irmandade servia para recuperar e relançar a Antiga Casa da Saúde. Em 30 de Agosto de 1885 foi constituída a primeira mesa administrativa. 2 O benemérito José Luiz D`Andrade doou à Misericórdia em 1894, as quintas de Fora e de Dentro do antigo Mosteiro de S. Bento, na condição de se fundar um Asilo Agrícola, havendo nesse asilo uma secção de velhos. 2 A Irmandade e Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso orienta a sua missão para a promoção de respostas e iniciativas adequadas à prossecução dos seus fins e às necessidades diagnosticadas na comunidade, contribuindo para o desenvolvimento local e proteção de grupos sociais mais vulneráveis. 2 É uma instituição constituída por uma Mesa Administrativa na qual desemboca a Direção Geral que se divide em cinco serviços, a Direção dos Serviços Administrativos, Direção dos Serviços Sociais, Saúde, Serviços de Apoio e Cultura. Na Direção dos Serviços Sociais engloba-se a Ação Social, onde se encontra os vários centros de dia e lares de idosos da instituição, destacando-se o Lar José Luiz D`Andrade. 3 O lar José Luiz D`Andrade sucedeu ao antigo asilo instalado em 1906, permitindo o alojamento coletivo e de caráter permanente de cerca de 83 utentes de ambos os sexos e com idades superiores a 65 anos. O Lar funciona no local atual desde 1984, destinando-se receber pessoas Dados obtidos através do Sítio misericórdia-santotirso.org [Acedido em Março de 2014] 2 http://www.misericordia-santotirso.org/instituicao/historia/ 3 http://www.misericordia-santotirso.org/instituicao/organigrama/ Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 24 Tratamento e Análise de Dados que se encontrem desprotegidas ou com incapacidade de nível biopsicossocial. Este Lar possui 23 ajudantes de lar, sendo 20 do sexo feminino e 3 do sexo masculino. 4 4.2 Caracterização dos ajudantes de lar Nesta parte do trabalho, realiza-se uma caracterização dos ajudantes de lar e indica-se o trabalho prescrito desses trabalhadores. Segundo o regulamento interno referente ao lar José Luiz D`Andrade, os trabalhadores ajudantes de lar têm de: • Prestar cuidados de higiene e conforto, bem como, apoiar atividades e eliminação dos utentes; • Arrumar e distribuir roupas e objetos dos utentes; • Apoiar a realização de atividades socio-recreativas; • Auxiliar os utentes nas atividades de vida diária em período diurno e noturno; • Acompanhar os utentes ao exterior, realizar visitas ou compras, no impedimento das familiares; • Apoiar o corpo clínico em tarefas e cuidados básicos de saúde dos utentes; • Preparar e transportar cadáveres; • Cumprir o definido no Sistema de Gestão e Qualidade (SGQ) e aplicável à função; • Contribuir ativamente para a melhoria contínua do Sistema de Gestão e Qualidade (SGQ), de modo a otimizar recursos e satisfazer clientes. Na tabela 1, a que a seguir se apresenta, podem-se observar as características dos ajudantes de lar que trabalham no lar José Luiz D`Andrade. Tabela 1 - Caracterização dos ajudantes de lar. Nº Ajudantes de lar Sexo Média Idades (anos) Idade Max./Min. (anos) Desvio Padrão Idades (anos) Média Antiguidade (anos) Antiguidade Max./Min. (anos) Desvio Padrão Antiguidade (anos) Masculino Feminino 23 3 20 44 63/22 12 16 30/2 11 De forma particular e para que se tenha uma melhor perceção da distribuição das idades dos ajudantes de lar, apresenta-se na tabela 2 a divisão dos trabalhadores por grupos etários. Tabela 2 - Divisão dos ajudantes de lar por grupos etários. Grupos Etários Número de Ajudantes de Lar Percentagem [20 – 35[ 6 26% [35 – 50[ 10 44% [50 – 65[ 7 30% Dados obtidos através do Sítio misericórdia-santotirso.org [Acedido em Março de 2014] 4 http://www.misericordia-santotirso.org/accao_social/lar_jla/ Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 25 Através da tabela 2, pode-se verificar a distribuição dos vinte e três ajudantes de lar pelos diferentes grupos etários, em que a maior parte dos ajudantes de lar apresentam idades compreendidas entre os [35-50[ anos de idade (44%). Dos restantes trabalhadores, 26% situamse no grupo etário [20-35[ e 30% no grupo dos [50-65[ anos de idade. Ainda no que toca à caracterização dos ajudantes de lar, é importante também referir a sua distribuição pelos turnos de trabalho. Esta distribuição é apresentada na tabela 3. Tabela 3 - Distribuição dos ajudantes de lar pelos turnos. Turnos Número de Ajudantes de Lar Manhã (7h30min – 14h10min; 8h00min – 14h40min) 10 Tarde (14h20min – 21h20min;15h20min – 22h00min) 9 Noite (22h – 7 h) 2 Rotativos 2 Verifica-se que, no turno da manhã encontram-se dez ajudantes de lar, no turno da tarde trabalham nove ajudantes de lar e no turno da noite estão presentes dois ajudantes. Em turnos rotativos, encontram-se dois ajudantes de lar. Existem três ajudantes de lar do sexo masculino, trabalhando cada um deles num turno diferente (manhã, tarde e noite). Existem dois horários no turno da manhã e no turno da tarde, de forma a estar presente sempre alguém a dar apoio aos idosos aquando da mudança de turnos. Para além disto, o turno da noite apresenta um número de horas superior ao dos restantes turnos. Inicialmente, realizou-se a análise observacional, antes da aplicação do inquérito, com o intuito de estabelecer uma relação de proximidade com os ajudantes de lar e obter uma maior confiança por parte destes, de forma a exporem o seu ponto de vista acerca do trabalho. Deste modo, a análise observacional pretendeu compreender o trabalho concreto dos ajudantes de lar, conhecendo assim, os seus constrangimentos e condições vividas. O lar José Luiz D`Andrade possui vinte e três ajudantes de lar, sendo que se realizaram as observações junto de oito ajudantes. Esses trabalhadores foram selecionados a partir das suas características, definindo-se duas variáveis a antiguidade e o sexo, selecionando-se trabalhadores mais novos com menor antiguidade e trabalhadores mais velhos com maior antiguidade. Para ter uma ideia geral da atividade de trabalho, também se realizou a observação em todos os turnos. Na tabela 4, apresenta-se as características dos trabalhadores envolvidos na análise observacional. Tabela 4 - Caracterização dos participantes da análise observacional. Nome Idade Antiguidade Sexo Turno T3 53 24 F Tarde T4 58 28 M Manhã T6 54 28 F Manhã T14 49 8 F Manhã T16 29 4 F Folgas/Rotativo Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 32 Tratamento e Análise de Dados Através da tabela 7, pode-se verificar algumas questões associadas à organização de trabalho, como a exposição a situações de elevar pesos o que pode gerar lesões nas costas, sendo este problema, um dos mais indicados pelos ajudantes de lar nas respostas ao INSAT, através de dores nas costas e esforços intensos. Pode-se aferir que os ajudantes de lar estão expostos a problemas de saúde, facto que foi estatisticamente corroborado pelos dados do inquérito no que toca à exposição a agentes biológicos. Existe também constrangimentos temporais associados ao acompanhamento de utentes na ida urgente ao hospital, o que pode muita das vezes ultrapassar as horas do turno, facto que foi referido nos dados obtidos através da aplicação do inquérito. Na tabela 8, apresenta-se algumas verbalizações e dados do INSAT, associados a relações de trabalhos avançadas pelos ajudantes de lar. Tabela 8 - Relações de trabalho. Relações de trabalho Análise Observacional INSAT “ Não nos devemos apegar demasiado aos idosos, temos de ter uma relação, mas temos de nos saber distanciar, senão quando alguém falecia ninguém conseguia trabalhar ou preparar o cadáver.” (T14, 49 anos, sexo feminino) “Há idosos que são complicados, que não gostam de nós e depois acusam de coisas que não fizemos, ou se querem isto ou aquilo vamos buscar e depois já não querem” (T14, 49 anos, sexo feminino) Suportar as exigências, queixas ou reclamações dos utentes 82,6% (19 ajudantes de lar) Situações de tensão nas relações com os utentes 69,6% (16 ajudantes de lar) É reconhecido o que faço pelas chefias 87,0% (20 ajudantes de lar) É reconhecido o que faço pelos colegas 87,0% (20 ajudantes de lar) “Nota-se que a tarde a equipa de trabalho é mais alegre talvez por serem mais novos e isso passa para os utentes.” (T14, 49 anos, sexo feminino) Frequente necessidade de ajuda dos colegas 69,6% (16 ajudantes de lar) Frequente ter ajuda dos colegas quando é preciso 73,9% (17 ajudantes de lar) Através da tabela 8, pode-se verificar várias verbalizações proferidas pelos trabalhadores, há trabalhadores que sentem que não têm a melhor relação com alguns utentes e os trabalhadores do turno da tarde na ótica de um trabalhador, são mais alegres o que acaba por passar para os utentes. O INSAT também permitiu recolher dados acerca das relações de trabalho, onde se salienta as situações de tensão com utentes e as suas queixas suportadas pelos ajudantes de lar e por outro lado, está o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelos ajudantes de lar, uma vez que a maioria dos trabalhadores referiram que o seu trabalho é reconhecido pelas chefias e pelos colegas. Verificou-se que os trabalhadores necessitam um dos outros na sua atividade e que geralmente se ajudam quando alguém solicita esse auxílio entre colegas de trabalho. Na tabela 9, apresenta-se algumas verbalizações e dados do INSAT, associadas problemas de saúde (relação com o trabalho) manifestados pelos ajudantes de lar. Tabela 9 - Problemas de saúde (relação com o trabalho). Problemas de saúde (relação com o trabalho) Análise Observacional INSAT “Facilmente apanha-se uma gripe aqui, quando entrei estava Trabalhar mesmo estando doente 47,8% (11 ajudantes de Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 33 Problemas de saúde (relação com o trabalho) Análise Observacional INSAT sempre engripado” (T21, 23 anos, sexo masculino) “Já trabalhei com dores nas costas.” (T4, 58 anos, masculino) lar) Exposição a agentes biológicos 87,0% (20 ajudantes de lar) Dores de costas 87,0% (20 ajudantes de lar) Dores musculares/articulações 69,6 % (16 ajudantes de lar) Fadiga Generalizada 34,8% (8 ajudantes de lar) “Eu tenho uma hérnia discal e ando a fazer tratamento, tenho a coluna toda torta e claro, estou a fazer tratamento. Posso ter que deixar a atividade” (T4, 58 anos, sexo masculino) “Tive de pegar numa idosa a pesar mais de 100 kg e depois tive uma lesão e fui para o hospital” (T14,49 anos, sexo feminino) Através da tabela 9, pode-se verificar que os ajudantes de lar referiram a existência de problemas nas costas e de coluna associados a esforços momentâneos, mas repetidos consecutivamente ao elevar utentes. Estas verbalizações representam a maioria dos problemas de saúde relatados nas análises observacionais. Por outro lado os resultados do inquérito INSAT confirmaram que estes problemas de saúde são transversais a quase todos os ajudantes de lar. O INSAT também permitiu obter diversos resultados sobre outros problemas de saúde que no entanto apenas se verificam em alguns trabalhadores. Também se confirma que os trabalhadores trabalham muitas vezes sentindo dores. Na tabela 10, apresenta-se algumas verbalizações associadas a sugestões para melhorias no trabalho propostas pelos ajudantes de lar. Tabela 10 - Sugestões de melhoria no trabalho. Sugestões de Melhorias Análise Observacional INSAT “Um outro caso importante é também nós termos de decidir de noite se levamos este utente para o hospital ou não, é uma decisão muito importante e somos nós sozinhos que temos de decidir. Um enfermeiro era muito melhor.” (T16, 29 anos, sexo feminino) Necessidade de ajuda de colegas 69,6% (16 ajudantes de lar) “Um utente que entra para o lar num dia, só no dia seguinte é que vai ao médico, então nós passamos uma noite inteira sem saber se esse utente tem alguma doença ou algo que tenhamos de ter um cuidado especial com esse utente, se tivermos que ir com esse utente para o hospital não sabemos nada dele, isso é complicado porque podemos apanhar doenças.” (T16, 29 anos, sexo feminino) Situação Perigosa – “alguma doença que não tenhamos conhecimento que o utente possa ter” “O que mudava no trabalho era o facto de trabalhar acompanhado, o que facilitava muito a pegar pessoas muito pesadas. Contudo devido à contenção de custos não pode ser”. (T4, 58 anos, sexo masculino) Através da tabela 10, pode-se verificar a importância do contacto direto com os trabalhadores, uma vez que quem pensa os postos de trabalho não tem a experiência de trabalho que os trabalhadores detêm. Os ajudantes de lar evidenciaram a questão da decisão de levar ou não um utente para o hospital, que requer muita responsabilidade e por isso um enfermeiro a tempo Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 34 Tratamento e Análise de Dados inteiro ajudaria nessas questões. Também referiam a exposição a agentes biológicos e desconhecimento sobre as doenças de um utente que entra para o lar, sem que seja visto por um médico, podendo criar um fator de risco tanto para utentes como para trabalhadores. Uma outra sugestão prende-se com o trabalho em equipa, em que os ajudantes de lar trabalhariam em conjunto, evitando assim ter de elevar e transportar idosos sozinhos e diminuindo o risco de lesões músculo-esqueléticas. Estas sugestões foram também elas corroboradas pelos dados obtidos a partir do INSAT, uma vez que um ajudante de lar também referiu a questão associada à entrada de utentes no lar sem conhecimento do estado de saúde desses utentes, isto foi referido por um ajudante de lar na questão “outras situações perigosas”. Os dados do INSAT permitiram também determinar que os ajudantes de lar consideram necessitar frequentemente da ajuda de colegas. 4.5 Resultados obtidos através da aplicação do INSAT Neste ponto, apresenta-se os dados obtidos através da aplicação do inquérito INSAT aos ajudantes de lar do lar José Luiz D`Andrade. Os dados apresentados foram selecionados de acordo com a sua importância. Assim apenas estão representados dados com relevância para o estudo, e que não foram ainda apresentados. Na tabela 11 apresenta-se um conjunto de situações consideradas no inquérito às quais mais de metade dos ajudantes de lar responderam afirmativamente e cujas situações são relevantes tendo em conta as análises observacionais. Tabela 11 – Situações relevantes relacionadas com a perceção dos trabalhadores sobre a sua atividade de trabalho. Situação Sim Gestos repetitivos 65,2% (15 ajudantes de lar) Posturas penosas 60,9% (15 ajudantes de lar) Exposição a agressão verbal 52,2% (12 ajudantes de lar) Não existência de perspetivas de evolução na carreira 47,8% (11 ajudantes de lar) Renumeração não permite ter um nível de vida satisfatório 60,9% (14 ajudantes de lar) Dificilmente conseguirão realizar o trabalho quando tiverem 60/65 anos 82,6% (19 ajudantes de lar) Através da tabela 11, pode-se verificar que o INSAT permitiu aferir quais os constrangimentos que mais prevalecem entre os ajudantes de lar, e que não foram tão evidenciados na análise observacional. Os gestos repetitivos também existem na atividade de trabalho, o INSAT confirma o que já se tinha sido percecionado na análise observacional, a quando da explicitação relativa à realização de diversas higienizações por curtos períodos de tempo. No caso de posturas penosas e esforços intensos, estas situações não foram observadas em análises em contexto real, mas os problemas de saúde advém da necessidade de adotarem posturas que prejudicam a saúde, cujo recurso ao INSAT confirmou a existência deste tipo de situações. O INSAT permitiu aferir que, uma grande parte dos trabalhadores, não têm perspetiva de evolução da carreira. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 35 No caso da renumeração dos trabalhadores, os resultados do inquérito apontam para essa insatisfação global, que também é referida nas verbalizações que acabam por justificar essa insatisfação tendo em conta aos riscos a que tão expostos e à responsabilidade das atividades desenvolvidas. Através do inquérito também foi possível apurar que a maior parte dos trabalhadores acham que não serão capazes de continuar nesta atividade de trabalho, quando atingirem os 60/65 anos de idade, dado que é também visível nas verbalizações obtidas e no facto de que os trabalhadores com a idade mais avançada revelam diversos problemas de saúde relacionados com o trabalho. Nas verbalizações não foi possível obter dados gerais sobre os problemas de saúde dos trabalhadores, contudo uma parte do inquérito permite obter informação acerca dos problemas de saúde dos trabalhadores e permite aferir quanto à relação desses problemas com o trabalho. Na tabela 12, apresentam-se os problemas de saúde que mais declararam os ajudantes de lar. Tabela 12 - Problemas de saúde que se manifestam nos ajudantes de lar e sua relação com o trabalho. Problema de Saúde Nº de Ajudantes de lar (Percentagem) Causado pelo Trabalho (Percentagem) Agravado pelo Trabalho (Percentagem) Nenhuma Relação com o Trabalho (Percentagem) Dores de costas 20 (87,0%) 13 (65,0%) 4 (20,0%) 3 (15,0%) Dores musculares/articulações 16 (69,6%) 11 (68,8%) 4 (25,0%) 1 (6,3%) Varizes 12 (52,2%) 5 (41,7%) 1 (8,3%) 6 (50,0%) Ansiedade ou irritabilidade 11 (47,8%) 7 (63,6%) 3 (27,3) 1 (9,1%) Dores no estômago 8 (34,8%) 2 (25,0%) 2 (25,0%) 4(50,0%) Fadiga generalizada 8 (34,8%) 4 (50,0%) 3 (37,5%) 1 (12,5%) Através da tabela 12, pode-se verificar quais os problemas de saúde que mais afetam os ajudantes de lar. As dores nas costas afetam quase todos os ajudantes de lar e a maioria refere que está relacionado com o trabalho, este facto vem dar razão às verbalizações de alguns ajudantes de lar que se queixam deste problema. Uma parte muito significativa dos ajudantes de lar referiu a existência de problemas de dores musculares e articulações, considerando na sua maioria a relação com a atividade de trabalho. Outros problemas de saúde também referenciados por um número significativo de ajudantes de lar são as varizes e ansiedade e irritabilidade. No primeiro problema, apenas metade dos trabalhadores acham que existe uma relação direta com o trabalho e no segundo problema quase todos os ajudantes de lar referem existir relação com o trabalho. Existem ainda dois problemas de saúde com menor prevalência entre os ajudantes de lar, como as dores no estômago e fadiga generalizada. No caso do primeiro problema apenas dois trabalhadores referem que foi causado pelo trabalho. Um outro facto que importa considerar é que 65,2% dos ajudantes de lar consideram que o trabalho afeta a sua saúde, sobretudo de forma negativa. O que leva a aferir que os ajudantes de lar consideram a atividade de trabalho desgastante e que origina a uma degradação das condições físicas dos trabalhadores. Ainda no âmbito da saúde dos trabalhadores, uma parte do inquérito refere-se ao perfil de saúde de Nottingham, Versão Portuguesa do Centro de Estudos e Investigação em Saúde, de 1997. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 36 Tratamento e Análise de Dados Neste caso os trabalhadores tiveram de referir se se revêm nas situações indicadas e se for caso disso, assinalar se essa situação está relacionada com o trabalho. Na tabela 13 apresenta-se as frases do perfil de Nottingham mais pertinentes. Tabela 13 - Respostas dos ajudantes de lar ao perfil de saúde de Nottingham. Frases Nº Ajudantes de Lar (Percentagem) Relacionado com o trabalho (Percentagem) Não relacionado com o trabalho (Percentagem) Sinto-me nervoso, tenso 6 (26,1%) 6 (100,0%) - Tenho dores quando mudo de posição 7 (30,4%) 6 (85,7%) 1 (14,3%) Tenho dores quando estou de pé 8 (34,8%) 8 (100%) - Dificuldade em estar de pé muito tempo 6 (26,1%) 6 (100,0%) - Através da tabela 13, pode-se verificar que seis trabalhadores sentem-se nervosos ou tensos e desses, todos consideram existir relação direta com o trabalho. Cerca de sete ajudantes de lar referiram que têm dores quando mudam de posição e que existe uma relação direta com o trabalho. Nas situações de ter dores quando se está de pé e dificuldades em estar de pé, todos os trabalhadores que referiram que se encontram nessa situação, afirmam que os problemas estão associados ao trabalho. Através dos resultados obtidos pela aplicação do INSAT, é possível inferir quanto a uma situação importante associada à segurança e higiene no trabalho, que são os acidentes de trabalho. O INSAT permitiu inferir que sete trabalhadores já tiveram acidentes de trabalho, sendo que um deles ocorreu num trabalho anterior. Um dos trabalhadores ficou com incapacidade reconhecida de 20% num dos braços. Um outro ajudante de lar referiu que está em avaliação para reconhecimento de incapacidade. O departamento de segurança e higiene da Santa Casa da Misericórdia também forneceram alguns dados sobre acidentes de trabalho, realçando a existência de dois acidentes de trabalho nos últimos anos, relacionado com uma queda ao mesmo nível e outro devido a esforço excessivo. Estes dados permitem reforçar os resultados obtidos pelo INSAT e pela análise observacional no que toca aos problemas de saúde originados pela atividade de trabalho. Através da apresentação dos dados obtidos através do INSAT, pode-se verificar que existe informações relevantes associadas à saúde dos trabalhadores que não foram obtidas através das verbalizações recolhidas na análise observacional. Por outro lado, o inquérito permitiu obter informações sobre riscos da atividade de trabalho e outras características que vão de encontro a alguns dados obtidos através das verbalizações. Deste modo a análise observacional e o INSAT complementam-se no estudo da atividade de ajudante de lar. Pode-se também depreender que devido aos dados apresentados, o INSAT não permitiu concluir quanto às diferenças na dimensão género dos ajudantes de lar, o que foi justificado pelo facto de que o número de ajudantes de lar masculinos ser bastante inferior aos femininos, o que faz com que a amostra não seja equilibrada, embora seja representativa da realidade neste setor. Devido à existência da perceção de diferenças nas respostas dadas em função da variável idade, estudou-se a distribuição dos dados obtidos em função dos grupos etários apresentados na tabela 2. Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 37 Assim através da ferramenta de trabalho SPSS, cruzou-se variáveis representativas das questões apresentadas no inquérito com os grupos etários. Na tabela 14, apresenta-se os dados mais relevantes a partir do cruzamento de variáveis. Tabela 14 - Cruzamento entre vários tópicos caracterizadores dos trabalhadores e o grupo etário. Variáveis Grupo Etário 1 [20 – 35[ Grupo Etário 2 [3550[ Grupo Etário 3 [50 – 65[ Gestos repetitivos 1 (16,7%) 7 (70,0%) 7 (100%) Posturas penosas 2 (33,3%) 6 (60,0%) 6 (85,7%) Frequente a necessidade de ajuda dos colegas 5 (83,3%) 6 (60,0%) 5 (71,4%) Dores nas costas 5 (83,3%) 9 (90,0%) 6 (85,7%) Dores Musculares/Articulações 1 (16,7%) 9 (90,0%) 6 (85,7%) Trabalho onde não existe perspetiva de evolução na carreira 1 (16,7%) 6 (60,0%) 4 (57,1%) Através da tabela 14, pode-se verificar que as variáveis relacionam-se diretamente com o grupo etário, sendo relevantes para o estudo. No que toca a gestos repetitivos verifica-se que todos os trabalhados do terceiro grupo etário referem que o fazem, e também quase todos do segundo grupo etário, mas no primeiro grupo etário só um trabalhador referiu isso. Em termos de posturas penosas pode-se verificar que a maioria dos trabalhadores inseridos no segundo e terceiro grupo etário indicam que a realizam, enquanto no primeiro grupo a percentagem de trabalhadores que o afirma é muito baixa. No que toca à necessidade frequente de ajuda dos colegas, pode-se verificar que uma grande parte dos trabalhadores de todos os grupos etários refere essa necessidade para a realização da atividade de trabalho, o que vai de encontro aos dados obtidos através da análise observacional. No que toca a dores nas costas, os resultados indicam que este é um problema que afeta de forma igualitária todos os grupos etários. Já se tinha verificado que os ajudantes se queixam deste problema através da análise observacional, contudo inquérito veio confirmar a prevalência deste problema em quase todos os ajudantes de lar. No caso das dores musculares/articulações, pode-se verificar que de facto os trabalhadores do segundo e terceiro grupo etário sofrem muito com este problema, ao invés dos trabalhadores do primeiro grupo etário em que o problema não se manifesta tanto. No caso da perspetiva de evolução na carreira, verifica-se pela tabela que a mais de metade dos trabalhadores com mais de 35 anos de idade, consideram que não existe essa perspetiva, talvez porque os cargos que poderiam vir a desempenhar já se encontram ocupados por pessoas da mesma faixa etária. Porém os mais novos acreditam nessa evolução na carreira. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 38 Tratamento e Análise de Dados Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 39 5 DISCUSSÃO Neste estudo, apresentou-se uma análise quantitativa (INSAT) e uma análise qualitativa (análise observacional). A primeira permitiu obter dados estatísticos sobre o trabalho de todos os trabalhadores e a segunda permitiu obter inferências no decurso da atividade concreta. Assim, neste capítulo realiza-se a discussão dos resultados obtidos, sendo estes apoiados pela bibliografia. Nos pontos seguintes, apresenta-se a discussão dos dados obtidos, sendo que estão divididos por temas que evidenciaram diferenças ou características importantes para a compreensão da atividade de trabalho dos ajudantes de lar. 5.1 Influência da dimensão género no trabalho A influência da dimensão género na atividade de trabalho dos ajudantes de lar não foi aferida através do INSAT, uma vez que os resultados obtidos não permitiram essas inferências. Deste modo, apenas a análise observacional permitiu obter dados relativos à diferença entre trabalhadores segundo a dimensão género. Nesta atividade de trabalho, os ajudantes de lar masculinos encontram-se em menor número, e as justificações dadas prende-se com salários menos atrativos e o trabalho ao fim de semana, como referido nesta verbalização “há menos homens neste ramo, porque os salários são mais baixos e depois têm de trabalhar aos fins de semana” (T14, 49 anos, sexo feminino). Também alguns ajudantes de lar do sexo feminino referem que não gostam de trabalhar com homens, “não gosto de trabalhar com ajudantes de lar homens, acho que não servem para nada, não tem qualidade no trabalho que fazem” (T6, 54 anos, sexo feminino), o que se pode aferir que a integração de homens na profissão não é isenta de debate. Porém também existem ajudantes de lar, do sexo feminino, que acham que os homens são uma mais-valia para a atividade, “os homens enchem pneus dos carros, arranjam qualquer coisa dos carros, arranjam o elevador arranjam a televisão, são uma mais-valia” (T20, 22 anos, sexo feminino), o que remete para uma valorização dos trabalhadores masculinos, revelando vantagens na heterogeneidade de trabalhadores na profissão. Normalmente os utentes do sexo feminino recusam a ser higienizados pelos ajudantes de lar homens, contudo também há utentes homens, que não querem ser higienizados por mulheres, este facto foi visível a partir das observações, mas as verbalizações também permitiram obter dados que conferem isso, “há utentes homens que não querem uma mulher a fazer a higienização daí a importância dos homens ajudantes de lar” (T6, 54 anos, sexo feminino). Porém os homens aceitam melhor serem tratados por trabalhadores do sexo oposto que as mulheres. Um ajudante de lar masculino referiu “dificilmente realizo a higiene a mulheres porque se recusam, mas já o fiz quatro vezes” (T21, 23 anos, sexo masculino,). Este domínio das higienizações e banhos torna-se talvez a barreira mais visível associada à dimensão género no trabalho, em que os utentes aceitam mais facilmente serem tratados por mulheres do que por homens, sendo que isso parece reforçar um aspeto cultural que nos remete para a figura da mulher como cuidadora. Uma ajudante de lar do também referiu que “há utentes homens que não querem uma mulher a fazer a higienização daí a importância dos homens ajudantes de lar” (T6, 54 anos, sexo feminino), isto remete para a ideia de que de facto a existência de ajudantes de lar masculinos serve para acompanhar os utentes masculinos, o que é reforçado pela organização do trabalho, pela distribuição dos três homens, um por cada turno. A tarefa de fazer a barba aos utentes é também marcadamente masculina, uma vez que os utentes apenas querem que sejam os homens a fazer a tarefa, pois são os que têm barba e por se assumir que são os que têm capacidade para desempenhar essa tarefa com qualidade. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 40 Discussão dos Resultados Contudo as verbalizações também permitiram aferir que ao nível das tarefas realizadas e da forma como são realizadas, não existe uma diferença assinalável, como referiu um ajudante de lar, “a forma como as tarefas são realizadas entre homens e mulheres são muito semelhantes” (T18, 23 anos, sexo feminino). Uma outra verbalização que remete para uma vantagem associada a ter homens a trabalhar nesta atividade foi, “os homens ajudantes de lar são muito importantes para a instituição, uma vez que conseguem resolver situações que nós mulheres não conseguimos” (T20, 22 anos, sexo feminino), a ajudante de lar refere-se a situações como arranjar o elevador, encher pneus dos carros de rodas, sintonizar as televisões entre outras coisas, reforçando também o estereótipo de que às mulheres cabem as tarefas de prestação de cuidados e aos homens os trabalhos “técnicos”. Alguns ajudantes de lar referiram estar expostos a assédio sexual, sendo todos eles do sexo feminino, este tipo de assédio pode causar diversos problemas aos trabalhadores nomeadamente aumento do stresse, perda de motivação, ansiedade, baixar autoestima entre outros. Os trabalhadores demonstraram que essas situações podem ser complicadas, o ficou salientado nesta verbalização, “há utentes que se apaixonam por ajudantes de lar e depois é difícil trabalhar com essas pessoas que depois só querem aquela pessoa em específico” (T14, 49 anos, sexo feminino) [(Organização Internacional do Trabalho, 2010)]. Um facto que interessa realçar é a realização de trabalhos extra por ajudantes de lar, em que normalmente para fazer noites, os homens são mais solicitados por causa da segurança, e neste caso é mais normal homens quererem trabalhadores do sexo masculino, isto foi referido por um ajudante de lar, “em “part-time” há muitas pessoas que só querem homens a trabalhar porque dão uma maior sensação de segurança durante a noite. Também há mais facilidade para que os homens sozinhos quererem homens a trabalhar” (T14, 49 anos, sexo feminino). Através dos dados obtidos pode-se afirmar que existe diferenças no que toca à dimensão género nos ajudantes de lar, e que os fatores que levam a que esta profissão seja maioritariamente exercida por mulheres, e não por homens são os baixos salários, trabalho aos fins de semana e fatores culturais e históricos associados à imagem feminina de cuidadora. Estes dados revelam a importância da obtenção de informações sobre o ponto de vista de homens e mulheres acerca dos problemas com que se confrontam no trabalho, e desta forma evitar fazer juízos de valor sobre situações que parecem triviais (Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho, 2003). Existem realmente algumas diferenças na atividade dos ajudantes de lar associadas à dimensão género, contudo não são necessariamente associadas à forma como é desempenhada a atividade de trabalho, mas sim ao nível da organização de trabalho, à distribuição de tarefas ou ao nível das relações das relações entre utentes e trabalhadores. Contudo é sempre necessário ter em conta que em qualquer atividade de trabalho, tanto homens como mulheres estão expostos a riscos diferentes, sendo importante tomar isto em consideração quando se realiza a avaliação de risco (European Agency for Safety and Health at Work, 2009). 5.2 Constrangimentos percebidos No capítulo anterior apresentou-se alguns resultados obtidos através da análise observacional, referindo o dia-a-dia dos ajudantes de lar no seu local de trabalho. Conseguiu-se verificar a existência de diversos constrangimentos sentidos pelos trabalhadores, como diferenças ao nível do ritmo de trabalho em diferentes turnos, constrangimentos associados às relações de trabalho, constrangimentos associados à antiguidade e experiência profissional. Na análise observacional verificou-se que existem horas mais críticas sob o ponto de vista do ritmo de trabalho, nomeadamente aquando das higienizações e banho dos utentes de manhã, higienizações ao deitar, assim verifica-se a existência de diferenças na atividade de trabalho dos Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 41 ajudantes de lar. Os ajudantes de lar que trabalham no turno da noite têm uma atividade de trabalho que é muito diferente dos restantes colegas dos outros turnos, não estando expostos a ritmos de trabalho tão intensos e também não realizam a maior parte das tarefas desempenhadas pelos ajudantes de lar dos outros turnos. Isto pode ser apreendido através desta verbalização, “o trabalho de ajudante de lar de noite é muito diferente, ritmo mais lento se não se fizer exatamente nesta hora pode-se fazer na hora seguinte. Não existe como durante o dia, utentes a pedir para fazermos isto ou aquilo” (T16, 29 anos, sexo feminino). Os trabalhadores do turno noturno referiram que sentem dificuldades em ter as horas de sono que se aconselha por dormirem de dia, o que pode gerar implicações ao nível do cansaço físico. Isto também pode estar mais relacionado com o facto de trabalharem mais horas que os colegas nos outros turnos. Os ajudantes de lar deste turno realizam ainda uma outra tarefa que consiste no posicionamento dos utentes mais dependentes na cama, para que estes não durmam sempre na mesma posição, esta tarefa é apenas realizada pelos trabalhadores deste turno. Apesar de não ser uma tarefa com um grau de exigência igual à de elevar ou mobilizar um utente, o número de vezes que o têm de fazer e o número de utentes, pode fazer com que a tarefa seja algo exigente, uma vez que só trabalham dois ajudantes de lar neste turno. Por outro lado, quem realiza trabalho nos turnos da manhã e da tarde, refere que “estas tarefas de higienização seguidas, tornam-se muito repetitivas e muito cansativas” (T3, 53 anos, sexo feminino), ora isto dá a ideia de diferenciação dos trabalhadores, nomeadamente ao nível dos riscos a que estão expostos, tendo em conta os turnos de trabalho (turnos fixos). Noutras verbalizações pode ressaltar-se a questão da ansiedade/irritabilidade associada ao contacto com os utentes que pode ser visível nestas duas verbalizações “há idosos que são complicados, que não gostam de nós e depois acusam de coisas que não fizemos ou se querem isto ou aquilo vamos buscar e depois já não querem” (T14, 49 anos sexo feminino) e “há utentes que nos tratam muito mal, querem isto ou aquilo rapidamente e depois já não querem, alguns têm muito mau feitio” (T20, 22 anos, sexo feminino). Por outro há utentes que reconhecem a importância do trabalho realizado pelos ajudantes de lar, como referido nesta verbalização, “há utentes que compreendem o nosso trabalho e agradecem” (T3,53 anos, sexo feminino). O tempo disponível para a realização de uma atividade afeta a forma como os trabalhadores se relacionam com os utentes. Os trabalhadores acabam por admitir que não têm tempo suficiente para ouvir e serem mais afetuosos com os utentes, este facto foi atestado por esta verbalização, “às vezes queremos estabelecer uma relação mais afetiva com os utentes, dar um pouco de atenção ao que eles têm para nos dizer, mas não temos tempo” (T6, 54 anos, sexo feminino). No INSAT, a questão da relação com os utentes foi abordada, contudo os ajudantes de lar consideraram que isso suscita pouco incómodo, uma vez que consideram que ter de ouvir queixas dos utentes é uma característica inerente à sua profissão. O INSAT também permitiu aferir alguns dados associados às relações no trabalho, como o reconhecimento do trabalho realizado pelas chefias e pelos colegas, o que permitiu concluir que uma grande parte dos trabalhadores sente que o seu trabalho é de facto reconhecido. Os constrangimentos associados à antiguidade e experiência profissional foram mais evidenciados na análise observacional do que no INSAT. Os trabalhadores com maior antiguidade podem escolher os horários que melhor se adaptem à sua vida pessoal, como foi referido nesta verbalização “os mais antigos têm mais possibilidade de escolherem os turnos de trabalho, há pessoas da tarde que querem passar para a manhã, mas só conseguem se sair alguém e claro é por ordem de antiguidade” (T14, 49 anos, sexo feminino). O que demonstra claramente uma distinção entre os trabalhadores com antiguidade diferente, o que pode depois ter implicações ao nível do trabalho. Por outro lado, foi também visível que os trabalhadores mais antigos, se encontram mais cansados e com menor predisposição para o contacto com os utentes, o que é verificado através Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 48 Perspetivas Futuras sendo menor, na medida em que coincide com um período marcado pela menor atividade dos utentes, o que faz com que estes realizem um conjunto de tarefas distintas relativamente aos trabalhadores dos outros turnos, tendo por tarefa mais exigente a realização de posicionamentos. A análise dos trabalhadores segundo a antiguidade, permitiu revelar o desgaste intrínseco a esta atividade. Mas, também a dificuldade percebida pelos trabalhadores mais recentemente admitidos associada ao facto de não poderem participar na escolha do seu turno de trabalho. Além disso, a falta de reconhecimento desta atividade, é perspetivada como uma justificação para o facto de os trabalhadores com mais antiguidade não partilharem as suas estratégias de trabalho com os mais novos. É o medo de perder o emprego que contribui talvez para o registo deste tipo de verbalizações. No que toca aos riscos profissionais salienta-se a exposição dos trabalhadores a agentes biológicos, devido ao contacto direto com os utentes e a deslocações frequentes a hospitais. Mas, o impacto do trabalho na saúde destes trabalhadores chama a atenção para a existência de outros riscos nesta atividade. A maioria dos trabalhadores referiram sofrer de dores nas costas e de problemas ao nível dos músculos e articulações, o que tendo em conta as tarefas que são realizadas seria expectável, uma vez que esta atividade exige a realização de grandes esforços e ritmos de trabalho elevados. Este trabalho evidenciou ainda o efeito diferido do trabalho na saúde: por exemplo, constatou-se uma maior prevalência de dores lombares e problemas musculares/articulares nos trabalhadores de idade superior a 35 anos, o que poderá levantar a questão da existência e importância da adequação da atividade de trabalho em função dos trabalhadores. Os trabalhadores referiram também a existência de problemas de saúde como a ansiedade/irritabilidade, estabelecendo-se a sua ligação direta com as relações de trabalho com os utentes, relações que por vezes constituem um fator de risco, menos visível e tangível, na medida em que estes não dão o devido valor aos trabalhadores acabando por os tratar de uma forma menos correta. Ao longo das diferentes etapas do estudo, os trabalhadores foram levados a refletir sobre as suas condições de trabalho e deste modo encorajados a apresentarem propostas de melhoria. Neste sentido, foi manifestada a necessidade de existência de um enfermeiro no turno da noite, que permitiria decidir, de forma mais apropriada, a ida de um utente ao serviço hospitalar, em caso de necessidade, porém, o custo associado indica que não será viável para a instituição. Também evidenciaram a necessidade de realização do trabalho em equipa, de forma a diminuir a sobrecarga de trabalho e, assim, o risco de lesões músculo-esqueléticas. De forma sumária, podemos dizer que o estudo permitiu abranger um leque de questões fundamentais acerca da atividade dos ajudantes de lar, englobando e tendo em conta, o ponto de vista dos próprios trabalhadores. Com isto, foi possível explorar a temática de segurança e saúde no trabalho e, a partir do contato direto com os trabalhadores, obter dados importantes que, através dos métodos mais tradicionais de avaliação de riscos, poderiam não ser aferidos. 6.2 Perspetivas Futuras Este estudo, desenvolvido no âmbito do Mestrado de Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais, permitiu obter novos dados sobre o trabalho dos ajudantes de lar, que permitem uma avaliação de riscos complementar às abordagens tradicionais. Isto tornou-se possível graças a uma maior abrangência de temas e, sobretudo, por partir do ponto de vista dos protagonistas da atividade de trabalho. A Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso fica, deste modo, com um estudo construído através da ótica dos seus trabalhadores, verificando, assim, os problemas com que diariamente Análise da Atividade dos Ajudantes de Lar e das suas Condições de Trabalho numa Perspetiva de Género Figueiredo, Vítor 49 são confrontados e, em função dos dados obtidos, podendo assim aplicar medidas que levem a uma melhoria nas condições de trabalho dos seus trabalhadores. O estudo permitiu, analisar a questão da dimensão género e a sua influência no trabalho, dando respostas ao porquê do número reduzido de homens neste trabalho. Sob o ponto de vista pessoal, este trabalho permitiu uma abertura a novas formas de análise, através de uma observação cuidada dos trabalhadores, dando especial atenção aos seus pensamentos, atitudes e forma de estar no trabalho. Isto torna-se crucial para compreender as necessidades dos trabalhadores e assim, avaliar, de forma mais ampla, a relação da sua saúde com o seu trabalho. Desta forma, este tipo de análise poderá, no futuro, ser uma experiência a colocar em prática ao serviço da segurança e higiene no trabalho. Figueiredo,Vítor 51 7 BIBLIOGRAFIA Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho. (2003). Integrar a dimensão do género na avaliação dos riscos. Bélgica. Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho . (2008). Lesões músculo-esqueléticas de origem profissional:Relatório sobre prevenção.Bélgica. Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho. (2007). Previsão dos peritos sobre os riscos psicossociais emergentes.Bélgica. Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho. (2012). Participação dos Trabalhadores na Segurança e Saúde no Trabalho. Serviço das Publicações da União Europeia. Alvarenga, C., & Vianna, C. (2012). 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