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Redescubramo-nos na sua experiência: o desafio que nos lança Ivar Oddone

Ricardo Vasconcelos,Marianne Lacomblez

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38 Palabras-clave Experiencia, lenguaje, sistema, interfaz, SIC Resumen A partir da obra de Ivar Oddone, el artículo intenta reconstruir un recorrido de investigación que nos parece ser útil, en los días de hoy, para activar otra vez una refl exión sobre como desarrollar una psicología laboral centrada en el Hombre que trabaja y en su experiencia. En un tono frontal y asumidamente informal, refl ejos del carácter de Oddone y del tenor en el ritual de los documentos que han estado en la base de este texto, empezaremos por las primeras refl exiones y conceptos por los cuales Oddone se nos ha dado a conocer: el redescubrimiento de la experiencia operaria y de su centralidad en la transformación del trabajo. Derivarán cuestiones de método y propuestas de Oddone para la construcción de la experiencia y para la explotación de su potencial transformador, de las cuales se destacan las “instrucciones al sosia”. El texto se desarrollará alrededor de los conceptos de “lenguaje”, “sistema” e “interfaz”, operativos en situaciones concretas sobre las cuales el equipo de Oddone ha ido refl exionando. Se da particular relevancia a su Sistema de Información Concreta (SIC), desde la cual se procura lanzar algunas refl exiones y retos a las que la obra de Oddone nos invita. Um convite Ivar Oddone e os seus seguidores, entre os quais aqui se destaca Alexandra Re, são, para nós, referências estruturais e incontornáveis. Sob a infl uência da sua “redescoberta do trabalho operário” – mote da obra com que, há mais de duas décadas se nos apresentaram (Oddone, Re & Briante, 1981) - fomos construindo e reconstruindo uma psicologia do trabalho que nos habituamos a chamar também nossa , porque diferente. Fomos construindo o nosso objecto de estudo, os nossos métodos, a nossa acção, a nossa visão do mundo, do homem, do trabalho. No entanto, muito mais há ainda para redescobrir em Ivar Oddone e Alexandra Re. Tentaremos neste texto relatar esta nossa redescoberta de Oddone e Re, desde os primeiros conceitos, aos objectos, aos métodos, ao seu signifi cado para nós (e para uma nova geração de psicólogos do trabalho portugueses), mas, principalmente, o seu signifi cado para uma nova psicologia do trabalho que ajudaram a conceber. Assumimo-nos assim como uma interface que julgamos necessária entre os autores e o leitor, face à diferença de realidades e de experiências que ainda nos separa. Tentaremos, desta forma, pôr o que em comum possamos ter com ambos ao serviço da mudança, da transformação do ponto de vista do leitor sobre nossa (e, já agora, sobre a sua própria) prática. O presente texto tem como estrutura de base um seminário sobre “Métodos em Psicologia do Trabalho”, apresentado por Oddone e Re (2000) na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, estrutura essa que acabou por ser enriquecida com elementos complementares, com o objectivo de melhor enquadrar e ilustrar a sua obra. Convidamos estão o leitor, a (re)descobrir Ivar Oddone e também Alessandra Re, muitas vezes em discurso directo, num texto em que seremos, não apenas narradores/tradutores, mas também, inevitavelmente, interpretes, apresentando a nossa leitura dos seus ditos, dos seu escritos e principalmente dos seus feitos, tal qual os fomos descobrindo. É importante chamar desde já a atenção para três conceitos centrais: linguagem, sistema e interface , na esperança de que, no fi nal deste texto, os possamos projectar num horizonte bem diferente, bem mais vasto do que o que neste momento a nossa Imagem do mundo nos impõe. Um começo No fi nal dos anos 60, alguns grupos de trabalhadores colocaram-me um problema que eu não sabia resolver – relata Oddone (1999). Eles pediam-me (enquanto médico) informações sobre o risco que as suas condições de trabalho poderiam representar para a sua saúde. Eles consideravam que essas informações poderiam permitir-lhes mudar as suas condições de trabalho. “Quando um acontecimento se produz, altera a estrutura da Apresentação de Obras Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez Centro de Psicologia da Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto Rua do Campo Alegre, 1055, 4169-004 Porto, Portugal [email protected].pt [email protected] Volume 1 | nª1 | 2005 | pp. 38-51 39 Imagem. A signifi cação de um acontecimento ou de uma mensagem é a mudança que se produz na Imagem. A maior parte das mensagens atravessam-na sem a quebrar, uma parte acrescenta-lhe especifi cações, detalhes: aquilo que era vago torna-se mais claro, mais estável. Por vezes uma mensagem quebra uma espécie de núcleo, a estrutura que suporta uma Imagem e toda a coisa muda de forma radical” (Boulding cit in Oddone 1999, p.1). As mensagens que determinaram em Oddone esse fenómeno de reorganização da Imagem, introduzindo um elemento de ruptura na sua forma de enfrentar o problema da saúde (que era aquela do médico tradicional) e mudando de forma radical a Imagem que tinha da saúde e da doença, estão relacionadas com esse pedido a um médico de informações adequadas para melhorar as condições de trabalho. Sentiam-se, nessa altura, ao nível do trabalho industrial, os efeitos do Taylorismo e as respostas de anti-taylorismo dos trabalhadores. O pedido dos trabalhadores – continua Oddone (1999) - levoume, num primeiro momento, a informar-me sobre textos de medicina do trabalho, mas apenas para me dar conta de que aquilo que encontrara era uma lista de substâncias. Não encontrei nada daquilo que os trabalhadores nos descreviam como condições reais de produção, nem sobre a possibilidade de substituir processos poluentes por processos não poluentes. Alguns trabalhadores perguntavam-me mesmo como poderiam fi car com silicose mais rapidamente. Este pedido, aparentemente paradoxal, continha na realidade uma hipótese dissonante em relação à minha imagem médica das doenças devidas ao ambiente construído pelo homem. Eu descobrira de facto que o meu conhecimento tinha uma estrutura racional: Um determinado processo produtivo podia comportar riscos para a saúde, mas esse conhecimento dos riscos possíveis, baseado na literatura médica, garantiria, logicamente para mim, a eliminação das condições de nocividade. Pelo contrário, para os trabalhadores, o problema confi gurava-se de outro modo. Era a realidade produtiva, com os seus riscos reais, que defi nia a sua atitude. A credibilidade de uma mudança das condições de trabalho, no contexto específi co onde elas se encontravam, era o facto psicologicamente importante, que determinava o seu pedido de saúde. Se a supressão da nocividade não era psicologicamente credível, fi car com silicose (quer dizer, fi car doente) “antecipadamente” signifi cava pelo menos poder sair mais rapidamente de um meio de trabalho inevitavelmente nocivo. Quando hoje tento reconstruir esse momento de ruptura e de reorganização da minha Imagem em termos de psicologia da saúde – relembra Oddone (1999) - entendida como capacidade de “ver” o comportamento dos homens face à saúde e à defesa da saúde, eu revejo, por um lado, os clientes que representam o paciente tradicional, com o pedido de diagnóstico, de prognóstico, de terapêutica e, por outro lado, homens que não me pediam exames nem medicamentos, mas uma utilização do saber médico com o objectivo de modifi car as condições de trabalho, de prevenir as doenças ligadas ao ambiente, de adaptar o meio de trabalho ao homem no trabalho. Um novo modelo científi co centrado no homem real Num tom ideologicamente carregado que caracterizava a época, Oddone, Re e Briante (1981, p. 45) referiam, com (surpreendente) actualidade: “A ciência tradicional (a “dominante”) defi ne como objecto de observação o homem e o seu meio técnico. O seu objectivo é, sempre, uma medida objectiva que obtém graças a um método analítico e à utilização de instrumentos emprestados pelos físicos e pelos químicos, por um lado, e pelos médicos e psicólogos por outro. Essa abordagem tradicional comporta a decomposição e a medida, tanto do meio (no sentido restrito do termo) como do homem. O primeiro é decomposto em elementos simples (microclima, poeiras, gazes, fumos) e o segundo – considerado apenas do ponto de vista físico – é reduzido a dados antropométricos, a elementos objectivos.” Do ponto de vista psicológico, os critérios de medida são sempre os mesmos: quer se trate do perfi l atitudinal, da carga perceptiva ou do sistema homem-máquina, trata-se, sempre e só, de medir objectivamente variáveis independentes recolhidas graças a um procedimento analítico. O ambiente apreendido na sua totalidade é decomposto em elementos físicos, biológicos e psicológicos, que, por seu turno, são submetidos a uma nova desagregação. Este processo é tido como capaz de medir os micro-elementos do meio (homem incluído) que, considerados separadamente, são confrontados com valores padrão considerados aceitáveis. Em substância, medimos mas não avaliamos; a avaliação só intervém num segundo tempo, quando se comparam os valores obtidos pelas medidas com as tabelas-padrão. Tira-se dessa comparação uma avaliação de risco ou de não risco, para a qual não se prevê qualquer procedimento de verifi cação. Este processo é, no fundo, absolutamente análogo ao empregue pelos “gabinetes de métodos” no que diz respeito à organização do trabalho: utilização das mesmas modalidades de decomposição e de medida; mesma correlação de dados elementares com valores padrão; mesma presunção quanto à possibilidade de defi nir um só valor (o único valor) cientifi camente correcto. Além disso, não se tenta, e isso seria aliás impossível, recompor o todo, isto é, o homem e o seu meio. Preocupámo-nos ainda menos com a forma como os homens “vivem” o conjunto das situações de trabalho nas quais se encontram. Contentámo-nos em decompor para medir, em avaliar todos os micro-elementos e em retirar, destas micro-avaliações, uma avaliação global. Isto conduz à negação do homem enquanto sujeito de avaliação. O novo modelo científi co que acabou por se impor a Oddone, produzido pela experiência dos homens, caracterizava-se, pelo contrário, por uma abordagem global dos problemas e pela formulação assumida de juízos de valor. Visava transformar o meio de trabalho em benefício do homem, enquanto que o modelo tradicional apenas procurava conhecê-lo (parcialmente). Digamos que esta nova modelização repudiava o homem-médio, não apenas do ponto de vista da sua capacidade de trabalho, mas também do ponto de vista da sua tolerância às situaRedescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 40 ções de nocividade, quer se trate de elementos tóxicos ou de fadiga excessiva, física ou mental. Ela propõe consignar um novo objectivo à investigação médico-psicológica e privilegiar não a medida, mas a avaliação, não os instrumentos mecânicos, mas o julgamento dessa nova entidade que era o grupo homogéneo de trabalhadores, enquanto portador de uma experiência validada colectivamente de uma forma sincrónica e diacrónica. (Oddone, Re & Briante, 1981). Tempos, espaços, métodos O método não é autónomo – sublinha Re (Oddone & Re, 2000). O método constrói o objecto da investigação. Os métodos são fi lhos das hipóteses que me coloco. Eu defi no o objecto da minha investigação e, em relação a isso, eu defi no os métodos. A psicologia do trabalho tradicional, dominante, não pensava na hipótese de a experiência ou a competência se poder desenvolver em situações desfavoráveis e por isso não a estudava. Não desenvolvia por isso métodos adequados porque não era esse o seu objecto. Oddone, Re e Briante (1981) formularam então uma hipótese: A competência não estava lá. Era algo que deviam recolher, mas procurando qualquer coisa a mais, procurando uma competência profi ssional alargada, desenvolvida pelo sujeito e não por todos e que seria uma mediação concreta fundamental para defi nir as situações, mesmo com os mesmos modelos de ordem geral subjacentes. Quer dizer, havia trabalhadores (como há professores, médicos, militares) que se destacavam entre os seus pares, porque desenvolviam essa capacidade de produzir um conhecimento, que é um conhecimento do contexto, que não está generalizado nem é generalizável. Um contexto que não é simplesmente um espaço, mas também um tempo, que tem uma dimensão temporal. Por isso não o posso conhecer através de um contexto exterior, devo conhecê-lo através do expert , com métodos que me permitam recolher uma parte mais invisível, mais humanizada, mais contextualizada da competência. Oddone e a sua equipa partem então à procura de meios que lhe permitam ajudar os colectivos de trabalhadores a alargar o seu poder de acção no e sobre o meio de trabalho real e sobre si mesmos. Como refere Clot (1999), a tarefa consistia em inventar ou reinventar os instrumentos dessa acção, não protestando simplesmente contra os constrangimentos ou “negociando-os”, mas pela via da sua superação concreta. “Nós não pretendemos propor uma nova psicologia do trabalho, mas um novo modo de desenvolvimento para essa psicologia, persuadidos que somos de que desta nova forma de fazer ciência nascerá uma psicologia do trabalho diferente” (Oddone, Re & Briante, 1981, p. 217). Construir “lugares-comuns” em cima de “nãolugares” Ainda que assumamos que a experiência, que a competência é importante, não podemos pedir a um sujeito que nos transmita a sua competência. Ele não está em condições de o fazer. Muita gente fala de uma competência implícita, tácita, que não é verbalizada ou verbalizavel. Oddone e Re trabalharam muito sobre uma hipótese que é um pouco diferente: o expert verbaexpert verba-expert liza a sua competência de forma diferente em função do psicólogo com quem interage, das questões colocadas, dos métodos empregues. Ele toma consciência da parte analógica da sua competência apenas através da relação com o psicólogo, que lhe permite visualizar os esquemas de actividades implícitas. Nessas condições, com o objectivo de transmitir até à possibilidade de “descobrir” o seu comportamento profi ssional, o expert produz a reformulação linguística de um saber operacional, inicialmente estruturado de forma analógica. A conversão de modalidade analógica em modalidade digital determina uma mudança de estrutura cognitiva no expert . A este nível, o psicólogo, que analisa o trabalho, pode ser visto como um expert de expert de expert aquisição e de valorização da competência (Re, 1990). Assim, não podemos, não devemos falar de uma competência implícita como algo que o expert tem na sua cabeça e que não diz, mas expert tem na sua cabeça e que não diz, mas expert mais como algo que ele não tem na cabeça mas constrói com o psicólogo. Antes tem modos operatórios, gere os problemas de uma forma analógica, sem ter consciência, sem verbalizar para si mesmo o que faz, ele não o sabe dizer. O psicólogo está, assim, a pedir ao trabalhador algo que ele não sabe fazer. Então, precisam (trabalhador e psicólogo) de um método que os ajude a construir qualquer coisa que não está lá. É preciso um método para gerir essa transmissão, senão vão obter apenas uma deformação e não uma transmissão. O psicólogo vai ouvir apenas o que o seu interlocutor pensa que ele quer saber. Sem esse controlo metodológico, será inevitavelmente aquele que possui a linguagem técnica que dominará esse processo de tradução da competência analógica em saber digital, seja ele o trabalhador (o expert do domínio) ou o técniexpert do domínio) ou o técni-expert co (o informático, por exemplo), que utiliza uma linguagem centrada na tecnologia e não a linguagem da competência. Em qualquer dos casos, há sempre uma perda de potencial de melhoria deste sistema, que deriva da heterogeneidade das linguagens dos elementos que o compõem. Mas, pelo contrário, podemos representar o espaço de comunicação entre os experts implicados na análise do trabalho como um “não lugar”, que vai ser progressivamente transformado em “lugar”, através da construção de uma linguagem “comum”, que não é nenhuma das linguagens de partida, mas que será a linguagem de chegada (Oddone & Re, 2000). A psicologia parte então à procura de condições que lhe permitam favorecer a formalização e a transmissão da experiência profi ssional e é desse esforço que resultará, após várias tentativas, o método das “instruções ao sósia”, que hoje em dia continua como pano de fundo de diversos trabalhos que visam a formalização da experiência, não só por Oddone e colaboradores, mas também por um conjunto de autores que, de uma forma ou de outra, os seguiram (Clot, 1999, 2001; de Vincenti, 1999; Duarte, 1998). Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 41 À procura de um método: as instruções ao sósia Apesar da sua formação médica, Odonne não estava portanto em condições de responder à questão de saúde que lhe tinha sido dirigida pelos trabalhadores, como também não o tornava capaz de “interrogar” as pessoas, de forma adequada, sobre o seu meio de vida e de trabalho. Para o fazer, deveria ter um plano profi ssional de investigação que lhe permitisse reconstruir a condição de produção e a organização do trabalho que a defi nia, até a uma especifi cação sufi ciente para “ver” o que “via” o trabalhador em situação produtiva. Precisava antes de tudo de resolver um problema chave: construir uma linguagem que tornasse permeável a interface entre si, como técnico de saúde, e eles, como sujeitos que lhe pediam que gerasse a solução do problema da nocividade do trabalho. Uma primeira tentativa - refere Oddone (1999) - foi a de tentar reconstruir a representação dos trabalhadores sobre os factores de risco, enquanto conjunto mínimo de conhecimentos do mesmo tipo que os conhecimentos científi cos, sem mudar de paradigma, ou seja, em termos de divulgação. A solução passou ainda pela linguagem, pela “competência de utilização” comum a todos, por um guião; pelo material cognitivo mnemotécnico, ligado à linguagem histórico-natural; por aquilo que, se poderia defi nir como “aquilo que não podemos não saber”. “Que imagens vêm ao espírito, por associação, quando um sujeito escolhe uma casa? Quais quando pensa numa fábrica? Quais quando pensa em fadiga?”. As respostas eram imagens familiares a todos, seja qual for o nível de escolaridade. Daqui derivam os “quatro grupos de factores nocivos” que nos anos 70 foram o instrumento essencial da linguagem da saúde nas fábricas. A casa faz lembrar: temperatura, iluminação, ruído, ventilação, humidade (1º grupo). A fábrica: poeiras, gases, fumos, vapores (2º grupo). A fadiga, dois tipos fundamentais de fadiga: a tradicional, devida à actividade física (3º grupo), outras formas infi - nitas de fadiga devidas a outras causas que não a actividade muscular, por exemplo, monotonia, ansiedade, repetitividade, ritmos excessivos, responsabilidade (4º grupo). Assim se conseguiu defi nir um glossário comum, compreensível por ambos os lados da interface, que servia de base à análise das condições de trabalho a que o sujeito estava exposto. Este modelo dos 4 grupos de factores de risco, foi também retomado mais tarde, como veremos mais à frente. Um segundo elemento de reorientação da competência no sentido de uma psicologia da saúde caracterizada num sentido ergonómico, verdadeiramente transformador, passou pela consciência refl ectida da centralidade dos “locais”. Construiu-se então o mapa bruto. Os trabalhadores desenhavam mapas brutos dos seus postos de trabalho, de forma grosseira, como um mapa do tesouro. Isto representava a possibilidade de confrontar mapas cognitivos espaciais, que a psicologia conhece bem mas utiliza pouco (Oddone, 1999). Utilizá-los signifi ca descobrir que, sob o seu aspecto grosseiro, os mapas cognitivos revelam uma riqueza notável. Defi nem-se como brutos pelo signifi cado atribuído ao adjectivo pelo dicionário. “à espera de uma qualquer elaboração formal”. A possibilidade de confrontação signifi cava verifi cação, possibilidade de capacidade crítica, capacidade de distinguir dois lugares distintos. No entanto, Oddone e a sua equipa foram-se apercebendo de que, apesar do seu grande empenho neste processo, os resultados não eram os desejados. Quando falavam com os trabalhadores, continuava a haver algo que não funcionava. Aperceberam-se de que os trabalhadores o faziam eliminando aquilo que pensavam que os entrevistadores já sabiam, o óbvio ( “ce qui va sans dire”,” ce qui tombe sous le sens” ). qui va sans dire”,” ce qui tombe sous le sens”).qui va sans dire”,” ce qui tombe sous le sens” Foi na tentativa de ultrapassar os limites do óbvio, que Oddone concebeu o método que baptizou de “método das instruções ao sósia”, que consistia em pedir a cada sujeito que desse instruções a um eu-auxiliar, a um sósia. Na sua formulação original (Oddone, Re & Briante, 1981, p. 57) o pedido era apresentado nos seguintes termos: “Se existisse uma outra pessoa perfeitamente idêntica a ti próprio do ponto de vista físico, como é que tu lhe dirias para se comportar na fábrica, em relação à sua tarefa, aos seus colegas de trabalho, à hierarquia e à organização sindical (ou a outras organizações de trabalhadores) de forma a que ninguém se apercebesse que se tratava de outro que não tu?”. É claro que, com este método, não se recolhe o comportamento real e total do indivíduo, mas a sua imagem, a representação que ele tem do seu próprio comportamento. Do ponto de vista psicológico, isto é interessante porque obrigava o sujeito a pensar, em detalhe, no que era e no que fazia (chegar cedo, chegar tarde, olhar, falar, conversar com os outros...). Os trabalhadores apercebiam-se sobretudo de que tinham inventado soluções muito importantes, utilizando a experiência para melhorar a saúde. A equipa de Oddone apercebeu-se então de que, à medida que utilizava o método, não adquiria apenas a possibilidade potencial de se substituír ao trabalhador (nem era esse o objectivo), mas também se apercebia da maneira como poderia melhorar o trabalho, apropriando-se - fazendo própria - a experiência dos homens. Signifi cou também que o homem deveria estar no centro do processo. Para o fazer é preciso uma experiência que os autores não tinham. Faltava algo entre o investigador-psicólogo do trabalho e o sujeito-trabalhador, que representava a fonte fundamental de transformação do trabalho. Não se trata de uma relação clássica, do tipo “eu vi”, “eu estudei”, “ eu descobri”. Trata-se de uma relação diferente. Trata-se de um sistema em que os dois sujeitos (investigador e trabalhadores) benefi ciam e se transformam progressivamente. O centro de gravidade da investigação psicológica desloca-se. Passa do diagnóstico à invenção de um quadro e de um dispositivo onde os implicados podem pensar colectivamente o trabalho para o reorganizar. “A análise do trabalho já não é apenas a fonte da acção, mas um recurso para sustentar uma experiência colectiva de modifi cação do trabalho por aqueles que o fazem” (Clot, 2001, p. 10). Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 42 Desenvolver a experiência: que presente, que futuro? Mais de trinta anos nos separam dos primeiros trabalhos que nos deram a conhecer Oddone e Re. A conjuntura histórica é manifestamente diferente: as lutas ideológicas esmoreceram, mudaram de sede, de tom, de protagonistas; o trabalho industrial transformou-se, impulsionado por uma revolução tecnológica muitas vezes desregrada, muitas vezes vista como a solução (em si e por si só) para tudo, solução para a baixa da produtividade, solução para a “garantia” da qualidade; o trabalho dito manual é cada vez mais também um trabalho manual é cada vez mais também um trabalho manual menos manual , mais invisível, um trabalho dito cognitivo , de monitorização, de vigilância. Outras formas de trabalho, outras formas de prestação de serviços, vão aos poucos ganhando terreno ao trabalho industrial, ao trabalho “sujo”, onde os autores começaram a redescobrir a experiência dos trabalhadores. Mas desengane-se quem pensa que esta evolução abalou os alicerces que, na década de 70, Oddone e seus colaboradores começaram a construir em torno dos seus três pilares (linguagem, sistema, interface) e do desenvolvimento da experiência colectiva e individual. Pelo contrário, nunca a natureza dos problemas e dos pedidos sociais, presentes e potenciais, abriu tantas perspectivas de afi rmação e de evolução a esta nova psicologia do trabalho. Como pode o vivido tornar-se um meio para viver outra coisa diferente? Esta é uma questão que permanece central para a análise do trabalho actual. Além disso, é também um interessante problema teórico para a psicologia. Oddone “transmitiunos – por exemplo com o método do sósia – a possibilidade de verifi car esse fenómeno: o que conta, na observação da actividade vivida, é menos a observação do que a diferença entre as observações; menos a primeira observação do que a segunda que tem a primeira como objecto. O que conta é que os sujeitos “observados” no seu trabalho por aquele que intervém, possam tornar-se um meio de viver outras experiências. É assim, e só assim, que amanhece um desenvolvimento subjectivo da experiência vivida: um desenvolvimento da experiência.” (Clot, 2001, p.10). Porquê recolher experiências? E para quê? “Trabalhar, hoje em dia, é muitas vezes fazer face a uma imposição: assumir as suas responsabilidades sem ter responsabilidade efectiva na defi nição do trabalho, amplamente submetida a objectivos fi ctícios. Responsabilidades sem responsabilidade: eis uma das maiores separações do trabalho actual.” (Idem, p.11). É implicitamente exigida aos trabalhadores uma disponibilidade psicológica cada vez maior para agir em meios profi ssionais cada vez mais ambíguos e que, por isso, reclamam que os trabalhadores dêem cada vez mais de si. Esse facto tem consequências: a disponibilidade exigida pressupõe e exige, em contrapartida, um desenvolvimento dos recursos colectivos voltados para a acção. Mas, a organização do trabalho (de qualquer trabalho e não apenas o trabalho industrial), que deveria colocar esses recursos à disposição dos trabalhadores, esquiva-se massivamente a essa missão. Ela não oferece uma disponibilidade comparável àquela que exige. Ela priva os trabalhadores dos meios de exercer as responsabilidades que eles assumem apesar de tudo (Clot, 2001). Ela priva-os da sua experiência e do potencial que esta encerra. Linguagem, sistema, interface Apoiando-se em Winograd e Flores, Oddone (Oddone & Re, 2000) apresenta uma exploração interessante do óbvio, para além do qual é difícil de passar. Partilhamos coisas sempre através da obvieta , do conjunto de elementos que temos em comum. Se passarmos para além disso, para além dos limites do óbvio, passamos a ter um problema. É em relação a isso que se pode falar de breakdown , de ruptura. Das difi culdades que temos à partida para a comunicação, quando queremos comunicar qualquer coisa que está para além daquilo que temos em comum. É este o aspecto fundamental: Ver para além daquilo que vemos. O que não é fácil, como não é fácil sequer compreender o que isto signifi ca. A verdade é que foi um pouco isto que Oddone descobriu (se bem que não o tenha descoberto desta forma) quando se encontrava com os trabalhadores, com os técnicos e não compreendia completamente aquilo que diziam. Não compreendia porque via apenas aquilo que conhecia. “Então - refere Oddone (Oddone & Re, 2000) - se aceitarmos o conceito que poderia aqui haver de breakdown , isto é, de um momento no qual a partilha é impossível porque há algo que está para além daquilo que temos em comum, então o problema está relacionado com a divisão entre o domínio da existência e o domínio da descrição. Ou seja, nós conhecemos através do domínio da descrição, já que o domínio da existência é um domínio diferente e, entre os dois, há muitas vezes situações de ruptura. A forma mais simples de ser claro é estando dentro do discurso que nos dá o sujeito com quem temos uma série de coisas em comum. A linguagem é, por isso, algo que nos chama a atenção para o facto de que o expert que nos interessa, o trabalhador expert que nos interessa, o trabalhador expert que nos interessa, deve ser aquilo que certo dia os autores apelidaram de “ expert -bruto”, entendendo-se bruto como algo que é necessário elaborar. Na conversa que iniciavam, estavam prestes a elaborar, em conjunto, qualquer coisa que não existia ainda. Re (1990), em “Psicologia e soggetto esperto”, propõe que se analise a relação de continuidade entre o sujeito que investiga e o sujeito investigado (no sentido fi gurado do termo), como uma escala de consciência refl ectida. Isto é, há uma fase na qual o expert e o investigador estão numa situação de simples expert e o investigador estão numa situação de simples expert diálogo e, se o investigador não for capaz de fornecer ao expert os elementos que lhe permitam perceber a expertise bruta e elaborá-la com o investigador, não é possível ultrapassar os limites do óbvio. Este é o elemento fundamental de tudo o que fazemos. O investigador, o psicólogo do trabalho deve ser capaz de convencer o sujeito de que ele é portador de uma experiência, de uma capacidade, de um plano de comportamento (Miller, Galanter & Pribam, 1960), que existe de um ponto de vista analógico (já que Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 43 ele é capaz de o utilizar), mas que não é, de todo, capaz de transmitir. É necessária uma construção conjunta e, recuperando o conceito de linguagem em termos de breakdown , devo partir para a investigação convencido de que há qualquer coisa que está para lá do que nos pode ser transmitido directamente. Se eu conseguir convencer o outro disso, há de haver um momento em que estejamos em condições de ver os elementos que é preciso desenvolver dessa expertise bruta . Vamos produzir qualquer coisa transmissível. Este é um aspecto muito interessante e que tem a ver com a noção de sistema auto-poiético: A partir da cibernética, os autores partem da hipótese de que todos os sistemas (sistema de saúde, de produção automóvel, de ensino) são capazes de se auto-regularem com base nos seus resultados positivos e negativos. Devem, no entanto, ser capaz de memorizar esses resultados. Quando um sistema social é capaz de se auto-regular, torna-se um sistema auto-poiético. Isto é, ele responde a toda a estimulação externa e a tudo o que acontece como algo que lhe impõe que se defenda. Ele perdeu a função social e tornou-se um sistema que se serve de feedback para se salvar. O que interessa aos autores no respeitante à noção de sistema, é o facto de um sistema ser aqui considerado como um conjunto de grupos que são homogéneos no sentido em que têm a mesma linguagem. Os subsistemas que têm a mesma linguagem, uma linguagem homogénea, têm uma obvieta . Eles conseguem compreender-se por que têm a mesma visão do mundo, a mesma linguagem. Entre estes subsistemas há interfaces, que são caracterizadas pelo facto de serem frequentemente comandadas por um dos seus lados. Por exemplo, na interface médico-cidadão é o médico que decide, não há permeabilidade na interface. À medida que a sociedade se desenvolve, estas e outras interfaces estão em constante evolução. Portanto – e aí está uma função fundamental do psicólogo do trabalho – é necessário optimizar, dominar a permeabilidade concreta das interfaces entre os subgrupos. Esse é, por exemplo, um aspecto ligado com a questão das instruções ao sósia, isto é, há dois grupos que têm linguagens diferentes e cuja interface há que trabalhar. Isto tem a ver com aquilo que os autores chamam o “ dove ” (o onde), isto é, o contexto concreto, o local. Porque só aí somos capazes de ter acesso à competência de um sujeito. Como transferir usabilidade? Um trabalho que Oddone e Re desenvolveram e que denominaram SEQUIME (Séquence des images-écran), como outros que poderíamos citar, podem ajudar a responder a esta questão da transferência da usabilidade , do potencial de utilização na preparação de projectos de informatização. Tratou-se de uma tentativa (que apenas abordaremos na sua ideologia) de alargar o conceito de interface homem-computador (em termos de simples produto), abarcando o problema da comunicação entre o especialista em informática e o utilizador, de modo a que este último não seja obrigado a utilizar soluções técnicas frequentemente pouco adequadas à sua experiência e ao contexto da sua actividade. Os operadores sabem o que necessitam de ver no ecrã e em que sequência. Se o conseguirem transmitir, depois a transmissão para o programa informático é apenas uma questão técnica. O psicólogo do trabalho tem um papel essencial nessa interface. Ora, isto remete-nos para outra questão, que tem especifi camente a ver com a psicologia e, particularmente, com a psicologia do trabalho – a restituição. Uma restituição que, em psicologia do trabalho, interessa a outros e não apenas a si própria. Ter resultados que transformam, coloca-nos numa situação que tem muito em comum, por exemplo, com a psicoterapia. Temos uma função de prise en charge , de responsabilização. É uma intervenção a longo prazo e que passa sempre por uma restituição. Podemos tornar a pessoa capaz de se ver como sujeito activo que pode modifi car a sua situação de trabalho. O papel do psicólogo do trabalho no seio de uma equipa pluridisciplinar é, por outro lado, um papel que tem a ver com o aspecto cognitivo e de memória. Um aspecto essencial é o de considerar a memória, o conhecimento do que aconteceu até este momento em qualquer empresa. A forma na qual o sujeito pede ao técnico para intervir é simples: “queria que informatizasse aquilo que eu faço todos os dias”. O que acontece normalmente, é que o informático, num dado momento diz “já percebi”, e a partir daí vai dar um protótipo ao sujeito. Mas o que há que não compreendemos? Não vemos o que o informático compreendeu daquilo que havia na cabeça do sujeito que pediu a informatização. Também não vemos como isso pode ser feito do ponto de vista técnico. Não sei nada de informática. Sei, no entanto, que tem um ecrã que corresponde a páginas; e páginas eu conheço. No momento em que passo a informação ao informático passamos a ter qualquer coisa em comum. Da usabilidade à utilidade Falemos de qualquer coisa mais visível do que até aqui. Tentemos integrar os princípios gerais apresentados, no contexto que os gerou, nos avanços e recuos que lhes dão sentido e que alimentam o seu desenvolvimento – a acção, a intervenção concreta, a melhoria dos homens e dos sistemas em que se movimentam. O que signifi ca uma abordagem ergonómica para Oddone e Re? Para que serve? O que dá? Quais as situações que se pode derivar dela? Tentar-se-á apresentar outras imagens, que enriqueçam e complementem aquelas que vimos a propósito das investigações que Oddone, Re e Briante (1981) relatam em “Redécouvrir l’expérience ouvrière”, feito na industria. Vejamos então alguns trabalhos feitos sobre a tecnologia do computador. A competência: tecnicizar a nossa para preservar a dos outros Os pedidos de hoje em dia são pedidos complexos, que mexem com todas as dimensões da intervenção de que falámos. Não podemos trabalhar sozinhos. Precisamos de nos inserir num Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 44 grupo de trabalho que abarca competências diferentes. Muitas vezes, quando trabalho com outros profi ssionais – refere Re (Oddone & Re, 2000) - sou capaz de ver a sua competência, mas eles nem sempre são capazes de ver a minha. Eles têm sempre difi culdade em identifi car a minha competência enquanto psicóloga. Em segundo lugar, eles trabalham cada um por si, mas apenas o psicólogo tem os instrumentos para criar um grupo de trabalho integrado para a projecção de uma nova situação de trabalho a sua complexidade. Assim, o psicólogo pode desenvolver dois tipos de competência: (i) uma competência directa, para analisar a organização, as actividades; (ii) uma competência para construir o grupo de projecto – para o gerir de uma forma integrada. Re teve assim que enfrentar um paradoxo, tinha que tecnicizar a sua competência, face a instrumentos que não são instrumentos clássicos do psicólogo, com o objectivo de evitar que se tecnicizasse a competência dos outros, porque, sem o psicólogo, o informático intervém e produz-se uma tecnicização da competência do operador. Isto é, a interface entre o operador e o informático é dominado pelo informático. A linguagem informática torna-se a linguagem dominante. Neste contexto, o psicólogo é como um guardião que pode permitir ao pedido social (no sentido da criação de uma dinâmica de mudança, como na psicologia clínica) sua explicitação face a todas as competências envolvidas. Para muitos, activar uma mudança signifi ca, simplesmente, modifi car a mesa, os instrumentos, o ambiente físico. Para o psicólogo-ergónomo, activar a mudança é sempre, para além disso, activar uma dinâmica de grupos sociais na organização. E isso é de facto difícil e só é possível a longo prazo. Re (Oddone & Re, 2000), relata um pedido da parte de um serviço de urgência hospitalar que alegava que havia utentes a mais no serviço. Havia grandes fi las de espera, grande volume de trabalho, o que levava a que os profi ssionais não pudessem trabalhar em condições. A equipa de Re começou então esse trabalho com uma acção de formação onde procurava o saber de referência no interior da organização, com os enfermeiros, os responsáveis de sector, os psicólogos do hospital, etc. Tentavam assim reconstruir um percurso completo de um paciente num outro Serviço para não terem difi culdades com o Serviço onde iriam efectivamente intervir. Entrevistaram ainda todos os enfermeiros do departamento de urgência e os auxiliares de acção médica, recorrendo numa segunda fase a um conjunto de instrumentos mais específi cos. Obtiveram deste modo muita informação e, desde logo, a triagem (a recepção dos doentes) foi uma função que apareceu como crítica e fundamental, em termos da difi culdade de ordenar os pacientes de acordo com a gravidade da urgência. A partir desse trabalho, a equipa de investigação inverteu a sua relação com os enfermeiros e foram os próprios investigadores que tentaram simular a realização do trabalho. Eram estes que diziam, em pormenor, aos enfermeiros, o que devia ser feito. Foi relativamente fácil simular a primeira meia hora após a chegada do doente. Depois disso, a tarefa foi difícil porque descobriram que os enfermeiros não tinham “memórias”, isto é, no fi m da manhã eles já não se lembravam dos pacientes que haviam recebido nessa manhã. Porque a situação era de tal modo caótica que era difícil memorizar os casos. Nessa altura, tiveram necessidade de fi xar um objecto da investigação, para conduzir a análise da produtividade e da qualidade do serviço. Pensaram então que “o homem no centro” – o seu slogan – seria, neste caso, o paciente. Nos aviões, há a caixa negra que regista tudo – o dito, o escrito, os indicadores, os tempos, etc. Aqui, a caixa negra era o paciente, era o percurso do paciente desde que entrava na organização até ao fi nal do percurso, à saída. Assim, era ele o fi o condutor para começar a produzir a visibilidade do sistema. Naquele seminário/acção de formação inicial com que se iniciou este trabalho no Serviço de Urgência, o pessoal responsável por aquele departamento dizia que “não era possível”. Quando a equipa de Re apresentou o seu projecto de análise, o responsável pela qualidade, o responsável pela planifi cação, pelo pessoal, diziam que “era impossível”. E diziam-no apoiando-se num standard , num padrão de qualidade que tinham já projectado para todos os departamentos de urgência. A questão chave aqui é que deviam pôr a hipótese de que há um standard de qualistandard de quali-standard dade sobre o qual trabalham que não é o ideal. O sistema deveria ser construído em torno do paciente. Isto conduz Re (Oddone & Re, 2000) à refl exão sobre dois critérios de qualidade ergonómica de um sistema: (i) a fl exibilidade do sistema e (ii) a capacidade de integração de um sistema. Isto é, o paciente, pelo facto de ser paciente de uma qualquer especialidade, activa diferentes recursos, diferentes serviços, diferentes espaços, diferentes instrumentos. O departamento de urgência está ligado a muitos outros sistemas. É o conjunto que deve funcionar, que deve ter a capacidade de se activar em relação às exigências do paciente e de se activar de uma forma integrada para guardar o conjunto do percurso. Não é a intervenção específi ca que está em causa, mas a consideração por tudo o que se passa desde que o utente entra até que sai (e até depois de sair, com o clínico geral, o médico generalista). Então porque dizer que o pedido é algo que devemos construir? Porque o pedido era “temos pouco pessoal”, mas, com efeito, a equipa de investigação/intervenção verifi cou que o sistema de estabelecimento da qualidade do meio era discutível. Um problema era, por exemplo, que as informações eram guardadas apenas em memória. Não havia uma memória escrita. Há datas, mas não espaço para escrever informações suplementares, o que torna difícil gerir o paciente que espera a consulta médica, que espera uma radiografi a, que volta do especialista, que já passou uma vez mas que deve voltar a ver o médico, etc. É impossível gerar uma memória. Acontece assim muitas vezes que não se sabe onde está determinado paciente... Então, a partir dessa análise do trabalho, Re construiu uma série de refl exões, constatando que as pessoas vêem a situação de trabalho de forma muito diferente. Para a enfermeira, a imagem são doentes em risco. A enfermeira gere a informação, o estado do paciente, os espaços, as disponibilidades ou indisponibilidades... Para o paciente, a qualidade que percebe não está ligada ao que recebe em termos de prestação de serviços de Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 45 saúde ou de competência. Está antes muitas vezes ligada aos elementos que sentem com maior intensidade. Por exemplo, se ele passa 4 horas na sala de espera, se teve que esperar n tempo pela radiografi a, o que ele diz é “Ninguém falou comigo... ninguém se preocupou comigo...” O que produziu então essa intervenção? Produziu um pedido do arquitecto, que deveria projectar o novo hospital, para simular o percurso do paciente no novo hospital, para visualizar todas as dimensões que podem acumular-se, para dar uma resposta de qualidade ou uma resposta problemática. O psicólogo do trabalho deve visualizar todas as interfaces que o percurso do indivíduo activa no sistema (físicas, cognitivas, de relação, procedimentos, organização) para traduzir a sua análise em linhas orientadoras, que podem propor para fazer um projecto técnico centrado no paciente e, de uma forma indirecta, sobre todos os operadores que intervêm sobre o paciente. O layout da triagem, da sala de cirurgia,... layout da triagem, da sala de cirurgia,...layout Muitas vezes trabalha-se para produzir um programa de computador ou qualquer outro instrumento que seja visível, mas há algo de mais importante que é o valor de utilização de uma investigação. Não é só um problema de usabilidade , mas principalmente de utilidade, do valor de mudança que ela encerra. A restituição dessa primeira análise, produziu uma primeira mobilização dos enfermeiros, uma crença na mudança e este deve ser o primeiro passo para não criar uma ilusão de que os técnicos podem resolver todos os problemas de projecto. Não são só os standards , os valores-padrão (como a altura das mesas, o tipo de ecrã, as cadeiras) que nos podem ajudar, mas também as particularidades do contexto. A simulação é um recurso metodológico poderosíssimo. Nas instruções ao sósia o objectivo é o de sermos capazes de simular o trabalho de um outro. Neste projecto o objectivo era o de simular o comportamento de um sistema sem o “embelezar”, isto é, sem eliminar tudo aquilo que foge à prescrição ou que “não deveria existir”, tudo o que é imprevisto, ocasional. Quando nos pedem para descrevermos uma situação de trabalho, há habitualmente uma limpeza do que é acidental. Pelo contrário – nota Re (Oddone & Re, 2000) - se formos capazes de simular um sistema tal qual ele é na sua actuação quotidiana, torna-se possível trabalhar com as pessoas para avaliar e reprojectar as situações. E este já não é um projecto feito “à escala”. Não é “tomem lá o programa para memorizar o percurso do paciente”. É antes “como podemos estruturar essas informações?”; “como podemos apresenta-las num ecrã?”. Mas não é um problema do programa. É um problema da análise da actividade. A actividade, os objectos são centrais. Há um método possível hoje em dia, porque a equipa de Re reconstituiu o percurso do paciente a partir de frases das enfermeiras que continham desvios. A restituição colectiva permite desenvolver essa análise e atravessar a linha entre a análise e o projectar de um sistema, muitas vezes com um custo muito baixo. Não se trata de saber “que novos instrumentos?”, mas de conhecer procedimentos quotidianos e de fazer com que deixem de estar ligados à iniciativa de uma pessoa, torna-los algo que é de todos. Será possível, no plano da análise do trabalho, defi nir modelos de simulação para sistemas sociais, para organizações? Se formos capazes de simular um sistema organizado, talvez tenhamos métodos capazes de gerar a produtividade e a qualidade. Muitas vezes os simuladores técnicos traduzidos para sistemas sociais são os mais bem aceites pelas empresas, o que é uma ilusão, porque simulam algo que não funciona assim. Para simular um sistema social - remata Re (Oddone & Re, 2000) - devemos ser capazes de focalizar um dado sistema, em profundidade, sem generalizar, mas de uma forma “idiográfi ca” e etnográfi ca (se bem que a etnografi a será eventualmente insufi ciente para produzir a mudança, difi cilmente activando o poder social no sentido da mudança). O Sistema de Informação Concreta Conhecemos Oddone e a sua equipa através das suas refl exões sobre as questões da saúde e do ambiente de trabalho, utilizando os trabalhadores como os sujeitos, os actores fundamentais. Foi a partir daí que começaram a colocar a questão de desenvolver uma investigação-acção, que, pela sua fi losofi a, duração e visibilidade, merece aqui um destaque particular. Trata-se de um projecto que procurava possibilitar a prevenção da doença devida ao ambiente, a partir de um aspecto particular do ambiente: as empresas. As empresas são, do ponto de vista científi co, laboratórios que permitem descobrir relações entre os próprios laboratórios e a saúde dos homens. Começamos por nos colocar o problema: “O que é a prevenção?” – relata Oddone (Oddone & Re, 2000) - Não devemos confundir a prevenção real com a palavra. A prevenção de doenças é algo de que se fala há muito tempo, mas que não temos sido capazes de realizar As doenças que podemos certamente eliminar, as doenças elimináveis são, certamente, devidas àquilo que podemos designar como “o ambiente construído pelos homens”, porque se o construirmos de outro modo não teremos a doença. A partir daí, Oddone e a sua equipa tiveram a possibilidade de conceber um sistema (no sentido que aqui interessa: um sistema composto por subsistemas e utilizando uma dada linguagem). Há cerca de 20 anos, a partir da resposta a um pedido de uma sociedade de seguros mútua, desencadeou-se então um projecto piloto para a transformação de uma instituição de saúde, com base territorial na região de “ Bouches-du-Rhône ”, em França. Desenvolveu-se assim uma investigação na área da psicologia da organização da saúde, com base ergonómica, daí resultando um projecto de organização da saúde: o Sistema de Informação Concreta (SIC). O objectivo da intervenção de Oddone era, deste modo, o de transformar a organização curativa existente, numa organização capaz de identifi car (para poder eliminar) as doenças seguramente elimináveis, enquanto doenças devidas ao ambiente construído. E propunha-se fazê-lo defi nindo os riscos prioritários, considerados índices prioritários da saúde; criando um percurso de informação sobre a saúde individual; reunindo as informações individuais para obter uma representação da saúde Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez 46 colectiva; informatizando o sistema; difundindo os resultados como terminais de um serviço ajustado, estruturado de forma a permitir à comunidade municipal a avaliação da organização da saúde e a sua consequente modifi cação. O “onde”, dimensão central de qualquer intervenção, foi aquilo que se poderia equiparar a um “centro de saúde” gerido por uma organização de seguros mútua. Um centro de saúde que pode ser considerado como privado no sentido em que gere a saúde (para exigências não hospitalares) dos aderentes à sociedade de seguros mútua, com uma organização autónoma, com secretárias, médicos generalistas, médicos especialistas, um laboratório. No quadro da actividade usual do médico neste contexto, o SIC representa uma actividade integrada na sua actividade habitual de médico generalista, de médico de família. Neste caso, os sujeitos fundamentais são os médicos. Já não são os operários na cadeia de montagem, mas os médicos generalistas. Eles podem ser actores de prevenção, mesmo não sendo médicos do trabalho. Não podemos separar o “eu trabalhador” do “eu homem”. O médico generalista é a interface mais rica, mas também a mais isolada. O médico não tem a credibilidade para modifi car as situações de perigo. Era possível para o psicólogo do trabalho construir uma mudança que permitisse que experts isolados trabalhassem em conjunto, através de um sistema de informação – foi isso que procurámos, refere Oddone (Oddone & Re, 2000). Começamos então a utilizar as instruções ao sósia no sentido de recuperar a experiência do médico, defi nindo um percurso diagnóstico diferente, que era construído sobretudo do seguinte ponto de vista: o médico tinha sempre a suposição de que a doença dependia do ambiente. A partir daí desenvolvia um percurso diagnóstico, uma abordagem. O médico, com base em regras instauradas no sistema, levanta a suposição de que a doença possa estar ligada ao trabalho ou ao ambiente e, a partir daí, nós ajudamos o médico, através de uma entrevista, de um questionamento feito por uma secretária, treinada de uma forma bastante precisa para essa função. A declaração do médico, que pode ser substituída pela declaração do próprio sujeito que quer saber se a sua saúde está em risco do ponto de vista das agressões ambientais, dá lugar à criação de uma lista de sujeitos presumivelmente em risco. Quando um cliente se dirige ao centro de saúde para uma visita usual, se estiver assinalada para ele uma situação de “presunção de risco”, põe-se em marcha um ciclo caracterizado pelo percurso: médico, secretária, cartógrafo, médico. Um percurso que a informação, considerada central no sistema, traça e que o psicólogo da saúde conduz do ponto de vista dos procedimentos. Aquele que o gere, do ponto de vista operacional, através das pessoas implicadas, em particular dos médicos generalistas, é uma fi gura nova na organização da saúde – o cartógrafo. Ele é o gestor de uma intervenção de ergonomia cognitiva, controlada pelo psicólogo, visando a recuperação da experiência dos sujeitos implicados, em particular, os conhecimentos do cliente sobre o seu micro-meio de vida e de trabalho. A partir daqui, o médico passa a ter a possibilidade de utilizar qualquer coisa, que, geralmente, não pode utilizar. Começámos a pensar o que é que o médico generalista pode saber ou precisar de saber sobre o paciente (anamnese), mas a coisa mais importante – o ponto de vista do trabalho – ele não pode conhecer, é muito difícil. Iríamos tentar facilitar-lhe o acesso a essa informação de uma forma sistematizada e integrada. O ciclo do SIC Depois da sinalização do médico que dá origem ao percurso, passa-se ao inquérito por uma secretária, que preenche a fi cha individual de riscos e a fi cha do posto de trabalho. Para recolher as informações necessárias, a secretária segue um procedimento defi nido e periodicamente verifi cado pelo psicólogo com os operadores interessados. O procedimento utiliza o modelo dos quatro grupos de factores nocivos (a que se fez referência mais atrás neste texto, aquando da apresentação da técnica das instruções ao sósia) e as informações já acumuladas no cadastro de situações de risco do SIC, na tentativa de criar uma linguagem comum. A fi cha individual de riscos, informatizada, é composta por 4 áreas: (i) a primeira permite identifi car o sujeito (o nome é apenas visível para o médico que o trata); (ii) a segunda identifi ca o posto de trabalho e os riscos eventuais por exposição; (iii) a terceira precisa os riscos de doenças e os agentes agressores ( atteintes ) eventualmente presentes. Estas três partes são rigiatteintes) eventualmente presentes. Estas três partes são rigi-atteintes damente codifi cadas enquanto que (iv) uma quarta parte, chamada “folha de acompanhamento”, contém todas as restantes informações (não trabalhadas de forma codifi cada nas outras áreas) sobre o sujeito e sobre as condições de riscos, já que se presume que elas possam ter interesse. O objectivo é o de facilitar uma observação, gravada, “aberta”, não defi nida a priori pela codifi cação. A fi cha do posto de trabalho representa a base da anamnese ambiental, concreta, utilizável para estabelecer uma ligação eventual entre dano e ambiente. O posto de trabalho é identifi - cado através de três elementos : o “2 x 2”, o “OQF” e a “especifi cidade local”. - O “2 metros por 2 metros” defi ne o contexto espacial concreto no qual um sujeito trabalha (pode haver mais do que um por trabalhador); - O “O Que Faz” é aquilo que o sujeito faz verdadeiramente no seu posto de trabalho (a tarefa conotada de forma adequada); - A “especifi cidade local” identifi ca se a actividade de trabalho, o processo, tem características específi cas, positivas ou negativas, no que respeita ao risco em relação às actividades de trabalho do mesmo tipo. A avaliação do risco e/ou do dano na saúde do indivíduo, ou seja, a necessidade de exames, o signifi cado dos resultados, a eventual declaração de doença profi ssional, é da competência do médico generalista. O mesmo que assinalara a suspeita de risco e que a verifi ca com base nas informações (ambientais, clínicas e de laboratório). O cartógrafo constrói arquivos dos postos de trabalho em risco. O termo que o qualifi ca profi ssionalmente deriva do seu dever Redescubramo-nos na sua experiência: O desafi o que nos lança Ivar Oddone Ricardo Vasconcelos & Marianne Lacomblez