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As Arquiteturas do milho e do trigo: diálogos circunstanciais com a luz do lugar

Catarina Alexandra Pedro Machado

Abstract

A arquitetura vernacular constitui uma forma de construção que nasce de um conjunto de conhecimentos adquiridos a partir da vivência e interpretação do lugar, pelo que a sua forma é a síntese construtiva dos fatores circunstanciais do seu ambiente. Esta arquitetura é materialização naturalista da experiência humana acerca do território, a forma mais genuína da sua posição face à natureza do seu habitat. A arquitetura vernacular é uma elaboração específica, dado que diferentes lugares demonstram uma resposta particular à questão do habitar, soluções próprias incitada por razões de sobrevivência, de adaptação às circunstâncias do lugar. A presente dissertação centra-se na mutabilidade formal e construtiva de elementos vernaculares dispostos em pontos do território português com diferentes características, de forma a indagar a relação estabelecida entre a arquitetura e o seu lugar. De um ponto de vista mais restritivo, a investigação ambiciona a análise das do milho e do trigo que a arquitetura vernacular portuguesa desenvolve na adaptação ao ambiente no qual se encontra inserida. O estudo fenomenológico do lugar presume a compreensão inicial dos principais aspetos sob os quais são inquiridos os casos de estudo. Entre todos os aspetos enunciados, a luz é indubitavelmente a característica mais perene de um lugar. A configuração de um território pode alterar-se ao longo do tempo, espaços abertos podem ser reconfigurados, os materiais de construção podem deixar de ser constringidos a um local, porém a luz natural não pode ser exportada ou estandardizada, será sempre uma constante imutável. Assim sendo, a luz solar, com os seus distintos padrões e ritmos, possui um papel essencial na construção da atmosfera característica de um lugar. Segundo esta premissa conduz-se uma análise comparativa entre duas tipologias arquitetónicas vernaculares, relacionadas com a cultura do milho e do trigo, com programas e funções semelhantes, mas que devido às suas condições geográficas, apresentam características formais e construtivas completamente distintas. O sequeiro e o celeiro português são duas tipologias arquitetónicas relacionadas com circunstâncias próprias da atividade agrícola, nomeadamente o cultivo do milho e do trigo, presentes no norte e no Centro do país, subjacentes a paisagens com condições espaciais particulares. O confronto destas duas formas tipológicas de regiões distintas que exibem programas semelhantes empreende-se na construção de um corpo teórico e crítico sobre a interpretação do espaço pela necessidade do Homem.

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1 Catarina Machado Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto Orientador: Professora Doutora Clara Pimenta do Vale 2016 AS ARQUITETURAS DO MILHO E DO TRIGO Diálogos Circunstanciais com a Luz do Lugar 3 Estou eternamente grata a todas as pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho, em especial, à Professora Doutora Clara Pimenta do Vale pela orientação e discussão construtiva ao longo da elaboração do trabalho, aos meus pais, pela dedicação e esforço, sem os quais tudo isto não seria possível, ao Bruno pelo acompanhamento constante e pela revisão cuidada do texto, aos meus amigos, pela partilha de uma experiência comum e pelos debates que sempre enriquecem o trabalho. AGRADECIMENTOS Vernacular architecture constitutes a form of construction born from a set of capabilities acquired from the interpretation of the place. The form is the constructive syntheses of the circumstantial values of its environment. The vernacular construction is the natural materialization of the human experience about the territory, an instance relation with the nature of is habitat. This architecture is a specific elaboration; different places create different responses, particular architectonic solutions incited by means of adaptation or instincts of survival and comfort. The present thesis focus on the formal and constructive mutability of vernacular elements disposed in opposite landscapes of the Portuguese territory, with particular sets of physical characteristics, with the aim of analyse the different shapes of shading, illumination and ventilation that the Portuguese vernacular architecture develops on the adaptation of the built environment on witch its inserted. The phenomenological study of the place presumes the understanding of the principal aspects over which are inquired the study cases. Among all the physical aspects, the light is the most perennial element from a place. The configuration of a territory can change throughout time, open spaces can be reconfigured, the construction materials can no longer be restricted to a site, but natural light cannot be exported or changed, it’s a constant source of energy. Natural light is therefore, with its distinct patterns and rhythms, and essential piece on the construction of the place’s atmosphere. According to this premise its conducted a comparative analysis between to architectonic types, related to the corn and oat production, whose program and function are similar, but due to their geographic conditions they present formal and constructive characteristics completely different. The Portuguese sequeiro and the barnyard are two architectonic types bounded to specific circumstances of the rural activity, present in the North and centre of the country, connected to landscapes with spatial conditions predetermined by this function. The confrontation of those two regions, the North of Atlantic influence and the centre of Mediterranean influence permits the construction of a critical and theoretic basis of the interpretation of natural space by the need of Man. ABSTRACT 5 A arquitetura vernacular constitui uma forma de construção que nasce de um conjunto de conhecimentos adquiridos a partir da vivência e interpretação do lugar, pelo que a sua forma é a síntese construtiva dos fatores circunstanciais do seu ambiente. Esta arquitetura é materialização naturalista da experiência humana acerca do território, a forma mais genuína da sua posição face à natureza do seu habitat. A arquitetura vernacular é uma elaboração específica, dado que diferentes lugares demonstram uma resposta particular à questão do habitar, soluções próprias incitada por razões de sobrevivência, de adaptação às circunstâncias do lugar. A presente dissertação centra-se na mutabilidade formal e construtiva de elementos vernaculares dispostos em pontos do território português com diferentes características, de forma a indagar a relação estabelecida entre a arquitetura e o seu lugar. De um ponto de vista mais restritivo, a investigação ambiciona a análise das do milho e do trigo que a arquitetura vernacular portuguesa desenvolve na adaptação ao ambiente no qual se encontra inserida. O estudo fenomenológico do lugar presume a compreensão inicial dos principais aspetos sob os quais são inquiridos os casos de estudo. Entre todos os aspetos enunciados, a luz é indubitavelmente a característica mais perene de um lugar. A configuração de um território pode alterar-se ao longo do tempo, espaços abertos podem ser reconfigurados, os materiais de construção podem deixar de ser constringidos a um local, porém a luz natural não pode ser exportada ou estandardizada, será sempre uma constante imutável. Assim sendo, a luz solar, com os seus distintos padrões e ritmos, possui um papel essencial na construção da atmosfera característica de um lugar. Segundo esta premissa conduz-se uma análise comparativa entre duas tipologias arquitetónicas vernaculares, relacionadas com a cultura do milho e do trigo, com programas e funções semelhantes, mas que devido às suas condições geográficas, apresentam características formais e construtivas completamente distintas. O sequeiro e o celeiro português são duas tipologias arquitetónicas relacionadas com circunstâncias próprias da atividade agrícola, nomeadamente o cultivo do milho e do trigo, presentes no norte e no Centro do país, subjacentes a paisagens com condições espaciais particulares. O confronto destas duas formas tipológicas de regiões distintas que exibem programas semelhantes empreende-se na construção de um corpo teórico e crítico sobre a interpretação do espaço pela necessidade do Homem. RESUMO A arquitetura vernacular é o produto das relações do Homem com o meio natural em que vive, uma ação que se traduz quer pela utilização dos materiais locais na construção, como pela adoção de soluções formais e construtivas ajustadas a essa mesma natureza. Uma arquitetura do senso comum, integrada e racional, onde não surge a oportunidade para adoção de soluções gratuitas. Prevalece a austeridade, a adaptação ao meio, a tradição enraizada que leva à adoção de tipos mutáveis, nunca soluções replicadas. Os modelos vernaculares respondem a situações e necessidades concretas, criando-se um diálogo ativo entre as formas e o território. O trabalho dedica-se à procura identitária dos elementos sobre os quais se funda a arquitetura vernacular portuguesa, fundamentos sobre os quais a arquitetura contemporânea se possa apoiar para estabelecer uma relação específica com a sua envolvente. Questiona-se a pertinência de transpor os valores e processos da experiência vernacular, numa era de globalização e dependência tecnológica, na qual a tendência é para a homogeneização das culturas e consequentemente dos modos de construir. Empreende-se a tentativa de reconhecer e representar uma síntese das formas arquitetónicas ou dispositivos que apresentam uma adaptação da arquitetura vernacular rural portuguesa às condições luminosas do espaço. O objeto de estudo passa por uma seleção de casos cuja forma demonstra uma preocupação com a proteção solar em diferentes pontos de ocupação do território, sendo possível discernir ,dos exemplos retratados, as mutações regionais associadas à localização dos objetos. Pelo que se desenvolve um estudo tipológico de um elemento presente na arquitetura vernacular portuguesa, recorrente em regiões caracteristicamente antagónicas, com a função de secagem e armazenamento do milho e do trigo, duas das principais fontes de subsistência da população em território de influência atlântica e de influência mediterrânica. No primeiro capítulo procura-se identificar as caraterísticas que condicionam as formas vernaculares. A definição do conceito de Genius Loci incita a procura de uma conjuntura sobre a qual se pode realizar um inquérito à arquitetura vernacular portuguesa. Um estudo tipológico levanta uma questão metodológica. Para a investigação não se limitar a descrever aspetos factuais como evidências empíricas suscetíveis de uma interpretação natural, foi necessário identificar um critério que estruturasse o propósito do levantamento: a luz natural. A aproximação da arquitetura vernacular e do lugar sob o ponto de vista analítico da luz, leva ao debruçar sobre a fenomenologia da luz e do lugar. No segundo capítulo posiciona-se o estudo face aos trabalhos pré-existentes na matéria da arquitetura vernacular, a nível internacional e nacional. Descreve-se uma aproximação generalizada ao campo de estudo, examinando-se as características endógenas da arquitetura vernacular portuguesa INTRODUÇÃO 7 como o clima, os materiais, a topografia e os modos de vida. Decorrentes desta análise são identificadas as principais formas arquitetónicas que nascem em diálogo com as propriedades endógenas dos diferentes lugares. O terceiro capítulo e quarto constitui o levantamento impressivo da adaptação tipológica do sequeiro e do celeiro em dois pontos do território português, cuja paisagem admite diferentes características físicas, modos de vida e estruturas económicas. O campo de investigação coincide a norte com um espaço de influência Atlântica, a faixa de território entre o rio Douro e o rio Ave onde é recorrente a presença de sequeiros, e a sul com um espaço de influência Mediterrânica, posicionados na bacia inundável das margens do Tejo, rica em estruturas de celeiro. A contextualização da forma tipológica na conjunção da exploração rural e da casa da lavoura portuguesa, assim como o reconhecimento do processo de cultivo, recolha, secagem e armazenamento dos cereais são pontos relevantes para correlacionar a forma com a função, na justificação dos espaços e características das tipologias. O levantamento impressivo é materializado em fichas de análise, onde os casos de estudo são ordenados segundo unidades de paisagem e retratados de acordo com os critérios que descrevem a relação circunstancial com o lugar. No quinnto capítulo conduz-se uma sistematização dos dados representativos de cada caso, o cruzamento de semelhanças e disparidades, entre sequeiros e celeiros, levando à composição dedutiva de tipologias formais arquitetónicas cujas características se justificam pelas características do lugar. O intuito de perceber o porquê regionalista de algumas soluções arquitetónicas, origina uma síntese de disposições, formas e materiais da adaptação. Espera-se que esta dissertação se torne num registo dos resquícios de uma forte presença da exploração agrícola do território, de objetos em crescente ruína, cuja forma apresenta uma potencial condição de aprendizagem. Um pequeno levantamento que pretende reintroduzir estas estruturas na memória arquitetónica vernacular e paralelamente apropriar-se do processo como a arquitetura vernacular interpreta a luz do lugar. A investigação tem por objetivo reconhecer as premissas sobre as quais a arquitetura vernacular do milho e do trigo se apoia para estabelecer um diálogo sustentado com a sua envolvente. Como objeto do estudo permanece o sequeiro entre o Douro e o Cávado e o celeiro na bacia de aluvião do Tejo, analisado sob uma metodologia qualitativa representada na forma de um levantamento impressivo processado em fichas de estudo onde se confrontam os casos registados. 1DIÁLOGOS CIRCUNSTANCIAIS COM A LUZ DO LUGAR 9 Figura 3Caixa de Granada, Espanha, Alberto Campo Baeza,v 2001 17 8BAEZA, Alberto Campo - La ideia contruida: La Arquitectura a la luz de las palabras. Madrid: Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid, 1996 (pág.22) 9Segundo o arquiteto, a categorização destes diferentes tipos de luz está inerente à posição relativa do sol perante os espaços irradiados por essa luz. Uma luz horizontal seria causada pelo atravessamento dos raios luminosos ao longo de uma abertura no plano vertical, uma luz vertical seria recebida por uma abertura concebida no plano de cobertura, e uma luz diagonal corresponderia a um tipo de iluminação que atravessaria tanto o plano vertical como o plano horizontal. A luz natural, em contraposição com um sentido mais abstrato, constitui uma fonte de energia, mensurável e classificável em termos físicos. A luz solar é um tipo de radiação propagada pelo sol, sob a forma de ondas eletromagnéticas. Esta radiação é composta em parte por um tipo de energia visível (a luz solar) e invisível (a radiação ultravioleta e radiação infravermelha). O enxerto de radiação solar visível representa o tema central do projeto arquitetónico. Alberto Campo Baeza, em La Idea Construida, considera que “La luz es componente esencial para toda posible comprensión de la cualidad del Espacio. (…) La luz es el material básico imprescindible, de la Arquitectura. Con la misteriosa pero real capacidad mágica de poner el espacio en tensión para el hombre.”8 A luz constitui uma realidade contínua, precisa, como uma matéria-prima que pode ser moldada e medida por meio de instrumentos imprescindíveis ao processo projetual. A inclinação, a direção e a intensidade luminosa são as principais ferramentas que permitem perceber e controlar a disposição de uma abertura em determinado espaço. Estas grandezas possibilitam ao arquiteto averiguar a forma como uma janela irá afetar a luz que penetra o espaço e ilumina as formas e superfícies. Campo Baeza, chega a enunciar a existência de diferentes tipos de luz, correspondente a diferentes tipos de abertura e consequentemente molda a direção dos raios luminosos (Luz Horizontal, Luz Diagonal e Luz Vertical) e a sua qualidade (Luz Sólida e Luz Difusa).9 Em termos qualificáveis, este considera duas expressões que a luz pode adquirir num espaço. Uma expressão difusa de carácter homogéneo, normalmente conseguida por refração da luz direta ou obtida por aberturas a norte, alcançado um ambiente de claridade espacial, onde não se distingue a fonte luminosa. E por contraposição, uma expressão sólida de carácter linear e direcionado, alcançada por uma abertura identificável, que produz uma imagem concreta e partir da qual é possível assistir ao visível movimento da luz ao longo do tempo. Deste modo, a luz distingue-se como algo quantificável e qualificável, como matéria papável, passível de ser controlada com precisão para conformar intenções espaciais, por meio de elementos analíticos como cartas solares, tabelas, e instrumentos de medição lumínea. Por consequência depreende-se que a luz deixa de ser apenas compreendida como qualidade da matéria, para ser entendida enquanto material. Uma premissa intensamente explorada pelo trabalho do artista plástico James Turrell. A obra de Turrell perscruta a forma como a experiência da luz reflete a complexa natureza da perceção humana. As suas instalações criam situações onde a luz pode ser experienciada como uma substância isolada, quase táctil. Cada performance cria circunstâncias propícias à contemplação da natureza do fenómeno luminoso, o observador tem a possibilidade de comtemplar a mutação das características intrínsecas da luz como a sua transparência, a sua opacidade, o seu volume, a sua cor. 1.1.1. LUZ COMO MATÉRIA E MATERIAL Figura 4Montagem da Instalação “Aten Reign“, Guggenheim Museum, Nova York, James Turrel, 2013 19 10“My works are not about looking at, but looking into; not the displacement of space, with mass, but the working of space; not objects in a room, but the room. The format is not things with in space, but space itself.” GOVAN, Michael & KIM, Christine - James Turrell: A Retrospective. New York: Los Angeles County Museum of Art, 2013 (pág. 2) 11 http://web.guggenheim.org/exhibitions/turrell/(16.5.2015) As esculturas luminosas de James Turrell têm por objetivo usar a luz como um material e a perceção como um meio, construir uma experiência com luz e espaço na qual a presença física da luz se manifesta de forma sensorial.10 Esta capacidade de manipulação da luz natural constata-se em inúmeras experiências, entre as quais se destaca a instalação “Aten Reign”, onde o autor transforma o espaço central do Museu Guggenheim, em Nova York, num conjunto de cinco anéis elípticos em constante mutação em termos de opacidade e cor, que relembram o padrão das rampas do edificado. A luz do óculo da rotunda de Frank Lloyd Wright discorre sobre um maciça estrutura de cones suspensos, preenchidos por um sistema de iluminação LED, que revela e amplifica a natureza luminosa do espaço. O intuito da experiência seria propor uma nova aproximação ao edifício, retraindo a atenção do observador dos limites do ambiente construído para o interior de “uma arquitetura de espaço criada com luz”.11 Sustenta-se a premissa de que a luz é simultaneamente matéria e material, necessário para a compreensão da definição do espaço e sucessão do tempo, que pode ser explorada como elemento revelador ou como material de composição em si. Na condição de matéria a luz é uma substância axiomática que caracteriza e estrutura o espaço; na condição de material a luz é um objeto percetual passível de ser volumetricamente esculpido. Figura 5Sem Título, Instalação de Donald Judd, Marfa, Texas, 1984 21 12 O fluxo luminoso (un.: lúmen) representa a quantidade de energia radiante emitida por segundo por uma fonte de luz que consegue sensibilizar o sistema visual. Está diretamente correlacionado com a intensidade luminosa dessa mesma fonte. O fluxo luminoso quantifica a capacidade de adaptação da perceção visual à sensação de brilho, de acordo com o comprimento de onda de um raio luminoso. 13A intensidade luminosa (un.: candela) de uma fonte é medida pela quantidade de energia luminosa emitida por segundo em considerada direção. Esta grandeza está correlacionada com a iluminância (un.: lux) do espaço. A iluminância constitui a densidade do fluxo luminoso incidente em determinado ponto de uma superfície. Através desta referência é possível estimar a quantidade de lumens refletidos por metro quadrado ao longo de plano de reflexão. 14A luminância (un.: candela/m2) é uma grandeza associada às propriedades da própria superfície de reflecção. A luminância corresponde à medição dos estímulos visuais que produzem a sensação de brilho num objeto10, esta corresponde à quantidade de fluxo luminoso reemitido por uma superfície numa dada direção, ou seja, avalia a capacidade de reflexão de um material por unidades de área. A distinção visual de todos os objetos e superfícies abrangidos por um campo visual, deve-se ao índice de luminância dos elementos percecionados. A luminância dos materiais e superfícies é a condição que produz a sensação de claridade num objeto ou ambiente iluminado. A qualidade refletiva é uma propriedade constante de qualquer superfície, dependendo da intensidade da iluminação, um objeto irá refletir mais ou menos luz segundo uma percentagem de luminância. 15 Um padrão de sombreamento é formado pela distribuição de iluminância de uma superfície, produzida pela interação do volume com a distribuição tridimensional de iluminância gerada por um ambiente luminoso, por outras palavras, consiste na sombra própria dos objetos. 1.1.2. LUZ ENQUANTO FENÓMENO FÍSICO A luz como conceito físico, constitui um tipo de energia eletromagnética irradiada por uma fonte luminosa, emitida com determinada intensidade em certa direção, cuja incidência espacial materializa um ambiente luminoso concreto. As propriedades de um fluxo luminoso12 são por sua vez quantificáveis por meio de grandezas físicas com as quais se medem as características de determinado ambiente luminoso, como a intensidade luminosa 13, a iluminância e a luminância14. A perceção da luz é na realidade o discernimento das diferenças de luminância no espaço. A análise da fenomenologia física arquitetónica da luz reside na capacidade de reflexão dos materiais. Por outro lado a reflexão não constitui a única condicionante do projeto, a natureza direcional da luz também está diretamente correlacionada com a forma como a iluminação influência a aparência visual das superfícies tridimensionais. A transformação da aparência visual de um objeto dentro de um campo luminoso está vinculada à mutabilidade da posição relativa do objeto em relação à fonte luminosa. A verdadeira análise da interação entre forma e luz apoia-se na capacidade que uma forma de iluminação tem de produzir distintos padrões de sombreamento. Para além do padrão de sombreamento15 existem outros padrões gerados pela interação entre matéria e luz, denominados de padrões de iluminação. O padrão de brilho, o padrão de sombra e o padrão de sombreamento, são os três efeitos luminosos direcionais de uma forma em contacto com um campo luminoso. O efeito de sombreamento tem a capacidade de revelar a geometria espacial de uma forma arquitetónica, ao provocar a sensação de profundidade visual. A variação da inclinação e intensidade dos raios luminosos implica uma transformação na forma como um objeto arquitetónico é percebido. A direção da luz é a qualidade física que controla a aparência volumétrica da forma arquitetónica. As características de iluminação que geram os padrões de sombreamentos, são bastante distintas daquelas que geram os padrões de sombra e brilho. Um padrão de sombra implica obrigatoriamente a existência Figura 6Instalação Viewing Space and Sensing Space de James Turrel, Kunstmuseum de Wolfsburg, Alemanha, 2010 23 16 Num ambiente onde a fonte luminosa é um ponto de luz compacto de grande intensidade lumínica, as sombras projectadas irão ser intensamente pronunciadas, com um contorno bem definido, cuja direcção denuncia a próprio sentido da luz. tida, num caso onde a fonte de iluminação é múltipla, as sombras de um objeto tendem a fraccionar-se, neste caso o padrão de sombra torna-se mais complexo, e perde algum contraste mas conserva a sua nitidez. 17 O fenómeno de reflexão está ligado à capacidade de luminância de uma superfície, este supõe a percentagem de reflectância do material em correlação com a cor e acabamento do mesmo. Por antítese, o fenómeno de transmissão constitui a parte de energia que atravessa o corpo interposto. A reflecção ocorre quando parte da energia incidente é reemitida pela superfície de reflecção, sendo que os raios luminosos redirecionados são a fonte dos estímulos visuais. Enquanto parte da energia incidente é refletida, outra parte é absorvida pelo corpo interposto. A absorção está na origem do fenómeno percetual da cor, que ocorre de acordo com as propriedades de determinado material. 18 MILLET, Marietta - Light and Materials. London: VELUX, 2006 (pág.89) de planos ou massas volumétricas que projetem o negativo da radiação recebida. A sombra projetada descreve por sua vez o grau de nitidez que um tipo de iluminação encerra.16 Os atributos manifestados pelos padrões de iluminação são diretrizes para a compreensão do tipo de luz que configura um ambiente. Num processo puramente interpretativo da qualidade e nitidez da fonte de iluminação, o projeto arquitetónico alcança o controlo da tensão luminosa, criada pela disposição dinâmica dos planos iluminados de uma forma tridimensional, ao diligenciar a posição e direção da fonte luminosa. Até este momento a luz foi definida como uma forma de energia que viaja no espaço, obedecendo a uma propagação retilínea inalterável, porém quando esta colide com a matéria, o carácter da sua propagação sofre uma série de alterações. As propriedades e trajetórias do raios luminosos são transformadas segundo fenómenos de reflecção, refração, transmissão e absorção, ao interagirem com as superfícies.17 Estes três pequenos processos, de interação entre luz e matéria, são a fonte dos inúmeros eventos no ambiente luminoso que informam a perceção do observador. Depreende-se que os materiais são portanto um elemento fulcral para a compreensão da luz na arquitetura, porque a partir dos mesmos o observador toma conhecimento dos atributos e características do espaço, e consuma a experiência arquitetónica. “Light and materials are inseparably connected, (…) great architects have always also allowed themselves to be directed by the light in the choice of their building materials. They use light to draw out contrasts between different materials and they use materials that allow them to create a very specific distribution of light in a room.”18 Os materiais enfatizam a luz e promovem a sua propagação. A natureza física dos materiais construtivos afeta a qualidade e quantidade de luz que caracteriza um espaço, da mesma forma que a natureza física da luz influência as qualidades dos materiais. As características que mais interferem nesta relação de interdependência são nomeadamente a cor e o acabamento dos materiais . A cor é a característica material que determina a quantidade de luz refletida e a percentagem de luz absorvida, sendo que entre os principais atributos da cor (matiz, luminância e saturação) que Figura 7Sala de Leitura da Biblioteca de Viipuri, Vyborg, Russia, Alvar Aalto,1935 25 19BAEZA, Alberto Campo - La idea construida: La Arquitectura a la luz de las palabras. Madrid: Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid, 1996 (pág. 47) 20SCHILDT, Göran - Alvar Aalto : de palabra y por escrito. Madrid: El croquis, 2000 (pág. 145) contribuem para a reflecção, a luminância, ou o grau de relatividade luminosa da cor, é o valor que determina a porção de luz absorvida. Enquanto uma parede branca consegue refletir grande parte da luz incidente, uma parede azul ou verde apenas consegue refletir uma pequena parte dessa energia. Por conseguinte, o branco constitui o meio mais simples de se aumentar o nível de iluminação de um espaço e de se controlar a cadência luminosa do mesmo. Uma superfície branca permite criação de diferentes ambientes, e diferentes gradações de saturação, de acordo com a configuração da fonte de luz incidente, dado que um espaço branco pode ser escurecido pela diminuição de luz dentro do ambiente. “El color blanco en la Arquitectura, (…) es algo mas, mucho mas que una mera abstracción. Es una base firme y segura, eficaz, para resolver problemas de Luz: para atraparla, para reflejarla, para hacerla incidir, para hacerla resbalar. Y controlada la Luz e iluminados los blancos planos que lo conforman, el espacio queda controla.”19 O acabamento e a textura de uma superfície são duas propriedades que controlam a forma de difusão da luz incidente ao longo do espaço. As superfícies baças, como a pedra natural, a madeira e o estuque, refletem a luz de forma difusa, distribuindo-a igualmente em todas as direções. Esta propriedade das superfícies pode ser essencialmente estudada em programas que tenham grandes exigências do ponto de vista técnico, em relação ao conforto visual. Na Biblioteca de Municipal de Viipuri, de Alvar Aalto o projeto arquitetónico depreende-se com a questão da relação do espaço de leitura com o olho humano. O tema fulcral de reflexão no projeto de Aalto materializa-se no desenho da sala de leitura e requisição. Para conseguir um tipo de iluminação cuja dimensão humana fosse atendida, este projeta um espaço dividido em dois níveis percorríeis, onde os planos verticais de cada piso são envolvidos por estantes de madeira com uma proporção alcançável, à semelhança de um lambril, enquanto o plano branco da cobertura é perfurado por inúmeros lanternins circulares que distribuem a luz natural uniforme-te pelo recinto. Este sistema de iluminação é humanamente racional, dado que proporciona um tipo de luz zenital indireta, onde todas as sombras incidentes são eliminadas. A luz é harmonizada mediante as reflexões que se produzem nas superfícies brancas das claraboias circulares. Os cones de betão estão construídos para que a luz solar seja sempre indireta, para que as superfícies distribuam a luz em todas as direções. Desta forma, a luz incide sobre os livros, refratada, evitando que as páginas brancas ofusquem o olho humano, amortizando um certo grau da fadiga causada por esta tarefa.20 Superfícies polidas refletem a luz da mesma forma que um espelho, concentra pontos luminosos sobre o seu plano. A título de exemplo convoca-se a ação de conciliação das cores e texturas dos Figura 10Logia da celas de La Tourette, Éveux, França, Le Corbusier, 1957 33 28HOLL, Steven - Questions of Perception: Phenomenology on Architecture. A+U architecture and urbanism, 1994 (pág. 25) 29“You can say the light the giver of all presences, is the maker of a material, and the material was made to cast a shadow, and the shadow belongs to the light. “ http://www.archdaily.com/362554/light-matters-louis-kahn-and-the-power-of-shadow/(15.05.2015) 30 ARNHEIM, Rudolf - Arte e Percepção Visual : Uma Psicologia da Visão Criadora. São Paulo: Biblioteca Pioneira de Arte Arquitectura e Urbanismo, 1985 (pág.306) “The perceptual spirit and metaphysical strength of architecture are driven by the quality of light and shadow shaped by opacities, transparencies and translucencies. Natural light, with its ethereal variety of change, fundamentally orchestrates, the intensities of architecture and cities. What the eyes see and the senses feel are formed according conditions of light and shadow.” 28 A luz natural, enquanto elemento abstrato, manifesta a materialidade e forma do espaço arquitetónico. A interação entre luz e sombra conduz a experiência do tempo, do lugar e do percurso; revela os aspetos formais, materiais e estruturais do edificado; define o limite entre interior e exterior e exprime o significado contemplativo, teatral, metafórico e simbólico da arquitetura. O espaço arquitetónico desenha-se no limite deste material intangível. Segundo a organização do processo da perceção visual, o sistema visual interpreta instintivamente a forma arquitetónica através do contraste criado entre claro e escuro, entre luz e sombra. A sombra permite o reconhecimento tridimensional do espaço através da gradação da claridade de uma superfície, evoca volumes, composições e ritmos espaciais. À imagem da ideologia de Kahn29, a luz encara-se como um material que desvela todos outros materiais presentes na natureza. A luz, criadora de matéria, tem o propósito de incindir sobre as formas, que por sua vez têm o desígnio de projetar sombra. A sombra será portanto o negativo da matéria, a antítese da luz. A oposição entre luz e sombra materializa-se, por exemplo, ao longo de um percurso interior de um pórtico onde as colunas constituem o espaço positivo onde a ausência de luz permanece em sombra projetada, e o intervalo entre os apoios o espaço iluminado. A estrutura compõe, portanto, um corpo denso que absorve e reflete a luz criando interstícios espaciais. A distribuição da luz ajuda a definir a orientação e posicionamento dos objetos no espaço por condições de sombra. Cada forma apresenta sombras que podem ser próprias ou projetadas. A sombra própria deriva diretamente da iluminação da superfície própria do objeto, indicando o seu volume, orientação espacial e distância da fonte luminosa. Uma sombra projetada é uma sobreposição da silhueta de um objeto sobre outro objeto ou superfície. Esta projeção pode definir o carácter da superfície incidente, como plana, horizontal, curva ou inclinada. Em simultâneo, a sombra projetada e sombra própria dos objetos arquitetónicos modelam o espaço, sugerem a tridimensionalidade e profundidade do mesmo.30 Na obra de Khan, o desenvolvimento de uma forma alude ao orquestrar harmonioso de espaços, que na sua génese deveriam ser definidos pela sua estrutura e pela sua luz natural. Se por um lado se pode subentender que o fascínio da sombra, na obra de Kahn, está intimamente ligado a uma intensão de silêncio e deslumbramento, de exacerbação dramática de uma arquitetura de volumes monolíticos. 1.2. CONDIÇÕES DE LUZ E DE SOMBRA Figura 11Interior do Instituto Indiano de Gestão, Bangladesh, India, Louis Kahn, 1974 35 Noutro momento, a sua arquitetura em contacto com extremas condições climatéricas, como constitui o exemplo do Instituto Indiano de Gestão no Bangladesh, tenta proteger a integridade da sombra. Sem solicitar grandes manipuladores solares, o arquiteto constrói um sistema de arrefecimento natural com recurso a uma maciça fachada porosa que age como filtro para a luz e como grelha de ventilação4.Da conjugação entre a arquitetura moderna e a cultura vernacular indiana, nasce um sistema de dupla fachada que protege o espaço interior do árido clima exterior local. Constata-se que o fenómeno da luz estará sempre ligado ao da sombra. A sombra torna-se num elemento essencial para revelar o sentido da forma, a textura da superfície, a tensão de um espaço e a atmosfera ambiental do mesmo. A luz, por antítese, incorpora o papel de revelar o sentido e carácter da sombra. A luz constitui neste trabalho um modo de tematização da arquitetura vernacular do milho e do trigo. A luz representa uma matéria sobre a qual se pode gerar um novo olhar sobre a arquitetura vernacular portuguesa. O Nacionalismo, as condições de higiene e de salubridade, as potencialidades modernas da arquitetura popular e as suas funções produtivos traduzem os grandes enfoques que provocaram anteriormente o estudo da “arquitetura sem arquitecto”. O Movimento da Casa Portuguesa, o Inquérito à Habitação Rural, o Inquérito à Arquitetura Popular e as investigações de Ernesto Veiga de Oliveira e dos seus colaboradores representaram quatro formas diferentes de olhar a arquitetura popular. Esta dissertação tem por objectivo observar a arquitetura vernacular sob o ponto de vista do diálogo circunstancial com a luz, de forma completar o campo de conhecimento vernacular e registar a presença destas estruturas no tempo. Figura 12A experiência do Lugar, Helena Almeida, 2001 37 Atualmente a imperatividade de iluminação de um espaço sucumbe, em muitos casos, à aliciante estética da arquitetura de vidro. A transparência através do uso do vidro nasce de uma revolução arquitetónica contra o ecletismo de uma época de pensamento conturbado, e da apoteose pela procura de uma verdade construtiva correspondente a uma verdade arquitetónica. Esta imagem de transparência e leveza, objetivo ou moda de algumas arquiteturas contemporâneas, perece sob o desmensurado tamanho das suas aberturas, desprotegidas em extremos climáticos insustentáveis.32 Deliberar a proporção de transparência e opacidade, que materializa os limites do construído, constitui um ponto fundamental na composição arquitetónica. A luz e a sombra, e a transparência e a opacidade, são dualismos inerentes à perceção do espaço e ao traçado de um vão. Uma abertura constitui assim um elemento mediador entre o clima interior e o clima exterior. Esta acuta como um filtro que tanto pode bloquear ou admitir a luz, o ar, o calor e o som. Uma abertura pode admitir diferentes graus de complexidade, conforme as exigências do projeto e do seu contexto. A manipulação das condicionantes externas de determinado lugar, pode abarcar diferentes soluções de modo a corresponder a diferentes níveis de intensidade luminosa e térmica, visão de exterior e proteção do interior. A função que a simples aplicação de uma caixilharia não consegue ultrapassar, pode ser transposta com recurso a dispositivos interiores ou exteriores de sombreamento, vegetação ou estratégias de proteção solar para a redução dos ganhos solares, o aumento do conforto visual, intimidade e segurança. No contexto da arquitetura vernacular, o desenho destes sistemas subordina-se a uma ordem de composição inerente às circunstâncias físicas e culturais do local, criando-se exemplos extraordinários de uma construção holística e interdisciplinar. Esta construção responde aos desafios ambientais, através do uso de técnicas simples e materiais locais, mas também modela as suas aberturas de acordo com crenças, costumes e hábitos das comunidades. Ao mesmo tempo que em certos pontos do território a sombra é considerada um luxo, noutros a insolação é um recurso essencial para o conforto da habitação. Onde o vão é transparente coabita uma sociedade aberta, atrás de uma abertura rotulada esconde-se um corpo social muito reservado. Perante esta multiplicidade de circunstâncias, que a proteção solar contempla, é inóspito e simplista reduzir, no sentido contemporâneo, a janela a um pano de vidro duplo compensado por sistemas de climatização. A generalização da composição de uma abertura, abandona séculos de tentativa/erro que em vários casos convergiu num sistema de proteções facilmente graduáveis, que dão aos interiores uma qualidade de luz e sombra. Com exemplo na tradição mediterrânica, a arquitetura vernacular parece residir em claros exemplos de como todas estas condicionantes coexistem harmoniosamente: a persiana que gradua a entrada de calor e luz; os toldos orientáveis que se arrumavam por justaposição; postigos e cortinas, para o habitante manusear a luz sem ser visto. As fachadas estavam protegidas por um sem número de filtros que matizavam as relações com o exterior. Um conjunto de filtros que se podiam combinar para dar lugar a precisas condições de conforto que cada local e cada atividade poderiam ter na sua vivência. 32“Transparency is definitely one of our objectives.(…) We can do it with the means we have, with our materials, with our heating systems, with everything, but transparency also needs solidity. And not only for aesthetic reasonsbut also because total transparency leaves out such considerations as privacy, reflecting surfaces, transition from order to disorder, furnishings, a background for you, for your everyday life.” 2G nº17 Marcel Breuer: casas americanas, Gustavo Gilli:. 2001 Sun and Shadow, (pág 13) 1.3. PARÂMETROS PARA UM LEVANTAMENTO IMPRESSIVO Figura 13Casa de Jardim Nivola, Bernard Rudofsky, 1950 39 33 MOITA, Francisco - Energia Solar Passiva. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010 (pág 17) À semelhança de uma construção endógena, a arquitetura apenas toma um significado intrínseco ao lugar, quando a sua composição demonstra relativa atenção a certas condicionantes físicas. Estas condicionantes físicas são propriedades tanto do contexto territorial ou urbano, do edificado, do tipo de solo e dos materiais disponíveis. As condicionantes são dados que influenciam ou denunciam a qualidade de certa formas arquitetónicas. Analisar o princípio fundador de certas formas de adaptação climáticas vernaculares significa partir da análise destas características para reconhecer a adequada estrutura arquitetónica para um lugar. A distribuição da radiação solar sobre a superfície terrestre é um dado que considera a oscilação da intensidade de luz e calor recebidos por determinado lugar ao longo do tempo. O modo como a energia solar atinge a atmosfera terrestre sob a forma de ondas eletromagnéticas, varia de acordo com os movimentos de rotação da terra. Esta energia é emitida sob um valor constante, mas a intensidade com que atinge a superfície oscila consoante a inclinação do eixo da terra. Esta inclinação está em constante alteração pelo que são considerados certos pontos de referencia onde o ângulo dos raios atinge medidas extremas (equinócios e solstícios). O valor da inclinação do eixo terrestre em determinados momentos do ano permite determinar o intervalo quantitativo da intensidade da insolação projetada sobre as construções em determinado lugar e desenho produzido pela sombra própria dos volumes arquitetónicos.33 O fenómeno de rotação terrestre, movimento elíptico da terra em torno do sol e o eixo de rotação diário em relação ao plano de translação anual da terra, são três grandes fatores que condicionam a quantidade de energia constante irradiada pelo sol que atinge a superfície. No entanto a intensidade de radiação última, desvela-se de acordo com mais fatores. A atmosfera terrestre é a camada que se interpõe entre o construído e a radiação solar. A luz solar ao atravessar a atmosfera sofre uma diminuição na sua intensidade devido aos fenómenos de difusão, reflexão e absorção. Paralelamente as diferentes condições climáticas que se manifestam na atmosfera em certas regiões, são fatores condicionantes adjacentes. A variação destas condições tem por consequência diferentes formas de difusão e absorção da energia solar, criando-se diferentes qualidades luminosas, de acordo com percentagens de radiação direta e difusa. A altura solar determina a posição do sol na sua trajetória aparente em torno da terra e corresponde ao valor do ângulo formado entre o astro e a linha do horizonte. Este valor determina a inclinação com que os raios solares atingem uma fachada e trespassam os seus vãos. A altura solar corresponde a uma grandeza com grande influência no processo de manuseamento da luz na arquitetura. Nomeadamente no discernimento do desenho da altura e posição do vão, ou na criação de dispositivos de iluminação difusa e na determinação de sistemas de sombreamento dos vãos. A variação da altura solar ao longo do tempo, corresponde à formação de diferentes ângulos de incidência dos raios solares, o que origina dias de diferentes temperaturas ao longo do ano. A amplitude do ângulo da radiação solar com a superfície 1.3.1. RELATIVOS AO LUGAR de incidência condiciona a intensidade de energia irradiada; quanto mais próximo da perpendicular for ângulo maior será a intensidade de radiação. Quando o ângulo do sol é mais próximo da perpendicular à superfície terrestre mais intensa é a radiação, dando-se uma luz mais intensa, quanto menor for o ângulo de incidência dos raios, menor será a energia transmitida. A latitude é uma referencia inerente à posição dos lugares em zonas de maior ou menor exposição solar. A intensidade da radiação é um valor de variação constante subordinando à época do ano, à parte do dia, às condições atmosféricas, ao ângulo de incidência com a superfície e principalmente sujeito à latitude. Dependendo da latitude geográfica do lugar, o projeto lida com diferentes direções e alturas dos raios solares. A aproximação às características físicas do local é tão imperativa como a análise da atmosfera terrestre, para a conceção de sombreamentos. A topografia é um fator que influência decisivamente as condições microclimáticas. Para uma integração relativa da construção no meio circundante, é necessário o reconhecimento das relações que o terreno de implantação pode estabelecer com o edificado. De acordo com a altitude e declive do local, a construção irá ficar mais ou menos tempo exposta à radiação solar. Num terreno íngreme a pendente exposta a sul será mais insolada ao longo do dia, do que a pendente exposta a norte. Na observação da arquitetura de sentido vernacular é possível verificar a concentração da construção em locais protegidos do vento, com menor sombra e humidade, ou seja mais favoráveis em termos de fixação estratégica. A água também é um grande fator de influência topográfica, dado que a sua presença causa transformação micro climáticas. Devido à sua inércia térmica, grandes massas de água, reduzem amplitude da temperatura do ar ao longo do dia num determinado local, criando climas amenizados não obstante a sua latitude ou altitude, mas também determinam ventos mais fortes. A forma do edifício e dos elementos que o rodeiam são igualmente fatores que influenciam a produção de um ambiente luminoso. Quanto mais compacta for o edifício e mais reduzida for a superfície de contacto com o exterior, menor serão as perdas de calor e ganhos térmicos. Numa circunstância ambiental com exigências contrárias, volumes refratados, com reentrâncias e saliências permitem a projeção de sombras próprias sobre a forma, que protegem da radiação excessiva em ambientes de elevada insolação. O desenho do edifício constitui portanto um meio a partir do qual se pode apreender a quantidade de luz necessária e dissipar a sua presença excessiva. Esta condicionante vive em correlação com orientação da construção e da proximidade de outros edifícios envolventes. Na sua condição urbana, a insolação diária do edifício sujeita-se às proporções da malha urbana, à relação entre distância entre edifícios e altura dos mesmos, que causa a sobreposição de sombra. A orientação das fachadas conforme uma implantação estratégica do edifício é um princípio determinante no estudo da proteção solar. A orientação da própria abertura demanda diferentes tipos de proteção. Posteriormente à analise das trajetórias do sol, com recurso a cartas solares, para se 41 34 PARÍCIO, Ignácio - La protección solar. Barcelona: Bisagra, 1999 (pág. 24) determinar quando é possível evitar ou deixar passar o sol, determinar a forma de sombreamento ainda depende de mais um fator, a orientação. Uma abertura orientada a sul dependerá de uma proteção horizontal para controlar a entrada dos raios solares a norte terá de contar apenas com a radiação solar difusa, a Este e a Oeste a inclinação dos raios solares adquire valores tão baixos que apenas uma solução de sombreamento opaca ou com recurso a elementos verticais irá redirecionar a luz. A implantação mais favorável a um boa proteção solar das suas aberturas, implica que as fachadas com maior superfície se orientem a norte e sul. A vegetação é um elemento de extrema importância na regularização e equilíbrio das condições climáticas extremas, assim como o estabelecimento de relações micro climáticas. As características e as espécies de vegetação, o tipo e a densidade da folhagem, débito de evaporação e posição no terreno. A criação de sombra e amenização do clima é conformado por diferentes tipos de vegetação de acordo com a necessidade local. A vegetação de folhagem densa e persistente é apropriada para a construção de barreiras protetoras do vento. A vegetação de folhagem caduca é apropriada para a proteção solar de uma fachada. “(…)la protección ideal debe ser externa, ventilada, sin reflexiones, eficaz en verano e inexistente en inverno, barata y de escaso mantenimiento, la mejor sombra será proyectada por un elemento vegetal de hoja caduca suficientemente densa.”34 A composição do solo, ou das superfícies adjacentes a uma abertura, podem influenciar a qualidade da iluminação de um lugar de acordo com as suas propriedades de reflexão. A luz solar ao incidir sobre solos graníticos, será grande parte absorvida, não contribuindo estes para uma atmosfera luminosa. A incidência sobre solos calcários, cria um fenómeno de maior reflecção da luz, dando mais luminosidade ao ambiente. Compreende-se que o solo ou qualquer outra superfície adjacente a uma abertura, irá influenciar a perceção da quantidade e cor do processo de iluminação natural. A conceção da proteção deve ser encarada de forma holística e integrada, com vista à otimização da estratégia de proteção. 44TANIZAKI, Junichirõ - Elogio da Sombra. Japão: Relógio D’Água, 2008 (pág. 16) 45 TANIZAKI, Junichirõ - Elogio da Sombra. Japão: Relógio D’Água, 2008 (pág. 46) 46 PLUMMER, Henry - Light in Japonese Architecture. Japan: Architecture and Urbanism, 1995 (pág.55) difusos reflexos, cores suspensas ou difusas e sombras opalinas na composição do espaço. Porém a luz perfurante e delapidada que advêm de uma superfície transparente, não têm o mesmo valor que uma que perfura um material translúcido. Junichiro Tanikazi, na sua narrativa sobre a residência própria do estilo japonês, refere a importância da utilização exímia dos “shoji” na composição de uma simplicidade e depuração espacial intrínseca aos princípios da sua cultura. Na cultura japonesa, estes painéis de tabique móveis forrados por um espesso e translúcido papel branco criam um jogo de luzes indiretas que causam uma variação de sombras, alvuras e penumbras. O “shoji” é um dispositivo destinado à redução da luz a um nível desejado, filtrando-a através do papel, criando uma luz pálida e fria.44 A superfície do papel permanece iluminada mas não ofuscada dado que a claridade é atenuada pela sua composição material. Paralelamente a opacidade do material tem o intuito de deixar passar a luz, mas não permitir a visão do exterior, apelado aos restantes sentidos do habitante para interpretar a natureza. “Como se os raios de sol vindos com dificuldade do jardim até ali, após terem deslizado sob o beiral e atravessado a varanda tivessem perdido a força de iluminar, como se houvessem ficado anémicos ao ponto de não terem outro poder para além do de sublinhar a brancura do papel dos shõji.”45 A qualidade luminosa que a transparência do papel produz não pode ser igualmente concretizada pelo vidro, porque as propriedades translúcidas da profundidade fibrosa do material constroem um tipo de iluminação difusa e controlada que anula as oscilações do clima, subjugado a força dos raios luminosos quando estes penetram o interior, dispersando-os rapidamente no espaço. A permeabilidade é uma característica do dispositivo de proteção solar, própria não tanto de uma necessidade de iluminação como de ventilação. Esta propriedade advém da intenção de construção de um plano de proteção solar perfurado, que nasce da composição de uma malha mais ou menos densa conforme o tipo do material modelado e desenho da sua trama. O modo como o material é aparelhado para formar uma superfície, o espaço entre as suas ligações e juntas, determina a capacidade do plano de ventilar e dispersar a radiação solar. “The obscured outlines and textures become soft to the eye, losing resolution, making objects less clear and less solid. Colors are faded, and brightness and contrast reduces, emptying the outer landscape, flattening the distance between things.”46 Subjacente ao ato primário de difusão da luz, a permeabilidade dos dispositivos estabelece uma conjuntura ambígua e introspetiva. Em pleno dia o observador consegue desde o interior desvelar o exterior sem ser visto, mas a imagem é percolada; do exterior a superfície perfurada torna-se 49 47 RASMUSSEN, Steen Eiler - Viver a <a - Scarpa : la arquitectura en el detalle. Barcelona: Gustavo Gili, 1989 (pág.52) percetualmente opaca, uma textura sobre um fundo preto, criada pelo brilho e contraste da luz e o individuo que passa não tem conhecimento da esfera privada, entre o dia e a noite esta relação invertese. Delicadas filigranas e tramas ritmadas materializam-se em grande parte no cenário luminoso fragmentado da arquitetura vernácula japonesa e norte africana na forma de gelosias e rotulados. A textura e o acabamento do material de composição do dispositivo solar dita a forma como este dispersa a luz ou a propaga para o interior. A qualidade de textura pode deparar-se com duas tendências de composição: uma vertente rudimentar do próprio material ainda pouco trabalhado ou uma vertente polida e uniforme que esconde a estrutura do material. A perceção visual é fortemente afetada por pequenas diferenças no carácter textural dos objetos, o sistema visual apura o delapidar de uma textura firme e nobre e um acabamento rude, pelo padrão das discrepâncias de luminância e pelo tato. A textura informa sobre as falhas, a firmeza e carácter do material. Desta forma materiais com qualidades texturais pobres ganham com a sua aplicação com relevo acentuado enquanto materiais mais nobres podem sustentar uma superfície polida e uniforme e portanto podem ser empregues sem relevo ou ornamento. 47 A noção de materialidade da superfície depende inteiramente do modo como o material é tratado, e está subordinada à espécie de textura que este possui. Observando o exemplo de uma superfície de pedra extremamente polida pelo desgaste do tempo, a sua materialidade torna-se bem definida e agradável ao tato pelo seu uso. O polir de uma pedra torna a sua superfície mais brilhante e no entanto mais imprecisa, dado que em secção, a face externa subdivide-se em duas camadas: uma camada exterior refletora e uma camada interior opaca. Quando a luz atinge a superfície exterior semelhante ao vidro, na qual penetra maior parte da luz que a trespassa até ser sustentada pelas partículas que formam uma camada mais irregular consubstanciada. Este efeito manifesta-se igualmente em superfícies de madeira polidas. Face ao desgaste a madeira evidência outras alterações, quando exposta à força do tempo, a textura do material destaca-se, os seus veios ficam mais profundos, o padrão do seu relevo torna-se mais discernível e a sua cor altera-se. A consideração do tipo de material e correspondente textura é um dado fundamental para a aplicabilidade de uma solução de proteção porque irá definir a compreensão percetual da mesma e a sua capacidade de reflecção da luz. “relaciones entre diferentes grados de granulometría en un revocado, la proximidad de lo rugoso y lo terso, un material extraño que se insinúa por contraste, alternancias cromáticas, imperceptibles variaciones de tono en una misma piedra. “48 O acabamento de uma superfície faz normalmente parte de uma intenção de reforço ou proteção dos materiais. A lacagem e a pintura podem porém gerar uma camada que inusitadamente confere Figura 16Detalhe de uma porta no Banco Popular de Verona, Carlo Scarpa, 1973 51 outras características à superfície. Quando a condição natural de um material não responde aos parâmetros de aplicabilidade ou não causa o efeito lumínico desejado, o revestimento irá transformar a perceção aprazível e o seu desempenho, para que o próprio dispositivo seja otimizado em função da proteção solar. O conjunto de parâmetros referidos representam as principais premissas a ter em conta durante o processo de conceção de um dispositivo que manipula a luz de um lugar. Por outro lado, nestas condições figuram sinais de referência para a interpretação e compreensão analítica das construções que manipulam a luz solar. Estes elementos constituem uma base fundamentada, a partir da qual se irá conduzir a análise das lições da arquitetura vernacular. A herança vernacular representa uma grande fonte de conhecimento que têm potencial significativo para definir os princípios para o design contemporâneo, a partir da qual se pode aferir princípios sistematizados sobre a integração adequada de formas de controlo da luz de um lugar. 2 A ARQUITETURA VERNACULAR PORTUGUESA 53 Figura 17Mercado de Nova Gourna, Egipto, Hassan Fathy, 1945 55 49 LEAL, Joana, MAIA, Maria & CARDOSO, Alexandra - TO AND FRO: Modernism and the Vernacular Architecture. Porto: CEAA, 2013 (pág. 16) O tema da arquitetura vernacular tem sido debatido ao longo do tempo por inúmeros autores de diferentes áreas disciplinares, com diferentes enfoques e objetivos. Num contexto internacional, o interesse pela arquitetura vernacular e o dado reconhecimento surge em paralelo com a emergente corrente modernista, no início do século XX. Dado que a perceção arquitetónica do vernacular no passado presidia numa ideia pinturesca ou mesmo paradisíaca das suas características, até um reconhecimento condescendente das virtudes do “primitivo”. Em termos de valor artístico, esta arquitetura, aos olhos da investigação historicista não apresenta casos de excecional interesse devido à sua índole vulgar, no entanto estas construções comuns informam precisamente sobre a cultura e tradição do lugar onde o ser humano experiencia a sua vida mais intimamenteo fogo. A modernidade vê na arquitetura anónima este potencial de expressão na sua materialidade e configuração, a essência cultural e identitária de diferentes povos e culturas. A plasticidade formal depurada dos volumes vernaculares, presentes na singularidade Mediterrânica, alicia a modernidade a estabelecer postulados. Esta arquitetura comunitária correspondia ao princípio da “verdade material”, às implicações do axioma em que “a forma deve seguir a função”. “This is pure and clean architecture, free of indulgent design. Buildings that respond to technical necessities and whose last mean is to serve and to become function.”49 A investigação no campo da arquitetura vernácula, desenvolve-se a partir desta busca de princípios irrefutáveis para uma nova arquitetura. Neste clima de reforma estilística, o modernismo acha nas formas vernáculas ensinamentos mais verdadeiros e preciosos daqueles que encontra na arquitetura academicista. Desta forma formula-se a questão sobre o que é se pode apreender com a arquitetura vernacular. Listar as características vernaculares de forma a racionalizar o reconhecimento e estudo de uma forma tornou-se uma prática comum. A documentação detalhada de uma específica tradição local, e a classificação da sua tipologia, isto tudo ocorria mais frequentemente sob a forma de um inquérito com uma metodologia assente na recolha de secções e elevações e outros registos impressivos. No entanto, esta aproximação suprime a compreensão da arquitetura vernacular como um produto da interação do homem com o seu ambiente, sendo que os verdadeiros critérios de avaliação destes casos são a expressão do local e do clima, a expressão da forma e da função e a expressão dos materiais e das técnicas. Sybil Moholy-Nagy, no seu estudo de 1957 “Génios Nativos na Arquitetura Anónima”, contesta estes métodos de análise em prol de uma aproximação antropológica e cultural ao estudo da arquitetura vernacular. Um dos principais projetos de interpretação do conhecimento vernacular, em prol de um nova arquitetura influenciada pela tradição, é representada pela experiência do Egipto rural de Hassan Fathy. O seu particular interesse pelos assentamentos núbios e pela tecnologia das abóbadas em adobe, e o 2.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO DA ARQUITETURA VERNACULAR Figura 18Cidade Subterrânea, Assentamento perto de Tungkwan, in Architecture Without Architects, 1964 57 50OLIVER, Paul - Dwellings: The Vernacular House World Wide. Phaidon Press Limited: London, 2003 (pág. 51TEIXEIRA, Mário - Arquitecturas do Granito. Arcos de Valdevez: Municipio de Arcos de Valdevez, 2013 (pág. 8) 52BASTO, E. A. Lima & BARROS, Henrique de - Inquérito à Habitação Rural Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa 1942 (pág. 2) 53Sindicato Nacional dos ArquitectosArquitectura Popular em Portugal. Lisboa: Sindicatos Nacional dos Arquitectos, 1961 (pág.10) ímpeto respeito pela preservação da cultura construtiva islâmica que lentamente ia sendo substituída, levou à condução de um estilo edificatório, sob princípios estritamente vernaculares. Em 1946 o assentamento urbano de Nova Gurna constitui um artefacto onde este demonstra a sua pesquisa sobre como a arquitetura islâmica serve os problemas climáticos, numa união da função, estética e cultura. “the result of the human environment interaction constitutes culture, and has lead to the development of a multitude of cultures by different people in different environments. Vernacular architecture is one of the most concrete manifestation of this interaction.”50 Em 1964, Bernard Rudofsky realiza a itinerante exposição “Architecture Without Architects”, onde este apresenta uma profunda relação fotográfica da arquitetura vernacular mediterrânica, apoiado por Walter Gropius, José Luis Sert, Richard Neutra, Richard Neutra, Gio Ponti e Kenzo Tange. O seu interesse pelas formas anónimas, especialmente a arquitetura marcada por uma forte componente local, adaptada ao clima e ao lugar, culmina numa nova maneira de olhar para a tradição. De um ponto de vista estético a arquitetura vernacular correspondia a algo quase imutável, não era influenciada pelos estilos das épocas, porque a sua forma serve o seu propósito até à perfeição. Em Portugal, o estudo da esfera vernacular foi explorada ,entre outros, por Martins Sarmento, em termos arqueológicos, Leite Vasconcelos e Veiga de Oliveira, em termos etnográficos, Amorim Girão e Orlando Ribeiro em termos geográficos e Raul Lino e Fernando Távora, Pedro de Almeida e Keil de Amaral em termos arquitetónicos.51 Sendo que entre os principais estudos conduzidos sobre esta matéria, destaca-se o Inquérito à Habitação Rural, em 1943, coordenado por Lima Bastos e Afonso de Barros, onde a pesquisa se debruça sobre as condições básicas de saneamento nas habitações populares, tendo “por fim conhecer as condições do alojamento das famílias dos trabalhadores e dos pequenos agricultores nas diversas regiões de Portugal e determinar como se deve melhorar a habitação rural”.52 O Inquérito à arquitetura Popular Portuguesa, realizado em 1960, foi conduzido pelo Sindicato Nacional dos Arquitetos sob a presidência de Keil do Amaral, cujo objetivo se materializou na épica tarefa de registo documental. Por vontade de uma afirmação cultural do Estado Novo, foi conduzido um “estudo objetivo e sistemático da Arquitetura Popular Portuguesa uma espécie de “investigação sistemática dos elementos arquitetónicos tradicionais nas diversas regiões do país”53. Esta investigação previa a valorização da arquitetura portuguesa, reconhecendo o carácter evolutivo das formas que resultavam de condicionalismos peculiares do clima, dos materiais de construção, dos costumes e das condições de vida. Figura 22Carta dos Materias Endógenos Predominantes 0 100 km Xisto Calcário, Arenitos Argilas Granito 65 2.2.3. O SOLO 58 MENÉRES, António - Arquitecturas Populares : Memórias do Tempo e do Património Construído. Arcos de Valdevez: Município de Arcos de Valdevez, 2013 (pág. 11) 59AMORIM GIRÂO, Aristides de - Esboço duma Carta Regional de Portugal. Coimbra: Imprensa de Universidade de Coimbra, 1933 (pág. 10) “A constituição do solo, passando dos terrenos argilosos do Sul, aos graníticos do Norte, condiciona o uso dos materiais disponíveis para as construções necessárias à vida das suas populações, dando ao homem de hoje uma lição magnífica da criatividade e da adaptação do ser humano ao meio ambiente que serve a sua existência.”58 A sul os relevos calcários secos e desgarrados, onde o gado e a queimada, assoreiam o solo, marcam nas regiões onde se levantam um traço de uma inconfundível meridionalidade. Na bacia do Tejo concentram-se rochas calcárias e argilas. A Estremadura e o Ribatejo a natureza do solo e as particularidades da vegetação fazem surgir uma série de ambientes distintos que retalham a paisagem, como areais, planícies e arribas. Na Beira Interior, toda a raia alentejana é rica em sedimentos xísticos e mármores. Como não é tão própria a construção em alvenaria de pedra, nesta região é dominante o emprego da taipa, do tijolo e da cal. A composição dos solos no Baixo e Alto Alentejo influência a construção do edificado. A pedra é recurso comum a todo o Alentejo, o granito, o xisto e o calcário são utilizados como reforço de paredes de adobe, no revestimento de fachadas e na construção das fundações naturais de paredes de taipa e tijolo. A zona do Algarve, Litoral e Baixo Alentejo apresenta em constituição geológica também muito variada, que condiciona os materiais de construção. O interior é fragmentado por machas de sedimentos vulcânicos, intercalada por terrenos xísticos, enquanto o litoral é composto por afloramentos calcários, arenitos, grés, margas e areias. Em termos construtivos a presença de terrenos calcários e argilosos resulta na manufatura da cal e materiais cerâmicos, como revestimento, ornamento e na criação de rebocos e argamassas. Porém o calcário não só é transformado como constitui um guarnecimento dos vãos e na pavimentação das construções. Apesar da presença do xisto e calcário nestas regiões, a arquitetura vernacular opta mais pelo emprego fácil da taipa e de elementos cerâmicos na construção de estruturas portantes como abóbadas. A norte, predomina na região do Douro montanhosos afloramentos graníticos, tal como nas restantes zonas de relevo acidentado. Na zona do Minho, Douro Litoral e Beira Litoral a permeabilidade dos solos graníticos e o denso revestimento vegetal cria consequentemente uma profusão de nascentes naturais. A faixa dominante granítica, é intercetada por um segmento xistoso, no sentido norte-sul que acompanha as serras antes destas atingirem a planície. Na faixa litoral no entanto, surgem a partir de Espinho, terrenos de formação sedimentar, como depósitos de argilas, na zona da ria de Aveiro. No entanto várias faixas do território de influência atlântica apresentam como material predominante o xisto. A região das Beira Interior e Trás-os-Montes no que diz respeito à geologia é dominada na paisagem por este material. Na região da Beira Alta que se esconde a norte da Serra da Estrela, de terrenos acidentados e amorfos, predominam os solos com propriedades graníticas, propícios ao cultivo de cereais como o centeio, mas esta continuidade é interrompida a Leste, onde se estende uma zona de terrenos xistosos, nos quais desponta a vinha, a oliveira e a amendoeira.59 O inquérito à arquitetura popular considera esta região, pelas suas características climáticas, económicas e topográficas com um carácter de transição, entre a condição mediterrânica e atlântica. Figura 23Carta da distribuição dos Cultivos Centeio Milho Trigo 0 100 km 67 2.2.4. A CULTURA E OS MODOS DE VIDA 60 RIBEIRO, Orlando - Portugal : o Mediterrâneo e o Atlântico. Lisboa: Coimbra Editora, 1993 (pág.92) 61 Sindicato Nacional dos ArquitectosArquitectura Popular em Portugal. Lisboa: Sindicatos Nacional dos Arquitectos, 1961 (4ºedição 2ºvol.) (pág. 17) A principal fonte de subsistência relacionada com a arquitetura vernacular seria a atividade rural , como Orlando Ribeiro defende, a agricultura era o aspeto dominante da economia e vida portuguesa.60 Esta atividade que tomou diferentes rumos, condicionada pelo clima e pelas propriedades do solo, originou diferentes formas de exploração e divisão do território, tais como diferentes dependências agrícolas. A transformação rural é a honesta demonstração da relação do homem com o lugar. Os traços essenciais da agricultura portuguesa são fruto da influência mediterrânea, no predomínio dos cereais, em particular o milho e o trigo, a importância das culturas arbóreas, das formas de irrigação e do regime de propriedade. O campo, como unidade de produção agrícola destinada à germinação do cereal, é que imprime um traço vigoroso na paisagem agrícola. Como o pão, o vinho e o azeite são as bases da alimentação mediterrânica, a cultura do milho, trigo e centeio acompanha por toda a parte as instalações humanas, no vale, na planície, na encosta ou na montanha. “um Norte populoso, policultivado e de propriedade dividida, que se opõe a um Sul parco de gentes, monocultivado e latifundiário”.61 A organização comunitária dos campos nasce de um duplo regime de propriedade que exime a estrema fragmentação minifundiária ou a tendência de grandes propriedades latifundiárias, duas escalas de cultivo que oscilam entre uma forma de subsistência e uma exploração extensiva com objetivos comerciais. No noroeste português, onde o território é rico em água, nasce um tipo especial de campo-prado, que no Inverno dá pastagem e no Verão adapta-se à exploração pré-existente do milho. A divisão da propriedade e o tipo de exploração desenvolveu-se a partir transformação do território agreste, em áreas cultiváveis, pelo domínio romano, substituindo a fruição comunitária da terra castreja em unidades agrárias bem definidas, que se fracionam interiormente em parcelas. É característica a pequena exploração com um parcelamento minifundiário dependente do espaço cravado na topografia. Os territórios para lá da faixa montanhosa permanecem impávidos a estas transformações, a propriedade divide-se mas a exploração permanece coletiva. No território de influência mediterrânica, incluindo a zona transmontana, os cereais de sequeiro desenvolvem-se num tipo de campo vasto, quase sem limites devido ao relevo pouco acentuado. O trigo e centeio germinam em grandes propriedades de campos abertos, sujeitos ao afolhamento e à decorrente economia pastoril. A cultura toma uma feição extensiva, sendo que no Inverno o solo é regenerado pelo pousio, portanto a propriedade é dividida em parcelas para que haja uma alternância de culturas. À face destas circunstâncias a forma mais comum de divisão do território é o grande latifúndio, que também remota à época romana. Na terra vasta e uniforme, talharam os primeiros comandos régios o limite das enormes propriedades doadas a ordem militares para exploração, até aos contratos 62 RIBEIRO, Orlando - Portugal : o Mediterrâneo e o Atlântico. Lisboa: Coimbra Editora, 1993 (pág. 65) de aforamento. O absentismo, o baixo rendimento e as discrepâncias sociais, são consequências de um tipo de propriedade imperfeita, revogada pela implantação da policultura regada que veio instalar um parcelamento menor devido à necessidade de implantação de sistemas de rega. No sentido comunitário, as coletividades que se mantiveram num isolamento persistente desenvolveram uma relação de interdependência e visão partilhada dos processos agrícolas. Enquanto as áreas de densa população, ou de povoamento disseminado, de intensiva exploração, a regra do individualismo senhorial afirma-se. A comunidade rural que se junta na pequena aldeia isolada, que agrupa as explorações dos campos, corresponde em certa medida à feitoria das grandes produções no Sul. A diferença é que a aldeia produz para se alimentar e o grande proprietário para vender.62 O regime das culturas de regadio e sequeiro relaciona-se com a humidade do solo. Os cereais que são semeados no Inverno com as primeiras chuvas, colhidos na interrupção das primeiras altas temperaturas, correspondem às culturas de sequeiro, onde o homem está à completa mercê do clima. As culturas maiores que não dispensam a manipulação artificial da água abrangem-se sob denominação de lavras de regadio. A rega artificial destina-se a intensificar a produção ou a compensar o próprio clima. No norte Atlântico é recorrente a rega de abundância que favorece a produção ininterrupta do milho. O milho de regadio aloja-se em socalcos e que quebram os maiores declives, nas encostas, no fundo de vales e na marginal dos cursos de água. Em termos de outras culturas nesta região coexistem o centeio, que se torna abundante nas regiões montanhosas e escarpadas, o trigo, nas regiões mais húmidas, e o arroz, nas planícies inundáveis das bacias do Mondego e do Vouga. Na zona da raia transmontana o homem imprime sobre a terra três grandes manchas de cultivo onde predomina o centeio: a policultura de regadio de encontro com o Vale do Douro, a cultura de montanha e de sequeiro. Noutro momento, a cultura na Beira Alta sofre grande dificuldade na exploração da terra. As diminutas propriedades, de escala familiar moldam-se sob métodos primitivos à policultura de regadio e ao centeio e milho em sequeiro. Na Beira Baixa as condições modificam-se, a exploração agrícola adquire extensões maiores, aproximando-se ao sistema latifundiário do sul. No sul o regadio supre as carências do terreno, relacionado no clima mediterrânico aos arrozais, pomares e hortas. No interior da Estremadura e no limiar do Alentejo as áreas de exploração agrícola estão ligadas às formas de assentamento da população, apresenta-se uma diversidade de culturas, caracterizada numa imagem de parcelas coloridas que desvanecem de encontro ao litoral. Na Estremadura a área do milho estende-se do norte do país e mistura-se com a cultura do trigo de carácter mediterrânico. A norte do Tejo, a policultura de regadio exige um cuidado vigiado, dando-se uma comunhão entre a terra e o Homem. A sul, na mais pequena réstia de terra plana, ou em grandes extensões de lavoura pratica-se a monocultura do trigo e do arroz. No caso do Alentejo, a agricultura têm um papel fulcral na construção da vida quotidiana, dado que dá emprego às grandes massas. Nesta zona domina a grande propriedade em regime de produção extensiva de cultura de sequeiro, como o trigo, a cevada, a aveia e o centeio. Por fim, na zona de encontro com o Mediterrâneo, em 69 63 MENÉRES, António - Arquitecturas Populares : Memórias do Tempo e do Património Construído. Arcos de Valdevez: Município de Arcos de Valdevez, 2013 (pág. 64 RIBEIRO, Orlando - Portugal : o Mediterrâneo e o Atlântico. Lisboa: Coimbra Editora, 1993 (pág.55) detrimento da topografia e de recursos naturais alternativos, a atividade agrícola é um instrumento da economia familiar, praticada em pequena escala, onde predominam os cereais de sequeiro, pomares regados e as hortas. A toda esta riqueza de ambientes formados pelo conjunto de condicionantes do território português corresponde uma vasta experiência de arquiteturas produzidas no mundo rural. A mais do que um modo de vida a arquitetura refletia uma forma de civilização que transmitia a complexa estrutura das suas ações na harmoniosa conceção do seu espaço.63 No mundo rural vernacular, as características naturais de uma economia de subsistência, por oposição a uma economia de mercado, condicionam o perfil das formas arquitetónicas que são a expressão do trabalho e dos modos de vida de encontro à paisagem. A paisagem portuguesa resume-se a uma dualidade geográfica numa preposição muito concisa, “Portugal é mediterrânico por natureza, atlântico por oposição.”64 Por consequente a arquitetura vernacular também vive esta dualidade, no entanto a sua formalização construtiva encontra-se de tal forma diversificada para que a sua multiplicidade se encaixe dentro destes parâmetros. Observar uma tipologia formal, que abrange uma mesma atividade ou função, é um modo de analisar como se desenvolvem as características formais da arquitetura vernacular intercede a natureza, e constitui uma forma de desvelar o impacto das circunstâncias locais na composição construtiva. Figura 24Edificio de Proteção dos Achados Arqueológicos do assentamento medieval de GutenWerth, Oton Jugovec, Eslovénia 71 65 Sindicato Nacional dos ArquitectosArquitectura Popular em Portugal. Lisboa: Sindicatos Nacional dos Arquitectos, 1961 O processo de construção da arquitetura vernacular não é intrinsecamente intuitivo. O desenho de um modelo transmitido pelo saber tradicional sofre adaptações de acordo com as diferentes necessidades, gerando diversas soluções. A mesma estrutura pode adaptar-se a situações díspares, o que a molda é a sua forma de aproximação ao lugar. A forma de um elemento vernacular assemelha-se a um padrão em constante mutação. O seu desenho é ditado pelas circunstâncias prevalentes, como o clima e a relação com o seu ambiente. Reconhece-se o potencial teórico e crítico das formas de expressão da arquitetura vernacular face ao clima do lugar, numa investigação tipológica sobre os dispositivos de sombreamento, iluminação e ventilação presentes na arquitetura vernacular portuguesa. A inclemência ou a amenidade da luz solar, a frequência das chuvas ou a aspereza das brisas são fenómenos que o homem observa de forma a construir. Como o clima define inexoravelmente as condições de vida e as atividades laborais humanas, é determinante examinar as características formais com que a arquitetura vernacular filtra os ambientes naturais. Recorrendo ao material exposto pelo Inquérito à Arquitetura Regional de 196065, desenvolve-se um apuramento e leitura crítica das formas vernaculares que estabelecem relações próprias com o ambiente no campo da iluminação e sombreamento. Esta seleção constitui o ponto de partida de sistematização das construções relacionadas com diferentes unidades de paisagem, entre as quais se compreendem as arquiteturas do milho e do trigo. As formas são analisadas ao nível das estratégias de implantação, elementos e dispositivos arquitetónicos, quer em relação ao espaço arquitetónico que moldam e definem. A resposta que o vernacular transmite a uma qualidade de luz em cada caso enfrentada. Na forma de selar vão contra o clima, surgem inúmeros tipos de soluções que funcionam de maneira completamente diferente, de acordo com hostilidade do seu lugar natural. Desta forma procede-se à sistematização deste material segundo três parâmetros: formas da implantação (configuração da planta e orientação), elementos arquitetónicos e dispositivos construtivos. 2.3. FORMAS VERNACULARES EM DIÁLOGO COM AS CARATERÍSTICAS DO LUGAR Figura 25- (da esq. para a dirt.) a) Panorama do Povoado de Ponte de Lima b) Panorâmica do Povoado de Vale da Figueira, Golegã c) Casa rural de Travassos, Lindoso d) Casa rural de Melinde, Alcanena 73 Relacionadas com a configuração planimétrica do edifício e sua estratégia de disposição no território, as formas de implantação afirmam-se como princípios de subterfúgio às condições ambientais e aos recursos naturais. Desenho Urbano A primeira forma de adaptação da arquitetura ao clima está relacionada com o desenho urbano e a orientação do edifício. O espaçamento dado entre os edifícios e a forma como estes se ajustam à topografia, informa sobre os cuidados exibidos para a amenização da natureza. O homem escolhe a orientação mais conveniente para a sua casa. No norte o povoado assim formado é pequeno: um dúzia de casas de habitação, a venda, a escola, a igreja, as ruas com um ou outro larguinho e as terras em torno. Nestas ou naquelas encostas, onde existe água e o solo é propicio à construção de leiras , se estabelece o ser humano. Erguendo represas e socalcos, porque os lugares são acanhados e rodeados de acidentes topográficos, as casas aproximam-se ou afastam-se, e constroem-se consoante as contingências do território. A composição urbana oscila entre o povoamento disperso e o povoamento concentrado. A figura 25 a) representa a configuração de um pequeno povoado de Ponte de Lima que se expande e comprime segundo recortes da topografia. O desenho urbano nas regiões de influência mediterrânica tende a ser mais compacto, fornecendo mais sombra projetada entre edifícios, minimizando a incidência do calor nas habitações. Ruas estreitas armazenam o ar fresco da noite, para que o dia seja mais ameno. No exemplo do povoado de Vale da Figueira, em plena Lezíria, o desenho urbano concentra o seu edificado em torno um terreiro, e pouco se expande pelos campos circundantes. Volumetria/Orientação Falar da volumetria significa falar sobre o desenho compacto ou partido das formas vernaculares. A casa nortenha é por norma uma construção de planta retangular de aspeto maciço, com dois pisos: o superior sobrado para a habitação e o inferior para as lojas de animais e armazenamento de produtos agrícolas, subindo-se ao primeiro andar através de uma escada exterior de pedra que dá acesso a uma varanda que distribuía para as restantes divisões. A casa de Travassos, da figura 25 c), é um exemplar que segue o esquema de uma varanda se dispõe na fachada mais extensa e com maior exposição solar e protegida do vento. A construção de dois pisos é também justificada pela questão do clima, afastando a habitação da humidade do solo aproveitava-se o calor das lojas como aquecimento dos compartimentos da habitação. “No Ribatejo, as habitações, construídas de tijolo, tufo e adobe, desenvolvem-se num único piso, segundo um esquema muito simplesdivisões em sucessão e comunicando entre siimplicando as características de um retângulo alongado.” A volumetria compreendida na parte mediterrânica, abre os vãos em número e nos locais que entende por mais convenientes, deixando as fachadas mais expostas pelo sol e vento, quase sem aberturas. Porém a casa de um piso parece justificar-se nesta região pelos 2.3.1. FORMAS DE IMPLANTAÇÃO Figura 29- (da esq. para a dirt.)a) Casa com gelosia, Guimarães b) Casa com gelosia, Beja c) Rotulados sobre vão, Braga d) Rótula sobre janela, Faro 81 70 Á semelhança da gelosia o rotulado constitui uma forma de substituição da caixilharia de uma janela, por páineis fixos ou móveis, compostos por pequenas estruturas de ripas de madeira sobrepostas diagonalmente ou perpendicularmente, são elementos adjacentes à superfície do vão. OLIVER, Paul -The Encyclopedia of Vernacular World.Cambridge: U.P,1997 (pág. 450) 71 Intimamente ligada à cultura islâmica a gelosia “é um tipo de janela em consola, aberta na parede onde se fixa uma proteção de madeira rendilhada que peneira e adoça a luz(...) FATHY, Hassan - Arquitetura para os pobres: uma experiência no Egipto rural, Lisboa: Argumentum, 2009 (pág. 85) De ordem efémera, residem os dispositivos construtivos que demonstram a relação da arquitetura vernacular com o clima. Pois a sua composição não abrange uma função estrutural, mas associa-se a uma forma de complementar o vão tradicional. Estes elementos das construções vernaculares, por vezes prevalecem como influências externas à própria cultura. O rotulado Os rotulados70 são por norma empregues na proteção posterior dos vãos de janela ou nos postigos das portas, em muitos casos difundidos na zona mediterrânica, em contexto urbano. São elementos de defesa da intimidade da habitação, e são frequentes localizarem-se nos pisos inferiores, pois permitem durante os estios secos e quentes a ventilação do interior pela sua superfície perfurada. Em Tavira encontramos este exemplar na mais pura forma de encaixe no vão, com a mesma articulação que uma janela de guilhotina. Nesta região, não só predomina a sua utilização em janelas como também em portas de batente, em bandeiras e guardas. A sua aplicação muito vezes é feita em detrimento de uma vontade estética e de gestão da luminosidade. Num contexto completamente oposto, na cidade de Braga, denota-se a presença de uma casa urbana burguesa onde toda a fachada, é revestida por um padrão de rotulas, pivotantes, que dissimula a divisão do número de pisos do lote. Uma extraordinária estrutura de tabique, que se aproxima da gelosia. A fachada forma molduras para o apoio de inúmeros painéis de madeiras, atrás dos quais as janelas se escondem do exterior. Entre os dois ambíguos contextos o dispositivo não parece sofrer grandes alterações na sua composição, apenas na forma como é aplicada. No Norte a sua utilização não se relaciona com ambiente, relaciona-se com uma moda, uma influência cultural, nos séculos XVII e XVIII, das ordens religiosas que revestiam as janelas dos conventos, uma forma empolada de grandes gestos arquitetónicos. A gelosia A peça de arquitetura isolada que leva um habitante a defender-se da aspereza própria do clima, com recurso a um simples e belo elemento construtivo como a gelosia71. Esta forma volumétrica aparece mais restritamente em situação urbanas onde a sua disseminação fazia parte de uma vertente erudita. Desde a cidade de Guimarães, onde ainda se encontra um exemplar de grandes dimensões que ocupa toda a superfície da fachada do piso superior, a gelosia constitui um complexo conjunto de paneis de madeira pivotantes, sendo um espaço habitável do próprio fogo. Em Beja, a peça de madeira, que constitui a gelosia, ajusta-se escultoricamente apenas às dimensões do vão que protege. Neste caso, as suas proporções não permitem a circulação dentro da mesma, a sua profundida é relativamente pouca, em comparação com o original. Na mesma condição que os rotulados, as gelosias perduram pelo território como influências de cariz estético, subjacentes a uma ideia de clausura e conforto habitacional. 2.3.3. DISPOSITIVOS CONSTRUTIVOS Figura 30- (da esq. para a dirt.)a) Grelha em granito de espigueiro, Lindoso b) Grelha de madeira em porta, Óbidos c) Portada em Madeira, Vila Real d) Postigo em Madeira, Silves 83 Grelhas O emprego generalizado do tijolo em todo o Ribatejo e Estremadura, faz de certa forma surgir em programas de funções particulares, como fábricas, celeiros, fornos, lagares e adegas o aparecimento de vedações e paredes perfuradas na forma de grelhas, que tiram partido dos cheios e vazios e dos claros e escuros para servir de sombra e ventilação dos espaços. A produção de elementos cerâmicos, conduzida por uma escassez de alvenaria em certas zonas do sul, generalizou uma aplicação modular abrangente sobre a construção de planos de parede em edifícios vernaculares onde é benéfica a ventilação cruzada. Em palheiros da zona da Estremadura encontra-se exemplos de aplicação do tijolo em construção de adobe e taipa de forma a organizarem pequenas perfurações nos muros que descuram aberturas, para arejarem controladamente as culturas armazenadas. Na construção dos lugares de secagem do próprio material, como na fábrica de cerâmica situada na Asseiceira, onde uma estrutura na forma de pórtico, de dois pisos, na qual o espaço entre pilares é preenchido por uma trama de alvenaria. Nas zonas de influência atlântica, a pedra é um material transformado de forma a criar estes elementos característicos em construções específicas. Frestas compostas por grandes lâminas de granito ressurgem das construções no extremo dos limites nacionais, dos espigueiros de Lindoso. Uma aplicação decerto mais nobre e perene do que nas terras menos interiores. Na casa de lavoura, a casa da eira ou sequeiro, admite que um dos seus planos ininterruptos seja composto por uma parede permeável, composta por um ritmo contínuo de prumos verticais, em contraposição à fachada de pilastras exposto ao sol. As portadas e postigos A portados e postigos são dispositivos arquitetónicos que suportam o desempenho da janelas da habitação vernacular. Em certos momentos de escassez do material transparente para a formação de caixilharias, as portadas agiam como separador do clima. As portadas interiores jogam com dobradiças de ferro cravadas nas ombreiras de granito das janelas que lhes permitem girar sobre gonzos. A espessura da parede intervém no ajuste deste elemento ao vão. Em situações mais isoladas, e com menos recursos, quer as janelas quer as portas de madeira são somente cobertas por portadas ou postigos, sendo o vidro uma raridade. Este traço é evidente em certas povoações de índole mediterrânica, como por exemplo Silves e Beja, onde a ventilação é benéfica, mas a insolação provocada pelo vidro é dispensável. Como forma de iluminação do interior fresco encerrado pelas portadas, desenhamse pequenos painéis, escavados nesse elemento, que permitem uma entrada controlada da luz. Em províncias no interior do território permanece uma expressão rude e arcaica deste dispositivo, com demarcações da pobreza de meios da região de Idanha-a-Nova e Giões, servindo estes apenas para isolar o fogo. Figura 31Sequeiro com sistema de empanadas basculantes, Ponte do Porto, Amares, 1955 85 As empanadas/painéis Em locais húmidos, com grande pluviosidade, o sequeiro é um abrigo indispensável à recolha e exposição dos cereais ao sol. As aberturas destas estruturas de granito, que em caso de mau tempo necessitam de ser encerradas rapidamente, pelo que estas são preenchidas por empanadas ou portadas de madeira fixadas na aresta superior, sustidas abertas para dentro, por intermédio de ferragens ou trincos de madeira que as fixam ao teto, sendo descaídas quando necessário. Estes elementos dão uma expressão inequívoca à fachada do sequeiro das casas de lavoura entre Minho e Douro. Estes painéis de tábua, com junta espaçada ou ininterrupta pela dimensão dos prumos verticais que os constituem, criam ritmos aliciantes de sombra, pequenos orifícios por onde o ar pode circular sem deixar exposta a colheira. As varandas habitacionais, por vezes também usufruem de portadas móveis da mesma condição do sequeiro que protegem este quarto exterior da fragilidade do clima. As empanadas são características de uma necessidade de rápida adaptação ao clima, presente no ambiente variável de influência atlântica. Pelo que este dispositivo arquitetónico não se aplica a construções de contexto mediterrânico, que se deparam com um ambiente constante benigno, pelo que nos registos do inquérito à arquitetura popular não se encontra a dispersão do elemento nessa região. Figura 33Síntese das Formas, Elementos e Dispositi<vos da Arquitetura Vernacular Portuguesa em diálogo com o contexto Alpendre Parede Latada Pátio Volume Desenho Urbano 87 Grelha Gelosia Rótulado Empanadas Postigo Varanda 3 AS ARQUITETURAS DO MILHO E DO TRIGO 89 Figura 35O trabalho na eira, Braga, 1955 97 O MILHO E O TRIGO 74 BRÁS, Alda - Colheita e Conservação do Milho-Grão. Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2002 (pág.1) O milho é um cereal de regadio, predominante na região de influência Atlântica que se recolhe em espiga, e requer secagem conveniente antes de ser armazenado. As unidades agrícolas da área em questão, compreendem portanto instalações adequadas para esta secagem, como a eira, o alpendre, o sequeiro e espigueiro, entre outros locais relacionados diretamente como o tipo arquitetónico, nomeadamente a varanda. A secagem do milho constitui uma operação de múltiplos aspectos, onde o homem necessita conciliar o tempo com as condições do seu espaço. Este processo de certa forma cultural, que implica a colheita manual e a secagem em espigueiro, realiza-se na zona norte num momento em que o cereal apresenta um elevado grau de humidade. As colheitas dão-se muito cedo, para que as espigas sejam armazenadas até atingirem valores propícios á debulha, estabelecendo-se uma boa conservação. O processo de secagem dos cerais, dentro do espigueiro resulta da passagem de correntes de ar aquecidas por entre as espigas, e não apenas da simples exposição solar. 74 Como o clima é muito húmido o cereal têm de ser devidamente seco, antes do grão estar pronto para a utilização ou armazenamento. Por isso o processo de colheita prolonga-se do Verão até ao Outono, o ciclo arrasta-se por um longo período de apanhas parciais, em vista às necessidades do momento e de acordo com a capacidade do espaço de secagem. No sul, a colheita do cereal é feita o mais tarde possível, conduzida quando o grão apresenta um teor de humidade muito baixo, o que elimina o período de secagem, e transpõe a ação de armazenamento definitivo. O grão, neste clima adquire uma maior resistência mecânica e melhor qualidade final, o que permite a conservação imediata, eliminando-se o espaço e o tempo de secagem. A principal característica diferencial das construções entre as duas áreas de comparação é o processo e tempo de secagem dos cereais. A necessidade de secagem prolongada na área atlântica conduz a uma associação de vários elementos à unidade agrícola. A relação entre a eira, o sequeiro e o espigueiro, a associação de espaços abertos a espaços cobertos ou encerrados, onde se podem abrigar as espigas das intempéries frequentes da região, mesmo durante a época estival. A eira é um espaço delimitado destinado à debulha e secagem e preparação para o armazenamento definitivo dos cereais. As espigas depois de debulhadas são provisoriamente expostas ao sol na eira, numa camada horizontal, o menos sobrepostas possível, ou igualmente guardadas num espaço intermediário, o sequeiro. Este elemento adquire várias caraterísticas formais e funcionais na zona de influência atlântica. O seu desenho oscila entre um espaço bem delimitado por um murete, por vezes irregular, proporcional à dimensão da casa de lavoura, e um afloramento rochoso. A eira é por vezes uma obra de cantaria , composta pela alvenaria predominante da zona, ou um simples assentamento do solo. Na região entre Douro e Minho, predominam eiras trabalhadas em granito e xisto, sendo que em locais arcaizantes e isolados, como na Serra Minhota, as eiras são apenas afloramentos rochosos naturais, grandes lajes irregulares, que se utilizam com ligeiras adaptações. O sequeiro é um local coberto de dimensões avolumadas, com dois ou mais pisos, virados a sul sob a eira, uma fachada rasgada de portadas que deixam entrar o sol, e fachadas de tardoz muitas vezes Figura 36Fachada Sul de Celeiro, Martingança, Leiria, 2015 99 75 OLIVEIRA, Ernesto & GALHANO, Fernando - Arquitectura Tradicional Portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote 1992 em ripado. As suas funções têm um carácter mais eclético, sendo que este anexo complementar de secagem, apenas serve quando a eira têm uma condição inutilizável, antes da armazenagem definitiva. Dentro desta convenção existem inúmeros tipos de respostas a este mesmo problema de secagem e armazenamento, de acordo com a riqueza e extensão da casa de lavoura. Vemos assim na área atlântica a eira associada normalmente, a um ou mais edifícios, com dimensões e formas diferentes, entre alpendres, varandas, sequeiros, casas da eira, beirais e varandões, que demonstram uma evidente polivalência funcional. Este dado acentua a relação do elemento com as condições peculiares do seu clima e do seu cereal. O trigo e o centeio, são culturas que não requerem locais de secagem, portanto as dependências que lhe dizem respeito estão apenas relacionadas com a debulha e armazenamento do mesmo, pelo dizem respeito a esta atividade a eira e o celeiro. A eira do sul corresponde a um tipo puramente romano. Esta é um mero espaço sem qualquer preparação especial, onde o cereal é batido em grandes áreas abertas de terra calcada com um contorno impreciso. No Alentejo as eiras são elementos individuais, integradas na unidade agrícola da região, podendo ser movidas de acordo com a conveniência da exploração e dos afolhamentos. Uma forma particular deste elemento no clima mediterrânico é um facto comum da casa algarvia, a açoiteira ou terraço, que é equiparado à eira, como local de secagem, de recolha de águas para a cisterna e local de convívio exterior para os seus moradores. O celeiro exterior é uma instalação própria no recinto da casa, ou anexa à unidade rural, que pode ir de grandes edifícios a pequenas construções, ou apenas silos, estes possuem um carácter geral que serve para todos os produtos da região. Os celeiros são reportados na obra, Arquitectura Popular Portuguesa, como locais de armazenamento da produção e, ocasionalmente, como uma dependência habitacional, quando o espaço da casa é diminuto. Entre as variantes gerais e locais, o estudo apresenta o celeiro como uma dependência exterior à casa, com apenas um piso alumiado por exíguas aberturas, que compreendem óculos, pequenos rasgos de iluminação no topo das construções, e pequenos postigos laterais. Estas construções são por norma implantadas no enfiamento da fachada da habitação, com aberturas muito semelhantes a esta, sem por isso impor qualquer diferença na estrutura do desenho do alçado da casa.75 Resumindo o relato da influência de uma atividade rural sobre a arquitetura vernacular, registase a existência de caracteres próprios e distintos no norte atlântico e no sul mediterrânico. Deparase com uma zona de terras secas, de tradição comunitária, ou onde a grande propriedade cria uma exploração extensiva de cereais que não requerem secagem especial, armazenados em de formas com certa adaptabilidade funcional. Opondo-se a zona atlântica, uma região de terras frescas e húmidas, de pequena propriedade e intensiva exploração, zona onde com a introdução do milho, cereal volumoso e de enorme produtividade, foi necessário desenvolverem-se e ampliarem-se novos tipos de instalações, criando-se novas soluções especializadas. Figura 37- “The persistence of form”, Lynn Davies, 2010 101 76 As sombras projectadas foram calculadas para o Solstício de Inverno e Solstício de Verão, onde a altura solar atinge os seus estremos, respectivamente dia 21 de Dezembro e 22 de Julho. 77 A altura solar representada na carta solar calcula-se aritmeticamente segundo a formula (90º-latitude do lugar)-+23º Um inquérito arquitetónico constitui um processo de aquisição de conhecimento, cuja pesquisa e análise estabelecem ferramentas críticas. Mais do que um simples inventário de formas e de técnicas construtivas, propõem-se um levantamento impressivo com uma aproximação às qualidades do lugar, às formas de assentamento e às formas de apropriação do espaço. A procura de referências locais, que dão lugar a regionalismos, o olhar sob a arquitetura na busca de elementos autênticos, desprovidos de ecletismos, estilos ou generalismos. O princípio de respeito sobre a cultura e lugar dá origem a uma variedade de desenhos e soluções. O levantamento impressivo procura registar heterogeneidade das construções do milho e do trigo com que se depara. O levantamento impressivo da arquitectura vernacular relacionada com a produção do milho e do trigo, que prevê a confrontação entre duas zonas, organiza a sua pesquisa por unidades de paisagem relacionadas dentro um limite territorial. A representação dos casos de estudo à pequena escala está relacionada com o lugar e à grande escala relacionada com o território. O levantamento representa duas regiões territoriais que ostenta distintas características. A zona atlântica é representada pela região entre Douro e Cávado, e a zona mediterrânica representada pela paisagem ribatejana a norte e a sul do Tejo. As fichas de análise que registam as formas no território organizam-se sob os parâmetros suscitados no primeiro capítulo. Para uma comparação correspondente com o pressuposto do geral para o particular, o estudo contempla uma primeira abordagem a uma escala territorial onde são apontadas várias unidades de paisagem na zona de influência atlântica e mediterrânica, os casos são situados em termos relativos. Em cada unidade operativa são agrupados vários exemplos. A aproximação ao lugar a partir de uma ampla escala permite contemplar a morfologia topográfica do lugar e a adaptação das formas. Individualmente, cada exemplo é observado numa planimetria mais próxima ao seu contexto onde se aponta os maiores picos de incidência solar através o desenho das sombras projectadas 76 .A fachada sul e a fachada norte são respectivamente representadas para observação da adaptação dos planos face à presença e ausência da luz solar, e também demostram a estrutura volumétrica dos casos. O corte transversal informa sobre a incidência dos raios solares dentro dos volumes dependendo do tipo de abertura. A inclinação do raio solares e orientação dos mesmos calcula-se segundo a representação da carta solar77. Para a representação esquemática da relação entre a proporção de área dos planos de fachada e aberturas constrói-se pequenos apontamentos dos alçados que culminam na transmissão visual de percentagem de permeabilidade solar dos exemplos. Por fim o desenho de pormenor completa a análise o sistema de sombreamento e ventilação dos casos de estudo. O grau de porosidade face ao clima, a representação da adaptabilidade ao lugar no desenho das pequenas e rudimentares soluções construtivas. Estas fichas de análise que acompanham o texto corrente ao longo deste primeiro volume dispõem de exemplares a uma escala superiores, disponíveis para consulta no segundo volume desta dissertação. 3.4. LEVANTAMENTO IMPRESSIVO DAS FORMAS NO TERRITÓRIO 4. NO TERRITÓRIO DE INFLUÊNCIA ATLÂNTICA 103 Figura 38Mapa Territorial da Região de Influência Atlântica 0 30km 0 30km UO_13 UO_14 UO_15 UO_16 UO_17 UO_18 UO_19 UO_20 UO_21 UO_1 UO_2 UO_4 UO_3 UO_5 UO_6 UO_7 UO_9 UO_8 UO_10 UO_11 UO_12 R.Mondego R.Zêzere R.Nabão R.Ceira R.Corvo R.Alva PORTO BRAGA VILA REAL VIANA DO CASTELO R.Leça R.Vizela R.Sousa R.Tâmega R.Ferreira R.Ave R.Sousa R. Cávado LISBOA ÉVORA COIMBRA R.Sorraia R.Alpiarça R.Real R.Alviela R.Lis R.Alcôa R.Guadiana 105 78 TORGA, Miguel - Portugal. Coimbra: Edições de Autor, 1993 (pág. 45) 79 d’Abreu, coord. Alexandre Cancela - Contributos para a identificação e caracterização da paisagem em Portugal. Lisboa: Direcção-Geral do Ordenamento do Território, 2004 (pág.20) 4.1. O SEQUEIRO ENTRE O CÁVADO E DOURO Num território de acentuadas diferenças topográficas, causadas pelo romper da hidrografia, ”da sua configuração intima e fisionómica, de simples acidente corográfico ascende à transcendência dum purgatório, com almas “ 78. As unidades de paisagem abrangidas pela influência do rio Douro e do rio Cávado são demarcações de um Portugal telúrico e fluvial, de contrastes luminosos dramáticos, onde o plano é conquistado a custo pelo corpo humano. Grupo de unidades que em termos morfológicos pode ser descrito como um grande anfiteatro virado para o Atlântico, em declive das serras da Peneda e Gerês, uma sequência de vales separados por zonas de maior declive. Esta disposição do relevo demonstra uma grande influência sobre o clima e sobre a identidade de cada compartimento físico. Por toda a região os usos diversificados, organizamse segundo um apertado padrão das diferentes culturas e da divisão dos campos. Um intenso fervilhar de atividades, sobrepostas entre a habitação e a produção agrícola, correspondente à diversificada exploração do solo e elevada densidade populacional. O suporte biofísico caracteriza-se por um clima marítimo, de amplitude térmica atenuada, com intensa pluviosidade. Mas o clima não é uniforme, sofre uma diferenciação resultado dos rios se desenvolverem perpendicularmente ao oceano, verificando-se o esbatimento destas características atlânticas e o acentuar da continentalidade interior. Este grupo de unidades está associado a uma paisagem agrária extremamente original, sendo possível estabelecer uma relação directa entre a exploração e a morfologia dos vales, a presença dos elementos naturais e a forma subtil como se trabalharam e moldaram as encostas, ao longo de séculos. Os solos xistosos e graníticos e a feição da paisagem molda um tipo de construção de elevado valor arquitetónico. As construções possuem alguma heterogeneidade que tem na sua origem os diferentes materiais utilizados e exprime-se essencialmente na forma desconcertada como se jogam com os volumes, como se induzem os vãos e varandas, no uso da alvenaria e no tipo de cobertura. O povoamento é disperso, disposto em pequenos povoados urbanos, ou lugares de casas isoladas por entre campos, prados e arvoredos. A fixação acompanha densamente os eixos viários, onde a unidade agrícola não ultrapassa os 10 hectares. Todo o conjunto topográfico é intensamente valorizado pela riqueza sensitiva, onde se salienta o cromatismo associado às áreas agrícolas e às superfícies fluviais. UNIDADE OPERATIVA 3-FUNDO DE VILA 3A 3B 3C 3A 3B 3C N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º latitude 41° 9.44’N longitude 8° 18.3’E altitude 210m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição 10m 10m Orientação /Contexto 10m Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 113 4.4. UNIDADE 3_ FUNDO DE VILA No mesmo paralelo cartesiano, a Este dos casos posteriores casos, atravessando o Tâmega, em direcção a Penafiel, encontra-se um conjunto muito particular de sequeiros, cujos terrenos se relacionam com a via. Este lugar, de qualidade excepcionalmente plana, abriga um sistema de divisão do território extremamente repartido, a propriedade é de tal forma explorada no âmbito rural, que cada casa quase possui o seu próprio sequeiro e eira e espigueiro. Afastado da margem do percurso, orientado a sudoeste-nordeste, encontra-se uma construção vernacular de excepcional originalidade. O exemplo 3A na sua implantação adoça um dos seus topos ao muro limite da propriedade. A eira, cujo desenho é de dúbia forma, nasce do perímetro do sequeiro e do muro da propriedade e espraia-se no campo. Esta é composta por uma grande laje de xisto, azulada, um material com grandes capacidades refletoras da luz solar. Os dois elementos encontramse distanciados da casa de lavoura, não tentam configurar qualquer espaço com esta. Um pórtico de granito ao nível do piso térreo sustenta um segundo piso de tabique que se apoia nos lintéis de pedra, com grandes toros de madeira no sentido transversal. Neste mesmo caso, a intersecção entre a cobertura e o volume, é disseminada por uma faixa de ripado, onde se apoia o beiral. As faixas de madeira, ligeiramente espaçadas na vertical e na horizontal, alternam o sentido da ventilação. A construção em si é muito tosca, existindo vários remendos com chapas de ferro e madeira, como nas portas inferiores. O espaço interior, também subdividido conforme a fachada, em arrumos separados. Na propriedade, anexa marginal à estrada, o sequeiro é um elemento que advêm de uma combinação entre o sequeiro e o espigueiro. O exemplo 3B orienta uma fachada composta por um pórtico preenchido por portadas de chapa metálicas. A construção implanta-se no vértice norte da propriedade, e afirma por uma caminho sobrepostos por vinhas de enforcado o caminho da rua para a casa. Adjacente a esta, a eira granito constitui o fim dos campos lavráveis. Sob um telhado de cerâmica, une-se um volume porticado, com uma grelha de ventilação na representação de um segundo piso, e a Oeste um volume de madeira apoiado em pilares de granito, elevado do solo, onde se resguarda, na segurança do seu isolamento, um molhe de espinhas debulhadas. A separar os dois corpos uma tosca escada de granito que tacanhamente dá acesso ao espigueiro e ao piso superior do sequeiro. Na fachada posterior à eira, a construção apresenta outro piso, semienterrado, à altura do muro limite, onde se denota um aparelho miúdo, sobre qual assenta a alvenaria bruta, de junta seca do primeiro piso do sequeiro. Ao nível da eira são rasgadas duas janelas, que na adequação das grandes peças de alvenaria de granito, são encerradas por portadas de madeira opacas. figura 43pormenor da fachada Norte de sequeiro 3C, Fundo de Vila, Penafiel, 2015 115 Paralelamente a este caso, do outro lado da vinha de enforcado, nasce um sequeiro mais pequeno, com uma implantação na mesma orientação. No caso 3C o muro face à estrada parece ser anterior a qualquer outra construção. Outra vez, o sequeiro de talhada alvenaria, assenta sobre o aparelho mais irregular do muro, onde assenta na perfeição a pesada alvenaria pesada. Neste caso a eira está encaixada ao longo da fachada sul e o topo este. No topo abre-se para a eira, um portal de duas folhas e uma janela, que aproveita o declive das águas da cobertura, com duas portadas de madeira tingidas de verde. Não se prevê uma zona de ventilação da fachada semelhante ao anterior, antes uma desmaterialização do beiral, que em três ou quatro prumos adjacentes que separam o granito da cerâmica. 10m 10m 10m 5 latitude 41° 9'12.73"N longitude 8° 9'47.47"W altitude inc. raios solares cultura clima materiais do solo materias da composição UNIDADE OPERATIVA 4_ MARCO DE CANAVESES 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 20 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 4A 4B 4C 4A 4B 4C Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 117 A unidade de paisagem, encaixada entre o vale do Douro e do Tâmega, abrange um particular tipo de arquitetura associada à cultura do milho, certamente relacionada com o isolamento característico da zona, limítrofe aos primeiros acidentes topográficos que separam o litoral atlântico da planície trasmontana. Por entre as vias remetentes ao período românico, o Marco de Canavezes, constitui o lugar onde a transformação do material natural em arquitetura serve de abrigo ao mantimento. Os casos reconhecidos sobre este território apresentam-se como volumes de um granito pobre de pequenas dimensões e extremamente fechados. Neste lugar a exploração agrícola de imensamente reduzidas dimensões ocupa quase apenas o espaço de um socalco. Em Avessadas, três sequeiros a menos de vinte metros entre si, acomodam-se no topo de uma pequena colina, em diferentes cotas, onde brota um afloramento rochoso, orientando as suas fachadas de maiores dimensões a sudoeste-nordeste. O telhado de duas águas cobre dois topos cegos e um plano frontal, de dois pisos tacanhos, onde se rasga uma pequena porta e duas aberturas superiores. A fachada virada a nascente apresenta apenas um pequeno vão, a descoberto consequência de uma falha no aparelho de granito. As aberturas são encerradas por ripado de madeira horizontal escamoteado, cuja cor é modificada pela radiação solar. Os vão apresentam uma disposição tripartida, que permite a mutabilidade dos painéis de madeira que cobrem os mesmos. Por norma a sua implantação é acompanhada pelo desenho fluido de uma eira, na continuação do comprimento da fachada virada a poente, apoiada contra o declive por um pequeno murete, que dela faz um terraço para o vale. A eira é composta por grandes elementos de xisto, ao contrário das paredes do sequeiro. A sua área, à exceção de um caso, é duas vezes superior ao interior do sequeiro. A homogeneidade é um facto entre estes casos, que não possuem qualquer discordância no seu modelo, talvez todos fruto do mesmo mestre de construção. Dentro de um terreno retalhado, não muito longe do centro urbano de Marco de Canavezes, numa propriedade extensa, com uma pendente para poente apresenta-se o caso 4B. O sequeiro encontra-se à cota mais alta, sobranceiro à casa de lavoura, que na cota mais baixa se desenvolve em dois volumes paralelos da mesma extensão. A estrutura do sequeiro é bastante longa, o seu topo orientado a nascente configura uma escada que se apropria da topografia para dar acesso ao segundo piso sobrado. A fachada a sul é desmaterializada por três portais de acesso à eira, sobrepostos por três aberturas que no seu desenho na formam um pórtico. O interior é dividido por frágeis paredes de tabique que organizam três espaços, de armazenamento de diferentes culturas, ou pertencente a diferentes propriedades. A construção, pela composição do aparelho, algum de junta seca outra estucada, parece ter sofrido uma evolução aditiva a poente. A estrutura da sua fachada é irregular, está presente uma divisão tripartida sem proporções fixas. O sol entra filtrado pelas frechas de um ripado de madeira, quando duas portadas não permitem a insolação direta. Na fachada posterior, um ripado controla a intersecção entre a cobertura e a parede portante 4.5. UNIDADE 4_ MARCO DE CANAVESES Figura 45Pormenor de fachada dianteira de sequeiro, Marco de Canavezes, 2015 119 de granito. A norte inserido, num povoado sobre o Tâmega, encontrasse o sequeiro 4C desta mesma unidade de paisagem, um tipo mais desenvolvido, imediatamente junto à casa de lavoura, apenas separado desta por um terreiro ou eira regular, dentro de uma propriedade estreita e irregular, contornada por dois eixos viários. O contexto geográfico altera-se, dado que esta construção não se isola no meio do campo, mas adossa-se ao limite da propriedade de contexto urbano. A configuração deste modelo difere em altura, orientação, no desenho de fachada e em planta. Ao comum volume adossa-se uma adiposidade, um anexo no topo nascente, de apenas um piso completamente cego. A organização do sequeiro face ao fogo demonstra a construção pensada de um espaço aberto definido por vários elementos, agrícolas e habitacionais, de condição mista, não apenas destinado ao trabalho como às vivências rurais. A estrutura de secagem orienta-se a sudestenoroeste. A eira a sul do sequeiro, recebe uma fachada com dois pórticos, encerrados por portadas em tabuado vertical de madeira, que tripartidamente preenchem o vão superior. A portada do meio oscila sobre um eixo lateral, configurado a mutabilidade do objeto. Na fachada posterior, a norte, as mesmas perfurações na alvenaria, são completamente fechadas por um tabuado largo, tingido pela luz. latitude 41° 15.5’N longitude 8°6.49’E altitude 280m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 10m 10m 10m 2m 2m 2m 5A 5C 5B 5A 5B 5C UNIDADE OPERATIVA 5SOUTO N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 121 Caminhado para norte do território, no lugar do Souto em Fregim, ainda em terrenos coligados ao Tâmega, perdura a tipologia de sequeiro exíguo, de exterior completamente encerrado à exceção de dois portais inferiores opacos, com os quais se alinha uma subtração do granito preenchida por uma grelha de madeira travada por um prumo horizontal. Ao friso imóvel é seccionado um canal de escoação das espigas. À semelhança de alguns modelos anteriores, uma escada no topo nascente é o único acesso ao lugar de secagem abrigada. O sequeiro 5A adopta todas as anteriores condições e sofre uma implantação a meia encosta, sobre um pequeno afloramento, que aparenta ser aleatória, instalada no centro a propriedade na intersecção dos vários tipos de culturas. No alinhamento da unidade agrícola, na margem da via, onde uma casa de lavoura explora os planos de maior altitude, enfrenta-se um sequeiro característico associado a uma tipologia de casa também em si característica, cuja articulação de quatro volumes forma um pequeno pátio. A sul disposto no alinhamento de um dos volumes, encontra-se o sequeiro 5B. Orientado a sudoeste-nordeste, o sequeiro não encontra a maior percentagem de fachada permeável orientada para sul. O embasamento de granito cobre maior parte da fachada, à exceção da intersecção da cobertura e parede. Além dos pontos de intersecção estrutural das asnas da cobertura com a parede de granito, a partir de certo ponto uma estrutura de madeira completa a superfície exterior até aos planos das águas. Nos topos o sequeiro adquire uma maior área de ventilação. Um ritmo aliciante de prumos verticais na penumbra de um beiral constitui uma barreira translúcida do interior. O volume com apenas uma entrada no piso inferior virada a nascente. Continuando o percurso deste levantamento impressivo das formas no seu contexto, observa-se a presença de um objeto rural semelhante ao primeiro exemplo, o sequeiro 5B. Um sequeiro expropriado da proximidade da habitação, num ponto de controlo da sua paisagem de lavoura, sob um estreito telhado de duas pendentes e suportado por grossas paredes de alvenaria de granito. A sul a fachada ostentam dois grandes portões de ferro, suportadas por extensas dobradiças, que percorrem dois terços da largura deste painéis de batente, peças muito ornamentadas para a função em questão. Por cima das padieiras destes painéis duas portas de proporções estreitas, desfazem uma área da parede de granito caiada, para comporem uma grelha de fina carpintaria. O desenho dos planos é extremamente pensado, os vãos encontram-se construídos sobre um eixo de simetria e respeitam os seus alinhamentos. No portal da fachada poente, encontra-se um pormenor no granito, que discerne uma padieira saliente, marcada por uma sombra distintamente projetada. O pé-direito da construção aparenta ser pouco alto para dois pisos, mas decerto que a entrada lateral conduz ao compartimento arejado superior. A eira aparenta ser um espaço indefinido, sem margens salientes pela ausência do habitual murete, ultrapassa os alinhamentos do sequeiro e adquire uma forma um pouco orgânica. O muro limite, da propriedade, a sul do espaço, agora caído, não intervém na separação da estrada e no campo. 4.6. UNIDADE 5_ SOUTO 10m10m 10m 8C Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria latitude 41° 27’8N longitude 8° 6.13’E altitude 180m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição UNIDADE OPERATIVA 8-FREIXO 8A 8B 8C 8B 8A N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 129 Na multiplicidade de formas encontradas, começa a ser recorrente um tipo de sequeiro plurifuncional, que junta numa forma a conservação prolongada e secagem do cereal. No cimo do vale, em controlo das áreas de cultivo sedia-se a peça 8A com a altivez de um pórtico exposto a sul cujos vazios são preenchidos por ritmos de diferentes timbres de madeira. Encontra-se de novo um volume a poente, correspondendo ao sequeiro, dividido em três tramos, com dois pisos, o de cima comprimido, e o inferior preenchido por portadas de tabuado vertical. As portadas inferiores de batente dão acesso ao espaço de proteção das ferramentas rurais e do cereal em espera na eira, estas são abrigadas do ar por chapas de metal na parte inferior. A meio das aberturas superiores, portadas de madeira sustem o contacto com o exterior. O balanço do beiral protege esta grelha de radiação direta. No sector nascente, apoiada em três pilares de betão, improvisados na substituição dos de granito, uma estrutura palafita, cobre um grande vão. Neste estrutura que ocupa a posição de espigueiro, disseminados no ritmo aliciante do ripado, escondem-se painéis oscilantes no topo e a sul. Para completar o modelo, a ligação ao piso superior conduz-se por uma escada no topo sombrio a nascente. A eira é a extensão do pavimento interior do sequeiro para benéfica exposição solar, aproximadamente o dobro da sua área. Na propriedade adjacente, apesenta-se caso 8B que admite grandes semelhas ao anterior, à exceção da interseção do volume com a forma do espigueiro. Encontra-se um pórtico de cinco tramos, protegido da exposição direta por portadas de madeira cobertas por folhas de ferro. O alinhamento dos suportes de granito não se estende à cobertura, na parte superior da fachada presencia-se uma estreita grelha de ventilação impenetrável e imóvel. Ambos os topos apresentam uma entrada ao nível superior, mas nenhum elemento de ligação se lhe apresenta. A característica mais proeminente do sequeiro 8B materializa-se na fachada posterior. Um plano com um aparelho muito regular, onde a alvenaria de granito se produz um efeito dramático que por norma só se presenceia com o tijolo cerâmico. As peças de alvenaria deixam vazios propositados no plano vertical para a passagem do ar no interior. A eira é composta por lajetas de granito que nascem do solo e misturam os seus limites com a vegetação circundante. Num lugar que domina a paisagem, sempre solarengo, protegido a norte pela vegetação selvagem, é escolhido como espaço de implantação do caso de estudo 8C. Na vertente de um explícito afloramento rochoso, nasce a eira do próprio material do solo, da natureza envolvente com apenas uns ajustes construtivos. O sequeiro apoiado na topografia, vira-se para sudeste-noroeste, aproveitandose da mesma para criar um acesso ao piso superior sobre uma peça de granito suspensa. Permanece o embasamento de granito estruturado em três tramos, selados por desgastas portadas da madeira escura. Os topos permanecem sempre como apoios da alongada abertura e o plano norte opaco. A fachada sul permite com que o espaço entre os lintéis de granito e o beiral abranja uma maior área de fasquio, cuja presença se espalha pela fachada nascente, no esbelto contorno das águas da cobertura. Esporadicamente, dois planos móveis, do mesmo material interrompem a grelha de madeira. 4.9. UNIDADE 8-FREIXO 10m 10m 10m N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º Orientação /Contexto Forma/Distribuição latitude 41° 22.11’N longitude 8° 15.55’E altitude 170m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria UNIDADE OPERATIVA 9-TAGILDE 9A 9B 9C 9A 9B 9C 131 Nos planaltos em contacto com o rio de Vizela, a paisagem de abruptos declives embrandece em contacto com a linha de água. Neste milleux natural, a colonização dos campos é intensiva, pelo que a presenças de formas no mesmo lugar é exponencial. O seu registo é extremamente semelhante, entre objetos dentro deste mesmo contexto. Iniciando-se o inquérito deste lugar à cota alta, o observador depara-se com o sequeiro 9A uma construção de secagem ergue-se protegida sob a cobertura de duas águas adjacente à habitação. O imponente sequeiro apresenta-se um pouco desconectado da unidade agrícola pela fragmentação da mesma. A eira exposta à estrada convida livremente ao percurso do espaço privado. O cerne das vivências relacionadas com a casa é disposto na direção contrária, ao sequeiro e eira. O sequeiro de cinco tramos sustentados por pilares de granito e lintéis de madeira superiores constitui a clara imagem de um pórtico. Ao alcance dos topos, o muro ganha expressão e as paredes laterais enquadram os grandes vãos. Os tramos vazios são ocupados por tabuados largos e intercalados por painéis de chapa de metálica, ou resguardados na sombra do beiral. Entre a casa e o sequeiro erguem-se os proeminentes degraus de granito que guiam ao segundo sobrado arejado. No decrescer da pendente, junto à linha de água, erguem-se os casos de maior porte. Na continuação de uma eira orgânica nasce um esbelto pórtico de sete esguios tramos, organizados numa estrita métrica, de materialidade nada tosca que corresponde ao exemplo 9B. Pelo que se o comprimento da fachada aumenta também a profundidade do sequeiro. A área de secagem interior é prolongada para o exterior, uma vez que se abrem os painéis opacos de chapa metálica com grande capacidade de reflexão para a eira. A relação entre a casa de lavoura e o anexo rural perde-se no tempo pela introdução de novos volumes, fruto da vida contemporânea. Pertencente à casa de lavoura adjacente, uma construção com quatro águas, com uma configuração mais aberta representa o caso 9C. Dividida em cinco partes a fachada orientada a sudoeste-nordeste, apresenta um piso superior mais curto, resguardado em sombra pelo alongar do beiral. Os painéis basculantes compostos por uma estreita armação em ripado são compensados em termos de permeabilidade pela extensão das aberturas superiores para os topos. Em contacto com uma eira disforme, os vãos inferiores protegidas por portadas de batente são constituídos por ripados horizontais. O acesso vertical não é discernível, o sequeiro é um ato isolado, um volume puro. A habitação e os seus anexos, dispostos a norte, são o núcleo da vida rural, o sequeiro é o centro da produção agrícola, a intersecção das diferentes culturas. 4.10. UNIDADE 9PEDREGAIS UNIDADE OPERATIVA 10-POMBEIRO RIBAVIZELA 11A 11B N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 11A 11B Orientação /Contexto Forma/Distribuição latitude 41° 22.16’N longitude 8° 13.55’E altitude 300m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 10m 10m 133 Nos arredores da paisagem verdejante do Mosteiro de Ribavizela, de campos com largas proporções, entra-se em contacto com exemplos de proporções igualmente maiores. No primeiro exemplo denominado 10A, as dependências rurais são dispostas no limite este da propriedade. Uma extensa latada estabelece a relação entre a cota da estrada e o plano da habitação e do sequeiro. A implantação do conjunto estabelece um perímetro das atividades rurais, a casa, no limite mais isolado demonstra uma organização em três alas, que quase formam um pátio, no alinhamento de um dos braços da habitação, orientado a sul assenta um sequeiro sem eira discernível. A fachada do sequeiro é dividida em sete tramos, a esbelteza dos pórticos demonstra a evolução construtiva do sequeiro de cinco para sete tramos, no topo poente. Esta ação evolutiva transparece na divisão no interior em dois espaços, dado que a antigo topo não foi destruído. Contrariamente à qualidade e precisão do aparelho de alvenaria até ao ponto registado, a estrutura deste pórtico é composta por peças de cantaria desenhadas e cinzeladas com grande precisão. O sequeiro cresce em altura, o piso superior não é apenas espaço subtraído à pendente do telhado. As habituais portadas de madeira e chapa metálica, alojam-se sobre os intervalos da estrutura, idênticas na sua materialidade e desenho: duas molduras de madeira, divididas em dois espaços onde supostamente se encontram talhadas almofadas de madeira, são obstruídas na parte inferior por uma folha metálica e por um fino ripado vertical na parte superior, ambos os materiais tingidos por vermelho enegrecido. Uma escada de granito no topo nascente leva a uma entrada superior na construção. O exemplo 10B vincula-se ao complexo rural em consonância com a modelação das pendentes topográficas. O conjunto abrange quatro volumes, orientados a sudeste-noroeste, a casa e o sequeiro concomitante a norte e o extenso espigueiro de origens mais contemporâneas a sul. A construção de apoio à secagem é composta por uma estrutura de granito com cinco vãos e dois pisos, com pé-direito idêntico. Este modelo de sequeiro destaca-se pela configuração dos elementos de proteção e ventilação e a sua forma de manipulação. Às habituais portadas, deslocáveis sobre um eixo vertical, junta-se outro tipo de dispositivo que dá mais liberdade espacial ao interior do edificado. Os painéis de ripado horizontal são suspensos por ferragens cravadas nos lintéis de granito, recolhem-se para o interior e fixam-se ao sobrado ou à cobertura com ganchos. A escada no topo nascente constitui a forma como se acede ao piso superior é elemento amovível e temporário. A eira como resultado da humanização do solo não se entrevê nas brumas da reapropriação da natureza deste espaço. 4.11. UNIDADE 10-POMBEIRO RIBAVIZELA N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º UNIDADE OPERATIVA 11-NESPREIRA 12A 12B 10m 10m 12B 12A Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria latitude 41° 24.8’N longitude 8° 19.13’E altitude 180m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição 135 O percurso orienta-se cada vez mais para norte o sequeiro começa afirmar a sua imagem dentro dos assentamentos urbanos. Na localidade de Nespereira, à cota mais baixa do vale, aloja-se um conjunto 11A. Neste exemplo a casa de lavoura desenvolve-se numa planimetria orgânica, que forma uma espécie de braço que envolve o sequeiro a norte. O sequeiro é um volume independente num pátio central. A estrutura orienta-se a sul, direcção para qual abre quatro pórticos protegidos por tabuados verticais tingidos. A eira constitui um polígono irregular de granito que se estende para sudoeste de encontro à vegetação arbórea. A estrutura muito regular e granito talhado apresenta dois pisos, acessíveis por uma escada interior. Os restantes plano volumétricos são cegos. O sistema de interpretação do clima comporta portadas basculantes que admitem uma rápida recolha do cereal espraiado. À margem da via nacional de ligação a Guimarães, o observador depara-se um sequeiro orientado a sul, o exemplo 11B. A casa de lavoura é um volume transversal ao sequeiro que se orienta no sentido da pendente direcionada para a paisagem. A eira apresenta as mesmas proporções do que o sequeiro, encontrando-se definida por este a norte e pela casa de lavoura a sul. Em termos estruturais, o sequeiro é composto por um pórtico de quatro tramos e paredes portantes de alvenarias de granito com recorte bastante preciso. A parede portante norte é recortada no topo por dois vãos horizontais superiores, que se intersectam com a cobertura através de grandes lintéis de pedra. Nos topos desenham-se pequenas janelas superiores descobertas à passagem do ar. Todos os restantes vão são protegidos por um ripado vertical escuro de madeira. Nos vãos da fachada sempre em sombra os dispositivos de madeira são imóveis e o ritmo entre elementos opacos é comprimido. Na fachada sobranceira à eira, os dispositivos que filtram o clima são dispostos na face interior do pórtico. As portadas basculantes recolhem-se para o interior, desimpedindo facilmente o espaço para o armazenamento precipitado dos cereais. O seu desenho implica a disposição de um tabuado vertical, um pouco espaçado, que isola completamente o vão. 4.12. UNIDADE 11NESPREIRA N S 19 18 17 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 11A 11B 11C 12C UNIDADE OPERATIVA 12SÃO MARTINHO DE CANDOSO 12B 12A latitude 41° 22.11’N longitude 8° 15.55’E altitude 180m inc. raios solares máx. 62º min.16º cultura clima materiais do solo materias da composição 10m10m Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 10m 137 A sucessão de eventos completa-se com a análise de casos entre o rio Tâmega e o rio Ave. Ainda na vertente territorial de influência do Vizela, aborda-se um caso isolado pela disseminação urbana do território. O caso de estudo 12A dá início a um conjunto sistematizado de exemplos, que se parece correlacionar com o facto de cultura do milho ser de produção intensiva neste espaço. A disposição do sequeiro e eira é muito afirmada, orientados a sul de áreas exatamente idênticas. A fachada permeável é organizada em quatro tramos, sob um entalhe perfeito de grandes peças de alvenaria. Neste caso os vãos inferiores possuem uma expressão vertical em comparação com os superiores. As portadas de batente são substituídas por painéis basculantes únicos, que oscilam sobre eixos horizontais. Estes planos de proteção continuam a ser divididos em duas materialidades, o ferro e a madeira. Os topos do sequeiro são a continuidade dos muretes que delimitam a eira, com apenas a interferência de uma pequena janela alinhada com o pórtico superior. No plano virado a norte transparecem duas aberturas, adjacentes ao beiral, que se cobrem de um estreito ripado para propósitos de ventilação. A partir deste momento, o sequeiro é reaproveitado para inúmeras funções da vida contemporânea, pelo que as mesmas construções são intensamente modificadas, a análise fica comprometida. Em São Martinho de Candoso deparamo-nos com o sequeiro implantado no limite entre campo e mata. A morfologia dos socalcos envolventes é muito mais geométrica, em contraposição com o desenho orgânico dos elementos mais isolados no território. Uma organização do espaço mais sistemática conduz também a uma metódica composição das volumetrias. O exemplo 12B constitui um elemento compacto orientado a sudoeste-nordeste. A fachada reticulada do sequeiro de quatro tramos é exumada por painéis metálicos basculantes. A eira é um espaço recortado pelo caminho em latada, a ligação entre esta e a casa de lavoura, é um espaço servente. A nascente, o mesmo modelo instala-se adjacente a uma linha de água. O exemplo 12C constitui uma forma restaurada mas que responde às propriedades originais do tipo de sequeiro neste contexto. As empanas no seu lugar habitual, ajustam-se ao recorte das aberturas de granito, sempre reforçadas na parte inferior por materiais mais resistentes ao desgaste que a madeira. Os topos são panos cegos e não dispõem de qualquer abertura para o piso superior. A fachada a norte sucumbe ao resvalar do aparelho de alvenaria para a construção de pequenas perfurações, profundas e estreitas a partir das quais é impossível observar o interior. A eira sem estruturas que a delimitem ocupa em plano a mesma área que a estrutura. 4.13. UNIDADE 12-SÃO MARTINHO DE CANDOSO 10m 10m UNIDADE OPERATIVA 14MUGE 14A 14B latitude 39° 6.26’"N longitude 8°42.4’E altitude 8m inc. raios solares max. 74º min.29º cultura clima materiais do solo materias da composição N 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 S 14A 14B Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 145 No exemplo 14A situado na quinta da Casa do Cadaval, o celeiro constitui um dos vários anexos agrícolas de grande flexibilidade funcional, que alberga desde a colheita do trigo ao armazenamento do vinho, de acordo com uma prática distribuição do interior. Separado da casa da quinta pela estrada principal, o celeiro encontra-se em conjunto com outras dependências, adjacente a um canal ribeirinho, desenhado para a distribuição de água em tempo de secas sobre as grandes unidades de produção agrícola. O conjunto de anexos rurais e vegetação forma uma alameda singular que conduz ao cerne da exploração. O celeiro, orientado a sul, apresenta as incondicionais janelas verticais seladas com postigos pintados e uma entrada central com portada de batente opaca. O topo nascente é condecorado com um óculo adornado e portão com bandeira semicircular permeável, e duas janelas protegidas por grades de ferro. Apesar deste exemplo apenas apresentar um piso demonstra um considerável pédireito, de uso fortuito no caso de empilhamento de fardo de palha ou albergue de alfais agrícolas. O edifício apresenta de certa forma uma construção mais cuidada, como a presença de uma platibanda e frontão. Ornamentos concedidos pela plasticidade da cal. No percurso da estrada nacional que corre paralelamente ao rio Tejo, deparamonos com um conjunto de grandes unidades agrícolas, cujo complexo de construções quase se assemelha a uma pequena aldeia. A Quinta da Alorna é complexo agrícola que inclui desde o conjunto habitacional dos trabalhadores, à padaria até à adega e celeiro. O caso 14B constitui um exemplo onde, a exploração agrícola se desenvolve num conjunto de pátio simétrico em torno de um eixo central discernido pelo percurso que liga a estrada ao campo. Orientado a sudoeste, no limite sul do complexo, nasce uma estrutura mista, da combinação entre celeiro e silo. Um grande pórtico orientado a norte, com oito tramos, protege um muro afastado da estrutura que não atinge a cobertura. A fachada sul é um plano branco imaculado, perfurado por elementos de tijolo em falta no muro de alvenaria de cerâmica caiada. Entre os dois elementos de suporte da cobertura de duas águas, abriga-se um perímetro interior que se distância do pórtico, mas não atinge o plano da cobertura, para formar pequenos espaços compartimentados de armazenamento dos produtos agrícolas. Nesta parede abrigada em secundo plano, instalam-se aberturas a dois níveis para o movimento e escoação dos produtos no interior. Este celeiro não apresenta um dispositivo de ventilação do espaço ou de proteção contra a luz solar excessiva, a forma é na sua génese própria à ventilação do espaço. 5.3. UNIDADE 14_ MUGE Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria UNIDADE OPERATIVA 15-ALMEIRIM 15B 20m 15B latitude 39° 12.48’N longitude 8° 37.4’E altitude 12m inc. raios solares max. 74º min.29º cultura clima materiais do solo materias da composição N 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 S 147 Integrada no limite da malha urbana com os campos inundáveis transparece, o exemplo 15A sacrifica a sua orientação para este-oeste para se inserir no desenho da rua. O celeiro implanta-se no alinhamento das construções citadinas, enquanto as restantes dependência agrícolas ou habitacionais parecem desenvolver-se no interior da parcela urbana, formando um pequeno pátio a nascente do volume. Este armazém de secagem e armazenamento possui uma estrutura de adobe ou alvenaria miúda de calcário caiado, que é recortada a poente por seis janelas verticais, seladas por painéis permeáveis de ferro, compostos no topo por lâminas horizontais de chapa metálica cravadas numa espécie de bandeira, desenhada pela própria estrutura que encaixa por baixo duas portadas de batente. No topo norte desobstruído das construções adjacentes, instala-se um portão de correr também de metal, que aparenta ser um elemento construtivo recente. A parte superior deste frontão de adobe é condecorado por um óculo sem qualquer elemento de isolamento do vão. As paredes de adobe caiadas parecem apenas formar um único piso onde se dispõe os elementos agrícolas sob a serenidade fresca do único compartimento resguardado. 5.4. UNIDADE 15_ ALMERIM UNIDADE OPERATIVA 16-SANTARÉM 16A 16B 16B N 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 S latitude 39° 15.23’N longitude 8° 40.3’E altitude 52m inc. raios solares max. 74º min.29º cultura clima materiais do solo materias da composição 16A Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 20m 20m 149 O exemplo 16A é uma construção fora do contexto urbano, pertencente a um conjunto com um grande valor compositivo. A casa da Quinta da Nossa Senhora da Saúde é de cariz eclético, por oposição ao desenho da sua vertente agrícola. A habitação isolada do contexto rural comanda à distância a exploração dos campos adjacentes à linha de água que divide o norte e o sul. O celeiro faz parte de conjunto de dependências dos caseiros, que se organizam num pátio voltado para a estrada. O braço nascente deste pátio serve as necessidades diárias da casa feudal pelo armazenamento dos produtos agrícolas dos campos colocados em cotas mais baixas. O lado poente é composto por várias dependências, sendo que o topo da ala é ocupado por um espaço de armazenamento temporário dos produtos agrícolas. A fachada este do celeiro 16B é constituída por um pórtico improvisado de madeira, de estado perecível, que constitui o único ponto de entrada da luz natural no espaço. A fachada poente é completamente opaca. Os topos perecem no conjunto de compartimentos que servem como corte e armazenamento das alfaias agrícolas. O espaço de secagem composto pela eira, instaura-se livremente sobre o esguio pátio desenhado pela composição. O caso 16B desenvolve-se ao longo de um eixo viário relevante em termos de ligação entre a região da Estremadura e Ribatejo. A quinta onde o exemplo de encontra inserido desenvolve-se igualmente em pequenos pátios. O celeiro é uma estrutura adjacente à rede viária, orientado a sudestenoroeste, com uma fachada desenhada sobre a rua com dois pequenos óculos perto do beiral e duas portas inferiores, enclausuradas por portadas de batente opacas, caídas pelo mesmo pigmento que os falsos lambris do conjunto. Os topos demonstram o mesmo tipo de abertura circular ornamentada por uma moldura revestida a cal, o único elemento que rasga a serenidade das paredes da adobe. A parede da construção parece ter sido demolida, amplificando o espaço interior, para uma dependência que isolava a sua parede caduca de qualquer tipo de insolação. O espaço da eira permanece ambíguo neste caso, tanto os recintos anteriores e posteriores à casa e ao sequeiro podem admitir a temporária debulha do trigo. 5.5. UNIDADE 16_ SANTARÉM 17B17A UNIDADE OPERATIVA 17-ALCANHÕES 20m 17A 17B N 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 S latitude 39° 16.5’N longitude 8° 39.6’E altitude 27m inc. raios solares máx. 74º min.29º cultura clima materiais do solo materias da composição Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria 20m 151 A Quinta da Comenda é um conjunto que se acha já entre as planícies de aluvião e as pequenas colinas a norte que definem o vale do Tejo. Nesta exploração agrícolas de elevada extensão, implanta-se adjacente aos campos de cultivo do trigo e do milho o exemplo 17A. Esta pequena estrutura encontrase correlacionada com um vasto espaço sem limites em terra batida, onde se debulhava os cereais, que se encaixa nos parâmetros da eira do lado sul. O celeiro é uma construção composta por dois volumes paralelos orientados a sudoeste-nordeste. O volume a sul, que se considera ser o espaço de apoio à debulha, apresenta um pórtico de seis tramos onde se apoiam grandes asnas de madeira que suportam uma cobertura de telha cerâmica de duas águas. No topo nascente do celeiro um grande portal com um lintel em arco, totalmente desprotegido, aguarda o pacificamente o armazenamento das alfaias agrícolas. Adjacente ao volume porticado acha-se outra estrutura completamente encerrada, onde apenas sobressai a nascente o mesmo vão em arco que o volume adjacente. No entanto, durante a compreensão da função das várias partes da unidade rural, entre a corte, a capela, a adega, a prensa e o palheiro, encontra-se outra construção também executada com o intuito de conservar e abrigar os produtos agrícolas a longo ou curto prazo. Esta construção de armazenagem encontra-se dissimulada na uniformidade do conjunto. No limite nascente da composição, um extenso volume define, em conjunto com outros um pátio interior adjacente à habitação. Esse volume, também denominado por celeiro conduz o armazenamento de alimento em segmentos separados, sob um único sobrado de terra batida. O envelope da construção é perfurado por pequenas aberturas semicirculares, que ventilam o espaço através da disposição de um ripado horizontal de madeira sobre os vãos. Um grande portal central dà acesso a esse interior obscuro e fresco. O exemplo 17B relaciona-se mais com o eixo viário, na medida em que a sua fachada sul concretiza o limite entre o privado e o público, não se encontrando implantada apenas no centro do campo, abandonando a posição central face aos terrenos de exploração. Esta construção de admirável extensão demonstra uma controlada composição da fachada e volumetria. O plano que recebe a dimensão pública apresenta apenas um piso com pé-direito elevado, protegido por uma estrutura de asnas de madeira onde assentam peças de cerâmica. Esta fachada apresenta doze vãos distribuídos simetricamente em torno de uma entrada central encimada por uma bandeira semicircular de preenchimento permeável. A fachada norte é obliterada por um volume de pé-direito inferior, com apenas uma água, um espaço comunicante com o celeiro apenas por um portal alinhado com a entrada do armazém. No entanto, como a fachada a norte não é completamente isolada pelo volume adjacente abrem-se pequenos vãos junto ao limite da parede com a cobertura. Em relação aos dispositivos reguladores do clima, presenciase a construção sistematizada de postigos de madeira de um talhe tosco e expressivo, alojadas na parte interior do vão. A eira apresenta-se a norte da construção como um espaço de terra batida, distinto pelo contraste entre o terreno limpo e o solo em pousio colonizado por espécies vegetais autóctones. 5.6. UNIDADE 17_ ALCANHÕES Orientação /Contexto Forma/Distribuição Estrutura da Fachada Incidência Solar/ Número de Pisos Número de Faces Opacas Geometria UNIDADE OPERATIVA 18-REGUENGO DO ALVIELA latitude 39° 19.5’N longitude 8° 35.3’E altitude 23m inc. raios solares máx. 74º min.29º cultura clima materiais do solo materias da composição 18B18A 18B 18A N 90º 80º 70º 60º 50º 40º 30º 20º 10º 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 S 20m 20m 153 5.7. UNIDADE 18_ REGUENGO DO ALVIELA O Reguengo do Alviela é uma pequena zona de campos alagáveis que recebem uma irrigação por um pequeno afluente do Tejo, o rio Alviela. Num lugar adjacente ao afluente, destaca-se o exemplo identificado por denominação 18A, onde a cultura intensa do trigo e do milho dá origem a uma nova forma arquitectónica. O silo surge em casos de sistematização da cultura e da riqueza das unidades agrícolas. A quinta em análise constituí um conjunto dependências que organizam pátios rodeados de pórticos à medida de claustros despojados de ornamentos. A ala poente orientada em extensão a este-oeste aglomera as dependências da corte e do celeiro a oeste. A ala este desta composição é composta por seis silos de cereais. O topo da ala sul desenha o fim desta composição de volumes puros, com uma abertura de grandes dimensões que auxilia a entrada de alfaias do terreno para o espaço resguardado. O celeiro obedece ao ritmo continuo dos pórticos do pátio, apenas se deferência das restantes alas pelo a sua altura superior. A fachada a norte não apresenta qualquer aparência de aberturas que estabeleçam uma ventilação cruzada do espaço. A eira é um local incógnito, devido ao estado de ruina do local. Não existe uma afirmação concreta desse espaço, porém a organização do pátio da casa de lavoura demonstra a possível existência de um local de debulha e secagem. A Quinta de Alompé vive de uma dinâmica de volumes única, correlacionada com o desenvolver das atividades rurais. O conjunto divide-se em três partes, a habitação, a entrada e as cortes dos animais. O celeiro é um dos volumes que define o espaço de entrada. Este exemplo identificado pela referência 18B, admite uma disposição extremamente particular, o seu topo liga a entrada da quinta ao interior do piso superior, enquanto as fachadas de maior extensão, orientadas a esteoeste lidam com o declive topográfico, e transmitem a ligação a um piso inferior semienterrado. O exemplo configura-se sobre um volume de dois pisos bastante extenso, onde a norte se adossa outra construção. A fachada é divida em quatro tramos superiores, compostos por peças de cantaria de calcário. Os vãos são encerrados por grades metálicas, atrás das quais se ajusta uma rede metálica para prevenir a entrada de insectos. O espaço da eira neste caso reserva-se a qualquer lugar onde se compacta o solo e se encontra espaço para receber a produção. No entanto todos locais em torno do sequeiro parecem ser espaços de circulação, o que dificulta a suposição da fixação desse lugar. A materialidade da construção permanece semelhante aos restantes exemplos, as paredes são compostas por alvenaria de adobe e os vãos são guarnecidos com alvenaria de calcário.