scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Arquitectura e Personalização. O impacto das tecnologias CAD/CAM

Manuel António de Carvalho Oliveira

Abstract

Atualmente, a utilização das tecnologias de projeto e manufaturação digital desafia a prática arquitetónica a diversos níveis. Os seus impactos mais visíveis aparentam estar relacionados com a expansão das possibilidades geométricas e construtivas do desenho e a possibilidade de exploração de modos de produção não-standard. Neste contexto, as tecnologias digitais promovem um novo grau de personalização que pode afetar o modo como os arquitetos pensam e constroem os seus projetos. A presente tese procura investigar esta condição de modo a descobrir as suas potencialidades e limitações. Começa por enquadrar os diferentes modos de produção que governaram a história da arquitetura, e analisando o estado da arte das tecnologias digitais que suportam as novas condições de personalização da arquitetura. Com o intuito de avaliar esta oportunidade, é conduzida uma análise crítica ao tema. Baseada em exemplos da arquitetura contemporânea (por exemplo, trabalhos de Frank Gehry, Zaha Hadid, Un Studio, etc.), discute-se as possibilidades emergentes de personalização a três níveis: forma, estrutura e componente construtivo. Para complementar este estudo, o autor apresenta três trabalhos da sua experiência pessoal, desenvolvidos em contexto de académico e de investigação. A conclusão global desta investigação tende a entender que tecnologicamente, os arquitetos dispõem de um universo infinito de estratégias de desenho e construção para alcançar a personalização. No entanto, considerando os velhos constragimentos que ainda definem a prática da arquitetura (por exemplo, economia ou logísticas) os arquitetos tendem na maior parte dos casos a negociar a implementação das possibilidades digitais com abordagens mais tradicionais para projetar e construir. A presente tese estabelece como objetivo ilustrar este espetro de variação na disciplina na presente era digital. Palavras chave: Arquitetura Contemporânea; Tecnologias CAD/

Full text

Queria agradecer em especial ao Prof. José Pedro Sousa pela dedicação e gosto demonstrado na orientação deste trabalho, não esquecendo todos os restantes membros da equipa do DFL pela suas contribuições diretas e indiretas. Também gostaria de deixar uma palavra de reconhecimento aos meus pais, ao Jaime e à Diana pela constante motivação e apoio. Agradecimentos: Parte do trabalho que referido nesta dissertação foi financiado por: • Fundos FEDER através do Programa Operacional Factores de Competitividade – COMPETE e por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projecto PTDC/ ATP-AQI/5124/2012 • Programa de apoio à Investigação Jovem da Universidade do Porto - IJUP 2012 Apoio: Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado ii Arquitetura e Personalização: O Impacto das Tecnologias CAD/CAM Abstract Abstract Atualmente, a utilização das tecnologias de projeto e manufaturação digital desafia a prática arquitetónica a diversos níveis. Os seus impactos mais visíveis aparentam estar relacionados com a expansão das possibilidades geométricas e construtivas do desenho e a possibilidade de exploração de modos de produção não-standard. Neste contexto, as tecnologias digitais promovem um novo grau de personalização que pode afetar o modo como os arquitetos pensam e constroem os seus projetos. A presente tese procura investigar esta condição de modo a descobrir as suas potencialidades e limitações. Começa por enquadrar os diferentes modos de produção que governaram a história da arquitetura, e analisando o estado da arte das tecnologias digitais que suportam as novas condições de personalização da arquitetura. Com o intuito de avaliar esta oportunidade, é conduzida uma análise crítica ao tema. Baseada em exemplos da arquitetura contemporânea (por exemplo, trabalhos de Frank Gehry, Zaha Hadid, Un Studio, etc.), discute-se as possibilidades emergentes de personalização a três níveis: forma, estrutura e componente construtivo. Para complementar este estudo, o autor apresenta três trabalhos da sua experiência pessoal, desenvolvidos em contexto de académico e de investigação. A conclusão global desta investigação tende a entender que tecnologicamente, os arquitetos dispõem de um universo infinito de estratégias de desenho e construção para alcançar a personalização. No entanto, considerando os velhos constragimentos que ainda definem a prática da arquitetura (por exemplo, economia ou logísticas) os arquitetos tendem na maior parte dos casos a negociar a implementação das possibilidades digitais com abordagens mais tradicionais para projetar e construir. A presente tese estabelece como objetivo ilustrar este espetro de variação na disciplina na presente era digital. Palavras chave: Arquitetura Contemporânea; Tecnologias CAD/ CAM; Personalização em Série; Liberdade Geométrica. Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado iv Today, the use of digital design and fabrication technologies is challenging the architectural practice at many levels. Its most visible impacts seems to be related with expanding the geometric and constructive possibilities in the design and allowing the exploration of non-standard modes of production. In this context, digital technologies are promoting a new degree of customization that can affect the way architects think and build their designs. The present thesis looks to investigate this condition in order to uncover its potentials and limitations. It starts by framing the different modes of production that have ruled the history of architecture, and surveying the state of the art of digital technologies that support new conditions for customization in architecture. In order to evaluate such opportunity, a critical analysis of the subject is conducted. Based in examples from contemporary architecture (eg. works by Frank Gehry, Zaha Hadid, UN Studio, etc.), it discusses the emerging customization possibilities at three levels: the form, the structure and the building component. To complement this study, the author presents three works from his own experience developed in both the academic and research contexts. The overall conclusion of this investigation tends to realize that technologically, architects face nowadays an endless world of design and constructive strategies to engage with full customization. However, considering the old constraints that still define the practice of architecture (eg. economy or building logistics) architects tend in most of the cases to negotiate the implementation of the digital possibilities with more traditional approaches to design and construction. The present thesis thus aims to illustrate this spectrum of variation in the discipline in the current digital era. Keywords: Contemporary Architecture; CAD/CAM Technologies; Mass Customization; Geometric Freedom. Abstract Abstract Arquitetura e Personalização: O Impacto das Tecnologias CAD/CAM Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado vi Índice Índice Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Introdução Motivação | 03 Tema | 04 Problemática | 05 Metodologia | 06 Organização | 07 Contribuições | 10 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6 03 Parte I - Contextualização Produção em Arquitetura Introdução | 11 Manual | 13 Mecânica | 18 Digital | 22 Conclusão | 27 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 11 Tecnologias Digitais para a Personalização Introdução | 29 Tecnologias de Projeto Digital | 31 3.2.1 Desenho Assistido por Computador (CAD) | 31 3.2.2 Engenharia Assistida por Computador (CAE) | 36 3.2.3 Manufaturação Assistida por Computador (CAM) | 38 Tecnologias de Manufaturação Digital | 39 3.3.1 Fabricação Aditiva | 39 3.3.2 Fabricação Subtrativa | 41 3.3.3 Fabricação Formativa | 42 3.3.4 Fabricação Robótica | 44 Conclusão | 46 3.1 3.2 3.3 3.4 29 Tese de Mestrado Integrado Manuel Oliveira vii Capítulo 4 Capítulo 4 93 Experiência Pessoal Introdução | 73 Forma: Construção Robótica | 74 Estrutura: Trifoil | 81 Componente: Cúpula Paramétrica | 86 Conclusão | 89 5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 73 Análise Crítica Introdução | 51 Forma | 52 Estrutura | 59 Componente | 65 Conclusão | 72 4.1 4.2 4.3 4.4 4.5 51 Parte II - Arquitetura e Personalização Digital Parte III - Conclusão Lista de Acrónimos 101 Bibliografia Créditos de Imagem 103 115 Nota: Devido ao número elevado de bibliografia em Inglês, todas as traduções de Inglês para Português foram realizadas pelo autor. Índice Contextualização PARTE I 3Tese de Mestrado Integrado Manuel Oliveira Introdução Contextualização 1.1 Motivação Tendo o meu contato com a prática arquitetónica sido estabelecido unicamente através de meios analógicos, foi no ano letivo de 2010/2011, com as unidades curriculares Geometria e Arquitetura e Geometria Construtiva [Fig. 1.01], lecionadas pelos professores João Pedro Xavier e José Pedro Sousa, que tive a minha introdução ao computador enquanto ferramenta de desenho. Foi aí que descobri pela primeira vez as potencialidades do poder computacional enquanto ferramenta e motivador de desenho. Procurando aprofundar as competências adquiridas em contexto académico, integrei em 2012 o projeto de investigação do IJUP ‘Construção Robótica em Arquitetura’ [Fig. 1.02]. Coordenado pelo Prof. José Pedro Sousa e apoiado pela UP, este trabalho teve como objetivo desenvolver soluções personalizadas com recurso a um braço robótico. Em 2013, essa colaboração evoluiu com a integração na equipa do projeto ‘Tecnologia Robótica para um Introdução Capítulo 1 Figura 1.01 Trabalhos realizados pelo autor no âmbito das disciplinas semestrais Geometria e Arquitetura e Geometria Construtiva. 16 17Produção em Arquitetura Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira Com a disciplina da Arquitetura e do processo criativo a assentarem essencialmente no nível representacional, a comunicação de ideias através do desenho para a sua execução física levou à criação de convenções de desenho, através da representação perspética e ortográfica de edifícios. A partir daí, a separação do desenho da construção prolongou-se até aos dias de hoje, passando estes a acontecerem em momentos distintos do processo arquitetónico. Condição de Produção Estabelecendo a noção de produção artesanal enquanto “trabalho realizado com recurso a qualquer técnica ou aparelho, no qual a qualidade do resultado não se encontra pré-determinado”, David Pye (1995: 20) considera que palavras como ‘artesanato’ e ‘feitoà-mão’ devem ser tidas enquanto termos históricos, não sociais. Definindo a condição manual como “produção de risco” (1995: 9), Pye descura propositadamente a possibilidade de utilização de ferramentas associadas à produção de objetos3, optando antes por se debruçar na gradação do risco associado à qualidade do resultado final. Incapaz de garantir, pela sua natureza intrínseca, um controlo de qualidade a priori, a condição manual de produção depende unicamente do discernimento, destreza e cuidado com que o artesão executa o seu trabalho. Exemplificando esta dicotomia com um exemplo quotidiano, Pye elege a escrita à mão em oposição ao texto impresso representando, respetivamente, a “produção de risco” e a “produção de certeza”4. Sendo ambas as técnicas alvo de cuidadosas análises e zelo, estas duas situações diferenciam-se essencialmente pelo momento em que estas avaliações ocorrem. Ou seja, enquanto na elaboração de um texto impresso todas as ponderações, correções e revisões são anteriores à produção do objeto per si, sendo este depois fabricado nas quantidades e número desejados, no caso da escrita manual, análoga à condição produtiva artesanal, todo o exercício mental decorre simultaneamente com a ação, uma de cada vez, até que se dê o objeto por terminado. No entanto, e apesar do aparente rudimentarismo e morosidade associada ao processo, tal não significa que o artesão não esteja “constantemente a imaginar maneiras de limitar o risco recorrendo a modelos e padrões” (Pye, 1995: 21). 3 “É alguma coisa feita à mão?” (Pye, 1995: 25) 4 Segundo Pye (1995: 9), a “produção de certeza” carateriza-se pela sua capacidade de garantir um grau de qualidade do resultado pré-determinado, indo para além do controlo do operativo. Sendo a qualidade do produto artesanal analisada a dois níveis distintos e complementares, quer de acordo com critérios como “retidão”5e “graciosidade”6 (Pye, 1995: 30), quer segundo valores estéticos como a “diversidade”7 (Pye, 1995: 35), o trabalho do artesão consiste na interpretação da imagem mental que o arquiteto detém do objeto. Assumindo o desenho enquanto “uma declaração da forma ideal do objeto a realizar” (Pye, 1995: 31), e de acordo com os princípios albertianos, o mérito do artesão é então avaliado consoante o grau de aproximação do objeto manufaturado à ideia original . Simultaneamente, tal método evidencia a dependência dos arquitetos perante a destreza e capacidade do artesão, podendo-se dizer que “se o artesão não consegue ‘fazer’, então o desenhador não consegue especificar” (Dormer, 1994: 14) Sendo incapazes de produzir eficientemente objetos em grandes quantidades, os meios de índole manual destacam-se por “pensar através da ação” (Dormer, 1994: 8), assumindo-se para Dormer como única verdadeira ligação entre intenção e expressão (1994: 9). Essa particularidade específica da condição manual, em consonância com as acima descritas, ainda que morosa e dispendiosa quando comparada com o paradigma produtivo seguinte, permitiu almejar a produção de componentes únicos e singulares, ainda que em pequena quantidade, sendo por isso ainda hoje posta em prática na produção de produtos personalizados e de elevado valor acrescentado. De uma forma similar, a natureza alográfica da arquitetura no Renascimento introduz limitações no projeto e na construção. Por exemplo, a conceção e materialização de formas complexas tem limitações geométricas. sendo um processo lento e fortemente sujeito à imprecisão. Como resultado, cada edifício, e cada componente construtivo, tende a ser único. 5 “Habilidade para transmitir e resistir a forças do modo como o designer entendeu” (Pye, 1995: 30) 6 “Habilidade para dar a expressão estética que o designer entendeu” (Pye, 1995: 30) 7 Pye define a ideia de “diversidade” (1995:35), como a conjugação de diversos tipos de texturas, acabamentos diferenciados e atenções a detalhes numa mesma peça, expressando os propósitos intrínsecos da produção de risco. 18 19Produção em Arquitetura Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira 2.3 Condição Mecânica A partir da segunda metade do séc. XVIII despoletou em Inglaterra o que hoje apelidamos de Revolução Industrial. Neste período a força motriz animal e hídrica foi substituída pelas fornalhas a carvão, que se impuseram como nova fonte energética dominante. A mecanização e especialização das tarefas, assumiuse como um novo paradigma produtivo, que implicou profundas transformações na sociedade. Durante o processo de estruturação deste novo período, Michael Piore e Charles Sabel (Pine, 1993: 9-10) expõem duas perspetivas distintas acerca da aplicação dos processos mecânicos nos meios de produção. A primeira assenta na continuidade com o modelo produtivo precedente, conservando o artesão na base de todo o sistema produtivo, mas fazendo uso das ferramentas mecânicas, agora à sua disposição, para expandir, a sua capacidade produtiva. De uma forma diferente, o segundo modelo proposto, a ‘produção em série’, ambiciona a redução de custos de produção através da substituição das capacidades humanas por maquinaria especializada. Estes modelos de produção podem ser observados através da comparação de empresas como a Rolls-Royce e a Chevrolet, ou a alta-costura e a Zara, respetivamente (Pine, 1993: 10). À medida que os preceitos da Revolução Industrial se difundiram internacionalmente, cada país implementou o seu próprio modelo de sistema fabril. No caso norte-americano, o «American System of Manufactures” (Pine, 1993: 10), ganhou especial protagonismo, quer pelo seu sucesso, quer pelos princípios em que se baseava, como o uso de maquinaria especializada e a divisão do trabalho. Contudo, e apesar de ter o seu enfoque no aumento produtivo através da continuidade interrupta do processo, este modelo assentava alguns dos seus valores na condição anterior, devido ao papel preponderante dos operários no fabrico do produto, ainda que estes fossem sendo progressivamente retirados do processo de produção. No entanto, por se revelar insuficiente para acompanhar o crescimento das grandes companhias americanas, “o American System viria a ser ele próprio transformado por Henry Ford no sistema de Produção em Série” (Pine, 1993: 5), já durante o séc. XX, através da implementação da linha de montagem8 [Fig. 2.07]. 8 David Hounshell afirmava que a linha de montagem “levava o trabalho aos homens, (...) acelerando os homens lentos e abrandando os homens rápidos” (Pine, 1993: 16), regularizando o ritmo de todo o processo produtivo. Apelidado de Fordismo, este modelo alcançou uma maior eficiência produtiva, reduzindo custos de produção através da implementação de economias de escala9 e recorrendo à especialização humana e mecânica, traduzindo-se numa redução do tempo de contato com o produto. Remetendo máquinas e operários para a execução de tarefas cada vez mais específicas e repetitivas, é na regulação do ritmo e da estabilidade do processo de produção que a noção de produto estandardizado começa a tomar forma. Arquitetura A instauração da produção em série influencia o início de uma época marcante na arquitetura que se estende pelos séculos XIX e XX, onde o surgimento de um “espírito novo” (2006: 159), liderado por Le Corbusier, é visto como uma revolução necessária para reconstruir uma Europa dizimada pela Guerra10. Oferecendo uma resolução para o sério problema habitacional europeu, os arquitetos modernistas, imbuídos pelo “espírito de série” (Corbusier, 2006: 159) da nova indústria, começaram a apresentar soluções fundamentadas na utilização de materiais estandardizados, de modo a tornarem a habitação num bem mais acessível [Fig. 2.08]. Fascinado pela “imaginação e razão fria” (Corbusier, 2006: 71) presentes em máquinas como transatlânticos, aviões e automóveis, Kieran e Timberlake (2004: 6) afirmam que, “Le Corbusier viu o futuro da produção arquitetónica por máquinas, particularmente no caso habitacional em que oferecia uma via para satisfazer as necessidades sociais de habitação. Preocupações económicas e sociais fundiram-se com a construção e a arquitetura na sua visão vernacular11”. 9 “Quanto maior a companhia, maior é a produção, e menores são os custos” (Pine, 1993: 16). 10 Durante os períodos 1914 a 1918 e de 1939 a 1945, a Europa foi assolada por duas Grandes Guerras Mundiais, desalojando um incontável número de pessoas. 11 Segundo Kieran e Timberlake, a força da construção vernacular reside no resultado direto da conexão entre necessidade, desenho e fabrico. O pensamento modernista conseguiu traduzir essa honestidade na economia de produção industrial e assim direcionar os métodos vernaculares do séc. XX. Figura 2.07 Linha de montagem do modelo Ford T. Figura 2.08 Da esquerda para a direita: Pavillon de l’Esprit Nouveau e Unité d’habitation de Marseille (Le Corbusier). 20 21Produção em Arquitetura Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira Substituindo os materiais “heterogéneos e duvidosos” (Corbusier, 2006: 161), o fulgor progressista industrial possibilitou o acesso a novos materiais, homogéneos e comprovados em laboratório, como o betão e o aço. Iniciando a sua produção segundo especificações e geometrias normalizadas, esses novos componentes estandardizados eram prescritos de maneira a serem diretamente aplicados no local de construção. Desse modo, o edifício passou a poder entenderse como “uma entidade montada em vez de uma entidade construída” (Sousa, 2010: 24), evitando a necessidade de soluções personalizadas e de mão-de-obra especializada. Simultaneamente, e devido à revolução no setor dos transportes com a máquina a vapor, a possibilidade de produzir componentes construtivos longe do local de construção abriu as portas à pré-fabricação [Fig. 2.09]. Contudo, o aumento de rigor da produção dos componentes arquitetónicos veio permitir o seu cálculo e a antecipação do seu comportamento, conduzindo à afirmação de duas novas personagens no setor da construção, o engenheiro e o construtor. Não sendo “guiados por preconceitos acerca das aparências” (Kieran & Timberlake, 2004: 6), o seu pragmatismo e conhecimento técnico colocam a perceção pública do arquiteto ao nível de um ‘artista’, retirando-lhe um já fragilizado controlo sobre os processos construtivos, remetendo-o para a conceção formal e ideológica do edifício. Desse modo, e apesar da criatividade demonstrada pelos arquitetos modernistas em superar as limitações impostas pelas lógicas em série, a desvinculação entre desenho e construção, herdada da lógica albertiana, torna-se evidente. Tal deve-se quer à incapacidade técnica da profissão em acompanhar o desenvolvimento das diversas especialidades, quer ao entendimento, proporcionado pela indústria, do edifício como uma assemblagem de componentes pré-concebidos e prontos a usar. Esboçando um retrato do fulgor dessa época, Le Corbusier (2006: 166) afirma que: ”As construções não serão mais eclosões esporádicas em que todos os problemas se complicam ao acumular; a organização financeira e social resolverá, com poderosos e acertados métodos, o problema da habitação, e as construções serão imensas, geridas e exploradas como administrações. (…) permitirão o emprego do elemento em série e a industrialização da construção. Cessaremos talvez em fim de construir ‘sob medidas’” [Fig. 2.10]. Condição de Produção Recordando a noção de “produção de certeza” esboçada por Pye (1995: 20) no subcapítulo anterior, o processo produtivo da produção em série é oposto à ideia de “produção de risco”12. Sendo a utilização de processos autónomos e a produção em grande quantidade inerente a este método produtivo, este demarca-se doa condição manual pela sua capacidade de predeterminação da qualidade do produto antes da sua produção. Através da remoção do fator de risco da equação industrial, Pine (1993: 28) afirma que a produção em série se distingue, não apenas pela sua velocidade de produção, mas pela sua busca da “eficiência através da estabilidade e controlo”. Desse modo, a condição mecânica demonstra-se eficaz na produção de elementos repetitivos em grandes quantidades, garantindo a execução de tarefas repetitivas e planeadas, preferencialmente com recurso a maquinaria especializada. Contudo, este processo revela-se completamente inabilitado para a produção de bens com o caráter expressivo e individual próprios da condição manual. 12 Ver capítulo 2.3 Figura 2.10 Distanciação entre desenho e construção com a Revolução Industrial. Figura 2.09 Construído em ferro fundido e vidro, o Crystal Palace de 1851 (Joseph Paxton) tratava-se de uma grande estrutura modular standardizada. 22 23Produção em Arquitetura Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira 2.4 Condição Digital Chegados às década de 60 e 70, os atributos sociais que fomentaram a produção em série começaram a definhar, agravados pela turbulência do mercado americano em virtude do seu novo relevo cultural e económico. Como nota Pine (1993: 32), a homogeneidade e distribuição igualitária da riqueza dissiparamse, traduzindo-se em necessidades e desejos diferenciados, descontinuando a próspera estabilidade do paradigma fordiano. Simultaneamente, novos métodos de produção, sustentados no progresso tecnológico, mais flexíveis e economicamente competitivos, começaram a ganhar terreno, embatendo no modelo industrial assente. Nas palavras de Pine (1993: 32): “Quando um paradigma falha, é tempo de mudar para outro” . É neste contexto, segundo autores como Alvin Toffler e Stanley Davis, que se dá a emergência da Era da Informação. Desafiando as condições analógicas tradicionais - manuais e mecânicas - é através da invenção e desenvolvimento do computador que se verifica o início de novas formas de conceção e produção. Remontando à expressão grega “computare”, a palavra computador foi registada pela primeira vez em 1613, referindose à pessoa capaz de interpretar cálculos ou computações. No entanto, seria apenas no final da década de 1930, que Karl Zuse (1911 - 95), com o seu protótipo Z3, possibilitaria a integração das duas tecnologias distintas que formariam o computador: o cálculo integrado e a programabilidade [Fig. 2.11]. Tratando-se de um equipamento genérico, composto por hardware e software, Christian Wurster exalta que “as vantagens deste meio alternativo de processo de informação residem na sua velocidade, flexibilidade, programação e capacidade de armazenamento de dados” (Sousa, 2010: 27). Arquitetura Procurando ultrapassar as limitações da grelha cartesiana, Branko Kolarevic (2003: 4) refere que a história da arquitetura, em particular desde o Barroco até meados do século XX, encontrase repleta de exemplos de um design que enfrenta, com formas arrojadas, as normas pré-estabelecidas de beleza e proporção. No entanto, Rafael Moneo recorda que estas constituem “geometrias esquecidas para nós [arquitetos] devido às dificuldades da sua representação” (Kolarevic, 2003: 4). “Formas que são difíceis de desenhar e medir costumavam ser difíceis ou impossíveis de construir por notação”, revela Carpo (2011: 31), ao indicar o desenvolvimento do processo criativo da capela de Ronchamp (1954) de Le Corbusier13 [Fig. 2.12]. Sugerindo ainda a retoma de práticas e organizações autográficas do período medievalista, à semelhança de Antoni Gaudí (1852 - 1926) na Sagrada Família, Carpo acrescenta que “se [o arquiteto] não consegue desenhar o que vai na sua mente de modo a que outros a façam por si, pode sempre tentar fazê-la você mesmo” [Fig. 2.13]. No entanto, Ignasi de Sola Morales (1942 - 2001) defende que “a arquitetura dos tempos modernos é caracterizada pela sua capacidade de tirar partido de conquistas específicas dessa mesma modernidade: as inovações oferecidas pela ciência e tecnologia contemporânea” (Kolarevic, 2003: 3). Utilizado pela primeira vez pelos engenheiros civis da Ove Arup, aquando da realização da Ópera de Sidney (1959 -73) de Jørn Utzon (1918 - 2008), o computador assume o papel de uma máquina de cálculo (Sousa, 2010: 27). Entendido como um meio de resolução de complexos cálculos estruturais, levantados pelas secções esféricas do projeto, o próprio Ove Arup e o seu sócio Jack Zunz afirmam que estas “não poderiam ter sido construídas sem a utilização de computadores. Nós [Ove Arup] não poderíamos ter produzido a quantidade de informação, nem só o trabalho analítico, necessário para erguer o edifício no tempo disponível” (Sousa, 2010: 28) [Fig. 2.14]. 13 Procurando que partes do templo se assemelhassem a volumes irregulares esculturais, o arquiteto franco-suíço, devido às dificuldades de representação associadas, viu-se obrigado a redesenhar integralmente partes do projeto, substituindo-as por partes que ‘conseguisse desenhar’, limitando incontornavelmente as suas opções. (Carpo, 2011: 31). Figura 2.11 Réplica do Z3. Figura 2.12 Capela de Ronchamp (Le Corbusier). Figura 2.13 Catedral da Sagrada Família, fachada da Natividade (Antoni Gaudí). Figura 2.14 Construção da Ópera de Sidney (Jørn Utzon). 24 25Produção em Arquitetura Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira No entanto, o computador, até aí centrado apenas na execução de cálculos matemáticos e com pouca ou nenhuma oferta de software gráfico, falhava em cativar o interesse da classe arquitetónica, subserviente de uma cultura de representação assente na produção de desenhos bidimensionais e maquetas. Assim, este teve que oscilar entre estas duas dimensões - o cálculo e a representação – incentivando os arquitetos a incorporar o computador nas suas práticas específicas. Dessa maneira, ao longo de quatro décadas o computador passou de ser entendido como uma máquina de cálculo para passar a ser uma “máquina para a computação (geométrica e informativa)” (Sousa, 2010: 44). Utilizado inicialmente para replicar os processos tradicionais, nomeadamente na produção de desenhos técnicos e visualizações, seria apenas durante a década de 90 que os arquitetos começariam a desenvolver as suas primeiras aplicações computacionais para a arquitetura14. Posteriormente, e procurando responder aos desafios construtivos levantados pelas superfícies complexas desenvolvidas digitalmente, a disciplina arquitetónica referenciar-se-ia em soluções de indústrias como a náutica e a automóvel, recorrendo a softwares de engenharia e manufaturação assistada por computador, CAE e CAM, respetivamente, encerrando o ciclo iniciado com o CAD [Fig. 2.15]. Desse modo, o desenho, cálculo e fabricação de superfícies complexas pode ser viabilizado através da integração das tecnologias digitais na arquitetura [Fig. 2.16]. 14 Desconexas das práticas tradicionais, cunhar-se-ia a expressão ‘arquitetura digital’ para se referir aos projetos e edifícios que recorriam a processos de criação e transformação baseados na computação (Kolarevic, 2000: 251). Nas palavras de Kolarevic (2003: 4), “o que une os arquitetos, designers e pensadores digitais não é o desejo de ‘blobify’15 tudo e mais alguma coisa, mas a aplicação dessa tecnologia digital como meio para integrar diretamente conceção e produção de maneiras sem precedentes desde os mestres construtores de tempos medievais”. Como afirma Carpo no início deste subcapítulo, quando a complexidade formal de um projeto se torna impossível de ser descrito segundo as metodologias tradicionais, a última hipótese do designer é regressar ao modelo autográfico pré-Albertiano. Mas, ao contrário do modelo medievalista, a integração das tecnologias CAD/CAM na construção “evocam um estado ideal de original, autográfico” (Carpo, 2011: 32). Ao unir de novo o desenho e a construção, este modo de produção digital estabelece um novo “contínuo digital” (Kolarevic, 2003: 3), alterando o relacionamento entre a arquitetura e os seus meios de produção [Fig.2.17]. 15 Sendo o acrónimo de ‘Binary Large Object’, o termo ‘blob’ foi cunhado por Greg Lynn para descrever grandes formas digitais compósitas. Figura 2.15 Contínuo digital. Figura 2.16 Guggenheim de Bilbao (Frank Ghery). Uma dos primeiros edifícios cujo todo processo construtivo foi assistido por computador. Figura 2.17 Contínuo entre desenho e construção com a Era Digital. 26 27Produção em Arquitetura Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira Condição de Produção Até recentemente, os produtos ou eram únicos ou produzidos em série. Seria apenas durante a década de 80, com o desenvolvimento das tecnologias de fabricação digital, que esses dois processos de manufatura se fundem naquilo que Toffler (1971) cunharia de Personalização em Série. Residindo este modelo num “mundo de paradoxos com implicações práticas”, Davis (1987: 140) demonstra a sua aplicação através de um exemplo de manufaturação de camisas. Seguindo os preceitos da produção em série, quaisquer camisas produzidas numa altura específica e com as mesmas especificações acabariam por fazer parte de um único ciclo de produção. Assim, a produção de uma camisa personalizada significaria que o todo seria apenas uma parte. Por outro lado, se adotarmos os preceitos da produção manual, todas a camisas são únicas, apesar da morosidade e fragmentação do processo, substituindo a noção do todo pelo somatório das partes. Desse modo, e graças ao desenvolvimento tecnológico, nomeadamente às tecnologias de controlo numérico computorizado - CNC16 -, a personalização de todos os produtos passa a ser viável, tornando cada camisa, simultaneamente, num todo e numa parte do todo. Ou seja, “por outras palavras, a variedade já não compromete mais a eficiência e economia da produção” (Kolarevic, 2003: 52). Usufruindo deste novo paradigma, e recordando os conceitos anteriormente exibidos por Pye - produção de risco e produção de certeza - é possível concluir que, apesar da flexibilidade e destreza em produzir objetos diferenciados de elevado grau de complexidade, em semelhança ao paradigma pré-industrial, os meios de produção digitais inserem-se na noção de produção de certeza. Tal se deve à sua capacidade reduzir o fator de risco associado, recorrendo para isso à visualização e análise em ambiente digital. Precedente ao processo de fabricação, a complexidade ambicionada para o projeto não tem de ser limitada, podendo este ser constantemente otimizado em ambiente digital. Assim, a produção industrial já não significa a estandardização de produtos com o intuito de responder de igual forma a todas as necessidades. As tecnologias e métodos de personalização em série permitem, com eficiência e celeridade competitivas, promover a fabricação diferenciada através de variações controladas digitalmente. Na opinião de Gershenfeld (2007: 8) “tal futuro representa um retorno às nossas raízes industriais, antes de a arte ser separada dos artesãos, quando a produção era feita para os indivíduos ao invés de massas”. 16 Ver capítulo 3.3 Relativamente à influência destas tecnologias no campo arquitetónico, a personalização em série possibilita assim o desenvolvimento de soluções e componentes únicos, através da informação do modelo digital. Sendo capazes de produzir em massa objetos com geometrias complexas variáveis, as tecnologias CAD/CAM abrem caminho para a expansão do vocabulário formal da arquitetura (Sousa & Duarte, 2005: 222) 2.5 Conclusão Tendo por base a revisão histórica empreendida ao longo deste capítulo, foram delineados dois quadros, de modo a clarificar e sintetizar o discurso. O primeiro [Fig. 2.18], baseado em Sousa (2010: 64) traça uma mapa cronológico que evidencia os diferentes períodos selecionados face aos dois momentos essenciais da prática arquitetónica17 e às condições de produção. Aí, a noção de contínuo digital proposta por Kolarevic (2003: 3) através do paradigma da personalização em série é posta em evidência, na medida em que a construção e o desenho, passam a estar mais integrados no processo de arquitetura. Já o esquema seguinte [Fig. 2.19], resume as novas valências possibilitadas pela adoção da condição de produção digital, comparando-a com os modelos antecedentes. Assim, e de acordo com Pine (1993: 50-52), “a personalização em série (...) contém elementos da produção em massa e manual. Tal como na produção artesanal, a personalização em série tem um maior grau de flexibilidade nos seus processos; utiliza ferramentas e máquinas generalistas assim como as habilidades dos seus trabalhadores; fabrica por encomenda ao invés de por plano; e resulta em altos níveis de variedade e customização dos seus produtos e serviços. Para além disso, tal como na produção em série, a personalização 17 Ver capítulo 2.1 Figura 2.18 Atividade do arquiteto vs. possibilidades de produção de acordo com Sousa. 29Tecnologias Digitais para a PersonalizaçãoTese de Mestrado Integrado ContextualizaçãoManuel Oliveira 28 Produção em ArquiteturaTese de Mestrado Integrado ContextualizaçãoManuel Oliveira em série produz normalmente em grandes volumes, tem preços unitários reduzidos, e frequentemente (mas não sempre), confia em altos níveis de automação”. Desse modo, e apesar da crescente integração do computador em escritórios de arquitetura se manter focada essencialmente em objetivos como a produtividade e a visualização, as evidências demonstradas pelas práticas arquitetónicas mais inovadoras, confirmam a hipótese da implementação de uma terceira era, a era da Informação. Tendo repercussão no ambiente construído, e em semelhança à Renascença e à Revolução Industrial, a condição digital vem oferecer modos alternativos de conceção e fabricação, possibilitando soluções que estariam limitadas pelos meios de produção tradicionais. Por essa razão, e no âmbito do desenvolvimento deste trabalho, torna-se necessário proceder a um levantamento do estado da arte das tecnologias digitais que suportam e motivam este modelo. Tecnologias Digitais para a Personalização Capítulo 3 3.1 Introdução Entendido por Alan Turing (1912 - 1954) como uma “distinta máquina universal que pode levar a cabo as tarefas de quaisquer outras máquinas” (Ganshirt, 2007: 189), o uso do computador está por trás das possibilidades atuais de personalização, descritas no capítulo anterior. Neste contexto, o presente capítulo analisa o estado de arte das tecnologias digitais que permitem assistir à personalização em arquitetura Esta tarefa revela à partida um problema relativamente à consideração das fronteiras da área em estudo. Enquanto que as o desenho e da visualização através do computador são uma realidade da prática arquitetónica contemporânea, existem processos digitais complementares que permitem também a conceção e a construção. Considerando todo o espectro de tecnologias digitais (CAD/CAE/ CAM), Sousa (2010: 72) refere que “diferentes disciplinas tendem a entender, assimilar e utilizar tecnologias de maneiras diferentes”. De modo a esclarecer o papel das tecnologias CAD/CAE/CAM, Kunwoo Lee (1999: 1), examina as diversas atividades e funções inerentes ao desenho e fabricação de um produto industrial, delineando assim o conceito de “ciclo de produção” [Fig. 3.01]. Constituído por dois momentos basilares, semelhantes aos da prática arquitetónica - desenho e construção - estabelece-se assim um paralelismo evidente entre o ciclo de produção industrial e o da produção arquitetónica relativamente aos processos que definem ambos: o Desenho e a Fabricação. Figura 2.19 Comparação entre condições de produção. 30 31Tecnologias Digitais para a Personalização Tecnologias Digitais para a PersonalizaçãoTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira Assim, e de acordo com Sousa (2010: 73), podemos dizer que as “Tecnologias de Projeto” referem-se a todas as atividades relacionadas com a conceção, desenvolvimento e comunicação de uma solução de desenho anterior à sua manifestação física. Por essa razão, estas devem ser interpretadas segundo um conceito alargado, já que integram tanto as tecnologias CAD, delimitadoras da geometria do produto, as tecnologias CAE, responsáveis pela otimização e verificação da exequibilidade do mesmo, e as tecnologias CAM, que traduzem a informação digital do modelo em instruções para a ferramentas de fabricação digital. Relativamente às “Tecnologias de Manufaturação”, estas são entendidas como o conjunto de todos os processos e ferramentas necessárias para alcançar a manifestação física do objeto projetado. A seguinte tabela resume as principais tecnologias de desenho e manufaturação digital relevantes para a arquitetura [Fig. 3.02]: 3.2 Tecnologias de Projeto Digital 3.2.1 Desenho Assistido por Computador (CAD) De uma forma resumida, a definição das tecnologias de desenho assistido por computador (CAD) entende-se como a correta definição geométrica de um objeto. Segundo Ibrahim Zeid (1991: 15), estas “podem ser definidas enquanto ferramentas de desenho potenciadas pelo hardware e software do computador ao longo das diversas fases de modo a atingir o objetivo do projeto de forma eficiente e competitiva”. Recordando que existem diversos modos de utilização do computador, Terzidis (2006: xi), distingue entre os conceitos de “computação” e “computorização”. Nas suas palavras: “Computação é um termo que difere, mas é normalmente confundido com computorização. Enquanto computação é o procedimento de calcular, por exemplo, determinar algo através de métodos lógicos ou matemáticos, computorização é o ato de inserir, processar, ou guardar informação num computador ou Figura 3.01 Ciclo de Produção, de acordo com K. Lee. Figura 3.02 Classificação geral das tecnologias digitais em arquitetura, adaptado a partir de Sousa. 32 33Tecnologias Digitais para a Personalização Tecnologias Digitais para a PersonalizaçãoTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira sistema computacional. Computação é automação, mecanização, digitalização e conversão. (...) Por contraste, computação é a exploração do indeterminado, vago, obscuro e várias vezes de processos mal definidos” (Terzidis, 2006: xi). Neste contexto, torna-se claro que a forma mais vulgar de utilização do computador em arquitetura reside na ideia de computorização, assente nas suas faculdades de representação. No entanto, é a exploração das suas valências computacionais, isto é, de cálculo, que suporta a realização de muitos dos edifícios mais inovadores da arquitetura contemporânea. A Pathé Foundation ou o City Hall de Londres, por exemplo, estão sedimentados na utilização de processos computacionais [Fig. 3.03]. Assim, seguindo a classificação de Terzidis (2006: xi), analisa-se em seguida a diferença entre os dois processos de desenho: • Computorizado • Computacional Desenho Computorizado Simplificadamente, pode-se dizer que o desenho computorizado estende para o meio digital o tipo de processos e técnicas de desenho tradicionais realizadas através de instrumentos analógicos. Como categoriza Daniel Schodek (2005: 182-184), os softwares subjacentes são baseados em “sistemas de entidades de desenho, componentes ou modeladores conceptuais e renderizadores1” [Fig. 3.04]. Apesar de limitado pela diversidade de primitivas disponíveis e requerendo a declaração precisa e definitiva dos seus atributos numéricos, o desenho computorizado introduz uma maior produtividade na criação de desenhos, face aos processos de desenho analógicos. Por este motivo, Mark Burry (1997) questiona a capacidade destas tecnologias alterarem a natureza tradicional do modo de desenho e conceção em arquitetura, visto que o projeto mantém-se como uma entidade estática que aguarda pela ação do projetista, evoluindo através da adição e remoção de elementos do desenho ou das suas partes. Como Terzidis (2006: 39) conclui, “a utilização de aplicações digitais não é por si só um ato de desenho digital”. Tal como no papel, o desenho computorizado continua a ser um registo estático. Tende-se a representar no ecrã aquilo que já se sabe, ou pensou, a priori. 1 Sistemas baseados em entidades de desenho são aqueles, como a versão standard do AutoCad, que se especializam na produção de documentos 2D, fazendo uso de diversas primitivas e ferramentas de desenho, em tudo semelhantes aos processos tradicionais. Por sua vez, os softwares tipo Revit ou ArchiCad, baseados em componentes, fazem uso da tecnologia BIM (building information modeling) para, através de componentes tridimensionais, acrescentarem informação ao modelo, como materiais, tipos de construção,etc. Finalmente, aos modeladores conceptuais e renderizadores, como o Google SketchUp, focam-se unicamente na geração da forma, apenas com a intenção de criar representações visuais. Figura 3.03 Da esquerda para a direita: Pathé Foundation (Renzo Piano) e City Hall de Londres (Norman Foster). Figura 3.04 Da esquerda para a direita: Sistema de entidades de desenho (Autocad 2010), de componentes (Revit Architecture 2013), modeladores conceptuais e renderizadores (Google Sketchup e 3D Studio Max 2014). 34 35Tecnologias Digitais para a Personalização Tecnologias Digitais para a PersonalizaçãoTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Contextualização ContextualizaçãoManuel Oliveira Manuel Oliveira Desenho Computacional De acordo com Kolarevic (2003: 13), “na prática arquitetónica contemporânea, o meio digital é cada vez mais utilizado não como ferramenta de representação mas como uma ferramenta generativa para a derivação da forma e as suas transformações – a morfogénese digital”. Com esta abordagem, o enfoque desloca-se do desenho específico de uma dada forma para a articulação de lógicas computacionais de geração de forma(s), tirando partido das capacidades de cálculo do computador. De acordo com Terzidis (2006: 15), o desenho computacional pode ser entendido como “um mediador entre a mente humana e o poder de processamento do computador”. Encontrando referências inspiradoras na Natureza, o biólogo D’Arcy Thompson (1860-1948) mostrou no início do séc. XX, que diferentes formas animais podiam ser descritas e alteradas através de simples transformações matemáticas [Fig. 3.05]. De modo semelhante, a descoberta do ADN veio atestar como pequenas alterações na estrutura comum da ideia de humano podem controlar a geração de uma enorme variedade de resultados distintos, por outras palavras, diferentes homens e mulheres. Analogamente, a definição de relações geométricas e critérios hierárquicos, possibilita ao desenho computacional a modificação e o rearranjo de parâmetros, abrindo novas oportunidades para a experimentação formal, quer seja através da exploração de relações geométricas, quer seja através da utilização de parâmetros externos2. No entanto, para tirar partido dos softwares computacionais, o arquiteto deve mudar a sua abordagem conceptual. Em vez de procurar conceber uma forma específica com uma geometria estabilizada, deve estruturar a sua intenção de projeto baseada numa geometria flexível e regulada. Esta ideia é então capturada através da definição de um conjunto de regras, constituída por um associações de elementos variáveis e restrições que delimitam o comportamento do modelo digital [Fig. 3.06]. Nesse contexto, a aceitação da indeterminação é expressa pela escolha das variáveis que definem o espetro da flexibilidade do modelo. Contudo, esta liberdade é simultaneamente calibrada pela seleção de restrições, que traduzem as regras ou critérios do arquiteto, para assegurar que o essencial das suas intenções não é perdido enquanto explora as diversas variações possíveis da forma. 2 Podendo estes valores ser derivados das mais diversas fontes, como ficheiros Excel, por exemplo, os valores de entrada podem ser associados a fórmulas estruturais, princípios estéticos, requerimentos económicos, etc. Como conclusão, Terzidis (2006: 16) entende as estratégias de desenho computacional como uma ferramenta de desenho generativo “que permite aos humanos entender, vencer e em última análise ultrapassar as suas próprias limitações físicas e mentais”. [Fig. 307] Este tipo de processo é fundamental para o arquiteto poder explorar abordagens de projeto baseadas na variação. Face ao tema da personalização, esta técnica é muito importante. Figura 3.05 Exemplo de transformações de D’Arcy Thompson. Figura 3.06 Distinção entre desenho computorizado e desenho computacional. Ao contrário do primeiro esquema, estático e estabilizado, no segundo vemos que o raio da circunferência R encontra-se relacionado com a distância D. Figura 3.07 Serpentine Pavillion de 2002 (Toyo Ito) e descrição gráfica do processo generativo. Usando uma lógica recursiva, a regra deste projeto sustenta-se na conexão da mediatriz de um segmento de reta com o primeiro terço da reta adjacente, dando a impressão de um quadrado que roda e se interseta a si próprio. Numa ultima fase, todos os segmentos de reta são prolongados para as fachadas rebatidas. Arquitetura e Personalização Digital PARTE II 51Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira 4.1 Introdução Como já se teve oportunidade de referir, a integração das tecnologias de fabricação digital1 em arquitetura não é capaz de cumprir ainda todas as suas promessas2. Tal se deve, na opinião de Sousa e Duarte (2005: 226) ao caráter importador da disciplina e às diferenças específicas do objeto arquitetónico comparativamente com outras áreas de desenho de produto. Por esse motivo, este capítulo procura entender as nuances da integração das tecnologias de fabricação digital na arquitetura, através da análise de várias formas de aplicação. Para tal, definiramse três tópicos associados à construção do objeto arquitetónico, nomeadamente: • Forma • Estrutura • Componente Esta análise procura assim debruçar-se unicamente sobre as tecnologias de desenho e manufaturação digital, deixando de fora as de computação física, que fazem parte de um caso mais recente e diferente. Ou seja, apesar de conceitos arquitetónicos como ‘Forma’, ‘Estrutura’ e ‘Componente’, poderem ser também analisados do ponto de vista do ‘Comportamento e Interatividade’, no âmbito deste trabalho, opta-se por não os investigar. 1 São várias a obras literárias que tomam como sinónimas as expressões ‘tecnologias CAD/CAM’ e ‘tecnologias de fabricação digital’. No entanto, por opção do autor, e tendo em conta o caráter específico deste capítulo, considerou-se mais apropriado passar a adotar a última expressão, já que reforça o caráter produtivo destas tecnologias. 2 Ver Capítulo 2.4. Análise Crítica Capítulo 4 52 53Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira Adicionalmente, e como estratégia de análise dos referidos temas, decidiu-se incluir, pelos menos, um trabalho de Frank Gehry em cada capítulo. 4.2 Forma A questão formal foi desde sempre um dos aspetos basilares da arquitetura como meio de buscar beleza3. Independentemente das técnicas a si associadas, os limites exteriores e a aparência do objeto arquitetónico procuraram sempre representar os pensamentos e intenções do arquiteto. Nas palavras de Fernando Távora (2006: 74), “as formas que ele [o arquiteto] criará deverão resultar (...) de um equilíbrio sábio entre a sua visão pessoal e a circunstância que o envolve”. Todavia, a prática arquitetónica é marcada por vários desafios, entre eles as duas escalas de trabalho do arquiteto: a da forma isolada e a do conjunto de formas. Prendendo-se a primeira com a definição geométrica de um único objeto, a segunda noção debatese com o desenho de formas interdependentes que atuam como uma única entidade, sejam bairros, partes de cidade ou até mesmo cidades de raiz. Este ensaio procura analisar criticamente o impacto das tecnologias de fabricação digital no desenvolvimento formal em arquitetura. Forma Isolada Todo o projeto arquitetónico tende a ser personalizado. Ao contrário de outras indústrias criativas, onde os seus produtos, independentemente da sua complexidade formal, destinam-se à produção em série, na arquitetura tal não acontece. Debatendo-se com condicionantes particulares em cada projeto, como o cliente, o sítio, o programa, etc., estas tendem a ser únicas, garantindo a sua personalização e imparidade. Assumindo o pioneirismo na integração das ciências computacionais em arquitetura, Frank Gehry estabelece uma ponte entre os processos manuais e digitais. Embora recorrendo exclusivamente a processos de conceção analógicos, como esquissos e maquetas em cartão, os seus edifícios são caracterizados por uma 3 Do latim, venustas é o termo cunhado por Vitrúvio (15 d.C.) associado à beleza e à apreciação estética. procura incessante de grande liberdade formal, como demonstra o Walt Disney Concert Hall (2003) [Fig. 4.01]. Contudo, “à medida que as formas de Gehry se tornam mais complexas, a única descrição (geométrica) possível da forma é a própria forma - agora como um modelo tridimensional” (Lindsey, 2001: 39). É nesse contexto que o computador entra na prática arquitetónica de Gehry. Sendo visto apenas como um meio descritivo, a capacidade de cálculo de superfícies complexas não deixa de influenciar a qualidade gestual do arquiteto, bem como a produção de modelos. É apenas quando a forma se encontra aí estabilizada que é digitalizada através da recolha de pontos chave e recriada digitalmente no CATIA4 para produção de desenhos construtivos. Adicionalmente, e recordando a noção de contínuo digital5, é possível dizer-se que, no caso de Gehry, “desenhos e maquetas são análogos de construção” (Lindsey, 2001: 17), pois a forma concebida tradicionalmente é a mesma representada no software de CAD [Fig. 4.02]. Como aponta Zaera, “ sou [Gehry] capaz de transformar um esquisso num modelo num edifício” (Lindsey, 2001: 54). 4 Software de modelação tridimensional concebido originalmente para a indústria aeroespacial. 5 Ver Capítulo 2.4 Figura 4.01 Walt Disney Concert Hall (Frank Gehry). Figura 4.02 Da esquerda para a direita: Esquiço inicial do Walt Disney Concert Hall e processo de digitalização da maqueta de trabalho para o software CATIA. 54 55Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira Já no Heydar Aliyev Center (2012), as superfícies de dupla curvatura propostas por Zaha Hadid são, por sua vez, resultado de uma abordagem distinta da de Gehry [Fig. 4.03]. Embora contribuindo o processo criativo com técnicas tradicionais, como o desenho e a produção de modelos, é através da manipulação digital da forma que a arquiteta iraniana desenvolve “formações elaboradas como ondulações, bifurcações, dobras e inflexões” (Bekiroglu, 2014: 11). Recorrendo numa primeira instância a softwares inicialmente destinados à indústria cinematográfica, Joseph Giovanni é da opinião que Zaha Hadid tem como gerador “um campo de forças tridimensional” (Bekiroglu, 2014: 38). Ou seja, em vez de se inserir num vocabulário formal pré-concebido, a superfície é esculpida e deformada digitalmente até atingir os objetivos traçados pela arquiteta. Aí, a geometria é convertida para NURBS6, dando início ao processo de detalhe e construção. Desse modo, erguendo-se da topografia da praça e conformando todo o edifício numa única e contínua superfície, este projeto utiliza o computador para extrapolar as limitações da grelha cartesiana com o cálculo de geometrias de outro modo inacessíveis. Contudo, e se estendermos o conceito de forma para o espaço que esta encerra, devemos também incluir nesta análise projetos como o Mercedes-Benz Museum (2006) dos UN Studio [Fig. 4.04]. Apesar de exteriormente não aparentar ter o mesmo tipo de complexidade que os dois trabalhos precedentes, é pelo desenvolvimento do seu espaço interior que este edifício é aqui apresentado. Referenciandose na organização espacial do Guggenheim de Nova Iorque (1959) de Frank Loyd Wright (1867-1959), este museu organiza-se 6 Apelidada de Non-Uniform Rational B-Spline (NURBS), constitui um sistema de representação geométrica assente na descrição matemática precisa da forma, indicada para processos de manufaturação digital. planimetricamente, segundo Ben van Berkel (2006: 53), como uma “estrutura matemática em trevo [que] consiste em três cículos sobrepostos dos quais o centro foi retirado para formar um átrio triangular”. Controlada computacionalmente e interligada verticalmente por um complexo sistema helicoidal de rampas, este sistema liga as duas exposições permanentes do museu permitindo que cada utente selecione livremente o seu percurso [Fig. 4.05]. Cruzando-se e sobrepondo-se continuamente, a complexidade destes percursos, e as formas por eles geradas, é difícil de conceber e compreender através de métodos tradicionais. Contudo, a definição computacional da geometria do edifício possibilitou o controlo do modelo digital ao mesmo tempo que susteve aquilo que Berkel (2006: 83) apelida de “sustentabilidade digital” - a redução do risco através da repercussão instantânea das alterações sujeitas aos parâmetros computacionais do edifício. Esta abordagem desenrolase assim num único momento, interpretando a forma do edifício como algo mutável e variável, suscetível à mudança. Figura 4.04 Mercedes-Benz Museum (UN Studio) Figura 4.05 Da esquerda para a direita: Corte perspético e representação do esquema de circulação do MercedesBenz Museum. Figura 4.03 Heydar Aliyev Center (Zaha Hadid). 56 57Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira Conjunto de Formas Sempre que encarados com desafios à escala urbana, por exemplo, as limitações do desenho manual tornam difícil conceber e descrever em tempo útil um conjunto de soluções variadas, adaptadas a diferentes situações. Quando se pretende ir para além da repetição no projeto, o arquiteto tende a considerar a definição de alguns tipos de modo a poder organizar uma intervenção mais personalizada, combinando essas soluções. O projeto da urbanização da Malagueira (1973) de Álvaro Siza constitui um exemplo da percepção da necessidade da arquitetura ser mais personalizada, e das limitações em poder concretizá-la de uma forma extensiva [Fig. 4.06]. Neste projeto foram desenvolvidos mais de trinta e cinco tipos de casas (Duarte, 2001: 348) direcionadas a diferentes tipos de famílias. O aglomerado urbano resultante considera variação, mas de uma forma combinatórica. Procurando investigar o modo como o computador permite expandir as capacidades de personalização num projeto a esta escala, José Pinto Duarte tomou a urbanização da Malagueira como caso de estudo para a sua tese de doutoramento [Fig. 4.07]. Começando por reconhecer as duas limitações essenciais no esquema envisionado por Siza, Duarte destaca a dificuldade de, através de meios manuais, representar um universo de soluções personalizadas tão vasto quanto o número de possíveis habitantes. Simultaneamente, reconhece também a dificuldade de transmissão desse sistema a outros arquitetos, já que nunca havia sido explicitamente determinado. Assim, e através da análise das diversas tipologias da Malagueira, Duarte começa por sistematizar as regras de desenho utilizadas por Siza e seus colaboradores em gramáticas da forma7. Clarificadas, este conjunto de regras tornase passível de integrar num programa de computador interativo, em que a geração das habitações processa-se, numa explicação sucinta (Duarte, 2001: 347), na dissecação recursiva de retângulos que localizam as quatro diferentes zonas funcionais (patio, sala, serviços, quartos] e o posicionamento chave da caixa de escadas. Na opinião de Duarte (2001: 348), a integração das regras de desenho de Siza numa abordagem computacional possibilita a sua utilização efetiva para a personalização de habitações. Contudo, para explorar este tipo de abordagens não é necessário adotar uma linguagem já concebida, podendo o arquiteto conceber 7 Conceito desenvolvido por George Stiny e James Gips em 1971 que consiste na definição das regras da forma e do seu motor generativo que seleciona e processa essas regras. Devido à natureza analítica destes processos, foram adaptadas para abordagens computacionais, encontrando-se na génese dos softwares paramétricos. Figura 4.07 Hipóteses de tipologias da Malagueira, baseadas na sua gramática da forma. (José Pinto Duarte). Figura 4.06 Urbanização da Malagueira (Álvaro Siza Vieira). Figura 4.08 Da esquerda para a direita: Variomatic House (Kas Oosterhuis), imagem trimensional, esquemas de variação computacional e ambiente gráfico do software. 58 59Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira de raiz o tipo de soluções e variáveis que o seu “meta-design”8 oferece (Kolarevic, 2004: 213). Procurando conceber uma “casacatálogo” (Oosterhuis, n.d.), Kas Oosterhuis desenvolve o conceito da Variomatic House [Fig. 4.08]. Elástica em todas as direções, Oosterhuis tira partido da capacidade de cálculo do computador para definir um conjunto de regras que promova a participação ativa do cliente na conceção da sua habitação. Sendo os clientes “co-designers da sua própria casa” (Oosterhuis, n.d.), quer a configuração interna e programática do projeto como a oferta de possibilidade de acabamentos e volumetrias, adapta-se consoante a vontade do utente, podendo este personalizá-la dentro de um conjunto de regras pré-estabelecidas pelo arquiteto. No entanto, as tecnologias de desenho computacional não se limitam ao desenvolvimento de soluções de bairros ou pequenos agregados habitacionais, podendo também influenciar o desenho urbano de uma nova parte de cidade. Tirando partido do contexto em que se insere e da morfologia natural do terreno, o One North Masterplan (2001-2021) para Singapura é, para Zaha Hadid, um meio de utilizar as capacidades de processamento do computador para promover um desenho urbano adaptativo, sem recorrer a técnicas de repetição ou combinação [Fig. 4.09]. Buscando a ideia de paisagem artificial, o conceito do One North passa pela ideia de uma “mega-forma” (Schumacher, 2004: 45) que se adapta gentilmente às condições naturais do terreno ao mesmo tempo que 8 Nas palavras de Kolarevic (2004: 213), meta-design pode ser entendido como uma estratégia de “desenhar o design”. Ou seja, é a elaboração de sistemas, neste caso computacionais, que permitem o controlo de um projeto através da definição dos seus parâmetros e variáveis. responde à integração e harmonização das várias grelhas urbanas adjacentes com uma diversidade de ruas, praças e edifícios difíceis de conceber através de métodos tradicionais. A forma é livre, não se restrigindo a modelos platónicos, “demasiado exatos e vulneráveis à corrupção e degradação por adaptações tardias” (Schumacher: 2004: 45-46). Esta noção dá, na opinião de Schumacher (2004: 45), “uma coerência espacial rara nas metrópoles modernas”, englobando simultaneamente um grande capacidade de adaptação e variação numa forma reconhecível. Conclusão Face aos exemplos apresentados, verifica-se que a integração das tecnologias digitais possibilitou a expansão e controlo de um vocabulário formal mais vasto do que aquele que nos era acessível através dos métodos tradicionais. Adicionalmente, a adoção de abordagens de índole computacional permite ao arquiteto, como aponta Terzidis (2006: 16), “ultrapassar as suas próprias limitações físicas e mentais”. Ou seja, aceder a estratégias de variação e geração formal, propondo famílias de soluções que se adaptam à vontade do arquiteto. Contudo, a criação destas formas implicará repercussões na delineação da estrutura e componentes do edifício. 4.3 Estrutura O caráter construtivo e de estabilidade da obra arquitetónica é encarado desde tempos vitruvianos9 como um dos elementos fundamentais da arquitetura. Encontrando-se atualmente dominado por soluções estandardizadas em materiais como a madeira, o metal e o betão, a exploração de novas formas leva à necessidade de ir para além das “regras de ouro” (Veltkamp, 2007: 1) definidas pelas soluções estruturais convencionais. Desse modo, a integração das tecnologias CAD/CAM é vista como uma contribuição para a definição de soluções estruturais personalizadas, de acordo com as condicionantes de cada projeto, organizando-se segundo dois conceitos fundamentais: soluções não-standard e soluções compostas. Distinguindo-se pelo grau de personalização do projeto, a primeira noção procura tirar o máximo 9 Do latim, firmitas é o termo cunhado por Vitrúvio (15 d.C.) associado à solidez e qualidade da construção. Figura 4.09 One North Masterplan (Zaha Hadid). 60 61Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira reavaliada, optando antes por uma solução em painéis LVL10. Leve e com impacto ambiental reduzido, o sistema construtivo engendrado por Jürgen Mayer consiste numa complexa rede de elementos estruturais entrelaçados (Uihlein, 2012: 56). Fazendo uso das palavras de Cecil Balmond11 (Larner, 2005: 206), a opção deste tipo de soluções não advém, necessariamente, de questões téctónicas, mas antes de um modo de contribuir, através do ritmo e movimento do desenho estrutural, para uma melhor leitura da forma em favor do que que seria “mais uma grelha” tácita. Desse modo, a intricada grelha quadrangular é executada em mais de três mil peças personalizadas de espessura (68 a 311 milimetros) e geometria variável com recurso a tecnologias de fabricação subtrativa CNC. Tirando também partido das tecnologias de engenharia assistida por computador, nomeadamente da sua capacidade de antever o comportamento futuro dos edifícios, o Phaeno Science Center (2005) em Wolfsburg é, nas palavras de Paul Scott (Phaeno Science Center, n.d.) “um edifício que se engana muitas vezes” [Fig. 4.11]. Ao contrário dos edifícios convencionais, nenhum dos elementos da caixa trapezoidal pontualmente apoiada proposta por Zaha Hadid possui, isoladamente, qualquer tipo de capacidade portante. É apenas quando todos os elementos trabalham em conjunto que este sistema se assume como um única e coesa estrutura. Na opiniao de Paul Scott, sem os avanços das tecnologias digitais, este edifício “seria 10 Com excelente resistência à flexão, tensão e compressão, o Laminado de Folheado de Madeira (LVL) é feito a partir de laminados de madeira, colados e sujeitos a pressão de modo a formar um produto alternativo ao aço para aplicações estruturais. 11 Embora dirigindo-se ao Serpentine Pavillion (2005) de Álvaro Siza e Souto Moura, devido às semelhanças da opção estrutural de ambos os projetos, o discurso de Cecil Balmond foi adaptado para o Metropol Parasol. partido das capacidades das tecnologias digitais para a produção de componentes diferenciados, enquanto a segunda busca uma abordagem híbrida entre os ideais da personalização em série e da economia de escala. Assim, este ensaio procura investigar o impacto das tecnologias digitais no campo estrutural da arquitetura através da seleção de exemplos práticos, segundo os conceitos acima enunciados. Soluções não-standard Apesar das tecnologias de desenho assistido por computador serem capazes de calcular e demonstrar superfícies complexas com facilidade, uma das principais questões com que a arquitetura de índole digital se debate é, na opinião de Veltkamp (2007:1), com a realidade da construção, nomeadamente, a percepção dos fenómenos estruturais em formas tridimensionais complexas. Referenciados por autores como Eekhout e Lockeffer (Veltkamp, 2007:1) como os “pesadelos de design fluido”, os arquitetos levaram, com as suas formas, à criação de inteligentes e inovadores soluções estruturais personalizadas, alicerçadas nas capacidades de análise e fabricação das tecnologias CAD/CAE/CAM. Desenhado para a cidade andaluza de Sevilha, o Metropol Parasol (2011) pode ser descrito como um estrutura esquelética que paira sobre a Plaza de la Encarnacion [Fig. 4.10]. Demonstrando uma geometria arrojada, o edifício foi inicialmente idealizado em metal. No entanto, e após uma análise estrutural preliminar ao modelo digital, os resultados provenientes levaram a que essa opção fosse Figura 4.10 Metropol Parasol (Jürgen Mayer). Figura 4.11 Phaeno Science Center (Zaha Hadid). 62 63Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira calculado e decomposto em sistemas estruturais separados que, quando combinados, produziriam um estrutura sobredimensionada, com paredes duas vezes mais espessas” (Phaeno Science Center, n.d.). Desse modo, dos 10 cones presentes na base do edifício12, fixos pelo peso próprio da caixa que suportam, apenas seis sustentam a totalidade da volumetria, enquanto os restantes apoiam a malha de aço da cobertura. Construído em betão armado autocompactável, a sua cofragem foi realizada maioritariamente com recurso a placas metálicas, recorrendo pontualmente a elementos produzidos em GRP13, através de técnicas digitais de fabricação subtrativa. Contudo, apesar do crescente acesso às tecnologias de fabricação digital, existem soluções estruturais que optam por não descrever diretamente a forma do edifício, racionalizando a sua estrutura. Esse tipo de opções prende-se, normalmente, por razões de índole económica ou por garantia da aplicabilidade da solução. Uma estrutura exemplificativa é a do Guggenheim de Bilbao (1997) de Frank Gehry [Fig. 4.12]. Realizada exclusivamente “a partir de elementos simples e convencionais” (Veltkamp, 2007: 50), a malha metálica reticular oculta entre a envolvente interior e exterior do edifício é constituída exclusivamente por segmentos planos que racionalizam as superfícies de curvatura simples do museu [Fig. 4.13]. Espaçadas de três em três metros, com um tirante diagonal de reforço, o próprio detalhe de conexão entre os perfis estruturais 12 De volumetria e dimensão diferenciada, estes cones foram cofrados segundo uma técnica mista, utilizando placas de madeira para as superfícies regradas e elementos maquinados em GRP (Glass Reinfoced Plastic) para as áreas de dupla curvatura de conexão entre a parede e a laje (Kara, 2008: 89) 13 Glass Reinforced Plastic. é pensado para ser o mais versátil e fléxivel possível, sem ter de recorrer à personalização do componente. Contudo, arquitetos como Yun e Schodeck (Veltkamp, 2007: 2) são da opinião que este tipo de abordagens resulta em “perigosas incongruências arquitetónicas”, bem como na necessidade de integração de sistemas intermediários entre a estrutura e o revestimento, com recurso a processos manuais [Fig. 4.14]. Soluções Compostas Apesar da capacidade de personalização de elementos estruturais possibilitada pela integração das tecnologias digitais na prática arquitetónica, os arquitetos vêem ainda na noção de economias de escala e na repetição de elementos, um meio de reduzir custos e tempos de construção. Assemelhando-se a um aglomerado acidental de elementos metálicos, o Estádio Nacional de Beijing (2007), de Herzog & de Meuron, é popularmente conhecido como Bird’s Nest [Fig. 4.15]. Constituído por dois elementos essenciais - bancadas e Figura 4.12 Guggenheim de Bilbao em construção (Frank Gehry). Figura 4.14 Guggenheim de Bilbao (Frank Gehry). Figura 4.13 Fotografia de detalhe construtivo do Guggenheim de Bilbao. Figura 4.15 Estádio Nacional de Beijing (Herzog & de Meuron). 64 65Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira revestimento exterior - apenas este último será alvo de análise e constituirá um dos principais fatores distintivos deste projeto. Com a intenção de retirar massa visual ao estádio14, os arquitetos desde cedo procuraram desviar-se de soluções como mastros e arcos, concebendo uma estrutura esquelética conformada aos limites geométricos da forma. Apesar da sua aparência caótica e irracional, esta estrutura é na realidade definida através de um ponderado sistema de sobreposição qualitativa tripartida [Fig. 4.16]. Desse modo, iniciando com o seccionamento vertical da forma segundo intervalos regulares, Herzog & de Meuron definem assim os elementos primários de suporte. Posteriormente, são adicionadas as estruturas secundárias de apoio aos acessos do estádio e, finalmente, os elementos terciários, que contribuem decisivamente para o desempenho estético e singularidade do projeto. Nas palavras de Stephen Burrows e Martin Simpson, “apesar de ter sido necessário algum scripting para criar a geometria inicial, esta necessitou de muita intervenção manual em mover elementos e puxando os ângulos. Segundo vários pontos de vista este projeto é escultural” (The Beijing National Stadium Special Issue, 2009: 17). Todos os perfis utilizados neste revestimento são de secção quadrangular e definidos por quatro placas individuais de aço de 40 mm. Esta opção serve para responder simultaneamente quer às necessidades estruturais, quer aos graus de curvatura simples que estes perfis têm de realizar para manter a tangência à forma de base. Adicionalmente, devido ao modo como o processo generativo é definido, e à própria simetria da forma, Herzog & de Meuron conseguem alcançar a repetição de alguns componentes, tirando partido de economias de escala. 14 Com uma capacidade inicial para 100.000 lugares sentados, o Bird’s Nest acabaria por garantir 91.000, a pedido do cliente, mantendo as suas dimensões de 313m x 266 m (The Beijing National Stadium Special Issue, 2009: 8). Conclusão Este ensaio demonstra a contribuição decisiva da integração das tecnologias de engenharia e fabricação digital para o desenvolvimento do campo estrutural na arquitetura. Aumentando a perceção e compreensão dos fenómenos tectónicos presentes em estruturas tridimensionais complexas15, o envolvimento de abordagens computacionais e respetivas ferramentas de fabricação abre caminho para o estudo e simulação novas abordagens e soluções. Contudo, por diversas razões, normalmente relacionadas com constragimentos económicos e logísticos, os arquitetos tendem a optar por soluções compostas, ou seja, recorrem à repetição de módulos ou racionalização e simplificação da estrutura. 4.4 Componente Segmentando a forma do edifício em elementos ajustados à escala de produção, a noção de componente em arquitetura adquire particular relevância a partir da Revolução Industrial. Percecionando o edifício como uma assemblagem de elementos pré-concebidos, definidos por indústrias exteriores à prática arquitetónica, o modo de projetar dos arquitetos encontrava-se até aí, de um modo genérico, limitado pela prescrição de soluções estandardizadas. Relacionados diretamente com a perceção visual do objeto arquitetónico, seria apenas com a integração das tecnologias CAD/ CAM e a vontade de explorar novas formas que, na opinião de Schodek (Sousa & Duarte, 2005: 222), se viria a “possibilitar a expansão dos vocabulários de desenho” através da personalização dos componentes construtivos. Desse modo, e com o intuito de perceber a aplicação das tecnologias digitais na produção de componentes arquitetónicos personalizados, esta análise focar-se-á, em semelhança ao ensaio anterior, em dois tipos de respostas: as soluções não-standard e as soluções compostas. Soluções não-standard Com a exploração de formas complexas através da integração das tecnologias digitais, o componente arquitetónico passou a atuar como um dos principais interfaces entre o modelo digital e o projeto construído. Diretamente associado à qualidade de execução 15 Segundo William Addis (Uihlein, 2012: 60), “a história das estruturas esteve sempre diretamente relacionada com a capacidade do engenheiro prever o comportamento futuro da estrutura”. Figura 4.16 Representação gráfica do sistema de sobreposição estrutural do Estádio Nacional de Beijing. 66 67Análise Crítica Análise CríticaTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira da forma ensaiada digitalmente, o grau de complexidade da geometria corresponde ao grau de personalização do componente que a descreve. Ou seja, quanto mais complexa a forma a construir, maior será o grau de personalização do componente e/ou os sistemas que a descrevem. Um desses exemplos é o Experimental Music Project (2000) de Frank Gehry [Fig. 4.17]. Continuando um processo iniciado com o Guggenheim de Bilbao, Gehry procura descrever a superfície de dupla curvatura do EMP recorrendo exclusivamente a painéis metálicos planificáveis. Para tal, recorre a uma estratégia computacional de racionalização desenvolvida por Dennis Shelden, que involve o uso de análise gaussianas16, de modo a limitar o número de áreas altamente plásticas (Lindsey, 2001: 72). Esta abordagem, “demasiado complexa de estimar segundo meios mais tradicionais” (Lindsey, 2001: 72), é responsável pela aparente aleatoriedade da composição dos painéis do EMP, podendo gerar inúmeros exemplos em consonância com os parâmetros fornecidos. Os painéis resultantes são cortados com recurso a um cortador de plasma CNC e curvados através de máquinas de flexão controladas por computador. Contudo, e apesar do complexo sistema de racionalização, a forma construída não é a forma ideal do Experimental Music Project, mas antes uma aproximação. Porém, na torre central da Neuer Zollhof (1998), também da autoria de Frank Gehry, tal não se verifica [Fig. 4.18]. Procurando a representação exata da forma digital, Gehry recorre a processos 16 De acordo com Linsdey (2001: 71) este processo avalia o grau de curvatura de componentes construtivos, particularmente superfícies, fazendo uso de um conjunto de funções matemáticas específicas. formativos para a fabricação de painéis de betão volumétricos. Executados com recurso a uma fresa CNC, informada diretamente pelo modelo digital, os moldes para a pré-fabricação dos painéis são realizados em blocos de esferovite de alta densidade (2,4 m x 3,4 m x 0,9 m). No entanto, este processo de fabricação representa normalmente um investimento orçamental considerável, em parte relativo à produção dos moldes personalizados. No caso específico das torres de Zollhoff, estas condições são contrabalançadas pela utilização de vãos e caixilharia standard, recorrendo a interfaces, fabricados manualmente in situ, para estabelecer o contato com a superfície curva. A função de um componente não se limita exclusivamente ao revestimento e ao seu grau de aproximação à forma digital, podendo também incorporar outro tipo de valências, como exemplifica o Landesgartenschau Exhibition Hall (2014), projetado pelo ICD Figura 4.17 Experimental Music Project (Frank Gehry). Figura 4.18 Neuer Zollhof (Frank Gehry). Figura 4.19 Landesgartenschau Exibition Hall (Institute for Computational Design). 80 81Experiência Pessoal Experiência PessoalTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira analógicas ou computorizadas. Através da produção, com sucesso, de três protótipos de estruturas livres de alvenaria de bloco de cortiça, este Projeto de Investigação “Construção Robótica em Arquitetura” contribuiu para a perceção do modo como um robô pode contribuir para o processo de produção arquitetónica, nomeadamente a fabricação de paredes de alvenaria personalizadas. Esta experiência pioneira permitiu à equipa de trabalho compreender e implementar todo um processo integrado de desenho e fabricação robótica, num ambiente colaborativo. Os conhecimentos adquiridos têm vindo a ser aprofundados num outro projeto de investigação levado a cabo no DFL, apoiado pela FCT, e que recorre a um braço robótico de grandes dimensões. 5.3 Estrutura: Trifoil No final de Fevereiro de 2014, o DFL desenvolveu a sua primeira experiência com tecnologia de impressão 3D [Fig. 5.10]. Descritos no Capítulo 3.3.1, estes processos permitem materializar modelos digitais através da deposição de material de forma incremental. Assim, o objetivo deste trabalho consistiu na exploração da impressão 3D para produzir estruturas irregulares. Porém, ao invés Figura 5.09 Protótipo ‘Parede’. Figura 5.10 Projeto ‘Trifoil’. Coordenação: Prof. José Pedro de Sousa. Colaboradores: Manuel Oliveira, Pedro Martins, Pedro Varela. 82 83Experiência Pessoal Experiência PessoalTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira de se pensar imprimir toda a estrutura, procurou-se concentrar a aplicação desta tecnologia apenas na produção das conexões, deixando a execução dos segmentos estruturais a ser feita de uma forma convencional. Para além das vantagens económicas, esta abordagem permite ultrapassar as limitações do volume de trabalho das impressoras 3D e assim pensar a construção de estruturas maiores. Como objeto de estudo recorreu-se à forma matemática do trifoil, que o prof. Prof. José Pedro Sousa explorou em 2008 [Fig. 5.11]. Com base nesta geometria projetou-se uma estrutura tridimensional composta por uma série de conexões variáveis e segmentos lineares de comprimentos distintos. Devido ao seu desenvolvimento espacial, é na geometria das conexões que reside o grande desafio deste trabalho e a pertinência de aplicação desta nova tecnologia, negociando os segmentos estruturais oriundos de várias direções, tendo cada conexão uma forma única - personalizada - que sugere a utilização da impressão 3D. Contudo, um dos momentos fulcrais do trabalho foi a seleção dos elementos standard que atuariam como segmentos lineares entre as conexões, condicionando a forma do trifoil através da limitação do comprimento máximo das suas ligações e o diâmetro das suas conexões. Assim, e tendo em conta a sua disponibilidade e acessibilidade, foram selecionados tubulares em plástico, de 200 mm de comprimento e 7 mm de diâmetro interno. O trabalho teve início com a racionalização da forma matemática do trifoil através do ambiente computacional Rhinoceros + Grasshopper. Sintetizando-a em três curvas, o DFL optou, pela sua elementaridade estrutural, definir o trifoil como uma treliça tridimensional de secção triangular. Para tal, foi necessária a divisão das curvas num número idêntico de pontos, igualmente distribuídos ao longo das suas respetivas curvas, ordenados segundo a mesma ordem e sentido. Assim, os pontos que partilham a mesma nomenclatura foram unidos por um segmento de reta, formando a secção triangular do trifoil. Posteriormente, foi traçado um novo segmento de reta entre os pontos (n) e os pontos seguintes correspondentes (n+1), unindo os diversos perfis. Finalmente, e tendo em vista o reforço da estrutura, foram traçados segmentos de diagonais, concluindo a estrutura base do trifoil [Fig. 5.12]. Terminada esta primeira parte do desenho computacional foi possível, através da monotorização em tempo real do comprimento máximo de todos os segmentos de reta, otimizar a solução de modo a maximar a utilização dos perfis tubulares selecionados. Desse modo, a estrutura do trifoil viria a ocupar aproximadamente 1m3, sendo que os componentes fabricados com recurso à impressora 3D não ultrapassariam o 1 cm3. Por sua vez, estes componentes recorreram aos pontos de interseção entre os diversos segmentos e as suas orientações para tomarem a sua forma personalizada, específica à sua localização espacial. Simplificadamente, estes elementos de ligação são constituídos por cinco extensões, cada uma referente a um segmento de reta, onde são dispostos dois cilindros, um com 9 mm de espessura e outro com 7 mm, para atuar como conector da junta com o tubular de plástico. O conjunto destes cinco elementos que se encontram num ponto de interseção constituem os componentes de conexão variáveis [Fig. 5.13]. Nenhuma operação booleana3 foi utilizada neste processo computacional, sob o risco de perder alguma flexibilidade de processos e experimentação em tempo real. Devido ao grau de personalização deste trabalho, onde todos os componentes são únicos, um dos aspetos imprescindíveis do seu 3 Operações boleanas são um método de combinação ou subtração de objetos sólidos para criar uma nova forma que exige uma grande capacidade de processamento por parte do computador. Figura 5.11 Impressão 3D do “Trifoil” da autoria do Prof. José Pedro Sousa. Figura 5.12 Conceito da definição computacional do projeto ‘Trifoil’. Figura 5.13 Modelo digital do projeto ‘Trifoil’ e exemplo de conexão personalizada. 84 85Experiência Pessoal Experiência PessoalTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira processo de fabricação teve que passar pelo correto posicionamento dos seus elementos no espaço. Para tal, a cada elemento desta estrutura foram atribuídos números de identificação que indicam a sua posição no modelo digital [Fig. 5.14]. O processo de fabricação deste trabalho é constituído por dois momentos essenciais, sobrepostos cronologicamente - a impressão 3D das conexões e o corte dos segmentos estruturais [Fig. 5.15]. Convertendo os modelos NURBS das conexões para o formato STL4, foi definido que a impressora 3D, modelo Makerbottm Replicator 2X5, só deveria fabricar até conjuntos de 8 conexões de cada vez, em ABS6 natural. Esta opção deve-se não só à falta de fiabilidade da tecnologia, tratando-se ainda de um equipamento em desenvolvimento, mas também ao fato não terem sido criadas a suas rotinas de trabalho, sendo que este projeto consiste no seu primeiro grande desafio. Por estas razões, este processo demorou uma semana a ficar satisfatoriamente concluído. Paralelamente, o corte analógico de 301 tubulares ficou terminado 4 Conhecido como Standard Tesselation Language, este tipo de formato de ficheiro é nativo das tecnologias de fabricação aditiva e indicado para esses processos. 5 Como a vasta maioria das impressoras 3d pessoais, estas utilizam uma tecnologia apelidada de FDM (Fused Depostion Modelling). Esta técnica consiste na deposição de material fundido (ABS, PLA, etc.) em camadas para formar o objeto. 6 Acrilonitrila Butadieno Estireno (ABS) é um polímero termoplástico, rígido e leve, popularmente utilizado em técnicas de fabrição aditiva. num dia. Recorrendo a duas pessoas, auxiliadas por listagens com os comprimentos e identificação dos diversos segmentos, este processo procurou também tirar partido da variação cromática dos Figura 5.14 Modelo digital e estratégia de identificação do projeto ‘Trifoil’. Figura 5.15 Processo de fabricação do projeto ‘Trifoil’. 86 87Experiência Pessoal Experiência PessoalTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira diversos elementos lineares para facilitar o reconhecimento da sua posição na geometria. Graças a estas estratégias de diferenciação, a assemblagem da estrutura, embora recorrendo à visualização do modelo digital, correu sem problemas, estando acabado ao final de duas horas. Com a produção deste modelo verifica-se que a concentração de esforços na personalização e fabricação digital das conexões parece ser uma estratégia válida para controlar e simplificar a materialização de estruturas não regulares. Apesar de experimental, esta abordagem está já a apontar para um futuro próximo em que as tecnologias de impressão 3D que trabalham com metal, por exemplo, se tornarão mais viáveis do ponto de vista económico. Nesse momento, as conexões poderão ser impressas à escala 1:1 no seu material final de construção. 5.4 Componente: Cúpula Paramétrica O trabalho da “Cúpula Paramétrica” foi a resposta desenvolvida para o último trabalho da unidade curricular de Geometria Construtiva [Fig. 5.16]. O desafio consistiu na conceção computacional de um modelo de cúpula e respetiva materialização numa versão física, em cartão, com 60 cm de diâmetro. Partindo de uma superfície base fornecida pelo exercício, cada grupo de trabalho teve que desenvolver uma solução específica baseada em componentes construtivos para a sua materialização. Face à sua irregularidade, cada componente tem que ter uma geometria personalizada, pelo que, o recurso a processos de desenho computacional se torna fundamental para gerar e controlar essa exigência de personalização. Devido à ausência de ferramentas de manufaturação digital, como fresas e lasers, para assistir à fabricação, este projeto foi desde cedo pensado para ser constituído exclusivamente por superfícies planas, simplificando à partida o processo construtivo. No seguimento desta estratégia, o grupo optou por organizar este trabalho em dois momentos interligados e sucessivos - a geração da forma de base e a sua racionalização - de maneira garantir uma aproximação fidedigna à forma a ser desenvolvida digitalmente. Procurando conceber uma geometria o mais elástica e fléxivel possível, o conceito computacional por detrás da primeira parte da definição passa pelo cálculo da forma global da cúpula através da delineação das suas arestas e secção central. Iniciando com uma elipse e três planos verticais ao longo do seu eixo maior, estes últimos definem dois pontos de interseção cada que formarão as extremidades de três arcos. Com esse propósito, são definidos três pontos de posição variável, complanares com os planos verticais. Pela sua posição especifica, as extremidades do arco central, ao contrário das restantes, podem variar a sua altura, definindo assim os restantes arcos perimetrais da cúpula, criando a superfície. Partindo desta complexa forma computacional, a segunda parte da definição começa por dividir a superfície segundo as suas coordenadas UV7, definindo a grelha de trabalho para a sua triangularização e planificação. De seguida, é aplicado um padrão de seleção ‘verdadeiro, falso’, que permite a definição de dois tipos de componentes distintos no objeto, os brancos - planimétricos - e os vermelhos - volumétricos. Esta diferenciação advém da vontade de inserir elementos que confiram dinamismo à forma. Assim, enquanto os planimétricos racionalizam as quadriculas curvas em dois triângulos planos, as restantes divisões UV são alvo de uma operação mais complexa. Atuando como clarabóias com repercussão interior e exterior, e após a triangularização das quadrículas, os seus pontos são, de forma alternada, deslocados 7 Coordenadas UV são coordenadas bidimensionais mapeadas numa superfície tridimensional. São bastante utilizadas nos softwares de renderização e cinematográficos para aplicar texturas a objetos 3D. Figura 5.16 Projeto ‘Cúpula Paramétrica’. Equipa: Ana Padrão, David Felício, Manuel Oliveira, Tiago Ascenção. 88 89Experiência Pessoal Experiência PessoalTese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização Digital Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira Manuel Oliveira alternadamente segundo a normal à superfície base, para cima e para baixo. Definindo uma topografia ao longo de todo o objeto, estes componentes tridimensionais, são, no entanto, totalmente idealizados e fabricados segundo peças bidimensionais [Fig. 5.17]. Após a estabilização da solução computacional, e de modo a tornar mais eficiente o processo de fabricação, em vez de se proceder ao rebatimento de cada uma faces da cúpula, a equipa optou por planificar tiras completas. Esta decisão contribuiu positivamente para a integridade estrutural da geometria, visto representar menos juntas de ligação. Assim, o modelo pode ser rapidamente fabricado através da impressão das tiras diretamente em cartolina, sendo estas cortadas e montadas com recurso a ferramentas analógicas. Atualmente as tecnologias de projeto digital permitem a fácil representação e cálculo de geometrias complexas No entanto, este projeto demonstra a capacidade que as tecnologias de digitais têm em possibilitar a criação de componentes personalizados, ainda que tendo acesso limitado às tecnologias de manufaturação digital. O recurso a estratégias de racionalização e simplificação da forma, de maneira a definir componentes ao alcance dos processos de fabricação disponíveis é assim uma das estratégias ao alcance dos arquitetos para tornar a personalização digital mais acessível. 5.5 Conclusão Tendo em consideração a análise efetuada ao longo deste capítulo, as experiências práticas pessoais aqui analisadas vêm reforçar a análise crítica desenvolvida no Capítulo 4. Como foi referido, a integração das tecnologias digitais no processo de arquitetura introduziu uma maior liberdade geométrica no projeto e a possibilidade de exploração da sua variação em série. Embora estas duas situações sejam atualmente uma possibilidade tecnológica, a sua concretização encontra-se muitas vezes limitada por algumas das condicionantes inerentes à arquitetura, como por exemplo, a economia ou a logística. A experiência prática deste capítulo abordou ambas as situações descritas, servindo para dominar as ferramentas práticas subjacentes e perceber as nuances da sua implementação. Por exemplo, o primeiro trabalho, ‘Construção Robótica em Arquitetura’, demonstra como a produção de elementos personalizados pode ser conseguida através da articulação cuidada de elementos regulares. Por outro lado, a hipótese de se combinarem processos avançados de impressão 3D com processos mais tradicionais de corte, foi a Figura 5.17 Descrição da definição paramétrica do projeto ‘Cúpula Paramétrica’. Figura 5.18 Fotografias do projeto ‘Cúpula Paramétrica’. 90 Experiência PessoalTese de Mestrado Integrado Arquitetura e Personalização DigitalManuel Oliveira solução mais eficaz para materializar o projeto ‘Trifoil’. Finalmente, considerando uma variação mais extensiva, o trabalho da cúpula paramétrica considera a tridimensionalidade dos seus painéis a partir da dobragem de elementos 2D. Esta estratégia material torna viável a sua produção por corte digital, que é muito mais rápida e mais barata que a produção de formas 3D, por exemplo, por fresagem de blocos. Assim, este capítulo ilustra na primeira pessoa o modo como o arquiteto pode articular as tecnologias digitais que tem ao seu dispor, em função da sua ideia e intenção de projeto. A personalização é uma possibilidade para servir diversos interesses, mas os modos de a expressar dependem de um conhecimento prático do seu funcionamento e das condicionantes associadas ao projeto de arquitetura. As competências práticas adquiridas e testadas contribuem para enriquecer a formação académcia, servindo de instrumentos para enfrentar os desafios e oportunidades atuais numa futura atividade profissional. 93Tese de Mestrado Integrado ConclusãoManuel Oliveira Esta dissertação procurou investigar o impacto das tecnologias digitais na arquitetura. Para isso, desenvolveu inicialmente uma primeira parte onde se enquadrou as possibilidades de produção em arquitetura ao longo dos tempos. Argumentando que as tecnologias digitais permitem novas condições para a personalização em arquitetura, desenvolveu-se em seguida um levantamento do estado da arte das mais relevantes. A segunda parte deste trabalho investigou as possibilidades sugeridas na primeira parte. Para isso, desenvolveram-se três ensaios críticos sobre três tópicos da construção em arquitetura - forma, estrutura e componente -, analisando alguns exemplos práticos da arquitectura contemporânea. Relativamente à forma, verificou-se que o objeto arquitetónico tende a ser sempre personalizado pois enfrenta sempre condicões de projeto específicas. Nesse sentido, o impacto mais visível das tecnologias digitais parece observar-se a dois níveis. Por um lado, na personalização da sua solução de projeto, o arquiteto tem mais meios para poder explorar e controlar um universo de formas geometricamene mais complexas. Por outro, quando perante o desafio de projetar um conjunto de edifícios, o desenho computacional permite ultrapassar as limitações de variação e adaptação impostas pelos processos analógicos. Em vez de combinar (a repeticão de) tipos de soluções, é possível conceber um conjunto arquitetónico regrado e coerente composto por formas personalizadas individualmente, isto é, todas diferentes umas das outras. Relativamente à estrutura, a análise efetuada revela que para além de poder conceber estruturas irregulares, por exemplo, de Conclusão PARTE III 94 95Tese de Mestrado Integrado Tese de Mestrado Integrado Conclusão ConclusãoManuel Oliveira Manuel Oliveira suporte a formas geometricamente complexas, os arquitetos e engenheiros têm hoje meios de poderem simular e avaliar essas soluções. Assim, a possibilidade de conceber e materializar estruturas personalizadas é hoje uma realidade, como o Metropol Parasol demonstra. Contudo, por questões económicas e logísticas, nem sempre se segue esta abordagem. Muitas vezes, definem-se soluções estruturais personalizadas no seu todo mas composta por um conjunto de módulos que se repetem. Apesar disto, o recurso a tecnolgias digitais não deixa de ser fundamental, pois a estrutura no seu todo é uma solução única e complexa que beneficia de métodos de análise digital. O estádio de Beijing é um exemplo desta situação Relativamente ao componente, o exame realizado demonstra que, hoje em dia, através da correta seleção das ferramentas de manufaturação, as tecnologias digitais atuais são capazes de conceber, materializar e controlar a fabricação de componentes personalizados, como demonstra o Landesgartenschau Exhibition Hall. Porém, estas aproximações, devido a fatores externos ao desenho arquitetónico, nomeadamente situações económicas e logísticas, nem sempre são postas em prática. Desse modo, os arquitetos que procuram soluções geometricamente complexas e personalizadas enverdam usualmente por dois tipos de hipóteses. A primeira, como exemplifica o Experimental Music Project, debatese com a racionalização da forma do edifício em componentes e modos de materialização mais acessíveis. A segunda, à semelhança do caso estrutural, prende-se com a repetição de elementos personalizados ou standard, que através da maneira como são combinados formam uma solução, na sua globalidade, única. Em ambos os casos, o projeto tira partido da contribuição das tecnologias digitais, sendo estas imprescindíveis. Esta tensão entre possibilidades tecnológicas e a realidade no terreno, foi sentida com a experiência prática pessoal. De fato, através dos três projetos apresentados no Capítulo 5, foi notório o modo como o desenho computacional permite abordar formas e estruturas complexas de modo preciso, controlado e, também, flexível ao ajuste. No entanto, quando confrontado com a realidade específica de cada projecto, o arquiteto pode introduzir algumas simplificações. O exemplo do trifoil é claro nesta observação. Conexões e segmentos poderiam ser todos impressos em 3D. No entanto, a solução mais viável, e inteligente, consistiu em focar o uso da tecnologia de fabricação digital na produção das conexões, remetendo a dos segmentos para métodos de corte tradicionais. No exemplo do projeto da ‘Construção Robótica´ ficou claro que se se quiser fazer uma parede vertical não faz qualquer sentido recorrer a um robô. No entanto, quando se decide explorar uma geometria mais irregular, o desenho computacional é fundamental para gerar e evoluir a ideia de projeto, e comunicá-la para um processo de montagem robótica. Este estudo teórico, crítico e prático, mostra que hoje há condições para que a personalização em arquitetura seja mais extensa e uma possibilidade tecnológica real. Contudo, algumas circunstâncias fazem com que nem sempre se siga esse caminho. A própria tecnologia tem ainda espaço de evolução no sentido de tornar a viablidade económica de certas explorações mais acessível. Os desenvolvimentos ao nível da extensão da impressora 3d para a escala da arquitetura e a afinação de outros processos de fabricação digital (como a robótica) poderão num futuro próximo agilizar a integração dessas possibilidades no projeto. Nesse contexto, e ao exemplo de outras indústrias e tendências da atualidade, poderá assistir-se a uma acentuação da dimensão personalizada em cada projecto. Contudo, aquilo que deste trabalho parece sobressair como uma das principais conclusões, parece ser o fator de que, apesar da tecnologia hoje permitir, não quer dizer que se tenha de fazer. A intenção de projeto e o espírito crítico permanente devem instrumentalizar e dosear um sábio uso da tecnologia, ao serviço do projeto e não como um fim em si mesmo. 99 Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado Lista de Acrónimos Lista de Acrónimos ABS Acrilonitrila Butadieno Estireno CAD Desenho Assistido por Computador CAE Engenharia Assistida por Computador CAM Manufaturação Assistida por Computador CEAU Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo CFD Análise Computacional de Fluidos CNC Controlo Numérico Computorizado EMP Experimental Music Project FAUP Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto FCT Fundação para a Ciência e Tecnologia FEM Análise de Elementos Finitos FEUP Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto ICD Institute for Computational Design IJUP Investigação Jovem da Universidade do Porto INESC Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores NC Controlo Numérico NURBS Non-Uniform Rational B-Splines STL Estereolitografia PLA Pliácido Láctico 113 Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado Créditos de Imagem Créditos de Imagem Capítulo 1 Figura 1.01 - Imagem do autor; Figura 1.02 - Imagem da autoria de DFL; Figura 1.03 - Imagem do autor; Figura 1.04 - http://photo.net/photodb/photo?photo_id=5220119 [10-09-2014]; http://placebrandingofpublicspace.files.wordpress. com/2013/02/12_rh2028-0035.jpeg [10-09-2014]; http://static.dezeen.com/uploads/2011/08/dezeen_ NonLin-Lin-Pavilion-by-Marc-Fornes-THEVERYMANY_1.jpg [10-09-2014]; http://arq4design.wordpress.com/2011/04/07/top10-obras-arquitectonicas-las-mujeres-mas-influyentes/ [10-092014]; Figura 1.05 - Imagem do autor; Capítulo 2 Figura 2.01 - Imagem do autor; Figura 2.02 - http://www.medievalists.net/wp-content/ uploads/2010/10/medieval-construction.jpg [12-09-2014]; Figura 2.03 - Sousa, 2010: 21; Figura 2.04 - http://joaquimnery.files.wordpress.com/2013/09/ dsc_0425.jpg [12-09-2014]; 115 Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado 114 Tese de Mestrado Integrado Manuel Oliveira Créditos de Imagem Figura 2.05 - http://www.emobile.com.br/blog/fahmaioli/wpcontent/uploads/sites/4/2014/02/Andrea-Palladio-Villa-Capra. jpg [10-09-2014]; - http://www.castagnahotel.it/wp-content/ uploads/2013/05/slide_rotonda01.jpg?h=350&zc=1 [25-092014]; Figura 2.06 - Sousa, 2010: 24; Figura 2.07 - http://yourmarketingco.com/wp-content/ uploads/2013/07/heritage_1928_rouge_model_a_575x426.jpg [12-09-2014]; Figura 2.08 - http://www.fondationlecorbusier.fr/corbuweb/ morpheus.aspx?sysId=13&IrisObjectId=5061&sysLanguage= en-en&itemPos=44&itemCount=78&sysParentId=64 [10-092014]; - http://www.fondationlecorbusier.fr/ CorbuCache/410x480_2049_791.jpg [25-09-2014]; Figura 2.09 - http://3.bp.blogspot.com/-7wTrsT3ZIiM/TRiRpLMC6I/AAAAAAAABlM/QHXOa28vHOs/s1600/ interior+of+the+crystal+palace+by+thoms+paxton+1851+..jpg [25-09-2014]; Figura 2.10 - Imagem do autor; Figura 2.11 - http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_ computing_hardware#mediaviewer/File:Z3_Deutsches_ Museum.JPG [10-09-2014]; Figura 2.12 - http://www.galinsky.com/buildings/ronchamp/ ronchamp1l.jpg [10-09-2014]; Figura 2.13 - http://sagradafamiliagaudi.com/Vista%20General/ Fachada%20de%20la%20Natividad%20-%201975.jpg [10-092014]; Figura 2.14 - http://www.davidmoorephotography.com.au/ media/images/OperaHouse/1to10/soh13.jpg [10-09-2014]; Figura 2.15 - Imagem do autor; Figura 2.16 -http://arts.clg.berlioz.online.fr/doc3e/archi/gehry/ guggenheim2.jpg [25-09-2014]; Figura 2.17 - Imagem do autor; Figura 2.18 -Sousa, 2010: 64; Figura 2.19 - Imagem do autor; Capítulo 3 Figura 3.01 - Lee, 1999: 2; Figura 3.02 - Imagem do autor, baseada no quadro de Sousa (2010:73); Figura 3.03 - https://andersbirger.files.wordpress.com/2012/06/abs-city-hall-exhibition-001.jpg [08-09-2014]; - http://aasarchitecture.com/wp-content/uploads/Renzo-Piano-almost-completeFondation-Jerome-Seydoux-Pathe-00.jpg [25-09-2014]; Figura 3.04 - http://3dshipblog.files.wordpress.com/2014/04/3d_autocad3_lg.gif [14-09-2014]; http://www.3dm.com.br/wp-content/uploads/2012/09/tutorial-revit-2.png [14-092014]; http://essenziale-hd.com/wp-content/uploads/2013/03/google-sketchup-7.jpg [14-092014]; http://www.simlab-soft.com/Simlabimages/sketchup-importer-for-3ds-max/ sketchup-importer-3ds-max-screenshot-1b.jpg [14-09-2014]; Figura 3.05 -http://www.kevinhouston.net/blog/wp-content/uploads/2010/11/Darcy-Thompsonmola-morph.gif [08-09-2014]; Figura 3.06 - Imagem do autor; Figura 3.07 - http://ad009cdnb.archdaily.net/wp-content/ uploads/2013/03/51423dc6b3fc4b43eb000059_serpentine-gallery-pavilion-2002-toyo-ito-cecilbalmond-arup_6-iii.jpg [14-09-2014]; Figura 3.08 - http://www.vam.ac.uk/__data/assets/image/0005/223709/2006bc3067_libeskind_ spiral_model_290x290.jpg [14-09-2014]; Figura 3.09 - http://plus.maths.org/issue42/features/foster/gherkin_wind_web.jpg [08-09-2014]; Figura 3.10 - http://i.ytimg.com/vi/pkcWGmznjQc/maxresdefault.jpg [08-09-2014]; Figura 3.11 - Imagem da autoria de DFL; Figura 3.12 - Sousa, 2010: 112; Figura 3.13 - Imagem da autoria de DFL; Figura 3.14 - http://images.gizmag.com/hero/china-3d-printed-houses.jpg [26-09-2014]; - https://www.shapeways.com/wordpress/wp-content/uploads/2009/04/Radiolaria2. jpg [26-09-2014]; - http://www.3ders.org/images/obama-3d-print-canal-house-6.png [26-09-2014]; Figura 3.15 - Imagem da autoria de DFL; Figura 3.16 - Sousa, 2010: 120; Créditos de Imagem 117 Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado 116 Tese de Mestrado Integrado Manuel Oliveira Figura 3.17 - http://lgbegen.files.wordpress. com/2010/11/29mulberry-final-presentation.pdf [26-09-2014]; - http://figure-ground.com/data/de_young/0018.jpg [26-09-2014]; - http://ad009cdnb.archdaily.net/wp-content/ uploads/2013/09/5227a35be8e44e0f5000004a_the-turbulencesfrac-centre-jakob-macfarlane-architects_les_turbulences_frac_ centre_-_-_jakob___macfarlane_-n_borel_photo_-_61-528x351. jpg [26-09-2014]; Figura 3.18 - Sousa, 2010: 127; Figura 3.19 - http://w3.bwk.tue.nl/fileadmin/bwk/ade/ workshops/optimal_forming.pdf [15-09-2014]; Figura 3.20 - http://franken-architekten.de/index. detail&lang=en&cat=6¶m=cat¶m2=215¶m3=0& [15-09-2014]; - http://vololibero.blogs.com/vololibero/archive/ images/NY/condenast2.jpg [15-09-2014]; - http://es.detail-online.com/inspiration/sites/ inspiration_detail_de/uploads/imagesResized/projects/560_99210294-downloadansichten-Kunsthaus_Graz_01.jpg [26-092014]; - http://c1038.r38.cf3.rackcdn.com/group4/ building38574/media/lpko_bix_hschiffer_1_neu_bearbeitet.jpg [26-09-2014]; Figura 3.21 - http://www.cgarchitect.com/content/ portfolioitems/2012/11/65374/save-x-web_large.jpg [26-092014]; Figura 3.22 - http://www.archello.com/sites/default/ files/imagecache/media_image/story/media/060823_036_ Dokumentation_Ralphfeiner_004_PR.jpg [26-09-2014]; - http://s3.amazonaws.com/europaconcorsi/project_ images/4511719/060720_036_ProduktionDerElemente_ ML_028_PR_full.jpg [26-09-2014]; - http://www.fourthdoor.co.uk/unstructured/ unstructured_04/4.2/gantenbein_vineyard_facade4.jpg [26-092014]; Capítulo 4 Figura 4.01 - http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/2/2e/Image-Disney_Concert_Hall_by_Carol_ Highsmith_edit.jpg [04-09-2014]; Figura 4.02 - http://vbtllc.com/images/Rick-Smith.gif [29-092014]; - http://4.bp.blogspot.com/-XK04lFuUnX8/ URh9uOlpZ9I/AAAAAAAAAAM/qNZNFGUt82Y/s1600/ Pic+1.jpg [29-09-2014]; Figura 4.03 - http://arch2o.com/wp-content/uploads/2013/11/ Arch2O-Zaha-Hadid-Heydar-Aliyev-Center-HAC_Exterior_ Photo-by-Hufton+Crow-1.jpg [04-09-2014]; Figura 4.04 - http://thefoxisblack.com/blogimages//Mercedes2. jpg [04-09-2014]; Figura 4.05 - http://unstudiocdn2.hosting.kirra.nl//uploads/ original/e1e38122-182c-4438-9f70-2a462646b8fd/2615067876 [04-09-2014]; - http://1.bp.blogspot.com/-koR4tDbusrE/ UTJwqlP9klI/AAAAAAAAAJk/HsodvywmvDo/s1600/ UN+studio.jpg [04-09-2014]; Figura 4.06 - http://housingprototypes.org/images/evora%2032. jpg [29-09-2014]; Figura 4.07 - http://www.des-comp.net/blog/wp-content/ uploads/2009/10/091015_duarte.jpg [04-09-2014]; Figura 4.08 - http://www.oosterhuis.nl/quickstart/index. php?id=135 [04-09-2014]; Figura 4.09 - http://c1038.r38.cf3.rackcdn.com/group1/ building2905/media/One%20North%20(3).jpg [04-09-2014]; Figura 4.10 - http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/8/84/Metropol_parasol_02042011_001.jpg [04-092014]; Figura 4.11 - http://www.capcbc.org/zaha-hadid-phaenoscience-center-germany-photographer-werner/ [04-09-2014]; http://architecture.mapolismagazin.com/sites/ default/files/phaeno-science-center-6.jpg [04-09-2014]; http://www.supercrits.com/5/cms/content/ articles/5720.DEBATE-11/1.Zaha-Wolfsburg/1.Wolfsburgunderside/5720-1_1-Wolfsburg-underside.jpg [04-09-2014]; Figura 4.12 - http://images.guggenheim-bilbao.es/src/ Créditos de Imagem Créditos de Imagem 119 Manuel Oliveira Tese de Mestrado Integrado 118 Tese de Mestrado Integrado Manuel Oliveira uploads/2012/05/enconstruccion.jpeg [29-09-2014]; Figura 4.13 - http://eliinbar.files.wordpress.com/2011/12/scan_ doc0026.jpg [29-09-2014]; Figura 4.14 - http://c6cc.http.cdn.softlayer.net/80C6CC/ inspiremore.com//wp-content/uploads/2014/07/bilbaoguggenheim.jpg [04-09-2014]; Figura 4.15 - http://www.wallcoo.net/cartoon/3d_commercial_ architectural_renderings/images/Birds_Nest_Beijing%20 National%20Stadium_Architectural_Renderings_8007.jpg [0409-2014]; Figura 4.16 - http://betterarchitecture.files.wordpress. com/2011/12/beijing-national-stadium-structure1.jpg [04-092014]; Figura 4.17 - http://triplesummer.com/wp-content/ uploads/2012/12/emp-monarail-seattle-Frank-Gehry1-1280x648. jpg [05-09-2014]; Figura 4.18 - http://www.halfen.com/~mi/482/452/zollhofdusseldorf.jpg [05-09-2014]; Figura 4.19 - http://www.domusweb.it/content/dam/domusweb/ en/architecture/2014/06/26/landesgartenschau_exhibition_ hall/09-laga-project.jpg [05-09-2014]; Figura 4.20 - http://ad009cdnb.archdaily.net/wpcontent/uploads/2014/06/53ab68b0c07a80e73200013c_ landesgartenschau-exhibition-hall-icd-itke-iigs-university-ofstuttgart_diagram_-2--1000x666.png [29-09-2014]; Figura 4.21 - http://icd.uni-stuttgart.de/wp-content/gallery/laga_ fabrication/pic_07.jpg [29-09-2014]; Figura 4.22 - http://www.som.com/FILE/19248/ chhatrapati_1575x900_gvk_robertpolidori_06jpg. jpg?h=800&s=17 [05-09-2014]; Figura 4.23 - http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2009/11/20/article1229540-074BF70F000005DC-77_634x364.jpg´ [05-09-2014]; Figura 4.24 - http://c1038.r38.cf3.rackcdn.com/group5/ building41989/media/uqig_weinbau_gantenbein_fassade.jpg [05-09-2014]; Capítulo 5 Figura 5.01 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.02 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.03 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.04 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.05 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.06 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.07 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.08 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.09 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.10 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.11 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.12 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.13 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.14 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.15 - Imagem da autoria de DFL; Figura 5.16 - Imagem do autor; Figura 5.17 - Imagem do autor; Figura 5.18 - Imagem da autoria do prof. José Pedro Sousa; Créditos de Imagem Créditos de Imagem