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Imagens sociais das pessoas LGBT

Carlos Gonçalves Costa,Miguel Pereira,João Manuel de Oliveira,Conceição Nogueira

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CAPÍTULO 3 Imagens sociais das pessoas LGBT Carlos Gonçalves Costa, Miguel Pereira, João Manuel de Oliveira e Conceição Nogueira Nos últimos anos têm vindo a surgir, em alguns pontos geográfcos do globo, mudanças legais que pretendem diminuir a discriminação baseada na orientação sexual e/ou na identidade de género (por exemplo a igualdade no acesso ao casamento civil por duas pessoas do mesmo sexo em Portugal, a extensão de direitos à adopção por casais de pessoas do mesmo sexo no Reino Unido e nalguns estados dos EUA, ou a lei de identidade de género em Espanha) Não obstante, esta mudança social é facilmente contrastada com situações em que as pessoas LGBT (lésbicas, gay, bissexuais, transgénero, transexuais) e queer ou não -heterossexuais são discriminadas e continuamente excluídas do acesso a determinadas instituições e direitos (Clarke, Ellis, Peel & Riggs, 2010) As formas, processos, graus e/ou consequências das violências exercidas às não--heterossexualidades são diferenciadas em contextos históricos, sociais, culturais e/ou políticos No caso português, tomemos como exemplo a exclusão da possibilidade de adoptar enquanto casal de pessoas do mesmo sexo; nos Estados Unidos25 as políticas militares impossibilitam que homossexuais assumidos possam servir nas forças armadas ou sequer que militares LGBT possam assumir -se e no Irão a homossexualidade masculina é punida com pena de morte enquanto que às mulheres lésbicas cabe um castigo de mil chicotadas As pessoas transgénero são, de forma global26, as mais desprotegidas e estigmatizadas Ademais, importa -nos desde já referir a importância de um olhar interseccional quando nos propomos a pensar sobre discriminação Como explicam Clarke et al (2010) é importante para que possamos explorar as diferentes formas pelas quais as pessoas estão localizadas em relação a categorias dominantes Assim, géneros e identidade(s) de género, orientações sexuais, classes sociais, etnias, localizações geográfcas ou meios habitacionais e graus de incapacidades/defciências se conjugam e operam de diversas formas na construção e manutenção das discriminações 25 Até à data a lei ainda não foi alterada No entanto estão previstas votações para breve por parte do Congresso dos Estados Unidos Ver por exemplo: http://www pinknews co uk/2010/05/27/us-congress-may-vote-on-military-gay-ban-today/ 26 Para informações e mapeamentos sobre realidades de pessoas LGBTver por exemplo http://ilga org/ 93 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO A discriminação em função de orientações sexuais, amplamente designada e difundida como homofobia, tem sido alvo de críticas por servir de guarda -chuva às experiencias de gays e lésbicas e também de bissexuais e pessoas trans, não sendo sensível às diferenças nas experiências de discriminação Como notam Clarke et al (2010) embora exista alguma partilha nas bases da discriminação entre identidades categorizadas, as pessoas bissexuais e trans são alvo de experiências diferentes – por exemplo, ideias de que a bissexualidade é um certo grau de confusão identitária; de que os/as bissexuais são na verdade gays ou lésbicas que não se conseguem assumir; que são promíscuos/as, têm necessariamente vários/as parceiros/as ao mesmo tempo; ou são obcecados/as por sexo (ver por exemplo Eliason & Schope, 2001; Rust, 1993) No caso das pessoas trans e/ou intersexo as experiencias discriminatórias passam também pelas organização de uma sociedade onde o género é pensado de forma rígida e binária, e por isso excludente Alguns exemplos disso são a difculdade de apropriação de espaços públicos, muitos deles erguidos sobre o binarismo da ordem de género (e g , casas de banho públicas), a própria linguagem e terminologia dicotómica que utilizamos (e g: falta de termos neutros) e a difculdade de alteração de dados pessoais nos documentos ofciais, por ora ainda dependentes de morosos processos de psiquiatrização e patologização Um relatório recente (European Union Agency for Fundamental Rights, 2009) relativo à situação social na União Europeia menciona um questionário do Eurobarómetro realizado em 2008 onde era perguntado às pessoas ―como se sentiria tendo uma pessoa gay ou lésbica como vizinha?, variando as respostas atitudinais numa escala entre 1 (muito desconfortável) e 10 (muito confortável) Na sua generalidade (27 países da UE) 67% das pessoas afrmam sentir -se bastante confortáveis (com respostas variando de 7 -10) A Suécia (9 5), a Dinamarca (9 3), a Holanda (9 3) e o Luxemburgo (9 2) surgem como países com maior aceitação de gays e lésbicas; enquanto que a Letónia (5 5) a Bulgária (5 3) e a Roménia (4 8) aparecem como os de menos aceitação As respostas relativas a Portugal situaram -se nos 6 6 De acordo com os resultados do Eurobarómetro, em média, os homens são mais negativos que as mulheres e gerações mais velhas são mais negativas que as mais novas Pessoas com menores níveis de escolaridade e pessoas com identidade política de direita posicionam -se também de forma mais negativa face à questão É muitas vezes a violência simbólica (Bourdieu, 1998) que Carneiro (2009) refere traduzir -se na recusa de uma existência válida às pessoas LGBTQ, invisibilizando -as A reapropriação e ressignifcação do(s) espaço(s) público(s) surge como acção necessária à visibilidade A um pluralismo de vozes e singularidades que nos tornam a todos/as pessoas Nesse sentido, é também imperativo um olhar que não negligencie uma análise crítica que tenha em linha de conta contextualizações e explicações históricas, sociais, culturais e politicas (ver por exemplo Kitzinger, 1996) Richardson (2000) ao denunciar o carácter normativo da heterossexualidade, evidencia -a como sistema de normas e práticas institucionalizadas e privilegiadas, que ocupa por isso, 94 Imagens sociais das pessoas LGBT um lugar central de análise no que diz respeito à opressão de pessoas não heterossexuais (lésbicas, gay, bissexuais, trans, intersexos, queer e outros/as) Esta heterossexualidade institucionalizada é, como explica Katz (2007), uma combinação/disposição histórica dos sexos e prazeres que constrói uma ética heterossexual reguladora de todos/as nós Desta forma, o problema da heterossexualidade continua por problematizar, assumindo -se sempre como categoria e estrutura de poder dominante que é privilegiada, normalizada e, em última análise, esquecida De facto, uma das estratégias mais utilizadas por pessoas não heterossexuais por forma a evitar a discriminação passa pela invisibilidade em vários contextos (European Union Agency for Fundamental Rights, 2009) Esta invisibilidade funciona como adaptação forçada a estruturas e contextos fortemente heterossexistas que exercem a sua violência – simbólica ou declarada, implícita ou explícita – sobre qualquer pessoa que se desvie dos limites impostos pela hegemonia heterossexual Como refere Schneider (2009) a análise à produção de identidades e culturas heterossexuais, incluindo os seus efeitos genderizados é essencial para que possamos começar a mapear os contornos da heteronormatividade Contudo, e como continua Schneider (2009), há que saber destrinçar os conceitos de heterossexualidade e heteronormatividade, no sentido de que para compreender este último, é necessário compreender também as formas pelas quais alguns corpos, pessoas, práticas e normas sofrem um processo de naturalização em detrimento de outros/as géneros, formas, corpos, ou expressões não normativas – o que Halberstam (2005) chama de queer ways of life. Segundo Ingraham (2006) até à data ainda não conseguimos determinar com efcácia se o que é considerado ser género ou comportamento(s) genderizado(s) sequer existe sem ser na sua relação com a instituição heterossexualidade – constituída enquanto regime politico (Wittig, 1980) Assim, se a âncora do imaginário heterossexual for retirada, conseguimos perceber quer o género quer a sexualidade como variáveis históricas e constantemente mutáveis ao longo de toda a vida (Ingrahan, 2006) Nos últimos anos começou -se a conceptualizar, em áreas de investigação como a psic olog ia , o pre conceito a nt i -tr a ns (t r a ns géneros e t ra n s se x u a is) ( Hi l l & Wil loug hby, 20 05) Hill (2002), através de um trabalho de análise à comunidade trans sugeriu a existência de três conceitos chave que podem ser utilizados para conceptualizar a aversão face a pessoas trans: transfobia, genderismo (genderism) e ataques verbais/insultos de género Transfobia é uma aversão emocional face a pessoas que não se conformam às expectativas sociais de género – similar à homofobia – medo ou aversão a homossexuais (Weinberg, 1972), a transfobia envolve sentimentos de repulsa face a mulheres percebidas como masculinas, homens percebidos como femininos, travestis e crossdressers, transgéneros e/ou transsexuais Especifcamente, a transfobia manifesta -se pelo medo pessoal de que pessoas conhecidas possam ser trans ou repulsa por encontrar uma pessoa trans Note -se que o uso do sufxo ―fobia‖ não implica que uma pessoa transfóbica sofra de reacções fóbicas no sentido clínico do termo; bem como não implica que a pessoa em causa sofra 95 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO de qualquer perturbação clínica O sufxo é utilizado no sentido de implicação de um medo ou ódio irracionais face a estas pessoas, e que é parcialmente perpetrado por uma ideologia cultural O genderismo é uma ideologia que reforça uma apreciação/avaliação negativa de não--conformidade de género, ou de uma incongruência entre sexo e género E uma crença cultural que perpetua julgamentos negativos acerca de pessoas que não se apresentam como mulheres/homens estereotípicos Pessoas genderistas acreditam que as pessoas que não se conformam com as expectativas socio -culturais de género são patológicas Paralelamente ao heterossexismo, Hill & Willoughby (2005) propõem que o genderismo é causador quer de opressão social quer de uma forma de vergonha psicológica, uma vez que pode ser imposto a uma pessoa, mas também, por outro lado, a pessoa pode internalizar estas crenças O ataque/insulto de género (gender bashing) refere -se à perseguição/hostilização a pessoas que não se conformam às normas de género (Wilchins, 1997) Desta forma, enquanto o genderismo refecte uma vasta ideologia cultural negativa, a transfobia, a aversão e o medo emocional, a hostilização de género manifesta -se em actos de violência (Hill, 2002) Como Massey (2009), consideramos que a crescente complexidade em termos dos discursos sociais e políticos em torno do estatuto das minorias sexuais, assim como a com-plexidade em termos de atitudes individuais face a pessoas LGBTQ, sugerem a necessidade de novas abordagens psicométricas para que se possa aceder às manifestações modernas e pós -modernas do preconceito sexual Estas manifestações, por serem muitas vezes menos explícitas e mais subtis, carecem de uma abordagem e explicitação holística e polimorfa (Massey, 2009) que reficta e questione acerca das causas, consequências e implicações políticas, sociais e culturais que as descriminações conferem Se, como argumenta Warner (1993), a heterossexualidade é produzida como dominante, sistemática, garantida e uni-versalizada, conforme Richardson (2005) tem vindo a demonstrar, os próprios conceitos de cidadania e existência social funcionam como uma forma de regulação hegemónica (hetero)sexual e as abordagens e trabalhos que descurem as implicações políticas face às construções das discriminações estarão a ser, necessariamente redutores Importa agora, antes de iniciarmos a introdução metodológica e apresentação do estudo referir que o presente capítulo diz respeito a dois objectivos concretos da investigação realizada: • O primeiro objectivo pressupunha captar as representações sociais sobre as pessoas LGBT e indagar sobre a existência de uma hierarquização nas percepções de discriminação de distintos públicos-alvo consoante o Artigo 13º da Constituição da República Portuguesa • O segundo objectivo pressupunha conhecer os contextos sociais que promovem e facilitam o aparecimento de fenómenos como a homofobia, transfobia, crimes e discursos de ódio relacionados com a orientação sexual e identidade de género 96 Imagens sociais das pessoas LGBT Método Caracterizagao da amostra Este estudo foi respondido por 1 498 pessoas, com uma media etária de 32 anos (DP=10) Em termos de pertença a grupos de sexo 359 (24,0%) afrmam pertencer ao sexo masculino, e 1 116 (74,5%) afrmam pertencer ao sexo feminino, como se pode ver no gráfico 1 344 dessas pessoas identifcam-se como homens (23,5%) e 1 119 (74,7%) identifcam-se como mulheres Apenas 2 pessoas (0 1%) se identifcaram como transgéneros Gráfco 1 Caracterização da amostra por sexo Este estudo, foi dirigido específcamente a pessoas que se identifcassem como heterossexuais, pelo que 1 418 dos/as respondentes se identifcavam nesta categoria (94,7%) Ainda assim, 80 pessoas (5,2%) que responderam ao questionário e se identifcavam nesta categoria confessaram outras identidades em termos de orientação sexual que não exclusivamente heterossexuais Relativamente a identidade política, 801 pessoas (53%) afrmam ser de esquerda, 155 (10,3%) de direita, e 385 (25,7%) identifcaramse como sendo de centro Só 6 pessoas (0,4%) se identifcou como sendo de extrema direita, e 60 pessoas (4,0%) identifcamse como extrema esquerda (ver gráfco 2) Dos/as nossos/as participantes, 815 (54,4%) possuem uma Licenciatura ou um Bacharelato e 397 (26,5%) possuem grau de Mestre ou Doutorado/a 188 dos/as participantes possuem o Ensino Secundário, e somente 10 pessoas (0,7%) possuem o Ensino Unifcado (7º, 8º e 9º anos de escolaridade) 97 Na nossa amostra, 341 (22,8%) pessoas afrmam ter religião, e 1 135 (75,8%) dizem que não possuem religião Contudo, na pergunta seguinte, com a listagem de possibilidades de identifcação religiosa, 705 pessoas afrmam não ter qualquer identidade religiosa (47%) e 643 (42,9%) afrmam-se Católicas A aparente contradição pode ser explicada por pessoas que apesar de terem tido uma educacao sob a alçada de uma determinada religião, não possuem essa identidade, embora a refram num processo de caracterizacao 86 (5,7%) participantes identifcam-se enquanto Cristãs(ãos) Não Católicas (os), e 48 (3,2%) pessoas identifcam-se ainda com ―outras religiões". (ver gráfco 3) Gráfco 3 Frequências relativas à identidade religiosa 98 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Gráfco 2 Frequências relativas à identidade política Imagens sociais das pessoas LGBT Já no que diz respeito à identidade étnica dos/as participantes, e recorrendo às codifcação das respostas abertas, a esmagadora maioria dizem -se brancos/as (87,4%) Quanto à nacionalidade, 95,5% da amostra tem nacionalidade portuguesa Em termos da naturalidade, a sua distribuição evidência que a maioria é da Área Metropolitana de Lisboa (419), patente na tabela 3 Tabela 3 Área de residência das pessoas inquiridas Frequências % Norte 369 24 6 Centro 243 16 2 Sul 87 5 8 AMLisboa 419 28 0 AMPorto 149 9 9 Ilhas 111 7,4 Estrangeiro 101 6 7 Tot a l 1 479 98 7 No piano do estado civil, a maioria dos/as inquiridos/as são solteiros/as (874 pessoas), apesar de 184 pessoas viverem em união de facto e 307 em regime de casamento Ill pessoas são divorciados/as e somente 8 são viiivos/as No que toca à parentalidade, 1 082 não tern filhos, o que nos indica que 26,5% (397 pessoas) tern filhos A grande maioria da nossa amostra (85,6%) afrma ter hábitos de voto, e só 196 pessoas (13,1%) afrma não votar habitualmente Pretendfamos ainda caracterizar a proximidade entre os/as respondentes com outras pessoas LGBTQ Desta forma verifcámos que a maioria dos/as pessoas conhecem ou tern amigos/as gays e lésbicas (85,2%), 53% afrmam ainda ter amigos/as bissexuais, contudo, a maioria das pessoas inquiridas não conhece pessoas transsexuais (88,4%) Para concluir, a amostra do presente estudo é caracterizada por ser maioritaria-mente composta por mulheres heterossexuais, urbanas, residentes na área da Grande Lisboa, e cujo nível de escolarizacao é elevado O método escolhido para o estudo, um questionário aplicado através da internet, teve como limitação uma maior ausência de outros grupos sociais menos escolarizados e mais velhos, de outras zonas do país Instrumentos • Escala sobre o artigo 13° da CRP: Portugal tern no artigo 13° da Constituicao da Repiiblica Portuguesa, um princípio da igualdade que garante a não discriminacao legal em funcao, entre outras categorias, da orientação sexual Diz este artigo: 99 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Artigo 13." Princípio da igualdade 1. Todos os cidaddos tern a mesma dignidade social e sdo iguais perante a lei. 2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razdo de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religido, conviccoes políticas ou ideológicas, instrucdo, situacdo económica, condicdo social ou orientacdo sexual. Com base neste princípio, e partindo da enumeracao dos vários piiblicos alvo (tabela abaixo) constituintes do artigo 13° da Constituição da Repiiblica Portuguesa construímos uma escala tipo Likert de 7 pontos e questionámos os/as participantes acerca de: (a) que grupos são mais discriminados em Portugal (onde 1 muito discriminados, e 7 nada discriminados); e (b) que grupos justifcam ser alvo de discriminacao (onde 1 justifca ser discriminado, e 7 não se justifca ser discriminado) Estas duas formas de medição permitem obter e contrastar informação sobre a percepcao de discriminação de grupos sociais e o grau de justifcacao dessa discriminacao Tabela 4 Piiblicos alvo do artigo 13° da CRP 1) crianças pobres 2) mulheres 3) homens negros 4) mulheres negras 5) crianças negras 6) homens brasileiros 7) mulheres brasileiras 8) chineses 9) pessoas que não falem português 10) imigrantes 11) não católicos 12) pessoas analfabetas 13) pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade 14) pessoas com profssões desqualifcadas 15) pessoas desempregadas 16) pessoas pobres 17) gays 18) lésbicas 19) bissexuais 20) transsexuals 21) ciganos 22) pessoas portadoras de defciência 23) pessoas de extrema esquerda 24) pessoas de extrema direita 100 Imagens sociais das pessoas LGBT • Questionário de Discriminação Preconceito Polimorfo – Lésbicas e Gays (Massey, 2009) Para aceder às manifestações modernas e pós -modernas do preconceito são necessárias, como nota Massey (2009) novas abordagens psicométricas capazes de captar quer a complexidade emergente de discursos sociais e politicos sobre as minorias sexuais, quer a maior complexidade em termos das atitudes individuais face a não heterossexuais Igualmente, como no caso do sexismo, que se demonstrou ser multidimensional Por exemplo, a proposta de Glick & Fiske (1997) que consiste na medição de duas formas de sexismo independentes entre si: o sexismo benevolente, que implica uma visão positiva das mulheres, mas acompanhada por uma visão tradicional acerca do que é adequado para as mulheres; e o sexismo hostil, que implica uma visão fundamentalmente negativa das mulheres e o apoio a medidas de restrição da esfera de actividade das mulheres Este questionário consiste, por isso, numa medida multidimensional do preconceito sexual, e foi desenvolvido no sentido de aceder à complexidade crescente das atitudes de heterossexuais face a pessoas gay e lésbicas A previsão principal – que foi confrmada – é que o preconceito sexual será melhor representado através de um modelo multidimensional Uma análise factorial exploratória e confrmatória revela que o questionário não contraria os pressupostos psicométricos da validade, consistência interna e da fabilidade, sendo esta uma medida que compreende 7 factores distintos Ainda, a análise factorial confrmatória demonstra que o modelo de 7 factores adequase melhor e é mais explicativo (por comparação a um modelo único) da ampla variedade do preconceito sexual (Massey, 2009) Abaixo, seguem os 7 factores discriminados com breve explicação conceptual de cada um, bem como a discriminação do devido valor do alpha de cronbach 1) heterossexismo tradicional – avaliação de pessoas gay e lésbicas como imorais, pecadoras ou pervertidas, e a crença de que determinados direitos e privilégios lhes devem ser negados ( 95); 2) tendência para negar contínua discriminação homofóbica – implica crenças de que a discriminação anti-gay já não é um problema actual Crenças de que pessoas gay e lésbicas têm iguais oportunidades de progresso e que as suas reivindicações igualitárias são injustifcáveis ( 83); 3) aversão face a gays ( 90); 4) aversão face a lésbicas ( 88) – os factores 3 e 4 compreendem reacções afecti-vas, incluindo a necessidade de evitar contacto, desconforto com o eventual contacto, e críticas à performatividade de género destas pessoas; 101 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO são o grupo sob o qual as respondentes afrmam ser menos justifcada a discriminação (M=6,89; DP= 667), seguindo-se-lhes as crianças pobres (M=6,87; DP= 772) e as pessoas pobres (M=6,84; DP= 774) Embora com pouca diferenciação em termos de médias, no que toca às questões de orientação sexual e identidade de género, as respostas mostram que a discriminação se justifca menos para as lésbicas (M=6,72; DP= 924), seguindo-se os gays (M=6,70; DP= 997), bissexuais (M=6,69; DP= 997), e por fm as pessoas transexuais (M=6,56; DP=1 17) As pessoas consideradas pelos/as nossos/as participantes como perante as quais a discriminação mais se justifca (ainda que com médias relativamente altas, tendo em conta que o ponto médio da escala de resposta é 4) estão as pessoas ciganas (M=5,91; DP=1 69), as pessoas desempregadas (M=5,91; DP=1 69), e no topo, as pessoas de extrema direita (M=5 06 ; D P=2 28) Tabela 7 Estatísticas descritivas referentes à escala de pessoas que merecem discriminação em função do público alvo do Artigo 13° da CRP Itens N Média DP mulheres 1465 6,89 ,667 crianças pobres 1464 6,87 ,712 pessoas pobres 1457 6,84 ,746 não católicos 1457 6,82 ,802 crianças negras 1457 6,80 ,866 mulheres negras 1463 6,75 ,896 pessoas portadoras de defciência 1459 6,72 ,929 lésbicas 1459 6,72 ,924 homens negros 1462 6,72 ,933 pessoas que não falam português 1461 6,71 ,883 gays 1459 6,70 ,991 pessoas analfabetas 1459 6,70 ,991 bissexuais 1456 6,69 ,991 pessoas pouco escolarizadas 1456 6,69 ,991 imigrantes 1461 6,65 ,990 transexuais 1459 6,56 1»17 pessas com profssões pouco qualifcadas 1459 6,56 1»17 homens brasileiros 1457 6,55 1,12 mulheres brasileiras 1460 6,52 1,14 chineses 1458 6,48 1»17 pessoas de extrema esquerda 1460 6,01 1,66 ciganos 1461 5,91 1,69 pessoas desempregadas 1461 5,91 1,69 pessoas de extrema direita 1459 5,06 2,28 108 Imagens sociais das pessoas LGBT Através de uma análise factorial28 em componentes principais com rotação V A R I M A X ( K M O = 89 9, p < 000), a que submetemos a escala relativa à percepção de discriminação, as variáveis agruparam-se em dois factores – o primeiro ligado a grupos sociais como sexo, identidade sexual e étnica; o segundo referente a questões de ordem mais de classe social ou orientação politica Apesar de 3 itens apresentarem loadings pouco elevados em ambos os componentes optámos por não os retirar Tabela 8 Factorizações dos itens referentes à escala de pessoas discriminadas Va r i ávei s Alfa de Cronbach 1 .903 2 856 discriminação gays ,768 ,023 discriminação lésbicas ,764 ,067 discriminação mulheres negras ,699 ,291 discriminação bissexuais ,693 ,028 discriminação homens negros ,688 ,282 discriminação transexuais ,678 ,044 discriminação mulheres brasileiras ,647 ,211 discriminação crianças negras ,623 ,353 discriminação homens brasileiros ,596 ,289 discriminação imigrantes ,588 ,361 discriminação chineses ,570 ,264 discriminação ciganos ,565 ,220 discriminação mulheres ,484 ,372 discriminação pessoas que não falam português ,481 ,281 discriminação não católicos ,384 ,273 discriminação pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade ,087 ,871 discriminação pessoas analfabetas ,085 ,846 discriminação pessoas com profssões pouco qualifcadas ,172 ,828 discriminacao pessoas desempregadas ,208 ,768 discriminacao pessoas pobres ,236 ,755 discriminacao crianças pobres ,170 ,550 discriminação pessoas portadoras de defciência ,350 ,477 discriminação pessoas de extrema esquerda ,343 ,345 discriminacao pessoas extrema direita ,206 ,233 Varia^ao Total Explicada= 47,01% 36,33% 10,68% Cruzando estas variáveis com os grupos de sexo foi possível perceber que as mulheres, quando em comparação aos homens percebem quase todas as categorias 28 A análise factorial diz respeito à escala de pessoas discriminadas A escala relativa à justificação de discriminação não foi alvo de análise factorial por violar os pressupostos psicométricos da mesma 109 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO como mais discriminadas, evidenciando maior sensibilidade ou atenção a questões de discriminação Assim, as mulheres, mais que os homens, percepcionam maior discriminação relativamente às categorias ―mulheres‖ t(1461)= – 5,321 < 001; h o m e n s negros t(1459)=-3,056< 005; mulheres negras t(1454)= – 4,472< 001; crianças negras t(1454)=-2,380 < 05; mulheres brasileiras t(1453)= – 4,823 < 001; homens brasileiros t(571,657)=-2,350< 05; imigrantes t(579,533)= – 2,649 < 05; pessoas com profssões desqualifcadas t(566,532)= – 3,066< 005; pessoas desempregadas t(553,499)= – 3,16 4< 005; lésbicas, t(1456)= – 8,275< 001; gays t(1456)= – 4,326 < 001; transexuais (1456)= – 3,438< 005; e pessoas portadoras de defciência t(553,833)= – 3,331< 005 Em contrapartida os homens, a única categoria que percepcionam como mais discriminada, por comparação às mulheres é a das ―pessoas de extrema direita‖ t(1493)= 2,481 < 05, que é por si mesma uma categoria no geral vista como ―pouco discriminada‖ Este resultado faz-nos crer que os homens, por estarem socialmente numa categoria de género construída como mais próxima da norma de pessoa (Amâncio, 1994), e sendo menos alvo de discriminação, acabam por estar menos atentos e menos sensíveis do que as mulheres, grupo por si só discriminado Questionário de Discriminação Preconceito Polimorfo face a Lésbicas e Gays Esta é uma medida multidimensional do preconceito sexual, desenvolvida no sentido de aceder à complexidade crescente das atitudes de heterossexuais face a pessoas gay e lésbicas Neste sentido, a apresentação das estatísticas descritivas e gráfcos de médias referentes a este questionário serão divididas pelas sub-escalas apresentadas na original O questionário é avaliado numa escala de medida tipo Likert de cinco pontos, onde para efeitos de valores médios de cada sub-escala, quão maior o valor mais negativa é a atitude, à excepção das escalas ―positivas‖ (i e escalas que não contém itens negativos) – são elas: Valorização de Processos Gays e Lésbicos; Crenças Positivas e Resistência à Heteronormatividade Heterossexismo Tradicional A primeira sub-escala é conceptualizada como referente a noções de heterosse-xismo tradicional – referindo -se à avaliação de pessoas gay e lésbicas como imorais, pecadoras ou pervertidas, e a crença de que determinados direitos e privilégios lhes devem ser negados Através da análise estatística descritiva (tabela abaixo) percebemos que ten-dencialmente as respostas médias são no sentido de contrariar os pressupostos mais explícitos do que é defnido conceptualmente como heterossexismo tradicional Ou seja, na amostra, parece haver uma tendência para a concordância com afrmações que apelam à igualdade moral da homossexualidade relativamente à heterossexualidade 110 Imagens sociais das pessoas LGBT (M=4,31; DP=1,09); à não condenação da homossexualidade masculina (M=4,32; DP=1,08); à importância da honestidade de gays e lésbicas face aos seus sentimentos e desejos (4,71; DP= 65); e a questões de expressão natural da homossexualidade ( M=3, 8 8 ; DP=1, 2 0) Existe ainda concordância com o facto de que se duas pessoas se amam não deve importar o seu género (M=4,62; DP=,89) ou favorabilidade face à possibilidade de casais do mesmo sexo poderem adoptar crianças (M=3,70; DP= 1,43) Tabela 9 Estatísticas descritivas da sub-escala heterossexismo tradicional Itens N Média DP A homossexualidade feminina é um pecado 1471 1,1944 ,63481 A homossexualidade é um estilo de vida moralmente igual à heterossexualidade* 1473 4,3143 1,09640 Comportamentos homossexuais entre dois homens é algo que simplesmente está errado 1466 1,3793 ,85507 Se duas pessoas realmente se amam não deve importar se são homem e mulher, dois homens ou duas mulheres* 1472 4,6236 ,89621 A homossexualidade masculina é uma perversão 1471 1,3032 ,77844 O crescente número de mulheres lésbicas é um indicador do declínio da moral na nossa sociedade 1473 1,3347 ,79314 A homossexualidade masculina é apenas um estilo de vida diferente que não deve ser condenado* 1466 4,3226 1,08932 Se um homem tem sentimentos homossexuais deverá fazer de tudo para os ultrapassar 1480 1,4324 ,85975 É importante para gays e lésbicas serem honestos para com os seus sentimentos e desejos* 1481 4,7151 ,65952 A ideia de casamento entre pessoas do mesmo sexo parece-me ridícula 1477 1,5870 1,10495 Por si só a homossexualidade feminina não é um problema, o problema é o que a sociedade pode fazer dela* 1464 3,7848 1,20071 Tal como noutras espécies, a homossexualidade masculina é uma expressão natural da sexualidade nos homens (humanos)* 1471 3,8579 1,20410 As leis que regulam o comportamento sexual privado e consentido entre duas lésbicas devem ser menos restritivas* 1447 3,8777 1,19223 As lésbicas são doentias 1472 1,2228 ,62299 A homossexualidade feminina põe em causa o resto da sociedade uma vez que quebra com a divisão natural entre os sexos 1472 1,3743 ,83220 Casais homossexuais masculinos devem poder adoptar crianças da mesma forma que os casais heterossexuais o podem* 1485 3,7024 1,43137 A homossexualidade feminina é uma ameaça a várias das nossas instituições sociais básicas 1469 1,2995 ,73461 Homens homossexuais não devem poder ensinar nas nossas escolas 1471 1,1536 ,54165 A homossexualidade feminina é uma forma inferior de sexualidade 1487 1,2535 ,72978 111 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Negagao da discriminacao homofóbica A segunda sub-escala, é referente à tendência para negar a contínua discriminacao homofóbica, ou seja, visa medir as crenças de que a discriminacao anti -LGBTjá não é um problema actual Assim estas crenças assentam no pressuposto de que pessoas gay e lésbicas tern oportunidades iguais de progresso e que as suas reivindicacoes igualitárias são injustifcáveis Através da análise ao perfl de médias percebemos que tendencialmente as respostas vão no sentido do igualitarismo, em que gays e lésbicas e pessoas heterossexuais deverão ter igualdade de oportunidades (M= 4,51; DP=1,00), ou no sentido da compreensão de porque é que grupos pelos direitos LGBT ainda estão preocupados com a limitação social de oportunidades (M=4,29; DP=1,01) Pelo contrário, existe pouca concordância relativamente a afrmacoes que negam a discriminação de pessoas gay e lésbicas de forma geral (M=l,75; DP=,88) e de forma particular em Portugal (M=l,56; DP=,81) De forma geral, as pessoas não concordam nem discordam da afrmação referente ao facto de gays e lésbicas serem discriminados de forma homofóbica na televisão (M= 2,55; DP=1,12 ) Tabela 10 Estatísticas descritivas da sub-escala negação de contínua discriminação Itens N Média DP De forma geral, as pessoas na nossa sociedade tratam gays e heterossexuais de forma igual 1472 1,6454 ,77560 A maioria dos gays e lésbicas já não são discriminados 1475 1,7532 ,88488 A sociedade chegou a um ponto em que pessoas gay e pessoas heterossexuais devem ter iguais oportunidades 1473 4,5078 1,00277 É raro ver gays e lésbicas serem tratados de forma homofóbica na televisão 1474 2,5529 1,12322 A discriminação face a gays e lésbicas já não é um problema em Portugal 1475 1,5634 ,81656 É fácil compreender a revolta dos grupos gays e lésbicos no nosso paí 1466 3,9816 1,04064 Lésbicas e gays habitualmente perdem bons empregos em função da discriminação que são alvo 1475 3,7932 1,08522 É compreensível porque é que grupos pelos direitos LGBT ainda estão preocupados com a limitação social de oportunidades 1480 4,2872 1,01275 Muitas lésbicas e gays ainda perdem oportunidades de emprego e promocoes devido à sua orientacao sexual 1483 4,1430 1,08159 À semelhança do que acontece na sub-escala anterior, a maioria das pessoas parece posicionar-se de forma algo indiferente face à afrmação de que preferia ter mais amigas lésbicas (M= 3,02; DP=,977) No entanto, e embora a maior parte dos valores médios sejam muito 112 Imagens sociais das pessoas LGBT baixos devido a esta ser também uma escala negativa de aversão face a lésbicas, parece haver um pouco mais de concordância relativamente à afrmação ligada a questões de performa-tividade de género – ―Preferia que as lésbicas fossem mais femininas‖ (M= 2,13; DP= 1,11) Tabela 11 Estatística descritiva da sub-escala aversão face a lésbicas Itens N Média DP As lésbicas não são mulheres verdadeiras 1474 1,2585 ,67870 Preferia que as mulheres lésbicas fossem mais femininas 1473 2,1290 1,11666 Tento evitar contacto com mulheres lésbicas 1469 1,3213 ,71968 Não iria gostar de perceber que estava sozinho/a num determinado sítio com uma lésbica 1477 1,3595 ,79040 Gostaria de ter mais amigas lésbicas 1470 3,0184 ,97710 Sinto-me desconfortável quando as lésbicas agem de forma masculina 1475 1,6617 1,00817 Acho as mulheres lésbicas nojentas 1488 1,3542 ,80112 As mulheres lésbicas não conseguem ser femininas 1479 1,3063 ,65611 Julgamentos de Valor do Movimento LGBT A quinta sub-escala diz respeito a julgamentos do valor do movimento LGBT, medindo crenças ancoradas em valores pró -diversidade que afrmam por exemplo que os objectivos e metas do movimento LGBT melhoram a sociedade no seu todo, ou que a homossexualidade representa uma qualidade especial que deveria ser encorajada (na perspectiva da diversidade) Sendo uma sub-escala defnida de forma positiva, a maioria das respostas afrmamse acima do ponto médio da escala, demonstrando uma concordância com as afrmações que refectem ideais pró -diversidade e aceitação – ex: ―Se o meu flho me dissesse que pensava poder ser gay eu encorajava -o a explorar esse aspecto de si mesmo‖ (M=3,71; DP=1,12); e valorizam a cidadania e os direitos de e para pessoas LGBT– ex: ―Os avanços conseguidos em relação a direitos civis de gays e lésbicas melhoram de forma geral toda a sociedade‖ (M= 4,02; DP=1,02) De qualquer modo, não deixa de ser relevante haver uma maior discordância face a itens que afrmam a admiração de gays e lésbicas por viverem em constante adversidade nos planos políticos, sociais e culturais (M=3,09; DP=1,29), ou que refectem admiração pela força das mulheres lésbicas (M= 3,49; DP=1,26) o que parece sugerir um hiato entre valorização de direitos e valorização de pessoas e reconhecimento de adversidades 113 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Tabela 12 Estatísticas descritivas referentes à sub-escala julgamentos de valor do movimento Gay e Lésbico N Média DP Se a minha flha me dissesse que pensava poder ser lésbica eu encorajava-a a explorar esse aspecto de si mesma 1470 3,6850 1,16366 Se o meu flho me dissesse que pensava poder ser gay eu encorajava-o a explorar esse aspecto de si mesmo 1473 3,7054 1,12534 Vejo o movimento (político/social) gay e lésbico como algo de positivo 1477 3,8673 1,10247 As conquistas que os movimentos pelos direitos civis de gays e lésbicas têm conseguido é algo de admirável 1465 3,9549 ,95279 A sociedade melhora com a diversidade oferecida pelas pessoas gays e lésbicas 1468 3,4659 1,21041 Gays e lésbicas devem ser admirados por viverem as suas vidas em constante adversidade (social/política/cultural) 1467 3,0927 1,28784 Os avanços conseguidos em relação a direitos civis de gays e lésbicas melhoram de forma geral toda a sociedade 1470 4,0204 1,02766 Admiro a força das mulheres lésbicas 1483 3,4909 1,25888 Resistência à Heteronormatividade A sexta sub-escala refere -se a questões de resistência à heteronormatividade. Assim, representa sentimentos de desconforto face a papéis e comportamentos sexuais e de género estereotipados e tradicionais, e a eventual necessidade de resistir aos mesmos Crenças de que sexo e género transcendem a simplista defnição binária, e a consciencialização/desconforto com os privilégios que são dados aos heterossexuais num mundo heteronormativo são questões também contempladas nesta sub-escala Sendo uma sub-escala de resistência à heteronorma, não é estranho que os valores mais elevados se situem próximos do ponto médio da escala, não havendo particular concordância ou discordância por parte dos/as participantes (heterossexuais) face a itens como ―Preocupo -me sobre os privilégios que a sociedade me dá/nega em função da minha orientação sexual‖ (M= 3,22; DP=1,40); ou ―Penso que os rótulos homem e mulher não são formas muito úteis de descrever diferenças entre as pessoas‖ (M=3,27; DP=1,33) Da mesma forma, não é estranho que as respostas que mostram maior discordância estejam relacionadas com sentimentos de restrição face aos rótulos de género (M=1,93; DP=1,24) e orientação sexual (M=1,79; DP=1,98) 114 Imagens sociais das pessoas LGBT Tabela 13 Estatística descritiva referente à sub-escala resistência à heteronormatividade Itens N Média DP Sinto-me restringido/a pelo rótulo de género que me aplicam habitualmente 1478 1,9330 1,24200 Sinto-me restringido/a pelo rótulo de orientação sexual que me aplicam habitualmente 1485 1,7993 1,19866 Sinto-me limitado pelos comportamentos sexuais que os outros esperam de mim 1473 2,1582 1,30377 Sinto-me restringido pelas normas e regras da sociedade 1471 2,9742 1,36850 Sinto-me restringido pelas expectativas que as pessoas têm sobre mim em função do meu género 1479 2,3949 1,43025 Preocupo-me sobre os privilégios que a sociedade me dá/nega em fungao da minha orientagao sexual 1475 3,2244 1,40186 Penso que os rótulos homem e mulher não são formas muito titeis de descrever diferengas entre as pessoas 1476 3,2771 1,33979 Acredito que a maioria das pessoas é na sua essência bisexual 1470 2,9395 1,33182 Adesão a Crenças Positivas sobre pessoas LGBT A sétima sub-escala diz respeito à adesão a crenças positivas acerca de pessoas gay, contemplando assim, a adesão a uma variedade de características positivas ou insights linicos que são consequência ou de se ser gay/lésbica, ou de se ser posicionado nas margens de uma sociedade heteronormativa Sendo uma sub-escala que refecte crenças positivas face a pessoas gay e lésbicas não é completamente estranho que os valores médios mais elevados rondem o ponto de não concordância/não discordância face às afrmacoes, ou por estas serem estereó-tipos — ex: ―heterossexuais tern algo a aprender com homens gay no que diz respeito à amizade com mulheres‖ (M=3,28; DP=1,32); ou por simples não reconhecimento ou validação de algumas afrmacoes — ex: ―As lésbicas estiveram na linha da frente no que diz respeito à luta e reconhecimento de direitos iguais às mulheres." (M=3,ll; DP=1,11) Por outro lado, as pessoas mostram também alguma discordância face a itens que afrmam que ser lésbica pode ajudar a tornar uma mulher mais auto -sufciente (M=l,90; DP=1,08) ou independente (M=2,22; DP=1,18) 115 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Tabela 14 Estatística descritiva referente à sub-escala crenças positivas Itens N Média DP Acho que os homens gay são emocionalmente mais disponíveis que homens heterossexuais 1468 2,4428 1,19194 Os homens heterossexuais têm algo a aprender com homens gay sobre relações de amizade com mulheres 1481 3,2883 1,32285 Ser gay pode fazer com que urn homem tenha mais compaixão 1471 2,0313 1,13166 Homens heterossexuais têm coisas a aprender com homens gay no que diz respeito a moda 1474 2,6425 1,27394 Homens gay são mais criativos que homens hetero 1470 2,1463 1,15024 Ser lésbica pode tornar uma mulher mais auto-sufciente 1478 1,9026 1,08163 As lésbicas têm muito a ensinar a outras mulheres sobre como ser-se independente 1467 2,2249 1,18419 A condição dos gays e das lésbicas só pode melhorar quando começarem a ocupar posicoes importantes dentro do sistema 1478 3,3065 1,28271 As lésbicas estiveram na linha da frente no que diz respeito à luta e reconhecimento de direitos iguais às mulheres 1473 3,1100 1,11627 Acho que as lésbicas são emocionalmente mais disponíveis que outras mulheres 1474 2,1431 1,09085 Assim, e através de uma análise factorial29 em componentes principais com rotação VA R I M A X ( K M O = 944, p < 000), agruparam-se as variáveis em sete factores – o que nos levou a retirar alguns itens por estes não factorizarem a níveis que nos parecessem pertinentes A tabela 13 indica os níveis de alfa referentes a cada factor, sendo que optámos por uma Análise Factorial a 7 componentes à semelhança da escala original (Massey, 2009) Tabela 15 Alfas referentes a cada factor da escala de Preconceito Polimorfo Factor 1 Factor 2 Factor 3 Factor 4 Factor 5 Factor 6 Factor 7 Alfa .860 .826 .820 .851 .854 .788 .466 Heterossexismo Tradicional O primeiro factor é aquele que explica 23,4% da variação e é o que diz respeito a itens que conceptualizam questões ligadas ao heterossexismo tradicional, embora alguns itens que factorizaram neste componente venham, por comparação às sub-escalas originais, também das sub-escalas de aversão face a gays/lésbicas – o que em termos teóricos não causa qualquer tipo de constrangimento Crenças Positivas O segundo factor, explicativo de 8,9% da variância diz respeito a itens ligados a crenças positivas sobre pessoas gay e lésbicas, conceptualizando características positivas ou insights 29 A análise factorial referente aos itens desta escala, pela sua dimensão encontra-se em anexo 116 Imagens sociais das pessoas LGBT linicos que são (vistos como) consequência ou de se ser gay/lésbica ou de se posicionar fora do espectro da (hetero)norma Por razões de natureza psicométrica da consistência interna da escala, o item ―Gostaria de ter mais amigos gay‖ foi retirado do factor Negacao de Contínua Discriminacao O terceiro factor diz essencialmente respeito a afrmacoes compreendidas dentro das questões de negação de contínua discriminacao, embora, comparando à escala original, também possua kens referentes a crenças positivas sobre gays e lésbicas Tal como anteriormente, do ponto de vista teórico não existe qualquer problema em que estes itens factorizem no mesmo componente Este factor é explicativo de 5,8% da variância Ainda, por razões de consistência interna da escala os itens ―Casais homossexuais masculinos devem poder adoptar crianças da mesma forma que casais heterossexuais‖; e ―Tal como noutras espécies a homossexualidade masculina é uma expressão natural da sexualidade nos humanos‖, foram retirados deste terceiro factor Resistência à Heteronormatividade O quarto factor, explicativo de 4,4% da variação é respeitante a itens que refectem questões ligadas à resistência à heteronormatividade, e conceptualiza sentimentos de desconforto ou necessidade de resistir a papéis e comportamentos sexuais e de género estereotipados e tradicionais; traduzindo crenças de que sexo e género transcendem a simplista defnição binária e consciencialização e desconforto com os privilégios que são dados aos heterossexuais num mundo heteronormativo Valorizacao de Processos de pessoas LGBT O quinto factor compreende afrmacoes ligadas às questões de Valorizacao de Processos de pessoas LGBT, refectindo essencialmente ideias e ideais pró -diversidade, e é explicativo de 3,2% da variância Aversão face a Gays e Lésbicas e Aversão face a Lésbicas O sexto e sétimo factores explicam, 2,7% e 2,6% da variância, respectivamente, e dizem respeito a itens que se referem a questões de aversão face a gays e lésbicas (6°factor), e aversão específica face a lésbicas (7° factor) Apesar de, transformá -los num só factor poder fazer sentido em termos teóricos, optámos por manter a estrutura factorial a 7 componentes como a escala original Cruzámos estas variáveis com o sexo Foi possível verifcar que homens aderem mais do que as mulheres a crenças, ideias e ideais dentro da conceptualização do heterossexismo tradicional (t (1261)= 5,778 p< 0001) sendo essa diferença de médias estatisticamente signifcativa Por outro lado, verifca -se que os homens negam menos 117 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Através do cruzamento destas variáveis com o os grupos de sexo sugere-se que os homens se diferenciam das mulheres (t (1344)= 4,704 p< 0001), no sentido de demonstrarem mais crenças, ideais e ideologias transfóbicas e genderistas, contribuindo mais facilmente para a manutenção de um sistema heterossexista Da mesma forma, e de maneira bem mais acentuada, os homens mostram uma diferenciação das mulheres (t (1344) = 10,762 p< 0001), no que respeita ao insulto/ataque de género, uma vez que mais facilmente afrmam ter insultado/agredido (ou ter tido essa vontade) outras pessoas em função das suas expressões de género não conformistas e normativas O cruzamento das dimensões desta escala com as variáveis sócio -demográfcas é útil para um entendimento da organização dos posicionamentos das pessoas inquiridas Através da nossa análise verifca -se ainda que o aumento das habilitações literárias infuencia a diminuição da transfobia/genderismo Estabeleceu -se uma relação linear negativa e a variável habilitações literárias aparece como preditora e capaz de explicar 0,6 % da variação média (β= -0,1 1 7, t= -2,778, p=0,006) relativa a variável transfobia/genderismo Ou seja, quanto mais elevadas as habilitações literárias, menor grau de transfobia/genderismo Tabela 24 Relação linear negativa entre habilitacoes literárias e transfobia/genderismo Preditor |.2 B t F p Habilitações literárias 0,06 -0,117 -IJIQ 7,720 0,006 Da análise estatística realizada constatamos a presença de uma relação linear negativa A orientação política é uma preditora válida da transfobia/genderismo e explica 9,1 % da variação (β=-0,392, t=-11,308, p=0,000) desta variável dependente Assim quanto mais à esquerda se posiciona o indivíduo, menor o grau de transfobia/ genderismo Tabela 25 Efeito preditor da Orientação política/posicionamento político à esquerda na transfobia/genderismo Preditor R2 B t F p Orientagão política 0,091 -0,392 -11,308 127,863 0,000 Com o objectivo de perceber se o contacto com a diversidade sexual infuencia, preditivamente, a dimensão transfobia/genderismo recorremos à realizacao de uma regressão linear simples A regressão assinalou uma relacao linear e negativa, a variacao média transfobia/genderismo é explicada em 9,1% (P=-0,379, £=-11,473,^=0,000) pelo contacto com a diversidade sexual; a signifcância estatística permite inferir estes resultados para a população Os dados apresentados indicam que o aumento do contacto com a diversidade sexual infuencia formalmente a diminuicao da transfobia/ genderismo 124 Imagens sociais das pessoas LGBT Tabela 26 Efeito preditor do contacto com a diversidade sexual na dimensão transfobia/genderismo Preditor |.2 B t F p Diversidade sexual 0,091 -0,379 -11,473 131,627 0,000 Gráfico 6 Representação grafica da relação entre o contacto com a diversidade sexual e a dimensão transfobia/genderismo Relações de amizade/Contacto com a diversidade sexual Para compreendermos o impacto do heterossexismo tradicional na transfobia, recorremos a uma regressão linear simples Os resultados são apresentados no próximo quadro Tabela 27 Efeito preditor do heterossexismo tradicional na transfobia/genderismo Preditor |.2 |3 t F p Heterossexismo Tradicional 0,421 0,650 29,202 852,737 0,000 A relafao estabelecida nesta equar.ao é linear, positiva e estatisticamente signifcativa A preditora heterossexismo tradicional explica em 42% a variacao média da transfobia/ genderismo (P=0,650, t=29,202, p=0,000) Podemos então concluir que o aumento 125 0,60" 0,400,20" -0,20" -0,40" EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO do heterossexismo tradicional infuencia o aumento da transfobia/genderismo, com signifcância estatística O que mostra como o heterossexismo tradicional se associa também à transfobia e ao genderismo No respeitante a itens que conceptualizam o gender bashing, percebemos que a grande maioria dos/as participantes revelaram nunca ter tido comportamentos insultuosos, de ataque ou perseguição em função do(s) género(s) (identidades ou expressões) de outras pessoas, à excepção da afrmação ―já gozei com um homem pelo seu comportamento ou aparência femininos‖ (M=5,55; DP=1,86) Mesmo tendo em conta que as respostas sofreram a interferência de questões de desejabilidade social, não deixa de ser relevante questionar sobre o porquê desta afrmação ter tido maior grau de concordância Tanto o heterossexismo vigente como as conceptualizações e ideais hegemónicos sobre a heterossexualidade masculina constroem, ancorados num modelo de género essencialista e dicotómico, a imagem de como o verdadeiro homem é, ou deve ser, legitimando ao mesmo tempo este tipo de preconceito Tabela 28 Médias e desvios-padrão relativos aos itens de gender bashing Itens N Média DP Já bati em homens que se comportam como maricas 1488 6,92 ,463 Se encontrasse um homem que usasse sapatos de salto alto, ligas e maquilhagem, pensaria em bater-lhe 1487 6,86 ,632 Já fui violento/a para um homem por este estar a agir de forma demasiado feminina i486 6,86 ,608 Se visse na rua um homem que eu pensasse ser na verdade uma mulher iria abordá-lo e perguntar-lhe a que género pertencia 1487 6,78 ,738 Já agi de forma violenta para com uma mulher por ela ser demasiado masculina 1494 6,75 ,755 Já gozei com uma mulher pelo seu comportamento ou aparência masculinos 1484 6,11 1»47 Já gozei com um homem pelo seu comportamento ou aparência femininos 1478 5,55 1,86 Para sabermos a infuência da aversão face a gays na dimensão gender bashing, recorremos a uma regressão linear simples No quadro seguinte podem-se analisar os resultados A aversão face a gays é um preditor efectivo do gender bashing (P=0,362, t=13,252, p=0,000), explicando 13% da sua variacao média; a relação estabelecida entre a variável independente aversão face a gays e o gender bashing é positiva, linear e apresenta signifcância estatística (tabela 29) Podemos então inferir que o aumento da aversão face a gays infuencia o aumento do gender bashing Tabela 29 O efeito preditor da aversão face a gays na dimensão gender bashing Preditor |.2 |3 t F p Aversão face a gays 0,130 0,362 13,252 175,608 0,000 126 Imagens sociais das pessoas LGBT No mesmo sentido, e ainda com o objectivo de compreender se o heterossexismo tradicional é um preditor da dimensão gender bashing, utilizamos a regressão linear simples A próxima tabela descreve os resultados Tabela 30 O efeito preditor do heterossexismo tradicional na dimensão gender bashing Preditor |.2 |3 t F p Heterossexismo Tradicional 0,047 0,216 7,610 57,915 0,000 O heterossexismo tradicional é um preditor efectivo do gender bashing, e explica 4,7% (β= 0 , 216 , t= 7 , 6 1 0 , p=0,000) da sua variação média; a relação estabelecida é linear, positiva e directa; acrescenta-se a existência de signifcância estatística, que permite inferir os resultados à população Concluímos então que o aumento do heterossexismo tradicional infuencia o aumento do gender bashing Através do cruzamento destas variáveis com a pertença a grupos de sexo sugere -se que os homens se diferenciam das mulheres (t (1344) = 4,704 p< 0001), no sentido de demonstrarem mais crenças, ideais e ideologias transfóbicas e genderistas, contri-buindo mais facilmente para a manutenção de um sistema heterossexista Da mesma forma, e de maneira bem mais acentuada, os homens mostram uma diferenciação enorme das mulheres (t (1344) = 10,762 p< 0001), no que respeita ao insulto/ataque de género, uma vez que mais facilmente afrmam ter insultado/agredido (ou ter tido essa vontade) outras pessoas em função das suas expressões de género não conformistas e normativas • Escala de Atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo As respostas à escala de atitudes da tabela seguinte ilustram a favorabilidade da amostra em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Assim todos os itens que refectem uma atitude positiva aparecem com médias acima de 4,50 (e desvios--padrão inferiores a 1), enquanto todos os itens que expressam uma atitude negativa aparecem abaixo de 2 (ver tabela 29) As estatísticas descritivas apresentadas permitem apontar para uma atitude muito claramente favorável em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, em termos desta amostra de pessoas heterossexuais 127 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Tabela 31 Médias e desvio-padrão das atitudes em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Dimensões de análise N Média DP Os direitos à protecção social das pessoas casadas, como direitos de saúde 1462 4,67 ,816 e de segurança social devem ser extensíveis a casais do mesmo sexo O princípio básico do casamento é estabilizar uma relação amorosa duradoura 1463 4,38 1,07 Casais de pessoas do mesmo sexo devem poder usufruir desse direito legal Eu apoio pessoas não heterossexuais que reivindicam o direito ao casamento 1463 4,26 1,18 A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo é um passo 1464 4,21 1,16 importante na aceitação de pessoas que não são heterossexuais O casamento entre pessoas do mesmo sexo garante igualdade para 1463 4,19 1,16 todas as relações independentemente da orientação sexual Duas pessoas do mesmo sexo podem dar a mesma qualidade de 1465 3,99 1,29 educação a um/a flho/a que duas pessoas de sexo diferente O casamento entre pessoas do mesmo sexo irá fortalecer 1464 3,96 1,19 a moral da sociedade pela promoção da igualdade Dado que mais pessoas benefciarão de direitos associados ao casamento, o conceito de 1460 3,83 1,21 família será fortalecido pela igualdade no acesso ao casamento de pessoas do mesmo sexo O casamento entre pessoas do mesmo sexo destrói o signifcado de família tradicional 1461 2,68 1,50 O reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma ameaça para a 1464 1,59 1,06 sociedade porque as escolas serão forçadas a ensinar que a homossexualidade é algo normal O homem e a mulher complementam-se naturalmente, portanto a união 1460 1,56 1,08 entre dois homens ou duas mulheres não deve ser reconhecida O objectivo principal do casamento é educar crianças, portanto 1464 1,39 ,881 só um homem e uma mulher devem ter direito a casar Para analisar estatisticamente esta variável e cruzá-la com outras optámos por realizar uma análise factorial em componentes principais, obtendo apenas um factor, tal como no estudo original de Pearl e Gallupo, (2007) que nos permite analisar a atitude em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Essa análise factorial31 (tabela 30) apresentou-se com boa qualidade estatística, como mostra o teste de KMO de 969 31 Antes da factorização, procedemos à inversão dos itens que exprimiam uma atitude negativa, indicadas na tabela com asterisco, seguindo os procedimentos seguidos pela escala original A consistência do factor apresenta-se com níveis muito aceitáveis (alfa de Cronbach de 945), com uma variação explicada de 57% 128 Eu oponho-me à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo 1461 1,55 1,11 A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo levará a 1459 1,51 ,889 gastos fnanceiros desnecessários tais como segurança social A legalização do casamento entre pessoas do mesmo 1462 1,51 1,01 sexo vai pôr em causa a liberdade religiosa O crescente número de mulheres lésbicas é um 1465 1,44 ,940 indicador do declínio da moral na nossa sociedade Imagens sociais das pessoas LGBT Tabela 32 Estrutura factorial das atitudes em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Variáveis (alfa = 945) O homem e a mulher complementam-se naturalmente, portanto a união ,8/1 entre dois homens ou duas mulheres não deve ser reconhecida Eu apoio pessoas não heterossexuais que reivindicam o direito ao casamento ,835 Eu oponho-me à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo * ,820 O casamento entre pessoas do mesmo sexo irá fortalecer a moral ,805 da sociedade pela promoção da igualdade O objectivo principal do casamento é educar crianças, portanto só ,796 um homem e uma mulher devem ter direito a casar * A legalizacao do casamento entre pessoas do mesmo sexo é um passo ,791 importante na aceitação de pessoas que não são heterossexuais O reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma ameaça para a sociedade c i - ' * ,745 porque as escolas serão rorçadas a ensinar que a homossexuahdade e algo normal Dado que mais pessoas benefciarão de direitos associados ao casamento, o conceito de família 'T Jo) sera rortalecido pela igualdade no acesso ao casamento de pessoas do mesmo sexo Duas pessoas do mesmo sexo podem dar a mesma qualidade de educacao a r ,735 a um/a nlho/a que duas pessoas de sexo direrente O casamento entre pessoas do mesmo sexo garante igualdade para todas ■ ,720 as relações independentemente da onentação sexual A legalizacao do casamento entre pessoas do mesmo sexo levará a r , . ,656 gastos nnanceiros desnecessanos tais como seg soc Os direitos à protecção social das pessoas casadas, como direitos de saúde e ' ,652 de segurança social devem ser extensiveis a casais do mesmo sexo O casamento entre pessoas do mesmo sexo destrói o signifcado de família tradicional ,559 A legalizacao do casamento entre pessoas do mesmo sexo A * ,546 vai por em causa a liberdade religiosa Varia^ao Total Explicada = 57,04% Para caracterizar os posicionamentos das pessoas relativamente às suas atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, procedemos ao cruzamento deste factor com a variável sexo Desta forma conseguimos perceber o papel que a variável assume nestas atitudes uma vez que as mulheres apresentam atitudes mais positivas que os homens (t (1398) = – 6,187 p< 0001) Abaixo (gráfco 7) ilustramos esta diferença estatisticamente signifcativa 129 O princípio básico do casamento é estabilizar uma relação amorosa duradoura ,859 Casais de pessoas do mesmo sexo devem poder usufruir desse direito legal O crescente número de mulheres lésbicas é um indicador ,853 do declínio da moral na nossa sociedade * EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Gráfco 7 Atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo em função do sexo dos/as participantes 1MMW- -D.1HHDOUtOtfra>wwiT ----------------------------------------------------- 1 ------------------------------- " *-JW.I i-: P^TIIIMID SEXO Ainda, as variacoes nas atitudes de concordância face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo são explicadas em 13,5 % (P=0447, t=\4,449, ^=0,000) e de forma estatisticamente signifcativa pelo posicionamento político à esquerda (tabela 31) Desta forma o aumento do posicionamento político à esquerda infuencia o aumento das atitudes de concordância face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Tabela 33 Efeito preditor da orienta^ão polítca/Posicionamento político à esquerda na atitude face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Preditor |.2 B t F p Orientagão política 0,135 0,477 14,449 208,766 0,000 De modo a averiguar o impacto do contacto com a diversidade sexual nas atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, realizou-se uma regressão linear simples A relação estabelecida nesta equação é linear, positiva e estatisticamente signifcativa A preditora contacto com a diversidade explica 8,1% da variação média das atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo (β=0,284, t=10,989, p=0,000) 130 Imagens sociais das pessoas LGBT Podemos então concluir que o aumento do contacto com a diversidade sexual infuencia o aumento de atitudes de concordância face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Tabela 34 Efeito preditor do contacto com a diversidade sexual e Atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Preditor R2 B t F p Diversidade Sexual 0,081 0,284 10,989 120,747 0,000 Ainda no sentido de testar se a transfobia e o heterossexismo são variáveis formais da atitude face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, procedemos a uma regressão linear múltipla (tabela 33) Tabela 35 Efeito preditor da transfobia/genderismo e heterossexismo tradicional nas atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo r2 B Preditores Β t p F Ajustado estandardizado 1 Transfobia/ Genderismo -0,448 -0,459 -19,621 0,000 0,641 1019,625 2 Heterossexismo tradicional -0 412 -0,422 -18,064 0,000 Ambas as variáveis são preditoras formais das atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo A relação estabelecida entre as variáveis independentes e a variável dependente é inversa A variável transfobia/genderismo (β = – 0,448, p=0,000) é a melhor preditora da variável dependente, seguida da dimensão heterossexismo tradicional (β = – 0,412, p=0,000) As variáveis preditoras explicam 64,1% da variação média da variável dependente, sendo que o aumento da transfobia/genderismo e do heterossexismo tradicional, infuencia, em elevada magnitude e de forma estatisti-camente signifcativa, a diminuição das atitudes de concordância face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo Quisemos ainda perceber as diferenças de médias relativamente a alguns grupos cujo aprofundamento da análise nos pareceu pertinente: (1) as pessoas que conhecem ou não pessoas trans, e (2) grupos em função da religião e prática religiosa Assim: (1) Entre o grupo que tem amigos transexuais e o grupo que não tem amigos tran-sexuais, num conjunto de dimensões correspondentes a estas escalas sobre discriminação Neste sentido, recorreu -se ao teste t -student para comparar as médias entre as duas amostras independentes, a dos que têm amigos transexuais (N=145) com aqueles que não têm (N=1324), nas dimensões das seguintes escalas: Escala de discriminação face a crossdressers, travestis, transgéneros e transsexuais, Escala de Atitudes face ao casamento 131 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO entre pessoas do mesmo sexo e Questionário de Discriminacao Preconceito Polimorfo face a Lésbicas e Gays O grupo que tern amigos transexuais apresenta médias superiores comparativa-mente ao grupo que não conhece, nas dimensões32: Resistência a heteronormatividade (t(l44,627)=2,6ll, p=0,0l), valorização do movimento gay/lésbico (^(1254) = 2,955, p= 0,03) e atitude (de concordância) face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo (Ml= — 1,721, M2= 0,014, £(208,540)=5,52, ^=0,000) Já o grupo que não tern amigos transexuais apresenta médias superiores comparati-vamente ao grupo que tern amigos transexuais nas seguintes dimensões: heterossexismo tradicional (t (254,903) =-3386,^=0,001), aversão face a gays (£(172,135)=-3,181, ^=0,002) aversão face a lésbicas (^(191,242)=-2,417, ^=0,017), transfobia/genderismo (^(200,530)=-5,840, ^=0,000) e gender bashing (^(192,263)=-3,863, p=0,000) As médias relativas às dimensões do questionário de Preconceito Polimorfo serão grafcamente apresentadas abaixo (gráfico 8): Gráfco 8 Representação grafica da relação entre a variável amigo transexual nas dimensões do Questionário de Discriminação Preconceito Polimorfo FAC1_heterosexismo tradiciona FAC5_valorização de processos de pessoas FAC1_casamento FAC4_resistência heteronormatividade FAC7_aversão face a lésbicas AmigosTrans_rec 32 As restantes dimensões dos testes acima assinalados, foram analisadas e não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre ambos os grupos 132 0,30" 0,10" 0,00" -0,20 Imagens sociais das pessoas LGBT (2) Comparámos as médias entre o grupo de religiosos (N=777) com o grupo de não religiosos (N=705), com recurso ao teste ^-student para amostras independentes, nas dimensões das seguintes escalas: Escala de discriminação face a crossdressers, travestis, transgéneros e transsexuals, Escala de Atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e Questionário de Discriminação Preconceito Polimorfo face a Lésbicas e Gays O grupo de religiosos apresenta médias superiores e estatisticamente signifcativas comparativamente ao grupo que não tern religião nas seguintes dimensões33: heterosse-xismo tradicional (^(1178,672)=6,352, ^=0,000), crenças positivas face a pessoas gay e lésbicas (/(1266)=4,282, ^=0,000), aversão face a lésbicas (/(1245,405)=4,141, ^=0,000) e transfobia/genderismo (Ml=0,288, M2=-0,318, £(1282,653)=11,894, ^>=0,000) Por outro lado, o grupo dos que não tern religião apresentou médias superiores e estatisticamente signifcativas na negacao contínua da discriminacao (£(1266)=-4,229, ^ = 0,000), resistência a heteronormatividade (/(l205,765)=-4,203, ^=0,000), valorização do movimento gay/lésbico (^(1259,627)=-8,600), ^=0,000) e casamento entre pessoas do mesmo sexo (Ml=-0,291, M2=0,324, £(1220,877)=-12,406, ^=0,000) As médias relativas às dimensões do questionário de Preconceito Polimorfo serão grafcamente apresentadas abaixo (gráfico 9): Gráfco 9 Representação grafica das médias por religioso e não religioso nas dimensões avaliadas pelo Questionário de discriminação do Preconceito Polimorfo FAC7_aversão face a lésbicas FAC1_heterosexismo tradiciona FAC2_crenças positivas ___________________________________________________________________________________________________ FAC3_negacao contínua discriminacao FAC4_resistência heteronormatividade FAC5_valorização de processos de pessoas 5 0,C Sim Nao RelSIMNAO 33 Nas restantes dimensões, das escalas acima descritas, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre ambos os grupos 133 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Tabela 41 Espaço conceptual das notícias sobre pessoas LGBTQ Joint Plot of Category Points Ojornal O Keyword 1 3 Keyword 2 O Keyword 3 imes Qtipo violencia domestics O homicidio srient sexual psiquiatria Greconversao O reportagem maio apoi o O figura pub fevereiro opiniao 0Mp casamento enitrevista janei o o ICAR -1 0 Dimension 1 Variable Principal Normalization. A primeira dimensão agrupa os temas de forma cronológica e explica 61,3% da inércia da variáveis mostra como há uma mudança estrutural de agenda nestes temas Assim, verifca-se que desde o princípio do ano até Abril temas como a violência doméstica, criminalidade e casamento ocuparam o foco de atenção da imprensa, recorrendo particularmente a notícias Igualmente os actores deste foco de atenção foram a Igreja Católica e partidos como o Partido Socialista É a partir de Maio, que a agenda muda particularmente com o caso da discussão da reconversão da orientação sexual e com o aparecimento do Movimento pela Igualdade 140 2" 1abril ■:■:■! i eio da manha O lico noticia n Jl-Lll li J ftiiarcodn : O junho jniTErn archa " disciiminacao oposicao Imagens sociais das pessoas LGBT no casamento O jornal I aparece associado a este lado do eixo, por ter surgido nesta altura do ano Passamos a ter mais entrevistas, artigos de opinião e reportagens, o que parece ilustrar uma necessidade da imprensa em começar a dar visibilidade a diferentes opiniões, permitindo indicar alguma clivagem que começa a surgir em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo A segunda dimensão é precisamente estruturada pela oposição entre o casamento e outras questões LGBTQ, que explica 50% da inércia Associado ao casamento temos tomadas de posição claras nas entrevistas e nos artigos de opinião, bem como um efeito mais claro de mobilização de fguras e instituições da sociedade portuguesa, quer apoiantes quer antagonistas da proposta É importante reforçar que a ILGA -Portugal não aparece associada claramente a nenhuma das dimensões, o que reforça a sua posição enquanto grande interlocutora da imprensa portuguesa para todos os assuntos que dizem respeito às questões LGBTQ Uma análise por quadrantes permite compreender mais adequadamente a orga-nização deste espaço conceptual O primeiro quadrante é ocupado com reportagens saídas no mês de Maio e em que os temas principais dizem respeito à controvérsia em torno das possibilidades de reconversão da orientação sexual Como vemos, neste quadrante encontramos a psiquiatria como disciplina onde o debate foi feito Já o segundo quadrante agrupa os temas relativos aos crimes de homícidio e às situações de violência doméstica associadas ao Correio da Manhã no mês de Abril e que foram principalmente notícias No 3º quadrante encontramos as temáticas do casamento, muito reportadas por jornais como o Público e o Diário de Notícias, mais associados aos meses de Janeiro, Fevereiro, Março e Abril, mas também as referencias à Marcha do Orgulho LGBT (que estes jornais cobriram com destaque) Encontrase neste quadrante também as principais oposições ao casamento, nomeadamente as da Igreja Católica (ICAR), bem como as discussões no Partido Socialista, que foram particularmente noticiadas O 4º quadrante agrupa as notícias relativas ao Movimento pela Igualdade (MPI) e os temas da discriminação, bem como as fguras públicas que apoiaram este movi-mento, particularmente no mês de Junho, com textos jornalísticos como entrevistas e textos de opinião 141 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO Conclusões A amostra do presente estudo (1498 pessoas) é caracterizada por ser maioritaria-mente composta por mulheres heterossexuais, urbanas, residentes na área da Grande Lisboa, e cujo nível de escolarização é elevado O método escolhido para o estudo, um questionário aplicado através da internet, teve como limitacoes, uma maior ausência de outros grupos sociais menos escolarizados e mais velhos e de outras zonas do país Através da construcao e uso de uma escala sobre discriminacao de piiblicos -alvo mencionados no artigo 13° da Constituição da Repiiblica Portuguesa, percebemos que as pessoas vistas como mais discriminadas em Portugal são pessoas transsexuais (e acrescentaríamos, transgénero) — sublinhando uma vez mais que a identidade de género ainda não é sequer contemplada no princípio da igualdade do artigo 13° da CRP Relativamente à orientação sexual, os gays, as lésbicas e os/as bissexuais são, por esta ordem, também considerados como ―bastante discriminados/as‖, revelando a percepção da discriminação vigente na sociedade portuguesa face a questões ligadas a sexualidades e identidades que por alguma razão contrapõem as normas societais Importa notar que normalmente existe interferência de níveis de desejabilidade social nestas respostas — levando a que os/as participantes tenham tendência a apresentarem--se aos outros e a si mesmos/as como não preconceituosos/as ou discriminatórios/as (ver por exemplo Gawronski & Bodenhausen, 2007) Assim, é interessante também verifcarmos que questionando acerca de que grupos merecem ser discriminados, em termos de orientação sexual e identidade de género as pessoas transsexuais são, em termos médios, vistas como aquelas perante as quais a discriminação mais se justifca, denunciando a reactividade aos que desafam a construção binária do género e da sexualidade Por comparação a estas, as lésbicas, os gays e os/as bissexuais são, por esta ordem, vistos como alvos menos justifcativos de discriminação As mulheres tern maior percepção de discriminação quando comparadas aos homens, resultado que nos faz crer estar relacionado com o facto de estas, por estarem socialmente incluídas numa categoria de género construída como inferior, acabam por estar mais sensíveis e atentas a outras formas de discriminacao Recorrendo à escala de discriminacao face a transgéneros e transexuais (e crossdressers e travestis) percebemos alguma incongruência nas atitudes das pessoas face a questões de identidade de género Por um lado os/as nossos/as participantes concordam que as pessoas devem poder expressar livremente o seu género e tendem a demonstrar atitudes pouco transfóbicas e genderistas, por outro lado demonstram atitudes mais moderadas no que diz respeito ao encorajamento das crianças a explorar a sua masculinidade e feminilidade Para além das óbvias questões de desejabilidade social que levam as pessoas a apresentarem-se de forma mais positiva e menos discriminatória possível a si mesmas e a(o)s outros/as, parece haver um tipo de pensamento diferente quando 142 Imagens sociais das pessoas LGBT há foco nas crianças, que remete para um tipo de motivação diferencial na resposta Sabemos que este poderá ser um factor que leva a um maior grau de envolvimento do self, e por isso ser explicativo das diferenças nas respostas (Gawronski & Bodenhausen, 2006); eventualmente este factor poderá ser indicador de uma atitude implícita menos favorável a todas as questões que colocam em causa uma norma social de género que constrói e defne de forma bastante fechada o ―masculino‖ e o ―feminino‖ Também relativamente ao gender bashing a maioria das pessoas revelam nunca ter tido comportamentos insultuosos ou de agressão em função das expressões de género A única declaração a contrariar este pressuposto é relativa ao gozar homens pelos seus comportamentos ou aparência femininos, o que uma vez mais parece -nos estar ligado a construções conceptuais hegemónicas legitimadoras do preconceito, que defnem e ditam o que é um homem, como este se deve expressar e comportar Na nossa análise os homens diferenciamse das mulheres no sentido de manutenção de um sistema heterossexista, sendo que demonstram mais crenças e ideias transfóbicas e genderistas Os homens distanciamse ainda das mulheres no que refere ao maior número de insultos ou agressões (praticadas e/ou pensadas) face a outras pessoas em função de expressões ou comportamentos de género vistos como não normativos Relativamente à aplicação da escala referente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, podemos verifcar uma forte favorabilidade geral em relação a esta questão (incluindo questões ligadas à parentalidade) De qualquer forma e uma vez mais as mulheres são, também por comparação aos homens, mais favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo De facto, o relatório referente à UE (European Union Agency for Fundamental Rights, 2009) no que respeita às atitudes face ao casamento entre pessoas do mesmo sexo na Europa, situa Portugal nos 29% de concordância – demonstrando uma favorabilidade mais baixa relativamente à média da UE (27 países: 42%), assumindo a Holanda (82%) e a Suécia (71%) os posicionamentos mais positivos e a Roménia (11%) os menos positivos Como é referido no mesmo documento, as atitudes mais positivas tendem a ser encontradas em Estados -membro com algum/ns tipo/s de reconhecimento legal das relações entre pessoas do mesmo sexo, sugerindo uma relação entre atitudes positivas face à diversidade e reconhecimento politico -legal Já no que respeito diz às atitudes face à parentalidade (sendo esta focada exclusivamente na possibilidade de adopção por casais de pessoas não heterossexuais, em média na UE apenas 31% das pessoas exibem atitudes positivas De facto, apenas a Holanda (69%) e a Suécia (51%) mostram níveis de positividade de mais de metade da população sobre esta questão Portugal situase nos 19% Recorrendo à escala multidimensional de preconceito polimorfo verifcamos que os/as participantes tendem a contrariar o heterossexismo tradicional, que equaciona gays e lésbicas como ―doentes‖, ―ameaças à sociedade‖ ou dotados de menor ―morali143 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO dade‖ As respostas mostram também uma tendência a crenças igualitárias bem como a percepção de que gays e lésbicas continuam a ser discriminados/as, quer de forma geral, quer especifcamente no contexto português Neste sentido, as pessoas mostraram também atitudes de forma geral pouco aversivas face a gays e lésbicas e atitudes que refectem ideais pró -diversidade e de aceitação e valorização da cidadania e direitos de pessoas LGBTQ Não obstante, os/as participantes parecem também não ver com admiração as pessoas LGBT por viverem em contextos políticos, sociais e culturais adversos, o que pode querer evidenciar uma falta de reconhecimento dessas mesmas adversidades Estes participantes mostram ainda sentirem -se muito pouco restringidos relativamente aos seus papéis e rótulos de género e orientação sexual, o que não nos parece ser de todo estranho uma vez que esta nossa amostra é constituída por pessoas auto -identifcadas como heterossexuais Da mesma forma, não mostram qualquer tipo de concordância ou discordância relativamente aos privilégios que a sociedade dá ou nega em função das orientações sexuais, uma vez que, fazendo parte de um grupo maioritário e normativo, não são tão -pouco obrigados/as a pensar sobre estas questões Finalmente, no que respeita a crenças positivas face a pessoas LGBTQ, parece também não haver atitudes particularmente concordantes ou discordantes com esta dimensão Esta neutralidade atitudinal pode surgir por questões de não reconhecimento e/ou não validação de afrmações que salientam a importância de pessoas LGBT na luta pela consagração de direitos (ex: as lésbicas estiveram na linha da frente no que diz respeito à luta e reconhecimento de direitos iguais às mulheres) – o que nos remete para questões de protecção de uma norma hegemónica heterossexualizada Por outro lado, pode emergir uma neutralidade atitudinal em função de afrmações demasiado estereotipadas (ex: heterossexuais têm algo a aprender com homens gay no que diz respeito à amizade com mulheres) Dentro deste cenário, foi possível apercebermo -nos também, que uma vez mais, os homens aderem e incorporam mais que as mulheres crenças e ideias relativas ao heterossexismo tradicional, e que negam menos a contínua discriminação ao mesmo tempo que indiciam maior aversão a gays e lésbicas As mulheres evidenciam maior ―aversão‖ a lésbicas, e acabam por mostrar maior negação da contínua discriminação, o que parece contrariar alguns dados referentes à maior sensibilidade das mulheres para questões de discriminação e preconceito(s) Ainda, a análise à imprensa permitiu constatar uma visibilidade das temáticas LGBT na imprensa portuguesa E notória uma presença continuada desta temática, o que indica um interesse dos jornais por acompanhar as iniciativas em torno da comunidade LGBTQ E curioso notar como foi o casamento que ocupou a maioria das atenções, não só enquanto tema, mas também enquanto objecto de oposição (5,47%) e como objecto de constituição de movimentos cívicos (3,13%) Note -se, contudo como ainda os crimes, nomeadamente o homícidio ocupam parte deste 144 Imagens sociais das pessoas LGBT espaço conceptual A atenção pública dada à ILGA -Portugal é também um indicador do modo como a imprensa recorre a esta associação (mais do que às restantes) para prestar declarações sobre as pessoas LGBTQ A Igreja Católica assume um elevado protagonismo nestas notícias, que se explica pelas sucessivas tomadas de posição que tomou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo Emergiram igualmente os temas da violência doméstica entre casais de pessoas do mesmo sexo e da discriminação sofrida pelas pessoas LGBTQ, temas que começam a ganhar maior importância na imprensa e menos relatados anteriormente Um tema recente refere -se à tomada de posição de alguns psiquiatras sobre as chamadas terapias de reconversão da orientação sexual Este caso foi menos mencionado, mas apesar permitiu verifcar o modo como certos elementos de determinados grupos profssionais teimam em manter, à revelia das orientações científcas internacionais, terapias assentes na reconversão da orientação sexual, o que foi claramente contestado por outros elementos da mesma classe profssional Falamos mais precisamente das declarações do Presidente do Colégio da especialidade de Psiquiatria da Orderm dos Médicos ao Público de 2 de Maio de 2009, em que o mesmo declarava que "Se um indivíduo tiver uma homossexualidade primária (isto é, com um cunho biológico muito marcado, traduzido em tendências homossexuais desde muito novo e tendo tido sempre este tipo de orientação ao longo da vida) será muito difícil ' deixar de ser assim' . Aqui, a ajuda será no sentido de o ajudar a aceitar ‑ se como é", explica. Já "se for uma homossexualidade secundária (ou seja, mais uma opção aprendida ao longo do desenvolvimento, muitas vezes com experiências heterossexuais positivas e gratificantes, antes da opção homossexual)", então, diz o professor da Universidade do Porto, deve estudar ‑ se a possibilidade "de se re ‑ enquadrar a identidade de género e as opções de relacionamento sexualizado" do cliente. Como? Através das "várias formas de psicoterapias". (Público, 2/5/2009) Estas declarações motivaram uma forte reacção de associações ligadas à saúde, diversos profssionais de saúde mental e outros que questionaram as propostas de re -enquadramento da orientação sexual (noticiado no Público de 27/5/2009) e ilustram um exemplo que mostra mais uma vez que também da parte da ciência e da profssão médica encontramos algumas crenças (recusadas pela maioria da comunidade científca internacional) que promovem a ideia de que a homossexualidade é ainda tida como um problema de saúde mental Tal como se verifcou em relação ao debate da interrupção voluntária da gravidez (Oliveira, 2009), também estes sectores da medicina promovem um discurso tido como conservador até pelos seus pares e que pode promover homofobia internalizada Este trabalho permitiu perceber a centralidade que o casamento entre pessoas do mesmo sexo assumiu para a opinião pública E nessa centralidade que o casamento assumiu encontramos igualmente alguns discursos discriminatórios no que à homos-sexualidade diz respeito Assim, vários textos de opinião, classifcados nesta análise 145 EsTUDO SOBRE A DISCRIMINACAO EM FUNCAO DA ORIENTACAO SEXUAL E DA IDENTIDADE DE GENERO como oposição ao casamento apresentavam pressupostos que poderiam ser classifcados como promotores de desigualdade das pessoas LGBT Vej ase o texto de Rita Lobo Xavier no Público de 15 de Abril de 2009: “o tempo em que as leis eram projectadas a pensar no bem comum e em que podíamos tranquilamente confiar na presunção de que "o legislador consagra as soluções mais acertadas" , não veríamos os representantes dos portugueses colaborarem em toda esta encenação por motivos eleitorais, tentando fazer ‑ nos crer que a adulteração do casamento civil é um preço que todos temos de pagar em nome do valor superior da eliminacão de discriminações ‖ (sublinhado nosso) Transmitir a ideia de que a admissão de casais do mesmo sexo consiste numa forma de adulteração do casamento civil é uma maneira de manter estas populações numa posição de inferioridade Sobretudo tratase de se permitir a promoção de um posicionamento claramente diferenciador das pessoas LGBT em relação às pessoas heterossexuais que pode ser lido como uma discriminação Encontramos pois neste argumentário dos posicionamentos públicos contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o peso da adesão a um pensamento que promove a diferença e não a igualdade, mostrando o modo como a imprensa veicula algumas tomadas de posição passíveis de serem lidas como discriminatórias Confrma -se que as categorias identitárias mais usadas foram homossexual/idade e gay, que somados constituem mais de 70% das categorias utilizadas Assim, parece que esta visibilidade de temas LGBT se centrou mais nas pessoas homossexuais do que nas pessoas bissexuais ou transexuais e transgénero, mantendo estas categorias identitárias na penumbra As lésbicas também são pouco nomeadas A designação LGBT permite visibilizar todos os grupos, mas foi apenas usada em 13,4% das vezes Concluímos com a constatação de que a primeira metade de 2009 foi dedicada à questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que se tornou no principal assunto de cobertura jornalística no que diz respeito à população LGBTQ Os meses de Maio e Junho foram particularmente produtivos em termos da visibilidade do Movimento pela Igualdade, o que explica a grande produção de textos jornalísticos nessa altura sobre a população LGBTQ Este estudo concretiza o seu objectivo, apesar de existirem algumas limitações relativas à nossa amostra: há um grande desequilíbrio no que respeita a categorias de sexo, uma vez que esta é maioritariamente composta por mulheres (74,5%), bem como por pessoas ideologicamente posicionadas à esquerda (57%), o que nos deixa com pouca representatividade das atitudes de pessoas politicamente posicionadas à direita Contudo, o estudo permitiu -nos evidenciar indicadores respeitantes às atitudes e ideias sobre a população LGBT por parte de uma amostra de pessoas heterossexuais Assim, focámos questões pertinentes desde as mais mainstream que fazem uma agenda social e política de forma cada vez mais explícita (casamento entre pessoas do mesmo 146 Imagens sociais das pessoas LGBT sexo); a outras de igual importância apesar de (ainda) discutidas em menor grau (transfobia e genderismo), reforçando o papel que as normas societais institucionalizadas e políticas praticadas podem ter na construcao de atitudes face a identidades não--normativas Optámos também por uma abordagem multi -dimensional às questões de preconceito por nos parecer que uma forma mais holista, e não simplista, seria a mais válida e pertinente para estudar questões ligadas às várias formas de discriminação Salientamos também o facto de termos recorrido a medidas recentes e utilizadas noutros países, que cremos, nos possibilita potenciar uma melhor forma de conhecimento e de fazer ciência Desta forma, pensamos ter dado um contributo importante no que diz respeito à continuidade dos estudos sobre discriminacao em funcao da identidade de género e orientacao sexual, bem como à ponderacao das crenças associadas e ideais veiculados normativamente Recomendacoes para Políticas Pelos dados e conclusões discutidas no presente trabalho achamos pertinente pensar numa lista de recomendações políticas a ter em linha de conta É necessário garantir cada vez mais formacoes que refictam e denunciem os efeitos da homofobia, da transfobia, e do heterossexismo Estas formacoes devem ser abrangentes ao maior niimero de sectores e instituicoes piiblicas Importa ainda que sejam realizadas accoes especifcamente dirigidas a homens, dadas as diferenças que encontrámos em funcao de grupos de sexo No mesmo sentido, importa pensar e realizar um crescente niimero de campanhas piiblicas que refictam estas preocupacoes, assim como fomentar a produção de documentacao e publicacoes de suporte a estas matérias £ importante frisar as assimetrias regionais e o papel que as políticas piiblicas podem assumir no sentido de uma maior producao de conhecimentos e sensibilização face a estas matérias Faz -se imprescindfvel discutir dados sobre discriminacao em funcao da orientacao sexual e da identidade de género de um ponto de vista internacional, promovendo, por exemplo, a existência de Conferências Internacionais dedicadas aos temas abrangidos, para que caminhemos cada vez mais para uma maior sensibilização e erradicação das várias formas de discriminação institucionalizadas e perpetuadas por mecanismos sociais, culturais, educacionais e políticos 147