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Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013) e uma entrevista de Juan e Paulo Branco a Noam Chomsky

Veloso, João

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Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013) e uma entrevista de Juan e Paulo Branco a Noam Chomsky1 João Veloso [email protected] Faculdade de Letras da Universidade do Porto Centro de Linguística da Universidade do Porto Noam Chomsky é um dos meus heróis vivos (e quando digo “vivos”, não o digo apenas por Chomsky ainda estar biologicamente vivo, mas principalmente pela força inspiradora do seu contributo simplesmente grandioso para a linguística, para a ciência – e para a humanidade). Como costumo dizer aos meus alunos, devíamos ter um busto dele em cada aula (vou dizendo isto à medida que vou apresentando outros nomes, e, às tantas, as minhas aulas, se esse desejo se realizasse, iam-se transformando num mausoléu, ou, se preferirem, numa galeria de super-heróis). Para um linguista, não deixa de ser reconfortante pensar que um dos intelectuais dos séculos XX e XXI, um dos nomes mais influentes e respeitados do nosso tempo – um dos gurus de hoje! –, é, precisamente, um linguista. A página do MIT dá como certo que Chomsky é, com Freud, Hegel, Marx, Lenine, Shakespeare, Aristóteles, a Bíblia, Platão e Cícero, um dos nomes mais citados de sempre. É caso para dizermos: um linguista em boa companhia e a fazer-nos boa companhia! 1 Este texto, com pequenas adaptações e supressões, corresponde ao que li no Teatro Municipal do Campo Alegre (Porto) no dia 21 de dezembro de 2014, a convite da Medeia Filmes, na apresentação do filme Is The Man Who Is Tall Happy? (É feliz o homem que é alto?, realiz. Michel Gondry, França, 2013) e da entrevista feita em 2014 a Noam Chomsky por Paulo Branco e Juan Branco para apresentação no Simpósio Internacional “Ficção e Realidade – Para Além do Big Brother” (como parte do programa da edição de 2014 do Lisbon & Estoril Film Festival). Um agradecimento especial é devido a António Costa, da Medeia Filmes, pelo convite para participar nessa sessão e fazer a apresentação pública do filme e da entrevista. Agradeço ainda à Profª Doutora Ana Maria Brito o convite para publicar este texto neste número da Linguística. 150 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 O CHOMSKY LINGUISTA Como linguista, Chomsky não é um linguista qualquer. Na década de 1950, foi ele que de certo modo refundou a linguística. Assim como os renascentistas Copérnico e Galileu nos ensinaram a olhar o mundo com verdade, assim como Carl Friedrich Gauss e alguns dos seus contemporâneos, colegas e continuadores conseguiram, no rescaldo das Luzes e ao longo do século XIX, uma “reconceptualização” da geometria de Euclides, ou tal como Einstein, no século XX, redimensionou toda a física, Noam Chomsky é a barreira, epistemológica e temporal, entre uma “linguística pré-chomskyana” e uma “linguística pós-chomskyana”. Não vou aqui, como é óbvio, entrar em detalhes técnicos sobre as principais e mais inovadoras propostas do programa da Gramática Generativa proposto por Chomsky e desenvolvido por equipas de linguistas em todo o mundo há perto de 60 anos. O filme foca alguns dos pontos dessa “mudança de paradigma” (para usar agora a expressão consagrada de Kuhn 1962). Quando me perguntam (e acontece muitas vezes) “mas afinal o que é que o Chomsky tem de diferente dos outros linguistas?”, começo sempre por dizer algo como: “estás a ver o Einstein? O Einstein que mudou toda a maneira de olhar para a natureza física do universo, capaz de desafiar e virar ao contrário o modo como desde sempre olhámos para o que aparentemente temos de mais garantido no mundo, como o tempo, o espaço, a massa, a energia? Um génio? Um visionário? – Pois o Chomsky é como ele!”. O Chomsky é, dentro dos limites inevitáveis destas comparações tiradas à pressa do bolso das calças, o Einstein da linguística. É o homem brilhante – genial – que introduziu mudanças absolutamente radicais – revolucionárias – na forma como os linguistas trabalham, pensam, formulam hipóteses e procuram explicações acerca de objetos eles mesmos completamente reformulados, redefinidos e redimensionados. A revolução epistemológica que o seu contributo veio trazer à linguística pertence ao conjunto daquelas que, nos vários domínios do conhecimento, ocorrem uma vez ou menos em cada século. 151 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 No meu livro preferido de Chomsky e que é aquele que eu aconselho a todos os meus alunos como leitura de cabeceira – O Conhecimento da Língua –, Chomsky (1986) dedica mesmo alguns momentos de reflexão teórica à questão, discutida por alguns dos seus continuadores, de a investigação linguística feita fora do “seu” paradigma poder caber ou não dentro do âmbito deste ramo da ciência2. Independentemente de toda a admiração que sempre nutri pela figura e pela obra de Chomsky, o tom categórico de tal proposta pareceu-me, quando dela tomei conhecimento pela primeira vez (há muitos anos), bastante exagerado e, até, muito drástico. Contudo, assim como nos nossos dias se rejeitaria imediatamente qualquer “estudo” astrofísico baseado no geocentrismo pré-coperniciano ou na não relatividade do tempo pré-einsteiniana, hoje não podemos deixar de concordar em grande parte com os que dizem que, num certo sentido, realmente, só à luz do programa generativo se justifica investigar esta faculdade que é, de entre todas as capacidades biológicas, a que distingue o Homo sapienssapiens (o Homo loquens, como Fry (1977) preferiu chamarlhe (chamar-nos)) de todas as outras espécies animais à face da Terra. Refirome à linguagem tal como entendida no pensamento chomskyano: como uma predisposição inata, exclusivamente humana, para, expostos a um estímulo pobre, mínimo e fragmentário (e Chomsky, no filme que vamos ver, também nos fala disso), adquirirmos uma língua natural. No quadro de pensamento fundado por Chomsky, é essa predisposição que nos leva a desenvolver uma gramática finita e implícita (que a nós, linguistas, caberá explicitar, explicar e formalizar). Espartilhada pelos limites da gramática universal, a linguagem superficializa-se em línguas geográfica, tipológica e geneticamente muito distantes que, por muito diversas que nos pareçam, respondem de modo substancialmente invariável perante um conjunto 2 As palavras exatas de Chomsky, comentando interpretações da sua própria obra que excluem do escopo da linguística todas as abordagens não generativas, são as seguintes, e demonstram que a posição de Chomsky não é, afinal, tão radical como muitas vezes se afirma: “É possível dizer-se que as propostas terminológicas apresentadas por Soames [um dos autores que excluem liminarmente da linguística qualquer estudo que se afaste dos pressupostos nucleares da Gramática Generativa relativos, p. ex., ao inatismo, ao universalismo e à eleição da língua-I como o único objeto de estudo] são um pouco excêntricas. Parece no mínimo estranho definir «linguística» de forma a excluir muitos dos seus maiores praticantes – por exemplo, Roman Jakobson e Edward Sapir, que certamente não teriam aceitado que aquilo que Soames considera como dados extralinguísticos fosse irrelevante para as questões da linguística, tal como eles as entendem […]. […] a verdadeira questão que se coloca é a de saber se há ou não razões para estabelecer uma disciplina de «linguística» que se restringe, por razões apriorísticas, a alguns dados particulares e que constrói um conceito de «língua» que pode ser estudado no âmbito desta escolha de dados relevantes. […]” (Chomsky 1986: 52-53). 152 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 limitado de restrições rígidas e também invariáveis, coligidas numa parcela específica e especial das capacidades cognitivas humanas. Como todas as grandes ideias, esta é uma ideia tentadoramente simples e aparentemente óbvia (mas só na aparência o é!). Como é próprio dos grandes cientistas, Chomsky não a constrói do nada, não a tira da cartola como num exercício de diletantismo intelectual, não a exterioriza com um estalar de dedos. Como é típico dos verdadeiramente sábios, Chomsky conhece o passado das grandes ideias. Como costuma dizer-se, “leu os clássicos”, e lembra outros que, antes, séculos antes, puseram em destaque características da linguagem e da cognição que são os mais importantes pontos de partida do generativismo clássico: o inatismo, a criatividade linguística, o conhecimento implícito da língua, a dualidade mentecérebro. E cita, nos seus textos mais programáticos – bem como no filme e na entrevista a que assistiremos hoje à tarde –, os nomes e os textos de Leibniz (e a contenda entre Leibniz e Locke), de Hume, de Descartes, de Humboldt, a “Gramática de Port-Royal” como alguns dos seus precursores e inspiradores. Uma das suas ideias centrais – podemos dizer que, na época e no contexto epistemológico em que Chomsky as delineou e defendeu, em meados do século passado, além de centrais, foram também ideias revolucionárias – consistiu na proposta de que o objeto central do linguista não são propriamente os produtos empiricamente acessíveis exteriorizados pela capacidade linguística humana. Isto é: os milhões de milhões (na verdade: o infinito número de) frases de uma língua, devidamente registadas, descritas, catalogadas, autopsiadas, não são o verdadeiro explicandum do linguista. Ao linguista interessará descrever os mecanismos cognitivos, biologicamente implantados, que tornam possíveis tais produtos “externos”. Como costumo dizer aos meus alunos, não é fundamentalmente a carne picada que nos interessa; interessa-nos saber como funciona a máquina que a pica e tecer hipóteses, e testá-las, acerca das estruturas hipotéticas, abstratas –conjeturais (em linguística, como em matemática, trabalhamos muito, eu diria que trabalhamos fundamentalmente, com conjeturas) –que são o input desse mecanismo gerador de produtos externos. As clássicas 153 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 oposições, hoje do domínio geral, competência/performance ou língua-I/ língua-E, que qualquer linguista deve ter sempre em mente, são um adquirido pós-chomskyano (este “pós” é temporal e é causal). No filme, teremos oportunidade de o ouvir falar sobre este assunto também, assim como o ouviremos acerca de dois outros temas associados a esta mesma questão e estreitamente relacionados entre si: a faculdade da linguagem como parte das capacidades inatas do indivíduo e o célebre “problema de Platão”, assim batizado por Chomsky – como é que, com base numa experiência tão escassa, construímos, como que instintivamente, um conhecimento tão amplo de um objeto tão abstrato e complexo como é a estrutura gramatical da nossa língua materna? Trata-se de uma questão que dividiu, e ainda dividirá, linguistas, psicólogos, psicolinguistas e biólogos, e que dá corpo a um dos debates científicos mais interessantes do século XX, tendo posto em confronto, p. ex., dois gigantes do pensamento como Noam Chomsky e Jean Piaget num dos encontros de Royaumont, o de 19753. Estas são algumas das pistas apaixonantes abertas pelo pensamento de Chomsky e que fazem do trabalho em linguística, hoje, uma aventura intelectual tão gratificante e tão irresistível. Ainda a propósito do Chomsky-linguista que se torna mais nítido no belíssimo filme que vamos ver, deixem-me só sublinhar os dois aspetos seguintes, que transparecem também da obra de Michel Gondry: - em primeiro lugar, e continuando a olhar a rutura que Chomsky estabelece com o paradigma estruturalista dominante na época da afirmação epistemológica da “sua” Gramática Generativa: na sua formação inicial como linguista, como é evidente, Chomsky não escapou à “formatação” clássica que era a reinante enquanto Chomsky era um jovem estudante. Ele próprio o refere, na conversa com Gondry, quando recorda os primeiros trabalhos que redigiu ainda enquanto estudante principiante de linguística, nomeadamente a sua tese de licenciatura (reformulada mais tarde como tese de mestrado também), sob a orientação do excecional estruturalista 3 A leitura dos textos resultantes desse encontro (Piatelli-Palmarini, Massimo (Org.), 1979) é, sem dúvida, um elogio e um estímulo à inteligência humana, comparável ao filme a que hoje iremos assistir. 154 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 ZelligHarris, sobre a morfofonologia do hebraico. Tratava-se de um trabalho clássico, bastante formatado ainda por muitos dos cânones centrais da linguística estruturalista que o programa chomskyano viria mais tarde a refutar – mas já prenunciando uma visão crítica, comungada em parte pelo próprio Zellig Harris, acerca da conceptualização geral das línguas e das gramáticas então predominante4. Este episódio biográfico de Chomsky faznos lembrar uma outra viragem fundamental na História da Linguística: o contraste entre os primeiros trabalhos académicos do fundador da disciplina, Ferdinand de Saussure – de que aqui destaco, primeiramente, aquele que é porventura o seu mais antigo texto a ter merecido uma maior atenção e divulgação (a Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes (Saussure 1878), uma descrição do sistema vocálico indo-europeu arcaico e das suas primeiras ramificações nas línguas indoeuropeias mais antigas) e, a par deste, a sua tese de doutoramento, uma dissertação sobre o genitivo absoluto do sânscrito defendida em 1881 na Universidade de Leipzig (Saussure 1881) – e as propostas inovadoras que viriam a assegurar ao seu autor o reconhecimento como o “pai da linguística”. Nesses estudos mais iniciais, bem como noutros trabalhos desenvolvidos por Saussure na época anterior ao seu Cours de Linguistique Générale (Saussure 1916), os pressupostos e as metodologias que se respeitam e se adotam são absolutamente concordantes com o quadro histórico-comparatista do século XIX cuja substituição Saussure haveria de propor alguns anos depois, em Genebra, para assim desencadear a fundação da moderna linguística científica. Quanto a mim, é muito interessante, e muito encorajador, pensar que os dois momentos de nascimento, renascimento e viragem da história da minha disciplina resultaram, no fundo, de dois atos de rebeldia – consciente, racional, cientificamente equilibrada, fundamentada, baseada no exame crítico e no pensamento autónomo – de dois intelectuais de rasgo que personificaram aquilo a que gosto de chamar o poder criativo da rutura; também em ciência, é do inconformismo e da revolução – deixem-me usar aqui a palavra revolução, num sentido até um pouco mais subversivo do que o que lhe é dado, em epistemologia, por Kuhn (1962) – que surgem os progressos e os grandes saltos (o velhinho Saussure era outro dos bustos 4 Uma reedição moderna deste texto pode encontrar-se em Chomsky (2012). 155 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 que, apesar da minha inclinação generativa, gostaria de ver nas minhas salas de aula); - em segundo lugar, um outro aspeto interessante, e que testemunhamos no filme que vamos ver, tem a ver com uma coincidência, uma daquelas coincidências que, até para um racionalista como eu, têm de ter um sentido qualquer: a dada altura, como verão, Gondry pergunta a Chomsky o que é que ele queria ser em criança quando fosse grande (esta deve ser a frase/ interrogação mais estafada de todas as línguas naturais, que por pouco dava razão ao carácter behaviorista da linguagem a que Chomsky tão veementemente se opôs). Chomsky responde (e desculpem estar a adiantar uma parte do filme) que queria ser “taxidermista”, um embalsamador de animais, porque, diz ele, “a palavra taxidermista era uma palavra bonita, que lhe soava muito bem”. Isto de ir atrás da forma fonética das palavras não é exclusivo dos poetas, como se vê, e já prenunciava, se acreditássemos em prenúncios, o brilhante futuro de Chomsky como linguista (ainda que mais atraído pelas estruturas formais da sintaxe do que pelas da fonologia…). Mas a coincidência para que queria aqui chamar a vossa atenção tem a ver com um outro pormenor: numa das apreciações que Chomsky faz acerca de outros modelos de pesquisa em linguística não inteiramente coincidentes com os que ele próprio propõe, o fundador do generativismo linguístico pretende reduzir os investigadores centrados na coleção e catalogação de dados linguísticos (isto é, os linguistas prioritariamente focados na(s) língua(s)-E) a “colecionadores de borboletas”5, a quem o autor chama também, noutros momentos,“taxonomistas”. Numa passagem do filme, é feita referência a esta conceção de linguística (refutada pelo nosso homem de hoje à tarde), ainda que, tanto quanto me lembro, sem nunca se usar o termo “taxonomista”. É curioso verificar que o menino que queria ser taxidermista se tenha tornado o homem que recusou a taxonomia (estes dois termos relacionam-se etimologicamente): é nas inflexões da vida que está muitas vezes o encontrar do caminho certo, e o percurso original e corajoso de Chomsky é particularmente exemplar neste aspeto. 5 A seguinte passagem, em que Chomsky se refere aos métodos e objetivos da sociolinguística, ilustra o que acaba de ser dito: “You can also collect butterflies and make many observations. If you like butterflies, that’s fine; but such work must not be confounded with research, which is concerned to discover explanatory principles of some depth and fails if it does not do so.” (Chomsky 1979: 57). 156 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 O CHOMSKY CIENTISTA Um grande linguista como Chomsky, capaz de operar uma rutura tão definitiva dentro da sua própria ciência, não pode deixar de ser também, como é óbvio, um cientista ímpar e, ao mesmo tempo, um filósofo e um genuíno filósofo da ciência. Em princípio, qualquer cientista competente sabe interrogar-se sobre os dados que observa, os resultados a que chega, as análises que desenvolve; qualquer cientista competente vai descobrindo, no seu dia-a-dia, perguntas mais ou menos pertinentes e caminhos mais ou menos adequados para as explorar e questionar. O filme mostra muito bem essa faceta do pensamento crítico e analítico de Chomsky: uma sede insatisfazível de saber e conhecer, uma capacidade inesgotável de fazer perguntas e procurar caminhos, uma curiosidade infinita que o leva sempre a examinar criticamente todas as dimensões de todas as perguntas e todas as fraquezas de todas as respostas. Isto torna-se comovedoramente patente nas intervenções de Chomsky a propósito dos assuntos mais triviais ou, até, mais íntimos que são abordados ao longo da espécie de entrevista com o realizador, desde a forma como conta como estudava hebraico em casa com o pai até à forma como explica o conceito de “continuidade psíquica” (recuperando aqui um termo que a psicologia cognitiva, que recebeu um impulso tão decisivo da linguística chomskyana, praticamente abandonou, mas fazendo lembrar Trubetzkoy – mais um busto! – e a “realidade psíquica” do fonema, ou então a “realidade psicológica” das unidades e processos gramaticais tão metodicamente procurada pelos primeiros discípulos de Chomsky, em particular nos domínios da psicolinguística e da aquisição da linguagem nas décadas que se seguiram aos primeiros textos programáticos do generativismo clássico). Mas só um cientista que vai muito para além do trabalho rotineiro e repetitivo do “profissional da ciência” é capaz de levar tão longe e tão fundo esta “obsessão interrogativa” que se estende aos próprios fundamentos, às motivações e à natureza da ciência em que trabalhamos. Saussure morreu cedo– partiu sobretudo sem tempo para testar devidamente e para concretizar 157 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 algumas das propostas mais inovadoras do seu Curso de Linguística Geral, postumamente publicado. Teríamos essencialmente de esperar pelos linguistas de Praga, a partir de finais dos anos 1920, para ver o seu programa minimamente “experimentado”. Felizmente, Chomsky viveu o suficiente para, com lucidez e energia, ver a sua teoria testada, reformulada, discutida, aplicada, contestada, parcialmente retomada por uns, parcialmente refutada por outros, violentamente dirimida por muitos. Conheceu muitas descrições de gramáticas particulares e muitas tentativas de descrição de processos cognitivos e linguísticos baseadas nas suas propostas teóricas. Ele próprio participou numa grande parte dos trabalhos que aplicaram, reviram, melhoraram e discutiram as suas propostas iniciais, da Teoria Standard à Teoria dos Modelos e Parâmetros e ao Programa Minimalista. Assistiu ao desenvolvimento de modelos teóricos, como os Modelos Não Lineares da Fonologia, a Teoria da Otimidade e a Biolinguística, que, partindo de alguns dos seus pressupostos essenciais, acabaram por originar abordagens particulares de múltiplos fenómenos linguísticos nem sempre inteiramente concordantes com os textos mais programáticos do próprio inspirador do generativismo. Este não é o resultado de um “cientista rotineiro”. É o fruto – e é a prova – da excecionalidade do tal “revolucionário” que surge de cem em cem anos, ou mais raramente até, para não só fabricar e acrescentar conhecimento novo àquele que já temos, mas para nos ensinar novas maneiras de fabricar conhecimento, para nos mostrar novos sítios onde procurá-lo e para nos ajudar a desenhar a realidade a novas dimensões. E isso só é possível quando se é capaz de, com um conhecimento profundo do passado da ciência, se pôr em causa os cânones fulcrais da nossa própria disciplina, através da dúvida metódica, sim, mas através também de um escrutínio meticuloso, rigoroso, obsessivo, de todo o caminho que conduz à obtenção de conhecimento, desde a nascente até à foz, e através de uma criatividade desassombrada e sem medo de projetar nova luz sobre novas e velhas trevas. É nesse sentido que podemos dizer que Chomsky é mais do que um linguista (de resto, há já alguns anos que a “descrição de línguas” e da 164 Veloso, João - Sobre Is The Man Who Is Tall Happy? (Michel Gondry, França, 2013)... Revista de Estudos Linguísticos da Univerdade do Porto - Vol. 10 - 2015 - 149-164 Chomsky, N. 2012. Morphophonemics of Modern Hebrew. London: Routledge Revivals [1ª ed. com distribuição comercial: New York, Garland, 1979]. Fry, D. B. 1977. Homo loquens: man as a talking animal. Cambridge: Cambridge University Press. Herman, E. S. & Chomsky, N. 1988. Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. New York: Pantheon. Kuhn, T. S. (1962/2012). The Structure of Scientific Revolutions. 4th ed., 50th anniversary edition. Chicago: The University of Chicago Press. [1ª ed.: 1962]. Piatelli-Palmarini, M. 1979 (Ed.). Théories du langage, théories de l’apprentissage. Le débat entre Jean Piaget et Noam Chomsky. Paris: Seuil. Saussure, F.de. 1878. Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indoeuropéennes. Leipzig: Teubner. Saussure, F. de. 1881. De l’emploi du génitif absolu en Sanscrit. Genève: Fick. Saussure, F. de. 1916. Cours de linguistique générale. Paris: Payot.