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I.Abordagem cirúrgica na resolução de fratura de rádio e cúbito numa cegonha branca (Ciconia ciconia) II. Abordagem conservativa no tratamento de pododermatite numa Águia de Bonelli (Aquila fasciata)

Andreia Monteiro Bárbara

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Relatório Final de Estágio Mestrado Integrado em Medicina Veterinária I. Abordagem cirúrgica na resolução de fratura de rádio e cúbito numa cegonha branca (Ciconia ciconia) II. Abordagem conservativa no tratamento de pododermatite numa Águia de Bonelli (Aquila fasciata) Andreia Monteiro Bárbara Orientador: Professora Doutora Alexandra Müller Co-orientador: Dr.ª Violeta de Vargas-Machuca Gabandé Porto 2014 Relatório Final de Estágio Mestrado Integrado em Medicina Veterinária I. Abordagem cirúrgica na resolução de fratura de rádio e cúbito numa cegonha branca (Ciconia ciconia) II. Abordagem conservativa no tratamento de pododermatite numa Águia de Bonelli (Aquila fasciata) Andreia Monteiro Bárbara Orientador: Professora Doutora Alexandra Müller Co-Orientador: Dr.ª Violeta de Vargas-Machuca Gabandé Porto 2014 III RESUMO O presente trabalho tem como objetivo apresentar aspetos específicos do diagnóstico, tratamento médico-cirúrgico e reabilitação associados a quadro de fratura de antebraço numa Cegonha Branca (Ciconia ciconia) e de pododermatite numa Águia de Bonelli (Aquila fasciata). Estes casos clínicos foram acompanhados durante o estágio curricular, o qual decorreu entre os dias 21 de janeiro e 12 de maio de 2014 no Centro de Recuperação de Fauna Selvagem de AMUS, em Villafranca de los Barros. O primeiro caso foi selecionado devido ao elevado peso que possuem os casos de fratura de membro torácico na casuística total dos centros de recuperação, e pelo impacto que possui a sua resolução na sobrevivência das aves selvagens no seu habitat natural. O tratamento aplicado consistiu na redução cirúrgica das fraturas apresentadas por aplicação de cavilhas intramedulares em conjunto com aplicação de ligadura em forma de oito, e terapia física de reabilitação. Esta última consistiu em sessões de fisioterapia e musculação em jaula de voo. O processo de recuperação do animal teve uma duração de 65 dias, culminando na devolução do exemplar ao seu habitat natural. O segundo caso foi escolhido pois ilustra uma das principais consequências da manutenção de aves selvagens em cativeiro. Ainda que indesejável, o cativeiro prolongado pode revelar-se obrigatório nos centros de recuperação. A libertação no menor tempo possível nem sempre é exequível, frequentemente por motivos associados à patologia manifestada, que pode inclusivamente inviabilizar a libertação do animal. A ave afetada apresentava lesões que impossibilitavam a sua sobrevivência no habitat natural pelo que foi mantida em cativeiro durante três anos, com o objetivo de ser incorporada num projeto de cria ex situ. A pododermatite foi abordada através de tratamento conservativo. Ao longo dos 52 dias de tratamento acompanhados durante o período de estágio, não se verificou evolução substancial da lesão inicialmente apresentada IV AGRADECIMENTOS “Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes” ( Ricardo Reis) Um Obrigada... A quem o ensinou, A quem o permitiu, A quem o inspirou. V LISTA DE ABREVIATURAS CRFS: Centro de Recuperação de Fauna Selvagem DMSO: dimetilsulfóxido IM: via de administração intramuscular kg: quilograma l: litro mg: miligrama min: minuto(s) ml: mililitro mm: milímetro PO: per os (via de administração oral) SID: uma vez por dia UCI: Unidade de Cuidados Intensivos UI: unidades internacionais VI ÍNDICE RESUMO ..................................................................................................................................... III AGRADECIMENTOS ................................................................................................................. IV LISTA DE ABREVITURAS ......................................................................................................... V ÍNDICE ..........................................................................................................................................VI I INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 1 II ABORDAGEM CIRÚRGICA NA REDUÇÃO DE FRATURA DE RÁDIO E CÚBITO NUMA CEGONHA BRANCA (Ciconia ciconia) 1. Introdução ............................................................................................................................ 2 2. Revisão bibliográfica ........................................................................................................... 3 2.1 Exame de admissão ....................................................................................................... 3 2.2 Estabilização do paciente.............................................................................................. 3 2.3 Resolução de fraturas localizadas a nível do antebraço ................................................ 4 2.3.1. Métodos conservativos ...................................................................................... 5 2.3.2. Métodos cirúrgicos ............................................................................................ 5 2.4 Anestesia ........................................................................................................................ 7 2.5 Pós-operatório ................................................................................................................ 8 2.6 Complicações ................................................................................................................ 8 2.7 Terapia física de reabilitação ......................................................................................... 9 3. Descrição do caso clínico .................................................................................................. 10 3.1 Exame clínico de admissão ......................................................................................... 10 3.2 Tratamento ................................................................................................................... 11 3.3 Fisioterapia .................................................................................................................. 14 3.4 Musculação .................................................................................................................. 14 3.5 Libertação .................................................................................................................... 14 4. Discussão do caso clínico .................................................................................................. 15 III ABORDAGEM CONSERVATIVA NO TRATAMENTO DE PODODERMATITE NUMA ÁGUIA DE BONELLI (Aquila fasciata) 1. Introdução ............................................................................................................................ 17 2. Revisão bibliográfica ........................................................................................................... 18 2.1 Fatores predisponentes .................................................................................................. 18 2.2 Fisiopatologia ................................................................................................................ 18 2.3 Diagnóstico ................................................................................................................... 19 2.4 Medidas preventivas ..................................................................................................... 20 2.5 Tratamento ..................................................................................................................... 20 2.5.1 Tratamento médico ........................................................................................ 20 2.5.2 Tratamento cirúrgico ..................................................................................... 21 3. Descrição do caso clínico ..................................................................................................... 22 VII 3.1 Exame clínico de admissão ............................................................................................ 23 3.2 Tratamento .................................................................................................................... 23 4. Discussão do caso clínico .................................................................................................... 26 IV BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................... 29 V ANEXOS Anexo 1 Descrição das instalações de alojamento dos animais do Centro de Recuperação de Fauna Selvagem de AMUS ........................................................................................................... 31 Anexo 2 Espécies admitidas durante o período de estágio ............................................................ 32 Anexo 3 Principais vantagens e desvantagens associadas aos métodos de osteossíntese mais utilizados em aves .......................................................................................................................... 33 Anexo 4 Acessos cirúrgicos utilizados na abordagem de fraturas a nível do antebraço em aves . 34 Anexo 5 Protocolo de fluidoterapia no Centro de Recuperação de Fauna Selvagem de AMUS .. 36 Anexo 6 Classificação de lesões de pododermatite (Remple 1993) ............................................. 37 Anexo 7 Lesão de pododermatite na pata esquerda no dia de ingresso e 52 dias depois .............. 38 1 Figura 1 – Instalações de UCI (A), observação (B), reabilitação (C) e musculação (D) do Centro de Recuperação de Fauna Selvagem de AMUS (imagens gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) I INTRODUÇÃO O CRFS de AMUS localiza-se na comunidade autónoma da Extremadura, Espanha, uma das mais ricas em diversidade faunística na Península Ibérica. Os objetivos do trabalho realizado neste Centro consistem na reabilitação e devolução à natureza de espécies autóctones, incremento de populações selvagens através de programas de cria em cativeiro e sensibilização da população em geral para a problemática da conservação da fauna selvagem. O Centro encontra-se dividido em três áreas fundamentais: o hospital, as instalações de preparação de alimento e as instalações exteriores. O hospital por sua vez divide-se em três zonas: a clínica, o laboratório e a unidade de cuidados intensivos (figura 1A). As instalações exteriores estão subdivididas em quatro blocos principais: instalações de observação (figura 1B), instalações de reabilitação (figura 1C), instalação de musculação (figura 1D) e instalações de alojamento definitivo para exemplares irrecuperáveis. A descrição detalhada de cada tipo de instalação encontra-se no anexo 1. Casuística durante o período de estágio As causas de ingresso durante o período de estágio encontram-se representadas na figura 2. A queda de ninho e fratura ou luxação afetando o membro torácico perfizeram um total de 46% e 37% respetivamente. As espécies associadas a maior número de ingressos foram Cegonha Branca e Coruja do Mato, com um total de 24 e 18 ingressos respetivamente (anexo 2). 2 Figura 2 – Causas de ingresso dos animais admitidos no Centro de Recuperação de Fauna Selvagem de AMUS durante o período de estágio 46 37 8 82 2 15 4 4 3 4 7Queda de ninho/ Órfão Fratura/luxação de membro torácico Fratura/luxação de membro pélvico Traumatismo craneo-encefálico Traumatismo medular Lesão patagial Lesão de tecidos moles (que não patágio) Eletrocussão Fraqueza generalizada Cativeiro ilegal Armadilha Indeterminada Atividades desenvolvidas Durante o período de estágio foi possível acompanhar todas as tarefas desenvolvidas de forma rotineira num CRFS. Estas consistiram no acompanhamento dos casos clínicos, na realização de necrópsias, na manutenção das instalações destinadas ao alojamento temporário ou definitivo dos animais ingressados e na preparação da alimentação destinada aos mesmos. II ABORDAGEM CIRÚRGICA NA REDUÇÃO DE FRATURA DE RÁDIO E CÚBITO NUMA CEGONHA BRANCA (Ciconia ciconia) 1. Introdução Existem determinadas caraterísticas inerentes às aves selvagens que condicionam o quadro clínico apresentado e também as técnicas aplicadas na resolução de fraturas. Entre estas pode salientar-se a reduzida cobertura dos ossos por tecidos moles que predispõe à ocorrência de fratura aberta . Os ossos possuem também corticais finas e quebradiças com reduzida capacidade de suportar os equipamentos de osteossíntese (Helmer & Redig 2006). A seleção da terapia aplicada assim como todo o processo de reabilitação, deverão ser pensados tendo em consideração que os pacientes necessitam de um elevado grau de restituição da função para que possam ser devolvidos com sucesso ao seu habitat natural (Hatt 2008). Durante o período de estágio ingressaram no CRFS de AMUS nove cegonhas com fratura a nível do membro torácico. Destas, seis foram submetidas a cirurgia para resolução da fratura. Do total de exemplares operados, dois foram devolvidos à natureza e dois continuavam em tratamento na data de finalização do estágio. Os outros dois animais desenvolveram complicações pós-cirúrgicas, aspergilose e não união óssea, que culminaram em eutanásia. Três dos seis animais operados apresentavam fratura de rádio e cúbito. Um deles foi devolvido à natureza e o seu caso clínico é descrito neste trabalho. Os outros dois continuavam em tratamento na data de término do estágio, um com bom prognóstico em relação à recuperação da funcionalidade do membro, e o outro com prognóstico reservado devido a lesão de ramos do nervo mediano-ulnar. 9 entanto, material proveniente de calo ósseo autógeno pode auxiliar na reparação de defeitos corticais (Jones & Redig 2001). A sinostose pode ocorrer como complicação pós-operatória ou decorrente da utilização de ligaduras, como método primário de resolução de fraturas (Beaufrère et al. 2012). Esta alteração tem um impacto negativo significativo na capacidade de voo, uma vez que impossibilita o movimento de deslizamento do rádio sobre o cúbito, restringindo a capacidade de extensão da asa e dificultando o ciclo normal de batimento das asas (Beaufrère 2009). A resolução consiste em excisão cirúrgica das pontes ósseas formadas, seguida de colocação de almofada de gordura ou malha de polipropileno entre o rádio e cúbito (Beaufrère et al. 2012). 2.7. Terapia física de reabilitação Os períodos de inatividade prolongados, muitas vezes associados a imobilização de um ou mais membros, culminam em perda de fitness através de atrofia muscular, redução da condução a nível dos neurónios motores, enfraquecimento de ligamentos e tendões e redução da capacidade cardiovascular de oxigenação dos diferentes tecidos (Ponder 2011). A fisioterapia é considerada uma parte integral da recuperação de aves selvagens (Martin et al. 1993). Potenciais benefícios são o incremento de fluxo sanguíneo e linfático a nível do membro intervencionado, prevenção da atrofia muscular, preservação do movimento articular, incremento da força e endurance (Pollock 2002 cit. por Ponder 2011) e alívio da dor. Em pacientes ortopédicos, promove também a remodelação óssea e evita a deterioração da cartilagem (Bockstahler et al. 2004 cit. por Ponder 2011). Previne, também, a contração do patágio associada a períodos de imobilização externa prolongada (Redig & Cruz 2008). As técnicas aplicadas devem ser adequadas a cada etapa do período de recuperação (Ponder 2011) e a progressão deve ser condicionada pelas respostas físicas e comportamentais do animal, assegurando sempre o mínimo stress possível para o mesmo (Martin et al. 1993). Durante as sessões de fisioterapia, pode estar aconselhada a anestesia geral do animal de forma a diminuir a dor e stress e aumentar o relaxamento muscular (Ponder 2011). Modalidades terapêuticas Massagem Esta técnica consiste na manipulação suave dos tecidos moles com enfoque nos músculos, tendões, ligamentos e pele. Deve ser iniciada de forma suave, para aumentar a circulação local e promover relaxamento muscular, aumentando gradualmente a pressão exercida. A aplicação de massagem permite também reduzir o estabelecimento de adesões e a dor (Ponder 2011). 10 Exercícios passivos Os exercícios passivos podem ser aplicados sob forma de flexão e extensão das articulações individuais, seguido por estiramento das mesmas, com o objetivo de manter e melhorar a mobilidade articular e dos tecidos moles, e a flexibilidade muscular. Permite assim prevenir restrições do movimento articular e aprisionamento de tendões no caso ósseo. Aumenta também o fluxo sanguíneo e reduz a dor (Ponder 2011). Esta modalidade deverá ter início cerca de dez dias após cirurgia. Durante a primeira e segunda semana de fisioterapia deverá ser efetuada duas vezes por semana (Redig & Cruz 2008). A aplicação destes exercícios deve respeitar sempre os limites anatómicos e fisiológicos do paciente (Ponder 2011). Exercício terapêutico ativo O exercício terapêutico ativo consiste na realização de exercício pelo próprio animal e deve ser aplicada em fases intermédias ou tardias do processo de recuperação (Martin et al. 1993). A capacidade de voo está dependente de aspetos anatómicos mas também de elevada capacidade de metabolismo anaeróbio, uma vez que o voo está associado a elevados requisitos energéticos. De forma a alcançar este elevado nível de fitness o animal deverá ser submetido a um programa de exercitação com aumentos graduais da carga de trabalho (Ponder 2011). As sessões de voo podem realizar-se em jaulas de voo ou em campo aberto. Durante as mesmas, deverão ser avaliados parâmetros como a simetria na extensão e nos movimentos das asas, o seu padrão de batimento, a posição na qual são mantidos os pés e a cauda, assim como a força dos movimentos e endurance (Ponder 2011). Devem também monitorizar-se possíveis sinais de intolerância ao exercício como incoordenação de movimentos e respiração de boca aberta, assim como o nível de stress produzido (Martin et al. 1993). 3. Descrição do caso clínico No dia 2 de março de 2014 ingressou no Hospital de Fauna Selvagem de AMUS um exemplar de Cegonha Branca adulto. O animal foi encontrado nessa mesma manhã no solo de um complexo industrial, com a asa direita descaída e sem capacidade para voar. 3.1. Exame clínico de admissão Exame físico No momento de admissão, o animal apresentava-se alerta. Apresentava um peso de 3,2 kg e os parâmetros vitais não demonstravam alterações, encontrando-se apenas uma ligeira taquicardia e taquipneia que podem ser induzidas pela manipulação e dor. Estimou-se uma condição corporal de 3 de uma escala de 1 a 5 e um grau de desidratação de 5%. 11 Figura 3 – Radiografia em projeção ventro-dorsal do membro torácico direito (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) A nível do antebraço, apresentava uma tumefação dolorosa, com aumento da temperatura local e hematoma. À palpação diagnosticou-se uma fratura aparentemente simples diafisária proximal no rádio e cúbito. Não se detetaram outras alterações no exame físico. Exames complementares O animal apresentava um ligeiro aumento no hematócrito e proteínas plasmáticas totais. A contagem total de leucócitos era normal e não eram visíveis hemoparasitas no esfregaço sanguíneo. No dia seguinte à admissão do animal foi efetuada uma radiografia da extremidade afetada (projeção ventrodorsal), a qual permitiu confirmar as características da fratura deduzidas a partir do exame físico (figura 3). A radiografia foi realizada numa clínica de animais de companhia localizada a cerca de 20 quilómetros do Centro. Foi administrado diazepam (0,5 mg/kg IM de aplicação única) antes da viagem. 3.2. Tratamento No dia de admissão, foi administrada buprenorfina (0,05 mg/kg IM SID), clindamicina (150 mg/kg PO SID), meloxicam (0,2 mg/kg PO SID) e fluidoterapia seguindo o protocolo estabelecido pelo Centro (anexo 5). No final, foi colocada uma ligadura em forma de oito, aplicando-se uma primeira camada de ligadura crepe, e uma segunda camada de ligadura flexível autoadesiva. Por fim, revestiu-se com fita adesiva de papel, de forma a proteger as camadas internas da humidade e detritos e reduzir a probabilidade de a ligadura ser removida pelo animal. No dia seguinte, foi efetuada a cirurgia de resolução das fraturas apresentadas. Antes de anestesiar o animal, foi administrado butorfanol (1mg/kg IM de aplicação única) e fluidoterapia de acordo com o protocolo aplicado no Centro. Descrição do procedimento cirúrgico Com o animal colocado em decúbito ventral, a anestesia foi induzida através de máscara facial (figura 4A) com um nível de isoflurano de 5% e fluxo de oxigénio de 2 l/min. Quando o animal já se encontrava anestesiado, efetuou-se a entubação endotraqueal com um tubo endotraqueal de 5 mm de diâmetro sem cuff (figura 4B). O tubo foi fixado ao bico através de fita adesiva. 12 O animal foi colocado em decúbito dorsal e o nível de isoflurano e fluxo de oxigénio foram reduzidos aos níveis de manutenção (isoflurano a 2% e fluxo de oxigénio de 1,6 l/min). Foram removidas as penas de cobertura da superfície ventral do antebraço e efetuada a assepsia da região com iodo (solução de Betadine® diluída em soro fisiológico numa proporção de 1:10). Colocação das cavilhas intramedulares Inicialmente, efetuou-se a medição das cavilhas intramedulares (cavilhas de Steinmann, ponta trocar, de diâmetro de 1,5 mm no caso de rádio e 2 mm no caso de cúbito) que se pretendiam inserir nos ossos afetados (figura 4C). A cavilha intramedular foi inserida manualmente (com Jacobs chuck) na extremidade distal do rádio através de uma incisão cutânea praticada cranialmente à articulação do carpo. Foi introduzida de forma normógrada mantendo a articulação do carpo em flexão. Foi praticada uma incisão seguindo o bordo caudal do rádio, após a qual se promoveu a separação do músculo pronador superficial e do músculo pronador profundo com o auxílio de um afastador de Guelpi, sendo o primeiro afastado em direção cranial e o segundo em direção caudal de forma a expor a diáfise radial. A cavilha intramedular foi inserida até a sua extremidade se tornar visível a nível do foco de fratura e nesse momento o auxiliar aposicionou os dois bordos da mesma com o auxílio de pinças atraumáticas, de forma a facilitar a passagem da cavilha intramedular para o fragmento proximal da fratura (figura 4D). Quando se inseriu o comprimento medido inicialmente, a extremidade livre foi cortada restando apenas cerca de um centímetro de cavilha visível a partir do exterior. Os tecidos expostos foram irrigados com soro fisiológico (soro salino a 0,9%) e tanto os músculos anteriormente afastados como a fáscia superficial e pele (estas últimas de forma conjunta) foram suturados com um padrão simples interrompido. Utilizou-se fio de sutura sintético, absorvível e multifilamentoso (Vycril® 4-0) (figura 4E). No cúbito, a cavilha intramedular foi colocada de forma normógrada, sendo inserida através de uma incisão cutânea praticada entre a inserção da segunda e terceira penas secundárias na face caudal e proximal do cúbito; esta foi inserida inicialmente formando um ângulo reto com o eixo longitudinal do cúbito e, à medida que esta foi sendo introduzida, este ângulo diminuiu até a cavilha se encontrar paralela a esse eixo (figura 4F). Foi efetuada redução fechada e no final promoveu-se o corte da extremidade livre. 13 Figura 4 - Indução anestésica através de máscara facial (A), entubação endotraqueal para manutenção anestésica (B), medição da cavilha intramedular a inserir no rádio (C), inserção normógrada da cavilha intramedular no rádio, com aposição dos respetivos bordos de fratura (D), sutura da fáscia superficial e pele da região do antebraço ventral (E), inserção normógrada da cavilha intramedular no cúbito (F) (imagens gentilmente cedidas pelo CRFS de AMUS) Efetuou-se o tratamento local dos pontos de inserção das cavilhas e da linha de sutura através de desinfeção com iodo e aplicação de pomada antibiótica (principio ativo: nitrofurazona). No final, foram revestidos com compressas estéreis e foi aplicada uma ligadura em forma de oito. Após redução das fraturas, o animal foi novamente colocado em decúbito ventral e desligado o circuito anestésico; foi retirado o tubo endotraqueal e colocada a máscara facial promovendose a oxigenação do animal (fluxo de oxigénio de 2 l/min) de forma a auxiliar na remoção do anestésico presente nos sacos aéreos. Durante toda a cirurgia, a monitorização efetuou-se através de auscultação cardíaca contínua, inspeção visual dos movimentos respiratórios, avaliação da presença do reflexo corneal e medição da temperatura corporal. Não se detetaram alterações significativas dos parâmetros monitorizados no decurso do procedimento cirúrgico. Toda a cirurgia foi realizada com o animal colocado sobre uma manta de aquecimento. Quando o animal se encontrava desperto e com capacidade de manter a cabeça erguida, foi administrada clindamicina (150 mg/kg PO SID) e meloxicam (0,2 mg/kg PO SID). Foi colocado na incubadora com uma temperatura de cerca de 30ºC. Cerca de uma hora depois foi transferido para uma instalação de UCI. O tratamento com buprenorfina (0,05 mg/kg IM SID) e meloxicam (0,2 mg/kg PO SID) manteve-se durante quatro dias, e com clindamicina (150 mg/kg PO SID) durante seis dias após cirurgia. O protocolo de fluidoterapia aplicou-se até que o animal começou a alimentar-se, o que ocorreu três dias após cirurgia. O tratamento local dos pontos de inserção das cavilhas e linha de 14 sutura, e a troca da ligadura mantiveram-se nos dois dias seguintes à cirurgia. Ao 3º dia após a cirurgia, e após verificar a temperatura corporal, o animal foi colocado numa instalação de observação e três dias depois numa instalação de reabilitação partilhada com outra cegonha. 3.3. Fisioterapia A primeira sessão de fisioterapia aplicada à asa lesionada realizou-se onze dias após a cirurgia. Antes de se iniciar a sessão, administrou-se diazepam e inspecionou-se o local de fratura por palpação para avaliar a cicatrização óssea. A sessão teve uma duração aproximada de quinze minutos e durante a mesma monitorizou-se a frequência cardíaca e respiratória, de forma a avaliar o stress e dor induzida. Iniciou-se por massagem do patágio seguida de movimentos de extensão e flexão do cotovelo, agarrando firmemente o osso imediatamente proximal e distal a esta articulação de forma a evitar a mobilização das articulações adjacentes; a amplitude dos movimentos foi aumentada gradualmente. No final efetuou-se o estiramento da articulação do cotovelo, fixando o osso imediatamente proximal e movendo o que se encontra imediatamente distal; a tensão foi aplicada durante cerca de trinta segundos. Este processo repetiu-se para a articulação do carpo. No final efetuou-se o tratamento local da linha de sutura e dos pontos de inserção das cavilhas e colocou-se novamente a ligadura em forma de oito. No 18º e 25º dia após cirurgia efetuaram-se novas sessões de fisioterapia semelhantes à realizada no 11ºdia após cirurgia. No 32º dia após a cirurgia, a ave foi anestesiada e removeram-se as cavilhas intramedulares, sendo aplicada pomada antibiótica (princípio ativo: nitrofurazona) nos respetivos locais de inserção. À palpação, o calo ósseo parecia estável. Realizou-se nova sessão de fisioterapia semelhante às anteriores. No final, colocou-se novamente ligadura em forma de oito. No 39º dia após cirurgia efetuou-se a última sessão de fisioterapia, semelhante às anteriores, e retirou-se definitivamente a ligadura em forma de oito. 3.4. Musculação No 45º dia após a cirurgia, a ave foi colocada na instalação de musculação, o que lhe permitia efetuar voos largos e em altura. Nesta instalação, a ave foi estimulada a voar uma vez por dia por um período de cerca de quinze minutos, no qual se apreciavam as características de voo da mesma. Ao longo deste período verificou-se que o animal começava gradualmente a colocar a asa numa posição anatomicamente correta, e que esta apresentava melhoria progressiva da mobilidade em voo. Durante o período passado nesta instalação forneceu-se uma maior quantidade de alimento (dez pintos do dia diários). 3.5. Libertação 15 No dia 6 de maio de 2014, após se verificar que o animal apresentava uma boa condição corporal, que mantinha a asa em posição anatómica normal, que possuía um calo ósseo bem estabelecido sem formação aparente de sinostose (na avaliação por palpação), que não apresentava qualquer tipo de relutância em voar e que o voo possuía características normais, optou-se por devolver o animal ao seu habitat natural. O local de libertação foi selecionado tendo em conta o comportamento gregário da espécie e as características normalmente apresentadas pelos territórios ocupados pelas cegonhas, que consistem em campos abertos e relativamente humanizados. Desta forma, foi libertada num campo de pastoreio que possuía uma colónia fixa de cegonhas em época de reprodução. 4. Discussão do caso clínico No CRFS de AMUS, devido a motivos económicos apenas se realiza uma radiografia em projeção ventro-dorsal do membro afetado no momento de admissão. Como recomendado na bibliografia (Graham & Heatley 2007), seria adequado realizar duas projeções (ventro-dorsal e latero-lateral) de corpo inteiro de forma a avaliar potenciais lesões noutras estruturas decorrentes do episódio traumático. A execução de uma radiografia pós-operatória (Helmer & Redig 2006) poderia ser ponderada, de forma a confirmar o correto posicionamento dos materiais de osteossíntese e alinhamento dos bordos de fratura. Por exemplo, a ausência desta confirmação inviabilizou a recuperação funcional de uma Cegonha Branca acompanhada no período de estágio. Nesta foi aplicado um fixador esquelético externo tipo I para redução de fratura de metacarpo, com colocação de uma cavilha atravessando o foco de fratura (figura 5), o que culminou numa não-união do mesmo. O acompanhamento radiográfico ao longo do período de cicatrização óssea estaria também indicado (Davidson et al. 2005), de forma a avaliar possíveis falhas na mesma e migrações das cavilhas inseridas. Idealmente, as radiografias deveriam ser efetuadas sob anestesia geral de forma a permitir um posicionamento adequado e reduzir o stress induzido (Fronefield 2012). Um vez que o Centro não possuía os equipamentos necessários para a sua execução, as radiografias eram efetuadas numa clínica de animais de companhia. Neste local não se recorria à anestesia uma vez que pressupunha um gasto adicional. No entanto, no caso de animais de temperamento mais nervoso, muitas vezes as radiografias não tinham qualidade suficiente para efetuar um diagnóstico preciso, devido a movimento do animal Figura 5 – Projeção crânio-caudal do metacarpo esquerdo de uma Cegonha Branca, na 3ª semana pós-cirurgia, onde é possível observar uma cavilha atravessando o foco de fratura (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) 16 aquando da realização da mesma. Esta situação implicava a execução de uma segunda radiografia. Em animais mais calmos, a administração de diazepam antes da realização da radiografia pareceu ter um efeito sedativo suficiente. A dose de buprenorfina administrada requer no mínimo duas aplicações por dia para uma correta analgesia (Carpenter 2005), no entanto, de forma a reduzir o grau de stress induzido no animal, apenas se efetuava uma administração diária. Ainda que conjugado com a administração de meloxicam, que possui uma ação mais prolongada, este é menos potente no controlo da dor que a buprenorfina (Machin 2005 cit. por Lierz & Korbel 2012) pelo que o maneio da dor pode não ser adequado nestes pacientes. A aplicação bidiária de buprenorfina poderia ser ponderada, já que a presença de dor possui efeitos negativos na cicatrização, causa imunossupressão e diminui o apetite do animal (Ponder 2011), dificultando, assim, todo o processo de recuperação. As sessões de fisioterapia poderiam ser efetuadas com uma maior frequência nas primeiras duas semanas da sua realização (Redig & Cruz 2008), o que poderia diminuir as complicações associadas à imobilização externa, assim como o potencial aprisionamento tendinoso no calo ósseo em formação. Apenas se efetuou uma sessão em cada semana de forma a minimizar o stress induzido. As sessões de fisioterapia poderiam ser efetuadas com recurso a anestesia geral (Ponder 2011), pois ainda que o diazepam promova sedação e relaxamento muscular (Lierz & Korbel 2012), neste momento o calo ósseo formado é ainda instável pelo que, facilmente, se pode induzir uma refratura no momento da manipulação por movimento do próprio animal. O programa de musculação manteve-se constante durante todo o período de reabilitação, já que um aumento da frequência ou duração das sessões pressupunha um elevado gasto de tempo, e uma maior indução de stress no paciente. A ligadura em forma de oito foi mantida durante todo o período de utilização das cavilhas intramedulares por questões comportamentais, que aumentam a probabilidade de remoção, por parte do animal, das cavilhas colocadas, e por possibilidade de infeção no local de inserção das mesmas (Comunicação pessoal de Dr.ª Violeta Gabandé). Após remoção das mesmas, aos 32 dias após cirurgia, manteve-se a ligadura, de forma a permitir um aumento gradual do peso suportado pelo calo ósseo em desenvolvimento. Idealmente a ligadura em forma de oito deveria ser removida até 14 dias após cirurgia, devido aos seus efeitos deletérios a nível articular e patagial. Neste caso removeu-se aos 39 dias após cirurgia. Já as cavilhas intramedulares deveriam ser mantidas por um período mínimo de seis semanas (Redig & Cruz 2008), e neste caso apenas foram mantidas durante 32 dias. Os prazos descritos na bibliografia poderiam ser aplicados, caso se efetuasse uma maior vigilância do animal e se praticasse uma assepsia do local de inserção das cavilhas com maior frequência. 17 Os fixadores externos ou híbridos permitem uma maior estabilização do foco de fratura, comparativamente com as cavilhas intramedulares Estes foram descartados pelo maior risco de remoção por parte do animal, principalmente no caso de uma cegonha que é um animal que apresenta grande atividade em cativeiro (Comunicação pessoal de Dr.ª Violeta Gabandé). Uma vez que a redução cirúrgica da fratura foi complementada com aplicação de ligadura em forma de oito, poderia colocar-se um dos fixadores referidos já que ao ficar protegido pela ligadura existiria baixa probabilidade de remoção. A utilização de placas ósseas não foi considerada devido à falta de materiais e de experiência. Em relação ao acesso cirúrgico do foco de fratura do rádio, foi efetuada uma abordagem ventral para maior comodidade do cirurgião, no entanto, uma abordagem dorsal pode ser mais segura ao evitar vasos e nervos que cruzam a superfície ventral da articulação do cotovelo (Orosz 1992). III ABORDAGEM CONSERVATIVA NO TRATAMENTO DE PODODERMATITE NUMA ÁGUIA DE BONELLI (Aquila fasciata) 1. Introdução O termo pododermatite refere-se a qualquer condição inflamatória ou degenerativa das patas das aves, de carácter geralmente bilateral (Poorbaghi 2012). Esta patologia tende a tornar-se progressiva, invasiva, crónica e, eventualmente, incapacitante na ausência de tratamento adequado. Pode, ocasionalmente, causar septicémia e morte (Oaks 1993). É uma das complicações mais frequentes e importantes em aves de rapina mantidas em cativeiro (Cooper 1985 cit. por Rodriguez-Lainz et al. 1997). Aves em liberdade apresentam uma incidência mais reduzida, provavelmente devido a um maior nível de atividade, maior controlo no impacto da aterragem e possibilidade de escolha de poleiros com diferentes diâmetros e texturas que auxiliam na descamação natural (Remple & AlAshbal 1993). Staphylococcus aureus é o microrganismo isolado com maior frequência em casos de pododermatite. Este é geralmente considerado oportunista sendo a infeção invasiva associada a quebra nas defesas do hospedeiro (Oaks 1993). Esta bactéria não é prevalente nas patas de aves selvagens pelo que a transferência de estirpes humanas às quais as aves não estarão adaptadas pode estar envolvida na patogénese (Satterfield & O´Rourke 1980 cit. por Remple & Al-Ashbal 1993). Remple (1993) propõe uma classificação das lesões de pododermatite (anexo 6), com graus crescentes de severidade da classe I até à V. 18 Durante o período de estágio foram acompanhados três casos de pododermatite: um deles numa Águia Calçada e os restantes em Águias de Bonelli. O primeiro animal foi submetido a cirurgia de amputação do dedo I e desenvolveu lesões de pododermatite na pata contralateral no período pós-cirúrgico. A lesão foi detetada precocemente e a resolução foi atingida num período de cerca de quatro semanas, aplicando tratamento médico. O animal foi devolvido à natureza. Uma das Águias de Bonelli apresentava lesões bilaterais no momento de ingresso no CRFS de AMUS. Após seis semanas de tratamento médico, optou-se por efetuar desbridamento cirúrgico numa das patas devido ao agravamento do seu quadro clínico. As lesões presentes na outra pata evoluíram favoravelmente com o tratamento médico aplicado, não se chegando, no entanto, a atingir a sua resolução. O animal faleceu três dias após a intervenção cirúrgica. O terceiro caso é descrito neste trabalho. 2. Revisão Bibliográfica 2.1. Fatores predisponentes Como fatores predisponentes da pododermatite encontram-se aqueles que são passíveis de causar traumatismo a nível da pata ou comprometimento da função imune (Remple & Al-Ashbal 1993). No primeiro caso, destacam-se o sobrecrescimento das garras, instalações de reduzidas dimensões que não permitem aterragens suaves, poleiros duros ou lisos que não promovem uma adequada descamação, lesão numa das patas com sobrecarga de peso na contralateral (Redig 1987 cit. por Hudelson & Hudelson 1995), excesso de peso e inatividade (Mueller et al. 2000 cit. por Hartcourt-Brown 2006). No segundo grupo inclui-se a nutrição inadequada, doença sistémica e elevada carga parasitária. O défice em vitamina A é particularmente importante pois diminui a resistência à infeção (Coles 2007 cit. por Poorbaghi 2012) e conduz ao enfraquecimento da barreira epitelial (Remple & Al-Ashbal 1993). 2.2. Fisiopatologia A etiologia da pododermatite envolve uma interação complexa entre a componente ambiental, o hospedeiro e os microrganismos implicados (Oaks 1993). A contusão repetida a nível da superfície plantar da pata leva à desvitalização cutânea por excesso de pressão e consequente ulceração com formação de crosta. Esta crosta exerce o seu papel na patogénese pois permite a entrada de microrganismos na zona de interface com tecidos sãos, dificulta a cicatrização nos bordos da lesão e exerce pressão a nível dos tecidos profundos da pata, conduzindo a isquémia. A patologia pode também ser iniciada por inoculação direta de microrganismos através de ferida penetrante (Remple & Al-Ashbal 1993). Em ambos os casos é permitida a invasão dos tecidos subcutâneos por parte de microrganismos oportunistas, 25 Figura 10 – Lesões de pododermatite na pata direita (A) e pata esquerda (B) no dia 9 de abril (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) Figura 11 – Lesões de pododermatite na pata direita (A) e pata esquerda (B) no dia 16 de abril (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) Dia 6 de abril de 2014 A lesão presente na pata esquerda não apresentava alterações substanciais (figura 9 B). Nesta pata foi efetuada a assepsia com soro fisiológico e iodo, aplicou-se pomada enzimática e antibiótica (Iruxol neo®, princípios ativos: clostridiopeptidase A e neomicina) e DMSO. A superfície plantar da pata direita apresentava aplanamento das papilas plantares e eritema evidente (figura 9 A). Foi efetuada assepsia local com soro fisiológico e iodo, seguida de aplicação de DMSO. No final, aplicou-se uma ligadura interdigital em ambas as patas, com as quatro camadas já descritas. No entanto, na pata direita a primeira camada consistiu numa compressa impregnada em DMSO, e na esquerda a compressa continha pomada enzimática e antibiótica (Iruxol neo®, princípios ativos: clostridiopeptidase A e neomicina). A erosão no carpo direito apresentava-se mais extensa e profunda pelo que se praticou a assepsia local com soro fisiológico e iodo, aplicou-se pomada antibiótica (princípio ativo: nitrofurazona) e colocou-se uma ligadura. A erosão presente no carpo esquerdo já se encontrava cicatrizada. Foi também administrado complexo multivitamínico (Duphafral®multi, 1,3 ml/kg IM de aplicação única). Dia 9 de abril de 2014 Ambas as patas apresentavam uma evolução positiva, com diminuição do eritema e edema. A crosta na pata esquerda regrediu, mas no seu lugar encontrava-se uma solução de continuidade com exsudado seroso (figura 10 A e B). Repetiu-se todo o tratamento da semana anterior. Dia 16 de abril de 2014 As lesões presentes na pata direita não sofreram alteração (figura 11 A). A pata esquerda apresentava um maior eritema e tumefação, e nova formação de crosta Figura 9 – Lesões de pododermatite na pata direita (A) e pata esquerda (B) no dia 6 de abril (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) 26 Figura 12 – Lesão de pododermatite na pata direita (A) e pata esquerda (B) no dia 23 de abril (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) Figura 13Lesões de pododermatite em ambas as patas no dia 2 de maio (imagem gentilmente cedida pelo CRFS de AMUS) (figura 11 B). Repetiu-se o tratamento da semana anterior, mas, uma vez que a lesão presente no carpo direito se encontrava cicatrizada, não se aplicou uma nova ligadura. Dia 23 de abril de 2014 Apesar de apresentar ainda um ligeiro eritema, a superfície plantar da pata direita apresentava já um aspeto quase semelhante ao verificado no momento de ingresso (Figura 12A). A pata esquerda apresentava-se menos tumefacta e eritematosa, mas, ainda que a crosta apresentasse menores dimensões, verificou-se uma pequena solução de continuidade com exsudado seroso na zona de transição entre a crosta e o tecido são (Figura 12B). Repetiu-se o tratamento da semana anterior. Dia 2 de maio de 2014 Não se notou evolução das lesões presentes a nível da pata direita. A pata esquerda apresentava uma evolução positiva com menor tumefação e eritema, e a crosta apresentava menores dimensões (figura 13). Manteve-se o tratamento da semana anterior. Dia 8 de maio de 2014 Não se notou evolução das lesões presentes (Figura 14 A e B). Manteve-se o tratamento da semana anterior. Devido à data de finalização do estágio não foi possível acompanhar a progressão do caso a partir deste dia. 4. Discussão do caso clínico Na clínica de aves selvagens é frequente a ausência de valores de referência de hemograma publicados. Através da comparação de dados disponíveis para Águia Imperial (Aquila adalberti) Figura 14 – Lesão de pododermatite na superfície plantar da pata direita (A) e pata esquerda (B) no dia 8 de maio (imagens gentilmente cedidas pelo CRFS de AMUS) 27 (García-Montijano et al. 2002), estimou-se um ligeiro aumento do hematócrito e proteínas plasmáticas totais. Este resultado poderia ser explicado pela longa viagem a que o animal foi submetido, uma vez que o exame clínico de admissão teve lugar no momento de chegada da ave ao Centro. Salienta-se, no entanto, a possível variação de valores entre diferentes espécies, podendo o valor diagnóstico dos parâmetros referidos ser pouco preciso. De forma a permitir uma avaliação mais precisa em casos futuros, poderia efetuar-se um estudo dos valores obtidos nas Águias de Bonelli clinicamente normais presentes no Centro, integradas no programa de cria em cativeiro do CRFS de AMUS (duas fêmeas e dois machos). Uma avaliação seriada da contagem de leucócitos totais também poderia ser interessante para avaliar a progressão da patologia. Apesar da inexistência de valores de referência para a espécie em causa, um aumento do número total de leucócitos no indivíduo poderia ser associado à disseminação da infeção localizada na pata (Oaks 1993). No dia de ingresso do animal, foram retiradas ambas as ligaduras interdigitais e apenas se colocou uma nova na pata afetada. Ao remover a ligadura que fornece algum acolchoamento à pata normal, facilitou-se a formação de lesões. Esta situação deve-se à sobrecarga de peso na mesma, pela dor presente na pata contralateral (Bailey & Lloyd 2008). De futuro, poderia ponderar-se a aplicação de ligadura interdigital em ambas as patas, mesmo em casos de lesão unilateral. A presença de humidade a nível das lesões de pododermatite possui um efeito negativo, já que atrasa a cicatrização, facilita a necrose e pode levar ao desenvolvimento de lesões fúngicas (Bailey & Lloyd 2008). Na exploração clínica do dia 23 de março, optou-se por remover as ligaduras de forma a reduzir o grau de humidade da superfície plantar. Esta decisão culminou no agravamento das lesões de pododermatite na pata direita, detetadas no dia 6 de abril pois, ao retirar o mecanismo que protege a superfície plantar da contusão, facilmente se geraram as condições que induzem o início da patologia. Em casos futuros poderia recorrer-se a outras alternativas para reduzir a humidade local. Uma vez que a manutenção prolongada da ligadura, como ocorreu neste caso, pode contribuir para o aumento da humidade, uma troca mais frequente da mesma poderia estar indicada. As grandes dimensões dos recipientes de água presentes na instalação onde o animal se encontrava alojado permitiam-lhe banhar-se e, consequentemente, humedecer as ligaduras interdigitais. Por este motivo, a retirada dos recipientes de água das mesmas poderia ser ponderada. O próprio piso da instalação, ao ser constituído por terra e relva, facilita o humedecimento das ligaduras interdigitais. Por este motivo poderia ser benéfico alojar o animal numa instalação com outro tipo de piso, nomeadamente, de cimento. Devido à 28 inexistência de instalações de grandes dimensões com estas características, esta alternativa não poderia, no entanto, ser aplicada. A pomada enzimática e antibiótica (Iruxol Neo®) foi utilizada com o objetivo de auxiliar na remoção do tecido necrótico presente, aplicando em simultâneo antibiótico local. Sugere-se que o processo de desenvolvimento da pododermatite seja semelhante ao da formação de úlceras de decúbito em humanos (Hartcourt-Brown 1996 cit. por Bailey & Lloyd 2008) e no tratamento das últimas pode ser utilizada a pomada indicada. Não foram encontradas referências de utilização deste fármaco em aves, no entanto, a utilização de outros agentes que promovem desbridamento enzimático está descrita no maneio geral de feridas nestes pacientes (Burke et al. 2002), sendo inclusivamente utilizados intra-cirurgicamente no tratamento de pododermatite (Remple 1993). Durante o tratamento desta ave não se verificaram efeitos adversos. As propriedades enzimáticas do fármaco podem ter contribuído para a redução do tamanho da crosta. Idealmente deveriam aplicar-se também antibióticos e anti-inflamatórios sistémicos (Hartcourt-Brown 2006), no entanto, como essa administração implicaria uma manipulação diária, optou-se por efetuar apenas terapia tópica. A ligadura interdigital poderia também ter sido complementada com aplicação de sapato ortopédico de forma a reduzir o grau de pressão exercido pelos tecidos necróticos nas estruturas plantares. Apesar do tratamento instituído durante 52 dias, a evolução global da lesão inicial não foi, aparentemente, substancial. Ainda que o aspeto da lesão avaliada no último dia de tratamento seja menos severo quando comparado com o momento de ingresso (imagens ampliadas no anexo 7), não se verificou uma melhoria contínua ao longo do tratamento. Os resultados obtidos podem ser devidos ao carácter granulomatoso e avascular da lesão, que isola o foco inflamatório, inviabilizando a atuação dos fármacos aplicados. A crosta presente constitui também uma barreira ao tratamento. Com o avançar da patologia, ainda que se verifique uma regressão periférica, existe progressão do espessamento central à medida que o processo degenerativo continua, com consequente invasão dos tecidos adjacentes (Remple & Al-Ashbal 1993). Neste animal, existia ainda uma reduzida capacidade de voo, que impedia a adequada realização de exercício e promovia um maior sedentarismo. Também o facto de as ligaduras interdigitais serem trocadas com frequência reduzida, associado à possibilidade de utilização do recipiente da água, por parte do animal, para banhar-se, pode ter contribuído para o sucesso reduzido do tratamento aplicado. A seleção de tratamento cirúrgico poderia estar indicada já que neutraliza a reação granulomatosa que dificulta o tratamento médico e perpetua o ciclo patológico. 29 IV BIBLIOGRAFIA • Bailey T (2008) “Fluid therapy” in Samour J (Ed.) 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A temperatura é mantida a aproximadamente 28ºC. Instalações de observação Estas são instalações onde os animais são colocados após saírem da unidade de cuidados intensivos. As suas dimensões são relativamente reduzidas de forma a permitir um baixo grau de mobilidade aos animais aí alojados nas primeiras fases da sua recuperação. O piso é constituído por cimento. Instalações de reabilitação Estas são instalações onde os animais são colocados após saída das instalações de observação, e possuem maiores dimensões que estas, de forma a permitir inclusivamente pequenos voos. Possuem poleiros de diferentes formas e dimensões, todos eles revestidos por relva artificial. O piso é constituído por terra e relva. Em algumas espécies são utilizadas como instalação de musculação. Instalação de musculação Esta instalação consiste num espaço amplo, onde animais de maiores dimensões são instalados nas fases finais da reabilitação, já que permite voos largos. À semelhança das instalações anteriormente referidas, possui poleiros de diversas formas e dimensões, estando todos eles revestidos por relva artificial. O piso é constituído por terra e relva. Um aspeto comum a todas as instalações exteriores é a sua localização afastada das zonas de maior atividade do centro, de forma a manter os animais relativamente isolados e reduzir os níveis de stress induzidos. Todas possuem ainda uma porta de acesso e, pelo menos, uma porta de reduzidas dimensões através da qual é colocada a comida e água aos animais alojados, assim como uma zona abrigada da chuva. A comida é depositada em pratos de cerâmica e a água em recipientes plásticos de grandes dimensões. Outra caraterística comum a todas as instalações é a presença de um mecanismo que permite a observação dos animais minimizando as possibilidades de estes detetarem a nossa presença (janela de vidro espelhado ou orifício de reduzidas dimensões na porta). 32 Espécie Número de casos Abetarda (Otis tarda) 2 Abutre negro (Aegypius monachus) 2 Águia calçada (Hieraaetus pennatus) 1 Águia cobreira (Circaetus gallicus) 1 Águia d´asa redonda (Buteo buteo) 3 Águia de Bonelli (Aquila fasciata) 2 Águia Real (Aquila chrysaetos) 1 Alcaravão (Burhinus oedicnemus) 1 Andorinha dáurica (Hirundo daurica) 1 Andorinha dos beirais (Delichon urbica) 1 Andorinhão preto (Apus apus) 4 Bufo-pequeno (Asio otus) 8 Bufo-real (Bubo bubo) 5 Cegonha branca (Ciconia ciconia) 24 Cortiçol de barriga preta (Pterocles orientalis) 2 Coruja das torres (Tyto alba) 10 Coruja do mato (Strix aluco) 18 Falcão peregino (Falco peregrinus) 1 Gaivota d´asa escura (Larus fuscus) 1 Galinha d´água (Gallinula chloropus) 1 Garça boieira (Bubulcus ibis) 1 Gavião da Europa (Accipiter nisus) 4 Goraz (Nycticorax nycticorax) 1 Gralha de nuca cinzenta (Corvus monedula) 1 Grifo (Gyps fulvus) 1 Grou comum (Grus grus) 4 Guincho comum (Larus ridibundus) 1 Melro preto (Turdus merula) 4 Milhafre real (Milvus milvus) 2 Millhafre negro (Milvus migrans) 3 Mocho de orelhas (Otus scops) 1 Mocho galego (Athene noctua) 2 Noitibó da Europa (Caprimulgus europaeus) 1 Pato real (Anas platyrhynchos) 7 Peneireiro da torres (Falco naumanni) 1 Peneireiro vulgar (Falco tinnunculus) 7 Picanço Real (Lanius excubitor) 3 Pintassilgo (Carduelis carduelis) 3 Raposa (Vulpes vulpes) 3 Tartaranhão caçador (Circus pygargus) 1 Total 140 Anexo 2 Espécies admitidas durante o período de estágio 33 Anexo 3 Principais vantagens e desvantagens associadas aos métodos de osteossíntese mais utilizados em aves Técnica Vantagens Desvantagens Ligadura em forma de oito • Método económico (Helmer & Redig 2006) • Mínimo dano iatrogénico (Helmer & Redig 2006) • Fraco alinhamento dos bordos de fratura (Herlmer & Redig 2006) • Sinostose entre rádio e cúbito (Helmer & Redig 2006) • Contração patagial (Helmer & Redig 2006) • Atrofia muscular (Beaufrère et al. 2012) • Anquilose articular (Beaufrère et al. 2012) • Redução do comprimento original do osso (Beaufrère et al. 2012) • Contração de tendões (Beaufrère et al. 2012) • Má-união (Beaufrère et al. 2012) Cavilhas intramedulares • Neutralização de forças de flexão (Wettere et al. 2009) • Alinhamento dos bordos de fratura (Martin & Ritchie 1994) • Necessidade de imobilização externa durante dez a catorze dias (Hatt 2008) • Potencial dano articular e periarticular (Martin & Ritchie 1994) Fixadores esqueléticos externos • Neutralização de forças de deslizamento, rotação e compressão (Wettere et al. 2009) • Ideal para fraturas abertas ou cominutivas (Pérez et al. 2008) • Fixação estável do foco de fratura (Pérez et al. 2008) • Mínimo dano nos tecidos moles e vascularização óssea (Pérez et al. 2008) • Risco de remoção pelo animal (Hatt 2008) • Loosening das cavilhas (Degernes et al. 1998) Fixadores híbridos ou tiein • Neutralização de todas as forças que atuam no foco de fratura (Wettere et al. 2009) • Permite utilização de cavilhas intramedulares de menor diâmetro e reduz risco de sua migração(Helmer & Redig 2006) • Permite adição progressiva de carga ao osso, o que estimula a maturação do calo ósseo (Helmer & Redig 2006) • Redução do número de cavilhas necessárias (Wettere et al. 2009) • Apenas em ossos longos (Redig & Cruz 2008) • Risco de remoção pelo animal (Hatt 2008) • Loosening das cavilhas (Degernes et al. 1998) Placas ósseas • Mínima formação de calo ósseo (Gull et al. 2012) • Completamente internas pelo que geralmente são bem toleradas (Martin & Ritchie 1994) • Não interferem com o movimento articular (Martin & Ritchie 1994) • Necessidade de segunda cirurgia para remoção, principalmente em ossos com reduzida cobertura por tecidos mole s(Hatt 2008) • Possibilidade de deformação ou rutura (Gull et al. 2012) Maior experiência do cirurgião (Hatt 2008) • Longos períodos de anestesia e cirurgia (Gull et al. 2012) • Custo elevado dos materiais (Gull et al. 2012) • Maior período de cicatrização e reabilitação (Martin & Ritchie 1994) 34 Anexo 4 Acessos cirúrgicos utilizados na abordagem de fraturas a nível do antebraço em aves Abordagem ventral a fraturas de rádio Com o animal em decúbito dorsal removem-se as penas da região ventral do antebraço. Pratica-se uma incisão cutânea iniciando-se distalmente à artéria cubital superficial e estendendo-se distalmente ao longo do bordo caudal do rádio, até obter a exposição necessária dos tecidos (figura 1). Para expor a diáfise proximal o músculo pronador superficial deverá ser afastado em direção cranial, afastando-se do músculo pronador profundo. Neste acesso é necessário precaução para evitar a lesão da artéria cubital superficial, que cruza o rádio proximalmente, e da artéria radial profunda, que atravessa o espaço entre o músculo extensor metacarpo radial e o músculo pronador superficial. Figura 1 – Vista ventral do antebraço (Orosz 1992)