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Droga e estigma: um estudo comparativo entre consumidores problemáticos e não problemáticos

Teresa Velasquez de Azevedo e Silva

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Teresa Velasquez de Azevedo e Silva DROGA E ESTIGMA: UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS E NÃO PROBLEMÁTICOS DISSERTAÇÃO DE MESTRADO MESTRADO INTEGRADO EM PSICOLOGIA 2012 2 Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação DROGA E ESTIGMA: UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS E NÃO PROBLEMÁTICOS Teresa Velasquez de Azevedo e Silva Junho 2012 Dissertação apresentada no Mestrado Integrado de Psicologia, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, orientada pelo Professor Doutor José Luís Fernandes (F.P.C.E.U.P.). 3 Agradecimentos Em primeiro lugar gostaria de agradecer ao Professor Luís Fernandes pelo acompanhamento e inspiração ao longo destes dois anos. Pelos ensinamentos valiosos, pelo convívio nas reuniões de seminário e, sobretudo, pelo toque humano que sempre transmitiu aos conteúdos lecionados. Sem o seu apoio este trabalho não seria possível, nem o meu gosto pessoal pela(s) temática(s) estudadas. A sua palavra será sempre um bem precioso para mim. Aos meus pais e à minha irmã Ana, por todo o apoio e carinho que sempre me deram, e sobretudo por me apoiarem nos momentos menos bons. Por serem a minha pedra basilar e o meu porto seguro desde sempre. À minha avó Helena, por ter sido verdadeiramente uma segunda mãe para mim e por ser uma parte tão grande da pessoa que sou hoje. À Patrícia, minha prima – e colega! – por seres mais do que prima: és praticamente uma irmã mais velha para mim. Obrigada por todo o apoio neste meu percurso académico, por todos os conselhos, pelas oportunidades que me deste a conhecer e, acima de tudo, pela amizade e carinho. À Diana, minha “irmã”. Obrigada por estares sempre lá, desde que jogávamos à macaca na pré-primária. Não há palavras que cheguem para agradecer a tua amizade e o apoio que sempre me deste. À Ana, por todos os disparates partilhados e por ter a incrível capacidade de me fazer sempre rir nos piores momentos. Às amigas e amigos que fiz na faculdade, especialmente à Helena e ao Henrique – obrigada pelos risos, pelos conselhos, pela paciência e pelo ombro amigo nos momentos mais críticos. À equipa do CRI Matosinhos, em particular à minha orientadora, Dr.ª Sónia Rodrigues. À equipa do IDT, em particular à Dr.ª Cristina Martins, Dr.ª Andreia Ribeiro, Dr.ª Cláudia Peixoto, Dr. Fernando Ribeiro e restantes técnicos da equipa de redução de riscos em meio académico – foi um orgulho partilhar convosco a experiência de intervenção na Queima das Fitas, ano após ano. Obrigada por tudo o que me ensinaram e, sobretudo, pelo convívio e boa disposição. Por último, mas não em último lugar, a todos os que aceitaram ser entrevistados por mim e me cederam uma parte de si – sem a vossa colaboração este trabalho nunca teria sido possível. Ficarão para sempre na minha memória. 4 Resumo O presente estudo teve como objetivo estudar a relação entre droga e estigma (conforme definido por Goffman, 1988), mais concretamente a vivência deste estigma por parte de consumidores de drogas. Para o efeito, foram conduzidas entrevistas semiestruturadas junto de dois grupos de consumidores de substâncias ilícitas: um grupo de consumidores problemáticos e um grupo de consumidores não problemáticos. Entre os principais resultados obtidos contam-se: a incompatibilidade do estatuto de consumidor e a inserção no mercado de trabalho; o desprestígio, para si e para entes significativos – por ex., a família – decorrente do consumo de drogas; a imersão numa subcultura percecionada como degradante, no caso dos problemáticos; a associação do consumo de uma droga específica – a heroína – a consequências mais negativas para o consumidor; a perceção de mais retornos positivos decorrentes do uso de drogas, por parte dos consumidores não problemáticos; o emprego de técnicas específicas de gestão da identidade deteriorada, nomeadamente a divisão do mundo social, por parte de todos os participantes; a estigmatização de determinados aspetos visuais específicos, na aparência pessoal; a falta de confiança nas forças de autoridade, especialmente no caso dos consumidores não problemáticos. Palavras-chave: Droga, Consumo de drogas, Estigma, Goffman, Exclusão, Consumo problemático, Consumo não problemático. 5 Abstract The present study was aimed to study the relationship between drug consumption and stigma (as defined by Goffman, 1988), more specifically the experience of this stigma by drug users. In order to do so, semi structured interviews were conducted with two groups: one group of problematic drug users and one group of non problematic drug users. The main results include: the incompatibility between the drug user’s status and his/hers insertion in the labor market; the discredit of the individual and significant others – such as relatives – due to drug consumption; the immersion, among problematic drug users, in a subculture perceived as degrading; the association of heroin consumption to a more negative outcome for the user; the perception of a more positive outcome regarding drug consumption among non problematic drug users; the employment of specific techniques to manage the spoiled identity, namely dividing the social world, by every participant in this study; the stigmatization of specific visual elements in the individual’s personal appearance; the lack of confidence in authority figures, especially among non problematic drug users. Key words: Drug, Drug use, Stigma, Goffman, Exclusion, Problematic drug use, Non problematic drug use. 6 Résumé La présente étude a l’objectif d´étudier le rapport entre drogue et stigmatisation sociale (selon Goffman, 1988), plus concrètement l’expérience de cette stigmatisation subie par les consommateurs de drogues. Pour ça, des interviews semi structurés dans deux groupes de consommateurs de substances illicites ont été réalisées : un groupe de consommateurs problématique et un groupe de consommateurs non problématique. Parmi les résultats obtenus, on compte : l’incompatibilité du statu de consommateur et l’insertion dans le marché de travail ; le discrédit pour soi-même et pour ses êtres signifiants – par exemple, la famille – qui résulte de la consommation de drogues; l’immersion dans une sous-culture perçu comme dégradante, cas des problématiques ; l’association de la consommation d’une drogue spécifique – l’héroïne – à des conséquences plus négatives pour le consommateur ; la perception de plus rendements positifs de l’usage de drogues par les consommateurs non problématiques ; l’emploi de techniques particulières de gestion d’identité détériorée, à savoir la division du monde social chez ses acteurs ; la stigmatisation de certains aspects visuels spécifiques dans l’apparence personnel ; la manque de confiance aux forces d’autorité, surtout parmi les consommateurs non problématiques . Mots-clés : Drogue, Consommation de drogues, Stigmatisation, Goffman, Exclusion, Consommation problématique, Consommation non problématique. 7 Índice 1. Introdução 5 1.1) Enquadramento teórico 7 1.1.1) As drogas ao longo do tempo 7 1.1.2) O consumo de drogas em Portugal 10 1.1.3) A construção do estigma 13 1.1.4) Um estigma particular: o caso da heroína 15 1.1.5) A droga como elemento produtor de estigma 19 1.1.6) Temáticas a explorar 21 2. Método 23 2.1) Linhas discursivas e tradições metodológicas 24 2.2) Objeto e objetivos 26 2.3) Amostra 30 2.4) A entrevista 31 3. Resultados 33 3.1) Caracterização dos participantes 34 3.2) Experiência de consumo 36 3.3) Consequências do consumo 37 3.4) Estigma 40 3.5) Manipulação da identidade deteriorada 47 4. Discussão 52 5. Considerações finais 54 6. Referências bibliográficas 59 Anexos 63 8 1. Introdução INSCRIÇÃO Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme... (Camilo Pessanha) Camilo Pessanha, nascido em 1867, é considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, bem como antecipador do princípio modernista da fragmentação. Para além da sua carreira literária e profissional – foi professor e reitor de um liceu em Macau – Pessanha ficou também conhecido pelos seus consumos de ópio. Alves (2001) apresenta-nos uma síntese de várias referências, presentes na obra do poeta, à utilização desta substância e à relação que esta tem com a imagem que o autor transmite de si. Pessanha surge-nos, por vezes, como um sonhador em busca de um ideal, sendo a droga um instrumento de acesso ao seu mundo de sonho – o ópio seria a chave de acesso a um mundo mental, abrindo portas à deslocação, à viagem; outras vezes, como uma vítima – vive inserido num mundo que o rejeita, surgindo o ópio como seu salvador, possibilitador da evasão deste sofrimento; por último, o poeta apresenta-se como um espírito fraco e doente, sendo o ópio neste caso um instrumento de destruição, a quem a sua alma “lânguida e inerte” (op. cit.) recorre para se aniquilar lentamente. As descrições da imagem social de Pessanha apontam-no como uma figura romântica, de “espírito belo” (Alves, 2001, p.79) que apreciava o debate de ideias, sobretudo sob a influência do ópio, considerando-o os seus amigos enquanto um sonhador. Por outro lado, aqueles que menos simpatizavam com o poeta descreviam-no como “inteligente e excêntrico”, bem como possuidor de uma “vaidade incomensurável”. Em nenhuma descrição – quer da parte dos seus amigos, quer da dos seus inimigos – os consumos de ópio surgem como um fator relevante ou depreciativo: a sua dependência de ópio tinha muito pouco peso na sua imagem pública, não lhe sendo associado qualquer juízo depreciativo. A naturalidade com que o consumo de ópio é aceite no caso de Camilo Pessanha só é explicável à luz dos costumes da sociedade onde se encontrava inserido: Pessanha viveu grande parte da sua vida adulta em Macau, sendo o consumo de ópio na China dos finais do séc. XIX uma prática mais que generalizada (Alves, 2001). 9 O caso de Camilo Pessanha, bem como de outras personalidades literárias – como, por exemplo, os autorrelatos de De Quincey, Baudelaire, Balzac, no séc. XIX, ou de Huxley, Junger e Burroughs mais recentemente, acerca do consumo de substâncias como o ópio, o haxixe, o café ou mesmo o éter (Tinoco, 2002) – vem dar suporte à noção de que a utilização de drogas não é um fenómeno das últimas décadas, ou circunscrito a um estrato específico da nossa sociedade. De facto, tal como Espinosa (1989) afirma, a propósito do consumo de substâncias psicoativas, vivemos (no passado e atualmente) e, muito provavelmente, viveremos no futuro num mundo repleto de substâncias adictivas, naturais ou artificiais. O consumo de substâncias psicoativas não é, contrariamente à ideia atual de que o consumo de drogas é um “problema” da contemporaneidade, algo de novo – pelo contrário, é um fenómeno com origens remotas, milenares. O objeto de estudo do presente trabalho é o fenómeno das drogas; mais concretamente, o objetivo será aprofundar quais os processos de estigmatização associados ao seu consumo. Assim, o objeto de estudo será desenvolvido tendo em consideração as origens históricas e sociais da problematização da utilização de drogas, ou a construção do estigma a estas associado, procurando analisar as implicações que este estigma tem na forma como as drogas e os seus usos são encarados atualmente. 1.1) Enquadramento teórico 1.1.1) As drogas ao longo do tempo Utilizar-se-á, ao longo do presente trabalho, a definição de “droga” proposta por Escohotado (1996), baseada na definição de Hipócrates e Galeno: uma droga, psicoativa ou não, é uma substância que, em vez de “ser vencida” pelo corpo (por outras palavras, assimilada como um simples nutriente), é capaz de o “vencer”, provocando alterações orgânicas, anímicas ou ambas. Usos tradicionais De acordo com Escohotado (1996), os usos de drogas datam de há milhares de anos atrás. Nas culturas de caçadores-recolectores, cujas crenças religiosas se caracterizavam pelo politeísmo, as primeiras formas de comunhão com o sagrado (como, na cultura cristã, a hóstia) foram feitas através de substâncias psicoativas, como o peyote, o vinho ou certos unguentos. Por esta altura, festa, medicina, magia e religião não eram dimensões diferenciadas, mas antes um todo, e as práticas referentes a este todo envolviam, na maior 16 se incluem os vícios, como a toxicodependência e outras “paixões tirânicas ou não naturais” (Goffman, 1988, p.14) e os estigmas tribais e de raça, nação e religião. A forma como a sociedade “normal” lida com o estigma caracteriza-se por respostas benevolentes (por ex., as ações sociais que procuram suavizar e melhorar a condição do estigmatizado – no caso da droga, a rede assistencial de apoio a toxicodependentes) e a rejeição, a exclusão e o afastamento: com base no estigma percebido, são feitas numerosas discriminações, havendo uma tendência generalizada para inferir uma série de imperfeições a partir da imperfeição original. Com a crescente mediatização do fenómeno droga, a “peste do séc. XX”, o toxicodependente torna-se, assim, alguém que carrega um estigma (Fernandes, 1998). Segundo Goffman (1970, como citado em Fernandes, 1998), a sua simples presença abre caminho a um jogo social produtor de exclusão. Fernandes e Tinoco (2002), através de um estudo que contou com a participação de heroinómanos em processo de tratamento, apontam várias dimensões associadas ao estigma da droga, ou à manipulação da imagem de si em vários aspetos da vida quotidiana por parte dos portadores deste estigma. A gestão da imagem de si é fulcral quer nos contextos/esferas normativas, quer nos desviantes: por um lado, em diversos contextos sociais normativos o estatuto de consumidores tem de ser ocultado; por outro, a estigmatização dentro da subcultura de pares pode causar situações de acrescida dificuldade ao indivíduo – pode-lhe ser, por exemplo, negado o acesso à substância, vendose este obrigado a “andar aos filtros” (injetar as sobras dos outros consumidores). O ocultar dos consumos – ou do estatuto de consumidor – verifica-se também no caso do consumo “não problemático” de drogas: o encobrimento dos consumos revela-se como algo essencial para preservar a autoimagem pública, inclusive para evitar julgamentos negativos a nível social e familiar, sendo por isto feito preferencialmente em locais resguardados (Cruz e Machado, 2010). Quando a toxicodependência já não pode mais ser escondida e o estatuto de consumidor se torna evidente (tornando-se o indivíduo um “desacreditado”, na definição de Goffman, 1988), existe uma gestão não da imagem de si, mas das tensões no quotidiano (Fernandes e Tinoco, 2002). A gestão da imagem pessoal junto da família caracteriza-se, inicialmente, pelo encobrimento dos signos do estigma – a atitude de contenção, no seio familiar, é prova disto (como seja esconder sinais de intoxicação pela substância dentro de casa). O trabalho é também uma das esferas mais importantes com que o consumidor se terá que confrontar: há uma série de escolhas postas em marcha face a esta dimensão social – o abandono do emprego, a prossecução de alternativas desviantes (no caso de indivíduos com estas mais 17 familiarizados) ou, no caso de indivíduos mais normativos, a inflexão dos consumos. Inicialmente, há uma conjugação dos consumos com a vida profissional; esta coexistência acaba por ser dificultada pela instabilidade que a vida de consumidor abarca. No caso das redes de suporte social, ou grupos informais, há uma sucessão de associações e afastamentos que podem reforçar a adesão ao consumo de drogas duras: quando o indivíduo se afasta dos seus amigos não consumidores em detrimento dos parceiros consumidores, geralmente verifica-se um maior envolvimento com a vida de consumidor (Fernandes e Tinoco, 2002). Por último, a relação do consumidor com o sistema jurídico-penal e médico-sanitário é abordada: no caso do primeiro, as suas ações (como a ação da polícia e as idas a tribunal) são incorporadas no estilo de vida do consumidor, funcionando como mais um obstáculo ao consumo de substâncias (e, raramente, como produtor da mudança de estilo de vida); no caso do segundo, este é visto como uma forma de rentabilizar as suas atividades – a ida a consultas é uma forma de gerir conflitos familiares, continuando a consumir, e também uma forma de gerir a dependência através da aprendizagem de utilização de diferentes medicamentos (Fernandes e Tinoco, 2002). A visibilidade do estigma é também importante, sendo que a estigmatização se ativa quando há uma visibilidade social do desvio inicial (Romaní, 1999). Espinosa (1989) chama-nos a atenção para as condições de visibilidade diferencial dos diferentes grupos sociais: os grupos sociais mais abastados possuem menos visibilidade, sendo os seus atos dificilmente fiscalizáveis; os grupos sociais mais desfavorecidos, por sua vez, possuem uma maior visibilidade, dado que vivem prática ou literalmente na rua – a sua conduta é, assim, facilmente verificável e fiscalizável. 1.1.4) Um estigma particular: o caso da heroína Leia-se, a título de curiosidade, um artigo recente da revista VICE com um nome sugestivo: “Um guia para senhoras comprarem drogas”. Ao longo deste artigo, a autora vai fazendo uma descrição detalhada das várias drogas – desde a cannabis aos cogumelos, passando pela cetamina e pela cocaína – bem como do visual certo para a potencial consumidora se integrar no meio onde estas são consumidas e criar uma boa relação com os dealers destas substâncias. Chegando ao parágrafo final, dedicado à heroína, lê-se o seguinte: “Não tenho a mínima ideia. A heroína parece-me uma má ideia, a menos que te queiras matar ou ser violada e/ou assaltada por um dealer. Tenho quase a certeza que ninguém entrega heroína ao domicílio porque entrar em casa de alguém que a consome é 18 demasiado perigoso. […] Qualquer altura do dia é má para morrer, por isso peço desculpa, mas não te posso ajudar muito mais.” (Lee-Roberts, 2011). Atualmente, a heroína parece ser ainda posta numa categoria distinta das outras drogas, sendo-lhe conferida uma aura de maior perigosidade e um maior estigma, nomeadamente entre consumidores de outro tipo de substâncias. Gamella e Roldán (1999), remetendo para a popularização do consumo de ecstasy entre a população juvenil espanhola da década de 90, referem-se a esta substância como a droga “anti heroína”: a partir de 1987, altura em que a “crise da heroína” sofre uma alteração tendencial e passa de um problema essencialmente sociopolítico para um problema de saúde pública (sobretudo com o crescimento do número de infetados com VIH), os “yonquis” – dependentes de heroína – convertem-se num dos tipos sociais mais depreciados, inclusivamente por outros consumidores de outros tipos de drogas. Os jovens que, nesta época, começam a consumir ecstasy têm o seu discurso marcado por uma perceção benigna das “pastilhas”, face à devastação provocada pela heroína: o ecstasy é então visto como uma droga limpa, divertida, que não cria dependência, dando energia e vitalidade, favorecendo ainda a “festa”, a sociabilidade e o erotismo (Gamella e Roldán, 1999.). A heroína já não é uma droga atrativa, popular ou “glamourosa” – muito pelo contrário, tem “má fama” entre os jovens (Gamella, 1996). Num estudo recente, Calado e Lavado (2010) dedicaram-se à análise das representações sociais da droga e da toxicodependência junto da população jovem presente no Rock In Rio, em 2008. Entre os resultados obtidos, os autores apontam que, para os jovens inquiridos, a representação de “consumidores de drogas” e “toxicodependentes” é bastante diferente, sendo os últimos encarados de uma forma muito mais negativa e estigmatizada do que os primeiros. O consumo de drogas é cada vez mais associado a práticas de diversão, aos amigos e ao mundo das celebridades, verificando-se um afastamento relativamente à heroína enquanto substância atrativa e assumindo a cannabis um papel cada vez mais central nas representações dos jovens (Calado e Lavado, 2010). A heroína, por sua vez, permanece associada a um submundo marginalizado e desolador, os chamados “ninhos de podridão” (Ribeiro, 2004, p. 46), bem como à figura do toxicodependente de rua, o “agarrado”, um indivíduo em situação de grande precariedade muitas vezes obrigado à mendicidade, divagando em errância pelos recantos mais obscuros da cidade, situado entre a exclusão e a criminalidade (Fernandes, 2011). Pode-se entender o quotidiano junkie como um estilo de vida – “Ser-se agarrado é, antes de mais, um modo de existir” (Fernandes, 2011, p. 22). Este modo de viver, marcado 19 por uma miséria profunda, constitui um fenómeno social que se foi instalando lentamente: o “princípio da (des)igualdade de oportunidades”, como lhe chama Ribeiro (2004), comum a todas as classes, transforma um comportamento desviante – o consumo de drogas, neste caso de heroína – numa forma de se estar na vida, não se conseguindo muitas vezes existir de outra forma. Os indivíduos tornam-se também dependentes de experiências, e de um estilo de vida, ultrapassando a dependência farmacológica (Laurie, s/d, como citado em Tinoco, 2005). Assim, para além da dependência biológica e psicológica surge a dependência ecossocial, na medida em que o indivíduo se vê dependente de um “projeto” de vida que, entre outras dimensões, passa por drogar-se e arranjar droga, através de uma série de rotinas diárias específicas (Ribeiro, 2004). A crise da heroína Para se compreender o estatuto profundamente estigmatizado da heroína há que fazer m retrocesso dos processos que acompanharam a difusão do seu consumo, até ao ponto em que este se assumiu enquanto uma “crise” de droga. Tomar-se-á como exemplo ilustrativo desta evolução o caso espanhol, analisado por Gamella (1996). Por crise de droga entende-se uma transformação radical na forma como certas drogas são consumidas, distribuídas e conceptualizadas numa determinada sociedade. Este tipo de alteração é definido por quatro processos interrelacionados: 1) a rápida expansão de formas de consumo intensivas de uma determinada droga – no caso da heroína, o consumo por via endovenosa inscreve-se neste parâmetro; 2) o aparecimento de um intenso alarme social em torno destes consumos e das suas consequências, que provocam por sua vez uma institucionalização das formas de combate a este “problema” social; 3) o crescimento de uma economia paralela, mais ou menos informal ou ilegal, dedicada à produção e distribuição de drogas que disponibiliza em grande escala as novas substâncias; 4) o desenvolvimento de um problema de saúde pública, fruto de um prejuízo sanitário massivo e quantificável que, nas sociedades desenvolvidas, pode gerar uma crise sanitária – um exemplo deste parâmetro foi o crescimento da transmissão de VIH entre consumidores de heroína nas décadas de 80 e 90 do séc. XX (Gamella, 1996). A “crise” da heroína em Espanha expandiu-se em fases distintas. A primeira, em 1977-78, deu-se quando os primeiros junkies se tornaram visíveis e a tensão pública se centrou pela primeira vez no uso local da heroína; entre 1979 e 1982, a segunda fase de expansão deste fenómeno veio conferir um estatuto “epidémico” à questão da heroína. A terceira fase, entre 1983 e 1986, é aquela onde esta questão atinge o seu expoente máximo, 20 institucionalizando-se definitivamente o “problema” da heroína. A partir de 1987 o número de novos usuários começa a diminuir, embora cresçam a morbilidade e a mortalidade dos usuários existentes, consequência não só do seu estilo de vida, mas sobretudo da expansão da SIDA; é nesta fase que começa a crescer o consumo de heroína (e cocaína, ou ambas) fumada. A partir de 1991-92 a crise torna-se “endémica”: perde-se o seu carácter “agudo”, havendo cada vez menos novos usuários, centrando-se o problema numa população cada vez mais envelhecida e circunscrita a meios específicos. Por esta altura começam a surgir novas formas de consumo de outro tipo de substâncias, nomeadamente as “drogas de desenho” (Gamella, 1996). Há duas consequências reconhecidas nas “crises” das drogas: em primeiro lugar, uma droga parece ser mais aditiva numa sociedade ou período determinado do que noutras (Peele, 1985, como citado em Gamella, 1996); em segundo lugar, o “abuso” de drogas tende a construir-se sob a forma de “epidemias” ou ciclos, com claros avanços e retrocessos, e não de forma gradual ou constante, algo que tem motivos demográficos, culturais e económicos. A respeito do primeiro parâmetro podemos referir um dado apontado por Pallarés (1996): no seu trabalho, que contou com dois grupos de heroinómanos, um com os consumos iniciados na década de 1970 e o outro na de 1980, os iniciados na década de 80 valorizam mais a primeira experiência com esta droga, algo que é consonante com o discurso alarmista vigente – em particular, com a noção de se ficar “agarrado” à heroína a partir do primeiro consumo – do que os iniciados na década de 70, época em que este mesmo discurso ainda não se encontrava instituído. O autor chama a atenção para o facto de o consumo de drogas ser um comportamento inserido socialmente, sendo por isso mesmo sujeito à influência do discurso dominante. Outra prova disto é a forma como o sujeito vive os efeitos na droga no plano físico: não são apenas as propriedades farmacológicas que afetam a experiência corporal da droga, mas também o plano simbólico, os elementos provenientes do contexto imediato e da sociedade em geral – daí a primeira experiência com a heroína ser vivida de uma forma mais intensa, precisamente por estar sobrecarregada de uma simbologia que lhe atribui um maior perigo. A própria abstinência da heroína – a “ressaca” – é tanto mais intolerável quanto mais o indivíduo estiver convencido da sua intolerabilidade, gerando-se o chamado “mito del mono” (Pallarés, 1996, p. 82). Tinoco (2005) chama-nos também a atenção para as alterações que se têm vindo a registar no discurso dos consumidores de heroína: a dimensão do flash como uma parte dos efeitos da substância foi-se perdendo lentamente, sendo a vertente mais realçada na 21 vivência dos consumos a do sofrimento e da dor. Esta mudança, apesar de corresponder a um endurecimento nas condições de vida dos consumidores, corresponde igualmente a uma mudança na imagem social da heroína – as drogas, em geral, e a heroína, em particular, instituíram-se como um estigma, implicando uma série de constrangimentos nas relações interpessoais do indivíduo e, acima de tudo, na perceção que este tem acerca de si mesmo. A influência que a visão coletiva tem sobre o fenómeno da droga é, como se pode depreender a partir dos conteúdos expostos, imensa. Uma prova disto pode ser o fenómeno da desviância secundária: este conceito, na definição de Lemert (1951, como citado em Tinoco, 2005), consiste na componente da transgressão que é induzida pela sociedade – ao proibir-se determinada conduta, os indivíduos que a cometem terão de se confrontar com cada vez mais obstáculos. Assim, as dificuldades e o isolamento social consequentes da conduta sancionada socialmente (neste caso, o consumo de heroína) facilitaria a internalização de identidades transgressivas (Tinoco, 2005). Os consumidores de heroína, devido à ilegalidade desta substância e, especialmente, a uma profunda rejeição social – marca-os um estigma associado ao consumo de drogas em geral, e da heroína em particular – vêm-se como que empurrados para um estilo de vida que não é resultante da substância em si, mas sim do tipo de resposta social que a nossa sociedade dá a este “problema” (Pallarés, 1996). Tal como Tinoco (2005) afirma, “A heroína é definitivamente, nos dias de hoje, um estigma. É um estigma que provoca reações negativas nos outros quando é revelado o consumo e implica que o heroinómano faça uma cuidadosa gestão do segredo. O consumidor vê-se perante a disjuntiva de redes de suporte social desviantes versus normativas – o que não acontece, por exemplo, com o alcoólico ou o fumador compulsivo de tabaco” (Tinoco, 2005, p. 53). 1.1.5) A droga como elemento produtor de estigma A marginação social constitui, segundo Romaní (1999), um conjunto de processos que acabam por limitar (e até mesmo excluir) a determinados indivíduos ou grupos sociais o acesso aos recursos mais habituais da sua sociedade. Esta definição permite distinguir dois tipos de desvios: o desvio aceitável e desejável (por exemplo, as soluções profissionais mais criativas) e o desvio produtor de exclusão, proveniente geralmente dos extratos mais baixos da estrutura social. Feita esta distinção, torna-se possível compreender que a estigmatização não é uma variável independente, mas antes uma mediação necessária 22 no processo de marginação, tendo que ser ativada por outros fatores (nomeadamente a competição por recursos básicos, como o território). A estigmatização pode também ocorrer para defender e/ou preservar a própria identidade de grupo, permitindo desviar as responsabilidades de males sociais para o exterior, ou para uma figura concreta (Romaní, 1999). Neste último caso, inserem-se os atores sociais associados às drogas, apontados como causa única de muitos dos problemas sociais mais atuais. Fernandes (2009) refere-se ao fenómeno droga como um delator da erosão das normas que tem vindo a ocorrer: este atenta diretamente contra os pilares da Modernidade (a alteração da consciência é preferida à Razão, o hedonismo do aqui e agora sobrepõe-se ao Trabalho e o grupo de pares drug à Família, a relação amorosa passa a ser triangulada com a heroína), revelando de forma inequívoca as instâncias em crise nas sociedades do capitalismo avançado. A crise destas instâncias dá origem a um sentimento de insegurança generalizado, transformando-se a nossa sociedade numa sociedade de risco, imprevisível, repleta de perigos como catástrofes naturais, atentados terroristas, aumento da criminalidade urbana, etc. A vulnerabilidade a todas estas ameaças difusas acaba por ser transferida para objetos concretizáveis, como a droga, de modo a criar explicações plausíveis para a fragilidade experienciada e a legitimar novas práticas policiais penitenciárias (Fernandes, 2009). Os princípios de exclusão da droga propostos por Fernandes (1998), atrás enunciados, podem, neste sentido, ser encarados como meios para purgar a sociedade de toda esta insegurança, materializada no fenómeno drogas. A rejeição do toxicodependente não reside, então, apenas nas suas características pessoais, mas sim naquilo que representa: a falência das instâncias atrás referidas. Daqui se conclui que o estigma, particularmente o estigma associado ao consumo de drogas, não é, por si só, algo naturalmente mau. A sua carga emocional negativa advém das definições que a sociedade lhe atribui: como Goffman (1988) afirma, normal e estigmatizado não são pessoas, mas sim perspetivas que são geradas em situações sociais durante os contactos mistos, em virtude de normas não cumpridas. 1.1.6) Temáticas a explorar Tendo já sido abordado o conceito de estigma, torna-se relevante abordar agora a noção de exclusão social. Bruto da Costa (1998) apresenta a noção de exclusão social proposta por R. Castel, segundo a qual este termo diria respeito à fase extrema do processo de marginalização, sendo este último entendido como um percurso descendente ao longo 23 do qual se verificam sucessivas ruturas na relação do indivíduo com a sociedade. A fase extrema deste processo (a “exclusão social” propriamente dita) é caracterizada não só pela rutura com o mercado de trabalho, que se traduz em desemprego (sobretudo o desemprego prolongado), mas também por ruturas familiares, afetivas e de amizade. A noção de exclusão social implica a existência de um contexto de referência – excluído de quê?. A qualificação de “social” permite interpretá-la como estando relacionada com a sociedade – neste entendimento, a exclusão tem a ver com a cidadania. O exercício pleno da cidadania implica e traduz-se no acesso a um conjunto de sistemas sociais básicos, que podem ser agrupados em cinco grandes domínios: o social, o económico, o institucional, o territorial e o das referências simbólicas (Bruto da Costa, 1998). A área social caracteriza-se pelo conjunto de sistemas (grupos, comunidades, redes sociais) em que uma pessoa se encontra inserida, desde os mais imediatos (por exemplo, a família) aos intermédios (por exemplo, a empresa) até aos mais amplos (por exemplo, o mercado de trabalho – note-se que este não é conceptualizado apenas enquanto fonte de rendimentos, mas enquanto fator de socialização e integração social). No domínio económico existem três sistemas básicos: os mecanismos geradores de recursos (como o mercado de trabalho, o sistema de segurança social), o mercado de bens e de serviços e o sistema de poupanças. O domínio institucional abrange dois tipos de sistemas: os sistemas prestadores de serviços (sistema educativo, de saúde, de justiça, etc.) e as instituições mais diretamente relacionadas com direitos civis e públicos. O domínio territorial diz respeito à exclusão social não só de pessoas, ou famílias, mas sim de territórios inteiros (por exemplo, bairros). O domínio das referências simbólicas, por último, tem a ver com uma dimensão subjetiva da exclusão – respeita a todo um conjunto de perdas no campo das referências: perda de autoestima, de autoconfiança, de perspetivas para o futuro, de capacidade de iniciativa, de motivações, de sentido de pertença, etc. (Bruto da Costa, 1998). Os consumidores de drogas, particularmente os consumidores problemáticos – junkies – constituem um grupo sujeito à exclusão social, e é sobre estas figuras sociais que incidirá o presente trabalho, como já se referiu. Tal como Fernandes e Carvalho (2000a) apontam, a figura do toxicodependente tem vindo a ser associada a uma série de elementos negativos, que têm contribuído para a formação de um estigma associado ao consumo de drogas e para a exclusão social dos consumidores destas. A partir da década de 80 do século XX, o sentimento de insegurança começa a ser associado à figura do junkie (entre 24 outras) – este é considerado um concentrador de riscos sanitários e delinquenciais e encarado como um potencial agressor pelo discurso social: as autoridades e a comunicação social têm vindo a imputar o aumento da criminalidade e da insegurança urbana ao junkie (Fernandes e Carvalho, 2000a). Ao longo do estudo procurar-se-á inferir qual a situação dos participantes em cada um destes domínios, bem como se, em situações específicas, o indivíduo é capaz de reconhecer, por parte dos outros, atitudes e comportamentos que reflitam o estigma de que é alvo por consumir drogas. Serão incluídos no estudo dois grupos: um constituído por consumidores “problemáticos” de drogas, outro por consumidores “não problemáticos”. O consumo problemático, de acordo com Fernandes e Carvalho (2000b), define-se da seguinte forma: “Consumo problemático é toda a utilização de drogas que conduza à auto perceção de situações e/ou estados indesejáveis no indivíduo (saúde física e mental) e/ou dos diferentes níveis de sistemas que o envolvem (família, grupos informais, trabalho, relação com instituições). A definição não deve confundir-se com a de toxicodependência, pois esta representa uma situação específica na evolução dos consumos problemáticos. Nem com a de padrão de utilização, em que um critério fundamental é o da frequência de uso. À noção de consumo problemático subjaze um critério que é essencialmente qualitativo, já que o uso esporádico se pode revelar bem mais problemático do que certos consumos regulares” (Fernandes e Carvalho, 2000b, p. 20). Assim, os consumidores problemáticos caracterizam-se pela associação de uma sensação de mal-estar ao consumo de drogas (perceção deste consumo como despoletador de consequências negativas), quer a um nível individual, quer a um nível sistémico (quando os consumos afetam, por exemplo, o agregado familiar do indivíduo). A definição do consumo “não problemático” é feita por Cruz, Machado e Fernandes (2010) tendo em conta, primeiro, critérios externos, que dizem respeito a (A) Ausência de problemas médicos, sociais ou legais relacionados com os consumos e (B) Caracterização do sujeito por terceiros significativos como consumidor “não problemático”. É também tido em consideração um critério interno ou subjetivo, que consiste na auto caraterização do sujeito como consumidor “não problemático”. Assim, a proposta de estudo apresentada remete para o aprofundamento das formas como o consumo de drogas é hoje encarado em cada um destes grupos. O principal objetivo será, através da análise do discurso dos participantes, explorar situações de exclusão social e avaliar estigmatização através do relato de situações específicas, bem como da quebra de vínculos afetivos, nomeadamente na rede social de apoio do participante. 25 2. Método 2.1) Linhas discursivas e tradições metodológicas O “fenómeno das drogas” tem sido abordado por diversos sistemas explicativos e interpretativos, gerando-se várias linhas discursivas acerca das “drogas” e seu mundo. Agra e Fernandes (1993), baseando-se em critérios de carácter histórico-epistemológico e socorrendo-se da epistemologia de Kuhn, organizaram os saberes das drogas em duas grandes linhas: a linha conservativa (paradigma da droga-enigma) e a linha inovadora (paradigma da droga-novo paradigma). A linha conservativa, ou o paradigma da droga-enigma, caracteriza-se pela introdução do objeto-droga em paradigmas já constituídos anteriormente a propósito de outros objetos – por exemplo, a psiquiatria, a criminologia, a psicanálise, o behaviorismo, o humanismo, etc. Nestes paradigmas, o “consumo da droga” constitui um dos enigmas que alimentam a produção de trabalho científico normal – não assume, assim, um estatuto especial entre os outros enigmas, sendo apenas mais um objeto de estudo (Agra e Fernandes, 1993). A linha inovadora (paradigma da droga-novo paradigma) caracteriza-se, por sua vez, por procurar construir um novo paradigma explicativo para o objeto-droga. Este novo paradigma deveria ser explicativo e interventivo, bem como independente dos paradigmas científicos tradicionais, uma vez que esta corrente crê que estes últimos se revelaram incapazes de assimilar convenientemente o objeto-droga. Esta linha cria, desta forma, condições para uma maior autonomia do saber do consumo das drogas. Para o constituir independentemente de outras disciplinas científicas, mas assumindo um estatuto de racionalidade científica, torna-se indispensável a construção de um discurso com base nas exigências dos paradigmas científicos normais, por um lado e, por outro, com referência a discursos não científicos (Agra e Fernandes, 1993). Agra e Fernandes (1993) apresentam algumas propostas de novos paradigmas de compreensão das drogas: 1) A proposta de Ingold (1986, como citado em Agra e Fernandes, 1993), que se caracteriza pela rejeição das teorias sociopáticas, das teorias comportamentalistas e ainda das teorias médicas (onde se inclui a psicanálise), afirmando que as teorias médicas e comportamentalistas tendem a reduzir os fenómenos humanos a uma série de causas e efeitos; 2) A proposta de Comas (1981, como citado em Agra e Fernandes, 1993), que parte da revisão/avaliação da investigação existente sobre o uso de drogas 32 junkie); das entrevistas tópicas, dado que se procurará inferir situações de exclusão social através do relato de episódios específicos – por exemplo, perguntar ao participante como se sente quando se dirige a um centro de saúde, e pedir para relatar um episódio particular, de modo a perceber se este se sente ou não estigmatizado e excluído. A entrevista, sendo uma forma de comunicação oral privilegiada, é também um instrumento privilegiado para compreender dinâmicas simbólicas importantes que vão de encontro aos objetivos essenciais deste trabalho. Bourdieu (1991) salienta que o discurso de cada um reflete a sua condição social; as dinâmicas, ou interações sociais, estão, assim, presentes no discurso de cada um – as trocas de palavras, presentes nas interações sociais, seriam sobretudo trocas simbólicas, e refletiriam o estatuto, ou posição social, de cada elemento. A análise do discurso dos participantes servirá o propósito não só de recolher elementos importantes acerca da sua trajetória, mas também permitirá aceder a esta dimensão: permitirá averiguar a posição que o indivíduo ocupa na sociedade e o tipo de relações que se estabelecem entre ele e os outros atores sociais do seu meio. Neste estudo foi empregue uma entrevista semiestruturada, cujo objetivo será compreender a cultura dos entrevistados, ou o seu estilo de vida e as dinâmicas do seu diaa-dia, bem como a recolha de alguns dados biográficos, de forma a definir sinteticamente a sua trajetória no chamado “mundo das drogas”. Foram também explorados episódios significativos específicos relacionados com a exclusão social e a vivência do estigma associados ao consumo de drogas. As entrevistas foram gravadas em formato áudio, tendo sido posteriormente transcritas. A técnica empregue para o tratamento dos resultados foi a análise de conteúdo qualitativa temática, conforme descrita por Bardin (1988) – a unidade de registo utilizada para a codificação dos elementos recolhidos foi o tema, uma vez que, de acordo com a autora, o tema “é geralmente utilizado como unidade de registo para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências, etc.” (Bardin, 1988, p.106). Assim, a categorização, ou a operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e reagrupamento em “núcleos de sentido” (Bardin, 1988), neste caso, seguiu um critério semântico: os conteúdos recolhidos constituem, assim unidades de registo semânticas (Vala, 1986). 33 3. Resultados 3.1) Caracterização dos participantes O grupo dos consumidores “problemáticos” foi definido de acordo com os critérios apontados por Fernandes e Carvalho (2000b), como mencionado anteriormente (cf. Método), sendo composto por seis elementos, quatro do sexo masculino e dois do sexo feminino. Os participantes foram abordados em situação de consulta no CRI de Matosinhos, sendo esta uma amostra de conveniência. A maior parte dos entrevistados não se encontra, de momento, a consumir drogas – apenas um entrevistado refere ter consumos atuais e regulares de heroína e cocaína (base); foi explicado aos participantes que a entrevista dizia respeito ao seu passado enquanto consumidores e ao seu presente, na condição de ex-consumidores. A média de idades dos participantes, neste grupo, é de 28,5 anos, tendo todos os participantes nascido na década de 1980 – critério previamente definido. Com a exceção de uma participante, a droga de início foi sempre a cannabis (haxixe), sendo que a idade do primeiro consumo se situa, em média, pelos 15 anos. O consumo de heroína e cocaína (base) é também, sem exceções, iniciado na adolescência, em média pelos 17 anos. É importante referir, neste ponto, que nenhum dos participantes consome ou consumiu alguma vez estas substâncias por via injetada: todos, sem exceções, referem o consumo exclusivo por via fumada. Um outro dado relevante na caraterização deste grupo é o facto de o consumo de outras substâncias psicoativas – cannabis, ecstasy, alucinogénios, etc. – assumir uma importância bastante reduzida no discurso destes participantes. Ao longo das entrevistas foi possível compreender que o consumo destas substâncias é, ou foi, sobretudo um consumo pontual, por oposição ao consumo regular/constante de heroína e cocaína (base). O grupo dos consumidores “não problemáticos” foi definido de acordo com os critérios estabelecidos por Carvalho, Machado e Fernandes (2010), como previamente se referiu (cf. Método). Os participantes foram selecionados por conveniência – recorreu-se à rede informal de conhecidos da investigadora, sendo as entrevistas sempre realizadas em contexto informal (na rua, em estabelecimentos públicos – por exemplo, cafés – ou mesmo em casa dos participantes); esta é, à semelhança do grupo dos consumidores problemáticos, uma amostra de conveniência. Este grupo é também constituído por seis elementos, quatro do sexo masculino e dois do sexo feminino. Foi também seguido o critério da data de nascimento (todos os entrevistados nasceram na década de 1980), sendo a média de idades 25,8 anos. 34 A droga de início foi, em todos os casos, a cannabis, estando a idade do primeiro consumo situada, em média, entre os 14 e os 15 anos. É de relevo apontar a importância atribuída a esta substância: para praticamente todos os participantes esta substância é a que surge como mais “normal, ou “habitual”, bem como com um consumo mais regular. Neste grupo, contrariamente àquilo que se pôde verificar no grupo dos consumidores problemáticos, as drogas utilizadas em contexto festivo ou recreativo – MDMA, cocaína (em pó), anfetaminas, alucinogénios (LSD, cogumelos), mefredona (bloom), ecstasy, etc. – assumem uma importância muito significativa nos relatos que cada participante faz das experiências de consumo, quer a nível individual (por exemplo, na descrição de efeitos positivos – “viagem”, maior ativação fisiológica – e negativos – “bad trips” ou indisposição física), quer a nível interpessoal, sobretudo no que concerne à forma de estar perante os outros. O consumo de heroína é referido apenas por um participante, sendo este um consumo pontual, algo que vai de encontro aos dados apontados em investigações prévias (Cruz, Machado e Fernandes, 2010; Cruz e Machado, 2010) acerca do consumo “não problemático” de substâncias ilícitas: este passa por um consumo controlado, ou mesmo por um afastamento, desta droga. Há um aspeto interessante a salientar: o consumo de cocaína é feito por via fumada (em base) no caso dos consumidores problemáticos e em pó, no caso dos não problemáticos. Cohen (1989) encontrou esta diferenciação numa amostra de consumidores “não desviantes” de cocaína, sendo o consumo desta droga por via fumada ou injetada conotado negativamente, associando os participantes estas vias de consumo a grupos desvalorizados socialmente e a um maior risco de dependência. No que concerne à escolaridade, o grupo de consumidores problemáticos possui um nível bastante mais baixo – a maioria dos entrevistados não possui mais do que o 9º ano de escolaridade, ao passo que no grupo dos consumidores não problemáticos, salvo duas exceções, todos os participantes possuem formação superior. Este dado torna-se particularmente relevante sobretudo no que toca à oralidade: a capacidade de expressão verbal é bastante superior no caso dos consumidores não problemáticos, produzindo estes um discurso bastante mais vasto, elaborado e diferenciado do que o outro grupo. Para esta discrepância poderão também ter contribuído as próprias condições em que as entrevistas foram conduzidas: no caso do grupo de consumidores problemáticos, a influência de um ambiente mais formal poderá eventualmente ter inibido uma participação mais descontraída, ou natural, por parte dos entrevistados. 35 3.2) Experiência de consumo Experiências corporais No caso dos consumidores problemáticos, as experiências corporais relatadas são sobretudo positivas. O efeito produzido pelas substâncias consumidas é apontado como positivo. A vivência física da substância – heroína ou cocaína (base), uma vez que não foram feitas referências a outras drogas neste âmbito – é encarada como agradável e prazerosa, não tendo nenhum participante apontado efeitos adversos do consumo a nível da corporalidade. A ausência de referências a outras substâncias vem reforçar o papel central que as drogas “pesadas” assumem junto deste grupo. No grupo dos consumidores não problemáticos as respostas neste âmbito são mais diversificadas. Em primeiro lugar, porque dizem respeito a um maior número de substâncias – a maior parte dos entrevistados aponta diversas drogas, desde a cannabis a estimulantes físicos, como por exemplo as anfetaminas, diferenciando os seus efeitos; em segundo lugar, porque todos contrapõem efeitos físicos positivos e negativos para cada droga consumida: foi possível verificar um cuidado em apresentar o “reverso da medalha”, mostrando-se os participantes, sem exceção, cientes dos benefícios de cada droga, mas igualmente atentos aos perigos que o consumo de cada uma delas comporta. Deste modo, foram apresentados efeitos positivos tais como o relaxamento, no caso da cannabis, ou a estimulação fisiológica, no caso das anfetaminas ou do MDMA: “[…] Quando quero aterrar, quando quero dormir… Em vez de tomar um cházinho fumo.” (V.C.); “O MD também me deu algumas noites em que fui capaz de me aguentar muito mais tempo do que o que aguentaria.” (J.P.). Da mesma forma, foram também feitas referências aos efeitos adversos associados ao consumo de algumas substâncias: falta de apetite quando o consumo de cannabis é abandonado; taquicardia ou, como lhe chama um dos participantes, “ficar com o coração todo estúpido”, associada ao consumo de anfetaminas. A ressaca do dia seguinte é também apontada por vários entrevistados como uma consequência negativa dos consumos. Experiências psicológicas As respostas dadas pelos participantes do grupo de consumidores problemáticos centraram-se, neste campo, em sentimentos e emoções essencialmente negativos, tais como sentimentos de culpa, auto crítica, vergonha ou humor depressivo: “Tinha vergonha de aparecer a ressacar no trabalho” (R.C.); 36 “[…] às vezes estava triste, estava deprimido e ficava sozinho” (M.T.). Contudo, há também referências a alguns benefícios associados ao uso de drogas: uma participante apontou uma maior capacidade de leitura na relação interpessoal (uma maior intuição humana, por assim dizer, no contacto com os outros): “Eu via as coisas muito mais rápido do que o normal, quando as pessoas estavam a falar de mim eu conseguia ver logo o que é que se estava a passar. […] Nós olhamos as pessoas de um modo completamente diferente.” (D.S.). Foi também apontado por um participante um efeito positivo, em termos de auto confiança, decorrente da utilização de drogas: “Era tudo meu. Quando consumia, era tudo meu. Não tinha problemas nenhuns.” (M.T.). No grupo dos consumidores não problemáticos as respostas dadas são, mais uma vez, mais diversificadas e também mais equilibradas em termos de apresentação de efeitos positivos vs. negativos decorrentes do uso de drogas. No caso das experiências negativas, são apontadas as “bad trips” – estados de consciência negativos decorrentes do uso de alucinogénios, tais como LSD ou cogumelos alucinogénios: “Já tive uma grande bad trip com ácidos e uma com MDMA misturado com cogumelos […] porque uma coisa leva-te para a moleza, para a viagem, e a outra dá-te vontade de fazer coisas e de não parar quieto. E aquilo deu-me um conflito interior muito grande.” (J.P.); “ Tive uma bad trip com cogumelos há uns anos atrás e foi uma experiência horrorosa, foi uma experiência horrível mesmo… Achei que ia ficar maluca para sempre, que não ia voltar a mim, foi mesmo uma questão de dissociação de personalidade, uma cena completamente fora do normal e cortei completamente a partir daí, nunca mais toquei nisso…” (I.P.). As “viagens” possuem, contudo, aspetos positivos: o consumo de alucinogénios permite experiências fora do comum que são, muitas vezes, vividas como algo profundamente positivo: “Com ácidos e cogumelos […] epá, aquilo possibilita-te conexões cerebrais que, de outra forma, não terias, tanto viagens introspetivas como viagens extra corporais brutais.” (J.P.) Ainda no que concerne a efeitos positivos, é referido o aumento da criatividade como uma vantagem decorrente da utilização da cannabis. A boa disposição e as emoções positivas são das principais vantagens decorrentes da utilização desta droga. 37 Uma das participantes faz algumas afirmações interessantes acerca da gestão dos consumos, que traduzem a postura que a maior parte dos elementos deste grupo assume perante o consumo de drogas, por aquilo que foi possível apurar ao longo da entrevista: “A experiência foi muito má mesmo […] mas isso também a partir do momento, lá está, em que não correu bem, parei simplesmente de consumir, nunca mais toquei em nada disso.” (I.P.); “Só consumo qualquer droga, seja ela qual for, se me der prazer e se não me trouxer nenhuma implicação principalmente a nível psicológico […] só consumo o que me faz bem.” (I.P.). Esta gestão dos consumos e das substâncias consumidas é apontada por Cruz e Machado (2010) como uma das componentes essenciais para um consumo de drogas “não problemático”: ser capaz, na sequência de um episódio negativo, de fazer ajustes ao consumo de uma determinada droga. 3.3) Consequências do consumo Plano pessoal No caso dos consumidores problemáticos, prevalecem referências a consequências negativas decorrentes do uso de drogas. São feitas referências a custos a nível da saúde – um dos participantes chega mesmo a apontar estados físicos extremos decorrentes do uso de cocaína, relatando um episódio em que entrou em coma na sequência de uma overdose com esta substância. Em termos de competências sociais, são apontadas quer a perda de competências de comunicação, quer a falta de tato nas relações interpessoais: “Eu antes não tinha problemas em relação a trabalho e era uma pessoa que gostava de socializar e falar com qualquer tipo de pessoa. […] às vezes parece que não me consigo exprimir tão bem como quero, percebe?” (R.C.); “Nem conseguia falar às pessoas quando consumia. Agora estou abstinente e sei falar, senão nem estava aqui a falar consigo, começava logo a tripar consigo.” (M.T.). A incapacidade de trabalhar – seguir horários e uma rotina diária – é apontada por vários participantes deste grupo como consequência do consumo de drogas. O síndrome de abstinência – a “ressaca” – é apontada como o principal motivo para esta incompatibilidade com o mundo do trabalho: a maioria refere que ou trabalha, ou consome – nunca ambos em simultâneo. As complicações legais surgem também como uma consequência relevante do consumo de drogas: o “ser preso” ou “ser apanhado numa rusga” é referido bastantes vezes, sendo a principal desvantagem o meio, ou o “mundo”, 38 em que o consumidor, a dada altura, se vê envolvido. Um dos participantes tem uma forma particular de descrever este meio: “Aquilo é o degredo. […] e na altura, a gente na brincadeira dizia que era a Champion’s League isso. Mas, para mim, isso é a Liga dos últimos.” (R.C.). Apesar de todos os aspetos negativos apontados, há uma referência, por parte de vários entrevistados, a um retorno positivo de toda a experiência no “mundo das drogas”: a aprendizagem e o crescimento pessoal, através do confronto com a adversidade. Ganhar experiência de vida é algo que é encarado pela maioria dos entrevistados como uma maisvalia, apesar de todos os problemas causados pelo consumo de substâncias ilícitas. Como nos diz uma entrevistada, “nós temos de lutar por tudo, todos os dias”, considerando que esta “é uma vivência que nos faz crescer muito”. No caso dos consumidores não problemáticos são apontadas consequências negativas relacionadas com a saúde, tais como a perda de peso (no caso da cannabis – como foi mencionado previamente, o abandono do consumo desta droga é associado por alguns entrevistados à falta de apetite). A nível cognitivo são apontadas algumas desvantagens, como por exemplo uma certa diminuição intelectual: um dos entrevistados afirma que o uso recorrente de cannabis, no passado, veio afetar o seu poder de raciocínio: “hoje em dia o meu poder de raciocínio já não é o mesmo”. Há uma referência ao desconforto causado pela discriminação, mas esta é feita de um modo algo ambíguo, revelando que a diferenciação produzida pelo consumo de drogas, neste caso (consumo não problemático), poderá não surgir propriamente como um estigma, podendo gerar reações negativas, mas também positivas: “No meio universitário já era um misto, porque já era discriminação como depois o inverso, o pessoal procurar-me ou para também consumir ou, algumas vezes, olharem-me com uma espécie de admiração.” (J.P.). Alguns entrevistados apontam desvantagens decorrentes da utilização de drogas relacionadas com a sua postura, ou conduta, sob o efeito destas substâncias, referindo que, muitas vezes, têm comportamentos inadequados que não teriam sóbrios, e que estes comportamentos muitas vezes abarcam problemas, nomeadamente na relação com pessoas significativas (amigos, namorados/as). Há, mais uma vez, algumas reflexões por parte dos entrevistados acerca das consequências negativas do consumo e de como estas consequências serviram de aprendizagem para situações futuras, produzindo alterações como a redução ou o abandono de determinada substância. Um dos participantes estabelece uma comparação interessante com os efeitos produzidos por um medicamento: 39 “Da mesma forma que conhecemos os efeitos positivos de medicamentos, também é importante reconhecer os efeitos positivos das drogas ilegais. Agora, também cabe secalhar a cada um saber contrabalançar a coisa e saber se [o consumo] vale a pena.” (B.C.). Em termos de efeitos positivos, são mencionados fatores como a diversão, o prazer e, à semelhança do que acontece no grupo de consumidores problemáticos (ainda que noutra escala), a experiência de vida que o consumo proporciona. Plano interpessoal No grupo dos consumidores problemáticos não há referência a efeitos positivos do consumo de drogas, a nível interpessoal: todas as referências, nesta subcategoria, possuem uma conotação negativa. Todas as consequências apontadas, sem exceção, dizem respeito ao impacto que o consumo de drogas do entrevistado teve no seio familiar, sobretudo na relação com os pais e com os filhos (por exemplo, perder temporariamente a custódia dos filhos). No caso dos consumidores não problemáticos há também referências a sequelas associadas ao consumo de drogas, sendo os conflitos com os pais aquela que é referida mais frequentemente. São também feitas referências a outro tipo de relacionamentos, nomeadamente com amigos e namoradas, apontando um entrevistado a deterioração deste tipo de relações enquanto uma consequência negativa do consumo de drogas. Uma participante refere também a perda de competências sociais (o ficar “antissocial”), decorrente da utilização de drogas, enquanto um fator dificultador da interação interpessoal. Em termos de efeitos interpessoais positivos, neste grupo há vários entrevistados que referem um maior convívio, sobretudo dentro do grupo de amigos quando estes também são consumidores, bem como uma maior cumplicidade com outras pessoas que também sejam consumidoras. É apontado por vários participantes um dado que pode ser considerado paradoxal inicialmente, mas que acaba por ser um desfecho natural do impacto gerado pelo consumo de substâncias: é apontado como fator positivo o aconselhamento, por parte dos pais, face ao consumo de drogas – embora a maior parte dos entrevistados refira os conflitos com os pais como uma consequência interpessoal negativa do consumo de substâncias, verifica-se, em quase todos os casos, uma adaptação, por parte dos pais, ao consumo de substâncias assim que este é percecionado como “não problemático”: 40 “No início tive grandes stresses, porque era um consumo aliado a outras atividades e isso causou grandes problemas. Mas depois, pá, lidaram com a situação da melhor maneira possível, nunca me proibiram de fazer nada, nunca me trancaram em casa, simplesmente deram-me as bases e os concelhos que acharam na altura que eram necessários e que funcionavam e que me permitiam ter uma relação minimamente saudável com as drogas.” (J.P.). Contudo, convém apontar neste ponto que a revelação e a aceitação dos consumos só se verifica com determinado tipo de substâncias, nomeadamente com a cannabis, visto como uma “droga leve” – relativamente a outro tipo de drogas, mais “pesadas”, não se verifica esta aceitação. 3.4) Estigma “E depois fiquei com uma marca para a vida, não é?” (D.S., 28 anos, ex-consumidora de heroína e cocaína) Noções gerais de estigma Todos os participantes, quer de um grupo, quer do outro, referem que o consumo de drogas é sempre associado a uma imagem, ou representação, essencialmente negativa da pessoa que o faz, por parte de não consumidores. No grupo dos consumidores problemáticos salientam-se as referências ao vício e ao roubo, bem como a uma aparência física degradada, “desmazelada”; é também apontado um dado importante, relacionado com a incompatibilidade do estatuto de consumidor com a inserção no mercado de trabalho: “Isso já se sabe, se uma pessoa chegar e disser ao seu patrão que consome drogas, ele despede-a logo. Não trabalha. No trabalho é assim, quem consome drogas, toda a gente fica logo com o pé atrás. É toxicodependente, fica logo atrás.” (M.T.). No grupo dos consumidores não problemáticos é também apontada esta incompatibilidade entre o consumo de drogas e a inserção no mercado de trabalho, pelo menos em circuitos mais conservadores: “E acho que cria um estigma enorme nas pessoas. Tu se dissesses abertamente numa entrevista ou num local de trabalho mais convencional que eras consumidora de determinadas drogas isso provavelmente traria consequências gravíssimas em termos de trabalho, sem dúvida.” (I.P.). A figura que é apontada como mais estigmatizada, como mais marginalizada, é a do toxicodependente de rua (“Esses são discriminados à partida, logo pela aparência – muita 41 gente nem sequer os vê como pessoas.”), sendo que o consumo encarado como produtor de uma maior exclusão é o consumo regular, e não o consumo esporádico ou recreativo de drogas. São também feitas referências à situação de consulta médica (os médicos são apontados como figuras que estigmatizam, regra geral, os consumidores de qualquer tipo de substância), bem como à relação que se estabelece com a autoridade, no geral, sendo que de acordo com uma das participantes “é normal que qualquer pessoa que consuma drogas ou que faça alguma coisa que não seja lícita” se sinta “mais ameaçada pela autoridade do que protegida”. É interessante apontar que, para um dos entrevistados, a noção de estigma não é vista como algo exterior aos consumidores de drogas, mas antes como algo que é partilhado por todos, sendo “essa noção e esse estigma” algo que “todos temos um bocado”. Acontecimentos individuais No caso dos consumidores problemáticos, foram feitas referências a situações de rejeição em diversas esferas normativas, como por exemplo em situações de trabalho – um dos participantes relata que se viu forçado a despedir-se do seu trabalho, após o seu empregador ter conhecimento dos seus consumos: “Eu era o técnico de máquinas, supervisionava as máquinas, e o meu patrão quando soube dos meus consumos, mudou-me o horário, pôs-me a trabalhar 4 horas por dia como empregado de limpeza… E eu fui obrigado a despedir-me.” (C.P.). Este tipo de discriminação vem apoiar a ideia, presente no discurso de todos os entrevistados, de que o consumo de drogas é mal visto de uma forma geral, e que a sua revelação poderá provocar reações deste tipo. Daí muitos participantes deste grupo relatarem que, por exemplo, em situações de entrevista de emprego, ou mesmo no seu posto de trabalho, omitem o seu passado de consumidores: “Por exemplo, eu estive a trabalhar num escritório de advogados, como administrativa. Toda a gente me adorava e confiava em mim. Mas se metade daquelas pessoas soubessem que eu já tinha sido consumidora, não falavam comigo da mesma forma de certeza.” (D.S.). Um dos participantes faz referência à estigmatização por parte dos próprios dealers relativamente aos consumidores, afirmando que “as pessoas vão lá gastar dinheiro e eles tratam as pessoas mesmo abaixo de cão”. Isto vem dar suporte à noção de que estes consumidores – os problemáticos – são uma figura não só profundamente estigmatizada, 48 pouco convencional, todos os participantes referem que esconder o estatuto de consumidor é algo essencial para preservar uma boa imagem junto de colegas e mesmo do empregador ou para, numa situação de entrevista de emprego, não dar uma imagem negativa de si: o consumo não é encarado como uma característica positiva, afirmando um dos entrevistados que “não é algo que goste de ter em relação a mim, que esteja associado ao meu trabalho e à minha pessoa”. O consumo de heroína, no grupo dos consumidores não problemáticos só acontece, como já se referiu, num caso. É notória, ainda assim, uma diferença entre o consumo desta substância e o consumo de outras drogas, havendo uma maior preocupação de esconder o consumo de terceiros: “Era mesmo desmarcado, nós íamos para a casa de banho e dava sempre estrondo, ficava lá o cheiro a remédio e o pessoal às vezes topava.” (V.C.). A revelação do estatuto de consumidor, no caso dos consumidores problemáticos, acontece apenas junto das esferas mais próximas do indivíduo, nomeadamente com a família nuclear. Há, contudo, uma exceção – um dos entrevistados refere que partilha, habitualmente, esta informação com outras pessoas, “tipo descargo de consciência em relatar esse meu passado. E também para justificar um pouco a minha vitória. Passei por isso e agora, até ver, estou bem”. Neste caso, a experiência ganha – mais concretamente a “vitória” sobre a dependência – é encarada como um motivo de orgulho e não de vergonha. No caso do grupo dos consumidores não problemáticos, a revelação dos consumos ocorre também em condições específicas, tendo sido possível apurar que a maior parte dos entrevistados faz uma gestão cuidadosa desta informação. Praticamente todos os entrevistados referem que a sua família mais chegada – nomeadamente os pais (o pai ou a mãe, ou ambos) – sabem dos consumos de algumas substâncias, salientando-se aqui a cannabis como a droga mais aceite (o consumo de outras drogas só é revelado à família por parte de um entrevistado). A cannabis é também apontada como a droga que causa menos problemas em termos de gestão da imagem em público: vários entrevistados referem que “não têm problema nenhum” em consumir haxixe “em qualquer lado” – uma das participantes afirma mesmo que “praticamente toda a gente sabe que fumo e não tenho nenhum problema em relação a isso”. Nas esferas sociais mais próximas (por exemplo, junto do grupo de amigos) a maior parte dos entrevistados afirma que não sente necessidade de esconder os consumos. É também apontada uma maior cumplicidade junto de outros consumidores – a partir do momento em que se percebe que o outro também consome drogas, deixa de haver a 49 necessidade de esconder o próprio consumo. Uma participante com um trabalho, nas suas palavras, “atípico” (gerente de um estabelecimento noturno) refere que não sente a necessidade de esconder os consumos dos seus colegas de trabalho, uma vez que estes também são consumidores de cannabis e outras substâncias ilícitas. Dois entrevistados deste grupo apontam ainda que procuram transmitir aos outros a noção de que o consumo de drogas é relativo e não deveria ser encarado como algo de errado, não tendo problemas em “demonstrar que tenho conhecimentos sobre isso […] seja com que tipo de droga for”. Imagem pessoal Os consumidores problemáticos fazem uma distinção bastante acentuada entre ter “bom” ou “mau” aspeto – o “mau aspeto” é associado ao consumo de drogas, e é encarado como um denunciador deste mesmo: “Quando estou fora da droga, só quem sabe é que me pode discriminar, porque ando na rua e sou uma pessoa normal… Quando ando fora de drogas normalmente ando com bom aspeto e não sei quê…” (A.F.) É de salientar o facto de o entrevistado referir “sou uma pessoa normal” quando não consome drogas – aqui se revela a interiorização do estigma: quando consome drogas, deixa de ser “normal”, passando a ser um adicto, um “agarrado”. Um outro aspeto bastante apontado é a perda de peso – o emagrecimento que a droga provoca é rapidamente associado pelos outros ao consumo de drogas, servindo também como um indicador do estatuto de consumidor. A componente comportamental é também importante: a postura, o “andar mais stressado” pode servir, de acordo com os entrevistados, como um indicador dos consumos perante os outros. Uma das entrevistas aponta ainda o visual – a forma como se arranjava na altura em que consumia – como um elemento que a associava de imediato ao consumo de drogas, revelando a importância que o impacto visual tem na interação com os outros: “Eu era mais discriminada pela minha aparência, porque eu usava muitos piercings e tinha rastas no cabelo todo, tatuagens… Era mais discriminada por isso do que por outra coisa.” (D.S.). Entre os consumidores não problemáticos, a questão da aparência física é igualmente salientada: “E tínhamos o cabelo comprido, o aspeto não tinha muito a ver com a cidade onde eu vivia… […] E em Braga também. Só pelo aspeto. Acho que isso já nem é a droga, é mesmo pelo aspeto – basta teres o aspeto de quem é agarrado” (V.C.); 50 “Provavelmente pelo visual, sim. Pelo aspeto, sim. E isso, lá está, já de si revela um bocado e há pessoas com determinada aparência, com determinado aspeto que às vezes até podem não consumir nada, mas o estereótipo de que se parte é que consomem alguma coisa. E acho que no meu caso, por não ter um visual tão comum como muitas pessoas, as pessoas quando olham para mim essa é uma coisa que pensam, sem dúvida nenhuma.” (I.P.) Os elementos, no visual do consumidor, que o associam a uma subcultura juvenil, ou pura e simplesmente o diferenciam de uma aparência “normal”, contribuem para a sua estigmatização – tal como a entrevistada acima aponta, a pessoa pode até nem ser consumidora, mas se tiver um aspeto que a associe de alguma forma ao “mundo da droga”, poderá ser julgada enquanto tal. Assim, piercings, tatuagens ou mesmo o cabelo comprido (no caso dos homens) poderá ser um fator de estigmatização, por si só. De resto, em termos comportamentais a maior parte dos consumidores não problemáticos refere que consegue esconder bastante bem o facto de estar sob a influência de alguma droga, embora seja apontado o efeito específico da cannabis – deixar os olhos “raiados” (injetados de sangue) – como algo bastante difícil de esconder e, assim, como um elemento que denuncia o consumo desta droga. Um dos entrevistados aponta um fator importante em termos de imagem pessoal – a capacidade que cada consumidor tem de reconhecer outros consumidores, partindo da postura da pessoa relativamente às drogas: “É sempre fácil detetar porque […] mesmo que seja alguém que consome muito ocasionalmente dá sempre para detetar que tem um nível de conforto com o tema e com outros consumidores e mesmo visualmente com as drogas que as outras pessoas nunca têm tanto.” (B.C.). Relação com figuras de autoridade Os consumidores problemáticos apresentam, curiosamente, mais referência positivas à relação estabelecida com polícias e outras figuras de autoridade do que os consumidores não problemáticos. Foram registadas algumas referências negativas, entre as quais uma situação de violência policial sobre um grupo de consumidores: “No bairro do Aleixo entraram lá os polícias na rusga e toda a gente que estava lá e tinha trocos na mão levou na cabeça. Havia pessoal que estava lá que estava a fumar e eles chegaram lá e levou tudo.” (A.F.). Há mais algumas referências a situações deste tipo, mas não vividas pelo entrevistado – relatos presenciais, sobretudo. Há também quem aponte maus tratos verbais, 51 em termos de linguagem utilizada – “o palavreado foi assim um bocadinho grosseiro” – ou de humilhação – uma entrevistada refere que, na altura em que foi detida “já estava a ficar um bocado forte, e ele [agente] começou com piadinhas sobre o meu aspeto físico”. Apesar destes relatos, muitos entrevistados referem que nunca foram alvo de maus tratos por parte da polícia, mesmo na altura em que consumiam drogas. Contudo, são também apontados vários episódios positivos na relação estabelecida com a autoridade, especialmente com polícias, sendo que alguns entrevistados deste grupo fazem uma distinção entre a altura em que consumiam (em que a relação com a autoridade era sobretudo negativa, e as figuras de autoridade encaradas como uma ameaça) e a altura presente, no caso dos que se encontram abstinentes, em que a relação com a autoridade é bem mais pacífica. É importante ter em consideração, neste caso, que as respostas dadas pelos consumidores problemáticos poderão ter sido influenciadas por alguma desejabilidade social, uma vez que, como já se referiu, o contexto onde as entrevistas foram conduzidas foi um contexto de consulta, bastante formal. Entre os consumidores não problemáticos prevalecem as referências negativas na relação com a autoridade, registando-se apenas uma alusão positiva ao efeito securizante que a presença de polícias ou seguranças tem num ambiente noturno. De resto, as figuras de autoridade não são vistas como um aliado, mas antes como uma ameaça: “Não, sinto-me completamente insegura na presença de um polícia ou de um segurança tendencialmente […] tendo em conta a legislação e tento em conta a sociedade em que vivemos, acho que é normal os consumidores de alguma substância, seja ela qual for, sintam isso em relação à polícia. Protegidos, nunca, não.” (I.P.) São também apontados episódios de violência por parte da polícia: “Um de nós (estávamos 7 pessoas) estava a fumar um charro. […]Levei dois socos que só não tombei para o lado porque sou grande e já levei muitos na vida e pronto, sei levar um soco.” (J.P.); “Aí está, levei no focinho da bófia lá em Paredes.” (V.C.). A representação que os entrevistados deste grupo apresentam de seguranças privados é também muito negativa – um dos entrevistados chega a referir-se a estes como “uma máfia”, referindo que são pessoas iminentemente violentas, pouco treinadas para resolver conflitos de forma pacífica. Note-se que estes seguranças são indivíduos que trabalham em contexto de diversão noturna, e não durante o dia, tendo por isso inevitavelmente que lidar com indivíduos alterados quer pelo álcool, quer pelas drogas. 52 4. Discussão Faupel (1991), introduzindo a sua obra, refere-se à condição de exclusão a que os consumidores de heroína são submetidos: “The lives of these individuals are in most ways no different from those of their friends and neighbors who do not use heroin. Many heroin addicts work at legitimate jobs. They have families. They enjoy many of the same types of recreational activities as those of us who do not use heroin. Yet the world of heroin use is quite segregated from the day-to-day lives of most Americans. Consequently, numerous stereotypes of heroin addiction have been cultivated, many of which bear little resemblance to the experience of most addicts” (Faupel, 1991, p. 16). A experiência da heroína, mais do que uma experiência física é, portanto, uma experiência social (Faupel, 1991). É interessante recordar, neste ponto, aquilo que um dos entrevistados do presente estudo aponta, a dada altura: aquelas substâncias cujos efeitos visíveis são facilmente confundidos com álcool são as que produzem menos estigmatização do consumidor, precisamente por este parecer estar sob o efeito de uma substância legal. Por outro lado, a figura do junkie, consumidor de heroína por excelência, é apontada pelos participantes como aquela que mais é estigmatizada e marginalizada. Assim, não é a intoxicação em si que produz segregação, mas sim a substância restrita, o “fruto proibido”. De facto, ao longo desta monografia foi possível inferir esta mesma conclusão: o estatuto diminuído dos consumidores de heroína prende-se não com as particularidades específicas desta substância, mas com as condições, ou o meio, que a rodeia – a heroína faz parte de um mundo social afastado da sociedade normativa, que constitui uma verdadeira subcultura com caraterísticas próprias. Faupel (1991) refere-se às condições em que é possível obter heroína, apontando-as como o principal fator para a estigmatização e marginalização dos seus consumidores: contrariamente a outras substâncias psicoativas (por exemplo, os medicamentos), a heroína apenas pode ser adquirida de um modo ilegal e em circuitos afastados da sociedade geral, algo que tem um profundo impacto na vida do consumidor. A imersão no submundo “da droga” afasta o consumidor cada vez mais dos circuitos normativos, remetendo-o para uma condição cada vez mais marginalizada e estigmatizada, algo que não acontece no caso, por exemplo, da dependência de álcool, uma droga legal (Faupel, 1991). Nas entrevistas conduzidas com consumidores e exconsumidores de heroína no âmbito da presente monografia foi referida várias vezes esta imersão na subcultura associada a esta droga, após a dependência estar instalada, mesmo por parte de utilizadores sem amigos ou conhecidos consumidores. Esta pertença é vista 53 como algo negativo – um dos participantes chama a este meio “A Liga dos últimos”, em tom depreciativo – por implicar uma diminuição do estatuto social: a pessoa deixa de ser “normal”, passando a ser “olhada de lado” e “tratada abaixo de cão”, inclusive por quem lhe vende o produto que vai consumir. Goffman (1988) aponta que uma das formas mais eficazes de lidar com um atributo potencialmente estigmatizante é o controlo da informação, que é conseguido através da divisão do mundo social em duas categorias: o grupo de pessoas que sabem do “segredo” (geralmente um grupo pequeno, da confiança do sujeito estigmatizado) e o resto do mundo social onde o estigmatizado se encontra inserido. Ao longo das entrevistas foi possível apurar, quer junto de consumidores problemáticos, quer de consumidores não problemáticos, que ocultar os consumos é algo encarado como absolutamente necessário para a manutenção de uma imagem pública favorável, utilizando os entrevistados esta mesma técnica de divisão do mundo social: o grupo de pessoas a quem o consumo de drogas é revelado é relativamente pequeno, sendo constituído essencialmente pela família nuclear e amigos mais próximos (no caso dos consumidores não problemáticos este grupo é um pouco mais alargado, algo que pode eventualmente denotar uma menor estigmatização). Thompson et al. (2003) apontam este mesmo dado numa amostra de dançarinas eróticas (topless dancers): as entrevistadas deste estudo dividem cuidadosamente o seu mundo social entre as pessoas que conhecem a sua profissão e as que não conhecem. Surge, entre as entrevistadas deste estudo, um efeito que também foi visível no discurso de alguns participantes: o efeito “nós versus eles”, havendo uma maior cumplicidade entre dançarinas e, no caso dos entrevistados no âmbito desta monografia, entre consumidores – é apontada várias vezes uma maior empatia para com outros consumidores de drogas. A imagem pessoal surge também como um elemento relevante no que concerne à estigmatização: como vimos nos resultados obtidos, a presença de determinados elementos visuais pode levar, por si só, à exclusão do indivíduo. No caso dos consumidores problemáticos, é apontada muitas vezes a visibilidade dos consumos: os efeitos ou “marcas” que a heroína deixa no consumidor são muitas vezes apontados como algo percetível a qualquer pessoa. Isto torna-se particularmente relevante se tivermos em conta que o consumo deste tipo de droga é profundamente estigmatizado: ao não ser possível esconder o consumo, o consumidor terá que lidar, obrigatoriamente, com as tensões do quotidiano, na definição de Goffman (1988). 54 5. Considerações finais Lipovetsky (1989), reportando-se ao vazio existencial dos tempos modernos, reinventa o mito de Narciso: este já não se encontra imobilizado diante da sua imagem fixa, não havendo já imagem, nem mais nada para além de uma interminável busca de si. A autoconsciência veio substituir a consciência de classe, a consciência narcísica veio substituir a consciência política – a auto absorção permite, através da desafecção da esfera pública, uma adaptação funcional ao isolamento social. O narcisismo dos tempos modernos produz também, segundo o autor, um vazio existencial: quanto mais se investe no Eu, maiores são as incertezas e as interrogações, tornando-se o Eu “um espelho vazio à força de “informações”, uma questão sem resposta” (Lipovetsky, 1989, p.53). A individualização seria, deste modo, não um dado a priori mas sim um processo contínuo de produção de si mesmo e de crescimento individual, transformando-se a personalização e a fundação do individualismo, por si só, numa ideologia. A individualização seria ainda uma luta contra a destruição do sujeito, acontecendo aquilo que Lipovetsky (1989) descreve como uma desestabilização das identidades sociais e da própria personalidade: tornar-se agente de si mesmo deve acontecer independentemente de todos os obstáculos, não sendo nunca uma meta definitivamente alcançada. É precisamente esta díade de construção versus destruição de si que se encontra presente nos consumos de drogas desde o séc. XIX, encontrando-se a toxicodependência e o cerne da sociedade democrática intimamente relacionados através da contradição estrutural entre o laço social e a liberdade de cada um. A toxicodependência poderá, deste modo, ser interpretada antropologicamente como uma tentativa de resolução das tensões e paradoxos associados ao exercício da liberdade moderna, sendo esta ao mesmo tempo fonte de criação e alienação para o indivíduo (Fatela, 1991, como citado em Tinoco, 2005). Ao definir, na “guerra contra as drogas”, o consumidor como alvo preferencial, iniciou-se um processo de estigmatização destes indivíduos que culminou na sua exclusão (Baratta, 1990). A forma como o “problema” das drogas é tratada a nível social possui uma enorme influência no modo como o consumo de substâncias é conceptualizado e, consequentemente, no modo como os consumidores são tratados. Vários autores têm vindo a apontar críticas a políticas repressivas face ao consumo de drogas, afirmando que esta postura proibicionista abarca mais custos do que benefícios em termos práticos. Baratta (1990) recorre a conceitos da sociologia moderna para explicar os processos através dos 55 quais a repressão do consumo de drogas produz a exclusão de quem o faz: o teorema de Thomas estabelece que, quando afirmamos repetidamente uma determinada representação da realidade, esta afirmação produz efeitos reais correspondentes. No caso da droga, a reação social criminalizante e marginalizante produziu, por si mesma, a realidade que a legitima – Kaminski (1990) aponta, a respeito deste fenómeno que “La toxicomanie est sa propre répression. Une boucle se referme telle un serpent qui se mord la queue” (Kaminski, 1990, p.195). A teoria de Robert Merton pode também ser aplicada ao caso das drogas: a representação da droga que se encontra na origem das políticas repressivas e que é utilizada pelos agentes morais na construção de um problema social associado à droga é, neste sentido, uma profecia que se auto cumpre, de acordo com o mecanismo proposto por Merton. O próprio consumidor acaba por corresponder fisicamente àquilo que acerca dele se profetizou: surgem sintomas de ansiedade, isolamento e mesmo perturbações de personalidade associadas ao uso de drogas – estes são apresentados como efeitos primários do uso de drogas quando, no fundo, constituem efeitos secundários deste mesmo uso, resultantes da sua criminalização (Baratta, 1990). Estes agentes morais seriam, de acordo com Bertrand (1986), diversos grupos de poder e/ou influência, apontando-os como os culpados da permanência de um modelo proibicionista face às drogas: a despenalização do consumo de drogas (não a descriminalização ou despenalização do tráfico de droga, mas a sua regulação das substâncias por parte do Estado, como acontece no caso das drogas legais – por exemplo, com o álcool) traria uma série de problemas aos interesses destes grupos. A classe médica deixaria de ser a única “responsável” pela administração de fármacos, vendo o seu poder diminuído; as entidades produtoras de drogas legais (sejam elas a indústria farmacêutica ou as companhias de tabaco, vinho e cerveja) teriam, muito possivelmente, prejuízos económicos; as forças policiais perderiam um pretexto para justificar a sua ação em prol da manutenção da “ordem social”. Assim, a toxicodependência é, acima de tudo, uma construção social, um discurso – para Kaminski (1990), os consumidores de drogas são pessoas que consomem drogas, ao passo que os toxicodependentes são uma reinterpretação destes últimos num campo puramente repressivo. Mais, a criminalização do cenário associado à toxicodependência serve um importante propósito: desvia as atenções de determinações estruturais de um malestar partilhado por todos nós – reconhece-se, no produto (droga), o mal e a causa deste mal (Kaminski, 1990). A droga transforma-se, por este meio, em bode expiatório do malestar social ou, como lhe chamou Fernandes (2009), num delator da erosão da norma. 56 Assim se torna compreensível a reprodução da figura do toxicodependente como doente: sacrifica-se o sujeito em prol da manutenção de uma ordem social – a sua “doença” é útil para explicar, por exemplo, a delinquência (em detrimento da pobreza e de outros fatores estruturais de maior dimensão) e legitima o seu “tratamento” (Kaminski, 1990). Daí que a prática clínica seja muitas vezes acusada de reproduzir este estatuto de enfermo do toxicodependente: muitas vezes, em vez de se tentar trabalhar no sentido de melhorar a condição social do indivíduo, trabalha-se precisamente no sentido contrário, ao reafirmar a sua “doença” (Cohen, 1990). Tal como Brochu (1997) aponta, a respeito desta questão, é preciso não cair na armadilha de uma solução exclusivamente médica dos problemas de toxicodependência: o potencial dependógeno de uma substância não pode medir-se unicamente pelos efeitos do consumo abusivo desta, devendo em vez disto ser compreendido como a combinação de um indivíduo excluído com uma droga num contexto de rutura social. Assim, e tendo em conta que as pessoas não vivem no vazio, é errado esperar qualquer tipo de resultado significativo com medidas que intervenham apenas a nível individual, tornando-se necessária a intervenção a nível social, uma vez que a sociedade, no seu conjunto, é parcialmente responsável pelo consumo abusivo de substâncias do sujeito. A pobreza, a exclusão, a desagregação da família, o desemprego estrutural (especialmente nos estratos sociais mais baixos e independentemente da escolaridade do indivíduo) são elementos que vêm afastar os elementos das classes mais desfavorecidas da sociedade “normal”. Uma consequência deste afastamento e da ausência de fontes de satisfação existencial que ele acarreta é, precisamente, a procura de um escape – como já se viu, a própria toxicodependência tem sido associada ao “vazio do Eu” que caracteriza o individualismo moderno. Na conceção de Brochu (1997) o consumo de drogas constitui precisamente um veículo de fuga a uma realidade injusta, pelo que a guerra que se tem travado contra as drogas deveria, ao invés disto, ser travada contra as desigualdades sociais e contra os fatores de exclusão que persistem na nossa sociedade. Numa investigação conduzida no East Harlem, em NovaYork, Phillipe Bourgois (1995) dedicou-se ao estudo das dinâmicas do tráfico de crack. Entre as conclusões que o autor aponta, uma das mais importantes é precisamente o facto de a exclusão social produzir, em contextos profundamente estigmatizados e marginalizados, uma maior adesão à economia paralela aumentando, por exemplo, o tráfico de drogas. No caso do East Harlem, a segregação racial, a pobreza, o desemprego estrutural, a ausência de apoio social à população – em suma, aquilo que o autor apelida de “exclusão do interior” (a classe 57 média/alta norte americana conseguiu, com sucesso, refugiar-se nos subúrbios das grandes cidades, deixando o centro da cidade entregue a estratos sociais mais baixos) – são a principal causa do desenvolvimento do mercado de crack. A venda de droga surge não só como uma forma de subsistência, por permitir contornar a pobreza extrema em que esta população vive, mas também como um meio de tentar recuperar um estatuto perdido: o patriarca da família (figura importante nas culturas hispânicas, predominantes no “El Barrio”) poderia, assim, ter de volta parte do seu papel social. Apesar da distância geográfica que nos separa do contexto estudado por Bourgois (1995), esta conclusão aplica-se à realidade portuguesa atual: ao excluir cada vez mais populações já de si marginalizadas, está-se a repercutir um ciclo de estigmatização e marginalização que conduz apenas a um agravamento de questões sociais como o consumo de drogas e a delinquência. No caso da amostra estudada nesta monografia, é apontada por todos os participantes (consumidores problemáticos e não problemáticos de drogas ilícitas) a enorme dificuldade de inserção no mercado de trabalho (por outras palavras: a rejeição, por parte das entidades empregadoras, destes indivíduos), uma vez conhecido o estatuto de consumidor, ou mesmo de ex-consumidor (no caso dos problemáticos). Ora, sendo esta dificuldade em grande parte devida à conjuntura económica atual – Portugal tem, atualmente, uma taxa de desemprego de 14,9% (www.agenciafinanceira.iol.pt/economia, em: 19/06/2012), esta prende-se também com o estigma que cada um destes consumidores carrega consigo, mesmo quando deixam de o ser e se tornam “ex-consumidores”. Este tipo de segregação, para além de incorreto, vai precisamente no sentido inverso da integração e da igualdade de oportunidades de acesso a indivíduos marcados por um estigma, quer social, quer individual (ou uma junção de ambos, no caso do consumo de drogas). Como nota final, gostaria de apontar que, embora a legislação atual em Portugal tenha já despenalizado o consumo de substâncias ilícitas, há ainda um caminho longo a percorrer no sentido da integração dos consumidores de drogas, particularmente dos consumidores de heroína e cocaína, mais excluídos e estigmatizados. É necessário um esforço na integração destes indivíduos, por exemplo, no mercado de trabalho, algo que se torna particularmente difícil com a conjuntura económica atual – para além do aumento do número de desempregados, a recente extinção do Instituto das Drogas e da Toxicodependência poderá ter implicações sérias no esforço integrativo (ou ausência deste) dos heroinómanos na “nossa” sociedade. Reafirmando aquilo que procurei transmitir nas páginas desta monografia, a problemática estudada – o estigma associado ao consumo de 64 Anexo 1: Guião da entrevista Perguntas iniciais/finais (Caracterização) 1. Que drogas já consumiu? 2. Qual a idade do primeiro consumo/primeira substância consumida? Grupo 1: 1. Qual/quais a/s substância/s que consome habitualmente? 2. Qual a regularidade com que as consome? 3. Qual a via de consumo? 4. Qual/quais o/s contexto/s onde costuma consumir? 5. Acha que consumir drogas pode discriminar as pessoas? 6. Que droga lhe parece discriminar mais as pessoas? Grupo 2: 1. A utilização da substância (experiência de consumo) tem sido positiva? 2. Lembra-se de alguma má experiência associada ao seu consumo? 3. O que é que o consumo trouxe à sua vida? Grupo 3 (ESTIGMA): 1. Lembra-se de um episódio em que tenha sido maltratado por consumir drogas? 2. Como se sente quando vai a uma entrevista de emprego? 3. Como se sente quando se dirige ao centro de saúde ou outro estabelecimento deste género? 4. Sente que ocultar o consumo de drogas é vantajoso em algumas situações? Se sim, quais? Grupo 4 (MANIPULAÇÃO DA IDENTIDADE DETERIORADA): 1. Como é que lida publicamente com o consumo de drogas? 2. Sente que é tratado de forma diferente por consumir drogas? 3. Considera que as pessoas percebem que consome drogas? 3.1) A sua família tem conhecimento dos consumos que faz? 3.2) No seu trabalho sabem que consome? Como lida/lidou com a situação? 65 4. Sente-se mais seguro na presença de um polícia ou segurança (agentes da autoridade em geral)? 4.1) Alguma vez sentiu que a autoridade o tratou mal por consumir drogas? 4.2) Lembra-se de um episódio específico que tenha sido maltratado por consumir drogas? 66 Anexo 2: Grelha de análise de conteúdo Categorias Subcategorias Indicadores Experiência de consumo (E) Experiências corporais (Ec) Experiências pessoais relacionadas com a vivência dos efeitos da droga a nível corporal. Referências a alterações sensoriais (ex. dormência) ou orgânicas (ex. vomitar) decorrentes do uso de drogas. Experiências psicológicas (Ep) Experiências pessoais relacionadas com a alteração de processos psicológicos decorrentes da utilização de drogas. Referências a alterações de consciência, experiências percetivas, compreensão de fenómenos, interpretação do discurso de terceiros, experiências do foro emocional decorrentes do uso de drogas. Consequências do consumo (C) Plano pessoal (Cp) Consequências do consumo a nível pessoal. Referências ao impacto que a experiência do consumo teve na vida pessoal, a nível individual. Ex.: consequências a nível da saúde física. Plano interpessoal (Ci) Consequências do consumo a nível interpessoal. Referências ao impacto que a experiência do consumo teve na relação com os outros. Ex.: consequências do consumo na vida familiar. Estigma (ES) Noções gerais de estigma (ESn) Referências à estigmatização decorrente do uso de drogas em situações genéricas, isto é, que não se refiram à experiência vivida (individual ou em grupo), mas antes a situações hipotéticas – por exemplo: “Uma pessoa que consome drogas é mal vista”. 67 Acontecimentos individuais (ESi) Episódios em que a pessoa se encontrava isolada e sentiu que foi alvo de maus tratos. Acontecimentos em grupo (ESg) Episódios em que a pessoa estava em grupo e sentiu que foi alvo de maus tratos. Drogas consumidas (ESd) Quando o estigma é associado diretamente a uma droga específica. Espaços (ESe) Contextos/espaços físicos associados ao malestar, i.e., onde a pessoa sentiu que foi maltratada. Manipulação da identidade deteriorada (M) Gestão da informação pessoal (Mg) Revelação ou encobrimento dos consumos. Imagem pessoal (Mi) Auto e hétero perceção: forma como se vê e perceção daquilo que os outros pensam de si (forma como considera que os outros o/a vêm). Relação com figuras de autoridade (Mr) Forma como se sente na presença da autoridade e modo como interage com agentes da autoridade.