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Suporte social e individuação em jovens de diferentes configurações familiares

Ana Raquel Silva,Olga Melo,Catarina Pinheiro Mota

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ISSN 1413-389X Trends in Psychology / Temas em Psicologia – 2016, Vol. 24, nº 4, 1311-1327 DOI: 10.9788/TP2016.4-07 Suporte Social e Individuação em Jovens de Diferentes Confi gurações Familiares Ana Raquel Silva1 Olga Melo Catarina Pinheiro Mota Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal Centro de Psicologia da Universidade do Porto, Porto, Portugal Resumo O estabelecimento de laços com a família, amigos ou mesmo professores é crucial para o desenvolvimento dos adolescentes e jovens adultos. Uma individuação bem-sucedida na adolescência implica qualidade de relação. O presente estudo tem como objetivo analisar as diferenças na percepção do suporte social e processo de individuação em função da confi guração familiar, bem como analisar o poder preditor da confi guração familiar, do gênero, da idade e da percepção do suporte social dos jovens no processo de individuação. A amostra foi constituída por 827 jovens a frequentarem o ensino secundário e universitário, com idades entre os 13 e os 25 anos. A coleta de dados foi realizada no Norte de Portugal, mediante questionários de auto-relato: Social Support Appraisals (SSA) e Munich Individuation Test of Adolescence (MITA). Os resultados mostraram que jovens de famílias intactas apresentavam uma individuação mais bem-sucedida comparativamente com jovens de famílias divorciadas, e ainda evidenciaram o poder preditor da percepção do suporte da família no desenvolvimento da individuação. Neste sentido, verifi cou-se a importância da confi guração e do suporte familiar para uma individuação bem-sucedida. Palavras-chave: Suporte social, individuação, divórcio. Social Support and Young People Individuation in Different Family Confi gurations Abstract The establishment of bonds with family, friends or teachers is crucial to the development of adolescents and young adults. A successful individuation in adolescence involves the quality of relationships. This study aims to analyze the differences in the perception of social support and individuation process according to the family setting and to analyze the predictive power of family structure, gender, age and perceived social support of young people in the process of individuation. The sample consisted of 827 young people to attend secondary school and university, aged between 13 and 25 years. The data collection was carried in northern Portugal, through self-report questionnaires: Social Support Appraisals 1 Endereço para correspondência: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Departamento de Educação e Psicologia, Edifício do Complexo Pedagógico, Quinta dos Prados, Vila Real, Portugal 5001-801. E-mail: [email protected], [email protected] e [email protected] Esta investigação foi parcialmente suportada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT através do projecto: PEst-C/PSI/UI0050/2011 e ainda pelos fundos FEDER através do programa COMPETE com a referência: FCOMP-01-0124-FEDER-022714. Silva, A. R., Melo, O., Mota, C. P. 1312 (SSA) and Munich Individuation Test of Adolescence (MITA). The results showed that young peole of intact families had a more successful individuation compared to young people from divorced families, and showed the predictive power of family support perception in the development of individuation. In this sense, this study showed the importance of setting and family support to a successful individuation. Keywords: Social support, individuation, divorce. El Apoyo Social y la Individuación en Jóvenes de Distintas Confi guraciones Familiares Resumen El establecimiento de vínculos con la familia, amigos o profesores es crucial para el desarrollo de los adolescentes y adultos jóvenes. El éxito del proceso de individuación en la adolescencia implica calidad en las relaciones. Este estudio tiene como objetivo analizar las diferencias en la percepción de apoyo social y el proceso de individuación de acuerdo con el entorno familiar y analizar la capacidad de predicción de la estructura familiar, el género, la edad y el apoyo social percibido de los jóvenes en el proceso de individuación. La muestra consistió en 827 jóvenes que asisten a la escuela secundaria y la universidad, con edades comprendidas entre 13 y 25 años. La recolección de datos se realizó en el norte de Portugal, a través de cuestionarios de autoinforme: Social Support Appraisals (SSA) e Munich Individuation Test of Adolescence (MITA). Los resultados mostraron que los jóvenes de familias intactas tenían una mejor individuación en comparación con los jóvenes de familias divorciadas, y mostraron el poder predictivo de la percepción de apoyo familiar en el desarrollo de la individuación. En este sentido, este estudio demostró la importancia del entorno y del apoyo familiar en el éxito del proceso de individuación de los jóvenes. Palabras clave: Apoyo social, individuación, divorcio. A percepção do suporte social implica uma avaliação global que envolve as várias áreas sociais da vida do indivíduo. Dessa avaliação pode resultar a crença de que se é amado (Heller, Swindle, & Dusenbury, 1986). Coob (1976) defi ne suporte social em três classes: a primeira refere-se à percepção que o sujeito tem de que é amado e que recebe a preocupação por parte dos outros, a segunda diz respeito à crença que o sujeito tem de que é apreciado e valorizado, e a terceira reporta ao sentimento de pertença a uma rede de comunicação e de obrigações mútuas. Antunes e Fontaine (1995) referem que o desenvolvimento de uma rede social ocorre ao longo da vida de cada indivíduo, sendo que este infl uencia e é infl uenciado pelo contexto e o meio social. Contudo, mais importante do que o apoio social efetivo que cada indivíduo recebe é a percepção que realiza do mesmo (Antunes & Fontaine, 2005). As redes sociais e o apoio social são importantes fatores num período de desenvolvimento como a adolescência, onde ocorre um aumento das redes sociais, podendo o apoio e a infl uência dessas redes variar ao longo do tempo (Antunes & Fontaine, 2005). O estudo de Hombrados-Mendieta, Gomez-Jacinto, Dominguez-Fuentes, Garcia-Leiva, e Castro-Travé (2012) com 447 adolescentes com idades entre os 12 e os 18 anos, analisou as diferenças existentes entre os vários sistemas de suporte social, distinguindo entre o suporte fornecido pela família e pela escola. Os autores constataram que na adolescência há uma tendência para a diminuição da percepção de suporte dos pais e aumento da percepção de suporte dos colegas de escola. Para Furman (2001) as relações de amizade, apesar de não funcionarem como bases seguras de vinculação, funcionam como “fi guras de afi liação”, onde à semelhança da vinculação a afi liação é descrita como um sistema de comportamentos que proporciona ao indivíduo relações de suporte, proteção, cooperação, mutualidade e reciprocidade. No decorrer da construção da Suporte Social e Individuação em Jovens de Diferentes Confi gurações Familiares. 1313 identidade surge um maior recurso ao suporte dos pares, onde se evidencia uma maior interação social que vai para além da família (Sérgio, 2006). Assim, verifi ca-se que tanto a ligação com a família, como com os pares, e ainda com os professores, também eles vistos como importante fonte de suporte social (Antunes 2006), são revelantes na autovalorização do adolescente, bem como no desenvolvimento de processos de separação e autonomia mais ou menos saudáveis. Segundo Meeus, Iedema, Maassen e Engels (2005), a separação entre fi lhos e pais e a individuação são dois processos desenvolvimentais que ocorrem em paralelo durante a adolescência, não se tratando, portanto, a separação como uma pré-condição para a individuação. Apesar da origem do termo individuação ter surgido com Margret Mahler, em 1930 (Mahler, Pine, & Bergman, 1975), foi Blos (1967) que clarifi cou o conceito de segunda individuação, que ocorre na adolescência. Sendo que é nesta fase que o adolescente ganha determinadas competências, nomeadamente, ao nível da sua autonomia, havendo uma separação mútua relativamente aos pais. Dentro do conceito de individuação na adolescência, Blos (1967) refere a importância de dois fenômenos, nomeadamente, a perda da dependência emocional e afetividade familiar e a mudança das relações objetais que se direcionavam para os pais e agora estão mais voltadas para os pares. A individuação na adolescência caracteriza-se pelo esforço dos adolescentes em alcançar a autonomia e o ato dos pais concederem liberdade aos fi lhos, sendo para isso necessário abdicarem do controle para lhes proporcionar essa mesma autonomia, o que, por vezes, causa afastamento entre pais e fi lhos. Este fato pode difi cultar o processo de individuação, pois o apoio dos pais para a aquisição de autonomia é fundamental (Walper, Kruse, Noack, & Schwarz, 2009). Todos os desejos inerentes ao processo de individuação (desejo pela autonomia, desejo de “ser adulto” e desejo de explorar) fazemse acompanhar de um sentimento de medo em enfrentar a novidade. Assim, torna-se importante realçar neste ponto a importância da qualidade da relação parental com os fi lhos para que este processo se desenvolva de modo a permitir ao jovem sentir-se sufi cientemente seguro para explorar o meio, tornando-se mais autônomo e poder construir a sua identidade (Fleming, 2005). A presente investigação pretende ir além do período da adolescência e alcançar o início da vida adulta, que Arnett (2007) designa como a adultez emergente que ronda os 18 e os 25 anos cronológicos. Também nesta fase o processo de individuação se desenvolve, merecendo um olhar atento de autores como Arnett (2006) e Bynner (2005) que consideram que o mesmo difere em função de fatores contextuais que rodeiam os jovens. Existem alguns fatores passíveis de interferir no desenvolvimento da autonomia nos adolescentes e jovens adultos, como as descontinuidades emocionais. O divórcio parental é uma das muitas situações que podem afetar o desenvolvimento que acompanha a adolescência e a fase inicial da vida adulta, realçando- -se, o processo de individuação. Freeman e Newland (2002) apontam que em situação de divórcio existe uma tendência para os adolescentes desenvolverem uma prematura independência face à família de uma das fi guras parentais, o que pode prejudicar de forma signifi cativa o desenvolvimento da individuação. Storksen, Roysamb, Moum e Tambs (2005) referem que crianças cujos pais atravessam um divórcio têm um maior risco de vir a ter problemas de adaptação durante a infância, a adolescência e até mesmo na vida adulta. Segundo Amato (2000), os fi lhos de famílias que sofrem um divórcio podem desenvolver mais difi culdades no envolvimento social. Contudo, de acordo com Amato e Cheadle (2008) esta ideia não pode ser generalizável, dado que nem todas as crianças expostas a situação de divórcio ou confl itos parentais desenvolvem problemas. Logo, tal como apontam Souza e Ramires (2006), não é possível afi rmar uma relação de causa-efeito entre o divórcio e consequências negativas. Pelo contrário, é importante compreender toda a multiplicidade e complexidade de fatores envolvidos no processo de desenvol- Silva, A. R., Melo, O., Mota, C. P. 1314 vimento, podendo assumir contornos mais ou menos adaptativos. A separação parental é uma situação que pode envolver um número considerável de indutores de stress nos membros da família, principalmente nos primeiros dois anos, onde decorrem as primeiras transformações no que diz respeito às rotinas, residência e confi guração familiar (Amato & Anthony, 2014). Dadas as experiências inerentes a esta situação, como os confl itos interparentais e separações, Amato e Dorius (2010) sugerem a possibilidade de os fi lhos desenvolverem uma série de problemas no decorrer das suas vidas. Os mesmos autores apontam que fi lhos de pais divorciados tendem a apresentar mais difi culdades no campo emocional, comportamental, social, saúde e acadêmico. Outra das consequências do divórcio dos pais é o afastamento entre os fi lhos e umas das fi guras parentais, geralmente o pai, contudo importa referir que esta tendência tem vindo a diminuir, sendo que a frequência de contacto entre pais divorciados, que não possuem a tutela dos menores, e fi lhos tem vindo a aumentar nos últimos anos (Amato & Dorius, 2010). Uma separação entre as fi guras parentais implica muitas vezes mudanças de estilos de vida, de local de residência e mudança de meio envolvente, que podem constituir fatores stressantes para os fi - lhos (Amato, 2000). Ao longo do processo de divórcio é comum a procura de suporte junto do grupo de pares (Moura & Matos, 2008), funcionando como um porto seguro para os adolescentes e jovens adultos, o que não substitui a relação de vínculo com os pais. O grupo de pares pode proporcionar aos jovens que atravessam um processo de divórcio parental apoio físico e social, permitindo-lhes deste modo um melhor desenvolvimento do processo de individuação (Fleming, 2005). Ainda assim, a qualidade da vinculação aos pais é relevante para o bem-estar dos fi lhos numa situação de divórcio (Ramires, 2004), o que evidencia a importância da vinculação em detrimento do tipo de confi - guração familiar para o desenvolvimento dos adolescentes e jovens. Hack e Ramires (2010) ressaltam também a importância da qualidade da relação entre pais e fi lhos e a manutenção da mesma durante e após o divórcio. Freeman e Newland (2002) acrescentam a importância de realizar uma gestão entre a manutenção da relação com os pais e o alcance da autonomia, própria da individuação. Para além do tipo de confi guração familiar, também o sexo e a idade dos adolescentes e jovens pode se associar à existência de diferenças no desenvolvimento das suas relações, na perceção do suporte social e autonomia. A literatura aponta maioritariamente, que são as meninas que apresentam maior percepção de suporte social comparativamente com os meninos. Um estudo de Ikiz e Cakar (2010) com uma amostra de 257 adolescentes mostra que são as meninas que apresentam maior percepção do suporte social dos amigos comparativamente com os rapazes. Outros estudos sobre gênero e suporte social (Pinheiro & Ferreira, 2005; Ramalho, 2008) obtiveram resultados semelhantes, evidenciando que as meninas possuem maior suporte social da família e dos amigos comparativamente com o sexo masculino. Antunes e Fontaine (2005), numa análise das qualidades psicométricas da Escala de Percepção do Suporte Social com 1963 estudantes do 7º ao 12º ano, evidenciaram que as meninas e os jovens mais velhos apresentavam em geral níveis mais elevados de suporte social, comparativamente com jovens mais novos e do sexo masculino. O que vai ao encontro também do estudo de Ramalho (2008) com 200 indivíduos entre os 18 e os 25 anos, que, da mesma forma, constatou que são os jovens mais velhos que possuem maior perceção do suporte social. Beato (2008) no seu estudo com 200 elementos, com idades entre os 17 e os 21 anos, aponta para a tendência dos rapazes apresentarem uma menor expressão afetiva em várias áreas da vida afetiva, sendo mais retractivos e menos envolvidos afetivamente. Para o mesmo autor esta falta de expressividade poderá estar relacionada com as práticas educativas orientadas para o valor próprio e não para as relações com os outros (Beato, 2008), o que poderá traduzir processos de individuação mais bem-sucedidos pelas meninas. Com o presente estudo pretende-se analisar as diferenças na percepção do suporte social e Suporte Social e Individuação em Jovens de Diferentes Confi gurações Familiares. 1315 processo de individuação em função da confi guração familiar, bem como analisar o poder preditor da confi guração familiar, do gênero, da idade e da percepção do suporte social dos jovens no processo de individuação. Método Participantes A presente amostra foi constituída por 827 adolescentes e jovens adultos portugueses, sendo 253 (30,6%) do sexo masculino e 574 (69,4%) do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 13 e os 25 anos (M = 17,17; DP = ±3,28). No que se refere ao nível de escolaridade 296 (35,8%) sujeitos frequentam o 3º ciclo (ensino fundamental no 7º, 8º e 9º ano, no Brasil), 213 (25,8%) frequentam o ensino secundário (ensino médio, no Brasil) e 318 (38,5%) frequentam o ensino superior (M=10,70; DP= ±2,14). No que respeita à confi guração familiar da amostra 574 (69,4%) jovens pertencem a famílias intactas, cujos pais estavam casados ou em união de fato (união estável, no Brasil), 245 (29,6%) jovens pertencem a famílias divorciadas, cujos pais estavam divorciados ou separados e 8 (1%) jovens em que os pais são viúvos ou solteiros. Instrumentos Foi elaborado um questionário sociodemográfi co com vista à recolha de informação referente a dados sociodemográfi cos, nomeadamente, idade, sexo, ano de escolaridade, escola ou universidade que frequenta e confi guração do agregado familiar. Para avaliar a variável suporte social foi utilizada uma adaptação da Escala “Social Support Appraisals” (SSA), de Vaux e colaboradores (1980), realizada por Antunes e Fontaine (1995). A presente escala avalia a percepção do apoio social dos adolescentes a quatro níveis, nomeadamente, o apoio emocional dos amigos com 7 itens, por exemplo, “os meus amigos respeitam-me”, o apoio emocional da família com 8 itens, por exemplo, “a minha família estima-me muito”, o apoio emocional geral com 8 itens, por exemplo, “as pessoas, de um modo geral, gostam de mim”, e ainda, o apoio emocional dos professores com 8 itens, por exemplo, “tenho professores que se preocupam bastante comigo”, concluindo-se um total de 30 itens na versão portuguesa depois de alargada, onde foi acrescentada a sub-escala apoio emocional dos professores com 8 itens. Trata-se de uma escala que avalia em 4 pontos (“concordo totalmente”, “concordo”, “discordo”, “discordo totalmente”), devendo-se ter em consideração que metade dos seus itens são positivos e outra metade negativos. Relativamente às suas propriedades psicométricas a escala apresenta um bom poder discriminativo e uma boa consistência interna global (α =0,91; Antunes & Fontaine, 1995). Na presente amostra foram encontrados os seguintes valores de consistência interna, para a dimensão amigos 0,85, para a dimensão família 0,88, para a dimensão professor 0,82 e para a dimensão geral 0,64, sendo o valor de consistência interna da escala completa de 0,89. A análise fatorial confi rmatória à escala SSA demonstra que esta apresenta um ajustamento adequado 2(44) = 321,02, p=0,001; CFI=0,94, RMSEA=0,09; (S) RMR=0,05. Para medir o processo de individuação utilizou-se o Munich Individuation Test of Adolescence (MITA) de Walper, Schwarz, e Jurasic (1996), nomeadamente a versão de investigação de Matos e Hüsgen (2009) para a população portuguesa. A escala referida encontra-se dividida de igual forma para o adolescente avaliar a mãe e o pai e é constituída por 27 itens, agrupados em 6 dimensões: manutenção do laço, negação do desejo de ligação, individuação bem sucedida, ansiedade de fusão e medo de controle, medo da perda de amor e ambivalência. Os três primeiros dizem respeito ao relacionamento e os três últimos às inseguranças em relação aos pais (Kruse & Walper, 2008). É de referir que na presente investigação serão utilizadas apenas três dimensões que dizem respeito ao relacionamento (“relatedness”): manutenção do laço com 3 itens, por exemplo, “gostaria de viver coisas em conjunto com os meus pais”, negação do desejo de ligação com 5 itens, por exemplo, “fi co inseguro(a) quando temos opiniões diferentes” e individuação bem-sucedida com 4 itens, por exemplo, “os meus pais continuam a ser impor- Silva, A. R., Melo, O., Mota, C. P. 1316 tantes para mim, apesar de eu seguir os meus próprios interesses”. De acordo com Kruse e Walper (2008) as escalas mostram consistência interna adequada que varia de alfa de Cronbach α = 0,65 a α = 0,84. Na presente amostra foram encontrados os seguintes valores de consistência interna para as dimensões referentes à mãe: manutenção do laço 0,69, negação do desejo de ligação 0,67 e individuação bem-sucedida 0,77. No que respeita ao pai, obtivemos os seguintes valores de consistência interna: manutenção do laço 0,77, negação do desejo de ligação 0,65 e individuação bem-sucedida 0,85. A análise fatorial confi rmatória à versão Mãe da escala MITA demonstra que esta apresenta um ajustamento adequado 2(17) = 35,73, p= 0,005; CFI=0,98; RMSEA=0,03; (S)RMR=0,04. No que respeita à versão Pai verifi ca-se que também apresenta um ajustamento adequado 2(17) = 98,65, p= 0,001; CFI=0,97; RMSEA=0,05; (S) RMR=0,08. Procedimentos Coleta de Dados. A presente investigação de natureza transversal realizou uma coleta de forma aleatória no Norte de Portugal em instituições como Escolas Secundárias e Escolas Profi ssionais em turmas do 7º ao 12º ano, e ainda na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e em população do Norte de Portugal, tratando- -se de uma amostra de conveniência. A coleta de dados, através da administração do protocolo, foi realizada, após a devida autorização e consentimento informado dos representantes das instituições e dos participantes. Durante a coleta de dados a equipe de investigação procedeu ao fornecimento de uma instrução padrão, que esclareceu os objetivos e a fi nalidade do estudo. Todas as questões éticas foram garantidas, como a confi dencialidade, anonimato e voluntariedade da participação. Análise de Dados. Os dados foram analisados com recurso ao programa estatístico Satistical Package for the Social Sciences, versão 22. Procedeu-se à limpeza dos dados (missings e outliers) e ainda à análise das propriedades psicométricas, como a confi rmação da normalidade da amostra, bem como consistência interna e análises fatoriais confi rmatórias dos instrumentos. Para a obtenção dos resultados procedeu-se a análises estatísticas recorrendo às análises de variância entre grupos através do test-t e análises de regressão múltipla hierárquica. Resultados Percepção do Suporte Social e do Processo de Individuação em Função da Confi guração Familiar Ao comparar as dimensões da percepção do suporte social em função da confi guração familiar, foi possível inferir que não existem diferenças signifi cativas entre jovens de famílias intactas e divorciadas nas dimensões amigos, professor e geral, enquanto na dimensão família ocorrem diferenças signifi cativas entre jovens de diferentes confi gurações familiares, sendo que os jovens pertencentes a famílias intactas apresentam níveis superiores de percepção do suporte familiar comparativamente com os jovens de famílias divorciadas (Tabela 1). No que concerne à presença de diferenças signifi cativas ao nível do processo de individuação em função da confi guração familiar (jovens de famílias intactas e divorciadas) realizaram-se análises diferenciais para mãe e pai separadamente. Relativamente à análise do processo de individuação à mãe, na dimensão manutenção do laço à mãe verifi ca-se que existem diferenças signifi cativas entre os jovens de famílias intactas e divorciadas, denotando-se que os jovens de famílias intactas apresentam maior manutenção do laço com a mãe comparativamente aos jovens de famílias divorciadas. Na dimensão negação do desejo de ligação à mãe denota-se a existência de diferenças, sendo que os jovens que pertencem a famílias divorciadas apresentam maior negação do desejo de ligação em relação à mãe comparativamente com os jovens de famílias intactas. Analisando a individuação bem-sucedida à mãe evidenciam-se diferenças signifi cativas, sendo que maiores níveis de individuação bem-sucedida à mãe pertencem aos jovens que têm uma estrutura familiar intacta comparando com os jovens de famílias divorciadas (Tabela 1). Suporte Social e Individuação em Jovens de Diferentes Confi gurações Familiares. 1317 No que respeita ao processo de individuação direcionado ao pai foi também possível verifi car diferenças signifi cativas. Na manutenção do laço ao pai verifi ca-se que os dois grupos de jovens apresentam diferenças signifi cativas, denotando-se que os níveis mais altos pertencem aos jovens de famílias intactas comparativamente com os jovens de famílias divorciadas. Analisando a negação do desejo de ligação ao pai denota-se que do mesmo modo existem diferenças signifi cativas entre grupos, sendo que são os jovens de famílias divorciadas que apresentam níveis superiores aos jovens de famílias intactas. Finalmente, analisando a individuação bem-sucedida em relação ao pai, verifi ca-se que também existem diferenças signifi cativas nas médias entre grupos, verifi cando-se que são os jovens de famílias intactas que apresentam níveis superiores de individuação bem-sucedida ao pai comparando com os jovens de famílias divorciadas. Predição do Processo de Individuação: Papel do Sexo, Confi guração Familiar, Idade e Percepção do Suporte Social Para analisar o poder preditor das variáveis sexo, confi guração familiar, idade e da percepção do suporte social no processo de individuação recorreu-se à análise de regressão múltipla hierárquica. No que respeita às variáveis sexo, confi guração familiar e idade foram criadas variáveis dummys. Predição da Manutenção do Laço à Mãe e ao Pai. Analisando os resultados verifi ca-se que o modelo da dimensão manutenção do laço à mãe pode ser predito signifi cativamente por algumas das variáveis independentes introduzidas. Neste sentido o sexo (bloco 1) tem um contributo signifi cativo F(1, 821)=4,39; p=0,037, explicando 0,5% da variância total (R2=0,005), contribuindo individualmente com 0,5% da variância para o modelo (R2change=0,005). No Tabela 1 Diferenciação da Percepção do Suporte Social e Processo de Individuação em Função da Confi guração Familiar Dimensões 1-Família Intacta 2-Família Divorciada 95% IC tp (n=574) (n=245) M±DP M±DP SSA Amigos 4,94±0,75 4,92±0,79 [-0,09; 0,14] t(81) =0,36 0,716 Família 5,23±0,73 4,89±0,97 [0,23; 0,47] t(366)=5,06 0,001 Professor 4,00±0,86 3,95±0,98 [-0,09; 0,19] t(414)=0,74 0,459 Geral 4,37±0,58 4,30±0,66 [-0,03; 0,16] t(410)=1,35 0,179 MITA MÃE Manutenção do Laço 3,33±0,56 3,14±0,78 [0,09; 0,30] t(356)=3,54 0,001 Negação do Desejo de Ligação 1,83±0,56 1,98±0,64 [-0,24; -0,05] t(415)=-3,07 0,002 Individuação bem sucedida 3,54±0,46 3,35±0,72 [0,08; 0,28] t(332)=3,64 0,002 MITA PAI Manutenção do Laço 3,29±0,61 2,78±0,96 [0,38; 0,64] t(330)=7,67 0,001 Negação do Desejo de Ligação 1,88±0,58 2,18±0,67 [-0,39; -0,20] t(404)=-6,06 0,001 Individuação bem sucedida 3,45±5,29 2,92±0,97 [0,39; 0,66] t(308)=8,06 0,001 Nota. SSAescala da percepção do suporte social; MITAMunich Individuation Test of Adolescence. Silva, A. R., Melo, O., Mota, C. P. 1318 bloco 2, surge a confi guração familiar que também contribui signifi cativamente para a variância do modelo F(2, 820)=9,66; p=0,001 e explica 2,3% da variância total (R2=0,023), apresentando um contributo individual de 1,8% (R2change=0,018). Também a percepção do suporte social (bloco 4) contribui signifi cativamente para o modelo F(7, 815)=14,11; p=0,001 e explica 10,8% da variância total (R2=0,108), apresentando um contributo individual de 8,4% (R2change=0,084). Realizando uma análise mais pormenorizada de cada variável independente verifi ca-se que o modelo da variável manutenção do laço à mãe recebe uma contribuição signifi cativa de três variáveis que explicam 10,8% do modelo. As variáveis são as apresentadas por ordem de importância: percepção do suporte da família (β=0,297; p=0,001); famílias intactas (β=- 0,075; p=0,029); e percepção do suporte do professor (β=0,073; p=0,046; Tabela 2). Tabela 2 Regressões Múltiplas Hierárquicas para Processo de Individuação Manutenção do laço à mãe R2R2 Change BSE βtp Bloco 1Sexo 0,005 0,005 Bloco 2 - Confi guração f. 0,023 0,018 -0,104 0,048 -0,075 2,187 0,029 Bloco 3 – Idade 0,024 0,001 Bloco 4 – SSA 0,108 0,084 Amigos Família 0,233 0,032 0,297 7,189 0,001 Professor 0,053 0,026 0,073 1,999 0,046 Geral Manutenção do laço ao pai R2R2 Change BSE βtp Bloco 1 - Sexo 0,001 0,001 Bloco 2 - Confi guração f. 0,086 0,085 -0,417 0,056 -0,251 7,477 0,001 Bloco 3 – Idade 0,086 0,000 Bloco 4 – SSA 0,132 0,046 Amigos Família 0,222 0,038 0,237 5,819 0,001 Professor Geral Negação do desejo de ligação à mãe R2R2 Change BSE βtp Bloco 1 – Sexo 0,068 0,068 0,251 0,042 0,196 6,020 0,001 Bloco 2 - Confi guração f. 0,077 0,074 Bloco 3 – Idade 0,082 0,005 -0,084 0,040 -0,068 2,066 0,039 Bloco 4 – SSA 0,179 0,097 Amigos Família -0,251 0,028 -0,349 8,809 0,001 Professor Geral 0,137 0,043 0,140 3,178 0,002 Suporte Social e Individuação em Jovens de Diferentes Confi gurações Familiares. 1319 Negação do desejo de ligação ao pai R2R2 Change BSE βtp Bloco 1 – Sexo 0,048 0,048 0,213 0,044 0,158 4,826 0,001 Bloco 2 - Confi guração f. 0,093 0,045 0,209 0,044 0,155 4,723 0,001 Bloco 3 – Idade 0,094 0,002 Bloco 4 – SSA 0,169 0,074 Amigos Família -0,235 0,030 -0,310 7,779 0,001 Professor Geral 0,125 0,046 0,122 2,747 0,006 Individuação bem-sucedida à mãe R2R2 Change BSE βtp Bloco 1 – Sexo 0,011 0,011 Bloco 2 - Confi guração f. 0,031 0,020 -0,085 0,040 -0,070 2,145 0,032 Bloco 3 – Idade 0,034 0,004 Bloco 4 – SSA 0,180 0,145 Amigos Família 0,232 0,027 0,340 8,600 0,001 Professor Geral Individuação bem-sucedida ao pai R2R2 Change BSE βtp Bloco 1 – Sexo 0,000 0,000 Bloco 2 - Confi guração f. 0,109 0,108 -0,441 0,051 -0,280 8,575 0,001 Bloco 3 – Idade 0,109 0,000 Bloco 4 – SSA 0,183 0,075 Amigos Família 0,243 0,035 0,274 6,935 0,001 Professor Geral Nota. B, SE para um nível de signifi cância de p <0,05; Bloco 1Sexo; Bloco 2Confi guração Familiar; Bloco 3 – Idade; Bloco 4Dimensões da percepção do suporte social (SSA). Relativamente à dimensão manutenção do laço ao pai verifi ca-se que a confi guração familiar (bloco 2) contribui signifi cativamente para a variância do modelo F(2, 820)=38,38; p=0,001, explicando 8,6% da variância total (R2=0,086), e apresentando um contributo individual de 8,5% (R2change=0,085). Também a percepção do suporte social contribui signifi cativamente para o modelo F(7, 815)=17,66; p=0,001 e explica 13,2% da variância total (R2=0,132), apresentando um contributo individual de 4,6% (R2change=0,046). Através de uma análise mais aprofundadamente de cada variável independente verifi ca-se que o modelo da variável manutenção do laço ao pai recebe uma contribuição signifi cativa de duas variáveis que explicam 13,2% da variância do modelo. Assim, a confi - guração familiar – famílias casadas contribui de Silva, A. 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