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Novas competências no jornalismo televisivo: entre a academia e a primeira experiência profissional

Rogado, Ana Rita Neves

Abstract

A presente dissertação tem como objetivo analisar a relação entre os planos curriculares dos mestrados em jornalismo em Portugal e as exigências das redações de televisão. Nesse sentido, parte-se da hipótese que os planos curriculares dos cursos de segundo ciclo não são adequados às redações. Para testar a hipótese, utiliza-se uma metodologia mista, através de análise de conteúdo aos planos curriculares dos mestrados identificados na área de jornalismo; inquérito por questionário a alunos que tenham mestrado em jornalismo e tenham estagiário em televisão; entrevistas semiestruturadas a coordenadores de estagiários e a coordenadores de mestrados e ainda uma entrevista ao jornalista e professor universitário Pedro Coelho. A hipótese formulada é confirmada, uma vez que há mestrados no ramo de jornalismo sem seminários dedicados a televisão, os coordenadores de estagiários defendem que os alunos chegam às redações pouco preparados para o mercado de trabalho e coordenadores de mestrados identificam as lacunas em relação ao jornalismo televisivo nos planos curriculares do mestrado.

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Maio, 2019 Novas competências no jornalismo televisivo: Entre a academia e a primeira experiência profissional Ana Rita Neves Rogado Dissertação de Mestrado em Jornalismo Ana Rita Rogado, Novas Competências no Jornalismo Televisivo: Entre a academia e a primeira experiência profissional 2 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Jornalismo, realizada sob orientação científica da Professora Dora Santos Silva. 3 Aos meus pais 4 AGRADECIMENTOS À minha orientadora, a professora Dora Santos Silva, pelo apoio, incentivo e disponibilidade. Por ter acreditado em mim quando eu não acreditei. Ao professor António Granado, por ser uma referência. Ao professor Pedro Coelho, que despertou em mim o “bichinho da televisão”. À Patrícia, à Beatriz e ao João. Por serem os meus amigos de sempre e para sempre. À Melissa, à Catarina, à Inês F. e à Lúcia, por respeitarem as minhas ausências. Ao Diogo e à Iara por serem como irmãos. Às Ginas, pelo passado, presente e futuro. Ao João, ao Pedro, ao Duarte e ao Francisco, por não terem desistido de mim. Ao Miguel, por ser a melhor pessoa que o mestrado me deu. À Cristiana, à Teresa, à Maria João, à Ana Luísa, à Carolina e ao Miguel, por serem mais que colegas de trabalho. À Mariana por ter sido uma surpresa tão boa. Aos jornalistas da SIC que me acompanham desde o início. Ao André Palma, ao Bruno Ferreira, à Manuela Vicêncio, à Patrícia Almeida, à Liliana Lobo de Carvalho e ao Pedro Freitas. À equipa da Edição da Noite da SIC Notícias, a minha equipa, com quem cresço todos os dias. Ao Hélder Felizardo, pelas oportunidades e pela confiança. Ao André Antunes, por acreditar em mim desde o primeiro minuto, pelas palavras e por me deixar voar. Aos meus primos. Aos mais velhos, por me terem mostrado que os laços que nos unem são eternos. Aos mais novos, por serem a minha lufada de ar fresco. À minha madrinha, o meu exemplo para toda a vida. À minha avó, por ser tão especial. Ao meu avô, pela família que me deu. Às minhas estrelinhas. Ao meu afilhado Salvador, por ser o meu salvador – literalmente – em tantos momentos. Por despertar o melhor de mim. À minha irmã, o meu maior amor. Pelo que diz sem dizer. Aos meus pais, por serem a maior bênção da minha vida. Isto é vosso. 5 NOVAS COMPETÊNCIAS NO JORNALISMO TELEVISIVO: ENTRE A ACADEMIA E A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL NEW SKILLS IN TELEVISION JOURNALISM: BETWEEN COLLEGE AND THE INTERNSHIP ANA RITA NEVES ROGADO RESUMO A presente dissertação tem como objetivo analisar a relação entre os planos curriculares dos mestrados em jornalismo em Portugal e as exigências das redações de televisão. Nesse sentido, parte-se da hipótese que os planos curriculares dos cursos de segundo ciclo não são adequados às redações. Para testar a hipótese, utiliza-se uma metodologia mista, através de análise de conteúdo aos planos curriculares dos mestrados identificados na área de jornalismo; inquérito por questionário a alunos que tenham mestrado em jornalismo e tenham estagiário em televisão; entrevistas semiestruturadas a coordenadores de estagiários e a coordenadores de mestrados e ainda uma entrevista ao jornalista e professor universitário Pedro Coelho. A hipótese formulada é confirmada, uma vez que há mestrados no ramo de jornalismo sem seminários dedicados a televisão, os coordenadores de estagiários defendem que os alunos chegam às redações pouco preparados para o mercado de trabalho e coordenadores de mestrados identificam as lacunas em relação ao jornalismo televisivo nos planos curriculares do mestrado. PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo Televisivo; Jornalistas; Competências; Ensino do Jornalismo; Mestrado; Estágio 6 ABSTRACT This dissertation aims to analyze the relationship between the Portuguese Master’s Degrees in Journalism and the requirements of the television stations. In this sense, it is assumed that the curricular plans of these Master’s Degrees are not suitable to the television expectations. To test the hypothesis, we used a mixed methodology through content analysis to the curricular plans of the masters identified in the area of journalism; questionnaire survey for students who have master's degrees in journalism and have a television internship; semi-structured interviews with trainee coordinators and coordinators of master's degrees and an interview with journalist and university teacher Pedro Coelho. The hypothesis formulated is confirmed because there are master's degrees in journalism without seminars dedicated to journalism television. Trainee coordinators argue that students that arrive at television are poorly prepared for the job market and that master’s coordinators have identified the gaps in relation to journalism in the curriculum of the master’s program. KEYWORDS: Television journalism; broadcast journalism; Journalists; Skills; Teaching Journalism; Master's degree; Internship 7 ÍNDICE INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 10 CAPÍTULO I: JORNALISMO TELEVISIVO ........................................................................... 12 1. DO JORNALISMO AO JORNALISMO TELEVISIVO .................................................. 12 1.1. JORNALISMO TELEVISIVO EM PORTUGAL ....................................................... 13 1.1.1. RTP, SIC E TVI ................................................................................................. 14 1.1.2. GÉNEROS JORNALÍSTICOS ........................................................................ 15 1.1.3. NOTICIÁRIO E ALINHAMENTO DOS JORNAIS ........................................... 18 1.1.4. DESAFIOS DA TELEVISÃO NA ERA DIGITAL ............................................... 20 CAPÍTULO II: JORNALISTAS - O PRESENTE E O FUTURO ................................................. 24 2.1. QUEM SÃO OS JORNALISTAS PORTUGUESES? .................................................... 24 2.2. TRABALHAR EM TELEVISÃO ............................................................................. 25 2.3. COMPETÊNCIAS.................................................................................................... 26 2.3.1. DEFINIÇÃO DE COMPETÊNCIAS ..................................................................... 26 2.3.2. COMPETÊNCIAS PEDIDAS AO JOVEM JORNALISTA ....................................... 30 2.4. CRISE NO JORNALISMO E “EMAGRECIMENTO DOS QUADROS” ..................... 32 CAPÍTULO III: ENSINO SUPERIOR DO JORNALISMO ....................................................... 35 3.1. ENSINO SUPERIOR EM JORNALISMO EM PORTUGAL .......................................... 35 3.2. QUAL É O CAMINHO CERTO PARA A FORMAÇÃO DE JORNALISTAS? ................. 39 3.3. ESTÁGIOS: A REALIDADE QUANDO CHEGAM À PROFISSÃO ............................... 42 CAPÍTULO IV: METODOLOGIA ........................................................................................ 46 4.1. OBJETIVOS E PERTINÊNCIA DO TEMA .................................................................. 46 4.2. QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO ............................................................................. 48 4.3. METODOLOGIA ................................................................................................ 48 4.3.1. CORPUS......................................................................................................... 53 4.3.2. VARIÁVEIS DE ANÁLISE ................................................................................. 54 CAPÍTULO V: ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS ................................................... 56 5.1. A FORMAÇÃO ACADÉMICA E PESO NOS PLANOS CURRICULARES DOS MESTRADOS ................................................................................................................ 56 5.1.1. MESTRADOS: BILHETE DE IDENTIDADE ......................................................... 56 5.1.2. UNIDADES CURRICULARES RELACIONADAS COM TELEVISÃO ...................... 60 5.1.3. CORPO DOCENTE ........................................................................................... 63 5.1.4. EVOLUÇÃO E LACUNAS ................................................................................. 63 5.1.5. OPINIÃO DOS ALUNOS .................................................................................. 65 8 5.2. RELAÇÃO ENTRE A ACADEMIA E OS ESTÁGIOS ................................................... 66 5.2.1. ESTÁGIOS: BILHETE DE IDENTIDADE ............................................................. 68 5.2.2. COMPETÊNCIAS NECESSÁRIAS AO EXERCÍCIO DA PROFISSÃO NA ÓTICA DOS JORNALISTAS COORDENADORES DOS ESTAGIÁRIOS .............................................. 73 CONCLUSÃO .................................................................................................................... 75 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................................... 81 ÍNDICE DE GRÁFICOS ...................................................................................................... 88 ANEXO A – ENTREVISTAS A COORDENADORES DE ESTAGIÁRIOS .................................. 89 NATÁLIA OLIVEIRA – COORDENADORA DE ESTAGIÁRIOS DA RTP ............................. 89 ANDRÉ ANTUNES - COORDENADOR DE ESTAGIÁRIOS DA SIC .................................... 90 ANEXO B – INQUÉRITO A ALUNOS ................................................................................. 95 ANEXO C – ENTREVISTAS A COORDENADORES DE MESTRADOS ................................. 100 ANTÓNIO GRANADO – FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA ............................................................................. 100 MARIA JOSÉ MATA – ESCS – INSTITUTO POLITÉCNICO DE LISBOA .......................... 104 PAULO MARTINS – ISCSP – UNIVERSIDADE DE LISBOA ............................................ 106 FERNANDO VASCO RIBEIRO – FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO .................................................................................................................................. 109 ANEXO D – ENTREVISTA AO JORNALISTA E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO PEDRO COELHO ...................................................................................................................................... 111 ANEXO E – RESPOSTAS AO INQUÉRITO ........................................................................ 116 ANEXO F – ANÁLISE DE CONTEÚDO AOS PLANOS CURRICULARES DOS MESTRADOS 118 9 ÍNDICE DE TABELAS TABELA 1 - MODELO DE COMPETÊNCIAS APRESENTADO POR HIMMA-KADAKAS E PALMISTE BASEADO EM MICÓ E CARPENTER ................................................................ 27 TABELA 2 - MODELO DE COMPETÊNCIAS APRESENTADO POR DAVID FINEGOLD E ALEXIS SPENCER NOTABARTOLO .................................................................................... 29 TABELA 3 - COORDENADORES DE MESTRADOS EM JORNALISMO/ CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO .............................................................................................................. 50 TABELA 4 – TÉCNICAS E OBJETIVOS ................................................................................ 51 TABELA 5 – MESTRADOS EM JORNALISMO OU VARIANTE EM JORNALISMO ............... 53 TABELA 6 – MANUAL DE CODIFICAÇÃO DA ANÁLISE DE CONTEÚDO AOS MESTRADOS54 TABELA 7 – SPPS VARIABLE VIEW DAS RESPOSTAS AO INQUÉRITO ............................ 116 TABELA 8 - SPSS DATA VIEW DAS RESPOSTAS AO INQUÉRITO .................................... 116 TABELA 9 - SPPS VARIABLE VIEW DA ANÁLISE DE CONTEÚDO .................................... 118 TABELA 10 - SPSS DATA VIEW DA ANÁLISE DE CONTEÚDO ......................................... 118 16 O jornalista tem de assegurar os diretos, os vivos, a apresentação de um jornal ou a moderação de um debate. Para isso, recorre a técnicas e caraterísticas como o timbre de voz, dicção, atitude, caraterísticas físicas, expressão corporal e carisma, para cada um dos géneros jornalísticos (Jespers, 1998). Aliás, a imagem em televisão é tão importante que, no Brasil, a jornalista Michelle Sampaio, que trabalhou como pivô durante 16 anos na estação de televisão “Rede Vanguarda”, foi despedida depois de ter engordado na sequência de uma gravidez. Certo ou errado, aconteceu. Foi afastada da apresentação das notícias e passou a fazer reportagens, mas mesmo assim negaram-lhe visibilidade (Pinto, 2019). A jornalista contou a história na rede social Instagram no final de março de 2019. Em relação aos géneros jornalísticos, o mais curto e simples é o off. Neste caso, só o pivô que apresenta o noticiário é que tem a palavra: lê o que está escrito no alinhamento em direto. Não é preciso muita investigação ou trabalho de exterior, o objetivo é dar a notícia de forma resumida (Oliveira, 2007). Ainda na mesma linha de pensamentos, há as peças com duração variável entre os 1’20’’ e os 1’50’’ com informação geralmente recolhida numa saída em reportagem (Oliveira, 2007). Em relação a peças mais complexas, surge a Reportagem/ Grande Reportagem. Para Gradim (2000), “é o género jornalístico mais nobre, havendo até quem o considere sublime e literariamente privilegiado”. Este aborda questões atuais, polémicas e pertinentes. Por isso, a investigação e a produção são demoradas e as técnicas utilizadas pela equipa são sofisticadas (Oliveira, 2007). A história tem de ser contada entre 25 a 50 minutos, com o máximo de pormenores (Gradim, 2000). A entrevista é outro género jornalístico, que implica o contacto com uma fonte durante a recolha de informação. Em televisão pode ser feita em direto, com um ou mais entrevistados, ou pode ser gravada em estúdio ou numa saída em reportagem para ser utilizada em peças e reportagens (Gradim, 2000). A entrevista em direto exige recursos complexos de realização e é preciso que o jornalista domine o tema e tenha dinâmica e ritmo que despertem a curiosidade e mantenham o interesse do espectador (Oliveira, 2007). Neste género jornalístico, há uma interação antes e depois das entrevistas entre 17 o jornalista e a fonte. Por exemplo, antes da entrevista, o jornalista explica o rumo da conversa ou o objetivo da entrevista, fazem-se testes de voz e de posição do entrevistado em frente à câmara. No fim da entrevista, muitas vezes tem-se uma conversa mais informal, com orientações, informações básicas e verificação de factos (Ekström & Lundell, 2011). No caso de entrevistas a especialistas, há casos em que o jornalista fala previamente com o entrevistado sobre as questões para que as respostas possam ter mais pormenores úteis para a história (Ekström & Lundell, 2011). Próximo da entrevista, há o debate. O jornalista coloca questões a convidados em estúdio, geralmente com opiniões distintas e modera as respostas de cada um (Oliveira, 2007). As perguntas são preparadas previamente pelo jornalista, depois de uma investigação intensiva (Ekström & Lundell, 2011). Semelhante ao debate, há o espaço de opinião ou comentário, onde o autor convidado exprime os pontos de vista em relação a determinado assunto. Não transmite informações novas, como seria de esperar no jornalismo. O objetivo é esclarecer o público e até realçar aspetos que podem ter passado despercebidos (Gradim, 2000). Neste caso, o jornalista tem de fazer perguntas para que o comentário não se torna exaustivo e que o comentador mostre interesse no que está a dizer (Ekström & Lundell, 2011). Os diretos são outro género jornalístico. Neste caso, os jornalistas tornam-se transmissores do que se passa no momento, como fazem todos os outros jornalistas, a diferença está em aparecerem na televisão como testemunhas dos eventos, no local do acontecimento. Aliás, tornam os telespectadores parte integrante do cenário e o objetivo é provocar-lhes uma sensação de presença (Martins, 2012). Este é um dos géneros mais desafiadores e complexos de todos. O jornalista tem de levar o espectador até ao local. Quer isto dizer que o espectador que estiver a assistir ao direto tem de se sentir como se estivesse no local. Neste caso, além do conteúdo, a linguagem corporal torna-se importante para prender o espectador (Oliveira, 2007): “Televisão e direto. Dois simples elementos que se podem transformar num sucesso profissional ou num fracasso descomunal” (p. 45). 18 Por fim, as notícias mais leves, os fait-divers, com temáticas diversificadas que relatam curiosidades do quotidiano, como o caso de roubos, coincidências ou casos épicos. O principal objetivo é distrair e desanuviar a audiência (Gradim, 2000). 1.1.3. NOTICIÁRIO E ALINHAMENTO DOS JORNAIS Quando falamos em alinhar um noticiário, o espectador é visto como um consumidor que vai comprar determinado produto. Naturalmente, compra o que mais lhe agradar (Martins, 2012). Aliado a isso, os jornalistas têm uma grande responsabilidade social. Quanto trabalham em televisão, essa responsabilidade tornase gigantesca e aumenta consoante a seleção dos acontecimentos que transformam em notícia (Brandão, 2010). André Antunes dizia em entrevista a Borges (2017) que os critérios de seleção dependem de muitos fatores: “depende da estratégia do jornal, do que é que a gente quer fazer do jornal naquele dia. Mas uma notícia pode valer por si e pode valer para abrir o jornal independente de ser uma notícia centrada em Lisboa, no Porto, em qualquer delegação em qualquer parte do país ou nas ilhas ou no mundo” (Antunes, 2017). O alinhamento corresponde à ordem hierárquica pela qual as notícias são distribuídas ao longo dos noticiários. Esse alinhamento é formado consoante critérios editoriais, que têm em vista o público-alvo. Os editores escolhem como peça de abertura a informação mais forte, suscetível a captar a atenção do maior número de espectadores e indo ao encontro dos seus interesses (Costa, 2011). Tratam-se de “decisões cruciais de incluir ou excluir uma peça, por exemplo, são tomadas em questão de segundos e em interação contínua com os apresentadores, repórteres no exterior e, eventualmente, com membros da hierarquia ou com outras entidades, através de eventuais contactos telefónicos” (Gomes, 2011, p. 210). Essa responsabilidade que os jornalistas têm em mãos é grande porque “quanto maior for o ênfase dado a determinadas categorias temáticas, nos seus telejornais, seja pela forma ou pela posição no alinhamento, maior será a importância que os cidadãos atribuem a esses temas como determinantes para o sentido que têm na sociedade” (Brandão, 2010, p. 143). Aliás, durante o processo de alinhar o jornal, os editores vão criando vários picos de interesse e muitas vezes a proximidade entre a notícia e a 19 audiência é um critério chave para essa definição (Costa, 2011), prova disso, é este caso em particular: “a TVI escolheu como peça de abertura uma reportagem sobre as longas filas na segurança social, provocadas pela entrega dos documentos sobre a prova de rendimentos. Um dos critérios da informação da TVI é a escolha de assuntos que de certa forma se posicionem mais próximos da população, com os quais a população sinta uma real familiaridade, que a afete de forma direta. Os outros canais, a SIC e a RTP, optaram ambos por abrir o jornal da hora do almoço com peças relacionadas com o défice do estado” (Costa, 2011, p. 35). Por outro lado, o trabalho do jornalista “ignora hoje determinadas áreas da realidade social em detrimento de um crescente assédio mediático pelo insólito, pelo negativo e pela catástrofe, procurando a todo o custo, mesmo nas notícias referentes à política nacional, a lógica impiedosa da concorrência (Brandão, 2010, p. 151). Prova disso é que, entre 2015 e 2017, a percentagem de mulheres como protagonistas é superior à dos homens em apenas 3 categorias: familiares, figuras públicas/ celebridades e saúde (Lusa, 2019). Por exemplo, Antunes (2017) diz que o Primeiro Jornal da SIC é “um bocadinho mais de proximidade” quando comparado com o Jornal da Noite do mesmo canal. Isto porque “o público da hora de almoço está mais disposto a ver este tipo de história” e acrescenta que à noite o público é diferente: “estamos a falar de outro tipo de classes sociais, de pessoas com outro tipo de estudos e as notícias são necessariamente diferentes” (Antunes, 2017, p. 46). Esta ideia era corroborada por (Reis, 2017), que defende, também em entrevista, que o Primeiro Jornal tem que ser um jornal onde as notícias mais locais tenham mais peso que no Jornal da Noite” porque “têm um ADN diferente” (Reis, 2017). Brandão (2010) defende que é necessário que “se assuma uma atitude reflexiva sobre o progressivo aumento destas notícias no contexto dos noticiários televisivos e que se possa proporcionar o estabelecimento de um novo regime de prioridades noticiosas no alinhamento dos telejornais portugueses. Caso contrário, os referidos noticiários apenas estarão a incentivar leituras negativas da vida quotidiana” (Brandão, 2010, p. 166). 20 1.1.4. DESAFIOS DA TELEVISÃO NA ERA DIGITAL “Television news will continue to reach millions of people for years to come via evening bulletins and 24-hour news channels. But to remain relevant and reach a younger audience, television news providers also have to embrace a whole new range of digital platforms and experiment with on-demand, distributed, and mobile video news” (Nielsen & Sambrook, 2016, pp. 5-6). O jornalismo atual, principalmente aquele que se pratica em televisão, tem apostado menos no tratamento das notícias, ou seja, os acontecimentos que se transformam em notícias têm sido os mais sensacionalistas de modo a chegar a largas camadas do público. O mesmo público que nos intervalos dos jornais vai assistir à publicidade (Brandão, 2010). Por isso, os órgãos de comunicação social procuram ajustar as práticas ao que a audiência mais gosta (Humprecht & Esser, 2018). Na era digital, as notícias tornaram-se omnipresentes e as pessoas acedem à informação em vários formatos, plataformas e dispositivos, o que significa que a lealdade a um determinado órgão de comunicação acabou (Purcell, Rainie, Mitchell, Rosenstiel, & Olmstead, 2010). “A explosão” da tecnologia originou transformações na informação, principalmente no que toca à rapidez e à democratização dos conteúdos (Rocha & Sousa, 2008). As relações entre as pessoas e as notícias passaram a ser portáteis, personalizadas e participativas. Isto significa que se pode aceder às notícias facilmente nos telemóveis, a homepage pode ser alterada para incluir apenas as notícias que interessam e as notícias podem ser comentadas e partilhadas nas redes sociais (Purcell, Rainie, Mitchell, Rosenstiel, & Olmstead, 2010). As redes sociais contribuem para a disseminação e partilha de informação e para a interatividade com os leitores, contudo, o jornalismo precisa de perceber a melhor forma de aproveitar estas potencialidades sem pôr em causa a informação, já que os utilizadores participam nesse processo de partilha (Bonixe, 2011). Por outro lado, há séries e filme novos todos os dias que podem ser consumidos em vários locais e a qualquer hora. Os consumidores querem o melhor conteúdo pelo melhor preço. Este serviço de Streaming tem assustado os canais tradicionais, que são 21 desafiados a novos conteúdos, novos formatos de negócio e novas ofertas (Salvador, 2019). “A escolha não é «em que aparelho vou ver o programa», mas se vou preferir ver uma série sozinho em frente ao meu computador, ou se prefiro partilhá-la com a minha família (os meus «próximos») num televisor, ou, ainda, se prefiro vê-la ao mesmo tempo que comunico com os que estão distantes” (Jost, 2015, p. 12). A utilização das redes sociais na distribuição de notícias aumenta o número de leitores nos websites e leva a uma maior fidelização. Por isso, os vários media são obrigados a arranjar formas de chamar a atenção dos consumidores (Canavilhas, 2010). Nos websites é possível dar mais informação sobre o determinado tema, porque há espaço para isso, quando comparado com um telejornal, no entanto, os websites seguem os mesmos assuntos que os canais de televisão, para conseguir maior audiência e maior número de partilhas (Jost, 2015). Como resultado da democratização de informação, a audiência de alguns telejornais foi diminuindo ao longo dos anos. É o caso do ITV Evening News, no Reino Unido, que atraiu cerca de 3,4 milhões de telespectadores em 2010 e caiu para cerca de 2,5 milhões no final de 2015, e até de programas na Alemanha (RTL Aktuell) e em França (TF1 20) (Nielsen & Sambrook, 2016). Da mesma forma que 92% dos americanos obtêm notícias através de múltiplas plataformas, como a televisão nacional e local, a internet, jornais e rádio. A Internet ultrapassou os jornais e a rádio como plataforma preferida para consumo de notícias e está, por isso, logo atrás da televisão (Purcell, Rainie, Mitchell, Rosenstiel, & Olmstead, 2010). Em 2018, os órgãos de comunicação social da Alemanha eram os que mais usavam gráficos de informação (grafismos) e mapas com informações geográficas. Estas ferramentas digitais servem para apresentar e explicar a informação a fundo e elevam a qualidade do jornalismo porque constituem desafios aos outros meios de comunicação. O país que menos utilizava estas ferramentas era Itália (Humprecht & Esser, 2018). Em contrapartida, as notícias dos órgãos de comunicação social da Alemanha raramente tinham hiperligações, que aumentam a transparência do jornal com os leitores – modelo de transparência, uma vez que remetem para as notícias com mais informações e na qual se basearam. Esses links apareciam com mais frequência em notícias britânicas e dos Estados Unidos da América (Humprecht & Esser, 2018). Este 22 estudo foi feito a 48 websites de notícias de 6 países: França, Itália, Alemanha, Suiça, Grã-Bretanha e Estados Unidos. “Há alguns anos, o tema sobre o fim da televisão espalhou-se como fogo. A multiplicação de ecrãs, a explosão da oferta de canais, os novos suportes (telefone, tablets, etc.) iriam colocar um fim à televisão ou, pelo menos, à televisão como a conhecíamos nas últimas décadas: uma instituição com programas e conteúdos capaz de reunir o máximo de pessoas possível em torno de um único ecrã” (Jost, 2015, p. 9). Os jornalistas nunca mais voltaram a fazer o mesmo trabalho de campo (Pavlik, 2000). Em Portugal, chegaram novos equipamentos às redações e os jornalistas passaram a ter cursos no Cenjor (Canavilhas, 2009). Aliás, “o Cenjor (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) é a instituição de formação ou ensino a que os jornalistas portugueses mais recorreram para complementar os seus estudos” (OberCom, 2017, p. 11). “O ambiente foi sendo cada vez mais tecnológico e os jornalistas multiplicaram tarefas, muitas delas técnicas” (Garcia, Marmeleira, & Matos, 2014, p. 10). Além disso, as novas funções exigem constantes mudanças e desafios e por isso, há a necessidade de ter jornalistas com competências intelectuais, mais até do que competências práticas. Para Fourier (2005), só assim se assegura o futuro do jornalismo. As entrevistas passaram a poder ser feitas via telefone ou e-mail e a poder consultar a internet, comunicados e bases de dados a qualquer hora e em qualquer lugar (Westlund, 2013). É o caso das campanhas políticas, por exemplo, em que os resultados são publicados online em tempo real (Pavlik, 2000). A relação dos portugueses com dispositivos móveis e com informação está acima da média, em comparação com as populações inquiridas no âmbito do estudo RDNR2018. Em 2018, o Messenger do Facebook e o Whatsapp consolidaram a importância no que diz respeito à partilha de conteúdos informativos. O Facebook é ainda a rede social mais utilizada para esse fim, no entanto, com menos 2% que em 2017. Essa diminuição deve-se ao aumento de utilizadores nas redes sociais privadas (OberCom, 2016). 23 Em Portugal, a revista Visão lançou uma edição exclusiva para iPad em 2010. No entanto, quase todas as peças nesta versão eram uma cópia do que estava na revista em papel ou no website e os elementos multimédia eram quase ausentes. O utilizador não podia comentar ou partilhar as peças nas redes sociais, contactar com os jornalistas ou participar em fóruns de discussão. No total, em 8 082 peças analisadas havia apenas 5 infografias. Este órgão de comunicação não estava, de todo, a aproveitar as potencialidades deste ambiente digital (Silva, 2014, p. 133). Por outro lado, em 2011, a maioria dos órgãos de comunicação portugueses queria disponibilizar todos os formatos – texto, áudio e vídeo – nas versões online, mas ainda não apostava na qualidade e rigor jornalístico, isto é, publicavam vídeos de redes sociais misturados com produtos jornalísticos, reportagens sem ficha técnica, vídeos noutro idioma sem legendagem. Isto acontecia devido à pressão da concorrência (Dias, 2011). Este ambiente caracterizado pela convergência de funções no jornalismo pede uma nova abordagem nos estudos do jornalismo (Fourie, 2005), até porque os meios de comunicação são cada vez mais competitivos e têm de procurar e explorar novos caminhos (Westlund, 2013). Principalmente a televisão, se não quiser perder a liderança. 24 CAPÍTULO II: JORNALISTAS - O PRESENTE E O FUTURO 2.1. QUEM SÃO OS JORNALISTAS PORTUGUESES? A primeira análise sociológica aos jornalistas portugueses foi feita em 1987 por José Manuel Paquete de Oliveira. Três anos mais tarde, com a colaboração de José Luís Garcia, é feito o primeiro inquérito nacional aos jornalistas. O objetivo foi criar um retrato tenta em conta a ausência de dados sobre estes profissionais e a crise económico-financeira deste setor (Crespo, Azevedo, & Cardoso, 2017). Inicialmente, o jornalista tinha apenas a função de informar e manter a informação atualizada de forma simples (Zelizer, 2005). “A inclusão do público no processo produtivo; a disseminação dos canais de produção, de emissão e de receção; os novos hábitos de consumo de notícias; o primado absoluto da visualização; a atualização permanente; a instantaneidade; a possibilidade de acesso direto aos factos sem a necessidade de uma mediação jornalística. Todos estes elementos de diferença vieram redesenhar o jornalismo” (Coelho, 2013, p. 187). Nos dias de hoje, informar é uma das tarefas mais exigentes. O jornalista tem de ter a humildade de se apagar em relação ao acontecimento que está a relatar e a inteligência e perspicácia para que o trabalho final resulte (Gradim, 2000). Os jornalistas têm de obter as informações o mais rapidamente possível para o órgão de comunicação onde trabalham ser o primeiro a dar a notícia, têm de verificar a informação que estão a dar e têm de ouvir diferentes pontos de vista (Willnat, Weaver, & Wilhoit, 2019). Um estudo feito a cidadãos e jornalistas americanos mostrou que têm pontos de vista diferentes sobre o papel dos media. Enquanto os jornalistas acham que discutir polícia nacional e internacional e interpretá-la são as funções “extremamente importantes”, ou seja, as mais importantes no jornalismo, o público prefere que as informações ao público sejam dadas rapidamente”, que os jornalistas evitem informações “não verificadas” e que deixem as fontes “expressar opinião” (Willnat, Weaver, & Wilhoit, 2019). 25 Num traço geral, e recorrendo a dados de 2017, a maioria dos jornalistas tem entre 35 e 44 anos (38%), licenciatura pré-Bolonha (43,3%) e é solteira (37,9%). Nesse ano estavam registados 6114 jornalistas (Crespo, Azevedo, & Cardoso, 2017). No ano anterior, 33,4% dos jornalistas portugueses não tinham contrato fixo (Sindicato dos Jornalistas, 2017). Só na área metropolitana de Lisboa trabalhavam quase dois terços dos jornalistas portugueses (Crespo, Azevedo, & Cardoso, 2017). Em 2016, mais de metade dos jornalistas recebia menos de mil euros líquidos por mês. Nesse ano, 11,6% dos jornalistas recebiam menos de 500 euros e a maioria desses 11,6% (7%) não chegava a receber 300 euros (Sindicato dos Jornalistas, 2017). O mesmo estudo concluiu que a carga de trabalho da maioria dos jornalistas em Portugal era de 35 a 40 horas semanais; no entanto, 13,8% trabalhavam de 51 a 60 horas e 9% trabalhavam mais de 60 horas por semana. Dos jornalistas que trabalham horas extraordinárias, 63,4% não tinham compensação por isso (Sindicato dos Jornalistas, 2017). Por outro lado, a maioria dos jornalistas já ponderou o abandono da profissão. Em causa está o baixo rendimento, a degradação da profissão, a precariedade contratual e a ansiedade (OberCom, 2017). Aliás, na última década, registou-se uma quebra no número de jornalistas com carteira profissional (Crespo, Azevedo, & Cardoso, 2017). Aliás, o problema é geral. Um estudo feito a universidades com cursos superiores de jornalismo mostrou que encontrar trabalho para todos os licenciados nesta área ia ser um problema num futuro (Gardeström, 2017). Prova disso é que em 2016, os mais jovens, com menos de 24 anos, representavam apenas 6,6% dos jornalistas (Crespo, Azevedo, & Cardoso, 2017). 2.2. TRABALHAR EM TELEVISÃO No fim do século passado, trabalhavam aproximadamente 200 jornalistas nas redações dos grandes canais franceses e britânicos. A realização de uma edição de um jornal envolvia cerca de 65 pessoas em cada turno, incluindo jornalistas, coordenadores, 32 falta de recursos humanos das redações. Como resultado disso, têm muitas tarefas para fazer e pouco tempo para as ter prontas (Himma-Kadakas & Palmiste, 2018). Como prova, no estudo realizado ao órgão de comunicação da Estónia concluiu que os editores esperavam que os jornalistas conseguissem fazer peças com agilidade e sem dificuldade sobre diferentes temas, no entanto, na prática isso não acontecia. Muitos jornalistas copiavam comunicados de imprensa ou os textos anteriores sobre o tema em questão (Himma-Kadakas & Palmiste, 2018). Por outro lado, o texto de um jornal televisivo de 30 minutos conta entre 4 500 a 6 000 palavras. Um jornal diário impresso, de 56 páginas, tem espaço para mais de 250 000 palavras (Jespers, 1998). Isto significa que o jornalista de televisão tem de conseguir passar a informação relevante no menor número de palavras possível. Para isso tem de ter grande capacidade de síntese e resiliência (Oliveira, 2007). 2.4. CRISE NO JORNALISMO E “EMAGRECIMENTO DOS QUADROS” “A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afetar um sector estratégico, se reflete de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática.” (TSF, 2012). A indústria dos órgãos de comunicação social em Portugal tem sido afetada de forma negativa pela crise económica do país, pela diminuição da publicidade e pela quebra de audiências (Bastos, 2014). Entre 2008 e 2011, o mercado publicitário perdeu quase 200 milhões de euros, o que corresponde a uma quebra de cerca de 26% (Pacheco & Freitas, 2014). Como consequência da crise, começou a haver um desgaste das condições de trabalho e um desequilíbrio entre a procura e a oferta (Bastos, 2014) e houve uma diminuição de apostas em projetos e em recursos humanos (Casero-Ripollés, IzquierdoCastillo, & Doménech-Fabregat, 2016). Quer isto dizer que muitas empresas despediram jornalistas nos últimos anos. Só no grupo Impresa, entre 2008 e 2011, saíram 452 33 jornalistas (Pacheco & Freitas, 2014). Mas esta situação já se arrasta há alguns anos. Entre 2000 e 2005, cerca de 350 jornalistas portugueses tinham rescindido contratos (Bastos, 2014). Em 2006 havia 8 948 jornalistas, número que baixou para 6 705 em 2011/2012 (Manuel, 2014). Esta situação levou um grupo de jornalistas a escrever uma carta aberta sobre os despedimentos coletivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redações, em 2012: “O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redação. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que deem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias. O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas” (TSF, 2012). A qualidade do conteúdo jornalístico está dependente dos recursos humanos disponíveis para trabalhar a informação, ou seja, dos jornalistas (Himma-Kadakas & Palmiste, 2018). Essa opinião era partilhada pelos jornalistas que escreveram a carta aberta. Os profissionais defendiam que esta situação ia refletir-se em perda de rigor, qualidade e fiabilidade e que se tornaria numa desinformação da sociedade e enfraquecimento da democracia (TSF, 2012). Ainda na mesma linha de pensamento, Diana Andringa, uma das jornalistas que assinaram a carta, disse numa entrevista à TSF que a democracia não existe sem o jornalismo e sublinhou que esta profissão “é mais indispensável do que nunca”, numa altura em que “é preciso que os cidadãos estejam profundamente bem informados” (Andringa, 2012). A este fenómeno, vários especialistas e académicos têm chamado “proletarização” do jornalismo: os jornalistas mais velhos são substituídos por jornalistas mais novos, com menos experiência, vínculos precários e carga laboral 34 pesada (Bastos, 2014). No entanto, nem sempre os jornalistas mais velhos são os mais produtivos: “alguns jornalistas não conseguem manter a competência até ao fim da carreira” 6 (Himma-Kadakas & Palmiste, 2018, p. 9). 6 Tradução livre 35 CAPÍTULO III: ENSINO SUPERIOR DO JORNALISMO “O jornalismo tem uma grande vantagem em relação às outras ciências sociais e humanas, uma vez que pode proporcionar oportunidades inigualáveis ao aluno de aprendizagem de habilidades com uma estreita ligação com a teoria” 7 (de Burgh, 2003, p. 115). 3.1. ENSINO SUPERIOR EM JORNALISMO EM PORTUGAL Até meados do século XIX, Portugal não tinha jornalistas profissionais. As pessoas que se dedicavam ao jornalismo tinham ambições polícias e colaboravam com os jornais para progredirem na política (Sousa, 2009). A questão do ensino do jornalismo era secundária e os defensores da necessidade de um curso superior eram raros (Sobreira, 2003). Aliás, no século passado, o jornalismo era visto como um talento, uma aptidão que só alguns tinham o privilégio de ter (Gardeström, 2017). Em comparação com outros países, o ensino superior em jornalismo foi tardio. Os primeiros a lançar a pedra foram os Estados Unidos, no final do século XIX. E de seguida a Finlândia e o Canadá. A forma como cada curso surgia dependia do sistema educacional de cada país (Gardeström, 2017). A formação em jornalismo só começou a ser falada em vários encontros internacionais no final do século. Foi exemplo disso o Congresso Internacional da Imprensa, em Lisboa, em 1898 (Ferenczi, 1996). A partir dessa altura, os meios de comunicação social quiseram recrutar jornalistas que se dedicassem a tempo inteiro ao jornalismo, com critérios profissionais rigorosos e que não se limitassem a ser “políticos de jornal” (Sousa, 2009). A intenção de criar uma Escola Superior de Jornalismo em Portugal surgiu em 1926, pelo Sindicato dos Trabalhadores da Imprensa. No entanto, a ideia foi condenada pelo diretor do Comércio do Porto da altura, Bento Carqueja (Correia, 1997). Em 1941, o Sindicato Nacional de Jornalistas, representado pelo presidente Luís Teixeira, propôs 7 Tradução livre 36 ao subsecretário de Estado da Educação o projeto de um curso de formação jornalística, justificado pela necessidade de “promover, de maneira decisiva, a valorização profissional dos jornalistas” (Correia, 1997; Pinto, 2004, pp. 50-51). O curso, destinado a 30 alunos e que funcionaria na sede do sindicato, teria a duração de 2 anos e seria complementado com conferências e palestras dadas por profissionais da área e visitas a redações (Sobreira, 2003). Mas o projeto não foi em frente. Na altura, havia ainda uma falta de convicção dos jornalistas em relação ao ensino na profissão (Sobreira, 2003). Até aqui, os projetos para o ensino superior em jornalismo não passavam de intenções. Ao Estado Novo, o regime político instaurado em Portugal, não interessava formar jornalistas. Os profissionais eram vistos por António Salazar como uma oposição do regime (Sobreira, 2003). A reviravolta aconteceu a na década de 1970, quando o ensino superior começou a ser visto como uma forma de entrada na profissão e a ideia de a vocação não chegar para responder às exigências do trabalho acentuou-se (Sobreira, 2003). Abolida a censura, “o regresso ao país de alguns intelectuais que se encontravam no estrangeiro foram importantes para as transformações que se começavam a operar e mais importantes ainda para permitir o advento do estudo do jornalismo no ensino superior” (Teixeira, 2012, p. 410). Em 1979, nasceu a primeira licenciatura em Comunicação Social, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (Pinto M. , 2004). O nome do curso foi alterado para Ciências da Comunicação no ano letivo de 1993/1994 (Mesquita & Ponte, 1997). No ano seguinte, surgiu a licenciatura no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (Teixeira, 2012). Os primeiros alunos com o diploma por estas instituições chegaram às redações em meados da década de 1980, numa altura em que se viviam privatizações, desregulamentação e introdução de novas tecnologias nos media (Mesquita & Ponte, 1997). Mas a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa não foi apenas a pioneira em licenciaturas na área. Foi também a primeira em lançar programas de investigação mais avançados, como o CECL, Centro de Estudos de 37 Comunicação e Linguagens que edita a Revista de Comunicação e Linguagens desde 1985 (Coelho, 2013). Em 1983, a Universidade do Minho inicia a especialização em Comunicação Social na licenciatura em Ciências Sociais (Teixeira, 2012). Em 1984, surgiu o primeiro mestrado na área, na Universidade Nova de Lisboa, com especialização em Estudo dos Media e Jornalismo (Pinto, 2004). Até 1993, teve a designação de Comunicação Social e depois disso Ciências da Comunicação (Teixeira, 2012). Contudo, a década de 1980 ficou marcada pelo início de cursos profissionais de jornalismo como o Centro de Formação de Jornalistas (CFJ), em 1983, no Porto, e o Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas – Cenjor, em 1986, em Lisboa (Teixeira, 2012; Mesquita & Ponte, 1997). Para Pinto (2004), os cursos profissionais surgiram como sinal de que os universitários saídos da faculdade não conseguiam responder às necessidades que a profissão exigia. Ao mesmo tempo, os cursos nas universidades não paravam de surgir. Em 1989, a Universidade da Beira Interior criou a licenciatura em Comunicação Social, com a duração de cinco anos (Canavilhas, 2009). Neste ano, o Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração, em Aveiro, lançou o bacharelado em Jornalismo e a Universidade Autónoma de Lisboa a licenciatura em Ciências da Comunicação, a primeira numa faculdade privada (Teixeira, 2012). Se a década de oitenta se carateriza pela criação de cursos nas faculdades públicas e centros de formação profissional, a década seguinte ficou marcada pelo surgimento de cursos do ensino politécnico (Teixeira, 2012). No entanto, as opiniões em relação à formação de jornalistas ainda se dividiam, principalmente porque a maioria dos cursos apresentava uma formação genérica em comunicação. Nesta altura, já se notava diferença entre o ensino praticado nas universidades e nos institutos politécnicos. Enquanto as universidades eram mais teóricas, os politécnicos focaram-se na vertente prática (Graça, 2007). Por outro lado, o Tratado de Bolonha originou transformações na educação superior. As distinções entre o ensino universitário e politécnico deixaram de existir e as 38 licenciaturas passaram a chamar-se cursos de 1º ciclo, com a duração de três anos, menos dois anos do que o habitual (Graça, 2007). A redução do tempo nas licenciaturas fez com que muitos estudantes optassem pela continuação dos estudos superiores, para o segundo ciclo, o mestrado, para que se sentissem preparados e habilitados para o mercado de trabalho (Teixeira, 2012). As vagas para os cursos nas faculdades públicas eram todas preenchidas e as médias eram elevadas (Pinto, 2004). Em 2010, existiam 32 cursos na área: 17 no ensino público e 15 no privado. As faculdades públicas tinham disponibilizado 491 vagas na universidade e 390 no politécnico (Teixeira, 2012). No entanto, as designações dos cursos nesta área vão desde Jornalismo, às Ciências da Comunicação, Comunicação Social e outras variantes. “Os planos curriculares mostram que, apesar de algumas reestruturações, ainda existe muita confusão no reino do ensino do jornalismo. Ou será melhor dizer Comunicação? Comunicação Social? Ciências da Comunicação?” (Teixeira, 2012, p. 417). Para o autor, com duas ou três disciplinas específicas de jornalista é difícil dar uma formação adequada e eficaz (Teixeira, 2012). As Ciências da Comunicação são a matriz dominante da área: 18 dos 27 cursos da área identificados por Pedro Coelho, numa investigação à formação académica do jornalismo em Portugal, são de Ciências da Comunicação (Coelho, 2013). Seja qual for o nome, os cursos da área de jornalismo têm várias cadeiras da área das ciências sociais, ou seja, “gerais”, “a disciplina tradicional”, como o caso de “história” no curso de história. Os cursos na área do jornalismo incluem, por exemplo, sociologia, que ajuda os alunos a entender a importância da profissão para a sociedade, ou política para perceberem o relevo da formação de opinião (de Burgh, 2003). No entanto Carla Baptista, professora da NOVA FCSH reconheceu, em entrevista a Coelho (2013) que o programa das unidades curriculares depende do perfil profissional dos docentes que a lecionam e apelou a diálogo entre os professores para passar a haver complementaridade entre os conteúdos lecionados, em vez de repetições. Aliás, houve alunos a corroborar esta ideia: falaram em “cadeiras soltas”, em que não conseguiam 39 fazer a articulação entre as cadeiras teóricas e as cadeiras práticas, e na dificuldade de os professores enquadrarem as matérias em contemporâneos (Coelho, 2013). 3.2. QUAL É O CAMINHO CERTO PARA A FORMAÇÃO DE JORNALISTAS? A dúvida entre a teoria e a prática é um tema recorrente quando se fala em formação no jornalismo (Pinto, 2004). “O debate em torno do modelo mais adequado para o ensino do jornalismo tem sido um ato falhado. Se o avaliarmos do ponto de vista dos resultados: de facto, não há consenso sobre o currículo ideal” (Marinho, 2007, p. 1). A relação entre o jornalismo e a academia sempre foi um ponto de desacordo entre vários investigadores. Não só em Portugal, como no mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, estas diferentes opiniões sobre o caminho certo do ensino do jornalismo originaram debates na viragem do século e ainda hoje suscitam dúvidas (Hermann, 2017). Aliás, percebe-se que houve sempre discordância em relação ao ensino superior do jornalismo, uma vez que primeira investigação sueca sobre este tema, em 1960, teve como objetivo resolver problemas nas universidades causados pelo sistema educativo (Gardeström, 2017). Na Columbia University houve um caso curioso. O Presidente da universidade adiou a seleção de um novo reitor, com o objetivo de “clarificar o que deve ser a visão de uma escola de jornalismo moderna, na era da informação em constante evolução que vivemos”. Para Lee Bollinger, ensinar o ofício era insuficiente no contexto de uma grande universidade. Por isso, criou um grupo de trabalho para debater o rumo da Graduate School of Journalism com alunos, professores e investigadores e um webforum, “Zoned for Debate”. O debate acabou mesmo por chegar a órgãos de comunicação como o New York Times ou o Wall Street Journal (Marinho, 2007). Por outro lado, “é comum a discussão sobre o ensino em jornalismo desenrolarse em torno das dicotomias teoria/prática ou ensino académico/ensino orientado para o exercício de competências ou ainda a questão de saber se o jornalismo deverá ser entendido enquanto campo de estudo, investigação e ensino autónomo ou como uma parte da área científica das ciências da comunicação” (Marinho, 2007, p. 5) 40 A educação em jornalismo é vista, por alguns teóricos, como base de conhecimento para futuros jornalistas (Josephi, 2009). Querem dizer que sem uma preparação ética, sociológica e cultural, adquirida no ensino superior, o jornalista não está preparado para exercer a profissão (Correia, 1997). Para Fidalgo (2001), apesar de a prática ser essencial, os alunos precisam da preparação teórica do curso. O mesmo defende Hugo de Burgh, que afirma que as disciplinas mais gerais, como política, direito e sociologia, “contribuem para formar cidadãos conscientes e capazes de contribuir para a vida intelectual e cultural da sociedade” 8 (de Burgh, 2003, p. 98). Coelho (2013, p. 125), defende que “o futuro do jornalismo parece depender, cada vez mais, do investimento da universidade e de todos os agentes que promovem e legitimam a aquisição do saber”. Esta ideia era também defendida por Cebrián, que dizia que há técnicas essenciais que um jornalista tem de conhecer no momento de exercer a profissão e que se adquirem na faculdade (Cebrián, 2014). Aliás, há mesmo teóricos que defendem que se os professores de jornalismo incluírem nos planos curriculares disciplinas que desenvolvam as competências intelectuais dos alunos, como o raciocínio e a contextualização, em vez de apostarem nas competências práticas, a qualidade do jornalismo vai elevar-se (Fourie, 2005). Do outro lado da barricada estão os defensores da prática, que defendem que o talento jornalístico só pode ser adquirido através da prática e da experiência (Correia, 1997). Para Pinto (2004), onde se aprende verdadeiramente a praticar jornalismo é nos diferentes contextos das redações e das empresas jornalísticas. Por isso, “a criação de pontes entre a universidade e o mercado impõe-se, assim, como um dos pilares em que deve assentar a reestruturação do campo jornalístico” (Coelho, 2013, p. 125). A relação entre a teoria e a prática pode ser uma das soluções para o ensino superior do jornalismo (Mensing, 2010), uma vez que os estudantes de jornalismo deve ser dado “uma caixa de ferramentas, em vez de “apenas conhecimento” (Hermann, 2017). 8 Tradução livre 41 Por exemplo, nos Estados Unidos, no primeiro curso superior de jornalismo, que surgiu em 1934, os alunos trabalhavam todos os dias na redação da própria faculdade, tinha cursos obrigatórios e aprendiam edição, produção e técnicas de reportagem. Os estudantes eram considerados pequenos jornalistas que viviam naquele ano num ambiente de redação (Tucher, 2011). O investigador Pedro Coelho mostrou-se preocupado depois da investigação das licenciaturas à área do Jornalismo/ Ciências da Comunicação e apelou a uma reconstrução do jornalismo, através de pontes entre a academia e o mercado e na recuperação de valores. Para o autor, a academia devia estar atenta ao jornalismo do presente, à crise de sustentabilidade, das audiências, ao papel democrático do jornalismo ultrapassado pela notícia que vende e entretém. O mesmo estudo concluiu haver um fosso entre o mercado de trabalho e a académica, realçado pelos alunos através de uma “deficiente articulação entre a teoria e a prática”. Por outro lado, as caraterísticas do corpo docente, com ligações precárias ao estabelecimento de ensino, não permitem que o jornalismo se transforme numa área de estudo com capacidade para reconstruir a profissão (Coelho, 2013, p. 524). Aliás, esta é já uma preocupação com mais de 20 anos no setor: segundo Correia (1997), neste ano, o ensino do jornalismo era já uma preocupação cada vez maior para os jornalistas. Os profesores desta área têm a responsabilidade de entender a dinâmica da comunidade e desafiar os alunos a desenvolver novas ideias no jornalismo centradas em redes de informação e novas práticas de jornalismo (Mensing, 2010). Para Donica Mensing, o ensino do jornalismo não deve passar pela produção de notícias a níveis industriais, mas por um jornalismo de comunidade, que identifique e esclareça os interesses comuns e, dessa forma, construa espírito crítico nas sociedades. Para a autora, “da mesma forma que o objetivo dos programas dos cursos de engenharia não é preparar os estudantes para o primeiro emprego em grandes empresas mas construir pontes sólidas, o objetivo da formação em jornalismo 48 às exigências das redações de televisão. Esta hipótese surge no seguimento da constatação de vários autores, abordados no capítulo III: Ensino Superior do Jornalismo. 4.2. QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO Para testar esta hipótese, foram formuladas 4 perguntas de investigação: 1. Qual é o peso e as características das unidades curriculares sobre jornalismo televisivo nos planos curriculares dos mestrados em jornalismo do país? 2. Que competências são necessárias para o trabalho jornalístico em contexto de redação de televisão, na perceção dos coordenadores destes cursos de mestrado? 3. Que competências são necessárias para o trabalho jornalístico em contexto de redação de televisão, na perceção dos coordenadores de estágios no local? 4. Que competências são necessárias para o trabalho jornalístico em contexto de redação de televisão, na perceção de alunos que já terminaram o estágio? 4.3. METODOLOGIA Para encontrar resposta às questões de investigação, definiu-se uma metodologia mista, dividida em cinco momentos. A análise qualitativa possibilita compreender a forma como os sujeitos executam ações (Moreira, 2007), através de uma recolha de aspetos menos imediatos e com mais profundidade em relação ao que está em análise, com uma sustentação e interpretação (Espírito Santo, 2010). A somar a isto, a análise quantitativa, que permite o conhecimento sistemático e comparável de fenómenos (Moreira, 2007), ou seja, permite captar a frequência com que se verificam determinadas tendências e fenómenos (Espírito Santo, 2010). Numa primeira fase, foi feita uma análise de conteúdo aos planos curriculares dos mestrados em Jornalismo ou Ciências da Comunicação/ Comunicação Social nas faculdades do país, identificadas no subcapítulo seguinte, com o objetivo de perceber o peso e as caraterísticas das unidades curriculares sobre jornalismo televisivo nos planos curriculares dos cursos. Os elementos recolhidos foram analisados no programa SPSS Statistics Data. 49 De seguida, foram realizadas entrevistas semiestruturadas a coordenadores de estagiários da RTP e SIC, uma vez que são os responsáveis pelos alunos durante o tempo de estágio. A ideia foi identificar as tarefas dos estagiários durante o percurso nos órgãos de comunicação e as competências necessárias para o trabalho jornalístico numa redação de televisão, na perceção dos coordenadores de estágios. Nesse sentido, achou-se pertinente entrevistar a jornalista Natália Oliveira, da RTP, o jornalista André Antunes, da SIC. A jornalista da TVI responsável pelos estagiários foi também contactada, no entanto, não obtivemos resposta. O jornalista e coordenador de estagiários da SIC foi abordado pessoalmente, enquanto às restantes duas jornalistas foi enviado um email prévio a solicitar a entrevista. A jornalista da RTP sugeriu que as questões fossem enviadas por email. Esta técnica permite que o investigador conduza a entrevista consoante o seu interesse, que coloque novas perguntas durante a conversa além das questões previamente definidas (Daymond & Holloway, 2005). Desta forma, é possível “uma grande riqueza informativa quanto às expressões e enfoque dos entrevistados” (Moreira, 2007, p. 211). Em terceiro lugar, realizou-se um inquérito por questionário a alunos dos mestrados em jornalismo que estagiaram em televisão 12 . Os alunos tiveram conhecimento do inquérito através de contacto pessoal via Facebook ou LinkedIn ou nas páginas de turma no Facebook, depois de serem identificados numa análise nos repositórios das faculdades aos relatórios de estágio dos últimos 3 anos. No total, obtiveram-se 32 respostas. Esta técnica teve com objetivo perceber as dificuldades e desafios que encontraram durante o estágio, ou seja, as competências que acham essenciais para o trabalho numa redação de televisão. Os resultados do inquérito foram analisados no programa SPSS Statistics Data, à semelhança da análise de conteúdo. Em quarto lugar, foram realizadas entrevistas semiestruturadas a coordenadores dos mestrados para perceber a evolução e as lacunas dos cursos e a perceção que têm 12 Ver anexo B 50 das competências necessárias para o trabalho numa redação de televisão 13 . Neste caso, foram contactados previamente por email 8 coordenadores de mestrados, abaixo mencionados: Tabela 3 - Coordenadores de Mestrados em Jornalismo/ Ciências da Comunicação Docentes Mestrado Faculdade Público/Privado António Granado Jornalismo NOVA FCSH Universidade Pública Maria José Pereira da Mata Jornalismo ESCS Politécnico Público José Ricardo Pinto Carvalheiro Jornalismo Universidade da Beira Interior Universidade Pública João José Figueira da Silva Jornalismo e Comunicação Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Universidade Pública Paulo Martins Comunicação Social (variante Jornalismo) ISCSP – Universidade de Lisboa Universidade Pública Fernando Vasco Moreira Ribeiro Ciências da Comunicação (variante Estudo dos Media e Jornalismo) Faculdade de Letras da Universidade do Porto Universidade Pública Sandra Tuna Ciências da Comunicação (variante Jornalismo) Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Universidade Fernando Pessoa Universidade Privada Catarina Duff Burnay Media e Jornalismo FCH – Universidade Católica Universidade Privada 13 Ver anexo C 51 Por último, foi realizada uma entrevista semiestruturada ao jornalista Pedro Coelho, uma vez que tem a perceção académica porque é professor universitário na NOVA FCSH; a perceção no papel de jornalista, visto que trabalha em contexto de redação de televisão, na SIC; e “especialista” em formação académica em jornalismo, por ser autor do estudo: “A formação académica para o jornalismo do século XXI: sobre questões de prática e técnica; Jornalismo e mercado – os novos desafios colocados à formação” 14 . De forma a esclarecer a relação entre as técnicas de recolha de informação e os objetivos, construiu-se a seguinte tabela: Tabela 4 – Técnicas e objetivos Técnicas Tipo de metodologia Fonte Pergunta de Partida Análise de conteúdo Quantitativa Websites das Faculdades com Mestrados em Jornalismo e Ciências da Comunicação Qual é o peso e as características das unidades curriculares sobre jornalismo televisivo nos planos curriculares dos mestrados em jornalismo do país? Entrevistas semiestruturadas a coordenadores de estágios Qualitativa Coordenadores de estagiários Que competências são necessárias para o trabalho jornalístico em contexto de redação de televisão, na perceção dos coordenadores de estágios no local? 14 Ver anexo D 52 Inquérito a alunos Quantitativa Estudantes dos mestrados em jornalismo que tenham estagiado em televisão Que competências são necessárias para o trabalho jornalístico em contexto de redação de televisão, na perceção de alunos que já terminaram o estágio? Entrevistas semiestruturadas a coordenadores de mestrados Qualitativa Coordenadores dos mestrados Que competências são necessárias para o trabalho jornalístico em contexto de redação de televisão, na perceção dos coordenadores destes cursos de mestrado? Entrevista semiestruturada ao jornalista e professor universitário Pedro Coelho Qualitativa Jornalista e autor do estudo “A formação académica para o jornalismo do século XXI: sobre questões de prática e técnica; Jornalismo e mercado – os novos desafios colocados à formação” Fazer a ponte entre os vários objetivos 53 4.3.1. CORPUS O corpus consiste nos elementos em que a análise de conteúdo se vai focar. Para resultar, tem de ser delimitada através da formulação de uma pergunta de partida (Cunha, 2012). Neste caso: “Qual é o peso e as características das unidades curriculares sobre jornalismo televisivo nos planos curriculares dos mestrados em jornalismo do país?” Primeiramente, na análise aos mestrados é importante reunir os mestrados em jornalismo ou áreas próximas, como Ciências da Comunicação e Comunicação Social, com a variante de jornalismo, abaixo na tabela: Tabela 5 – Mestrados em Jornalismo ou variante em Jornalismo Mestrado Faculdade Público/Privado Número de Vagas Jornalismo FCSH – Universidade Nova de Lisboa Universidade Pública 25 Jornalismo ESCS Politécnico Público 30 Jornalismo Universidade da Beira Interior Universidade Pública 20 Jornalismo e Comunicação Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Universidade Pública 25 Comunicação Social (variante Jornalismo) ISCSP – Universidade de Lisboa Universidade Pública 30 Ciências da Comunicação (variante Estudo dos Media e Jornalismo) Faculdade de Letras da Universidade do Porto Universidade Pública 65 Ciências da Comunicação (variante Jornalismo) Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Universidade Fernando Pessoa Universidade Privada 15 Ciências da Comunicação FCH – Universidade Católica Universidade Privada 25 54 (variante Media e Jornalismo) Fonte: Hemeroteca Municipal de Lisboa (http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/ComunicacaoSocial/Universidades.htm) Assim, a análise de conteúdo a mestrados será feita a 8 mestrados: em faculdades públicas, a 3 em Jornalismo, 1 em Jornalismo e Comunicação, 1 em Comunicação Social, e 1 em Ciências da Comunicação; em faculdades privadas, 1 em Ciências da Comunicação e 1 em Media e Jornalismo. 4.3.2. VARIÁVEIS DE ANÁLISE De forma a facilitar a recolha de dados na análise de conteúdo, foi feita uma tabela com as várias variáveis definidas. Tabela 6 – Manual de Codificação da análise de conteúdo aos mestrados Variáveis Opções de resposta Universidade 1. Pública 2. Privada Tipo Mestrado 1. Jornalismo 2. Ciências da Comunicação com variante 3. Comunicação Social Número de vagas no último ano letivo Número Número de Unidades Curriculares do mestrado Número Tipo de Unidades Curriculares do mestrado 1. Teóricas 2. Práticas 3. Teórico-práticas 4. Sem Informação Número de Unidades Curriculares relacionadas com televisão Número 55 Tipo de Unidades Curriculares relacionadas com televisão 1. Teóricas 2. Práticas 3. Teórico-práticas 4. Sem informação Professores 1. Jornalistas no ativo 2. Investigadores 3. Jornalistas no ativo e investigadores 4. Sem informação Créditos das Unidades Curriculares da Componente Letiva Créditos das Unidades Curriculares da Componente Não Letiva Número de Semestres 56 CAPÍTULO V: ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS 5.1. A FORMAÇÃO ACADÉMICA E PESO NOS PLANOS CURRICULARES DOS MESTRADOS 5.1.1. MESTRADOS: BILHETE DE IDENTIDADE Gráfico 1 - Mestrados em Jornalismo ou Comunicação De acordo com o gráfico 1, conclui-se que, dos 8 mestrados identificados, 5 são na área das Ciências da Comunicação e 3 em Jornalismo. Nos 5 mestrados em Ciências da Comunicação, 1 deles é denominado “Comunicação Social”, com as vertentes de Comunicação Estratégica e Jornalismo, 1 é em “Jornalismo e Comunicação” e os restantes 3 são em Ciências da Comunicação com variante de Estudo os Media e Jornalismo, Jornalismo e Media e Jornalismo, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Universidade Fernando Pessoa e Universidade Católica, respetivamente. Tal como identificou Coelho (2013), no estudo ao primeiro ciclo de mestrados, também a área de Ciências da Comunicação é a matriz dominante desta área. A acrescentar a isto, na área da Comunicação há vários nomes para os cursos e para as vertentes, o que significa que continua a haver confusão no que diz respeito à denominação dos cursos, uma das questões levantadas por Teixeira (2012): “(…) será 57 melhor dizer Comunicação? Comunicação Social? Ciências da Comunicação?” (Teixeira, 2012, p. 417). Paulo Martins, coordenador da vertente de Jornalismo do mestrado em Comunicação Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, defende que as licenciaturas deviam ser mais genéricas, de forma a serem a base dos estudos e abrirem caminhos, e os mestrados mais específicos em determinada área, como o caso de mestrados em Jornalismo separados de Comunicação Estratégica e Relações Públicas. O coordenador do mestrado acha que os alunos ainda não têm uma “noção exata” do que pretendem fazer quando estão no primeiro ciclo e acrescenta que neste momento devem ser, no máximo, 10% os alunos que frequentam a licenciatura de Ciências da Comunicação e querem ser jornalistas 15 . Esta ideia é semelhante à de Pedro Coelho, que admite a possibilidade de um aluno fazer o primeiro ciclo de estudos num curso mais abrangente e no segundo ciclo fechar o ângulo, com conhecimentos suficientemente próximos do jornalismo. “Quando chega ao mestrado, o aluno vai claramente trabalhar mais próximo do jornalismo” 16 , diz. No que diz respeito ao mestrado em Comunicação Social, Paulo Martins realça que a vertente de Jornalismo é menos atrativa em comparação com a vertente de Comunicação Estratégica 17 . Isto acontece porque a vertente de Comunicação Estratégica do ISCSP coloca o mestrado entre os melhores da Europa e até mesmo o melhor na área da Comunicação Estratégica, através de um ranking, o “Master Ranking 2014-2015 - The Best Masters and MBA worldwide”, que engloba os 4 mil melhores cursos de mestrado e MBA do mundo. Este ranking foi promovido pela Eduniversal, consultora francesa de Ensino Superior (ISCSP, 2017). O coordenador do mestrado em Jornalismo da NOVA FCSH, António Granado, diz que o mestrado em Jornalismo foi criado com o objetivo de ser profissionalizante, com a intenção de preparar os alunos para o mercado de trabalho, enquanto, na opinião 15 Entrevista no anexo C 16 Entrevista no anexo D 17 Entrevista no anexo C 64 que trabalham no terreno. António Granado acrescenta ainda que ao longo dos anos tem sentido que o mestrado tem adquirido credibilidade e que o número de alunos interessados tem aumentado nos últimos anos. Foi o caso do ano-letivo 2018/2019: houve três vezes mais alunos – de licenciaturas do país inteiro - a candidatarem-se ao mestrado do que vagas disponíveis (25). O coordenador avança ainda que muitos alunos deste mestrado têm conseguido ficar a trabalhar nos órgãos de comunicação social 26 . Em relação ao mestrado em jornalismo na Escola Superior de Comunicação, a coordenadora do mestrado explica que a componente letiva do mestrado é apenas de 3 semestres e que por isso não há espaço para criar novas cadeiras. No entanto, diz que os alunos têm mostrado mais interesse na área de televisão alo longo dos anos 27 . Maria José Mata acrescenta que o plano curricular do mestrado resulta de uma discussão prévia, que passa por discussão interna e por uma auscultação de mercado com pessoas ligadas ao jornalismo e a entidades empregadoras 28 . Já nos mestrados de Comunicação, mais concretamente o de Comunicação Social, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, o coordenador da vertente de jornalismo diz que este ano o número de alunos dessa vertente aumentou e houve mesmo casos de alunos a passarem da vertente de Comunicação Estratégica que, até agora, era a principal referência do mestrado, para a de Jornalismo 29 . António Granado diz que não fizeram sugestão de alteração à A3ES - Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, mas conta que há pouco tempo mudaram o mestrado de 2 dias por semana – que tinha sido definido para atrair estudantes de outras cidades – para 3 dias. Isto porque o facto de os alunos terem aulas só 2 dias significava que num desses dias a carga horária fosse muita, uma vez que tinham de ter aulas das 18h à 00h. Já Maria José Mata, coordenadora do mestrado em Jornalismo da ESCS, conta que, depois da avaliação da agência, tomarão opções. Em relação às lacunas do mestrado em jornalismo na NOVA FCSH, António Granado considera o horário pós-laboral do curso uma barreira para cadeiras ainda mais 26 Entrevista no anexo C 27 Entrevista no anexo C 28 Entrevista no anexo C 29 Entrevista no anexo C 65 práticas, como, por exemplo, uma simulação de ambiente de redação, onde os alunos escrevessem artigos para uma publicação online. À semelhança do que já acontece desde o século passado nos Estados unidos, em que os alunos trabalham todos os dias na redação da faculdade e têm cursos obrigatórios para aprenderem edição, produção e técnicas de reportagem (Tucher, 2011). Já Vasco Ribeiro, coordenador do Mestrado em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto, avança que está prevista uma reestruturação no mestrado, que em princípio entrará em vigor no ano-letivo de 2020/2021. No entanto, a mudança será no ramo de Comunicação Política. 5.1.5. OPINIÃO DOS ALUNOS Gráfico 7 - Importância da formação académica para a profissão Dos estudantes de jornalismo que responderam ao inquérito, 12 concordam que a formação académica é essencial para o exercício da profissão e 4 concordam totalmente. Já 2, apesar de em menor número, discordam totalmente, e 3 discordam. Há ainda 5 que não concordam nem discordam. Este facto é curioso, porque apesar de os mestrados em jornalismo serem mais práticos que os de comunicação, há 2 alunos que não consideram a formação académica essencial. No que diz respeito aos alunos 66 dos mestrados em Comunicação, 3 concordam totalmente, 2 concordam e apenas 1 discorda. Gráfico 8 - Satisfação em relação ao mestrado No que diz respeito ao nível de satisfação dos alunos em relação aos mestrados, 10 alunos de jornalismo estão satisfeitos com o curso; 7 estão pouco satisfeitos; 7 estão muito satisfeitos; 1 está totalmente satisfeito; e 1 não está nada satisfeito. Já no mestrado em comunicação, os valores não variam muito: 2 alunos estão satisfeitos, 2 estão muito satisfeitos; 1 está totalmente satisfeito; e 1 não está nada satisfeito. 5.2. RELAÇÃO ENTRE A ACADEMIA E OS ESTÁGIOS Os alunos que terminam agora os cursos queixam-se da precariedade e fragilidade desta profissão (Andringa, 2014). Prova disso são os vários estágios acumulados por alunos e a as poucas hipóteses de contratação no fim do estágio (Gomes, Neves, & Brites, 2014). Aliás, em 2010, o então presidente da ERC, admitiu ao jornal Público que as condições de acesso à profissão tinham piorado (Lopes, 2010). De acordo com Natália Oliveira, jornalista da RTP, a duração dos estágios no órgão de comunicação social tem a ver com os protocolos entre a academia/centro de 67 estágios e as faculdades ou outras escolas ou com o IEFP no caso de estágio profissionais. A jornalista acrescentou ainda que os alunos podem estagiar por todas as áreas de Direção de Informação e por áreas específicas que tenham interesse. Na SIC, segundo André Antunes, coordenador de estagiários do Primeiro Jornal, os alunos não têm o acompanhamento que deviam ter “por escassez de tempo” e de “recursos”, mas o jornalista reconhece que faz esforços nesse sentido: marca-lhes saídas em reportagem e pede que os textos dos estagiários sejam revistos por jornalistas com experiência 30 . É importante que os textos sejam revistos por jornalistas séniores, uma vez que os textos dos estagiários vão ser uma fonte de construção social (Brandão, 2010). Aliás, Coelho (2013) já referia na investigação que fez às licenciaturas da área do jornalismo, que os estudantes eram muitas vezes surpreendidos pela falta de tempo dos jornalistas para os acompanharem durante o estágio. Na RTP, os estagiários são “observadores ativos”, como classifica a responsável pelos estagiários Natália Oliveira: “aprendem observando e participando nas tarefas desempenhadas pelos profissionais das equipas em que estão integradas” 31 . São essas tarefas que vamos identificar no subcapítulo seguinte: 30 Entrevista no anexo A 31 Entrevista no anexo A 68 5.2.1. ESTÁGIOS: BILHETE DE IDENTIDADE Gráfico 9 – Entrevistas Em relação às tarefas desempenhadas pelos alunos de mestrado durante o período de estágio, a entrevista é uma tarefa realizada por muitos estagiários: 16 alunos realizaram-na com muita frequência; 11 alunos fizeram pelo menos 1 vez e 5 alunos fizeram “com frequência” durante o estágio. Não houve ninguém que tivesse respondido que nunca fez uma entrevista, o que significa que esta foi uma tarefa desempenhada por todos os estagiários. André Antunes, da SIC, diz que, numa fase inicial do estágio, os alunos vão fazer entrevistas e recolher depoimentos para peças de jornalista e defende que às vezes até são entrevistas com “com importância noticiosa relevante”, para peças do início do jornal. Neste caso, são entrevistas gravadas para posteriormente serem utilizadas em peças ou reportagens de jornalistas ou dos estagiários. Isto significa que os estagiários são importantes nas redações, pelo menos na SIC, onde sabemos que isto acontece, uma vez que fazem entrevistas para peças no início do jornal, com uma grande responsabilidade social e informação forte (Costa, 2011) porque os cidadãos atribuem maior importância aos conteúdos do início do jornal (Brandão, 2010). 69 Gráfico 10 - Off Já a realização de offs é diferente da realização de entrevistas: 12 alunos disseram que desempenharam esta tarefa com muita frequência, 9 com frequência e 7 fizeram pelo menos uma vez. No entanto, há 4 alunos que nunca o fizeram. O que significa que a entrevista é pedida mais vezes que os offs e que esta última tarefa nem sempre é pedida aos estagiários. Conclui-se, por isso, que apesar de ser o género mais simples, curto e que a maioria das vezes não implica sair da redação (Oliveira, 2007), nem sempre é pedido aos estagiários. Gráfico 11 - Peças 70 No que diz respeito a peças, a maioria dos estagiários dizem que o fizeram com muita frequência; 6 alunos dizem que fizeram com frequência; 7 fizeram pelo menos 1 vez; e 1 aluno sabe o que é mas nunca fez. Sobre este género jornalístico, André Antunes da SIC conta que tem recebido estagiários muito bons nos últimos meses: “Temos tido casos nos últimos meses de trabalhos muito interessantes feitos por estagiários, peças muito boas, peças que se calhar feitas por alguns jornalistas seniores não ficariam tão boas” O jornalista da SIC conta ainda que vai percebendo o ritmo e o gosto dos estagiários e em função disso, distribui as peças pelos 2 ou 3 estagiários que tem no Primeiro Jornal; no entanto, salienta que tenta que sejam dadas as mesmas oportunidades aos estagiários para que possam crescer 32 . Por outro lado, confessa que quando dá uma peça importante a um estagiário tenta controlar o trabalho que vai sendo feito: “Se é para sair em reportagem com quem é que vai filmar, na edição tento que o editor de imagem seja mais rápido e experiente”. Gráfico 12 - Reportagem 32 Entrevista no anexo A 71 Em relação à reportagem, 8 alunos disseram que nunca fizeram durante o estágio; 6 disseram que fizeram pelo menos 1 vez; 7 afirmaram que fazem com frequência; e 11 com muita frequência. André Antunes, coordenador do Primeiro Jornal da SIC, aponta a reportagem como uma das tarefas que dá aos estagiários: “Quando começam a crescer mais um pouco, dou-lhes algumas reportagens um pouco mais ligeiras para começarem e depois vamos subindo, vamos crescendo”. No entanto, o jornalista considera que no fim do estágio, um aluno ainda tem um longo caminho a percorrer, “muito campo para crescer, para ser melhor contador e histórias” 33 . Neste momento, está a decorrer o projeto REC – Repórteres em Construção, um projeto que Pedro Coelho, da SIC e da NOVA FCSH, e Paulo Martins, do ISCSP, referiram. Segundo o jornalista da SIC, o projeto não substitui o mundo profissional nem a académica e surge como “antecipação ao que o meio profissional não consegue dar”. O REC aposta na reportagem, um género em desuso nos órgãos de comunicação tradicionais, e atribui aos alunos competências que não trazem da formação académica. “É muito centrada naquilo que mais falha na área jornalística, que é a reportagem”, remata. Até porque, já defendia Grandim (2000), é o género jornalístico mais nobre”. Paulo Martins, do ISCSP, acrescenta que o projeto nasceu do Congresso dos Jornalistas e tornou-se numa iniciativa dos professores com ligação ao jornalismo e alunos que queiram seguir esta área. A ideia é dar-lhes experiências que os aproximam do mercado trabalho. Por outro lado, Pedro Coelho diz ainda que a maior parte dos cursos de jornalismo aposta na notícia – objetiva, simples, “o mais próximo das ciências exatas” e que são raras as vezes em que aprendem a trabalhar a reportagem. Para o jornalista, a reportagem constrói-se de uma forma “muito mais rica” e “muito mais criativa”, uma vez que “o jornalista tem de levantar o rabo da cadeira e ir para o lugar onde as coisas 33 Entrevista no Anexo A 72 acontecem, tem de mergulhar na ação” 34 . Isto corresponde ao que diz Oliveira (2007), que afirma que a investigação e a produção nas reportagens são demoradas. Gráfico 13 - Direto/ Falso Direto De todos os géneros jornalísticos, os diretos/ falsos diretos é a tarefa menos pedida aos estagiários. Como podemos observar no gráfico 13, 16 alunos nunca fizeram e 8 fizeram pelo menos 1 vez. Só 8 é que fazem com frequência (4) ou com muita frequência (4). No caso da SIC, por exemplo, André Antunes diz que os alunos acabam os estágios sem fazer um direto 35 . Isto porque é uma função complexa e arriscada, em que são necessárias determinadas caraterísticas no timbre de voz, atitude e expressão corporal (Jespers, 1998), para que os espectadores se sintam parte integrante do cenário, ou seja, sentirem que estão no local (Martins, 2012). Oliveira (2007) diz mesmo que é um dos géneros mais desafiadores e complexos de todos, por isso percebe-se que a maioria dos estagiários nunca tenham realizado esta função. 34 Entrevista no anexo D 35 Entrevista no anexo A 73 5.2.2. COMPETÊNCIAS NECESSÁRIAS AO EXERCÍCIO DA PROFISSÃO NA ÓTICA DOS JORNALISTAS COORDENADORES DOS ESTAGIÁRIOS Para Natália Oliveira, da RTP, a aptidão mais importante é o estagiário ser competente nas tarefas que desempenha. No entanto, também considera que as caraterísticas pessoais do estagiário são valorizadas 36 . O jornalista e professor universitário Pedro Coelho defende que as caraterísticas pessoais e as competências que se vão adquirindo com a experiência têm de “andar juntas”. Isto significa que é preciso disponibilidade para receber conhecimento e essa disponibilidade é um ato de caráter: “A associação entre caraterísticas pessoais e aquisição de conhecimentos parece-me determinante para o sucesso”, acrescenta. Já André Antunes, da SIC, defende que as caraterísticas pessoais são mais importantes do que as que se adquirem na faculdade e que “acima de tudo” tem de ser interessado e interessante, curioso, querer aprender e ser humilde. “É com a humildade que se aprende”, defende 37 . Uma ideia corroborada por Pedro Coelho: “Desde logo uma que me parece fundamental, que é a humildade. Aquilo que os alunos parece que não trazem de casa. Ter caráter à prova de bala. A humildade para quem começa é o primeiro ponto da viagem. Ser humilde, acreditar que não sabem tudo, pelo contrário, que sabem muito pouco, e terem uma enorme disponibilidade para aprender”. À semelhança do estudo aos jornalistas flamengos, que concluiu que dão mais importância às atitudes e personalidade do que à produção de notícias (Opgenhaffen, d'Haenens, & Corten, 2013), em Portugal, caraterísticas pessoais, como a humildade, curiosidade e disponibilidade são também as mais valorizadas. Ainda que tenham de estar ligadas a competências no exercício das tarefas. Estas competências são, segundo Carpenter, necessárias em todas as áreas (Himma-Kadakas & Palmiste, 2018) e dizem respeito às habilidades interpessoais e à capacidade de mudança e aprendizagem, apresentadas, em 2010, por David Finegold e Alexis Spencer Notabartolo. 36 Entrevista no anexo A 37 Entrevista no anexo A 80 aplicabilidade para o mestrado de trabalho, acredito que não tenham porque há uma concentração dessa aplicabilidade no primeiro ciclo”. Neste sentido, tal como defende Coelho (2013), a universidade precisa de investir nos alunos e em formas de promover e legitimar a aquisição do saber. Aliás, é preciso redefinir as bases do jornalismo e perceber o caminho certo para a formação universitária nesta área. É preciso aproximar a teoria dos cursos, sejam eles do primeiro ou do segundo ciclo, à prática. Às exigências da profissão. O futuro do jornalismo depende disso. E o futuro dos alunos, que ambicionam trabalhar em jornalismo televisivo, também. 81 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Andringa, D. (18 de outubro de 2012). (TSF, Entrevistador) Andringa, D. (2014). Imaginário e realidade. Em J. Rebelo, As novas gerações de jornalistas em Portugal (pp. 73 - 81). Lisboa: Mundos Sociais. Antunes, A. (2017). O jornalismo de proximidade na televisão nacional: O caso da SIC. (C. Borges, Entrevistador) Obtido de https://run.unl.pt/bitstream/10362/24820/1/Relat%C3%B3rio_est%C3%A1gio_ Cristiana_Borges_30_06_2017.pdf Bastos, H. (2014). 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New York: Oxford University Press. 88 ÍNDICE DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 - MESTRADOS EM JORNALISMO OU COMUNICAÇÃO ................................. 56 GRÁFICO 2 - MESTRADOS E INSTITUIÇÕES DE ENSINO .................................................. 58 GRÁFICO 3 - SATISFAÇÃO DOS ALUNOS EM RELAÇÃO AO MESTRADO ......................... 59 GRÁFICO 4 - UNIDADES CURRICULARES RELACIONADAS COM JORNALISMO TELEVISIVO ........................................................................................................................................ 60 GRÁFICO 5 - ABORDAGEM DE JORNALISMO TELEVISIVO NA COMPONENTE LETIVA DO MESTRADO ..................................................................................................................... 62 GRÁFICO 6 - CORPO DOCENTE DO MESTRADO .............................................................. 63 GRÁFICO 7 - IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO ACADÉMICA PARA A PROFISSÃO ............. 65 GRÁFICO 8 - SATISFAÇÃO EM RELAÇÃO AO MESTRADO ............................................... 66 GRÁFICO 9 – ENTREVISTAS ............................................................................................. 68 GRÁFICO 10 - OFF ........................................................................................................... 69 GRÁFICO 11 - PEÇAS ....................................................................................................... 69 GRÁFICO 12 - REPORTAGEM .......................................................................................... 70 GRÁFICO 13 - DIRETO/ FALSO DIRETO ........................................................................... 72 89 ANEXO A – ENTREVISTAS A COORDENADORES DE ESTAGIÁRIOS NATÁLIA OLIVEIRA – COORDENADORA DE ESTAGIÁRIOS DA RTP 40 1. Na RTP, os estágios têm a duração de quanto tempo? NATÁLIA OLIVEIRA (NO) - Esta resposta tem que ser dada pela nossa Academia/Centro Estágio, uma vez que isso tem a ver com protocolos definidos entre esse serviço e as faculdades ou outras escolas quando são estágios curriculares ou ainda pelo IEFP quando são estágios profissionais. Por nós, Direção de Informação, não há um tempo definido para a duração do estágio. É a Academia que nos diz por quanto tempo vem o estagiário. 2. Por que secções podem passar os estagiários? NO - Por todas as áreas da Direção de Informação ou só por áreas específicas do interesse do estagiário. 3. Que funções desempenham os estagiários? NO - São observadores ativos. Aprendem observando e participando nas tarefas desempenhadas pelos profissionais das equipas em que são integrados. 4. Que competências tem de ter um estagiário para uma possível contratação? NO - As competências inerentes à função para a qual vai ser contratado. Como sabe, na RTP e na Direção de Informação há imensas categorias profissionais: jornalistas, repórteres de imagem, editores de imagem, técnicos…. Assim, as competências também são muito variadas. Obviamente que a primeira grande aptidão é ser competente nas tarefas que desempenha, qualidade que esperamos ter sido revelada no estágio que efetuou. 5. O que é mais valorizado no estagiário? As características pessoais ou as competências técnicas? NO – Ambas. 6. Numa altura em que o acesso à profissão é cada vez mais difícil, que papel tem o coordenador do estagiário para uma possível contratação? NO - A contratação não depende só da avaliação do coordenador de estágio mas obviamente que a avaliação e o desempenho demonstrado pelo estagiário levam a que, 40 Entrevista por email, por sugestão da jornalista 96 Masculino 2. Idade Menos de 20 anos Entre 20 e 24 anos Entre 25 e 29 Entre 30 e 34 35 ou mais 3. Licenciatura: Área de Jornalismo/ Comunicação Outra área 4. Mestrado: Jornalismo Comunicação com variante 5. No mestrado frequentou: Universidade Pública Universidade Privada 6. Local do estágio RTP SIC TVI Outro 7. Depois do estágio foi contratado? Sim Não 8. Assinale o grau de conhecimento que considera ter em relação às seguintes funções: 97 Não sei o que é Sei o que é mas nunca fiz Sei o que é e fiz pelo menos uma vez Sei o que é e fiz com frequência Sei o que é e fiz com muita frequência Entrevista Off Cortar vivos Peça Reportagem Direto/ falso direto Pivotar Edição de imagem/ som Sonorizar 9. Indique de 1 a 5, sendo 1 “Nenhuma satisfação” e 5 “Total Satisfação”, o nível de satisfação em relação à aprendizagem durante o estágio 10. Indique de 1 a 5, sendo 1 “Nenhuma satisfação” e 5 “Total Satisfação”, o nível de satisfação em relação ao plano de estudos do Mestrado 11. Assinale o grau de concordância em relação à perceção que tem sobre o jornalismo televisivo e os estágios em televisão: 98 Discordo totalmente Discordo Não concordo nem discordo Concordo Concordo Totalmente O estágio é fundamental para a formação dos alunos do Mestrado O mestrado prepara os alunos para o que é exigido no estágio Os alunos têm oportunidades para aprender durante o estágio Os alunos têm oportunidades para mostrar as capacidades durante o estágio No estágio foi necessário dominar ferramentas 99 técnicas para funções diferentes, como editar vídeo e/ou som, infografias, editar/ tirar fotografias Os estagiários são fundamentais nas redações Os estagiários têm poucas hipóteses de contratação no fim do estágio As caraterísticas pessoais são mais importantes que as capacidades que se vão adquirindo com o tempo A formação académica é 100 essencial para a profissão de jornalista 12. Indique de que forma a componente letiva do mestrado incidiu nas seguintes áreas do jornalismo: Nunca Poucas vezes Algumas vezes Com frequência Com muita frequência Imprensa Rádio Televisão Online ANEXO C – ENTREVISTAS A COORDENADORES DE MESTRADOS ANTÓNIO GRANADO – FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA 42 1. Como são selecionados os alunos para o mestrado? Têm preferência por alunos da área de Jornalismo/ Ciências da Comunicação ou de outras áreas? António Granado (AG) - Nós não fazemos qualquer distinção das áreas de proveniência dos alunos quando fazemos a seleção. O mestrado aceita selecionados e portanto, em qualquer área. Evidentemente que nos interessa a nota da licenciatura, como em todos os mestrados, e interessa-nos também o interesse que os alunos demonstram por vir a exercer a profissão de jornalista, não é? Porque este mestrado foi criado com o objetivo de preparar alunos para o mercado de trabalho e, nesse sentido, interessa-nos perceber pelo currículo da pessoa se está interessada em seguir para jornalismo. Fazemos uma seleção com base no currículo, não dando preferência a pessoas que veem de comunicação, sendo que as pessoas que são de comunicação e jornalismo têm obviamente, em princípio, mais aptidão para este mestrado. 42 Entrevista por telefone 101 2. Este mestrado faz a ponte entre a teoria e o mercado de trabalho? AG - Eu penso que sim. O mestrado tenta preparar os alunos para o mercado de trabalho. É evidente que há uma área da profissão onde o mestrado não toca, que é na área da rádio, mas de resto acho que prepara os alunos para o mercado de trabalho. 3. Por que é que o mestrado não tem essa área do jornalismo? AG - Porque quando foi criado uma das ideias foi uma preparação geral e não uma preparação muito específica para um meio de comunicação social. Acabámos por achar que era importante – ao início não tínhamos – que chamasse mais atenção para a televisão, porque era aí que se nota mais dificuldades no mercado de trabalho, principalmente aqueles que não vinham da área da comunicação. Mas de resto sempre preparamos mais para as bases do jornalismo: saber escrever, que é importantíssimo, saber encontrar histórias, que também é muito importante. Depois a parte mais prática poderão tê-la nas redações. 4. Na sua opinião, qual é que é a diferença entre um Mestrado específico em Jornalismo e um de Ciências da Comunicação? AG - Quando este mestrado foi criado, foi como sendo profissionalizante. A nossa ideia desde o início sempre foi essa. Quando o professor Nelson Traquina o criou a ideia foi sempre preparar alunos para o mercado de trabalho, enquanto o que acontece no Mestrado em Ciências da Comunicação essa preparação é mais para pessoas interessadas em seguir estudos na área dos media e do jornalismo. A nossa preocupação foi sempre preparar para o mercado de trabalho. 5. Que vantagens tem este mestrado? AG – Eu acho que é o corpo docente. É uma das mais importantes vantagens. O corpo doente é constituindo na sua maioria por ex-jornalistas. Um deles ainda continua a exercer jornalismo, que é o Pedro Coelho. É um mestrado que no final garante aos alunos estágio, algo que infelizmente alguns outros mestrados no país deixaram de garantir, infelizmente. Eu acho isso muito sinceramente um erro porque não é possível entrar no mercado de trabalho. É muito difícil entrar no mercado de trabalho. Muito 102 mais difícil é se os alunos não têm um contacto com a redação. Depois eu acho que outra das vantagens é o facto de tentarmos que as turmas sejam turmas mais heterogéneas. O facto de termos pessoas que venham de direito, de medicina ou se psicologia dá uma grande riqueza à turma. Pode parecer que não é mas é uma grande vantagem termos pessoas de várias áreas a pensar o jornalismo. 6. Há partilha de conhecimento… AG – Exato, não fechar o jornalismo às pessoas que vêm de comunicação e jornalismo. As redações estão cheias, mesmo cheias, de pessoas de outras áreas e eu acho que essas pessoas, muitas delas têm o talento suficiente para se virem a tornar jornalistas. É evidente que têm de ter uma preparação de jornalismo. Para essas pessoas o mestrado é importantíssimo, mas eu também acho que essa é uma das vantagens: não fazermos uma turma fechada em ex-estudantes de comunicação ou uma turma de ex-estudantes de jornalismo. 7. Considera que há matérias que se repetem nas várias Unidades Curriculares? AG – Eu acho que pode acontecer. Felizmente o mestrado tem muitos poucos alunos de licenciatura da própria universidade. E isso é bom porque acho que os alunos não devem fazer o mestrado no mesmo sítio onde fizeram as licenciaturas, mas isso é uma posição pessoal. Acho que é muito importante exporem-se a novos ambientes. Se eu já fiz o mestrado em Ciências da Comunicação provavelmente não preciso de fazer o mestrado me Jornalismo. É a minha opinião. Ganharia mais em fazer um mestrado em gestão desportiva ou hospitalar, outra área completamente diferente que me abra outros horizontes, até de emprego. Ou um mestrado na área da economia porque quero ser jornalista na área de economia ou política porque quero ser jornalista na área de política. Nós temos uma turma com alunos de todas as áreas, portanto algumas coisas vão ter de ser ditas para os alunos que não são da área, que nunca ouviram falar do que é um gatekeeper ou o que é são as várias teorias do jornalismo. Acho que nalguns casos pode haver alguma repetição. Tentamos que seja o mínimo possível, mas pode haver alguma sim. 8. Como é que tem sido a evolução do mestrado ao longo dos anos? Tem havido cadeiras mais práticas? 103 AG - O mestrado já começou com cadeiras práticas. Aliás, o facto de termos Jornalismo Especializado 1 e Jornalismo Especializado 2, irmos buscar profissionais fora, que estão nas redações, o facto de termos escrita jornalística, novas narrativas dos media. A maioria das cadeiras deste mestrado são claramente cadeiras práticas. Nós temos sentido ao longo dos anos que o mestrado tem ganho credibilidade, tem aumentado o número de alunos interessados. Este ano tivemos 3 vezes mais o número de alunos de que precisávamos. Digamos, “deitamos fora” dois terços dos alunos que se candidataram. O que significa que nós conseguimos criar uma turma com excelentes alunos. Muitos dos nossos alunos têm conseguido ficar nos órgãos de Comunicação Social. Isto dá-nos uma ideia de que o nosso mestrado é cada vez mais procurado. Nós temos alunos de outras licenciaturas do país inteiro e isso, de alguma forma, enche-nos de orgulho. 9. Considera que este mestrado tem lacunas? AG - Acho que para um mestrado que é dado, como são todos na NOVA FCSH, em horário pós-laboral acho que é muito difícil fazer diferente. Temos consolidado ao longo dos anos. Já fizemos variadíssimas alterações. Acho que poderia haver outras coisas que o mestrado podia ter se não fosse feito em pós laboral. Podia ter simulação de um ambiente de redação mesmo, fazer uma semana intensiva onde todos os alunos tentavam escrever artigos para uma publicação online. Mas é muito difícil. Acho que temos estado a melhorar. Temos feito algumas afinações. Parece-me que está quase no ponto. 10. Há alguma mudança prevista para o mestrado? AG - Para já, estamos em avaliação pela A3ES - Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior. Não fizemos nenhuma sugestão de alteração. A grande sugestão entre há 2 anos e o ano passado foi algo que nos pareceu que era inevitável. Tínhamos aulas concentradas em 2 dias para tentar atrair alunos de fora que eventualmente ficassem 2 dias apenas em Lisboa. E no ano passado começamos a dar aulas 3 vezes por semana. Estes pequenos ajustes tem sido feitos. Qualquer mudança que se faça atrai mais alunos de um tipo do que de outro, mas acho que esta mudança resultou na atração de alunos. 104 Fazendo em dois dias obriga que num dos dias os alunos tenham aulas entre as 18h e a 00h, o que é bastante. MARIA JOSÉ MATA – ESCS – INSTITUTO POLITÉCNICO DE LISBOA 43 1. Como são selecionados os alunos para o mestrado? Têm preferência por alunos da área de Jornalismo/ Ciências da Comunicação ou de outras áreas? Maria José Mata (MJM) - Os critérios de seriação dos alunos estão definidos no regulamento de frequência e avaliação do segundo ciclo que está no site da ESCS. Quando entra em “cursos”, vai a “mestrados” e depois tem o regime de frequência e avaliação do segundo ciclo. Num dos pontos dos articulados estão os critérios de seleção. No caso do mestrado de jornalismo tem em conta critérios como o currículo académico, cientifico, profissional, a adequação da formação e experiencia anterior ao mestrado e, em casos em que se justifique, também fazemos uma seleção orientada com entrevista presencial. É este o método de seleção dos alunos. O resultado final resulta desta grelha de seriação que tem diferentes percentagens, que depois poderá confirmar com mais rigor. 2. Este mestrado faz a ponte entre a teoria e o mercado de trabalho? MJM - Faz, eu acho que faz. Essa é, alias, uma das mais-valias do nosso mestrado. Ele tem uma componente teórica que é fundamental. Tem uma componente também de metodologia, que é também importante sobretudo para preparar os alunos para as tarefas de investigação e para os preparar para as capacidades necessárias para quem está a realizar mestrado, que não é possível fazer investigação sem rigor nem método e portanto existem unidades curriculares direcionadas para essas competências depois tempos também disciplinas de caracter opcional que tem forma de ateliers. Ateliers dirigidos para televisão, imprensa, rádio e online, que são no fundo formas de preparar os alunos para os estágios que vão realizar. 3. Esses estágios são obrigatórios? MJM - Os mestrados podem ser concluídos através de uma de três formas, que são a dissertação, o projeto ou o relatório de estágio. No caso dos alunos que optem por 43 Entrevista por telefone 105 relatório de estágio, esse estágio é curricular, quem não opta por relatório de estágio, quem pretende fazer apenas dissertação ou projeto não tem estágio obrigatório. É apenas obrigatório para quem opta por relatório de estágios 4. Como é que tem sido a evolução do mestrado ao longo dos anos? Tem havido cadeiras mais práticas? MJM - No mestrado em termos curriculares são 3 semestres, o ultimo é dedicado à tese, portanto não há muito espaço para criar novas cadeiras, até porque o mestrado não é um curso técnico-profissional e portanto não vamos preencher toda a grelha curricular com disciplinas de caracter de atelier. Têm o seu espaço, pensado em função daquilo que são as competências necessárias para adquirir por parte dos estudantes para cumprir um perfil que determinamos para o nosso formato. Em termos de disponibilidade dos ateliers, tem sido mais ou menos constante. O que temos é assistido ao longo dos anos um interesse, que tem sido reforçado, por parte dos estudantes nesses mesmo ateliers, nomeadamente em televisão. E no caso dos ateliers de televisão, sendo ateliers que requerem competências técnicas também exigentes, tem um número reduzido de alunos, de maneira a que possam verdadeiramente funcionar como ateliers. 5. Como é que é definido o plano curricular do mestrado? MJM - O plano curricular do mestrado resulta sempre de uma grande discussão prévia, que é obrigatória, não apenas por lei mas também ao abrigo os estatutos do IPL, da própria escola, que passa por uma discussão interna, depois uma oscultação do mercado, de pessoas ligadas ao meio, exteriores à ESCS, algumas entidades empregadoras e depois também fóruns próprios com os alunos e os docentes da própria instituição. Só depois de passar por esses fóruns todos é que damos por validado internamente um plano de estudos, que terá ainda de ser submetido à aprovação das entidades competentes 6. Considera que este mestrado tem lacunas? 112 3. E o Pedro sente também essas dificuldades com os alunos que vêm da área das Ciências da Comunicação? PC – É muito comum porque a maior parte das pessoas que não tem formação de jornalismo não conhecem a matéria jornalística e estão constantemente a ouvir falar de coisas que não dominam. É esse o esforço que nós temos de fazer. Perceber até onde eles vão e por vezes ficamos surpreendidos com o grau de desconhecimento das pessoas. 4. Em relação à formação em jornalismo, há investigadores que defendem a teoria, há quem defenda a prática. Qual é a sua posição? PC – Eu tenho uma posição muito fechada sobre essa matéria. Acho que o jornalismo, cada vez mais e pela complexidade da profissão, é determinante que as pessoas que entram nesta área dominem, desde logo, o quadro de valores do jornalismo, porque é muito diferente um gestor ou um economista entrar numa redação para fazer jornalismo… domina a área mas está de tal forma fechado no nicho dele que depois não consegue transmitir conhecimento solidamente jornalístico. Não sabe duas coisas: como falar para as massas, que o jornalismo também é isso, e não domina o quadro de valores do jornalismo, não sabe qual é a estrutura, a base, a essência da profissão onde vai exercer funções. É a mesma coisa que eu sendo licenciado na área das Ciências da Comunicação ir trabalhar como jurista. Eu não posso, por mais capacidade que tenha, trabalhar nessa área porque não conheço a essencial da profissão. Se o jurista para ser jurista tem de estudar direito, eu para ser jornalista tenho de estudar jornalismo. Até admito a possibilidade de um aluno fazer o primeiro ciclo com uma base mais abrangente, aliás, os britânicos e os americanos têm muito isso: fazem um curso mais aberto no primeiro ciclo mas depois, no segundo ciclo, fecham o ângulo. Admito essa possibilidade. Fazer o primeiro ciclo mais aberto mas com uma vertente de Ciências Sociais e Humanas muito vincada e depois no ciclo seguinte fechar-se um pouco mais à área, não transformando o jornalismo numa componente técnica, porque não o é, mas havendo conhecimentos suficientes próximos. À medida que o ciclo vai avançando, o ângulo vai-se fechado. Quando chega ao mestrado, o aluno vai claramente trabalhar mais próximo do jornalismo. 113 5. Então o Pedro defende que o aluno possa ter formação em Ciências da Comunicação no primeiro ciclo e depois no segundo ciclo tenha uma formação mais específica, em economia ou política, por exemplo… PC – Esse é outro caminho. Ou uma coisa ou outra. Ou não sou fechado ao ponto de dizer “tudo numa área” ou “tudo noutra”. Eu admito a possibilidade de no primeiro ciclo ser uma área mais aberta para se fechar no primeiro ciclo e admito igualmente a possibilidade de no primeiro ciclo ser uma área mais fechada para se abrir ligeiramente no segundo, sendo que essa abertura vai criar aquilo que eu não sou propriamente adepto, que é o jornalismo especializado. Então começar pelo jornalismo especializado acho que é o fechamento absoluto da pessoa que vai começar a profissão. Tem uma série de armadilhas, que nós só controlando é que podemos exercê-lo de forma conveniente. É natural que uma proximidade demasiado próxima relativamente ao objeto seja um desfoque. O jornalista quando começa a trabalhar na área de economia tem tendência a fechar-se em excesso nessa área. Isso cria de novo o que eu estava a dizer dos tipo que vêm para jornalismo de outras áreas. Não dominam a matéria. Aqui vão acabar por não dominar, porque se se fecham de tal forma na área de economia, ciência, justiça, política, depois não conseguem abrir o ângulo e comunicar com as pessoas. Eu admito que haja, e sou defensor, de jornalistas especializados, mas têm de ter um grau de maturidade enorme, não podem ser vocês agora no início de carreira. 6. Acha que é uma coisa que deve ser feita mais tarde… PC - Sim, é um caminho, claramente… 7. Há uns dias quando entrevistei outro investigador, falou-me do REC, e falou-me inclusive do Pedro. Com que necessidade é que surgiu o REC? Foi por esta necessidade de ajudar os alunos? PC – O REC não substitui nem o mundo profissional nem a academia, está ali no limbo, entre os dois. Este lugar que o REC ocupa é um lugar de valorização do que há de melhor na formação e, no fundo, a antecipação daquilo que o meio profissional não consegue dar. O REC aposta na reportagem, na valorização da reportagem, que é um género que está em desuso nos órgãos de comunicação tradicionais, atribui aos alunos competências que eles não trazem da formação académica, que não são técnicas, são 114 sobretudo reflexivas, mas muito próximas daquilo que é a matéria profissional do quotidiano. E é muito centrada naquilo que mais falha na área jornalística, que é a reportagem. 8. Porque é que acha que os alunos não trazem essas competências? PC – Porque a maior parte dos cursos de jornalismo… eu já fiz essa análise… aposta na notícia, ou seja, os alunos aprendem a fazer notícias. São raras as vezes em que os alunos aprendem a trabalhar a reportagem, que é um género síntese. Aliás, faz a ponte entre a parte mais prática dos cursos e a teórica, é um género que faz a reflexão do pensamento. A notícia é muito imediata. O professor e o aluno que trabalham a notícia ficam fechados naquilo que é o mais próximo das ciências exatas, é objetiva, é simples, é uma estrutura muito fechada. A reportagem é outro muito, muito mais aberto. Pode até partir de uma notícia, mas constrói-se de uma forma muito mais rica, muito mais criativa. Obriga a dar o salto. O jornalista tem de levantar o rabo da cadeira e ir para o lugar onde as coisas acontecem, tem de mergulhar na ação, no concreto, coisa que a notícia não obriga. Eu posso fazer uma notícia no lugar por telefone, sem precisar de ir ao local. 9. No REC, essa aposta na reportagem é feita em alguma plataforma em concreto? PC – Nós apostamos basicamente duas plataformas: o multimédia e a rádio, mas a televisão é, desde logo, a síntese de todas as plataformas, portanto o aluno tem de dominar o som, a imagem, a escrita e até tem de dominar a fotografia. E depois trabalhamos muito a componente sonora porque temos uma parceria com a Rádio Renascença, que nos permite por no ar um programa feito por alunos, editado pro professores ou jornalistas, uma vez por mês, no primeiro domingo de cada vez. 10. Na sua opinião, que competências são necessárias para um jovem que queira trabalhar em jornalismo televisivo? PC – Diversas. Desde logo uma que me parece fundamental, que é a humildade. Aquilo que os alunos parece que não trazem de casa. Ter caráter à prova de bala. A humildade para quem começa é o primeiro ponto da viagem. Ser humilde, acreditar que não sabem tudo, pelo contrário, que sabem muito pouco, e terem uma enorme disponibilidade para aprender. Isto quer dizer que sejam críticos, cultivem o espírito crítico, mas com uma dose imensa de humildade. O principio geral da humildade é 115 saber que é preciso aprender, que estamos muito longe, aliás, todos nós, de chegar onde quer que seja. Carater, humildade e conhecer bem a essência do jornalismo. 11. Na sua opinião, para se trabalhar em jornalismo, são mais importantes as caraterísticas pessoais ou as competências que se vão adquirindo com a experiência? PC – Uma coisa e outra têm de andar juntas. Acho é que temos muita dificuldade em interagir com o conhecimento se não o soubermos receber. Se acharmos que sabemos tudo, estamos desde logo a ser estúpidos. É preciso disponibilidade para recebermos o conhecimento e essa disponibilidade é um ato de carater, tenho de estar predisposto para receber conhecimento. Essa associação entre caraterísticas pessoais e aquisição de conhecimentos parece-me determinante para o sucesso. 12. O que é que distingue um jornalista que trabalhe em televisão de um que trabalho em rádio ou imprensa? PC – Acho que, desde logo há uma coisa muito importante, seja em que plataforma for, que é saber aliar forma e conteúdo. Cada plataforma tem as suas especificidades. A televisão é talvez a mais complexa de todas elas, que é a imagem, que é uma componente que nos torna reféns dessa componente. Mesmo a nível do texto, tem de saber que está a construir um texto para uma plataforma que é visual e o texto tem necessariamente refém da imagem, apresenta-se como uma legenda construtiva da imagem. É um texto informativo, naturalmente, mas ainda assim refém da imagem. Portanto este conhecimento da especificidade da televisão é determinante. É no terreno que as histórias se constroem. Quando o acontecimento se perde, quando estou no local e não o vejo, se o perdi, perdi. Mas o ideal é que não o percamos. 116 ANEXO E – RESPOSTAS AO INQUÉRITO Tabela 7 – SPPS Variable View das respostas ao Inquérito Tabela 8 - SPSS Data View das respostas ao Inquérito 117 118 ANEXO F – ANÁLISE DE CONTEÚDO AOS PLANOS CURRICULARES DOS MESTRADOS Tabela 9 - SPPS Variable View da análise de conteúdo Tabela 10 - SPSS Data View da análise de conteúdo