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As novas Tecnologias da Informação e Comunicação ao serviço da democracia : as eleições legislativas portuguesas em 2015

Sales, Carlota de Oliveira Trovão

Abstract

Nos últimos anos, as Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação têm vindo a ocupar um papel cada vez mais central nas vidas quotidianas de todos nós, com a Internet a assumir uma posição de destaque e com o paradigma da Web 2.0 a abrir portas para uma interatividade sem precedentes. A emergência de novas formas de sociabilidade, que fogem aos constrangimentos do tempo e do espaço, são um fenómeno social que desperta um cada vez maior interesse. A política, como parte essencial do funcionamento da sociedade, não é exceção a esta tendência. O estudo da comunicação política orientada para as NTIC tem gerado visões díspares relativamente àquelas que serão as suas vantagens e desvantagens nos processos políticos e nos processos comunicativos associados a este tema. A utilização dessas novas tecnologias será o objeto do presente trabalho de dissertação. Em países como os Estados Unidos da América, a Internet e as redes sociais, com grande destaque por exemplo para o Twitter, ocupam desde há alguns anos um papel central em termos de campanha eleitoral. A eleição de Barack Obama é o caso mais paradigmático da preponderância destas plataformas para a vitória de um candidato. Neste trabalho olharemos para o caso português, mais precisamente para a Campanha Eleitoral das Eleições à Assembleia da República Portuguesa no ano de 2015, procurando perceber que uso fizeram os partidos destas tecnologias à sua disposição e que têm já provas dadas de eficácia noutros países. Os websites oficiais de campanha, bem como as páginas de Facebook e Twitter dos candidatos a este momento eleitoral, serão o objeto específico de estudo. O levantamento das características dos mesmos, e do tipo de conteúdo partilhado com os eleitores através destas plataformas, serão essenciais para compreender quais as funções que ocupam estas plataformas no contexto eleitoral. Procurar-se-á, a partir daí, perceber qual a performatividade efetiva destas plataformas e se, realmente, trazem novas oportunidades para a política e, sobretudo, para a inclusão dos cidadãos na política e na campanha. As NTIC têm sido apontadas por vários académicos como potenciadoras da revitalização da cidadania e do resgate do papel do público, devido às características eminentemente interativas destas plataformas, permitindo fluxos de comunicação plurilaterais; e que, portanto, vêm dar, pelo menos aparentemente, resposta ao problema da apatia gerada pela televisão, dado o seu formato de comunicação unilateral, de um para muitos. Outros tantos académicos rejeitam esta visão e consideram que não residem nas novas tecnologias as respostas para os problemas de participação cívica e mobilização. Através da análise das plataformas online da campanha eleitoral para as Legislativas de 2015 procuraremos compreender se se espelham estas preocupações de resgate da cidadania e de inclusão dos cidadãos na política; e se as mesmas conseguem, de facto, operacionalizar essas intenções de inclusão do eleitorado na campanha.

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As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação ao serviço da Democracia – As eleições legislativas portuguesas em 2015 Carlota de Oliveira Trovão Sales Carlota de Oliveira Trovão Sales Dissertação de Mestrado em Ciências da Comunicação – Comunicação Estratégica Abril, 2016 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação – Comunicação Estratégica, realizada sob a orientação científica de Professor Doutor João José Pissarra Nunes Esteves AGRADECIMENTOS • Ao Professor João Pissarra Esteves, meu orientador, por toda a disponibilidade, atenção, pela partilha do seu conhecimento infinito nestas matérias, pelo rigor e exigência, sempre acompanhados de um sorriso e de uma palavra amiga; • À Jéssica Bruno e à Rita Lourenço, as minhas grandes companheiras de aventuras académicas, pela entreajuda, solidariedade e amizade, que permanecerá muito para além do fim do nosso percurso académico; • Aos amigos Daniela Plácido, Helena Magalhães, Raquel Frade, Gonçalo Peixoto e Gonçalo Silva, por acreditarem em mim e pela coragem e carinho, sem os quais teria sido impossível ultrapassar esta etapa; • A toda a minha família pelo amor incondicional; • Ao meu irmão, Francisco, que todos os dias, sem saber, me ajuda a lutar para ser a melhor versão de mim própria; • E por fim, à minha mãe, Cristina, para quem as palavras de agradecimento nunca serão suficientes e sem a qual nada seria possível. AS NOVAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO AO SERVIÇO DA DEMOCRACIA – AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS PORTUGUESAS EM 2015 NEW INFORMATION AND COMMUNICATION TECHNOLOGIES AT THE SERVICE OF DEMOCRACY – 2015 PORTUGUESE PARLIMENTARY ELECTIONS Carlota Sales Resumo Nos últimos anos, as Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação têm vindo a ocupar um papel cada vez mais central nas vidas quotidianas de todos nós, com a Internet a assumir uma posição de destaque e com o paradigma da Web 2.0 a abrir portas para uma interatividade sem precedentes. A emergência de novas formas de sociabilidade, que fogem aos constrangimentos do tempo e do espaço, são um fenómeno social que desperta um cada vez maior interesse. A política, como parte essencial do funcionamento da sociedade, não é exceção a esta tendência. O estudo da comunicação política orientada para as NTIC tem gerado visões díspares relativamente àquelas que serão as suas vantagens e desvantagens nos processos políticos e nos processos comunicativos associados a este tema. A utilização dessas novas tecnologias será o objeto do presente trabalho de dissertação. Em países como os Estados Unidos da América, a Internet e as redes sociais, com grande destaque por exemplo para o Twitter, ocupam desde há alguns anos um papel central em termos de campanha eleitoral. A eleição de Barack Obama é o caso mais paradigmático da preponderância destas plataformas para a vitória de um candidato. Neste trabalho olharemos para o caso português, mais precisamente para a Campanha Eleitoral das Eleições à Assembleia da República Portuguesa no ano de 2015, procurando perceber que uso fizeram os partidos destas tecnologias à sua disposição e que têm já provas dadas de eficácia noutros países. Os websites oficiais de campanha, bem como as páginas de Facebook e Twitter dos candidatos a este momento eleitoral, serão o objeto específico de estudo. O levantamento das características dos mesmos, e do tipo de conteúdo partilhado com os eleitores através destas plataformas, serão essenciais para compreender quais as funções que ocupam estas plataformas no contexto eleitoral. Procurar-se-á, a partir daí, perceber qual a performatividade efetiva destas plataformas e se, realmente, trazem novas oportunidades para a política e, sobretudo, para a inclusão dos cidadãos na política e na campanha. As NTIC têm sido apontadas por vários académicos como potenciadoras da revitalização da cidadania e do resgate do papel do público, devido às características eminentemente interativas destas plataformas, permitindo fluxos de comunicação plurilaterais; e que, portanto, vêm dar, pelo menos aparentemente, resposta ao problema da apatia gerada pela televisão, dado o seu formato de comunicação unilateral, de um para muitos. Outros tantos académicos rejeitam esta visão e consideram que não residem nas novas tecnologias as respostas para os problemas de participação cívica e mobilização. Através da análise das plataformas online da campanha eleitoral para as Legislativas de 2015 procuraremos compreender se se espelham estas preocupações de resgate da cidadania e de inclusão dos cidadãos na política; e se as mesmas conseguem, de facto, operacionalizar essas intenções de inclusão do eleitorado na campanha. Palavras-Chave: Novas Tecnologias, Redes Sociais, Mobilização, Participação, Eleições, Campanha Eleitoral, Comunicação Política. Abstract For the past years, New Communication and Information Technologies have been taking a more and more central role in our daily lives, with the Internet assuming a main role and with the Web 2.0 paradigm opening doors to unprecedented interactivity. The emergence of new ways of sociability, which escape from the constraints of time and space is a social phenomenon that raises an increasingly bigger interest. Politics, as essential part of society’s functioning, cannot be an exception to this trend. Political Communication studies oriented towards NCIT have generated conflicting views concerning their advantages and disadvantages in political processes and in the communicative processes associated to politics. The use of such Technologies will be the object of the present dissertation work. In countries like the United States of America, the Internet and Social Media, with great emphasis on Twitter, have claimed a central part in the electoral campaign. Barack Obama’s election is the most paradigmatic case of the preponderance of these platforms for the victory of a certain candidate. In this work, we will take a look at the Portuguese case, more specifically on the campaign for the 2015 parliamentary elections, seeking to understand how such technologies, at politicians’ disposal, are used by the candidates’ parties. Official campaign websites, as well as Facebook and Twitter pages from the candidates will be the main object of this study. Looking at such platforms’ characteristics and looking at the contents that are there shared with the electorate will be essential to understand what functions such platforms perform in an electoral context. From there, we will seek to understand the effective performativity of these platforms and if they actually bring new opportunities to the table in terms of politics, and mainly on the inclusion of citizens in politics and on political campaigns. NCITs have been pointed by several scholars as having the potential to revitalize citizenship and rescue the public’s role, due to its eminently interactive characteristics, which allow multilateral communication flows, which give, at least apparently, an answer to the apathy problem, generated by television, due to its unilateral, one-to-many way of communicating. Some other scholars reject such perspective and consider that the answers to civic participation and mobilization problems cannot be found in the use of these new technologies. Through the analysis of online campaign platforms of the 2015 Elections, we will seek to understand if concerns with the rescue of citizenship and citizen inclusion on politics are indeed reflected, and, moreover, we will seek to understand if insipite of such intentions, parties can in fact operationalize the inclusion of the electorate in the campaign. Key-words: New Techonologies, Social Networks, Mobilization, Participation, Elections, Electoral Campaign, Political Communication. Índice Índice de Quadros Índice de Imagens Introdução……………………………………………………………………………….1 Capítulo I: Sobre Comunicação Política – Um ponto de partida ……………………….4 I.1. – Linguagens Políticas Especializadas………………………………………5 I.2. – A papel da televisão na Comunicação Política e o papel do público……...9 Capítulo II: Breve análise sobre a utilização da Internet em Portugal…………………13 II.1. – Paradigma da Web 2.0…………………………………………………. 13 II.2. - Utilização da Internet em Portugal………………………………………14 Capítulo III: Breve enquadramento sobre Campanha Eleitoral e Eleições Legislativas de 2015…………………………………………………………………………………… 16 Capítulo IV: Sobre os Websites de Campanha………………………………………... 19 IV.1. – Website da Coligação Portugal à Frente………………………………. 23 IV.2. – Website do Partido Socialista – Costa 2015……………………………24 IV.3. – Website do Bloco de Esquerda ………………………………………...26 IV.4. – Website do AGIR………………………………………………………27 IV.5. – Website do Livre/Tempo de Avançar…………………………………..28 IV.6. – Website do Nós, Cidadãos!.....................................................................29 IV.7. – Funções dos Websites dos Partidos na Campanha……………………..30 Capítulo V: Sobre as Redes Sociais na Campanha – Facebook e Twitter……………..38 V.1. – Portugal à Frente………………………………………………………...43 V.2. – Partido Socialista………………………………………………………. 48 V.3. – Bloco de Esquerda……………………………………………………... 50 V.4. – AGIR……………………………………………………………………53 V.5. – Livre/Tempo de Avançar………………………………………………. 55 V.6. – Nós, Cidadãos!.........................................................................................57 V.7. – Facebook e Twitter – Utilizações na Campanha de 2015: um resumo….58 Capítulo VI: Sobre Mobilização – A utilização das NTIC como ferramentas com potencial cívico…………………………………………………………………………59 VI.1. – Mobilização: uma abordagem conceptual……………………………...60 VI.2. – Otimistas VS Pessimistas………………………………………………61 VI.3. – A mobilização através das plataformas dos partidos…………………..64 Conclusão………………………………………………………………………………72 Bibliografia……………………………………………………………………………..78 Índice de Quadros Quadro 1. – Utilizadores da Internet em 2015 em Portugal e na União Europeia …….14 Quadro 2. – Frequência da Utilização da Internet por Faixa Etária em Portugal……....15 Quadro 3. – Utilizadores das Redes Sociais por Faixa Etária em Portugal…………….15 Quadro 4. – Sites dos Partidos em Análise……………………………………………..22 Quadro 5. – Principais Funções dos Sites dos Partidos nas Eleições Legislativas de 2015 ………………………………………………………………………………………….31 Quadro 6. – Links para as páginas oficiais das Redes Sociais e número de gostos e seguidores………………………………………………………………………………43 Quadro 7. – Hashtags utilizados nas páginas de campanha……………………………66 Quadro 8. – Comparação entre popularidade nas redes sociais e resultados eleitorais...70 5 No nível que envolve os políticos, será fundamental fazer um levantamento relativo à utilização das linguagens políticas especializadas, nomeadamente o advertising político e as relações públicas políticas procurando, depois, compreender que possibilidades são deixadas em aberto para as NTIC e como é que os políticos e profissionais de comunicação, responsáveis pelas suas campanhas, se adaptam a estas novas possibilidades. Já no que respeita a uma análise dos media, pela centralidade que a televisão tem vindo a assumir, é inevitável que uma reflexão sobre comunicação política tenha em conta este medium. Os efeitos das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação terão que ser aqui colocados em comparação com os efeitos da Televisão. Partir-se-á do cenário de uma certa crise de comunicação política dos media, sem esquecer a centralidade da televisão quer como medium, quer no que diz respeito a essa crise propriamente dita, tentando equacionar até que ponto as Novas Tecnologias poderão funcionar como uma resposta a questões problemáticas levantadas por alguns autores que refletem sobre o papel da televisão ligada à política. Partindo para o plano dos cidadãos, e ainda mantendo como central o papel da televisão, pretende-se, nesta fase inicial, incluir um levantamento de questões críticas relativamente ao aspeto social e mobilizador da comunicação política, outro ponto central do presente trabalho de dissertação. Todos estes elementos têm implicações importantes para o desenrolar desta dissertação, e são fundamentais para as questões que irão ser tratadas. No fundo, o que se pretende é compreender de que modo os políticos utilizam os novos media, tentando perceber ainda até que ponto a utilização dessas plataformas poderá impactar o papel dos cidadãos na comunicação política e em todo o processo político, mais concretamente nos processos eleitorais. I.1. – Linguagens Políticas Especializadas Começaremos, então, por um enquadramento relativo às linguagens políticas especializadas. A base para esta análise das linguagens políticas especializadas é o estudo que Brian McNair fez sobre as mesmas. Segundo este autor (2007), o advertising político, e principalmente o advertising político pago da televisão, tem vindo a ocupar um lugar central na comunicação política moderna. Ao pensar o advertising político é fundamental olhar para dois aspetos. Por um lado, e como elemento central desta linguagem política especializada, é preciso 6 notar a questão dos seus custos de inserção mediática. Por outro, não poderemos esquecer a questão relativa ao controlo da mensagem política. O primeiro aspeto, dos custos de inserção mediática, remete para a compra de um espaço mediático para transmitir mensagens políticas a audiências de massa. O advertising político implicará, portanto, elevados custos para os partidos políticos. No entanto, tal como nota Brian McNair (2007), em alguns países, como é o caso de Portugal, existem restrições legais à compra de espaços publicitários para a transmissão de mensagens políticas. Os tempos de antena, em época de eleições, são espaços por excelência para transmissão dessas mensagens e são gratuitos. Contudo, a questão dos custos continua a levantar-se: o espaço é gratuito, mas a produção dos conteúdos não deixará de exigir na mesma budgets elevados. Surge aqui uma questão central para o estudo de caso desta dissertação. Será que a utilização de plataformas das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação como as redes sociais permitem aos partidos publicitarem-se e fazerem campanhas com um menor grau de investimento financeiro? Abrirá esse fator as portas para que partidos de menor dimensão e com orçamentos mais curtos consigam colocar a sua campanha ao nível da campanha de partidos de maior dimensão e com máquinas de comunicação muito desenvolvidas? É para tentar encontrar respostas a estas questões que se optou por analisar a comunicação de pequenos partidos em simultâneo com a dos grandes partidos. Todavia, seria ingénuo pensar nas redes sociais como espaços puros de free media, já que há a possibilidade de comprar seguidores e visualizações das publicações em plataformas como o Facebook e que, independentemente disso, irá estar envolvida mão-de-obra profissional que terá custos. Debruçar-me-ei, no entanto, sobre estas questões mais à frente no trabalho, de forma a não comprometer os objetivos desta fase introdutória. A questão do controlo da mensagem é também central no estudo do advertising político. Sendo uma linguagem em que a produção dos conteúdos transmitidos é da exclusiva responsabilidade dos políticos e dos profissionais de comunicação que com eles colaboram, surge a possibilidade do controlo total da mensagem transmitida: ―[…] a publicidade é o formato no qual o ator político tem a maior oportunidade para transmitir os problemas da forma como ele ou ela os veem […] o controlo editorial está com o político, não com os media […] Os produtores de publicidade política têm a liberdade de dizer o que querem; de substituir a 7 agenda dos jornalistas pela sua própria; para jogar com as forças dos seus clientes e salientar as fraquezas dos seus oponentes‖ (McNair, 2007: 86). Apesar de incluir uma certa componente informativa, a lógica do funcionamento do advertising político tem como segredo a sua força persuasiva. Segue a lógica da publicidade comum, atribuindo um sentido (em teoria sempre positivo) ao produto. O produto, neste caso, é quase sempre o político, tudo gira muito em torno do líder político, mas também se pode associar a um partido ou a uma determinada proposta. McNair (2007) fala da necessidade de dotar o produto de uma identidade única que o distinga dos restantes. Há que o dotar de um ―valor de troca‖1. Procura-se, através do advertising conferir significados para além do valor de uso do produto. ―Todas as estratégias de comunicação eficazes contêm aquilo a que se chama positioning statement (declaração de posicionamento), uma análise clara de para que é que é a marca; para quem é, e porque haveria alguém de estar interessado em escolhê-la‖(Bruce, apud McNair, 2007: 134) No caso dos políticos, há a tentativa de criar associações a elementos/valores com conotações positivas. Há uma escolha dos sentidos pretendidos e dos sentidos verdadeiramente eficazes. O voto, neste caso, traduz o ato da compra. Todavia, é fundamental notar que a força persuasiva do advertising pode ver-se diminuída, já que o público sabe que está perante mensagens criadas pelo político de forma a dotar-se de uma imagem positiva e a conseguir o voto. Mais ainda, e como nota Stuart Hall (1980), os emissores (os políticos e profissionais da comunicação incluídos) controlam a codificação da mensagem mas não controlam a sua descodificação. No caso das NTIC, é necessário compreender que recurso fazem os partidos do advertising na sua utilização destas tecnologias, isto é, se esta linguagem continua a ser utilizada nas novas plataformas, se é mais ou menos utilizada dos que nos mass media e, fundamentalmente, se vê algumas das suas características alteradas. A comunicação publicitária online também deverá operar de acordo com estas características persuasivas e enfrentará os mesmos problemas, mas alguns deles talvez com um grau ainda mais elevado de dificuldade de resolução. A questão do controlo da descodificação será muito mais problemática em plataformas em que os cidadãos poderão dar respostas imediatas e exigirá um grande esforço de monitorização por parte dos responsáveis por essas plataformas. 1Exchange value no original. 8 As relações públicas têm uma semelhança essencial com a publicidade política: a questão do controlo da mensagem por parte dos atores políticos. Aqui, o controlo não é absoluto mas continua a ser um aspeto decisivo. Esta linguagem procura dar resposta à maior fragilidade do advertising político, a sua perceção por parte do público como parcial. O objetivo das relações públicas políticas é conquistar o espaço mediático designado de free media (McNair,2007:116), isto é, produzir happenings que captem atenção mediática e que, portanto, permitam ao ator político comunicar mensagens e dar-se a conhecer enquanto figura política sem ter que adquirir espaço mediático. Há uma transferência da responsabilidade do político para os jornalistas. As mensagens parecem menos manufaturadas e veem-se dotadas de maior legitimidade, em resultado da ideia de imparcialidade associada ao trabalho jornalístico. Cria-se a noção de uma falta de controlo (por parte dos políticos) e de uma certa naturalidade, ou mesmo de uma isenção das posições comunicadas, a qual leva o público a aceitar as mensagens com maior facilidade. Contudo, é preciso notar que, não obstante esta aparente falta de controlo, este realmente existe e é, até, bastante forte. No entanto, não pode ser garantido à partida, o que lhe confere um certo grau de incerteza. De forma a reduzir essa mesma incerteza, os políticos vão recorrer aos profissionais da comunicação. Dentro das relações públicas políticas desenvolvem-se vários tipos de atividades, sendo de realçar o media management, o image management, a comunicação interna e o information management. Apesar de ser uma atividade fundamental das relações públicas políticas, não entrarei em detalhe na análise da comunicação interna, já que o foco da dissertação é uma comunicação entre políticos e cidadãos. Já relativamente aos restantes tipos de atividade, será importante esclarecer de forma mais detalhada cada uma delas, para que posteriormente se possa analisar em que medida as mesmas se desenrolam nas plataformas digitais. O media management é o conjunto de atividades através das quais os atores políticos procuram manipular, a seu favor, a cobertura mediática sobre a pessoa do político, as suas ações e propostas. Tem como principal objetivo maximizar a cobertura positiva e minimizar fatores destrutivos. Será, portanto, hoje, a área central das relações públicas políticas. O objetivo é alcançar o já designado Free media – um espaço mediático gratuito, para o ator político alcançar uma exposição positiva. 9 Brian McNair (2007) fala de medialities, uma fusão entremedia e realities. As medialities são produções realizadas pelos técnicos de relações públicas no media management de forma a captar a atenção dos media - um passo fundamental para alcançar o freemedia. Já no que diz respeito ao image management, trata-se da construção de uma imagem positiva do ator político. A gestão da imagem é, em grande medida, um problema do media management. A imagem é aqui assumida no sentido lato do termo. E neste caso, o sucesso está mais diretamente dependente do político. Esta atividade aproxima-se de certa forma ao advertising político e ao marketing político. É uma forma estratégica de diferenciação face aos concorrentes. A imagem está associada a certos elementos conotativos, os quais dão um determinado sentido ao ―produto‖. Brian McNair realça outro aspeto importante relacionado com o image management e que se prende com técnicas de marketing. O autor fala dos líderes partidários como os representantes dos partidos políticos. No entanto, a esses líderes estão associadas características de imagem dos partidos que não deverão ser esquecidas no processo de campanha. Os valores de cada um desses partidos deverão ser transferidos para o político e a ele deverão ser associados logótipos e outros elementos significantes, associados à identidade partidária. Mais ainda, o autor realça aquilo a que chama product endorsement, que consiste em associar o partido ou o candidato a figuras populares do entretenimento ou do desporto. Mais à frente neste trabalho serão observadas as práticas comunicacionais dos candidatos às Legislativas de 2015, de forma a compreender como foram utilizados estes elementos simbólicos e visuais. O information management, de um ponto de vista técnico, é uma gestão para os media. Gere o que é, ou não, tornado público. Tem em vista o que é mais vantajoso para o ator político. Como se fará a gestão destas questões através das novas tecnologias? De que forma é que a comunicação nas NTIC é um prolongamento daquilo que é a comunicação global, na qual se associam os políticos aos mesmos símbolos e significados? De que forma é possível notar uma linha que una o tradicional e as novas tecnologias, de modo a permitir ao partido veicular a sua mensagem como um todo para públicos potencialmente diferentes? I.2. O papel da Televisão na Comunicação Política e o papel do público Pensando agora na componente mais especificamente mediática da comunicação política. É inevitável colocar a televisão no centro da problemática, já que desde cedo 10 este medium se afirmou como central na relação políticos-eleitores. Serão aqui tidos como referência Dean E. Alger (1989) e Gurevitch, Coleman e Blumler (2009). Desde os primórdios da televisão que esta e a política se tornaram inseparáveis. A política fornece a matéria-prima que é depois transformada pela televisão para ser entregue às audiências. No entanto, o equilíbrio de forças entre media e políticos vai sendo alterado com o decorrer do tempo e com alguns acontecimentos. A televisão acaba por ocupar o centro do palco político, tornando-se co-produtora de mensagens, ao invés do seu papel inicial de mera repórter (ou difusora). A televisão afigura-se, então, como construtora de realidade política. Apesar de ser parte integrante do processo político, a televisão contribui para uma despolitização, mudando o foco dos assuntos para as personalidades. O valor educativo vai sendo diminuído e dá-se uma mudança relativa ao ideal democrático das campanhas como plataformas para o debate nacional. Esta questão poderá ser, talvez, até inevitável, dadas as características propriamente técnicas e funcionais do medium. As características físicas dos mass media conferem-lhes uma predisposição para serem utilizados de determinadas formas em detrimento de outras que não se encaixariam na sua natureza tecnológica propriamente dita. Dependendo do medium dominante, serão favorecidos dados tipos de audiência, bem como modos de comunicação, tipos de atividades e até assuntos (Alger, 1989). Dean E. Alger reflete, precisamente, sobre a natureza da televisão e sobre os seus efeitos no quadro da comunicação política. A imagem em movimento e o som conferem-lhe características muito especiais, as quais influenciam a forma como o público recebe a informação. O autor refere que a receção de informação através da televisão será muito mais passiva do que, por exemplo, através da imprensa escrita – ―o espetador fica sentado à espera de ser exposto à história tal e qual como ela lhe é apresentada‖(Alger, 1989: 64). A televisão gera uma ilusão de intimidade através da utilização, por exemplo, dos close-ups. Cria-se um paradoxo, pois o jornalista fala para milhões de pessoas em simultâneo, continuando a parecer que fala com cada um deles de forma próxima e pessoal. ―O que a televisão pode fazer é (…) mobilizar as emoções da audiência à volta de uma visão vívida, simplificada e essencialmente melodramática do mundo da política‖(Alger, 1989: 65).A televisão acaba por ter o mesmo efeito que a retórica demagógica, mas de forma mais eficaz (Alger, 1989).A televisão leva a política para a sala de estar, contrastando com a definição de política que, por excelência, deveria 11 ocorrerno domínio público, diminuindo o aspeto social da política (Gurevitch, Coleman e Blumler; 2009). A televisão cria efeitos paradoxais, na medida em que, por um lado, aumenta o público potencial dos políticos, mas por outro, coloca este mesmo público numa posição passiva e com baixo grau de envolvimento. As campanhas eleitorais nestes moldes acabam por se afastar de um certo ideal democrático: ―O ideal democrático de conduzir as campanhas eleitorais como plataformas para debates nacionais, como uma oportunidade para que as sociedades discutam as direções presentes e futuras (examinando o passado)‖ (Gurevitch, Coleman e Blumler; 2009: 166). Serão as plataformas das novas tecnologias da informação e da comunicação um meio de repolitização das audiências, uma forma de enfrentar a despolitização da comunicação política originada pela televisão e que estes autores referem? Virão estas plataformas reconfigurar e dar novo sentido às eleições em contexto democrático? Será que o potencial de interação conferido pelas NTIC possibilita o regresso a uma esfera pública com um aspeto predominantemente social, em contraste com a diminuição do carácter societal da política implementada pela televisão? As redes sociais são plataformas que trabalham de acordo com a lógica da imediaticidade e do descartável, quais serão as estratégias adotadas pelos profissionais da comunicação para prender a atenção dos cidadãos, que é o aspeto problemático do medium televisivo? Por fim, olhando para o plano dos cidadãos, e que se relaciona intimamente com os problemas levantados pela televisão, é importante estar atento a algumas questões relacionadas com participação e mobilização levantadas por Jacques Gerstlé (1992). As diferentes teorias da democracia têm um elemento em comum: o facto de requererem a participação dos cidadãos para o funcionamento adequado do sistema político. A comunicação é uma condição para a participação. Comunicar politicamente é colocar em comum opiniões e argumentos relativamente à comunidade. De um ponto de vista a que Gerstlé chama macrossociológico, a participação política é um processo de revelação de preferências e da sua comunicação ao sistema político. As eleições são vistas como um instrumento de comunicação dessas preferências. Segundo o autor, a comunicação política inscreve-se na atividade dos partidos, nos mecanismos de elaboração da agenda e na mobilização política. Um partido será, portanto, uma ―máquina de comunicar‖, tanto no plano interno como no plano externo. 12 A linguagem é, em simultâneo, condição e produto da atividade partidária; ―dentro do sistema político, a função da comunicação é uma condição necessária à execução das outras funções como a articulação e a agregação de interesses‖ (Gerstlé, 1992: 115) A comunicação política faz-se, geralmente, de forma descendente, em que os políticos (governantes) comunicam para o público (governados) de forma a despertar a atenção dos últimos. No entanto, começam a emergir análises que equacionam uma inversão deste fluxo para um fluxo ascendente. A comunicação deverá ter o papel de fazer chegar aos sistemas políticos as demandas que surgem na sociedade. Isto terá implicações a nível partidário e institucional. O papel dos partidos será também criar formatos para a participação dos cidadãos no processo de definição de projetos e tomada de decisão. No entanto, quando os canais partidários não desempenham bem esta função, os cidadãos procuram meios não convencionais de fazer ouvir a sua voz. A ação política passa por formas nãorotineiras e pontuais de mobilização. Esta participação não convencional acaba por se materializar em comportamentos variados de protesto e reivindicação. Os media, e mais precisamente a televisão, são vistos aqui como centrais para que estas mobilizações cheguem aos políticos. São meios de pressionar os políticos para tomarem ações no sentido de satisfazerem as necessidades dos cidadãos. Ou seja, os cidadãos estão dependentes de certos canais mediáticos para se fazerem ouvir. Quando não dependem dos canais partidários, dependem de canais mediáticos. Os novos media abrirão uma oportunidade para a emancipação do papel dos cidadãos, podendo estes fazer-se ouvir sem recorrer a canais que não controlam? Darão os novos media mais poder aos cidadãos e retirarão esse poder aos media tradicionais? Apesar de serem vistas como plataformas potenciadoras da capacidade cívica e da participação dos cidadãos na vida democrática, nomeadamente no período de campanha política, será que não acabam por perpetuar a perda da substância da política? Ficará esta comunicação ainda sob o domínio da lógica de política-espetáculo típica da televisão? Será possível, nos dias de hoje, pensar nos processos de mobilização sem pensar primordialmente na Internet? A mobilização enquanto fenómeno que está intimamente ligado a processos comunicacionais, poderá fazer uso de diversos meios. Apesar dos mass media e da imprensa continuarem a ter um papel primordial, não só como vigilantes, como foi referido acima, mas também na própria difusão das causas que 13 levam os públicos a mobilizarem-se, poder-se-á afirmar que a Internet é hoje o principal meio através do qualse concretiza a mobilização? Capítulo II: Sobre Internet e a sua utilização em Portugal II.1. – O Paradigma da Web 2.0. Num exercício breve e ainda introdutório, abordaremos aqui o paradigma da Web 2.0, seguido de uma caracterização dos hábitos de utilização da Internet e das Redes Sociais por parte da população portuguesa e, por fim, uma comparação dos mesmos com a realidade da União Europeia. As tecnologias sobre as quais incide esta dissertação estão, sobretudo, ligadas à Web 2.0. Este termo foi cunhado pela empresa norte-americana O’Reilly Media como forma de designação de um novo paradigma de utilização da Internet. Apesar da denominação apontar para uma nova versão da Web, não se refere tanto às características e especificações técnicas da mesma, mas sobretudo ao modo como a sua utilização é encarada por utilizadores e criadores de conteúdos. ―O que muda radicalmente é o comportamento do internauta, que deixa de ser uma figura passiva e recetora de conteúdos, para passar a ser um agente ativo no desenvolvimento da Web, multiplicando, assim, por milhões os contribuintes para este novo ecossistema chamado Web. A colaboração passa a ser a palavra de ordem, permitindo a criação de novas formas de organização e a criação de uma extensão virtual de organizações e pessoas, mudando comportamentos e atitudes face ao papel da Internet nas nossas vidas‖ (Carrera, 2014: 183) A Web 2.0 apresenta-se, então, como uma ―plataforma, sem fronteiras rígidas, mas antes como um núcleo gravitacional, um sistema de princípios e práticas, no qual os utilizadores controlam os seus dados. A Web 2.0 assenta em serviços e não em pacotes de software, numa arquitetura de participação e colaboração, aproveitando a inteligência coletiva‖ (O’Reilly, 2005). Compreender brevemente o que é a Web 2.0 tem implicações importantes para o presente trabalho de dissertação, nomeadamente no que diz respeito ao resgate do papel do cidadão. Este paradigma abre o precedente para a ideia de que as plataformas da Internet poderão adquirir importância na comunicação política, já que parecem permitir a revitalização, ou até mesmo a criação, de um novo tipo de espaço público, em que o 14 papel do cidadão como ator político se reativa. Permitem um novo modelo de relacionamento entre político e cidadão, de maior envolvimento, proximidade e, mais importante, sem necessidade de mediação. II.2. – Utilização da Internet em Portugal E que uso farão os portugueses da Internet atualmente? Qual a sua relevância na vida diária dos cidadãos e, consequentemente, de que forma isso se poderá refletir em termos de comunicação política? A comunicação faz-se para as pessoas e, portanto, é preciso compreender que pessoas serão essas. Segundo os dados do site Internet WorldStats2, um estudo realizado em Novembro de 2015 revela que em Portugal, o número de utilizadores da Internet encontra-se, ainda, abaixo da média da União Europeia.67,6% da população portuguesa será utilizadora dos serviços da Internet. A comparação com a União Europeia poderá ser encontrada no Quadro 1: Utilizadores da Internet em 2015 População Total Estimada Utilizadores da Internet Percentagem União Europeia 507 970 816 402 937 674 79,3% Portugal 10 374 822 7 015 519 67,6% Quadro 1. Utilizadores da Internet em 2015 em Portugal e na União Europeia3 Apesar de Portugal se encontrar abaixo da média da União Europeia, dados do Eurostat revelam um crescimento progressivo, continuado e consistente do número de utilizadores desta tecnologia. Em 2009, a fatia da população portuguesa com acesso à Internet em casa não chegava aos 50%. Hoje, encontra-se próxima dos 70%. Tendo por base o estudo ―Emprego, Mobilidade, Política e Lazer‖, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ―[o] acesso à Internet apresenta diferenciações geracionais marcadas, sendo a sua utilização mais generalizada entre os escalões mais jovens e tornando-se progressivamente mais rara à medida que avançamos na idade. De facto, se entre os mais jovens apenas 2,1% declara nunca aceder à Internet, nos escalões mais velhos esse valor é de 63,7% (no caso dos 2www.internetworldstats.com 3http://www.internetworldstats.com/stats9.htm (consultado pela última vez em 06/01/2016) 21 chamado ―Passos Coelho Conta Comigo‖, uma página de Facebook com intuito de chegar sobretudo a camadas mais jovens, que deveriam juntar-se ao movimento partilhando fotografias com a frase ―Passos Coelho Conta Com…‖. Apesar de todos estes esforços para marcar uma presença na Internet, ―continua a ser largamente desconhecido em que medida estas novas tecnologias conseguem ter um papel decisivo na determinação do sucesso ou fracasso de uma campanha. Contudo, o que é claro é que os candidatos e as suas campanhas irão continuar a persistir com estas novas tecnologias, de forma a descobrirem se estas têm capacidade de ter grandes impactos nos resultados eleitorais‖ (Davis et al.: 23). Em 2015, a presença na Internet para efeitos de campanha eleitoral parece ser vista pelos candidatos e pelas equipas de comunicação que com eles colaboram como incontornável e fundamental. Todos os candidatos que se apresentaram às Eleições Legislativas em 2015 têm algo em comum: a sua presença na Internet com sites e páginas nas mais variadas redes sociais. A propósito desta decisão por parte de todos os candidatos de se apresentarem aos eleitores em plataformas da Web, Mafalda Lobo11 defende que apesar de serem "um fenómeno relativamente recente, já nenhum candidato ignora este novo meio de comunicação" e, por isso, "as redes sociais são hoje fundamentais quando se define qualquer estratégia de comunicação política eleitoral". Olhando de forma mais detalhada para três plataformas – websites, Facebook e Twitter – tentaremos compreender que espaço ocupam realmente as ferramentas da Internet nas estratégias de comunicação em tempo de campanha para os candidatos, se têm realmente um papel decisivo e reconfigurador na comunicação política ou se são apenas uma extensão da comunicação tradicional feita nos e para os mass media. Como já foi referido anteriormente neste trabalho de dissertação, e apresentado por Blumler, Gurevitch e Coleman, as NTIC como ferramentas de comunicação política dividem os especialistas relativamente aos efeitos das plataformas da Internet para o período eleitoral e para a democracia mais propriamente dita. Nick Anstead e Andrew Chadwick (2008) falam em duas correntes de pensamento relativamente à utilização de plataformas da Web para efeitos de comunicação política. Por um lado, aqueles a que chamam ―normalizers‖ e que consideram que há uma transposição da realidade da comunicação política como a conhecemos nos media 11In http://economico.sapo.pt/noticias/eleicoes-redes-sociais-entram-na-campanha-de-todos-ospartidos_230024.html (consultado pela última vez em 6/02/2016) 22 tradicionais para estas plataformas, considerando que os atores políticos com mais força offline manterão esse mesmo domínio online, vendo-se a comunicação condicionada pelos tradicionais jogos de riqueza e de poder associados aos media tradicionais e mais especificamente à televisão (Anstead e Chadwick, 2008). Por outro lado, falam de uma corrente de otimistas, que olham para a Internet como uma forma de reformular a política e redistribuir radicalmente o poder. Dentro dos otimistas podemos ainda verificar aqueles que olham para as novas tecnologias da informação e da comunicação de uma perspetiva conectada com uma democracia representativa – a internet como mecanismo de reforço de agentes de representação como os partidos políticos - e aqueles que as olham como potenciadoras de uma democracia direta. Apesar de diferentes, ambas as visões partem da perspetiva de uma certa rutura com os media dominantes, nomeadamente a televisão (comunicação one to many), em benefício das plataformas online que são multidirecionais e interativas. Tendo em conta estas duas posições, surge uma questão que terá que ser tida em análise: será que a tecnologia vai moldar a comunicação política (visão otimista) ou será que a comunicação política molda a utilização das tecnologias para servir os seus moldes tradicionais? Passemos, então, à análise do uso da Internet por parte dos candidatos, olhando em primeiro lugar para a constituição e conteúdos dos websites oficiais de cada uma das forças políticas que são alvo de estudo na presente dissertação, e depois para as páginas de Twitter e Facebook das mesmas. Os sites em análise podem ser encontrados nas hiperligações que seguem no quadro (Quadro 4) seguinte: Quadro 4. – Sites dos Partidos em Análise Partido/ Coligação Site Portugal à Frente http://www.portugalafrente.pt/ Partido Socialista http://costa2015.pt/ Bloco de Esquerda http://www.bloco.org/ AGIR http://agir.org.pt/ Livre/Tempo de Avançar http://tempodeavancar.net/ Nós, Cidadãos http://noscidadaos.pt/ 23 IV.1. – Website PàF A PàF, encabeçada por Pedro Passos Coelho e com Paulo Portas como segunda figura para efeitos de representação e de campanha, criou de raiz um website (www.portugalafrente.pt) para efeitos das Eleições Legislativas de 2015. Ao contrário de momentos eleitorais anteriores, como o caso de 2009, em que havia uma clara americanização da campanha na Internet, e em que os sites se centravam na principal figura do partido, observamos que para o momento eleitoral que analisamos aqui, houve um claro afastamento da figura de Pedro Passos Coelho ou de Paulo Portas no site oficial. Na página inicial do mesmo, não há qualquer menção aos candidatos. O site segue a linha gráfica da imagem que foi construída para a campanha eleitoral da PàF, utilizando o laranja, predominantemente associado ao PPD-PSD, e o azul, ligado ao CDS-PP. Todos os elementos do site conjugam estas duas cores, como símbolo da unidade dos dois partidos e da sua união de forma a levar Portugal em frente. Apesar de não serem utilizados os símbolos dos partidos desta coligação, a utilização das cores tenta remeter os eleitores para a identidade dos mesmos. Imagem 1. – Página Inicial do Site da PàF A partir da página inicial é possível consultar o programa eleitoral, apresentando as linhas programáticas mais importantes e possibilitando a descarga do programa integral em formato de PDF. Através de um mapa de Portugal interativo, a Coligação apresenta os seus candidatos divididos por círculo eleitoral. É possível, ainda, aos visitantes da página que consultem uma secção de destaques, onde são partilhadas notícias ligadas à campanha desta força política. A consulta da agenda dos representantes da Coligação é disponibilizada nesta plataforma, com a possibilidade de navegação no calendário, para que os interessados possam saber quais são os eventos de campanha que se seguem ou até mesmo consultar quais os que já aconteceram. 24 Quem consulte o site da PàF, pode ainda visitar duas galerias: uma de fotografias e outra de vídeos, o que permite seguir a campanha sem recorrer a uma presença física ou aos mass media. É, também, disponibilizado em formato PDF o ―Jornal da Coligação‖, que é distribuído em momentos de campanha em formato físico, deixando disponível a consulta do mesmo a qualquer pessoa que utilize a Internet e que queira saber mais sobre a campanha sem ter que estar presente na mesma. Vemos, desde logo, uma interação entre os formatos tradicionais de campanha e as novas tecnologias. A página inicial desta plataforma apresenta em destaque um botão onde se pode ler ―Dê a sua opinião‖, o que revela a tentativa de quem o concebeu de abrir uma porta para a participação dos cidadãos eleitores na campanha. De destacar ainda na plataforma da Coligação a constante referência às páginas das redes sociais onde se podem seguir os acontecimentos da campanha e encorajando os cidadãos a partilharem as suas próprias imagens da campanha ou publicações onde demonstrem o apoio à candidatura. Através de um clique nos ícones das Redes Sociais, os visitantes do site são diretamente levados para as mesmas. Para além disso, os visitantes do site que quisessem demonstrar o seu apoio à PàF dispunham, ainda de uma ferramenta que permitia a criação de uma fotografia de perfil com um fundo alusivo à Coligação. Para além da foto de perfil, o site disponibiliza para download banners para blogues e fotos de capa para páginas de Facebook. Imagem 2. – ―Eu apoio‖ – Ligação entre website e redes sociais da PàF IV.2. – Website Partido Socialista No que diz respeito ao website do PS, encontramos um site em nome próprio, com referência ao líder do Partido e candidato a Primeiro-ministro, António Costa (www.costa2015.pt). 25 Na página inicial do site pode ver-se a fotografia do candidato António Costa e um dos slogans que acompanha toda a campanha – ―É tempo de confiança‖. Pode ainda observar-se o símbolo do PS, sendo que todo o aspeto visual remete para a cor associada ao partido em questão, balançando o vermelho e o branco que simbolizam o socialismo. A apresentação desta identidade visual distinta e que é desde logo associada à estratégia de marketing, tal como refere Brian McNair, que fala do ―desenho dos logótipos dos partidos e outros significantes da identidade corporativa‖ (McNair, 2007: 134) como ferramentas importantes para que os estrategas comuniquem os candidatos ao eleitorado. Imagem 3. – Página Inicial do Site do Candidato do PS, António Costa Em comum com o site da Coligação, tem o facto de permitir a consulta online dos documentos programáticos do Partido – com a divisão dos conteúdos por áreas de ação, apresentado a novidade da partilha direta desses conteúdos programáticos no Facebook e no Twitter, consoante as temáticas que interessem aos utilizadores partilhar. Mais ainda, tem também a apresentação dos candidatos à Assembleia pelo PS e a possibilidade de acompanhamento das atividades de campanha através de uma agenda interativa e que os visitantes do site podem consultar, navegando ao longo das datas do período de campanha eleitoral. Seguindo uma prática que tem vindo a revelar-se eficaz nos Estados Unidos, e que o foi sobretudo aquando da primeira eleição de Barack Obama em 2008, a equipa de campanha de António Costa aproveita a Internet como uma forma de recolher donativos para se financiar, apresentando aos seus visitantes os passos que deverá seguir se quiser efetuar uma contribuição. A vocação para a conectividade é notória no site da candidatura de António Costa, já que está ligado a uma série de outras plataformas do PS, como o site www.ps.pt e a plataforma ―Ação Socialista‖ (www.accaosocialista.pt), onde todos os dias às 17 horas é possível aos utilizadores da Internet consultar a última edição do órgão informativo oficial do PS. 26 O site do PS é apresentado como um diário da campanha, que permite aos cidadãos um acompanhamento do decorrer da mesma de forma próxima e com atualizações regulares. De realçar é o facto de estar imediatamente presente a ligação às plataformas das redes sociais. O convite é feito para que os visitantes do site acompanhem ―o essencial da campanha de Costa para as Legislativas. Todos os dias, sempre em atualização, diretamente do terreno, a informação mais relevante‖. Tal como acontece com a PàF, o site Costa 2015 interpela diretamente os eleitores através do destaque dado na página inicial a uma opção chamada ―Junte-se a nós‖. Mais ainda, há um apelo direto à participação dos cidadãos no debate da Campanha Eleitoral com a criação de um separador chamado #Costa2015, fazendo referência à utilização do ―hashtag‖, cujas funcionalidades já foram referidas anteriormente, no site pode ler-se ―Junte-se a nós e participe no debate das redes sociais utilizando o hashtag #Costa2015 nas suas publicações‖. A utilização desta expressãochave nas partilhas dos cidadãos é depois transposta para o site, onde se podem ver os tweets em que foi utilizada, mostrando a forma como estão a ser recebidos os acontecimentos da campanha pelos votantes. IV.3. – Website Bloco de Esquerda Contrariamente às duas forças políticas sobre as quais falámos anteriormente (PàF e PS), o BE, encabeçado por Catarina Martins, não investiu na criação de um website com a finalidade exclusiva de promover a sua candidatura às Eleições de 2015. Contudo, o site oficial do BE (www.bloco.org), criou um separador especialmente dedicado ao momento eleitoral em questão. Imagem 4. – Espaço ―Legislativas 2015‖ no Site Oficial do BE Nesse espaço dedicado às Legislativas de 2015 é possível consultar a lista dos candidatos do Bloco, num documento em PDF e que não apresenta as mesmas preocupação em termos do caráter visual ou interativo que pudemos observar na 27 apresentação das mesmas nos sites da Coligação PSD/CDS e do PS e até mesmo de partidos com menor expressão em termos de eleitorado e que iremos apresentar mais à frente (AGIR, LIVRE e NÓS). A apresentação dos conteúdos programáticos também é feita nesta secção do website www.bloco.org, mas denota, mais uma vez, a ausência de uma certa sofisticação apresentada pelos restantes partidos em análise. Tal como a lista dos candidatos, o programa eleitoral é apresentado num documento em formato PDF, deixando para trás a simplificação operada pela Coligação e por Costa 2015 e que facilita a compreensão e leitura dos conteúdos programáticos aos cidadãos, não só pela organização por temática, mas também pela própria apresentação visual, que ao ser mais pobre, se torna menos apelativa. No entanto, poder-se-á argumentar que esta opção foi tomada no sentido de voltar a conferir substância ao momento de campanha eleitoral, afastando o caráter de política espetáculo preconizado pela televisão e que parece ter continuidade com a utilização de elementos visuais fortes, que retiram o foco do conteúdo para a forma. De destacar na plataforma do BE é a disponibilização de materiais de campanha online, para que todos os que queiram apoiar a candidatura tenham acesso livre aos mesmos, como é o caso de cartazes, jornais e modelos de autocolantes de campanha. A ligação às Redes Sociais está mais uma vez presente, com o apelo no site para seguir os acontecimentos da campanha no Facebook, Twitter e Instagram, bem como no Portal www.esquerda.net. Todas as entradas que se referem a questões relacionadas com a participação através de plataformas da Web estão referenciadas pela utilização do hashtag ―#Legislativas2015‖. Mais ainda, e apesar do aparente menor investimento num website de campanha por parte do BE, toda a comunicação feita aponta para a importância do envolvimento dos eleitores através da Internet e mais concretamente das redes sociais, já que é utilizado em várias ocasiões o hashtag ―#gentedeverdade‖, um dos slogans da campanha. A utilização dessa expressão chave nas redes sociais, será analisada em pormenor mais à frente nesta dissertação, como já havia sido anunciado. IV.4. – Website AGIR O movimento AGIR (coligação entre Partido Trabalhista Português e Movimento Alternativa Socialista), tendo sido criado a propósito deste momento eleitoral, tem à semelhança de outros partidos aqui apresentados, um site com efeito exclusivo de campanha eleitoral (www.agir.org.pt). É de notar que, em contraste com o 28 BE, uma força política com muito maior expressão a nível de eleitorado, o movimento AGIR apresenta um website com muito maior sofisticação a nível funcional e gráfico, o que poderá representar que os novos movimentos políticos veem a Internet como uma aposta forte, canalizando muitos dos seus recursos para uma campanha a nível da Web. Imagem 5. – Página Inicial do site do Movimento AGIR Nesta plataforma podem consultar-se notícias sobre o AGIR em campanha e a apresentação do programa eleitoral. Este candidato recorreu frequentemente à partilha de vídeos, a maioria dos quais protagonizados pela sua líder, Joana Amaral Dias. Nalguns deles há um uso claro do formato de spot negativo, já que há um ataque à figura dos adversários – mais concretamente de Pedro Passos Coelho e da Coligação. O site está diretamente ligado ao Facebook e no separador ―AG!R na Rede‖ é possível consultar todas as publicações e partilhas feitas na página desta rede social do movimento. IV.5. – Website Livre/Tempo de Avançar A candidatura do LIVRE (www.tempodeavancar.net) apresenta na sua página inicial a possibilidade de consultar o programa eleitoral da mesma, bem como a possibilidade de conhecer os candidatos por círculo eleitoral, num formato semelhante ao que podemos observar nos sites dos dois principais candidatos (PS e PàF). A partilha de notícias é mais uma vez um dos pontos centrais no website. Imagem 6. – Página Inicial do Site do LIVRE 29 Nesta plataforma encontramos uma novidade face aos restantes sites aqui analisados: a partilha dos tempos de antena da candidatura. Este formato de apresentação dos conteúdos programáticos e do posicionamento político dos candidatos é tipicamente associado ao medium televisivo e, estas peças, são construídas precisamente para serem apresentadas no espaço televisivo dedicado à apresentação dos candidatos. No entanto, este partido aproveitou o conteúdo produzido para poder ser consultado por quem assim o desejar no seu website. Há uma interpelação direta aos eleitores para que demonstrem o seu apoio, com uma zona do site a chamar-se ―Exiba a sua papoila‖, fazendo menção ao símbolo associado ao LIVRE. São disponibilizados uma série de materiais de comunicação prontos a imprimir, como o programa, o jornal de campanha, folhetos e a agenda do partido, com as dez principais linhas programáticas da candidatura, para que os apoiantes os possam partilhar e difundir. Ainda no seguimento do convite feito pelo partido para que os eleitores exibam a sua papoila, e, consequentemente o seu apoio à candidatura, os visitantes do site são encorajados a mostrar o seu apoio nas redes sociais, sendo-lhes apresentada a possibilidade de alterarem a sua fotografia de perfil para o símbolo da candidatura, tanto no Facebook como no Twitter, e ainda uma série de imagens para partilharem nos seus murais. Imagem 7. – Materiais de Apoio à candidatura LIVRE nas Redes Sociais IV.6. – Website Nós, Cidadãos! Por último, olhemos então para o website oficial da candidatura do NÓS (www.noscidadaos.pt). Este é, de todos, o site que apresenta mais conteúdos informativos sobre o partido, programa e a sua estrutura (órgãos nacionais, estatutos, 30 programa eleitoral, programa político, manifesto, declaração de princípios, políticas regionais). Imagem 8. – Página Inicial dos Site Oficial do partido NÓS A par do site do LIVRE, o site do NÓS também permite aos seus visitantes que vejam os tempos de antena que, de outra forma, só poderiam ver na televisão no horário definido para estes conteúdos. Todo o site é construído à volta da ideia de ―Nós‖, remetendo a comunicação para a base identitária do partido, que se verifica logo a partir do seu nome. Expressões como ―O Blogue de Todos Nós‖, ―O Nosso Hino‖, ―O Nosso Fórum‖, entre outras, são utilizadas de forma a engajar os visitantes do website, fazendo-os sentirem-se parte integrante da campanha e ligados ao partido. Esta ideia de ligação ao eleitor e de uma proximidade entre partido e cidadãos é reforçada pelo separador ―Eu Colaboro‖, onde é feito um apelo à participação no momento de campanha, com a possibilidade de demonstrar o apoio através das redes sociais (―Eu participo nas Redes Sociais‖) ou ainda demonstrar o apoio a nível local, com a criação do ―Eu participo no meu Concelho‖, que dá aos simpatizantes do partido a capacidade de intervirem diretamente na campanha nos seus locais de residência, devendo para isso contactar os representantes do NÓS. Tal como outros candidatos que já aqui foram apresentados, o partido permite aos visitantes colocarem o símbolo do partido associado ao seu perfil nas redes sociais ou nas assinaturas dos seus e-mails ou de outras plataformas na internet. No canto superior direito do website é visível uma área chamada ―clipping‖, onde é apresentada uma recolha de notícias sobre o movimento/partido nos mass media, o que revela uma preocupação de interligação entre os media tradicionais e a utilização de plataformas da novas tecnologias da informação e da comunicação. IV.7. – Funções dos Websites Partidários de Campanha No quadro (Quadro 5.) seguinte poderá ver-se de forma sucinta quais os principais usos 37 uma aposta forte no que diz respeito a esta função, já que em raras situações os visitantes têm a possibilidade de navegar para sites ou blogues de outros atores políticos a partir dos sites das candidaturas. A grande aposta em termos de conexão foi, para todos os partidos, a utilização das redes sociais. Para além de encorajarem o envolvimento, a possibilidade de partilha de conteúdos do site para as redes sociais, como por exemplo, www.costa2015.pt, o qual permite a partilha dos conteúdos programáticos por áreas de ação diretamente no Facebook e no Twitter –, todos os websites dos partidos acompanhados neste estudo têm ícones que, depois de clicados, redirecionam imediatamente a navegação para as páginas das plataformas de social media. No entanto, poderemos dizer que, à luz da definição da função de conexão dada por Foot e Schneider, não existe, de facto, uma preocupação neste sentido, já que as ligações que se fazem para outras plataformas são, na sua esmagadora maioria, respeitantes a outros órgãos de comunicação oficial dos candidatos online, sem referência a plataformas de elementos exteriores à campanha e às candidaturas. Em último lugar, temos aquela que se afigura como a questão mais problemática: mobilizar. Na maioria dos websites aqui analisados, pode constatar-se que há uma preocupação no sentido de ir para além do envolvimento e chegar à mobilização. Falamos aqui de mobilização no sentido apresentado por Foot e Schneider, como a possibilidade de um envolvimento mais profundo e de uma quase co-produção e colaboração entre políticos e cidadãos na campanha. Mais à frente veremos de forma mais detalhada outros conceitos de mobilização e participação cívica. A consciência do potencial mobilizador de um website está presente em quase todos os casos analisados, já que disponibilizam formas do visitante se conectar ao candidato a partir do mesmo e facilitam o acesso a materiais de campanha que poderão ser utilizados online e offline. A mobilização acaba por ser a função comunicacional para a qual convergem as outras três exploradas anteriormente. Mobilizar implica informar, envolver e conectar. ―Para uma campanha eleitoral, o objetivo de mobilizar é expandir exponencialmente a campanha, motivando e equipando os apoiantes para promover os candidatos dentro das suas redes sociais e esferas de influência, como vizinhanças, locais de trabalho, organizações e mercados locais de media‖(Foot e Schneider, 2006: 132). 38 No caso da partilha online, as redes sociais têm um papel preponderante, já que a partilha desses conteúdos é largamente possibilitada por estas plataformas, envolvendo os cidadãos numa espécie de coprodução de campanha, em conjunto com os profissionais de comunicação. Isso é notório, já que a maioria dos elementos de envolvimento remetem para essas mesmas redes. Exemplos disso são as fotografias de perfil, de capa e outros elementos vocacionados para as redes sociais, disponibilizados pela PàF, pelo LIVRE e pelo NÓS. O PS, por sua vez, apesar de não tornar livre o acesso a estes materiais, envolve os eleitores através do encorajamento para a utilização do hashtag #costa2015, para que os cidadãos possam participar no debate das redes sociais relativamente à campanha de António Costa. Capítulo V: Sobre Campanha Eleitoral nas Redes Sociais – Facebook e Twitter Partiremos agora para a análise da utilização das Redes Sociais por parte dos candidatos às Eleições Legislativas portuguesas de 2015. Como já foi explicado previamente, e dadas as limitações em termos de tempo e espaço de exposição da presente dissertação, olharemos apenas para a atividade em duas dessas redes, nomeadamente, o Facebook e o Twitter, apesar de muitos dos candidatos dinamizarem outras plataformas para além destas. Já em 2012, Pedro Passos Coelho, então candidato, e candidato novamente nas Eleições que aqui estão em causa apelava à utilização das redes socais para o envolvimento dos eleitores no processo de campanha eleitoral, dizendo: ―[A] Internet e as Redes Sociais tornam hoje mais fácil do que nunca o vosso envolvimento nos temas e nas causas em que acreditam. As vossas opiniões chegam a todos os vossos amigos com um simples like ou com um post. A tecnologia deu-vos os instrumentos necessários para se fazerem ouvir e para tornar esta eleição a vossa eleição‖ (Pedro Passos Coelhos apud. Gonçalves, 2012: 32). A maior importância que as Redes Sociais começam a assumir no panorama político português, e que já assumiram noutros países, como é o caso paradigmático dos Estados Unidos da América, parece dever-se à consciência de que é necessário envolver os cidadãos na política e nos momentos eleitorais de forma a combater a falta de interesse que se reflete nos elevadíssimos números da abstenção, que são um problema crónico nos momentos eleitorais do país. 39 Para além disso, oferecem a possibilidade de acompanhamento de todos os acontecimentos da campanha em tempo real, bem como a possibilidade de resposta à oposição ou a qualquer informação negativa que surja de forma muito mais rápida. Como virmos anteriormente, os websites são, também, construídos com preocupações relativamente ao envolvimento e mobilização dos cidadãos. No entanto, as Redes Sociais são inerentemente plataformas que convidam à participação e ao envolvimento com aquilo que é publicado. Segundo Mafalda Lobo, ―Embora as páginas de website continuem a ser criadas em períodos eleitorais, as redes sociais apresentam hoje uma dinâmica diferente em períodos de campanha porque permitem, por um lado a participação dos cidadãos/eleitores através de gostos, comentários e partilhas face aos conteúdos apresentados, e por outro, permitem às candidaturas terem acesso à forma como os cidadãos/eleitores reagem às propostas, ideias e programas dos candidatos para o país"12. O website é uma plataforma sobretudo estática e, apesar de ter mecanismos que permitem a sua atualização com elementos como notícias ou fotografias de eventos de campanha, tem a desvantagem face às redes sociais de não as mostrar diretamente. Isto é, nas Redes Sociais, uma atualização de estado ou uma partilha é facilmente acessível aos seguidores das páginas ou até a amigos de seguidores, já que aparece diretamente no seu feed de notícias. As Redes Sociais parecem ter o potencial para afastar o cidadão do papel passivo nos momentos de campanha, uma solução para a assimilação passiva de conteúdos preconizada pelo domínio da televisão como medium político por excelência. Com as redes sociais, os candidatos têm a possibilidade de envolver o cidadão no debate político e o cidadão passa a ter a possibilidade de dar feedback de forma rápida, numa lógica de coprodução, rompendo com o paradigma mass mediático de relação unidirecional entre um emissor e uma audiência que recebe a informação de forma passiva, sem a possibilidade de intervir. Segundo Kerric Harvey (2013: xxxv), definir o que são as redes sociais (social media/social networks) é bastante difícil e portanto a melhor forma de compreendermos 12In http://economico.sapo.pt/noticias/eleicoes-redes-sociais-entram-na-campanha-de-todos-ospartidos_230024.html (consultado pela última vez em 6/02/2016) 40 as suas características é utilizando alguns traços que serão comuns à maioria delas. Assim: ―As redes sociais (…) são experienciadas como comunicação de um para um, de par para par; as redes sociais parecem pessoais, mesmo que não sejam; as redes sociais proliferam organicamente, de acordo com o seu destaque para a rede social dos utilizadores e a sua relevância percebida para os tópicos do dia; a proliferação das redes sociais pode também ser resultado da manipulação institucional (e por vezes individual) através do uso de ferramentas de otimização da utilização das redes sociais, das estratégias de otimização dos motores de busca e wikis; as mensagens das redes sociais são curtas, objetivas e, geralmente, pessoais; as redes sociais fomentam um contexto comunicacional em que as regras habituais não se aplicam; as redes sociais aparentam nivelar o campo político mesmo que não o façam; o conteúdo das redes sociais viaja; as redes sociais criam um sentido de comunidade; as redes sociais são instantâneas e, portanto, expressões aparentemente espontâneas de crença, opinião, observação ou experiência (…)‖ (Harvey, 2013: xxxv) As características aqui apontadas relativamente à natureza das redes sociais, remetem, desde logo, para uma série de aspetos fundamentais para o estudo de caso do presente trabalho. Em primeiro lugar, e como primeira marca apontada pelo autor, é de realçar o aspeto comunicativo que envolve o funcionamento destas plataformas, já que neste trabalho se procura compreender de modo mais preciso se estas tecnologias estão, ou não, ao serviço da comunicação política e de campanha. De notar, ainda, que as redes sociais são apresentadas como plataformas com um efeito semelhante ao da televisão: a criação de uma ilusão de proximidade, mesmo quando esta não existe. A possibilidade de gerar esta fantasia poderá afigurar-se como uma vantagem para os atores políticos, ao conseguirem criar nos cidadãos votantes uma ideia de proximidade e envolvimento no processo político, a qual pode existir de facto ou não. Para além disso, Harvey realça uma outra característica – as redes sociais parecem dar aos pequenos partidos novas possibilidades de comunicarem com os cidadãos, já que os custos associados são bastante mais baixos do que nos media tradicionais. O Facebook é, sem dúvida, a rede social mais utilizada pelos portugueses e a rede social com mais utilizadores no mundo inteiro. Para além de ser a rede social mais 41 popular, é também o segundo site mais visitado no planeta, atrás apenas do motor de busca Google (google.com). Esta plataforma permite a criação de páginas profissionais ou institucionais, que se apresentam como boas plataformas para os candidatos e para as suas equipas de comunicação. Têm a vantagem de permitir uma monitorização detalhada do número de visitantes, partilhas e alcance das publicações, bem como observar as características sócio-demográficas do público que está a alcançar. Estes mecanismos de monitorização permitem aos profissionais de comunicação e aos políticos medir a sua popularidade e fazer ajustes à sua comunicação, caso o público alcançado não seja o inicialmente pretendido, por exemplo. Numa primeira fase, analisaremos o tipo de publicação que é feita pelos profissionais responsáveis pelas páginas, olhando para fatores como a frequência de publicação, o tipo de conteúdo (texto, imagem, álbum fotográfico, vídeo, entre outros). Para além disso, procurar-se-á perceber de que forma é que a atividade nas redes acaba por complementar a utilização dos websites e as ações de campanha offline. Tendo em conta o número de gostos ou seguidores das páginas das redes sociais dos candidatos, tentar-se-á ainda perceber em que medida é que estas plataformas poderão ser representativas dos resultados eleitorais. Anteriormente já vimos que em momentos eleitorais passados, não foi possível observar uma correlação entre os resultados e a popularidade nas redes sociais, mas é importante compreender se isso se continua a verificar ou se há uma mudança dessa tendência. Depois tentaremos compreender quais são as publicações que mais envolvem os eleitores, através do número de gostos, partilhas e comentários que são feitos nas mesmas. Os comentários têm um papel central para compreender que tipo de intervenção poderão ter efetivamente os cidadãos. As respostas dadas (ou não) pelos administradores das páginas serão também focadas, já que são importantes para compreender se há uma real abertura da campanha aos cidadãos, com a preocupação de dar respostas às questões dos mesmos, possibilitando um eleitorado mais esclarecido. Este elemento é aqui crucial, pois é revelador da capacidade, ou da ainda incapacidade, dos profissionais da comunicação darem resposta à complexidade comunicativa que é gerada pela utilização de plataformas deste género. Os candidatos e as suas equipas controlam aquilo que é publicado, no entanto a gestão das reações e do feedback a essas publicações torna-se bastante mais complexo do que nos espaços mediáticos tradicionais. Qualquer utilizador pode fazer um 42 comentário desagradável ou distorcer a mensagem, com a agravante de que esses comentários depreciativos poderão ser depois partilhados por um grande número de pessoas, ganhando uma proporção que não será favorável para a imagem do político. As redes sociais apresentam, portanto, muitos desafios para os profissionais da comunicação, uma vez que estes se veem a braços com uma comunicação multilateral, tendo que controlar comentários e partilhas abusivas durante 24 horas por dia; e, ainda, encontrar soluções rápidas para minimizar os danos que estas possam causar para a imagem do candidato. Mais à frente, e ainda com base na análise feita às redes sociais, tentar-se-á compreender o grau de efetiva mobilização e participação cívica que as plataformas das redes sociais proporcionam. Para isso, e já que esta análise se centra e parte das páginas dos candidatos, a mobilização e o envolvimento serão medidos pela utilização de hashtags ―oficiais‖ da campanha, fora dessas plataformas oficiais de campanha, isto é, pelos apoiantes dos candidatos e pelos eleitores em geral. Segundo João Canavilhas, ―As grandes vantagens destas redes são a escala e a proximidade, dois conceitos muito caros aos políticos. A aposta nestas ferramentas tem por base a ideia de que o acesso virtual tranquiliza tanto como o acesso real (Kerbel,1998), o que em grande escala tende a transformar estas ferramentas num dispositivo mais poderoso do que os meios tradicionais, pois permitem codificar a mensagem em vários formatos (multimedialidade), têm uma abrangência global (ubiquidade), possibilitam a personalização da informação, dão ao utilizador a sensação de que é ele quem controla todo o processo (interactividade) e escapam ao controlo dos media tradicionais. As redes sociais têm um enorme potencial como ferramenta individual de contacto entre candidatos e eleitores (…)‖(Canavilhas, 2009: 10). O que é central aqui é perceber se as redes sociais se apresentam, de facto, como uma alternativa ao modelo de passividade preconizado pelos mass media, mais concretamente pela televisão. Esse parece ser o objetivo, mas será que se vê concretizado? Haverá de facto uma maior participação dos cidadãos na campanha e nos momentos eleitorais por se abrirem estes canais? E mais importante, será que os atores políticos os utilizam para, de facto, incluir os cidadãos na vida política ou serão estas redes utilizadas de forma superficial como mais um canal de campanha como tantos outros, não explorando todas as suas potencialidades interativas e falhando no engagement dos cidadãos eleitores? 43 No quadro (Quadro 6.) abaixo podem ser consultadas as ligações para as páginas oficiais da campanha de cada um dos partidos ou coligações em análise na presente dissertação. Pode ver-se ainda o número de gostos (Facebook) e o número de seguidores (Twitter) das mesmas. O número de gostos e seguidores que aqui se apresenta diz respeito aos valores à data das eleições, podendo, entretanto, ter sofrido alterações. Partido/ Coligação Facebook Nº de Gostos Twitter Nº de Seguidores Coligação Portugal à Frente https://facebook.com/Portug alAFrente 33 Mil Gostos https://twitter.com/PortugalAFrent e 2 Mil Seguidores Partido Socialista https://www.facebook.com/ CostaPS2015 39 Mil Gostos https://twitter.com/costaps2015 2 Mil Seguidores Bloco de Esquerda https://www.facebook.com/ esquerda.net 33 Mil Gostos https://twitter.com/EsquerdaNet 12 Mil Seguidores AGIR https://www.facebook.com/ partidoagir/ 7 Mil Gostos https://twitter.com/info_agir/ 43 Seguidores Livre/Tempo de Avançar https://www.facebook.com/ TempodeAvancar 13 Mil Gostos https://twitter.com/tempodeavanca r Mil e 300 seguidores Nós, Cidadãos https://www.facebook.com/ noscidadaos/ 27 Mil Gostos https://twitter.com/NOSCIDADA OS 106 Seguidores Quadro 6. – Links para as páginas oficiais das redes sociais e número de gostos e seguidores V.1. – Facebook e Twitter - Coligação Portugal à Frente A PàF iniciou a sua atividade de campanha nas redes sociais a 11 de Setembro de 2015. É de salientar que o arranque da campanha desta candidatura foi feito, precisamente, através das páginas oficiais de Facebook e Twitter. Pedro Passos Coelho apresenta-se a dar início àquilo a que chama ―Maratona Portugal à Frente‖ num vídeo em que apela ao voto e a uma maioria para a Coligação. Mais ainda, salienta a importância que a Internet, e mais especificamente as plataformas de social media, irá ter ao longo de toda a campanha – ―Este será mais um espaço onde discutiremos 44 abertamente os desafios que enfrentámos, o trabalho que o Governo está a fazer e as nossas propostas para o futuro‖13. Este será um dos melhores exemplos da importância que os políticos começam a conferir às Redes Sociais em tempo de campanha eleitoral e confirma a ideia de que as procuram sobretudo como uma forma de estar mais próximos do eleitorado e de abrirem a campanha ao debate e à partilha de ideias, apontando para a co-construção de um futuro para Portugal. A PàF encerrou a sua página de Facebook após as Eleições, sendo que a sua última publicação tomou a forma de um agradecimento pela confiança dos portugueses, ao atribuírem o maior número de votos a esta força política. Tendo em conta o encerramento da página, a análise de certos aspetos que será feita no caso dos restantes candidatos, ver-se-á aqui limitada. Contudo, a recolha prévia de alguns elementos publicados permitirá que se analisem algumas nuances da atividade, ainda que não todas aquelas que seriam desejáveis. Tendo em conta que alguns materiais, nomeadamente vídeos e fotografias, foram também partilhados nas páginas oficiais do PSD e do CDSPP, as hiperligações partilhadas remeterão para essa mesma página e não para a página da Coligação, já que esta não está online para consulta no momento em que se elabora a presente dissertação. A página oficial de Facebook da PàF foi atualizada entre 11 de Setembro de 2015 e 5 de Outubro de 2015 (dia imediatamente a seguir à realização das eleições), momento no qual teria atingido cerca de trinta e três mil gostos. Em termos de apresentação, a página da PàF seguia a linha gráfica de toda a restante campanha, tendo como fotografia de perfil o símbolo, conjugando as cores do PPD-PSD (laranja) e do CDS-PP (azul). De resto, a grande maioria das publicações mantinha a coesão com esta linha gráfica, apontando sempre para a união entre os dois partidos. Esta plataforma serviu, sobretudo, como forma de acompanhar os acontecimentos da campanha offline, com a partilha de fotografias de todos os acontecimentos como arruadas, convívios, jantares e outros eventos. A cada dia, os eleitores poderiam seguir todos os passos dos candidatos da Coligação através da página de Facebook. 13in Jornal de Notícias Online, ―Passos marca início de campanha com vídeo no Facebook e Twitter‖, 11/09/2015 45 Serviu, ainda, como plataforma para a partilha de vídeos de discursos proferidos pelos candidatos e publicados na página de YouTube da candidatura. Um outro elemento partilhado com grande frequência na página de Facebook desta candidatura foi as fotografias acompanhadas de frases proferidas pelos líderes da candidatura, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Este tipo de partilha imita, em certa parte, a lógica do soundbite tão utilizada nos broadcast media, na medida em que, o que se procura são determinadas frases fortes e envolventes que sintetizam o sentimento que os candidatos querem transmitir ao eleitorado, espelhando algumas das suas convicções centrais de forma rápida, concisa e simplificada. Imagem 9. – Utilização da página de Facebook para a partilha de citações das intervenções dos candidatos A página de Facebook da PàF foi claramente utilizada como uma plataforma de aproximação entre os candidatos e o eleitorado, na medida em que foi criado um formato que permitia aos cidadãos colocar questões que seriam respondidas diretamente pelos líderes da Coligação, Passos Coelho e Portas. Estes espaços denominavam-se de ―Eu respondo às quartas‖ 14 e ―Eu respondo às quintas‖. Todas as quartas-feiras, Pedro Passos Coelho respondia às questões colocadas pelos cidadãos no Facebook. Às quintas-feiras, era a vez de Paulo Portas responder ao eleitorado, no mesmo formato. Em último lugar, relativamente à página de Facebook da PàF, é preciso ter em atenção a consciência da potencialidade mobilizadora das páginas das redes sociais. As imagens publicadas na página da candidatura são sempre acompanhadas de um apelo aos apoiantes da candidatura. Em todas elas pode ler-se ―Mobilize, partilhe. #somosmais‖. A utilização desta expressão reflete que, de facto, o principal objetivo por detrás da aposta nas redes sociais parece ser a aproximação aos cidadãos e o seu maior envolvimento no processo de campanha eleitoral. Há uma interpelação direta ao eleitor para que partilhe com as suas conexões na rede social as ideias da candidatura. Explorase aqui o potencial da rede, em que a possibilidade de difusão da mensagem dos candidatos se torna virtualmente infinita – uma partilha faz chegar a mensagem a 14 Um exemplo destes vídeos está disponível para consulta em: https://www.facebook.com/ppdpsd/videos/1146355762059989/ 46 pessoas que podem não ser necessariamente seguidoras da página da candidatura, que por sua vez, poderão partilhar novamente a mensagem com a sua rede, expandindo largamente o número de pessoas às quais as ideias e iniciativas da Coligação irão chegar. Esta ideia segue a linha da utilização dos websites para funções de mobilização. Vimos anteriormente que a mobilização era definida como a possibilidade de munir os apoiantes da candidatura com materiais que lhes permitissem fazer campanha pela candidatura que apoiam (Foot et al, 2009). As redes sociais desempenham esse papel na perfeição, já que qualquer conteúdo partilhado pode ser reutilizado pelos eleitores apoiantes da candidatura. A frase ―Mobilize, partilhe‖ vem relembrar os cidadãos de que também eles têm um papel ativo na campanha. Imagem 10. – ―Mobilize, partilhe #somosmais‖ – O apelo da coligação PàF aos seus seguidores No que diz respeito ao Twitter da Coligação, o número de seguidores é bastante mais reduzido do que o número de gostos no Facebook, contando, à data das eleições com cerca de dois mil seguidores. Apesar disso, a página foi largamente dinamizada desde que a Coligação iniciou a sua campanha eleitoral. À semelhança do que aconteceu com o Facebook, a página de Twitter cessou a sua atividade no dia imediatamente seguinte às eleições, com mensagens de agradecimento aos portugueses. No entanto, e ao contrário do que aconteceu com o Facebook, a página de Twitter permanece online. Esta plataforma foi atualizada diariamente e várias vezes por dia, seguindo os acontecimentos da campanha de perto e publicando conteúdos em direto, seguindo aquela que é toda a lógica subjacente ao funcionamento desta rede social de microblogging e presente na questão que é colocada no campo onde se fazem as publicações – ―O que está a acontecer?‖. Durante os eventos de campanha, como jantares e comícios, o Twitter da Coligação era atualizado a cada nova intervenção, permitindo aos seguidores fazer um acompanhamento em direto daquilo que se estava a passar, sem terem que se deslocar ao local físico do evento. Este tipo de atividade permite aos eleitores sentirem-se 53 Imagem 15. – Anúncio de um evento de campanha na página de Twitter do BE. À semelhança do que aconteceu com a página de Facebook, também no Twitter o BE foi a força política que mais referência fez às suas posições políticas e propostas da sua candidatura, não esquecendo os ataques à oposição, mais uma vez com especial destaque para a Coligação e para as figuras de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. V.4. – Facebook e Twitter - AGIR Apesar de ter desenvolvido um site com boas respostas às funções comunicacionais identificadas por Foot, e das quais falámos anteriormente, e ter sido por isso escolhido como alvo de estudo na dissertação, de entre os candidatos em análise no presente trabalho, o AGIR é aquele que tem menor expressão nas redes sociais. A página de Facebook apresentava no dia 4 de Outubro de 2015, sete mil gostos. A sua atividade teve início em Agosto, com o anúncio do Acordo de Coligação Eleitoral entre PTP e MAS. De todos as páginas até agora analisadas, a página do AGIR é a única que não partilha reportagens fotográficas dos momentos de campanha, como arruadas, comícios e outros eventos. Falha, portanto, na capacidade de proporcionar aos seus apoiantes que acompanhem a campanha em direto. À semelhança do BE, o movimento AGIR recorre com muita frequência à partilha de conteúdo vídeo em vez de fotografia, como acontecia nos dois primeiros candidatos em análise neste trabalho. A maioria desses vídeos apresenta a líder do movimento, Joana Amaral Dias, a expor as suas posições relativamente à realidade do país. Enquanto nas outras páginas as equipas de comunicação e gestão parecem ter uma presença quase invisível, no caso do AGIR, essa equipa fala na primeira pessoa. Pode ler-se numa das publicações: ―Face a um determinado número de afirmações vernáculas colocados na caixa de comentários de um post sobre a intervenção registada no vídeo abaixo - número esse que ainda que reduzido, pode ser significativo eventualmente melindrar alguns leitores e 54 amigos desta página, vimos publicar aqui respostas dadas a esses comentários pela equipe de gestão do Facebook do AG!R, e que servem como comunicado‖. O elemento de maior destaque na página do AGIR prende-se com a interatividade com os visitantes da página. A equipa de gestão da página de Facebook do AGIR revela uma especial preocupação em responder aos comentários dos eleitores. Nos casos das candidaturas anteriores, não se verificava uma resposta direta aos comentários dos visitantes. No caso da Coligação, havia uma resposta por parte dos candidatos no formato ―Eu respondo às quartas/quintas‖, no entanto, essas respostas diziam respeito a um número ínfimo de comentários e comentários em forma de pergunta. O AGIR envolve-se muito mais, na medida em que não só dá respostas a questões colocadas de forma rápida e diretamente na página, como ainda agradece comentários de apoio. Imagem 16. – Respostas aos visitantes da página de Facebook do movimento AGIR. O número de seguidores no Twitter é muito reduzido, com apenas quarenta e três utilizadores da plataforma a seguir as atualizações feitas pelo Movimento AGIR. No entanto, isso não impediu que os gestores das redes sociais da candidatura apostassem na mesma nesta plataforma. Ao contrário de outras candidaturas que publicaram conteúdos muito semelhantes ou até mesmo iguais nas diferentes redes sociais, o AGIR concebeu duas campanhas para o Twitter - #Desobedece e #NotasdeCampanha. Dado o reduzido número de seguidores, a maioria das publicações feitas pelo movimento não teve qualquer tipo de resposta ou envolvimento e, portanto, as potencialidades desta plataforma acabaram por não se ver exploradas. 55 V.5. – Facebook e Twitter – Livre/Tempo de Avançar Existem páginas separadas para Livre e Tempo de Avançar tanto para Facebook como para Twitter, no entanto, iremos debruçar-nos apenas na página com o título ―Tempo de Avançar‖ pois é aquela que está associada ao site oficial da candidatura. O LIVRE contava, aquando das Eleições Legislativas de 2015, com treze mil gostos na sua página de Facebook. O início da sua atividade nesta rede social dá-se com a partilha das fotografias da entrega da lista candidata, no mês de Agosto. A página continua a ser atualizada, apesar de ter reduzido a frequência das publicações. O Facebook do LIVRE apresenta um modelo mais semelhante ao que encontramos nas páginas da PàF e de Costa 2015, voltando a ter como principal função o acompanhamento dos acontecimentos da campanha. Durante o tempo em que se desenvolveu a atividade de campanha, a página foi atualizada com frequência de uma vez por dia, o que significa que publicou menos do que qualquer uma das outras força políticas aqui analisadas. Para além disso, foi aquela que menos variou no formato das suas publicações, sem recorrer a outros materiais para além da fotografia de eventos. Imagem 17. – Exemplo de um álbum de reportagem fotográfica dos eventos de campanha do LIVRE. Mais ainda, é de notar que a página da candidatura não aproveitou a plataforma para partilhar com o eleitorado as suas posições políticas ou propostas, nem tão pouco menciona a oposição, ao contrário do que verificámos nas páginas sobre as quais nos debruçámos anteriormente. Em termos de envolvimento dos eleitores não se verificou qualquer tentativa de operacionalizar mecanismos que permitissem a interação ou que convidassem os visitantes ao envolvimento na campanha. Podemos, portanto, verificar que a página do 56 LIVRE no Facebook se preocupou de forma quase exclusiva em corresponder a uma função informativa. A página de Twitter do LIVRE contava, à data das eleições, com cerca de mil e duzentos seguidores. Comparado com o número de seguidores que apresentam as outras duas forças políticas com menor expressão (AGIR e NÓS), este número de seguidores é bastante significativo e respeita sensivelmente a mesma proporção entre gostos no Facebook e seguidores no Twitter que a PàF e Costa 2015. Esta plataforma foi atualizada várias vezes por dia durante o período da campanha. A prática de maior interesse nesta página é a utilização regular da funcionalidade do Retweet, que não se verificou em nenhuma das outras candidaturas. O Twitter do LIVRE foi em grande parte alimentado pelas publicações dos seus apoiantes, o que revela, de entre todos os partidos, a maior preocupação no envolvimento dos cidadãos na campanha, demonstrando que os eleitores poderão, de facto, ter um papel ativo e uma voz em período de campanha. O Twitter vem por isso colmatar a falta de interatividade que se verificou na página de Facebook desta mesma candidatura. Imagem 18. – Retweets das publicações de apoiantes da candidatura LIVRE Nesta página, a campanha do LIVRE ganhou contornos que não teve na campanha via Facebook. Não se limitou à partilha das reportagens fotográficas de acontecimentos de campanha, partilhando com frequência vídeos, o calendário dos eventos da campanha e as suas posições políticas, inclusivamente atacando a oposição e o Governo. É de notar que nesta página foi partilhado várias vezes o link para o vídeo de apoio de Ricardo Araújo Pereira, comediante de destaque no panorama português, à 57 candidatura cidadã – LIVRE. Como vimos anteriormente, também o PS se associou a figuras de destaque do mundo do entretenimento. Imagem 19. – Tweet sobre o vídeo de apoio de Ricardo Araújo Pereira à candidatura do LIVRE V.6. – Facebook e Twitter – Nós, Cidadãos! O NÓS é, de entre as forças políticas com menor expressão em termos de eleitorado aqui analisadas, aquela que tem um maior impacto a nível do Facebook. Com vinte e sete mil gostos à data das eleições, encontra-se muito à frente do AGIR ou até mesmo do LIVRE. A sua atividade relativa às Eleições Legislativas de 2015 iniciou-se ainda em Julho de 2015, antes de qualquer um dos restantes casos em análise, com uma publicação sobre a Reforma do Estado. A cadência das publicações foi, de entre todos os casos em análise, a mais irregular no caso do NÓS. Nas restantes páginas foi possível observar pelo menos uma publicação diária, no caso desta, verificou-se a publicação de muitos conteúdos num só dia, para depois se passarem vários dias sem atualização. O Facebook do NÓS diferencia-se das demais páginas aqui estudadas na medida em que é a única que utiliza esta ferramenta para uma exposição completa das linhas programáticas da sua candidatura. Para tal, não só criou um álbum exclusivamente dedicado à partilha do programa eleitoral, como recorreu à ferramenta as notas, que permite colocar no Facebook grandes massas de texto. Apesar da popularidade no Facebook, a adesão no Twitter é verdadeiramente reduzida, com cerca de 100 seguidores apenas. Esta página foi utilizada predominantemente para partilhar links de conteúdos noutras plataformas online, como é o caso do Facebook e do YouTube. As publicações feitas nesta plataforma não obtiveram qualquer tipo de engagement por parte dos seguidores, sendo que não tiveram retweets nem gostos. Imagem 20. – Partilha de Links na Página de Twitter do NÓS 58 V.7. – Facebook e Twitter – Utilizações na Campanha de 2015: um resumo Em conclusão, foi possível observar que o Facebook é a rede social com maior preponderância para os profissionais de comunicação, já que se verificou, em todos os casos, um grande investimento na mesma, com atualizações regulares e criação de conteúdos exclusivos para esta plataforma. Verificou-se, ainda, que a grande maioria das publicações feitas nas páginas em análise dão azo a comentários, reações e partilhas por parte dos seus visitantes, ao contrário do que acontece no Twitter. Na maioria das publicações não há sequer reação por parte dos seguidores, o que poderá indicar um de dois cenários: por um lado, poderá ser reflexo da ainda fraca popularidade do Twitter como rede social em Portugal; por outro lado, poderá revelar que existe ainda um longo caminho a percorrer por parte dos profissionais da comunicação política de forma a maximizar o potencial desta rede social. Seja qual for o problema, ou existindo os dois em simultâneo, é certo que a campanha política online em Portugal, tão inspirada no modelo dos Estados Unidos da América, acaba por não conseguir implementar aquela que foi a maior arma de campanha para figuras como Barack Obama. Na generalidade, as páginas das Redes Sociais serviram sobretudo como diários de campanha, permitindo aos eleitores e apoiantes das candidaturas seguir os passos dos candidatos no mundo offline, através do mundo online. É interessante, ainda, constatar que a atividade dos candidatos nas Redes Sociais reflete de forma notória a sua personalidade partidária e a posição que ocupam no panorama político e eleitoral. A PàF, encabeçada pelos então Primeiro-Ministro e Vice-Primeiro-Ministro, adota uma posição mais institucional e menos aguerrida em termos políticos. Nas páginas desta candidatura há um total afastamento da oposição, sem que lhe seja feita qualquer tipo de ataque. Já as restantes forças políticas têm em comum o facto de representarem partidos da oposição ao Governo nos quatro anos anteriores, tendo, então, espaço para o ataque à PàF. Em todos os cinco casos, a coligação PPD/PDS – CDS/PP é vista como o inimigo e alvo das maiores críticas. Muitos deles, utilizam as suas páginas das redes sociais para ―desmascarar‖ esta coligação. Esse formato de crítica assemelhase muito a um formato de advertising político, tipicamente televisivo, o spot negativo – ―anúncios nas quais se foca uma alegada fraqueza do oponente em vez de se focar um atributo positivo do próprio candidato ou candidata‖ (McNair, 2007: 94). Nos partidos mais à esquerda, é possível observar o seu caráter mais revolucionário e inconformado através das publicações. É também de notar que, por 59 exemplo, nas páginas do BE, os eleitores são interpelados como ―tu‖, o que se prende com uma certa ligação que se tem vindo a criar entre este partido e as camadas mais jovens da população portuguesa. Mais ainda, foi possível verificar pelos comentários que a maioria daqueles que segue e se envolve com a atividade de campanha nas redes sociais são os apoiantes das candidaturas, tal como já havia sido concluído em outros estudos sobre a utilização das redes socais na campanha eleitoral – ―As investigações levadas a cabo (…) corroboram que os eleitores visitam sobretudo os perfis, nas redes sociais, dos candidatos que já são da sua preferência, o que tem o benefício de reforçar o sentimento de comunidade entre os apoiantes‖ (Gonçalves, 2012, p. 35). Todavia, e apesar de não terem sido as maiores apostas dos partidos candidatos, o diálogo e a interação com os votantes permaneceram como uma das principais intenções dos partidos ao utilizar estas plataformas. As suas declarações relativamente às páginas, como vimos acima no caso da PàF e do PS, revelam precisamente essa intenção de aproximar políticos e cidadãos. Apesar disso, e de terem sido tomadas iniciativas no sentido da criação dessa ligação, esta ainda parece ficar aquém do seu potencial, especialmente porque na maioria das páginas os gestores das mesmas não aproveitam, por exemplo, os comentários para iniciar um diálogo. De seguida, focar-nos-emos nesta questão, relativa à utilização destas plataformas como mecanismos de interação dos cidadãos com a estrutura de campanha, nomeadamente recorrendo a pesquisas nas redes sociais com base nos hashtags utilizados pelos candidatos. Mais ainda, procuraremos perceber que efeitos poderão ter as redes sociais numa perspetiva de mobilização não só para a campanha, como para a forma mais basilar da participação cívica, o exercício do direito de voto. Capítulo VI: Sobre Mobilização - A utilização dos novos media como ferramentas com potencial cívico Ao longo de todo o trabalho fomos falando sobre mobilização, mas debruçarnos-emos agora mais detalhadamente sobre este conceito, a sua ligação com o estudo das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação aplicadas à Comunicação Política e o caso concreto em análise na presente dissertação, as Eleições Legislativas de 2015. Este conceito será explorado em ligação permanente com um outro que aqui 60 iremos esclarecer, o de participação cívica, procurando compreender em que medida as NTIC influenciam a sua concretização. Após o esclarecimento desses conceitos, o que procuraremos compreender à luz dos mesmos é se, efetivamente, se abriram portas para reforçar a participação e mobilização ou se, no contexto português e no caso das Legislativas de 2015, nos encontramos perante uma mera ilusão dessa abertura da política e da democracia aos cidadãos. Este será, talvez, o maior desafio da presente dissertação, já que o objeto de análise são canais de comunicação oficial e institucional dos partidos candidatos, o que parece deixar pouco espaço para conseguir retirar conclusões relativas à participação dos cidadãos no contexto da campanha eleitoral. Todavia, consideramos que tal contingência não será totalmente impeditiva de uma especulação relativa ao potencial, ou falta dele, da Internet para a mobilização, tendo em conta sobretudo a forma como os candidatos preparam a sua campanha online para dar entrada aos eleitores no processo, transformando-os em seus apoiantes. Para além de revisitarmos alguns elementos dos quais já falámos aquando da análise aos sites e às redes sociais, procuraremos fazer uma ponte entre os canais institucionalizados da campanha dos partidos e os cidadãos eleitores através do Twitter e do Facebook, através da pesquisa dos hashtags oficiais da campanha de cada um dos candidatos. Teremos em atenção a expressão dos mesmos em termos quantitativos – serão os hashtags utilizados em massa pelos utilizadores das redes sociais – e em termos qualitativos – que tipo de intervenção vemos associada aos hashtags? Serão utilizados maioritariamente por apoiantes ou poderão ser também utilizados por opositores? VI.1. – Mobilização – uma breve abordagem conceptual A mobilização é um conceito que ganha o seu sentido à luz do contexto democrático em que se ―busca efetivar (…) um relacionamento inovador entre Estado e sociedade civil, que prevê processos participativos.‖ (Henriques, 2010, 69). O estudo de caso subjacente a todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido diz respeito ao momento mais fundamental da democracia e das sociedades democráticas – as eleições. Apesar de não tratar diretamente da relação entre Estado e sociedade civil, a lógica subjacente será a mesma e a pergunta será: em que medida é que os partidos políticos candidatos às Eleições Legislativas de 2015 preveem inovar a sua relação com o eleitorado através de processos participativos, no contexto das eleições democráticas? 61 Como tal, a mobilização é em simultâneo fruto das exigências democráticas, que se baseiam na soberania popular, e um meio para atingir essas exigências, assegurando aos cidadãos o direito de participação na vida política. As próprias constituições democráticas apontam desde logo para a necessidade de uma mobilização, no sentido de reforçar uma democracia participativa. A mobilização surge associada à necessidade de participação dos cidadãos na vida política. O conceito de mobilização tem origem bélica e surge só recentemente com uma conotação social propriamente dita (Henriques, 2010: 67). O verbo mobilizar indica movimento, mas também uma sensibilização e uma comoção. “Mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados” (Toro e Werneck, 2007: 5). O público torna-se público quando põe em marcha na esfera pública o seu grupo, a sua causa, a sua bandeira. A mobilização social é, então, uma ―reunião de sujeitos que definem objetivos e compartilham sentimentos, conhecimentos e responsabilidades para a transformação de uma dada realidade, movidos por um acordo em relação a determinada causa de interesse público‖ (Henriques, Braga e Mafra, 2007:36). A mobilização é um processo que é inerentemente comunicativo: todo o processo de mobilização social tem uma intenção comunicativa. A comunicação significa pôr em comum e, portanto, serve como ponto de partida para o estudo das questões da mobilização (Henriques, 2010: 72). A movimentação é um conceito complexo e levanta diversas questões associadas a motivações e temáticas unificadoras que só poderão ser respondidas à luz de processos comunicativos. A participação é, em simultâneo, um fim e um meio para a mobilização. É preciso participar para mobilizar, afigurando-se, portanto, como um meio. Todavia, este meio funciona como fim último da mobilização contribuindo para que haja um aumento da participação na vida cívica, no desenho e controlo da vida política. Em suma, a ―mobilização é uma forma especializada de comunicação política, uma tentativa para fazer mais do que informar mas envolver os apoiantes para agir‖ (Davis, Baumgartner, Francia e Morris, 2009: 17). VI.2. – Otimistas vs Pessimistas: Participação ou Ilusão? Este tem sido um dos pontos centrais, senão mesmo o ponto fulcral da grande maioria das reflexões relativas aos efeitos e potencialidades das novas tecnologias e da Web no que ao seu valor cívico diz respeito. Os debates dividem-se, geralmente, entre 62 otimistas e pessimistas, dos quais já falámos em momentos anteriores do trabalho, nomeadamente aquando da distinção de Anstead e Chadwick entre normalizers e otimists. Revisitaremos agora essas ideias, tendo em conta a sua importância para a compreensão das questões de mobilização à luz das novas tecnologias da informação e da comunicação. Por um lado, os que veem os novos media como solução para os problemas de participação, envolvimento e mobilização dos cidadãos, associados a um certo modelo de público tornado audiência, estruturado em torno de canais mass mediáticos como a televisão, chegando mesmo a passar pela defesa das novas tecnologias como potenciadoras de um regresso ao modelo de democracia direta, contrastando com o modelo de democracia representativa vigente nas atuais sociedades democráticas ocidentais. Por outro, os que olham para as novas tecnologias e os novos media como apenas novas plataformas para um mesmo tipo de conteúdo e sem vantagens em termos do processo mobilizador, sendo, aliás, potenciadoras de uma ainda maior alienação dos cidadãos e do isolamento dos mesmos, destruindo a ideia de comunidade e, consequentemente, o espaço público de debate e co-construção da democracia, inerentes ao próprio conceito da democracia moderna. Em extremos, chegam a olhar para a internet e os novos media como ―uma espécie de força demoníaca, capaz de destruir a cultura democrática profundamente enraizada na nossa atual experiência política e social‖ (Esteves, 2007: 2). Podemos ainda encontrar entre estas duas posições extremadas, aqueles que reconhecem o potencial das novas tecnologias e da internet, ao contrário dos céticos, mas que recusam a faceta quase messiânica das NTIC apresentada pelos entusiastas da Web e das suas plataformas em termos de comunicação política, pública e cívica. Todas estas perspetivas têm em comum um elemento: a comparação com o mass medium com maior alcance e com um papel mais significativo em termos de comunicação política, pelo seu alcance e popularidade – a televisão. Do lado dos otimistas, olha-se para as NTIC e para a Internet como soluções para combater o modelo de transformação do público em audiência, um meio de fuga ao modelo de comunicação de ―one-to-many‖ e uma abertura para uma comunicação política multilateral, que incentiva à integração dos cidadãos nos issues políticos, na busca incessante pelo resgate do papel do público na política. ―Neste contexto digital, os indivíduos são ativos e podem produzir e manipular os conteúdos de forma fácil e rápida. Consequentemente, estes deixam de ser dependentes da hierarquia da 69 candidatos que já são da sua preferência‖ (Gonçalves, 2012: 36). A nossa observação da utilização dos hashtags vem corroborar isso mesmo. Os eleitores que utilizam estas plataformas em tempo de campanha e que se envolvem nos seus processos são aqueles que têm já uma convicção política definida e que, com ou sem a disponibilização dos mecanismos de campanha online, iriam apoiar os mesmos candidatos. Como tal, podemos verificar que a participação cívica e a mobilização dos eleitores para a participação na campanha continua a ficar aquém do desejado e que as redes sociais não vieram resolver o problema da alienação dos cidadãos. No entanto, fica a ressalva de que estamos conscientes de que é precipitado tirar conclusões definitivas sobre o efeito político e de campanha da Internet, já que a análise aqui feita é muito limitada ao se cingir às estruturas oficiais dos candidatos às Eleições Legislativas de 2015. Uma outra questão que se pretende explorar relativamente aos efeitos das NTIC em termos eleitorais, diz respeito à capacidade das mesmas de combater um dos maiores flagelos da realidade política e democrática portuguesa: a abstenção. A Internet e as redes sociais terão potencialidades mobilizadoras que vão além da mera mobilização para o voto. As NTIC e a Internet, através da mobilização e da proximidade com o eleitorado, afiguram-se como ferramentas com o potencial para aumentar a participação cívica. A maior demonstração de participação cívica será, certamente, o voto. Ao fazerem o resgate do público, estas plataformas poderiam ser ainda potenciadoras de uma maior adesão dos cidadãos à participação nas eleições, sobretudo os mais jovens, que utilizam em grande número estas plataformas e que se encontram mais afastados e desinteressados relativamente a questões políticas. Para muitos, a alienação dos votantes deve-se à preponderância dos mass media visuais como a televisão (Coleman, 2001: 130). Como vimos anteriormente, o BE, um partido com um eleitorado muito jovem, aproveitou as redes sociais, por diversas vezes, para mobilizar este grupo etário mais especificamente ao voto. No entanto, foi possível verificar que o nível de abstenção se manteve altíssimo nas Eleições Legislativas de 2015, tendo sido, inclusivamente, a maior abstenção de sempre em Legislativas, com mais de 43% dos portugueses a abdicarem do seu direito de voto. Como tal, podemos observar que as estratégias dos partidos políticos em campanha parecem continuar a não ter qualquer tipo de eficácia no que diz respeito ao expoente máximo da participação cívica dos eleitores: a expressão através do voto. 70 Mais ainda, e para finalizar, olhemos para os resultados eleitorais obtidos pelos partidos aqui em análise e para o seu desempenho na Internet, de forma a compreender se se consegue estabelecer algum tipo de correlação direta entre o desempenho na Rede e o desempenho eleitoral propriamente dito. Essa correlação direta seria uma prova de que, realmente, as redes sociais e os websites partidários têm efeitos políticos e de mobilização para o voto. Veremos agora se assim acontece, ou se as plataformas Web são, por enquanto, apenas uma aposta na qual todos reconhecem potencial mas que ainda não tem efeitos na vida política real. Quadro 8. – Comparação entre popularidade nas redes sociais e resultados eleitorais A PàF foi a força política com o maior número de votos nas Eleições Legislativas de 2015, no entanto, não era a força política mais seguida nas plataformas da Web. Mais ainda, em termos de proporção, podemos ver um grande desfasamento entre o número de seguidores dos partidos AGIR, LIVRE e NÓS e os resultados eleitorais. O NÓS que tem 27 mil gostos no Facebook, apenas menos 6 mil do que a Coligação PàF, teve apenas 0,4% dos votos dos portugueses, contrastando com os quase 37% da já referida Coligação. Como tal, podemos verificar que o desempenho dos candidatos na Internet não se reflete no seu desempenho a nível eleitoral, o que revela que estas plataformas ainda não têm valor real no que diz respeito à política nacional e à campanha eleitoral em Portugal. Parece haver uma distanciação muito grande, ainda, entre a realidade online e o mundo real da política e das eleições. Segundo Mafalda Lobo, "o número de gostos, comentários e o número de vezes que os partidos são referidos, podem ser relevantes, por exemplo, para definir a popularidade de um candidato, ou para se perceber as Partido/ Coligação Gostos no Facebook Seguidores no Twitter Resultados Eleitorais Portugal à Frente 33 Mil Gostos 2 Mil Seguidores 36,8% Partido Socialista 39 Mil Gostos 2 Mil Seguidores 32,4% Bloco de Esquerda 33 Mil Gostos 12 Mil Seguidores 10,2% AGIR 7 Mil Gostos 43 Seguidores 0,4% Livre/Tempo de Avançar 13 Mil Gostos Mil e 300 seguidores 0,7% Nós, Cidadãos 27 Mil Gostos 106 Seguidores 0,4% 71 reações positivas ou negativas das propostas políticas apresentadas pelos candidatos, mas não permite perspetivar o resultado no dia das eleições"17. ―Desde o início dos websites dos candidatos, as campanhas têm percebido o alcance limitado deste medium. Os websites alcançam aqueles que procuram ativamente visitá-los, e esses são uma percentagem relativamente baixa do eleitorado. Mais ainda, aqueles que visitam os sites dos candidatos são os que já são seus apoiantes, e não os votantes indecisos que podem frequentemente abalar uma eleição‖(Davis et. al , 2009: 19). E foi isso, de facto, que conseguimos comprovar. A utilização das NTIC não consegue ainda ter um verdadeiro efeito em termos eleitorais, e portanto, fica em aberto um desafio para os profissionais da comunicação e para os políticos portugueses, de forma a conseguirem aumentar a eficácia de utilização das plataformas da Internet para efeitos de campanha e resgatarem o público do seu papel passivo e trazê-lo para a política com um papel participativo e ativo. 17https://www.publico.pt/tecnologia/noticia/redes-sociais-entram-na-campanha-detodos-os-partidos-1709227 72 Conclusão É inegável que nas Eleições Legislativas de 2015 houve, por parte dos partidos candidatos, uma forte aposta nas Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação, mais concretamente, na Internet. Na globalidade, foi possível notar que essa aposta se deve a uma consciência da necessidade de trazer os cidadãos para o centro da política e, neste caso, da campanha eleitoral. Um esforço feito pelos partidos, no sentido de se abrirem à sociedade civil e de adaptarem os seus programas às necessidades e expetativas do eleitorado. De uma forma global, é possível afirmar que as redes sociais e, em especial o Facebook, são o centro das estratégias de comunicação online dos partidos, já que os próprios websites acabam por remeter sempre para estas mesmas redes. No que diz respeito à utilização dos websites como plataformas de campanha, foi possível observar que ainda predomina, claramente, a função informativa como função primordial. Em todos os websites são apresentados os programas eleitorais, as linhas programáticas mais centrais, os candidatos (distribuídos pelos respetivos círculos eleitorais), os calendários de campanha – que informam das atividades offline, a partilha de notícias e de imagens relativas aos eventos de campanha. O Bloco de Esquerda merece especial destaque na medida em que tomou muitas opções diferentes dos restantes candidatos, nomeadamente, o facto de não ter criado páginas com propósitos exclusivos de campanha eleitoral para este momento. Para além disso, é de salientar a forma como este partido apresentou o conteúdo sobre a campanha no seu website. O aparente combate a um lado mais espetacular que tem vindo a acompanhar a política, e que muito diz respeito à ligação entre política e televisão. Quando se apresenta um programa eleitoral, importam apenas as ideias que nele estão expostas. Portanto, importa apenas que estejam escritas e bem explicitadas. O Bloco apresenta um documento simples em formato pdf, que contrasta com os documentos com maior sofisticação visual e de apresentação dos restantes candidatos. Todavia, é já notório que existem preocupações relativas às funções de envolvimento e mobilização (de acordo com as definições de Foot et al.), na medida em que são disponibilizadas formas de contactar os candidatos através do website, mediante o preenchimento de formulários onde o eleitor deixa os seus dados de forma a poder ser posteriormente contactado. No que diz respeito à mobilização (também de acordo com a definição de mobilização de Foot et al. – dar ferramentas aos cidadãos para serem parte 73 ativa da campanha), são disponibilizados vários materiais que permitem ao eleitorado fazer campanha pelo seu candidato de eleição. É interessante constatar que alguns dos websites interpelam diretamente os visitantes a juntarem-se à campanha ou a colocarem-se em contacto com os candidatos, mas que, na realidade, nunca há a real hipótese de contacto direto. Isto poderá representar um retrocesso na utilização da componente interativa do website em tempos de campanha. Em momentos anteriores, por exemplo, nas Legislativas de 2009 José Sócrates e Manuela Ferreira Leite, destacaram-se por operacionalizarem plataformas online em que o contacto com os eleitores era imediato. Todos os sites dos partidos incentivam os seus visitantes a acompanhar a campanha eleitoral e a demonstrar o seu apoio através das redes sociais, refletindo o papel central destas, já aqui referido. O seu potencial interativo e a noção de proximidade entre candidatos e eleitorado são, obviamente, reconhecidos pelos políticos. Pedro Passos Coelho fez declarações nesse sentido, tanto nas eleições de 2011, como nas que aqui analisámos. No entanto, e apesar desta aposta, os resultados efetivos ficam ainda muito aquém do potencial que as páginas oficiais dos candidatos têm efetivamente para a interação entre políticos e cidadãos. Na maioria dos casos, as páginas de Facebook e Twitter serviram como diários de campanha, alimentadas constantemente com imagens dos eventos nos quais os candidatos marcavam presença. O espaço deixado para a discussão foi reduzido. Os comentários, que possibilitam um foco nas preocupações e nas questões dos cidadãos, acabam por ser utilizados, na maioria das vezes, apenas para demonstrar apoio aos candidatos. Mais ainda, os comentários que são deixados e que tinham outro tipo de teor, como críticas ou questões, não obtêm resposta por parte dos gestores das páginas. As respostas a esses comentários seriam uma excelente oportunidade para colocar em contacto candidatos e eleitores, demonstrando que, de facto, os contributos dos utilizadores destas plataformas têm valor e são tomados em consideração. As respostas a esses comentários poderiam ainda afigurar-se como incentivos à participação de outros cidadãos, que veriam que estava colocado à sua disposição um espaço de partilha de ideias e de debate. Utilizar de forma mais ativa o espaço dos comentários, poderia significar a criação de um espaço público virtual. No que diz respeito ao papel dos profissionais da comunicação política (isto é, das linguagens políticas especializadas – advertising e relações públicas políticas), veem-se a braços com a tarefa de adaptar estratégias e inserir estes novos formatos de 74 campanha no mix de comunicação. O que se verificou, foi uma linha de continuidade com a comunicação offline, que poderá ser aqui o principal problema no que diz respeito aos efeitos conseguidos pelas plataformas online. A continuidade entre offline e online é, em muitos casos, apenas uma transferência dos materiais offline para as plataformas online. Não há, em muitos casos, uma criação significativa de conteúdos inovadores e adaptados ao potencial interativo das NTIC. Mais do que uma continuidade, acaba por se verificar uma duplicação dos conteúdos, que revela, de certa forma, que, ou ainda não se consideram estas plataformas suficientemente importantes para criar conteúdos exclusivos para elas, ou os responsáveis pelas plataformas ainda não estão na posse de conhecimentos necessários para as dinamizar de forma inovadora e que acrescente algum valor à campanha. Todavia, este elemento de interação com o eleitorado não foi totalmente descurado. A Coligação Portugal à Frente criou plataformas (―Eu respondo às quartas‖/―Eu respondo às quintas‖) de resposta a algumas das questões colocadas nas redes sociais. Para além disso, no Twitter foi a que mais destaque deu aos seus seguidores, através de práticas como o Follow Friday. O Partido Socialista lançou a sua campanha online com um livestream em que durante mais de uma hora, António Costa respondeu em direto às questões colocadas pelo eleitorado através da página de Facebook da sua candidatura. O Bloco de Esquerda, por sua vez, demonstrou que os eleitores são parte da campanha com a partilha de sugestões cidadãs na sua página de Facebook. AGIR e Nós Cidadãos! destacaram-se na resposta aos comentários dos visitantes das suas páginas, tendo sido aqueles que responderam mais vezes aos seus apoiantes. O Livre/Tempo de Avançar não demonstrou qualquer tipo de interação com os seus apoiantes no Facebook, mas aproveitou muitos dos seus contributos no Twitter para alimentar esta plataforma, através da funcionalidade retweet. De salientar é ainda a clara liderança do Facebook enquanto rede social com mais impacto na vida dos portugueses. Noutros países, como os Estados Unidos da América, o Twitter é a rede social com mais preponderância em tempo de campanha eleitoral. Em Portugal, verifica-se que o Twitter é ainda utilizado de forma muito pontual e remetido para um lugar secundário face ao Facebook, que é centro da estratégia de comunicação para as redes sociais. Todavia, e apesar deste destaque do Facebook, é notório que, tendo em conta o elevado número de utilizadores desta plataforma (segundo a Internet World Stats mais de 5 milhões e seiscentos mil utilizadores), ainda há um número muito reduzido de 75 portugueses a utilizá-lo para visitar as páginas dos candidatos. O somatório dos seguidores das páginas aqui analisadas não chega sequer aos duzentos mil seguidores. Para além disso, e ainda relativamente à ideia de um reequilíbrio de forças entre os grandes partidos e os pequenos partidos, muitos consideram que uma das vantagens destas plataformas é, por exemplo, o facto da criação de uma página numa rede social e da sua alimentação serem totalmente gratuitas, o que poderá representar uma oportunidade para os pequenos partidos. No entanto, produzir o conteúdo terá custos, sobretudo no que diz respeito à mão-de-obra que atualiza essas mesmas páginas. É claro que estas páginas poderão ser mantidas por qualquer pessoa, uma vez que a sua utilização é intuitiva e construída para que qualquer pessoa, com apenas conhecimentos informáticos básicos, as consiga alimentar. No entanto, a contratação de um especialista de comunicação poderá afigurar-se como decisiva, o que volta a deixar os partidos com menos capacidade financeira em desvantagem, já que poderão não ter a possibilidade de ter tal tipo de especialista a monitorizar e alimentar as suas páginas. Tudo o que acima foi referido, relativamente às práticas associadas à utilização das plataformas online para a campanha eleitoral, remete para o papel do cidadão e a sua inclusão na campanha. Um dos grandes desafios do presente trabalho era perceber se as páginas oficiais dos partidos teriam, ou não, potencial mobilizador e potenciador da participação cívica. Muitos acham que estas plataformas se afiguram como uma boa hipótese de despertar interesse político, nomeadamente nas camadas mais jovens da população, mas isso ainda não se verifica. Os portugueses mostram continuar habituados a um papel político passivo, preconizado pelos formatos de comunicação política televisiva, o que faz com que não estejam despertos para a possibilidade de se afirmarem como agentes ativos na política e na campanha política, através da Web, que lhes possibilita interagir não só com os políticos como com outros cidadãos, resgatando o papel da sociedade civil. É de ressalvar aqui que falamos em televisão porque a consideramos como o principal referencial comparativo das NTIC em termos da relação entre comunicação política e cidadania. Este medium está associado a uma certa apatia que alguns esperavam ser combatida pelos novos formatos de comunicação online, que têm inerentemente um caráter interativo. No entanto, não pretendemos aqui culpabilizar a televisão pelo desinteresse político dos portugueses. Sabemos que esse desinteresse é transversal a toda a realidade política, muito para além da política mediática, e que se deve talvez 76 muito mais a uma descrença generalizada na classe política e no funcionamento da democracia portuguesa. É necessário manter o esforço e formar os portugueses para a utilização destas plataformas para fins políticos. O uso da Internet já está bastante difundido em Portugal e as redes sociais, como o Facebook, são utilizadas diariamente por milhões de cidadãos portugueses. O desinteresse político global é transversal a estas plataformas e a não utilização das mesmas reflete a conjuntura de descrença nos partidos e na própria democracia. Cabe aos políticos, também, manterem o esforço de esclarecimento da população para que esta compreenda que utilizar estas plataformas em tempo de campanha, mas não só, poderá ser a resposta para as pessoas conseguirem integrar-se mais efetivamente na vida política e, assim, poderem fazer chegar as suas reais preocupações à esfera da política, pressionando os políticos a dar as respostas mais adequadas. Em termos de mobilização, pudemos concluir que as páginas dos candidatos acabam por potencializá-la num sentido fraco, na medida em que a única movimentação que se observa diz respeito ao eleitorado que já tem interesse político e que, muitas vezes, tem a sua inclinação política bem definida e o voto decidido. As páginas só mobilizam no sentido em que incentivam esses apoiantes a partilhar com os seus amigos esse apoio, procurando mais apoiantes. Não há uma mobilização real no sentido em que a sociedade civil não inicia movimentos na direção de determinadas causas. Neste caso, a causa é pré-determinada pelos partidos políticos candidatos e a única possibilidade de mobilização é a de que os seus apoiantes demonstrem, perante a sua rede, esse apoio à causa dos candidatos. Não são novas oportunidades para os partidos pequenos porque não mobilizam pessoas novas. Quem visita as páginas já está mobilizado para a política e já terá, na maioria dos casos, inclinações políticas definidas, o que faz com que, mais uma vez, os partidos de maior militância, como o PS ou o PSD (inserido na Coligação Portugal à Frente), acabem por receber maior destaque e por ter mais sucesso nas redes sociais. Posto tudo isto, é possível concluir que os políticos e as suas equipas de comunicação estão conscientes da importância que estas plataformas poderão ter em termos de campanha, sobretudo no que diz respeito a uma cooperação com o eleitorado, que faça campanha a seu lado e que potencie o seu programa eleitoral e a sua performance através do questionamento e da sugestão. Todavia, ainda não se verifica que isto aconteça em Portugal e não aconteceu nas Eleições Legislativas de 2015, por 77 um lado, porque os gestores das plataformas online ainda não conseguem operacionalizá-las em todo o seu potencial político e, por outro lado, porque os portugueses ainda não estão despertos nem mobilizados para a utilização da Internet para fins que vão além do lazer. 78 Bibliografia ALGER, Dean E. (1989).The Nature of the Beast: basic forms and conceptions of the mass media. Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice Hall ANSTEAD, Nick; CHADWICK, Andrew (2008). Parties, election campaigning and the Internet: toward a comparative institutional approach. In P. Chadwick e P. N. Howard. Routledge Handbook of Internet Politics.Abingdon: Routledge CANAVILHAS, João (2009). 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