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A Origem e a Dialéctica da "Dinâmica Existencial" em Teixeira de Pascoaes

Maria Clara de Oliveira Tavares

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1 FACULDADE DE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO Maria Clara de Oliveira Tavares 2º Ciclo de Estudos em Filosofia Ramo: Ética e Filosofia Política A Origem e a Dialética da “ Dinâmica Existencial” em Teixeira de Pascoaes Porto 2012 Dissertação submetida á Faculdade de Letras da Universidade do Porto para a obtenção do grau de Mestre em Filosofia: Ramo Ética e Filosofia Política Sob a orientação da Professora Doutora Maria Celeste Natário 2 Agradecimentos À Professora Doutora Maria Celeste Natário. 3 RESUMO Este estudo tem como objetivo mostrar a origem e a dimensão dialética do conceito de “Dinâmica existencial” patente na obra de Teixeira de Pascoaes, muito em particular na última biografia romanceada que escreveu, em 1944, dedicada a Santo Agostinho. Nesta inovadora e irreverente meditação (auto)biográfica sobre o santo filósofo e bispo de Hipona – também ele uma voz divergente dos cânones católicos – Pascoaes revela a sua verdadeira faceta de “poeta-carrasco”. Ao reinventar os vocábulos ateoteísmo e ateoteístas, demarca-se das teologias clássicas e seus dogmas inadequados à “evolução dos tempos”. O ateoteísmo divino e humano irá assumir uma dimensão dialética e ética que não se esgota no contexto da teologia pascoalina. É no registo metareligioso e predominantemente filosófico-poético que reside a sua verdadeira significação ético-onto-gnosiológica. Numa primeira parte a tese revisita, de forma breve, a trajetória intelectual do “primeiro” ao “segundo” Pascoaes, o seu diálogo (incontornável) com os meios científicos e intelectuais da época (a “inteligência intuitiva”, a psicologia e o panteísmo saudosista, a filosofia e a ciência). Na segunda parte, mostramos como os temas pascoaesianos associados à dinâmica existencial - apesar de se prestarem a uma linguagem cuja intenção recriadora e simbólica parece tomar, por vezes, uma forma obscura ou equívoca - vão ser reinterpretados no livro da sua última maturidade, Santo Agostinho, no intuito de estabelecer pontes entre a metafísica e a física. A irreverência do seu modelo (auto)biográfico permite-nos ver: por um lado, como o poeta fundamenta a reflexão da faticidade do Eu concreto numa conceção da existência humana mais abrangente e integrativa; por outro lado, como os fenómenos paradoxais que se observam na natureza e no homem, resultam da origem da própria dinâmica existencial. Pascoaes insiste na ideia de um macrocosmo que deriva daquilo a que chama segunda Origem, a partir da qual se expande, imprimindo a toda a atividade universal as leis básicas que presidiram ao seu início. A partir desta, a Existência transita entre um Princípio e um Fim e a indefinição e a coabitação de oposições revelase atributo criador. A tese mostra claramente, na segunda e terceira partes, que as três dimensões (gnosiológica, ética e religiosa) da reflexão do fenómeno teísta e ateísta permitem estabelecer uma aproximação ao neoplatonismo, quer em Pascoaes, quer em 4 Santo Agostinho; mas, sobretudo, mostra que o Ateoteísmo de Pascoaes é o visionar de um futuro religioso em que a ideia de Divino se apresenta fiel à dialética da dinâmica existencial tal como a interpreta. Palavras – chave : Dinâmica Existencial, Poesia, Super-Biologia, Panteísmo Saudosista, Ateoteísmo, Aritmética metafísica, Cosmos, Origem, Existência, Homem Universal, Adâmico, Inteligência, Excedência, Contradição, Incerteza, Intuição, Nada, Amorfo, Mal - benéfico, Bem - maléfico. 5 ABSTRACT This study aims at showing the origin and the dialectical dimension of the concept of “existential Dynamics” which can be seen in the work of Teixeira de Pascoaes, specifically in the last novelized biography which he wrote in 1944 and dedicated to Saint Augustine (Santo Agostinho). In this innovative and irreverent (auto)biographical meditation about the saint-philosopher and bishop of Hippone – he himself a divergent voice from the catholic canons – Pascoaes reveals himself as what is called an “executioner-poet”. By reinventing the words atheotism and atheotists, he diverges from the classical theologies and their dogmas, which are unsuitable for the “evolution of times”. The divine and human atheotism will acquire a dialectical and ethical dimension which go beyond the context of the pascoaline theology. It is in the metareligious and predominantly poetical-philosophical register that his true ethical-onto-gnosiologic significance lies. In a first part the thesis briefly revisits the intellectual trajectory from the “first” to the “second” Pascoaes, his (unavoidable) dialogue with the scientific and intellectual means of the time (“intuitive intelligence”, psychology and the nostalgic pantheism, philosophy and science). In the second part we show how Pascoaes’s themes associated with the existential dynamics – even though they tend to fall on a type of language whose recreating and symbolic intention can sometimes assume an obscure, equivocal form – will be reinterpreted in the book of his last maturity, Santo Agostinho, with the intention of establishing bridges between metaphysics and physics. The irreverence of his (auto)biographical model allows us to see, on the one hand, how the poet substantiates the reflection on the facticity of the concrete Self from the standpoint of a broader, more inclusive conception of the human existence and, on the other hand, how the contradictory, paradoxical phenomena which can be observed in nature and in the man, result from the origin of the existential dynamics itself. Pascoaes insists on the idea of a macrocosmos which derives from an imaginary point (from 6 which it expands, imprinting on all universal activity the basic law which presided to its beginning) which he names second Origin. From it, Existence balances between a Beginning and an End and the lack of definition and the cohabiting of oppositions are creating attributes. In the second and third parts the thesis clearly shows the three dimensions (gnosiologic, ethical and religious) of the reflection of the theist and atheist phenomenon in Pascoaes an, above all, how Atheotism represents the foretelling of a religious future in which the idea of the Divine is faithful to the existential dialectics as it interprets it. 7 Índice INTRODUÇÃO...........................................................................................................8 PARTE I................................................................................................................12 O PRIMEIRO PASCOAES..........................................................................................13 1. BREVE OLHAR SOBRE O PANTEÍSMO PERCURSOR DE TEIXEIRA DE PASCOAES ....16 2. PROPOSTA MATERIALISTA DE MIGUEL BOMBARDA NO CAMPO DA PSICOLOGIA 19 3. O PSIQUISMO EM PASCOAES ...............................................................................20 4. O PANTEÍSMO SAUDOSISTA .................................................................................24 5. DEUS – MESMO E DEUS - OUTROS........................................................................27 6. POESIA FILOSOFIA E CIÊNCIA.............................................................................29 PARTE II.................................................................................................................35 O LIVRO SANTO AGOSTINHO..................................................................................36 1.COSMOGONIA.......................................................................................................38 1.1. EXISTÊNCIA: ENTRE O SUBNATURAL E O SOBRENATURAL...............................41 2. ANTROPOLOGIA..................................................................................................44 2.1. HISTÓRIA NATURAL E HUMANA: EVOLUÇÃO DE INSTINTOS PARA IDEIAS........47 3. GNOSIOLOGIA.....................................................................................................49 3.1. EXCEDÊNCIA, INCERTEZA E CONTRADIÇÃO.....................................................51 4. RELIGIÃO E ÉTICA...............................................................................................54 5. PASCOAES E SANTO AGOSTINHO .........................................................................62 CONCLUSÃO ...............................................................................................................69 BIBLIOGRAFIA...................................................................................................78 8 INTRODUÇÃO O tema deste trabalho, como deixa antever o título - A Origem e a Dialética da Dinâmica Existencial em Teixeira de Pascoaes – aborda o pensamento de Teixeira de Pascoaes na última fase da sua vida, período que vai de 1934 a 1952. Para o efeito, centramo-nos especificamente na análise do livro Santo Agostinho1, publicado em 1945. Apesar de os temas não serem “novos” é nesta obra que ganham “maturação”, dando pleno significado ao conjunto das restantes obras e, como veremos, acompanham perfeitamente a “linha da frente” dos importantes e “revolucionários” acontecimentos que marcaram o pensamento cultural e científico da sua época. Na primeira parte da tese, ainda que muito sumariamente, relevamos algumas das linhas que traduzem os “caminhos” especulativos percorridos pelo autor. Ao contextualizar o pensamento deste autor, mostramos como os “paradigmas” (intelectuais, sociais e religiosos) do seu tempo marcaram (ou talvez não) a singularidade do seu percurso, sendo incontornável a referência a algumas perspetivas panteístas anteriores (e que, como veremos, acusam o mesmo sentido alternativo da heterodoxia portuguesa), bem como às teorias positivistas, ao materialismo científico e à ortodoxia religiosa. No contexto do pensamento (heterodoxo) português, destacamos como seus precursores, em Portugal, Guerra Junqueiro (1850-1923), o principal representante da Escola Nova e o ensaísta portuense Sampaio Bruno (1857-1915), cujas obras influenciaram significativamente a filosofia pascoalina. Embora numa linha divergente à do nosso autor, a referência ao republicano Miguel Bombarda (1851-1910), seu contemporâneo, justifica-se pelas polémicas que nessa época suscitaram os ensaios do médico psiquiatra sobre as noções de “consciência” e de “livre arbítrio” - temas do “psiquismo” queridos ao nosso poeta-pensador. Estes autores citados são, de facto, em Portugal, os protagonistas que antecipam os polémicos (e recorrentes) binarismos filosóficos: Empirismo versus Racionalismo e Idealismo versus Realismo. 1 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa 1995 9 Ainda na primeira parte da tese, analisamos alguns escritos do chamado “primeiro” Pascoaes, num período que se estende de 1895 a 1915 - altura em que escreve em poesia ou em prosa doutrinária, certamente como parte integrante de um relevante ativismo dentro do movimento cultural português A Renascença Portuguesa. Como veremos, por exemplo, no artigo O Sentido da Vida,2 o nosso autor vai assumir uma posição monistamaterialista, baseando-se em três pressupostos: (1) entre o mundo material e o espiritual não há interrupção; (2) o “próprio espírito é matéria evoluída”; (3) Deus é apenas uma criação humana. Facilmente percebemos o que Pascoaes pretende com os pressupostos que advoga: dar o seu contributo para o desenvolvimento da (então emergente e polémica) nova “ciência da mente”, ou seja, a Psicologia. Estas teses serão retomadas, pelo autor, na fase marcada pela campanha do Saudosismo, exemplificada nos artigos: Trechos de um livro Inédito e Ao Povo Português, A Renascença Lusitana e Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa3. Uma muito breve referencia à sua Metafísica da saudade permitenos mostrar como a Saudade se constitui “ideia matriz” - a partir e à volta da qual o nosso poeta e filósofo erige o seu “sistema” pensante e fundamenta o conjunto da sua obra. Apresentamos igualmente Uma Carta a Dois Filósofos4, e em que se assiste a uma inflexão de Pascoaes acerca da ideia de Deus em relação aos artigos anteriores, passando nesta altura, a admitir um Absoluto primordial anterior à dinâmica existencial e numa explicação em que já estão presentes os contornos daquilo que virá a designar por ateoteísmo. Por sua vez, o livro Homem Universal5 de 1937, já dentro do período designado como “segundo Pascoaes”, é uma referência incontornável porque constitui a primeira obra onde o poeta-filósofo se propõe esclarecer tudo o que escreveu até esse momento, em diálogo com os paradigmas do seu tempo, no âmbito da Ciência, Arte, Ética e Filosofia. 2 Teixeira de Pascoaes, O Sentido da Vida. In: O Homem Universal, Notas de Pinharanda Gomes, Assírío & Alvim, Lisboa, 1993. 3 Idem, in A Saudade e o Saudosismo, compilação e notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998. 4 Idem, p. 179. 5 Teixeira de Pascoaes , O Homem Universal, notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993. 16 1. Breve olhar sobre o Panteísmo percursor de Teixeira de Pascoaes A Geração de 70 representa o início de um ciclo panteísta que culmina na viragem do século XIX-XX - com o criacionismo de Leonardo de Coimbra e o saudosismo de Teixeira de Pascoaes - no movimento chamado Renascença Portuguesa, nascido no Porto em 1912. São vários os autores portugueses que podemos ainda integrar nesta vertente: Cunha da Seixas com o Pantiteísmo (1836-1959), o Panteísmo idealista de Antero de Quental (1842-1891), o Panteísmo evolucionista de Guerra Junqueiro (1850-1923) e o messianismo heterodoxo de Sampaio Bruno (1857-1915). Todavia, o panteísmo evolucionista de Guerra Junqueiro e o messianismo heterodoxo de Sampaio Bruno colhem maior consenso como “precursores” do nosso poeta-pensador. A ideia de Deus em Guerra Junqueiro, remete para uma reflexão acerca dos padrões religiosos convencionais em que uma visão sócio-mórfica do divino como um ser vingativo e violento se contrapõe à que consagra um Deus universal simbolizado pela união da liberdade e da crença. Neste autor, encontramos um evolucionismo que radica na mesma “Origem obscura”, que iremos encontrar em Pascoaes - e que Paulo Borges descreve nos seguintes termos: “Pode-se resumir como uma evolução indefinida a partir de uma origem obscura material e inconsciente passando por vários níveis de vida até ao aparecimento da consciência humana e á emergência da própria divindade, o qual se alimenta do próprio processo que na imanência e ânsia, aspiração ou desejo de uma perene autotranscensão a gera pois a lei que lhe preside é a do excesso e sacrifício pelo qual o menor grau de ser e consciência é assimilado pelo imediatamente superior, sendo a ele elevado da mesma maneira que o nutre surgindo Deus como a infinita perfeição.”20 Por sua vez, Leonardo de Coimbra vai caracterizar este sistema como ostentando a forma de “ um naturalismo e evolucionismo panteísta, misto das heranças de Darwin e 20 Paulo Borges, Deus e Manifestação em Guerra Junqueiro. In: História do Pensamento Filosófico Português, vol. IV, Tomo 1, Lisboa 2004, p.195. 17 Haeckel, de Espinosa e de Hegel e Leibniz, estes últimos conciliados pela mediação de Antero.”21 Quanto a Sampaio Bruno, amigo e admirador de Guerra Junqueiro, assume e completa este sistema panteísta incluindo o mesmo drama cósmico mas agora dividido em três momentos (um de partida, outro de percurso e o último de regresso), relevando nesta circularidade a evolução moral, como o motor de ascensão. Denominado de “positivista metafísico”, por defender o desenvolvimento da Razão e associar o progresso moral ao desenvolvimento do raciocínio lógico no percurso evolutivo humano: “germinal só o racional, a prática não é de boas obras mas de bons pensamentos, e assim as almas têm de reacender-se pelo raciocínio.”22 Defende igualmente para a Ética “o rigor lógico com que se raciocina nas ciências e se pretende raciocinar nas filosofias” considerando que esta não é imune ao progresso mas antes obedece a um processo evolutivo distinto: “A moral tal como a ciência está sujeita ao progresso que se realiza por outro processo que não o método científico uma vez que a moral na sua opinião é ciência da vontade (...) o progresso da moral dá-se não só em extensividade como em intensividade. llude-se, pois Buckle affirmando que na moral não há progresso e que o há só na sciencia, prende-se assim com a passagem progressiva do individualismo á consciência do todo”.23 Só o progressivo desenvolvimento mental, conduzirá inevitavelmente às verdadeiras respostas acerca da Existência e de Deus e trará outra dimensão ao fenómeno religioso como base para uma radical transformação social futura. Efetivamente, podemos afirmar que nem Guerra Junqueiro nem Sampaio Bruno subscrevem a visão antropocêntrica da existência e, apesar de considerarem que a atuação humana é capaz de influir construtiva (ou destrutivamente) na evolução natural, tal não deve ser confundido com uma qualquer supremacia de espécie. Isso seria um erro antropocêntrico, ou como diz Sampaio Bruno, “a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas.”24 Trata-se aqui de um sentido neoreligioso que tomará, como sabemos, nova amplitude em Teixeira de Pascoaes. 21 Leonardo de Coimbra, Guerra Junqueiro. In: Renascença Portuguesa, Porto, 1923, p. 63. 22 Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Livraria Chardron, Lello & Irmão. Editores, Porto, 1902. pp. 480- 481. 23 Idem, pp. 200-202. 24 Idem, ibidem. 18 Ainda a propósito destes dois autores, Paulo Borges esclarece que “se aproximarmos a Pátria do Encoberto estabeleceremos facilmente um paralelo, um infinito existe onde os dois escritores se encontram e graças às obras deles a cidade do Porto, viveu durante alguns anos, naquele ambiente de messianismo que permitiu a fundação da Renascença Portuguesa.”25 De facto, em Portugal, o ciclo do panteísmo teve uma expressão predominantemente filosófico-poética. Recorde-se que Leonardo de Coimbra observa que a metafísica em forma de poesia é a mais adequada ao tratamento destas questões, uma vez que “a vida procede do ser, é enigma lógico mas é também mistério vital, mistério a que só a revelação ou o lirismo metafísico podem dar resposta e que supõe uma ontofilia ou um amor do ser que o liberta da sujeição ao humano saber, como se a porta por onde o ser se nos mostra fosse a poesia”.26 A problematização da questão de Deus e do mundo, com repercussões nas problemáticas antropológicas (tais como: o mal, a liberdade, o ser, a morte e a imortalidade), vão aparecendo articuladamente em vários autores desde meados do séc. XIX até à contemporaneidade, considerando, por sua vez, António Braz Teixeira em Deus Mal e a Saudade, que se no séc. XIX a teodiceia é o tema principal, no séc. XX são as questões antropológicas que mais ocupam os autores portugueses: “O ciclo especulativo da última metade do século XIX vê surgir uma linha de pensamento que põe em causa a ideia cristã de Deus ao mesmo tempo que abala o pressuposto iluminista de uma razão clara e segura de si que recusa o irracional, para admissão, quer do irracional quer de outros tipos de conhecimento, ou outras formas gnósicas, como a intuição a imaginação e a crença (…)” 27 . 25 Paulo Borges, Deus Manifestação em Guerra Junqueiro, p. 195. 26 Leonardo de Coimbra, A Razão Experimental, notas sobre a Abstração Científica e o Silogismo. In: Obras Completas de Leonardo de Coimbra V, Prefácio Dr. Delfim Santos, Livraria Tavares Martins, Porto, 1958, p. 79. 27 Cfr. António Braz Teixeira, Deus, Mal e a Saudade, Fundação Lusíada, Lisboa, 1993, p. 16. 19 2. A proposta materialista de Miguel Bombarda no campo da Psicologia Contemporâneo de Pascoaes, o ensaísta e médico Miguel Bombarda (1851-1910) vai confrontar-se com as mesmas questões, embora numa diferente perspetiva, ou seja, a partir de uma proposta radicalmente materialista. Na sua obra A Consciência e o Livre Arbítrio28 defende que a Psicologia, como abordagem da consciência, não deve ter lugar nas escolas filosóficas, na medida em a origem e explicação do “psiquismo” radica no sistema fisiológico e nos próprios fatores ambientais e não numa qualquer Metafísica. Partindo dos Primeiros Princípios do filósofo inglês, Herbert Spencer (1820- 1903), Miguel Bombarda não aceita a validade gnosiológica da Filosofia. Este filósofo inglês, um dos principais interlocutores do chamado Darwinismo social, “um homem surpreendentemente sábio”, como lhe chama Mercier29, afirma que o conhecimento científico se limita às fronteiras do cognoscível e parte do particular para o geral, ocupando-se da coexistência e da sequência dos fenómenos, primeiramente, agrupando- o sem generalizações de uma ordem simples e elementar e fazendo-as subir gradualmente a generalizações mais elevadas e amplas. Para este pensador eclético a Filosofia enuncia “a lei geral de todos os movimentos a que a força submete a matéria e procede apenas por aproximação a um Incognoscível”30. Entre o idealismo de David Hume ou de Kant, Spencer defende que a psicologia não é senão o inverso da fisiologia. O empirismo sensualista e idealismo subjetivista deixam também aqui as suas marcas. Por isso, este autor defende a unificação da Ciência e da Filosofia na sua “síntese cósmica”, embora as demarque quanto aos objetivos que cada uma ambiciona. Ao contrário de Spencer, Miguel Bombarda rejeita quer a interdisciplinaridade quer as noções de “alma” e de “livrearbítrio”, remetendo a Metafísica para a esfera das opiniões e as verdades comprovadas por argumentos para a esfera do conhecimento subjetivo. É, sem dúvida, o positivismo a revelar aqui todo o seu esplendor. Mais ainda: 28 Miguel Bombarda, A Consciência e o Livre Arbítrio, Livraria António Maria Pereira, Lisboa, 1898. 29 Mercier Désiré, La Philosophie de Herbert Spencer. In: Revue néo-scolastique. 5° année, N°17, 1998. pp. 5-29. 30 Cfr. José Luis Brandão da Luz, Orientação Sociológica do Positivismo. In: História do Pensamento Filosófico Português, op. cit. p. 346. 20 apenas aceita as ciências naturais como as únicas passíveis de experiência e dignas do estatuto de conhecimento objetivo. Poder-se-á dizer que o médico Miguel Bombarda revela aqui alguma “ingenuidade” intelectual e científica ao achar possível prever o evoluir de uma sensação ou sentimento a partir dos circuitos nervosos, da mesma maneira que se observa o evoluir de uma reação química como, por exemplo, a contração de um músculo ou secreção glandular sobre o efeito de determinadas excitações. Filosoficamente falando, poder-se- á dizer que se trata-se de um monismo metodológico assente num monismo ontológico de cariz materialista dentro de uma metodologia positivista. De facto, esta postura representa claramente o paradigma epistemológico que, no nosso país, será defendido por outros pensadores (como António Sérgio, por exemplo) - mas, ao mesmo tempo, será rejeitado por autores panteístas. 3. O Psiquismo em Pascoaes Uma das grandes influências no pensamento de Pascoaes é o filósofo francês Henry Bergson (1859-1941). As doutrinas de Bergson sobre as origens psicológicas das nossas crenças e as fontes da moral e da religião, provocam na filosofia do século XX uma verdadeira “revolução”. Para Joaquim de Carvalho, “ a génese e em parte o teor das suas prefigurações da realidade, assim como a entrega sem reservas ao apelo da emoção e ao dom misterioso e revelador da palavra”, em Teixeira de Pascoaes, dificilmente se compreende se ignorarmos o contexto de certas correntes filosóficas, especialmente as de Bergson. São elas que permitem justificar “o regresso ao vital e ao imediato pelo valor noético da intuição e pela excelência da emotividade sobre a racionalidade”.31 Pascoaes publica, em 1907, O Sentido da Vida, artigo onde expõe e desenvolve a sua própria teoria acerca do psiquismo. Ao ser questionado sobre a possibilidade de haver para além da natureza humana - como o último elo conhecido da cadeia evolutiva no 31 Cfr. Joaquim de Carvalho, Reflexões sobre Teixeira de Pascoaes. In: Obra Completa, Volume V, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987, p. 75. 21 plano biológico - “outra fase característica e superior do Cosmos, para o qual ela tende”, o nosso autor responde afirmativamente partindo da convicção de que “ ao último reino em que até aqui se dividia a Natureza, sucede um novo reino, nascendo da última fase da Matéria como, o Reino psíquico”. 32Tal explicação pressupõe um recuo até a um «início» - que ele faz corresponder ao Ab initio de São Paulo ou ao Éter de Haeckel - para justificar a condensação desse princípio ativo numa matéria ponderável ou atómica, portadora de um dinamismo próprio e com um raio de ação autónomo, para além das leis ordinárias conhecidas pela ciência convencional, possuindo “a faculdade de se exceder e traduzir em formas originais de vida sempre superiores às antecedentes”33. Tratase de uma força energética, ou seja, uma íntima vontade, inerente a toda a natureza e responsável pela evolução das espécies segundo um certo esquema evolutivo (ex: o mineral evolui para o vegetal e este para o reino animal de que faz parte o homem que por sua vez é a ponte e o meio genésico do último reino, isto é, o reino espiritual ou psíquico). Este último distingue-se por ter “uma qualidade de matéria idêntica ao éter inicial” com a diferença de que, passou de dinamismo inconsciente a dinamismo consciente ou Espírito. No Homem, a vontade de excedência, manifesta-se como pensamento criativo – o que em Pascoaes significa a produção de entidades que não sendo atómicas ou celulares são de um tipo de matéria imponderável. Todavia, não se trata de “corpos orgânicos e inorgânicos”.34, têm origem na matéria cerebral descondensada dentro do cérebro onde se encontram sujeitos aos fenómenos evolutivos da restante natureza. É aqui que situa a causa do fenómeno religioso, artístico, científico. Nesta perspetiva, a título de exemplo de pensamento criativo, a arte vai aparecer como sendo a objetivação do mundo espiritual no mundo físico e o seu pólo fecundador, representando cada obra artística uma semente do mundo mental que irá germinar noutros cérebros, que por sua vez, farão novas criações em novas formas artísticas e assim sucessivamente. 32 Teixeira de Pascoaes, O Sentido da Vida, op. cit. p. 118 33 Idem. p.120 34 Idem p. 121 22 As criações artísticas ao longo dos tempos revelam a evolução do lado espiritual, que assim se engrandece e se constitui atrativo para os padrões morais das sociedades, como esclarece o nosso autor: “ As obras de arte verdadeiras, são o óvulo sagrado onde se encerram os germens de novas criaturas espirituais. E quantas têm existido que não deixam descendência porque antes da sua morte, não depositaram as suas células germinativas em nenhuma tela, estátua ou poema”.35 Estética e Ética estão, assim, numa imbricação, uma vez que a arte (no seu efeito de expansão espiritual) predispõe os indivíduos a uma vontade íntima de se alinhar por padrões físicos e morais mais perfeitos. Entre os temas e realidades com que a Psicologia, jovem ciência emergente, se procura afirmar no panorama epistemológico do século XIX-XX, destacamos no contexto do pensamento do nosso autor, o estatuto cognitivo do sonho e da sensação. O sonho, concebido como estados da mente em que os sentidos incidem diretamente sobre o cérebro, constituem a ponte entre o lado físico e metafísico, pois durante o sono supõe-se haver uma paralisia da parte externa dos sentidos, isolando-os do mundo exterior e projetando a visão interna. Quanto à Sensação, ela é vista como o “ato pelo qual o mundo exterior toca e fere o mundo cerebral, para nele se transformar em matéria psíquica” e distingue-se de imagem ou “esse mundo externo metamorfoseado, no cérebro, em dinamismo consciente, com existência objetiva”36. Pascoaes defende ser necessário um estudo sem “preconceitos” destas realidades na Psicologia, devendo esta passar a ser uma “ciência geral” onde se incluísse este “mundo perfeitamente distinto e caracterizado”. Por outro lado, a par da Psicologia, também a Sociologia é uma ciência emergente e em vias de afirmação. O nosso autor remete-nos para o exemplo da sociedade francesa, que criou os ideais libertários (Revolução Francesa) a partir do qual “o homem histórico se direcionou em aspiração”37, para mostrar que os chamados fenómenos sociológicos seguem o mesmo processo evolutivo, pois as sociedades são entidades coletivas, criadoras de novas formas sociais e anseiam alcançar um nível superior. 35 Idem, p. 118. 36 Idem, ibidem. 37 Idem, Ibidem. 23 Ainda no âmbito dos fenómenos psicológicos, ao longo dos seus escritos, Pascoaes insiste em relevar a importância da Ciência admitir investigar os seres espirituais como “seres vivos e verdadeiros que são”, propõe uma Biologia–Psíquica que se ocuparia do estudo destas formas (da mesma maneira que se estuda os seres vegetais ou minerais).38 Neste contexto, compreende-se que o nosso poeta-pensador não aceite o dualismo metafísico por considerar o mundo espiritual separado e substancialmente diferente do material, nem o monismo materialista (seu contemporâneo) que considera o espírito como mera manifestação cerebral sem uma real e específica diferenciação do meio a partir do qual surge. O conceito de finalidade relaciona-o com a busca de perfeição que revela na Natureza um jogo de arbitrariedade. Este deriva “fatalmente das condições imprevistas em que cada ser está em relação a outro que lhe seja diferente e superior”.39 É assim que a origem da Existência vai ser radicada, por Teixeira de Pascoaes, num Imponderável inicial que encerra em si “reservas de energia latente” que em certos períodos específicos da evolução cósmica vão dar à matéria “a faculdade de se exceder e traduzir em formas originais de vida superiores ás antecedentes”.40 Segundo Paulo Borges, o nosso pensador, nesta fase da sua obra, faz derivar a ideia da existência de matéria “imaterial, etérea e inconsciente”41 que se constitui Princípio e Fim da dinâmica existencial e onde Deus aparece como a criação humana de uma idealidade suprema. Por esta razão não é considerado “nem panteísta nem teísta mas monistamaterialista”42. Januário Leite já havia feito notar, pertinentemente, numa carta-resposta a Pascoaes, alguns hiatos no que se refere à transição entre matéria inconsciente e matéria consciente. Em síntese, embora deixe muitas questões em aberto, estes escritos de Pascoaes sobre a sua ideia de Psicologia, permitem-nos aceder a uma 38 Idem ibidem. 39 Idem. p.120. 40 Idem, Ibidem. 41 Paulo Borges, Princípio e Manifestação, Metafísica e Teologia da Origem em Pascoaes, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 2008, p.119. 42 Ângelo Alves, O Ateoteísmo de Pascoaes: Retórica, Indecisão ou Aprofundamento?. In: Revista de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto,2004, p. 190. 24 abordagem antropológica - que o nosso autor mantém até ao fim - em que sobressai a ideia de uma nova perspetiva da Psicologia, como ciência capaz de identificar a causa dos males da humanidade. 4. O Panteísmo Saudosista Os artigos que Pascoaes escreve na emblemática revista A Águia, dentro do movimento cultural A Renascença Portuguesa, são reveladores do seu envolvimento na “campanha” do Saudosismo. Trechos Dum Livro Inédito é o título do texto em que se manifesta contra o rumo da civilização tecida num “antro de artificialidade ao ponto de desumanizar e ter criado um ser que não é nem animal nem homem mas um monstro antinatural árido e antipático”. Para o poeta do Marão, o homem social tornou-se um desviado do rumo evolutivo natural (do menos perfeito para o mais perfeito) e em vez de tornar-se entidade espiritualizada, transformou-se num “ fenómeno estranho á natureza onde tudo se liga e atrai”43 , adquirindo a capacidade de mentir. Não é a Razão o que distingue os homens dos outros seres, mas a mentira. É no intuito de contrariar esta tendência que Pascoaes, a partir de ideia de Portugal e da alma portuguesa, institui a Saudade como a “nova religião” universal. Isto leva-o a escrever - no manifesto de apresentação da Renascença Portuguesa em 1912 - o seguinte: “Quem surpreender a alma Portuguesa nas suas manifestações mais íntimas e delicadas vê que existe nela, embora de uma forma difusa e caótica a matéria de uma nova religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da vida (…)”44 , a palavra religião “ toma um novo sentido em que os cultos como o Paganismo, o Judaismo, o Cristianismo e as suas variantes afastam-se envoltos já na névoa do 43 Idem. In: A saudade e o Saudosismo, op. cit. pp. 12-13. 44 Teixeira de Pascoaes, Ao Povo Português, A Renascença Lusitana. In: A Saudade e o Saudosismo, op. cit., p.32. 25 passado, abrindo-se um novo período que vai dar ao mundo uma nova fisionomia”. 45 Trata-se de um Animismo Lusitano com características próprias e que representa a síntese ou fusão viva da Natureza e do Espírito, ao contrário da contemplação ou intelectualização em que há uma distância entre sujeito e objeto. A arte em geral - e dentro desta em particular a poesia - é o instrumento ideal de expressão deste sentimento religioso. O “verdadeiro” poeta da Renascença Portuguesa, não é qualquer um que se limite a escrever poesia e a expressar um mero ponto de vista pessoal. Para sê-lo é necessário que a (sua) poesia sublime (idealmente) o quotidiano. Constatamos que, em Pascoaes, está sempre presente a importância da simpatia ou afinidade no processo cognitivo. Aqui reiterada no sentimento amoroso como a grande força agregadora universal geradora de Saudade - que nos “ reproduz espiritualmente na alma de outra criatura, onde ficamos a viver” ao mesmo tempo que “desenvolve a infinita perspetiva do Universo porque abrange todos os acontecimentos a caminho da sua realização.”46 Ora, se a palavra Saudade é portuguesa e enraizada na alma nacional (entidade espiritual coletiva), o seu significado é universal. O pensamento português possui a capacidade de fazer ressurgir o lado superior e esquecido da existência, com novos sentimentos e ideias capazes de contrariar o rumo civilizacional que vai no sentido egoísta e destrutivo. A existência de novas palavras na nova poesia portuguesa é disso exemplo, pois “são os novos estados de alma que preparam a sua própria exteriorização.” 47 Reiterando a ideia de um Universo que conquista a sua fase anímica no homem, o nosso autor salienta, a propósito da vida psíquica, que teremos a verdadeira Religião saudosista “quando esta vida se tornar interpretativa das imperfeitas vidas anteriores e com elas se casar, construindo um Universo ideal dentro da realidade do Universo.48 O Saudosismo Panteísta aparece, assim, na sequência de renascimentos que - anterior e ciclicamente - impulsionaram as civilizações humanas. Corresponde “às antigas 45 Teixeira de Pascoaes, Génio Português na Sua Expressão Filosófica, Poética, e Religiosa, op. cit. p. 86. 46 Idem. 47 Idem. 48 Idem, pp. 86-88. 32 encarnado, sem um Princípio Organizador Inteligente? Princípio imanente, entranhado em cada célula e transcendente ou abrangendo-as num todo definido. O Criador é a causa eterna de e feitos transitórios.”67 A ciência - que simboliza nesta obra o “motor” - torna-se “um esquema artificial do cosmos, de resultados práticos, mas inexpressivo da realidade.”68 Por outras palavras, o motor enquanto esquema artificial do Cosmos é o símbolo da ciência e pressupõe um princípio espiritual sem o qual nada se compreende da existência: “o Ser excedeu-se no homem e não se resigna dentro da nossa área racional euclidiana, traçada pelo compasso de duas pernas abertas.”69 A negação por parte do homem de algo que o transcende, explica-se pelo seu percurso evolutivo e processo de individualização. Neste, o homem começa por “fazer uma ideia de si próprio, concebendo-se como um princípio ativo inconfundível, um cogito ergo sum,”70 antes de ser o homem adâmico ou universal. Trata-se de um processo em que as sociedades contemporâneas desempenham um importante papel, como estimuladoras (ou inibidoras) das características necessárias ao aparecimento deste tipo humano. Quanto à questão da evolução da sociedade Pascoaes descreve-a da seguinte forma: “ao homem mitológico escravo dos Deuses, sucedeu o metafísico escravo de Deus, e a este o industrial, escravo de uma Deusa de metal” 71, a que se seguirá o advento do Homem Universal. Filósofos ou escritores como Platão (séc. V a.c.), Dante (1265-1321) e Dostoiévski (1821-1881), ou cientistas como Newton (1643-1727) e Einstein (1879-1955), entre outros, são os nomes de referência que antecipam este tipo humano futuro. Um outro aspeto que destacamos, neste livro, é a explicação acerca do impulso criativo inerente a toda a natureza e que se prende com a dinâmica do próprio desejo sexual. Uma explicação que poderíamos identificar como sendo tipicamente freudiana 67 Teixeira de Pascoaes, Homem Universal, op.cit. p. 77. 68 Idem, pp. 77. 69 Idem, p. 76. 70 Idem, p. 56. 71 Idem, p. 27. 33 se nos recordarmos do princípio ou impulso vital a que deu o nome de “Eros” (por oposição a Thanatos). De facto, o desejo sexual, segundo o nosso autor, além de ser o meio de reprodução natural nos animais e no homem (neste último, em virtude do princípio de excedência) pode intensificar-se “até à espiritualização e gerar outros filhos”. 72 O desejo (ou a excedência do desejo) é sempre a mesma energia criativa em todo o universo mas, na fase humana, é suscetível de se apresentar sob formas mais complexas de criação, como a arte, a ciência a filosofia e a religião, que podem bem ser “os sonhos e os fantasmas nascendo do desejo insatisfeito”.73 Na perspetiva psicofilosófica, o sonho, para o poeta-pensador, aparece ligado à memória e mais do que simples recordação é impulso dinâmico ou artístico, criador de idealidade e gerador de consciência - e não o inútil delírio que lhe atribuem os pragmáticos: “Cantando e filosofando, conseguem-se utilidades muito práticas ó capitalistas do Bom Senso! A primeira canção foi a primeira ordem estabelecida, a primeira visão de conjunto ou definidora.”.74 Daí não surpreender que a Ética e a Estética filosóficas apareçam associadas ao culto da verdade e o seu esplendor, pois como sublinha Jorge Coutinho a propósito do nosso autor: “Aproximando da poesia o que considera a verdadeira filosofia, distancia-a e aproxima-se do mesmo golpe da ciência… ciência e poesia não se excluem: completam-se”.75 De facto, podemos dizer que a Estética constitutiva do Cosmos tem na arte humana o prolongamento desse impulso criativo (sexual). O homem ainda de consciência hesitante, ora se manifesta na ciência e sabe como interpretar as mudanças, ora na arte, trazendo visibilidade ao invisível. Ética e Estética perfazem, assim, a própria civilização e são marcos incontornáveis no progresso humano: “Deus criou. Porquê? Para quê? A ideia da finalidade inclui a de utilidade e é de natureza económica e social. Temos de dar aquela ideia em valor estético. O fim das coisas é a beleza, como a sua origem é a verdade (…) Criar é ser imperfeito, pois é estéril a perfeição(…) Antes 72 Idem, p. 52. 73 Idem, p. 53. 74 Idem, p. 62. 75 Veja-se: Jorge Coutinho, op. cit. pp. 193-196. 34 e depois da definição científica temos a poética ou religiosa de outro alcance (…) cuja missão é libertar a vida do nada que a ciência a coloca.” 76 Pascoaes reitera que a Ciência e a religião oficiais não são, por si só, a última palavra no conhecimento; que as sociedades humanas mudam constantemente quanto à interpretação dos fenómenos, de acordo com o percurso do espírito (naturalmente definidor do ente humano) à procura de si mesmo. Em suma, podemos dizer que embora se saiba “criticado” no campo da Filosofia, da Ciência e da Religião – como ele próprio explica: “A mim acusam-me de : estragar a autêntica filosofia que é subordinada à ciência, ao microscópio e ao átomo, pois o cosmo só é real trocado em miúdos. O átomo estará mais perto da natureza do Cosmos do que os seus aglomerados? Do que um astro? De estragar a teologia que trata Deus como botânica das flores (…)”. 77 – o nosso autor conduz a sua reflexão com o objetivo de “abrir a porta” ao perfil do Homem Universal: “considerado no seu valor existencial – o valor das suas qualidades sentimentais e intelectuais, vistas à luz de um novo critério, liberto de preconceitos clássicos ou estritamente mecanicistas.”78 76 Teixeira de Pascoaes, Homem Universal, op. cit. pp. 101-100. 77 Idem, op. cit. p. 106. 78 Idem, p. 3. 3 5 Parte II 36 O Livro Santo Agostinho “Entre a escada e a ruela, há um desacordo tremendo, como entre a alma e o corpo. A natureza está cheia de paradoxos e milagres, e o mais curioso é o Santo. Adoro estes espíritos, que passaram, fantasmaticamente, pelo mundo, e vivem para sempre, nos seus atos e palavras. E, porque os adoro, os martirizo”79 Concluído em 1944 e publicado em 1945, o livro Santo Agostinho de Teixeira de Pascoaes apresenta-se sob a forma de um conjunto de comentários ao livro Confissões80, a obra de cariz autobiográfica do filósofo medieval Santo Agostinho (já então conhecido como bispo de Hipona), escrita no século V, unanimemente considerada uma “obraprima” da literatura filosófica ocidental81. Mais do que debruçar-se sobre aspetos biográficos ou interpretativos - da obra mencionada - Pascoaes reformula aqui temas (de obras) anteriores com o objetivo de justificar o diálogo entre a ciência, a filosofia, e a poesia, enquanto plataforma de entendimento para novas amplitudes do conhecimento humano: “Transitemos do homem carnal, foco darwínico de instintos grosseiros e cruéis, para o homem Adâmico, o Homem com letra grande em Jesus Cristo, o espírito criador humanizado. Deus só é Deus, depois de humanizado. Antes disso era um personagem de fábula. É no verbo joanino que Deus aparece realmente. Esperemos nele, que a esperança é a salvação. Salvamo-nos em esperança...O reino de Deus é no futuro...eis a teologia de Paulo, 79 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p.23. 80 Santo Agostinho, Confissões, Tradução de Arnaldo do Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Sousa Pimentel, introdução de Manuel Barbosa da Costa Freitas, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2ª edição bilingue, Lisboa, 2004. 81 Étienne Gilson, Introduction à l'étude de Saint Augustin, 2e éd., 4e réimp, J. Vrin, Paris, 1987. 37 discípulo de Cristo. Mas o Criador, explicando a Criação, permanece inexplicável. Muito bem! Se assim não fosse, que seria da Poesia? “.82 A suposta “complexidade” do pensamento de Pascoaes resulta, como veremos, quer da “indeterminação” inerente ao seu modelo existencial quer desta perspetiva poética - que prevalece sobre outras linguagens. Em particular, nesta última fase do seu pensamento, ilustrada pelo biografia do Santo Agostinho, como veremos o nosso autor apresenta, sublinha Paulo Borges, “uma cosmo-antropo-teogonia de sentido lúdico teúrgico”83, distanciando-se da noção antropológica que apresenta no Sentido da Vida, assumindo a plenitude de um existente que explica a partir de uma Divindade Transcendente - aqui definida como Mistério, Amorfo, Inefável, Nada, Ninguém - que num ato de desdobramento dá origem à Existência como “complexo de inexistências”. Todavia, para que não houvesse dúvidas quanto às suas intenções, Pascoaes trata de advertir os leitores no seu Epílogo: ”Este livro (...) escrevi-o para os ateus inconformáveis ou idealistas, os ateoteístas, os que não cabem no passado nem no presente (...) Não me dirijo aos crentes absolutos ou fanáticos, os milionários da fé e da bem aventurança, mas aos pobres de Deus, que o procuram no deserto da vida”84Escrita sob a forma de um “tratado de Teologia Moral”85, vamos encontrar nesta obra uma terminologia original de variegadas proveniências (desde orientais ao neoplatonismo, gnosticismo ou fórmulas filosóficas-científicas), dando um novo significado às temáticas características do pensamento pascoaesiano, onde a inspiração e a intuição se sobrepõe à representação lógico-conceptual da realidade. 82 Teixeira de Pascoaes, SA, op. cit., p. 346. 83 Paulo Borges, Da Imperfeição do Deus Criador á Criação/ Revelação de um Novo Eterno Deus- Teogonia, teurgia e Ateoteísmo em Teixeira de Pascoaes. In: Nova Renascença, op. cit. p. 439. 84 Idem, SA, p. 347. 85 Pinharanda Gomes, in Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 18. 38 1.Cosmogonia “O esforço para a compreensão da Natureza explica o progresso do nosso intelecto e o da racionalização ou faculdade crítica”.86 O uso de profícuas metáforas cosmogónicas, em particular neste livro, para tentar explicar um processo tão “complexo” como é o de uma possível Origem do universo é mais do que justificado. Uma das metáforas mais expressivas é a que se refere a um ponto ou impulso que encerra em si a potencialidade quase infinita de crescer tal como “uma espécie de força adquirida e aumentativa que se intensifica topando resistências, num crescendo prodigioso até ao aparecimento de um planeta”87, sendo esta sempre a mesma energia sobrenatural a transfigurar-se em tempo e Espaço. A Origem do Universo, neste autor, inclui dois momentos: “Uma espécie de Origem das origens, ou de primeira Origem” e uma segunda “que se manifesta como dualidade positiva e negativa. Se a primeira Origem é una, simples, absoluta, não o é na sua atividade, considerada também como originária, ou como revelação cognoscível do incognoscível ou zero a ganhar valor quantitativo, por um processo místico matemático, que se perdem no infinitamente pequeno e no infinitamente grande.”88É um ponto de máxima condensação que marca a passagem do imaterial para o material mas em que o “imaterial já não é imaterial e não é ainda material mas uma confusão dos dois elementos, o ingrávido e o grávido, é a luta pela conquista da existência no seu instante mais incerto.”89 Entre estes dois momentos os limites são indefinidos, esbatendo-se a 86 Teixeira de Pascoaes, SA, op. cit., pp. 79. 87 Idem, p. 69. 88 Idem, p. 123. 89 Idem, p. 62. 39 definição de realidade e irrealidade do cosmos. O Cosmos só é real na sua interconexão com o Princípio primordial e não em si mesmo. Só tem verdadeiro ser dentro desta relação. Por outro lado, Nada ou Zero, são os termos que usa para se referir ao momento de não substância ou o imaterial inicial, antes de se concretizar como mundo. Neste percurso, os seres tornam-se cúmplices num processo de perpétua atualização cosmogónica que Pascoaes faz equivaler a uma viagem de esquecimento e em que a falsa noção de individualidade se torna o motivo da conflitualidade que observamos. Por sua vez, a memória é um aliado importante no readquirir da consciência da unidade, permanecendo potencialmente em cada ente como Saudade: “A memória é o jardim do Éden, a origem das cousas. Daí o nosso culto da Saudade; não desta ou daquela saudade, mas da saudade no infinito ou do infinito (…) a transcendência da sua intimidade idêntica á nossa pois há um ponto em que tudo é o mesmo ser. Nesse ponto a lembrança de uma rosa é também uma Rosa.”.90 Neste contexto, constatamos que a representação do mundo, em Pascoaes, se afirma numa cosmo-antropo-teogonia de sentido oscilante: ora num sentido lúdico/ilusório, ora num sentido estético-dramático. Tal representação permite-nos também ver aqui uma possível aproximação a um autor como Platão91, na medida em que o filósofo grego, no diálogo Parménides, distingue entre Uno-puro e Uno-ser. O primeiro é a anterioridade do Princípio em relação ao ser, e do segundo procede a multiplicidade e o próprio mundo inteligível como unidade síntese da diversidade do mundo sensível. Para participar do uno é preciso evidentemente ser mais do que mero uno. Além de uma aproximação à cosmovisão neoplatónica grega (oriunda do platonismo) justifica-se aqui uma aproximação quer à cosmovisão cristã, quer ainda a alguns sistemas gnósticos. A propósito destes últimos invocamos um outro poeta português, Fernando Pessoa, na medida em que este gnóstico assumido esclarece que “o 90 Idem. p. 281. 91 Platon, Parménide, ouevres complètes, tom VIII 1ª partie, texte établi et traduit par Auguste Diès, 3ème édition revue et corrigé, Édition, les Bellles Lettres, Paris, 1956, p. 47. 40 criador do Mundo não é o Criador da Realidade: em outras palavras, não é o Deus inefável mas um Deus- Homem ou Homem- Deus, análogo a nós mas superior.” 92 A essência do espírito gnóstico ocupa vários outros autores interessados pelos primórdios do cristianismo como, por exemplo, Hans Jonas (1923-1993). Este historiador e filósofo alemão, autor de vários livros sobre a história da gnose, diz que alguns sistemas gnósticos distinguem o Deus transcendente (que não cria nem governa o mundo) e o Demiurgo ou Deus criador que cria numa co–cooperação infindável de muitos deuses menores. Alem disso, não esqueçamos que o termo gnosticismo cobre várias doutrinas sectárias e as teorias contraditórias se referem à influência de Platão sobre o pensamento cristão originário além da própria Cabala. 93 Em suma, todas as perspetivas acima referidas representam escolas de pensamento que admitem um Princípio primordial anterior aos seres e aos entes. Neste contexto, o nosso autor parece contrariar, assim, a opção onto-teo-lógica da escolástica e do idealismo alemão, pois como elucida Mafalda Blanc, “na perspetiva meontológica e henológica que corresponde à mais antiga tradição apofática do pensamento ocidental, apresenta-se o Princípio, na sua espontaneidade simplicidade, como uma pura energia fontal, irredutível ao ser que dela procede e em que delega a iniciativa de autoconstituição. Já pelo contrário nas variantes clássica e moderna, escolástica e idealista da abordagem onto-teo-lógica interpreta-se o Princípio, em homogeneidade e continuidade com o ser.”94 92 Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. III, estabelecido e prefaciado por António Pina Coelho, Edição Ática, Lisboa, 1968, p. 458. 93 Hans Jonas, La Religion Gnostique. Le message du Dieu Étranger et les débuts du christianisme, traduit de l’anglais par Louis Évrard, Flammarion, Paris, 1978. 94 Mafalda de Faria Blanc, Henologia e Constituição Espiritual do Princípio. In: Philosophica 19/20, Lisboa, 2002, p.321. 41 1.1. Existência: Entre o Subnatural e o Sobrenatural A Criação oscila entre um Princípio e um Fim num movimento circular entre “ o imaterial inicial ou subnatural, ponto de partida ; e o final espiritual ou sobrenatural, o ponto de chegada que vem ligar-se ao ponto de partida. ”95. A Existência é o processo de conversão do imaterial inicial em material e deste em espiritual através de três etapas (física, química, biológica), sempre com a mesma energia cósmica que se “demora em cada uma destas etapas para exceder-se nas seguintes até se elevar á consciência humana.”96 Admitido o primeiro impulso dado à Criação, Pascoaes acrescenta que no evolucionismo transformista não há um plano predeterminado, deparando-se este processo com resistências circunstanciais que exigem um esforço de superação e incentivo ao aperfeiçoamento. No Cosmos a quantidade tem pouca importância, apesar da grandiosidade e imensidão todo o processo se desenvolve em simultâneo, conferindo uma espécie de eterno presente à totalidade da dinâmica universal. O microcosmos espelha numa outra escala o macrocosmos: “Que representa milhões de séculos entre um gás luminoso e a fantasia de Platão? ou esse milhão de séculos de luz que separa o meu escritório da nebulosa Andrómeda. O papel do céu e da terra, contém-nos uma célula do meu cérebro”.97 Reforça-se nestas questões e afirmações a ideia de que o Cosmos é a grande obra una e simultânea. A importância da Matemática na construção Universal é outra das evidências nesta obra. O nosso autor serve-se dos números cardinais e ordinais para diferenciar o aspeto objetivo e subjetivo do Cosmos: “Os cardinais são todos a repetição do número um, e simbolizam a Criação, da unidade cardinal saltamos para a pluralidade ordinal, pois há um sem dois, mas não há primeiro sem segundo”.98 95 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. p. 62 96 Idem. p. 69. 97 Idem, pp. 69- 70. 98 Idem, p. 90. 48 porque quem nos domina são os instintos ainda bárbaros ou selvagens e o nosso eu faz uma triste figura de rei”.122 Por isso, a Saudade pode ser uma “lembrança dessa unidade a persistir no pluralismo a fim de o dominar e orientar” e o psiquismo humano “a soma dos instintos pessoais e ancestrais, e a soma das ideias123. Todavia, fica-nos a dúvida se este “somatório das ideias” se reporta a todas as ideias criadas pela humanidade no seu todo ou apenas às que correspondem ao universo pessoal de cada um - ou ainda, se inclui as duas situações. Por outro lado, Pascoaes defende que o psiquismo tem um lodo genésico - à semelhança do mundo biológico – e que é o conjunto de instintos que forma a subconsciência, ou seja, “uma espécie de eu anónimo”, distinto da consciência (eu). Esta última constitui a entidade ideal (eu racional), enquanto “soma dos terrores provenientes da biologia”, personifica-se no medo e sustenta a sensualidade, o amor, a crueldade, o ódio. O ser humano “é o único animal admirado de existir (...) o que o afasta dos outros animais”124, mas isso também não impede que a maioria dos homens, segundo Pascoaes, estacione na sua personalidade que como mero ator adaptado às circunstâncias é fictícia. Mas o homem não se satisfaz com ideias construídas para uma circunstância. É na dor e na alegria concreta - nos dois opostos (de que advém a lembrança e a esperança, ou o passado em síntese como presente de onde nasce o futuro) – que se encontra o móbil do progresso. Agostinho de Hipona, Schopenhauer, Dostoiévski, pretendem penetrar o íntimo das coisas através do conhecimento de si próprios. Neles se exemplifica aqueles que têm em si a Fé infusa e a Razão esclarecida, dois tipos de conhecimento que Pascoaes vai unir como conhecimento racional-emotivo na pessoa do poeta-filósofo: “A Fé infusa, é a névoa mística ou o ponto de contato com a última transcendência, e a Razão por si só, despreza o remoto e entretém-se a esculpir o que está próximo ou dentro do seu alcance.”125 122 Idem, p. 138. 123 Idem, p. 146. 124 Idem, p. 238. 125 Idem, p.239. 49 3. Gnosiologia “Alargamos a área da razão à custa de esforços inauditos. Assim nos adaptamos a conceitos novos, que se nos afiguravam inadmissíveis”126 As almas são pré-existentes, defende Pascoaes. Todavia, aprofunda-se aqui claramente a distinção entre dois tipos de alma: uma interior às células e responsável pela organização da forma, e outra exterior que deriva do Princípio de excedência aplicado ao psiquismo. Nas suas palavras: “uma faz o corpo e a outra é feita pelo corpo. Aquela é a própria ciência orgânica em ação, esta é filha dos sentidos e da análise do meio físico e moral, ou de sensações submetidas a um espírito crítico, o mesmo espírito criador já humanamente consciente”. 127 Daqui deriva a sua especulação entre o subracional e o irracional. Este último é inconvertível em racional, enquanto o sub – racional é convertível em sobre-racional, e está associado à transfiguração do homo vulgar ou Lineu em adâmico: “A faculdade racional é essa fantasia arrefecida (…) entretém-se no labor egoísta ou aproveitável. Analisa e sintetiza, compõe e descompõe as formas até se perder numa confusão de corpúsculos e vibrações ondas e sinos de probabilidade (…). No homem o sub é capaz de converter-se em sobre (… ) eis o sinal adâmico”.128 Tudo isto inclui a passagem de um tipo de pensamento (inerte e repetitivo) para a racionalidade (capacidade de ver o mundo próximo) e desta para a Fantasia ou 126 Idem, p. 36. 127 Idem, p. 149 128 Idem, p. 148. 50 Arte. O primeiro exemplo desta capacidade de arte ou fantasia no homem é-nos dado, segundo Pascoaes, pela invenção do vestuário: “O vestuário é o nosso corpo verdadeiro. O outro o de carne lívida a nós próprios nos amedronta”129. Foi para esconder a sua origem biológica que o homem se “artificializou” no vestuário, marcando assim a sua fuga permanente para a dimensão espiritual. No nosso autor, a dinâmica existencial toma a forma de um ato lúdico divino e não é passível de ser captada pela via comum do entendimento. Ela exige o que chama de sub e sobre entendimento. Partindo da frase agostiniana, “se não me perguntares o que é o tempo, eu sei o que é o tempo; mas se me fazem tal pergunta eu não sei o que é”130, conclui que é mais fácil subentender ou mesmo sobre entender do que entender porque o “homem, de ordinário, está acima ou abaixo da verdade, ou no lugar da ilusão e da mentira.”131 O sub e sobre entendimento aproximam-se mais do sentir que do entender e permite perceber no mundo fenoménico a unidade da identidade e da diferença. Estes temas além de racionalizados, são ainda abordados por Agostinho pela via da Inspiração e Iluminação – e o nosso autor acolhe-as como formas de apreender o mundo sem o estatuto de menoridade a que estão vinculadas: “Agostinho pensava dentro do cérebro onde reside a consciência; e imaginava fora dele, que a imaginação é uma espécie de pensamento em pleno espaço; liberto da razão critica de Sócrates, de Descartes e de Kant (…). A razão nascida dos sentidos, visa, antes de tudo a conservação do indivíduo, quando não trata de o destruir do modo mais horroroso. Inventou o metro e a balança, mas a Fantasia, essa Cósmica energia humanizada; apodera-se do metro ou balança, e quer pesar os astros e o firmamento,” é o húmus da arte. 132 De facto, a Inspiração é a verdadeira “força cósmica” porque justamente se concebe espiritualizada e humanizada e o iluminado, por sua vez, é um “espírito exaltado” nessa “alucinação prodigiosa” em que o seu mundo interior se transforma ao ser exteriorizado – concretizado numa manifestação estética ou ética. 129 Idem, p. 194. 130 Idem, p. 93 131 Idem, ibidem. 132 Idem, p.220. 51 3.1. Excedência, Incerteza e Contradição Haverá morte e vida, ilusão ou realidade? Pergunta Pascoaes, As questões não são novas. São eternas questões, da história do pensamento filosófico, como sabemos. Mas estas questões também se colocam noutras áreas do conhecimento, nomeadamente nas “ciências da natureza”. “Não há vida nem morte, nem luz, nem trevas, nem mal, nem bem, mas qualquer cousa que vive e morre, que é luminosa e escura, boa e má, não por índole própria mas devido a circunstâncias imprevistas num dado lugar e num instante. Essa qualquer cousa escapa-se á nossa apreensão e compreensão; talvez seja um quase nada”.133 Nestas palavras Pascoaes coloca o seu Princípio da identidade incerta, que reforça com as ideias provenientes do desenvolvimento da Física quântica134. Esta vai trazer implicações na forma como vemos o mundo mostrando que o sujeito interfere naquilo que está a observar e que há vários resultados possíveis para uma observação, cada uma de igual probabilidade. De facto, o postulado do Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg, corresponde à sua observação de que “há um ponto originário em que o nada e alguma coisa se misturam e é impossível distingui-los ou separá-los ou impor a cada um deles uma atitude imóvel, capaz de ser analisada. Nesse ponto é que o material e o imaterial coexistem enganando-se mutuamente, de maneira que mal surpreendemos a materialização de uma partícula, logo esta se materializa em onda como a onda se materializa em corpúsculo. Também a probabilidade e a certeza coexistem.”135 Quer isto dizer que toda a existência é coexistência, porque viver significar partilha e convivência e a existência não passa de “uma ilusão da grandeza, um vago conceito de totalidade”.136 As consequências deste pressuposto permitem a “conversão recíproca do mal e do bem”, mostrando aqui, mais uma vez, uma 133 Idem, p.196. 134 Assunto abordado por Ilídio Sardoeira, In Ciência Filosófica e Homens, Studium Generale, Atas do I colóquio de Estudos Filosóficos, vol. VIII tomo 1º, Porto,1959. 135 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op.cit. p. 229. 136 Idem, ibidem. 52 aproximação do nosso autor a Santo Agostinho - que admitia a presença e a ausência simultânea, o est non est, duas forças, ativa e reativa, o que dá “uma espécie de bem maléfico ou mal benéfico”.137 Por outro lado, Pascoaes vai substituir o primeiro princípio lógico e ôntico da metafísica e da lógica clássicas (o princípio da identidade e não contradição) pelo princípio da identidade e contradição complementares afirmando que “o princípio tradicional de identidade- A é A, é falso. O verdadeiro é : A é A e não A”.138 Conjuntamente com o Princípio de excedência, são estes os atributos basilares em que fundamenta no plano teológico o ateoteísmo e no plano gnosiológico põe em causa a possibilidade de um conhecimento definitivamente conclusivo.139 Todavia, os paradigmas epistemológicos não são eternos, como mostraria o físico e filósofo da ciência Thomas Kuhn140 (1922-1996), e os critérios de validação do conhecimento e da verdade também não. O que parece concordar com as questões lançadas por Pascoaes, em jeito de desafio: “ Que é a verdade? Um produto do nosso labor intelectual? Uma obra científica e artística? A Ciência artística do homem coincidindo com as das cousas? Sim mas dentro de certa área, pois a razão humana é limitada e parece impor os limites à própria realidade.”141 “Haverá uma verdade transcendente ou verdades subjetivas?”. Ao colocar estas questões com frontalidade, Pascoaes afirma-se convicto num mundo objetivo, independente da subjetividade do recetor: “Creio que todas as cousas fotografáveis pela 137 Idem, pp. 208-209. 138 Teixeira de Pascoaes , Duplo Passeio, in Obras Completas X , organização de Jacinto Prado Coelho, Bertrand, Lisboa, 1975, p. 232. 139 Adotamos a nomenclatura usada por Paulo Borges que interpreta os três princípios numa relação interdinâmica mais de acordo com a fórmula de um Uno que se plurimorfiza sem perder a unidade. Veja-se a propósito: Paulo Borges, in Princípio e Manifestação; Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, Lisboa, 2008; Por sua vez, um autor como Coutinho apresenta esta articulação como: Princípio da contradição, Princípio da Excedência e Princípio da incerteza. Cfr. Jorge Coutinho, O Pensamento de Teixeira de Pascoes, Braga 1995. 140 Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Guerra&Paz, Lisboa. 2009. 141 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit.p. 218. 53 nossa visão consciente, possuem uma substância própria e estão nas sensações que nos provocam como simples fotografias. Têm um valor próprio e geral”.142 De facto, parece haver uma Verdade Transcendente presente em todos os entes, mas esquecida no seu inconsciente. Todavia, na sua condição relativa os entes não alcançam a perspetiva Transcendental, somente a arte e o artista nos momentos de inspiração permitem tal aproximação. Essa verdade parece surgir na forma de enigmas e o esforço para os decifrar é o impulsionador do desenvolvimento do intelecto e da faculdade crítica. A decifração dos enigmas assume dois movimentos de busca; o expansivo ou analítico e o concentrado ou sintético: “A síntese sai da análise, como do caos a harmonia”.143 A natureza como que se oculta, desvendando-se ou não, conforme a intenção que preside ao investigador. Ocultam-se sobre um véu que é preciso desvendar conforme o símbolo da Ísis sem Véu egípcia ( um corpo branco a sair de uma túnica negra) (…) é no criador, esse espírito e alma, esse matemático e artista sobre e subjacente ás suas criações que descobrimos a Verdade a Isís dos egípcios desnudada. Isís sem véu ou Mentira-criadora são duas das expressões com que traduz a relação homemnatureza.144A realidade é a verdade transcendente e a verdade é realidade imanente, e o homem nela, a consciência ainda perdida nas trevas. As verdades relativas perfazem a mentira-criadora, ou seja, a Existência. Em suma, Razão, Fantasia, Sonho, Imaginação, apenas se completam e se compreendem à luz dos princípios anteriormente enunciados. 142 Idem, p. 78. 143 Idem, ibidem. 144 Idem, ibidem. 54 4. Religião e Ética “Não me dirijo aos crentes absolutos mas aos que o procuram no deserto da vida” 145 É com fundamento na dinâmica existencial, tal como a explica, que se percebe o verdadeiro alcance das suas especulações religiosas e éticas. Se o princípio de identidade incerta e contraditória e o princípio de excedência, impulsionadores desta dinâmica, como vimos, não permitem que no mundo humano “estacione” em conclusões definitivas, então não há lugar para os dogmas, nomeadamente os religiosos. De facto, aquilo que, em Pascoaes, se pode perspetivar do ponto de vista de uma teologia filosófica, desenvolve-se em dois momentos articulados: A necessidade de uma renovação conceptual da ideia de Deus e uma interpretação histórica e cultural dessa mesma ideia. Por outro lado, se neste livro usa a terminologia das teologias tradicionais, o seu significado é contudo diferente - o que resulta numa heterodoxa interpretação das religiões em geral e do cristianismo em particular. Neste livro, o símbolo do calvário reconfigura a metáfora da Divindade que sacrifica a sua própria omnipotência e se gera e cria no próprio progresso universal, imprimindo à Criação esse sacrifício redentor. A Cruz simboliza o corpo (os braços abertos horizontalmente de forma paralela à terra) e a alma (no braço vertical símbolo 145 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. p. 347. 55 da ascensão espiritual interna e de regresso à Origem). A imagem do homem e a humanidade do corpo encenada nos braços abertos que acolhem, revela o poder do símbolo: “O abraço de despedida e a ascensão. A tragédia do Calvário é o instante super-histórico da História, como o drama da consciência é o instante superbiológico da Biologia. O Cristianismo, com o símbolo da Cruz no Gólgota, completa a imagem do Homem, ele torna-se a forma física aperfeiçoada, imbuída pela alma(…)”146 . Por sua vez, a dor e o sacrifício, como motores do transformismo evolutivo, ligam-se ao momento em que o Nada-mesmo se converte em Tudo-outros, o ato divino ateoteístico fundador de teísmos e ateísmos. Pascoaes liga o ateoteísmo humano a este momento. Recorde-se que todos elementos da Existência, desde o mineral ao homem, são expressões do ato criativo do Criador e acusam o mesmo verbo duplamente ativo e contraditório - que no homem se torna “o verbo dos ateoteístas.” Como refere de novo Paulo Borges: “Pascoaes estende este conceito à própria Divindade no seu duplo sentido, quer como irrelação do Deus/Nada, absoluto a sê-lo/ sabê-lo, quer enquanto como tal se nega e anula, des-fazendo-se no fazer-se Deus criador do mundo. O sentido iniciático de um ateoteísmo humano que aponta a cumplicidade do afirmar e negar um Divino que o é não o sendo.” 147 Desta forma, traz um Deus que não o é absolutamente. “É ele (Criador) que se corrige através da criatura” 148, diz Pascoaes. E Cristo representa o momento em que a Divindade consciencializa a sua obra e se redime tornando-se Criador (Redentor) num duplo sentido: como divinização do homem e humanização de Deus. Numa outra fórmula, Cristo aparece como Homem Adâmico, aquele que tem consciência da Divindade subjacente ao mundo fenoménico, com a responsabilidade acrescida de colaborar no transformismo geral. Neste percurso, as almas anteriores a si mesmas assumem formas e exacerbam uma individualidade separativa nos reinos existentes, para nos viventes se encaminharem progressivamente para a consciência dessa unidade. Por isso, a memória Saudosa é um aliado importante no readquirir dessa consciência: “A memória é o jardim 146 Idem, p.308 147 Paulo Borges, Princípio e Manifestação e teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, op. cit. p.117. 148 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. p. 290. 56 do Éden, a origem das cousas. Daí o nosso culto da Saudade; não desta ou daquela saudade, mas da saudade no infinito ou do infinito (…) a transcendência da sua intimidade idêntica á nossa, pois há um ponto em que tudo é o mesmo ser”.149 Em termos culturais, como sabemos, o ateoteísmo diz respeito a um próximo passo (religioso) na civilização humana consubstanciado na união do naturalismo pagão e do cristianismo - dois cultos separados entre si, e que Pascoaes exemplifica: quer através de do vaticínio de Nietzsche sobre a morte de Deus, quer através de São Paulo, ou seja, como a personificação do ateísmo e do teísmo respetivamente A verdadeira obra religiosa é aquela que conduz ao Homem espiritualizado. O movimento chave da evolução humana começa no pensamento e, por isso, defende a harmonização da ideia de Deus com os novo conceito acerca do universo: “a ciência divina não pode ficar atrás da humana.”150 O conceito de divindade já não cabe no seu arcaísmo, é preciso o homem libertar-se dele, apesar da dificuldade da tarefa por conta dos poetas: “Como custa libertar Deus de Deus, de Jeová, de Júpiter, de Alá! Lidar com velhos temas que já nada exprimem, galvanizar múmias é a tragédia dos poetas.”151 A este o velho Deus das teologias tradicionais, diz o nosso autor, deve-se opor o novo Deus que classifica como existente e vivente. Este último, mais de acordo com a substância íntima do ser Universal, significa a necessidade de vivificá-lo com uma atitude criativa e atenta ao mundo em renovadas formas de expressão (artística, religiosa, filosófica ou científica) e também na contemplação individual. De facto, quando Pascoaes fala de Nietzsche a propósito da morte de Deus, diz que o filósofo alemão “rigorosamente não matou Deus; apenas verificou e proclamou um Deus há muito moribundo”152. O tema do envelhecimento e da morte de Deus já fora tratado por outros autores como, por exemplo, Guerra Junqueiro em A Velhice do Padre Eterno, uma obra de 1885. Isto significa que Pascoaes partilha com a geração do seu tempo um compreensível e moderado anticlericalismo, como sublinha Coutinho.153 149 Idem, p. 281. 150 Idem, p. 178. 151 Idem, p. 141. 152 Jorge Coutinho, O Pensamento de Teixeira de Pascoaes, op. cit. p. 103. 153 Idem, p. 123. 57 A permanecer encerrado nos dogmas teológicos Deus só pode ser concebido como Deus morto. E nesta ordem de ideias o Ateoteísmo implica, “uma certa descrença em relação às crenças”, exigindo a ideia de um Deus dramático e vivo, e a necessidade de cada homem na sua busca racionalizar o sentimento. O nosso autor afirma, assim, o valor mitológico de Deus (idealização) e interpreta o mito, não como o fruto da incapacidade humana explicar o desconhecido, mas como um testemunho simbólico portador de uma verdade que necessita de ser valorizada dentro do contexto contemporâneo, passando “a sobrevivência de Deus por essa operação transmitificadora ou em busca da trans-significância do mítico - que é ao mesmo tempo uma busca do seu verdadeiro rosto e uma ação purificadora da ideia em que a tradição cultural primeiro o fez viver, para com o desgaste do tempo o fazer perecer. Isto permite dizer que Pascoaes vê na Grécia antiga a concretização do ideal estético e no Cristianismo o aperfeiçoamento moral, sendo passo seguinte na civilização humana a união desses momentos como futura religião que marca a recuperação da consciência do supranatural e da mitologia. Para Pascoaes cada época tem a sua razão de ser e igual importância: ”Os artistas possuindo o culto da existência, ambicionavam dignificá-la e embelezá-la conforme o protótipo idealizado. Se não temos ainda o homem, temos a sua estátua. Os artistas da Grécia realizaram o individuo eleito, deram-lhe uma forma, que sendo humana atinge a Divindade. Fidías esculpindo corpos, foi o precursor de Paulo o escultor de almas. Sim a Mitologia é que é o velho testamento“154. De facto, ao fenómeno religioso liga-se a evolução da Estética e da Ética, que se apresentam correlacionadas ao longo da História. O paganismo é a revolução estética e o cristianismo a revolução moral e da sua fusão nasce a futura religião: a que empresta o símbolo, ou seja, o “corpo de Fídias, com uma alma de Paulo”155. Convicto de que “a religião não será destruída mas excedida” vê no cristianismo um novo aspeto religioso que fez aparecer a lei moral, a crítica, a filosofia o socialismo e o ateoteísmo156. Neste contexto, sublinha o nosso autor, a igreja católica 154 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. pp. 307-308. 155 Idem, Ibidem. 156 Idem, pp. 186-187. 64 render a este último mais por influência da mãe, Santa Mónica, do que por vontade própria. Depois de rejeitar o Maniqueísmo adota o Catolicismo e a conceção de Deus absoluto e alheio ao mal da Criação. A partir desta ideia aprofunda Pascoaes a sua própria ideia de um Deus que está além da Criação e além do bem e do mal - mas, como Criador, é atividade e metamorfose de si próprio, permanecendo transcendente e imanente na sua obra. É assim que surge O Amorfo ou Nebulosa negra como energia psíquica neutral que ativando-se perde a neutralidade tornando-se benéfica ou maléfica. Processo semelhante, seguem as almas anteriores a si mesmas e ao bem e ao mal, surgidos depois de atualizadas em existentes e viventes na metamorfose universal. Refira-se que, por vezes, é difícil perceber se é Pascoaes quem “fala” apenas está a expor as teses Agostinianas como, por exemplo, quando diz: “a alma serve-se dum corpo, que ela escraviza; forma, com ele, o mesmo ser dependente e independente, mortal e imortal, pousando os pés na lama e os olhos para as estrelas”.180 Agostinho de Hipona crê que a alma vivifica o corpo e que na relação almacorpo o homem possui o livre-arbítrio, optando, pelo lado inferior que caracteriza como decaído na matéria, ou por ascender aos níveis espirituais. A queda não pode ser superada pela vontade mas pela Graça de Redenção. Cristo em Agostinho é o Mestre interno, presente em cada indivíduo e cuja voz interior não cessa de lembrar a condição espiritual.181 Pascoaes descreve Agostinho como um escritor-poeta, capaz de nos iludir e deslumbrar através das belas imagens literárias tais como esta frase agostiniana que ele cita no seu livro: “sem luz não há alegria. Sem alegria não há luz”, e a partir da qual elabora a sua própria convicção afirmando que a “luz de que nasce a alegria não é a mesma luz que nasce da alegria (...) Da alegria da luz e da tristeza da sombra é que é feita a nossa alma, essa borboleta com uma asa branca e outra escura. Se fossem ambas 180 Idem p. 33. 181 Santo Agostinho, Confissões, Tradução de Arnaldo do Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Sousa Pimentel, introdução de Manuel Barbosa da Costa Freitas, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2ª edição bilingue, Lisboa 2004, pp.297-299. 65 da mesma cor, a borboleta não voaria de flor em flor, ou de primavera em primavera...”.182 Não esqueçamos que o cosmos se concretiza no homem e que só o homem pode ser “um realizador de sonhos”. No percurso evolutivo começa por pairar a Sombra, ou seja, a tristeza saudosa (presenteausente) na ambígua e paradoxal constituição do ser divino e cósmico, transfigurando-se posteriormente em alegria ou luz que também identifica ao Bem - contrariamente a Santo Agostinho. Paulo Borges identifica nesta posição a reafirmação de uma tese completamente oposta ao platonismo - em que a sombra é uma cópia distorcida do mundo visível ou sensível e não a Divindade - pois trata-se da “Sombra a que se refere nos primeiros poemas como a névoa, e que é sobretudo a própria Divindade, quer na sua transcendência abissal, quer no seu ser gerador do mundo.” 183 Agostinho defende ser possível conciliar a liberdade inerente à Criação com a Presciência divina, dado que o poder da vontade é previsto por Deus: “A vontade quer fatalmente; mas a inteligência pode orientá-la, ou tem a faculdade de escolha, afirma Santo Agostinho, separando, dum modo absoluto, a inteligência da vontade, e emprestando àquela, os atributos do divino”184. O erro desta afirmação, segundo Pascoaes, está na ideia de Divindade que o “subtil Agostinho” apresenta, certamente consonante com o contexto medieval mas pouco adequada à contemporaneidade filosófica e científica do nosso autor: “A ideia de Deus depende do conhecimento do universo e de nós próprios, num dado instante da vida humana”185. Por isso, segundo este último, excetuando a questão da presciência, a liberdade é um assunto “complexo e discutido sempre. E quanto mais se discute mais se complica”186. O eu não é um ente essencial, uno, simples e terminante, mas a síntese das várias formas de pensamento criadas no cérebro humano, à mistura com os instintos 182 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. p. 125. 183 Paulo Borges, Princípio e Manifestação, op. cit. p. 90. 184 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. p. 153. 185 Idem, p. 152. 186 Idem, Ibidem. 66 ancestrais provenientes de um passado biológico. Daí as questões-afirmações de Pascoaes: “Não vamos todos a caminho do cinema ?”; “Quem não vê a Paixão através de Soror Mariana e o ciúme através de Otelo ?”187. Tal como a vida a liberdade também é relativa. E se o pensamento refletido (consciência crítica) supõe alguma liberdade, os pensamentos não refletidos (alma instintiva ou natural), pelo contrário, dominam, não permitindo atingir “nem a plena liberdade, nem a fatalidade completa.”188 Agostinho separa Vontade e Inteligência e coloca esta última como informadora daquela. Quanto ao nosso poeta, na dinâmica existencial, põe todos os aspetos numa inter - relação e co–implicação, sem exclusão ou anulação. A Vontade que se prende com o desejo adveniente do Princípio de excedência, condiciona a liberdade e o avanço no percurso evolutivo, onde há retrocesso ou o ficar no mesmo sítio qualitativo, num futuro igual ao passado, e regresso ou a ascensão à glória perdida, revelando a dimensão quixotesca da própria condição humana - como sublinha Pascoaes, repetidamente: “Todas as nossas faculdades participam umas das outras, derivam do mesmo tronco e formam uma síntese ideal, que é o nosso eu consciente...” ; “...nunca se alcança o que se deseja, fica-se sempre aquém”; “A nossa força impele-nos; mas a nossa fraqueza nos retém”; “Não somos nem livres, nem felizes, nem verdadeiros”; “Eis a reação da fraqueza e a ação da força, ou o princípio negativo e o afirmativo, o mesmo princípio cindido em duas tendências contraditórias. A ação, como a reação é ainda bastante imprevista e inconsciente”; “Procedemos, de olhos semifechados, como semibrutos, pois a inteligência e a estupidez coexistem e a saúde e a doença, e interferem a cada instante, atenuando-se mutuamente”189. De facto, como vimos, não há coincidência com a solução agostiniana quanto à conciliação da Vontade universal com a Presciência divina. Para o nosso autor, a existência é ambígua e paradoxal, afirmativa – negativa, falsa – verdadeira , presente – ausente, numa trama de atividades e fenómenos, uma natureza instável e tensional, fundada no próprio ser divino e cósmico estende-se ao mundo e ao ser humano. 187 Idem, pp. 152-153. 188 Idem, p. 155. 189 Idem, p. 157. 67 Nem o racionalismo maniqueísta, nem a certeza da crença na fé católica, percebem e admitem estas noções ou aceitam uma revisão das suas posições como seria desejável: “Temos de eliminar os conceitos escolásticos, as divisões fictícias, as definições arbitrárias, as linhas que separam isto daquilo e considerarmos a Existência no seu indefinido original para que ela se defina totalmente.”190. É imperioso seguir o processo recreativo que se observa nos fenómenos e reformular os preconceitos gerados da inércia mental no quotidiano humano, sempre em busca do mistério ou enigma. Demarcando-se da noção de Nada como pessimismo existencial em Agostinho, o nosso poeta faz equivaler ao Nada (ou Sombra) Deus em si - que paira como mistério a caminho de ser desvendado. Novamente nos parece aqui que as afirmações de Pascoaes se revestem, por vezes, de alguma ambiguidade - relativamente a outras feitas na mesma obra - quanto à ideia de Sombra negra (ou medo anterior a tudo) que agora faz corresponder à irracionalidade, quase livre, sendo que a “liberdade aumenta ou diminui conforme em nós predomina o poder emotivo ou consciente.”191 Como sabemos, a mais famosa esfinge da mitologia é celebrizada por Sófocles em Édipo Rei, ao ser derrotada pela sabedoria de Édipo face ao enigma humano. Pelo exposto, não é por acaso que para simbolizar este enigma Pascoaes vai escolher um figura mística, a esfinge egípcia - pondo na sua boca uma mensagem para os homens, no intuito de os levar à consciência da sua real (in)condição: “Interrogar-me eis o teu destino de criança, conhecer o espaço onde ocupas um metro, e o tempo a que roubas um minuto. Com esse metro medirás o incomensurável e com esse minuto o intemporal. Mísero falsificador da existência. O porquê? E o para quê? São perguntas sem resposta, felizmente, pois envolvem o planeta num mistério aureolante e inspirador do nosso espírito, esse rouxinol poético e mocho científico”. 192 190 Idem, p. 242. 191 Idem, p. 159. 192 Idem, p. 244. 68 69 Conclusão À frase, Creio porque é absurdo193, Pascoaes prefere: Creio porque é mentira. O sonho é realidade e a realidade é sonho intimamente, reafirmando-se uma na outra194. A Existência é a “eterna interrogação” que nos martiriza. Mas ela é apenas o reflexo fictício da Verdade ou de Deus-em-si. E o Universo ? Que é o Universo em última análise? O Universo, responde Pascoaes, não é senão o palco de um drama existencial marcado pelo paradoxo e ilusão, o absurdo, a Divina comédia, um ato lúdico Divino: “um absurdo ou fora do nosso entendimento (…) mas o absurdo torna-se calmo, se nos demorarmos a pensá-lo.” (…)195. “O absurdo torna-se calmo se...”, adverte Pascoaes. Afinal a mensagem é de esperança a relembrar que há sempre duas faces da mesma moeda mas é preciso saber lidar com elas. E ninguém melhor o sabe fazer do que o poeta – o poeta verdadeiro. É este um dos grandes ensinamentos de Pascoaes, num mundo que se apresenta sob três formas (física, biológica e psicológica) e onde qualquer ente (no mundo) denuncia o trânsito entre eles. Mas atenção, adverte o nosso autor, o Universo não é um mero arranjo mecânico de movimentos, em que os móveis se manifestam como resultantes da sua mobilidade própria. Nele intervém um Princípio Espiritual que, nos seres vivos, aparece dotado de maior ciência criadora: “Sim há um espírito transcendente e imanente, incriado e criador, uma lógica estrutural que sustenta o inanimado e o animado à tona do Sonho e vigília como duas faces da mesma moeda.”196 Por isso, a História - que simboliza a força inspiradora da humanidade - não está nos “factos em si” mas, sim, implícita na ideia de uma intenção não percetível ao homem comum. Isto significa que só o artista - sobretudo o poeta - lhe confere significação, ao desvelar-lhe a simbologia, ao mesmo tempo que reveste este drama 193 Esta frase é atribuída a Tertuliano. 194 Idem, p. 339. 195 Idem, pp. 336- 338. 196 Idem, ibidem. 70 íntimo à própria natureza das coisas. Ao encontro de Hegel197 - para quem a História é a encarnação do Espírito e os Heróis a personificação e concretização do seu plano – também o poeta do Marão afirma que “os heróis entram na história nos períodos genésicos da mesma; e fogem para a lenda, nos períodos normais ou infecundos.”198 Em jeito de “confissão”, Pascoaes reafirma-se ao longo das suas obras, mas particularmente em Santo Agostinho, a suma (auto) biográfica da sua maturidade, legítimo “herdeiro” do Homem universal, ou seja, do Homem Adamico, desse espírito criador humanizado na melhor qualidade – a qualidade de poeta: “em mim predominou sempre a mania de investigar a alma das coisas, ou essa aparição simbolizada nas aparências.”199 Ao revisitar os seus principais temas fá-lo de uma forma próxima do aforismo e pautada de imagens mitopoéticas e simbólicas, como vimos, porque a linguagem poética é a que melhor mostra que a Existência e o Homem são marcados pela “desassossego” da caminhada e não pela chegada: “Um homem em paz consigo ou com os outros, é um cadáver ambulante, muito feliz ou extasiado na sua inércia moral.”200 Para Pascoaes, os dogmas paralisantes exigem um combate à inércia mental e moral, de acordo com a ideia Socrática: Nosce te ipsum,201. Ou seja: o homem ao conhecer-se a si próprio abre caminho para o conhecimento do mundo que o rodeia, tornando-se a personalidade humana um “duelo entre o ser o não ser” e - neste movimento do não ser para o ser e vice-versa - é que “surpreendemos a aparição do homem e da própria Divindade”.202 A tese mostra, de facto, a importância do papel da subjetividade no conhecimento humano onde a inteligência tem como aliado a “lei moral”, defendendo 197 G. W. F. Hegel, Estética, traduzido por Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino, Introdução Pinharanda Gomes, Guimarães Editores, Lisboa 1993, pp. XVII-XVIII. 198 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op.cit. p.336. 199 Idem, p. 25. 200 Idem, p. 335. 201 Idem, p. 32. 202 Idem, p. 336. 71 Pascoaes uma nova perspetiva gnosiológica, capaz de unir a racionalidade científica à intuição. Nesta, o paradoxo, a ilusão, a incerteza são parte integrante da dimensão física, biológica e psicológica da natureza (humana ou animal). O “drama” faz parte da natureza íntima das coisas. O poeta é, por direito próprio, o melhor intérprete desse “drama” ou “paradoxo”. O homem encontra-se em transição entre dois níveis distintos, “o homem carnal, foco darwínico de instintos grosseiros e cruéis, sem consciência e um eu incapaz de reinterpretar o mundo, o Homem com letra grande, ou o espírito criador humanizado”.203 Cúmplice e centro de produção através do pensamento tem em si o poder de edificar ou destruir a vida planetária. As civilizações denotam esta progressiva intelectualização, sendo a Filosofia, “ a primeira e última palavra da Ciência, que de instintiva e genial, nos áureos tempos, tornou-se racionalista e inteligente. Outrora a Ciência dependia dela, agora é ela que depende da ciência verificadora de como se produzem os fenómenos. E destes, como demonstrado cientificamente, a Filosofia deduz ou tenta deduzir o porquê e para quê, tratando construir logicamente e firmada nos dados da experiência, o seu edifício moral social e religioso”204. Próprio da alma humana, “que é o imaterial inicial a intelectualizar-se a fim de se apropriar de si e do alheio , submetendo tudo a um exame crítico, ou seja, científico-filosófico”205, o conhecimento humano é relativo, impreciso e em mutação. Por isso, Pascoaes defende a importância de termos uma atitude de “vigilância” face ao pensamento e às ideias, situando aí o verdadeiro impulso de busca e progresso. Por tudo isto, também a teologia de Pascoaes se vai fazer numa chamada de atenção para a “necessidade de sonho”.206 . É sobre este pressuposto que elabora o seu original Ateoteísmo, e que se pode resumir nas palavras seguintes: “Que é Deus no espírito de um crente absoluto? Deus depende da luta entre os que o negam e os que o 203 Idem, p. 346. 204 Idem, p. 178. 205 Idem ibidem. 206 Sant` Anna Dionísio, O Poeta essa Ave Metafísica. In: Seara Nova, Lisboa, 1953, p. 98. 72 afirmam. Desta luta é que ele surge, afirmado e negado, dramático e vivo, como aparecido sobre a terra.” 207 A metáfora da Divindade primordial personificada num Deus a-teu (que rejeita a sua condição Absoluta) representa o momento a partir do qual se gera a forma de vida universal. Neste processo de auto reconhecimento e recriação é o ato Divino e transgressor que permanece no múltiplo gerador de si próprio, adquirindo maior expressão no homem, ou seja, o ente que “imita” Deus - o “ateu perfeito”. É neste movimento Divino ateoteísta, fundador de teísmos e ateísmos208 que Pascoaes radica as especulações posteriores acerca da Existência, como vimos em Santo Agostinho: “Nem demonstramos o sim, nem o não da sua existência. Chegamos à negação afirmativa ou à afirmação negativa. A negação participa da afirmação e vice-versa, viver e morrer ser e não ser, crer e descrer representam o mesmo verbo duplamente ativo e contraditório e dum alcance universal. É o verbo dos ateoteístas descremos cremos (…)”. 209 Em Teixeira de Pascoaes, a Saudade universal é a expressão máxima da memória criadora e unificadora, ou seja, a “teoria-síntese” na qual se edificam todas as outras grandes linhas teóricas com que tece o seu pensamento. Como vimos neste livro (Santo Agostinho) em particular, ela prende-se com a inacessibilidade do Divino à perceção humana que procurando vê-o esconder-se e ao tocar a sua presença sente a sua ausência. Daí o uso da expressão “divina comédia da saudade”210 deixando antever a ideia de Jogo divino, cujo efeito se faz sentir como estímulo evolutivo, tornando-se o ateu/teísta neste processo aquele que toma em si o papel (ativo) de suscitar a renovadora discussão na busca daquilo que apenas se entremostra. O Ateoteísmo de Pascoaes é sobretudo o visionar de um futuro religioso, em que a ideia de Divino se apresenta mais fiel á dialética existencial tal como a interpreta. Segundo ele, o devir existencial oscila pendularmente entre um Princípio e um Fim, impulsionado por três princípios basilares (excedência, identidade contraditória, 207 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. pp. 311-312. 208 Esta é uma das muitas expressões que Paulo Borges usa para se referir a este momento e que adotamos por a considerarmos uma das mais eficazes. Veja-se, Paulo Borges, Princípio e Manifestação, op. cit. p.68. 209 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op.cit. p. 304. 210 Idem, p. 197; veja-se igualmente: pp. 311-312. 73 identidade incerta). Eles constituem a progressiva metamorfose cósmica, sujeitando a Existência a uma indefinição criadora, num percurso desde um imponderável inicial ou subnatural até um sobrenatural final ou espiritual. Tal indefinição exige, para o poeta de São João Gatão, uma nova perspetiva gnosiológica, capaz de unir a racionalidade científica à intuição, como referimos anteriormente e voltamos aqui a sublinhar pela sua importância, para uma compreensão omni-abarcante dos fenómenos, na medida em que mais do que um sim ou um não definitivos, o que há é uma negação afirmativa ou afirmação negativa acerca dos factos. Em termos éticos, isto implica um efeito de tolerância, adveniente da compreensão e visão unitária dos fenómenos, uma vez que os contrários não se excluem ou se anulam, mas interagem, resultando num termo intermédio, como mal benéfico e bem maléfico. No campo religioso, o ateísmo e teísmo humanos refletem esta dinâmica numa dialética co-implicação do crer e do descrer. O ateoteísmo pressupõe, “o mesmo verbo duplamente ativo e contraditório”.211 Este é também o fundamento do seu sentido neoreligioso na vertente histórica – cultural, e que aponta a necessidade de uma renovação dos conceitos que sem destruir o passado o reinterprete à luz de novas informações. Deste pressuposto - e em diálogo com os postulados agostinianos - vai surgir uma heterodoxa interpretação do Cristianismo em duas direções convergentes: uma como momento singular dentro da evolução cósmica; outra, no acompanhamento da sua evolução históricocultural dentro das sociedades humanas. A primeira representa a metáfora inicial e refere o Cristianismo como o momento em que a Divindade toma consciência da sua obra. A segunda é a descrição deste facto antropomorfizado e reduzido aos limites conceptuais humanos ao longo da História.212 Pascoaes não nega o Divino, antes o edifica numa profusão de imagens e símbolos que visam sobretudo a procura da nova palavra capaz de rasgar o silêncio do desconhecido, vinculando o homem a uma constante necessidade de o repensar, posição essa de que, segundo ele, abdicou o bispo de Hipona ao se converter ao catolicismo. 211 Idem, p. 304. 212 Idem p. 283. 80 Farias, José Jacinto Ferreira, A Ascensão Poética e a Unidade com o Divino. Um Ensaio Teológico sobre a Saudade em Teixeira de Pascoaes, in Nova Renascença, inverno /verão de 1997, volume XVII, Fundação Engenheiro António de Almeida, Porto, 1997, pp. 293 – 304. Ferreira, João, O Lado Gnosiológico da Catábase Saudosista em Teixeira de Pascoaes, in Nova Renascença, inverno/verão de 1997, volume XVII, Fundação Engenheiro António de Almeida, Porto, 1997, pp. 617- 626. 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