Os Jogos Olímpicos da Era Moderna sob o olhar do desenvolvimento sustentável. Análise centrada nas dimensões social, ambiental e económica.
Full text
2
p.255:
“agora aband onada por que era mal localiz ada e muito cara para oper ar ”
1
ERRATA
p.26:
“o movim ento ambient alista dos anos 70, seja pela partici pação ac tiv a ...”
p .42 :
“ Para Saver y e Gilber t, susten tabili dade .. .”
p.46:
“O s autor es aind a refer e m ...”
p.115 e p.137 :
O esquem a estipulado d urante a f ase de elaboraçã o da proposta me todológica,
apresentava 1 0 Etapas de Pr ocedim ento. No entanto esta acabo u por s er
alterad a, tendo - se para tal r etirado a etapa d e Dis cussão G eral e a Etapa 9 passou
a ser d as Consid erações Finais , onde a Discu ssão Geral estav a incluíd a (v er fig ura
segui nte). Tal alter ação é fr uto da nec essidad e de uma tes e menos dens a, p oi s em
virtu de da ex tensão d o 4º período (acabou p or ser mais longo do que o previsto
inicialmente) e de f orm a a sintetizar a discussão final, optou - se pela
conver gência d a Discussão Ger al com as Consider ações Finais.
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Os Jogos Olímpicos da Era Moderna sob o olhar do
desenvolvimento sustent ável
Análise centra da nas di mensões s ocial, ambienta l e eco nómica
Carla Isabel Paula Rocha Araujo
Dissertação apresentada com vista à obtenção do grau de
Doutor em Ciências do Desporto no âmbito do Programa
Doutoral em Ciências do Desporto, organizado pelo
Centro de Investigação, Formação, Inovação e
Intervenção em Desporto (CIFI2D), da Faculdade de
Desporto da Universidade do Porto, nos termos do
Decreto- Lei nº 74/2006 de 24 d e Março.
Orientador: Prof. Doutor Rui Manuel Proença de Campos Garcia
Co -orientador: Prof. Doutor Lamartine DaCosta
Porto, 2016
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Rocha Araujo, C. (2015). Os Jogos Olímpicos da Era Moderna sob o olhar do
desenvolvimento sustentável: Análise centrada nas dimensões social,
ambiental, económica. Porto: Carla. Rocha Araujo. Dissertação de
Doutoramento em Ciências do Desporto apresentada à Faculdade de Desporto
da Universidade do Porto.
Palavras-chave: JOGOS OLÍMPICOS, DESENVOLVIMENTO SU STENTÁVEL,
SUSTENTABILIDADE, AMBIENTE, GESTÃO DO DESPORTO.
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iii !
Dedicatór ia
Aos meus filhos, Lúcia Margarida, André Tiago
e Diogo Henrique pelo amor incondicional e à
amiga que deixou saudades, Rosane.
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v!
Agradeci mentos
Esta dissertação tem um peso pessoal e profissional inigualável, apenas
os que deixaram tudo e todos para correrem atrás de ‘um sonho’ sabem dar
valor. Esta trajetória só foi possível graças ao apoio e incentivo de pessoas
queridas e amigas. Deste modo, fica exposto neste docu mento o meu
agradecimento aos que diretamente ou indiretamente fizeram parte desta
trajetória.
“A transcendência principalmente se dá no encontro com as pessoas. Às
vezes, acontece: você está numa crise existencial, sem rumo, e encontra
alguém que tem palavras seminais, que lhe acende uma luz, que coloca a mão
no seu ombro, que lhe aponta um caminho. Não com o mestre, que diz: “Vá por
aí”, mas despertando o mestre escondido em você e ajudando-o a definir um
caminho de sentido. Você tem então uma experiência de transcendência, de
ruptura do seu círculo fechado, de apoio existencial libertador. Surge então o
sentimento de veneraçã o por essa pessoa que se transforma, por um
momento, em um mestre, capaz de despertar o seu herói interior adormecido”
(Boff, 2000, p. 17). Obrigada Professores Rui Garcia e Lamartine DaCosta pelo
‘despertar’.
Gostaria de homenagear um grande professor que partiu sem que lhe
pudesse agradecer devidamente. Em 2008 durante sua passagem pelo Rio de
Janeiro, Paulo Cunha e Silva teve a coragem de ‘jogar no penhasco’ tudo que
me impedia de encarar novos desafios. Hoje estou aqui graças ao seu desafio.
À professora Maria José Carvalho, pelos infindáveis e preciosos
conselhos, um exem plo que nos motiva a enfrentar obstáculos, mesmo quando
as forças faltam. Sem ela a esperança ter-se-ia esvanecido.
Ao Professor Manuel Graça da Faculdade de Economia um
agradecimento especial pela colaboração no projeto de pesquisa e pela
disponibilidade.
Aos professores da FADEUP que fizeram parte do meu passado e do
presente, Pedro Sarmento, Jorge Olímpio Bento, António Fonseca, Rui Faria,
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vi !
Isabel Mesquita, Ramiro Rolim, Rui Corredeira e Teresa Lacerda, sem grau de
importância.
Aos colegas e funcionários da FADEUP de longa data, e com quem tenho
vínculos de amizade desde os tempos de ISEF, André Seabra, Filipa Sousa,
Joana Carvalho, Susana Soares, Ricardo Fernandes, Filipe Conceição, J osé
Magalhães, Ana Luísa Pereira, Sr. Rui Biscaia, Sr. Marinho.
Aos alunos do PD-CD e amigos André Conceição, Helena Bento, Teresa
Marinho, ‘Guto’, Carneirinho, Marcelo, Edson, Mariana Carvalho e Jailton, pelo
apoio e incentivo na concretização deste projeto.
Às amizades nascidas na FADEUP Filipe Albernaz, Christian Costa, Ana
Luiza Vieira, Vilde Menezes e Ceça, Flávia Bastos, Cláudio Boshi, Carlos
Mulatinho, Thiago Santos, Tharcisio Anchieta, Thiago Seixas, Paulo Cabral,
Paulo Azevêdo, Marisete Safons e José Reinaldo, que fizeram parte deste
percurso reduzindo as dificuldades e aumentando a esperança.
Aos colegas de doutorado no Brasil Rômulo Reis, Geraldo Campestrini,
Valéria Bitencourt, Leandro Mazzei e Cristiano Belém.
Aos funcionários dos serviços de secretaria, biblioteca, reprografia e
informática da FADEUP, pela prontidão e apoio que sempre demonstraram
quando solicitados.
À minha ‘irmã’ Daiane Freitas que desde 2008 me vem apoiando e
amparando. Sem sua presença e de Israel, teria sido difícil superar o tempo em
Portugal e no Brasil cuidando de três filhos, trabalhando e estudando.
Por fim, e também importantes, agradeço à minha família pelo apoio,
força e orações, em especial aos que nunca deixaram de acreditar.
Meu agradecimento especial pela compreensão para com a minha
situação familiar e pessoal, principalmente na fase final do programa doutoral.
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vii
Índice Geral
Índice de figuras ............................................................................................. xi !
Resumo ......................................................................................................... xiii !
Abstract ......................................................................................................... xv !
Lista de Abreviaturas ................................................................................... xvii !
Introdução ....................................................................................................... 1 !
1 ! Quadro Teórico ......................................................................................... 21 !
1.1 ! Constructo da Teoria de Desenvolvimento Sustentável ............. 23 !
Karl Polanyi e Karl William Kapp .................................................. 24 !
Clube de Roma e Limites do Crescimento ................................... 27 !
Tratado de Brundtland e as Conferências das Nações Unidas ... 30 !
Pegada Ecológica ................................................................ ........ 35 !
Ambiente, Sustentabilidade e Desenvolvimento Sustentável ...... 37 !
Ambiente ............................................................................. 37 !
Sustentabilidade .................................................................. 40 !
Desenvolvimento Sustentável ............................................. 43 !
1.2 ! O Movimento Olímpico ............................................................... 62 !
O Nascimento da Família Olímpica ............................................. 62 !
O Papel do Comité Olímpico Internacional (COI) ........................ 66 !
O Papel dos Comités Olímpicos Nacionais (CONs) .................... 68 !
A Noção de Olimpismo e Olimpíada ............................................ 70 !
Os Jogos Olímpicos e suas variantes .......................................... 72 !
Os Parceiros Olímpicos ............................................................... 74 !
O Papel e Importância dos Congressos e Sessões Olímpicas .... 75 !
O Processo de Candidatura Olímpica (BID) ................................ 77 !
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xiv
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No 3º período parece evidente que as questões sociais (estando nelas
inseridas os quesitos políticos e culturais) e económicas imperavam; era uma
época de grande crescimento económico mas também de disputas político-
ideológicas entre dois blocos (comunista versus capitalista) que utilizaram os
JO como instrumento para se propagarem mundialmente, embora o foco fosse
levar o Olimpismo a ‘todo o mundo’, a verdade é que os diversos boicotes e o
atentado terrorista deixaram marcas negativas e mancharam o seu papel
social; já ao nível da dimensão ambiental, esta ainda não fazia parte da lista de
prioridades, apesar de algumas preocupações ambientais encontradas nos JO
de Sapporo (1972), Lake Placid (1980) e Seul (1988).
No 4º período, graças à UNCED e aos impactos ambientais negativos
durante os JO de Albertville (1992), as preocupações ambientais passaram a
ser cada vez m aiores (em especial nos Jogos de inverno), chegando inclusive
a se descurar o grande papel social dos JO. Este é então resgatado nos JO de
Vancouver 2010 e de Londres 2012. Mas a questão económica continua a ser
prioritária neste último período, mas de forma menos positiva pelos gigantismo
dos Jogos Pequim 2008 e Sochi 2014.
Em conclusão, parece-nos que os aspectos sociais semp re foram uma
forte preocupação dentro do COI, mas estes têm vindo a perder força ao longo
do tempo. Além disso o ambiente tem-se tornado uma preocupação económica
importante, em todos os lugares e em especial para as cidades. Desta forma
surge a AGENDA 2020, que coloca o DS no centro das decisões Olímpicas,
em especial no que concerne aos JO.
PALAVRAS-CHAVE : JOGOS OLÍMPICOS, DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL, SUSTENTABILIDADE, AMBIENTE, GESTÃO DO
DESPORTO.
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xv
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Abstrac t
This work aim s to understand how the Olympic Movement, in particular
the Olympic Games (O.G.), have been incorporating the concept of Sustainable
Development (SD) defined in the Triple Bottom Line over the 120 years of the
OG of the modern era. We opted for the division into four chron ological steps.
These are predefined based on relevant historical events correlated with the
size of the DS. The first period focuses on the analysis of the First Steps of
Olympism from the foundatio n of the International Olympic Committee (IOC)
(1894) un til the end of World War II (WWII). The second period begins post
World War II (1946) and runs until the year before the Olympic Games in
Mexico. The third examin es the expansion of Olym pism since the Mexico OG in
1968 until the year before the UN World Conference on Environment and
Development. The last period dissects on Globalization of Olympism since the
Rio -92 Conference and by the end of 2014.
This research turned to documentary analysis (official and unofficial) and
systematic review of the literature, based on pre-defined keywords and
intensive analysis and critique of the data. We can tell that in the 1 st period there
were quite sharp social concerns, little environmental prevention (nature was
seen as a means of exploitation) and society lived a time of unparalleled
economic growth (catapulted by the industrial revolution.
The 2 nd period is characterized by a focus on social and economic
dimensions, and environmental issues were relegated to the background,
ignored or included in urban revitalization; thus social issues were highlighted
by spreading the Olympic spirit, promoting peace, the struggle for greater
female participation and the increase of the Olympic family; the OG were
supported by public and private economic funds and used as a catalyst for
urban revitalization and promotion of international cities.
In the 3 rd period it seems clear that social (which included political and
cultural questions) and economic issues prevailed; was a time of great
economic growth but also political and ideological disputes between two blocks
(communist versus capitalist) who used the Olympic Games as a tool to
propagate worldwide, although the focus was to bring Olympism to 'the world',
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xvi
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the truth is that the various boycotts and terrorist attacks have left negative
ma rks and tarn ished its social role; already at the level of the environmental
dimension, it is still not part of the list of priori ties, despite some environmental
concerns found in OG Sapporo (1972), Lake Placid (1980) and Seoul (1988).
In the 4 th period, thanks to the UNCED and the negative environmental
impacts during the OG in Albertville (1992), environmental concerns have
become increasingly larger (especially in the winter games), almost neglecting
the great social role of OG, brought back in the OG Vancouver 2010 and
London 2012. But the economic issue remains a priority in this last period, but
less positively by the gigantism of the Beijing 2008 Games and Sochi 2014.
In conclusion, it seems that the social aspects have alway s been a strong
concern within the IOC, but they have been losing strength over time.
Furthermore the environment has become an important economic concern,
everywhere and especiall y to the cities. Thus arises the AGENDA 2020 that
puts the DS at the center of Olympic decisions, especially with regard to OG.
KEY WORDS: OLYMPIC GAMES, SUSTAINABLE DEVELOPMENT,
SUSTAINABILITY, ENVIRONMENT, SPORT MANAGEMENT.
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Lista de Abreviaturas
ACOG – Atlanta Committee for the Olympic Games
AISTS - International Academy of Sports Science and Technology
ANOC - Association of National Olympic Committees
APO - Autoridade Pública Olímpica
ATHOC – Athens Organising Committee
BAME – Women, Black, Asian and Minority Ethnic
BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento
BioRegional - Organização Internacional que promov e a ideia de One Planet
Living fundada em 1994 por Sue Riddlestone e Pooran Desai
BMBS – Beijing Municipal Bureau of Statistics
BOA – British Olympic Association
BOBICO - Beijing Olympic Games Bidding Commi ttee
BOCOG – Beijing Organising Committee for the Olympic Games
BRICS – Brazil, Russia, India, China, South Africa
BRT – Bus Rapid Transit
CAR - Centro Desportivo para a Alta Performance
CBS - Canadian Broadcasting Corporation
CDM - Clean Development Mechanism
CDS - Comissão sobre o Desenvolvimento Sustentável
CEF – Caixa Económica Federal
CERS - Certificated Emission Reductions
Cimeira da Terra - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento
CMAD – Comissão Mundial para o Ambiente e Desenvolvimento
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xviii
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CMDS – Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável
CMDS - UN - Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Social das Nações
Unidas
CMMAD – Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
CNUDS - Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento
Sustentável
CNUMAD – Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento
COB – Comitê Olímpico Brasileiro
COD – Chemical Oxygen Demand
COEU - Comité Olímpico dos Estados Unidos
COEU - Comité Olímpico dos Estados Un idos
COI - Comité Olímpico Internacional
COJO - Comité Organizador dos Jogos Olímpicos
COJOS – Comité Organizador para os Jogos Olímpicos de Sidney
Comissão para o Esporte e Ambiente = Comissão para o Desporto e Meio
Ambiente
CON – Comité Olímpico Nacional
COOB - Comité Organizador Olimpíadas Barcelona 92
COP - Conference of the Parties
CO - RIO - Comitê Organizador dos Jogos Pan-americanos Rio 2007
CP - Conferência das Partes
CQNUMC - Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças
Climáticas
CRE - Certificados de Redução de Emissões
CSD – (United Nations) Commission on Sustainable Development
!
xix
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CSD - Commission for Sustainable Development
CSSA - Supreme Council for Sport in Africa
Cúpula da Terra - Conferência das Nações Unidas para o Meio Am biente e
Desenvolvimento
DMNU – Declaração do Milénio das Nações Unidas
DQO - Demanda Química de Oxigênio
DS – Desenvolvimento Sustentável
EBU – European Broadcasting Union
ECO 92 - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento
ECO Rio - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento
EIA – Environmental Impact Assessement
EIJO – Estudo de Impacto dos Jogos Olímpicos
EPB - Environmental Protection Bureau
EPO – Erythropoietin
ETA - Euskadi Ta Askatasuna (Grupo terrorista espanhol)
EU – European Union
FACIM - Foundation for Cultural Activity in the Mountains
FADEUP – Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
FCDEF – Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física
FFDF - Federação Francesa de Desporto Feminino
FIAA – Federação Internacional de Atletismo
FIs – Federações Internacionais
FJDF – Federação Internacional Desportiva Feminina
FN – Federações Nacionais
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xx
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GCJO - Gestão do Conhecimento dos Jogos Olímpicos
GDP – Gross Domestic Product
GHG - Greenhouse Gases
GNP – Gross National Product
I GM – Primeira Guerra Mundial
IBC - International Broadcasting Center
ICAAS - International Campaign Against Apartheid in Sport
IF’s – International Federations
II GM – Segunda Guerra Mundial
IOA – International Olympic Academy
IOB – Instituto Olímpico Brasileiro
IOC – International Olympic Comittee
IONCSA - Interim National Olympic Committee of South Africa
JO – Jogos Olímpicos
JO 2016 – Jogos Olímpicos de 2016
JOI – Jogos Olímpicos de Inverno
JOJ – Jogos Olímpicos da Juventude
JOJI - Jogos Olímpicos da Juventude de Inverno
JOJV - Jogos Olímpicos da Juventude de verão
JOV – Jogos Olímpicos de Verão
JP – Jogos Paraolímpicos
JPI - Jogos Paraolímpicos de Inverno
JPV – Jogos Paraolímpicos de Verão
LA 84 - LA84 Foundation
LAOOC – Los Angeles’ Olympic Organising Committee
!
xxi
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LOCOG – London Organising Committee for the Olympic Games
London 2012 - Comissão Organizadora da Candidatura de Londres aos Jogos
Olímpicos de 2012
LOOC – Lillehammer Olympic Organising Committee
LPOOC – Lake Placid Olympic Organising Committee
MDGs 2000 – Millennium Development Goals
MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
MIT – Massachusetts Institute of Tecnology
MO - Movimento Olímpico
NBA - National Basketball Association
NF – National Federations
NGO – Non Governmental Organization
NOC’s – National Olympic Committees
NOCSA - National Olympic Committee of South Africa
NU – Nações Unidas
OAB – Athens Olympic Broadcast ing
OCA – Olympic Coordination Authority
OCO’88 – Calgary Olympic Winter Games Organising Committee
OCOG - Organising Committees for the Olympic Games
ODA – Olympic Delivery Authority
ODEAP – Organização Desportiva Pan-Americana
OG – Olympic Games
OGGI – Olympic Games Global Impact
OGI – Olympic Games (Global) Impact (Study)
OGKM - Olympic Games Knowledge Management
!
xxii
!
OGKS – Olympic Games Knowledge Services
OM – Olympic Movement
ONG’S – Organizações Não Governamentais
ONU – Organização das Nações Unidas
OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo
OSCs – Olympic Studies Centres
OSID – Olympic Studies International Directory
PAN - Jogos Pan-Americanos
Pan 2007 – Jogos Pan-Americanos de 2007
PANU - Programa Ambiental das Nações Unidas
PGS - Plano de Gestão de Sustentabilidade
PIB – Produto Interno Bruto
PNB – Produto Nacional Bruto
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
RDA - República Democrática Alemã
RDA – República Democrática Alemã
RDA – República Democrática Alemã
Rio 2016 – XXXI Jogos Olímpicos de Verão do Rio de Janeiro 2016
Rio 92 - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento
Rio+10 – Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável
Rio +20 - Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento
Sustentável
Rio+5 – 19ª Conferência das Nações Unidas
RIOCOG – Comité Organizador dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro
!
xxiii
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SANROC - South Africa Non-Racial Olympic Committee
SARS - Severe Acute Respiratory Syndrome (Gripe Asiática)
SD – Sustainable Development
SGSC - Sistema de Gestão de Sustentabilidade e de Comunicação
SLOC - Salt Lake Organizing Committee
SLOOC - Seoul Olympic Organising Committee
SMP - Sustainability Management Plan
SMRS - Sustainability Management and Reporting System
SOCOG – Sydney Organising Committee for the Olympic Games
SOG – Summer Olympic Games
SSET - Sustainable Sport and Event Toolkit (atualmente denominado de
Corporate Social Responsability & Sustainability)
SYOG – Summer Youth Olympic Games
TBL – Triple Bottom Line
TCJO - Transferência de Conhecimento dos Jogos Olímpicos
UE – União Europeia
UN – United Nations
UNCED – United Nations Conference on Environment and Development
UNCSD - United Nations Conference on Sustainable Development
UNEP – United Nations Environmental Programme
UNFCCC - United Nations Framework Conventions on Climate Change
USA – Estados Unidos da América
USOC – United States Olympic Committee
USOC – United States Olympic Committee
VO – Vila Olímpica
!
6 !
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deslocamentos dos mais pobres para comunidades mais remotas (Ohmann et
al., 2006) e isso não é po sitivo. Seixas e Lopes referem que “se houver
aumento demasiado do custo de vida, o impacto já deixará de ser positivo e
passa a ser uma ameaça para a população, diminuindo inclusive o apoio da
mesma para a realização do evento” (2012, p. 12) . Já Reppold Filho reforça
esta linha de pensamento quando refere que “as comunidades carentes e com
menos capacidade de organização política são as parcelas da população
urbana que mais têm perdido com os megaeventos esportivos” (2008, p. 175).
Essex e Chalkley alertam para o facto de “embora a organização dos
Jogos Olímpicos possam prom over legados positivos, como o crescimento
económico, o aumento de turistas, novas estruturas de transporte e culturais,
melhoramento ambiental e promover o prestígio global, o impacto pode
também ser menos benéfico, como por exemplo o desperdício de
investimentos e a criação de grandes dívidas. Outros problemas podem incluir
a inflação dos preços e gentrificação habitacional, assim como acentuar a
exclusão e a desvantagem social e atrair publicidade adversa” 5 (2004a, p. 212).
Para o COI há como “traçar o desenvolvimento do pensamento e ações
ambientais e sustentáveis em todo o MO (capítulo 4)” 6 (International Olympic
Committee, 2012d, p. 35). Para tal refere que “há muitos exemplos do legado
positivo fornecido pelo Jogos em termos de desenvolvimento sócio-económico,
am biental e físico. Muitos são tangíveis; no entanto, exi stem benefícios menos
quantificáveis. O ex-prefeito de Barcelona Jordi Hereu resumiu tudo, dizendo:
5 Traduzido do Inglês: “How ever, while the lega cies o f stag ing the Olym pic G ame s ca n b e
positiv e, such as economic growth, increased touris t flows, new transport and cultural facil ities,
environmental i mprovements and enhanced global prest ige, the i mpacts can also be less
beneficial , for example wasteful investments and the establi shment of major debts. Other
problems can include price inflation and housing gentrif ication, thereby accentuating social
disadvantage and exclusion, and attr acting adver se publici ty”
6 Traduzido do Ingl ês: “In tracing the d evelopm ent of en vironme ntal and s ustainability think ing
and action across the OM (Chapter 4)”
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7 !
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'Havia algo intangível que era o orgulho para o povo de Barcelona'" 7
(International Olympic Committee, 2012d, p. 35).
É importante planejar bem o antes, durante e após os JO, pois “quanto
mais puder ser mantido da etapa anterior, puder ser sustentado, maior o
legado . Se nenhuma melhoria é retida, não há potencialmente um legado. Mas
se são mantidos, sustentados [referindo-se a norm as e políticas], há então um
grande legado” 8 (Balderstone, 2001, p. 5).
O conceito de legado dentro do MO é novo, sendo que a “primeira vez
que a palavra legado pode ser encontrada em documentos de candidatura
Olímpica, remonta à data da candidatura de Melbourne, em 1956” 9 (Leopkey,
2009, p. 7). No entanto foi com os JOV de Atlanta em 1996 que esta ganhou
notoriedade (Leopkey, 2009, p. 15), pois os organizadores (privados) sentiram-
se compelidos a deixar algo à cidade (Chappele t, 2008, p. 1885) . Sendo que já
nessa altura a noção de legado ia além do bem material e abraçava o
conhecimento científico adquirido pela comunidade académica local
(Chappelet, 2008, p. 1885). Em Sidney o conceito de legado foi adoptado de
forma natural pela Comissão Organizadora, já Atenas apresentou o seu projeto
sob a denominação ‘Um Legado Para o Olimpismo’ 10 , em 2001 a C omissão de
Avaliação do COI afirmou que: “É convicção da Comissão que os Jogos de
Pequim deixarão um legado único para a China e a para o desporto” 11
7 Traduzido do Inglê s: “ th ere a re m any e xamp les of the po sitive le gacy provide d by th e Games
in te rms of s ocio - econom ic, environmental and physical development. M any are tangible;
however there are less quantifiable benefits. Barcelona’s former Mayor Jordi Hereu summ ed it
up, saying: 'There was also something intangible which was the pride given to the people of
Barcel ona'”
8 Traduzido do Inglê s: “the more of that lap that c an be k ept, can be sustained , the gre ater the
legac y. If n one o f the improve men ts is r etaine d, ther e is, p otentia lly, no legac y [talk ing ab out
standards and polici es]. I f they are all kept, s ustaine d, there is a m ajor lega cy”
9 Traduzido do Inglês: “ The first t ime the word legacy can be foun d in bid documents dat es back
to the Melbourne 1956 candi dature”
10 Traduzido do Ingl ês: “A Lega cy For O lympism ”
11 Traduzido do Inglês : “It is the Com miss ion's belief that a Beijing Gam es wou ld lea ve a unique
legac y to C hina a nd to s port”
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8 !
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(Chappelet, 2008, p. 1885) e Vancouver abraçou o slogan ‘Legado Já’ 12 , no
sentido de “marcar e encorajar a entrega de benefícios comunitários
duradouros em cada fase do projeto Olímpico, e não apenas quando os Jogos
terminassem” 13 (MacAloon, 2008, p. 2065) .
É importante referir que existem contradições relativam ente aos
conceitos Legado , Impacto e Património/Herança (português), sendo que a
língua inglesa utiliza Legacy , Impacts e Heritage e o francês Impacts e
Héritage . Segundo MacAloon a palavra francesa héritage e a inglesa legacy
podem ser semanticamente equivalentes, mas o legacy em inglês é algo que
“vem do passado para o presente assim como o presente pode deixar um
legacy para o futuro” 14 (2008, p. 2067), já em francês “o passa do oferece um
héritage ao presente, o qual por sua vez deixa um héritage ao futuro” 15 (2008,
p. 2067) . O que pode parecer semelhante, no entanto “o termo francês é mais
abrangente e mais ponderado em contextos mais em direção do capital
acumulado do passado chegando ao presente, enquanto o termo inglês é mais
restrito especificado – por exemplo, através de suas referências legais – e
inclinado para a contribuição do presente para o futuro” 16 (2008, p. 2067) .
MacAloon define legacy (legado) como algo simples e deixado para trás (2002,
p. 271) , enquanto que heritage (património/herança) dos Jogos consiste nos
aspectos (sejam eles económicos, sociais, culturais ou simbólicos) que s e
mantêm positivamente muito após os JO e por conseguinte contribuem para o
capital Olímpico que é adquirido (2002, p. 271). Para o autor o DS faz parte
12 Traduzido do Ingl ês: “Legac y Now”
13 Traduzido do Inglês: “meant to mark a nd encou rage the delive ry of la sting comm unity ben efits
at each s tage o f an Olym pic p roject, n ot just w hen the gam es are conc luded”
14 Traduzido do Ingl ês: “comin g from the past to the pre sent as w ell as of the pres ent leaving a
legac y for th e futur e”
15 Traduzido do Inglês: “the past offers its h éritage to the prese nt, wh ich in turn lea ves an
héritage for the future”
16 Traduzido do Ingl ês: “the French term is more encom pass ing and mo re weighted in m ore
contexts toward the accumu lated capital of the past arriving in the present, w hile the English
term is m ore narro wly sp ecified – e.g. through its legal referent s – and til ted towards the
present’s contribut ion to the futur e”
!
9 !
!
deste capital de héritage que passa de Olimpíada para Olimpíada (2002, p.
271) .
No entanto, para o Comité Olímpico Internacional os “termos 'legado' 17 e
'impacto' 18 são usados, muitas vezes alternadamente, por aqueles que hoje
estão estudando este assunto e seu link para com os Jogos Olímpicos” 19
(International Olym pic Committe, 2014, p. 4), segundo os mesmos “o termo
'impacto' é comummente usado para d escrever os efeitos de uma política,
programa ou projeto sobre os ecossistemas, a sociedade em geral e/ou no
sistema económico. 'Impactos' são mais frequentemente considerados como
implicando um efeito adverso ou um resultado prejudicial ou destrutivo” 20
(International Olympic Committe, 2014, p. 4) enquanto que o “termo 'legado'
mais frequentemente é usado quando apresentar efeitos positivos. 'Legado'
também tende a ser usado e m associação com esses efeitos que são de maior
duração” (International Olympic Committe, 2014, p. 4). Porém “desde os
primeiros Jogos modernos em 1896 até aos arquivos de candidatura das
Olimpíadas de Verão de 2016 a noção de legados dos Jogos Olímpicos tornou-
se cada vez mais complexos” 21 (Leopkey, 2009, p. 21).
O Comité Olímpico ainda apresenta uma proposta de análise dos
legados e impactos dividida em 5 temas:
1. Legado e Impacto Cultural, Social e Político – que abrange artes,
emprego, educação, juventude, voluntariado, serviços de saúde,
17 Segundo o COI ‘ Legado’ (em p ortuguê s) é traduz ido por ‘ Legacy’ em Inglês e ‘ Hérit age’ em
francê s (Balde rstone, 20 01, p. 2)
18 Segundo o COI ‘ Imp acto’ (em portugu ês) é trad uzido po r ‘ Im pact’ em Inglês e em francês
(Internation al Olymp ic Com mitte, 2014 , p. 1)
19 Traduzido do Inglês: “The te rms ‘legacy ’ an d ‘impact’ are u sed, often inte rchange ably, by
those who a re toda y stud ying this subjec t and its link to the Olym pic Ga mes ”
20 Traduzido do Inglês: “The term ‘impact’ is comm only u sed to describe the effe cts of a policy,
programme or project on ecosystems, society in general and / or on the economic system.
‘Impa cts’ a re m ore often regar ded as im plying an adve rse e ffect or a dam aging or d estru ctive
r esult”
21 Traduzido do Inglês: “From th e first mode rn Gam es in 18 96 to the ca ndidature files for the
2016 Summ er Olympic Games the notion of Olympic Games legacy has become increasingly
complex”
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habitação, programas desportivos e de desenvolvimento,
comunidade e consciência cultural;
2. Legado e Impacto Ambiental – abrange as questões da
sustentabilidade e do desenvolvimento sustentável, do ambiente e do
desenvolvimento ambiental, de infraestruturas verdes, qualidade do
ar e gestão do lixo;
3. Legado e Impacto Económico – engloba as questões relacionadas
com o turismo, emprego, oportunidades de negócio, habitação e
imóveis, gestão de eventos e imagem global da cidade e/ou país;
4. Legado ou Impacto Urbano – agrega as questões correlacionadas
com a demografia, instalações, transp orte, infraestruturas de
transporte e tecnologia (telecomunicações, sistemas de informação,
etc.);
5. Legado e Impacto Desportivo – está correlacionado com a promoção
e desenvolvimento desportivos da cidade ou país no que concerne a
instalações desportivas, gestão do evento e programas desportivos
(International Olympic Committe, 2014, p. 4).
No Brasil existe alguma dificuldade na criação de canais entre os
‘decisores’ e os ‘mais carenciados’, mas tal é essencial para que se busquem
soluções que atendam as necessidades dos mais pobres. Segundo Rolnik
(2014) os mais necessitados, os que vivem nas favelas não tiveram ‘voz’
durante o processo de captação e promoção dos megaeventos, e muitos
pagam o preço com remoções forçadas e sem expectativa de um retorno
(social) que inclua melhorias nos transportes públicos, atendimento m édico e
escolar. Também durante um estudo sobre Atlanta 1996, Reppold Filho
constatou que “as comunidades mais pobres se distanciaram do ‘Anel
Olímpico’, ficando desalojadas e sem os atendimentos e benefícios
pretendidos” e a m ais atingida foi a comunidade negra (2008, p. 178) . Ohmann,
Jones e Wilkes (2 006) lembram que o fortalecimento dos valores comunitários,
reforçando o senso de comunidade, é um dos impactos positivos sociais que os
megaeventos deverão atender, não devendo por isso ser esquecidos.
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A cidade do Rio de Janeiro acolhe os próximos Jogos Olímpicos de
Verão (JOV) em 2016, o que segundo alguns autores pode ser visto como uma
plataforma para alcançar a “ status de cidade mundial, acelerando um processo
que caso contrário poderia levar consideravelmente mais tempo a ser
alcançado” 22 , pois os “Jogos Olímpicos são veículos i deais para cidades
perseguirem o crescimento, já que estes oferecem acesso a um 'regime
simbólico'" 23 (Miah & Garcia, 2012, p. 35).
A Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro
(RIOCOG) apresentou uma proposta para alocar as diferentes modalidades
desportivas durante os Jogos, em três regiões distintas. São elas o Centro e
Zona Sul, Barra da Tijuca e Deodoro. A escolha não ocorreu de forma aleatória
mas atrelada à promessa de desenvolvimento local, promoção social e legado
ambiental. A recuperação da zona mais antiga e desertificada do Rio de
Janeiro (Centro), uma zona empresarial, portuária e histórica de grande valor
imobiliário e cultural; Zona Sul (ponto nobre) irá dispor de infraestruturas
desportivas em Copacabana (para os desporto de praia) e na Lagoa Rodrigo
de Freitas e a Baia de Guanabara (para os desportos náuticos); a Vila
Olímpica 24 ficará no maior bairro carioca, a Barra da Tijuca, onde já se
encontram estruturas deixadas pelos Jogos de 2007, sendo esta a região que
mais cresce em população (53% em população favelada e 28% não- favelada,
nos últimos 10 anos (Cavallier & Vial, 2012, p. 6), em empregos, habitação e
infraestruturas; o terceiro reduto despo rtivo ficará n o Parque M ilitar de
De odoro, uma zona menos privilegiada do Rio de Janeiro. Logo, estas regiões
poderão usufruir de forma mais direta os impactos tangíveis dos Jogos.
A aposta em promover os JO em bairros distintos vi sa a melhor
distribuição das infraestruturas pela cidade. Segundo alguns peritos (Garcia et
22 Traduzido do I nglês: “world - city status, accelerati ng a process that may otherwise take
significantl y longer to achi eved”
23 Traduzido do Inglês: “Olympic Gam es make ide al v ehicles for cities to p ursue grow th, a s th ey
provide acc ess to a ‘symbolic r egime’”
24 Em função da terminol ogia util izada em Portugal nem se mpre ser a mesma que no Bras il, no
que concerne à tradução de Olympi c Vill age , optam os po r usa r ne ste tr abalho de form a
análoga Vil a Olímpica e Aldeia Olí mpica.
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al., 2012) a concentração da maior parte das construções esportivas na Barra
não contribui para a melhoria da cidade como um todo e o Rio de Janeiro
precisa de aproveitar o ciclo de crescimento gerado pelos megaeventos
esportivos para alavancar toda a cidade e não alguns redutos (Garcia et al.,
2012) . Se as estruturas fossem distribuídas por um número maior de bairros,
os impactos e legados gerados pelo investimento de 15 bilhões de reais 25
(valor inicial, no entanto já ultrapassado) nos JO do Rio 2016, trariam
benefícios a quase toda população, abastada ou desfavorecida, e este Custo
de Oportunidade 26 seria reconhecido por todos.
Uma cidade com tantos problemas sociais, estruturais e de segurança
poderia facilmente ser excluída do processo de candidatura e nem sequer se
cogitar os Jogos, no entanto esta não parece ser a visão de seu presidente.
Com efeito Thomas Bach, Presidente do COI, afirmou recentemente que:
“O risco de sediar os Jogos em um país como o Brasil é
maior, mas sem risco, não há recompensa. E a
recompensa nesse caso pode ser alta: uma cidade com
tanto ainda por fazer, como Rio, a Olimpíada tem tudo
para funcionar como um catalisador de avanços. Se o
legado for bom, teremos uma ótima vitrine”
(Thomas Bach entrevistado por Weinberg, 2014, p. 18).
Acolher um evento como os JO tem implicações diretas para as cidades,
pois “requerem quantidades elevadas de recursos não renováveis” 27 (Loland,
2006, p. 145) , tais como novas infraestruturas ou melhoramento das existentes,
aumento do consumo energético e água, milhões de turistas, voluntários,
25 Djan Madruga (Secret ário Nacional do Esporte de Alt o Rendi mento do Brasi l durante a
candidatu ra aos JO 2 016) d isse q ue “inv estir 15 bilhõe s de reais n os J ogos Olímpicos
represe nta apen as 1,5% de sse orçam ento [se refe rindo ao orça mento B rasileiro de 1 trilhão]
que nem são gastos em uma única vez, pois o desembolso se daria em sete anos”
(Internation al Olymp ic Com mitte, 2014 , p. 1) .
26 Opport unit y Cost – term o atribuído pe los e conom istas às cond ições nece ssária s pa ra se diar
os Jogos Olí mpicos (Madruga, 2008, p. 61) .
27 Traduzido do Ingl ês: “The events require large amount of non - renewab le resource s”
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atletas e equipes técnicas viajando e se movimentando pela cidade (o que
requer uma grande estrutura de transportes públicos e gera o aumento da
emissão de gases), comendo, bebendo e consumindo (o que resulta no
aumento de produção de lixo). Os megaeventos têm efetivamente um grande
impacto sobre o ambiente da cidade-sede e do planeta. A pegada ecológica 28
dos megaeventos tem crescido de forma exponencial e algo precisa ser feito
para que esse não se torne um problema (hoje e) no futuro.
Poderão as cidades Olímpicas desempenhar um papel de liderança na
promoção do desenvolvimento sustentável ao redor do mundo?
Talvez, mas para tal o COI precisa prestar mais atenção às
necessidades e prioridades de cada nação/cidade. Na visão do Presidente do
COI, Thomas Bach, as socie dades e seus governantes “não se indagam mais
apenas sobre o impacto dos Jogos naqueles poucos dias de espetáculo, que
os colocarão no topo do planeta, mas também sobre seus desdobramentos a
longo prazo em várias áreas” (Thomas Bach entrevistado por Weinberg, 2014,
p. 19) ou seja elas anseiam por um legado após o Jogos, caso contrário serão
cada vez menos as cidades candidatas. Afinal nem todos os países ou cidades
estão dispostas a investir milhões num processo de candidatura e depois
bilhões 29 na organização dos JO (estima-se que Sochi 2014 tenha gasto m ais
de 50 b ilhões, os JO mais caros de todos os tempos (Grove, 2013; Harrison,
2014; Taylor, 2014)) sem equacionar as melhorias estruturais e sociais para a
cidade.
Segundo Thomas Bach, o papel do COI terá de mudar, em vez de “dar a
eles [cidades candidatas] um formulário maçante e padronizado com centenas
de pré-requisitos, acho que precisamos ter um discurso mais personalizado,
caso a caso, que ajude cada país a entender que espécie de legado restará
28 Ecologi cal Footpr int – “Pegada Ecológica representa a área produtiva necessária para
fornec er à hum anidade recursos renováveis e para absorver seus resíduos.” (Madruga, 2008,
p. 59) .
29 Em função da termi nologi a uti lizada em Portug al nem sempre ser a mesma que no Brasil ,
gostaríamos de alertar que usaremos prefer encialmente a terminologia ‘bilhões’ (diretamento
ou em traduções) ao invés de ‘mil milhoes’ (numeração utili zada em Portugal) .
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depois que os holofotes forem desligados” (Thomas Bach entrevistado por
Weinberg, 2014, p. 19).
A promoção de impactos e legados positivos é importante, mas estes
devem ser norteados pelo DS de longo prazo.
No entanto a noção de DS nem sempre é clara, seja no meio académico
e desportivo. Acreditamos que esta relação não tem sido devidamente
analisada e pesquisada e daí existir uma carência de ‘saber’ no que concerne a
esta temática. Mas ela não pode ser descartada, afinal o rendimento desportivo
é afetado pela qualidade do meio ambiente envolvente, pelas políticas sociais e
por diversos investimentos. Por conseguinte, praticar desporto numa zona
poluída é prejudicial ao atleta e é algo inconcebível (Chernus henko, 2011;
Oben, 2011) ; assim como o desperdício de recursos económicos com os Jogos
que de pois abandonam parte das suas infraestrutura s, como ocorreu com
Atenas 2004 e Pequim 2008 (Taylor, 2014); ou que se silenciem perante a
discriminação, como ocorreu nos JOI de Soshi em 2014 (Lei antigay) (Tayl or,
2014) .
O desporto pode ser uma ferramenta para a promoção do DS, pelo
menos é assim que a PNUMA 30 o encara, “o potencial [do desporto] como
embaixadores e promotores do desenvolvimento sustentável, é enorme” 31
(UNEP, n/d- a) , já que “a melhor forma do desporto ajudar o desenvolvimento
sustentável e o ambiente é através da sua popularidade” 32 (UNEP, n/d- a) . No
entanto o conceito de ‘desenvolvimento sustentável’ (DS), ‘sustentabilidade’ e
‘ambiente’ nem sempre são claros e muitas vezes confundidos, por
conseguinte, necessita-se compreender estes desde sua raiz até aos dias de
hoje, isto é, para que se possa conceptualizar estes conceitos é vital
determinar como foram construídos ao longo dos tempos, p ois só assim
30 PNUMA - Programa das Nações U nidas para o Meio Ambiente (UNEP - United Natio ns
Enviro nment Pr ogram me)
31 Traduzido do Inglês: “their [sp ort] potential a s amb assado rs, as pro moters o f s ustainab le
ways of living, is enormous”
32 Traduzido do Ingl ês: “the most significant way sport can b enefit the en vironme nt a nd
sustainable development is t hrough its popular ity”
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poderemos compreender o entendimento atual destes no meio social,
académico, intelectual, corporativo ou esportivo.
A nível desportivo, o COI é uma das organizações que vem empregando
e trabalhando estes conceitos através dos JO, tendo para tal estabelecido
parcerias com a PNUMA no sentido de promover o “desporto como veículo de
implementação dos Objetivos de Desenvolvimento das Nações Unidades” 33
(UNEP, n/d- a) . Logo é vital que se faça uma releitura das grandes conferências
mundiais (as World Summits ) das Nações Unidas (NU); dos movimentos
sociais e ambientalistas emanados da sociedade ; de estudos e pesquisas
científicas; dos papéis dos agentes influenciadores político, de opinião, ONG’s,
etc., e dos eventos Olímpicos mais importantes, para que seja possível
entender como o Movimento Olímpico (MO) tem adequado seus valores e
práticas, de forma a atender aos parâmetros e exigências do DS e da
sustentabilidade, ao longo dos tempos.
A partir desta inquietação surgiu a necessidade de análise e escolha do
caminho mais adequado para a condução desta pesquisa e os objetivos a
atingir. Assim optou-se por uma pesquisa qualitativa organizada a partir da
formulação da Questão a Pesquisar ( Research Question ).
A Questão a Pesquisar que norteou este trabalho quer determinar qual o
papel do MO, COI e em especial dos JO, no que concerne à incorporação,
assimilação e divulgação dos princípios que norteiam o conceito de DS ao
longo dos tempos. Para tal recorreu-se à análise cronológica de eventos
correlacionados com o MO e JO, assim como dos eventos e movimentos
sociais, ambientais e económicos mais relevantes, que de alguma forma
interferiram no percurso e decisões do COI ao longo de 120 anos (1894 e
2014).
Pretende-se que esta pesquisa possa iluminar e adicionar uma maior
compreensão sobre o fenómeno Olímpico, em especial no que concerne à
promoção de JO que estejam de acordo com os princípios do desenvolvimento
sustentável, ou seja, tentar entender o caminho (passado) do MO e JO, de
33 Traduzido do Ingl ês: “sport for the im plemen tation of the U nited Na tions Deve lopme nt Goals”
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“... o objetivo é transformar o Rio de Janeiro e o Brasil
através do esporte, inspirar a juventude e realizar
Jogos Olímpicos conectados ao meio ambiente e com
o espírito único de celebração do brasileiro”
(COB, 2010, p. 22)
Este capítulo tem como missão apresentar uma panorâmica geral da
visão de diversos autores no que concerne:
• Ao Constructo da Teoria do Desenvolvimento Sustentável 36 ,
• À análise do Campo de Estudo 37 , especificamente do Movimento
Olímpico e seus Parceiros 38 e
• Por fim expor a Problematização que originou esta pesquisa, assim
como os argumentos relativos à sua importância e relevância no
contexto mundial atual.
1.1 C ONSTRUCTO DA T EORIA DE D ESENVOLVI MENTO S USTENTÁVEL
O conceito de DS é recente, por conseguinte é necessário que se
examinem conceitos análogos, que de certa forma deram origem ou foram
precursores do mesmo. Torna-se, portanto pertinente uma pesquisa entre
autores de diferentes áreas do conhecimento, para que se possa coletar
bibliografia de autores conceptuais que discorreram sobre Ambiente,
Sustentabilidade ou Desenvolvimento Sustentável, assim como a relação,
impacto e importância destes na sociedade.
São diversos os pensadores que abordam estas questões. No entanto
optou -se por reunir aqueles que de alguma forma contribuíram ou vêm
contribuindo para uma teoria do DS. Apresenta-se por conseguinte um
pensamento coerente indo ao encontro da noção de DS definida pelo Tratado
de Brundtland.
36 Theoreti cal Framework
37 Field in wit ch the Theoretic al Study is appl ied
38 Stakeholder s
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Karl Polanyi e Karl William Kapp
Desde meados do século XX a mudança é algo ansiado e prometido
vezes sem conta. Um dos autores que refere a necessidade de um novo
paradigma de desenvolvimento é Ignacy Sachs (2007b), algo que segundo o
mesmo, foi expresso no projeto de uma economia ecológica defendida por Karl
William Kapp. Kapp, economista de origem alemã e um dos inspiradores da
Ecologia nos anos 70, contribuiu para o pensamento atual sobre DS e é
considerado por alguns autores (Sachs, Eli Veiga, Soromenho Marques e
DaMatta) como o ‘ pai da ecossocioeconomia’ .
Mas ao deslindarmos Karl Wi lliam Kapp necessitamos de fazer o mesmo
com outro pensador, Karl Polany, visto que estes dois e conomistas pensam de
modo semelhante, sendo inclusive referenciados como os precursores dos
princípios que levaram à Teoria do Custo Social 39 (Berger, 2008b) .
Karl Polanyi (economista, historiador e antropólogo do século passado)
refletiu sobre a Teoria de Duplo Movim ento no livro The Great Transformation –
the political and econom ic origins of our time 40 (Polanyi, 1944) (escrito durante
a Segunda Guerra Mundial). Nele retrata a história do Mercado
Autorregulável 41 e do contramovimento promovido pela sociedade e pessoas,
com o objetivo de se protegerem “das forças que minam a sua solidariedade
social e que ameaçam distorcer a sua relação com o ambiente natural”
(Martins, 2007, p. 7). Polanyi não apresenta uma reflexão sobre o mercado-
livre na óptica marxista. Pelo contrário, propõem uma visão sociológica e
antropológica sobre o “princípio da proteção social, cuja finalidade era
preservar o homem e a natureza, além da organização produtiva, e que
dependia do apoio daqueles mais imediatamente afetados [...], mas não
exclusivamente, as classes trabalhadoras e fundiárias” (Polanyi, 2000, p. 163) .
Para o autor, a coexistência entre mercado autor regulável e democracia é
39 Social Costs Theory
40 A Grande Transf ormação
41 O Mercado Autor - Regulável surgiu com a R evolução Industrial, antes os mercados eram
encarados como acessóri os da vida económica, sendo o sis tema económico absorvido pelo
sistema social; sua p romoção ocorreu no séc XIX através dos esforços de eco nomistas l ibera is
e estadis tas ingles es.
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25 !
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impossível, pois os interesses sociais só poderão imperar perante uma
economia social e não de mercado livre. Isto leva-nos a refletir sobre que tipo
de sociedade e de mercado seria ideal para que o DS seja uma realidade.
A filosofia de consumo desenfreado (defendida pelo capitalismo), em que
as necessidades e desejos do homem nunca são atendidos, encontra-se em
rota de colisão com o planeta e a sobrevivência das espécies, entre elas a
humana. A dicotomia entre mercado livre e sociedade civil, que hoje impera, é
uma característica de muitos países, mas que não atende às necessidades do
planeta nem da humanidade (Polanyi, 2000). Precisamos portanto explorar
outros caminhos, mais sustentáveis e onde o mercado preste um serviço de
reciprocidade e de redistribuição para com a sociedade, promovendo assim a
coesão social, como ocorria (e ainda ocorre) em sociedades mais simples.
Para alguns, o processo de evolução levou as sociedades ao patamar
que hoje se encontram as sociedades modernas. No entanto Polanyi recusa-se
a “olhar para a modernidade como o ponto alto do desenvolvimento histórico da
humanidade” (Martins, 2007, p. 15). Para ele “os povos antigos exibiam uma
grande sabedoria na organização das suas comunidades, uma sabedoria a
partir da qual podemos e devemos aprender nos tempos atuais” (Martins, 2007,
p. 16). O saber, o lidar e o respeito que os índios da Amazónia e de outros
povos têm relativamente à natureza é de longe conhecida mas ignorada por
muitos. Polany, em meados do século XX, era um dos poucos economistas que
defendia o ‘saber’ das ‘tribos’ denominadas como ‘menos evoluídas’.
As preocupações de Polany não eram apenas sociais, pois ele já
chamava a atenção para a natureza, que não poderia ser reduzida a seus
elementos mínimos, conspurcando-se as paisagens, poluindo os rios e
destruindo a Terra, tal como propunham os mecanismo de mercado livre, ao
ambicionar transformá-la num produto comerciável (Polanyi, 2000) .
O desejo de ver as pessoas vivendo de forma digna, solidária e sem
danificarem o ambiente é a base do que Polanyi denominava como
‘contramovimento’. Um ‘contramovimento’ que não se fortaleceu o suficiente no
século XX, deixando que o mercado livre tomasse todos os espaços e ditasse a
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vida de todos (social, ambiental e económica), que, ainda assim poderá
renascer no século XXI aliada aos valores disseminados pelo DS.
Apesar da falta de evidências do relacionamento intelectual entre Polany
e Kapp nos anos 40, muitas semelhanças são encontradas no que concerne a
críticas sobre os efeitos nocivos do sistema de m ercado livre na natureza e na
humanidade (Berger, 2008b).
Karl William Kapp é denominado de ecossocioeconomista, visto que este
deu os primeiros passos para o que hoje é definido como DS. Após retornar da
Índia, onde aplicou a “teoria do custo social para desenvolver problemas” 42
(Berger, 2008b, p. 392). Ele ajudou a lançar as bases para o DS e cooperou
ativamente na elaboração da Resolução de Tóquio 43 , que declarava ser o
ambiente uma herança do presente para as gerações futuras (Tsuru, 1972) ,
algo resgatado pelo Tratado de Brundtland em 1998.
Kapp tentou também humanizar a economia com a elaboração de uma
noção clara do que são as necessidades humanas universais e o bem-estar
humano, mostrando que estes dependem do equilíbrio entre economia e
ecologia (Berger, 2008a). Na análise de Berger, Kapp via a desumanização da
sociedade como fruto da “degradação social e ecológica do ambiente” 44
(2008a, p. 245).
O trabalho de Karl William Kapp influenciou:
• O movimento ambientalista dos anos 70, seja pela participação cativa de
Kapp na Conferência de Tóquio 1971 (Tsuru, 1972) ou na Conferência
das Nações Unidas de 1972 em Estocolmo (Berger, 2013; Tsuru, 1972);
• A École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS 45 (Berge r,
2013) coordenada pelo por Ignacy Sachs;
• A Socialist Environment and Resource Association - SERA 46 (Berger,
2013) e
42 Traduzido do Ingl ês: “theory of soc ial cots to dev elopme nt problem s”
43 Traduzido do Ingl ês: ‘ Tokyo Resolut ion’
44 Traduzido do Ingl ês: “degrada tion of the soc ial and eco logical env ironmen t”
45 Escola de Est udos da s Ciênc ias Soci ais
46 Associa ção Soci alis ta par a o Ambi ente e Recurs os
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• Assim como pensadores, sociólogos e economistas com o Ignacy Sachs,
José Eli Veiga, Viriato Soromenho Marques, Roberto DaMatta entre
outros.
Clube de Roma e Limites do Crescimento
“O final da década de 1960 é certamente um marco significativo na
história do pensamento económico do período pós-guerra. É a partir deste
momento que irá aparecer um movimento que questiona o crescimento
selvagem e que inversamente vai propor por o substituí por outro modelo de
desenvolvimento económico caracterizado como
ecodesenvolvimento” 47 (Gouguet, 2000, p. 11).
Entre os grandes acontecimentos correlacionados com as questões
ambientais e de sustentabilidade, que deram origem ao conceito de DS, há a
se destacar a criação do Clube de Roma e a Economia Verde (defendida por
alguns economistas como o caminho para uma economia que não agrida o
ambiente).
O Clube de Roma nasceu em 1968 pelas mãos de Aurélio Paccei e
Alexander King, como “uma organização internacional cuja missão é agir como
um catalisador de mudanças globais, livres de quaisquer interesses políticos,
económicos e ideológicos” (Meadows et al., 2008, p. X XIII), sendo, portanto,
uma ONG que reúne grandes personalidades ao redor do mundo. Este Clube
adoptou um pensamento holístico e uma abordagem multidisciplinar, na busca
de soluções para problemas globais e de longo prazo correlacionados com o
crescimento (populacional e industrial), a pobreza e os limites do planeta (seja
a nível de consumo energético, alimentar, recursos hídrico, devastação
florestal, a extração de recursos naturais ou a capacidade da terra de absorver
todos os resíduos humanos) (Meadows et al., 2008).
47 Traduzido do Francês: “L a fin des ann ées soix ante cons titue certaine ment un p oint de rep ère
impo rtant dans le l’histo ire de la p ensée éco nom ique d e l'ap rès - guerre. C’est à partir de cette
époque que va apparaître toute une remise en couse de la croissance sauvage et qu’à l’inver se
on va proposer de lui substituer un autre modèle de développement économique qualifié d’éco -
développement“
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28 !
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“Usando modelagem computadorizada, a equipe explorou uma série de
cenários diferentes (12 no total) para diferentes tendências globais, tais como a
aceleração da industrialização, crescimento populacional, desnutrição
generalizada, a deterioração dos ambientes naturais e o esgotamento de
recursos não-renováveis. Ao concluir o seu relatório, equipe Meadows
mostrava um quadro apocalíptico sobre a capacidade das sociedades para
manter a sua di nâmica de crescimento sem fazer nada sobre as crescentes
crises ambientais” 48 (Karamichas, 2013, p. 45).
O Clube de Roma foi pioneiro ao alertar a humanidade para incapacidade
do planeta em acolher o crescimento ilimitado, e que este já estavam
provocando desgaste ambiental, pois “as fontes de recursos naturais não
seriam eternas” (Meadows et al., 2008, p. XXIV), e o primeiro “abrir o caminho
para um deb ate sobre o tema do crescimento zero, visto como o único remédio
para a crise ambiental" 49 (Gouguet, 2000, p. 12). No entanto, suas análises não
foram bem acolhidas pela sociedade industrial nem pelos economistas, mas
serviu como alerta de que talvez haja um limite ecológico que deva ser
ponderado na promoção do crescimento económico (Karamichas, 2013).
Entretanto, não podendo tão-somente alertar, era preciso equacionar
soluções. Como promover uma boa gestão ambiental e manter a economia
crescendo? Como reverter séculos de destruição ambiental pela utilização
sustentável de recursos?
O caminho parecia ser o do desenvolvimento sustentável, que engloba:
• Um “sistema político que permita a participação de todos no processo
decisório” (Meadows et al., 2008, p. XXIV);
• Um “sistema capaz de gerar produção constante, confiável e
48 Traduzido do Inglês: “ Usin g computer modelli ng, the te am explored a number of different
scenarios (12 in total) for different global trends, such as the acceleration of industriali zation,
population growth, widespread m alnutri tion, the deterioration of natural environments, and the
depletion of non - renewable res ources. In concluding their report, M eadows’ team painted an
apocalypti c picture about the capacity of societies to maintain their growth dynam ics without
doing anythi ng about r ising envi ronmental cri ses”
49 Traduzido do Francês “ouvre la vo ie à une p olémiq ue sur le thème de la croissance zéro,
considérée comme le seul remède à la cr ise environnementale”
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29 !
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sustentável” (Meadows et al., 2008, p. XXIV);
• Um “sistema social capaz de conter tensões geradas por um
desenvolvimento desigual” (Meadows et al., 2008, p. XXIV) e
• Um “sistema internacional que permita trocas comerciais e
tecnológicas de forma mais justa” (Meadows et al., 2008, p. XXIV).
Atualmente o Clube de Roma é composto por 100 membros dispersos por
30 países ou regiões (The Club of Rome, 2011).
No entanto este somente ficou conhecido em 1972 com o lançamento do
relatório Limites do Crescimento 50 (The Club of Rome, 2012). Este livro
suscitou uma polémica muito grande na época, visto que em plena fase de
crescimento e desenvolvimento económico, eis que um grupo de
pesquisadores do MIT alerta a humanidade para os limites físicos da Terra
(Meadows et al., 2008).
Nos anos 70 “nada parecia poder deter a marcha do Ocidente rumo a
cada vez mais progresso e prosperidade” (Meadows et al., 20 08, p. VII). Vivia-
se um tempo de petróleo barato, capitais em abundância e altas taxas de
crescimento ano após ano. Logo “ninguém falava de meio ambiente, ecologia,
esgotamento de recursos não renováveis, limite da capacidade de sustentação
do planeta” (Meadows et al., 2008, p. VII). E os pesquisadores do Clube de
Roma resolveram fazer um alerta, afinal não vivíamos no melhor do mundos e
“os limites do crescimento seriam alcançados em algum momento dos
próximos 50 anos” (Meadows et al., 2008, p. VII).
Mesmo diante dos alertas dos pesquisadores, a sociedade continuou a
trilhar o caminho do consumo desenfreado e 20 anos depois o Clube de Roma
lança um segundo livro, Beyond the Limits 51 , que afirma estar a humanidade já
estaria a viver acima das capacidades do Planeta (Meadows et al., 2008) . O
fato de este livro ter sido publicado na m esma época da Conferência Eco 92,
no Rio de Janeiro, parecia ser um sintoma de que afinal as coisas estavam a
mudar, a comunidade estaria preocupada com os danos ambientais causados
ao Planeta Terra e disposta a mudar seu rumo. No entanto, isso não ocorreu,
50 Limits t o Growth
51 Para Al ém dos limit es
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30 !
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segundo as expectativas do Clube de Roma (Meadows et al., 2008) .
Em 2007 o Clube de Roma lança o seu terceiro livro, Limites do
Crescimento: A Atualização de 30 anos , e em 2012 realiza um evento paralelo
à Conferência Rio+20, na cidade do Rio de Janeiro, com as esperanças
renovadas e com o lançamento da versão deste livro em português.
Mas o Clube chega a 2015 e vê, na encíclica papal sobre o Cuidado da
Casa Comum , um nov o alento para tudo que vêm defendendo desde 1968.
Afinal, quer o Papa Francisco quer o Clube de Roma (The Club of Rome, 2015)
falam da importância de uma sociedade igualitária, onde sociedade e natureza
sejam mais importantes do que economia e lucro a curto prazo. No entanto,
este último convoca os políticos a desempenharem um papel de regulador do
setor económico (The Club of Rome, 2015).
Tratado de Brundtland e as Conferências das Nações Unidas
Historicamente o conceito de DS parece ter surgido em 1979 durante o
Simpósio das Nações Unidas sobre Recursos, Ambiente, População e
Desenvolvimento 52 , quando alguns conferencistas se levantaram e afirmaram:
“Nós não somos contra o desenvolvimento, apenas
queremos que este seja sustentável”
(Veiga & Zatz, 2008, p. 38)
No entanto foi na década de 80, com o Relatório Nosso Futuro Comum ,
mais conhecido como Tratado de Brundtland (Comissão Mundial Sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, 1991), que o conceito foi aprofundado e
apresentado pela equipa que a Senhora Gro Harlem Brundtland liderou entre
1983 e 1987 (WCED, 1987) às Nações Unidas. Até então o conceito de DS não
era algo claro ou familiar, e após o Tratado , este passou a ser mais
pesquisado, promovendo assim uma maior acuidade com o planeamento do
presente em virtude das conseq uências futuras. Este afirma que “a
humanidade é capaz de tornar o desenvolvimento sustentável, de garantir que
52 Unite d Nations Symposi um on the Inter rela tion s between Resources , Environ ment,
Population and Development
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31 !
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ele atenda às necessidades do presente sem comprometer as capacidades de
as gerações futuras atenderem também às suas” 53 (Comissão Mundial Sobre
Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1991, p. 9).
Porém, antes do Nosso Futuro Comum , alguns passos já tinham sido
dados na busca da conciliação entre meio ambiente e desenvolvimento
económico, sendo de destacar as seguintes iniciativas e conferências:
• 1972 Estocolmo - Conferências das Nações Unidas sobre o
Ambiente Humano 54 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 7) (do qual Kapps
participou (Sequinel, 2002)). "A conferência de Estocolmo tentou conciliar dois
pontos de vista opostos [crescimento selvagem de um lado e ecologistas
profundos do outro], o que foi feito através do conceito de ecodesenvolvimento,
procurando o compromisso entre um ambientalismo integrador e uma
economista irresponsável" 55 (Gouguet, 2000, p. 14). Por conseguinte, a
Declaração de Estocolmo “trouxe assim os princípios e proposições ligados há
a necessidade de preservação do ambiente e do desenvolvimento
económico“ 56 (Gouguet, 2000, p. 14);
• 1975 Belgrado;
• 1977 Tblisi;
• 1987 Moscovo e
• 1987 Montreal – é assinado o primeiro Protocolo Internacional sobre
a camada de Ozono por 47 países (Meadows et al., 2008, p. 193) com efeitos a
partir de 1989 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 14).
53 Pa ra a versã o em Inglê s con sultar W CED (In ternationa l Olym pic Co mmittee , n/d - c) : “ We
define sustainable development in simple terms as path of progress witch meet the needs and
aspirati ons of the present generation w ithout compromising the ability of future generation to
meet t heir needs ”
54 UN Conf erence on the Human Envi ronmen t
55 Traduzido do Francês: “La c onféren ce de S tockho lm est d ’avoir ess ayé de concilier ce s deu x
points de vue opposés [croi ssance sauvage d’un côté el le écolo gistes profo nds d e l’au tre], ce
qui se fit à travers le concept d’éco - développement, recherche de compromis entre un
écologisme i ntégriste et un économist e irres ponsable“
56 Traduzido do Francês: “on trouve ainsi de s principe s et pro position liés à la né cessité de
préservati on de l’ environnement et de développement économique“
!
38 !
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Inconveniente 77 , que a relação do homem com a terra tem vindo a transforma-
se de forma drástica e que “devido a uma combinação de fatores, como a
explosão demográfica, a revolução tecnológica e a predisposição para ignorar
as consequências futura s das ações presentes” (2006, p. 8) , a Humanidade
corre um grande risco.
A China, apontada junto com os EUA, Índia e UE como os maiores
poluidores do planeta, lideram “o mundo no que toca à replantação de árvores,
com um programa de florestação e reflorestação altamente eficiente, no âmbito
do qual já se plantaram duas vezes e meia mais árvores em cada um dos
últimos anos do que o resto do mundo inteiro. De fato, a China tem vindo a
plantar tantas árvores, que está agora a plantar mais, por ano, do que as que o
país que mai s tem desflorestado, o Brasil, tem abatido por ano” (Gore, 2009, p.
194) .
Alguns empresários afirmam que ambiente e economia são
incompatíveis, que, entretanto não é a visão de Ray Anderson 78 . Nos anos 90
este gestor resolveu m udar a forma de produção e apostou na M issão Zero ,
que busca reduzir o impacto negativo da Interface Flooring até 2020. Afinal são
duas toneladas e maia dos seus produtos que acabam na lixeira. Reduzir
resíduos da empresa está no centro de um futuro sustentável, pois “Anderson
discorda de quem afirma que temos de escolher entre o ambiente e economia”
(Gore, 2009, p. 128).
O ecofilósofo Arn e Naes faz a distinção entre ecologia superficial
( shallow ) e profunda ( deep ), sendo que a ecologia superficial refere-se a fatos
concretos e quantificáveis, medidas de ação ambiental e assume a forma
principalmente de análises de custo-benefício ambiental (Segundo a
interpretação de Loland, 2006, p. 145). Já a ecologia profunda refere-se ao
exame das premissas filosóficas e justificação da preocupação ecológica
(Segundo a interpretação de Loland, 2006, p. 146) .
Dentro da ecofilosofia alguns autores defendem uma visão
antropocêntrica e outros não -antropocêntrica . Na perspectiva não -
77 A n Inconveni ent Truth
78 Fundador da empresa de alcatif as americ ana Int erface Fl ooring
!
39 !
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antropocêntrica todas as formas de vida ou até paisagens têm um determinado
estatuto moral independente do seu valor para os seres humanos, o que é
contrária à visão de Naess, pois para este todas as form as de vida devem ter,
em princípio, valor igual (Naess Segundo a interpretação de Loland, 2006, p.
146) . Ou seja, para Naes todos os seres vivos (incluído o homem) têm o
mesmo direito de atingirem seu potencial e o que diferencia o homem das
outras espécies é o potencial de reflexão sobre o seu papel no ecossistema
maior, assim como a responsabilidade de cuidador (Naess segundo a
interpretação de Loland, 2006, p. 146). “A filosofia ecocêntrica de Holmes
Rolston (III) – també m descrita como 'ecologia profunda' – promov e a ideia de
que podemos chegar a desenterrar os valores e a ética que a natureza
prescreve” 79 (Rolston segundo a interpretação de Brown, 1997, p. 212).
Já os antropocêntricos encaram a natureza sob a óptica do seu papel no
bem -estar humano e do seu valor para o homem. O homem é colocado no
centro e a natureza está para ali para nos servir (Loland, 2006, p. 146).
“Ecocentrismo é considerado como uma abordagem de interesse
pessoal sobre a ética ‘onde a realidade é sempre vista como nós seres
humanos podemos manter nossa separação e domínio sobre o resto da
criação’. ‘Homocentrismo é a abordagem que enfatiza uma forma
essencialmente humano-centrado mas ainda socialmente responsável de
viver’. Esta abordagem ética ambiental reconhece a responsabilidade da
natureza, mas não introduz a ideia de que o valor na natureza pode ser distinto
do valor colocado numa teoria de valor humano. A ética Ecocêntrica enfatiza
que, ‘enquanto os seres humanos têm características especia is distintas e a
algum grau que as separam dos outros animais, eles, no entanto estes são
interdependentes de e inseparáveis dos ecossistemas globais’. Ecocentrismo
79 Traduzido do Inglês : “Th e ecocentric philoso phy of H olmes R olston (III) – a ls o describ ed as
‘deep ecology’ – promoters the idea that we can com e to unearth the values and ethi cs that
nature pr escribes”
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implica que todos os valores e ética são derivados do próprio ecossistema" 80
(Brown, 1997, p. 212).
O Sociólogo Alfredo Pena-Vega 81 refere que não é porque os países do
hemisfério norte são responsáveis pelos acontecimentos atuais, que os países
do Sul têm de seguir o mesmo caminho. Para o sociólogo os “países do Sul
têm a oportunidade de repensar nosso destino” (Pena-Vega entrevistado por
Amorim, 2009), de reinventar e promover um desenvolvimento sem ferir o
ambiente.
Sustentabilidade
Fritjof Capra, em entrevista transcrita por Muller (2013) a um jornal
brasileiro, começou por admitir que o conceito de Sustentabilidade tem
assumido ao longo dos tempos (desde a década de 80) diversas formas. Ou
seja, é um conceito pouco claro e que tem servido para muita coisa, inclusive o
interesse de algumas entidades. Nesta entrevista Capra tenta revelar o que é
afinal a Sustentabilidade .
Segundo Capra “não podemos mais enxergar o universo como uma
máquina [ … ]. A evolução não é uma luta competitiva pela existência, mas sim
uma dança cooperativa” (Palestra de Capra transcrita por Muller, 2013) . Uma
80 Traduzido do Inglês: “Ec ocentrism is regarded as a self - interest ap proac h to eth ics ‘w here
reality is alw ays see n a how we h uma n beings can maintain our separateness and dominance
over the rest of creation’. ‘Homocentrism is the approach that stresses an essentiall y human -
centred but still socially responsible way of living’. This approach to environmental ethics
recogn izes a re sp onsibili ty to nature but does not introduce the idea that value in nature m ay be
distinc t f rom the objective value placed on it by a human value theor y. Ecocentric et hics
emphasizes that, ‘while hum an beings do have special characteri stics distinguishi ng and to
some degree setting them apart from the o ther a nimals, they are nevertheless interdependent
upon, and inseparable from, global ecosystems’. Ecocentrism implies that all values and ethics
are deri ved from the ecosystem it self”
81 Sociól ogo, Diretor Cie ntífico do Instit uto Internacional de Pesquisa Política da Civilização na
Escola de Altos Estudo s em Ciências Sociais (Soci ologue, directeur scienti fique de l’In stit ut
Interna tional d e Re cherc he, Po litique d e Civ ilisation (IIR PC) a L’Ecole des Hautes Étude s en
Scienc es Soci ales (EHESS))
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41 !
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dança que para ser “sustentável deve ser desenvolvida de modo que a nossa
forma de viver, nossos negócio s, nossa economia, tecnologias e estruturas
físicas não interfiram na capacidade da natureza de sustentar a vida. Devemos
respeitar e viver de acordo com isto” (Palestra de Capra transcrita por Muller,
2013) . Claro que isto não agrada a muitos que defendem o crescimento
económico e a competitividade, mas os mesmos se esquecem que é uma
“ilusão acreditar que o crescimento infinito pode continuar em um planeta finito”
(Palestra de Capra transcrita por Muller, 20 13) pelo que chegou o momento de
mudarmos de uma economia focada no crescimento para uma que privilegia o
desenvolvimento global .
Hoje o mundo continua preso à economia global como se ela fosse
nossa esperança, nela prevalecendo um sistema económico “mo vido pela
ganância e pelo materialismo” (Palestra de Capra transcrita por Muller, 2013).
Esta economia dita as regras e tem um úni co objetivo, o lucro. Mas para Capra
“não há critérios éticos envolvidos nesta economia global ” e, por isso, é que
“exclusão social e desigualdades são elementos inerentes desta globalização”
(Palestra de Capra transcrita por Muller, 2013). Estes só poderão ser
aniquilados se mudarmos o nosso sistema económico, se provocarmos uma
mudança de paradigma. Enquanto não virmos o mundo como um sistema vivo
que precisa de viver em sintonia e cooperação, jamais poderemos alcançar a
justiça social e viver num planeta ambientalmente correto e economicamente
viável, como alguns autores nos propõem (Sachs, 2007b) .
Capra não é a favor do crescimento zero, pois “crescer é uma
característica central da vida” (Palestra de Capra transcrita por Muller, 2013) ,
mas convida-nos a aprender com o ecossistema, onde “uns crescem ma is,
outros declinam e assim reciclam seus componentes, que se tornam recursos
para um novo crescimento” (Palestra de Ca pra transcrita por Muller, 2013) .
Logo este autor no propõem uma mudança de paradigma de quantidade para
qualidade , pois acredita que o “crescimento qualitativo é consistente com a
nova conceção científica da vida” (Palestra de Capra transcrita por Muller,
2013) .
Talvez falte uma visão como a de Maria José Varandas que afirma
!
42 !
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tratar-se de “indagar se a natureza tem um valor próprio (intrínseco) ou se, pelo
contrário, será sempre um meio para a satisfação das necessidades humanas
(valor instrumental) e, neste caso, é do tipo de necessidade humana que é
preciso falar” (2009, p. 32). Na visão antropocêntrica o homem é colocado no
centro e tudo gira ao seu redor, mas segundo Marley Alvim antes que a
humanidade aprendesse a respeitar a natureza e os animais, ele precisava de
se respeitar e respeitar os outros (2009).
Quais as necessidades que devemos atender (essenciais) e quais as
supérfluas, pois sem esta definição continuaremos a coexistir numa sociedade
extremamente injusta e desigual, onde poucos têm muito e deixam uma
pegada ecológica enorme, e muitos nada têm, sendo sua pegada compatível
com a capacidade de recuperação do planeta (Boff, 2013). Promove-se assim
o crescimento multifacetado e qualitativo em oposição ao quantitativo (que
impera atualmente), ou seja uma mudança de paradigma em que a qualidade e
o senso moral terão primazia sobre o lucro.
Mas enquanto a visão mundial estiver associada “aos que detêm o
poder, aos que controlam os mercados, aos que vendem e compram seu chão,
seus bens e serviços, água, genes, sementes, órgãos humanos, pessoas feitas
mercadorias” (Boff, 2009) então o meio ambiente será sempre usurpado ou,
pelo menos, não será visto como um problema.
Para Sav ery e Gilbert, austentabilidade é um “conceito holístico muito
mais profundo do que apenas as considerações ambientais. No sentido amplo,
sustentabilidade refere-se a uma perspetiva holística que harmoniza as
dimensões e sistemas sociais, económicas e ambientais e balanceia as
oportunidades e os limites” 82 (2011). Segundo os autores, a noção de
sustentabilidade se assemelha à de DS, algo comum mas não compartilhada
por todos os autores.
O Clube de Roma também partilha da ideia de que a sustentabilidade e
82 Traduzido do Ingl ês: “is a holisti c concept with much more depth than j ust environmental
consideration alone. In a broad sense, sustainability refers to holistic prespective that
harmonizes social, economic and environmental dimension on systems and balances
opportunit ies and const raints”
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43 !
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DS são conceitos similares, mas alerta para o facto de que a sociedade
mundial ainda está “tentando compreender o conceito de sustentabilidade, um
termo que permanece ambíguo e utilizado abusiva e genericamente mesmo
tantos anos após ser cunhado pela Comissão de Brundtland” (Meadows et al.,
2008, p. XIV).
Loland utiliza de forma análoga a sustentabilidade e o DS e define a
primeira como “como uma relação entre sistemas dinâmicos socioculturais e
económicos e maior dinâmica, mas normalmente mais estáveis sistemas
ecológicos, nos quais:
• A vida humana pode continuar i ndefinidamente
• Os seres humanos podem florescer
• As culturas humanas podem desenvolver-se desde que apoiadas nos
ideais de complex idade e diversidade e não ameacem a
sobrevivência do sistema ecológico” 83 (2006, p. 146).
Desenvolvimento Sustentável
Segundo Loland, o ideal de desenvolvimento sustentável parece ter
surgido a partir das teorias antropocêntricas (onde “o valor da natureza
depende de seu papel no bem-estar humano” 84 (2006, p. 146), pois o “ponto
crítico de qualquer desenvolvimento é assegurar às futuras gerações humanas
as mesmas possibilidades de satisfazer as necessidades básicas como nós” 85
(2006, p. 146) .
Para Al Gore, “as empresas e os mercados não podem funcionar de
forma isolada da sociedade e do ambiente” (2009, p. 346) e o autor incita que
83 Traduzido do Inglês: “ as a relati onship between dynam ic human sociocultural and economic
systems and larger dynamic but nor mally more stable ecological systems, in which:
• Hu man l if e c an cont inu e i ndef init ely .
• Huma n individuals can flourish.
• Hum an culture s can d evelop a s long a s they b uild on the ideals of comp lexity and diversity
and do not threaten the functi on of t he ecological lif e - support system”
84 Traduzido do I nglês : “ the v alue of n ature d epen ds on its role in h uma n well b eing”
85 Traduzido d o Inglês: “ The cri tical point of any development is to secure future human
generations the same the possibili ties t o satisf y basic needs as our own”
!
44 !
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“temos de desenvolver um capitalismo sustentável” (Gore, 2009) . No entanto
nem todos os autores são da opinião que a via do capitalismo, associada
muitas vezes a consumo desenfreado, possa ser sustentável, como refere
Leonardo Boff (2012).
Segundo a ONU, o DS visa buscar o equilíbrio entre as necessidades
económicas e sociais da humanidade e a capacidade dos recursos da terra e
do ecossistema de atenderem às necessidades presentes e do futuro
(Brundtland, 1987). A Divisão sobre o Desenvolvimento Sustentável 86 (CDS) da
ONU, de forma clara, destaca em seus objetivos, que a “integração das
dimensões sociais, económicas e ambientais do desenvolvimento sustentável
faz parte da formulação de políticas quer ao nível internacional, regional e
nacional” 87 (DSD, 2010). Já o Instituto Internacional para o Desenvolvimento
Sustentável (IISD) das Nações Unidas (NU) afirma que “de forma geral é aceite
que o desenvolvimento sustentável conclama para a convergência entre os três
pilares do desenvolvimento económico, da equidade social e da proteção
ambiental” 88 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 2).
“Enquanto o desenvolvimento sustentável era suposto ter um lugar
institucional da Comissão sobre o Desenvolvimento Sustentável (CDS), isso
não foi aproveitado efetivamente pelos governos nacionais como um veículo
para implementação. O CDS centrou-se no ambiente e não tem promovido a
integração efetiva dos três pilares do desenvolvimento sustentável. Além disso,
outras instituições e processos — DMNU, um a proliferação de tratados
ambientais, instituições económicas globais fortes — tem monopolizado
diferentes partes do paradigma do desenv olvimento sustentável. Como
resultado, a mudança climática emergiu como uma aproximação de facto para
86 Divis ion on Sus tain able Dev elopment (DSD)
87 Traduzido do Ingl ês: “In tegration of the soc ial, econom ic and environ menta l dimension s of
sustainabl e development in policy - mak ing at i nte rnat ional , r egiona l and nat iona l lev els”
88 Traduzido do I nglês: “ It is gen erally a ccep ted tha t sustainable developm ent calls for a
convergence between the three pillars of economic development, social equity, and
environmental protecti on”
!
45 !
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abordar as questões de desenvolvimento sustentável” 89 (Drexhage & Murphy,
2010, p. 13) .
“Mais caminhos para o desenvolvimento sustentável são necessários
em países desenvolvidos e em desenvolvimento; o que requer um nível de
diálogo, cooperação e, mais importante, confiança, o que simplesmente não é
refletido atualmente nas instituições multilaterais ou regimes” 90 (Drexhage &
Murphy, 2010, p. 2). “Enquanto alguns argumentam que nós falhamos em
desenvolvimento sustentável, 20 anos é um período de tempo relativamente
curto para implementar as alterações necessárias em uma área tão
desanimadora. As mudanças sistémicas necessárias exigirá uma revolução na
forma de como o mundo faz negócios” 91 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 3). "A
recente crise financeira e o início do declínio de confiança no modelo de
liberalização e globalização podem significar alguma recetividade renovada
para um novo paradigma de desenvolvimento sustentável. Um novo modelo
poderia traçar um caminho de desenvolvimento que verdadeiramente se
preocupa com a equidade, a redução da pobreza, diminuindo a utilização dos
recursos e integrando as questões econômicas, ambientais e sociais nas
tomadas de decisão. A hora é propícia para ir além incrementalismo e
89 Traduzido do Inglês: “ While sustainabl e development was supposed to have an institut ional
home in the Commission for Sustainable Development, it has not been harnessed effectivel y by
national governments as a vehicle for implementati on. The CSD has focused on environment
and has not promoted effective integrati on of the three pillar s of sustainable development. In
addition, ot her instituti ons and processes — MDGs, a pr oli fer ation of envir onmenta l tre ati es,
strong global economic institutions — have cornered different parts of the sustainable
development paradigm. As a result, climate change has em erged as the de facto proxy for
addressing s ustainable dev elopment issues
90 Traduzido do Inglês: “ More sustainable development pathways are needed in both developed
and developing countries; which require a level of dialogue, cooperation and, most importantl y,
trust tha t simp ly is not reflecte d in tod ay’s m ultilat eral ins titutions or reg imes ”
91 Traduzido do Inglês : “ Whi le some wou ld ar gue that we have fa il ed on sus ta ina bl e
development, 20 years is a relatively short time frame to implement the requir ed changes in
such a daunting area. The needed systemic changes w ill require a revolution in the way the
worl d does busi ness”
!
46 !
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promover mudanças sistêmicas reais” 92 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 3).
Efetivamente “o termo desenvolvimento sustentável sofre de definições
ambíguas ou imprecisões (IPCC, capítulo 12.1.2). A opinião dominante dos
governos e das empresas é que desenvolvimento sustentável é o contínuo
crescimento económico feito de forma ambientalmente mais sensível de forma
a elevar os padrões de vida globalmente e quebrar a ligação entre pobreza e
degradação ambiental. Crescimento económico é visto como parte da solução,
e mercados e tecnologia irão produzir um mundo mais rico que é
ecologicamente mais estável” 93 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 10). O autor
ainda refere que os “países desenvolvidos aderem facilmente a esta visão, e
estão sendo seguidos pelas principais economias em desenvolvimento da
República da Coreia, China e Índia; onde o crescimento da riqueza está sendo
seguido por esforços para melhorar o desempenho ambiental. O Orçamento de
gastos em proteção ambiental da China para 2010 deverá elevar-se em mais
de 20 por cento, medidas de energia limpa na Índia superam 1 bilhão de
dólares, e cerca de 80 por cento do financiamento da Coreia é para estimular a
implementação de seu Green New Deal” 94 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 10) .
92 Traduzido d o Inglês: “The re cent fina ncial crisis an d the b eginning of the d ecline of tru st in the
libera lization and g lobaliza tion m ode l could mea n som e re n ewed receptivity for a new
sustainable development paradigm. A new mo del could chart a development path that truly is
concerned with equity, poverty alleviation, reducing resource use, an d integrating econom ic,
environmental, and social issues in decision - making. The opportunity is ripe to move beyond
increm enta lism to real s ystem ic cha nge”
93 Traduzido do Inglês: “the term susta inable dev elopme nt suffers from definitional am biguity or
vagueness (IPCC, chapter 12.1.2). The dominant view of governments and bu sinesses is that
sustainable developmen t is continued economic growth m ade more env ironmentally sensitive in
order to raise living standards globally and break the link between poverty and environmental
degradation. Economic growth is seen as part of the solution, and markets and technology will
produce a r icher worl d that i s more ecologi cally st able”
94 Traduzido do Inglês: “ Developed country adherence to this view is being matched by the
majo r dev elo pin g econ omie s of the Republi c of Kor ea, China , and In dia; where gr owing w ealth
is being followed by efforts to improve environmental performance. S pending on environmental
protecti on in China’s 2010 budget is project ed to rise by more than 20 per cent, clean energy
measu res in Indi a amou nt to over US$1 bi l lion, and close to 80 p er c ent of th e R epub lic of
Korea’ s sti mulus fundin g was di rect ed to the i mplementa tion of i ts Green New Deal”
!
47 !
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No entanto nem tudo corre da melhor forma, de tal modo que “alguns críticos
acusam a comunidade empresarial de usar o desenvolvimento sustentável
como uma forma de camuflar práticas ambientalmente destrutivas como verdes
— uma racionalização para o crescimento económico sem a devida
preocupação por questões ambientais ou sociais" 95 (Drexhage & Murphy, 2010,
p. 10) , e outros, tais como ONGs e académicos “argumentam que o
desenvolvimento sustentável não vai longe o suficiente para criar o estilo de
vida, consumo e mudanças comportamentais necessárias — que mudanças
radicais são necessárias no mundo económico. Os críticos da Deep Ecology
argumentam que o conceito de desenvolvimento sustentável é muito
antropocêntrica, e o paradigma do desenvolvimento sustentável não desafia
adequadamente a cultura de consumo” 96 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 10).
Para Drexhage e Murphy “conceito e a ideia de desenvolvimento
sustentável é amplamente aceito, e bons progressos têm sido feitos na
operacionalização do desenvolvimento sustentável; no entanto a
implementação do desenvolvimento sustentável tem sido um grande
insucesso" 97 (2010, p. 12). Muito deste insucesso se deve à dificuldade em
visualizar o DS como algo abrangente e global, que não diz respeito apenas às
questões ambientais ou económicas, e que a resolução passa pela interação
entre as três dimensões e não na sobreposição de um a sobre a outra. Muito
provavelmente as negociações sobre mudanças climáticas “poderiam
beneficiar de uma discussão alargada, que é informada pelo pensamento
95 Traduzido do Inglês: “S ome critics acc use the bus iness c omm unity o f using sustainab le
development as a way to paint environmentall y destructi ve practices gr een — a rational ization for
economic growth without due concern for environmental or social imperatives ”
96 Traduzido do Inglês: “ have argued that sustainabl e development does not go far enough to
create the required lifesty l e, consumption, and behavioural changes — tha t radical c hang es are
needed in the w orld’s economic order. “Deep ecology” critic s argue that the concept of
sustainabl e development is too hum an centric, and the paradigm of sustainable development
does not adequat ely chall enge the consumer culture”
97 Traduzido do Inglês: “Th e concep t a nd idea of sustaina ble develo pmen t is wid ely accepted ,
and good progress has been m ade on sustainable development metrics; yet the implementation
of sust ainable development has been lar gely unsuccessf ul”
!
54 !
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precedentes de riqueza, e rapidamente os países em desenvolvimento estão
seguindo o mesmo curso. O problema com essa abordagem é que os recursos
naturais estão em perigo iminente de esgotamento ou sua qualidade sendo
comprometida a ponto de ameaça à biodiversidade atual e ambientes
naturais” 107 (Drexhage & Murphy, 2010, p. 2).
Desde que Muhammad Yunus recebeu o prémio Nobel da Paz em 2006,
pela criação do Banco da Aldeia, a questão social tem vindo a ganhar espaço
nas discussões internacionais. Efetivamente Yunus (2010) fala -nos de uma
nova revolução, não a industrial, tecnológica ou económica, mas a social.
Aquela que poderá dissipar o fosso entre ricos e pobres, entre Norte e Sul,
entre países desenvolvidos e terceiro mundo, entre capitalismo e comunismo.
Um caminho que Yunus vê de forma diferenciada e onde o capitalismo pode (e
deve) existir, mas numa outra configuração.
Yunus conta que se envolveu neste projeto “porque a pobreza o rodeava
e ele não tinha como fugir” 108 (2007 ). Como professor em Bangladesh, sentia-
se inconformado em ensinar teorias elegantes de economia, enquanto a fome o
cercava. Algo precisava de ser feito e o economista sentiu-se “chocado ao
descobrir que uma mulher na vila, que adquiria emprestado menos de um dólar
com o agiota, sob a condição de que este teria o direito exclusivo a comprar
todos os produtos dela ao preço que decidisse. Isto para mim era uma forma
de recrutamento de trabalho escravo” 109 (Yunus, 2007). Yunus resolveu agir e
107 Traduzido do Inglês: “W hile susta inable de velopm ent is in tended to encom pass three p illars,
over the past 20 years it has often been compartmentalized as an environmental issue. Added
to this, and poten tially m ore lim iting fo r the s ustaina ble d evelop men t age nda is the re igning
orientat ion of development as purely economic growth. This has been the framewor k used by
developed countries in att aining their unprecedent ed levels of wealth, and major and rapidly
developing countries are foll owing the same course. The problem with such an approach is that
natural resour ces are in imminent peril of being exhausted or their quality being compromised to
an extent that t hreatens cur rent biodi versity and natural environments”
108 Traduzido do Inglês: “ I bec ame involve d beca use po verty w as all aro und m e, and I c ould no t
turn aw ay fro m it”
109 Traduzido do Inglê s: “I was sho cked to discover a wom an in the village, b orrowing less than
a dollar from the money - lender, on the conditi on that he would have the exclusive r ight to buy al l
she produces at the price he decides. This, to me, was a way of r ecruiting slave labour”
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com 27 dólares, cedido s a 42 mulheres, os primeiros passos foram dados. Os
pobres pagaram seus empréstimos pontualmente e aí nasceu o Banco para
Pobres (Banco Grameen ou Banco da Aldeia 110 ) em 1983 (Yunus, 2007) .
Segundo o autor “emprestar dinheiro aos pobres não era tão difícil como
geralmente se imaginava” (Yunus, 2010, p. 11) e seria um negócio viável,
então porque os banqueiros não viam esta oportunidade?
Banco Grameen atendeu mais de 8 milhões de indianos em Bangladesh
(até 2010), sendo 97% mulheres (Yunus, 2010), através da “geração de renda
livre de garantia empréstimo de habitação, empréstimo para estudantes e a
micro empresas de famílias pobres e oferecendo uma série de poupanças,
fundos de pensão e produtos de seguros atrativos a seus membros” 111 (Yunus,
2007) .
No entanto a questão central do banco gira em torno da mulher.
Inicialmente havia paridade entre homens e mulheres, mas rapidamente
apercebeu-se que através das mulheres os benefícios repassados à família
eram maiores. Afinal o usufruto do empréstimo serv ia para atender as
necessidades de todos, diminuindo por conseguinte os índices de pobreza em
Bangladesh (Yunus, 2010). Provando-se portanto que pobreza é criada por um
sistema, organizações e conceitos pré-concebidos e não pelas pessoas pobres
(Yunus, 2010).
Yunus (2007) refere ainda que mais de 58% dos mutuários do banco
saíram da linha da pobreza graças a condições justas e adequadas à
sobrevivência e pagamento das suas dívidas. Inclusive mendigos foram
atendidos pelo Banco da Aldeia, sendo que mais de “18.000 pedintes deixaram
de se dedicar à mendicidade” (2010, p. 12). Para o autor “deveria ser atribuído
ao crédito o estatuto de direito humano” (2010, p. 15), pois só assim muitos
poderiam sair da miséria graças ao seu próprio esforço e não através da
caridade.
110 Grame en Bank or Village Bank
111 Traduzido do Inglês: “gives collatera l - free inco me g enera ting, ho using , s tuden t a nd m icro -
enterpri se loans to the poor families and off ers a host of attracti ve savings, pension funds and
insura nce p roduc ts for its mem bers ”
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Mas se engana quem pensa que Yunus é contra o capitalismo (“sou a
favor do fortalecimento do mercado livre” 112 (Yunus, 2 007)). Pelo contrário , este
defende que “muitos dos problemas mundiais [como fome, pobreza e falta de
assistência médica] existem por causa das restrições impostas ao mercado
livre” 113 (Yunus, 2007). E convida o empresário a mudar o seu perfil de ação,
deixando de se focar somente na maximização do lucro mas também em fazer
o bem para as pessoas e o mundo, afinal “os seres humanos não são robôs
programados unicamente para fazerem dinheiro” (Yunus, 2010, p. 17) . Com
esta mudança, abrir-se-ia espaço para o nascimento de empresas sociais que
se dedicariam “à resolução de problemas sociais, económicos e ambientais
que há muito atormentam a humanidade - a fome, a falta de habitação, a
doença, a poluição, a ignorância” (Yunus, 2010, p. 9) .
A possibilidade de existirem empresas sociais, autossustentáveis e
orientadas para o lucro (mas que ninguém fica com ele) ou para o lucro zero,
em que “tudo se faz para o benefício dos outros e nada em benefício dos seus
proprietários – exceto o prazer de servir a humanidade” (Yunus, 2010, p. 19) ,
seria uma forma de solidariedade que atrairia muitos investidores. O autor
defe nde este caminho como saída para os jovens de países ricos que se
sentem desanimados e frustrados com o capitalismo de mercado existente,
onde o socialismo surgiu como uma esperança pela qual valia a pena lutar, na
busca do mundo perfeito que estes sonham e anseiam construir, mas que no
entanto não deu frutos (Yunus, 2007).
Talvez as empresas tradicionais e com fins lucrativos possam conviver
em harmonia e equilíbrio com empresas sociais autossustentáveis. E desta
forma o mundo poderia tornar-se num lugar melhor, mais justo, equitativo e que
todos poderão se sustentar. Afinal as empresas sociais visam não apenas a
oferta de produtos e serviços orientados para os mais carentes, mas também a
oportunidade de se criarem mais postos de trabalho.
Se existem empresas privadas orientadas para o atendimento dos mais
112 Traduzido do Ingl ês: “ I am in fa vour o f streng thening the free dom of the m arke t.”
113 Traduzido do Ingl ês: “ Many of the wor ld' s pr oble ms exi st becau se of thi s re str ict ion on the
players of free - ma rket ”
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ricos e/ou classe média, e um atendimento público muitas vezes ineficiente e
que não chega ao restante da população, então “o grande fosso entre os dois
tipos de serviço pode ser ocupado por empresas sociais” (Yunus, 2010, p. 24) .
Efetivamente a Ásia (em especial Índia e Bangladesh) parece assentar num
tipo capitalismo não muito usual, onde negócios de pequena escala e voltados
para os mais pobres são comuns. Veja-se o exemplo de um casal de médicos
indianos que resolveu inovar criando um hospital ‘low cost’ onde são cobrados
3 € por consulta e 140 € por cirurgia, e já planejam abrir outro hospital (Biswas,
2015) . Ou as empresas sociais como BRAC 114 , que atende milhões de pobres
no Mundo, seja através dos serviços de agricultura, educação, saúde ou
bancários (Bangladesh Rural Advanced Committee (BRAC), 2015b), sendo
considerado um empreendimento social extraordinário, seja por notáveis como
Amartya Sen (prémio Nobel da economia em 1998), Bill Gates ou Bill Clinton
(Bangladesh Rural Advanced Committee (BRAC), 2015a). Ou ainda a PDA 115 ,
na Tailândia, que as três empresas sociais são mencionadas por Shahanz &
Ming em seu artigos sobre ‘Social Interprise in Asia: Context and Opportunities’.
Mas Yunus (2007) vai mais longe ao sugerir a criação de um Mercado
de Ações Sociais 116 , separado de forma a facilitar o investimento em empresas
sociais, onde até os p obres poderiam investir. E assim, graças “ao conceito de
empresa social, os cidadãos não têm de deixar todos os problemas nas mãos
do governo (e depois passar a vida a vida a criticar o governo por não os
resolver)” (2010, p. 27), poderia desta form a o novo empresariado (social)
suprir necessidades locais, das quais os governantes não atendem ou
desconhecem.
A ideia de um Mercado de Ações Sociais é recente. Lançado em 2013 o
Impact Exchange 117 é uma Social Stock Exchange 118 em grande escala e que
permite o comércio e em issão de ações e títulos a empresas sociais em todo o
114 Banglades h Rural Advanced Committe e
115 Population and Community Development Associati on
116 Social Stock Exchange
117 Merca do de A ções de Imp act o
118 Merca do de A ções Soc iai s
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mundo (Shahnaz, 2014a) . Segundo Shahnaz (2014a) um a solução para os
problemas sociais seria o uso de Retail Impact Bond (R IB) no Social Stock
Exchange. Os RIBs podem criar um mercado líquido para investimentos
privados que geram valor social e ambiental, e assim o cenário muda de uma
oportunidade de ‘nicho’ para um ‘veículo de mercado de massa’ (Shahnaz,
2014b) . Segundo a autora esta mudança promove alterações de raiz no
mercado de capitais, promovendo uma maior democratização do mercado,
assim como trazer alguma equidade e sustentabilidade ao meio (Shahnaz,
2014b) .
Serão ONG’S, Fundações e Organizações de Beneficência e Empresas
Sociais a mesma coisa?
Segundo Yunus sim, afinal “depender de donativos não é uma forma
sustentável de gerir uma organização” (2010, p. 34), fora o custo e dispêndio
de energia com a organização de eventos para angariação de fundos. Para
além disso, os benefícios proporcionados pela empresa social são maiores no
que concerne à dignidade humana e à autonomia. Já as ONG’s, fundações e
organizações de beneficência tornam os pobres dependentes da caridade e
não estimula a assumirem o controlo da situação (Yunus, 2010). A visão de
Yunus se baseia no ditado popular ‘não dês peixe, ensina a pescar’, pois ao se
darem condições para os mais pobres se autossustentarem em vez de viverem
de caridade, ou criarem-se empresas sociais em vez de se manter ONG’s
através de peditórios, estar-se-á a promover uma sociedade ativa e não
passiva, que busca o que é melhor para si e para os que estão ao seu redor.
Mas se engana quem pensa que Yunus é contra estas instituições, “há lugar no
nosso mundo para a caridade, assim como há lugar para a empresa social”
(2010, p. 35).
Mas para tal é necessário que se verifique se as empresas sociais são
viáveis. Yunus diz que sim e refere alguns exemplos no seu livro A em presa
social , e alerta que “uma empresa socia l tem de ser em prim eiro lugar uma
empresa” (2010, p. 151). Uma que não vise o lucro para seus investidores, pois
isso se oporia “à causa social absoluta” (2010, p. 40) a qual está inerente à sua
existência e sobrevivência.
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Para Yunus (2010) é necessária uma mudança de pensamento, pois o
Estado-Providência que os Europeus sempre desfrutaram está em colapso, e o
governo Americano tem dificuldades em resolver problemas sociais de raiz,
logo a empresa social poderá ser o mecanismo para se acabar com o fosso
entre pobres e ricos. A não ser claro que se aceite o facto de que sempre
haverá pobres e que a pobreza faz parte do destino da humanidade. Dessa
forma a realidade jamais se alterará, m as se “acreditarmos firmemente que a
pobreza é inaceitável, e que não pode fazer parte de uma sociedade civilizada,
então estaremos criando políticas e instituições apropriadas para a eliminação
da pobreza no mundo” 119 (Yun us, 2007), e no futuro esta só será visível em
museus.
Mas não é apenas Yunus que se preocupa com as questões sociais, Anil
G. Kupta, professor universitário e fundador da Honey Bee Network (2010)
promove a conversão do conhecimento popular inovador em produtos viáveis
comercialmente (talvez por isso a Índia registe 679 patentes enquanto o Brasil
fique pelas 103 (Albuquerque, 2010)). Países como a Índia poderão estar
preocupados com a viabilidade económica, mas o desenvolvimento não se
mede apenas em rupias e as questões sociais são cada vez mais importantes
nos países emergentes, em especial dentro dos BRICS.
Se as questões económica e ambiental têm sido o foco de muitas ações
no século XXI, o mesmo não acontece com a social. Lomborg (2002) alerta-nos
para a discrepância entre os gastos (gigantescos) com problemas ambientais
comparativamente ao investimento (parco) no social, “não é dizer que o
aquecimento global não está a acontecer, não significa que este não seja um
grande problema, mas dizer que o que podemos fazer é muito pouco a um
custo muito elevado. A questão é gastar muito para obter pouco, ou seja
investir muito dinheiro e o retorno ser pequeno. Com metade do dinheiro gasto
com o Quioto poderíamos resolver metade dos grandes problemas mundiais” 120
119 Traduzido do Inglês: “ If w e firm ly be lieve th at pov erty is unac cepta ble to us, a nd th at it
should not belong to a civilized society, we would have built appropri ate inst itut ions and polic ies
to crea te a po verty - fre e wor ld”
120 Tradução l ivre
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(Bjorn Lomborg Conference em Ted Talks, 2007)). Os problemas a que
Lomborg se refere são justamente os sociais, “800 milhões de pessoas
morrendo de fome, 1 bil hão com falta de água potável, 2 bilhões sem
saneamento básico, 2 milhões morrem de SIDA todos os anos, 175 milhões
são emigrantes internacionais, 940 milhões são adultos analfabetos” 22 (Bjorn
Lomborg Conference em Ted Talks, 2007).
Porém o olhar dos problemas da ótica economicista poderá não ser a
melhor solução, o Papa Francisco alerta para que “sempre se deve recordar
que ‘a proteção ambiental não pode ser assegurada somente com base no
cálculo financeiro de custos e benefícios’ ” (Papa Francisco, 2015, p. 59).
Bjorn Lomborg foi diretor do Denmark’s National Environmental
Assessment Institute 121 , professor na Copenhagen Business School, diretor do
Copenhagen Consensus Center 122 e é considerado pela revista TIMES uma
das 100 pessoas mais influentes no mundo. No entanto , o autor não é muito
querido entre ambientalistas, os quais lhe tecem críticas ferozes. O seu
posicionamento poderá ser essencial, em especial se lev armos em
consideração a visão de DS da Triple Bottom Line e não apenas as questões
ambientais. Equacionar as vantagens e desvantagens de determinadas opções
e assim prioriza r-se quais e que recursos económico s mundiais devem ser
canalizados para determina da s ações ambientalistas ou investidos em políticas
sociais poderá ser o diferencial deste autor. Afinal qual deverá ser a prioridade,
o planeta ou a sociedade?
Claramente toda a sua análise (expressa nos livros Cool it ou The
Skeptical Enviromentalist ) se b aseia na relação custo-benefício, o que por si só
poderá ser questionável. M as Lomborg (2008) não fica por aqui e nos
apresenta soluções simples, menos onerosas e que segundo o mesmo são
mais eficientes do que as políticas acordadas pelo Tratado de Quioto (acordos
esses muitas vezes incumpridos ou relegados para segundo plano). O foco de
Lomborg está mais orientado para os aspectos sociais e económicos, pois
121 Diret or d o In stit uto Nacio nal de Ava liaç ão Ambi ental da Dinamar ca
122 Consenso de C openhaga – que reune os melhores economistas do mundo, incluindo 7
loure ados p elos P rém io No bel, de form a a de finirem as pr ioridad es pa ra o m undo .
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acredita que o investimento em ações que levem as populações menos
desenvolvidas a sair da miséria trarão mais benefícios ao planeta do que os
cortes de CO2 ou com política climática (2008). Efetivamente parece que os
países mais desenvolvidos estão mais preocupados em melhorar o meio
ambiente que os rodeia (e muitas vezes danificados no passado ou no
presente pelos mesmos) obrigando os países em desenvolvimento e
subdesenvolvidos a desacelerarem seu crescimento, do que com a miséria e
falta de humanismo que o sistema vigente promove para com as nações mais
pobres e mais exploradas.
A política do medo que nos rodeia, e que é bem destacada por Zygmund
Bauman e Leonidas Donskis (20 14) , parece estar ditando o tom de debate a
nível político e este talvez esteja se alastrando para as questões ambientais
(Lomborg, 2002). Efetivamente Zygmund Bauman e Leonidas Donskis alertam
que numa sociedade líquida moderna “disseminar as sementes do medo
resulta em grandes colheitas em matéria de política e comércio” (2014, p. 126) .
A propagação do medo parece ser uma ferramenta cada vez utilizada no
século XXI, afinal ela permite ‘vender’ o seu produto, seja o candidato ou bens
materiais, pois é uma excelente estratégia comercial.
Lomborg afirma que a opção por soluções tecnológicas poderá ser uma
melhor resposta (nesta análise de custo-benefício) do que as ações onerosas
propostas no Tratado de Quioto. Efetivamente “a cultura tende a rejeitar a
possibilidade de limites dispensando uma profunda fé nos poderes da
tecnologia, nas atividades de um mercado livre e no crescimento da economia
como panaceia para todos os problemas, até para os problemas criados pelo
crescimento” (Meadows et al., 2008, p. 203) . No entanto o Clube de Roma
alerta que “um avanço tecnológico impressionante – ou mesmo suficiente – é
concebível, mas somente como resultado de determinadas decisões sociais e
de uma disposição de completá-las com ações e recursos” (Meadows et al.,
2008, p. 204) .
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62 !
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1.2 O M OVIMENTO O LÍMPICO
O Nascimento da Família Olímpica
Os primeiros passos para a concretização de um sonho foi dado a
janeiro de 1894 quando Coubertin “divulgou uma carta por todo o mundo em
que anunciava a realização de um Congresso Internacional cuja ordem de
trabalhos seria a discussão acerca das questões relativas ao amadorismo e
aos critérios de elegibilidade dos atletas que era uma das questões que mais
preocupava os prosélitos do desporto” (Pires, 2014a, p. 5). No entanto seus
ideais eram superiores e buscava com este congresso conseguir apoios para o
desenvolvimento de um projeto que de quatro em quatro anos pudesse reunir
os atletas “sucessivamente nas grandes capitais mundiais para aí lutar com
força e destreza e disputar o ramo simbólico” (Coubertin, 2009, p. 41), os Jogos
Olímpicos da Era Moderna. Este era o começo de uma caminhada que
resultaria na formação do Comité Olímpico Internacional, na realização dos
Primeiros JO da Era Moderna e o nascimento do Movimento Olímpico.
Mas chegar até aqui não era tarefa fácil. Após Coubertin estudar e
analisar três sistemas diferentes nas suas tendências e processos (Berlim,
Estocolmo e Londres), ele concluiu que os exercícios físicos propostos pelas
três grandes metrópoles do mundo moderno se resumiam a três palavras:
guerra, higiene e desporto. Ademais o mesmo se vê perante uma França “de
verdadeira inércia física” (Coubertin, 2009, p. 11) enquanto que o império
alemão difundia o atletismo militar (fundada numa disciplina rigorosa)
(Coubertin, 2009, p. 15), a ginástica sueca buscava “o suave equilíbrio entre
corpo e alma” (Coubertin, 2009, p. 19) e a Inglaterra apostava no esforço como
um culto desinteressado (Coubertin, 2009) .
É então, na Inglaterra, que Coubertin busca inspiração, não apenas em
Thomas Arnold ou na prolixidade de desportos no seio das grandes
universidades inglesas ou ainda na multiplicação das associações desportivas,
como também num país coberto por campos de jogos onde os ‘desportos
ingleses’ proliferavam (Coubertin, 2009). Era no desporto que o Barão buscava
inspiração, um desporto que aliava espírito e músculos e que era “tão velho
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63 !
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como o mundo” (Coubertin, 2009, p. 25) e que não pertencia apenas aos
ingleses (Coubertin, 2009).
A família Olímpica nascia pelas mãos de Pierre Coubertin com o objetivo
de cortar com os modelos gímnicos e apresentar um “novo paradigma, o
desportivo, centrado nos valores da competição justa, nobre e leal, da tradição
da Grécia antiga” (Pires, 2014a, p. 1) .
Segundo Pires (Pires, 2014a, p. 3) “todos os movimentos de Educação
Física (EF) eram animados por preocupações rácicas, patrióticas, militares,
higiénicas e educativas. Por isso o Movimento Olímpico, enquanto nova
filosofia de vida centrada nos valores da educação, da cultura e do desporto
teve como objetivo mais profundo ultrapassar a enorme crise de degenerência
em que os franceses se encontravam [...] ”, e a ssim conseguir juntar à m esma
mesa países beligerantes, convencendo-os de que seria possível “transferir
para os campos de luta competitiva d o desporto as disputas políticas” (Pire s,
2014a, p. 4) e bélicas da época.
“Para Coubertin os JO simbolizavam a busca da superação e da
excelência que devia caracterizar a cultura de competição do MO que ele não
via desenvolver na EF, antes pelo contrário” (Pires, 2014a, p. 5). Até porque
para os adeptos da EF a competição “atentava contra as boas prá ticas
pedagógicas pelo que, a todo o custo, era necessário evitar que os alunos
fossem submetidos aos confrontos (im)próprios da competição desportiva “
(Pires, 2014a, p. 5).
Mas o Barão tinha algumas preocupações relativas ao amadorismo vs.
profissionalismo e na maneira como se entende e organiza o desporto no Norte
e no Sul (Coubertin, 2009). Relativamente à primeira o autor é pragmático ao
afirmar que o “desporto não só não conseguirá produzir os seus benefício
morais como não resistirá se não for fundado no desapego de interesses, na
lealdade e nos sentimentos cavalheirescos” (Coubertin, 2009, p. 27), mas sem
antes deixar um alerta:
“É completamente aberrante recusar a um operário a
condição de amador e comparar o trabalho manual
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70 !
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atletas e dirigentes que participam nos Jogos, os custos de logística e
subsídios dados aos NOCs para sua participação nos Jogos, com base no
número de atletas que participem das competições" 141 (International Olympic
Committee, 2013e, p. 4) .
A Noção de Olimpismo e Olimpíada
“O termo 'Olimpismo' foi primeiramente cunhado pelo fundador dos
Jogos Olímpicos modernos, o Barão Pierre de Coubertin" 142 (Chatziefstathiou,
2005, p. 13) . E le “desenvolveu a filosofia do Olimpismo ao longo da sua vida e,
desde então, continuou a evoluir através da interpretação daqueles que tinham
a responsabilidade pela direção do Movim ento Olímpico de uma Olimpíada
para a outra" 143 (Miah & Garcia, 2012, p. 33) . A "Visão multicultural de
Coubertin sobre Olimpismo tinha uma construção específica baseada na
pretensão da universalidade dos Jogos e do Movimento Olímpico" 144 (Abreu,
2002, p. 203) .
O objetivo do Olimpismo “é coloca r o desporto ao serviço do
desenvolvimento harmonioso da humanidade, visando promover uma
141 Traduzido do Inglês: “Olympic G ame s S ubsidies programme is intended to help NOCs
partici pate in the Gam es of the Olympiad and the Olympic Winter G ames. The financial
assistance provided has two quite differ ent yet com plementary objectives: to help foster the
universal spirit of the Olympic Ga mes by guar ant eein g the part icipa ti on of all NOCs, and to giv e
additional support to NO Cs which contribute partly to the development and success of the
Games. This fi nanci al as sist ance is g iven in t hree phases - before, dur ing and after the Games -
and, among other things, covers the travel costs for a num ber of athletes and offici als taking
part in the Games, logist ics costs and the subsidy gi ven to the NOCs for their part icipati on in the
Games, based on the number of athl etes who a ctual ly tak e par t i n t he competitions”
142 Traduzido do Inglês: “The term ‘Olym pism’ w as first coined b y the founder of th e m odern
Olympi c Game s, B aron Pier re d e Coube rti n”
143 Traduzido do Inglês: “ developed the philosophy of Olympism over his lifetime and it has,
ever since, continued to evolve through the int erpretati on of those who have had the
respon sibility for steering th e Olym pic move men t from one Olympia d to the nex t”
144 Traduzido do In glês: “Coubertin’s multicu ltural vision of Oly mpism had a sp ecific con struction
based on the pr etence of the univers ality of the Games and the Olympic Movement”
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71 !
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sociedade pacífica e preocupada com a preservação da dignidade humana” 145
(International Olympic Committee, 2014f, p. 11) . P ara tal o Olimpismo deve ser
encarado com uma filosofia de vida que combina desporto com cultura e
educação e que visa promover o prazer pelo esforço, o bom exemplo,
responsabilidade social e o respeito pelos princípios éticos universais
(International Olympic Committee, 2014f, p. 11).
Na interpretação de Dikaia, Loland “argumenta que o Olimpismo, do
ponto de vista da história das ideias, tem quatro objetivos principais: a) educar
e cultivar o indivíduo através do esporte, b) cultivar a relação dos homens (sic)
da sociedade, c) promover a compreensão e a paz internacional e d) adorar a
grandeza humana e suas possibilidades” 146 (Loland segundo a interpretação de
Chatziefstathiou, 2005, p. 14).
O espírito Olímpico consi ste na luta contra qualquer forma de
discriminação, na promoção pela compreensão mútua associado ao espírito de
amizade, solidariedade e fair play (International Olympic C ommittee, 2014f, p.
11) .
Efetivamente a “ideia de combinar desporto e desenvolvimento não é
nova. O fundador do COI e do restau ro dos Jogos Olímpicos da Era Moderna,
Pierre de Coubertin, foi, no seu tempo, um forte defensor da cooperação
internacional e de valores sociais e humanos do desporto. Baseado neste
compromisso de longa data como uma organização socialmente responsável, o
COI está envolvido no desenvolvimento desportivo a nível de base, com o
objetivo de aum entar o acesso tanto à atividade física em todo o mundo como
145 Traduzido do Inglês: “is to place s port at the servic e o f the ha rmon ious deve lopmen t o f
humankind, with a view to promoting a peaceful society concerned with the preservation of
human d ignity”
146 Traduzido do Ingl ês: “has a rgued that O lympis m, from the pers pective of the history of ide as,
has four main goals: a) to educate and culti vate the individual through sport, b) to culti vate the
relation o f men (sic) in s ociety, c) to prom ote inter national understandi ng and peace, and d) to
worshi p hu man gr eatnes s and poss ibil ity ”
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72 !
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em melhorar o bem-estar social e humano em geral” 147 (International Olympic
Committee, 2013c, p. 1).
Relativamente aos JO, estes são compostos por um intervalo
denominado de Olimpíada que consiste “num período de quatro anos
consecutivos do calendário, começando no 1º de Janeiro do primeiro ano e
terminando no dia 31 de Dezembro do quarto ano” (International Olympic
Committee, 2014f, p. 21) . O termo vem da tradição grega e se refere ao tempo
que os atletas tinham para se prepararem para as competições (Miah & Garcia,
2012, p. 16). No entanto o COI tem utilizado Olimpíada para se referir aos
Jogos Olímpicos d e Verão (JOV) (ex.: Jogos de Londres de 2012 são
denominados de XXX Olimpíada ) , mas o termo não se usa nos Jogos de
inverno (ex.: Sochi 2014 é denominada como o XXII Jogos Olímpicos de
Inverno) (Miah & Garcia, 2012, p. 16).
A noção de Quadriénio Olímpico é diferente de Olimpíada , pois este
começa no dia 1 de janeiro do ano a seguir ao fim dos JOV e termina no dia 31
de dezembro do ano dos JOV (ex.: Londres 2012, ano Olímpico: começou a 1
janeiro de 2009 e terminou a 31 de dezembro de 2012) (Miah & Garcia, 2012,
p. 17) .
Os Jogos Olímpicos e suas variantes
Os Jogos Olímpicos da Era Moderna sã o os “maiores e o mais
bem -sucedido evento desportivo no mundo, e se tornaram no ponto alto na
carreira de muitos atletas” 148 (Furrer, 2002, p. 2). No entanto a grande diferença
entre JO e outros eventos desportivos é que o primeiro coloca um grande
ênfase nas bases ideológicas do MO, o que aparece refletido no movimento
social e numa ‘filosofia de vida’, que está circunscrita à própria Carta Olímpica
(Miah & Garcia, 2012, p. 11). Segundo a análise de Miah e Garcia (2012) , tal
147 Traduzido do Inglês: “The idea of combining sport and development is not a new one. The
found er o f the IOC and revive r of the m ode rn O lymp ic Ga mes , Pier re de Co ubertin , was alre ady
in his tim e a s trong a dvoc ate of internat ional co oper ation a nd of th e soc ial and h uma n valu e s of
sport. Based on this long - time comm itmen t as a socia lly resp onsib le orga nisatio n, the IOC is
engaged in sports development at grass - roots lev el, ai ming to both in crea se acce ss to phys ica l
activi ty worldwide and to i mprove social and human wellbeing at large”
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73 !
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ênfase coloca os JO m ais perto de outros eventos não desportivos, como as
Feiras de Ex ibição Mundial, sendo que o MO vai além do desporto, pois como
lembram os autores, Samaranch instituiu o Museu Olímpico e Jacques Rogge
lançou os Jogos Olímpicos da Juventude (JOJ) (2012, p. 11), buscando assim
agregar outros valores para além dos desportivos.
Inicialmente os Jogos eram apenas uns, os Jogos Olímpicos, mas em
1924 é introduzido os Jogos Olímpicos de Inverno (JOI) e os outros passam a
denominar -se de Jogos Olímpicos de Verão (JOV) (Miah & Garcia, 2012, p.
15) . Mais tarde são introduzidos os Jogos Paraolímpicos de Verão (JPLV) e os
de Inv erno (JPLI). Já em 2010 surgem os primeiros Jogos Olímpicos da
Juventude de Verão (JOJV) e em 2012 os de Inverno (JOJI) (Miah & Garcia,
2012, p. 15) . Os JOV e os JOI ocorreram no mesmo ano entre 1924 e 1992,
depois passaram a ser realizados em anos pares, mas de forma alternada (ou
seja de 2 em 2 anos ocorria um dos eventos, ora de inverno ora de verão). A
partir dos JOV de 1988 em Seul, todos os Jogos Paraolímpicos passaram a ser
disputados na mesma cidade e recorrendo às mesmas instalações que os JO.
Já os JOJ decorrem no mesmo ano dos JO, sendo que no ano que ocorrem os
JOI teremos os JOJV, e vice-versa. Porém esta regra só se aplica até 2 023,
quando entrará em vigor o novo sistema de alternância de Jogos e por
conseguinte todos os anos teremos JO (sejam eles de verão ou Inverno,
regulares, paraolímpicos ou da juventude) (International Olympic Committee,
2014b) .
Os Jogos de verão são de maiores dimensões, com mais atletas, com
maior pa rticipação de CONs, mais media e maiores patrocínios (Miah & Garcia,
2012, p. 15) que os de Inverno. No entanto alguns membros do COI já
propuseram que alguns esporte dos JOV (em especial os ‘indoor’) passassem
para os JOI, assim haveria um maior equilíbrio entre os Jogos, tal como se
evitaria o Gigantismo dos mesmos.
148 Traduzido do Inglês: “ larges t an d m ost suc cessfu l sp orting ev ent in the world , a nd has
become the pinnac le of most athletes’ careers”
!
74 !
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Os Parceiros Olímpicos 149
“Sob a autoridade suprema e liderança do Comité Olímpico
Internacional, o Movimento Olímpico engloba organizações, atletas e outras
pessoas que concordam em se guiarem pela Carta Olímpica” 150 (International
Olympic Comm ittee, 2014f, p. 15). O COI é assim o guardião dos valore s
Olímpicos e todos que anseiam pertencer ao MO precisam de estar em
“conformidade com a Carta Olímpica e serem reconhecidos pelo COI” 151
(International Olympic Committee, 2014f, p. 12) .
As três principais instituições que compõem o MO são o COI, FIs e os
CONs, mas além destes as “C omissões Orga nizadoras d os Jogos Olímpicos
(COJOs) as associações nacionais, clubes e pessoas pertencentes ao FIs e
NOCs, particularmente os atletas, cujos interesses constituem um ele mento
fundamental da ação do Movimento Olímpico, bem como os juízes, árbitros,
treinadores e outros dirigentes desportivos e técnicos” 152 (International Olympic
C ommittee, 2014f, p. 15) fa zem parte da família Olímpica (figura 3).
Cerca de 90% do que o COI amealha com a promoção e divulgação dos
diferentes JO é repartido pelos seus parceiros, ou seja pel as NOCs, FIs e
COJO (Miah & Garcia, 2012, p. 19).
149 Olympi c St akehol ders
150 Traduzido d o Inglês: “Und er the s uprem e auth ority and leaders hip of th e Intern ational
Olympi c Committe e, the Olympi c Movement encompass es organi sati ons, athl etes and other
persons who agr ee to be gui ded by the Olympic Charter”
151 Trad uzido do Inglês: “Belonging to the O lympic M ovem ent re quires com pliance with the
Olympi c Ch arter and rec ognit ion by t he IOC”
152 Traduzido do Inglês: “Organising Comm ittees for the Olym pic G ames (OCO Gs), th e nation al
associati ons, clubs and pers ons belonging to the IF s an d NO Cs, particula rly the athlete s, wh ose
intere sts constitu te a fu ndam enta l e leme nt of the O lym pic Movem ent ’s a ction, as well as the
judg es, re feree s, coa che s and the o ther s ports officia ls an d tec hnici ans”
!
75 !
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Figura 3 - Família Olímpica e seus Parceiros
(adaptado da apresentação de Philippe Furrer realizada no 21º IAKS
Congresso em Colónia, a 30 de Outubro de 2009, Furrer, 2009)
O Papel e Importância dos Congressos e Sessões Olímpicas 153
Até final de 2014 foram realizados 12 Congressos do COI e 127
Sessões Olímpicas.
Os Congressos “mais recentes aconteceram em Varna (Bulgária) em
1973, Baden-Baden (Alemanha), em 1981, Paris (França) em 1994 e
Copenhaga (Dinamarca) em 2009. Além dos membros do COI, os CONs e as
FIs, outros participantes são convidados e selecionados pelo COI para o
Congresso. Geralmente incluem-se os representantes das partes interessadas
mencionados acima, além de representantes dos Estados-Membros, ONGs e
academia, bem como organizações tais como o Tribunal de Arbitragem para o
153 Olympi c Cong ress e I OC Sess ions
!
76 !
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Esporte ou a Agência Mundial Anti- Doping” 154 (Chappelet, 2011, p. 324) .
Já as Sessões Olímpicas consistem em reuniões de membros do COI
que adoptam, modificam e interpretam a Carta Olímpica, e suas decisões são
finais (International Olympic Committee, 2015c, p. 1). Embora durante as
Sessões Olímpicas os delegados possam delegar poderes ao Conselho
Executivo, as decisões mais importantes são tomadas em Sessões Olímpicas
pelos seus membros, que são ‘ parlamentares’ do COI (International Olympic
Committee, 2015c, p. 1). As sessões decorrem pelo menos uma vez ao ano e
nos anos de JO estas decorrem preferencialmente após os mesmos (“Uma
Sessão do COI é realizada apó s o Congresso a fim de tomar, se necessário,
quaisquer decisões que revelarem-se necessárias" 155 (Chappelet, 2011, p.
324) . No entanto, Sessões extraordinárias podem ser convocadas
(International Olympic Committee, 2015c, p. 1).
Durante as Sessões do COI são (International Olympic Committee,
2015c, p. 1):
• Eleitas as cidades anfitriãs aos JO, com 7 anos de antecedência;
• Eleitos os membros do Conselho Executivo, assim como Presidente
e Vice-Presidente do COI;
• Discutidas e decididas as modificações à Carta Olímpica;
• Decididas a inclusão ou exclusão de determinados desportos no
Programa Olímpico;
• Tomadas decisões quanto ao reconhecimento (e exclusão) de FI,
CON e outras organizações esportivas;
• Decididas as cidades que acolherão as próximas Sessões Olímpicas
do COI e
154 Traduzido do Inglês: “The m ost recent of them to ok place in Varna (B ulgaria) in 1973,
Baden - Baden (Germany) in 1981, Paris (France) in 1994 and Copenhagen (Denmark) in 2009.
Beyond the IOC members, the NOCs and the IFs, other parti cipant s are invited to the C ongre ss
as select ed by the IOC. G enerall y included are represent atives of the stakeholders mentioned
above, plus representat ives of states, NGOs and academia, as well as organizations such as
the C ourt of A rbitration for Spo rt or the World Anti - Dopin g Agency“
155 Traduzido do Ingl ês: “ An IOC Session is hel d after the Congress i n order t o take, i f
necessary, any decisions that pr ove necessary”
!
77 !
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• Aprovadas as contas e relatórios do COI.
O Processo de Candidatura Olímpica (BID)
Segundo Essex & Chalkey (2004a) o processo de candidatura Olímpica
se inicia 8 anos antes dos Jogos através dos CONs interessados e deve contar
com o apoio do governo local, sendo que cada nação só pode apresentar um
candidato. Cada cidade concorrente deve apresentar um cadernos de
candidatura 156 referindo como os critérios de COI irão ser cump ridos. A votação
(secreta) é levada a cabo 6 ou 7 anos antes dos Jogos e sob a forma de
rodadas, ou seja os candidatos com menos v otos vão sendo descartados a
cada votação até que haja um vencedor por maioria absoluta. Quando uma
cidade é selecionada, uma Comissão de Coordenação do COI 157 é formada
para auxiliar a Comissão Organizadora Local no planeamento, construção e
implementação, e depois um contrato é assinado entre as partes. Além disso,
os JOI e de Verão não podem ocorrer no mesmo país, dentro do período de 4
anos de cada Olimpíada.
Efetivamente “cada cidade sede é diferente e tem diferentes prioridades,
o COI encoraja cada uma a definir seus próprios objetivos, estratégias de longo
prazo e visão, desde o início do processo de candidatura, e considerar como os
Jogos podem ser um catalisador para o desenvolvimento” 158 (International
Olympic Committee, 2013f, p. 1) local. No entanto o COI também presta
serviços de apoio às “cidades, fornecendo-lhes acesso à enorme quantidade
de informação que está disponível através da plataforma de Gestão de
Conhecimento dos Jogos Olímpicos (OGKM) do COI” 159 (International Olympic
Committee, 2013f, p. 1) . As cidades candidatas têm acesso a dois programas
156 Bid Book
157 IOC Coo rdination Com miss ion
158 Traduzido do Inglês: “every host city is differen t and has d ifferent prioriti es, the IOC
encourages each one to define its own objectives, long - term strategy and vision from the
beginning of the bi d process and to look at how the Games can be a catal yst for development”
159 Traduzido do Inglês: “The IOC also assists cities by providing them with access to the
enormous am ount of information that is available through the IOC’s Olympic Gam es Know ledge
Manag ement ( OGKM) pl atf orm”
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78 !
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que os ajudam no planeamento e preparação da candidatura, o Programa de
Transferência de Conhecimento 160 (criado em 2000) e de Serviço de
Conhecimento dos Jogos Olímpicos 161 (criado em 2002) (Essex & Chalkley,
2004b, p. 6) .
Segundo Essex & Chalkley há uma "enorme pressão sobre cidades
sede para fazer dos seus Jogos 'os melhores de sempre'" 162 (Essex & Chalkley,
2002a, p. 3). Devido à “atenção global dada ao evento, uma cidade sede terá
menos chances de acolher os Jogos Olímpicos caso não apresente propostas
com um substancial investimento e desenvolvimento urbano. As cidades sede
são obrigadas a fornecer novas ou substancialmente instalações desportivas
renovadas, isto dentro de um padrão de classe mundial. Além disso, é
solicitado que haja um investimento em infraestruturas de turismo, transportes
e telecomunicações, alojamento em hotéis e melhorias ambientais, de forma a
garantir o bom funcionamento e o sucesso dos Jogos para os atletas e
espectadores. Estes investimentos mais amplos também contribuem para
promover a imagem global da cidade sede, o que pode incentivar o turismo e
investimentos a longo prazo. Os Jogo s Olímpicos são muito mais do que um
evento esportivo: eles têm evoluído para uma ferramenta de renovação urbana
e um catalisador de transformação urbana substancial. No entanto, os Jogos
Olímpicos apresentam grandes riscos, bem como oportunidades para a
160 Transfer of Knowle dge Programme
161 Olympi c Games Knowledge Servi ces
162 Traduzido do Ingl ês: “tremen dous pressu re on host cities to ma ke the ir Gam es ‘the be st
ever’”
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transformação efetiva das cidades de acolhimento" 163 (Essex & Chalkley,
2004b, p. 5) .
“O processo de candidatura, e, portanto, o Movimento Olím pico e os
Jogos, estão cada vez mais sendo um catalisador para planos ambientais
abrangentes e fortes e de promoção de ações para a cidade” 164 (Balderstone,
2001, p. 6) .
“O Comité Olímpico Interna cional (COI), como o organismo resp onsável
pela condução do esporte Olímpico e a seleção da cidades sede, apresenta em
um manual detalhado os requisitos necessários para a realização do evento,
assim como os critérios de avaliação a serem apresentados nos dossiês de
candidatura” 165 (Essex & Chalkley , 2004b, p. 5). Por exemplo, para os JOV de
2004 eram 19 itens que as cidades candidatas precisavam atender, desde Vila
Olímpica, acomodação, transporte, tecnologia, programas culturais e gestão
ambiental (Essex & Chalkley, 2004b, p. 5).
“Como os Jo gos Olímpicos têm crescido para se tornarem n um evento
esportivo m ais importante do mundo, seu impacto sobre a cidade sede e o país
também aumentou. Isto significa que as cidades interessadas em sediar os
163 Traduzido do Inglês: “Given the global attentio n afforded to th e event, a h ost city is unlikely
to stag e an O lymp ic Gam es w ithout s ubsta ntial urba n dev elopm ent a nd inve stme nt. The h ost
cities are required to provide ne w, or substantially refurbished, sports facilit ies to a world class
standard. In addition, wider investment in tourism, transport and telecomm unications
infras tructure , ho tel ac com moda tion and enviro nme ntal im prov eme nt is als o ofte n n ecess ary t o
ensure the smooth running and success of the Games for both athletes and spectators. These
wider inve stment s al so con trib ute to esta blis hing a global image for the host city, whic h can
encourage inward investment and tourism over the lon g - term . Th e O lympic Ga mes are m uch
more than a sporting event: they have evolved into a tool of urban renewal and a catalyst of
substantial urban transformation. Nevertheless, the Olympics p resent major risks as well as
opportunit ies for the eff ect ive tran sform ation of hos t centre s”
164 Traduzido do Inglês: “ The bidding process, and therefore, the Olympic Movement and the
Games, is incr easin gly being a catalys t for comprehens ive and strong envi ronment al plans and
actions for a ci ty”
165 Traduzido do Inglês : “The In ternational Olymp ic Com mittee (IO C), as the bo dy res ponsible
for the condu ct o f O lymp ic sport and for the selection o f h ost cities, specifies e xpecte d
requirem ents fo r staging the eve nt in a m anua l detailing the evalua tion criteria to be ad dressed
in the candid ates c ities’ bid doss iers”
!
86 !
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No entanto Miah e Garcia nos alertam para o fato de que na literatura
Olímpica “haver referência a três pilares do Olimpismo” 180 , não há porém um
consenso sobre quais seriam os três (2012, p. 13) . Determinados autores
referem que o ponto de partida de Coubertin foi o lema ‘desporto, cultura e
educação’, mas no site do COI aparece (atualmente) “desporto, cultura e
ambiente” como três pilares Olímpicos (2012, p. 13). Por conseguinte a
interpretação realizada pelo Professor Gustavo Pires é pertinente, pois parte da
noção de pilares que Coubertin apresentou quando propôs o renascimento dos
JO. Assim sendo o autor (2015) argumenta que são seis os pilares
fundamentais do Olimpismo:
1. Educação
2. Desporto
3. Cultura
4. Ambiente
5. Desenvolvimento
6. Paz.
Vale lembrar que a Educação, Desporto e Cultura foram herdados do
tempo de Pierre de Coubertin, já o Ambiente é fruto de problemas ambientais
que o MO teve de contornar nos anos 90, e o Desenvolvimento e a Paz surgem
com o oitavo presidente do COI, Jacques Rogge (2015).
Apesar da falta de consenso entre os autores sobre quais são (ou
seriam) os pilares Olímpicos, optamos por seguir a visão atual do COI, ou seja
o Desporto e Educação como primeiro e segundo pilar, respetivamente e o
Ambiente como terceiro pilar Olímpico, pois esta é a linha de pesquisa da
grande maioria dos autores para além de ser a posição do próprio Comité
Olímpico. No entanto isto em nada deprecia as pesquisas de autores como
Gustavo Pires e Miah & Garcia, apenas mostra a necessi dade de uma maior
discussão para que o COI e os pesquisadores internacionais cheguem a um
consenso.
O MO precisa de se empenhar mais na promoção do DS, mas para tal é
“necessário reconhecer que n em todos os países são capazes de suportar um
180 Traduzido do Ingl ês: “ there is a referen ce to th e three pillars of O lymp ism”
!
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padrão universal e único, quando suas infraestruturas ou economia não estão
prontas para atender essas expectativas” 181 (Miah & Garcia, 2012, p. 95) . Logo
“metas ambientais devem ser sensíveis às diferenças nacionais, em especial
no que diz respeito à tecnologia disponível e aos recursos” 182 (Miah & Garcia,
2012, p. 95) de cada cidade ou nação.
Após o desastre dos JOI de Albertville, as pressões da UE e de outras
organizações internacionais, levam o COI a abraçar o discurso ambientalista e
da sustentabilidade e este se faz representar na Conferência das Nações
Unidas, Rio 92, adotando assim a Agenda 21 e se dispondo a criar a sua
própria Agenda 21 (International Olympic Committee, 2009). Isto vem a ocorrer
em 1999 (International Olympic Committee, 2002), quando “COI declarou que
cada u m dos Jogos Olímpicos devem garantir as medidas de segurança mais
alta do território na persecução dos objetivos de melhoria ambiental" 183
(Paquette et al., 2012, p. 68). E assim em 1994 o COI "reconhece sua
responsabilidade para com a promoção do desenvolvimento sustentável, e o
COI considerando o ambiente como dimensão integrante do Olimpismo, ao
lado da cultura e do desporto” 184 (International Olympic Committee, 2009, p. 1) ,
anexando assim um novo capítulo sobre proteção ambiental à Carta Olímpica
(International Olympic Committee, 2009) e colocando o ambiente como o
terceiro pilar do Olimpismo juntamente com os pilares desporto e cultura
(Chappelet, 2008, p. 1884; DaCosta, 2002f, p. 72) .
181 Traduzido do Inglês: “ne cessary to recog nize that not all cou ntries are able to s upport a
singular universal standard, when their infrastructur e or economy is not ready to mee t such
expectati on”
182 Traduzido do Inglês : “e nvironm ental targets mus t be s ensi tive to nationa l difference s with
regard t o the avai lable t echnology and r esources”
183 Traduzido do Inglês: “IOC declared th at each Olym pic Gam es m ust guaran tee the highe st
safeguard of the territory an pursue objectives of environmental improvement”
184 Trad uzido do Inglês: “recognising its resp onsibility towards the prom otion of su stainable
development, the IOC consider s the envir onment as an integral dimension of Olympism,
alongside s port an cul ture”
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88 !
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Já em 1995 o COI cria a Comissão para o Esporte e Ambie nte 185 , que
“tem sido capaz de coordenar e organizar conferências e seminários regionais
e importantes publicações e manuais, e engajar outros sectores do movimento
na importante tarefa de educar e assegurar as questões ambientais são
levadas em consideração nos planos e operações [Olímpicas] ” 186
(Balderstone, 2001, p. 2). Desde então já foram realizadas 10 Conferências
Mundiais de Esporte e Ambiente 187 , sendo que a última decorreu em 2013 em
Sochi (International Olympic Committe, 2013) .
“O COI confiou a missão da Agenda 21 ao recém criado corpo interno,
Comissão para o Desporto e Ambiente do COI, e no fim da Conferência
Mundial sobre Desporto e Ambiente, em 1999, anunciou uma parceria com a
PNUMA para facilitar a integração de ambos os seus [a Agenda 21 do
Movimento Olímpico] e as políticas ambientais e procedimentos da Agenda 21
das NU. Finalmente, a PNUMA expandiu sua voz ambiental dentro do esporte,
quando a organização inseriu Estratégias para o Esporte e Ambiente, de forma
a introduzir possíveis ações que o esporte poderia tomar para reduzir os
impactos ambientais durante a produção de eventos esportivos” 188 (Paquette et
al., 2012, p. 69) .
185 Usaremos de forma anál oga ‘Co m issã o p ara o E spor te e Ambiente’ e ‘ Comissão para o
Despor to e Meio Ambien te’
186 Traduzido do Inglê s: “The Com mission has been able to co - ordinate and organise
conferences and regional seminars and important publications and manuals, to engage other
sections of the movement in th e important tasks of educating and ensure environmental matters
are taken into consi deration in plans and operations [Olympic]”
187 Worl d Con fer ence on Sport and the Env ir onme nt
188 Traduzido do Inglês: “The IOC entrusted oversight of the Agenda 21 ma ndate to a newly
created internal body, the IOC Sport and Environmen t Comm ission, and at the 1999 World
Confe rence on Spor t and Envir onment announc ed a partner ship with the UNEP to facil it ate the
integr ation of both the its [Age nda 21 of Olym pic Mov emen t] and th e UN A genda 21
environmental policies and procedures. Finally, the UNEP expanded its environmental voice
with in sport when the orga nizat ion intr oduced a Sport and Enviro nment Strat egy to addre ss
possible actions sport could take to reduce environmental impacts during the production of
sport”
!
89 !
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As preocupações ambientais parecem no entanto ser mais latentes na
organização dos JOI, pois “a construção e manutenção de instalações para os
Jogos Olímpicos de Inverno em regiões rurais remotas podem ter impl icações
consideráveis a nível físico e estético nas paisagens naturais e seminaturais da
região. A instalação de grandes estruturas e a utilização de produtos químicos,
tais como amônia para o congelamento artificial, representam dois exemplos de
intrusão Olímpica em ambientes frágeis. Consciência dos impactos ambientais
dos Jogos Olímpicos de Inverno foi, portanto, m ais central para a sua
organização por um período longo do que para os Jogos de verão” 189 (Essex &
Chalkley, 2004a, p. 206).
Segundo Loland, o COI na sua ambição por se tornar uma instituição
global, universal e eticamente responsável, “precisou reconhecer a
necessidade do Movimento Olímpico se engajar na proteção ambiental” 190
(2006, p. 144). No entanto, o autor alerta que “para os Jogos terem valor
ecológico, seu valor de perfil e potencial em criar uma consciência ambiental no
público tem que ser superior, de alguma maneira, aos custos ecológicos de os
organizar” 191 (2006, p. 145).
“Apesar dos compromissos com a sustentabilidade ambiental feita pelo
COI, os Jogos Olímpicos ainda são um ev ento que têm um impacto ambiental
dramático na cidade anfitriã. De fato, nos últimos Jogos [se referindo a Pequim
2008], tão extensas foram as intervenções no ambiente que até 'modificações
ambientais' foram implementadas na cidade de forma a assegurar a realização
189 Traduzido do Inglês : “construc tion and o peration o f event fac ilities fo r the Win ter Olym pics in
remo te rura l reg ions can have considera ble physical and aesthetic implica tions for na tural a nd
semi - natural landscapes w ith in the reg ion. The insta llation of large stru ctures an d th e us e of
chemicals, such as ammo nia for artificial freezing, represent two examples of obvious Olympic
intrus ions in to fra gile en viron ment s. Aw aren ess o f the enviro nme ntal im pacts of th e W inter
O lymp ics has, the refore , been m ore cent ral to their orga nizatio n for a longe r p eriod th an for the
Summer Games”
190 Traduzido do Inglês: “ has recognized the need for the Olympic Movement to engage in
protecti on of t he environment”
191 Traduzido do Inglês : “ For the Ga mes to hav e e colog ical v alue, their value p rofile and their
potential for creating environmental awareness in the public have to outweigh somehow the
ecological costs of arranging them”
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bem -sucedida dos Jogos” 192 (Miah & Garcia, 201 2, p. 95).
A Importância do Desenvolvimento Sustentável para os JO e MO
“O primeiro critério do desenvolvimento sustentável é que a vida humana
possa continuar indefinidamente” 193 (Loland, 2006, p. 146) e para tal os
recursos da terra devem ser cuidados de forma a atender as necessidades das
próximas gerações. Traduzindo isso para o mundo desportivo e Olímpico
podemos dizer que “os requisitos do desenvolvimento sustentável podem ser
interpretados como condições no desporto Olímpico a serem praticados de
forma a dar às futuras gerações desportivas as mesmas possib ilidades de
realização dos seus objetivos no esporte Olímpico, assim como ocorre
atualmente” 194 (Loland, 2006, p. 147).
Os Jogos Olímpicos são vistos como um eve nto de grande escala,
único, de alto impacto e que deixam um legado importante à cidade sede e
região, não entanto estes raramente fazem parte do debate sobre
sustentabilidade (Furrer, 2002). É portanto importante que se faça uma análise
profunda segundo “os princípios decorrentes das políticas de desenvolvim ento
sustentável” 195 (Furrer, 2002, p. 1) .
De fato a relação entre Olimpismo e DS poderá não ser a melhor. Para
Kathryn Molloy 196 “Jogos Olímpicos mais sustentáveis seria não ter Jogos
192 Traduzido do Inglês: “De spite the com mitme nts to environm ental sustainability made by the
IOC, the O lympic Gam es is an e vent that ha s a d rama tic en vironm ental impac t n a city. Ind eed,
at recent Gam es, so extensive are the intervent ions on the environment that even ‘weather
modi fi cat ion’ is an incr easi ngly estab li shed par t of what a city is prepared to undertake to
ensure the successful running of the Games”
193 Traduzido do Inglês: “ The first criteri on of sustainabl e development is that human life can
continue indefini tely”
194 Traduzido do Inglês: “ Requi rement s on sustai nable development can be i nterpret ed as
requirem ents on Oly mpic sport to be pra cticed in ways tha t g ive future sporting g eneration s the
same possibiliti es to realize their goals i n Olympic sport as the cur rent one has”
195 Traduzido do Ingl ês: “principles de riving from s ustainable develop ment po licies ”
196 Member of the Adv iso ry Committ ee on Sus tai nabi li ty Perf orman ce (BACSP) fo r t he
Vancouver Organisin g Committee for the 2010 Winter Olympic and Paral ympic Games
(VANO C)
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Olímpicos” 197 (Molloy citada por Vancouver 2010 Winter Olympics, 20 09) .
Efetivamente “a grande concentração imposta pelos Jogos em tempo (duas
semanas), em espaço (apenas uma cidade) e o investimento (a operação e
infraestrutura dos Jogos ronda os bilhões) parece contradizer largamente com
o conceito de desenvolvimento sustentável que defende a dispersão e partilha
dos impactos ambientais, sociais e económicos ao longo do espaço e do tempo
para beneficio de todos” 198 (Furrer, 2002, p. 1). C laro que do “ponto de vista de
consumo energético e poluição, o argumento pode ser feito no sentido de que
os Jogos Olímpicos nunca deveriam ser realizados” 199 (Loland, 2006, p. 145) .
Miah e Garcia reforçam esta ideia ao afirmar que "um compromisso firme para
o ambiente significaria que os Jogos Olímpicos não deveriam acontecer nunca
ou, se eles ocorrerem, certamente deveriam acontecer sempre no mesmo
lugar, de forma a garantir o mínimo impacto ambiental, que é criado pelas
construções de novos espaços e mudanças infraestruturais" 200 (2012, p. 90) ,
visto que os Jogos são o maior gerador de tráfego temporário (duas semanas),
sendo que "aproximadamente 1,2 a 1,8 milhões de viagens adicionais por dia
durante o Jogos Olímpicos de verão e cerca de 0,3 a 0,5 milhões de viagens
adicionais por dia, durante o Jogos Olímpicos de inverno" 201 (Bovy, 2010, p.
14) . Isto significa que JO e DS aduzem alguma incompatibilidade, ou seja um
197 Traduzido do Ingl ês: “The m ost sustainable Olympics would be no Olympics”
198 Traduzido do Inglês: “ the hig h conce ntration im plied by the G ames in tim e (a tw o - week
event), in space (one host city only) and in investment (the operating and infrast ructure costs of
the G am es a re in the bill ion s) se ems largely to con tradict the co ncep ts of sustaina ble
development that advocate the dispersion and sharing of environmental, social and economic
impa cts ac ross tim e an d spa ce for the be nefit of all”
199 Traduzido do Ing lês: “from the point of view of energy consum ption and polluti on, the
argument can be made that t he Olympic Games should never be real ized at all”
200 Traduzido do Inglês: “that a re solute com mitm ent to the environm ent w ould m ean tha t the
Olympi c Games should not happen at all or, if the y did, they certainly ought to happen in the
same place every time to e nsure minimal environmen tal impact, which is created by the
constructions of new venues and infrastructur al change”
201 Traduzido do Inglês: “about 1.2 to 1.8 million additiona l jo urneys p er day during Sum mer
Olympi c Games and about 0.3 to 0.5 milli on addi tio nal jo urneys per day during Winter Olympic
Games”
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não poderia existir na presença do outro. Isto seria verdade se esta não fosse
uma visão excludente, restrita apenas aos aspectos ambientais. Como diz
Furrer “pouco foi feito para entender a interrelação entre os três pilares do
desenvolvimento sustentável” 202 (Furrer, 2002, p. 2) e reforça esta ide ia ao
afirmar que “grande parte do focus foi colocado na dimensão ambiental da
sustentabilidade” 203 (Furrer, 2002, p. 2). Efetivamente quem acolhe os JO sofre
um grande pressão ao nível de gestão de lixo, uso da terra e energia, consumo
de água, oferta de transporte e de segurança, para além da pressão sobre as
acomodações para quem vem assistir aos Jogos (Furrer, 2002). Miah e Garcia
alertam “que tais compromissos de forma a evitar danos ambientais, significam
que a humanidade deve escolher qual o estilo de vida é moralmente defensável
e como os impactos ambientais serão compensados por avanços noutras áreas
sociais" 204 (2012, p. 91).
“A preocupação com a ecologia nos dias de hoje, deve ser considerada
no âmbito teórico do desenvolvimento sustentável. O objetivo deste conceito é
a proteção do ambiente, enquanto permite que uma determinada região se
possa desenvolver economicamente e socioculturalmente” 205 (Chappelet,
2010a, p. 4). Logo não existe DS se promovermos apenas uma dimensão da
Triple Bottom Line , e Molloy sabe disso, pois reforça que “já que vamos ter os
Jogos, o facto é que VANOC fez da sustentabilidade uma prioridade, é
fantástico. Se olharmos para os impactos ambientais e sociais diretos,
poderemos ver muitas coisas negativas acerca dos Jo gos Olímpicos em geral.
[Mas] VANOC está a ter tal papel de liderança na sustentabilidade, que eles
202 Traduzido do Inglês: “ Little progress has also been made on the understanding of the inter -
relationsh ip betwee n the three pillars of sustainable development”
203 Traduzido do Inglê s: “ A large part of the focus has been put on the envi ronmental dimension
of sust ainabilit y”
204 Traduzido do Inglês: “as suc h string c omm itments to a void en vironme ntal dam age means
that hum anity m ust cho ose wh ich kinds o f lifestyles are morally tenable and how environmental
impa cts are offse t by ad vanc eme nts in o ther so cial ar eas”
205 Traduzido do Inglês: “Th is conc ern for e cology n ow h as to be consid ered w ithin the
theore tical fram ewo rk of su stainab le deve lopm ent. T he aim of this concept is to protect the
environment whi le stil l all owing an enti re region to develop economically and socio - cultur ally”
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poderão ser agentes catalisadores de mudanças” 206 (Molloy citada por Cruger,
2009) .
Além de VANOC, Londres também incentivou seus atletas Olímpicos a
defenderem a bandeira Ambiental, como é visível na fala de Dame Kelly
Holmes 207 ao afirmar que:
“Podemos estar orgulhosos dos Jogos de Londres não
só estarem fornecendo grandes e novos espaços para
os atletas, mas também terem como objetivo
proporcionar benefícios ambientais às comunidades de
Londres bem como o clima do planeta como um
todo ” 208
(Holmes citada pela UNEP, 2006).
Já Tatsu Okada 209 reforça o papel e a importância do esporte ao
congratular Londres 2012 pelo seu empenho na promoção de Politicas de
Sustentabilidade, afirmando que acredita que devemos encorajar os jovens à
prática desportiva, porque o desporto pode não só trazer benefícios à saúde,
mas também promover uma maior consciência social e ambiental (Okada
citado pela UNEP, 2006).
Balderstone afirma que o “desporto continuará a ser o núcleo dos Jogos
Olímpicos e d o Movim ento, e com esse poder do desporto vem muitas outras
206 Traduzido do Inglês: “however, we are having th e Olym pics, so the fa ct that VANOC has
made sus tai nabi lity a pri orit y is fantas tic. If you look o n the d irect im pact on en vironm ent and
social issues, you could see a lot o f negatives about the Olympics in general. [But] VANOC is
taking such a leade rship ro le in sus tainability , they influ ence is a cata lyst for ch ange s”
207 Bri tish doub le gold meda llist
208 Traduzido do Inglês: “ W e can be proud that the London Gam es will not only be providing
great new venues for the athletes but will also be aiming to provide environmental benefits to
the co mm unities o f Lond on as well as the pla net' s cl imate ”
209 Executi ve Dir ector of t he Japa n - based Global Sport s Alliance
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oportunidades para inspirar e provocar mudanças positivas e sustentáveis” 210
(Balderstone entrevistado por Mills & Moore, 2012).
Se o DS se restringisse apenas à dimensão ambiental (Becker e t al.,
2007; Bureau of Public Information, 2007; International Olympic Committee,
2009; Varandas, 2009; Westerman, 2010b) ou legados (Bovy, 2010; DaCosta &
Miragaya, 2008; International Olympic Committee, 1996b; MacRury, 2008;
Preuss, 2008; Ribeiro, 2008; Villano & Terra, 2008), então estaremos a
menosprezar a sua própria conceptualização.
Loland refere que “o foco das preocupações ambientais dentro da ONU
e do COI é o desenvolvimento sustentável” 211 (Loland, 2006, p. 145), sendo
que a concepção de DS é a apresentada no Relatório de Brundtland:
A “humanidade tem a capacidade de fazer o
desenvolvimento sustentável de forma a assegurar a
satisfação das necessidades do presente sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de
satisfazer suas próprias necessidades” 212
(WCED, 1987, p. 16).
E Furrer (2002) incita os JO a irem m ais longe, buscando não apenas a
sustentabilidade ambiental, mas tentando compreender a inter-relação entre as
três dimensões: social, ambiental e económica. Segundo o autor “a revisão de
literatura sobre os efeitos dos Jogos Olímpicos na cidade anfitrião e seus
cidadãos, im ediatamente aponta para um número elev ado de material sobre
impactos económicos dos Jogos, enquanto o entendimento dos seus impactos
210 Traduzido do Inglês: “Sport will rem ain the c ore of an O lympic Gam es, and the movem ent,
but with that power of sport com es a lot of other opportunit ies to inspi re and effect p ositive an d
sustainabl e change”
211 Traduzido do Inglês: “key ideal of the UN and IOC environment al concern is that of
sustainabl e development”
212 Traduzido do Inglês: “ Humanity has the abilit y to make devel opment sustai nable to ensure
that it meets the needs of the presen t with out comp romi sin g the abi lit y of fut ure genera tio ns to
meet t heir own n eeds ”
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sociais e ambientais a longo prazo continua inconsistente” 213 (Furrer, 2002, p.
1) . Logo p ara Furrer (2002) os JO sustentáveis são aqueles que promovem a
inclusão social, o bem-estar económico e a preservação do ambiente. Esta
visão de DS vai ao encontro da visão de alguns autores de outras áreas, como
Kapp (1971), Sachs (2002), Lomborg (2008), Soromenho-Marques (2 004), Boff
(2013), Veiga (2010a) entre outros e é denominada de Triple Bottom Line .
O COI tem o seu próprio entendimento de DS, talvez um pouco mais
focado em questões ambientais nos últimos tempos (International Olympic
Committee, 2009), em especial por pressões de entidades ambientalistas. No
entanto, este paradigma parece querer ir mais além, e a prova está nas
candidaturas de Vancouver 2010, Londres 2012, Rio 2016 e por fim na
aprovação da AGENDA 2020 no final de 2014.
Se até há alguns anos o COI estava mais preocupada com a promoção
e expo sição dos Jogos, desde a Conferência Eco Rio 92 e ste tem-se
empenhado na preservação ambiental (na candidatura de Sidney 2000 a
sustentabilidade ambiental era visada graças à parceria com a Greenpeace).
Na brochura de Candidatura de Londres 2012 pode-se ler que a “promoção do
desenvolvimento sustentável se tornou um dos objetivos fundamentais do
Movimento Olímpico. Através da sua Agenda 21 - Desporto para o
Desenvolvimento Sustentável - o Movimento Olímpico reconhece a diversidade
e a fragilidade do nosso planeta. Ele reconhece as sinergias inerentes entre o
Olímpico e agendas de Sustentabilidade Global e o papel preponderante que o
desporto pode desempenhar na contribuição para o desenvolvimento
har monioso do homem e em assegurar o bem-estar das pessoas e do
213 Traduzido do Inglês: “ A review of the litera ture on the effects of the Olympic Games on the
host city and its citizens immediately points to the large amount of m ateri al on the economic
impa cts o f the Gam es, while the und erstan ding of th eir so cial an d en vironm enta l long term
impa cts rem ains incon sisten t”
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sendo que no caso Brasileiro está sob a tutela do centro de pesquisa
SAGE/COPPE/UFRJ 233 (Rio 2016 , 2013; SAGE/COPPE/UFRJ Research
Team, 2014) . Este grupo deve produzir 4 relatórios de análise entre o período
de 2007 a 2019 e o primeiro relatório (R1) já foi publicado
(SAGE/COPPE/UFRJ Research Team, 2014). Este examinou o período entre a
fase de candidatura (2007) e a eleição do Rio de Janeiro como cidade-sede
(2009) e foi publicado em janeiro de 2014 (SAGE/COPPE/UFRJ Research
Team, 2014) .
"Os indicadores OGI cobrem uma vasta ga ma de atividades, desde
aqueles que são resultado direto da receção dos Jogos Olímpicos, tais como a
construção de infraestruturas de co mpetição ou da Vila Olímpica, para os
outros que são uma consequência mais indireta, tais como a evolução da
infraestrutura de transporte e alojamento. Outros indicadores facilitam o
acompanhamento dos dados contextuais dentro da cid ade -sede e sua região,
tais como taxas de criminalidade, participação desportiva e qualidade da
água" 234 (International Olympic Commit tee, 2009, p. 3) . “O projeto continuou em
Vancouver 2010 e será realizado em Londres 2012 sob o nome de Impacto dos
Jogos Olímpicos (OGI), no âmbito do departamento de Gestão do
Conhecimento dos Jogos Olímpicos [OGKM] sob a direção do COI, isto porque
o COI tornou essa avaliação obrigatória a todos os COJOs. Este departamento
também é responsável por garantir que as lições aprendidas de uma edição
dos Jogos são levadas em consideração pelo COI e COJOs nos futuros Jogos
Olímpicos. Note-se que em Torino 2006, o COJO voluntariamente publicou
diversos relatórios sobre a sustentabilidade dos Jogos durante e após a fase
organizacional e baseado em uma série de indicadores” 235 (Chappelet, 2011, p.
325) .
"Este projeto ambicioso (OGI) pretende coletar dados básicos (tais como
o produto interno bruto, taxa de desemprego, estadias, nível de prática
desportiva, qualidade do ar, etc., sobre o território Olímpico) durante um longo
233 Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da P rodução (SAGE) /Instit uto Alberto Luiz
Coimbr a de Pós - Grad uação e Pesqu isa de Enge nhari a (COPPE)/ Univer sida de Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ)
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período, a fim de avaliar como os Jogos foram realizados estes foram
realizados pela primeira vez durante os Jogos de Pequim 2008" 236 (Chappelet,
2011, p. 325) .
Segundo Paquette et a l, alguns autores afirmam que “’enquanto o OGGI
não é especificamente enquadrada em termos de Sustentabilidade, é
operacionalizado em uma estrutura idêntica à utilizada por muitos índices de
informação de sustentabilidade e que temas os indicadores de OGGI variam
amplamente, desde poluentes atmosféricos até à composição da equipe
esporte'” 237 (2012, p. 69).
234 Traduzido do Inglês: “Th e OG I indicators cover a vast range o f activities, from thos e that are
a direct resul t of the staging of the Olympic Games, such as the con structio n of comp etition
venues or the Olympic Vill age, to others that are a more indirect consequence, such as the
evolution of transport and accommodation infrastruct ure. Other indicat ors faci litat e the
moni tor ing of cont ext ual data withi n a Host City and its regi on, such as cri me rates, sports
partici pation and water quali ty”
235 Traduzido do Inglês: “T he pro ject con tinued for Vanco uver 20 10 an d will be carried out for
London 2012 under the name of Olympic G ames Impact (OGI) within the framework of the
Olympi c Games Knowl edge Management depart ment of the IOC admi nist ration because the
IOC h as ren dered this as sessm ent m and atory for the OC OG s. This d epartm ent is also
respon sible for e nsuring that the lesso ns learned from one edition of the Gam es are ta ken into
consideration by the IOC and the OCOGs alike for future O lympic Gam es. It should be noted
that the Turin 2006 O CO G volu ntarily pu blishe d seve ral repo rts on th e sus tainab ility o f the
Games both duri ng and after the or ganizational phase and based on a s eries of indicator s”
236 Traduzido do Inglês: “Th is ambitious project (OG I) a imed at co llecting basic d ata (such as
gross domestic product, unemployment rate, overnight stays, level of sports practice, air quality,
etc. on the Olympic terri tory) over a long period in order to evaluate the Games was carried out,
for the firs t time, fo r the 20 08 Be ijing Ga mes ”
237 Traduzido do Inglês: “‘wh ile OG GI is n ot spe cifically fram ed in terms of S ustainab ility, it is
operational ized in a framework identical to that used by many sustai nabilit y indicator reports’
and that ‘OGGI indicator themes range widel y, f rom atmospheric pollut ants t o sport team
composition’“
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2 E STRATÉGIAS DE P ESQUISA E I MPLI CAÇÕES M ETODOLÓGICAS
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“Todas as pessoas têm uma ‘visão do Mundo’; ela
influencia o que elas olham e o que vêm. Ela funciona
como um filtro; reconhe ce informações consistentes
com as suas expectativas (geralmente subconscientes)
acerca da natureza do mundo; faz com que sejam
de sconsideradas informações que contrariem ou não
confirmem essas expectativas. Quando as pessoas
olham o mundo através de um filtro, tal como uma
vidraça ou um vidro colorido, elas normalmente vêm
através dele em vez de vê-lo efetivamente”
(Meadows et al., 2008, p. 4)
Reflexões sobre o desenvolvimento sustentável dentro da gestão
desportiva é algo recente, em especial no domínio Olímpico. Determinados
autores (poucos) têm realizado alguns estudos Olímpicos relativos às
inferências sociais, económicas, culturais, geopolíticas ou ambientais dos JO.
Todavia são raras as pesquisas que examinam concomitantemente a conexão
entre a dimensão social, ambiental e económica, sob a ótica do DS
apresentada na Triple Bottom Line . Este estudo expl oratório se propõem a
fazer isso, analisar as três dimensões do desenvolvimento sustentável ao longo
dos 120 anos do Movimento Olímpico, em especial no que concerne aos JO.
Em virtude do M ovimento Olímpico ser um constructo social fruto da
ação de distintos agentes, tais como fundadores e presidentes, passando por
diversas esferas de influência que abarcam as diferentes comissões do COI,
Comités Organizadores dos Jogos (COJO), parceiros Olímpicos (FIs e NOCs),
patrocinadores e o próprio universo desportivo, que serviram (ou servem) em
diferentes momentos este ideal, é importante que o método a seguir seja
adequado e por conseguinte de acordo com as pesquisas dentro das ciências
sociais (Veal & Darcy, 2014, p. 5). Acredita-se que o fenómeno político e
sociocultural possa influenciar os agentes e suas interpretações sobre o
Olimpismo, pois embora estes não possam controlar o contexto social, eles
podem interpretar e subsequentemente influenciar e alterar suas visões e
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ações, e com isso afetar direta ou indiretamente o MO, em determinados
momentos ou períodos.
De acordo com Veal e Darcy “eventos desportivos co mo os Jogos
Olímpicos e a Copa do Mundo de Futebol são dos maiores eventos na
promoção da paz do mundo” 238 (2014, p. 4). No entanto estudos macro sociais
que abranjam longos espaços cronológicos são difíceis de realizar e de
equacionar. Efetivamente o mundo está em constante mudança, sendo por isso
difíc il “produzir réplicas exatas de pesquisa em momentos diferentes ou em
lugares diferentes e obter resultados similares" 239 (2014, p. 6). Logo, ao se
optar por uma pesquisa cronológica que abrange um período tão longo (120
anos), como no caso do presente trabalho, é importante que se clarifique o
processo metodológico. Esta está enquadrada dentro da área das ciências
sociais, mais especificamente na gestão desportiva e trata-se de uma
pesquisa:
• Qualitativa, pois a “abordagem qualitativa de pesquisa geralmente
não se preocupa com números mas tipicamente com informações
sob a forma das palavras transmitidas oralmente ou por escrito” 240
(2014, p. 39), sendo que a grande vantagem deste método de
pesquisa “tornam possível reunir uma quantidade relativamente
grande de informações sobre temas de investigação, que podem ser
individuais, de grupos, lugares/comodidades, eventos ou
organizações” 241 (2 014, p. 39);
• Crítica, já que as “abordagens críticas à pesquisa são influenciadas
por conjuntos de crenças ou valores particulares que são críticos do
238 Traduzido do Inglê s: “Sport ing even ts such as the Olympic Games and the socc er World Cup
being among the largest peacetimes events in the world”
239 Traduzido do Inglês: “to produce exact repli cations of resear ch at different times or in
differ ent places and obtain similar r esults”
240 Traduzido do Inglês: “The qualitati ve approach to research is generally not conce rn ed w ith
numbers but t ypically with inf ormation i n the for m of words, conveyed orall y or i n writi ng”
241 Traduzido do Inglês: “make it possible to gather a relati vely large amount of infor mation
about research subject s, which may be individuals, groups, pla ces/facilit ies, eve nts or
organisati ons”
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status quo na sociedade" 242 (2014, p. 37), desta forma parte-se dos
valores correlacionado com o DS para se analisar o MO, em especial
os Jogos Olímpicos;
• Descritiva, em virtude que uma “pesquisa descritiva visa descrever,
na medida do possível, o que é. O foco não está na explicação. Outro
termo que pode ser utilizado aqui é exploratório , embora a pesquisa
exploratória também possa se estender às tentativas de
explicação” 243 (2014, p. 37). Desta forma esta pesquisa exploratória
irá tentar iluminar um pouco mais o trajeto do MO e JO no que
concerne às três dimensões que sustentam o DS, defendida pela
Teoria da Triple Bottom Line , visão defendida neste trabalho;
• Empírica, já que a “pesquisa empírica envolve a recolha e/ou análise
de dados, que podem ser quantitativos ou qualitativos, primários ou
secundários" 244 (2014, p. 42), efetivamente esta pesquisa recorreu a
uma recolha e análise minuciosa de dados obtidos através de fontes
oficiais, não oficiais e científicas;
• Indutiva, porquanto o processo começa com a questão a pesquisar e
“a explicação é induzida a partir dos dados; os dados vêm primeiro e
a explicação mais tarde" 245 (2014, p. 43);
• Os dados utilizados nesta pesquisa são fruto das bases de dados
oficiais, não oficiais, através da leitura de trabalhos científicos e
académicos im pressos ou sob a forma de arquivo virtual. Na sua
grande maioria são fontes de ordem secundária.
242 Traduzido do Ingl ês: “Crit ical appro aches to research are influenced by parti cular set s of
beliefs or values which are cr itical of t he status quo in soci ety”
243 Traduzido do Inglês: “Descriptive rese arch aims to de scribe, as far as possible, w hat is. The
focus is not on explana tion. Anoth er term wh ich might be use d here is explora tory, althou gh
explorator y research could also extend to attempts an ex planation”
244 Traduzido do Inglês: “ Empirica l research involve s the collection and/or analysis of data,
which may b e qua ntit ati ve or qual ita tive, primary or seconda ry”
245 Traduzido do Inglês: “the exp lanation is in duced from the data; the data com e first and
explain l ater”
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Após a análise conceptual desta temática e seu enquadramento, é
necessário saber concretamente o que queremos investigar, qual o caminho a
percorrer e como o vamos fazer. Percorrer caminhos em busca do
conhecimento, obriga-nos a uma pequena ponderação sobre o que é o
conhecimento . Optamos por examinar as reflexões de alguns pensadores no
que concerne à Teoria do Conhecimento .
2.1 T EORIA DO C ON HECIMENTO
Peter Drucker (1992) define o século XX como a Era do Conhecimento .
Nunca se pronunciou e se valorizou tanto as questões correlacionadas ao
conhecimento e à sua gestão como na sociedade vigente. Neste contexto, esta
se tornou uma arma entre instituições (Nonaka & Toyama, 2008) onde o
diferencial está mais no conhecimento intangível do que no tangível .
Atualmente o património indispensável em qualquer instituição não é
mais a “fábrica e o equipamento, mas o conhecimento acumulado e as pessoas
que o possuem” (Ishikura, 2008, p. 166), pois numa economia oscilante a única
certeza é a incerteza e o conhecimento é uma vantagem competitiva.
O conhecimento é muitas vezes referenciado como algo mensurável,
quantificável e transferível entre comunidades (sejam elas académicas,
científicas ou profissionais), disputado por grandes instituições e extremamente
importante no mundo académico. Ao se analisar o conhecimento ao longo dos
tempos p ode-se verificar que a busca por este, tem, no ocidente, um longo
percurso. Na idade antiga Tales, Pitágoras, Sócrates, Platão (com a alegoria da
caverna) e Aristóteles (os sentidos como instrumentos na busca do
‘conhecimento’) já indagavam formas de defini-lo. Na época contemporânea
surgem John Locke, Kant, Heidegger e Polanyi, entre outros e com destaque
para este último que escreveu o livro The Tacit Dimension 246 , onde afirma que
dever -se-ia considerar o conhecimento humano “começando pelo facto que nós
sabemos mais do que podemos dizer” 247 (Polanyi, 1967, p. 4).
246 A Dimensão Tácit a
247 Traduzido do Ingl ês: “by star ting fro m the fact tha t we ca n kno w more than we ca n te ll ”
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Em outras épocas, como na sociedade industrial e no Taylorismo, o
conhecimento era visto como algo ameaçador, algo a ser evitado, pois bastava
a “organização como uma máquina de processamento da informação ”
(Takeuchi & Nonaka, 2008a, p. 19). Hoje não é mais esta a realidade. “A
passagem para a Sociedade do Conhecimento elevou o paradoxo, de algo
eliminado e evitado, para algo aceito e cultivado” (Takeuchi & Nonaka, 2008a,
p. 19) .
No entanto há que se fazer a distinção entre Inf ormação e
Conhecimento . Informação consiste “num conjunto de dados que apresenta
certo nível de associação entre seus elementos” e que pode dar resposta a
algumas questões (Passoni, 2005, p. 59). Já o Conh ecimento “pode ser v isto
como a identificação de padrões de comportamento dentro de um determinado
contexto” (Passoni, 2005, p. 59), ou seja quando a informação é utilizada e
posta num determinado contexto ou marco de referência, este se transforma
em conhecimento. No entanto “uma coleção de informações não é
conhecimento” (Passoni, 2005, p. 59). O conhecimento como referido é “uma
combinação de informações, contexto e experiência” (Passoni, 2005, p. 59) . Na
conceção de Tackuechi & Nonaka este é definido como “uma crença
verdadeira justificada’’ (Nonaka & Takeuchi, 1995; Nonaka & Takeuchi, 2008)
visto que os seres humanos justificam constantemente suas crenças sobre o
que é verdade contra suas próprias experiências (Varela et al., 1992).
Esta abordagem apoia-se no pensamento de Polanyi (1958) onde o
conhecimento humano vai desde o tácito ao explícito . Estes dois elementos
aparentam ser conflituantes, mas se co mplementam, já que o “ conhecimento
não é explícito ou tácito . O conhecimento é tanto explícito quanto tácito [ … ]
pois é formado pelo que aparenta ser dois opostos” (Takeuchi & Nonaka,
2008a, p. 20). Estas componentes dicotómicas poderá ser entendidas da
seguinte forma (Ishikura, 2008; Nonaka, 2008; Takeuchi & Nonaka, 2008a):
• TÁCITO : algo pessoal; informal; experimental; intuição; palpite;
inspirações; ‘perceção’ do cliente; insights subjetivo; know- how ;
habilidades técnicas; não é facilmente visível e explicável; difícil de
formalizar e comunicar; mais ligado à experiência corporal.
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o Rio de Janeiro surgir ia como a ‘cidade maravilhosa’ a acolher o evento
Olímpico.
Trazer para o Bra sil, e pela primeira vez para a América do Sul, uma
Olimpíada não seria tarefa fácil, e a Comissão do Rio 2016 sabia disso. Para
tal foi necessário um projeto que incluía a união dos três poderes (Federal,
Estadual e Municipal); o apoio do Presidente do Brasil, Lula da Silva e de
figuras públicas (escritor Paulo Coelho); desportistas (Péle, Guga, Bernardinho
entre outros) e personalidades de peso (João Havelanche e o Presidente do
Banco Central Brasileiro, Henrique Meirelles); a contratação dos melhores
consultores e lobistas internacionais e um projeto que se diferenciasse. Como a
Comissão de Candidatura do Rio 2016 promoveu e apresentou essa diferença
talvez tenha sido suficiente para derrubar Nova Orleães, Tóquio e Madrid.
Após uma pesquisa e análise circunspecta aos vídeos das delegações
das cidades candidatas aos Jogos Olímpicos de 2016, apresentados ao COI a
2 de outubro de 2009, verificou-se que a Candidatura Carioca focou sua
apresentação em quatro pontos-chave:
1. Serem os primeiro s JOV da América do Sul (sempre relegada);
2. O Brasil sendo apresentado como um país com grande crescimento
económico e membro dos BRICS;
3. A oportunidade dos Jogos derrubarem algumas barreiras sociais e
permitirem que o esporte possa chegar a todos, em especial aos
mais carenciados que vivem nas favelas ou zona norte; e
4. O facto do Rio de Janeiro ser das poucas metrópoles que concilia de
forma pacífica o verde com o cimento , através do contraste dos
morros, praias, parques e calçadão, com prédios, asfaltos, ruas e
vielas.
Isto tudo aliado a um povo que adora esportes e que apoiava a vinda
dos JOV de 2016 para o Rio de Janeiro, parece ter sido preponderante para
que os membros do COI confiassem na candidatura brasileira. Se a Comissão
do Rio 2016 empregou esta estratégia, então é porque acreditavam que a
valorização do DS, nas suas três dimensões (ambiental, social e económica),
poderia ser uma mais-valia na disputa Olímpica.
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Etapa 2. Revisão da Literatura e Discussão do Projeto
De acordo com Veal e Darcy “a pesqu isa de literatura é a fonte mais
comum de tópicos para pesquisa académica. Um tópico pesquisado derivado
da leitura da literatura poderá levar a uma variedade de formas” 255 (2014, p.
60) . Efetivamente após a definição do tema, o segundo passo consistiu no
aprofundamento teórico desta temática.
As primeiras leituras centraram-se nos grandes pensadores do
Olimpismo, ambiente, sustentabilidade, projetos sociais e questões económicas
associadas ao ma cro (sociedade) e micro (Jogos Olímpicos) cosmo, e a
posteriori na literatura sobre desenvolvimento sustentável, chegando portanto à
preposição da Triple Bottom Line . Realmente “identificar um tópico da literatura
requer especial questionamento, abordagem exploratória da literatura de
pesquisa: o objectivo não é apenas identificar o que diz a literatura, mas
também o que não diz " 256 (Veal & Darcy , 2014, p. 60) de forma a identificar
estudos de outros autores e se entranhar melhor na temática a estudar.
Neste contexto, buscou -se determinar quais as balizes que entremeiam
o ambiente (3ª pilar do COI), sustentabilidade e desenvolvimento sustentável.
Para tal realizou-se uma nova revisão de literatura, originalmente mais focada
nos autores conceptuais e depois em pesquisadores e especialistas esportivos.
Por fim, a leitura centrou-se em estudos que conectassem o Oli mpismo com
estes conceitos.
Para Veal e Darcy a revisão da literatura é uma expressão “académica
que se refere ao processo de identificar e engajar-se com publicações de
pesquisa relevantes para o tópico de interesse anteriores" 257 (2014, p. 65). Mas
quando o pesquisador se apercebe, ao longo da revisão, que são poucos os
255 Traduzido do I nglês: “ the rese arch litera ture is the mo st comm on sou rce of topics for
acade mic rese arc h. A rese arch abl e top ic deri ved fro m read ing of the lit era tur e can tak e a
variety of forms”
256 Traduzido do Inglês: “ identify ing a to pic fro m the literatur e requ ires es pecia l, ques tioning ,
explorator y approach to R eading research literat ure: the aims is not just identify w hat the
literatu re say s, but also what it does not say ”
257 Traduzido do Inglês: “is som ewhat academ ic term referring to the proces s of ide ntifying an d
engaging wit h previously published r esearch rel evant to the topic of int erest”
!
120 !
!
estudos existentes na área do Olimpismo que evidenciem preocupações
relativas ao DS, e a inexistência de estudos que dissequem sobre o processo
de assimilação (ou não) dos valores do DS ao longo dos 120 anos dos Jogos
Olímpicos da Era Moderna, então estamos perante um estudo exploratório.
Diante destas considerações é importante que o pesquisador não se
concentre apenas em pesquisas publicadas, "mas também pesquisas inéditas
e em curso. Este proce sso consiste m uito em acertar e errar" 258 (Veal & Darcy,
2014, p. 66). Seguindo este raciocínio, o processo de consulta bibliográfica foi
acompanhado pela troca de ideias com membros do grupo de estudo e com
outros pesquisadores. Numa primeira fase o grupo de estudo era formado por
colegas do Doutorado da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
(FADEUP), em Portugal, e posteriormente junto ao Grupo de Pesquisa
Olímpica da Universidade Gama Filho, sob a supervisão do Professor
Lamartine DaCosta, no Brasil. Pois, como garantem Quivy e Campenhoudt ,
uma das melhores formas de se encontrarem textos adequados sem se gastar
muito tempo é pedindo “conselhos a especialistas que conheçam bem o seu
campo de pesquisa: investigadores, docentes, responsáveis de organizações,
etc.” (2005, p. 55). Mas o autor alerta que não deve negligenciar “os artigos de
revistas, os dossiers de síntese e as entrevistas de especialistas publicadas na
imprensa para um grande público instruído, as publicações de organismos
especializados e muitos outros documentos que, não sendo relatórios
científicos em sentido estrito, não deixam por isso de conter elementos de
reflexão e informação que podem ser preciosos” (Quivy & Campenhoudt, 2005,
p. 55) .
Porém durante este processo surgiram algumas dificuldades, em
especial quando se pesquisou nas bases de dados científicas (tais como
SCOPUS e EBSCO) ou em teses de mestrado e doutorado através de
palavras-chaves. Daí a importância dos contatos nacionais e internacionais
estabelecidos com pesquisadores da área ou áreas afins. Estes amavelmente
disponibilizaram seus arquivos, pesquisas em andamento e apresentações de
258 Traduzido do Inglês: “but also unpublished and on - going research. This process is very
much hit and miss ”
!
121 !
!
conferências. Efetivamente, Veal e Darcy afirmam que “as redes de
comunicação pessoais são geralmente muito ativas, o que facilita o processo.
A este respeito, documentos de conferências e seminários são geralmente
melhores fontes de informação sobre pesquisas atuais do que livros e
periódicos, já que o último tem longos períodos de gestação, de forma que a
pesquisa relatada por estes é geralmente baseada em trabalhos realizados há
dois ou mais anos antes da publicação" 259 (2014, p. 66).
Quivy e Campenhoudt alertam que as leituras devem ser realiz adas
sobre a forma de ‘levas’, “após cada ‘leva’, para-se de ler durante algum tempo
para refletir, tomar notas e falar com pessoas conhecidas que se julga poderem
ajudar -nos a progredir. É só após esta pausa nas leituras é que se decidirá o
conteúdo exato da leva seguinte, estando as orientações gerais que se tinham
ficado no início sempre sujeitas a correções” (2005, p. 54).
Quando, nestas leituras e noutras mais atentas, se consegue
estabelecer qual o estado da arte do conhecimento sobre o assunto que
pretendemos estudar e, dessa forma, as várias abordagens existentes,
relacionando-as entre si nas suas convergências, divergências e
complementaridades, então o investigador está em posição de formular o
modelo conceptual e a questão a pesquisar, definindo assim quais os pontos
de referência teóricos da investigação e quais os conceitos fundamentais e
ideias principais que inspirarão o estudo.
A esta fase chama-se estudo exploratório e e sta implica fazer uma rutura
com o senso comum e com a ideologia, ou segundo Boaventura Sousa Santos
‘romper com a rutura epistemológica’, que pode ser feita através de leituras, de
entrevistas exploratórias ou métodos complementares (consulta de
documentos e observações). Diante destas considerações re solveu-se
259 Traduzido do Inglês: ” the comm unica tion n etwor ks are usu ally ve ry ac tive, w hich e ases the
process. In this respect, papers from conferences and se min ars are usua ll y bette r sourc es of
inform ation on curr ent res earch than b ooks a nd jour nals, sin ce the later ha ve lon g gesta tion
periods, so that the research reported in them is generally based on w ork carried out two or
more ye ars prior t o p ubli catio n”
!
122 !
!
averiguar qual seria o entendimento de alguns especialistas da área desportiva
Olímpica relativamente ao DS, dando-se assim seguimento à etapa seguinte.
Etapa 3. Entrevistas Exploratórias com Especialistas
A terceira etapa consiste na troca de ideias com especialistas da área ou
de áreas afins. A escolha por um estudo desportivo exploratório e de indagação
recente, obrigou o pesquisador a auscultar especialistas do meio desportivo e
Olímpico, académicos e representantes do meio desportivo que de forma direta
ou indiretamente estavam importunados ou agindo no sentido de promover o
DS (ou uma das suas dimensões) no meio esportivo e/ou Olímpico.
Segundo Quivy e Campenhoudt, as entrevistas servem para descobrir
os aspetos a ter em conta e alargar ou retificar o campo de inv estigação das
leituras, sendo que “uma e outras são complementares e enriquecem-se
mutuamente” (2005, p. 69). As entrevistas devem decorrer “de uma forma
muito aberta e flexível e que o investigador evite fazer perguntas demasiado
numerosas ou demasiado precisas” (2005, p. 69).
Perante a decisão de realizar reuniões e entrevistas exploratórias com
especialistas da área, cabia selecionar quem entrevistar, como realizar a
entrevista e em que ocasião. A possibilidade de participar do Congresso em
Lausanne, em junho de 2010, onde se reuniam os maiores especialistas da
área da sustentabilidade (e DS) e Olimpismo (SSET 260 ), organizada pela
AISTS 261 e assim expor as dúvidas, surgiu como uma mais- valia. Este evento é
patrocinado pelo COI e conta com o apoio das Universidades de Lausanne e
das Confederações Internacionais, contando por isso com a presença de
académicos e profissionais que prestam serviço ou trabalham para entidades
desportivas ligadas às Confederações Internacionais, Federações Nacionais ou
COJO.
Desta forma, realizaram-se contatos com alguns destes especialistas,
que amavelmente se disponibilizaram para ceder entrevistas e reunirem-se de
260 SSET - Sustai nable Sport and Event Toolki t (atualmen te denominado como Corporate
Social Respons abili ty & Sustai nabil ity)
261 AISTS - Interna tional A cade my o f Sport S cienc e and Techn ology
!
123 !
!
forma informal, disponibilizando e partilhando seu tempo, know- how e material
bibliográfico.
Após o Congresso SSET, reuniõe s e entrevistas p essoais com alguns
dos especialistas (os que se disponibilizaram a receber), resolvemos consultar
a biblioteca do Museu Olímpico. O material disponível (fontes primárias) seriam
uma mais-valia para esta pesquisa, no entanto o tempo e recursos disponíveis
para a consulta eram parcos e por conseguinte inexequível.
De volta à instituição de origem no Porto constatamos que o caminho
para entender se a candidatura carioca aos JOV de 2016 concentrou sua
apresentação na exploração das benesses sociais, ambientais e económicas
dos Jogos (ou seja nas três dimensões do DS), seria enredado. Diante de tal
foi apresentada a possibilidade de mudança do rumo da pesquisa de forma que
permitisse entender como as dimensões do DS foram abordadas dentro do M O
e dos Comités Organizadores dos Jogos, ao longo da sua existência, para
além de tentar perceber como esta relação (entre Olimpismo e DS) transcorreu.
A necessidade de mudança do foco do estudo foi reforçada após
discussão no seio do grupo de estudo e com colegas da área (ou áreas afins)
em Congressos e Conferências, visto que muitos desconheciam uma pesquisa
que analisasse o percurso Olímpico no quesito Desenvolvimento Sustentável
ao longo dos tempos. Alguns demonstraram desconfiança relativamente ao
COI e seus parceiros, no que concerne à perceção e o claro entendimento dos
valores defendidos pelo DS e embasados na Triple Bottom LIne . Efetivamente
se assim fosse, ter-se-ia de equacionar se os pontos-chave da candidatura
Carioca seriam fruto de um entendimento sobre o conceito de DS assente nas
3 dimensões (Osborne et al., 2007; Sachs, 2007b; Veiga, 2010a; WCED, 1987)
ou fruto do acaso.
Etapa 4. Modelo Conceptual
Perante as mudanças sugeridas é chegado o momento de definir qual o
modelo conceptual ideal para abarcar o tema escolhido e os questionamentos
levantados pela literatura (etapa 4). Segundo Quivy e Campenhoudt é
“importante insistir desde o início na exigência de situar claramente o trabalho
!
124 !
!
em relação a quadros conceptuais reconhecidos. Esta exigência tem um nome
que exprime bem aquilo que deve exprimir: a validade externa” (2005, p . 50).
A opção pela Triple Bottom Line surgiu após a revisão cuidadosa da
literatura no que concerne às noções sobre ambiente, sustentabilidade,
desenvolvimento sustentável, questões sociais e económicas, e discussão com
colegas e especialistas, para além do debate em conferências e congressos
onde apresentamos o nosso projeto. Este modelo expressa a relação entre as
três dimensões versadas na definição de DS selecionada. Efetivamente no
seguimento de todas as leituras e debates constatou-se que o termo
‘desenvolvimento sustentável’ era mais amplos que os outros termos
pesquisados (em especial sustentabilidade) e que este buscava o equilíbrio
entre as dimensões social, ambiental e económica . A posteriori verificou-se que
o modelo conceptual/teórico Triple Bottom Line é aquele que melhor expressa
este conceito, visto que explica cada uma das dimensões, a relação entre elas
e sua importância.
Etapa 5. Pergunta de Partida
Partindo do pressuposto que o conhecimento é algo contínuo, que se
constrói, como refere Michael Polanyi (1958) e Nonaka & Takeuchi (2008b) , é
importante que se determine qual a melhor forma para se abordar esta
pesquisa, seja via questão a pesquisar, problema ou hipóteses (Veal & Darcy,
2014, p. 76) , pois todo o trabalho científico deve ter um bom fio condutor.
A opção por uma pesquisa sustentada na questão a pesquisar advém do
o facto de que:
• O "formato de pergunta de partida é mais comum nas ciências
sociais" 262 (Veal & Darcy, 2014, p. 76) e
• Porque este evidenciou ser o caminho mais adequado para se atingir
os objetivos do trabalho.
Efetivamente um projeto de investigação para que possa ser bem
elaborado requer algumas preocupações, como afirma Quivy e Campenhoudt :
“Uma investigação é, por definição, algo que se
262 Traduzido do Ingl ês: “ research question fo rmat is mo re com mon in the social s cience s”
!
125 !
!
procura. É um caminhar para um melhor conhecimento
e de ve ser aceite como tal, com todas as hesitações,
desvios e incertezas que isso implica”
(2005, p. 31).
Logo o investigador “deve obrigar-se a escolher rapidamente um
primeiro fio condutor tão claro quanto possível, de forma que seu trabalho
possa iniciar-se sem demora e estruturar-se com coerência. Pouco importa que
este ponto de partida pareça banal e que a reflexão do investigador não pareça
ainda totalmente madura; pouco importa que, como é provável ele mude de
perspectiva ao longo do caminho. Este ponto de partida é apenas provisório”
(Quivy & Campenhoudt, 2005, p. 31) .
Neste sentido a elaboração da questão a pesquisar compõe a quarta
etapa do processo. Esta “consiste em procurar enunciar o projeto de
investigação na forma de uma pergunta de partida, através da qual o
investigador tenta exprimir o mais rigorosamente possível o que procura saber,
elucidar, compreender melhor” (Quivy & Campenhoudt, 2005, p. 32) e no fim da
pesquisa espera apresentar uma resposta elucidativa.
No entanto Quivy e Campenhoudt alertam-nos “que uma pergunta de
partida só será útil se essa pergunta for corretamente formulada” (2005, p . 34).
Claro que esta não é uma tarefa fácil, é algo que precisa de ser construído ao
longo do processo de pesquisa e ajustado. Daí a importância da etapa 2, pois
através dela reflete-se sobre o que se lê e discute-se com o grupo de estudo e
pesquisadores nacionais e internacionais e da mesma ou de outras áreas,
abrindo-se assim espaço para novas descobertas, novos caminhos e novas
óticas. E desta forma reformular e reajustar a questão a pesquisar.
A elaboração da questão a pesquisar permite definir e exprimir melhor o
que se procura saber, tornando-se fundamental para que se torne claro o que o
investigador pretende estudar. Assim, a maneira como se coloca a pergunta de
partida condiciona todo o estudo, incluindo a resposta. Como tal, a pergunta
deve ser pertinente (não deve conter sugestões para resposta e deve ter uma
intenção de compreensão), clara (concisa e cujo conteúdo não seja ambíguo) e
!
126 !
!
bem delimitada (realista), e não devem conter juízos de valor (Quivy &
Campenhoudt, 2005) .
A pergunta de partida deste estudo emergiu da necessidade de entender
qual o papel do Desenvolvimento Sustentável dentro do MO, em especial nos
JO. Por conseguinte é importante examinar como este conceito nasceu e foi
evoluindo ao longo dos tempos, de que forma foi incorporado pelos agentes e
representantes do Movimento Olímpico e mapear os grandes acontecimentos,
de forma a se entender como o COI e seus parceiros 263 se adequaram,
ajustaram ou assimilaram (ou não) os valores inerentes ao DS. Acredita-se que
esta análise possa permitir o surgimento de novos princípios teóricos sobre
Jogos Olímpicos e Desenvolvimento Sustentável, e que estes possam
contribuir para a promoção de uma nova teoria que permita a promoção de
Jogos Olímpicos Sustentáveis, indo ao encontro das novas tendências de
relacionamento entre Eventos, Humanidade e Planeta.
A elaboração da pergunta de partida vai permitir que durante a condução
do estudo haja uma reflexão cuidadosa sobre os dados a selecionar, algo que
noutro processo poderia levar à exclusão de dados e informações pertinentes.
Isto porque “a pergunta de partida é a parte mais importante de um a
dissertação e toma muito tempo e esforço para desenvolver” 264 (K.Foss &
Waters, 2007, p. 3 6) .
Desta forma chega-se à seguinte pergunta de partida que norteia esta
pesquisa e que se propõe averiguar:
• “Qual tem sido a ação/feedback/reação ao longo dos 120 anos de
Movimento Olímpico (MO), em especial dos Jogos Olímpicos (JO),
relativamente ao entendimento e à incorporação do conceito de
Desenvolvimento Sustentável (DS) segundo a visão Triple Bottom
Line (dimensões social, ambiental e económica)?”
263 Stakehol ders
264 Tranduzido do Inglês : “the research question is the most important part of the disser tation
and takes the most eff ort and care to dev elop”
!
127 !
!
Etapa 6. Objetivos da Pesquisa
Após a reformulação da pergunta de partida partiu-se para a sexta
etapa, elaboração dos objetivos. Estão subjacentes a esta pesquisa os
seguintes objetivos específicos:
a. Mapear e organizar cronologicamente (com o recurso de Timeline
SmartDraw ) os principais eventos, acontecimentos e marcos que ao
longo dos 120 anos de Jogos Olímpicos da Era Moderna se focaram
nas questões ambientais, sociais e económicas;
b. Discutir o conceito de desenvolvimento sustentável dentro do
Movimento Olímpico, com base na Triple Bottom Line ; e
c. Refletir e apontar caminhos para novas pesquisas que promovam
reflexões e diretrizes que possam levar os Jogos Olímpicos a serem
Sustentáveis.
Etapa 7. Modelo de Análise
Outra tarefa metodológica importante está relacionada com a
determinação do modelo de análise que constitui o eixo central entre a questão
definida pelo pesquisador e o seu trabalho de elucidação sobre o campo de
análise preciso (Quivy & Campenhoudt, 2005). Seguidamente, apresentaremos
o modelo de análise que utilizaremos na nossa investigação (figura 7).
O modelo se traduz na análise das 3 grandes dimensões (social,
ambiental e económica) que compõem o desenvolvimento sustentável, e que
está apoiado no modelo conceptual da Triple Bottom Line , e respetivas
inferências no seio do Movimento Olímpico e na atribuição e organização dos
vários Jogos Olímpicos (de verão e de inverno) realizados entre 1986 e 2014.
Por ser um estudo macro que engloba 120 anos de análise histórico-
sócio-económico-político-culturais d istintos e mutáveis, achou-se por bem
delimitar o estudo a 4 períodos cronológicos devidamente justificados. Peran te
a “importância dos fatos passados na compreensão da dinâmica presente de
ações e eventos, a proposta de periodizar vem de encontro a necessidade de
rearranjar o tempo” (Ru bio, 2010, p. 56). Este rearranjo permite uma leitura
mais clara em função do contexto social inerente a cada período.
!
230 !
mencionados.
O COI arrecadou cerca de 600 mil dólares com a venda dos direitos de
TV, sendo que o presidente na época do Comité, Brundage, se lamentou por
tal facto a posteriori (Guttmann, 2012).
Tóquio na ânsia de mostrar ao mundo o Japão moderno, “estima-se que
tenha gasto cerca de U$ 2,7 bilhões na melhoria de infraestruturas para os
Jogos Olímpicos” 497 (Baim, 2009, p. 77). A cidade investiu em au toestradas, na
substituição do sistema de abastecimento de água, e de forma a “tornar a
cidade mais atrativa para os turistas Tóquio empenhou–se fortemente em
melhorar o seu ambiente” 498 (Baim, 2009, p. 77) , pa ra tal construiu 3 estações
de tratamento de esgoto, limpou seus rios e córregos, iniciou o serviço de
coleta de lixo e a limpeza diária das ruas (Baim, 2009, p. 77).
No entanto alguns dados apontam que o Japão experimentou "uma
recessão temporária após os jogos de Tóquio 1964" 499 sendo que a sua "taxa
de crescimento do PNB 500 caiu de 13,2 por cento para 5,1 por cento em
1965” 501 (Yoon, 200 9, p. 91) .
1965 – Primeiros Jogos Africanos
"Os primeiros Jogos africanos organizados pelos próprios africanos
foram organizados em 1965 em Bazzaville" 502 (Chatziefstathiou, 2005, p. 106).
1966 - 65ª Sessão do COI
Durante a 65ª Sessão do COI realizada em Roma (Itália) é definida os
anfitriões dos JO de 1972, sendo atribuída a Munique a organização dos JOV e
497 Traduzido do Ingl ês: “is estim ated to have spe nt U$ 2,7 billion for the infrastructure
impr ovem ents m ade for the Olym pic Ga mes ”
498 Traduzido do Inglês: “m ake th e city m ore attractive to tourists Toky o lean ed he avily on
impr oving its env ironm ent”
499 Traduzido do Ingl ês: “a tempo rary reces sion after the 1 964 To kyo Ga mes”
500 PNB – Produto Nac ional Bruto
501 Traduzid o do Inglês: “GNP growth ra te fell from 13 .2 per cent to 5.1 per cen t in 1965”
502 Traduzido do Ingl ês: “The first African Game s organised by Africans them selve s were
organised i n 1965 in Bazzaville”
!
231 !
a Sapporo (Japão) os de inverno (Chappelet, 2008, p. 1889) .
O Comité Olímpico Alemão “viu a realização dos Jogos Olímpicos em
Munique como um ‘presente do mundo da confiança renovada na
Alemanha’” 503 (Cottrell, 2002, p. 309). Já a eleição de Sapporo veio como uma
surpresa, embora esta tenha feito promessas de desenvolvimento da região
protegendo o ambiente natural, a cidade canadense de Banff (em parceria com
Calgary) estava convencida que seria a escolhida (Chappelet, 2008, p. 1889).
503 Traduzido do Inglês: “holding of the Olymp ics in Munich as "th e wo rld's gift o f renew ed tru st
in Ge rman y"
!
232 !
Interpretação dos Dados do Segundo Período
Segundo Polanyi (2000, p. 190) a II GM, o fascismo e o socialismo
“foram forças vivas na transformação social”. Mas estas forças eram ‘fruto’ de
uma economia de mercado, do livre comércio e do padrão-ouro (inventos
ingleses que se iniciaram na revolução industrial e expandiram-se para todos
os lugares), instituições que impulsionaram a sociedade para o confronto. Para
o autor o sistem a de mercado autorregulável “posto em movimento com a
motivação do lucro foi comparável, em eficiência, apenas à mais violenta
irrupção de fervor religioso na nossa história” (Polanyi, 2000, p. 58), ou seja a
promoção de uma disputa. Para este o poder do livre comércio, “aliada a uma
confiança não-crítica nas alegadas propriedades auto curativas de um
crescimento inconsciente” (Polanyi, 2000, p. 51) minaram o bem-estar das
comunidades. Crescer não era visto como um mal social ou ambiental, pois
apenas o lucro a qualquer custo interessava, logo, o sistema liberal económico
promovia o mercado autorregulável, porque insistia em interpretar os
acontecimentos sociais unicamente na ótica económica (Polanyi, 2000, p. 46) ,
descurando as outras vertentes.
Numa época imediata à II GM, com uma Europa em fase de
reconstrução e tentando-se reerguer, não se podia esperar grandes
preocupações com as questões relacionadas com a Teoria do DS (que buscam
conciliar de forma harmoniosa as dimensões social , ambiental e económica )
nos Jogos de 1948 e 1952, afinal o COI tentava se restabelecer juntamente
com os países afetados. No entanto “houve indícios de politização e
radicalização das ações ambientais durante o fim da década de 1960 e 1970. A
esta ação se uniram outros ações de protesto base - entre elas, paz e gênero e
igualdade racial" 504 (Kara michas, 2013, p. 39) .
Passado este primeiro momento pós II GM eis que “ o Olimpismo
adquiriu força inédita, atraindo maior interesse e apoio governamentais, bem
como verificando crescente adesão de atletas de diversos países” (Jesus,
504 Traduzido do Inglê s: “There wa s evide nce politicization and radicalization of e nvironm ental
action during the late 1960s and 1970s. This action coalesced with another set of protest action
frame s - among them, peace and gender and raci al equali ty”
!
233 !
2004) . As mudanças na economia global, “especialmente na transição da
cidade industrial para pós-industrial, acentuou o papel dos megaeventos como
catalisadores de substancial transformação” 505 (Essex & Chalkley, 2004a, p.
212) . Assim os JOV emergiram gradualmente, passando de uma origem em
pequena escala para “um importante catalisador de regeneração urbana [na
década de 1960]. O evento não só serviu de base para a construção de novas
instalações desportivas, mas também para um maior investimento em turismo,
infraestruturas de transportes (incluindo serviços públicos), acomodações
hoteleiras, melhoria ambiental e sustentabilidade” 506 (Essex & Chalkley, 2004a,
p. 212) .
Já a nível social , se inicialmente os JO não estavam acessíveis a todos,
esta postura foi-se alterando através da inclusão de um número cada vez maior
de mulheres (em especial após a II GM) e a adesão de várias nações (apesar
do Japão e a Alemanha não terem sido convidados a participar dos Jogos de
1948). De ressaltar o ingresso dos Soviéticos em 1951, isto porque o COI
atendeu que estes tinham mudado sua atitude e estavam predispostos a
competir com o resto do mundo (Chatziefstathiou, 2005, p. 67). Com entrada
da USSR e dos países do bloco de Leste, em 1952, a participação feminina
aumenta, isto porque “estes países não têm em conta as diferenças entre
homens e mulheres [...]. Eles tinh am i ncluído as mulheres à sua maneira, há
muito tempo“ 507 (Miragaya, 2002, p. 321).
Assim o COI dá mai s um passo na promoção de uma organização mais
aberta, tolerante e sem supressões. Porém o período de 1948 a 1988 “foi
dominada pelo clima da guerra fria e de ideologias concorrentes de democracia
505 Traduzido do Inglês: “ especially the transi tion from industrial city to post - industria l city, have
accentuated the role of mega - events as catalysts of substant ial ur ban transfo rmation”
506 Traduzido do Inglês: “ as a signif icant catal yst for urban regeneration. The event not only
underpins the building of new sports faciliti es, but also wider investment in tourism, transport
infras tructure (inc luding pub lic se rvices ), ho tel a ccom mo dation, envi ronmental improvement and
sustainabilit y”
507 Traduzido do Inglês: “th ese countrie s w ere gende r blind [ … ]. They had inclu ded wom en their
own way a long time ago”
!
234 !
e comunismo” 508 (Poynter, 2009, p. 24), sendo que forças entre estes dois
blocos passam a ser medidos em todas as esferas, inclusive no mei o
desportivo. Os JO “serviram para fornecer um campo de batalha ideológico em
que a supremacia podia ser decidida através de proeminência
atlética” 509 (Nendel, 2002, p. 199) .
O “Olimpismo se afirma como fenómeno social, se identifica com o
nacionalismo, recebe apoio estatal e começa a intervir efetivamente nas
cidades-sede” (Mascarenhas, 2008b, p. 199), isto entre 1932 a 1952. Durante a
era da “Guerra Fria, que acentua a importância política dos Jogos, e a era do
Welfare State , na qual o urbanismo Olímpico se volta ao legado social e as
Vilas Olímpicas amiúde se inserem em programas de habitação popular”
(Mascarenhas, 2008b, p. 199) . A novidade em Roma (1960) “foi a criação de
uma Vila Olímpica com modernas e bem equipadas edificações dentro de um
explícito projeto de expansão urbana, incluindo a implantação de infraestrutura
geral e de acesso. Devemos considerar o novo contexto socioeconómico, para
entender a afirmação de um "urbanismo Olímpico" multiplicador de
equipamentos públicos de lazer e desporto: a consolidação do Estado de Bem-
estar Social na Europa Ocidental não apenas garantiu maior capacidade de
consumo como também oportunizou a difusão da prática esportiva, dentro da
política social "desporto para todos" (Jesus, 2004).
Relativamente à dimensão ambiental constata-se que durante este
período o maior foco foi para com a melhoria e a regeneração urbanística das
cidades sede, “ cada Olimpíada vem deixando (ou propiciando) marcas
indeléveis na paisagem das cidades, tornando-se uma efetiva possibilidade de
executar o planeamento urbano” (Jesus, 2004), assim sendo, este megaevento
“se tornou numa opção atraente ao nível de políticas urbanas como meio de
melhorar a aparência do ambiente” 510 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 212) . Tudo
508 Traduzido do Inglês: “was domin ated by the clim ate of the Cold W ar and the com peting
ideolo gies o f dem ocrac y and com mun ism”
509 Traduzido do Inglês “would provide an ideologic al battlefield in wh ich sup rema cy cou ld be
decided thr ough athlet ic prominence”
510 Traduzido do I nglês: “ In this c ontex t, me ga - events have become an attracti ve option in urban
policy as a means of improving the appearance of the environment”
!
235 !
isto sem levar em consideração o i mpacto destas ações sobre o meio
envolvente (natureza e não só), afinal a preocupação era com o bem estar do
Homem. Porém , no final deste período começa-se a observar a s primeiras
preocupações para as questões ambientais ligadas à natureza e à ecologia,
mas numa escala bem pequena, afinal o Mundo ainda estava numa fase pós-
industrial.
No que concerne à questão económica há a de stacar que mesmo
perante as grandes dificuldades económicas, mas graças à “incorporação da
televisão, o fim da II Guerra Mundial, o anseio mundial por informação e o
interesse ecumênico por desporto, converteu os Jogos Olímpicos de Londres
de 1948 num grande sucesso do Olimpismo” 511 (Varela, 2002, p. 338) .
Também de olho na capacidade dos Jogos alavancarem a economia, o Japão
acolheu os JOV de 1960. Já Melbourne organiza os JOV em 1956 e Squaw
Valley os de inverno em 1960, pois ambos vislumbraram uma ‘janela’ para a
promoção económico-turística da região. Roma em 1960, concentra a
revitalização urba na (arcando com os custos de tal investimento) em torno dos
JOV, o que é seguido pelo Japão, embora com uma maior necessidade de
construção de infraestruturas, e usando estes para se autoafirmarem perante o
mundo.
“Com o crescente interesse durante a década de 1950 e 1960 pelos
desportos e turismo de inverno, houve um aumento constante do número de
candidaturas, visto que as estâncias viram o potencial do evento para o
desenvolvimento de novas ou m elhoria das infraestruturas existentes e para
alavancar a vocação internacional da sua região para os desportos de
inverno” 512 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 212).
Helsinki em 1952 “inaugura a era dos grandes projetos habitacionais
511 Traduzido do Inglê s: “The incorporat ion of telev ision, the end of World War II, the worldwide
thirst for informa tion and the ecumenical inter est for sports converted the London '48 Olympic
Games i nto the bi g suc cess of Ol ympism”
512 Traduzido do Inglê s: “ With th e growi ng int er est dur ing the 1950 s and 19 60s in win ter spor ts
and tourism, there was a steady rise in the numbe r of bids as resorts saw the even t’s po tential
for develo ping new o r im prov ed infrastru cture and for rais ing their area’s inte rnation al profile for
wint er s ports ”
!
236 !
populares a partir dos JO. Nos Jogos seguintes, Melbourne não apenas seguiu
o modelo como incorporou o uso de vasta infraestrutura esportiva universitária”
(Jesus, 2004).
No final deste período, o custo de acolher os Jogos se tornaram num
fator impeditivo para algumas cidades que ansiavam candidatar-se, já que o
investimento era cada vez mais alto e “com poucos ben efícios tangíveis para o
país anfitrião” 513 (Karamichas, 2013, p. 96) , algo que s ó mudou com a venda
dos direitos televisivos e com o financiamento de grandes empresas privadas.
Londres em 1948 foi a impulsionadora ao permitir, que pela primeira vez, os
Jogos fosse m transmitidos pela TV, abrindo assim espaço para a
comercialização dos direitos tel evisivos. Mas foi Tóquio, com a transmissão
global, via satélite e a cores, que possibilitou a aceleração deste processo
(Poynter, 2009).
A partir dos dados apresentados anteriormente pode-se verificar que o
segundo período (pós II GM até 1967) é caracterizado por um MO que aspirava
por uns Jogos Olímpicos que:
- Conseguissem unir os povos e nações sob a bandeira do desporto
Olímpico e contribuíssem p ara a promoção da Paz (apesar da
exclusão dos 'grandes perdedores' nos primeiros Jogos pós guerra);
- Fossem capazes de se manterem neutros politicamente (apesar da
Guerra Fria ter atingido os Jogos e ter levado a uma sucessão de
‘boicotes’ impedindo assim a celebração dos valores Olímpicos de
forma mais includente);
- Pudessem crescer e se d esenvolver de forma a promover o desporto
e a tolerância (COI se apôs à participação da África do Sul enquanto
o regime do Apartheid durou);
- Conseguissem promover a regeneração urbana das cidades sede
através do investimento (em especial público) para a consecução dos
JO e das infraestruturas necessárias; e
- Se firmassem como um me io de catapultar as cidades ou estâncias
do ‘desconhecido’ para pontos turísticos de referência.
513 Traduzido do Ingl ês: “with few ta ngible ben efits for the ho st nation”
!
237 !
Sendo que os três primeiros pontos estão atrelados a aspetos sociais e os
dois últimos à dimensão económica (pode ríamos também considerar
ambiental , pois o entendimento sobre regeneração urbana era encarado dessa
forma, no entanto optamos por não o fazer, pois esta regeneração nem sempre
apresentava o devido cuidado para com a natureza e o meio envolvente).
Na análise mais detalhada das três dimensões da Teoria do DS, há a
destacar a nível social os seguintes acontecimentos:
- Os primeiros Jogos Olímpicos pós grande guerra foram os de inverno
e decorreram na Suíça (país que se manteve neutro), em St. Moritz
em 1948, pois esta estância tinha sido poupada durante a II GM,
estes são lembrados como os ‘Jogos da Renovação’ no entanto nem
o Japão nem a Alemanha foram convidados a participar apesar do
acolhimento a novos países;
- Já os Jogos de verão ficaram a cargo da cidade de Londres pela
segunda vez, esta tinha sido destruída durante a II GM e encontrava-
se em fase de recuperação em 1948 no entanto estes são festejados
como uma vitória sobre os tempos negros e lembrados como os
‘Jogos da Austeridade’ ou as ‘Olimpíadas do Racionamento’; houve
um aumento no número de nações presentes apesar dos
“ressentimentos da Guerra, Japão e Alemanha não foram
convidados, indicando assim que o fator esporte estava imbricado
nas amplas relações internacionais” (Carvalho, 2006, p. 702);
- Em 1951 a USSR é acolhida no seio do Movimento Olímpico e a
disputa por medalhas entre estes e os americanos se torna acirrada
em função da Guerra Fria, este fenómeno passa a dominar os Jogos
por um longo tempo;
- Oslo (Noruega) acolhe a VI Jogos de inverno em 1952, sendo esta a
última vez que os JOI e de Verão se realizam no mesmo continente;
estes Jogos ficaram marcados pelo retorno do Japão e Alemanha e
pelo papel feminino (quer na inauguração por uma princesa, quer na
corrida de esqui de fundo aberto à participação feminina pela
primeira vez);
!
238 !
- Nos JOV de 1952 realizados em Helsínquia, a Alemanha e o Japão
puderam a participar e Israel e USSR participam pela primeira vez, “a
União Soviética ingressou nos Jogos Olímpicos e iniciou sua
rivalidade esportiva com os Estados Unidos, levando a Guerra Fria a
mais um cenário” (Carvalho, 2006, p. 702); os países do bloco
comunista optaram por se isolar numa Vila Olímpica separada,
impedindo assim o são convívio entre todos os atletas; há a destacar
nestes Jogos a ascensão da mulher, que pela primeira vez atinge
10% de representação e a autorização para disputar as provas
equestres com os homens (provas mistas);
- Durante os JOI de 1956 realizados na Cortina d’Ampezzo, a USSR
participa pela primeira vez numa Olimpíada de inverno e o juramento
Olímpico fica a cargo de uma mulher também pela primeira vez;
- O COI consegue a proeza de unir as duas Alemanhas numa equipa
combinada durante os primeiros JOV do Hemisfério Sul e da
Oceânia, em Melbourne/Estocolmo em 1956; o COJO promove a
entrada de todos os atletas juntos na cerimónia de encerramento
destes Jogos, promovendo a união e fazendo com que os Jogos
ficassem conhecidos como ‘Jogos da Amizade’, no entanto esta é a
primeira vez os Jogos sofrem boicotes por parte de vário s países e
que a Carta Olímpica (‘mesmo local e mesma época’) não é
respeitada em virtude de restrições ambientais; apesar dos receios
de alguns membros do COI, os australianos são lembrados como
excelentes anfitriões, amigáveis e eficientes;
- Os Jogos de Inverno chegam pela segunda vez aos EUA no ano de
1960, a um pequeno povoado desabitado e denominado de Squaw
Valley, no entanto os Jogos permitiram que esta localidade se
tornasse numa ‘Cidade Pu lsante’; as cerimónias de abertura e
encerramento ficaram a cargo do grande animador Walt Disney e
estes contaram com a presença pela primeira vez (e última até ao fim
do regime de apartheid) da África do Sul;
!
239 !
- Também em Roma, durante os JOV de 1960, a África do Sul marca
presença pela última vez, pois em 1964 o COI proíbe a participação
dos atletas sul-africanos pois como relatou Samaranch em seu
discurso de 1988: “as políticas de apartheid violam os princípios
fundamentais da Carta Olímpica, que governa o Movimento Olímpico
e pelo qual não pode ser tolerado nunca” 514 (International Olympic
Committee, 2002, p. 23); Roma conseguiu elevar os Jogos a u m nível
cultural nunca antes alcançado, “realizando disputas em locais
históricos da cidade, como as Termas de Caracalla e a Basílica di
Massenzio” (Car valho, 2006, p. 703) ; a maratona deu à África a
primeira medalha Olímpica, sendo que o atleta correu descalço e é
nesta Olimpíada que surge o primeiro caso doping que levou à morte
um ciclista;
- Durante os JOI de Innsbruck em 1964 a medalha de Pierre de
Coubertin foi atribuída pela primeira vez, a um atleta italiano por atos
de desportivismo (Fair Play), sendo que sua equipa perdeu a
medalha de ouro para a equipa britânica socorrida; as Alemanhas
disputam pela primeira vez os Jogos de inverno de forma unificada e
sob uma bandeira; novos países aderem aos JOI em bora a África de
Sul seja impedida de participar; pela primeira vez de bobsleigh é
realizada numa pista sintética, o que vai permitir aumentar os níveis
de segurança dos atletas; o COJO opta por repartir as instalações
desportivas por uma série de locais o que v ai permitir a distribuição
dos benefícios dos Jogos por um maior número de austríacos e estes
Jogos são lembrados pelo elevado número de espetadores
presentes; e
- Em 1964 os JOV atravessam o oceano rumo à Ásia (pela primeira
vez) e como homenagem aos mortos de Hiroxima visando a
promoção da paz, a chama Olímpica é carregada na cerimónia de
514 Traduzido do Inglês : “ The apartheid policy viol ates the fundamental princi ples of the Olympic
Chart er, which governs the enti re Olympi c Moveme nt and it cann ot be tol erate d in any form
whatsoever”
!
246 !
A nível económico é importante separar a análise dos Jogos de Verão
dos de Inverno. Relativamente aos JOV Londres em 1948 (e logo pós II GM) é
a única a relatar lucro, Roma (1960) indica que cobriu todos os gastos com a
venda dos direitos TV e rádio (embora os valores relatados sejam dúbios) e os
Jogos que deram prejuízo foram os de Helsínquia 1952, Melbourne/Estocolmo
1956 e Japão 1964 (estes são apontados pela literatura como um dos mais
caros da história). No que concerne aos JOI não se encontrou na literatura
valores de referência que permita uma análise de lucro v ersus prejuízo, no
entanto constatou-se que St Moritz em 1948 enfrentou problemas por falta de
apoio financeiro, Oslo 1952 é lembrada pela extensão dos investimentos numa
época de austeridade, Cortina d’Ampezzo em 1956, Squaw Valley e Innsbruck
dependeram do apoio público e privado.
No momento pós II GM, as questões ambientais não seriam prioridade,
logo os relatos ambie ntais dos JOI como a falta de neve, estruturas sem uso
pós Jogos ou de falta de cuidado na edificação das mesmas não causaram
nenhum dano à imagem do COI ou do COJO, neste período. Relativamente
aos Jogos de Verão, as primeiras Olimpíadas também não apresentaram
preocupações com esta dimensão, no entanto alguns autores referem que a
preocupação com a reorganização urbanística em Roma 1960 e do Japão 1964
podem ser enquadradas na dimensão ambiental. Sendo de destacar que o
Japão é de todos o único que apresentou efetivamente ações focadas no meio
ambiente, e por conseguinte Baim (2009) considera estes os Primeiros Jo gos
Verdes .
As grandes inquietações sociais do MO no 2º período convergiam para
a luta pela ascensão feminina, o aumento da família Olímpica através do
envolvimento de um número cada vez maior de nações (inclusive com a
aceitação dos países pertencentes ao Bloco Comunista, o que permitia ao COI
puder afirmar-se como uma entidade apolítica) e com a estreia dos Jogos
Paraolímpicos em 1948 (apesar de ter sido em Roma 1960 que estes
ganharam m ais notoriedade), a promoção do espírito Olímpico (e intolerância
ao preconceito racial) e a promoção da paz através do desporto.
!
247 !
O Segundo Período é caracterizado pelo foco com as contendas sociais
e económicas , sendo que os aspetos ambientais estavam relegados para um
segundo plano, ignorados ou inseridos na revitalização urbanística.
Conclui-se então que as maiores preocupações do MO estavam
associadas às questões sociais , como:
• A difusão do espírito Olímpico,
• A promoção da Paz através dos JO,
• A luta por uma maior participação feminina e
• No aumento da família Olímpica.
assim como preocupações a nível económico , através:
• Da busca por financiamento dos JO não só com apoio público, mas
também privado,
• Do uso dos JO como catalisador para mudanças urbanas e
• A busca da revitalização das cidades e sua promoção através dos
JO.
!
248 !
3.3 T ERCEIRO P ERÍ ODO (1968 A 1991) - E XPANSÃO DO O LIMPISMO
O Terceiro Período consiste na apresentação e interpretação dos dados
desde a origem do Clube de Roma e do fato marcante dos JOV do México, em
1968, até ao ano que antecede a grande Conferência Mundial das Nações
Unidas, a Eco Rio 92. Esta análise abrange 12 Jogos Olímpicos (6 de inverno e
6 de verão), num percurso de 24 anos cronológico.
A estipulação destas datas é fruto do objeto de estudo proposto e dos
objetivos a alcançar e por conseguinte estes estão descritas na Metodologia.
No entanto gostaríamos de ressaltar que este período finda antes da realização
da Eco Rio 92, visto que o mesmo é considerado o evento mais importante no
que refere ao desenvolvimento sustentável.
Este período analisa uma das fases de maior crescimento económico
mundial, que le vou a situações preocupantes relativamente às questões
ambientais e sociais. Pretende-se assim determinar quais as consequências
sociais, ambientais e económicas (com base na Teoria da Triple Bottom Line)
que estes 12 Jogos Olímpicos geraram e/ou promovera m.
Inicialmente apresentam-se os dados de forma descritiva e a posteriori
evidenciam-se os mesmos através de uma análise interpretativa.
Em virtude de possibilitar-se uma apresentação mais cuidada, optou-se
pela utilização de duas Timelines 519 (que se encontram em anexo), sendo que
a Quinta Timeline apresentará os dados de 1968 a 1976 e a Sexta de 1977 a
1991.
DADOS DA QUINTA TIMELINE 520
Os dados apresentados na Quinta Timeline (ver anexo) irão abarcar as
ocorrências de 1968 a 1976 (inclusive).
519 As Timelines foram elabora das na lín gua ing lesa de fo rma a fa cilitar a subm issão a revistas
académicas internaci onais. Em virtude da tese se encontrar em Português, achou - se por bem
colocarem - se as Timeline s em anexo.
520 Aconteci mentos ocorri dos ent re 19 68 a 1 976
!
249 !
1968 – Fundação do Clube de Roma 521
Em 1968 é constituído o Clube de Roma 522 , composto por um pequeno
grupo de cientistas, industriais, políticos e membros da sociedade civil que se
reuniram em Roma sob a presidência de industrial Aurellio Pecceo e o cientista
escocês Alexander King , visando discutir as “preocupações com relação ao
crescimento económico e o consumo dos recursos ilimitados num mundo a
cada vez mais interdependente” (The Club of Rome, 2012).
Este restrito grupo ficou conhecido em 1972 devido ao relatório Limites
do Crescimento 523 , produzido pelo grupo de cientistas do Clube que estavam
associados ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) 524 (Th e Club of
Rome, 2012) .
1968 - X JOI Grenoble (França)
Os décimos JOI decorreram de 6 a 18 de fevereiro de 1968 na França,
numa região situada “a uma altitude de 720 pés no sulco alpino na junção dos
vales do Drac e Isère. Grenoble é uma cidade de planície com uma montanha
no final de cada rua” 525 (International Olym pic Committe, 1967, p. 39). Estes
contaram com a participação de 1.158 atletas (211 mulheres) representantes
de 35 CON (Olympic Movement, 2015h).
Pela primeira vez:
• Comissão Médica do Comité Olímpico Internacional introduziu os
testes de sexo para mulheres (Olympic Mov ement, 2015h), “nos
Jogos Olímpicos de Inverno de Grenoble [...], o COI introduziu o teste
do cromossoma sexual, um teste de determinação do sexo genético
simples e rápido desenvolvido por Barr e Bertram em 1949 e que
521 Ate nção - O Clube de Roma é compost o por um grupo de pessoas ilus tres que se reunem
para debater um vasto conj unto de assunt os relaci onados à polí tica e economia internaci onal
522 Organi zação inde pendent e se m fi ns l ucra tivo s ( http :// www.cl ubofr ome.or g/?p =4764)
523 Traduzido do Ingl ês: ‘ Limits to Growth ’
524 Traduzido do Ingl ês: ‘ Massac huse tts I nst it ute of Te chno logy ’ (MIT)
525 Traduzido do Inglês: “ an altitude of 720 feet in the A lpine furrow at the m eeting of the valleys
of the Drac and the Isère, Grenoble is a town of the plain with a mountain at the end of every
street”
!
250 !
detetava a inativação do cromossoma X através da presença da
Cromatina sexual” 526 (Ljungqvist et al., 2006, p. 228);
• A Comissão Médica do Comité Olímpico Internacional trabalhou com
o controle antidoping quer para homens quer para mulheres (Olympic
Movement, 2015h) ; e
• Ocorreu a transmissão televisiva a cores (Olympic Movement,
2015h) .
A cerimónia de abertura se realizou “no estádio municipal existente, no
Parque Paul-Mistral. Esta solução apresentava um certo número de vantagens,
das quais a primeira é que ele irá associar estreitamente a população de
Grenoble à cerimónia. A Comissão Organizadora anteviu a possibilidade de
uma capacidade para cerca de 40.000 a 45.000 no estádio com a ajuda de
arranjos provisórios ainda sob estudo [isto em 1966]. A cerimónia em si que vai
acontecer lá, será precedida por um desfile das diferentes delegações no
parque de Paul-Mistral, permitindo a participação de um número elevado
habitantes de Grenoble” 527 (International Olym pic Co mmitte, 1966, p. 75) .
Com o advento da televisão a cores, estes Jogos chegaram
provavelmente “a 500 milhões de pessoas no mundo, incluindo uma grande
maioria de franceses (incluindo o Presidente Georges Pompidou) que acharam
os preços dos ingressos exorbitantes (mínimo de 1.500-2.000 francos) ” 528
(Arnaud & Terret, 1994, p. 133).
526 Traduzido do Ingl ês: “ In th e 1 968 Gre noble W inter Olym pic G am es [ … ], the IOC intro duce d
the s ex c hrom atin te st, a simple and quick gen etic s ex de term ination test d evelop ed B arr a nd
Bertr am in 1949 that dete cted X inactiva tion as e viden ced thro ugh th e pres ence of Barr Bo dies ”
527 Traduzido do Inglês: “in the existin g municipa l s tadium of the P aul - Mist ral Park. This solut ion
presents a certain num ber of advantages, the first of which being that it will closely associate
the G renob le pop ulation w ith the c erem ony. T he O rganisin g Co mmitte e env isions th e pos sibility
of a capacit y of 40 000 to 45 000 in the stadium with the aid of provisional arrangements now
under study [ this in 1966]. The ceremony i tself wh ich is to take place there will b e pre cede d by a
parade of the different delegations through the Paul - Mist ral Par k, permit ting an extr emely la rge
number of Grenobl e inhabit ants to participat e in t he celebrati on”
528 Traduzido do Inglês: “ to 500 million peop l e world wide, including the huge majorit y of
Frenchmen (includi ng President Georges Pompidou) w ho found the prices of adm issi on
exorbitant (1500 - 2000 fr ancs minimum)”
!
251 !
É de ressaltar que “a dispersão dos eventos [por vários locais] gerou
problemas de transporte, que precisava de ser rápida. É por isso que as
estradas conectando Grenoble às estâncias Olímpicas estão sendo ampliadas
[isto em 1967]. Disposições foram feitas, além disso, para que 800
espectadores possam ser transportados em autocarros de 45 lugares e 600 em
miniautocarros e 200 carros foram disponibilizados para os concorrentes” 529
(International Olympic Committe, 196 7, p. 39). Efetivamente uma das grandes
dificuldades destes JOI foi a necessidade dos “espectadores terem de viajar
grandes distâncias para verem os eventos” 530 (The Editors of Encyclopaedia
Britannica, 2015b), sendo que “somente os eventos de patinação e hóquei no
gelo se realizaram em Grenoble; o resto dos eventos estavam espalhados por
5 locais distantes, ao redor da região de Dauphine” (Sky Museum, n/d- d) . Por
este motivo “as estradas de Grenoble, as ferrovias e telecom unicações foram
modernizadas” 531 (Arnaud & Terret, 1994, p. 133), para além de se promover o
“realojamento da universidade, e ’construções de prestígio’, de arenas,
palácios culturais, as pistas de salto e de bob” 532 (Arnaud & Terret, 1994, p.
133) , todos eles contribuíram para que uma “nova imagem de Grenoble” 533
(Arnaud & Terret, 1994, p. 133) pudesse nascer. Segundo Essex e Chalkley,
estes Jogos “foram usados para acelerar a modernização do Departamento
Isère e para remodelar o seu sistema de planejamento seguido de um rápido
crescimento (1946 – 68)" 534 (2004a, p. 221).
529 Traduzido do Ingl ês: “ The dispersa l of the events rai ses the problem of transpo rt, whic h has
to be rapid. Tha t is why the roa ds co nnectin g Gre noble to the Olym pic resorts are being
widened. Provisions have been made, m oreover, for 800 45 - seated buses for transporting
spectators and 600 mini - buses and 200 cars for competit ors”
530 Traduzido d o Inglês: “ Spect ators had t o tr avel g reat distan ces to view events”
531 Traduzido do Ingl ês: “ Gren oble’ s r oads, rai lway s and tel ecommuni cati ons were up - dated”
532 Traduzido do Inglês: “the u niversity re - housed, and ‘construc tions of pre stige’, ar enas,
cultural palac es, the j ump and bob - runs”
533 Traduzido do Ingl ês: “Greno ble a new image ”
534 Traduzido do Inglês: “were use d to acc elerate the mo dernization of the Isère De partmen t,
and to r emodel its planning syst em following rapid growt h (1946 – 68)”
!
252 !
A “Vila Olímpica de Grenoble foi construída em uma zona prioritária de
urbanização (ZUP) e posteriormente usada como residência universitária com
800 quartos, um albergue de 300 quartos para jovens trabalhadores e um bloco
de torre com 52 apartamentos” 535 (Essex & Ch alkley, 2004a, p. 220) , no
entanto alguns “críticos alegaram que a disposição dispersa [das
infraestruturas desportivas] tinha depreciado a camaradagem do evento e
aumentado os problemas de transporte” 536 (Essex & Chalkley, 2004a , p. 221) ,
sendo que os atletas preferiram se acomodar perto das instalações desportivas
do que na Vila Olímpica” 537 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 221). Por causa da
dispersão dos eventos e da disposição da Vila Olímpica, gerou-se “alguma
controvérsia sobre a descentralização destes Jogos” 538 (Sky Museum, n/d- d) .
O “governo francês lidou com estes Jogos co mo um 'caso nacional' ,
contribuindo para 80% dos custos das instalações básicas desportivas e
subsidiando as despesas operacionais na ordem dos 20 milhões de francos” 539
(Essex & Chalkley, 2004a, p. 216), desta forma "uma gra nde quantidade de
dinheiro [público] foi gasta para preparar a cidade industrial de Grenoble” 540
(The Editors of Encyclopaedia Britannica, 2015b). Sendo que “um quinto do
total do investimento nos Jogos” 541 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 221) foi com a
535 Traduzido do In glês : “ Olympi c Villa ge at Grenoble was bui lt in a Prior ity Urba nizat ion Zone
(ZUP) and subsequently used as an 800 - room unive rsity ha ll, a 300 - room hoste l for y oung
worker s an d a tower bloc k wit h 52 apar tment s”
536 Traduzido do Inglês: “ Criti cs clai med that the dispersed geography had detract ed from the
camaraderie of the event and increased problems of tr ansport”
537 Traduzido do Ing lês: “ competitors preferring to be accommodated closer to venues rather
than in the Oly mpic V illage”
538 Traduzido d o Inglês: “ the r e was some controversy about the decent ralizati on of these
Games”
539 Traduzido do Inglês: “ French government tr eated the se Games as an ‘ affair e nationa l’, gi ving
80% of basic sports install ation costs and subsidizing operational expenses to the tune of 20 m
francs ”
540 Traduzido do Inglês: “a great deal of mo ney was spent to ready the industrial city of
Grenoble”
541 Traduzido do Ingl ês: “ a fi fth of total investment i n the Games”
!
253 !
“construção de estradas” 542 (Essex & Chalkley, 2 004a, p. 221), visto que foi
projetado uma rede rodoviária “para descentralizar a região e facilitar o
crescimento económico, incluindo uma ligação da autoestrada de Grenoble a
Genebra, que serviu de catalisador para a economia regional, transformando
Grenoble num grande centro de universitário e de conferências. O aeroporto da
cidade velha em Grenoble-Eybens foi fechado para abrir caminho para a Vila
Olímpica e substituído por dois novos aeroportos em Saint-Étienne- de -Saint-
Geoirs e Versoud” 543 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 221).
Até o Presidente do COI na altura, Brundage, “criticou os enormes
gastos dos Jogos de Grenoble em 1968, escrevendo que os franceses
gastaram 240 milhões de dólares em conexões com Jogos de Grenoble e
quando consideramos que isto foi apenas para dez dias de competições
desportivas amadoras, isto parece ser um pouco fora de proporção. Com tanto
dinheiro envolvido tem de haver um limite para a comercialização de um tipo ou
de outro” 544 (Esse x & Chalkley, 2004a, p. 225).
Ao que parece o “comercialismo provou ser um problema ainda maior
nestes Jogos, depois que permitiram os esquiadores usarem imagens de
publicidade e receberem grandes pagamentos por debaixo da mesa” 545 (Sky
Museum, n/d- d) . De forma a atenuar este problema “os esquis eram retirados
542 Traduzido do Ingl ês: “ Road const ruct ion”
543 Traduzido do Inglês: “ to dec entralize the re gion a nd fac ilitate ec onom ic grow th, inc luding a
moto rway lin k fr om Gren obl e to Ge neva wh ich was a cat alyst for the r egi onal econ omy,
transfo rming Gre noble into a major c onfere nce a nd u nivers ity cen tre. Th e city ’s old airport a t
Grenob le - Eyben s was closed to make way for the O lympic Village a nd replaced by two new
airport s at Saint - Etienn e - de - Saint - Geo irs and Verso ud”
544 Traduzido do Inglês: “ Brundage had also cr iticized the huge expenditures at t he 1968
Grenob le Games, writi ng that the French spent $ 240m in connection with these Grenoble
Games and when you conside r that this was for ten days of amateur sport, it seems to be
somewhat out of proportion. With that kind of m oney involved there is bound to be
commercialisation of one kind or another”
545 Traduzido do Inglês: “Comm ercialism prove d to b e an even bigge r issue at the se Ga mes,
after skiers allowed images to be used in advert isements while receiv ing large under - the - table
payments”
!
254 !
aos atletas logo após a competição, de forma a impedir a exibição de marcas
na media” 546 (Sky Museum, n/d- d) .
Grenoble apresentou um estudo de impactos económicos (micro e
macro económicos), que segundo Chappelet foram bastante controversos, mal
interpretados e mal calculados (2010b). Segundo o autor “apenas a análise de
custos-benefícios é apropriada para determinar a pertinência de subsídios
públicos a eventos desportivos, mas estes são difíceis de fazer e portanto
escassos” 547 (2010b).
“Devido ao aumento da temperatura e pelo facto de a pista estar
exposta a muito sol, os eventos de luge nos Jogos foram adiados e não
puderam ser levados até ao fim, apesar destes estarem dispersados ao longo
de 12 dias” 548 (Olympic Movement, 2015h), sendo que “uma infelicidade similar
também se abateu sobre os eventos de bobsled, embora estes ocorre ssem
noutra pista” 549 (Olympic Movement, 2015h). Mas também ocorreram
performances positivas, como quando um ano antes dos Jogos de Grenoble
“os engenheiros responsáveis pela pista de patinação de velocidade
descobriram que usando água congelada desmineralizada produziam uma
faixa mais rápida do que com água da torneira“ 550 (Olympic Movement, 2015h) ,
e assim “muitos recordes mundiais e Olímpicos foram batidos nos Jogos,
apesar das condições atmosféricas não serem muito favoráveis“ 551 (Olympic
Movement, 2015h) . Estes Jogos são vistos com o um “exemplo enfático de uma
546 Traduzido do Inglês: “skis were take n from athlete s immed iately after competition to prevent
displayi ng trademarks t o the media”
547 Traduzido do Inglês: “ only cost - benefits analysis are appropriat e to access the pertinence of
sports events publi c subsidies, but are difficul t to do and t hus scarce”
548 Traduzido do Inglês : “Owing to an incre ase in tempe rature an d the track be ing exp osed to
too much sun, the luge events were delayed and could not be continued to the end, despite the
fact tha t they w ere sp read o ut ove r 12 da ys”
549 Traduzido do Inglês: “A similar misfortune a l so befell the bobslei gh events, alt hough they
took p lace on anoth er track ”
550 Traduzido do Ingl ês: “the en gineers respon sible fo r the speed skating track d iscovere d tha t
using fr ozen deminerali sed water pr oduced a fast er track than tap water”
551 Traduzido do Inglês: “man y world a nd Olym pic rec ords we re beate n at these Gam es, des pite
the weather conditi ons not bei ng too favour able”
!
255 !
falha em levar em consideração as questões ambientais” 552 (Chappelet, 2008,
p. 1888), já que “a pista de bobsleigh nos Alpes d'Huez ficou exposta ao sol, o
que levou à necessidade de organizar as competições de noite” 553 (Chappelet,
2008, p. 1888), a pista de “salto de esqui em Saint-Nizier ficou muito exposta
ao vento, o que provocou interrupções nas sessões de treinamento
Olímpico” 554 (Chappelet, 2008, p. 1888), as “pistas de esqui alpino de
Chamrousse foram afetadas em dem asia pela névoa e por uma altitude muito
baixa para que houvesse garantia de queda de neve” 555 (Chappelet, 2008, p.
1888) e a “pista de luge em Villars- de -Lans (ainda não era artificial) esta va a
uma altitude muito baixa para garantir gelo” 556 (Chappelet, 2008, p. 1888) .
A pista de “salto de esqui dos Jogos de Grenoble, situado em Saint-
Nizier” 557 (Charmetant, 2002, p. 149) acabou sendo “negligenciada pelos
turistas” 558 (Charmetant, 2002, p. 149) , o que levou a que esta se encontre
“agora abandonadas porque eram mal localizadas e muito caro para operar” 559
(Essex & Chalkley, 2002b, p. 97). O mesmo acontece com a maioria das
instalações desportivas destes Jogos que “foram abandonadas alguns anos
depois, e os edifícios das Vilas Olímpica e da imprensa, na 'nova cidade'
rapidamente ficaram degradados” 560 (Chappelet, 2008, p. 1888). Perante tal
552 Traduzido do Inglês: “ emblematic example of a failure to take envir onmental issues int o
account”
553 Traduzido do Inglês: “ The b obsleigh run on the Alpe d’Huez was too exposed to the sun,
meani ng th at it pr oved ne cess ary to ho ld the co mpet iti ons at nigh t”
554 Traduzido do Inglês: “ The ski jump at Saint - Nizi er was too expose d to the wind, which
disrupted the Olympic training sessions ”
555 Traduzido do Inglês: “ The C hamrousse downhill ski runs were too much affect ed by mist,
and at an altit ude too low for snow cover to be guaranteed”
556 Traduzido do Inglês: “ The luge run at Villars - de - Lans (not yet an artifici al one) was at an
altit ude too l ow to guarant ee ice”
557 Traduzido do Ingl ês: “ ski j ump of the Grenoble Games, situated i n Saint - Nizi er”
558 Traduzido do Ingl ês: “neglec ted by touris ts”
559 Traduzido do Inglês: “ now lies derelict because it was poorly sited and too expensive to
operate”
560 Traduzido do Inglês: “t o be a bando ned a few ye ars later, an d the bu ildings for the Olym pic
and Press Vi llages in the ‘new t own’ rapidl y became dereli ct”
!
262 !
Não houve nenhum tipo de investimento na melhoria do trânsito local e a
Cidade do México é lembrada pelos seus engarrafamentos (Baim, 2009, p. 78).
A nível financeiro os Jogos do México foram realizados em tempos de
contração económica local, por isso poucos recursos foram disponibilizados
(Baim, 2009, p. 77). O orçamento era de 175 milhões de dólares, sendo que o
maior parceiro foi o governo local (56 m ilhões de dólares), 4,5 milhões de
dólares vieram de vendas dos direitos de TV e uma parte da venda de bilhetes
(Zarnowski, 1993, p. 24) . Segundo Miah e Garcia, o COJO do México
arrecadou 9,8 milhões de dólares apenas com a vendas dos direitos de
transmissão televisiva (2012, p. 115), o que difere dos dados de Zarnowski.
1970 - 70ª Sessão do COI
Durante a 70ª Sessão do COI em Amesterdão, no dia 15 de maio de
1970, é determinada a expulsão do CON da África do Sul através de uma
votação acirrada (35 a favor, 28 contra e 3 abstençõe s) (Miller, 2003). Assim
começa a luta contra o apartheid no desporto, num país em que o “desporto é
quase uma religião” 585 (International Olympic Committee, 2002, p. 23). Algum as
das Federações Internacionais (FI) e Nacionais (FN) alinharam e cortaram
relações com a África do Sul, colocando assim mais pressão internacional
(International Olympic Committee, 2002, p. 23) contra o regime de apartheid.
Nesta Sessão a cidade de Denver (EUA) foi selecionada como anfitrião
dos JOI de 1976 e Montreal dos Jogos de verão. No entanto Dever desistiu de
acolher Jogos após consulta popular em novembro de 1972, sendo que 60%
da população se opôs à organização dos Jogos (Trex, 2014), por receio de
custos elevados e de danos ambientais (The Editors of Encyclopaedia
Britannica, 2015c).
1971 – O COI relaxa as normas sobre amadorismo
“O COI ao longo da década de 1950 e 1960 defendeu o código
amador" 586 mas em 1971 o mesmo “decidiu eliminar o termo amador do artigo
585 Traduzido do Ingl ês: “sport is alm ost a religion ”
586 Traduzido do Ingl ês: “The IOC t hroughout the 1950s and 1960s def ended the amateur code”
!
263 !
26 da carta COI" 587 (Chatziefstathiou, 2005, p. 121), permitindo que os atletas
recebessem compensações pelo tempo longe do trabalho.
1972 - XI JOI Sapporo (Japão)
A cidade de Sapporo, no Japão, acolheu entre 3 e 13 de fevereiro de
1972 os JOI e contou com a participação de 1.006 atletas (205 mulheres)
representando 35 CON (Olympic Movement, 2015u), sendo que “estes foram
os primeiros Jogos Olímpicos de inverno organizados na Ásia” 588 (Olympic
Movement, 2015u) .
“O assunto do amadorismo provocou polémica nos Jogos de 1972 em
Sapporo. Esquiador austríaco Karl Schranz foi declarado inelegível, porque ele
havia permitido o uso do seu nome e sua foto em publicidade comercial, mas
jogadores de hóquei no gelo em tempo integral das nações comunistas foram
autorizados a competir” 589 (Olym pic Mo vement, 2015u), assim como o atleta
sueco, Bernhard Russi, que ganhou a corrida de esqui alpino 590 masculina e
não foi penalizado por ter “autorizado uma empresa de seguros a usar sua
imagem em anúncios na media" 591 (The Editors of Encyclopaedia Britannica,
2015e) . No entanto, o “torneio de hóquei no gelo decorreu sem a equipe
canadense" 592 (Olympic Movem ent, 2015u) pois estes se recusaram a enviar
uma equipa aos JOI como forma de protesto "contra o profissionalismo secreto
que grassava na URSS e Europa Oriental" 593 (Olympic Movement, 2015u) e
587 Traduzido do Inglês: “ decided to eliminate the term amateur from article 26 of the IOC
Chart er”
588 Traduzido do Ingl ês: “These were the first Olym pic W inter Ga mes orga nised i n Asia”
589 Traduzido do Ingl ês: “The subject of amateurism stirred c ontrovers y a t the S apporo 19 72
Games. Austr ian skier Karl Schranz was declared inel igi ble because he had allowed his name
and photo to be used in com mercial advertisi ng, but full - tim e ice hockey players from
Communis t na tion s were all owed to c ompete”
590 ‘ downhill’
591 Traduzido do Inglês: “had allow ed an in surance co rporation to use his likeness in med ia
advertisements ”
592 Traduzido do Ingl ês: “ The hockey t ournament t ook place without the Canadian team”
593 Traduzido do Ingl ês: “ against the covert professionalis m rife in the USSR and Eastern
Europe”
!
264 !
porque o COI rejeitou a petição do Canadá “para usar jogadores de hóquei
profissionais, alegando que os países do Leste Europeu estavam usando tais
atletas” 594 (The Editors of Encyclopaedia Britannica, 2015e).
“Para os Jogos de Sapporo 1972, fizeram-se extensões dos dois
aeroportos, melhorias na estação principal de comboios, 41 novas ou
melhoradas estradas (213km) e um novo sistema de autoestradas (45km). Este
últ imo projeto já tinha sido iniciado pela cidade de Sapporo, mas agora poderia
ser completado com financiamento do governo” 595 (Essex & Chalkley, 2004a, p.
221) , para além de melhorias na rede de metro, no sistema de aquecimento, de
água e tratamento de lixo urbano (Chappelet, 2008, p. 1 889) . “Sapporo
resolveu organizar todas as competições desportivas dentro de um raio
máximo de 35 km da Vila Olímpica” 596 (Chap pelet, 2008, p. 1889), sendo que a
maioria dos eventos decorreram dentro da cidade, o que permitiu um sistema
de transporte reduzido e a reutilização das infraestruturas após os Jogos
(Chappelet, 2008, p. 1889).
"Alguns problemas foram salientados [...] nos Jogos Olímpicos de
Inverno de Sapporo em 1972” 597 (Guala & Scamuzzi, 2002, p. 438) , em
especial as questões ambientais, visto que para a organização destes “a única
montanha perto da cidade de acolhimento e apropriada para eventos de corrida
de esqui em descida de montanha (esqui alpino) era o Monte Eniwa, dentro do
Parque Nacional Shikotsu-Toya. O Conselho do Parque Nacional deu
permissão mas na condição de que todas as instalações relacionadas com os
eventos fossem removidas e o solo na área afetada fosse restaurado ao seu
594 Traduzido do I nglês: “to use p rofession al hock ey play ers, claim ing tha t the e astern E uropea n
countries were using such athletes”
595 Traduzido d o Inglês: For the 1972 Sapporo Games, there were extensions to two airport s,
impr ovem ents to the m ain railw ay sta tion, 41 new or imp roved roads (213k m) an d a new rapid
transit s ystem (45k m). T his last p roject had alrea dy be en sta rted b y the C ity of S app oro, bu t
could now be completed with government funding”
596 Traduzido do Inglês: “Sa pporo c hose to o rganize a ll th e sports comp etitions within a
maxi mum r adi us of 35 km f rom the O lympi c Vil lag e”
597 Traduzido do Ingl ês: “Some problems have been underli ned [ … ] S apporo winter 1972”
!
265 !
estado original” 598 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 221). “Uma enorme quantidade
de trabalho teve de ser feito para esculpir as pistas de esqui e de trenó na
encosta da montanha" 599 (Olympic Movement, 2015u) . Porém, para Chappelet,
estes foram os primeiros JOI a “levar em consideração de forma séria as
questões ambientais” 600 (2008, p. 1889) .
“O governo do Japão viu nos Jogos de Sapporo de 1972 uma
oportunidade económica única para revigorar a ilha de Hokkaido” 601 (Essex &
Chalkley, 2004a, p. 221). Quando “Sapporo foi finalmente selecionada para
acolher os Jogos de Inverno de 1972, o governo japonês gastou uma grande
quantidade de dinheiro de forma a criar a imagem de Jogos Olímpicos
memoráveis” 602 (The Editors of Encyclopaedia Britannica, 2015e), sendo que
“menos de 5% do capital dos Jogos de Inverno de Sapporo de 1972 foi para
construir novas instalações desportivas: a maioria das despesas consistia em
investimentos em infraestruturas urbanas” 603 (Essex & Chalkley, 2002b, p. 96) .
“Para custear as despesas elevadas, os organizadores venderam os direitos de
televisão para mais 8 milhões de dólares” 604 (The Editors of Encyclo paedia
Britannica, 2015e).
598 Traduzido do Inglês: “ the o nly mo untain c lose to th e host c ity and su itable fo r down hill ski
events was Mount Eniwa, within the Shikotsu - Toya National Park. The National P ark Council
gave permission on condition that all related facil ities wer e r emo ved and th e terrain in th e
affected area rest ored to i ts ori ginal st ate”
599 Traduzido do Ing lês: “An enormo us amou nt of w ork had to be done to carve out ski and
bobsleigh r uns in t he mountainside”
600 Traduzido do Inglês: “T he first edition of the win ter g ame s to tak e the en vironm ent into
account i n a serious way was that of Sapporo i n 1972”
601 Traduzido do Inglês: “ Japan’s government viewed the Sapporo G ames of 1972 as a unique
economic opportuni ty to invigorat e the is land of Hokkai do”
602 Traduz ido do In glês: “Sappo ro was finally aw arded th e 1972 W inter Gam es, and th e
Japanese government s pent a great deal of money to creat e a memorable Olympics”
603 Traduzido do Inglê s: “Less than 5% of c apital im provem ents for th e Sa pporo Winte r Ga mes
of 1972 invo lved bu ilding n ew spo rts facilit ies: mo st of the e xpen diture w as on invest men t in the
urban inf rastruct ure”
604 Traduzido do Inglês: “To de fray the high expe nses, the org anizers sold the televis ion rights
for ove r $8 m illion”
!
266 !
A pista de esqui alpino, no Monte Eniwa, “foi removida após os Jogos
para replantar as árvores que foram cortadas para criá- lo” 605 (Chappelet, 2008,
p. 1889), ou seja “imediatamente após os Jogos, a montanha foi devolvida ao
seu estado primitivo em conformidade com as leis de conservação local” 606
(Sky Museum, n/d- e) , mas a um custo de “2 milhões de dólares para construir e
desmontar as 2 pistas de esqui alpino, 2 bondinhos e o teleférico" 607 (Sky
Museum, n/d- e) .
1972 - Lançamento do livro Limits to Growth
Em 1972 e após 4 anos de trabalho, eis que o Clube de Roma consegue
que um grupo de cientistas do MIT, composto por Donella H. Meadows,
Dennys L. Meadows, Jorgen Ranger e William W. Behrens III, lancem o
relatório Limits to Growth na língua inglesa (Meadows et al., 20 08). Este grupo,
liderado por Denis Meadows, recorreu a modelos matemáticos, como a teoria
da dinâmica sistémica e de modelagem computacional, para “analisar as
causas de longo prazo e as consequências do crescimento na população
mundial e na economia material (Meadows et al., 2008, p. IX) e concluiu que a
Terra não suportaria o crescimento populacional devido à pressão sobre os
recursos naturais e energéticos e ao aumento da poluição, mesmo se levasse
em consideração todos os avanços tecnológicos, isto porque o planeta tinha
suas próprias limitações.
Os autores defendiam que seria necessário “uma inovação profunda,
proactiva e social por meio de mudanças tecnológicas, culturais e institucionais
para evitar um aumento na pegada ecológica da humanidade que fugisse à
capacidade de suporte do planeta Terra” (Meadows et al., 2008, p. X) . No
entanto este livro “caiu como um raio em céu azul” (M eadows et al., 2008, p.
605 Traduzido d o Inglês: “The Moun t Eniwa dow nhi ll run , t he onl y o ne w ith a suf fic ien t g rad ient in
the region, had to b e tra ced out on th e s lopes of S hikots u N ationa l Pa rk. It was remo ved after
the ga mes in orde r to repla nt the tre es that h ad to b e cut d own in order to create it”
606 Tr aduzido do Inglês: “ im med iately afte r the G ame s, th e m oun tain was return ed to its pristin e
state in compliance with local conservati on laws”
607 Traduzido do Inglês: “cost $2 million to cons truct and dism antle the 2 d ownhill ru ns, 2 cable
cars, and chairl ift ”
!
267 !
VII), pois esta era uma ép oca de optimismo e de altas de crescimento ano após
ano. Porém os autores se defendem dizendo que o “relatório não era uma
visão apocalíptica e sim um chamamento à ação” (Meadows et al., 2008, p.
VII), pois acreditavam que em 1972 ainda “haveria espaço para um
crescimento seguro enquanto examinássemos alternativas no longo prazo”
(Meadows et al., 2008, p. XII).
1972 – Artigo sobre Desporto e Ambiente
“Artigo de Jurgen Dieckert, publicado na Alemanha, apontando o
desporto como nocivo à natureza, quando praticado sem meios de proteção
ambiental” (DaCosta, 1997b, p. 35). Esta é a primeira vez que o desporto
aparece de forma clara associado ao ambiente, sendo este o primeiro passo
para que as pesquisas nesta área comecem a dar os primeiros passos.
1972 - Conferência de Estocolmo
Em maio-junho de 1972 decorreu em Estocolmo (Suécia) a Conferência
das Nações Unidas sobre o Futuro da Humanidade e do Meio Ambiente 608 , que
contou com a presença de representantes de 113 nações, 250 ONG’s e
diversas unidades próprias das NU (Kuenzer, 1996, p. 9). Este foi realizado em
função das ideias divulgadas pelo Clube de Roma, no livro Limites do
Crescimento (Meadows et al., 2008), e ficou conhecida como a Primeira
Grande Conferência Global sobre Meio Ambiente (Flores & Oliveira, 2012, p.
142) já que conseguiu reunir a comunidade internacional para discutir ambiente
e desenvolvimento económico.
Durante esta reunião diversos programas foram criados como o
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA (International
Olympic Committee, 2012d; UNEP, 1972, p. 16) e no final foi elaborado “um
relatório intitulado Apenas uma Terra: O Cuidado e a Manutenção de um
Pequeno Planeta , que salientou o estado do meio ambiente" 609 (Paquette et al.,
2012, p. 68) . Após esta Conferência, os governos criaram ministérios ou
608 Atenção - Tam bém denominada de Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente Humano
(COB , 2010, p. 20 )
!
268 !
agências para lidar com as questões ambientais e a educação ambiental
passou a ser prioridade (Kuenzer, 1996, p. 11).
Na época desta conferência “não havia mais de 10 nações que
contavam com m inistérios ou agências ambientais” (Meadows et al., 2008, p.
109) , no entanto foi “a partir deste evento, que efetivamente gerou-se um
movimento político de proporções planetárias para proteger e conservar a
natureza, apesar do caráter difuso e por vezes contraditório de suas
justificativas” (DaCosta, 1997a, p. 62).
Karl William Kapp participou desta ‘Cúpula de Estocolmo’ , ele foi um
pioneiro na abordagem das relações entre desenvolvimento e meio ambiente ,
politizando a questão ambiental e foi um dos inspiradores da ecologia política.
1972 – 73ª Sessão do COI
Munique acolheu a 73ª Sessão do COI no qual o Lord Killanin foi eleito
o 6º presidente a 21 de agosto de 1972 (International Olympic Committee,
2013b, p. 8). Lord Killanin era vice-presidente sénior desde 1968 e este parecia
estar mais disposto a democratizar o MO e a cooperar com outras
organizações, de tal forma que foi sob sua liderança que as relações do COI
com a UNESCO e o CIDEF 610 tiveram m elhoras significativas (Luijk, 2013, p.
24) .
1972 - XX JOV Munique (Alemanha)
Os Jogos de Munique decorreram de 26 de agosto a 11 de setembro de
1972 (com uma paragem de 34 horas devido ao incidente entre palestinos e
judeus (Zarnowski, 1993, p. 24) e contaram com a presença de 7.134 atletas
(1.059 mulheres) de 121 CONs (Olympic Movement, 2015q). Esta foi a primeira
vez que o número de participantes do sexo feminino ultrapassou a barreira dos
mil, enquanto os homens já tinham ultrapassado nos JO de Londres, em 1908
609 Traduzido do Inglês: “a rep ort titled Only One Eart h: The Care and Maint enance of a Small
Planet wit ch ou tli ned t he st ate of the envir onment”
610 CIDEF - Comissão Inte rnaci onal para o Desport o e para a Educação Físic a (ISCPE -
Interna tional C omm ittee fo r Spor t and P hysica l Educ ation)
!
269 !
(Cruz et al., 2013, p. 30). No entanto as mulheres apenas representavam
14,8% dos atletas Olímpicos presentes em Munique (Cruz et al., 2013, p. 30).
Pela primeira vez:
• Algumas modalidades se estrearam, tais como andebol masculino,
slalom, canoagem e caiaque (Olympic Movement, 2015q); e
• Uma mulher ganhou a medalha de ouro no hipismo (prova mista)
(Olympic Movement, 2015q).
“Os Jogos de 1972 mantiveram-se na história por dois grandes
incidentes políticos: o ataque terrorista árabe contra a equipe israelita e por
causa das questões relacionadas à África do Sul e à Rodésia” 611
(Chatziefstathiou, 2005, p. 117). “Brundage em seu discurso também se refere
à 'batalha da Rodé sia'” 612 (Chatziefstathiou, 2005, p. 117) como um “grande
incidente político das Olimpíadas de 1972” 613 (Chatziefstathiou, 2005, p. 117) .
“Durante a década de 1960 muitos países restringiram suas ligações esportivas
com a África do Sul, assim como a Rodésia, por causa de suas políticas de
apartheid" 614 (Chatziefstathiou, 2005, p. 117) e por isso "muitas nações
africanas boicotaram os Jogos” 615 (Chatziefstathiou, 2005, p. 118), sendo que
“a própria Rodésia se retirou dos Jogos dizendo que os acordos firmados não
haviam sido respeitados” (Rubio, 2010, p. 63) .
O ataque terrorista ocorreu no dia 5 de setembro de 1972, quando oito
palestinianos invadiram a Vila Olímpica (Olympic Movement, 2015q) levando a
uma “batalha que deixou todos os reféns [judeus] e terroristas [palestinianos]
mortos” 616 (Zarnowski, 1993, p. 24). Destes, 11 eram membros da delegação
de Israel, 5 terroristas, 1 policial alemão (Cru z et al., 2013, p. 32) e um piloto
611 Traduzid o do Inglês: “The 197 2 Gam es hav e re maine d in history for tw o m ajor po litical
incide nts: the Arab terro rist a ttack again st th e Is raeli team an d th e S outh Africa n a nd R hod esian
questions”
612 Traduzido do Ingl ês: “Brund age in his sp eech a lso refers to the ‘R hodesian bat tle’”
613 Traduzido do Ingl ês: “major p olitical incident of th e 1972 O lympic G ame s”
614 Traduzido do Inglês: “During the 19 60s m any cou ntries restricted their sporting links with
South Afri ca, as well as Rho desia, because of their apart heid p olici es”
615 Traduzido do Ingl ês: “man y African na tions boyc otted the G ames ”
616 Traduzido do Ingl ês: “ ba ttle left all h ostag e s and terrori sts dead”
!
270 !
(Rubio, 2010, p. 63). Após o desfecho deste atentado, os Jogos fizeram uma
paragem de 34h horas e uma missa no Estádio Olímpico, em homenagem às
vítimas. O Presidente do COI, Avery Brundage insistiu na continuação dos
Jogos, afirmando que:
"Os Jogos devem continuar!"
(Brundage citado por Cottrell, 2002, p. 309; Brundage
citado por Olympic Movement, 2015q) .
Esta foi uma decisão bastante controversa e que afetou os Jogos de
Munique (Ro senberg, n /d- n) , isto porque “embora muitos membros da
Comissão insistissem na realização de uma Sessão imediatamente de forma a
decidir se os Jogos deveriam ser anulados” 617 (Chatziefstathiou, 2005, p. 117) ,
o que aconteceu foi que o Presidente do COI discordou, e de “acordo com
Killanin, atitude de Brundage causou muita reação nos círculos Olímpicos.
Argumenta-se que o f rancês Conde Jean de Beaumont furiosamente
expressou ‘para Brundage... ele é o COI – ninguém mais, só ele!’” 618
(Chatziefstathiou, 2005, p. 117).
Vários fatores contribuíram para o in cidente, mas Cottrel refere um que
lhe parece ter contribuído de forma enfática para o infortúnio. Segundo o autor
“os organizadores dos Jogos Olímpicos de Munique ansiavam por uns ‘Jogos
despreocupados’, sem a presença de arame farpado, policiais armados ou
soldados. Os primeiros esforços pa ra manter os jornali stas afastados resultou
em acusações de táticas da Gestapo. Eventualmente, até as patrulhas
noturnas foram retiradas. Os custos de segurança não chegaram a 2 m ilhões
de dólares. Um consultor de segurança americana mais tarde declarou que ‘Ao
longo dos anos, Munique tem servido como um modelo do que não fazer de
617 Traduzido do Inglês: “ Although many committ ee members insist ed on callin g a sessi on
imm ediate ly in or der to decide whe ther th e Ga mes should be ca ncelle d”
618 Traduzido do Inglês: “According to Killanin, Brund age’s attitude caus ed much reac tio n in the
Olympi c cir cles. It is argued that the Frenc h Comte Jean de Beaumont furi ousl y utter ed ‘to
Brundage ...h e is the I OC – no one else, j ust he!’”
!
271 !
todas as maneiras possíveis’" 619 (Cottrell, 2002, p. 309).
Apesar de tudo, Munique foi “um exemplo de plano de desenvolvimento
urbano, que foi acelerado devido ao advento das Olimpíadas" 620 (Baim, 2009,
p. 78) , se ndo que todas as infraestruturas desportivas e a Vila Olímpica foram
instaladas num único local, a norte de Munique (a região era uma pista de
aterragem abandonada da II GM) (Baim, 2009, p. 78) , t rês autoestradas foram
construídas, o transporte público melhorado e a “parte histórica da cidade foi
restaurada incluindo ruas pedonais” 621 (Baim, 2009, p. 78).
A nível ambiental há a relatar que durante a “XX Olimpíada em Munique,
o Comité Olímpico Nacional de todas as nações do mundo trouxeram um
arbusto de seus países que foi plantado no Parque Olímpico adjacente às
instalações desportivas. Um casal alemão, Luzian e Sigrun Verborgen,
colocaram, por analogia com a expressão ‘mens sana in corpore sano’, a frase
‘certatio sana in natura sana’. Em outras palavras, uma concorrência saudável
num ambiente intacto” 622 (F. Kidane, 1997, p. 247).
Estes Jogos custaram quatro vezes mais que os anteriores pois a
República Federal Alemã ansiava que estes “fossem globais e imaculados”
(Zarnowski, 1993, p. 24) e assim pudessem apagar da memória os Jogos de
Berlim (Zarnowski, 1993), o que não ocorreu.
619 Traduzido do Inglês : “organ isers of the Mu nich Olymp ics ho ped for "th e C arefree Gam es",
wit hout the presence of barbed wire, armed police or soldiers. Early efforts to hold journalists at
bay had resulted in charges of Gestapo tactics. Eventually, even night - time patr ols were s caled
back. Security costs amounted to less than US D 2 million. One A meri can secur it y cons ult ant
later dec lared ‘Ov er the years Mu nich has se rved as a mod el of w hat not to do in every
conceivable way’"
620 Traduzido do Ingl ês: “is an exam ple o f urban dev elopme nt plan , that was acc elerated due to
the pe nding Olym pics”
621 Tradu zido do Inglês: “the histo rical section o f town restore d including pedes trian streets”
622 Traduzido do Inglês: “XX Olym piad in M unich, the Na tional O lympic Co mmittee from all
concerns of the world cam e with a sh rub from their countries and planted them in t he O lympic
park adjacent to the sports facilities . A German Couple, Luzian and Sigrun Verborgen, have put
forwa rd by analog y with the exp ressio n ‘me ns sa na in corpo re sa no’ the form ula ‘cer tatio sa na
in nat ura sa na’. In o ther w ords , health y com petitio n in an intact envi ronment”
!
278 !
Committe, 1974a, p. 418) . Foram “os soldados do Exército Federal austríaco
que trabalharam — com muita dificuldade — fizeram e planejaram as pistas de
esqui nórdico no planalto Seefeld" 643 (International Olympic Committe, 1974a,
p. 418). Relativamente às pistas de esqui alpino, estas tiveram de ser
alargadas para as provas masculinas em Patscherkofel, enquanto “a pista do
percurso sobre à Axamer Lizum, apenas precisou de pequenas
modificações” 644 (International Olympic Committe, 1974a, p. 418). Foram
necessárias “adaptações no Estádio Olímpico: construído no inverno de 1963
para os IX Jogos de inverno em 1964” 645 (International Olympic Committe,
1975, p. 347) . O Estádio Olímpico teria que acolher vários eventos, tais como
“as cerimónias dos Jogos de Inverno de 1976” 646 (International Olympic
Committe, 1975, p. 347) , e por i sso o COJO achou por bem realizar uma
“completa renovação para 1976” 647 (International Olympic Committe, 1975, p.
347) .
Para facilitar seu orçamento, o Comité Organizador de Innsbruck lançou
“uma loteria Olímpica. Embora com princípios semelhantes aos de Montreal, no
entanto completamente diferente no aplicativo” 648 (International Olympic
Committe, 1974b, p. 606). Apenas um sorteio de loteria foi realizado, sendo o
prêmio “uma casa pré-fabricada de madeira, medindo 84 metros quadrados” 649
(International Olympic Committe, 1974b, p. 606) e a terra perto de lgls foi
oferecida pela cidade de Innsbruck. O edifício ficou “concluído um ano antes
dos Jogos” 650 (International Olympic Committe, 1974b, p. 606). Esta foi a forma
643 Traduzido do Ingl ês: “the sold iers of the A ustrian F ederal Army who are working - very hard -
on the marki ng out and planning of the Nordic ski sl opes on the Seef eld plat eau”
644 Traduzido do Inglês: “the co urse slope on the Axam er Lizum, only very slight mod ifications
are needed”
645 Traduzido do Inglês: “ Adaptat ions to the Olympic Stadium: Constructe d in the winter of 1963
for the IX th W inter Ga mes in 196 4”
646 Traduzido do Ingl ês: “ the cerem onie s of the 1 976 W inter G am es will be held”
647 Traduzido do Ingl ês: “will be com pletely ren ovated fo r 1976”
648 Traduzido do Inglês: “Olym pic lottery. Although i n pri ncipl e simi lar t o Montre al’s, it is ho wever
completely diffe rent in application”
649 Traduzido do Ingl ês: “ being a prefabri cated wooden house measuring 84 square metres”
650 Traduzido do Ingl ês: ”The building will be com pleted on e year be fore the G ames ”
!
279 !
de Innsbruck e Tyrol co nseguirem fundos "sem causarem e ncargos financeiros
impossíveis de suportar aos contribuintes" 651 (Klee, 1976b, p. 19) austríacos.
Innsbruck, “que organizou os Jogos de 1964 e 1976, os organizadores
precisaram construir uma Vila Olímpica para ambos os eventos. As
construções dos Jogos de 1964 estavam indisponíveis para 1976, pois tinham-
se tornado num subúrbio residencial nesse ínterim. Uma nova Vila foi
construída em um local adjacente” 652 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 220). Esta
era “composta por 35 edifícios, contendo 642 apartamentos ao todo, a Vila
Olímpica, que está em construção nos últimos 18 meses [isto em 1974], e está
quase terminada. Localizada um pouco mais ao sul do que a Aldeia de 1964, é
para ser alugada após os Jogos” 653 (International Olympic Committe, 1974b, p.
605) . Esta foi equipada “com uma piscina interior para os atletas” 654
(International Olympic Committe, 1974a, p. 417) .
“Os organizadores de 1976 relataram mais tarde que construir uma Vila
foi, talvez, um po uco extravagante, poi s nem todos os atletas desejavam
permanecer lá, alguns preferiram ficar mais perto de locais das provas. Em
retrospecto, os organizadores sentiram que acomodar atletas hotéis teria sido
melhor na perspectiva de custo, segurança e transporte” 655 (Essex & Chalkley,
2004a, p. 220). “As dificuldades de alojamento foram facilmente resolvidas para
a satisfação dos hóspedes; na verdade, a questão dos convidados de honra
651 Traduzido do Inglês: “was poss ible w ithout causing the taxpayers a financi al burden
impo ssible to bea r”
652 Traduzido do Inglês: “which stag ed th e 19 64 a nd 1 976 Gam es, o rganize rs we re forc ed to
build an Olympic Village for both events. That built for the 1964 Games was unavailabl e for
1976 as it had becom e a residenti al suburb in the interim. A new Village w as built on an
adjacent site”
653 Traduzido do Ingl ês: “Mad e up of 35 bu ildings conta ining 642 ap artmen ts in all, the Olymp ic
village, which has been under constructi on for the last 18 months, is almost finished. Located
slightly more to the south than the 1964 village, it is t o be let out after the Games”
654 Traduzido do Ingl ês: “It will be equip ped with a n indoor sw imm ing pool for ath letes”
655 Traduzido do Inglês: “The 19 76 orga nizers later rep orted that h aving to bu ild a Vil lage was,
perhaps, rather extravagant , as not all athletes wished to stay there, some preferring to be
closer to event sites. In retrospect, the organizers felt that accommo dating a thletes in hotels
migh t have been p ref era ble fr om cost , secu ri ty and tr ansport perspecti ves”
!
280 !
apresentou a tarefa mais difícil dos Jogos" 656 (Klee, 1976a, p. 134).
De acordo com o Secretário-geral do Comité Organizador dos JOI em
Innsbruck o “sucesso [dos Jogos] se deve principalmente porque eles ficaram
livres de ataques externos ou escândalos e de sensações negativas
internamente“ 657 (Klee, 1976a, p. 134), para além de "os anfitriões serem bem
treinados, amigáveis e úteis” 658 (Klee, 1976a, p. 134).
O maior problema para a organização foi lidar com o número elevado de
espectadores, em "1976 em Innsbruck, havia 1,5 milhões de espectadores” 659
(Essex & Chalkley, 2004a, p. 207). "Planejamento de tráfego exato, no entanto,
tornou possível o transporte de espectadores de e para os locais mais difíceis
dos eventos — como as provas alpinas no Axamer Lizum, por exemplo — sem
qualquer dificuldade e sem acarretar atrasos indevidos" 660 (Klee, 1976a, p.
134) . Graças ao apoio de algumas empresas da indústria automóvel, o Comité
Organizador terá um número suficiente de carros disponíveis durante os Jogos
de inverno, sendo que até 1975 o Comité organizador já dispunha de “41
carros à sua disposição gratuitamente“ 661 (International Olympic C ommitte,
1975, p. 348). “Estância de esqui alpino de Axamer Lizum, descoberta para o
IX Jogos de inverno em 1964, tornou-se ainda mais atrativa por ocasião do Xll
Jogos Olímpicos de inverno em 1976 através da construção de uma moderna e
alta capacidade funicular para o Hoadl” 662 (Klee, 1976b, p. 19).
656 Traduzido do Inglê s: “ The accommodation diff icult ies were final ly solved to the sati sfacti on of
the gue sts; in fact, the qu estion of gu ests of hon our pres ented th e mos t diffic ult task of the
Games”
657 Traduzido do Inglês: “A suc cess main ly becaus e they were free from attac ks from the
outside or scandals and negative sens ations fr om the insi de”
658 Traduzido do Ingl ês: “The ho stesses were we ll trained, friendly a nd helpful”
659 Traduzido do Ingl ês: “In Innsbru ck in 197 6, there we re 1.5 m spectators”
660 Traduzido d o Inglês : “Exac t traffic plan ning n everthele ss m ade it pos sible to trans port
spectators to an d from awkwardly located events — the Alpine con tests in the Axam er Liz um, for
instan ce — without any dif fic ulty and with out e ntai ling undue d elays”
661 Traduzido do Ingl ês: “has 41 cars at its dispo sal free of ch arge”
662 Traduzido do Ingl ês: “The Axamer Lizum Alpin e s ki reso rt, disc overed for th e IX th W inter
Games in 1964, was made even more attr acti ve on the occasi on of the Xllt h Olympic Winter
G ames in 1976 t hrough the constructi on of a modern high capacit y funicul ar to the Hoadl”
!
281 !
“Os organizadores perceberam que o m aravilhoso tempo desempenhou
um papel considerável no sucesso dos eventos. Neve suficiente, sol em
abundância e estradas limpas, todos desempenharam a sua parte para o bom
funcionamento dos eventos desportivos” 663 (Klee, 1976a, p. 135).
O total das “despesas [...] para o XII Jogos Olímpicos de Inverno em
Innsbruck, em 1976 foram de S. 391. 542.000" 664 (Klee, 1976b, p. 20), sendo
que "o montante total da renda de 1976 [S. 342.581.000] é baseada no fato de
que o rendimento da televisão para a concessão de direitos e construção de
hardware em 1976 foi para S. 142.228.000” 665 (Klee, 1976b, p. 20) . No entanto
“o Comité Organizador [dos Jogos de Inverno Innsbruck 1976] [...] te ve um
deficit de S. 48.961.000 - que, segundo os acordos legais é suportado pelas
três autoridades territoriais da República da Áustria, a ‘terra’ do Tyrol e da
cidade de Innsbruck, contra isso - por outro lado, deve ser definido o fato de
que, durante sua existência o Comité Organizador pagou impostos e taxas no
valor de S. 60.000.000 — e contribuições sociais de aproximadamente S.
10.000.000" 666 (Klee, 1976b, p. 20) .
Após os JOI as “casas do Centro Olímpico de Transmissão abriga agora
o depósito de merca dorias do serviço de transporte de Innsbruck" 667 (Klee,
663 Traduzido do Inglês : “The organise rs re alise th at the marv ellous weather played a
considerable part in the succe ss of the events. Ju st enough snow, su nshine in abunda nce and
clear roads all played their part in the smooth running of the sport s events”
664 Traduzido do Ingl ês: “expen ses [ … ] at th e X IIth Olym pic Winter Gam es in Innsbru ck in 197 6
were S. 391, 542,000”
665 Traduzido do Inglês: “t he a moun t of the tota l incom e for 1976 [S. 342,5 81,000 ] is based on
the fact th at the inco me from televisio n’ for the grantin g of rights and con struction of hardw are in
1976 came to S. 142,228,000”
666 Traduzido do Inglês: “ Whil e the Org ani si ng Commi ttee [o f Wint er Game s Inns br uck 197 6]
[ … ] had a d eficit o f S. 4 8,961 ,000 - which accordin g to the statut ory agreements is to be borne
by the three ter ritori al authori ties of the Republic of Austria, the “Land” of Tyrol and the city of
Innsb ruck, a gains t this - on the other hand must be set the fac t tha t durin g its existe nce th e
Organi sing Committee paid taxe s and rat es of over S. 60,000 ,000 — and social contribut ions of
approximately S. 10,000, 000”
667 Traduzido do Inglês: “The O lympic broadc asting c entre houses the g oods depot of the
Innsb ruck T rans port Service”
!
282 !
1976b, p. 18); o “centro de imprensa tornou-se na planejada Faculdade de
Formação de Professor” 668 (Klee, 1976b, p. 18); “os edifícios de congénere de
1964 da Vila Olímpica, que foi apropriada pelos novos inquilinos logo após os
Jogos” 669 (Klee, 1976b, p. 18); "treinamento e competições são continuamente
realizadas no combinado das pistas de bob e luge, a maior construção
esportiva dos Jogos de 1976” 670 (K lee, 1976b, p. 19); “o Centro Cultural e
Esportivo com a sua piscina interior e sauna em Seefeld, também construído
para os Jogos de 1976, servem de base para os entusia stas fãs de cross-
country” 671 (Klee, 1976b, p. 19); “embora os custos tenham si do
consideravelmente mais elevados do que se esperava, por outro lado
Innsbruck agora tem realmente as mais modernas instalações de desportos de
inverno" 672 (Klee, 1976b, p. 19). Pode-se “então dizer que o povo de Innsbruck
lembra com prazer os Jogos Olímpicos 1964 e 1976 sem sentir qualquer
dolorosas consequências financeiras e, portanto, apreciar ainda mais a
infraestrutura e as instalações esportivas que foram criadas para a preparação
do IX Jogos Olímpicos de inverno em Innsbruck, em 1964 e para os Xll os
Jogos Olímpicos de inverno em Innsbruck, em 1976” 673 (Klee, 1976b, p. 20).
668 Traduzido do Inglês: “The press centre has now become the planned Teacher Training
Coll ege”
669 Traduzido do Inglês: “the buildings o f its 1 964 cou nterpart th e Olym pic village, wh ich was
taken over b y the ten ants s hortly a fter the G ame s”
670 Traduzido do Inglê s: “Traini ng and competitions are continuousl y held on the combined bob
and luge r un, the greatest spor ts constr uction f or the 1976 Games”
671 Traduzido do Inglês: “The C ulture and Sp orts C entre with its indoo r sw immin g p ool a nd
sauna in Se efeld, also built for the 1976 G ames, serves as a base for the enthusiast ic cross -
country fans”
672 Traduzido do Inglês: “Although the costs were considerably higher than had been expected,
on the ot her hand I nnsbruck now has r eally t he most modern wint er sports install ations”
673 Traduzido do Inglês: “it can there fore be said that the peo ple of Innsb ruck glad ly remem ber
the 1964 a nd 1976 Olym pic festiva ls w ithout feelin g any painful financia l c onse quenc es, and
therefo re enjoy even m ore the in fra - structure and the sp orts ven ues tha t w ere cre ated for th e
preparati on of the IXth Olympic Winter Games in Innsbruck in 1964 and the Xllth Olympic
Win ter Games i n Inn sbr uck in 1976”
!
283 !
Os “organizadores dos Jogos de Innsbruck sugeriram que cidades com
cerca de 100 000 [habitantes] seriam cidades-sede ideais [para acolher os JOI],
pois estas possuíam a capacidade para lidar com os problemas de tráfego
associados ao número de atletas, funcionários e espectadores e
acomodações” 674 (Essex & Chalkley, 2004a, p. 213).
1976 – As NU impõem embargo à África do Sul
Em 1973, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas (NU), foi
denunciado o regime de apartheid vigente na África do Sul (History.com Staff,
2010b) , e em 1976 o Conselho de Segurança das NU vota pela imposição de
um embargo mandatário à venda de armas à África do Sul (History.com Staff,
2010b) .
1976 - XXI JOV Montreal (Canadá)
Os Jogos de Montreal (Canadá) decorreram de 17 julho a 1 agosto de
1976 e contaram com a presença de 6.084 atletas (1.260 do sexo feminino)
representando 92 CONs (Olympic Movement, 2015o). Pela primeira vez 20%
dos atletas presentes são do sexo feminino (Cruz et al., 2013, p. 32).
Esta foi a primeira vez que:
• Uma atleta (Nádia Comaneci) conseguiu a pontuação máxima na
ginástica Olímpica, 10 nas para lelas assimétricas (Cruz et al., 2013 ,
p. 32), 3 medalhas de ouro (Rosenberg, n/d- j) e 7 notas máximas
(Olympic Movement, 2015o);
• O andebol e basquetebol foram dois desportos coletivos abertos à
participação feminina (Cruz et al., 2013, p. 33; Olympic Movement,
2015o) ;
• As mulheres puderam competir no remo (Cruz et al., 2013, p. 33;
Olympic Movement, 2015o);
674 Traduzido do Inglês: “organizers o f the In nsbruck Gam es su ggested that to wns o f about 1 00
000 were ideal host cities as they possessed the capacity to deal with the accommodation and
traffic pro blem s asso ciated w ith the num ber of a thletes, o fficials an d spe ctators”
!
284 !
• As partidas de hóquei campo se realizaram em um campo com
grama artificial (Olympic Movement, 2015o) ; e
• A chama Olímpica viajou p elo ar de Atenas a Ottawa (não de avião),
para tal um sensor usado para detetar partículas ionizadas da chama
os transformou em impulsos codificados e estes “foram transmitidos
por satélite para Ottawa onde eles ativaram um feixe a laser que
recriou a chama Olímpica em sua forma original” 675 (Olympic
Movement, 2015o) .
Estes Jogos apresentaram algumas alegações de doping , embora não
comprovadas, sendo que algumas atletas “especialmente as nadadoras da
Alemanha Oriental, foram acusadas de usar esteroides anabolizantes” 676
(Rosenberg, n/d- j) .
Estes Jogos também sofreram boicotes por motivos raciais, por parte de
22 países africanos, em virtude da Nova Zelândia (que participou dos Jogos)
ter efetuado um conjunto de jogos de rugby na África do Sul (Cruz et al., 2013,
p. 34; Olympic M ovement, 2015o). “Apesar da expulsão da África do Sul do
Movimento Olímpico e do pedido da Assembleia Geral das Nações Unidas para
que todos os membros suspendessem as ligações desportivas com este país,
a equipa de rugby da Nova Zelândia competiu contra África do Sul em 1976.
Posteriormente, os países african os, sob os auspícios do Conselho Supremo
do Desporto em África, se recusaram a participar nos Jogos de Montreal
(1976), a menos que a Nova Zelândia fosse expulsa" 677 (Chatziefstathiou,
2005, p. 118), o que não ocorreu.
675 Traduzido do Inglês: “were trans mitted by s atellite to Ottaw a where th ey ac tiva ted a laser
beam which recr eated the Ol ympic flame i n its or iginal shape”
676 Traduzido do Inglês: “many athletes, esp ecially the East Ge rman wo men sw immers , we re
accused of using anaboli c steroids ”
677 Traduzido do Inglês : “Desp ite the Sou th A frican expul sion from the mov ement and the
Unit ed Nation s General Assembly’ s request to all its members to suspend any sporti ng links
with this count ry, the New Zeal and rugby team competed agai nst South Africa in 1976.
Subsequen tly, the African countr ies, under the au spices of the Supreme Council for Sport in
Afri ca, r efused to p artic ipate in the Mont real Games (1976 ) unl ess New Zealand was expel led”
!
285 !
Dikaia refere que durante a “Olimpíada de Montreal, a política e o
nacionalismo não só se tornaram características proeminentes do esporte e
dos Jogos Olímpicos, como também o mercantilismo tinha crescido” 678 (2005,
p. 118) .
“Quando Montreal começou seu planejamento para os Jogos, em 1969,
o prefeito Jean Drapeau estimou os custos em torno de 120 milhões de
dólares, mas por volta de 1976 o custo total era de 1.6 bilhões de dólares” 679
(Chatziefstathiou, 2005, p. 118). Segundo Jesus, os JOV de 1976 foram
responsáveis pelas diferenças entre as aspirações da cidade sede, o alto custo
de acolh er os Jogos e as re ais receitas (Jesus, 2004, p. 96 ). Estes foram
marcados por um pobre planejamento, alguma ingenuidade e “a praga da
corrupção sem medo” 680 (Zarnowski, 1993, p. 24), para além dos “litígios
laborais e o pobre controle financeiro dos Jogos de Montreal deixaram o
empreendimento irremediavelmente endividado” 681 (Baim, 2009, p. 78) . Tudo
isto levou a um “retumbante fracasso comercial de 2 bilhões de dólares, que a
cidade Montreal pagou nos 30 anos seguintes” (Garcia, 2014). Sendo que após
a contabilização de todos os custos, estes foram arcados pelos contribuintes
locais e regionais (Jesus, 2004, p. 96). “O financiamento dos Jogos de Montreal
recaiu sob o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Montreal (COJO) e
sobre a cidade de Montreal. No final do evento apenas 5 por cento dos fundos
necessários foram obtidos de fontes privadas pelo COJO, o resto teria de vir do
sector público. Isto resultou em juros da dívida para cobrir o custo dos Jogos
tendo que ser levantados pelos impostos municipais e provinciais. O
678 Traduzido do Inglês: “ Olympia d of Montreal , poli tic s and nation ali sm not only had become a
prominent characterist ic of sport and of the Olympic Gam es, but commercialism had also
grown”
679 Traduzido do Inglês: “ When Montreal began its planning for the Games in 1969, Mayor Jean
Drapea u est imate d th e cost s at $US12 0 mil lio n, bu t by 1976 the tot al c ost was $US1 .6 bi llion”
680 Tr aduzido do I nglês: “out right corruption plagued”
681 Traduzido do Inglês: “labour disp utes a nd po or financ ial controls of the Montre al Gam es left
the endeavour hopelessly in debt”
!
286 !
pagamen to final foi concluído em 2005- 2006" 682 (Poynter, 2009, p. 29). Ao
longo dos tempos o legado destes Jogos é visto como um “fardo económico
insustentável para a população” 683 (Miah & Garcia, 2012, p. 86) a qual contraiu
dívidas no valor de um bilhão de dólares e o custo final foi de dois bilhões de
dólares (Miah & Garcia, 2012, p. 86). “Observadores colocaram a maior parte
da culpa em Drapeau, que abraçou uma ´política de grandeza' ao invés de
prudência financeira” 684 (Baim, 2009 , p. 78) .
Apesar de tudo, a venda dos direitos televisivos rendeu 34,9 milhões de
dólares, possibilitando Montreal diminuir parte das suas dívidas (Miah & Garcia,
2012, p. 115) .
Por tudo isto, estes são lembrados como um dos maiores fracassos
comerciais Olímpicos de todos os tempos (Garcia, 2014) e isto acabou tendo
impacto na organização dos JOV subsequentes, pois poucas cidades se
dispuseram a acolher os Jogos (Zarnowski, 1993, p. 24).
O Transporte da cidade “foi modernizado, com o metro a estender-se
desde do centro da cidade até aos locais Olímpicos” 685 (Baim, 2009, p. 78) ,
pois as estruturas esportivas “estavam localizadas em outras seções de
Montrea l” 686 (Baim, 2009, p. 78). Para além disso “um novo aeroporto foi
construído” 687 (Baim, 2009, p. 78) de forma a atender a demanda de turistas.
“Após os Jogos, a Vila Olímpica de Montreal tornou-se numa zona
residencial tão popular que uma lista de espera é utilizada para preencher as
682 Traduzido do Inglês: "The financing of the M ontreal G ames rested with th e Mo ntreal
Organi sing Committe e of the Olympic Games (OCOG) and the city of Montr eal. By the end of
the event only 5 per c ent of the fun ds re quired had be en r aised by the O CO G fro m private
sources, the rest had to be m eet from the public sector. This resulted in interes t o n the deb t to
meet the cos t of the Games being ra ised by munic ipa l and provi nci al taxe s. The fin al paymen t
was c omplet ed i n 200 5 - 2006”
683 Traduzido do Ingl ês: “unsustai nable economic burden for the populat ion”
684 Traduzido do Inglês: “Observers place most of the blame on Drapeau, who embraced a
´politics of gran deur’ rathe r than financ ial pruden ce”
685 Traduzido do Ingl ês: “was upg raded as the subwa y was exte nded to the O lympic site from
downtown”
686 Traduzido do Ingl ês: “sport ven ues we re located i n ot her sections of Montreal
687 Traduzido do Ingl ês: “ and a new airport was built ”
!
287 !
vagas" 688 (Baim, 2009, p. 78). No entanto o “resultado final foi um estádio
incompleto uma década após o término dos Jogos, uma cidade com uma
enorme dívida de 30 anos, e a Previdência municipal que ainda enfrenta um
'deficit atuarial' de 1,7 bilhões de dólares, porque a cidade tinha parado de
fazer pagamentos ao sistema de pensões, de maneira a pagar algumas contas
da Feira Mundial e dos Jogos Olímpicos” 689 (Baim, 2009, p. 78). Para além
disto o Estádio Olímpico acabou sendo fechado em 1991 por perigo de
des moronamento (Zarnowski, 1993, p. 24) .
688 Traduzido do Inglês: “After the Gam es, the M ontreal O lympic Village becam e a residen tial
area that is so popular that a waiti ng list tis used to f ill v acancies”
689 Traduzido do Inglês: “ The end result was a stadi um that was not complete a decade aft er the
Games concl uded, a cit y with a massive 30 - year debt, and municipal pen sion fund that still
faces a n ‘a ctuaria l d eficit’ of $ 1.7 billion be caus e the city had sto pped maki ng pay ment s int o the
pension syst em as a way of paying some of the Olympic and World’s Fai r bill s”
!
294 !
complexo de esportes de gelo para os Jogos de 1980” 711 (Chappelet, 2008, p.
1888) .
“Esta preocupação com o meio ambiente é um fator peculiar para os
Jogos de Inverno. Os Jogos em Lake Placid foram os primeiros a serem
objecto de um estudo de impacto, porque a região Olímpica estava localizada
no Parque Estadual Adirondacks” 712 (Ch appelet, 2010a, p. 2) .
No fim “a oposição foi finalmente retirada, mas provocou atrasos nas
obras, ao ponto de colocar a organização dos Jogos em risco” 713 (Chappelet,
2008, p. 1890) .
Há ainda a relatar “graves problemas de transporte que transformaram o
início dos Jogos num caos” 714 (Chappelet, 2008, p. 1890).
De form a a “garantir que todos os eventos tivessem lugar nas me lhores
condições possíveis, máquinas foram usadas para produzir neve artificial” 715
(Olympic Movement, 2015j), e assim a “neve artificial foi usada nas
competições Olímpicas pela primeira vez em Lake Placid" 716 (Sky Museum,
n/d - f) .
“Os Jogos de Inverno de 1980 em Lake Placid, Nova York, dispunham
de uma Vila Olímpica localizada a várias milhas de Lake Placid e cercada por
um muro duplo contendo apenas um par de entradas bem guardados. Passes
711 Traduzido do Ingl ês: “to form part o f the ice sports comple x for the 198 0 gam es”
712 Traduzido do Inglês: “This con cern for th e e nvironm ent is a facto r pe culiar to th e W inter
Games. The Games at Lake Placi d were the first to be the subje ct of an impact study, because
the O lympic region was lo cated in the Ad ironda cks S tate Pa rk”
713 Traduzido do Inglês: “The oppos ition wa s finally withdraw n, bu t it con siderab ly delay ed
building work to t he point that the organizati on of t he games was at r isk”
714 Traduzido do Ingl ês: “Mo reover, major transp ort pro blems turne d the beg inning of the gam es
into ch aos”
715 Traduzido do Inglês: “ To guarantee that all events took place in the best possible conditi ons,
machi nes were used to pro duce a rtificial snow , the first time this had been d one at th e Olym pic
Games”
716 Traduzido do Inglês: “artificial snow w as use d in O lympic co mpe tition for the first tim e at
Lake Placid”
!
295 !
eram necessários para acessar” 717 (Cottrell, 2002, p. 310). Isto levou a que
alguns “atletas se queixassem sobre o confinamento na Vila Olímpica” ” 718 (The
Editors of Encyclopaedia Britannica, 2015d).
“Após pequenos incêndios no hotel onde estavam hospedados membros
do COI, a segurança desse estabelecimento foi intensificada. 1.200 forças de
segurança, incluindo 800 policiais do estado, guardas privados e 100 agentes
do FBI, do Serviço Secreto e do Serviço de Imigração e Naturalizaçã o, estavam
à disposição, tendo estes recebido treinamento especial para repelirem
ataques terroristas” 719 (Cottrell, 2002, p. 310).
Alguns “críticos se queixaram sobre o transporte mal planejado” 720 (Sky
Museum, n/d- f) . Efetivamente já em 1979 o Comité organizador dos JOI de
Lake Placid afirmava que “organizar um serviço de transporte para os Jogos de
Inverno é em si um grande problema: o enorme volume de pessoas, os
hóspedes da região por duas a três semanas que têm de ser transportadas de
um local Olímpico para um parque de estacionamento ou de um hotel para o
es tádio, obviamente lev anta problemas que são extremamente difíceis de
resolver. Tudo se torna ainda mais complicado quando se trata de uma região
montanhosa com apenas três estradas de pista dupla a conectá-lo ao resto do
mundo, como em Lake Placid, e onde as condições climáticas podem ser
717 Traduzido do Inglês : “The 1980 Winter Gam es in Lake Placid, New York, boasted an
Olympi c Vill a ge that was located several miles outside Lake Placid and was ringed by a double
fence conta ining on ly a pair o f heav ily guar ded en trance s. Pas ses w ere req uired fo r entry”
718 Traduzido do Ingl ês: “athletes com plained about the confinem ent of the Olympic Vil lage”
719 Traduzido do Inglês: “ Followi ng the s etting of a group of small fires at a hotel where
member s of the IOC were stayi ng, secur ity at that establ ishment was in tens if ied . 1,20 0 secu rit y
forces , includin g 800 s tate po liceme n, priva te guard s, and 100s of agents from the FBI, Secret
Servic e, and Immigra tion and Naturali zatio n Service, were on hand, having recei ved special
training to war d off terro rist attack s”
720 Traduzido do Ingl ês: “critics com plained a bout the p oorly plann ed transp ortation”
!
296 !
extremamente severas” 721 (International Olympic Committe, 1979, p. 413) .
Efetivamente este foi um problema, pois o “transporte era inadequado para
mover as multidões" 722 (The Editors of Encyclopaedia Britannica, 2015d) já que
as instalações desportivas “estavam espalhadas por toda a área, tornando-se
difícil para os espectadores verem os eventos" 723 (The Editors of Encyclopaedia
Britannica, 2015d).
Na “era da televisão e com um número crescente de espectadores, Lake
Placid estava mal equipada para lidar com as demandas dos Jogos
modernos” 724 (The Editors of Encyclopaedia Britannica, 2015d), no entanto isto
não impediu que a venda dos direitos televisivos rendessem 20.7 milhões de
dólares (Chappelet, 2010a, p. 16).
Os JOI de Lake Placid deram um prejuízo de 6,5 milhões de dólares, já
que o COJO local arrecadou 162,2 e gastou 168,7 milhões de dólares
(Chappelet, 2010a, p. 18) . “O ‘pequeno’ deficit de Lake Placid foi totalmente
coberto pelo Estado de Nova Iorque, depois que o Governo Federal dos EUA
se recusou a aumentar suas doações” 725 (Chappelet, 2010a, p. 19) .
Efetivamente foi “recusado aos organizadores um subsídio Federal de 3.5
721 Traduzid o do Inglês: “Org anising a tran sport serv ice for the W inter Gam es is in itself quite a
problem: the tremendous volume of people, guests of the region for a fortni ght to thr ee weeks
who have to be co nveyed from an Olympi c site to a carpa rk or from a hot el t o the stadium,
obviously raises problems that are extremely difficul t to solve. Everythi ng becom es even more
complicated when it is a question o f a mountainous region like that of Lake P lacid with only
three two - lane road s c onne cting it to the re st o f the worl d, and whe re the cl imat ic cond iti ons can
be extremely severe”
722 Traduzido do Ingl ês: “Transpo rtation was inadequ ate to mo ve the crow ds”
723 Traduzido do Inglês: “were spread through out the a rea, ma king it difficult for s pectators to
view the events”
724 Tr aduzido do Inglês: “in the ag e of te levision a nd incre asing n umbe rs of sp ectators, Lake
Placi d was ill - equi pped to handle the demands of a modern Games”
725 Traduzido do Inglês: “The ‘sm all’ shortfall at Lake Placid wa s entirely covered by the State of
New Y ork after the U.S. Feder al Government had refused t o increase i ts grant s”
!
297 !
milhões de dólares para cobrir parcialmente a dívida finais” 726 (Essex &
Chalkley, 2004a, p. 217).
A Vila Olím pica mais tarde se transformou numa prisão e em 64 casas
mobiladas (Chappelet, 2010a, p. 12).
1980 – 83ª Sessão do COI
Decorreu a 16 de julho de 1980, em Moscovo (ex-USSR), a 83ª Sessão
do COI, antes dos JOV nesta cidade. Durante esta Sessão, Samaranch
(espanhol) foi eleito sétimo presidente do COI, cargo que manteve por 22 anos
(International Olympic Committee, 2013b, p. 9), sendo que “sob sua
presidência irão ser tomadas medidas importantes a favor da participação das
mulheres no Movimento Olímpico” (Cruz et al., 2013, p. 36) . Este transformou o
COI graças à aposta no potencial comercial da TV e da publicidade, sendo que
desde então os Jogos nunca mais foram os mesmos (Garcia, 2014).
1980 - XXII JOV Moscovo (ex-USSR)
Os Jogos de Moscovo sofreram boicote d os EUA e de alguns países
ocidentais liderados pelo então Presidente americano, Jimmy Carter, e em
protesto à invasão do Afeganistão (em 1979) pelas tropas soviéticas
(Chatziefstathiou, 2005, p. 119; Cruz et al., 2013, p. 36; Zarnowski, 1993, p.
24) . No entanto entre 19 de julho e 3 de agosto de 1980, mais de 5.000 atletas
(1.115 mulheres) represent ando 80 CONs (Olympic Movement, 2015p) dos
“142 países inicialmente inscritos” (Rubio, 2010, p. 64), estiveram presentes
numa Olimpíada em um país socialista (Cruz et al., 2013, p. 36) .
Estes “foram (aparentemente) perfeitamente organizados, mas
permaneceram austeros e frios” 727 (Verbruggen, 2002, p. 24). Zarnowski
considera esta Olimpíada “eficiente e bem organizada, e a cidade estava
arranjada e preparada para acolher os cerca de 300 mil turistas, no entanto
apenas um quarto dos turistas compareceu (1993, p. 24) .
726 Traduzido do Inglês : “ The organizers were refused a final Federal subsidy for $US3.5 m ill ion
to partly cover the deb t”
727 Traduzido do Ingl ês: “ were (s eemingl y) perfe ctly orga nised, but remained austere and cold”
!
298 !
E foi a primeira vez que:
• Os JOV eram realizados num país socialista (Rubio, 2010, p. 63) e
• Os JOV tiveram um número tão pequeno de CONs participantes
desde 1956 (Olympic Movement, 2015p) e em virtude do boicote
americano.
O Parlamento Europeu chegou a debater os prós e os contras sobre um
possível boicote aos JOV de Moscovo (Naul, 2014), “na época o boicote
desportivo era usado como uma estratégia política” 728 (Naul, 2014, p. 56), mas
os países acabaram por não alinhar. Como no seio da União Europeia havia
quem defendesse que a Grécia deveria ser a casa permanente dos JO e o
recurso ao boicote poderia ser uma boa estratégia política para que os Jogos
retornassem às origens (Naul, 2014).
Após 79 anos as mulheres puderam competir no hóquei campo pela
primeira vez numa Olimpíada (Cruz et al., 2013, p. 35), mas algo insólito
ocorreu. Com o boicote, o torneio de hóquei campo feminino só tinha uma
equipa, a USSR, e Zimbabwe foi convidado à ultima hora para participar, tendo
montado sua equipa a “menos de uma semana dos Jogos e apressando-se
para chegar a Moscovo, e no fim surpreendeu a todos terminando em primeiro
lugar” 729 (Olympic Movement, 2015p).
Antes dos Jogos a “maioria das infraestruturas esportivas já estavam
construídas, como parte de um plano de cinco anos, quando a candidatura foi
atribuída a Moscovo. Doze infraestruturas foram concluídas mais rapidamente
do que o planejado, de forma a puderem ser usadas para as Olimpíadas.
Investimentos em infraestrutura incluíam um novo terminal aéreo, e novas
instalações de telecomunicações” 730 (Baim, 2009, p. 78).
728 Traduzido do Ingl ês: “at the time the sporting boycott w as used as a wea pon by politicians”
729 Traduzido do Inglês: “less than a week before the G ames and ru shing to Mos cow, the n
surprised everyone by fi nishing fir st”
730 Tra duzido do Inglês: “Most of the S porting venues were alrea dy co nstructed as part o f a five -
year plan whe n the bid w as awarded to Moscow. Twe lve venues were completed more quickly
than pla nned s o they cou ld be use d for the Olym pics. In frastructu re inves tmen t s included a new
airli ne terminal, and new tel ecommunication fac iliti es”
!
299 !
“Moscou (1980) demarca o ápice da política de construção de
habitações populares a partir de uma vila olímpica: nada menos que dezoito
blocos de apartamentos pré-fabricados com 16 andares cada um. O imenso
investimento soviético se explica não apenas pela conformidade de tal iniciativa
com o modelo funcional e homogêneo de urbanismo socialista, mas sobretudo
por ser aquela ocasião para a já decadente USSRR uma das últimas chances
de exibir ao mundo seu poderio (atlético, financeiro e organizativo” (Jesus,
2004) .
O COJO perdeu imensos recursos devido à falta de espectadores, no
entanto o governo comunista cobriu grande parte dos mesmos assim como a
recuperação do Estádio de Lenine e de outras 69 instalações desportivas, a
construção de hotéis e a melhoria do sistema de metro da cidade (Zarnowski,
1993, p. 25) . Segundo Zarnowski é “impossível estima r todos os custos” 731
(1993, p. 25), no entanto o autor refere que o jornal New York Times de 7 de
junho de 1980 refere que foram gastos cerca de 2 bilhões de dólares (1993, p.
25) . Segundo Verbruggen, o COJO de Moscovo “deixou para trás um deficit de
cerca 170 milhões de dólares” 732 (2002, p. 24) .
Apesar de tudo, a venda dos direitos de transmissão televisiva dos
Jogos de Moscovo rendeu 88 milhões de dólares (Miah & Garcia, 2012, p.
115) .
Como legado pós Jogos sabe-se que as “casas das Vila Olímpica hoje
abrigam 14.500 moscovitas” 733 (Baim, 200 9, p. 78).
1981 – Ch ina incita sua população plantar árvores
Em 1981, o “Congresso Nacional do Povo declarou que todos os
cidadãos chineses com mais de onze anos (e até sessenta) têm o dever de
plantar pelo menos três árvores por ano” (Gor e, 2009, p. 194) .
731 Traduzido do Ingl ês: “impos sible to estim ate all the cos ts”
732 Traduzido do Ingl ês: “ the OCO G left b ehind a deficit o f som e 170 million d ollars”
733 Traduzido do Ingl ês: “ The Olympic V illage now hou ses 1 4,500 Mus covite s”
!
300 !
1981 – XI Congresso Olímpico
O XI Congresso do COI decorreu em Baden-Banden entre 23 e 28 de
setembro de 1981 sob o tema Unidos pelo e para o Desporto 734 (que
comportava três subtemas: O Futuro dos Jo gos Olímpicos 735 , Cooperação
Internacional 736 e O Futuro do Movimento Olímpico 737 ), um tema foi discutido
em cada dia de Congresso (International Olympic Committee, 2011b, p. 35) .
Este contou com a presença de 85 membros do COI, 310 delegados do CONs,
67 do FIs, 30 atletas Olímpicos e 10 treina dores com di reito a intervir (pela
primeira vez), convidados de honra e jornalistas (International Olympic
C ommittee, 2011b, p. 35) .
O congresso foi considerado um sucesso, apesar do criticismo inicial
devido à cobertura televisiva e dos media. A parceria estabelecida entre COI,
UN e UNESCO, a discussão sobre a necessidade de uma maior igualdade de
oportunidades e o papel da mulher na administração, a necessidade de uma
abertura mais democrática dentro do COI, assim como o combate ao doping e
à discriminação (International Olympic Committee, 2011b, p. 36).
Pela primeira vez, após 85 anos de existência, o COI elegeu duas
mulheres (uma Venezuelana e outra Finlandesa) como membros do Comité
Olímpico (Carvalho & Cruz, 2007, p. 69; Cruz et al., 2013, p. 36) e foi
estabelecida a Comissão dos Atletas Olímpicos (International Olympic
Committee, 1994c, p. 63).
No dia 29 de setembro de 1981, durante o Congresso Olímpico, Calgary
(Canadá) foi escolhida como anfitrião dos JOI de 1988 e Seul dos JO de verão
(Yoon, 2009, p. 87). Calgary se candidatava pela 17ª vez e como o “Canadá é
o segundo maior país do mundo e tem o clima e o terreno ideal para Jogos de
inverno” 738 (King, 1981, p. 531) a sua escolha parecia refletir o pensamento do
734 Traduzido do Ingl ês: Unit ed by and for Sport
735 Traduzido do Ingl ês: The Futur e of t he Olympic Games
736 Traduzido do Ingl ês: Internat ional Cooperat ion
737 Traduzido do Ingl ês: The Futur e Olympic Movement
738 Traduzido do In glês: “Canada is the sec ond larges t cou ntry in th e w orld, and has ide al
terrain a nd clim ate for Winter Gam es”
!
301 !
Presidente da Associação de Desenvolvimento Olímpico de Calgary 739 , Frank
W. King:
“Os Jogos de Calgary serão uma lembrança constante
da universalidade do Movimento Olímpico,
particularmente porque ele se expande em partes do
mundo onde os Jogos ainda não foram realizados” 740
(King, 1981, p. 531).
Apenas “duas cidades orientais, Nagoya (Japão) e Seul, foram
candidatas” 741 aos JOV de 1988 (Yoon, 2009, p. 87), isto porque o “Movimento
Olímpico estava passando por 'um momento preocupante'’” 742 , segundo Juan
Antonio Samaranch (Samaranch citado por Yoon, 2009, p. 87). Seul foi a
cidade escolhida, mas ao que parece “uma escolha arriscada, já que era
governado por um regime autoritário, era a capital de uma nação dividida, e
es tava envolvida na guerra contra seu vizinho comunista Coreia do Norte [...]
Ameaças de boicotes começaram assim que Seul foi escolhida” 743
(Chatziefstathiou, 2005, p. 121). De realçar que os “líderes da Coreia do Norte
reagiram e, depois de ameaçar com o boicote, eles exigiram que metade dos
Jogos fossem realizados na Coreia do Norte” 744 (Chatziefstathiou, 2005, p.
121) .
“Devido às complexas negociações políticas entre a Coreia do Norte e
do Sul, Samaranch visitou a Coreia do Sul onze vezes entre abril de 1982 a
739 Traduzido do Ingl ês: Chair man of th e Calg ary Olympic Devel opment Associ ation
740 Traduzido do Inglês: “The C algary Gam es will be a cons tant reminder of the u niversality of
the Oly mpic m ove men t, p articula rly as it exp ands in to parts o f the wo rld whe re the G ame s have
not yet been held”
741 Traduzido do Ingl ês: “two orien tal cities, Nago ya (Japa n) and S eoul, were bidding”
742 Traduzido do Ingl ês: “Ol ympic Movement as going through ‘a very worrying time’”
743 Traduzido do Inglês: “was a risky choice, as it was ruled b y an au thoritarian gove rnmen t, it
was the capi tal of a divide d nation , and it was inv olved in war against its communi st neig hbour
Nort h Kore a [ … ] Boyc ott thr eats star ted as so on as Seoul had been chose n”
744 Traduzido d o Inglês: “The leaders of North Korea re acted and after threaten ing with a
boycott, they demanded that half of the Games should be held in North Kor ea ”
!
302 !
setembro de 1989. Na Coreia, ele se tornou uma figura tão popular por seus
esforços para salvaguardar os Jogos, que foi premiado com o primeiro Prêmio
Seul pela Paz , no valor de 300.000 libras esterlina, que ele doou para o fundo
de construção do novo Museu Olímpico” 745 (Chatziefstathiou, 2005, p. 122).
1981 – Mudança nos Estatutos dos Atletas Olímpicos
Em 1981 que “o Presidente do COI Samaranch reconhecia a mudança
para o profissionalismo” 746 (Chatzief stathiou, 2005, p. 121) no estatuto dos
atletas Olímpicos.
1982 - Conferência de Nairobi
Em 1982 durante a Conferência das Nações Unidas, em Nairobi
(Quénia), que emergiu a clamação pela formação da Comissão Mundial de
Meio Ambiente e Desenvolvimento que foi implementada em 1983.
1983 - Publicação em português do livro “Desporto, lazer, cultura
local e meio ambiente”
Em 1983 a Universidade de Santa Maria (Brasil) publicava o livro
Desporto, lazer, cultura local e meio ambiente , com os “temas desenv olvidos
por Jürgen Dieckert nos anos anteriores, com o texto de Floriano D. Monteiro e
introdução da Lamartine P. Da Costa (editado em português)” (DaCosta,
1997b, p. 35) .
1984 – Nasce a CMMAD 747
Em 1984 as NU criam a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento (CMMAD) composta por elementos de 21 países e liderada
745 Traduzido do Inglês : “Due to the com plex po litical negotiation s betwe en the N orth and South
Korea, Sam aranch visited South Korea elev en times from April 1982 to September 1989. In
Korea, he became such a popul ar figu re for his efforts to safeguard the Games that he was
awarded the first Seoul Peace Prize of 300,000 UK sterling, which he donated to the new
Olympi c mus eum’s const ruct ion fund ”
746 Traduzido do Ingl ês: “ the IO C Pre sident S am aranch recog nised the shift to profes siona lism”
747 Comissão Mundi al p ara o Meio Ambient e e Desenv olvi mento
!
303 !
pela então primeira ministra norueguesa Gro-Brundtland (Kuenzer, 1996, p.
24) .
1984 - XIV JOI Sarajevo (Ex- Jugoslávia)
A surpresa de ser a cidade anfitrião dos JOI de 1984 foi tal que estes
“começaram a trabalhar, a construir novas instalações e fazer melhorias nas
existentes, de forma a atender os Jogos" 748 (The Editors of Encyclopaedia
Britannica, 2015f) o melhor possível.
“O conceito básico dos Jogos de Sarajevo em 1984 abriram o mundo
Olímpico dos Jogos de inverno às montanhas do Sul Europeu através de um
país 'Oriental'" 749 (Charmetant, 2002, p. 145). Estes decorreram entre 8 e 19 de
fevereiro de 1984 (12 dias) na antiga Jugoslávia e contaram com a participação
de 1.272 atletas (274 mulheres) de 49 CONs (Olympic Movement, 2015v).
Durante a preparação para os JOI em Sarajevo, foi necessário o corte
de árvore “de forma generosa, com uma largura de 80-120 m por percurso” 750
(Baumgartner, 1981, p. 17), assim como a “remoção da madeira e a destruição
de rochas por explosão" 751 (Baumgartner, 1981, p. 17). Segundo Peter
Baumgartner 752 graças ao corte de árvo res, “será possível - de acordo com a
configuração do curso - colocar os espectadores à esquerda e à direita de todo
o percurso de esqui alpino” 753 (1981, p. 18). Este refere que “em frente à pista
de slalom há outra encosta onde os repórteres, os jornalistas e os
espectadores terão uma vista de toda a vertente do slalom gigante, e por
748 Traduzido do Inglês: “went to work b uilding ne w facilities and maki ng i mproveme nts to ot hers
in ord er to a ccom mod ate the Gam es”
749 Traduzido do Inglês: “The basic concept: the 1984 Sarajevo G ames opened up the winter
Olympi c wo rld to Southe rn E uropea n mount ains in an ‘east ern’ co untry ’”
750 Traduzido do Inglês: “ It has b een done in a generous way with a width of 80 - 120 m per
course”
751 Traduzido do Ingl ês: “ rem oving o f the wood and the d estruction o f the rocks b y explosio ns”
752 Traduzido do Inglês: “Technical delega te, fo r M en’s Alpine com petitions at Sarajevo W inter
Games”
753 Traduzido do Inglês: “it will be pos sible - according to course setting - to place spec tators to
the left a nd to th e right o f the wh ole do wnhill co urse”
!
310 !
Após os desastres de Montreal, o CON Americano (único candidato aos
JO de 84 (Olympic Movement, 2015m)) entrou em pesadas negociações co m o
COI e ‘estabeleceu uma corporação privada sem fins lucrativos, o Comité
Organizador dos Jogos Olímpicos (LAOOC), de forma a evitar sobrecarregar os
contribuintes da cidade’” 781 (Jesus, 2004, p. 96). Sendo que tal atitude foi
criticada visto que estes “foram os primeiros, desde 1896, a serem organizados
sem financiamento governamental” 782 (Olympic Movement, 2015m) e a
dependerem “fortemente das instalações existentes e de patrocinadores
corporativos" 783 (Olympic Movement, 2015m) .
LAOOC foi gerido pelo comissário Peter Ueberroth de forma engenhosa
e cuidada, zelando pelo controle dos gastos e apostando na venda de
patrocínios oficiais (Zarnowski , 1993, p. 25). LA recorreu a instalações
desportivas existentes, construiu pouco e promoveram os Jogos por toda a
Califórnia (Zarnowski, 1993, p. 25), gerando lucros sem procedentes (Baim,
2009; Garcia, 2014, p. 79). Estes, embora tenham sido criticados “tornaram-se
num modelo para futuros Jogos, principalmente depois que foi revelado que
tinham produzido um lucro de 223 milhões de dólares" 784 (Olympic Movement,
2015m) . Estes Jogos “representaram o triunfo do ‘espetacular’ e do
pragmatismo da comercialização desenfreada” (Poynter, 2008, p. 140), onde os
direitos de TV, os patrocínios oficiais e a venda de bilhetes contribuiu
substancialmente para os 768 milhões de receitas (Zarnowski, 1993, p. 25). “O
excedente foi o resultado da produção eficaz de receitas do LAOOC e seus
métodos de controle de custos" 785 (Wilson, 2002, p. 482). O LAOOC conseguiu
fundos através da venda dos direitos de TV, patrocínios e bilhetes, e “recebeu
781 Traduzido do Inglês: “’set up a private non - profit corporation’ , the Los Angeles O rganisi ng
Committ ee ( LAOOC), in order to overbu rdeni ng t he ci ty t axpayers”
782 Traduzido do Ingl ês: “ were t he f irst since 1 896 to be sta ged w ithou t gove rnme nt fina ncing”
783 Traduzido do Ingl ês: “ heavily on exi sting fac iliti es and corpor ate sponsors”
784 Traduzido do Inglês: “becam e the mod el fo r fu ture Gam es, particularly a fter it wa s revealed
that t hey had produced a profit of US$ 223 mil lion”
785 Traduzido do Inglês: “The surplus w as the result of the LAOO C's effec tive revenu e
production and cost cont rol methods”
!
311 !
a maioria de seu dinheiro adiantado” 786 (Wilson, 2002, p. 482). O “adiantamento
dos pagamentos possibilitou que o Comité facturasse um extra de 76,3 milhões
de dólares em juros” 787 (Wilson, 2002, p. 482).
“Para controlar os custos, o LACOOG usou as infraestruturas locais
existentes, atualizando-as sempre que necessário. Não houve nenhum
investimento em habitação. Os dormitórios da Universidade do Sul da
Califórnia e da Universidade da Califórnia, Los Angeles, foram usados para
albergar os atletas. Nenhum investimento adicional foi feito em transporte, com
a exceção de uma segunda plataforma adicionada ao aeroporto internacional.
Não foi necessário investir em telecomunicações já que Los Angeles era um
centro de comunicações” 788 (Baim, 2009, p. 79).
Seria através da economia de mercado e do capit alismo que,
paradoxalmente, “o COI (que por tanto tempo tinham obstinadamente recusado
algo que pudesse ligar esporte e dinheiro) obteria a sua última esperança. Os
americanos eram mestres de longa data na arte esportiva do ‘negócio
esportivo’, que desde o início se desenvolveu no seu território como um setor
económico autónomo” 789 (Verbruggen, 2002, p. 24). Logo Los Angeles 1984 foi
organizado “segundo a lógica estrita da economia privada, sem ajuda das
autoridades públicas, com o rigor orçamental raro e um sentido finamente
786 Traduzido do Ingl ês: “ rec eived m ost of its mon ey up fron t”
787 Traduzido do Inglês: “early paym ents e nabled th e co mm ittee to earn an ad ditiona l USD 76 .3
m i n i nte res t”
788 Traduzido do Inglês: “To control costs the LAC OOG used existing ven ues, upgrad ing them
where necessar y. There was no new in vestmen t i n housi ng. Dormit ori es at the Univers ity of
Souther n Calif or nia and the University of California, Los Angeles were used to house t he
athletes. N o additional investment was made in transport ation, with exception of a second deck
being added to the international airport. Telecommunication investment w as not needed since
Los Angeles was already a c ommunications hub”
789 Traduzido do Inglê s: “the IOC (which had for so long stub bornly refused anyth ing tha t cou ld
link sp ort an d mo ney) w ith a la st hop e. Th e Am erican s we re the lo ng - standing masters of the art
of ‘sport - bus ine ss’ as sport, at the outset, had developed on thei r territory as a sector of
economic li fe in i ts own ri ght”
!
312 !
apurado de marketing" 790 (Verbruggen, 2002, p. 24). Os Jogos foram
fin anciados exclusivamente pela iniciativa privada, “provocando uma revolução
ao mostrar a possibilidade de uma cidade organizar o evento sem onerar seus
governos e sua população” (Carvalho, 2006, p. 704). Sendo de ressaltar que
logo no primeiro ano “os Jogos tiveram 43 empresas licenciadas para vender
produtos Olímpicos ‘oficiais’” 791 (Rosenberg, n/d-k). “O LACOOG vendeu mais
patrocínio para os Jogos do que nunca e cobrou taxas de patrocínio
elevadas” 792 (Baim, 2009, p. 79). “Um ponto de consenso diz respeito ao que
amplament e pode ser denominado "mercantilismo". Existe virtualmente um
consenso unânime que Los Angeles representou um novo nível de
envolvimento corporativo no Movimento Olímpico" 793 (Wilson, 2002, p. 485).
“Os Jogos de Los Angeles são vistos como o alto do processo de
comercialização e mercantilização dos Jogos. O Presidente do Comité
Olímpico Organizador de Los Angeles (LAOOC), Peter Ueberroth, vendeu os
direitos televisivos para a ABC para 225 milhões de dólares ; as redes
europeias Eurovisão e Intervisão, juntos pagaram 22 milhões de dólares e os
japoneses adicionaram uns 11 milhões de dólares ao total de lucros. O LAOOC
levantou outros 130 milhões de dólares a partir de trinta patrocinadores
corporativos, incluindo American Express, Coca-Cola, Levis, IBM e SANYO.
Também havia quarenta e três empresas licenciadas para vender produtos
Olímpicos 'oficiais'. MacDonald comercializava o hambúrguer oficial dos Jogos
Olímpicos de 1984; o barra Mars era o alimento snack oficial e a Coca- Cola a
790 Traduzido do Inglês: “according to a strict logic o f private econom ics, una ided by the public
authorit ies, wit h rare budget ary ri gour and a f inel y- honed sense of market ing”
791 Traduzido do Inglês: “the G ame s had 43 c ompa nies wh o were lice nsed to se ll "officia l"
Olympi c pr oduct s”
792 Traduzido do Inglê s: “ The LACOOG sold more sponsorshi p to the Games than ever before,
and charged t op rates for the spon sorship”
793 Traduzido do Inglês: “One point of consen sus conce rns what mig ht b roadly be term ed
"comm ercialism". There is virtually unanim ous ag reemen t that Lo s Ange les repres ented a new
level o f corp orate in volve men t in the Olym pic M ovem ent”
!
313 !
bebida oficial” 794 (Chatziefstathiou, 2005, p. 120 ). Os Jogos de LA foram “uma
espécie de revelação: os Jogos Olímpicos, para além de fornecerem uma
imagem extremamente positiva da cidade anfitriã e do país, poderia m também
prover uma boa operação financeira, caso fossem rigorosamente controlados.
Essa nova dimensão foi reforçada em 1984 pelo aumento exponencial das
somas de dinheiro trazidas pelos direitos televisivos e distribuído aos
sucessivos COJOS” 795 (Verbruggen, 2002, p. 24). “O LAOOC levantou receitas
por vários mei os” 796 (Wilson, 2002, p. 482), desde os direitos televisivos,
passando pela venda de bilhetes no v alor de 139.9 milhões de dólares e os
patrocínios de 164 empresas (Wilson, 2002, p. 482) . Olimpí adas de Verão de
1984 obteve um lucro líquido real, na medida em que os fundos públicos não
foram usados (Verbruggen, 2002, p. 24) .
“As empresas foram lice nciadas para vender produtos Olímpicos e todas
as receitas de transmissão, exceto um terço dos direitos de TV que foram para
o COI, foram concedidas ao consórcio do sector privado dos organizadores dos
Jogos para cobrirem os custos. Até o Comité Olímpico dos Estados Unidos
escapou de quaisquer responsabilidades financeiras para com o evento. Pouco
investimento ocorreu na construção de novas instalações e 683,9 milhões de
dólares custos dos Jogos foram mais do que cobertos pelas receitas, um
794 Traduzido do Ing lês: “The Los Ang eles Game s are see n as the height of th e pro cess of
commercialisation a nd commodification of the Games. Th e President of the Los Angeles
Olympi c Organi sing Committee (LAOOC), Peter Ueberr oth, sold tel evisi on righ ts to ABC for
$US 225 mi llion; the Euro pean network s, Eurov ision and Intervision , togethe r paid $US 22
mil li on and th e Ja pane se added some $US 11 milli on to the tota l profi ts. The LAO OC ra ise d
another $US130 milli on from thirt y corporate sponsors, including American Express, C oca Cola,
Levi’s, IBM and SANYO. There w ere also forty - three comp anies licens ed to se ll ‘offic ial’
Olympi c pr oduct s. MacDonal d’s marke ted the offi cia l ha mburger of the 1984 Olympi cs; th e Mars
bar was t he offici al snack food, and Coca Cola the of ficial drink”
795 Traduzido do Inglês: “a sort o f revelation : the Olymp ic Ga mes, as w ell as providing an
extremely positi ve image of the host city and country, could therefore be a good financi al
operation if they were strictly m anaged. This new dimension was reinforced in 1984 by the
exponential increase in the sums of money brought in by televis ion rights and distr ibuted to
successive OCOGs”
796 Traduzido do Ingl ês: “The LA OOC raised rev enue by several m eans”
!
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superavit de 380,6 milhões dólares foi alcançado e distribuído pelas as
associações de Atletismo Ameri canas” 797 (Poynter, 200 9, p. 30) . “Nos termos
de uma série de acordos assinados em 1979 pelo LAOOC, a cidade de Los
Angeles, o Comité Olímpico dos Estados Unidos (COEU) e o Comité Olímpico
Internacional (COI), o excedente foi dividido 60/40. O COEU recebeu 60% do
excedente e usou-o para o desenvolvimento dos atletas. Quarenta por cento foi
usado para estabelecer a Fundação da juventude no esporte na Califórnia do
Sul e a biblioteca do Esporte. A Fundação Amateur Athletic , desde 1985, já
investiu mais de 100 milhões de dólares em programas de esportes para a
juventude. Sua biblioteca e site tornaram-se fontes de informações v aliosas
para os investigadores Olímpicos" 798 (Wilson, 2002, p. 482).
“A maioria das competições se realizaram em instalações existentes
alugadas (as Vilas Olímpicas foram criadas no Campus da Universidade de
UCLA e USC, por exemplo). Apenas uma piscina, uma pista de ciclismo e um
campo de tiro foram construídos e pagos por patrocinadores que associaram
suas ‘marca’ ao local (por exemplo, piscina do ‘McDonald's’)” 799 (Verbruggen,
2002, p. 24) .
797 Traduzido do Inglês: “ Compani es were lic ensed to sell Olympi c pr oducts and all broadcast
revenu es, exc ept one third of the TV rights tha t went to the IO C, we re awa rded to the priv ate
sector consortium of Games organisers to cover costs. Even the United S tates Olym pic
Committ ee escaped any financi al respons ibil iti es for the even t. Little inve stme nt too k p lace in
the cons truction o f n ew facilities and th e US$ 68 3.9 million cos ts of th e Gam es were m ore than
matc hed by rev enues , a surpl us of the $ 380.6 mil li ons bei ng achi eved that was di str ibu ted to
US at hlet ics assoc iati ons”
798 Traduzido do Inglês: “Under the term s of a series of agree men ts sign ed in 197 9 b y the
LAOOC, t he Cit y of Los Angeles, the Uni ted States Ol ympic Committ ee ( USOC) and the
Interna tional Oly mpic C omm ittee (IOC ), th e s urplus w as divide d 6 0/40. T he US OC r eceived
60% of the surplus, and used it for athlete development. Forty percept was used to establish a
Souther n Californ ia youth sports foundatio n and sports library. The Amateur Athlet ic
Foundati on, since 1985, has invested more than USD 100 m in youth sp orts programmes. Its
library and w ebsit e hav e bec ome valuab le info rmatio n sou rces fo r Oly mpic r esear chers ”
799 Traduzido do Inglês: “Most o f the co mpetition sites us ed ren ted existin g installation s (the
Olympi c vil lage s were set up on the UCLA and USC universit y campuses, for exam ple). Only
one swimming pool, one cycle track and one shooting range were built and paid for by sponsors
who a ssoci ated thei r ‘ mark’ wit h the sit e ( e.g. the "McDon ald" swimmi ng poo l)”
!
315 !
O pessoal “contratado para a organização dos Jogos, que até então
consistia principalmente de trabalhadores remunerados, foi formada por um
grande grupo de voluntários nos Jogos de Los Angeles. Esta foi a primeira vez
que tal aconteceu” 800 (Verbruggen, 2002, p. 24). Esta foi a “segunda medida de
redução de custos importante” 801 (Wi lson, 2002, p. 483), embora “Com issões
organizadoras anteriores, é claro, tenham usado v oluntários [...] note-se, 'em
Los Angeles o fenómeno estava a aparecer com toda sua força, consolidada e
organizada... [e] marcou um momento chave na história do voluntariado
Olímpico.’ Los Angeles representou um ponto de partida da prática anterior de
duas maneiras: o número de voluntários e os motivos por trás da decisão de
usá-los. Havia 29.000 voluntários em 1984, superior a todos os Jogos
anteriores. A decisão de usar tantos voluntários foi motivada principalmente
pelo desejo de reduzir os custos com pessoal. A relação custo-benefício do uso
de tantos voluntários não foi perdida em outros organizações" 802 (Wilson, 2002,
p. 483) . “O LAOOC certamente não inventou o conceito de voluntário, mas o
Comité institucionalizou o voluntariado como um método de redução de
custos" 803 (Wilson, 2002, p. 483) .
Um estudo da “Comissão de LAOOC e conduzido pelo Economic
Research Associates de Chicago concluiu que os Jogos criaram um impacto
800 Traduzido do Inglês: “ As for the large se rvice staff link ed to G ames org anisation , wh ich had,
until then, consisted mainly of paid workers, it was formed largely of volunteers in Los Angeles.
This was a fi rst”
801 Traduzido do Ingl ês: “ A second impor tant cos t - saving measure was the extensive use of
volunteer”
802 Traduzido do Inglês: “Previous org anising committees , of cours e, had used volun teers,
[ … ] At Los Angeles the phenomenon was to appear in all its streng th, consoli dated and
organized ... [and] marked a key moment in the history of O lympic volunteerism.’ Los Angeles
represe nted a d eparture from earlier practice in two w ays: the n umbe r of volunte ers and th e
motives behind the decision to use them. There w ere 29,000 volunteers in 1984, higher than
any previous Games. The decision to use so many vo luntee rs w as motiv ated prim arily by a
desire to reduce personnel costs. The cost effectiv eness of using so many volunteers has not
been lost on other organizers”
803 Traduzido do Ingl ês: “The LAOO C ce rtainly d id not invent the v olunteer conc ept, bu t the
comm itte e did in stitutio nalize v olunt eerism as a cost - reduction method”
[Document text truncated for crawler view.]