245 Geografia e Ordenamento do Território, Revista Eletrónica Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território http://cegot.org ISSN: 2182-1267 Santos, H. CEGOT Faculdade de Letras da Universidade do Porto
[email protected] Marques, T. CEGOT Faculdade de Letras da Universidade do Porto
[email protected] Podemos ambicionar um ‘megacentro de biociências’? Uma análise comparativa centrada no Health Cluster Portugal Referência: Santos, H. e Marques, T. (2012). Podemos ambicionar um ‘megacentro de biociências’? Uma análise comparativa centrada no Health Cluster Portugal. Revista de Geografia e Ordenamento do Território, n.º 2 (Dezembro). Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território. Pág. 245 a 278 Resumo O objetivo é analisar os atores do HCP, quanto ao número e conhecimento e comparar com outros clusters institucionais à escala global. Assumindo a visão da ‘revolução da biotecnologia’, explora-se o processo de desintegração da cadeia de valor da indústria farmacêutica e a sua reconfiguração na cadeia de valor das biociências/biotecnologia dirigida à saúde humana. Guiados pela imagem conceptual dos ‘megacentros de biociências’, desenvolve-se um quadro teórico destacando as dimensões territoriais.
246 São identificados e caraterizados os atores principais, assim como a tendência para se constituírem num estrutura territorial em rede hierarquizada. Conclui-se que o perfil do HCP, em comparação com os clusters analisados, é mais centrado no ‘exploration knowledge’ e menos desenvolvido no ‘exploitation knowledge’. Palavras-chave: Cadeia de valor das biociências, megacentros, sistema territorial, Health Cluster Portugal. Abstract The aim is to analyze the HCP actors, in terms of number and knowledge, and compare them with other institutional clusters at a global scale. Based on the view of the ‘biotechnology revolution’, this paper will explore the disintegration process of the pharmaceutical industry’s value chain, and its realignment in the biosciences and biotechnology value chain focused on human health. Guided by the conceptual image of the ‘bioscience megacentres’, we will develop a theoretical framework highlighting the spatial dimensions. The main actors are identified and characterised, as well as their tendency to cluster and to structure hierarchical global networks. It is concluded that the HCP profile, in comparison to the clusters analyzed, is more centred on ‘exploration knowledge’ and less developed when it comes to ‘exploitation knowledge’. Keywords: Biosciences Value Chain, megacentres, spatial system, Health Cluster Portugal.
247 1. Introdução O objetivo do trabalho é lavrar uma síntese teórica e metodológica para a análise do sistema territorial da cadeia de valor das biociências/biotecnologia dirigida à saúde humana, tendo em vista o estudo de caso do Health Cluster Portugal (HCP). Com base nesta síntese teórica, desenvolve uma análise dos atores deste cluster relativamente ao número e ao género, de acordo com os domínios do conhecimento, e compara o perfil do HCP com o de outros clusters institucionais à escala global. Considera a abordagem da ‘revolução das biociências/biotecnologia’ como aquela que melhor interpreta o papel ativo desempenhado pelas diferentes escalas do território. Incorpora o conceito de ‘megacentros de biociências’ (Cooke, 2004 e 2005a) como forma de explicar a tendência para a formação de clusters e para a sua estruturação global em redes hierarquizadas. Num primeiro momento procura-se explicar o processo de desintegração da cadeia de valor da indústria farmacêutica e a reconfiguração desta na cadeia de valor das biociências e da biotecnologia para a saúde humana. Seguidamente, carateriza-se cada um dos diferentes grupos de atores nesta cadeia de valor, expondo as múltiplas vias que um processo de inovação poderá percorrer, à imagem dum sistema de ‘open innovation’ (CHESBROUGH, 2006). Em terceiro lugar, interpreta-se o papel da proximidade territorial para a integração do conhecimento no processo de inovação ao longo da cadeia de valor, sublinhando-se a capacidade explicativa do conceito de ‘megacentros’. No quarto capítulo faz-se uma análise do número e género dos atores do HCP e compara-se com os perfis de outros clusters institucionais nos EUA, Canadá, Singapura, Inglaterra e Dinamarca/Suécia. A concluir faz-se a apresentação de algumas conclusões e dos desenvolvimentos futuros da investigação. 2. A desintegração e reconfiguração da cadeia de valor A literatura sobre a história da indústria farmacêutica considera que esta se estrutura em dois grandes períodos. Até à década de 1980 dominavam as grandes empresas
248 verticalmente integradas, organizacionalmente maduras e com uma longa existência. O processo de inovação era binário e linearmente unidirecional. A partir da década de 1980 até à atualidade, verifica-se uma crescente fragmentação da cadeia de valor e a consequente complexificação do processo produtivo e de inovação (Dosi & Mazzucato, 2006) à imagem do “modo 2 de produção do conhecimento” (Gibbons, et al. 1994). Na sequência destas transformações vão emergir duas visões distintas que procuram interpretar a rutura com o modelo verticalmente integrado. 2.1. Interpretações da desintegração da cadeia de valor. O processo de desintegração da cadeia de valor da indústria farmacêutica vai originar duas leituras diferentes: uma visão centrada no argumento da ‘industrialização da I&D’ e outra centrada no argumento da ‘revolução da biotecnologia’. De forma sintética, a tese da ‘industrialização da I&D’ assenta a sua argumentação no principio de que o conhecimento só tem valor quando inserido no contexto, sendo que quanto maior a especialização do conhecimento, maior a necessidade de integrar o conhecimento ao longo de toda a cadeia de produção do medicamento. Assim, as empresas com capacidades ao longo de toda a cadeia de valor – as grandes farmacêuticas – têm a possibilidade de integrar o conhecimento entre cada estádio da cadeia de valor (Nightingale & Mahdi, 2006). Admitindo a criação de redes com outros atores, considera que estas redes com as universidades, institutos de investigação e empresas dedicadas à Biotecnologia (EDB) são lideradas pelas grandes farmacêuticas, à imagem de uma “extended pharmaceutical enterprise” (Cavalla, 2003, p. 267), em que aquelas se limitam a preencher os gaps do pipeline das grandes farmacêuticas. É uma abordagem que não contempla as vantagens da proximidade territorial. Nesta leitura o território assume um papel próximo do neutral. A visão alternativa defende que a rutura foi provocada pela ‘revolução da biologia molecular’ ou pela ‘revolução da biotecnologia’ (Dosi & Mazzucato, 2006; Schweitzer, 2007). A narrativa da ‘revolução biotecnológica’ retrata a mudança para um regime centrado na biologia molecular e em redes de pequenas EDB. Assenta na ideia de que desenvolvimentos radicais têm o potencial para restruturar uma indústria madura. A biotecnologia representa uma forma de inovação com este perfil, com características
249 destruidoras de competências – a la Schumpeter – da indústria farmacêutica, porque se sustenta na ciência de base – imunologia e biologia molecular – que difere significativamente do conhecimento básico – química orgânica – da indústria farmacêutica até então estabelecida (Powell, et al. 1996). Assim, a rutura tecnológica provocada pela biotecnologia vem abalar a estrutura madura do processo de descoberta de novos medicamentos, com consequências na divisão do trabalho inovador (Dosi & Mazzucato, 2006, p. 3), facilitando o aparecimento de fornecedores especializados e empresas dedicadas à investigação, o que criou um desafio às grandes empresas farmacêuticas, no momento de internalizarem estes novos conhecimentos (Quéré, 2003; Cockburn, 2004). Esta revolução tecnológica e científica aumentou as possibilidades de exploração das doenças, propiciando oportunidades para a criação de novos fármacos, métodos de diagnóstico e dispositivos médicos, abrindo as portas dos mercados à entrada de novas empresas (Dosi & Mazzucato, 2006). 2.2. Reconfiguração institucional A revolução da biotecnologia foi acompanhada por outras transformações ao nível institucional e organizacional que se refletem igualmente na cadeia de valor das biociências e da biotecnologia dirigida à saúde humana. Institucionalmente, o desenvolvimento da legislação de patentes permitiu integrar neste sistema os avanços efetuados no campo das biociências. As patentes da investigação desenvolvida nas universidades e laboratórios públicos possibilitaram a criação de EDB, uma importante força na atual indústria farmacêutica (Cockburn, 2004). O Estado evoluiu as políticas no sentido de permeabilizar as fronteiras das diferentes instituições públicas de investigação por ele financiadas. Ao permitir o licenciamento das investigações aí desenvolvidas abre a possibilidade a novas formas de financiamento da investigação fundamental (Cockburn, 2004). No entanto, o Estado continua a desempenhar um papel importante no financiamento da investigação básica (Zinner, 2001). Por outro lado, as mudanças políticas no sistema financeiro e de impostos permitiram o aparecimento de empresas de capital de risco direcionadas às EDB. Posteriormente, o mercado da bolsa também participará neste financiamento (Cockburn, 2004).
250 Estas mudanças institucionais conduziram a duas mudanças estruturais: por um lado, deu-se um crescimento explosivo de start-ups e de EDB; por outro lado, emergiu uma nova forma de divisão do trabalho entre as universidades e institutos de investigação, as EDB e as grandes farmacêuticas. Para Dosi e Mazzucato (2006) esta é uma verdadeira mudança de paradigma na indústria farmacêutica. Implica uma verdadeira mudança no conhecimento de base, no Know-how, nas próprias caracteristicas físicas dos equipamentos, o que representa uma descontinuidade na forma como o conhecimento é gerado e explorado em termos económicos. Estas mudanças sistémicas estão a possibilitar a emergência de novos clusters, com projeção à escala global (Cooke, 2004) o que pode representar a oportunidade de entrada de ‘novos’ territórios na cadeia de valor das biociências. 2.3. A emergência/reconfiguração dos atores na cadeia de valor. Na sequência da revolução da biotecnologia, da desintegração e reconfiguração da cadeia de valor e das mudanças institucionais, emergem cinco grupos de atores que passam a assumir um papel central no processo de inovação e de criação de valor. Os cientistas adicionam o papel de empreendedores à sua ação tradicional – particularmente os ‘star scientists’ (Zucker & Darby, 1996 e 1997). São atores críticos na origem de start-ups relacionadas com as ciências da vida e podem mesmo desencadear a formação de clusters desta indústria inovadora (Feldman, et al. 2005). Inicialmente, a exploração científica do conhecimento é altamente intensiva em investigadores para codificarem a exploração comercial do conhecimento, daí que os territórios com elevadas concentrações de especialistas no conhecimento biocentífico funcionem como imanes para as EDB e para as grandes farmacêuticas (Cooke, 2005). O facto das descobertas biocientíficas não se transferirem facilmente e das técnicas de biotecnologia não serem amplamente conhecidas torna mais premente a ligação de proximidade das EDB com os cientistas e com as instituições académicas onde estes se encontram sediados. Estes cientistas controlam a exploração científica do conhecimento e criam igualmente EDB para procederem à exploração comercial do mesmo (Cooke, 2004b).
251 Estes “cientistas empreendedores” estão muitas vezes inseridos em “universidades empreendedoras” (Etzkowitz, 1983, p. 198), com um contexto favorável para a “ciência empreendedora” (Etzkowitz, 1983, p. 204). Ao manterem um forte vínculo com as suas instituições de origem, esta relação ajuda a explicar as concentrações territoriais de spin-offs e start-ups em torno destas instituições de excelência (Zucker & Darby, 1996). As universidades e os institutos de investigação passaram a incorporar o desenvolvimento económico como parte da sua missão. Capitalizam o conhecimento, aproximando-se da esfera industrial, e assumem-se como um ator central para o desenvolvimento económico (Etzkowitz, 1998). Esta mudança está a levar a uma nova divisão do trabalho entre a indústria e a academia, particularmente entre as ciências da vida e os campos comerciais da medicina, farmacêutica e biotecnologia (Powell & Owen-Smith, 1998). Na exploração científica do conhecimento base das biociências e da investigação médica especializada, os centros de excelência mundial são nós cruciais no processo de estruturação da cadeia de valor (Cooke, 2004b). Além da exploração do conhecimento científico, geram forças centrípetas sobre os fundos públicos de apoio à investigação e atraem e formam talentos na investigação das ciências da vida (Cooke, 2004b). O terceiro grupo de atores centrais são os hospitais e outros locus de prática clínica. Os hospitais são o lugar privilegiado para a investigação clínica (Cooke, 2004b). São o principal canal através do qual os novos tratamentos revelam o seu potencial e os seus inconvenientes (Consoli & Mina, 2009). É também aí que se efetua a observação de casos inesperados, que podem ser o ponto de partida para o desenvolvimento de novas ideias para tratamentos a partir das tecnologias existentes (Consoli & Mina, 2009) ou até para novas tecnologias, desafiando as teorias da ciência de base dominante (Lander & Atkinson-Grosjean, 2011). Os hospitais universitários desempenham uma função vital na formação de novos clínicos e no desenvolvimento de investigação clínica. Estabelecem a ligação entre as etapas experimentais da investigação – testes clínicos – e a ciência base (Consoli & Mina, 2009). Desempenham um papel importante na ‘examination’ do conhecimento, sendo uma parte determinante do processo de definição da validade e da fiabilidade de aplicar o ‘exploitation knowledge’, desenvolvido a partir do ‘exploration knowledge’, sob a
252 forma de tratamentos funcionais (Cooke, 2005). Assim, os grandes hospitais somam vantagens à região (Cooke, 2006; 2006a). Na esfera empresarial, há uma crescente desintegração e reconfiguração do papel das grandes farmacêuticas na cadeia de valor, conservando um papel dominante no financiamento com capital de risco e no marketing e distribuição dos novos medicamentos (Cooke, 2004b). Nesta esfera emerge o papel das EDB. Para Zucker e Darby (1997) o arquétipo de uma EDB é uma empresa baseada nas biociências para a descoberta de novos medicamentos. Normalmente são fundadas por académicos, particularmente os “star scientists” (Zucker & Darby, 1996, p. 12709). As novas EDB passam a assumir um papel de especialistas no fornecimento de tecnologias líder às empresas que se situam mais a jusante na cadeia produtiva (Cockburn, 2004). São empresas que centram os seus investimentos na I&D. As biotecnológicas, segundo a descrição de Schweitzer (2007), começam numa ideia originada na mente de um investigador ou de uma equipa de investigação. A capacidade de criação de redes destas EBD com outros atores é fundamental para o seu sucesso. Estas ligações ocorrem entre as EDB, entre os cientistas envolvidos dentro de cada uma das EDB, entre as EDB e os cientistas universitários, entre as EDB e as universidades, entre as EDB e as farmacêuticas, entre as EDB e o capital de risco e com outros serviços (Zucker & Darby, 1997; Audretsch, 2001; Feldman & Kelley, 2002). Por fim, destaca-se ainda o grupo de atores relacionados com serviços de apoio à inovação. A literatura dá particular atenção aos serviços financeiros, particularmente o capital de risco (CR). As corporações, os bancos e os investidores individuais –‘business angels’ – são outras formas de financiamento das empresas inovadoras (Gompers & Lerner, 2001). Nas ciências da vida, bem como noutros campos de base tecnológica, o CR fornece mais do que capital. A sua ação contribui para a) o processo de geração de patentes (Powell, et al. 2002) chegando a envolver-se no portefólio da empresa (Chen & Marchioni, 2008); b) o aconselhamento e participação no desenvolvimento da empresa; c) o recrutamento de pessoal chave e fornecimento de referências para serviços jurídicos, de contabilidade e da banca de investimento; d) a direção das jovens empresas que ajudam a fundar, participando na administração; e) aumentar a
253 expetativa de sucesso da empresa financiada, contribuindo para atrair outro capital de risco, inclusivamente, de territórios mais distantes (Powell, et al. 2002). Estas múltiplas funções são mais facilmente desempenhadas quando a empresa está ali ao lado, sendo que o CR e as EDB manifestam uma forte tendência para se concentrarem em clusters territoriais (Powell, et al. 2002; Chen & Marchioni, 2008). Ainda dentro do grupo dos serviços de apoio está a emergir um novo ator: as organizações de investigação contratualizada (OIC). As OIC desenvolvem a contratação externa de serviços. Organizam os testes pré-clínicos e clínicos assim como um conjunto numeroso de outros serviços para as empresas biofarmacêuticas. Enquanto umas se localizam em clusters, outras estão localizadas em territórios onde não existe massa crítica nas biociências. Mesmo as localizadas fora dos grandes centros de biociências podem desempenhar um papel na cadeia de valor das biociências. Alguns testes requerem pacientes com doenças muito raras ou com determinadas combinações genéticas, pelo que não existem vantagens de proximidade (Cooke, 2005). 2.4. Um modelo centrado no território Adoptando uma abordagem segundo o prisma dos sistemas regionais de inovação, Cooke (2002 a 2009) sustenta um novo modelo mais centrada no território, numa lógica de “sistema bioregionais de inovação” (Cooke, 2005 p. 1128) afirmando que são as assimetrias nas “capacidades regionais do conhecimento” (Cooke, 2005 p. 1129) as responsáveis pelo novo modelo de organização da indústria de biotecnologia. Segundo Cooke (2005a), o novo modelo, identificado como “ground-up globalisation”, assenta em três aspetos esssenciais: a) a interpretação do conhecimento enquanto uma capacidade regional dinâmica; b) a explicação em termos de “spatially asymmetric knowledge” (Cooke, 2005a, p. 1130) e c) a espacialização do conceito de “open innovation” (Chersbrough, 2006). Em termos de biotecnologia orientada para a saúde humana, seguindo esta perspetiva, das ‘potencialidades do conhecimento regionalmente assimétricas’ (Cooke, 2005), os “megacentros de biociências” (Cooke, 2005a, p. 326), estão a ‘orquestrar’ as redes globais (Cooke, 2005). A questão que se coloca é a de identificar quando estamos na
260 Estes clusters afastados dos ‘megacentros de biociências’ têm sido alvo de vários trabalhos que procuram analisar o impacto, as consequências e as estratégias para enfrentarem o que Gilding (2008, p. 1132) apelida de “the tyranny of distance”. A biotecnologia em Portugal enquadra-se neste perfil territorial. Vários são os trabalhos que apontam nesse sentido. Arantes-Oliveira (2007) encontra um conjunto de condições necessárias para que surja em Portugal empreendedorismo na biotecnologia – recursos humanos alocados à ciência, qualidade da ciência de base, existência de centros de excelência nas ciências da vida e mesmo vontade política declarada. No entanto, constata que a indústria de biotecnologia portuguesa se encontra há bastante tempo num estádio embrionário, apontando o contexto institucional como limitativo, bem como a falta de medidas políticas dirigidas à biotecnologia que atendam à especificidade do setor. Fontes e Novais (1998) também sinalizam como positivas as políticas públicas de fortalecimento das competências científicas. No entanto, apontam a ausência de estruturas importantes no sistema nacional de inovação português como impeditivas do desenvolvimento e difusão da biotecnologia, nomeadamente no que diz respeito à transferência de competências da academia para o setor produtivo, o que reforça a necessidade de criação de mecanismos que estabeleçam pontes entre estes dois sistemas. Fontes e Coombs (2001) e Fontes (2005a) destacam, precisamente o papel das novas EDB portuguesas, apesar de escassas e esparsas, no processo de aquisição e desenvolvimento de novas tecnologias, ao acederem a novo conhecimento tecnológico, convertendo-o em aplicações comerciais. Desta forma, contribuem para fortalecer as capacidades tecnológicas e para aumentarem a disponibilidade de produtos e serviços de biotecnologia. Destacam sobretudo o papel que estas start-ups desempenham na translação da investigação académica para produtos e serviços comerciais. No entanto, constatam que estas têm poucas possibilidades de estabelecerem relações com outras organizações complementares devido a estarem isoladas e não beneficiarem das vantagens dos clusters, assim como por causa da escassez de utilizadores avançados para as suas tecnologias. Estas são as razões que levam Fontes (2005) a considerar as redes distantes como críticas para as EDB portuguesas, mal brotam como start-up. É a forma de procurarem fora o conhecimento e as competências que não encontram na
261 proximidade, o que contribui para a ‘precocidade’ na criação de redes distante. Estas empresas procuram construir ‘formas alternativas de proximidade’ (Fontes, 2005 p. 918) que passam por estratégias de proximidade geográfica temporária, de proximidade tecnológica ou da proximidade resultante das comunidades epistémicas. Argumenta inclusivamente em desfavor do excessivo dramatismo colocado sob a questão da proximidade geográfica, apontando formas de compensar essa adversidade por via da proximidade social, cognitiva e organizacional, potenciadoras da construção e manutenção de redes a múltiplas escalas, e que, na indisponibilidade de recursos na proximidade territorial, pode ajudar a minorar o suprimentos das necessidades de conhecimento através das redes territorialmente distantes, mas próximas em termos destas outras dimensões de relacionamento. Propõem uma visão alternativa em que se privilegiam as fontes de conhecimento relevantes localizadas na proximidade territorial mas, na sua ausência ou em caso de maior eficiência, existe a possibilidade de mobilização das redes distante, por via de ligações passadas pessoais, organizacionais ou de comunidade epistémica (Fontes, 2009). Neste balanço complementar entre as relações territoriais de proximidade e distantes, Fontes (2007a) enfatiza o papel desempenhado pelas ligações transnacionais quando combinadas com a ciência de base local, com as competências científicas locais e com os recursos humanos qualificados locais. Argumenta que a combinação das competências científicas locais com as redes distantes pode ajudar a posicionar a biotecnologia portuguesa na cadeia de valor global do conhecimento biotecnológico. Esta argumentação encontra eco e desenvolvimento no trabalho de Vale e Carvalho (2012). Esta situação periférica reforça a necessidade de ancoragem do conhecimento que pode passar pela construção de redes a múltiplas escalas. Constatam que não só as redes nacionais de conhecimento ganharam relevância ao longo do tempo como as redes locais, nacionais e internacionais têm evoluções distintas à medida que as empresas de biotecnologia vão progredindo no seu ciclo de vida, mobilizando primeiramente as redes locais e internacionais para iniciarem as suas atividades inovadoras, e à medida que crescem vão reforçando as redes com as instituições de I&D e com empresas a todas as escalas territoriais.
262 Apesar de todos estes trabalhos procuram fazer uma análise da biotecnologia em Portugal, fazem uma abordagem indiferenciada, sem atender às especificidades das diferentes indústrias a que as empresas de biotecnologia se dirigem. A necessidade de atender a essas diferenças é demonstrada por vários autores (Cooke, 2004 a 2009; Gilsing & Nootboom, 2005; Traoré, 2006), pelo que o propósito deste trabalho é precisamente contribuir para essa leitura, apresentando uma exploração inicial da biotecnologia dirigida à saúde humana em Portugal. 3. O HCP: análise comparativa O quadro teórico apresentado aponta para a necessidade de uma abordagem sistémica e evolutiva que recorra a fontes indiretas e diretas de informação. Na interpretação do conceito de ‘megacentros’ feita por Coenen, et al. (2004), os principais indicadores são: a) o número de EDB; b) o número de cientistas das ciências da vida; c) a quantidade de capital de risco investido anualmente em I&D pelas EDBs; e d) a quantidade de financiamento anual para as atividades de I&D das EDB proveniente das grandes farmacêuticas. A estes acrescentam ainda o número de organizações do conhecimento – empresas, universidades e institutos de investigação – assim como o nível e a gama de actividades alojadas nesses megacentros. No fundo, consideram que a existência de um megacentro implica a presença da totalidade da cadeia de valor das biotecnológicas dedicadas aos cuidados de saúde. Perante este enquadramento é necessária uma análise que vá para além das fontes clássicas. Importa reunir informação diversificada e ajustada ao perfil de cada um dos atores envolvidos na cadeia de valor. A existência de clusters institucionais que funcionem como plataforma associativa e interativa dos atores, pode servir de porta de entrada para a recolha da informação necessária a uma primeira exploração da hipótese dos ‘megacentros de biociências’. 3.1. Objeto, hipótese de partida e metodologia O objetivo é realizar uma análise exploratória dos atores do HCP e uma análise comparativa com alguns dos centros de biociências apontados por Cooke (2006, 2006a e 2009) e por Coenan et al. (2004), quanto ao número de atores de acordo com o
263 conhecimento, num exercício de exploração da composição do HCP e num primeiro ensaio para o enquadrar globalmente quanto aos atores presentes no cluster. Parte-se da hipótese que a criação do HCP possibilitou a fecundação de um embrião que pode evoluir para um ‘megacentro de biociências’ e que, presentemente, pode representar já o papel de um cluster secundário na rede global da cadeia de valor das biociências dirigidas à saúde humana. A análise que aqui desenvolvemos centra-se exclusivamente na cadeia de valor das biociências/biotecnologia dirigida à saúde humana. A metodologia baseou-se no levantamento das organizações a partir da informação contida nas páginas online e reunidas na página dos respetivos clusters institucionais, seja como associados seja, nos casos em que isso se verifica, como pertencente à base de dados online dos atores existentes na região/país que esses clusters institucionais disponibilizam. Elaborou-se uma matriz contendo a identificação, a localização do ator e as principais funções, tendo-se recolhido informação relativa a um total de 2816 atores, de sete clusters institucionais, selecionados a partir dos territórios das biociências identificados por Cooke (2006, 2006a e 2009) e por Coenan et al. (2004), acrescentando-se o caso português. A classificação dos atores partiu do modelo da cadeia de valor das biociências/biotecnologia dirigida à saúde humana desenvolvido por Cooke (2005). A classificação fez a correspondência das atividades de conhecimento desenvolvidas por cada ator com os domínios de exploration, examination e exploitation do conhecimento (conforme figura 1). O que se apresenta resulta sobretudo deste levantamento. No entanto, foi efetuada observação participante das ações do HCP ao longo dos últimos dois anos (ainda em curso), possibilitando o acesso informal aos diversos atores e foram ainda desenvolvidas entrevistas exploratórias (ainda em curso) com diferentes atores da esfera empresarial, das instituições de I&D, da direção do HCP e com investigadores. Em conjunto estas são estratégias que estão a contribuir para enriquecer a investigação com informação qualitativa. 3.2. O HCP: identificação e caraterização dos atores da cadeia de valor A criação do HCP em 2008 visa criar uma plataforma de reunião e interação dos atores na área da saúde para desenvolver um polo de competitividade e inovação neste setor
264 (Santos et al. 2010). O âmbito deste cluster institucional não está exclusivamente direcionado para as biociências e a biotecnologia. Reúne 129 atores sediados ou que operam em Portugal. 2 Figura 2. Atores do HCP por domínio do conhecimento na cadeia de valor das biociências. (Fonte: base de dados ‘clusters institucionais’(elaboração própria)) A análise do número de organizações pertencentes ao HCP, segundo o conhecimento que desenvolvem na cadeia de valor (figura 2), permite-nos verificar que, em termos gerais, os principais grupos de atores que participam no processo de inovação da cadeia de valor das biociências estão presentes no HCP. As organizações mais representadas são as farmacêuticas, os institutos de investigação, os dispositivos médicos e farmacêuticos, as universidades e os hospitais. As universidades, os institutos de investigação e os hospitais são maioritariamente públicos ou com forte dependência do financiamento público, embora estejam presentes alguns hospitais de iniciativa privada. A presença vincada de atores do género dirigido ao domínio do 2 129 atores à data do levantamento (28 de Julho de 2012). 0246810 12 14 16 18 20 Universidade Institutos de investigação TIC (screening / squencing) Investigação pré-clínica Investigação médica Incubadoras Outras Hospital Investigação clínica Serviços legais CR EDB Farmacêuticas Marketing Distribuição TIC (bioreactor/ biomedical devices) Dispositivos médicos Nanotecnologia Outras Fora da cadeia de valor Sem informação disponível Exploration Exami nation Exploitation Outros
265 ‘exploration knowledge’ é um indicador consonante com a visão de Cooke (2002 a 2009), segundo a qual estes protagonizam e lideram a cadeia de valor das biociências. A presença de um número significativo de instituições de investigação/universidades no HCP é, pois, encarado como potenciador dum cluster de biociências. Assumindo o princípio teórico de que estes são os ‘makers’ dos ‘domínios do conhecimento localizado’, a sua presença num dado território pode ser interpretado como um fator chave para a construção das ‘capacidade regionais do conhecimento’ e potenciador do desenvolvimento de caraterísticas distintivas do HCP na rede global. A presença dum número significativo de hospitais, maioritariamente de grandes dimensões, é interpretado como potenciador do desenvolvimento de ensaios clínicos e do desenvolvimento da investigação de translação, aproximando a investição base da investigação clínica aplicada. Esta caraterística permite criar expetativas relativamente ao potencial que o HCP revela para se afirmar na rede global como um player no domínio do ‘examination knowledge’. No domínio do ‘exploitation knowledge’, o número considerável do género das farmacêuticas é um indicador positivo mas que, analisado apenas em termos quantitativos, resulta ilusório. Convém realçar que estas não pertencem todas ao grupo das grande corporações farmacêuticas, embora algumas das maiores corporações estejam presentes (Pfizer; GlaxoSmithKline; Janssen-Cilag; AstraZeneca; Lilly; Roche; Servier; UCB). Uma parte destas organizações são pequenas farmacêuticas – bioindústrias – a atuarem essencialmente no mercado interno, dedicando-se apenas à produção e distribuição de medicamentos, muitas vezes genéricos. No entanto, existem alguns casos de farmacêuticas de origem portuguesa, em expansão internacional e a desenvolverem estratégias de inovação assentes na cadeia de valor das biociências, como é o caso da farmacêutica Bial. A presença de um grupo significtivo de organizações dos dispositivos médicos e farmacêuticos surge como outra das caraterísticas que pode potenciar um elemento distintivo no domínio do ‘exploitation knowledge’ do HCP para o seu posicionamento na rede global. A escassa presença de EDB (apenas sete) é um dos aspetos débeis detetados, atendendo ao seu papel nevrálgico como translatores entre o ‘exploration knowledge’ e o ‘exploitation
266 knowledge’. Também os serviços de apoio à inovação, nomeadamente o CR e os serviços jurídicos, são pouco expressivos 3 . Figura 3. Distribuição territorial dos atores do HCP, por domínio do conhecimento da cadeia de valor das biociências. (Fonte: base de dados ‘clusters institucionais’ (elaboração própria)) A distribuição territorial dos actores do HCP por género (figura 3) revela a tendência para a sua concentração em três clusters locais/regionais: na cidade-região do Porto, na cidade de Coimbra com ramificação a Cantanhede (localização do Biocant) e na cidade-região de Lisboa. Todos têm atores direcionados para os três domínios do conhecimento – ‘exploration’, ‘examination’ e ‘exploitation’. De realçar ainda que 3 Os atores identificados como CR (apenas dois), não são especializados em investimentos de capital de risco, muito menos nas áreas das biociências. Também os serviços jurídos presentes não exibem uma especialização dirigida às biociências – patentes, submissão de processos de aprovação de novos medicamentos/metodos de diagnóstico/dispositivos às entidades reguladoras, entre outros – daí a necessidade sentida pelo HCP que o levou a celebrar acordos com gabinetes jurídicos especialistas localizados noutros países.
267 todos têm instituições de investigação/universidades focadas no ensino e investigação na medicina e nas biociências. Dos três clusters locais/regionais, o que exibe maior número de atores é a cidade-região de Lisboa. É neste que se concentram o maior número e diversidade de género no domínio do ‘exploitation knowledge’. Esta é a principal caraterística que destingue esta concentração territorial das outras duas, sendo ainda de notar a significativa presença de actores do ‘exploration knowledge’. A segunda concentração territorial em número de atores é a cidade-região do Porto. O domínio mais presente é o ‘exploration knowledge’ – universidade e instituto de investigação – sendo igualmente considerável o número e a diversidade de atores do domínio do ‘exploitation knowledge’. Por último, surge Coimbra com uma presença mais reduzida de atores, embora abarcando os três domínios – ‘exploration’, ‘examination’ e ‘exploitation’. Pela sua distribuição territorial, parece confirmar-se a tendência para a localização dos atores da cadeia de valor das biociências na proximidade geográfica dos centros de investigação e das universidades. 3.3. HCP: análise comparativa com outros clusters institucionais da saúde Pretende-se identificar perfis que sirvam de termo de comparação com o HCP para avaliar o seu estádio de desenvolvimento. A figura 4 exibe a variabilidade do número total de atores por clusters, estando o HCP entre os de menor dimensão. Permite ainda diferençar o HCP quanto à distribuição dos atores por domínio do conhecimento da cadeia de valor. Em comparação com os restantes casos, o HCP exibe uma maior percentagem de atores focados no domínio do ‘exploration’ e uma menor percentagem dos dedicados ao domínio da ‘exploitation’. Numa análise comparativa mais detalhada, emergem outras diferenças (figura 5) que contribuem para identificar tendências e para definir perfis tipológicos. No caso do HCP, reforça-se a evidencia que a percentagem das universidades e institutos de investigação é bastante superior à observada nos restantes casos representados. O mesmo ocorre com os hospitais, na dimensão do ‘examination knowledge’, mas a investigação clínica exibe uma percentagem consideravelmente inferior relativamente aos restantes clusters (apenas Singapura tem valor semelhante). Revela assim um perfil desenvolvido no género dirigido ao ‘exploration knowledge’ e com potencial no
268 ‘examination knowledge’, mas raquítico no ‘exploitation knowledge’, nomeadamente nos géneros EDB, CR e serviços legais, sendo que neste domínio do conhecimento predomina o género farmacêutica. Se o grupo dos ‘makers’ é significativo, já o género das EDB, que funcionam como translatores do ‘exploration’ para o ‘exploitation’ é muito insipiente, o que faz sobressair o género farmacêutica, que funcionam exclusivamente como ‘takers’. Pode-se considerar que este cluster está num estádio embrionário do seu cíclo de vida, muito dependente de instituições publicamente financiadas. Ainda não se desenvolveram nem multiplicaram as células do género EDB na dimensão do ‘exploitation knowledge’. Figura 4. Total de atores por cluster, por domínio do conhecimento (%) (Fonte: base de dados ‘clusters institucionais’(elaboração própria)) Em todos os outros clusters institucionais há uma tendência para uma maior representatividade dos atores focados no ‘exploitation knowledge’, indiciando que todos estão num cíclo de vida mais desenvolvido. No entanto, existem diferenças entre eles. Os clusters institucionais enquadrados nos territórios identificados por Cooke (2006, 2006a, 2009) como ‘megacentros’ – Massbio: Cambridge (EUA), Biocom: San Diego
269 (EUA) – são os que têm a dimensão do ‘exploitation knowledge’ mais desenvolvida, com especial relevo para as EDB. Este género de ator, como já foi referido, é retratado pelo papel central nos clusters de biociências. De realçar a presença significativa em todos estes clusters dos serviços legais, farmacêuticas e CR. Todos os atores das três dimensões do conhecimento estão presentes de forma relevante. Estes indicadores coincidem com a argumentação de Cooke (2005) sobre os ‘megacentros’, indiciando estar numa fase já desenvolvida do seu ciclo de vida. Figura 5. Comparação dos clusters por domínio do conhecimento dos atores da cadeia de valor das biociências (%) (Fonte: base de dados ‘clusters institucionais’(elaboração própria)) O segundo grupo de clusters institucionais – OBN: Oxford (RU); MediconValley: Copenhaga (Dinamarca) e Malmo (Suécia); BioQuébeque: Quebeque (Canadá) – exibem uma distribuição dos principais atores da cadeia de valor identicas, com um comportamento semelhante aos clusters correspondentes aos ‘megacentros’, mas com valores ligeiramente inferiores. No domínio ‘exploration knowledge’ destacam-se 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 Universidade Instituto de investigação TIC (screening / sequencing) Investigação pré-clínica Investigação médica incubadoras Outras Hospital Investigação clínica Outras serviços legais CR EDB Farmacêutica Marketing Distribuição TIC (bioreactor/ biomedical devices) Dispositivos médicos Nanotecnologia Outras Fora da Cadeia de Valor Sem informação disponível Exploration Examinati on Exploitation Outros BioQuébeque MassBio Biocom OBN Medicon Valley Singapura HCP Portugal
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