Ciberjornalismo de proximidade: A construção de notícias on-line na imprensa regional em Portugal
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i Faculdade de Letras Departamento de Comunicação e Arte 2013 PEDRO JERÓNIMO PEDROSA CIBERJORNALISMO DE PROXIMIDADE: A CONSTRUÇÃO DE NOTÍCIAS ONLINE NA IMPRENSA REGIONAL EM PORTUGAL P ROGRAMA DOUTORAL I NFORMAÇÃO E C OMUNICAÇÃO EM P LATAFORMAS D IGITAIS T ESE DE D OUTORAMENTO
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iii Faculdade de Letras Departamento de Comunicação e Arte 2013 PEDRO JERÓNIMO PEDROSA CIBERJORNALISMO DE PROXIMIDADE: A CONSTRUÇÃO DE NOTÍCIAS ONLINE NA IMPRENSA REGIONAL EM PORTUGAL Tese de Doutoramento apresentada à Universidade do Porto para cumprimento dos requisitos do programa doutoral Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, realizado sob a orientação científica do Doutor Helder Bastos, Professor Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Apoio financeiro d a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do Programa UT Austin | Portugal (SFRH/BD/51378/2011) , de 1 de abril de 2011 a 28 de fevereiro de 2013 e de 1 de junho de 2013 a 30 de setembro de 2013.
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v Aos meus pais (in memoriam), irmão e esposa.
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vii agradecimentos “Nunca digas nunca!” É uma frase que me tem acompanhado ao longo da vida e a cada dia que passa mais nela encontro sentido. O percur so feito ao longo deste doutoramento é prova disso. Quando há cerca de quatro anos esta possibilidade se colocou, a reação imediata foi a de a classificar de loucura. A conclusão da licenciatura era ainda recente e o prosseguimento de estudos não estava no s planos imediatos. Seria precisamente nessa altura que me recordaria das palavras sábias de um docente de outros tempos : “uma licenciatura é uma licença para aprender”. O agradecimento inicial vai, pois, para todos aqueles que desde o ensino primário me instruíram e foram aguçando a curiosidade. À Inês Amaral, a principal culpada. Sem ainda me conhecer muito bem, acreditou, empurrando-me para este desafio. Quatro anos volvidos, a história repete-se e os agradecimentos renovam-se. Aos responsáveis dos jornais Região de Leiria, Reconquista e O Mirante , por terem permitido este estudo, abrindo as portas da redação. Um agradecimento imenso e de modo particular aos seus jornalistas, pela disponibilidade, paciência, partilha e reflexão. Aos docentes e colegas do ICPD, por esta caminhada coletiva. Ao Rosental Alves e ao António Granado , por acreditarem e pelos contributos trazidos. À FCT e ao programa UT Austin | Portugal pelo financiamento. À ERC, ao GMCS e à API, pela informação facultada. Ao Ramón Salaverría, ao David Domingo, ao Luís António Santos, ao João Canavilhas, ao Manuel Pinto, ao Alexandre Manuel e Ricardo Vieira, veteranos da academia que estiveram sempre disponíveis para partilhar os seus saberes com um aprendiz. Aos colegas do Observatório de Ciberjornalismo, por todo o apoio. A todos aqueles que partilharam comigo a redação de O Mensageiro , onde as questões desta tese começaram a ser construídas, mesmo antes de serem formuladas. À Patrícia Posse, pela paixão em comum, pelas críticas e contributos. À Ana Borba, pela ajuda nas correções. Ao José Baptista, por todo o apoio e diligência, sobretudo nesta reta final. À família da segunda , pelo percurso que temos percorrido lado a lado. Sem vocês isto não tinha sido possível. Ao Elísio & Jacinta e ao Nelson , pelas vivências de anos e pelo que me ajudaram a ser hoje. À Ângela, pela confiança, pelo apoio, pela paciência, pela compreensão, por ter sido a voz da consciência tantas vezes e por muitas outras coisas que uma frase não resume. Fica o percurso percorrido até aqui e aquele que se seguirá. Por fim, ao Helder. Não o agradecimento pela orientação, mas a manifestação de orgulho por ter começado a escrever esta estória na companhia de quem sabe muito do assunto e que não se escusou de partilhar o seu saber a o longo dos últimos quatro anos.
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ix palavras-chave ciberjornalismo, rotinas de produção, redação, imprensa regional. resumo Em cerca de duas décadas, a Internet teve implicações, não só na forma de comunicar, como também na de pesquis ar informação. E se durante anos isso se fazia a partir de um qualquer computador, atualmente são os dispositivos móveis que assumem protagonismo. As próprias relações sociais começam, em parte, a ocorrer online. Dos cidadãos aos média. A adoção da Intern et por parte do jornalismo levou a que os primeiros discursos emanados da investigação científica fossem considerados, mais tarde, como deterministas. Seguiramse estudos feitos a partir das redações online, mais descritivos do que interpretativos. Também eles com discursos de deslumbramento em torno da tecnologia. É a partir de um ainda curto trajecto do ciberjornalismo em Portugal que surge a necessidade de procurarmos ir mais além do que o monitor, seguindo assim as pisadas de quem já começara a estudar, a partir de dentro, redações online . Porém, dado o quase completo desconhecido em torno das práticas nos média regionais, nomeadamente na imprensa, começamos por partir à descoberta do ciberjornalismo de proximidade. Origens, evolução e produção. Prosseg uimos com um estudo de casos, considerando a etnografia da produção. O acompanhamento da construção de notícias online e dos fatores que a determinam foi antecedido por um olhar ao percurso histórico e evolução do RegiaoDeLeiria.pt, Reconquista.pt e OMirante.pt. A partir deste trabalho concluímos que: o percurso do ciberjornalismo de proximidade em Portugal é marcado por práticas primitivas, assentes na transposição de conteúdos do meio tradicional; as notícias são o principal conteúdo publicado; a presença da hipertextualidade, multimedialidade e interatividade é residual ou inexistente; e a cultura de produção para o meio tradicional, os recursos humanos e o tempo são os principais fatores que determinam as rotinas de produção de notícias online. A Interne t é cada vez mais usada na imprensa regional, porém, em rotinas relacionadas com a pesquisa e a comunicação. Os jornalistas estão, em parte, cada vez mais fixos à secretária.
xvi 8.2.3.4. Redes sociais online …………………………………………………………. 292 8.2.4. Fatores que determinam a produção e as rotinas …………………………………….. 295 8.3. No RegiaoDeLeiria.pt ……………………………………………………………………………………. 297 8.3.1. A redação …………………………………………………………………………………... 297 8.3.1.1. Espaços partilhados ………………………………………………………….. 297 8.3.1.2. Meios disponibilizados ……………………………………………………….. 299 8.3.1.3. Atores e produção de notícias ……………………………………………... 300 8.3.2. Os jornalistas …………………………………………………………….………………….. 300 8.3.2.1. Percursos ……………………………………………………………………… 301 8.3.2.2. Conceitos construídos ………………………………………………….……. 304 8.3.2.3. Implicações reconhecidas …………………………………………………… 308 8.3.3. As rotinas de produção …………………………………………………………………….. 309 8.3.3.1. Quotidiano na redação ……………………………………………….…….. 309 8.3.3.2. Construção noticiosa …………………………………………………………. 319 8.3.3.3. Publicação e gestão ………………………………………………………….. 323 8.3.3.4. Redes sociais online …………………………………………………………. 324 8.3.4. Fatores que determinam a produção e as rotinas …………………………………….. 327 9. Conclusão ………………………………………………………………………………………………………..……… 329 10. Bibliografia ……………………………………………………………………………………………………..………. 337 Apêndices ….………….…………………………………………………………………………...………………………. PEN Anexos …..…………….…………………………………………………………………………...………………………. PEN
xvii Figuras Figura 1: Características do jornalismo tradicional e do jornalismo cívico …………………………….…………….… 19 Figura 2: Evolução anual dos agregados domésticos privados com computador e ligações à Internet (%) …….… 24 Figura 3: Pirâmide invertida no jornalismo de dados ………….…………………………………………………………. 46 Figura 4: Estrutura da proposta de pirâmide deitada ……………………………………….…….………..………….…. 47 Figura 5: Valores anuais (€) de publicidade institucional ………………………………………...…………………….… 84 Figura 6: Distribuição geográfica dos distritos e dioceses de Portugal ………………………….....……………..…… 91 Figura 7: Distribuição das publicações locais e regionais por distrito e regiões autónomas ………………....……… 92 Figura 8: Separador para notícias em mirandês na homepage do JornalNordeste.com ………..…………………… 93 Figura 9: Distritos onde a imprensa regional tem registado mais audiência (%) …….………..………………………. 99 Figura 10: Publicações beneficiadas com porte pago (1999-2006)/incentivo à leitura (2007-2011) ………………... 100 Figura 11: Evolução dos incentivos directos do Estado à imprensa regional e local (em milhares de euros) ……... 101 Figura 12: Como saber a data de registo do domínio de um cibermeio …………..………….…………………...…… 118 Figura 13: Como acompanhar a evolução de um cibermeio ……………………………….…………..……………….. 118 Figura 14: Grelha de análise do aproveitamento das principais potencialidades da Internet ….………………….… 120 Figura 15: O método do estudo de casos de Robert K. Yin (1984) ………………….………………………………..... 122 Figura 16: Potencialidades da Internet consideradas em estudos de ciberjornalismo ……………………………….. 123 Figura 17: Items para análise das rotinas de produção – Apurar ……………………………………………………….. 125 Figura 18: Items para análise das rotinas de produção – Recolher …………………….………………………………. 125 Figura 19: Pontencialidades e fraquezas dos estudos etnográficos no campo do ciberjornalismo …………………. 128 Figura 20: Períodos de observação participante …………………………….……………………………………………. 130 Figura 21: Entrevistas realizadas no âmbito da tese ……………………………………………………………………... 133 Figura 22: Items para análise das publicações no Twitter e no Facebook …………………………………………….. 134 Figura 23: Distribuição dos cibermédia regionais por distrito ……………………….…………………………………… 140 Figura 24: Primeiras evidências de ciberjornalismo na imprensa regional ………….…………………………………. 142 Figura 25: Períodos em que foram criados domínios ou cibermédia regionais ………….……………………………. 143 Figura 26: Distribuição dos ciberjornais regionais por distrito e regiões autónomas ……….………………………… 144 Figura 27: Variações mais significativas na análise global ao aproveitamento das principais potencialidades da Internet nos ciberjornais regionais .………………………………………….…………………………..……… 146 Figura 28: Ciberjornal DNoticias.pt (2000 e 2012) ………………………………………………….……………………. 147 Figura 29: Condições de acesso a conteúdos do JornalDoFundao.pt (2001) ………………………….……………... 150 Figura 30: Slideshow em notícia do CorreioDoMinho.pt ………………….……………………………………………… 152 Figura 31: Comentários referentes a notícia publicada em Dnoticias.pt ………….………………………..………….. 153 Figura 32: Comentário referente a notícia publicada em DesportivoTransmontano.com ……………………………. 154 Figura 33: Edições do Região de Leiria ………………………..…………………………………………….……………. 160 Figura 34: Página principal do primeiro ciberjornal do Região de Leiria ……………………………………………….. 169 Figura 35: Página principal do ciberjornal RegiaoDeLeiria.pt …………………………………………………………… 173 Figura 36: Edições do Reconquista ………………………………………………………………………………………… 177 Figura 37: Página principal do ciberjornal Reconquista.pt ……….……………………………………………………… 182 Figura 38: Edições de O Mirante ………………….………………………………………………………………………... 188 Figura 39: Página principal dos ciberjornais de O Mirante ……………………………….……………………………… 195 Figura 40: Aproveitamento das potencialidades da Internet em RegiaoDeLeiria.pt (%)……………………………… 201 Figura 41: Aproveitamento das potencialidades da Internet em Reconquista.pt (%)………………………………….. 203 Figura 42: Aproveitamento das potencialidades da Internet em OMirante.pt (%)……………………………………… 204 Figura 43: Publicação de notícias em RegiaoDeLeiria.pt (meses) ……………………………………………………… 206 Figura 44: Publicação de notícias em RegiaoDeLeiria.pt (semana) ……………………………………………………. 206 Figura 45: Publicação de notícias em RegiaoDeLeiria.pt (dia) ………………………………………………………….. 207 Figura 46: Notícias publicadas em RegiaoDeLeiria.pt (temáticas) ……………………………………………………… 208 Figura 47: Comentários em notícia publicada em RegiaoDeLeiria.pt ………………………………………………….. 210 Figura 48: Publicação de notícias em Reconquista.pt (meses) …………………………………………………………. 211 Figura 49: Publicação de notícias em Reconquista.pt (semana) ……………………………………………………….. 212 Figura 50: Publicação de notícias em Reconquista.pt (dia) ……………………………………………………………... 212 Figura 51: Notícias publicadas em Reconquista.pt (temáticas) …………………………………………………………. 215 Figura 52: Comentários em notícia publicada em Reconquista.pt ……………………………………………………… 216 Figura 53: Publicação de notícias em OMirante.pt (meses) …………………………………………………………….. 217 Figura 54: Publicação de notícias em OMirante.pt (semana) …………………………………………………………… 218 Figura 55: Publicação de notícias em OMirante.pt (dia) …………………………………………………………………. 218 Figura 56: Notícias publicadas no OMirante.pt (temáticas) ……………………………………………………………… 219 Figura 57: Aproveitamento das potencialidades da Internet nos três ciberjornais (%)…………………………..……. 224 Figura 58: Publicação de notícias nos três ciberjornais (meses) ……………………………………………………….. 226 Figura 59: Publicação de notícias nos três ciberjornais (semana) ……………………………………………………… 226 Figura 60: Publicação de notícias nos três ciberjornais (dia) ……………………………………………………………. 226 Figuras 61 e 62: Redação de O Mirante e OMirante.pt ………………………………………………………………….. 230 Figura 63: Conteúdos publicados nas redes sociais de OMirante.pt (Facebook) ………………………..…………… 261 Figuras 64 e 65: Redação do Reconquista e Reconquista.pt …………………………………………………………… 265 Figura 66: Conteúdos publicados nas redes sociais do Reconquista.pt (Facebook) …………………………………. 294 Figuras 67 e 68: Redação do Região de Leiria e RegiaoDeLeiria.pt …………………………………………………… 298 Figura 69: Conteúdos publicados nas redes sociais do RegiaDeLeiria.pt (Facebook e Twitter) ……………………. 325
xviii Siglas AACS – Alta Autoridade para a Comunicação Social API – Associação Portuguesa de Imprensa APCT – Associação Portuguesa de Controlo de Tiragem APIR – Associação Portuguesa de Imprensa Regional AIC – Associação de Imprensa de Inspiração Cristã CCPJ – Comissão da Carteira Profissional de Jornalista CPMCS – Confederação Portuguesa de Meios de Comunicação Social ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social GMCS – Gabinete para os Meios de Comunicação Social SJ – Sindicato dos Jornalistas UE – União Europeia UPIR – União Portuguesa da Imprensa Regional
2 1. Introdução Para que servem os jornalistas? A atualidade da questão lançada por Jay Rosen 1 , há cerca de década e meia, mantém-se. De tal forma que entretanto mobilizou uma outra, recentemente lançada pelos editores do Columbia Journalism Review: “What is journalism for?” 2 Tudo o que se relaciona com a atividade e profissão está em debate. Da construção noticiosa à relação com o público, passando pelos incontornáveis modelos de negócio. Sobretudo em plena era digital, que já não é marcada apenas pela transição dos átomos para os bits, mas pela possibilidade de toda a comunicação poder ser atualmente feita através de dispositivos móveis. A utilização pessoal dilui-se na profissional e vice-versa. A discussão em torno do jornalismo cívico emerge novamente. É precisamente a partir dele que há cerca de uma década Carlos Camponez (2002) discutiu o jornalismo de proximidade, ao estudar os rituais de comunicação na imprensa regional portuguesa. Contudo, embora a Internet já estivesse nas redações há cerca de sete anos, o meio estudado seria o papel. Passado este tempo, não só pouco se sabe sobre o processo de adoção do meio digital por parte da imprensa regional, como também as suas implicações no quotidiano dos jornalistas. Quando o fundador do primeiro jornal exclusivamente digital em Portugal quis registá-lo pela primeira vez, não conseguiu. Estávamos em 1998 e a Internet era um meio ainda pouco conhecido pelo ICS e muito menos contemplado nos estatutos da API. O Setúbal na Rede não era nem um jornal, nem uma rádio, nem uma televisão. Era sim um nativo digital, de informação regional. Após meses de persistência, o diretor do cibermeio conseguiria que os estatutos da API fossem alterados e o registo efetuado. O fato da Internet estar há pouco tempo nas redações portuguesas, ajudava a justificar o impasse. Os primeiros passos do ciberjornalismo em Portugal tinham começado três anos antes e desde então praticamente só os principais média é que o estavam a explorar. Já sobre os regionais e locais, pouco se sabia, embora no caso da imprensa estivesse representada por cerca de um milhar de publicações, nos 18 distritos e duas regiões autónomas do país. O desconhecimento sobre o setor era tal, que só cerca de 15 anos depois é que uma das entidades responsáveis por ele faria um levantamento alargado (ERC, 2010). Durante esse período, foram escassos os estudos sobre imprensa regional ou local e ainda mais sobre o seu jornalismo de proximidade. E se já era assim em relação ao meio nativo, o papel, que dizer em relação ao novo. Atualmente, a Internet já está consolidada e é inclusivamente a principal fonte de conteúdos informativos. Embora fosse essa a previsão do Innovation in Newspapers 2007 World Report (apud Canavilhas, 2007: 10) para o ano de 2012, a realidade é que a sua concretização começou antes. Um estudo desenvolvido pela Pew Internet Research deixava, em 2011, indicadores nesse sentido: 65% dos norte-americanos, entre os 18 e 25 anos, declarava usá-la como principal fonte de informação (Pew, 2011), quando em 2007 esse valor 1 ROSEN, J. (1999) What Are Journalists For? New Haven, Connecticut: Yale University Press. 2 Disponível em www.cjr.org/cover_story/what_is_journalism_for.php. Publicado e consultado a 3 de setembro de 2013. Nesta tese mantemos a fidelidade às citações originais, independentemente da língua.
3 era de 34%. Já o relatório The State of the News Media 2012 3 , do Pew Research Center's Project for Excellence in Journalism, para além de registar elevadas taxas de penetração da Internet e dos dispositivos móveis, sublinha o interesse igualmente crescente pela informação local, que se tem traduzido na revitalização dos média e do jornalismo de proximidade. Quando entrou nas redações, nos anos noventa do século passado, também houve quem começasse desde logo a fazer previsões sobre as implicações que a Internet iria ter no jornalismo. John V. Pavlik é um desses exemplos. Para o autor de New Media Technologies and the Information Highway (1996) e Journalism and New Media (2001), um software iria substituir os média noticiosos. Volvidos cerca de 18 anos, tal não se verifica, pese embora já tenham surgido algumas experiências 4 nesse domínio, isto é, notícias construídas sem qualquer intervenção humana. Rebecca Greenfield (2012), da revista The Atlantic, chama-lhe “robot journalism”. Experiências a que não será alheia a crise económica que se tem feito sentir um pouco por todo o mundo e que tem levado um decréscimo de jornalistas nas redações. A Internet surge assim como uma forma de contornar algumas das dificuldades sentidas pelos média noticiosos, como os custos associados à produção e à distribuição. No caso da imprensa, por exemplo, eles não existem aos níveis da impressão e da expedição. Porém, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico, os editores queixam-se de estarem a explorar um território quase desconhecido e sem um mapa (Paterson e Domingo, 2008). As implicações do novo meio no campo do jornalismo têm motivado vários estudos ao longo dos últimos anos, nos mais diversos domínios: nas redações e nas rotinas dos jornalistas (Singer, 1998; Bastos, 2000; Domingo, 2006; Padilha, 2012; Pereira, 2003; Masip, 2005; Soriano, 2002; Palacios et al., 2002; Barbosa, 2002; Jorge, 2007; Santos, 2011; Gomes, 2012), na formação dos jornalistas (Salaverría, 2000, 2010, 2011; Canavilhas, 2006; Pryor, 2006), na integração de elementos multimédia (Sundar, 2000; Huang, 2003) e de hipertexto nas notícias (Huesca e Dervin, 2003; Oblak, 2005), na contextualização (Zamith, 2011), na interatividade (Barbosa, 2001; Amaral, 2004; Rost, 2006, 2012) ou na integração de todos os elementos (Salaverría, 2005; Edo, 2002; Deuze, 2004; Bastos, 2005). A maioria dos que referimos inserem-se naquela que foi a primeira vaga de estudos, essencialmente quantitativos, centrados no meio de distribuição e no produto (análise de output). Nos últimos anos temos assistido a uma segunda vaga, mais de caráter qualitativo, centrada nos processos de transição e produção noticiosa. Falamos de estudos essencialmente de caráter etnográfico, em que os investigadores têm ido para as redações online e a partir daí procurado compreender quais as implicações que a Internet trouxe à produção e respetivas rotinas. Esta última abordagem procura sobretudo questionar alguns discursos deterministas em torno da adoção tecnológica, presentes na primeira vaga de estudos. Embora já tenha surgido uma segunda, aquela ainda é partilhada na atualidade. Um estudo feito a jornalistas portugueses revela precisamente que os mesmos consideram que as principais mudanças que 3 Disponível em http://stateofthemedia.org. Consultado a 1 de dezembro de 2012. 4 “Imagine that you could push a button, and magically create a story about a baseball game.” A apresentação é feita no site do Stats Monkey (http://infolab.northwestern.edu/projects/stats-monkey/), um sistema que desde 2009 gera automaticamente notícias sobre desporto, a partir de informação disponibilizada online.
4 estão a ocorrer na profissão se devem à tecnologia (Bastos et al., 2013: 13). Uma perceção que resulta sobretudo do fato da tecnologia ser parte integrante das rotinas quotidianas daqueles profissionais e ainda ao fato do paradigma tecnológico estar historicamente associado às mudanças na profissão. Contudo, o percurso percorrido pelo jornalismo e a investigação científica foram mostrando que esses argumentos não são satisfatórios. “Technologies do not, in practice, follow some predetermined course of development” (MacKay e Gullespie, 1992, apud Domingo, 2008: 19). Ele é imprevisível, tal como as suas implicações. Daí que os trabalhos académicos levados a cabo nos últimos anos apontem para um rejeição desta leitura de determinismo tecnológico, em detrimento de uma análise mais abrangente (Bastos et al., 2013: 13). É precisamente o que faz a abordagem construtivista, que considera os contextos histórico e social em que ocorre a adoção tecnológica. No caso dos média noticiosos, David Domingo (2008: 26) recupera três particularidades a ter em conta: 1) podem ser ou ter sido atribuídas diferentes definições e usos por parte de outros atores que não os jornalistas; 2) os média tradicionais foram cimentando um modelo de produção noticiosa ao longo de décadas e foram ainda lidando com a inovação tecnológica antes da chegada da Internet; 3) a concorrência e os outros média que usam a Internet são “benchmarked” quando as empresas tomam decisões. Embora ainda se estejam a sentir e a estudar as implicações da adoção da Internet por parte do jornalismo, a realidade é que já há novos meios a desafiá-lo. Os dispositivos móveis são disso exemplo. O aparecimento de novos meios de distribuição noticiosa tem representado uma oportunidade para os média e um desafio para os jornalistas. A Internet, por exemplo, permitiu uma atualização e divulgação noticiosa mais frequente, que por sua vez passou a estar dependente de processos de produção mais céleres. Para além disso, trouxe ainda novas linguagens e potencialidades, porém, as mesmas não têm sido aproveitadas convenientemente. Regra geral, o que se tem assistido é uma transposição de conteúdos entre os diferentes meios. Tem sido assim do papel para a Internet, no caso da imprensa, e mais recentemente para os dispositivos móveis. O mesmo é dizer que os conteúdos coabitam em velhos e novos meios, sem grandes diferenças. Para que o produto seja diferenciado é necessário que os produtores tenham tempo e formação para explorarem as linguagens dos novos meios. Saber como recolher e editar som e imagem (estática e dinâmica) são disso exemplo. Falamos de requisitos que, por diversos fatores (económicos, técnicos ou humanos), nem sempre se verificam. A massificação de smartphones e tablets veio aumentar, não só os acessos à Internet, como também diversificar o seu tipo de utilização. Esta é agora mais pessoal e em mobilidade. Os hábitos de consumo informativo estão a mudar e os dispositivos móveis são o exemplo mais recente de como as linguagens devem ser adaptadas aos meios. Algo a ter em conta nas redações, das maiores às menores. Já não chega produzir de forma rápida, interativa, com elementos hipertextuais e multimédia. Atualmente, é preciso considerar a mobilidade, isto é, produzir de qualquer lugar para qualquer lugar, sabendo ainda que esse processo pode ser desafiado pela produção e difusão de conteúdos de e entre não-jornalistas (UGC - User
5 Generated Content). Há muito que a comunicação deixou de ser vertical e unidirecional (dos média para o público), mas horizontal e bidirecional (todos entre todos e para todos). 1.1. Ciberjornalismos e outros conceitos No âmbito do presente estudo, apresentam-se alguns conceitos que importa clarificar previamente. São os casos de ciberjornalismo, rotinas de produção, imprensa regional, jornalismo de proximidade e ciberjornalismo de proximidade. Têm sido vários os conceitos usados ao longo de mais de uma década de investigação sobre o jornalismo na Internet. O que aqui consideraremos é ciberjornalismo, definido por Ramon Salaverría (2005: 21) como a “especialidade do jornalismo que emprega o ciberespaço para investigar, produzir e, sobretudo, difundir conteúdos jornalísticos”. É a designação adotada por grande parte dos investigadores portugueses (Amaral, 2004; Bastos 2005, 2010, 2011, 2012; Zamith, 2005, 2008, 2011, 2012; Granado, 2008) e também aquela que integra a denominação do observatório português: ObCiber – Observatório de Ciberjornalismo. Também em Espanha, onde se encontram alguns grupos de investigação de referência, a terminologia é igualmente a mais adotada (Diaz Noci e Salaverría, 2003; Salaverría, 2005, 2006, 2010, 2011, 2012; López García, G., 2008b; López García, X., 2008a, 2008b). Xosé López García, pela particularidade de cruzar dois conceitos do presente projeto, ciberjornalismo e local/proximidade, é um dos casos que sublinhamos. Ainda assim, reconhecem-se outras designações, como webjornalismo, jornalismo online, digital, eletrónico, em/na rede, multimédia ou hipermédia. A adoção de jornalismo online, por exemplo, é mais frequente entre investigadores de países anglo-saxónicos (Singer, 2004; Boczkowski, 2004; Weiss e Joyce, 2009; Mitchelstein e Boczkowski, 2009; Örnebring, 2008), mas também de alguns da América Latina (Barbosa, 2001, 2002; Palacios, 2003; Bastos, 2003; Pereira, 2004; Foust, 2005; Tellaroli, 2006; Martins de Lima, 2010) e da Europa (Deuze, 1999, 2003, 2004; Steensen, 2009; Vieira, 2009). Dá igualmente nome a uma das revistas cientificas de referência: Online Journalism Review. Jornalismo digital (Barbosa, 2002, 2005; Alves, 2006; Rost, 2006) e webjornalismo (Canavilhas, 2001, 2003, 2006, 2007; Flor, 2006) são as restantes terminologias mais frequentes. Por outro lado, apesar da generalidade dos autores ser fiel, ao longo dos seus trabalhos de investigação, a uma terminologia, há quem não o faça, como são disso exemplo Susana Barbosa (de jornalismo online a jornalismo digital) ou Helder Bastos (de jornalismo eletrónico a ciberjornalismo). Relativamente às restantes, já referidas, são igualmente reconhecidas pelos autores. As rotinas de produção são aquelas que envolvem os processos de apurar, recolher e compilar informação, redigindo-a, sob a forma de notícia. Nelson Traquina lembra que esta é o resultado de uma construção feita por especialistas, isto é, os jornalistas. “Os saberes de reconhecimento, de procedimento e de narração são elementos constitutivos de toda uma cultura profissional que os membros deste grupo profissional desenvolveram num processo histórico e contínuo de profissionalização.” (Traquina, 2002: 209). Falar em rotinas produtivas
6 dos jornalistas é falar nas suas vivências do dia a dia, que, contrariamente ao que o termo possa indicar, nem sempre são monótonas. Se, por um lado, as coberturas noticiosas de agenda, como a receção de comunicados ou a ida a conferências de imprensa, envolvem rotinas produtivas de alguma forma rotinizadas, por outro, acontecimentos imprevisíveis e inesperados, apresentam-se como desafios aos jornalistas e às suas tomadas de decisão, como o contacto com as fontes, a produção do conteúdo noticioso e o relacionamento com o próprio meio e o seu público. Estudos clássicos das rotinas dos jornalistas são os trabalhos de Epstein (1973), Tuchman (1973), Tunstall (1974), Gans (1980) e Fishman (1980). Mais recentes são os contributos de Singer (2003), Boczkowzki (2004), Paterson (2004) e Domingo (2006). Estes dois últimos são inclusivamente autores e editores de Making the online news: The Ethnography of New Media Production (Paterson e Domingo, 2008) e Making the online news: Newsroom Ethnographies in the Second Decade of Internet Journalism (Domingo e Paterson, 2011), dois livros que reunem mais de duas dezenas de estudos realizados em diferentes países. Igualmente recente, mas sobretudo por se tratar de um autor português, temos a tese de doutoramento de Luís António Santos (2011), Journalism in transition – a study of change at Jornal de Notícias' online newsroom. Por imprensa regional – conceito que será alvo de uma discussão mais alargada adiante (capítulo 3) – consideramos todas as publicações periódicas de informação geral, que dedicam, de forma regular, a maioria dos seus conteúdos noticiosos a fatos ou assuntos de ordem cultural, social, religiosa, económica ou política, respeitantes às comunidades a que se destinam e a territórios que atingem, no mínimo, a dimensão de um distrito; são distribuídos nos suportes papel e plataformas digitais; e não são dependentes, direta ou indiretamente ou por interposta pessoa, de qualquer poder político, inclusive autárquico. As notícias que são publicadas na imprensa regional resultam daquilo a que vulgarmente se chama de jornalismo de proximidade. Para Carlos Camponez (2002), é um jornalismo que resulta de um forte compromisso com o território e com as pessoas que com ele se relacionam, geográfica ou afetivamente. O autor será o mais citado sobre este conceito, sobretudo em Portugal e no Brasil, mas também em Espanha. São precisamente estes os países, quer pela sua proximidade cultural, quer pela sua proximidade geográfica, que mais se têm dedicado à investigação nesta área (Sousa, 2002; Duarte, 2005; Ribeiro, J.C., 2005; Ribeiro, L.T., 2005b, 2006, 2008; Santos, 2007; Vieira, 2009; Duarte, 2010; Jerónimo e Duarte, 2010; Barbosa, 2002; López García, X. 2000a, 2000b, 2004, 2007). O profissional deste jornalismo designamos de jornalista de proximidade, que partilha os mesmos espaços geográfico, social, cultural, psicológico do seu público (López Garcia, X., 2008a). Não só trabalha, como na generalidade dos casos também reside na mesma região. Apesar dos jornalistas dos média ditos nacionais também realizarem um jornalismo de proximidade, quando as referências são Portugal e os portugueses, as designações anteriores têm sido utilizadas por vários autores quando pretendem referir-se ao jornalismo e aos jornalistas que trabalham nos média regionais ou locais. Por outro lado, no caso de frequentarem os mesmos espaços, essa prática poderá ser mais eficiente, na medida existe um conhecimento mais
7 aprofundado das pessoas, das instituições, dos fatos. Porém, essa proximidade também poderá resultar numa dependência excessiva das mesmas fontes e levar à impossibilidade de manter o distanciamento e a independência que a ética e deontologia jornalísticas exigem. Ainda assim, “el periodismo local tiene una triple vocación histórica: vocación de servicio – vocación originaria de la prensa local –, vocación informativa – la información, vocación genuina del periodismo – y vocación de institución local – acentuada por la tradición” (Guillamet, 2002: 195). Por fim, teremos que o ciberjornalismo de proximidade é a especialidade do jornalismo de proximidade que emprega o ciberespaço para investigar, produzir e, sobretudo, difundir conteúdos jornalísticos referentes a um determinado território e/ou comunidade. A influência espanhola para a definição deste conceito surge-nos, não só a partir de Ramón Salaverría (2005), mas sobretudo de Xosé López García (2008a). Ao profissional que o faça de modo exclusivo, consideraremos de ciberjornalista de proximidade 5 . Por cibermeio, ciberjornal e cibermédia (Bastos, 2011) entendem-se o sítio, o jornal e os média online, respetivamente. 1.2. Motivações para estudar o ciberjornalismo de proximidade Quando entrámos pela primeira vez na redação de um jornal regional, no final de 2003, estávamos longe de imaginar que esse era o ponto de partida e este o de chegada. Embora O Mensageiro 6 fosse o novo local de trabalho, a realidade é que a aprendizagem jornalística seria iniciada, pouco tempo depois, num cibermeio de informação desportiva de âmbito regional: DesportoLeiria.net 7 . Uma experiência que duraria cerca de dois anos e que viria a ser potenciada na redação do referido jornal. Foi precisamente a partir das interrogações que foram surgindo ao longo desse percurso que nasce o presente estudo. Uma delas relaciona-se com a transição da imprensa regional para a Internet e do jornalismo que daí resulta. Conhecíamos, a partir de dentro, os casos de um jornal e de um nativo digital, e de fora, mais meia dúzia de ciberjornais regionais existentes no distrito de Leiria. Vivíamos, por carolice, as rotinas ciberjornalisticas de um órgão de informação desportivo, que exigia atualização permanente, e víamos que nos restantes ciberjornais regionais não era assim. Para além de uma atualização pouco frequente, os conteúdos apresentados mantinham-se praticamente inalterados em relação ao que era publicado nas edições em papel. Como seria noutros ciberjornais regionais? Com que frequência produziriam e publicariam noticias? E o que é que determinaria esses processos? 5 A tese de doutoramento de Helder Bastos (2011), “Ciberjornalistas em Portugal: Práticas, Papéis e Ética”, é o único trabalho que conhecemos sobre ciberjornalistas, em Portugal. Ainda assim, é um estudo que aborda a realidade nos média ditos nacionais e não nos regionais ou locais. 6 Fundado a 7 de outubro de 1914, foi durante décadas o mais antigo semanário do distrito de Leiria em publicação. Editado pela última vez a 16 de maio de 2013, este jornal de inspiração cristã era propriedade do Seminário Diocesano de Leiria, onde tinha sede e redação. 7 Fundado em junho de 2003, por Luís Joaquim, foi uma referência no distrito de Leiria, ao nível da cobertura desportiva. Terminaria a 22 de outubro de 2006.
8 1.3. Objeto e questões de investigação Para se estudar as rotinas de produção no ciberjornalismo de proximidade, é necessário estar com quem está mais diretamente ligado a esse processo, isto é, os ciberjornalistas. Caso não se encontrem jornalistas a trabalhar em exclusivo para a Internet, então, interessará estar com aqueles que mais diretamente estão ligados à produção para esse meio, isto é, os “media professionals who are directly responsible for the Internet content of news ventures (be it existing print or broadcast media or be it independent online ventures” (Deuze, Neuberg e Paulussen, 2004). É precisamente sobre os produtores e os processos de produção que os estudos do ciberjornalismo se têm debruçado nos últimos anos, depois do produto (cibermeios) e do público (utilizadores). Para tal, seguimos a orientação teórica que tem mobilizado os mais recentes trabalhos (sub-capítulo 2.3.), que se têm debruçado sobre o contexto social em que determinada tecnologia é adotada – a tese de doutoramento de David Domingo (2006) é o ponto de partida. Neste caso, referimo-nos à transição da Internet para as redações e a adoção desta por parte do jornalismo. Trata-se de uma linha de estudos que segue uma abordagem construtivista, influenciada pela sociologia do newsmaking e que tem procurado superar as limitações interpretativas do paradigma determinista. É o que procuraremos fazer no presente estudo. Só estando no principal contexto em que decorrem as rotinas de produção, isto é, a redação, é que poderemos compreender as implicações que a Internet trouxe ao jornalismo de proximidade. Embora um estudo desta natureza exigisse uma análise mais abrangente, é sobre aquele espaço e profissionais que nos debruçaremos. “A comprehensive analysis of the social adoption process of a technological innovation such as the Internet requires the understandig of technologies as a socially constructed multifaceted reality, and not a monolithic element that appears form nowhere and imposes its logic to social actors such as media companies” (Paterson e Domingo, 2008: 19). A adoção da tecnologia é influenciada por múltiplos fatores, que no presente caso vão desde as estratégias empresariais à cultura profissional. O estudo deve ser amplo, como a abordagem construtivista sugere. Apesar de reconhecermos que não é possível dissociar a produção ciberjornalística dos cibermédia do seu público/utilizadores, o nosso interesse de investigação é a produção e as rotinas que para ela concorrem. A relação dos jornalistas da imprensa regional com outros atores, que se relacionem com a redação e possam ter implicações nas rotinas de produção, será tomada em conta. Um exemplo disso são os técnicos de audiovisual e/ou multimédia, que, embora não sendo jornalistas, podem participar direta ou indiretamente das rotinas de produção. Contrariamente ao caminho seguido por Domingo (2006), manteremos em aberto a possível relação dos jornalistas com departamentos cuja relação com a redação será menos espectável, como os comercial ou de marketing. Fazemo-lo devido a uma “proximidade demasiado próxima”, que Pedro Coelho (2004: 135) diz existir entre “jornalistas, representantes do poder político e cidadão-eleitores”. Embora o autor não se refira a eles, não poderemos descurar a possibilidade de em alguns casos essa relação
15 resposta que os defensores do localismo apresentam, face ao processo que ocorre numa sociedade pós-industrial. Uma das consequências da globalização é, nas palavras de Xosé López García (2008a: 15), “mitigar o local”. Exemplos disso são a McDonals, a Coca Cola ou os jeans, que atualmente é possível encontrar em praticamente todo o mundo. Não será por isso de estranhar que sejam marcas mais conhecidas em muitos territórios do que a própria gastronomia ou o artesanato que ajudam à construção da sua identidade. Um outro exemplo é-nos trazido pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, que aos 19 anos saiu do seu país rumo a uma universidade norte-americana. Foi lá que se confrontou com a ideia que a sua colega de quarto, norte-americana, tinha sobre o povo nigeriano. “Se eu não tivesse crescido na Nigéria, e se tudo o que eu soubesse de África fosse de imagens populares, também eu pensaria que África era um local de belas paisagens, belos animais e pessoas incompreensíveis, lutando em guerras sem sentido, morrendo de pobreza e Sida, incapazes de falar por si mesmas e esperando ser salvas por um meigo, estrangeiro branco” 11 . Adichie acabaria por se aperceber que aquela sua colega não era a única a ter aquela perceção sobre o povo e o território nigerianos. A própria escritora viria a confrontar-se com a mesma atitude, quando visitou pela primeira vez o México. “Lembro-me de primeiro sentir uma breve surpresa e depois fiquei submersa em vergonha. Apercebi-me que estava tão imersa na cobertura dos média sobre os mexicanos, que eles se haviam tornado uma só coisa na minha mente: o abjeto imigrante.” Adichie recordou-se então de uma palavra que lhe era familiar: “nkali”, que quer dizer “ser mais do que o outro”. Este poderá ser um dos efeitos da globalização, que homogeniza, uniformiza. “O perigo da história única”, que motiva o alerta da escritora nigeriana, refere-se às perceções e construções que ocorrem na sociedade, a partir de informações que por vezes não vão além daquelas que são veiculadas pelos média. E até mesmo essas são apenas um recorte da realidade. A globalização resulta assim em implicações profundas nas dimensões nacional, política e cultural. “A sociedade em rede impõe uma nova lógica, uma nova geografia, assentes na relação global-local” (Coelho, 2004: 99). O aparecimento da Internet é um dos exemplos que vieram acelerar esse processo. Com a globalização surge um novo tipo de sociedade, que na ótica do sociólogo alemão Niklas Luhmann (apud Chacón e Pozo, 2006: 2) apresenta cinco traços diferenciadores: um grande aumento do conhecimento sobre o quotidiano e das relações sociais; um saber cientifico universalmente difundido; uma opinião pública que incorpora temas do ponto de vista da novidade e os traduz em premissas para o comportamento dos recetores; uma interação da atividade económica; e uma civilização de viagem, em que o homem com educação urbana sabe o que esperar em qualquer lugar do mundo em que se encontre. Mas se inicialmente o global tinha sido imposto sobre o local, atualmente assiste-se como que a uma inversão. É o “retorno ao local” (Armand e Mattelart cit. López García, 2008: 15), que ainda assim não se dissocia do global. Antes, estabelecem-se 11 Em “Chimamanda Adichie: O perigo da história única”, TED talk, julho de 2009. Disponível em www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html. Consultado a 1 de dezembro de 2012.
16 novas redes, novos territórios de partilha e de conhecimento, em suma, novas relações sociais entre local e global, num processo que decorre não em substituição, mas em articulação (Hall, 1997). É dessas relações que surge o glocal, “(...) un espacio en el que operan, a la vez, tanto las lógicas desterritorializantes de la desreglamentación de la economía-mundo como el proceso de reterritorialización de los espacios singulares en el transcurso del cual cada comunidad intenta dar un sentido a esta tendencia predominante que las proyecta al encuentro de universales” (Mattelart, 1993, apud López García, 2008a: 16). Glocalizar é assim reforçar a importância do local no global, a partir da sua identidade e cultura, pois “cada civilização possui um pensamento racional, empírico, técnico e, também, um interesse simbólico, mitológico e mágico” (Terena cit. Morin, 2000: 27). A poluição, por exemplo, é uma problemática de interesse global, mas que pode ser vista a partir do local, de casos específicos que afetam um determinado território e/ou comunidade. “Na realidade, podemos compreender a relação local-global partindo do papel do corpo e da prática cotidiana na construção do sentido e então colocando e articulando os ‘caminhos’ que ligam (em ambas as direções) esse nível com as construções de identidade e de senso de pertencimento por meio da produção de ‘histórias’ ou, mais frequentemente, por meio de discursos sociais (desde os discursos ‘históricos’ e ‘políticos’ até aqueles representados pela ‘mídia’): a produção, no interior do discurso, de ‘tempos’, ‘espaços’ e ‘atores’ é de fato a via para produzir subjetividade cultural e para definir espacialidade ‘local’ e ‘global’” (Sedda, 2008: 2). Para que seja possível compreender a complexidade da organização em sociedade, não se podem isolar as relações sociais do seu contexto ou do seu ambiente. Recuperando um princípio defendido pelo sociólogo Alain Bourdin, em 2001, Cicilia M. Krohling Peruzzo (2005: 70) refere “que é impossível definir fronteiras precisas entre o regional, o local e o comunitário”. Por outro lado, com a abertura das fronteiras e a livre circulação, como acontece na Europa, à necessidade de afirmação da identidade junta-se a de gerir a mobilidade. “Quanto mais indivíduos circulam, se abrem ao mundo, participam na modernidade, numa espécie de 'cultura mundial', mais sentem a necessidade de defenderam as suas identidades cultural, linguística e regional” (Wolton, 2003: 22). Nasce-se num lugar e independentemente da mobilidade geográfica que possa ocorrer, aquele é sempre intrínseco, faz parte da identidade. A história e a cultura desse lugar ou lugares por onde se circula, são constituintes dessa mesma identidade e ajudam a construi-la. As comunidades de emigrantes são disso exemplo. Para o sociólogo francês, “ou conseguimos associar de modo satisfatório comunicação, mobilidade, identidade e cultura; ou subestimamos a complexidade do problema, e então temos de contar com uma reação da identidade” (idem: 24). É da relação tensa, diacrónica e permanente entre o local, o global e o glocal, que resulta o questionamento sobre a identidade, mobilizados para o estudo que pretendemos fazer sobre o jornalismo que a imprensa regional desenvolve na Internet. Para João Carlos Correia (1998: 158), “a definição de um campo jornalístico regional deve ter em conta que a identidade de regiões comporta a necessidade de mecanismos de produção simbólica que contemplem o
17 reforço do sentimento de pertença”. Uma derivação desse jornalismo, também conhecido como sendo de proximidade (Camponez, 2002), é a introdução do conceito de hiperlocal 12 . Embora não seja o nosso âmbito debruçarmo-nos especificamente sobre este último, sublinhamos o interesse que o local, o hiperlocal ou a proximidade têm gerado, nos últimos tempos, no campo dos estudos de média e do jornalismo. O aparecimento da Internet, que veio desafiar os média dos pequenos territórios, tem sido um dos motivos desse crescente interesse, ao qual se veio juntar, mais recentemente, os dispositivos móveis. 2.1.2. Um jornalismo que se diz comprometido “Por uma boa história, por uma boa notícia, vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo”. Quando a rádio TSF surgiu, em 1981, era este o seu slogan, o seu compromisso com os ouvintes. Com um teor marcadamente informativo, assumia assim a prática de jornalismo radiofónico. Mas afinal, o que é uma “boa notícia”? O que é o jornalismo? (Traquina, 2002). Para que servem as notícias? Um livro não chega para responder, defende Nelson Traquina, conceituado teórico português do jornalismo. Trata-se de problematizar um conceito que o próprio prefere chamar de “campo do jornalismo”. Para o sociólogo Pierre Bordieu (cit. Traquina, 2002: 15), esse é um “espaço social estruturado, um campo de forças”. É nele que os jornalistas atuam, com a missão de “fornecer às pessoas a informação de que precisam para se autogovernarem” (Kovach e Rosenstiel, 2004: 9). Quanto ao papel do jornalismo, é fundamental no estabelecimento da agenda, na formação da opinião pública, na promoção da conversação e do conhecimento, bem como na redução da complexidade social (Fontecuberta, 1993, apud Correia, 2011: 13). Falamos, assim de um campo de estudo que está a ser constantemente desafiado pelas mudanças nas paisagens comunitária e cultural (Deuze, 2006) e que se vai desmultiplicado em diversos conceitos. Estes surgem sobretudo para delimitar uma parte ou partes desse campo e embora estudem o mesmo objeto, apresentam, não raras as vezes, diferentes terminologias. Esta tese é disso exemplo, com os conceitos jornalismo de proximidade e ciberjornalismo, cujos objetos de estudo podem ser partilhados por outros, como o jornalismo regional, jornalismo comunitário ou jornalismo hiperlocal e o jornalismo online, webjornalismo ou jornalismo multimédia, respetivamente. Quase uma década depois da última grande discussão em torno do jornalismo de proximidade (Camponez, 2002), quisemos revisitar o conceito, que também tem sido objeto de estudo sobretudo em Espanha e no Brasil. Neste último território, porém, é ainda uma realidade recente (Peruzzo, 2005). Talvez por isso não sejam de estranhar as frequentes referências a Carlos Camponez. Revisitamos assim um campo do jornalismo que, apesar das varias designações, se centra nos pequenos territórios, no compromisso com eles e com as respetivas comunidades. Como defende Igor Savenhago (2012: 46), “em nenhum momento esta fatia da comunicação esteve tão em evidência como nesses primeiros anos do século XXI”. Fazê-mo-lo, pois, em pleno advento das plataformas móveis e num período em que a 12 O conceito “hyper-local” (hiperlocal) terá surgido pela primeira vez no artigo “Taking Local Coverage to the Limit: 24Hour Cable News”, publicado no The Washington Post, a 11 de março de 1991, por Paul Farhi.
18 Internet já está consolidada. Consequência disso tem sido o aumento de estudos sobre ciberjornalismo. A perceção da existência de um jornalismo desligado dos interesses do público, esteve na base do aparecimento do jornalismo cívico, em finais dos anos 80 do século passado, nos EUA. A forma como as eleições presidenciais eram noticiadas e a perceção que os eleitores tinham disso, acabaria por ser determinante para que o mesmo se transformasse em movimento. A superficialidade das coberturas, marcadas pela publicidade, pelos espetáculos de campanha e pelas questões secundárias, levavam a uma frustração generalizada por parte dos cidadãos (Traquina e Mesquita, 2003). Alguns anos antes, a jornalista norte-americana Alicia Shepard denunciava-o, justificando assim o emergir do jornalismo cívico – posteriormente designado de jornalismo público. “Muitos acreditaram que os média foram transformados pelas táticas de campanha negativa, obcecados com a cobertura do tipo corrida de cavalos e esquecidos em relação às questões julgadas importantes pelos eleitores” (Shepard, 1994, apud Traquina e Mesquita, 2003: 10). Foi precisamente nesse ano que os níveis de confiança dos norte-americanos nos média bateram valores históricos: 23% referiam ter “muita”, em 1973, valor que desceria para 10%, em 1994 (Kalsing, 2010). A credibilidade dos média era, assim, colocada em causa. O debate gerado em torno do movimento poderia sintetizar-se na necessidade de uma reaproximação dos jornalistas ao público, tendo em vista “uma 'redescoberta' dos valores comunitários, como resposta ao universalismo (…) à falta de respostas das burocracias dos aparelhos do Estado e da administração pública” (Camponez, 2002: 160). A capacidade de promover o pensamento e a imaginação, bem como o desejo de envolvimento e de participação, em detrimento da mera reprodução da atualidade, eram os desafios que para Claude-Jean Bertrand (apud Kalzing, 2010: 18) se apresentavam aos média que pretendessem aderir ao movimento. Diremos ainda que este emerge sobretudo das teorias deliberativas e comunitaristas, as que procuram com mais insistência laços cívicos entre jornalismo e comunidade (Correia, 2012). No caso do modelo comunitarista, “valoriza a homogeneidade política e a mobilização para a ação coletiva com vistas à relação de objetivos políticos comuns” (idem: 6). Por seu lado, Michael Schudson (1998) crítica o fato dos defensores do jornalismo cívico não considerarem as possíveis consequências da colisão entres os valores comunitários ou da sua tolerância por parte do público. Na mesma linha, surge o português Mário Mesquita, com alguns argumentos de oposição: “O desenho de um novo perfil jornalista-participante, em prejuízo da atitude clássica jornalista-observador; o abandono das conceções tradicionais de 'distanciamento jornalístico', em benefício da causa de defesas comunitárias, correndo-se o risco de alinhamento explícito de jornais e jornalistas ao lado de determinadas correntes políticas; o aparente desinteresse da corrente por formas de autorregulação, como sejam conselhos de imprensa e ombudsmen, ao contrário da doutrina da responsabilidade social definida nos anos 40 (pela comissão Hutchins)” (apud Traquina e Mesquita, 2003: 26). A discussão em torno do jornalismo cívico seria retomada uns anos mais tarde, num projeto de investigação coordenado por Bill Kovach e Tom Rosenstiel. O resultado de três anos
19 de trabalho foi a obra Os Elementos do Jornalismo: O que os profissionais do Jornalismo devem saber e o público deve exigir (Kovach e Rosenstiel, 2004: 10), que regista nove princípios: a primeira obrigação do jornalismo é para com a verdade; o jornalismo deve manterse leal, acima de tudo, aos cidadãos; a sua essência assenta numa disciplina de verificação; aqueles que o exercem devem manter a independência em relação às pessoas que cobrem; deve servir como um controlo independente do poder; dever servir de fórum para a crítica e compromisso públicos; deve lutar para tornar interessante e relevante aquilo que é significativo; deve garantir notícias abrangentes e proporcionadas; aqueles que o exercem devem ser livres de seguir a sua própria consciência. Mais tarde, os autores entenderam que deviam de reconhecer o papel dos não-jornalistas e então decidiram acrescentar um décimo princípio: também os cidadãos têm direitos e responsabilidades, no que diz respeito à informação noticiosa. No caso do jornalismo cívico, porém, essas responsabilidades apresentavam-se como acrescidas, na medida em que sãos eles os principais mobilizadores e participantes da produção noticiosa (Figura 1). Figura 1: Características do jornalismo tradicional e do jornalismo cívico Característica Jornalismo tradicional Jornalismo cívico Papel do jornal Provedor de informações relevantes para alimentar o debate. Espaço para apresentação de temas relevantes ao debate. Papel do jornalista Selecionador e organizador das informações com status de notícia. Retransmissor das exigências do público à própria sociedade. Papel do público Consumidor final das notícias e fornecedor de feedback aos média. Definidor dos temas e participante ativo na produção das notícias. Rotinas produtivas Verticais e centralizadas na estrutura interna dos média. Horizontais e dependentes da relação direta com o público. Relações económicas Necessárias, permanentes e organizadoras do sistema. Ocasionais, para manter algum grau de legitimidade dos média. Relações com a sociedade Ocasionais, para manter a estrutura de funcionamento dos média. Necessárias, permanentes e organizadoras do sistema. Debate produzido Dirigido pela elite e fragmentado pelos produtores de notícias. Dirigido pelos representantes do público e contextualizado. Fonte: Cervi (2009) apud Kalsing (2010: 25) Num estudo realizado em Portugal, que procurou identificar práticas de jornalismo cívico em alguns jornais considerados de âmbito nacional (Público, i, Jornal de Notícias, 24 Horas, Diário de Notícias e Correio da Manhã), conclui-se que os mesmos não têm uma preocupação de aproximação ao público (Kalsing, 2010: 52). Por outras palavras, aquilo que estava na génese do movimento não se verifica. Um dos indicadores recolhidos que apontam nesse sentido são as chamadas de primeira página, onde as temáticas locais (8,76%) são suplantadas pelas internacionais (14,87%). Para a autora, “é mais do que claro que o público é tratado de maneira verticalizada”, com os jornalistas a assumirem vincadamente a função de gatekeeper. “Esse sistema, porém, me parece perigoso, à medida que afasta, cada vez mais, o jornalismo da realidade” (idem: 53). É da prioridade dada à componente de cidadania em relação à informativa, que emerge o jornalismo de proximidade (Camponez, 2002). Trata-se de um campo do jornalismo que é apresentado como comprometido com as comunidades e com os territórios. A cobertura do que é local “coloca o repórter em contacto direto com o cidadão e o ajuda a resolver problemas ‘menores’ de uma cidade, de um bairro, de uma rua” (Calil cit. Junior, 2011: 35). É também a
20 partir desses contextos que Cicilia Peruzzo (2005) enquadra não só a informação que é trabalhada por esse jornalismo de proximidade, mas também os meios através dos quais é difundida: “Entendemos por informação de proximidade aquela que expressa as especificidades de uma dada localidade, que retrate, portanto, os acontecimentos orgânicos a uma determinada região e seja capaz de ouvir e externar os diferentes pontos de vista, principalmente a partir dos cidadãos, das organizações e dos diferentes segmentos sociais. Enfim, a mídia de proximidade caracteriza-se por vínculos de pertença, enraizados na vivência e refletidos num compromisso com o lugar e com a informação de qualidade e não apenas com as forças políticas e econômicas no exercício do poder” (idem: 81). O mesmo defende João Carlos, um cidadão português, leitor de jornais regionais e cuja opinião encontramos ao folhear um deles, no decurso desta tese. Apresentamo-lo sobretudo porque “representa” um grupo (cidadãos) poucas vezes ouvido e que, por isso mesmo, enriquece a discussão. “Há um segmento de informação que é cada vez mais importante. A informação de proximidade. Não obstante o que se passa nos grandes centros de decisão, devemos ter conhecimento do que nos rodeia para podermos adaptar e ajustar a nossa vida de forma a estarmos totalmente integrados socioculturalmente no nosso meio” (Carlos, 2012) Também para Feliciano Barreiras Duarte (2005: 110), secretário de Estado adjunto do ministro-adjunto e dos assuntos parlamentares em Portugal, com atuais e anteriores ligações à pasta da comunicação social, “a informação de proximidade é insubstituível porque chega onde a outra informação, a nacional, não chega, aborda e fala dos problemas e das aspirações legítimas das pessoas, atinge extratos socioeconómicos esquecidos pela comunicação social nacional. Estas características de verdadeira proximidade têm um potencial de crescimento”. Quem também lhe reconhece potencialidades é Paulo Faustino (2000: 94), ao afirmar que “a sociedade está a caminhar para uma personalização comunicacional, dando lugar a numerosos grupos desmassificados, mais pequenos e focalizados geograficamente”. O regional, o local, o que está na proximidade, ganha assim um renovado interesse. Este resulta da perceção, apoiada em “indicadores de mercado”, de que as regiões, os territórios mais reduzidos, estão em expansão (Amaral, 2005: 182). “É exatamente quando estamos numa época de globalização que o jornalismo regional ainda faz mais sentido, porque quanto mais globais somos, quanto mais informação nos chega de todos os cantos do mundo, mais necessidade temos de saber quem somos, o que acontece à nossa volta e o que acontece no nosso círculo restrito”, defende Emídio Rangel (cit. Akadémicos, 2012), jornalista e fundador da TSF e da SIC (primeiro canal de televisão privado em Portugal). Já Ana L. Almeida (2012) coloca a tónica na comunidade. Para a autora, o jornalismo local e de proximidade “é fundamental para cada comunidade para que possa refletir, consciencializar-se, aperceber-se do que a rodeia e mobilizar-se ou agir. Para além destes mecanismo de defesa, é uma questão de identidade nacional, de distinção de cada comunidade e a importância do papel de cada individuo na intervenção das questões que o afetam” (idem: 42). Também numa linha mais distanciada da questão territorial, geográfica, Jorge Pedro
21 Sousa (2002) fala em “comunidade de vizinhos”, isto é, cidadãos-cidadãos, cidadãos-jornalistas e jornalistas-cidadãos. A proximidade sai pois reforçada das relações territoriais e comunitárias, que ocorrem “através de invisíveis cadeias de cumplicidade” (Raimundo cit. Vieira, 2009: 65) e que ajudam a reforçar os laços de identidade (Dornelles, 2010). É o jornalismo comprometido, de que falam outros autores (Camponez, 2002; Carvalheiro, 1996; Pascoal, 1996; Manuel, 2010). Ainda neste campo, a proximidade surge pelo fato das notícias ocorrerem no mesmo lugar de receção (López García, X. 2008a). Trata-se, pois, de uma relação de proximidade aos níveis social, a partir das temáticas abordadas (família, o trabalho, a religião ou a política), mas também psicoafetiva, a partir dos valores partilhados (sexo, vida e morte, segurança, bemestar). “[The] proximity to an event allows journalists to utilize predeveloped networks of sources in their communities” (DeLung, Magee, DeLauder e Maiorescu, 2012: 749). Precisamente por isso, falamos de um contexto difícil para o jornalistas, onde as tensões com agentes e públicos daquele território são frequentes. A mesma pessoa ora pode ser para eles uma fonte, ora o seu público, ora a visada das suas notícias ou até mesmo as três situações em simultâneo. São precisamente este tipo de situações que podem levar à permeabilidade das redações, aos abusos e ao “clientelismo” (Correia, 2012: 8). Em entrevista para uma dissertação de mestrado sobre os média locais do Brasil, o jornalista Cláudio Gioria sublinha que “o jornalista não fica no olimpo, numa redação escrevendo o que bem entende sem saber o impacto disso na vida das pessoas. Desse prisma, interagir com a comunidade pelo jornalismo local é mais difícil do que atuar num grande veículo, mas é com certeza mais gratificante e, se feito com ética e profissionalismo, rende mais resultados para a vida da cidade e região” (cit. Junior, 2011: 39). Ainda sobre o jornalismo de proximidade na imprensa brasileira, Anchieta Melo (2007) refere: “No interior, o jornalista conhece as pessoas que descreve. Interage com elas o tempo todo no espaço da cidade, mantendo contatos de maior ou menor proximidade. O importante a ser ressaltado aqui é isso: ao escrever, o jornalista, ao contrário do profissional da capital, conhece ‘algo a mais’ sobre as pessoas que descreve. E esse ‘algo a mais’ refere-se às nuances da personalidade dessa pessoa; às várias expressões de suas feições; a seus casos de família; aos aspetos polêmicos e banais que constituem essa história singular; à sua rotina na cidade; às roupas que costuma usar; a seus dias de bom e mau humor; à grandeza e mesquinhez de alguns de seus atos. Ou seja, tem uma informação que a compressão do tempo no amplo espaço dos grandes centros inviabiliza: a de conhecer a complexidade que envolve esse ser humano; fonte de suas matérias”. Sobre os jornalistas e os constrangimentos com que se debatem nos média de proximidade, designadamente no contexto que mais nos interessa (imprensa regional portuguesa), retomaremos mais adiante (sub-capítulo 3.2.4.). Embora haja interesse dos cidadãos na informação e por vezes na participação, a realidade por vezes mostra-nos que o apregoado jornalismo de proximidade nem sempre está próximo do público. É o que encontram João C. Correia, Ricardo Morais e João C. Sousa (2012) em nove jornais regionais portugueses, onde estudam as rotinas de produção mobilizadas pelos cidadãos. Nele concluem que “as práticas de construção noticiosa dos
22 jornais ainda estão afastadas da constituição de uma agenda plural e centrada nos cidadãos” (idem: 14). Já Carlos Chaparro (2012) defende que “não existe 'jornalismo de proximidade' nem 'jornalismo de causas'”. Para o também jornalista e professor de jornalismo na Universidade de São Paulo (Brasil), essas não são mais do que particularidades do próprio jornalismo. “A proximidade é um atributo essencial de noticiabilidade de qualquer fato ou fala relevante da atualidade – proximidade não apenas física, mensurável, mas principalmente proximidade abstrata em relação ao universo de interesses dos pessoas e dos grupos sociais; e causa está no cerne das razões de ser das ações humanas noticiadas e/ou noticiáveis”, acrescenta. Já no que se refere ao segundo conceito, o autor defende que se trata de um equívoco. “Já a luta por causas é uma ótima razão para viver e sobreviver com dignidade e idealismo. Desde que as perspetivas e as motivações estejam conectadas às razões da própria sociedade” (ibidem). O mesmo problematiza Fernando Palouro, então diretor do Jornal do Fundão. “Porque é que se sublinham conceitos de jornalismo cívico, jornalismo de causas, quando isso faz parte da própria essência do jornalismo? Se o jornalismo de proximidade tem alguma virtuosidade é falar dos problemas das pessoas! Se o jornalismo tem a ver com o interesse público, então ele é por natureza cívico!” (cit. Jerónimo, 2012b). Ainda sobre rotinas e papéis, Lindsey L. Wotanis (2012: 12) defende que os jornalistas “need to understand the essence of community, the importance of place, of the relationships people maintain, and of the values and goals they share. (…) Their readers are their neighbors, their fellow church members, and the people they see in line at the local grocery store or at a table in the coffee shop”. O papel destes profissionais é o de procurar harmonizar as problemáticas resultantes da globalização, isto é, conjugar o interesse público do que sucede na comunidade em que se inserem e, sempre que necessário, enquadrar as pessoas num contexto nacional e mundial, com o objetivo de desenvolver um jornalismo eficaz, atrativo e de qualidade (Chacón e Pozo, 2006: 3). Com o desenvolvimento tecnológico e o aparecimento de novas redes sociais, estas questões ganham renovado interesse, sobretudo se questionarmos quais as suas implicações no campo do jornalismo e na relação com aquela que antigamente era conhecida por audiência (Rosen, 2006). Embora haja autores que o afirmem (Hatcher e Reader, 2012), preferimos questionar: será que conceitos como comunidade se podem definir exclusivamente em termos de proximidade ou homogeneidade social e o de jornalismo como um conjunto de práticas levadas a cabo por profissionais, que por sua vez entregam notícias? É deste emaranhado de redes e de relações, que surgem novas redes e com elas novas implicações que importa conhecer. 2.1.3. A rede de redes e as novas plataformas Para alcançar 50 milhões de pessoas o rádio levou 38 anos, a televisão 13, a Internet quatro e a rede social Facebook dois (Michael, 2011: 3). Um ritmo que é encarado por Castells (2002: 6) como natural: “a Tecnologia não determina a sociedade: incorpora-a. Mas nem a sociedade determina a inovação tecnológica: usa-a.” Uma das inovações que regista o
23 processo de assimilação mais rápido de sempre foi a Internet, que de 2000 para 2011 cresceu consideravelmente, a nível global (480,4%) 13 . Talvez por isso a rede de redes seja considerada como o motor da nova economia, cumprindo um papel similar ao da eletricidade na era industrial (Castells, 2002). Uma ligação feita por intermédio das redes de comunicação, “criadas não apenas para comunicar, mas para ganhar posições, para melhorar a comunicação” (Mulgan, 1991: 21), que no âmbito dos novos paradigmas tecnológicos é feita num tempo e espaço cada vez mais pequenos. Para Ramón Salaverría (2005), as ligações permitem múltiplas possibilidades de relação temporal, que se produzem entre a emissão e a receção das mensagens no ciberespaço (policronismo), bem como a possibilidade de transmissão de mensagens de um ponto a outro, de um para muitos e de muitos para muitos (multidirecionalidade). As configurações que a Web permite leva os utilizadores a estabelecerem relações sociais em escala global, que Dominique Wolton (1997) caracteriza como “a força do do it youself”. Segundo a Internet World Stats (IWS) 14 , a taxa de penetração a nível mundial era de 34,3%, em meados de 2012. Já a OberCom (2012a), citando um estudo da International Telecommunications Union (ITU), afirma que “um terço da população mundial estará atualmente ligado à internet”, tendo-se registado uma subida de 11% de 2011 para 2012. Relativamente a Portugal, a taxa de penetração da Internet era, em 2011, e segundo a IWS, de 50,7%, para uma população estimada de 10.760.305 pessoas – 39% de utilizadores do Facebook. Já o Pordata (Base de Dados Portugal Contemporâneo) regista, também no final de 2011, que 58% dos agregados domésticos tinham Internet, valor que diminui ligeiramente (56,6%) se considerarmos o acesso através de banda larga. Quanto ao número de assinantes, aumentou significativamente na última década, passando de 338.201 em 2001 para 2.104.334 em 2010. Através da mesma fonte é-nos ainda possível perceber como tem evoluiu a taxa de penetração dos computadores, através dos quais é possível o acesso à Internet (Figura 2). Se olharmos para outro contexto, no último ano 97,5% das empresas com mais de 10 funcionários tinha computador; em 95% era possível o acesso à Internet; e 53,7% estava presente online. Também o Bareme Internet 2012 15 regista que pouco mais de metade da população portuguesa (62,8%), com mais de 15 anos, está online. O mesmo estudo aponta que os principais aderentes são jovens (18 a 24 anos), do sexo masculino, da classe alta, quadros médio e superiores e residentes em Lisboa. Em sentido oposto estão as mulheres e os idosos, a classe baixa e as domésticas, e os residentes no interior norte. Figura 2: Evolução anual dos agregados domésticos privados com computador e ligações à Internet (%) 13 Dados do estudo Internet Usage Statistics – The Internet Big Picture, de 30 de junho de 2012. Disponível em www.internetworldstats.com/stats.htm. Consultado a 15 de janeiro de 2013. 14 Disponível em www.internetworldstats.com/stats4.htm. Consultado a 29 de setembro de 2012. 15 Disponível em www.marktest.com/wap/a/n/id~1a6a.aspx. Consultado a 29 de setembro de 2012.
24 Fontes: INE, Pordata Aos indicadores aqui apresentados, poderíamos juntar outros, que convergem para a mesma conclusão: a taxa de penetração da Internet, a nível mundial, europeu e português, tem crescido nos últimos anos (OberCom, 2010a, 2012a). Uma tendência a que não será alheio o aparecimento dos dispositivos móveis, que também permitem o acesso à Internet. A esse propósito, a IWS estima que a nível mundial 32% da utilização seja feita precisamente através de dispositivos móveis. Se considerarmos por exemplo os telemóveis, a sua taxa de penetração tem sido mais rápida do que a da própria Internet. Em 2011 havia 7.000 milhões de pessoas e 5.000 milhões de telemóveis em todo o mundo (Newsweek cit. Nativos Digitais, 2010) 16 . O mesmo estudo regista, em 2010, cerca de 570 milhões de smartphones em todo o mundo e prevê que esse número duplique em 2013. Já o Pew Internet & American Life Project deixa indicadores da crescente penetração destes últimos: 87% dos utilizadores usa-os para aceder à Internet e ao email (Smith, 2011). Em Portugal a taxa de “penetração do serviço móvel ascendeu a 156 por 100 habitantes”, sendo que “a taxa de penetração das estações móveis com utilização efetiva foi de 125,4 por 100 habitantes” (Anacom, 2012). Já anteriormente o OberCom (2012c) tinha estudado, em três anos distintos, o tipo de utilização que os portugueses faziam dos telemóveis e registado um crescimento da mesma (74,4% em 2006; 89,7% em 2008 e 88,7% em 2010). Dos dados recolhidos no ano mais recente, 5,4% dos inquiridos (n=1255) referia usar o “telemóvel para navegar na Internet ou usar email”, sendo a faixa etária 15-24 anos a que mais lhe dá esse uso (11,5%), seguida da 25-34 (7,4%). O telemóvel assume, assim, um papel cada vez mais relevante no dia a dia das pessoas. Quando confrontadas com a questão de qual seria o média que teriam mais dificuldade de abdicar, o telemóvel (26,6%) foi o segundo mais referido, ficando atrás da televisão (44,2%) e à frente da Internet (14,2%). O mesmo estudo regista ainda que 47,8% dos inquiridos admite ter intensificado o uso do telemóvel nos últimos anos, nomeadamente dos smartphones. Em Portugal, por exemplo, as vendas registadas no primeiro trimestre de 2012 aumentaram 40%, comparativamente ao período homólogo do ano anterior, revela o European Mobile Phone 16 Nativos Digitais (2010) Telemóveis: a convergência dos media? + O jornalista cidadão. RTP 2, programa 8, 11 de dezembro.
31 eu”, cit. Gilmor, 2004); elaborar livros de estilos para os cibermédia; definir pautas deontológicas específicas para o ciberjornalismo (a criação do “defensor do cibernauta” é uma ideia, à semelhança do que já existe na imprensa, rádio e televisão – provedores do leitor, ouvinte ou telespectador); e renovar o currículo formativo, dos estudos de jornalismo, nas universidades. O que o autor apresenta é de alguma forma conhecido pelos ciberjornalistas, porém, nem sempre colocado em prática. A principal exceção está no processo de newsgathering, em que os jornalistas substituíram as ferramentas tradicionais de recolha de informação, pelas que estão disponíveis na Web (Hermans, Vergeer e Pleijter, 2009; Granado, 2008). Por outro lado, a transposição de conteúdos das páginas dos jornais para a tela de bits mantém-se. Com mais ou menos recursos, as redações começaram a viver um novo ciclo, muito marcado pelo imediatismo. Ora isso tem levado a que por vezes ocorram atropelos éticos ou que a verificação da informação, momento determinante nas rotinas de produção, seja negligenciada. Isso leva a uma perda natural da qualidade no ciberjornalismo (Leite, 2012). A caminho das duas décadas de Internet nas redações, a adaptação e a investigação dos cibermédia, do ciberjornalismo e dos ciberjornalistas continua em fase de construção. Um desafio para as empresas, que exploram modelos de negócio, para os ciberjornalistas, que estão a habituar-se às novas linguagens e rotinas de produção, e os investigadores, que procuram entender o fenómeno de diferentes perspetivas. A tipologia e o design dos cibermédia, os géneros do ciberjornalismo, a arquitetura noticiosa, a narrativa, o jornalismo participativo, as rotinas de produção, a convergência dos média e evolução do ensino do ciberjornalismo são algumas das abordagens efetuadas nos últimos anos (Palacios e Diáz Noci, 2009). Fenómenos que continuam a ocorrer e que importa compreender. “As today the restructuring of traditional newsrooms into a multimedia environment is still taking place, possible consequences of this transformation may only become visible at a later stage. In the literature, authors indicate the question is no longer whether this transformation will take place, but rather how and at what speed” (Erdal cit. Hermans, Vergeer e d'Haenens, 2009). É nesse âmbito que têm surgido, nos últimos anos, alguns estudos de cariz etnográfico (subcapítulo 2.3.), que têm procurado compreender as implicações da tecnologia nas redações. Com o seu desenvolvimento, por um lado, e a prevalência do imediatismo nas redações, por outro, nem sempre há tempo ou espaço para se refletir sobre o que se está a fazer e como. Para Helder Bastos, “a tecnologia tem andado mais depressa do que o jornalismo. O jornalismo tem, em geral, uma dificuldade grande em adaptar-se às novas coisas que vão surgindo. A Web 2.0 é um exemplo” (cit. Fernandes et al., 2009). 2.2.2. Uma revisão dos princípios do jornalismo Em pleno advento de novas plataformas digitais, por um lado, e de crise económica, por outro, um grupo de investigadores português decide problematizar o jornalismo, entre diferentes atores. Inspirado pelo estudo desenvolvido nos EUA, nos anos noventa do século
32 passado, pelo Committee of Concerned Journalists, uma organização na época administrada pelo Project For Excelence in Journalism, do Pew Research Center (Kovach e Rosenstiel, 2004), surge o Projeto Jornalismo e Sociedade (2012) 17 . “Com as devidas adaptações de lugar, de tempo e de cultura profissional, desafiámos a universidade, o campo jornalístico e os cidadãos em geral a refletirem sobre o que deve ser o jornalismo, o trabalho dos jornalistas, o papel e as expectativas dos cidadãos portugueses na idade da Internet” 18 . Um dos motivos para a revisão, foi o reconhecimento, face às transformações entretanto ocorridas no campo mediático, do “cidadão informado”. Já não apenas através do jornal, da rádio ou da televisão, mas também através das redes sociais online e dos dispositivos móveis. Da reflexão coletiva resultou uma “Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet” 19 , com 11 pontos, dos quais saem reforçados os papéis dos cidadãos e das novas plataformas, na produção noticiosa. 1. A primeira obrigação do jornalismo é a busca da verdade e a sua publicitação. Este primeiro princípio, cuja essência não difere do original (Kovach e Rosenstiel, 2004: 10), refere-se à “verdade jornalística” e não à verdade em sentido absoluto ou filosófico. Na persecução pela mesma, são sobretudo dois os momentos que importa reter: a necessidade de atualidade, marcada pelo imediatismo e a urgência, e a investigação, que pressupõe rotinas mais prolongadas no tempo. Quanto ao processo de publicitação, deve manter-se fiel aos dados apurados, sem os deturpar ou comprometer. Neste âmbito, recuperando Rosental Calmon Alves, “a publicação já não é mais o fim do processo jornalístico, mas o princípio” 20 , na medida em que a Internet trouxe a possibilidade da informação ser atualizada a qualquer momento. 2. O jornalismo deve manter-se leal aos cidadãos, estimulando o debate e a construção de opinião. Trata-se de um princípio que se baseia na defesa da cidadania, da liberdade e da democracia. Os jornalistas devem estar, por isso, comprometidos com os cidadãos, procurando resistir às pressões ou a favorecimentos que possam ocorrer nas empresas de média onde trabalham, pois elas têm que responder a vários interesses (acionistas, anunciantes, etc). A principal consequência desse compromisso é a credibilidade, precisamente uma das imagens de marca dos jornalistas e dos média. 3. A essência do jornalismo assenta na verificação da informação e no confronto de fontes e de versões. Este é mais um dos princípios que se mantém praticamente inalterado, reforçando-se apenas que a cada vez maior produção e proliferação de informação através da Internet (blogues e redes sociais, por exemplo), exige uma redobrada mobilização por parte dos jornalistas para a certificação do que apuram, produzem e publicam. Tem sido precisamente nesta etapa das rotinas de produção que os jornalistas reconhecem que têm ocorrido mais problemas (OberCom, 2010b, 2012b), na medida em que o imediatismo, o dar 17 Disponível em http://futurojornalismo.org. Consultado a 1 de dezembro de 2012. 18 Idem. 19 Disponível em http://estadodasnoticias.info/home/relatorios/principios-do-jornalismo/. Consultado a 13 de janeiro de 2013. 20 No decorrer do seminário de Jornalismo Online do Summer Institute in Digital Media 2009 (UT Austin | Portugal, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 25 a 29 de maio).
33 primeiro, se tem sobreposto à certificação. 4. O jornalismo deve escrutinar os diferentes poderes. Aqueles que o exercem devem ser independentes em relação às pessoas, organizações e acontecimentos que cobrem. Trata-se da revisão ou a explicitação de um princípio anterior, que se refere à necessidade de “controlo independente do poder existente” (Kovach e Rosenstiel, 2004: 10). O contexto económico, fragilizado, tem implicações nos campo dos média, traduzindo-se, concretamente, em pressões por parte dos acionistas e do mercado publicitário e que são reconhecidas pelos jornalistas (OberCom, 2010b, 2012b). Este princípio vem, assim, reforçar a importância do papel de watchdog por parte do jornalistas, nomeadamente, perante aquele que é frequente considerarem como o inimigo silencioso (poder económico). 5. O jornalismo deve tornar interessante o que é relevante e procurar no que é interessante ou mobiliza a atenção dos cidadãos o que é importante e significativo. Mais incisivo do que a proposta inicial, este princípio é reforçado pelo papel do cidadão, que estando cada vez mais informado, deve merecer a atenção permanente por parte dos jornalistas. Num contexto de abundância informativa, onde o infoentretenimento por vezes se sobrepõe a conteúdos noticiosos, as redações são desafiadas a combinar o interesse público e o interesse dos públicos. “Tal não deve fazer esquecer, contudo, que um jornalismo obcecado com trivialidades, em última instância, contribui para uma sociedade trivial” 21 . 6. A produção jornalística deve seguir princípios de rigor, isenção, clareza, abrangência e proporcionalidade, e deve empenhar-se em dar voz e visibilidade a cidadãos, grupos e comunidades mais esquecidas. Na génese deste princípio está o jornalismo como fórum, que não exclui cidadãos, grupos ou comunidades, seja pela sua cultura, sexo, raça, nacionalidade, religião, instrução ou outras. Para tal, deve promover a contextualização, a interpretação, o debate, tendo por base o rigor e a procura pela verdade, já aqui referida. 7. Os jornalistas devem ser livres de seguir a sua consciência. A principal diferença que nos é trazida por este princípio é a substituição de “aqueles que a exercem” (Kovach e Rosenstiel, 2004: 10). Assume-se, assim, que os jornalistas são elementos centrais na produção noticiosa. Tal não significa que não possam contar com contributos de outras pessoas, cidadãos, não-jornalistas, que podem estar mais bem informadas do que eles (Gillmor, 2004). Por outro lado, mantém-se o reforço da importância dos jornalistas questionarem, individual e coletivamente, os seus sentidos ético e de responsabilidade. “As empresas fariam bem em alimentar esta independência, encorajando-a” 22 . Um exemplo prático é respeitar e defender a livre consciência dos seus profissionais, perante possíveis atos que atentem contra ela. 8. O jornalismo deve ser transparente e favorecer o debate público das suas opções e práticas e o escrutínio das ligações, interesses e poderes que o suportam. Vigiar o vigilante, assim podemos resumir um dos novos princípios. Por outras palavras, “o 21 Disponível em http://estadodasnoticias.info/home/relatorios/principios-do-jornalismo/. Consultado a 1 de dezembro de 2012. 22 Idem.
34 jornalismo é uma profissão aberta ao escrutínio público” (Correia e Baptista, 2009: 9), não só ao nível das práticas, mas das ligações que possam existir com os diferentes poderes. 9. O jornalismo deve adaptar-se às diferentes plataformas informativas e interagir com a diversidade de atores presentes no ambiente comunicacional, integrando as suas vozes no processo de produção profissional de narrativas noticiosas e de opinião. Tratase de outra novidade na lista de princípios, sendo que este recorda aos jornalistas que a relação com o público já não é feita de uma forma vertical, mas horizontal. Os utilizadores deixaram de ser consumidores passivos e também produzem conteúdos informativos, portanto, é importante o papel de gatewatching (Bruns, 2008a), por parte dos jornalistas. Apesar da aparente novidade, parece-nos que este princípio advém daquilo que é proposto no quinto e no sexto. Entendemos que os princípios do jornalismo, isto é, aquilo que é a sua essência, é independente das plataformas em que o mesmo se materializa. Assim, não nos parece que este seja propriamente um princípio, pelo que poderia ser diluído nos anteriores. 10. Inovações empresariais e tecnológicas no ecossistema informativo devem ser feitas com respeito por padrões de exigência profissional e no quadro ético e deontológico em vigor numa imprensa livre e democrática. Uma das consequências do desenvolvimento tecnológico, nomeadamente o aparecimento da Internet, continua a ser a indefinição em torno dos modelos de negócio para o jornalismo na era digital. É sobre isso que a indústria dos média tem discutido ao longo de quase duas décadas. Nesse contexto, “a função do jornalismo exige a valorização de novas oportunidades de informar com melhor resposta a interesses de diversos públicos” 23 , sem que, no entanto, os princípios éticos e deontológicos sejam colocados em causa. 11. Os cidadãos têm direitos e responsabilidades, no que diz respeito à informação noticiosa. Embora não seja uma novidade, este princípio é atualizado precisamente a partir das possibilidades que se abriram para os cidadãos, na era digital. A tecnologia capacita-os para uma produção ubiqua e instantânea, porém, com mais possibilidades também surgem mais responsabilidades. “O conhecimento e exercício destes direitos e responsabilidades devem integrar a formação não apenas dos jornalistas mas também dos cidadãos, no quadro mais vasto e desejável de uma literacia mediática que proporcione o uso crítico, esclarecido e criativo da informação jornalística e dos media” 24 . O estudo mobilizado pelo Projeto Jornalismo e Sociedade parece-nos não apresentar grandes novidades, para além de recuperar o papel dos cidadãos, das novas plataformas e da indústria dos média, em plena era digital. Ainda assim, reforçamos a importância do mesmo, não só pelo seu pioneirismo no contexto português, mas também pelo debate público gerado e pela atualização da quase generalidade dos princípios anteriormente enunciados, sobretudo num período em que se argumenta que os pilares essenciais do jornalismo estão a ser diluídos no ciberjornalismo (Bastos, 2012). 2.2.3. Tipologias do ciberjornalismo 23 Ibidem. 24 Ibidem.
35 Começamos pelo plural, pois é inevitável falar nos trabalhos que Mark Deuze e James C. Foust desenvolveram em torno das tipologias do ciberjornalismo. Deuze (2003) utiliza a expressão “online journalisms” para classificar aqueles que entende como sendo os quatro tipos de sites jornalísticos: noticiosos tradicionais; diretórios e agregadores de notícias; média e de comentário; de partilha e discussão. O autor faz ainda algumas considerações, que transportadas para contextos como o português se apresentam como desenquadradas. Sobretudo quando considera como prática do jornalismo os conteúdos que são publicados nos blogues ou nos sítios de “jornalismo individual” (idem: 209). Em Portugal só são considerados jornalísticos os sites que estejam registados na ERC. Para tal, entre outras exigências, as entidades proprietárias têm de editar conteúdos de âmbito noticioso e ter afetos à sua atividade jornalistas, isto é, profissionais que exerçam a sua atividade de forma permanente e remunerada (Estatuto do Jornalista, Art. 1º, alínea 1). Por outro lado, à luz do que defende o investigador holandês, poderíamos considerar como jornalismo algumas das práticas como as do motor de busca Google e do seu agregador de notícias Google News ou até mesmo o projeto português Sapo, também ele um agregador de notícias. A questão que se levanta é que à exceção de alguma produção própria apresentada pelo Sapo, que tem jornalistas, os conteúdos são, na generalidade, uma coletânea de notícias recolhidas de vários cibermédia. O mesmo se pode aplicar ao referido por Deuze (2003), no último ponto, do qual damos como exemplo o Facebook. É um espaço de partilha e debate, que por vezes inclui ligações para os cibermédia, porém, poderá não ser jornalismo. Já Foust (2005) distingue três tipos de sítios, correspondentes às diferentes fases de integração dos meios tradicionais na Internet – Shovelware (mera transposição dos conteúdos do meio tradicional para o ciberespaço), Web Extras (acréscimo de alguns serviços de atualização e/ou interatividade) e Convergence (integração de conteúdos multimédia). Mais recente é a proposta de Carla Schwingel (2007), que aponta para cinco as fases de produção no ciberjornalismo: 1) Experiências pioneiras – final dos anos 60, com o envio de informação via fax, clipping via telnet, e provedores Internet de acesso restrito a clientes; 2) Experiências de primeira geração – a partir de 1992 os produtos são transpostos do impresso para a Internet; 3) Experiências de segunda geração – a partir de 1995 os produtos permanecem vinculados ao modelo metafórico do meio impresso. O processo de produção passa a apresentar algumas funções distintas deste; 4) Experiências de terceira geração – a partir de 1999 os produtos começam a tornar-se autónomos do modelo do impresso. Os sistemas de gestão de conteúdos começam a ser utilizados, a partir do uso de banco de dados integrados ao produto; e 5) Experiências ciberjornalísticas – a partir de 2002, com o banco de dados integrados, dos sistemas de produção de conteúdos e a integração do utilizador na produção. 2.2.4. Potencialidades ciberjornalísticas
36 Interatividade, hipertextualidade e multimedialidade são conhecidas como as principais características da Internet e também aqueles que se apresentam como as principais potencialidades que a produção ciberjornalística pode explorar (Zamith, 2008: 26). Há quem acrescente ainda a instantaneidade (García, 2008: 77) e a personalização (Bardoel e Deuze, 2001). Se as três primeiras se apresentam como consensuais, o mesmo já não se poderá dizer das restantes: ubiquidade, memória, contextualização, personalização e usabilidade. Interatividade – É das principais características aquela que se apresenta como menos consensual, sobretudo por ser frequentemente considerada como mera capacidade de relação entre homem e máquina. Para Tim Berners-Lee trata-se de algo mais abrangente, de um “processo de fazer coisas e resolver problemas em conjunto” (apud Zamith, 2008: 29). A relação do homem com o homem mediada pelas plataformas digitais é o que está subjacente à ideia do inventor da World Wide Web. “Vista como uma ferramenta fundamental na criação de novos públicos, nomeadamente entre as camadas mais jovens” (Barbosa, 2001, apud Couto, 2010), a interatividade é uma das características mais visíveis na atualidade. Veja-se, a título de exemplo, as redes sociais, como o Facebook. Porém, antes delas já existiam os fóruns ou chats. “A Internet não é um megafone. A Internet é conversação” (Lasica, 1996, apud Zamith, 2008: 29). Ao nível dos cibermédia, serve de meio de aproximação dos utilizadores aos ciberjornalistas e vice-versa. Um ponto de partida para o debate, a que Joseph Daniel Lasica se refere, e até para a colaboração. Os cibermédia regionais, que se caracterizam pela proximidade ao público, têm nesta uma potencialidade à sua medida, como defende João Canavilhas. “Perante um cenário em que os cidadãos se afastam cada vez mais da política, a criação de espaços públicos de debate (fóruns, chats, etc) é uma oportunidade para os ciberjornais recuperarem o seu papel fundamental na melhoria das democracias locais (...) a enorme quantidade de blogues regionais e o debate que aí ocorre demonstra bem a necessidade de espaços de debate, algo que tradicionalmente estava atribuído aos média” (Canavilhas cit. Couto, 2010: 20). A possibilidade que se abre aos leitores/utilizadores de fazerem parte do processo de construção noticiosa, com os cibermédia, é destacada por Jo Bardoel e Mark Deuze (2000). Uma relação particularmente evidente nas redes sociais online (García de Torres et al., 2011). Hipertextualidade – Vannevar Bush descrevia, em 1945, no artigo “As We May Think”, aquilo que seria a primeira noção de hipertexto: “a maior parte dos sistemas de indexação e organização de informações em uso na comunidade científica são artificiais. Cada item é classificado apenas por uma única rubrica, e a ordenação é puramente hierárquica (classes, subclasses, etc.) (…) Ora, a mente não funciona desta forma, mas sim através de associações” (Bush cit. Faggion, 2001: 11). O conceito seria recuperado 20 anos mais tarde por Ted Nelson, a partir da necessidade de organização documental da sobrecarga informativa resultante da II Guerra Mundial (Couto, 2010: 21). Já na década de noventa do século passado Piérre Lévy (2001) descrevia-o como “um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser
37 palavras, páginas, imagens, gráficos ou parte de gráficos, sequências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertexto” (apud Faggion, 2001: 11). Para Mike Ward (2002), trata-se do “coração da escrita online”. Cingindo-a à Internet e ao ciberjornalismo, a hipertextualidade pode ser definida como a “capacidade de interligar vários textos digitais entre si” (Salaverría, 2005: 30) ou ainda imagens e sons. Uma potencialidade que teve como principal impacto na redação noticiosa para os cibermédia, a possibilidade de ligar conteúdos entre si, sem a necessidade de ter que os colocar todos no mesmo plano. Recuperando uma expressão de Jeff Jarvis (2007), que entretanto se popularizou, “Cover what you do best. Link to the rest”. A ideia subjacente seria a de que os ciberjornalistas estariam a consumir o seu tempo repetindo as rotinas de produção noticiosa já desenvolvidas por outros. Multimedialidade – Trata-se de uma combinação de múltiplos meios ou aquilo que poderemos chamar de convergência de elementos como o texto, a imagem e o som, “outorgada pelo suporte digital” (Salaverría, 2005: 32). Como multimédia entendem-se “todas e quaisquer combinações de conteúdo editorial, em termos de texto escrito, imagem fixas e em movimento, sons, dados e gráficos” (Deuze, 2003: 224). A presença conteúdos noticiosos combinando texto, vídeo ou galerias fotográficas (slideshows) e tem sido uma prática mais ou menos transversal aos cibermédia. Já a edição dos mesmos, tem representado um desafio para ciberjornalistas. João Canavilhas alerta precisamente para a necessidade de formação a este nível. “O objetivo é fazer com que o jornalista possa produzir alguns dos conteúdos mas, sobretudo, dotá-lo de uma linguagem técnica capaz de lhe permitir desenhar o produto final e coordenar a equipa de produção de conteúdos” (cit. Couto, 2010: 21-22). Instantaneidade – Publicar a qualquer hora, sem ter de esperar pela edição em papel do dia ou semana seguinte ou do próximo noticiário radiofónico ou televisivo. Com a Internet não há fecho de edição. Em qualquer um dos 86.400 minutos que constituem um dia, pode ocorrer a publicação de notícias e, posteriormente, a sua atualização. “A rapidez do acesso, combinada com a facilidade de produção e de disponibilização, propiciadas pela digitalização da informação e pelas tecnologias telemáticas, permitem uma extrema agilidade de atualização do material nos jornais da web. Isso possibilita o acompanhamento contínuo em torno do desenvolvimento dos assuntos jornalísticos de maior interesse” (Palacios, 2002: 4). Há que contar ainda com uma possibilidade que se abre com a instantaneidade: a retificação. “Eu corrijo o erro de um site em segundos. E não corrijo erro nenhum num jornal... ou melhor, corrijo no dia seguinte” (Granado cit. Fernandes et al., 2009). Apesar da instantaneidade esbater a questão da periodicidade dos meios, a realidade é que “passados mais de 10 anos, ainda há ciberjornais 'periódicos'” (Zamith, 2008: 32). Uma dessas realidades é a da imprensa regional portuguesa, para a qual Luís António Santos dá a seguinte justificação: “Não creio que, a nível regional, a torrente de informação relevante para a comunidade possa ser tão caudalosa, mas acho que a Web é, em simultâneo, um excelente espaço para o jornalismo mais cuidado e com recurso a mais meios” (cit. Couto, 2010: 22). Ubiquidade – É considerada como a principal característica da globalização da
38 informação, que tem na Internet o melhor exemplo de meio ubíquo (Pavlik, 2001). Refere-se à omnipresença, isto é, a possibilidade de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Embora a sua taxa de penetração da Internet não seja total em todos os territórios, a verdade é que o aparecimento e a massificação dos dispositivos móveis parece ter acelerado esse processo. Há ainda quem se refira a esta potencialidade como “universalidade” ou “transnacionalidade” (Marcos e Valcarce, 2004). Para João Canavilhas, “a ubiquidade acontece com a simples presença na Web” (cit. Couto, 2010: 29). O mesmo autor dá o exemplo da imprensa regional, que apresente conteúdos que interessam às comunidades de emigrantes. A possibilidade de poderem aceder a eles pelos respetivos cibermeios, a partir de diferentes territórios, é um exemplo de ubiquidade. Memória – “É fundamental encontrar o passado para percebermos as linhas de força que podem pautar o futuro termos a capacidade de moldar o presente. Para que tal continue a ser exequível é fundamental preservar a memória” (Borges, 2004: 7). Entendida como qualquer informação que é transmitida ou proferida do passado para o presente, a memória é essencial para o funcionamento de qualquer coletivo, na medida em que cada grupo precisa de uma consciência que lhe sirva de referência. A imprensa desempenha um importante papel nesse processo, sendo uma das principais fontes quando se pretendem recuperar informações do passado. Com a Internet, o espaço para armazenamento de conteúdos é praticamente ilimitado e o acesso muito mais rápido. Uma biblioteca permanentemente disponível, de enorme utilidade para o jornalismo. Trata-se da “possibilidade de ligar uma nova notícia aos seus antecedentes [o que] permite o enriquecimento do jornalismo graças à contextualização dos fenómenos. Este jornalismo mais informado contraria a tendência atual de um jornalismo de estados de alma e poderá contribuir de forma decisiva para a recuperação do prestígio que a atividade tem vindo a perder” (Canavilhas cit. Couto, 2010: 23). A potencialidade memória é não só útil para os ciberjornalistas como para os utilizadores, que usam os motores de busca para chegarem às informações que pretendem. Porém, nem todos os cibermédia estão atentos à importância de preservarem os seus conteúdos digitais e permitir-lhes o acesso (Jerónimo, 2010c). “Se a imprensa regional pretender continuar a assumir o importante papel de guardiã das memórias locais, terá que investir na preservação digital (…) Trata-se de garantir não só às gerações futuras o acesso às memórias dos seus antepassados, da sua cultura, como também às comunidades emigrantes no estrangeiro” (idem: 178). Personalização – É uma característica que permite ao utilizador configurar a apresentação dos cibermédia ou dos conteúdos noticiosos nele incluídos de acordo com os seus interesses (Salaverría, 2005; Zamith, 2008). “A procura de uma informação cada vez mais específica e individualizada é uma das características importantes da audiência no ciberespaço” (Negroponte, 1995, apud Couto, 2010: 24). Esse é um desafio que, segundo Helder Bastos (2010: 110), se apresenta aos jornais e jornalistas: “tornar o oceano de informações armazenadas digitalmente em algo interessante e pertinente para os leitores”. Subjacente a esta característica está a possibilidade de cada utilizador ser o próprio editor. É a passagem dos média de massas, em que o leitor, ouvinte ou telespectador era mero
39 consumidor, sem qualquer participação no formato, ao eu-média, em que o utilizador ganha autonomia. Fernando Zamith (2008: 31) recorda, porém, que “alguns autores têm alertado para os riscos de uma excessiva fragmentação e individualização, com o consequente enfraquecimento da opinião pública e da função social dos jornalistas como garantes da liberdade e dos direitos democráticos”. Por outro lado, há quem considere exagerados esses receios, argumentando que as novas realidades não substituem as antigas, mas sim convivem com elas (Valcarce e Marcos, 2004). Usabilidade – Para Bastien e Scapin (1993, apud Couto, 2010: 24) esta característica está “diretamente ligada ao diálogo na interface e é a capacidade do aplicativo em permitir que o usuário alcance suas metas de interação”. Por outra palavras, ter uma utilização eficiente, de fácil aprendizagem e com o mínimo de erros. Para Patrícia Couto (2010: 24) trata-se do “grau de facilidade com o qual o utilizador navega num website, tendo em conta que quanto mais interação existir, maior será a usabilidade”. Para potenciar esta característica, Jakob Nielsen (1997) define cinco regras de redação para os cibermédia: destacar as palavras-chave (através de links ou cores); utilizar subtítulos; utilizar listas sempre que necessário; uma ideia, um parágrafo; e coerência. Criatividade – A capacidade dos média responderem às transformações que vão ocorrendo, é aqui considerada sob o ponto de vista da criatividade. Admitimos que poderá não ser a melhor “classificação”, porém, seguiremos a proposta de Fernando Zamith 25 , que se refere ao aproveitamento de outras potencialidades que não tenham sido consideradas. 2.2.5. Rotinas e linguagens renovadas A adoção da Internet por parte do jornalismo teve implicações na produção e no produto. Os jornalistas e os ciberjornalistas passaram a ser desafiados por uma linguagem multimédia, que recorre, entre outras, a potencialidades como a interatividade e a hipertextualidade. O processo de comunicação deixou de ser vertical e passou a ser cada vez mais horizontal, isto é, de um modelo de um para muitos, passou-se a um de muitos para muitos. O próprio modelo de construção noticiosa foi revisto. Se até à chegada de Internet ele era apenas o da pirâmide invertida, depois surge o da pirâmide deitada (Canavilhas, 2007). O subaproveitamento da hipertextualidade (Zamith, 2011), que permitiria um percurso de leitura independente e interativo por parte do utilizador, ajudando-o na contextualização, é o exemplo mais flagrante disso. Por outro lado, os jornalistas e os ciberjornalistas começaram a fixar-se cada vez mais nas redações, tornando-se sedentários (Pereira, 2003; Bastos, 2010, 2012; Boczkowski, 2009; Gomes, 2012). Daqui resulta aquilo a que McManus (1994, apud Paterson and Domingo, 2008: 7) chama de “jornalismo passivo”. Privilegia-se mais o relato dos fatos, do que a observação dos mesmos (in loco). Do gatekeepeering passou-se ao gatewatching. As próprias redes sociais vieram acentuar essa mudança de paradigma, levando inclusivamente 25 O autor atualiza a sua proposta inicial (Zamith, 2008), que nos foi facultada antes mesmo de concluir a sua tese de doutoramento (Zamith, 2011). Aquela que considera como “versão de 2009 da grelha” foi a que adotámos.
40 ao aparecimento de um novo conceito: o gatejumper 26 . E se já era verdade que os cidadãos sabem mais do que os jornalistas (Gillmor, 2004), as possibilidades de o comunicarem de forma independente aumentaram consideravelmente. Entretanto, com estas transformações surgem conceitos como “jornalismo do cidadão” ou “cidadão repórter”, algo que os jornalistas passaram a encarar como concorrência. A caminho das duas décadas, o ciberjornalismo é cada vez mais construído sobre a prioridade ao imediatismo, do que à de verificação e à de profundidade ou à de contextualização, que os primeiros teóricos, como John V. Pavlik (2001), anunciavam. As próprias ética e deontologia da profissão não têm escapado às implicações sociais e culturais, mobilizadas pelo aparecimento de novos desafios tecnológicos. 2.2.5.1. Uma revisão teórica sobre rotinas Um dos elementos centrais desta tese é conhecer as rotinas de produção dos jornalistas, isto é, o seu modus operandi. O que fazem, como fazem e o que determina esses processos. As rotinas são como que guias de orientação, que visam a rentabilização do trabalho. Embora o conceito tenha vindo a despertar o interesse da literatura organizacional, a realidade é que não existe consenso sobre o mesmo (Milagres, 2011). “Em sua maioria, os estudos que utilizam o termo não explicitam o conceito empregado” (idem: 164). A principal razão é porque são escassos. Um importante contributo de revisão de literatura é-nos trazido pela autora, que identifica três grandes grupos de teóricos, que entendem as rotinas como um padrão de comportamento, como regras e como disposições coletivas. Quanto aos seus papéis, há quem defenda que as rotinas oferecem coordenação, controle e coerência, estruturando assim as ações da empresa; agem como gatilhos, isto é, podem ser acionadas e acionar outras; minimizam conflitos, pois mediam questões relacionadas com disputas de poder; reduzem a incerteza, na medida em que simplificam a complexidade das decisões e aumentam confiança nos padrões adotados; incorporam conhecimento, isto é, elas são a memória das organizações; e reduzem o uso de recursos cognitivos, o que leva a que sejam processadas de forma automática, libertando espaço para outras ações. Já quanto às suas características, as rotinas podem ser repetitivas, em que o ator age de forma igual ou similar; coletivas, isto é, distribuem-se pela organização, sendo assim do conhecimento de todos; autoimpostas, na medida em que não precisam de grande reflexão, sendo assumidas de forma automática; estáveis, isto é, persistem e são coerentes, o que minimiza conflitos; dinâmicas, pois podem ter que se adaptar a novas necessidades do contexto interno ou externo à orgranização; de natureza processual, na medida em que se formam por um conjunto independente de ações; dependentes do contexto, pois estão integradas ou inseridas (embedded), nas organizações e nas suas estruturas; e dependentes de escolhas passadas, isto é, da história (ibidem) 27 . Trata-se, assim, de uma revisão teórica que nos parece pertinente 26 Conceito desenvolvido por BROGAN, C. e SMITH, J. (2010) Trust Agents: Using the Web to Build Influence, Improve Reputation, and Earn Trust. Hoboken, NL: John Wiley & Sons Inc. 27 Para uma leitura mais aprofundada e detalhada, consultar MILAGRES, R. (2011) Rotinas – Uma revisão teórica. Revista Brasileira de Inovação, Campinas (São Paulo), 10(1), pp. 161-196, janeiro/junho.
47 Um dos contributos mais significativos para a discussão surge em Webnoticia: Propuesta de modelo periodístico para la WWW, tese de doutoramento de João Canavilhas (2007). A sua proposta baseia-se no aproveitamento que pode ser feito a partir da hipertexto e dos conteúdos multimédia, que têm um impacto mais positivo na perceção e compreensão das notícias. Se antigamente o jornalista levava o leitor, o ouvinte ou o telespectador a um consumo verticalizado das notícias, as quais construía a partir das informações mais relevantes para as menos relevantes, com a webnoticia ele passa a ser horizontal. Surge a pirâmide deitada (Figura 4), onde é o utilizador que faz o seu próprio percurso, podendo a qualquer instante saltar etapas, aprofundando mais ou menos determinado conteúdo. Figura 4: Estrutura da proposta de pirâmide deitada Fonte: Canavilhas (2007: 86) Inspirada em The New Age of the Book, de Robert Darton (1999, apud Canavilhas, 2007: 84), o objetivo da pirâmide deitada é permitir uma leitura breve, deixando, no entanto, elementos que lhe permitam ao leitor torná-la mais densa. O autor propõe, assim, uma estrutura por camadas de informação, que evoluem em seis níveis: resumo do assunto; versão alargada dos elementos dominantes no nível anterior, porém, organizados autonomamente; desenvolvimento e mais documentação; outras pesquisas complementares; propostas para discussão e reações dos leitores e o debate gerado com o autor. Esta proposta representa uma mudança de paradigma, na medida em que é o utilizador quem assume o “comando” do processo de leitura, decidindo o que quer ler e como ler. O papel do jornalista é fazer uma construção noticiosa que o permita, isto é, ser um “facilitador” desse processo. O uso de hipertexto, que tem implicações na credibilidade do que é publicado (Chung, Nam e Stefanone, 2012), assume particular relevância. A mudança de um processo de escrita e linear para uma não linear, leva a que cada notícia possa ser construída em peças, blocos ou “chucks” (Deuze, 1999). Para María Bella P.
48 Torres (2004: 114) “a redação na Internet é um estilo híbrido entre a escrita convencional e a expressão oral”. Há ainda quem defenda o uso combinado da pirâmide invertida com hiperlinks, por considerar que as notícias online são geralmente mais ligeiras e localizadas (Uotila, 2011). Embora se mantenha fiel à técnica de redação clássica, Jakob Nielsen (2011) voltaria a atualizar a sua argumentação. Reconhece que os utilizadores continuam a fazer scroll, no entanto a sua atenção está mais centrada no topo das páginas Web. Por isso, defende que os ciberjornalistas não devem ignorar o conteúdo final, isto é, o vértice da pirâmide. “In fact, if you have a long article, it's better to present it as one scrolling canvas than to split it across multiple pageviews. (…) while placing the most important stuff on top, don't forget to put a nice morsel at the very bottom” (ibidem). Na base da evolução desta argumentação estão os estudos de usabilidade feitos pelo autor, a partir dos quais defende uma leitura num único bloco. Para Nielsen, os utilizadores privilegiam o scroll em detrimento dos clics. Uma posição mais radical é apresentada por Carlos Castilho (2013), num artigo publicado no portal do Observatório da Imprensa (Brasil), no qual defende que a utilização da pirâmide invertida está perto do fim. Trata-se de uma mudança de paradigma motivada pelo aparecimento de novas plataformas. Organizar a narrativa dos textos jornalísticos numa época em que o espaço disponível era determinante, mobilizou o aparecimento da pirâmide invertida. “A origem remota do uso dessa técnica vem da Guerra Civil norte-americana (1861-1865), quando a precariedade das linhas de telégrafo provocava frequentes interrupções nas transmissões de textos. Mas foi no fim do século 19 que o recurso se tornou uma técnica redacional porque os jornais tinham muito material e pouco espaço em papel” (idem). Foi e ainda continua a ser assim em muitas redações. Entretanto, com o aparecimento da Internet esse condicionalismo deixa de se colocar. Para Castilho, o mais importante na construção noticiosa é a contextualização, sem a qual não é possível saber o que é relevante, credível e exato, sobre determinado fato ou acontecimento. Numa época em que prevalece a superabundância informativa, “não se trata mais de priorizar um ordenamento sequencial quantitativo, mas de enfatizar a ampliação qualitativa do conhecimento” (ibidem). O que se verifica, na prática, é que a instantaneidade prevalece. O importante é ser o primeiro a dar a notícia, o que deixa pouco tempo e espaço para a contextualização. E mesmo quando ela existe, até num nível elevado, nem sempre se traduz em mais audiência (Zamith, 2011). A partir dos argumentos apresentados, ambas as técnicas de redação propostas nos parecem adequadas. A pirâmide invertida sobretudo para as breaking news, que requerem uma construção rápida, clara, curta e concisa, e a pirâmide deitada para outros géneros ciberjornalísticos, mais densos, como a reportagem ou a entrevista, onde o tempo de construção é mais espaçado. Determinante será sempre o conhecimento que os ciberjornalistas têm da recetividade do utilizador: privilegiará uma leitura vertical, num único bloco de texto e com poucos clics, ou antes uma horizontal, com vários blocos e onde terá que fazer mais clics? Prefere uma leitura orientada pelos ciberjornalistas ou pretende ser ele próprio a escolher o percurso a tomar?
49 Independentemente da técnica de redação usada, há um problema que nos ocorre: a indexação da informação. A partir do momento em que o ciberjornalista decide construir uma notícia utilizando hipertexto, está a correr o risco de mais tarde a informação já não estar disponível na origem. Esse risco será tanto maior quanto o utilizador for encaminhado para o exterior do cibermédia (por exemplo um documento disponibilizado no portal de um organismo público). O mesmo pode acontecer quando são feitas remodelações estruturais aos próprios cibermédia, sem que sejam salvaguardados os seus arquivos ou o acesso aos mesmos. A técnica da pirâmide deitada é, pois, aquela pode ser mais afetada com isso. Num estudo sobre o acesso e a preservação de conteúdos digitais nos principais ciberjornais regionais portugueses (Jerónimo, 2010c), conclui-se que os mesmos são, na sua generalidade (62%), negligenciados 35 . Trata-se de um campo pertinente do ciberjornalismo, porém, pouco estudado (Palacios, 2003, 2008, 2010). Uma das implicações que a Internet trouxe ao trabalho dos jornalistas foi a sua relação com o público. Se numa fase inicial o jornalista assumia o papel de gatekeeper (Lewin, 1947), isto é, aquele que guarda (keeper) a informação e a deixa passar, ou não, pelos vários portões (gates) que integram as diferentes fases das suas rotinas de produção, posteriormente ocorreu uma mudança de paradigma. Isto porque o aparecimento dos blogues e das redes sociais online (Hi5, Facebook, YouTube ou Twitter), por exemplo, permitiu aos utilizadores assumirem eles mesmos o “comando” informativo. A seleção, a produção e a partilha deixou de ser exclusiva dos jornalistas. Podemos dizer que a antiga audiência (Rosen, 2006) passou a estar dotada de uma lógica de empowerment (Cardoso, Espada e Araújo, 2009), face à sua anterior capacidade. Numa entrevista ao diário espanhol El País (2010), Ronsental C. Alves refere que “pasamos del sistema media-céntrico al yo-céntrico, donde el individuo se transforma en un micro-organismo al tener el poder de comunicarse, de intercambiar información, de redistribuir”. A filtragem da informação que durante décadas ia chegando às redações e que depois os jornalistas transformavam em notícias, de acordo com a importância que lhes era atribuida (White, 1999), é agora feita por cada utilizador da rede de redes, que determina o que lhe é útil, relevante, interessante e noticiável. “A velha fórmula dos editores e diretores serem os únicos a determinar o que é importante tornou-se um anacronismo no ciberespaço” (Stovall, 2004, apud Gomes, 2012: 197). Passou-se de uma lógica de massificação para uma de personalização. Suw Chuarman (2007) considera mesmo que o conceito de gatekeeper está obsoleto, justificando-se com o emergir de três papéis relevantes: a investigação (o jornalismo de investigação tradicional é considerado mais transparente pela publicação e referências); a curadoria (recolha de informações e hiperligações, que ajude a sintetizar a estória); e a facilitação (trata-se de trabalhar com a comunidade, com os utilizadores, de forma a ser publicado que é considerado mais útil e relevante). Já Chris Roberts (2005) defende que embora tenham surgido mudanças no contexto de produção jornalística, o gatekeeping não só 35 Em Portugal, a preservação de conteúdos, publicados pela imprensa, por exemplo, é assumida sobretudo pelos Arquivos Distritais. Quanto ao digital, praticamente niguém o está a fazer. Nem essas instituições, nem a própria imprensa regional. A principal exceção, neste estudo, é o ciberjornal Setúbal na Rede, que possibilita o acesso aos seus conteúdos desde a origem (5 de janeiro de 1998).
50 não está ultrapassado, como não desapareceu. “Studying the issue of how gatekeeping has changed with the Internet – and how the Internet may be changing traditional news gatekeeping – is a subject that will bear much fruit for the current and next generations of gatekeeping researchers” (idem: 15). Embora o conceito esteja associado ao papel do jornalista, Graham Meikle e Guy Redden (2011) sublinham que as próprias empresas e organismos também começam a assumir papéis semelhantes, nomeadamente quando são chamadas a facultar informações para trabalhos jornalísticos. Como consequência do aparecimento da Internet e das redes que nela se desenvolvem, surge um novo conceito: o gateopening (Boczkowski, 2004). “In shifting from gatekeeping to gateopening, newsroom practices focused partly on managing the flow of information from multiplicity of content providers” (idem: 162). A construção noticiosa passa a ser distribuída ou partilhada, na medida em que surgem novos atores: os utilizadoresprodutores. Neste campo cabe aos jornalistas o papel de dinamizadores da informação que circula pelos diferentes fluxos. Não se trata, porém, do fim do papel jornalista enquanto gatekeeper. Para alguns autores serão sempre necessários profissionais que façam uma gestão eficiente e honrada do direito dos cidadãos à informação, filtrando-a, selecionando-a e disponibilizando-a a eles (Valcarce e Marcos, 2004). Isso fica a dever-se ao fato de muitos utilizadores não terem tempo nem as aptidões necessárias para desempenharem alguns dos papéis dos jornalistas, isto é, os de verificar e credibilizar a informação partilhada. David Shaw (1997) defendia-o, sendo que o mesmo ainda se mantém na atualidade, sobretudo num dos palcos privilegiados para a partilha e a redistribuição de informação: o Facebook. As (re)publicações fazem-se a uma velocidade tal que nem sempre o utilizador comum para para pensar se o que está a ver ou a ler é verídico, isto é, não complementa a sua ação com processos de verificação ou validação 36 . Isso faz parte do ADN dos jornalistas e das suas rotinas de produção, daí que o seu papel ainda seja determinante, na medida em que são profissionais e têm formação para tal. Porém, em vez da produção estar centrada neles, há outros atores envolvidos. Falamos dos cidadãos, que assumem cada vez mais um papel importante no jornalismo, sobretudo em plena era digital (sub-capítulo 2.2.2). Cabe ao jornalista abrir-lhes os portões (gateopening), procurando, selecionando e recolhendo, a partir da imensidão de conteúdos informativos que são partilhados, aqueles que são úteis e relevantes para a construção noticiosa. Na linha da proposta anterior, isto é, de um jornalista mais aberto à participação, mais atento aos conteúdos que não são produzidos por si, surge o conceito de gatewatcher (Bruns, 2008a). Para o autor, o processo de seleção de notícias está a ser alterado pelo desenvolvimento tecnológico e digital, de onde emerge um ambiente mais colaborativo e livre, 36 No decurso do estudo etnográfico que fizemos na redação do Região de Leiria, experimentámos uma destas situações. Na tarde de 21 de junho de 2012, um utilizador partilhava no Facebook uma fotografia da conhecida atriz portuguesa Eunice Muñoz, com a inscrição “1928-2012”. Rapidamente o conteúdo foi redistribuído, anunciando a morte da atriz. Naquele momento, fizemos uma rápida pesquisa no Google e apercebemo-nos que a informação apenas estava publicada em blogues e em páginas do Facebook. Questionamos a nossa rede de seguidores no Twitter (@pjeronimo), que conta com algumas dezenas de jornalistas. Minutos depois, um deles informava-nos do desmentido da atriz na sua página oficial no Facebook. Mais tarde os média confirmavam-no: “Eunice Muñoz: 'O rumor da morte é uma tontice!'” (Cardoso, 2012).
51 numa lógica de open source. O jornalista passa a assumir o papel de gatewatching, observando as comunidades existentes na Web e benefiando da “inteligência coletiva”, da informação por elas gerada, considerada e partilhada (idem). Face à quantidade de acessos que se abrem nesse novo ecosistema e cuja a acessibilidade aumentou exponencialmente (Cardoso et al., 2009), torna-se impossível para os jornalistas assumirem o tradicional papel de guardiães de todos eles. Para Rosental C. Alves, “as redes sociais dão ao repórter a possibilidade de ouvir e de ser ouvido, coisa que até há bem pouco tempo não só não existia como era inconcebível” (cit. Jerónimo, 2011a). Ainda assim, há redações onde o papel de gatekeeper está fortemente enraizado (Rodríguez-Polo e Buelna, 2012). Porém, globalmente essa vigilância e poder de decisão passou a ser partilhada com os utilizadores (não-jornalistas). Isso é particularmente visível nas redes sociais. “Esta aproximação potencia a transformação das audiências em comunidades, uma situação que tende a gerar a fidelização dos consumidores por estes reconhecerem que a pertença à comunidade é uma mais-valia. A intensificação do relacionamento, por via da interação com o gatewatcher e com os restantes leitores, aumenta o valor da participação” (Canavilhas, 2010: 10). Num estudo realizado na redação de uma estação de televisão norte-americana, Dan Blasingame (2011) traz para o campo do jornalismo um conceito abordado por Chris Brogan e Julien Smith, um ano antes: o gatejumping. Ao estudar o uso do Twitter na divulgação de notícias de última hora, Blasingame evidencia a possibilidade dos utilizadores saltarem por cima dos portões informativos, anteriormente à guarda exclusiva dos jornalistas. Embora se refira unicamente aos utilizadores pertencentes à organização noticiosa estudada (jornalistas e não só), a verdade é que aquela plataforma de microblogging é reconhecida como tendo grande potencial não só para a divulgação de breaking news, como para a cobertura de eventos em direto (Zago, 2008; Jerónimo e Duarte, 2010; Hermida, 2010; García de Torres et al., 2011). Algo que qualquer utilizador, a partir de qualquer lugar, pode fazer. “The 'Web first' mentality is no longer good enough. The hunger for real-time news delivery is out there, so stations must adapt to 'Twitter first'” (Blasingame, 2011: 20). Se considerarmos ainda a massificação dos dispositivos móveis, que são novos pontos de acesso à Internet e às redes sociais online, por exemplo, então o empowerment dos utilizadores é reforçada. É neste contexto que Leonel Azevedo de Aguiar e Adriana Barsotti (2012) defendem um novo papel para o jornalista: “mobilizador de audiências”. 2.2.6. Campo, identidade, habitus e ethos Embora já aqui nos tenhamos referido ao campo jornalístico (Traquina, 2000), ainda não nos debruçámos sobre alguns conceitos relacionados. Ainda que não seja nossa intenção problematizá-los em demasia, não podemos deixar de abordar o campo, a identidade, o habitus e o ethos. Pierre Bordieu (1997) considera o campo como um espaço social relacional, no qual se inserem grupos e pessoas, por vezes em situações distintas, que disputam ou partilham um
52 jogo de poder, onde a autonomia é relativa e as regras próprias. Trata-se de um jogo de forças, onde há dominantes e dominados, em relações constantes, de desigualdade, que ocorrem dentro desse espaço, por cuja conservação ou transformação se luta. Cada ator empenha a força que detém para concorrer com outros e assim definir nele a sua posição e consequentemente as suas estratégias. Transportado para o campo do jornalismo isso traduzse, ainda segundo o sociólogo francês, em três frentes de confronto: a concorrência entre pares, a concorrência entre os veículos e a procura constante pelo furo. Embora o seu trabalho “Sobre a televisão” tenha sido publicado quando a Internet já estava a ser utilizada em muitas redações, ela ainda não tinha sido suficientemente integrada. A concorrência já não é apenas entre (ciber)jornalistas ou veículos. O mesmo se aplica à procura pela cacha, furo ou manchete. A entrada em cena dos utilizadores, que nos blogues e nas redes sociais, a partir de múltiplas plataformas digitais (computadores e dispositivos móveis), também partilham informação (produzida por si ou não), veio mexer com o campo jornalístico. Numa reflexão sobre identidade profissional e cultura local, inserida na sua tese de doutoramento sobre “webjornalismo”, Sônia C. Padilha (2012) identifica dois fundamentos que têm norteado a discussão em torno do conceito de identidade. Um é o de que os indivíduos assumem identidades diferentes, dependendo do momento, e outro, é o de que a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia (Hall, 2001). De ambos se depreende que a construção da identidade é um processo que ocorre ao longo do tempo e que está sujeito a circunstâncias, agentes ou fatores que a determinam. “A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduo, mas de uma falta de inteireza que é 'preenchida' a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros” (idem). Para autora, há uma relação direta entre a identidade e o habitus social, isto é, ela é construída a partir da relação que se dá entre o indivíduo (eu) e os outros (eles). Se antes da Internet essa socialização ocorria unicamente offline, atualmente ela acontece também online. Esta última permite inclusivamente que o indivíduo possa assumir outra(s) identidade(s), que não a de base. Assim, consideramos que a construção da identidade é um processo contínuo e cada vez mais completo e subjetivo, face aos múltiplos espaços em que ocorre. O mesmo acontece no campo do jornalismo, com a identidade do jornalista, por exemplo. Para Joaquim Fidalgo (2008) esse processo tem sido difícil, contraditório, feito de avanços e recuos, de tenções e negociações permanentes, à medida de uma atividade cuja catalogação suscita ainda hoje algumas controvérsias. Crises e implicações na identidade, na ética e na deontologia dos jornalistas, que se têm mantido ao longo dos anos (Correia, 2006, 2009; Correia e Baptista, 2009, 2012; Camponez, 2011). Embora mais recente, o mesmo poderemos referir em relação aos ciberjornalistas (Bastos, 2011), que são desafiados por novas rotinas, ao mesmo tempo que se debatem com a manutenção de antigas práticas, fortemente enraizadas no quotidiano da profissão e nas redações. É essa “grelha de orientação” ou “mapa cognitivo” que pode ser considerado o habitus (Lopes, 1998) 37 . Já Maria da Graça J. Setton (2002: 61), numa leitura contemporânea a partir 37 LOPES, J.T. (1998) A cidade e a cultura: Um estudo sobre as práticas culturais urbanas. Tese de Doutoramento.
53 da teoria de “habitus em Pierre Bordieu”, concebe-o como “um instrumento conceptual que me auxilia pensar a relação, a mediação entre os condicionamentos sociais exteriores e a subjetividade dos sujeitos”. Entretanto, o aparecimento de novas “instâncias de socialização”, como os média e a sua evolução, veio configurar um campo com diferentes padrões de indentidade e com os mais diversificados modelos de referência: “(...) considero que esta nova matriz cultural, particularidade vivida e experimentada pelo agente social da atualidade, pode forjar um novo habitus: habitus compreendido como um sistema flexível de disposição, não apenas visto como a sedimentação de um passado incorporado em instituições sociais tradicionais, mas um sistema de esquemas em construção, em constante adaptação aos estímulos do mundo moderno; habitus como produto de relações dialéticas entre uma exterioridade e uma interioridade; habitus visto de uma perspetiva relacional e processual de análise, capaz de apreender a relação entre indivíduo e sociedade, ambos em processo de transformação” (idem: 69). O modo como os próprios jornalistas veem o mundo é determinado mais pelo meio social do que pela cultura profissional (Padilha, 2012). É assim que age a “tribo jornalística”, uma comunidade que partilha determinadas características e ideologias – a “estética jornalística” de ver o mundo ou o “jornalês” como modo de falar –, cruciais na produção noticiosa (Traquina, 2004). Trata-se daquilo a que a sociologia designa de ethos, isto é, uma espécie de síntese dos costumes de um povo ou os traços característicos (social e cultural) de determinado grupo. “É o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético, e sua disposição é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete” (Geertz, 1989, apud Tavares, 2007). Para os conhecer e compreender, os estudos feitos no campo, isto é nas redações, têm sido importantes contributos. O desenvolvimento tecnológico, o aparecimento da Internet, das redes sociais online e dos dispositivos móveis, apresentam-se como múltiplos desafios para os média, o jornalismo e os (ciber)jornalistas. Trata-se de uma avalanche em curso e cujas implicações na produção noticiosa importa conhecer. 2.3. Redações online sob observação O determinismo tecnológico tem sido uma presença quase permanente nos discursos em torno do ciberjornalismo. Foi assim nos primeiros anos (Negroponte, 1995; Pavlik, 1996), com uma primeira fase de previsões futuristas e empiricamente pouco fundamentadas, mas também nos mais recentes, embora já com outro volume de produção científica. Dos estudos de caráter quantitativo, feitos sobretudo à frente do monitor dos computadores (análise de output), passou-se aos de caráter qualitativo, feitos atrás dele (com a entrada nas redações). Para David Domingo (2006), os primeiros estudos desenvolveram-se sobretudo a partir daquelas que eram percecionadas como sendo as principais vantagens do ambiente digital (hipertextualidade, multimedialidade e interatividade), o que levou à formulação de “utopias” e discursos normativos. An Duc Nguyen (2008), por seu lado, refere-se à primeira década como Porto: Universidade do Porto.
54 uma “fantasy trip”. Um misto de curiosidade, medo e entusiasmo acabaria por ter implicações na cultura de inovação e de adapção dos média à Web, bem como na produção noticiosa, defende o autor. Ao invés de adicionarem conteúdos originais à sua produção noticiosa online, os média assumiam uma posição defensiva de transposição entre meios. Assim minimizavamse custos e garantia-se a manutenção de ambos, com o tradicional a ser o único rentável (Boczkowski, 2004). Em Portugal o caminho percorrido não foi diferente, com os média a assumiram mais uma postura de reação do que de inovação (Bastos, 2010, 2011). Tudo começou com o pioneiro Jornal de Notícias, em 1995, que curiosamente motivou um estudo que se apresenta como uma “lufada de ar fresco” no campo do jornalismo português. Luís António Santos (2011) acompanha o processo de transição da redação online daquele jornal, onde procura observar a produção diária dos jornalistas, tentando identificar razões para a adoção de determinados processos, bem como a existência de influências externas na produção noticiosa e a possibilidade de aparecimento de uma nova identidade profissional. Para tal, recorre à “etnografia da produção de novos média”. Trata-se de um campo sob tensão permanente e sobre o qual os estudos de ciberjornalismo têm dedicado particular atenção nos últimos anos. Com a imersão dos investigadores nas redações, a compreensão sobre a produção noticiosa tem sido enriquecida. Ainda assim, falamos de um campo que ainda procura afirmar-se dentro dos estudos de jornalismo. Online journalism: Research methods: A multidisciplinary approach in comparative perspetive (Palacios e Díaz Noci, 2009), que apresenta uma revisão do estado da arte até final de 2007, é um dos nossos pontos de partida para a presente tese. Influenciados pelos seus países de origem, os autores centram-se sobretudo em estudos realizados no Brasil e em Espanha, sobre nove objetos diferentes. Neste caso, interessa-nos particularmente um deles: rotinas de produção – dessa revisão, resultam alguns estudos realizados em redações de meios locais e regionais. Embora já tenham alguns anos, não podemos deixar de recuperar os trabalhos de Suzana Barbosa (2002), Fábio Pereira (2003), David Domingo (2006) e Pere Masip (2005). Através de observação participante e entrevistas, os investigadores chegam a conclusões comuns: pouca produção noticiosa para a Web (sobretudo original e adaptada ao meio); dependência de produção externa (comunicados de imprensa e de agências) e fixação dos jornalistas às redações – aparece o “jornalista sentado” (Pereira, 2003). Na última década, os estudos sobre ciberjornalismo têm sido marcados sobretudo pelas observações feitas in loco, a partir das redações, com alguns autores a destacarem-se nesse campo (Singer, 2003; Boczkowski, 2004; Paterson, 2004; Domingo, 2006, 2008a, 2008b). Os dois volumes de Making de Online News (Paterson e Domingo, 2008; Domingo e Paterson, 2011), com estudos etnográficos realizados por vários autores em redações online de diferentes países, deixam importantes perspetivas de como é que tecnologia está a mudar a produção noticiosa. Porém, há quem identifique alguma similaridade com discursos antigos. Para Ramón Salaverría (2012), estamos na “segunda fase do determinismo tecnológico”, na qual os investigadores têm manifestado um certo deslumbramento. Para o investigador espanhol, olha-se muito para as redações e respetivas configurações, bem como para os
55 conteúdos produzidos, mas pouco para as pessoas. Existem “barreiras invisíveis”, naqueles espaços e entre os diferentes atores, que não podem ser desvalorizadas. “Para analisar o passado e o futuro dos meios há que partir desde o complexo presente” (idem). Esta perspetiva de Salaverría sublinha a complexidade em que se dá a produção noticiosa e daí a necessidade de compreender os diferentes processos e contextos em que ocorre. É o que tem ocorrido nos últimos anos, sobretudo através de teses de doutoramento. Num estudo de caso, Carrie L. Brown (2008) avalia os esforços e processos desenvolvidos por um jornal diário (Milwaukee Journal-Sentinel's) na adaptação à era digital. Para tal, recorre a entrevistas, observação participante, inquéritos e análise de emails e outros documentos internos, a partir dos quais identifica alguns obstáculos à mudança, nomeadamente de caráter humano e burocrático. A partir daí sugere um alinhamento de cultura, de estrutura, das rotinas noticiosas e da atribuição de recursos. À semelhança de Jane Singer (2004), Brown encontra resistências na redação, sobretudo em relação a estratégias que promovessem o lucro e não a melhoria do jornalismo. Da parte dos jornalistas, todas as propostas que fossem nesse sentido nunca seriam aceites, independentemente dos argumentos que pudessem ser apresentados pelos responsáveis (idem: 21). Apesar dos processos de produção noticiosa correrem bem, dentro de uma contexto complexo de produção diária, não são eficazes ao nível da instantaneidade, interatividade e multimedialidade. Segundo a autora, isso é determinado por uma fraca comunicação interna, vincada por barreiras estruturais que impedem que a partilha de informação de boas práticas dentro da organização, por parte de alguns atores ou departamentos, seja possível (ibidem: 138). Brown deixa inclusivamente algumas sugestões às organizações: reduzirem os níveis hierárquicos e pedir aos jornalistas para se tornarem mais generalistas e menos especialistas; examinarem que tipo de comportamentos são recompensados e recebem mais atenção nas suas redações; ouvirem todos os colaboradores, envolvendo-os na reflexão sobre a redefinição dos papéis profissionais; promoverem a formação entre os seus quadros e disponibilizarem fundos para investir nela; criarem planos estratégicos claros, articulando-os com o futuro, de modo a que a comunidade local possa compreender que estão a lutar pela sustentabilidade; e derrubarem a “parede” que tradicionalmente se ergue entre os departamentos comercial e editorial, promovendo o diálogo e a partilha de valores (ibidem: 142-144). Quanto aos jornalistas e aos estudantes de jornalismo, sugere que cultivem a flexibilidade, de modo a estarem preparados para mudanças repentinas. “A new employee must be willing to forgo a nine-to-five schedule in lieu of often-grueling work hours” (Hendrickson, 2009: 16). Com alguns objetos comuns ao estudo anterior, Christopher W. Anderson (2009) procura compreender o processo de transição ocorrida no ecosistema mediático da cidade de Philadelphia (EUA), entre 1997 e 2009. Uma das problematizações que faz é sobre “original reporting”, algo que os jornalistas têm dificuldade em responder. Precisamente as entrevistas, bem como a observação participante, integram a sua abordagem metodológica. Um dos pontos de partida do autor é que o jornalismo atual assenta em grande parte na colaboração em rede, com o público a ocupar um “particulary pride of place” no imaginário dos jornalistas. Porém, o
56 autor verifica que se trata de um processo demasiado complexo, devido às dificuldades de relação entre as instituições, habituadas à estabilidade e não ao frenesim das redes. O modelo industrial, no qual o jornalismo em grande parte se baseia, está a cair gradualmente, do mesmo modo que as tentativas de reconstruir um modelo estável (idem: 8). A questão dos modelos de negócios está permanentemente presente, como refere um jornalista do Philadelphia Daily News, entrevistado por Anderson (2009: 248): “my old medium is dying and my new one doesn't pay”. As próprias práticas de construção noticiosa desinstitucionalizaram-se e é nesse contexto que surge o “jornalismo do cidadão”, conceito em relação ao qual os bloguers e os jornalistas entrevistados apresentam diferentes posicionamentos (os primeiros a favor, os segundos contra). É a partir da instabilidade que envolve o trabalho jornalístico e as suas rotinas de produção que mais se evidencia a missão primária de reportar. “Local journalism has based its claim to jurisdiction on an argument that it facilitates the creation of the local body politic – that it gives the public fresh – through the daily work of reporting” (ibidem). Trata-se de um argumento que segundo Anderson está duplamente em perigo. Primeiro, pela precariedade que envolve atualmente o fazer reportagem 38 ; e segundo, porque não há um entendimento do que é o “público local” e como é que ele se relaciona com as práticas do jornalismo. Ainda segundo o autor, o aparecimento da Internet veio problematizar profundamente a visão que o jornalismo local tem do seu público. Através de um estudo em que analisa as estruturas organizacionais, rotinas e cultura, Jonathan Groves (2009) acompanha o processo de integração de um novo sistema de gestão de conteúdos num jornal familiar (Midtown Daily News). Nele o autor encontra semelhanças com outras redações, nomeadamente a tentativa de adaptação e produção para diferentes plataformas, com os mesmos recursos. Embora na redação estudada isso se consiga com alguma eficiência, a verdade é que “falha” ao não considerar o desafio que se apresenta à identidade do jornalista, enquanto produtor e principalmente verificador de informação. Num contexto em que têm que produzir para múltiplos meios e no qual também já operam outros atores, que os desafiam, os jornalistas entram em conflito. “Though some employees bridge the psychological disconnect between the two media, many struggled” (idem: 191). Um indicador de como o ciberjornalismo ainda é uma área de estudo recente, cheganos com a tese de Diana Rogel (2011). Para além de fazer uma das primeiras cartografias dos cibermeios no Ecuador, bem como a respetiva análise de conteúdo, a autora aprofunda a sua abordagem com um estudo de rotinas de produção. Para tal, recorre a focus group, entrevistas e observação participante em quatro redações (nacional, regional, provincial e local). De entre as conclusões, destacam-se: a similaridade de rotinas de produção (dependência de agências e de outros cibermeios); a partilha do newsgathering por jornalistas e editores (estes sobretudo no caso de assuntos mais delicados); a influência da produção online na produção para o meio tradicional; a ausência de fontes ou a presença de apenas uma (há situações onde não há qualquer verificação da informação); a prioridade atribuída à informação local nos quatro cibermeios; as atualizações mais frequentes nas secções de última hora (há no mínimo uma 38 Rui Gomes (2012) corrobora-o na sua tese de doutoramento, sobre a queda da reportagem e sedenterização nas redações portuguesas.
63 Primeiro para o Facebook e para o Twitter, depois, para as apps instaladas em smartphones e tablets. Os média e os ciberjornalistas portugueses parecem estar assim a dar continuidade a um ciberjornalismo de transposição. Quando estamos a caminho dos 20 anos de cibermédia em Portugal e um deles publica que “a edição online do jornal norte-americano New York Times apresentou ontem [20 de dezembro de 2012] uma original forma de apresentação de peças jornalísticas que integra texto, imagens, animações e vídeo de maneira surpreendente” (Diário de Notícias, 2012c), ficamos com mais um indicador que nos remete para conclusões anteriores (Bastos, 2010). Pelo meio as redações emagrecem, o que leva a implicações nas rotinas de produção. Para além do contínuo subaproveitamento da hipertextualidade e da interatividade, verificam-se sobretudo atropelos éticos 41 . O recurso a fontes anónimas é cada vez mais frequente, o que nos leva a questionar os motivos: serão apenas os escassos jornalistas presentes nas redações e o tempo para produção que determinam essa prática? Anteriores estudos dizem-nos que há uma sendentarização nas redações, com as rotinas de produção a serem desenvolvidas com os jornalistas frequentemente sentados (Bastos, 2011, 2010; Gomes, 2012). A excessiva dependência dos comunicados que chegam por email, do que se encontra nas agências noticiosas ou noutros cibermédia, bem como nas redes sociais, leva inclusivamente à queda daquele que tem sido considerado ao longo da história do jornalismo como um dos seus géneros mais nobres: a reportagem. A cultura nas redações, por um lado, e o comodismo dos próprios jornalistas, por outro, são determinantes. “(...) a positividade ou os benefícios decorrentes da Internet no jornalismo terminam no exato momento em que as suas capacidades ou ferramentas são utilizadas de forma nociva como substitutos de comprovações ou testemunhos presenciais de fatos, levando, geralmente por ordem de terceiros – ainda que não seja de excluir a inércia dos próprios –, à impossibilidade do jornalista efetuar reportagens nos locais dos acontecimentos, oferecendo como alternativa um jornalismo de 'secretária' e ao consequente sedentarismo da prática profissional” (Gomes, 2012: 309). Embora a Internet esteja a ter implicações no jornalismo, estas não podem ser vistas isoladamente. Portugal é um dos países europeus que atravessam uma grave crise económica, que também tem abalado a indústria dos média. As empresas veem-se confrontadas não só com a retração do mercado publicitário, como da aquisição do próprio produto, por parte do público (por exemplo a venda de jornais em banca). Umas fecham, outras vão resistindo. Uma das medidas mais frequentes é a redução de recursos humanos, também nas redações. Com menos jornalistas disponíveis para estarem in loco, o recurso à Internet, onde superabunda informação, surge como alternativa para a cobertura noticiosa. Porém, o que se tem verificado é que ela tem sido vista mais numa perspetiva económica, isto é, de redução de custos, do que numa de aproveitamento das suas potencialidades para a produção ciberjornalística. Para que pudéssemos encontrar nos cibermédia portugueses uma construção noticiosa verdadeiramente multimédia, seria necessário investir em recursos humanos e técnicos. Não queremos dizer 41 No blogue Ponto Media, o jornalista e investigador António Granado tem reunido alguns exemplos ocorridos nos média portugueses e internacionais. Disponível em http://ciberjornalismo.com/pontomedia/?cat=7. Consultado a 1 de dezembro de 2012.
64 que ela não exista, porém, é incipiente. Para além disso, como vimos, a crise está à porta e os recursos são cada vez menos, o que nos leva perspetivar uma redução dessa produção ciberjornalística. Outro dos efeitos é a redução da cobertura noticiosa ao nível local e regional, que já era negligenciada por grande parte dos média portugueses, praticamente dependentes da produção da agência Lusa, também ela a registar cortes e despedimentos (Público, 2012a). Curiosamente, é precisamente a cobertura noticiosa local e as oportunidades que aí se apresentam, que tem suscitado o debate nos EUA, nos últimos tempos. Parece-nos, pois, uma boa altura para olharmos para esse contexto particular, a partir do ciberjornalismo que se desenvolve nos média de proximidade em Portugal. 2.5. O lugar do ciberjornalismo na proximidade O ciberjornalismo veio revitalizar o jornalismo de proximidade. Quem o defende é Xosé López García, em Ciberperiodismo en la proximidad (2008a), que “abriu” um novo campo de investigação do novo jornalismo, sobretudo em Espanha, onde tem estado particularmente ativo (López García, X., 2000a, 2000b, 2004, 2007, 2008a, 2008b; López García, G., 2008a, 2008b, 2008c). E é precisamente no campo dos média locais e regionais que os estudos de ciberjonalismo têm escasseado. É por isso que nos debruçamos sobre ele, adotando o conceito sugerido pelo autor espanhol. Apesar da Internet já estar nas redações dos principais média mundiais há quase duas décadas, a realidade é que os estudos neste campo se têm centrado sobretudo nas redações dos principais média. Para Cecília Peruzzo (2005), uma possível justificação poderá ser a sobrevalorização inicial da globalização. “Com o desenvolvimento da globalização da economia e das comunicações, num primeiro momento, chegou-se a pressupor o fim da comunicação local, para em seguida se constatar o contrário: a revalorização da mesma, sua emergência ou consolidação em diferentes contextos e sob múltiplas formas” (idem: 70). No Brasil, por exemplo, os principais grupos de média estão a virar-se agora para o local, nomeadamente para os jornais de bairro (Dornelles, 2012), conhecidos por desenvolverem jornalismo comunitário. Este é, aliás, um conceito que recentemente tem mobilizado o debate, sobretudo nos EUA. Exemplo disso é o lançamento da revista de investigação Community Journalism (volume 1, edição 1, 2012) 42 . Igualmente recente, é o emergir do conceito hiperlocal no campo dos média e do jornalismo (Baines, 2010; Metzgar, Kurpius, Rowley, 2011; Zachry, 2011; Bravo, 2012), que assim se vem juntar a outros, como o jornalismo de serviço (López García, 2004) ou os já aqui abordados jornalismo cívico e jornalismo de proximidade. O que é local interessa, pois, aos investigadores, porque primeiramente interessa às pessoas, ao público (informação de proximidade). Embora não seja uma realidade propriamente nova, a verdade é que o desenvolvimento tecnológico, o aparecimento de novas plataformas e a desmultiplicação das diferentes redes têm contribuído para problematizar o jornalismo, nos seus mais diversos campos de estudo. O ciberjornalismo de proximidade é um deles. Tem lugar não só nas redações e no dia a dia dos jornalistas, mas 42 Disponível em http://journal.community-journalism.net. Consultado a 1 de dezembro de 2012.
65 também na investigação, como é disso exemplo esta tese. Quando a Internet começou a chegar às redações portuguesas e brasileiras, em 1995, nos EUA já existiam alguns exemplos de informação noticiosa local, como o Boston.com ou o KansasCity.com (Barbosa, 2002). Em Portugal, o caso mais conhecido é o Setúbal na Rede (1998) e no Brasil o UAI (1999). Também o espanhol La infopista ocupa um dos lugares de destaque na história do ciberjornalismo. Criado a 14 de junho de 1995 – os primeiros passos começaram um ano antes, em junho de 1994 – terá sido um dos primeiros diretórios mundiais de informação local 43 . Na época, o jornalista Vicente Partal e a diretora da El Temps, Assumpció Maresma, procuravam uma forma de iniciar a transição da revista para o novo meio, o que veio a concretizar-se na El Temps online (Parra, 2008). Em 1996 (maio), La infopista passava a designar-se VilaWeb, que ainda se mantém. Recordando Vicente Partal (1998, apud Barbosa, 2002: 82): “Tivemos que padecer, de maneira repetida, o clichê segundo o qual um meio na internet que não aspirasse à globalidade – que não procurasse clientes por todo lado – não era um meio adequado às possibilidades da rede. O tempo começa a passar e hoje a informação local (à qual me referirei ampliando o seu espaço como informação de proximidade) já não é desprezada na rede (...) O futuro dos nossos meios de comunicação está ali mesmo, entre a nossa gente, que é quem lhe interessam os temas que nós podemos abordar, desde a proximidade à notícia, melhor que ninguém”. O trabalho da autora brasileira apresenta-se como um avanço ao de Carlos Camponez (2002), pois é uma das primeiras abordagens à produção noticiosa de proximidade na era digital. Tratase não só de uma importante revisão teórica do ciberjornalismo, mas também de um estudo de casos de portais regionais. “Em seu início na Web, a estratégia dos portais baseou-se na ideia de ser a porta principal de acesso a orientar a navegação do usuário pela WWW. Tal intenção, em certa medida, carregava em si mesma a conotação mística e secular dos portais – como portas de passagem para outros mundos a ampliar a visão e a experiência humanas” (Barbosa, 2002: 31). Uma das primeiras referências ao conceito de portal, na literatura sobre cibercultura, surge com Javier Echeverría (1994), que se refere ao aparecimento de uma nova cidade digital. “Por la calle de internet solo circulaba texto hasta hace unos años, pero recientemente se han añadido las imágenes. Todo telepolita puede tener “portal” en la calle internet, numerado conforme a sua clave de usuario” (apud Barbosa, 2002: 32). Em termos de conteúdos, os portais eram uma mescla de informação e entretenimento, agregando o que se referia a determinado território. Exemplos disso são os casos portugueses identificados na época pela autora: o LeiriaNet.pt (atualmente desatualizado) e o CoimbraCidade.com (domínio tomado). O DouroNet.com (atualmente em DouroNet.pt) é o único que se encontra ativo. Os próprios ciberjornais regionais, que em alguns casos surgiram quase que em simultâneo com os portais regionais, apresentavam, nos primeiros tempos, características semelhantes. Era frequente, após a introdução do respetivo endereço no browser, chegar a 43 A partir do original “'La Infopista' va ser un dels primers directoris locals del món, i el primer en català”. Disponível em www.vilaweb.cat/www/quees.html. Consultado a 12 de setembro de 2011. Corroborado por David Parra (2008).
66 uma página que apresentava o logótipo ou a palavra “entrar” que servia de porta de entrada. Uma realidade que ainda assim não é tão distante ou ultrapassada quanto isso, sobretudo se percorrermos alguns ciberjornais regionais portugueses. Relativamente aos conteúdos apresentados, José Silva Jr. (2000: 80) considera que os portais apresentam algumas diferenças em relação aos ciberjornais (similares às edições impressas): a agregação de serviços paralelos ao caráter informativo, de natureza não necessariamente jornalística; a interrelação estabelecida com sites de conteúdo diverso, no sentido de fornecimento de informações jornalísticas, inclusive por agências; a convergência, em alguns casos, do serviço de provedor de acesso com o de disponibilização de conteúdo. Aliás, a ausência de conteúdos jornalísticos é uma das particularidades destes meios. E mesmo aqueles onde é suposto encontrar-se produção noticiosa, nem sempre a apresentam. É precisamente o que encontram Raquel da Silva e Gerson Martins (2008), em quatro portais regionais brasileiros. “[Não existe] a preocupação de contar os fatos na visão das diversas personagens envolvidas. O cidadãointernauta nem é uma voz consultada para construção da narrativa jornalística, como no jornal impresso em que o repórter vai à rua e entrevista as pessoas envolvidas no fato, e nem participa da construção narrativa por meio das possibilidades trazidas pela linguagem digital” (idem: 14). A interatividade está, pois, praticamente ausente. O interesse pelo local por parte de académicos parece ter-se revigorado nos últimos anos, sobretudo com o aparecimento de estudos de média e jornalismo centrados no hiperlocal. Embora seja um conceito cada vez mais frequente na discussão sobre o futuro dos média, a realidade é que o mesmo ainda não é consensual (Metzgar, Kurpius e Rowley, 2011). Embora não se conheça a sua origem, em 1991 o jornal norte-americano Washington Post publicava um artigo sobre televisões locais, onde ele surgia (Berkey-Gerard, 2011). Expressões como “jornalismo de nicho”, “conteúdos de nicho” ou “informações hiperlocais” têm sido igualmente frequentes e invariavelmente associadas ao conceito. Para Donna Shaw (2007), “hyperlocal news site (also known as local-local or microsite) is devoted to the stories and minutiae of particulary neighborhood, ZIP code or intereste group within certain geographic area”. Elementos comuns encontramos na proposta de Emily T. Metzgar et al. (2011) para média hiperlocais. Para os autores eles têm origem na Web e focam-se nos elementos geográficos, na orientação para a comunidade, na apresentação de reportagens noticiosas originais, no preenchimento de lacunas que sejam identificadas e no envolvimento cívico. Para Fabiana Bravo (2012), o jornalismo resultante “vem dar à comunidade a oportunidade de expressar e criar laços de identidade, em contraponto à cultura mundializada e à padronização das produções jornalísticas”. A proposta é partilhada por outro autores, como Cândida Lemos e Reinaldo Pereira (2011), que sublinham a importância do “jornalismo colaborativo”, isto é, quando a própria comunidade participa do processo de construção noticiosa, recorrendo para isso a “recursos digitais que conciliam textos de produção audiovisual (vídeos, podcast, paisagem sonora), fotografias, inforgráficos, mapas em um gerenciados de conteúdo de fácil acesso e manuseio, como o blogue” (idem: 8). Falamos já de uma fase de produção noticiosa, porém, a mobilização pode começar muito antes, isto é, na definição da agenda, como defende
67 o jornalismo cívico. Num estudo sobre o papel das redes sociais online na promoção e envolvimento dos cidadãos em ações cívicas na cidade de Aveiro (Portugal), José Carlos Mota e Gonçalo Santinha (2012) verificam que aquelas permitem uma rápida disseminação da informação veiculada por esses movimentos, um efetivo envolvimento e mobilização dos cidadãos, bem como a criação de um clima favorável à revogação da deliberação inicial da Assembleia Municipal, relacionada com uma intervenção arquitetónica prevista para a cidade. O envolvimento cívico do online para o offline foi tal, que os próprios média noticiosos abordaram o assunto (Diário de Aveiro, diário local e RTP, televisão pública nacional). O mesmo ocorre em outros estudos, em que se verifica que a utilização de plataformas digitais hiperlocais potencia a mobilização cívica (Chen, Dong, Ball-Rokeach, Parks e Huang, 2012; González Esteban, 2009). Mas se há casos em que a iniciativa parte dos cidadãos, recorrendo para isso aos blogues e às redes sociais online, a realidade é que isso nem sempre acontece. Seja porque nem todos os cidadãos têm as competências necessárias para gerirem ações similares (independentemente de recorrerem ou não às plataformas digitais), seja porque a própria participação cívica possa não ser suficientemente motivadora para eles. Os ciberjornais regionais podem assumir aí um papel preponderante. O jornalismo hiperlocal, à semelhença de outros conceitos já aqui abordados, apresenta-se como geograficamente orientado e comunitariamente comprometido. Pelo menos é essa a sua pretensão. David Baines (2010), por exemplo, num estudo exploratório no qual questionou o potencial deste tipo média, conclui que não há um envolvimento comunitário efetivo. As primeiras abordagens sobre os média e o jornalismo hiperlocal, mais teóricas do que empíricas, determinavam essa expectativa por parte do investigador britânico. E mesmo quando ele ocorre, levanta-se a questão da capacidade das redações processarem os conteúdos produzidos pelos cidadãos. Se para além da fiabilidade da informação partilhada considerarmos a sua quantidade, questionamos até que ponto uma redação hiperlocal, com poucos jornalistas, conseguirá geri-las. No estudo à redação online de um jornal local francês (La Dépêche du Midi), Nikos Smyrnaios e Franck Bousquet (2011) não encontram produção e conteúdos originais, envolvimento com a comunidade local ou UGC. Uma consequência da política existente, focada na produtividade, tal como as condições de trabalho encontradas. “The symbolic capital and the salaries of the people who produce the website are quiet lower than those of their newspaper counterparts. Their working conditions are also worse, something that reduces theis willingness to innovate and engage themselves in the project” (idem: 9). A forma como a tecnologia é usada nas pequenas redações não diferente das maiores. Os jornalistas reconhecem-lhe as potencialidades, porém, não as aproveitam. Num estudo que procurou compreender como é que o jornalistas de dois diários locais (Crónica e La Hora) da cidade de Loja (Ecuador) integravam a Internet e as redes sociais nas suas rotinas de produção, Diana Riviera e Jenny Yaguache (2010: 17) referem que eles “no utilizan de forma eficaz los recursos técnicos que Internet ofrece, solo hacen uso de algunas de las herramientas Web 2.0, contratio a lo que sucede en algunos diarios nacionales e internacionales que han explotado de manera eficaz estas herramientas”. Para as autoras, ambos os casos ainda se
68 encontram na fase inicial do ciberjornalismo, o que pode ser ainda motivado pelo reduzido número de recursos envolvidos. Uma das alternativas à produção noticiosa local é-nos trazida por Carlos Castilho (2012), que defende a criação de sites noticiosos produzidos por jornalistas independentes, que funcionem como intermediários entre os cidadãos e os média. Uma sugestão que é partilhada por Rosental C. Alves, a propósito do que está a ocorrer nos EUA. “A diminuição [de jornais] está deixando um vazio muito grande. A nossa esperança tem sido a que websites ou operações jornalísticas digitais surjam para preencher esse vazio. E em muitas cidades isso está acontecendo. Milhares de jornalistas foram despedidos e alguns deles tiveram éxito em organizar sites locais, sobretudo de cobertura de nicho” (cit. Jerónimo, 2011b). O mesmo autor acrescenta que naquele território está a surgir uma nova geração de jornalismo sem fins lucrativos, que “está substituindo aquilo que o jornalismo comercial fazia e que já não consegue fazer mais porque não tem dinheiro para continuar fazendo.” Uma realidade que está em franco crescimento, em virtude do aparecimento de novas plataformas e da adesão do público a elas. Estas implicações levam a que os próprios média revejam as suas estratégias. Em 2010, por exemplo, John Paton, CEO da Journal Register Company 44 , assumia uma política radical de “digital first”. “Ele teve tanto éxito – aumentando 200% o facturamento – que outra cadeia de jornais, maior do que a sua, se juntou e formaram a Digital First, que está a tentar levar a cultura digital para todos esses jornais, que são mais de 100 jornais nos EUA. (…) É uma tentativa de choque na imprensa local”, acrescenta Rosental C. Alves (ibidem). Seja no bairro, na rua, na aldeia ou na cidade, falamos de diferentes níveis de proximidade. “For instance, the news that my daughter got a scraped knee on the playground today means more to me than a car bombing in Kandahar” (Anderson, 2007). Este poderá ser um exemplo extremo do que é informação hiperlocal e simultanamente do interesse que o que está mais próximo motiva. Quando foi lançado, a 13 de fevereiro de 2012, o MaisMinho.pt apresentava-se como o primeiro jornal hiperlocal em Portugal 45 . Na ocasião, Rui Mendes (2012) defendia em Editorial que “a comunidade bracarense tem direito a possuir um espaço que é de todos e para todos. Nas ruas, nos bairros, nas freguesias, nas associações, nos clubes ou até no local de trabalho, as notícias em todo o lado, e você, ou TU (como preferível) são a notícia”. Uma experiência que duraria pouco tempo, a julgar pelas últimas atualizações (junho de 2012). Já no caso açoriano estudado por Fabiana Bravo (2012), o projeto mantémse. “A (re)valorização do âmbito local e da proximidade funciona como a alavanca do jornalismo hiperlocal, que emerge como tendência do ciberespaço e no seguimento da globalização: o mundo como um puzzle de (hiper)localidades” (idem: 65). Como vimos, os estudos da produção noticiosa a partir dos pequenos territórios tem-se centrado sobretudo em torno dos média hiperlocais online, isto é, a partir de uma proximidade mais próxima do que aquela sobre a qual se relacionam os cibermédia regionais ou até mesmo 44 “A Jornal Register Company é líder em informação e notícias locais em 10 estados norte-americanos, usando para isso 350 multiplataformas para chegar a uma audiência de 21 milhões de pessoas por mês”, pode ler-se em www.journalregister.com, consultado a 1 de dezembro de 2012. 45 Pouco tempo depois mudou a sua apresentação para “o jornal da comunidade bracarense”, que mantém.
69 locais. São precisamente para esses que se abrem oportunidades, defende Xosé López García (2008a: 79): “No cabe duda que los cibermedios que dispongan de capacidad de producción para elaborar contenidos de proximidad serán los que se conviertan en referentes informativos en esos ámbitos más cercanos, que conocem mejor y de los que pudem explicar la complejidad que preside los comportamientos de los ciudadanos que ahí viven y que reciben flujos informativos de muy diversos ámbitos. Desde el punto de vista informativo, se trata sobretudo de conocer, de escuchar de cotrastar y verificar, de crear y de difundir para interatuar. Y todo este deberán hacerlo com nuevas herramientas y con nuevas fórmulas que garanticen le eficiencia comunicativa”. É precisamente nesse linha que apontam alguns dos resultados do relatório anual The State of the News Media 2012 46 . No capítulo “How Community News is Faring”, Michael Remez sublinha que em 2011 os websites de notícias comunitárias atingiam a maturidade e que as iniciativas hiperlocais cresciam, estando agora numa fase de partilha de experiências. O aparecimento de mais sites de âmbito local e de nicho, em áreas como a saúde, a educação e a governação do Estado, são apontados como uma realidade para um futuro próximo. As escolas de jornalismo, as redes e as parcerias são ainda sugeridos como caminhos a seguir, para garantir a informação noticiosa de âmbito local. Quanto aos modelos de negócio, Michele McLelan, jornalista e consultor, refere: “I am convinced that the revenue is there in most communities” 47 . E essa pode passar pelo jornalismo empreendedor, desenvolvido por jornalistas que entretanto foram sendo despedidos e que estão a desenvolver os seus próprios projetos, como sugere no mesmo relatório Jon Funabiki, diretor executivo do Renaissance Journalism Center at San Francisco State University, apontando assim na mesma direção de Rosental C. Alves. Embora reconheça que ainda não há uma forma de entender esta nova proximidade, Xosé Lopez García (2008a: 47) defende que “en el atual escenario digital, el periodismo local está muy bien colocado para hacer realidad un periodismo más dialogante y menos arrogante”. Para além dos casos locais já aqui referidos, paira o quase desconhecido sobre o ciberjornalismo desenvolvido nas redações regionais em Portugal. A exceção são alguns trabalhos realizados nos últimos anos, que se têm debruçado essencialmente sobre o aproveitamento das potencialidades da Internet por parte de algumas dezenas de ciberjornais (Costa, 2005; Vieira, 2009; Couto, 2010; Jerónimo, 2011c; Posse, 2011), como veremos adiante (capítulo 5). Ainda assim, podemos adiantar que apresentam conclusões comuns a outros estudos desenvolvidos noutros territórios, como Brasil (webjornalismo regional) ou Espanha (ciberperiodismo en la/de proximidad): as características do ciberjornalismo são subaproveitadas e este está ainda em fase de evolução (Flor, 2005; Correia e Rocha, 2012; Pinto, 2005; López García, G., 2008a, 2008b, 2008c; Masip, 2008). À semelhança do que tem vindo a acontecer noutros estudos, importará entrar nessas redações, para que se conheçam 46 Disponível em http://stateofthemedia.org. Consultado a 1 de dezembro de 2012. 47 Disponível em http://stateofthemedia.org/2012/mobile-devices-and-news-consumption-some-good-signs-forjournalism/how-community-news-is-faring/. Consultado a 1 de dezembro de 2012.
70 contextos, produção, produtores e assim se procure compreender qual é o lugar do ciberjornalismo nos média de proximidade. No fundo, conhecer a cultura aí existente, que Pierre Bordieu (apud Padilha, 2012: 34) entende como “a natureza aceita, habitual e repetitiva de uma cultura diária sobre a qual os indivíduos têm um domínio prático”. 2.6. Modelos de negócios e outros desafios atuais Qual é o modelo de negócio para o ciberjornalismo? A questão mantém-se desde 1995, tal como a procura por respostas. Das maiores às menores empresas jornalísticas. Aqui e ali vão surgindo experiências, que vão das paywalls (os conteúdos não são de acesso livre, sendo que o utilizador têm que pagar por eles) ao crowdfunding (financiamento colaborativo). E se a questão já foi sendo colocada ao longo da primeira década, que dizer no decurso da segunda, com o aparecimento das redes sociais e dos dispositivos móveis. Embora a problematização do ciberjornalismo incida, invariavelmente, nos modelos de negócio, a realidade é que, passado todo este tempo, o seu papel continua a ser questionado. Seja ao nível dos princípios essenciais do jornalismo, seja dos papéis dos produtores (profissionais e amadores). Para além dos média e dos jornalistas, também os lares domésticos e os seus residentes foram adotando a Internet. Todos produzem e reproduzem conteúdos informativos a um ritmo cada vez mais acelerado. A construção noticiosa não é exceção. Uma profissão que sempre se pautou por parâmetros qualitativos, vive atualmente dos quantitativos (Gomes, 2012). Mais notícias levam a mais clics, que por sua vez fazem aumentar os acessos aos cibermeios e, consequentemente, podem resultar em receitas publicitárias. É o que esperam as empresas jornalísticas, que têm nos banners parte dessa estratégia. A perpectiva comercial, isto é, a procura por modelos de negócio que sejam sustentem o ciberjornalismo, leva a que a própria contrução noticiosa seja determina por esse contexto. Os títulos das notícias começam a ser construídos numa perspetiva de eficácia em relação aos motores de busca. A agregação feita por empresas como a Google e a hierarquização que a mesma faz das notícias, começa a ser igualmente determinante para o processo de construção. “Online news stories are typically not written for concentrated reading and the readers can easily chance between different online news websites. Search engine optimization affects headlines because journalists are trying to create best selling and most attractive headlines” (Uotila, 2011: 4). Termos como SEO (Search Engine Optimization) entram no léxico dos ciberjornalistas e dos editores. Uma das implicações é nos acessos aos cibermeios. É desse maior ou menor fluxo que dependem, para os responsáveis das empresas de média, as receitas publicitárias. Porém, há quem considere “pirataria” esse processo de indexação noticiosa (Lopes, 2013). A discussão é recente, tendo inclusivamente chegado a Portugal. De um lado, estão os empresários dos grupos de média, do outro, os motores de busca, com o Google a ser o principal visado. Os primeiros, defendem que devem receber uma percentagem das receitas dos segundos, já estes, defendem que são importantes vias de acesso aos cibermédia. Na conferência “Motores de Busca – O Seu a Seu Dono”, a CPMCS juntou-se às vozes daqueles que defendem que os motores de busca devem
71 pagar a uma entidade gestora de direitos de autor, uma percentagem da publicidade que geram. Do lado da Google – o motor de busca mais utilizado mundialmente –, o principal argumento é que grande parte do tráfego dos cibermédia tem como origem as pesquisas feitas nele. Trata-se de uma discussão que ainda decorre e que envolve sobretudo a imprensa e os governos de países como a Alemanha, a França ou a Itália, que defendem uma “taxa Google” ou, numa posição mais extrema, o abandono do Google News, tal como fizeram os ciberjornais do Brasil, ainda que com repercussões mínimas (O Globo, 2012). “In the move to online news production, newspaper companies have struggled to find successful models for survival and growth despite a series of experiments with different approaches to online technology” (Greer e Mensing, 2006). A procura por um modelo de negócio standard tem sido precisamente uma das grandes questões em torno do ciberjornalismo, um pouco por todo o mundo. Embora não seja nossa intenção abordar exaustivamente os percursos e debates em torno desta questão 48 , não podemos de deixar de partilhar algumas das principais ideias geradas. A realidade é que as empresas jornalísticas ainda não encontraram um modelo que seja viável e sustentado, sendo que as paywalls têm sido um dos mais controversos. Se o principal argumento do “sim” é que todo o trabalho de produção noticiosa tem custos e o utilizador deve assumir parte deles, o do “não” é que todos os utilizadores sempre se habituaram a ter conteúdos gratuítos na Internet e que, portanto, cobrar por eles não faz sentido. Um dos argumentos intermédios é o que se refere à qualidade dos conteúdos. Solicitar previamente ao utilizador que pague para poder aceder a eles, poderá criar nele a expectativa de exclusividade. É o que defende Philip Meyer (2009), que aponta a um modelo que traduza que a influência social de uma publicação resulta da confiança adquirida pelo público, por força da fidedignidade dos conteúdos e da qualidade das notícias difundidas. Há ainda quem sugira o modelo freemium, isto é, o acesso livre a alguns conteúdos e condicionado a outros. Se, por um lado, não faz sentido cobrar por conteúdos que estão disponíveis livremente noutro lugar, por outro, optar pelo regime de conteúdos exclusivos, implicará um investimento em recursos, como ciberjornalistas, capazes de aproveitar ao máximo as potencialidades da Internet nas sua produção noticiosa. Trata-se de uma realidade pouco frequente em Portugal, defende Helder Bastos (2011). A ausência prolongada de modelos rentáveis de negócio, o investimento reduzido na constituição de equipas online e no desenvolvimento de sites e o conservadorismo das empresas, mas também dos jornalistas, têm sido, na opinião do autor, determinantes para que os resultados do ciberjornalismo não sejam animadores. O tema contínua e continuará em discussão, como sucedeu no II Congresso Internacional de Ciberjornalismo 49 . Curiosa e paradoxalmente, apenas seis das 32 comunicações apresentadas se debruçaram sobre o assunto. Uma delas (Saad Corrêa e Lima, 2010) resume em dois pontos as decisões empresariais tomadas ao longo dos primeiros 15 48 No decurso do acompanhamento que fez aos ciberjornalismo em Portugal, Helder Bastos (2011, 2010) também foi registando as experiências que se iam fazendo noutros contextos, como EUA, Inglaterra ou Espanha. 49 II Congresso Internacional de Ciberjornalismo – Modelos de Negócio e Rede Sociais, 9 e 10 de dezembro de 2010, Universidade do Porto (Portugal). Disponível em http://cobciber2.wordpress.com/.
72 anos de ciberjornalismo: a equiparação da lucratividade do negócio online como desempenho dos média tradicionais e a transposição para o online de práticas offline de obtenção de lucro (publicidade e assinaturas). Para além dos modelos já aqui mencionados, os autores recuperam ainda outras propostas, como a publicidade em múltiplo formato, o patrocínio 50 , o financiamento ou mecenato, o angel capital, os fundos de investimento ou a cooperativa de jornalistas 51 . Já no estudo “Chasing sustainability on the net: International reserach on 69 journalistic pure players and theis business models” (Sirkkunen e Cook, 2012), desenvolvido na Europa, Japão e EUA, são identificados a publicidade, a venda de conteúdo, o marketing afiliado, as doações, a venda de dados ou serviços, a organização de eventos ou o trabalho freelancer. Porém, para os autores, os mesmos não oferecem grandes garantias. “Para quem acompanha esse processo ao longo do tempo foi possível constatar uma dinâmica circular por parte das empresas informativas: experimentação de muitas propostas e não definição por qualquer uma delas, retomada de proposta é experimentada, e assim por diante” (Corrêa e Lima, 2010: 2). Todas têm procurado retorno do que produzem para os cibermeios, de forma a justificarem a sua existência, porém, como defendem os autores, ninguém assume que essa atividade deveria ser autossustentável. Embora se reconheça maturidade à indústria jornalística, para Elisabeth Saad Corrêa e Marcelo Coutinho Lima a sua reação à inovação e à adoção de modelos de negócio menos rígidos e mais flexíveis tem sido lenta e cautelosa. O estudo Survival is Success: Journalistic Online Start-Ups in Western Europe (Bruno e Nielsen, 2012) acaba por tocar precisamente nesse ponto. Num contexto dominado por múltiplas experiências, os investigadores do Reuters Institute of the Study of Journalism sublinham que o simples fato dos projetos sobreviverem já é, só por si, um éxito. Em entrevista à revista The Economist (apud Ingram, 2013), Alan Rusbrindger, editor do The Guardian, é um dos que recusam a cobrança por conteúdos, argumentando que a solução não passa por um modelo de negócio único. “Newspapers have always used a blend of different funding mechanisms to extract revenues for their ‘product’. That’s why I am unconvinced by those who say that the only model that works is to build paywalls. This is not an area where one size fits all” (idem). Isso sucede sobretudo num período em que há novos players a atuar em cadeia (Sims, 2009). Exemplo disso é caso dos agregadores de conteúdos informativos (Google ou The Huffington Post), as micro-plataformas que os publicam (Blogger, Facebook ou YouTube) e as plataformas móveis (smartphones e tablets), onde são distribuidos, mas também produzidos. No artigo “Seven publishing trends that will define 2013”, o jornalista Hamish McKenzie (2013), especialista em média, política e startups internacionais, identifica alguns desafios que se apresentam à indústria. Um deles é o aparecimento do “micropublishing” (ou selfpublishing), que consiste em pequenas publicações, em textos leves, muitas vezes sem imagens, que não exigem grande memória dos computadores ou tempo de download e que 50 Podemos incluir aqui o já mencionado crowdfunding, que é uma modalidade de patrocínio por mais do que uma pessoa. Parece-nos, no entanto, que a proposta dos autores é mais vasta. 51 Esta tem sido uma realidade emergente em Portugal. Em 2011, a redação do jornal regional Barlavento (Algarve) demitia-se e meses depois fundava um projeto exlusivamente online SulInformacao.pt; em 2012, um outro grupo de jornalistas desempregados fundava o semanário local A Manhã (Gondomar, distritro do Porto).
79 pouco por toda a Europa, as publicações locais e regionais (Sousa, 2002). Todas as pequenas e médias cidades têm, pelo menos, um jornal local. Porém, a observação feita pelo autor há cerca de uma década poderá já estar desatualizada em relação a alguns países. Ainda assim, na ausência de dados mais recentes sobre este contexto 59 , decidimos considerá-lo. Já se olharmos para o caso português, por exemplo, o panorama da imprensa local e regional supera, em termos quantitativos, as sete centenas de títulos (ERC, 2010). É, pois, um dos países europeus com mais publicações deste âmbito. Há inclusivamente municípios onde têm sede vários semanários e diários assumidamente regionais 60 . Porém, quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade, isto é, não quer dizer que a existência de muitos títulos se traduza em elevados índices de leitura ou de cidadãos mais informados. Esse alerta é reforçado por Inga Wachsmann e Mattieu Calame (2010), numa proposta que fazem para a revitalização da Europa a partir dos média regionais. Os autores observam que apesar de existir uma quantidade considerável de jornalistas creditados em Bruxelas para efetuarem a cobertura noticiosa de questões relacionadas com a UE, a verdade é que isso está a ter poucos efeitos práticos. A reduzida participação dos cidadãos nas eleições europeias de 2009, sobretudo os mais jovens (29%, na faixa etária dos 18 a 24 anos), é disso exemplo. São os grandes meios, com mais recursos económicos e humanos, que têm a possibilidade de trabalhar os assuntos europeus, enquanto que os de menores dimensões, como os regionais, se veem afastados deles. Porém, são precisamente os média regionais que estão mais próximos do dia a dia dos cidadãos e, por conseguinte, é neles que a UE deveria de centrar a sua atenção (idem). Apesar de nos interessar de modo particular a imprensa regional no contexto português, não descuraremos o enquadramento europeu deste setor, a partir de alguns casos. A Espanha – com cerca de 500 mil Km 2 e 46 milhões de habitantes – é um dos países que apresenta diversas particularidades no âmbito dos média regionais. Uma delas é a sua efetiva divisão em regiões ou, neste caso, comunidades autónomas. Catalunha, Galiza e País Basco, com línguas e culturas próprias são, provavelmente as mais conhecidas das 17 que constituem o território espanhol. Jorge P. Sousa (2002), num estudo comparativo entre os contextos português e galego, regista que a forte identidade que caracteriza aquelas regiões leva a que a imprensa regional esteja fortemente implantada. La Vanguardia (Catalunha), El Correo (País Basco) ou La Voz de Galicia (Galiza) são alguns exemplos de jornais regionais que fazem concorrência, nesse âmbito, a outros mais de âmbito nacional, como o El País, diário com grande circulação em Espanha e que publica conteúdos na língua daquelas comunidades autónomas (catalão, euskera e galego). Há ainda uma diferenciação entre imprensa regional e imprensa local, contrariamente ao que sucede em Portugal, por exemplo. Em Espanha, os jornais locais circulam unicamente ao nível dos municípios, fugindo assim a âmbitos mais alargados, como os regional (comunidades autónomas) ou nacional. O interesse e aposta nos média locais e regionais, bem como no jornalismo de proximidade, estendem-se à 59 Para além das pesquisas efetuadas, contactamos, sem sucesso, a European Newspaper Publisher's Association e a Associação Portuguesa de Imprensa. 60 A título de exemplo, no município de Leiria têm sede o diário Diário de Leiria e os semanários Região de Leiria, Jornal de Leiria. A 16 de maio de 2013 dá-se a fusão dos dois semanários que circulavam até então, O Mensageiro e A Voz do Domingo, dando origem ao Presente Leiria-Fátima, quem mantém o cariz religioso dos antecessores.
80 investigação e à formação académicas e que se traduzem na presença de dois observatórios de comunicação local (europeu e nacional) 61 neste país. Outro indicador prende-se com o fato de praticamente todas as comunidades autónomas terem a sua própria associação de imprensa. França – com cerca de 543 mil Km 2 e 65,4 milhões de habitantes – é o caso mais paradigmático no contexto mediático europeu. Dividido em 26 regiões, que se subdividem em departamentos, cantões e comunas (municípios), o país tem as imprensas regional e local como referência. A principal dessas publicações é o diário regional Ouest-France, que conta com 63 redações e apresenta uma tiragem média de 750 mil exemplares. Integra um grupo económico, com o mesmo nome, que controla 44 jornais locais (Ribeiro, 2010). A existência de grupos de comunicação é muito frequente, sobretudo ao nível da imprensa regional. Já quanto à nacional, é minoritária e está sobretudo circunscrita à capital, Paris. A circulação é sobretudo dominada por 65 diários regionais (70%) que circulam no país (Sousa, 2002). Após a reunificação, a Alemanha – com cerca de 357 mil Km 2 e 81,7 milhões de habitantes – passou a dividir-se em 16 unidades federais. À semelhança do que sucede em França, as imprensas regional e local alemã têm uma forte implantação e são maioritariamente controlada por grupos de comunicação, que detêm vários titulos. Esta realidade leva a que muitos dos conteúdos sejam partilhados pelos jornais regionais e locais detidos pela mesma entidade proprietária. A circulação é igualmente dominada por estas publicações – cerca de 300 jornais regionais e locais generalistas, dos quais 135 diários – com 17,1 dos 31,1 milhões de cópias diárias (55%) que circulam no país (idem). A Áustria – com cerca de 83,8 mil Km 2 e 8,3 milhões de habitantes – é constituida por nove estados federais, onde circulam jornais regionais. À exceção de Viena, cada um desses territórios é monopolizado por uma publicação, enquanto que no âmbito mais local – equivalente a um município em Portugal – existem várias. Sousa (2002) refere ainda que à semelhança do que ocorria noutros países europeus, publicações nacionais, como o Neue Kronenzeitung, tentaram, sem sucesso, terminar com o monopólio dos regionais. A Bélgica – com cerca de 30 mil Km 2 e 10,4 milhões de habitantes –, embora tenha um território mais pequeno que o de Portugal, apresenta sensivelmente a mesma população. Poder-se-á dizer que a grande imprensa neste país do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) é precisamente a regional. Tal fato fica a dever-se a uma divisão em duas regiões, feita a partir das línguas que são fluentes em cada uma delas. A norte fica a Flandres, onde se fala holandês, e a sul fica região francófona, onde se fala francês. Há ainda um pequeno território, a leste, onde se fala alemão. Bruxelas é simultaneamente a capital do país e da UE e onde circula sobretudo aquela que se pode designar de imprensa nacional. O restante território belga é dominado pela imprensa regional e, pontualmente, por alguns títulos de âmbito local (idem). Na Holanda – com cerca de 41 mil Km 2 e 16,5 milhões de habitantes – o dinamismo e 61 O Observatório Europeu de Comunicação Local integra o grupo de investigação Novos Medios da Universidade de Santiago de Compostela e o Observatório de Comunicação Local integra o Instituto de Comunicação da Universidade Autónoma de Barcelona.
81 profissionalismo são os cartões de visita da imprensa regional. Há cerca de uma década, Sousa (2002) registava 50 diários regionais, 12 dos quais com tiragens acima dos 100 mil exemplares. Num país em que se fala maioritariamente holandês, mas também o frísio, a imprensa nacional está em minoria, sendo representada por oito diários (idem). Já o Luxemburgo – com cerca de 2,5 mil Km 2 e 500 mil habitantes –, é o país mais pequeno da UE e tem três línguas oficiais: o luxemburguês (língua administrativa), o alemão (dos média) e o francês (usada no dia a dia). Há ainda pequenas comunidades de emigrantes, sobretudo de Portugal e Itália, que falam a sua língua vernácula. Em virtude destas características, o panorama da imprensa neste país traduz-se em cinco diários nacionais, outros tantos semanários e um “largo número” de outras publicações afetas a cada uma das “comunidades e grupos de interesse” (idem: 40). Também em Itália – com cerca de 301 mil Km 2 e 60,3 milhões de habitantes – a divisão administrativa, em 20 regiões, é determinante para o panorama mediático de âmbito regional e local. Outro elemento preponderante é língua. Embora o italiano seja a oficial, há ainda algumas minorias que falam francês, esloveno e alemão. Essas pequenas comunidades, que representam cerca de meio milhão de pessoas, contam com meios de comunicação próprios (televisão, rádio e jornais), o que leva a que o cenário da imprensa regional se fragmente. A quantidade de diários regionais (85) é, também neste país, claramente superior aos nacionais (n=9). À semelhança de outros países, a imprensa nacional não tem grande expressão para além da capital, Roma, ou de outras grandes cidades (Sousa, 2002). A Grécia – com cerca de 131 mil Km 2 e 11 milhões de habitantes – está dividida em 13 períferias (nove no continente e quatro grupos de ilhas), que se subdividem em 51 departamentos. A imprensa está sobretudo concentrada na capital, Atenas, onde estão sedeados 16 diários nacionais. Relativamente à regional e local, em minoria, é “liderada pelos três diários de Salónica, a segunda cidade do país, que nessa região dominam o mercado” (idem: 38). A Irlanda – com cerca de 70 mil Km 2 e 4,5 milhões de habitantes – também apresenta uma configuração muito semelhante à Grécia, no que toca ao panorâma da imprensa regional. Num país em que se fala inglês e irlandês, registam-se três diários na capital Dublin e algumas dezenas de jornais regionais distribuídos por outras cidades (Ribeiro, 2010). O Reino Unido – com cerca de 244 mil Km 2 e 60,9 milhões de habitantes – tem a particularidade de ser constituido por quatro estados (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte), pelo que cada um tem a sua imprensa regional. Neste contexto existem semelhanças a Portugal, nomeadamente ao nível da quantidade de publicações: mais de 700. Apesar das específicidades geográficas, o Reino Unido conta ainda com a imprensa nacional, distribuida nos quatro estados. No norte da Europa, onde os níveis de desenvolvimento são elevados, encontram-se a Escandinávia. A Dinamarca – com cerca de 43 mil Km 2 e 5,4 milhões de habitantes – encontrase atualmente dividida em cinco regiões. Também neste país a imprensa nacional é sobretudo publicada na capital, Copenhaga, onde circulam 10 diários. O restante panorama mediático é
82 constituido por 29 diários regionais, aos quais juntam cerca de 150 publicações gratuitas, sobretudo semanários, publicados aos níveis local e regional (Sousa, 2002). A Finlândia – com cerca de 330 mil Km 2 e 5,3 milhões de habitantes – tem duas línguas oficiais, o finlandês e o sueco (falado por uma minoria), e divide-se em seis províncias. A imprensa regional e local é particularmente forte. Neste contexto surgem 56 jornais regionais, que são publicados diariamente ou até quatro vezes por semana, e 158 de âmbito local, com periodicidade de trisemanal e semanal (idem). O panorama mediático da Noruega – com cerca de 385 mil Km 2 e 4,7 milhões de habitantes – é fortemente marcado pelos âmbitos local e regional, onde estão sedeadas cerca de 100 televisões, 400 rádios e 170 jornais. No caso da imprensa, a regional supera claramente a nacional. Das 10 publicações com mais circulação no país, sete são regionais. Existem duas línguas, o norueguês, falado pela generalidade da população, e o “novo norueguês”, baseado em dialetos rurais da região oeste. Este fato, associado a um território gélido e montanhoso, leva a que existam pequenas comunidades, onde predomina pequenas publicações, num “sistema de jornal da terra” (idem: 42). Na Suécia – com cerca de 449 mil Km 2 e 9,4 milhões de habitantes – a imprensa regional e local é um caso sério. A diversidade de línguas – sueco é a língua oficial e depois há mais cinco dialetos próprios de determinadas regiões – e de religiões, a que se junta o desenvolvimento económico, são indicadores que podem ajudar a justificar a existência de milhares de publicações. Jorge P. Sousa (2002: 42) aponta para cerca de “cem mil jornais e revistas”. Apesar de ser um valor que poderá não estar correto, a realidade é que o país apresenta um elevado índice de leitura diária (87%) destes jornais (Ribeiro, 2010). Outro fator que certamente influênciará a realidade sueca é a existência de incentivos estatais que permitem a manutenção e forte concorrência aos níveis regional e até local (Sousa, 2002). 3.2. Portugal: Imprensas regional e local dominam fora dos grandes centros Entre a imprensa portuguesa, a regional e a local são aquelas que apresentam mais específicidades. Estas vão desde a indefinição do conceito – muito centrado em torno da questão geográfica – à natureza das publicações, periodicidade, estruturas e conteúdos. Apresentam-se ainda, dentro do contexto europeu, com características únicas. Em 1997, por exemplo, era o país com maior número de jornais regionais e locais por habitante e o menor número de exemplares por mil habitantes (Leite cit. Carvalho, Faustino e Martins, 2010: 274). Cenário que desde então pouco mudou. Porém, é no conjunto dessas características que residem os pontos fortes e fracos da imprensa regional (Carvalheiro, 1996; Costa, 2005). Desde logo por cumprir um papel que dificilmente consegue qualquer outro título de âmbito nacional: a cobertura noticiosa daquilo que está mais próximo das populações. Para que tal fosse possível seriam necessárias redes de jornalistas e de distribuição que chegassem a todo o território. A agência Lusa será a única exceção na cobertura noticiosa, dado que conta com correspondentes em todos os 18 distritos e duas regiões autónomas. Uma estratégia que visa
83 cumprir as Obrigações do Serviço Público 62 , a que está sujeita. A imprensa regional, a que mais nos interessa, apresenta-se como uma importante aliada nesse processo, na medida em que é também nas redações regionais que a agência conta com colaboradores. É uma forma de garantir uma cobertura noticiosa alargada, a todo o território nacional e a partir da proximidade. O fato da Lusa alimentar os conteúdos noticiosos dos principais (ciber)média nacionais, por um lado, e destes recorrerem também à imprensa regional para a cobertura noticiosa de âmbito local, por outro, são indicadores da importância deste segmento da imprensa. Algo que se traduz até do ponto de vista associativo. Para um país de média dimensão, Portugal chegou a contar com três associações em representação do setor: a UPIR e a APIR, que segundo a API “já não têm qualquer atividade, mesmo que formalmente ainda existam” 63 , e a AIC. O reconhecimento deste tipo de publicações no setor dos média levou a ERC (2010) a promover o maior estudo alguma vez feito ao universo das publicações regionais e locais, tendo apurado 728. Para além da caracterização do setor e do seu enquadramento jurídico, são ainda feitas análises económico-financeiras, morfológica e de conteúdos, bem como uma auscultação às associações representativa, API e AIC, para além da aplicação de um inquérito a todo o universo de jornais regionais e locais. Destacamos ainda uma abordagem de cariz etnográfico em todos os distritos de Portugal continental, nos quais a ERC se reuniu com as publicações daqueles territórios. Esse processo deu origem a um Diário de Campo, elemento que enriqueceu o estudo, na medida em que regista as principais preocupações de responsáveis e jornalistas daquelas publicações. Foi precisamente no percurso pelo território nacional e no contacto com produtores e leitores, que os responsáveis pelo estudo revelam ter conhecido melhor a realidade do setor. Até então a ERC tinha um diagnóstico distanciado e “sombrio”, feito sobretudo a partir de questões relacionadas com contencioso (Direito de Resposta, por exemplo) que lhe chegavam. A imagem que ia construindo da imprensa regional e local era, por isso, classificada como “típica”, “anacrónica”, “subsídio-dependente”, sujeita a “influências” e “caciquismos”, destinada à “extinção”. O mesmo reconhece Carlos Camponez, ao afirmar que há “leituras críticas que remetem a imprensa regional para formas desqualificadas de comunicação, navegando nas águas turvas do jornalismo préindustrializado, ausente de noções éticas, pouco profissionalizado, temeroso e cacique” (cit. 62 “Nos termos da cláusula quarta do Contrato de Prestação de Serviço Noticioso e Informativo de Interesse Público celebrado entre o Estado e a Lusa – Agência de Notícias de Portugal, S.A., em 31 de julho de 2007, são obrigações da Lusa inerentes à prestação do serviço noticioso e informativo de interesse público: 1. Para o cabal cumprimento do serviço noticioso e informativo de interesse público a que se encontra adstrita, constituem obrigações da Lusa: a) Produzir um serviço de notícias global, sobre os mais relevantes fatos da atualidade nacional e internacional, nomeadamente nas áreas política, diplomática, social, económica, do desenvolvimento regional e local, cultural e desportiva, suscetível de contribuir para a informação dos cidadãos e o exercício da cidadania e para a promoção da coesão nacional e a projeção dos interesses nacionais no exterior, com um número médio de notícias que respeite os parâmetros seguintes: 1. Texto – entre 300 e 400 notícias/dia; 2. Fotografia – entre 30 e 50 fotos/dia; 3. Áudio – entre 10 e 20 registos/dia; 4. Vídeo – entre 5 e 10 registos/dia; b) Distribuir, a partir do serviço global definido no ponto anterior, serviços noticiosos especificamente adequados aos seguintes destinatários: Os jornais portugueses de âmbito regional e local – com uma dimensão média diária entre 100 e 150 notícias de texto e entre 5 e 10 fotografias; (…) c) Manter delegações, delegados, ou correspondentes em todos os distritos e regiões autónomas de Portugal, em todos os países de língua portuguesa, nos países onde residam comunidades numerosas de cidadãos portugueses e também nos países com os quais se verifiquem mais intensas relações históricas, culturais, diplomáticas ou comerciais com Portugal, nomeadamente: 2. Correspondentes em todos os distritos do país”. Disponível em www.lusa.pt/info.aspx?page=servicopublico. Consultado a 1 de maio de 2012. 63 Informação transmitida por email, a 23 de janeiro de 2012.
84 CECS, 2011: 28). Uma perspetiva que tanto o investigador, que reconhece “uma cada vez maior revalorização da imprensa regional”, como o então presidente da ERC, acabariam por rever: “A imprensa regional, pude comprová-lo se dúvidas tivesse, desempenha um papel notável de reforço de um conceito rico de cidadania. Cultiva a proximidade, é útil para quem a lê, estimula ou, pelo menos, conserva, laços identitários, culturais e históricos da maior importância – e muitos exemplos concretos conheci. Acarinha o particular, numa altura em que só se prega o global. Cultiva a língua portuguesa, num plano cada vez mais raro na Imprensa em geral” (Azeredo Lopes cit. ERC, 2010: 18). Uma posição partilhada pelas associações que representam o setor, que deixam no citado estudo alguns contributos. A profissionalização é um tema recorrente, bem como as dificuldades com que as publicações se deparam ao nível da expedição postal, nomeadamente, com os atrasos frequentes por parte dos CTT – Correios de Portugal. A revisão e adequação da Lei de Imprensa, bem como a melhoria do Portal Imprensa Regional, são algumas das necessidades apontadas por parte da API, que conta com 215 empresas de âmbito regional associadas. Já a AIC, retoma a sua principal preocupação: o porte pago, que até 2008 levou ao encerramento de 57 publicações associadas. Um número que entretanto subiu para 77 (AIC, 2011) 64 . A situação é agravada pela quebra de publicidade, sobretudo a institucional (Figura 5), que segundo aquela associação não é distribuída de forma equitativa pelo Estado. Figura 5: Valores anuais (€) de publicidade institucional 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 193.213,02 315.443,97 619.810,98 215.181,78 484.980,2 69.852,52 22.478 27.000 Fonte: OberCom, apud CECS (2011: 36) Se, por um lado, a história da imprensa regional só poderá ser feita a partir da imprensa de inspiração cristã (Manuel, 2010), por outro, é nesse mesmo setor particular que residem as principais dificuldades. Não só por se considerar “parente pobre da comunicação social” (AIC, 2011: 86), mas também porque continua a lançar sobre a sua própria realidade as mesmas questões de sempre: “para quando as parcerias, a profissionalização e a entrada definitiva no digital?” (idem). Embora não seja intenção deste trabalho problematizar em demasia a imprensa regional portuguesa, abordaremos algumas das questões que consideramos essenciais 65 . 3.2.1. Conceitos e (in)definições Falar em imprensa regional e local num país que está dividido, geograficamente, por distritos e dioceses, poderia ser um obstáculo para a definição e consolidação de conceitos. 64 A 10 de setembro de 2011, a AIC registava um total de 192 membros (Jerónimo, 2011d). 65 Para um estudo mais aprofundado sobre esta realidade, sugerimos os estudos da ERC (2010) e de Manuel (2010).
85 Porém, não é apenas a inexistência de um regionalização em Portugal que propicia confusões. A própria lei tem contribuido para tal. “A legislação portuguesa tem definido e redefinido imprensa regional e local ao longo da sua história, permanecendo, no entanto, um conceito científico difícil” (Palmeiro cit. Ferreira, 2005: 157). Consultando a Lei de Imprensa (Lei n.º 2/99 de 13 de janeiro, retificada pela Declaração de n.º 9/99, de 18 de fevereiro, e alterada pela Lei n.º 18/2003, de 11 de junho) e o Estatuto do Jornalista (Lei n.º 1/99 de 13 de janeiro), não encontramos uma distinção do que são jornais regionais e locais. “De âmbito nacional, regional e destinadas às comunidades portuguesas no estrangeiro”, é assim que a Lei de Imprensa começa por classificar as publicações (artigo 10.º, alínea d), especificando mais adiante que são “de âmbito regional as que, pelo seu conteúdo e distribuição, se destinem predominantemente às comunidades regionais e locais” (artigo 14.º, ponto 2). Já no Estatuto do Jornalista, pode ler-se “órgãos de comunicação social regionais ou locais” (artigo 16.º), quando este se refere à necessidade de identificação dos jornalistas que não exerçam a sua atividade profissional de forma permanente e/ou sejam colaboradores/correspondentes “locais”. Se a Lei de Imprensa parece estabilizar e clarificar o conceito em imprensa regional, cuja leitura nos leva a depreender que um jornal regional tanto pode ser aquele que se destina a um distrito ou um aglomerado de municípios, como um que se destine a um único município, freguesia ou localidade, já o Estatuto do Jornalista retoma a dúvida inicial ao referir-se a órgãos de comunicação social locais. O Estatuto da Imprensa Regional (Decreto-Lei n.º106/88 de 31 de março) também não é muito esclarecedor. Começa por classificar a imprensa regional da mesma forma que a Lei de Imprensa (artigo 14.º, ponto 2), acrescentando que é função daquela “promover a informação respeitante às diversas regiões (...); contribuir para o desenvolvimento da cultura e identidade regional através do conhecimento e compreensão do ambiente social, político e económico das regiões e localidades (…); assegurar às comunidades regionais e locais o fácil acesso à informação; contribuir para o enriquecimento cultural e informativo das comunidades regionais e locais (...); proporcionar aos emigrantes portugueses no estrangeiro informação geral sobre as suas comunidades de origem, fortalecendo os laços entre eles e as respetivas localidades e regiões; favorecer uma visão da problemática regional, integrada no todo nacional e internacional” (artigo 2.º). Importa referir que este estatuto surge num período em que vigorava a Lei de Imprensa de 1975 (Decreto-lei n.º 85-C/75, de 26 de fevereiro), que distinguia a imprensa nacional da regional em virtude da sua expansão. Na época era considerada imprensa regional toda a publicação que não tivesse expansão em todo o território nacional – as que tivessem era classificadas de imprensa nacional. “Esta forma de definir a imprensa regional era claramente redutora, não só porque a tratava como uma espécie de resíduo da imprensa em geral mas também porque não atendia às qualidades que melhor distinguem os produtos de comunicação social, moldadas em função dos seus objetivos, funções e destinatários” (ERC, 2010: 118). O estatuto reportava ainda para o diploma que regulava a identificação dos jornalistas (artigo 6.º, ponto 2), através do Cartão do Jornalista da
86 Imprensa Regional (Despacho Normativo n.º 75/93) 66 . Recuperam-se ainda algumas considerações constantes na Lei de Imprensa de 1971, trazidas por Sousa (2002). Na época, a imprensa regional era “constituída pelas publicações periódicas não diárias que tenham como principal objetivo divulgar os interesses de uma localidade, circunscrição administrativa ou grupos de circunscrições vizinhas” (idem: 7). Uma caracterização naturalmente desadequada, na medida em que atualmente existem diários de âmbito regional. Os problemas em torno do conceito estendem-se ainda à legislação relacionada com apoios estatais. Referindo-se à importância da comunicação social como “um forte instrumento de promoção do desenvolvimento do País à escala regional, distrital e local” (Decreto-Lei n.º 7/2005, de 6 de janeiro), acaba por seguir a tendência de outros diplomas, que misturam conceitos. Tendo como objetivo “tornar a comunicação social de proximidade em verdadeiro agente de desenvolvimento local e regional”, o decreto-lei sobre o sistema de incentivos do Estado à comunicação social considera como possíveis beneficiárias entidades que sejam, entre outras, “de âmbito regional ou local”. A única distinção presente regista-se ao considerar de âmbito regional toda a publicação que, não sendo de âmbito nacional, tenha sede “numa região classificada como zona de modulação regional de prioridade máxima ou de prioridade intermédia, nos termos que relevam da regulamentação dos incentivos do Programa de Incentivos à Modernização da Economia [PRIME]” e que cumpra dois de três requisitos: tenha um mínimo de 5000 exemplares de tiragem, que mais de 40% da sua distribuição seja no município onde tem sede e que os conteúdos jornalísticos, de acordo com o respetivo estatuto editorial, estejam vocacionados para outros municípios além daquele onde está sedeado 67 . Ainda no mesmo âmbito legislativo, o decreto-lei que aprova o regime de incentivo à leitura (Decreto-Lei n.º 98/2007, de 2 de abril) refere-se unicamente a “publicações periódicas de informação geral de âmbito regional”, inclusivamente quando aborda uma das iniciativas relacionadas com a transição para a Internet: Portal da Imprensa Regional 68 (artigo 6.º). O acesso a este último é condicionado, entre outros requisitos, a publicações classificadas pela ERC como sendo de âmbito regional e que tenham uma “periodicidade igual ou inferior a mensal”. Passando à revisão do conceito em alguns dos trabalhos académicos realizados em Portugal, começamos pelo de Isabel Pascoal (1996), que classifica em “imprensa regional e imprensa local”, as publicações que se destinem a “regiões ou localidades”, respetivamente. Já Fernando Cascais (2001), não faz qualquer tipo de diferenciação, considerando imprensa regional aquela cujo conteúdo seja “dirigido maioritariamente a comunidades regionais e locais”, bem como “a sua distribuição”. Referência na área, pela reflexão sobre o jornalismo de proximidade na imprensa regional, Carlos Camponez (2002) coloca a tónica do conceito na 66 Atualmente este título já não existe, sendo os atuais classificados de Jornalista, Estagiário, Equiparado a Jornalista, Imprensa Estrangeira, Colaborador e Colaborador das Comunidades pela CCPJ, que os emite. Em nenhum dos casos é feita uma distinção ou divisão, como no passado, entre jornalistas nacionais e regionais. 67 No âmbito do PRIME foram estabelecidas três zonas de modulação regional: zona III, de prioridade máxima; zona II, de prioridade intermédia; e à zona I, sem prioridade. A definição das três zonas considera o nível de desenvolvimento económico de cada região, com base na informação estatística e nas restrições decorrentes do “mapa de auxílios regionais” estabelecido para Portugal pela Comissão Europeia. 68 Disponível em www.imprensaregional.com.pt. Consultado a 2 de maio de 2012.
87 “territorialização”, dos seus públicos, e na “proximidade”, aos agentes e instituições sociais que predominam nesse espaço, bem como aos seus leitores, através do conhecimento que têm das temáticas que dominam a opinião pública. Para o autor trata-se de um “compromisso com a região e com as pessoas que a habitam” (idem: 19), que já a habitaram ou que têm qualquer tipo de ligação a ela, como é o caso das comunidades de emigrantes. Esse comprometimento tem como consequência reforço da identidade e o desenvolvimento “das populações e instituições locais” (Faustino, 2004) ou da “comunidade de vizinhos” (Sousa, 2002: 4). Há ainda quem se refira a “imprensa local e regional”, como sendo aquela que se dedica à “divulgação de fatos noticiosos que ocorrem na sua área de implantação, seja ela concelhia, distrital ou regional” (Ferreira, 2005: 157). Um novo ímpeto nos estudos sobre imprensa regional em Portugal surge com o trabalho de Costa (2005), que terá sido o primeiro a olhar para o âmbito digital. Na época em que desenvolveu a sua dissertação de mestrado, o autor considerava “desesperante” o processo de investigação, dada a escassez de fontes e autores – Camponez (2002) e Faustino (2000, 2002, 2004) eram exceções. Talvez por isso nos pareça que tenha sido aquele que procurou ir mais além, na tentativa de definir o conceito de imprensa regional. Para o autor, são-no todas as publicações “que dedicam a maior parte do seu espaço a assuntos de interesse direto para determinada circuncisão geográfica, sendo financiados maioritariamente pelas vendas, incluindo-se aqui a venda através de assinatura”, pensada nomeadamente para as comunidades de emigrantes, e “através de publicidade de empresas e instituições da mesma circuncisão geográfica” (Costa, 2005: 25). Esta última perspetiva, apesar de interessante e inovadora na abordagem ao conceito, poderá ser atualmente redutora. Isto se pensarmos que as centrais de publicidade das grandes marcas também adquirem, ainda que pontualmente, espaços em jornais regionais. Ainda assim, este tipo de conteúdos será certamente mais frequente e originário das instituições e empresas regionais. No âmbito da emigração, a ligação às comunidades portuguesas leva-nos a um dos aspetos que melhor caracterizam a imprensa regional: a identidade. A imprensa regional dá assim um importante contributo para a memória daqueles, ao ir preservando “as especificidades locais e regionais” (Pombo cit. Costa, 2005: 25). Trata-se de um compromisso que assume não só ao nível territorial, mas também com “muitos outros locais do mundo cujos leitores a ela estão ligados como que por cordão umbilical” (Amaral, 2006: 46). Para Sofia Santos (2007), cuja dissertação é sobre o caso do distrito de Lisboa, a divisão faz-se em imprensa nacional e regional. Esta última, “sugere de imediato um leque de pequenos jornais não diários, mais vocacionados para a história quotidiana das comunidades locais do que para o país ou o mundo” (idem: 26-27). Trata-se, em parte, como já vimos, de uma visão desatualizada, na medida em que atualmente há jornais regionais de periodicidade diária. Por outro lado, a mistura de “imprensa regional” com “comunidades locais” é, mais uma vez, reflexo de falta de rigor e de consenso conceptual. Citando Rogério Santos, a autora introduz novidades, ao que até aqui apenas conhecíamos como imprensa regional e/ou local. “Em Lisboa e Porto não existe imprensa regional, o que há é imprensa urbana e suburbana”
88 (Santos cit. Santos, 2005: 29). Uma afirmação fundamentada no fato de ser nos grandes centros que os principais jornais, ditos nacionais, têm sede e são maioritariamente lidos. Ora, é precisamente em Lisboa (35%) e Porto (38%) que a imprensa regional regista os menores índices de leitura (Bareme Imprensa Regional 2010). Uma tendência que segue o estudo de Costa (2005: 42), sobre e penetrabilidade da imprensa regional nos distritos e regiões autónomas portuguesas. Lisboa (0%) e Porto (23,9%) são precisamente os distritos onde a imprensa regional menos penetra, bem como as regiões autónomas Madeira/Açores (23,7%). No extremo oposto estão os distritos do interior ou mais afastados dos grandes centros, comos os de Castelo Branco (81,8%), Bragança (72,7%) e Portalegre (65,2%). Numa análise a outro caso paradigmático entre a imprensa regional portuguesa, Joana Martins (2008: 7) considera que “a imprensa regional ainda é a voz do público, o espelho dos problemas que o atormentam na sua própria rua, no seu bairro, na sua cidade, ou na sua região. (…) A região é-lhe explicada e especificada no dia a dia, de acordo com as rotinas e preocupações dos seus habitantes, daqueles que com ele dividem o mesmo espaço geográfico”. Apesar do aparente ancoramento geográfico da imprensa à região, a autora começa por misturar local e regional. Porém, na conclusão da sua dissertação de mestrado – em que estuda os dois diários regionais de Coimbra, caso inédito em Portugal – os conceitos acabam por se distanciar. Isto porque considera que um dos jornais está mais vocacionado “para o regional” e o outro “para o local”, isto é, As Beiras dedica-se à cobertura noticiosa do distrito e o Diário de Coimbra mais à própria cidade. Menos exaustivo na procura por uma definição do conceito, o CECS (2009) – na prossecução de um estudo encomendado pelo GMCS – considera a imprensa regional “um conjunto de publicações que se destinam essencialmente às respetivas comunidades e que são classificadas como ‘regionais’ pela ERC”. Note-se que, contrariamente a outras fontes, não específica se as comunidades são “locais”, “regionais” ou “de vizinhos”. O então presidente da ERC, Azeredo Lopes, escrevia na abertura do estudo que “não foi também incomum, ao longo destes anos de mandato, ouvir menções à imprensa regional e local como 'típica' (uma espécie de folclore ultrapassado da página impressa)” (idem: 15). Para além do estudo que acabamos de referir, a tese de doutoramento de Alexandre Manuel (2010) apresenta-se como um dos trabalhos mais exaustivos alguma vez feitos em Portugal sobre a imprensa regional. Trata-se de uma análise sociológica aos títulos da Igreja Católica, em que o autor discute o conceito. Importa sublinhar que é incontornável falarmos neste tipo de imprensa, na medida em que está fortemente enraizada nas dioceses portuguesas, que, salvo algumas exceções, praticamente coincidem com os limites geográficos dos distritos. Há inclusivamente casos, do qual o Diário do Minho (distrito de Braga) é o melhor exemplo, em que os jornais regionais são simultaneamente líderes de audiências e têm o seu conteúdo noticioso fortemente marcado pelo cariz religioso. Assim, o autor considera “a (inevitável) opção pela divisão distrital”. É pelo menos assim que se subentende que a generalidade dos autores se refira, sem que no entanto o expressem. Parece-nos que quando se referem a imprensa regional, a referência não são regiões, porque não existem em Portugal,
95 observa-se um predomínio de poucos recursos humanos em todas publicações, independentemente do seu modelo de propriedade. A diferença é mais acentuada nas fábricas de igreja (91,9%) e menos em outros modelos de propriedade (51,3%) e sociedades por quotas (56,9%). A questão periodicidade determina – o próprio estudo confirma – estes resultados, na medida em que é às fábricas de igreja que estão associados os mensários, enquanto que os restantes modelos geralmente detêm diários e semanários. Quanto mais frequente for a publicação, naturalmente mais trabalhadores precisará para a sua produção. Há ainda a considerar a variável relacionada com a integração das publicações em grupos empresariais. Nos casos em que se verifica, observa-se que estas têm “mais de 8” (39,1%) trabalhadores, enquanto que nos casos em que não se verifica, a tendência é “menos de 5 ou nenhum” (74,4%). Observa-se, pois, que o maior número de trabalhadores afetos à produção de publicações locais e regionais está relacionado com o fato do modelo de propriedade ser uma sociedade anónima/por quotas, pertencer a um grupo empresarial e ter periodicidade reduzida, como diária ou semanal (ibidem: 300). A tendência de um reduzido número de produtores estende-se aos jornalistas, que na sua maioria são “menos de 3” (49,1%), seguindo-se os intervalos “3 a 5” (22,9%) e “nenhum” (18,5%). À semelhança do que observamos em relação aos trabalhadores afetos à produção das publicações, é mais frequente verificar-se a existência de “menos de 3 ou nenhum” (72,7%) jornalistas do que “3 ou mais” (27,3%). No caso de empresas em nome individual (93,1%) e fábricas de igreja (90,3%) isso é mais evidente, mantendo-se o equilíbrio nas sociedades limitadas/por quotas (56,9%). A única exceção verifica-se em outros modelos de propriedade, que têm “3 ou mais” (51,3%) jornalistas, comparativamente a “menos de 3 ou nenhum” (48,7%). Relativamente às publicações integradas em grupos empresariais, observase uma distribuição equitativa do número de jornalistas pelos diferentes intervalos: “menos de 3 ou nenhum” (39,1%), “3 a 5” (35,9%) e “mais de 5” (25%). Quando tal não se verifica, a tendência é que o número de jornalistas varie entre nenhum e dois (75,5%). Também à semelhança do que se concluiu anteriormente, as redações onde podemos encontrar mais jornalistas, são aquelas cujo modelo de propriedade são sociedade anónima/por quotas e cuja periodicidade das respetivas publicações é mais reduzida (ibidem: 302). Recuperando ainda o âmbito da propriedade, ao nível da concentração de meios, registamos alguns grupos de média regionais que, com maior ou menor pujança, atuam ou atuaram em Portugal. Embora não seja nossa intenção efetuar um levantamento exaustivo de todos eles, registamos alguns dos mais significativos. A principal referência vai para a Sojormedia, uma antiga holding do Grupo Lena (Leiria), que chegou a deter um número considerável de publicações e que era, por isso, não só o maior grupo de média regionais, mas também o maior grupo de imprensa regional. Em 2009 detinha vários jornais regionais e locais, como O Aveiro, Região de Leiria, O Ribatejo (Santarém), O Eco (Pombal), Jornal do Centro (Viseu), Jornal da Bairrada (Aveiro), As Beiras (Coimbra), O Algarve (Faro) e Grande Porto, bem como duas rádios locais, uma editora e uma agência de meios. Ainda nesse mesmo ano, em maio, o grupo faz uma aposta mais abrangente na área dos média, ao lançar o diário
96 nacional i. Um investimento contracorrente, visto que o país já atravessava uma crise económica sem precedentes. O percurso do grupo no setor dos média nacionais acabaria por durar pouco mais de dois anos, com o diário nacional a ser alienado já pela Lena Comunicação, subholding do Grupo Lena, em junho de 2011, ao empresário Jaime Antunes. Este foi um período em que o grupo vendeu a maioria das publicações que detinha, ficando apenas com os jornais Região de Leiria, O Ribatejo e Jornal da Bairrada e uma rádio local. Um desfecho que se ficou a dever, segundo algumas vozes que se levantaram na altura, nomeadamente jornalistas de publicações do grupo, aos investimentos feitos no i. Outros grupos de média regionais e locais que registamos são os de Adriano Lucas (Coimbra), que detém o Diário de Coimbra, Diário de Aveiro e Diário de Leiria, para além de uma gráfica; o Media Centro (Coimbra), que para além de três rádios locais detém os jornais Campeão das Províncias, O Despertar e Independente de Cantanhede (Coimbra), Beira Vouga (Aveiro), Notícias de Vouzela, Notícias de Lafões e Tribuna de Lafões (Viseu); ou o Pressnorte (Bragança), que detém os jornais Nordeste, A Voz do Nordeste, O Informativo e a revista Mas. Para além dos dois primeiros grupos aqui referidos, Paulo Faustino (2004) recupera mais dois, que atuavam na época: o Prensa Ibérica (Espanha), que detinha O Comércio do Porto e A Capital; e o de Carlos Monteiro, cujas publicações que detinha se desconhecem. Embora não seja considerado um grupo de média, a realidade é que a Igreja Católica é a instituição que mais publicações regionais e locais detém atualmente. 3.2.2.4. Periodicidades A imprensa de proximidade em Portugal é marcadamente de periodicidade mensal (37,5%), seguindo-se-lhe a semanal (29,4%) e a quinzenal (23,9%). Tratam-se de valores referentes, como já vimos, à imprensa local e regional (ERC, 2010), sendo portanto difícil sabermos quais as publicações exclusivamente regionais. O mesmo estudo regista ainda as publicações que se fazem várias vezes por semana, como é o caso das diárias (2,5%) e das online (4,3%). Outras periodicidades, menos comuns, são as trissemanais, bissemanais ou trimensais (2,5%). Já quando comparada com a natureza de propriedade, verifica-se que a periodicidade diária e semanal é mais frequente em modelos de sociedades limitadas/por cotas (53,6%) e a mensal em modelos como as fábricas de igreja (72,7%). Relativamente à sua distribuição geográfica, é na Região Autónoma da Madeira que encontramos mais diários (27,3%), no distrito de Coimbra mais semanários (42,9%), no de Vila Real mais quinzenários (36,4%), no de Viseu mais mensários (59,9%) e no de Bragança mais publicações online (18,2%). O estudo da entidade reguladora permite-nos ainda observar uma relação entre a periodicidade e a localização geográfica, isto é, verifica-se um aumento da primeira quando a segunda evolui do litoral para o interior. Num outro estudo, sobre hábitos de leitura (Bareme Imprensa Regional 2009, apud ERC, 2010), regista-se que a periodicidade semanal (52,2%) é a que reune a preferência dos inquiridos, seguida pela mensal (15,9%), quinzenal/bimensal (15%) e diária (13,2%). Quando
97 distribuido geograficamente por Portugal continental, verifica-se que a audiência de diários é maior no distrito de Évora (65%), a de semanários no de Castelo Branco (86,7%) e a de mensários no de Faro (28,1%). Ainda que menos frequentes, os trissemanários são mais lidos no distrito de Setúbal (12,5%) 82 , os bissemanários no de Portalegre (26%), os trimensários no da Guarda (10,8%), e os quizenários/bimensais no de Bragança (27,9%). 3.2.2.5. Conteúdos O que as imprensas local e regional apresentam são sobretudo conteúdos de âmbito político e social, geograficamente localizados no município onde as publicações estão sedeadas. Os indicadores surgem em alguns estudos (ERC, 2010; Manuel, 2010) que se debruçam sobre o meio tradicional: o papel. Embora não seja esse o âmbito deste trabalho, importa registá-los, na medida em que são esses conteúdos que habitualmente são transpostos para os ciberjornais. Os conteúdos informativos são os mais frequentes neste tipo de publicações, ocupando na generalidade ¾ (75,5%) da superfície (ERC, 2010). O texto é o elemento mais representado, em detrimento da imagem, que na maioria das vezes tem uma taxa de ocupação entre os 10% e os 20%. Seguem-se a opinião, que em 20% dos casos estudados (n= 327) ocupa ¾ do espaço, e o entretenimento, que tem pouca expressão (em 58,4% dos casos ocupa menos de 10% da superfície) ou até mesmo nenhuma (37%). Do ponto de vista temático, Política (30,8%) e Sociedade (29,8%) são os mais frequentes na primeira páginas das publicações locais e regionais, com a “gestão e atividade autárquica” (11,4%) a ser o assunto mais frequente. A tendência temática mantém-se quando se observam as manchetes ou principais destaques – Política (39,1%) e Sociedade (27,2%) –, o mesmo sucedendo com os assuntos sobre eles relacionados – “gestão e atividade autárquica” (13,1%) e “eleições” (11,9%). Relativamente à incidência geográfica, o âmbito local é o mais evidente, traduzido no enfoque concelhio feito nas primeiras páginas (43,6%) e nas manchetes (40,6%). Esta questão verifica-se sobretudo nos concelhos onde as publicações têm sede. O elemento proximidade aumenta se considerarmos o segundo território mais relevante: a freguesia (ocupa 24,9% das chamadas de primeira página e 20,8% das manchetes). No âmbito das publicações regionais de inspiração cristã, foi possível conhecer, no 8.º Congresso da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã, as principais conclusões da tese de doutoramento de Alexandre Manuel (cit. AIC, 2011), até então desconhecidas 83 . Do ponto de vista de conteúdos temáticos emergem, com mais frequência, o Regional/Local (26%) e Religião (21%). Para o autor estas publicações confundem com frequência notícia e opinião, algo que no nosso entender se poderá ficar a dever ao amadorismo existente nestas redações, 82 Este é um caso único, na medida em que na ERC só se encontra registada uma publicação regional com periodicidade trissemanal (O Setubalense). 83 À data do Congresso, o trabalho de investigação de Manuel (2010) ainda não estava publicado, tendo sido, por isso, uma ocasião privilegiada para contactarmos com os resultados da mesma (AIC, 2011). Importa referir que na época já tínhamos consultado alguns excertos facultados pelo autor, como o capítulo “III. Das publicações da Igreja e da importância atribuída aos novos areópagos”.
98 maioritariamente dirigidas por padres e depedentes de trabalho voluntário. A produção resultante não será, por isso, a mais atrativa, não só do ponto de vista notícioso, como também gráfico. “Não será exagerado dizer-se que, em questões de natureza estética e visual, os seus responsáveis continuam por rotina e por comodismo, a fazer hoje o que faziam ontem e anteontem” (Manuel cit. AIC, 2011: 18). Uma observação que reiteramos, não só a partir experiência profissional acumulada, mas também pelo conhecimento deste setor dos média. A prática jornalística é sobretudo sedentária, com os conteúdos publicados a resultarem mais de produção externa do que interna. A utilização de comunicados, por vezes de forma integral, é prática frequente. Exceção feita para as publicações que efetivamente têm jornalistas e que, por isso, apresentam conteúdos mais rigorosos, do ponto de vista de contrução noticiosa. A ausência de profissionalismo em grande parte dos jornais de inspiração cristã, sobretudo ao nível das redações, tem consequências naquilo que é produzido. Uma coisa são os conteúdos, outra o interesse que o público manifesta por eles. Para o contexto que aqui analisamos, Ana Maria Teixeira (2011) recolhe indicadores convergentes: as temáticas Sciedade e Cultura são as que despertam mais o interesse dos públicos, seguidas por Região e Desporto. Uma tendência que a autora observa nos diferentes públicos da imprensa regional, encontrem-se eles off ou online. Já no âmbito de leitura exclusivamente em papel, o estudo CESOP/Inquérito à Imprensa Regional 2010 (apud CECS, 2010: 75), revela que a preferência vai para “notícias sobre a terra, a região” (24,8%), “atualidade (em geral)” (10,4%) e “assuntos de cultura, património, formação” (8,8%). O mesmo estudo procurou ainda recolher sugestões, tendo em vista a melhoria de conteúdos, tendo-se destacado a “diversidade e abrangência dos assuntos” (15,3%) e a “qualidade e profundidade dos assuntos” (12,4%). O contributo dos cidadãos na produção foi igualmente registada, sendo o envio de informações (50,9%) e de textos de opinião (26,7%) os mais frequentes (ibidem). 3.2.2.6. Públicos A imprensa regional é mais lida do que a imprensa designada de nacional, em Portugal continental (Faustino, 2004; Santos, 2007). No último Bareme Imprensa Regional 2010 – estudo que analisa desde 2003, à exceção de 2008, as audiências – o valor situava-se nos 51,9%, o que representa um aumento relativamente ao ano anterior (49,7%). Ainda segundo o mesmo estudo, Castelo Branco (74,7%), Santarém (73,4%), Leiria (70,4%), Aveiro (69,7%) e Coimbra (69,4%) são os distritos onde a imprensa regional tem mais audiências. Uma tendência que, aliás, se mantém há vários anos (Figura 9). O distrito de Coimbra liderou o durante os primeiros anos, situação que se alterou há três edições. Este é, aliás, um caso paradigmático no panorama nacional, dado que é atualmente o único distrito onde têm sede duas publicações regionais de periodicidade diária 84 . Similar a este só o da Região Autónoma da Madeira 85 . Já em sentido oposto, isto é, os distritos onde se lê menos imprensa regional, 84 Diário de Coimbra e As Beiras. 85 Nesta região circulavam os diários Jornal da Madeira, Diário de Notícias da Madeira e o Diário Cidade, todos em papel e com presença online. A 14 de outubro de 2011 este último passou a designar-se de Diário Net, transitando
99 estão os de Lisboa (35%), Bragança (37,4%) e Porto (38%). O fato dos principais média portugueses terem sede nos grandes centros, como Lisboa e Porto, e ser sobre eles que incide a sua cobertura noticiosa “nacional”, poderá justificar estes valores. Figura 9: Distritos onde a imprensa regional tem registado mais audiência (%) Distrito / Ano 2010 2009 2007 2006 2005 2004 2003 Coimbra 69,4 68,8 71,1 74,4 76,2 75,8 70,7 Castelo Branco 74,7 71,3 73 72,3 73,4 75 66,2 Leiria 70,1 69,2 66,3 67,3 73,1 66,8 66,7 Santarém 73,4 64,8 65,2 69,5 66,7 66,7 68,1 Aveiro 69,7 64,2 71,5 67,6 71,4 68,5 66,3 Fonte: Bareme Imprensa Regional Já quanto à caracterização sociográfica (Bareme Imprensa Regional 2009, apud ERC, 2010), o sexo masculino representa 52,6% da audiência e o feminino 47,4%; os leitores distribuem-se sobretudo pelas faixas etárias 25-34 anos (21,3%) e 35-44 anos (20%); pelas classes sociais média baixa (34,7%) e média média (27,8%); e tem como ocupação/profissão reformados ou pensionistas ou desempregados (21,7%) e trabalhadores qualificados ou especializados (21,1%). Como vimos, o Bareme Imprensa Regional tem sido o único estudo regular sobre o setor e que tem recolhido indicadores que ajudam a caracterizar a sua audiência. Porém, não podemos deixar de referir o caráter dúbio da expressão “ler ou folhear”, na qual assenta a principal questão que o motiva. Fazendo uma leitura correta dos dados expostos, não conseguimos saber quem é que efetivamente lê imprensa regional. Para tal ter-se-ia que omitir a palavra “folhear”, que no nosso entender condiciona os resultados. Por outro lado, o estudo não considera as publicações das Regiões Autónomas de Açores e Madeira. “Constragimentos” que que se traduzem em “assimetrias, ao nível distrital, não só do número e dimensão das publicações locais e regionais e das respetivas comunidades de leitores como das realidades sociais e económicas” (Faustino cit. ERC, 2010: 235). Mesmo considerando as limitações do estudo, entendemos ser relevante, por contribuir com indicadores que ajudam a conhecer melhor este setor dos média em Portugal. Recuperamos ainda um estudo promovido pela AIC, juntamente com o Centro de Sondagens e Opinião Pública da Universidade Católica, sobre o público dos seus associados. O mesmo refere que os leitores da imprensa regional de inspiração cristã previligiam a informação regional, religiosa e cultural; têm práticas culturais mais de âmbito residencial; o nível etário é elevado; são maioritariamente técnicos e profissionais de nível intermédio; homens; com mais de 46 anos; com frequência universitária; sobretudo residentes no litoral; com agregados até três pessoas; rendimento mensal superior a 1000 euros; e a prática de acesso à Internet é considerável (apud ERC, 2010: 525-526). 3.2.2.7. Apoios e a “subsídiodependência” em exclusivo para a Internet.
100 Imprensa regional é, em Portugal, sinónimo de porte pago 86 . Dos generalistas aos de inspiração cristã, a título individual ou associativo, este apoio indireto atribuído pelo Estado foi e ainda é motivo de discussão e discórdia, três décadas depois (Carvalho, Faustino e Martins, 2010). Num setor economicamente debilitado e que gira muito em torno do papel, quer em termos de produção, quer de distribuição, a dependência de apoios torna-se inevitável para grande parte das publicações. As exceções estão sobretudo associadas a grupos de média. Figura 10: Publicações beneficiadas com porte pago (1999-2006) / incentivo à leitura (2007-2011) Ano Publicações (N.º) Montante (€) 1999 668 16.575.658,84 2000 717 16.154.808,34 2001 554 13.833.659,48 2002 570 13.660.206,14 2003 518 13.209.696,97 2004 537 12.806.763,69 2005 532 11.723.137,51 2006 434 11.677.570,92 2007 343 7.602.717,81 2008 274 5.649.470,65 2009 229 4.029.179,94 2010 233 3.554.288 2011 223 3.108.344,48 Fonte: GMCS Há observações que apesar de terem acumulado anos de “pó” em cima, parecem não perder atualidade. É o que ocorre com o estudo de Paulo Faustino (2000), onde aponta as principais “patologias” da imprensa regional em Portugal: reduzido número de vendas em banca e por assinatura, que se deve essencialmente a um reduzido nível de qualidade e atratividade do produto; à ausência de políticas comerciais da área de distribuição; acomodação e dependência face ao Estado, de modo a garantir financiamento para fazer-se distribuir junto dos leitores; e as dificuldades, sobretudo estruturais, para produzir numa perspetiva de mercado. Igualmente veemente na abordagem é Pascoal (1996), que fala num setor que “depende quase exclusivamente dos subsídios do Estado”. A este propósito, Victor Amaral (2005: 193) acrescenta que “insistir permanecer, sem esforço próprio, ao colo do Estado, aconchedado e fértil, não trará futuro para lá da manutenção”. Ainda que caibam aos incentivos estatais a maior fatia do contributo para a subsistência da imprensa regional, a realidade é que esta também está, em muitos casos, dependente da Igreja Católica ou de entidades particulares (Pascoal, 1996). Um cenário que se poderá alterar, sobretudo devido aos cortes que o incentivo à leitura tem vindo a sofrer, tendo sido mais significativos entre os 86 Atualmente designado de incentivo à leitura da imprensa regional, o ex-porte pago fixa um regime proporcionado de partilha dos custos do envio postal de publicações periódicas aos seus assinantes, residentes nos territórios nacional e estrangeiro, a um peso não superior a 200 gramas por exemplar, incluindo suplementos e encartes (GMCS). Foi instituído pelo Estado a 1 de outubro de 1976 (Amaral, 2005).
101 anos de 2005 e 2009 (Figura 10): 2005-2006 (-18,4%), 2006-2007 (-21,0%), 2007-2008 (- 20,1%) e 2008-2009 (-16,4%). Embora o porte pago/incentivo à leitura tenha sido, até agora, a principal reivindicação do setor, a verdade é que o mesmo já chegou a contar com mais dois apoios (diretos): o Incentivo à Iniciativa Empresarial e Desenvolvimento Multimédia e o Incentivo à Qualificação e ao Desenvolvimento de Recursos Humanos. Atualmente os dois deram lugar ao Incentivo à Consolidação e ao Desenvolvimento das Empresas de Comunicação Social Local e Regional. Numa década e nesta categoria, foram atribuídos um total de 254 milhões de euros de subsídios. Um valor que tem vindo a sofrer cortes ao longo dos últimos anos, sobretudo desde 2006. O mesmo tem sucede com outros incentivos, que visem por exemplo a modernização tecnológica (Figura 11). Se juntarmos ambos os apoios, diretos e indiretos, o valor ascende aos 262 milhões de euros (ERC, 2010: 199). Daqui se percebe que a fatia mais relevante dos apoios estatais se refere ao porte pago/incentivo à leitura (94%). Figura 11: Evolução dos incentivos diretos do Estado à imprensa regional e local (em milhares de euros) Fonte: ERC (2010: 197) Olhares mais recentes dizem-nos que pouco mudou. Trata-se de um “setor deficitário”, com “resultados líquidos negativos” e que apresenta “baixo desempenho” ao nível do volume de negócios (ERC, 2010: 24). Num outro âmbito, Patrícia Posse (2011) regista de alguns entrevistados expressões como “publicidade não abunda” e “constragimento”, na caracterização da “saúde” financeira das publicações. Os anos não foram, assim, acompanhados por mudanças substânciais no setor, como recorda Pedro Costa, então diretor do Jornal do Centro e de O Algarve, na apresentação do estudo da ERC: “20 anos depois, à exceção da questão do online, o ‘queixódromo’ é o mesmo!” (cit. Jerónimo, 2010d). É pertinente trazer neste momento à discussão a questão da Internet, sobretudo pelas oportunidades que apresenta também ao nível empresarial. Ainda que a maioria do setor ainda esteja muito centrada no meio tradicional, a realidade é que também os ciberjornais passaram a ser espaços de negócio onde, por exemplo, é possível veicular conteúdos publicitários que outrora só eram possível na rádio ou na televisão. Da mesma forma que conteúdos noticiosos e publicitários outrora circulavam em exclusivo nas páginas dos jornais, na Internet os mesmos saem valorizados pela interatividade e multimedialidade. “Temos anunciantes que publicitam
102 mais facilmente no site do que no jornal. Acham que são mais vistos e que têm mais resultados”, refere um dos entrevistados de Posse (2011: 77), acrescentando que “a publicidade não só rentabiliza o site como ajuda a rentabilizar o jornal em papel”. Caso raro em todo o estudo, com a maioria a situar-se mais no plano oposto, isto é, da relutância. “Se já para o papel é dificil conseguir publicidade, pior para o site”, afirma outro (ibidem). Neste âmbito, os apoios estatais adaptaram-se à nova realidade, com a redução do incentivo à leitura a ser acompanhada pela criação do Portal Imprensa Regional. O objetivo passa por “favorecer a utilização de novas tecnologias de informação, assim promovendo a qualificação das empresas ligadas às publicações periódicas”, pode ler-se em ImprensaRegional.com.pt. A realidade é que quatro anos volvidos, o número de jornais (48) que aderiram ao projeto não chega a 10% 87 do total daqueles que se encontram registados na ERC (2010). E mesmo aqueles que estão associados ao Portal, atualizam pouco os seus ciberjornais. Apesar da esmagadora maioria (95,4%) se encontrar ativa, só cerca de metade (54,3%) disponibiliza conteúdos noticiosos com regularidade 88 , enquanto que uma minoria (15,2%) o faz em períodos mais espaçados, quando comparados com a sua periodicidade referente ao meio papel. Significativa é ainda a quantidade de publicações que não apresenta qualquer conteúdo (30,4%), para além de um domínio ativo e um dos templates que é disponibilizado pelo Portal. Há inclusivamente casos que nem o nome, logótipo, contactos ou ficha técnica da publicação são apresentados. Estes indicadores parecem-nos reveladores da falta de atenção da imprensa regional a esta realidade. Se, por um lado, o setor se queixa do Estado e reclama para si mais apoios, não tanto na diversidade, mas na quantidade, por outro, parece não estar a saber aproveitar a oportunidade de transição para o online, numa plataforma disponibilizada gratuitamente. Outros fatores para a não adesão poderão estar relacionados com a existência de ciberjornais em plataformas e domínios próprios ou pelo fato do Portal Imprensa Regioanl se manter praticamente inalterado desde a sua criação. Esta última questão foi inclusivamente levantada por algumas publicações da AIC, numa assembleia da associação 89 . Na altura, um representante do GMCS ali presente reconhecia que o portal precisaria de se adaptar às novas exigências, processo que estaria então em curso 90 . Ainda assim, parece-nos que esta será uma preocupação de um reduzido número de publicações regionais, isto é, daquelas que estão mais atentas e a operar em ambos os meios (papel e digital). Depois temos casos em que nem mesmo com apoios ou incentivos (Carvalho, Faustino e Martins, 2010). A mesma realidade é encontrada por António J. Costa (2005: 14), numa análise aos 174 “incentivos à criação de conteúdos na Internet”, atribuídos entre 2001 e 2004. Quando se esperava que esse fosse o número de publicações contempladas, o autor depara-se com 15 incentivos atribuídos em 87 O GMCS informou-nos, a 14 de dezembro de 2011, que à data o Portal Imprensa Regional contava com 48 publicações locais e regionais associadas. As primeiras, Diário de Coimbra e Diário do Sul, datavam de 4 de abril de 2007 e a última, Jornal das Caldas, de 30 de março de 2011 – há ainda referência a Oftalpro, porém trata-se de uma revista de informação especializada, com data de registo de 15 de julho de 2011. 88 Entende-se como atualização regular aquela que é feita pelo menos uma vez por dia no caso das publicações com periodicidade diária (em papel); pelos menos uma vez por semana, nas semanais; pelo menos uma vez a cada duas semanas, no caso das quinzenais; e pelo menos uma vez por mês, no caso das mensais. 89 Realizada em a 11 de fevereiro de 2011, em Fátima, e onde estivemos presentes. 90 Concretizar-se-ia em julho de 2012, embora a alteração tenha sido ao nível do website do projeto e não à disponibilização de novas ferramentas ou melhoramento da plataforma. Esta questão pôde ser constantada no decurso do estudo etnográfico, em que um dos ciberjornais regionais era aderente do Portal Imprensa Regional.
103 duplicado, isto é, publicações apoiadas duas vezes, em anos diferentes. O que António J. Costa considera mais gravoso é o fato de em três desses casos não encontrar qualquer presença na Internet, isto é, evidências da não aplicação efetiva daquele incentivo. Atualmente, duas publicações mantêm-se offline (Notícias de Paços Brandão e Notícias do Pinhal) e apenas uma online (PostalDoAlgarve.com). Relativamente às restantes, oito estão atualmente ativas (ForumCabeceirense.web.pt, JornalDeEspinho.pt, JornalDoFundao.pt, OMirante.pt, PortaDaEstrela.com, RodaVida.pt, TerrasDaBeira.com e VozDoCampo.com), duas não (Comércio de Gaia e Notícias do Bombarral) e outras duas têm o domínio tomado (MatosinhosHoje.com e VozDasBeiras.com). Os casos identificados neste dois estudos levamnos a questionar se não se terá passado o mesmo com outras publicações, na atribuição de outros incentivos. Recorde-se que o universo destas publicações é superior às sete centenas e que as mesmas são frequentemente apelidadas de “subsidiodependentes”. “Os atuais cenários de competitividade dos mercados não se compadecem com os comportamentos empresariais amadores e individualistas. As empresas jornalísticas regionais que quiserem ser competitivas e gerar riqueza que lhes permita, de uma forma independente, cumprir a sua função cultural, formativa e informativa, vão ter de ser assumir definitivamente como empresas inseridas num contexto de mercado e não apenas dependentes de atitudes paternalistas e de apoios do Estado” (Faustino, 2000: 95). Mais longe vai Arons de Carvalho – na época responsável governamental da comunicação social – ao sublinhar que muitos jornais não faziam qualquer esforço para qualificar os seus profissionais e que a sua única preocupação era a tiragem de exemplares de forma a garantirem publicidade e o respetivo apoio estatal (apud Amaral, 2005). Um controlo mais rigoroso na aplicação dos apoios estatais poderia ajudar a compreender as reais motivações de manutenção de publicações locais e regionais. Um papel que poderia ser assumido ao nível associativo, nomeadamente para se perceber a que casos deverão ser efetivamente atribuídos incentivos (Carvalho, Faustino e Martins, 2010: 286), visto que o próprio Estado não o assume. É precisamente o que revela uma recente avaliação feita à política do incentivo à leitura (CECS, 2011) 91 . A equipa do centro de investigação da Universidade do Minho é particularmente crítica em relação a esta matéria, ao referir que “o caminho feito não foi sujeito a um trabalho sistemático de avaliação por parte de entidades externas” e que “é, de resto, notável a inexistência de uma tradição de avaliação das políticas públicas de comunicação social em Portugal” (idem: 11). Já no âmbito da publicidade, a imprensa regional está essencialmente dependente do tecido empresarial existente nos territórios onde é produzida e distribuída e não tanto do investimento de grandes anunciantes. A própria distribuição tem estado sobretudo concentrada na televisão e não tanto na imprensa (Faustino, 2000; Costa, 2005; CECS, 2011). E se não era com as vendas em banca que a situação se revertia há cerca de uma década, ainda menos no 91 A “Avaliação da política de incentivo à leitura (ex-'Porte-Pago') – Relatório final (março 2011)” foi encomendada pelo GMCS, porém, à data de conclusão da presente tese ainda não tinha sido publicada. Os dados aqui apresentados foram possíveis graças à equipa de investigadores que liderou o estudo, que nos permitiu a consulta.
104 atual contexto sócio-económico. Com as devidas reservas devido ao espaço temporal e à amostra (n=13), a API (apud Faustino, 2000) registava que a maioria dos seus inquiridos vendia até 200 exemplares (43,4%), seguida do invervalo 200 a 400 (16,8%). Percebemos que a manutenção, ao longo dos anos, de muitas publicações regionais, esteve e estará dependente de apoios estatais. Aquele que tem sido mais reclamado por parte do setor continua a ser o incentivo à leitura, responsável pela maior fatia do bolo. Porém, não é um apoio que gere consenso, ainda que a generalidade o defenda. Há vozes que se têm levantado contra a sua atribuição, por considerarem que o mesmo incentiva a manutenção de publicações sem qualidade (Duarte, 2005; Ferreira, 2005; CECS, 2011). Entendemos que uma forma de rever esta situação poderá ser seguindo as recomendações do CECS (2011) e de Carvalho, Faustino e Martins (2011), que embora se foquem nos apoios estatais, deixam contributos mais amplos. 3.2.3. A transição para a Internet Desde 1995 que a imprensa regional passou a ter um meio extra para produzir e disseminar os seus conteúdos: a Internet. Porém, falamos de um contexto em que predomina o desconhecido. O primeiro olhar que encontramos sobre esta transição, surge uma década depois (Costa, 2005), onde o autor estuda 20 ciberjornais. Foi, porém, necessário esperar mais alguns anos para que surgissem levantamentos mais consistentes (ERC, 2010; Manuel, 2010). Atualmente, os vários indicadores apontam para a presença online de cerca de metade destas publicações. Tal acontece sobretudo com aquelas que se publicam com mais frequência em papel. Se já era díficil à imprensa regional ignorar a Internet, ainda mais agora, com a massificação dos dispositivos móveis. Como vimos, as taxas de penetração de ambos tem aumentado a cada dia que passa. Embora os dispositivos móveis não nos interessem de momento, não podemos deixar de assinalar o fator de algumas publicações regionais e locais já os terem começado a adotar, sobretudo ao nível da distribuição (Jerónimo, 2013). Já sobre a presença na Internet, temos alguns indicadores que nos ajudam a fazer um ponto da situação. A imprensa local e regional generalista portuguesa encontra-se dividida relativamente à sua presença online. Quase metade da amostra (n=411) estudada pela ERC (2010) “possui edição eletrónica” (46%), enquanto que a restante ou não possui (41%) ou faz-se representar no formato blogue (4,9%). Verifica-se ainda uma correlação entre esta variável, a periodicidade das publicações em papel e o modelo de propriedade. Assim, quanto mais espaçada é a periodicidade, menor a probabilidade de existir ciberjornal. Isso é particularmente visível no caso dos mensários (21,7%), em contraponto com os diários e semanários (74,6%). As publicações detidas por fábricas de igrejas (13,8%) são as que estão menos online, contrariamente às de sociedades limitadas/por quotas (63,2%). Num estudo a uma amostra (n=48) aleatória de “jornais locais”, Bandeira (2007) regista 52% de publicações online. No caso particular da imprensa de inspiração cristã, Manuel (2010) regista – dois anos
111 políticos, organizações não-governamentais ou outros atores sociais” (ibidem: 63). Uma prática acomodada, de jornalismo copy/paste, motivada pela dificuldade que os meios e os seus profissionais têm em enfrentar as autarquias e os seus atores. Essa realidade fica a dever-se à veneração pelo poder político, à proximidade entre os proprietários dos jornais e à precariedade das publicações e dos seus jornalistas (Carvalheiro, 1996; Amaral, 2006; Ribeiro, 2008). Uma realidade que se agrava quanto maior é a proximidade. No caso das publicações regionais e locais, o exercício de um jornalismo independente é frequentemente condicionada pela dependência económica das instituições. O fato dos anúncios institucionais serem uma importante fonte de receita para esses jornais, por vezes são também o principal fator que inibe a publicação de notícias que possam ser consideradas incómodas para as instituições visadas. “As autarquias são, nessa medida, apresentadas como grandes meios de pressão” (ERC, 2010: 109). Não são porém as únicas. Joaquim Duarte, jornalista e diretor de O Ribatejo, recorda a vez em que foi abordado por uma empresa, para a qual seria útil ter a publicação como aliada, de modo a ganhar determinado concurso. “Se o conseguirmos – dizia o meu interlocutor, enquanto eu fingia que não o ouvia – pode contar com dois por cento do lucro” (cit. Rebelo, 2011: 397). O próprio contexto europeu de crise económica agrava a situação, como recupera Alfredo Maia, presidente do SJ, ao referir que “a pretexto da crise as empresas estão a aproveitar para emagrecer os seus quadros redatoriais e com isso reduzir os custos com a mão de obra e em especial com os jornalistas” (cit. JornalismoPortoNet, 2009). Mas não é só em relação às autarquias ou empresas que existem dependências. O mesmo sucede com as agências de comunicação ou organismos eclesiais. Sobre estes últimos, Manuel (2010) regista que é frequente encontrarem-se homilias, discursos ou mensagens de bispos e padres publicados na íntegra nas páginas dos jornais regionais da Igreja Católica. Aquilo que o autor relata na sua tese é-nos familiar, pois conhecemos por dentro uma das redações estudadas. As vivências acumuladas ao longo de cerca de sete anos num semanário regional de inspiração cristã, permitem-nos corroborar o que defende. Do padre conhecido ao cidadão desconhecido, todos queriam ver os seus escritos publicados e na integra. Fossem opiniões ou “notícias”. O fato de serem maioritariamente dirigidas ou administradas por padres, isto é, pessoas com outras prioridades e geralmente sem formação na área, levou a que estas publicações se fossem tornando permissivas à entrada de quase todos os conteúdos que lhe chegassem. Não será, porém, este o único argumento. A dependência pelo trabalho voluntário em detrimento do profissional, também levou a que esses conteúdos fossem (e sejam) bem-vindos. Entretanto, as publicações que se profissionalizaram ou que tentaram percorrer esse caminho, depararam-se com um passado e um público ainda habituado a determinadas práticas. Fazer a gestão dessa relação de proximidade não é naturalmente fácil, na medida em que é quase inevitável que seja frente a frente. Entradas extemporâneas nas redações (Rebelo, 2011; Ribeiro, 2010) ou abordagens nas ruas, fazem parte do dia a dia de quem trabalha na imprensa regional ou local. “É muito difícil desenvolver projetos sólidos e com independência nas regiões” (Mesquita cit. Rebelo, 2011: 369). Por outro lado, a fragmentação entre o que são os média regionais e os nacionais,
112 regista-se no quotidiano dos jornalistas. Sobretudo nas suas relações com eventos, atores e fontes dos grandes centros, como Lisboa ou Porto. Um dos problemas registados pela ERC (2010) e por nós, pela experiência profissional e pelos relatos de colegas jornalistas, prende-se com a dificuldade em contactar, por exemplo, com fontes ou organismos governamentais. Estes demonstram mais disponibilidade e celeridade para com os jornalistas dos média considerados nacionais, do que para os dos regionais. Curiosamente, a mesma tendência também se verifica aos níveis local e regional, onde as fontes são mais seduzidas pelos média nacionais, embora a sua presença nesses territórios não seja tão frequente. Há ainda a considerar as questões concorrenciais, isto é, quando o mesmo território é partilhado por várias publicações, não só do ponto de vista editorial, mas também comercial. Ribeiro (2008) recupera essa questão num estudo de casos, ao referir que há instituições que “não podem ser hostilizadas”, sobretudo quando as mesmas anunciam em mais do que um jornal. Neste caso a proximidade pode condicionar a independência tanto das publicações como dos seus jornalistas. O tempo é outro dos fatores determinantes nas rotinas dos profissionais da imprensa regional. A esse propósito, a autora refere existir uma “’incongruência’ entre a vontade que os jornais têm de aumentar os artigos que tiveram origem em iniciativas dos jornalistas e o fato de não ser dado tempo para poderem desenvolver as ‘estórias’” (ibidem: 10). A profissionalização de algumas instituições ao nível da comunicação, nomeadamente com a criação de gabinetes e assessorias, é outro fator a considerar. Às redações chegam cada vez mais comunicados, o que resulta numa maior fixação dos jornalistas à secretária, precisamente porque são em número reduzido. Isso implica que sejam frequentemente confrontados com um acumular de funções, como a de paginador, revisor, distribuidor ou até angariador de publicidade, algo que é legalmente incompatível com o exercício da profissão (Estatuto do Jornalista, artigo 3.º). “Muitas vezes, a pressão da direção acaba por se fazer à custa do próprio emprego, sobretudo quando existe apenas um jornalista que 'faz tudo'” 96 . Perante este contexto, o tempo e o espaço para o desenvolvimento de outros géneros jornalísticos mais densos, como a reportagem ou a entrevista, são cada vez mais escassos. Os jornalistas passam a estar com mais frequência na redação e menos na rua. A edição de conteúdos externos sobrepõe-se à produção própria. Uma realidade que o aparecimento da Internet parece ter adensado. 96 Patrícia Posse, autora da dissertação Ciberjornalismo à escala regional: Aproveitamento das potencialidades da Internet nos oito jornais com presença online ativa dos distritos de Bragança e Vila Real (2011) e jornalista com experiência acumulada em publicações regionais e locais, ao autor.
113 4. Metodologia As rotinas de produção são, como vimos (capítulo 2), processos que ocorrem de forma “automática”, sem que os produtores pensem muito em como estão a adotá-las e a desenvolvê-las. É precisamente para colmatar a falta de reflexão dentro das redações, que nos últimos anos têm surgido estudos etnográficos. Curiosamente, parte deles tem sido mobilizado por antigos jornalistas, que assim regressam às redações mas desta vez para procurarem compreender o que nelas ocorre (Domingo, 2006; Brown, 2008; Santos, 2011). Neste caso já não como jornalistas, que procuram respostas para os problemas que afetam o quotidiano das pessoas, o viver em sociedade, mas para ser tornarem eles mesmos problematizadores da forma como os profissionais constroem a realidade social. Uma das questões que se levantam é o fato de haver um grande distanciamento entre as ideias que os jornalistas partilham e aquilo que são as suas práticas (Deuze, Neuberg e Paulussen, 2004). Uma coisa é o que pensam e/ou dizem, outra o que fazem. Elizabeth Bird (2010: 8) problematiza este ponto com uma questão pertinente: “What are the stories that people in any society are being offered as tools to make meaning?”. Por outras palavras, como é que os jornalistas estão a construir as notícias? Num estudo sobre a transição da redação online do Jornal de Notícias, Luís A. Santos (2011) é um dos que partilham o percurso de jornalista a investigador. No processo de discussão metodológica, que envolve o regresso a uma redação que lhe é familiar, confronta-se com algumas dicotomias: teoria vs. investigação empírica, discursos académicos vs. saber profissional e escolhas individuais vs. construção coletiva da ciência (idem: 133). Devido à semelhança de percursos, também as assumiremos, antes de passarmos à explicitação das opções metodológicas. Relativamente à primeira dicotomia (teoria vs. investigação empírica), também partilhamos da perspetiva do autor, que defende que as ciências sociais não devem ser encaradas como uma combinação de dois elementos separados. Os fatos científicos são mediados por teorias, que ajudam a construir a realidade. Elas são como que óculos que ajudam a ler os objetos e os processos. “Theories and empirical evidence are so profoundly embedded that the artificial distinction (even if useful for organizational and practical reasons) risks to mystify rather than to illuminate” (idem: 133). É também no âmbito “teórico” e “prático” que se têm situado os discursos académicos e o saber profissional. Falamos de diferentes construções da realidade, pois o ponto de vista de cada um dos observadores é diferente. Embora os investigadores possam partilhar o mesmo território que os jornalistas, a realidade é que são atores externos, com outro habitus e num ethos que pode não ser o seu. Já aqueles, são os que estão inseridos com maior profundidade na cultura jornalística; são atores internos, que ainda assim observam com mais frequência e mais atentamente o que se passa fora (sociedade), do que o que se passa dentro (redação). Aliás, tem sido mais frequentes os olhares de investigadores para o fazer jornalismo do que os dos próprios jornalistas. O conhecimento destes baseia-se sobretudo na sua experiência ou no
114 senso comum e não tanto numa abordagem científica, apoiada em fundamentos teóricos, que os ajude a compreender a realidade social do campo onde são profissionais. As exceções são os casos em que atuais/antigos jornalistas assumem o papel de “Homo Academicus” (Bordieu, 1984), desenvolvendo estudos sobre o jornalismo ou sobre a profissão. Tal como Luís A. Santos (2011: 134), também reconhecemos as diferenças entre produção científica e o saber profissional sobre o jornalismo – a partir da experiência acumulada. Se, por um lado, não podemos negar uma construção social pré-existente, feita num contexto e ethos específico, por outro, sabemos da frequente necessidade de distanciamento, aquando da produção científica. Não se trata de ignorar as vivências do ser jornalista – o fato de se pertencer/ter pertencido à mesma “tribo”, por vezes é um elemento facilitador na aproximação do investigador ao seu objeto de estudo (Domingo, 2006) – mas de, a partir delas, ir colocando reservas sobre aquilo que vê e que interpreta. Diremos que, nestes casos (investigador que é/foi jornalista), a problematização se apresenta como uma necessidade redobrada. À semelhança do que acabámos de expor, também em relação à última dicotomia (escolhas individuais vs. construção coletiva da ciência) já começamos por fazer uma breve abordagem, no início do presente capítulo. As opções assumidas ao longo deste percurso não são meramente individuais, mas resultam de um debate permanente com o orientador. Através de iniciativas próprias ou por via da participação em congressos, foi ainda possível contar com contributos de outros investigadores, nacionais e internacionais, que têm estudado o ciberjornalismo ou a imprensa regional. Privilegiámos não só aqueles que melhor conhecem o contexto português, mas também os que têm experiência nas abordagens metodológicas que assumimos. Curiosamente, a generalidade deles já foi jornalista – Helder Bastos, que acompanhou o processo da adoção da Internet por parte do pioneiro do ciberjornalismo em Portugal (Jornal de Notícias), é disso exemplo. De referir ainda que o fato de integrarmos o Observatório do Ciberjornalismo ajudou a promover a discussão 97 . As opções assumidas resultam, assim, de um contributo coletivo. O estudo de casos desenvolvido por David Domingo (2006) – em quatro redações regionais, na Catalunha (Espanha) – é a principal referência teórica para a presente tese, pois também nós procuramos compreender como é que adoção tecnológica molda as escolhas dos jornalistas e mais concretamente o que é que determina as suas rotinas de produção no âmbito do ciberjornalismo. Para que tal seja possível é necessário um contacto próximo e um conhecimento detalhado do objeto de estudo, características da abordagem construtivista da inovação tecnológica. Pablo Boczkowski (2004) destaca três princípios conceptuais dessa abordagem: a inovação acontece ao longo da história, isto é, considera as experiências passadas e/ou adquiridas, bem como o contexto social presente; a inovação ocorre localmente, sendo desenvolvida por determinadas pessoas, com determinados recursos e em determinadas organizações; e a inovação é um processo, no qual vão ocorrendo transformações na tecnologia, nas práticas e nas representações. A etnografia assume-se, assim, como referência metodológica. “Sociology of newsmaking, anthropology of technology 97 Enriquecida com a participação em alguns seminários do Centro de Investigação Identidades(s) e Diversidade(s) do Instituto Politécnico de Leiria, juntamente com investigadores das áreas da Sociologia e da Antropologia.
115 and ator network theory choose participant observation and in-depth interviews as their main research tools” (Domingo, 2006: 205). Para além de contar com outros contributos teóricos do campo do jornalismo, e mais concretamente do ciberjornalismo, o investigador espanhol recupera um estudo da antropologia da tecnologia, de 1993, a partir do caso da produção de cerâmica na Índia. “Pottery might be a simpler technology than Internet, but both have a set of artifacts, definitions, routines and social roles” (Domingo, 2006: 206). Esse estudo começa por identificar diferenças entre os produtos de vários produtores, sendo o passo seguinte identificar as variações existentes nas rotinas de produção dos oleiros e nas definições da tecnologia. Para Mahias – autora do estudo – isso poderia ajudar a compreender as diferenças entre os produtos. Domingo faz precisamente esse percurso, mas considerando as notícias (produtor) e os ciberjornalistas (produtores). O mesmo acontece com a vaga de estudos que surgiu nos últimos anos, como pudemos ver anteriormente. Será também esse o percurso que seguiremos, combinando vários métodos, em duas fases: • Estudo prévio: Levantamento cronológico dos ciberjornais regionais existentes em Portugal e respetiva avaliação do aproveitamento das principais potencialidades da Internet. Uma abordagem que entendemos necessária, face ao quase desconhecido sobre a prática do ciberjornalismo na imprensa regional. No percurso de descoberta do ciberjornalismo de proximidade, consideram-se ainda alguns trabalhos entretanto desenvolvidos (Jerónimo e Duarte, 2010; Jerónimo, 2010a, 2010c, 2011c, 2011d, 2011e, 2013). Assim, pudemos contar com alguns indicadores sobre este contexto. • Estudo de casos: Conhecido o universo de ciberjornais regionais que no meio papel se publicam pelo menos uma vez por semana, prosseguimos com um estudo em profundidade de três casos: RegiaoDeLeiria.pt, Reconquista.pt e OMirante.pt. O mesmo iniciou-se com um olhar histórico aos mesmos. A evolução, o aproveitamento das potencialidades da Internet e os conteúdos noticiosos publicados, são estudados em que cada dos cibermeios. Segue-se a observação participante, entrevistas e questionários, que contemplam a parte etnográfica do estudo. A produção, gestão e publicação de conteúdos nas redes sociais online são igualmente consideradas, beneficiando assim da nossa participação em estudos com elas relacionados (García de Torres et al., 2011; Jerónimo, 2012a). 4.1. Estudo prévio Em qualquer processo de investigação científica a problematização é permanente. Começando pelo objeto de estudo e passando pelas ferramentas a adotar, para melhor o compreender. Foi precisamente o que fomos experimentando no desenvolvimento da presente tese, enquanto nos debruçávamos sobre um campo onde os estudos escasseiam. Por isso, entendemos que seriam necessários alguns indicadores de contexto, nomeadamente, quando é que teriam surgido os cibermeios da imprensa regional e que conteúdos aí estariam a ser
116 publicados. Algo que o estudo mais abrangente que se conhece não aborda, embora se refira à presença daqueles meios na Internet (ERC, 2010). Quanto ao ciberjornalismo desenvolvido, pouco se sabe. Para que o pudéssemos conhecer, precisávamos, antes de mais, de fazer um levantamento dos ciberjornais regionais existentes. Só depois poderíamos conhecer que tipo de conteúdos eram publicados e inclusivamente procurar estudar a evolução dos mesmos ao longo dos anos. Foi o que procurámos fazer, numa abordagem que pode ser dividida em dois momentos: 1) a construção de uma cronologia dos ciberjornais regionais portugueses; e 2) a avaliação do aproveitamento das principais potencialidades da Internet a partir da notícias publicadas (hipertexualidade, multimedialidade e interatividade). É o que apresentamos no capítulo 5. Como o nosso objetivo não era fazer um levantamento exaustivo, limitámo-nos aos média regionais que se publicam com mais frequência no seu meio nativo, isto é, pelo menos uma vez por semana. Seguindo uma das conclusões do estudo da ERC (2010: 325), que refere que “quando mais espaçada é a periodicidade da publicação, menor a probabilidade de possuir página online”, decidimos considerar apenas aquelas que são diárias, trissemanais, bissemanais e semanais. Excluímos, assim, as quinzenais e mensais. Embora consideremos, pontualmente, televisões e nativos digitais, o nosso principal foco é a imprensa regional. Foram identificadas 257 publicações (ERC, email, 19 de janeiro de 2012) 98 , entre quais se contavam jornais, televisões e nativos digitais. Após uma análise às mesmas, encontrámos alguns problemas, nomeadamente relacionados com a classificação das publicações e a sua circulação 99 atual. Assim, identificámos publicações regionais: que não constavam na base de dados enviada pela ERC; que se encontravam classificadas como nacionais e vice-versa; que aparentemente já não seriam publicadas. Com o objetivo de melhorar a fiabilidade da informação, procedemos a contactos adicionais com a ERC e com as publicações em causa. Como meios alternativo, para os casos em que não era possível obter qualquer informação, ou complementar, recorremos ainda a recursos disponíveis online, nomeadamente o grupo Jornalistas no Facebook 100 . Foi ainda contactado o GMCS (email, 14 de dezembro de 2011), com o objetivo de conseguir a lista dos jornais regionais que tinham aderido ao Portal Imprensa Regional desde 2007 (ano de criação), tendo sido identificadas 44 publicações. Dessas, consideramos metade (22), excluindo as que tinham uma periodicidade diferente daquelas que consideramos no presente estudo (diária a semanária). De referir que à exceção de uma, que não constava da lista da ERC, as restantes eram nossas conhecidas. 98 Em 1995 – ano em que a Internet chegou às redações portuguesas – a ERC identifica 231 publicações regionais, com periodicidade de diária a semanária, das quais 63 já não se encontram em circulação. Entre elas encontravam-se algumas emblemáticas, como O Comécio do Porto (cancelamento a 27 de março de 2007), Diário de Beja (15 de janeiro de 2007) ou Diário do Centro (10 de outubro de 2008). 99 Através dos contactos estabelecidos com a ERC, com vários média regionais e locais e de pesquisas próprias, recolhemos indicadores de que a base de dados daquela entidade não se encontraria atualizada. Houve inclusivamente o caso da responsável por uma publicação local, que referiu que num contacto estabelecido com a ERC, em 2011, lhe fora transmitido que a referida entidade ainda estaria a considerar publicações regionais “que já não existiam desde o 25 de Abril [de 1974]”. A dimensão deste tipo de publicações poderá justificar a dificuldade em manter-se atualizado o conhecimento sobre elas. 100 Espaço de acesso restrito/fechado, maioritariamente constituído por jornalistas e com 2822 membros (9 de abril de 2012). Através deste meio foi possível recolher informações sobre a existência ou atual circulação de mais de duas dezenas de jornais regionais. Compilação em http://ciberotinas.wordpress.com/2012/03/26/imprensa-regional-emportugal/. Consultado a 9 abril de 2012.
117 Efetuado o cruzamento de dados enviados pela ERC e o GMCS, chegámos a um total de 271 publicações regionais. Destas, foram excluídas 36, por já não se encontrarem ativas. Assim, foram consideradas válidas 235 publicações: 199 jornais (84,7%), 28 nativos digitais (11,9%) e 8 TV's na Web (3,4%). Como nos interessa particularmente a imprensa, procedemos a pesquisas e contactos adicionais – junto de jornalistas que trabalham em meios regionais – que nos levaram a identificar 175 domínios de ciberjornais regionais ativos, aqueles que considerámos numa análise comparativa e com a qual concluímos o estudo prévio. 4.1.1. Levantamento cronológico Quando é que os ciberjornais regionais portugueses foram criados? E quando é que começaram a disponibilizar conteúdos? Se já era conhecida uma cronologia do registo de domínios na Internet dos principais média portugueses (Granado, 2002; Bastos, 2010), que incluía ainda as datas em que os respetivos cibermeios tinham sido criados e começado a disponibilizar conteúdos, o mesmo não se podia dizer em relação aos média regionais – um trabalho iniciado por António Granado e atualizado por Helder Bastos. Embora os autores tivessem feito alguns apontamentos pontuais sobre os média regionais, a realidade é que sobre eles pairava o quase desconhecido. A quantidade de publicações, que ao longo dos anos andou sempre próxima de um milhar 101 , dificultava a tarefa. Para procedermos ao levantamento cronológico apresentavam-se-nos duas opções: contactar todas publicações ou procurar uma forma que permitisse recolher as evidências pretendidas. Se, por um lado, a primeira se apresentava como morosa, por outro, não era esse o principal objetivo da tese. Igualmente pertinente era a experiência que já tínhamos de um estudo exploratório (Jerónimo, 2011e), no qual a quase maioria dos responsáveis pelas publicações contactadas revelava desconhecer as datas de criação de domínios e dos respetivos cibermeios. Alguns, porém, lembravam-se do ano e outros até do mês, mas nada mais do que isso 102 . Decidimos, então, procurar alternativas. Elas surgem-nos através de dois serviços disponíveis online: Dominios.pt, para o registo de domínios, que permite identificar as respetivas datas de criação e expiração (Figura 12), e Archive.org, considerado o arquivo da Internet 103 , que permite acompanhar a evolução de determinado cibermeio, desde a sua criação ou desde 1996 (Figura 13). Estas etapas foram complementadas com pesquisas no motor de busca Google e no Facebook (grupo de Jornalistas). 101 No final de 2009 eram 728 o número de publicações registadas na ERC (2010). Três anos volvidos, isto é, no final de 2012, esse valor ascendeu às 1055 – 19 estavam como “provisórias” (ERC, email, 2 de janeiro 2013). 102 No decorrer do desenvolvimento da tese apercebemo-nos, a partir de outros contactos entretanto estabelecidos, que a data de fundação das publicações é praticamente o único registo existente. No caso da imprensa regional, por exemplo, o mais frequente é comemorar-se a fundação do meio (papel). Quanto aos respetivos cibermeios, não encontramos o mesmo procedimento. 103 “Browse through over 240 billion web pages archived from 1996 to a few months ago. To start surfing the Wayback, type in the web address of a site or page where you would like to start, and press enter. Then select from the archived dates available. The resulting pages point to other archived pages at as close a date as possible. Keyword searching is not currently supported.” Disponível em http://archive.org/. Consultado a 26 de maio de 2011.
118 Figura 12: Exemplo do registo do domínio de um cibermeio Fonte: Captura em Dominios.pt Há, porém, diferenças substanciais em relação à precisão de ambos. Se em Dominios.pt é possível ter a data exata de registo, já em Archive.org a primeira data disponível não significa necessariamente a da criação do cibermeio, mas a mais aproximada possível. Nestes casos, apenas é possível apurar, com rigor, o ano. Ainda assim, trata-se de um serviço extremamente útil para acompanhar o percurso dos cibermeios ao longo dos anos, independentemente de estarem atualmente ativos. Neste caso, partimos dos que estão. Figura 13: Exemplo da evolução de um cibermeio Fonte: Captura em Archive.org Importa sublinhar que se procuram evidências da criação de domínios e cibermeios, o que em muitos casos pode não significar que se chegue à data exata. É frequente, na imprensa regional, que a presença na Web seja feita ou tenha começado através de um blogue, ou seja, num serviço de alojamento externo (por exemplo Wordpress ou Blogger). O mesmo poderemos dizer em relação a outros serviços igualmente externos às entidades proprietárias dos jornais regionais (por exemplo GeoCites ou Wix) e que também permitem a criação e personalização de presenças na Web. Por conseguinte, admitimos que nos podem escapar casos em que isso ocorra/tenha ocorrido. Se um cibermeio iniciou a sua transição para a Internet em NomeDoJornal.wordpress.com e atualmente se encontra em NomeDoJornal.pt, só recolhendo informações junto dos respetivos proprietários ou redações é que poderemos saber exatamente quando e onde é que essa transição foi iniciada. As opções que aqui adotamos permitem-nos, por isso, saber apenas com rigor a data de criação dos domínios próprios (dia/mês/ano), enquanto que a dos cibermeios só em parte (ano). 4.1.2. Avaliação do aproveitamento das potencialidades da Internet Os principais “sites noticiosos” portugueses aproveitam pouco as potencialidades da Internet. A conclusão é comum a vários estudos (Zamith, 2008, 2011; ObCiber, 2009, 2010 104 ), 104 Disponível em http://obciber.wordpress.com/estatisticas/. Consultado a 26 de maio de 2011.
119 nos quais tem sido aplicada uma grelha de análise, inicialmente desenvolvida por Tanjev Schultz (1999), para estudar a interatividade. Entretanto, outros estudos foram seguindo a mesma abordagem, atualizando-a com a introdução de novas potencialidades. Fernando Zamith (2008: 44-57) compila-os e atualiza a referida grelha, que passa a considerar a instantaneidade, a hipertextualidade, a multimedialidade, a ubiquidade, a memória, a personalização e a criatividade – a explicitação mais detalhada sobre esta abordagem será feita mais adiante (sub-capítulo 4.2.1.). Para além de permitir uma avaliação ao aproveitamento das potencialidades da Internet em qualquer cibermeio, a aplicação deste grelha permite efetuar estudos comparativos e/ou comparar o resultado de diferentes estudos. Interessavanos fazê-lo aos de âmbito regional, algo que foi possível num estudo exploratório (Jerónimo, 2011c) – já conhecíamos um estudo de casos (Couto, 2010). Efetuado o levantamento do universo de ciberjornais regionais, que no seu meio nativo se publicam pelo menos uma vez por semana, passámos à avaliação do aproveitamento das principais potencialidades da Internet. Os indicadores que tínhamos apontavam para um número elevado (ERC, 2010), pelo que se nos apresentavam quatro dilemas: analisar ou não todos os ciberjornais regionais apurados; aplicar ou não a grelha de análise; se sim, qual delas; e a que períodos. Se, por um lado, tínhamos presente que o objetivo principal da presente tese era o estudo das rotinas de produção do ciberjornalismo de proximidade, por outro, reconhecíamos que dada a escassez de estudos neste campo, precisávamos de indicadores que nos ajudassem a começar a conhecê-lo, de modo a podermos enquadrar os casos estudados num contexto mais geral. Não se trata de fazer extrapolações, mas de começar a compreender qual é a cultura do ciberjornalismo de proximidade em Portugal, que por sua vez poderá ter implicações nas rotinas dos três casos particulares em estudo. Tendo ainda presente o estudo sobre evolução do ciberjornalismo em Portugal (Bastos, 2010), optámos por considerar apenas os ciberjornais criados até ao ano 2000, isto é, coincidentes com o período de “expansão ou de boom” (idem: 39-45); aplicar a grelha de análise; definir uma que permitisse avaliar as principais potencialidades da Internet, sendo esta mais curta que as versões de Zamith (2008, 2009 105 ), porém, mais alargada que a de Schultz; e aplicar a grelha em dois períodos: origem e atualidade, isto é, versões originais (1995-2000) e atuais. Para a construção da grelha de análise, foram assim consideradas a interatividade, a hipertextualidade e a multimedialidade, a quem foram atribuídos pontos: máximo de 4, 1 e 5, respetivamente (Figura 14). Falamos daquelas que são reconhecidas como as principais potencialidades da Internet para o ciberjornalismo (Salaverría, 2005; Bastos, 2012) e cujo aproveitamento pretendíamos comparar, em períodos distintos. 105 Versão facultada pelo autor e que foi posteriormente apresentada num congresso em Espanha: ZAMITH, F. (2010) Mudanças na adaptação dos media à Internet. In URETA, A.L. y AYERDI, K.M. (Eds.) Atas del II Congreso Internacional de Ciberperiodismo y web 2.0, Universidad del País Vasco.
120 Figura 14: Grelha de análise do aproveitamento das principais potencialidades da Internet Interatividade Pontos (possíveis: 4) Email ou formulário de contacto genéricos 1 Email ou formulário de contacto de todos os jornalistas 2 Outra forma de contacto genérica (fórums, redes sociais) 1 Outra forma de contacto individual (editor, jornalista) 2 Hipertextualidade Pontos (possíveis: 1) Presença de hipertexto 1 Multimedialidade Pontos (possíveis: 5) Fotografias ou imagens 1 Galeria fotográfica 2 Infografia 1 Áudio 1 Vídeo 1 Fonte: Elaboração própria Tivemos em consideração o fato das primeiras versões dos cibermeios serem significativamente diferentes das atuais, relativamente aos recursos disponíveis. No caso da interatividade, por exemplo, na origem ainda não existiam redes sociais ou até espaços para comentários, porém, alguns cibermeios tinham fóruns. Embora estejamos a falar de espaços com potencialidades distintas, em comum tinham o fato de serem uma forma de contacto com os cibermeios – o Facebook, por exemplo, permite o contacto imediato (chat). Neste caso, interessava-nos explorar a potencialidade como meio de contacto entre os utilizadores e os cibermeios, isto é, a possibilidade de comunicação, mediada por plataformas digitais. A presença de emails ou formulários poderia estar junto às notícias publicadas ou em outro local visível. No caso da hipertextualidade, considerámos a presença simples de hipertexto nas notícias. Por fim, em relação à multimedialidade, considerámos a presença de imagens estáticas ou dinâmicas (fotografias, vídeos ou infografias), áudio e vídeo. Como referimos, não era nossa intenção efetuar uma análise de todas as potencialidades, em todos os ciberjornais e ao longo de todo o período (da origem à atualidade). Há autores que se têm debruçado sobre o assunto, inclusivamente com estudos em ciberjornais regionais portugueses (Couto, 2010; Jerónimo, 2011c; Posse, 2011). Antes, pretendíamos tentar identificar eventuais alterações decorridas entre dois extremos. Assim, sendo este um primeiro olhar sobre o passado e o presente dos ciberjornais regionais, escolhemos dois períodos (1995-2000 e 2012), com a grelha a ser aplicada a 13 de abril de 2012. A opção pelo primeiro intervalo prende-se ainda com o fato de já termos encontrado indicadores sobre a existência de ciberjornais regionais nessa época (Granado, 2002; Bastos, 2010; Jerónimo, 2010a). Alargar o intervalo inicial seria não só fugir do nosso objetivo principal, como também aumentar a probabilidade de desfasamento de resultados.
127 acontecimentos. Temos, pois, dois extremos da vivência de um povo, sendo a do etnógrafo sempre a menos imersa. “O investigador é um ator social que é reconhecido como competente nos 'saberes-pensar de fora', mas, ao mesmo tempo, mostra ser incompetente nos 'saberesfazer de dentro'” (Caria, 2005: 13). A triangulação de métodos tem sido uma abordagem utilizada para ajudar a suprimir as fraquezas de um ou outro. É o que acontece no campo do ciberjornalismo, em que os investigadores, independentemente da sua experiência de observação, complementam os seus estudos com entrevistas, inquéritos e análise de conteúdos ou documental. Se as rotinas do jornalismo envolvem o cruzamento de informação, para se tentar apurar os fatos com o máximo de rigor, o mesmo sucede no campo científico. Nestes casos de estudos em redações, a triangulação de métodos permite-nos ir do dito ao feito. Uma coisa é a perceção dos jornalistas e as construções “teóricas” que vão fazendo sobre o jornalismo, outra o que efetivamente fazem e representam no seu contexto profissional. Para Herbet J. Gans (1999: 540) o problema de outros métodos de investigação é que se debruçam sobre o que as pessoas dizem sobre aquilo que fazem – as entrevistas e inquéritos são disso exemplo. A partilha do mesmo quotidiano por parte do investigador, inserido num determinado grupo, pode ocorrer a vários níveis. Embora as designações mais frequentes sejam observação participante ou não-participante, Janet Cramer e Michael McDevitt (2004) – numa compilação de propostas de alguns autores – dividem-nos em quatro: participante integral (o investigador faz parte do grupo ou cultura, sem que os seus membros se apercebam disso), participante como observador (assume os papéis dos membros do grupo, porém, estes têm conhecimento de que estão a ser estudados), observador como participante (a sua prioridade é a observação, podendo no entanto ter algum nível de participação) ou observador integral (apenas observa o grupo, no qual está misturado ou escondido, sendo desconhecido daquele). No nosso caso, assumiremos o papel de observador como participante. Embora a prioridade seja a observação, não podemos rejeitar, à partida, qualquer nível de envolvimento. “All social research is a form of participant observation, because we cannot study the social world without being part of it” (Hammersley e Atkinson, 1983). Também Luís A. Santos (2011: 143) alerta para o fato da simples presença do investigador no seio do grupo ter implicações nele. Afinal de contas, ele é sempre um elemento estranho àquele ethos, naquele determinado período, mesmo que até seja conhecido pelos seus membros ou pertença à mesma tribo (pode ser jornalista) ou já tenha sido um membro daquele grupo (pode ter trabalhado naquela redação). Face ao exposto, importa sublinhar que nesta tese o investigador vem da mesma “tribo”, de outro ethos e que é conhecido pelos membros de uma das três redações do estudo. Para Chris Paterson (2004), a principal dificuldade é garantir o acesso às redações. Elas são consideradas como que espaços sagrados para os jornalistas, onde presenças estranhas não são permitidas. “Contrary to local populations, media organizations have clear and physical borders that have to be transgressed in order to do fieldwork” (Puijk, 2004). Uma dificuldade que pode ser ultrapassada, como já referimos, quando os investigadores pertencem ou já pertenceram à mesma tribo (Domingo, 2006; Santos, 2011). Também a gestão dos
128 momentos de acesso às redações, para além da permissão inicial, é determinante para a persecução dos estudos etnográficos. Essa permissão não garante, porém, ao investigador que possa cumprir à risca o seu cronograma, pois a qualquer momento podem surgir situações que o obriguem a preoceder a adiamentos ou interrupções. Os contextos de observação estão fora da sua “jurisdição”, portanto, ele estará sempre dependente de terceiros, sendo para isso necessária uma disponibilidade de negociação permanente. Há ainda outras dificuldades ou fraquezas que se apresentam a este método, para além de potencialidades (Figura 19). Reconhecemos ainda que um estudo sobre rotinas de produção ciberjornalística não deve fechar-se dentro de quatro paredes, na medida em que a massificação dos dispositivos móveis (notebooks, smartphones ou tablets) permite que as redações sejam itinerantes, isto é, estão onde estão os jornalistas. Existe, na generalidade dos casos, um espaço físico, porém, há meios que têm correspondentes em determinados territórios – como acontece nos três casos de estudo – e que raramente se deslocam à redação, trabalhando a partir deles. Ainda assim, importa sublinhar que as observações feitas decorreram nas redações-sede. Figura 19: Pontencialidades e fraquezas dos estudos etnográficos no campo do ciberjornalismo Potencialidades Fraquezas - Permite recolher uma grande quantidade de dados e em primeira-mão; - É possível testemunhar ao vivo os acontecimentos, rotinas e definições sociais relacionadas com a tecnologia; - Pode permitir a recolha de pontos de vista a partir do terreno, sobretudo se o investigador conseguir ganhar a confiança de alguns atores; - É possível testemunhar momentos de confllito e acompanhar processos de evolução; - As entrevistas e conversas com os atores representam momentos únicos e raros de reflexão sobre a profissão, o saber/como fazer – são escassos, considerando as rotinas e ritmo nas redações; - Permite uma melhor compreensão sobre o uso social da tecnologia e os fatores que envolvem a sua construção (a perceção de outros atores é particularmente relevante neste processo, para o investigador). - O acesso às redações é determinante e não é controlado pelo investigador; - Os custos e o tempo necessário são elevados; - É desgastante para o investigador, pela concentração permanente que lhe exige; - A presença do investigador pode perturbar os atores e influenciar os dados; - Nem sempre é possível registar tudo o que é testemunhado; - Os atores podem pedir para não serem citados em informações que confidenciam; - A generalização ou extrapolação de dados não é recomendável; - O investigador deve ser particularmente cauteloso e refletir permanentemente sobre aquilo que faz, sob pena dos seus preconceitos ou pré-conceitos influenciarem negativamente o estudo. Fonte: Elaboração própria, com Paterson (2008: 5) Numa fase inicial considerámos a hipótese de estudar as “redações online” – não era expectável que existissem espaços dedicados em exclusivo à produção para cibermeios – do Diário As Beiras (Coimbra) e dos semanários Região de Leiria (Leiria), Reconquista (Castelo Branco) e O Mirante (Santarém). Porém, devido a mudanças estruturais entretanto ocorridas e por ser de diferente periodicidade em relação aos restantes, abandonámos o primeiro caso. Assim, os primeiros contactos com os três casos de estudo iniciaram-se a 9 de setembro de 2010. Os objetivos e a operacionalização do estudo foram expostos, resumidamente, aos respetivos diretores, por email. Era nossa intenção proceder à observação durante os meses de abril a novembro de 2011, em blocos de 4 horas (manhãs ou tardes), ao longo de duas semanas consecutivas (total de 40 horas), à semelhança do que fizera David Domingo (2006). Porém, após revisão bibliográfica e discussão com o orientador, entendemos que seria pertinente que os períodos de observação não fossem interrompidos, isto é, que ela
129 decorresse de forma consecutiva e não em blocos. Esta opção permitia-nos uma imersão maior nos contextos, ritmos e rotinas diárias dos jornalistas. Quanto à observação propriamente dita, teve que ser negociada ao longo do tempo. Em dois casos a permissão inicial para entrar nas redações demorou alguns meses e, posteriormente, tivemos que adiar, por duas vezes, o período de observação, a pedido dos responsáveis. Posto isto, as visitas às redações ocorrem ao longo de cerca de 18 meses (13 de janeiro de 2011 a 29 de junho de 2012), divididas em três períodos: dois de um dia cada e um de duas semanas (10 dias). Os primeiros momentos tiveram por objetivo contactar pessoalmente com os responsáveis dos jornais, jornalistas, redações, efetuar pesquisas nos respetivos arquivos, bem como efetuar uma primeira observação exploratória (um dia) – entrevistámos ainda os jornalistas responsáveis pela gestão dos cibermeios e redes sociais online em cada redação (García de Torres et al., 2011a, 2011b; Jerónimo, 2011). O último momento foi o mais intensivo e decorreu ao longo de duas semanas consecutivas, de segunda a sexta-feira (Figura 20) – exceto no Reconquista, devido a um feriado nacional (7 de junho). Os primeiros contactos serviram ainda para darmos conta a todos os atores que seriamos cautelosos no processo de observação e que seria salvaguardada a identidade dos mesmos. Reconhecendo os problemas éticos que esta abordagem implica, entendemos que seria necessário reforçar essa informação pessoalmente, já depois de o termos feito no primeiro contacto, com os diretores – solicitámos-lhes que o transmitissem às redações. Assim, todas as referências e citações seriam atribuídas ao “jornalista com cargo de chefia A, B, C...” ou “jornalista A, B, C...”. Entendemos que ao assumir este compromisso, seguido noutros estudos etnográficos no campo do ciberjornalismo, estariamos a transmitir um primeiro sinal de confiança. Ao estabelecer-se, ela poderia ter como retorno para o investigador, tal como veio a acontecer em dois casos, a transmissão de informações delicadas, do foro laboral ou profissional. Isso poderia ajudar a revelar algumas “barreiras invisíveis” das redações. Figura 20: Períodos de observação participante Maio de 2012 Junho de 2012 2.ª 3.ª 4.ª 5.ª 6.ª S. D. 2.ª 3.ª 4.ª 5.ª 6.ª S. D. 1 2 3 4 5 6 1 2 3 7 8 9 10 11 12 13 4 5 6 7 8 9 10 14 15 16 17 18 19 20 11 12 13 14 15 16 17 21 22 23 24 25 26 27 18 19 20 21 22 23 24 28 29 30 31 25 26 27 28 29 30 O Mirante . Reconquista . Região de Leiria Os ciclos de observação nas redações decorreram entre as 10h00 e as 19h00 – em alguns momentos, como os dias de fecho das edições em papel, esse período prolongou-se até mais tarde. Regra geral, à nossa chegada já havia alguém na redação, fosse um jornalista ou um gráfico. Os dias após o fecho das edições em papel, eram sempre calmos nas três redações. Sobretudo as manhãs, período em que a presença de jornalistas era pouco frequente – geralmente um ou dois, isto é, chefias ou jornalistas com funções de coordenação. Procurámos que o nosso posicionamento na redação fosse sempre junto aos jornalistas responsáveis pela gestão dos ciberjornais e redes sociais. Em todas elas havia
130 ainda mais um ou dois jornalistas que podiam assumir essa tarefa e, quando tal era necessário, também estivemos junto deles. Embora não existisse um cargo formal ou até mesmo qualquer referência na ficha técnica dos (ciber)jornais, a realidade é que nas redações todos os jornalistas sabiam quem era o responsável ou coordenador do online. Porém, isso nem sempre foi possível, sobretudo devido ao espaço existente na redação e à disposição dos jornalistas. Numa delas foi possível estar lado-a-lado com o observado, enquanto que nas restantes ficámos frente a frente. Nestes dois casos, a observação permanente foi dificultada, pois implicava que tivéssemos que nos levantar com frequência e que observação fosse feita por cima dos ombros dos jornalistas – dependendo dos momentos, o processo de observação foi feito sentado ou de pé, junto a eles. Uma situação que raramente lhes foi confortável. Não só para os gestores dos ciberjornais e redes sociais online, mas também para outros membros da redação, como os dos departamentos gráficos ou multimédia. No processo de observação usámos um computador pessoal e portátil, com ligação à Internet, que nos três casos foi prontamente disponibilizada. A partir dele íamos fazendo em simultâneo observação online, isto é, acompanhando o que era publicado nos ciberjornais e nas redes sociais – não só nas contas oficiais dos meios, mas também nas dos jornalistas. Este método de observação online a partir da redação é particularmente útil, pois permite um acompanhamento permanente da produção noticiosa. Serve ainda de alerta ao investigador, para que este saiba quais são os momentos mais oportunos para complementar a sua observação junto dos (ciber)jornalistas 109 . No decorrer da presença nas redações foram ainda tiradas notas no diário de campo, realizadas entrevistas e conversas informais, tanto no lugar da observação como no exterior. Neste último caso, aproveitámos as pausas para almoço para as partilhar com os jornalistas, sempre que tal era possível. Elas possibilitavam um diálogo informal e em ambientes mais descontraídos, o que nos permitiu recolher informações que dificilmente seriam possíveis em ambiente laboral. Como defende o antropólogo Ricardo Vieira 110 , os observados são “coinvestigadores”, pois também refletem sobre o objeto de estudo, sendo que neste caso a reflexão era potenciada fora do contexto laboral. As reuniões de redação só se verificaram em dois dos três casos estudados, sendo que só nos foi possível participar num deles – a iniciativa partiu da direção do respetivo meio. Este foi um momento único e previligiado para o estudo, pois permitiu ao investigador conhecer como é feito o alinhamento noticioso naquele contexto. Nessa redação, onde as reuniões ocorrem todas as semanas – à quinta-feira, dia após o fecho da edição semanal do jornal – e envolvendo todos os jornalistas, pudemos participar em duas delas, no decurso da observação participante. Na outra as reuniões não são tão frequentes e regulares. Geralmente envolvem os jornalistas com cargos de chefia e só esporadicamente com toda a redação – uma ou duas 109 Esta problematização surgiu-nos a partir das primeiras visitas às redações. O nosso percurso anterior como membros da “tribo” de jornalistas, alertava-nos para o fato de existir algum desconforto sempre que elementos estranhos à redação estivessem a acompanhar a produção noticiosa. Foi o que verificámos nos primeiros momentos do estudo etnorgráfico. Assim, decidimos dosear os momentos de observação junto dos (ciber)jornalistas, tendo encontrado na observação online a partir da redação um complemento ao nosso estudo. 110 No decorrer da discussão do projeto desta tese, no Seminário do Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s), Instituto Politécnico de Leiria, 3 de junho de 2011.
131 vezes por mês. Um dos grandes desafios desta fase do estudo foi exigir ao investigador que se abstivesse de expressar, de forma verbal ou não verbal, qualquer opinião pessoal. Assumimos assim como regra a pura observação, limitando-nos a intervir apenas para questionar ou quando fossemos interpelados. Aconteceu, porém, que numa das redações nos foi solicitada, em diversas ocasiões, a opinião em relação a determinadas opções gráficas ou de títulos. Neste caso entendemos fazê-lo numa perspetiva de colaboração, pois referia-se à edição em papel e, por isso, o nosso contributo não iria influenciar o estudo. O fato de sermos um membro da “tribo”, isto é, um jornalista com a atividade suspensa 111 ; de conhecermos alguns dos atores em estudo, devido à partilha de territórios comuns; e de termos vivências num ethos semelhante, isto é, a redação de um jornal de inspiração cristã, acabaram por facilitar-nos o acesso às redações em estudo, por um lado, e de conhecer as rotinas da profissão, por outro. Ainda assim, encarámos os três momentos de observação como um percurso rumo ao desconhecido. O fato de nunca termos entrado em qualquer uma das três redações, mobilizava o interesse em querer estudá-las. O processo de observação era ainda desafiador pois implicava que estivéssemos atentos não só aos atores considerados inicialmente, como outros que surgissem no decurso do mesmo. São também eles “informantes-chave” (Rubio, 1995), para ajudarem a compreender aquilo que outos atores fazem, como fazem e em que contextos. Foi o que aconteceu em dois casos, com atores exteriores às redações. Um deles ajudou-nos a conhecer como se iniciou o processo de transição de um dos jornais para a Internet, tendo sido ainda um ator-chave na criação do respetivo cibermeio, enquanto que outro falou-nos da evolução da imprensa regional num dos territórios estudados. 4.2.4. Entrevistas A possibilidade de questionar frente a frente é a principal mais-valia deste método. Inserido num contexto de estudo qualitativo, a entrevista é o ato de conversar com um determinado propósito (Burgess, 1984: 102) – um deles pode ser a reconstituição histórica, sendo a análise documental outro método usado nesse processo. A entrevista tem ainda a particularidade de permitir a comunicação não verbal, tanto da parte do entrevistador, como do entrevistado. É, por isso, dos métodos mais exigentes. Para o entrevistador, de quem se espera uma postura o mais neutra possível, de modo a não influenciar as respostas, e para o entrevistado, que é sujeito a uma situação de exposição perante um estranho, em que o seu tom de voz, eventuais tiques, hesitações, pausas ou dispersões nas respostas, podem determinar o seu conforto e disponibilidade – o mesmo poderá acontecer com o entrevistador, enquanto questiona ou escuta. Se por um lado estas particularidades podem apresentar-se como eventuais fragilidades, por outro, são precisamente elas que enriquecem o método, pois permite uma aproximação ao mais genuíno de cada um dos atores envolvidos na entrevista. 111 No decurso da tese o investigador esteve um período afastado da prática do jornalismo, atividade que exercia.
132 Por outro lado, poderá acontecer, em alguns casos, que a entrevista não se apresente como uma problemática, quando este é um método utilizado por ambas as partes. É o que acontece quando de um lado está um investigador e do outro um jornalista. Para além de possibilitarem uma análise mais aprofundada sobre o objeto de estudo, as entrevistas são frequentemente usadas em estudos de caso(s) e em fases exploratórias. E são vários os tipos de entrevistas que podemos encontrar em manuais sobre de estudos qualitativos 112 . Na presente tese adotamos as semiestruturadas, isto é, partimos de questões abertas e previamente estabelecidas, mantendo porém a flexibilidade de no decorrer das entrevistas alterar a sua ordem ou de introduzir novas questões. Regra geral seguiu-se o guião de entrevista. Contrariamente aos inquéritos ou questionários, as entrevistas permitem uma abertura maior, isto é, o entrevistado tem geralmente mais espaço e mais tempo para ser autocrítico, refletir sobre determinado assunto e expressar a sua opinião sobre ele. No seu estudo sobre a produção noticiosa em quatro redações online, David Domingo (2006: 237) destaca precisamente o papel interpretativo que os entrevistados empregam quando questionados sobre questões do seu quotidiano laboral. Isso pode ser reforçado pelo fato deste tipo de entrevista diferir da jornalística, na medida em que é feita uma leitura prévia das questões, permitindo assim um período de reflexão. Permite ainda que durante a mesma ocorram correções ou reformulação de respostas. As entrevistas decorreram entre 25 de fevereiro de 2011 e 16 de julho de 2012, embora o maior fluxo tenha sido nos meses de maio e junho de 2012 – observação nas redações. No total foram 33 os entrevistados, sendo que alguns deles foram questionados em mais do que uma ocasião (Figura 21). Os jornalistas com a responsabilidade de gestão dos ciberjornais e das redes sociais online, são disso exemplo – o primeiro momento ocorreu na fase exploratória (García de Torres et al., 2011a; Jerónimo, 2012a) e o último no final do período de observação nas redações. Na sequência da cronologia dos ciberjornais regionais que tentámos traçar (capítulo 5), deparámo-nos com alguns dados inéditos, nomeadamente, evidências de quem teria sido o primeiro título da imprensa regional portuguesa a iniciar a transição para a Internet. As nossas pesquisas apontavam para o Região de Leiria, que em 2012 comemoraria 15 anos online. Porém, nos últimos dias de 2011 tivemos que atualizar a informação: essa data comemorativa tinha sido uns meses antes. Na mesma altura, soubemos que estava de passagem por Portugal o principal responsável pelo processo de transição daquele meio para a Internet. Daí resultou um novo período de entrevistas, ao próprio e a quem na época estava na redação, que resultaram ainda num pequeno documentário 113 , publicado no ciberjornal. 112 Um exemplo é BURGESS, R.G. (1984) In the field: An introduction to to field research. London: Allen & Unwin. 113 “Há uma rede que nos une há 15 anos”, RegiaoDeLeiria.pt, 30 de dezembro de 2011. Disponível em www.regiaodeleiria.pt/blog/2011/12/30/ha-uma-rede-que-nos-une-ha15-anos/. Consultado a 30 de maio de 2012.
133 Figura 21: Entrevistas realizadas no âmbito da tese Reconquista.pt 06/05/2012 . 05/06/2012 . 02/09/2011 e 08/06/2012 . 01/06/2012 . 31/05/2012 . 31/05/2012 . 02/09/2011 e 08/06/2012 . 02/09/2011 e 05/06/2012 . 31/05/2012 . 05/06/2012 . 29/05/2012 . Vítor Serra, administrador Agostinho Gonçalves Dias, diretor José Júlio da Cruz, sub-diretor (Carteira Profissional 1746) Artur Jorge, jornalista (CP 1745) Cristina Mota Saraiva, jornalista (CP 1701) João Carrega, jornalista (CP 2341) José Furtado, jornalista (CP 5647) e gestor dos meios online Lídia Barata, jornalista (CP 3616) Nelson Ningacho, jornalista (CP 3740) Vítor Tomé, jornalista (CP 2340) Fabião Batista, colaborador e “decano dos jornalistas de Castelo Branco” OMirante.pt 18/05/2012 . 14/06/2012 . 15/09/2011 e 15/05/2012 . 15/09/2011 e 18/05/2012 . 10/05/2012 . 15/05/2012 . 15/05/2012 . 16/05/2012 . 09/05/2012 . 15/05/2012 . 10/05/2012 . Joaquim António Emídio, diretor geral (CP 3637) Alberto Bastos, diretor (CP 2295) João Calhaz, chefe-de-redação (CP 3149) António Palmeiro, chefe-de-redação adjunto (CP 2984) e gestor do online Ana Isabel Borrego, jornalista (CP 7987) Ana Santiago, jornalista (CP 4733) Eduarda Sousa, jornalista (CP TP-1513) Elsa Ribeiro Gonçalves, jornalista (CP 5532) Fernando Vacas de Jesus, jornalista (CP 3712) Filipe Matias, jornalista (CP 8239) Ricardo Carreira, jornalista (CP 5536) RegiaoDeLeiria.pt 22/12/2011 . 16/09/2011, 27/12/2011 e 29/06/2012 . 16/09/2011 e 16/07/2012 . 16/09/2011 e 25/06/2012 . 22/09/2011, 22/12/2011 e 16/07/2012 . 25/02/2011, 16/09/2011 e 29/06/2012 . 27/06/2012 . 16/09/2011 e 27/06/2012 . 22/09/2011 e 28/06/2012 . 16/09/2011 e 22/12/2011 . 26/12/2011 . Francisco Rebelo dos Santos, diretor (CP TE-421) Patrícia Duarte, diretora-executiva (CP 2913) Carlos Almeida, jornalista (CP 2830) Cláudio Garcia, jornalista (CP 5104) Joaquim Dâmaso, fotojornalista (CP 5613) Manuel Leiria, jornalista (CP 4159) e gestor dos meios online Mariana Rodrigues, jornalista estagiária Martine Rainho, jornalista (CP 2609) Marina Guerra, jornalista (CP 8516) Paula Sofia Luz, jornalista (1994-2011) Pedro Brazão Ferreira, engenheiro informático e jornalista (1996-2000) Para além do percurso histórico dos ciberjornais, as entrevistas serviram ainda para conhecer o percurso profissional dos diferentes atores da redação (jornalistas e chefias); as características e diferenças que apontam ao jornalismo praticado nas designadas imprensa regional e imprensa nacional; o papel que reconhecem à Internet nas rotinas de produção da imprensa regional; a forma como constroem as notícias online e as implicações que ocorrem nesse processo, a partir da redação. Grande parte destas questões foi ainda colocada a outros atores, que assumissem o papel de administração. Nestes casos, procurou-se conhecer sobretudo o percurso económico-financeiro das respetivas empresas, bem como as estratégias de gestão de publicidade e de acesso aos ciberjornais. 4.2.5. Análise das redes sociais online O atual modelo de informação, assente nas redes sociais online, tem levado a uma massificação do eu-média e à comunicação mediada por computador. Este paradigma leva inclusivamente ao aparecimento de um quarto modelo de comunicação (Cardoso, 2011). Facebook ou Twitter estão inclusivamente cada vez mais presentes nas rotinas de produção noticiosa, independentemente do meio de distribuição a que se destina. Se numa primeira fase
134 eram os fóruns e os blogues a monopolizar as atenções dos ciberjornalistas, nomeadamente no processo de newsgathering e posteriormente no papel de gatewatching, atualmente são as redes sociais online a fazê-lo. Qualquer utilizador, a título individual ou coletivo (instituições), partilha, reproduz, comenta e dissemina informação. Com a massificação da utilização dessas redes, bem como da cada vez maior penetração dos dispositivos móveis, torna-se inevitável considerá-las no processo de produção ciberjornalística. Embora tenha surgido há cerca de uma década, só nos últimos anos se assistiu a boom da rede social Facebook (2004) e uma consequente mobilização da investigação científica. Mais recente é o Twitter (2006), uma plataforma de microblogging que devido ao seu formato – mensagens de 140 carateres – tem sido particularmente relevante para divulgar notícias de última hora (Hermida, 2010). Embora não pretendamos enumerar todas as redes sociais online, sublinhamos estes dois casos, que têm sido os mais relevantes na produção noticiosa, tendo inclusivamente motivado alguns estudos em redações de meios locais e regionais (García de Torres et al., 2011a, 2011b; Jerónimo, 2012a; Hung et al., 2013). Estudos anteriores, sobre o uso das redes sociais online em jornais e o engajamento destes com os utilizadores, apontam para várias abordagens metodológicas (Honeycutt e Herrig, 2009; Jerónimo e Duarte, 2010; Noguera, 2010). Elvira García de Torres et al. (2011a) 114 fazem uma compilação delas e atualizam-nas, resultando daí o Método OIMED, que aqui seguiremos. Trata-se de uma abordagem que, apesar de ter sido desenvolvida para analisar as publicações feitas nas contas de Facebook e Twitter de meios locais e regionais (Figura 22), pode ser aplicada a outro tipo de meios. À semelhança dos estudos referidos, dedicou-se particular atenção às atividades de conversação ou de pedidos de informação. No que toca ao Twitter, dois tipos de mensagens foram codificadas: para todos os seguidores (followers) e para algum/alguns (@). Relativamente às mensagens no Facebook, elas foram codificadas tendo em conta o número de comentários e “gostos” (likes) recebidos. A resposta ou participação dos meios nas mensagens ou comentários mobilizados pelos utilizadores, nas contas oficiais daqueles nas redes sociais online, foi ainda considerada. Figura 22: Items para análise das publicações no Twitter e no Facebook Título com link (correspondência total) Utilizadores escrevem no mural (Facebook) Título com link para o cibermeio Cibermeio responde aos comentários (Facebook) Título com link para outros sites Outro Título Mensagens enviadas a determinado utilizador (Twitter) RT (Twitter) / Partilhar (Facebook) Título Saudações Saudações Convite à participação/pedido de opinião Pedido de conteúdos ou informações Convite à participação/pedido de opinião incluindo link Outro Pedido de informações ou conteúdos Menções (Twitter) Pedido de informações ou conteúdos incluindo link Link retuitado Oferta de ajuda, informações ou conteúdos Link publicado Oferta de ajuda, informações ou conteúdos incluindo link Comentários em conteúdos Mensagem informal Destinatário Anúncio/Convite para cobertura em direto #FF Anúncio/Convite para cobertura em direto incluindo link Outro Fonte: García de Torres et al. (2011a) A análise das publicações feitas nos perfis ou páginas oficiais dos três meios nas redes 114 Integrámos a equipa de investigadores que estudou 29 meios de nove regiões de países Ibero-Americanos.
135 sociais online decorreram ao longo de duas semanas, em simultâneo com o estudo etnográfico. A observação offline foi assim complementadas com uma observação online, isto é, não só às próprias redações e rotinas dos jornalistas, mas também aos cibermeios e às respetivas representações no Facebook e no Twitter. No decorrer desse período foram apuradas e analisadas um total de 267 mensagens, 34 das quais referentes ao Twitter e 233 ao Facebok – geraram 26 comentários e 662 gostos. Para além das publicações feitas por cada meio nos respetivos perfis ou páginas oficiais, foi ainda considerada a existência de respostas deles às interpelações feitas pelos utilizadores. Elas poderiam ocorrer nos espaços reservados a comentários (Facebook) ou através dos próprios perfis ou páginas, por interpelação direta (via @, no Twitter) – só se consideraram os conteúdos feitos publicamente, isto é, acessiveis a todos os utilizadores e não aqueles que eram feitos no domínio privado (mensagens ou chat, no Facebook; mensagens, no Twitter). O Método OIMED contempla ainda a realização de entrevistas aos gestores de comunidades ou gestores de redes sociais online dos diferentes meios analisados, sendo codificadas segundo as oportunidades que se apresentavam nessas redes para os meios; a avaliação e a gestão feitas por cada um deles; e os benefícios identificados. Embora o referido método tenha sido desenvolvido e aplicado em vários estudos que se debruçaram sobre meios locais e regionais (García de Torres et al., 2011a, 2011b; Jerónimo, 2012a; Hung et al., 2013), a realidade é que pode ser aplicado a meios de outro âmbito geográfico. 4.2.6. Questionários A aplicação de questionários apresenta-se como o método mais adequado quando se pretende recolher a opinião de um número elevado de pessoas. Apresenta-se, assim, como uma alternativa à entrevista, pois permite recolher de forma rápida, sintética e sistematizada, determinadas informações. Realizar entrevistas nestes casos, implicaria um elevado volume de informação, que seria difícil e morosa de tratar. Para além disso, permite o anonimato. Quando partimos para o presente estudo, sabíamos que as entrevistas a realizar não deveriam ultrapassar as três dezenas. Por esse motivo e pelo âmbito do estudo (tese de doutoramento), aparentemente não se justificaria a aplicação de questionários. Porém, havia informações que nos interessava recolher que pela sua natureza (por exemplo relacionadas com a remuneração) poderiam não ser respondidas em entrevista, mas em questionário, sob anonimato. Embora tenhamos garantido a confidencialidade a todos os entrevistados, a realidade é que o investigador é, à partida, um elemento estranho. Se é verdade que quando o mesmo pertence ou já pertenceu à “tripo” isso aproxima o entrevistado do investigador (Domingo, 2006), não é garantido que seja assim em todos os casos – estamos no campo das Ciências Sociais e não das Ciências Exatas. Pretendíamos fazer uma caracterização dos jornalistas, recolhendo dados como o género, idade, habilitações literárias, cargo e tempo na redação, remuneração auferida e se a consideravam adequada ao trabalho desempenhado. Entendíamos que esta última variável
136 poderia ser determinante ao nível da motivação dos jornalistas. Considerando-a juntamente com as notas da observação participante, ajudar-nos-iam a compreender se ela poderia ter implicações nas rotinas de produção. A aplicação dos questionários foi feita sob anonimato e nos últimos dias de presença nas redações. No penúltimo os mesmos eram distribuídos pelos elementos da redação (jornalistas e chefias), onde era disponibilizada uma urna de voto. A exceção foi um dos casos em que o dia de fecho de edição era aquele em que se reuniam todos os jornalistas. Só no final de todos os questionários estarem depositados é que os mesmos eram retirados.
239 praticamente feito em meios locais e regionais, não são menos críticos. “De um modo geral é um jornalismo pouco atrativo, pouco crítico e, nalguns casos, até mal escrito” (Jornalista A, entrevista, 14 de maio de 2012). Reconhece, contudo, que não é assim em todas as redações. “Geralmente essas exceções são ditadas mais pela qualidade de um ou outro jornalista” (idem). Outro fator é a “profissionalização das redações” (Jornalista B, entrevista, 15 de setembro), também referido como raro entre a imprensa regional em Portugal. É precisamente nesses casos que o jornalismo de proximidade é apontado como sendo “cada vez mais responsável, cada vez mais exigente e de maior qualidade” (Jornalista I, entrevista, 15 de setembro de 2011). Ainda assim, ele varia de redação para redação. “Não é um jornalismo todo ao mesmo nível, com as mesmas características” (Jornalista D, entrevista, 10 de maio de 2012). A proximidade repete-se no discurso dos jornalistas, quando questionados sobre as diferenças que identificam entre o jornalismo que é praticado na imprensa regional e na imprensa nacional. Se em alguns casos essa construção resulta da perceção que têm, noutros ela surge das vivências em redações de meios de diferentes âmbitos geográficos. Na imprensa regional o jornalismo é feito “para a população, para a comunidade” (Jornalista F, entrevista, 15 de maio de 2012). O recurso que se faz às fontes de informação é apontado pela jornalista como uma das diferenças mais significativas. Comparando as rotinas de produção no diário nacional onde fez estágio, com aqueles que desenvolve no semanário regional, refere que no primeiro caso “as fontes são sempre as mesmas”, enquanto que no segundo “consegue-se variar mais as fontes” (idem). Ainda no campo das fontes de informação, há quem refira que as notícias publicadas na imprensa regional servem para alimentar a produção jornalística de meios com maior abrangência. “Os jornais nacionais, as televisões picam o nosso site, picam o nosso jornal” (Jornalista E, entrevista, 10 de maio de 2012). O fator proximidade às populações por parte dos jornalistas que trabalham na imprensa regional, por um lado, e as estratégias ou a falta de recursos para os meios nacionais terem jornalistas em determinados locais, por outro, podem contribuir para que o acompanhamento noticioso seja feito, em alguns casos, à distância. Usando como termo de comparação O Mirante, há quem considere que “nós trabalhamos muito mais do que os jornalistas de televisão ou dos órgãos de comunicação nacional” (Jornalista C, entrevista, 16 de maio de 2012). Uma afirmação que é prontamente justificada: “Já me foi dito por uma pessoa da redaçcão de um jornal [nacional]”, refere a jornalista, acrescentando ainda que desde o aparecimento de OMirante.pt que a produção na redação passou a ser diária. Da revisão feita anteriormente (sub-capítulo 3.2.1.), emerge uma tese, que partilhamos: em Portugal não existe uma imprensa verdadeiramente nacional, isto é, que pela sua produção noticiosa e pela sua distribuição, envolva todo o território e respetivas comunidades. O mesmo é corroborado por alguns dos jornalistas entrevistados. “Os jornais de implantação nacional assumidamente viram-se para dentro, estão ali virados para aquele núcleo (…) Pode-se falar no centralismo de Lisboa” (Jornalista D, entrevista, 10 de maio de 2012). Quem também partilha da mesma opinião é um dos jornalistas mais antigos na profissão e na redação, onde ocupa um cargo de chefia. “Não considero que esses jornais [nacionais] façam jornalismo no
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