Análise técnico-económica de um aproveitamento hidroelétrico baixo sabor
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FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Análise Técnico-Económica de um Aproveitamento Hidroelétrico Baixo Sabor Carolina Figueira Gaifém da Silva Mestrado Integrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores Orientador: Professor Doutor António Carlos Sepúlveda Machado e Moura 19 de Fevereiro de 2014
c Carolina Figueira Gaifém da Silva, 2014
Resumo Devido ao desenvolvimento global, verifica-se uma crescente emissão deCO2, provocando assim variadas alterações climatéricas. Em Portugal, vem-se tentando reestruturar o parque electroprodutor, através de novos centros hídricos respondendo assim às metas ambientais estabelecidas. De forma a reaproveitar este paradigma, a EDP investiu em novos aproveitamentos hidroelétricos, na Bacia Hidrográfica do Douro, como por exemplo, o Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor (AHBS). Nesta dissertação é estudado o AHBS, através de uma análise técnica e de uma avaliação económica, considerando as regras de funcionamento do mercado de eletricidade para a venda de energia elétrica e ainda os serviços de sistema que poderá fornecer. A caracterização técnica das estruturas civis e equipamentos instalados permitirá uma melhor compreensão do funcionamento geral do AHBS, reversível, nos modos de funcionamento em turbinamento e bombagem. Através do planeamento do projeto e dos investimentos, pagamentos e recebimentos durante as fases de construção e de exploração será feita uma avaliação económica do projeto, considerando aspetos quantitativos e qualitativos. Maioritariamente, quando se obtém uma Taxa Interna de Rentabilidade (TIR) superior ao retorno exigido pelos investidores, Weighted Average Cost of Capital (WACC), considera-se o projeto como economicamente viável e o investimento é aprovado. Os aspetos qualitativos, como o desenvolvimento regional e os aspetos socioeconómicos da região afetada, serão também considerados de forma a viabilizar o investimento. Palavras-chave: Aproveitamento Hiroelétrico Baixo Sabor, Análise Técnica, Avaliação Económica, Reversível, TIR, WACC i
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Abstract Due to global development, it is possible to observe a growing emission of CO2gases, which has lead to several climate changes. In Portugal, there has been an attempt to restructive the eletroproductive park, through the usage of hydric centres, therefore addressing the goals environmental established. In order to take advantage of these dichotomies, EDP, invested in new Hydro-electric centrals, in Bacia Hidrográfica do Douro, the Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor (AHBS) is an example of such a case. Through a technical analysis and economical evaluation, this dissertation explores the AHBS, the considering electricity functions and rules for sale of electric energy, as well as the system services which might be offered. The technical characterization of civil structures and installed equipments will allow for a better understanding of the general functioning of AHBS, reversible in the functioning methods of pumping and turbo-charging. Through project planning and investments payments and wages throughout the different phases of construction and exploring, an economical evaluation of the project will take place, considering both qualitative as well as quantitative aspects. In most cases, when the Internal Rate of Return (IRR) is greater than the Weighted Average Cost of Capital (WACC),the investment is considered feasible and therefore approved. The qualitative aspects, such as regional development and socio-economical background of the region in question, will also be considered in order for the investment to be possible and viable. Key-Words: Aproveitamento Hiroelétrico Baixo Sabor, Technical Analysis, Economical Evaluation , Reversible, IRR, WACC iii
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Agradecimentos Aos meus familiares, irmão e, em especial, aos meus pais que sempre me apoiaram e sempre fizeram de tudo para que nada me faltasse até agora. Ao Prof. Dr. António Machado e Moura, pelo seu apoio, incentivo, dedicação e simpatia demonstrada durante o meu percurso académico, em especial neste último semestre. À EDP Gestão de Produção pelo apoio á realização deste trabalho, cedendo toda a informação que necessitava. Ao Engenheiro José Carlos Sousa pela sua disponibilidade, simpatia e apoio durante todo o trabalho. A sua ajuda foi fundamental, assim como os seus conselhos. À Engenheira Ana Carvalho Martins pelos seus esclarecimentos, relativos à obra do Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor. Aos meus amigos que estiveram sempre presentes ao longo destes anos, que me proporcionaram bons momentos, dentro e fora da Faculdade, um obrigado. Um especial agradecimento ao Diogo Meira pelo seu apoio incondicional e companheirismo. v
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Lista de Tabelas 2.1 Aproveitamentos hidroelétricos construídos na década de 50 [1] . . . . . . . . . 7 2.2 Aproveitamentos hidroelétricos construídos na década de 60 [1] . . . . . . . . . 8 2.3 Aproveitamentos hidroelétricos construídos na década de 70 e 80 [1] . . . . . . . 8 2.4 Aproveitamentos hidroelétricos construídos na década de 90 [1] . . . . . . . . . 9 2.5 Aproveitamentos seleccionados no PNBEPH [14] . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 2.6 Escoamento em regime natural e capacidade de Armazenamento da Bacia Hidrográfica do Douro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 3.1 Principais características da Albufeira do Escalão de Montante do AHBS [28] . . 30 3.2 Principais características da Albufeira do Escalão de Jusante do AHBS [28] . . . 30 3.3 Principais características da Barragem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 3.4 Principais dados do Circuito Hidráulico e da Central . . . . . . . . . . . . . . . 33 3.5 Principais características das Tomadas de Água . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 3.6 Principais caraterísticas da Restituição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 4.1 Resultados obtidos “sem Baixo Sabor"num Ano Normal, em média de regimes. . 55 4.2 Resultados obtidos “com Baixo Sabor"num Ano Normal, em média de regimes. . 56 xiii
xiv LISTA DE TABELAS
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xvi ABREVIATURAS E SÍMBOLOS Abreviaturas e Símbolos AHBS Aproveitamento Hidroeléctrico do Baixo Sabor BEI Banco Europeu de Investimento BERD Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento CAC Comissão para as Alterações Climáticas CELE Comércio Europeu de Licenças de Emissão CMEC Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual DGEG Direcção-Geral de Energia e Geologia DNA Douro Nacional Adaptado EDP Energias de Portugal EBIT Earnings Before Interest and Taxes ENE Estratégia Nacional para a Energia ERSE Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos FPC Fundo Português de Carbono GEE Gases de Efeito de Estufa IPH Índice de Produtibilidade Hidroeléctrica IRC Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas IVA Imposto sobre o Valor Acrescentado MIBEL Mercado Ibérico de Electricidade MT Média Tensão NMC Nível Máximo de Cheia NmE Nível mínimo de Exploração NmEe Nível mínimo de Exploração excepcional NmEn Nível mínimo de Exploração normal NPA Nível de Pleno Armazenamento MT Média Tensão PDIRT Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de Transporte e Electricidade PNAC Plano Nacional para as Alterações Climáticas PNAEE Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética PNAER Plano Nacional de Acção para as Energias Renováveis PNALE Programas Nacionais de Atribuição de Licenças PNBEPH Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeléctrico PRE Produção em Regime Especial PRO Produção em Regime Ordinário PSS Power System Stabilizer REN Redes Energéticas Nacionais TIR Taxa Interna de Rentabilidade UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura VAL Valor Actualizado Líquido WACC Weighted Average Cost of Capital WES Waterways Experiment Station
Capítulo 1 Introdução 1.1 Enquadramento inicial A água é uma fonte renovável, limpa e endógena que pode ser utilizada para os mais diversos fins, nomeadamente, abastecimento público, doméstico e industrial e poderá igualmente ser usado para fins comerciais. A produção de energia elétrica, proveniente da água armazenada é responsabilidade dos aproveitamentos hidroelétricos, constituídos principalmente por uma barragem, uma albufeira e uma central hidroelétrica. Os aprveitamentos hídricos são caracterizados pela sua produção flexível, respondendo assim, aos picos de carga em períodos de elevada solicitação de energia elétrica. Esta característica devese ao facto dos seus geradores poderem arrancar quase instantaneamente, contribuindo assim para a manutenção do equilíbrio entre a produção e a carga. Aquando dos aproveitamentos hidroélétricos serem dotados de grupos geradores reversíveis, existe a possíbilidade de coordenação com a produção eólica, dando-se o aproveitamento da energia excedentária para armazenar água na albufeira, através de bombagem, para um posterior turbinamento desta mesma água. Para a contrução de um aproveitamento hidroelétrico é necessário uma extensa análise ambiental e social do local escolhido, pois este tipo de obra é fortemente contestada, devido aos impactos causados tanto no ambiente como no património das regiões envolventes. Para compensação, as empresas responsáveis pelo aproveitamento hidroelétrico financiam medidas de compensação e de minimização, tanto para o benefício da população envolvente, como para a preservação do meio. Atualmente, Portugal está sujeito a severas metas ambientais que visam uma política energética baseada no reforço do parque eletroprodutor, com fontes de energia renovável, livres de emissões de CO2. Uma vez que Portugal possui um grande potencial hídrico, ainda por aproveitar, 1
2Introdução surgem algumas oportunidades de investimento neste sector. Com a expansão do sector de produção de energia elétrica, as empresas tendem a aumentar a sua competitividade e eficiência, de modo a oferecerem melhores custos de produção. Anteriormente, o risco estava ao encargo dos consumidores finais (exceto o risco técnico de operação) pois existiam os Contratos de Aquisição de Energia, que nos dias de hoje já não se aplicam. Assim sendo, os aproveitamentos hidroelétricos devem ser considerados, sob o ponto de vista da minimização dos custos e da maximização das receitas obtidas, através da venda de energia elétrica nos mercados de eletricidade ao longo da sua fase de exploração. Relativamente à fase de projeto de um aproveitamento hidroelétrico, deverão ser analisadas todas as possíveis soluções técnicas que poderão ser adotadas, nomeadamente nas estruturas civis e equipamentos a instalar no local, minimizando assim os custos sem comprometer os níveis de qualidade e fiabilidade exigidos ao aproveitamento. A energia elétrica produzida, tanto pelas centrais hidroelétricas, como por outras tecnologias é transacionada no Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL). A estratégia adotada nas centrais passa pela maximização das receitas, através da venda de energia, através da otimização dos recursos hídricos, procurando vender a energia nas horas de maior consumo. Contudo, existe uma elevada incerteza associada à previsão a médio/longo prazo na gestão dos recursos hídricos. A aprovação de um investimento deste tipo, para uma empresa, requer uma análise económica determinística da viabilidade do projeto. Apesar da importância dos indicadores económicos adjacentes, é igualmente importante a compreensão das consequências que o investimento implica tanto no desenvolvimento regional, como socioeconómico das populações. O presente trabalho tem por objetivo a compreensão de um projeto de investimento, tanto do ponto de vista técnico como económico, avaliando o risco associado. O caso de estudo é um investimento da EDP, em fase de conclusão, na Bacia Hidrográfica do Douro, o Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor. 1.2 Objetivos O principal objetivo centra-se na análise técnica e economica de um novo aproveitamento hidroelétrico, em fase final de construção, o Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor. Será necessário: •Conhecer a situação atual dos aproveitamentos hidroelétricos em Portugal e as razões que levaram à construção de novos aproveitamentos hidroelétricos, focando o caso em estudo;
1.3 Estrutura da Dissertação 3 •Fazer uma análise técnica do aproveitamento hidroelétrico, descrevendo os seus principais elementos constituintes; •Calcular os recebimentos tendo em conta as características do mercado de eletricidade para a venda de energia e os serviços de sistema fornecidos pelo aproveitamento hidroelétrico à gestão técnica; •Fazer um estudo de sensibilidades das centrais hídricas do Douro Nacional, analisando qual o impacto do aproveitamento hidroelétrico em estudo numa cascata similar ao Douro Nacional; •Avaliar financeiramente o investimento no projeto do aproveitamento em estudo; •Fazer uma análise de risco para avaliar o projecto de investimento do aproveitamento em estudo; •Sob o ponto de vista quantitativo e qualitativo, entender as razões que levaram à realização do investimento por parte da empresa responsável. 1.3 Estrutura da Dissertação Este documento está dividido em cinco capítulos distintos. No Capítulo 1, apresenta o enquadramento inicial do presente trabalho, os objetivos propostos e a estrutura proposta. No Capítulo 2, descrição das motivações que levam à criação de novos aproveitamentos hidroelétricos, nomeadamente na Bacia Hidrográfica do Douro, justificando em particular o Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor (AHBS). No Capítulo 3, Análise Técnica - caracterização técnica do AHBS e breve descrição das opções tomadas relativamente aos principais componentes constituintes do AHBS, como a albufeira, a barragem, os órgãos de segurança, a central e a subestação. No Capítulo 4, Análise Económica – estudo da viabilidade económica do projeto do AHBS. Após a descrição do planeamento do projeto, são determinados os investimentos, pagamentos e recebimentos relativos à fase de construção e de exploração. Concluída a análise financeira do projeto, através do cálculo dos cash flow ao longo do período do projeto, é efetuada uma análise económica quantitativa do investimento e finalmente serão refletidos aspetos qualitativos inerentes à construção do AHBS e os impactos que estes terão nas regiões afetadas. No Capítulo 5, Conclusões. Sintetiza o estudo realizado, incidindo nas principais conclusões retiradas ao longo da realização deste estudo, finalizando com sugestões para trabalhos posteriores desta área. No final do documento, encontra-se disponível, um conjunto de anexos, desenvolvendo algumas matérias abordadas que não foram submetidas em capítulos anteriores, nomeadamente o cálculo dos investimentos, pagamentos e recebimentos ao longo das fases de construção e exploração e o cálculo das rubricas resultantes da avaliação financeira do investimento.
4Introdução
Capítulo 2 Hidroeletricidade em Portugal 2.1 Retrospetiva Histórica Em Portugal, na última década do século XIX, deu-se início à produção de energia elétrica, a partir das águas fluviais, reduzindo assim a dependência energética nacional em combustíveis fósseis. Os primeiros aproveitamentos hidroelétricos eram de dimensões reduzidas e tinham como objetivo a satisfação do consumo local, o abastecimento de pequenas instalações de iluminação pública, habitações e pequenas indústrias. A primeira central hidroelétrica construída em Portugal Continental esteve inicialmente ao cargo da Companhia Elétrica e Industrial de Vila Real, fundada em 1892, contudo a sua concessão passou para o alemão Emílio Biel, que conclui a obra em 1894. Foi instalada num dos afluentes do rio Douro, no rio Corgo, no lugar do “poço do Agueirinho”, com uma potência estimada em 120 kW, fornecida por um simples açude. Mais tarde, em 1926, este aproveitamento foi substituído por uma barragem, no sítio da Insua, e uma central em Terrajido, igualmente com uma potência de 120 kW [1]. O segundo aproveitamento hidroelétrico nacional, de Furada, no rio Cávado, com uma potência de 93 kW, entrou em serviço entre 1895 e 1896 e a sua concessão pertenceu à Sociedade de Eletricidade do Norte de Portugal (SENP). Neste local, em 1951 foi construído o aproveitamento de Penide pela Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal (CHENOP). Até 1930 foram construídos pequenos aproveitamentos para alimentar consumos regionais, maioritariamente do tipo fio-de-água com produções irregulares. Posteriormente o Governo português comprovou a importância da energia das águas fluviais para a produção de eletricidade, impulsionando o desenvolvimento industrial e económico do país. Tal facto deveu-se à falta de uma rede de transporte interligada, que impedia a exploração de recursos nacionais e à produção irregular verificada pelos aproveitamentos de fio-de-água. Para contornar este cenário, era necessária a construção de aproveitamentos em albufeira, com capacidade de armazenamento de água, permitindo assim produções regulares. No entanto os investimentos seriam avultados e a intervenção do Governo era fundamental [2]. 5
6Hidroeletricidade em Portugal Em torno da década de 30, cria-se a Junta de Eletrificação Nacional, pelo Decreto no26 470, a 28 de Março de 1936 e são iniciados os estudos sistemáticos sobre a exploração das principais bacias nacionais, impulsionando-se assim a construção dos aproveitamentos hidroelétricos com albufeiras (maioritariamente), sendo assim capazes de efetuar uma produção energética conveniente e regular. Contudo, verifica-se uma crise económica, nesta época, derivada da II Guerra Mundial (1939-1945), atrasando assim o planeamento da capacidade hídrica em Portugal que mais tarde, na década de 40, se começa a concretizar no papel e na década de 50 com efeitos práticos. No início de 1940, a produção de energia elétrica podia ser caracterizada da seguinte forma [1]: •Predomínio de recursos estrangeiros: dois terços dos recursos utilizados para produzir eletricidade são estrangeiros, sendo a central hidroelétrica do Lindoso também considerada estrangeira; •Predomínio de três grandes centrais: a central hidroelétrica do Lindoso e as centrais termoelétricas do Tejo e de Santos produziram, até ao início de 1940, mais que todas as outras centrais de serviço público existentes no país (à volta de 180); •Excessiva pulverização da potência: um total de 660 centrais onde 170 são de serviço público, sendo que apenas 10 dessas têm potência superior a 5 MW (3 hidráulicas e 7 térmicas), e 484 de serviço particular, com apenas 1 de potência superior a 5 MW (ainda que tenha 8 grupos); •Elevado custo de produção: a pulverização da potência levou ao encarecimento excessivo do custo do kW instalado e do kWh produzido por tantas centrais. Em 1945, criam-se as empresas Hidroelétricas do Zêzere e a Hidroelétrica do Cávado, de forma a explorar novos aproveitamentos hidroelétricos, nomeadamente nas bacias do Zêzere e Cávado. Posteriormente, em 1947, o Governo constituiu a Campanha Nacional de Eletricidade autorizando-lhe a “concessão para o estabelecimento e exploração das linhas de transporte e subestações destinadas a interligar os sistemas do Douro e do Cávado entre si e com os sistemas existentes e ao abastecimento aos grandes centros de consumo” [3]. Em termos práticos, a orientação política nacional conduziu à inauguração de dois grandes aproveitamentos hidroelétricos: Castelo de Bode, com 139 MW, na Bacia do Zêzere e Venda Nova, com 81 MW, na bacia do Cávado, ambos inaugurados em 1951. Mais tarde foi autorizada a concessão do aproveitamento de energias nas águas do rio Douro, permitindo assim a entrada ao serviço, em 1958 e 1960, de Picote e Miranda, respetivamente. Estas explorações foram possíveis face ao entendimento entre Portugal e Espanha, celebrado em 1927, denominado Convénio LusoEspanhol, que definiu a forma de partilhar o direito ao Douro Internacional, até aos dias de hoje [4]. Os aproveitamentos com maior importância nacional concluídos nos anos 50 estão representados na Tabela 2.1:
2.2 Políticas Energéticas 13 A figura 2.3 representa o consumo total num dia de Verão (12 de Agosto de 2012) enquanto a figura 2.4 ilustra um consumo num dia de Inverno (12 de Dezembro 2012). Facilmente se observa a existência de maior consumo em período de Inverno, pois o número de horas de Sol é menor nesta época do ano, comparativamente aos dias de Verão, levando a uma maior necessidade de iluminação artificial e de aquecimento. Confirma-se igualmente que o consumo não é idêntico durante as 24h do dia, existindo horas de vazio (associadas ao período da noite) e horas de ponta (períodos de plena atividade durante o dia). Na existência de variações significativas de carga nas horas de ponta, os aproveitamentos hidroelétricos têm a capacidade de arrancar os grupos de forma instantânea e colocam rapidamente a potência necessária em rede, satisfazendo assim o aumento de carga. 2.2 Políticas Energéticas As preocupações com o meio ambiente aumentam de dia para dia e o aquecimento global e as alterações climatéricas evidenciadas ao longo destes últimos anos têm levado a uma maior consciência ambiental, surgindo a necessidade de preservação do meio ambiente. Vários países têm implementado políticas de redução de emissões de CO2e apostado em energias limpas e renováveis, tais como energias hídricas, eólicas e solar. No ano de 1992, grande parte dos países do mundo assinaram o tratado internacional da Convenção-Quadro, das Nações Unidas sobre a Mudança de Clima e mais tarde, em 1997, no Japão, foi discutido o Protocolo de Quioto, assumindo-se assim sérios compromissos para a redução das emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) apontados como a principal causa do aquecimento global. Este Protocolo implementa uma reforma dos setores de energia e transportes, promove o recurso a fontes de energia renovável, protege florestas e impõe limites nas emissões de metano, no tratamento de resíduos, nos diversos países aderentes [10]. Este acordo entra em vigor a 16 de Fevereiro de 2005, no entanto a União Europeia assinou-o em 1998, assumindo uma redução global, em gases poluentes, de 8% no período de 2008-2012, entre os vários EstadosMembros. De forma a cumprir os objetivos estabelecidos, o Governo Português criou a Comissão para as Alterações Climáticas (CAC), pela Resolução do Conselho de Ministros n.o72/1998, de 29 de Junho, que elabora o Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC), apresentado em 2002, para discussão pública. Este programa sugere “reduzir os níveis de emissão dos GEE e fazer cumprir os compromissos assumidos no âmbito do Protocolo de Quioto e do acordo de partilha das responsabilidades da EU”[11]. Considerando a necessidade de atenuar as alterações climáticas e de cumprir as metas internacionais estabelecidas, Portugal aprova pela Resolução do Conselho de Ministros n.o196/2005, de 24 de Outubro, a Estratégia Nacional para a Energia (ENE). A base dessa orientação política nacional determina “garantir a segurança do abastecimento de energia, através da diversificação
14 Hidroeletricidade em Portugal dos recursos primários e dos serviços energéticos e da promoção da eficiência energética na cadeia da oferta e procura de energia” e para tal refere o “reforço das energias renováveis”. Como medidas a adotar, a ENE descreve “a intensificação e diversificação do aproveitamento das fontes renováveis de energia para a produção de eletricidade, com especial enfoque na energia eólica e no potencial hídrico ainda por explorar”, considerando “as componentes eólica e hídrica como vetores fundamentais para o cumprimento dos objetivos” arrogados [12]. Uma vez que se constatou que várias medidas não estavam a ser cumpridas, foi criado um novo PNAC, em 2004 e para Portugal se reaproximar dos objetivos internacionais, a revisão do CAC deu origem a um novo PNAC, aprovado em Resolução do Conselho de Ministros n.o104/2006, de 23 de Agosto. Relativamente à energia hídrica, este programa estipulava a meta de 5 000 MW hídricos (> 10 MW) até 2010 [13]. Mais tarde, o PNAC 2006 foi revisto pela Resolução do Conselho de Ministros n.o1/2008, de 4 de Janeiro, sendo substituído pelas “Novas Metas 2007”. Pretende-se assim uma meta de 45% do consumo de eletricidade a partir de fontes renováveis. Relativamente à energia hídrica, pretendese atingir os 5 575 MW de potência instalada até 2010, mais 575 MW do que no PNAC 2006, aproveitando assim 46% do potencial já existente. Para 2020, as “Novas Metas 2007” destacam 7 000 MW hídricos a instalar em Portugal, aproveitando assim 70% do potencial hídrico existente. De forma a atingir a meta, o Governo aprovou os aproveitamentos hidroelétricos do Baixo Sabor e Ribeiradio/Ermida e refere ainda o Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico (PNBEPH), aprovado em 2007, no qual constam 10 aproveitamentos hidroelétricos a implementar num total de 1 096 MW de potência instalada, 807 MW dos quais reversíveis [14]. Tabela 2.5: Aproveitamentos seleccionados no PNBEPH [14] Aproveitamento Bacia Rio Tipo Potência Instalada [MW] Foz Tua Douro Tua Reversível 234 Padroselos Douro Beça/Tâmega Reversível 113 Vidago Douro Tâmega Reversível 90 Daivões Douro Tâmega Reversível 109 Fridão Douro Tâmega - 163 Gouvães Douro Torno/Tâmega Reversível 112 Pinhosão Vouga Vouga Reversível 77 Girabolhos Mondego Mondego Reversível 72 Almourol Tejo Tejo - 78 Alvito Tejo Ocreza - 48 Para o auxílio no cumprimento do Protocolo de Quioto criaram-se o Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) e o Fundo Português de Carbono (FPC). O CELE é um instrumento de mercado intercomunitário que determina tetos às emissões de CO2a várias instalações industriais, através de Programas Nacionais de Atribuição de Licenças (PNALE), para diferentes períodos (2005-2007 e 2008-2012). O FPC é o instrumento financeiro criado para suprir o défice de cumprimento do Protocolo de Quioto que subsiste da aplicação do PNAC e do PNALE, promovendo
2.2 Políticas Energéticas 15 a aquisição de créditos de emissão de GEE a preços competitivos. Para 2020, os líderes europeus homologaram o Pacote Energia-Clima 20-20-20 da União Europeia, a 17 de Dezembro de 2008, que indica um esforço comunitário entre os vários EstadosMembros e onde constam os seguintes objetivos [15]: •Redução de 20% de emissões de gases com efeito de estufa, perante os volumes emitidos no ano 1990, podendo ainda chegar a 30%, caso haja consenso internacional; •Redução de 20% no consumo energético, elevando a eficiência energética; •Aumento de 20% de energias renováveis no consumo final global (em 2005 a quota de renováveis na UE era de 8,5%), 10% dos quais no sector dos transportes. Face às novas exigências traçadas, Portugal aprovou pela Resolução do Conselho de Ministros n.o29/2010, de 15 de Abril, a nova Estratégia Nacional para a Energia (ENE 2020). Esta, com prazo em 2020, defende uma diminuição da dependência energética externa do país (passar de 83/85% nos últimos anos para 74% em 2020) e uma forte aposta nas energias renováveis (alcançar 60% da eletricidade produzida com origem nessas fontes em 2020. A ENE 2020 afirma que, desta forma, é garantida a segurança do abastecimento energético e a sustentabilidade económica e ambiental do modelo energético nacional, contribuindo para a redução de emissões de CO2 [16]. Para alcançar estes objetivos nas energias renováveis, a ENE 2000 promove a instalação de 8 600 MW de capacidade hídrica até 2020. Em 2010, por Resolução do Conselho de Ministros n.o93/2010, de 26 de Novembro, foi criado um novo Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC 2020), referente ao período entre 2013-2020, que deve fortalecer as políticas, medidas e instrumentos de carácter sectorial previstos no anterior PNAC 2006 e nas “novas metas 2007”; definindo medidas e instrumentos de forma a limitar as emissões dos sectores não CELE e prever responsabilidades sectoriais, assim como o financiamento e mecanismos de controlo e monitorização. Serão usados instrumentos de auxílio como o Roteiro Nacional de Baixo Carbono (RNBC), instrumento orientador para a definição das políticas a prosseguir e as metas nacionais a alcançar em termos de emissões de GEE, e os Planos Sectoriais de Baixo Carbono, para os sectores de cada ministério, devendo funcionar articulado ao RNBC [17]. O Protocolo de Quito será prolongado até 2020, com novas medidas para a redução das emissões de GEE, mas alguns países anunciaram que não irão contribuir para a redução das emissões, como por exemplo o Canadá, que saiu do Protocolo de Quioto em Dezembro de 2012 (à semelhança do que fizeram os EUA em 2001). O Japão, Rússia e Nova Zelândia, mesmo fazendo parte do protocolo, não se comprometeram a qualquer tipo de meta para a redução das emissões. A 28 de Fevereiro de 2013, o Conselho de Ministros comunicou que foram aprovados o novo Plano Nacional de Acão para a Eficiência Energética (PNAEE 2016), para o período 2013-2016, e o novo Plano Nacional de Acão para as Energias Renováveis (PNAER 2020), para o período 2013-2020. O principal objetivo da revisão do PNAEE é a projeção de novas metas para 2016 de forma a integrar as preocupações relativas à redução da energia primária para 2020. O PNAER foi
16 Hidroeletricidade em Portugal alterado atendendo ao cenário atual de excesso de oferta da produção de energia devido à diminuição da procura da mesma, adequando os custos associados. É de salientar que estes novos planos não preveem qualquer alteração nas metas para a potência hídrica instalada em 2020. Relativamente à energia eólica, foi estabelecida uma nova meta de 5300 MW de potência instalada, muito abaixo dos 8500 previstos nas “novas metas 2007”, explicado pela previsão de abrandamento da procura de energia [18]. 2.3 Futuro dos Aproveitamentos Hidroelétricos em Portugal 2.3.0.1 Perspetiva do Consumo Energético em Portugal A previsão de consumo de energia elétrica tem um papel muito importante, atualmente, porque permite avaliar a sustentabilidade de projetos de produção elétrica. A REN efetuou essa previsão, traçando dois cenários de evolução de consumo (superior e inferior), não descurando os efeitos das políticas energéticas implementadas até então, definidas no PNAEE, sobre o consumo final de eletricidade e a elevada aquisição de veículos elétricos em Portugal. Esta previsão é observada na figura 2.5 [19]: Figura 2.5: Cenários de previsão da evolução da procura de energia eléctrica em Portugal até 2022 Para o cenário de consumo superior, a taxa media de crescimento é de 2,3%, enquanto que para o cenário inferior, a taxa ronda os 1,3%, no entanto ambos podem-se denominar cenários otimistas, pois não foram considerados elementos de alguma importância, tais como: o aumento do IVA na eletricidade (em Outubro de 2011, o IVA na eletricidade aumentou de 6% para 23%), a atual crise económica vivida em Portugal, onde cada vez mais o poder de compra dos portugueses
2.3 Futuro dos Aproveitamentos Hidroelétricos em Portugal 17 é menor, levando a uma diminuição do consumo energético e a introdução de veículos elétricos em Portugal não foi tão elevada como o previsto, aquando desta previsão. Foram vendidos apenas 18 veículos elétricos em 2010, 203 em 2011 e até Novembro de 2012 foram registadas 29 vendas de viaturas elétricas, segundo dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) [20]. Caso se considerem os cenários traçados pela REN, conclui-se que em resposta ao aumento do consumo energético, em especial nas horas de ponta, é fulcral a construção de novos centros produtores, satisfazendo assim as necessidades energéticas nos anos próximos. Os cenários de evolução das pontas de carga traçados pela REN são os seguintes (Verão e Inverno) [19]: Figura 2.6: Histórico e perspetivas de evolução das pontas sazonais em Portugal Continental até 2022 2.3.0.2 Dependência energética e potencial hidroelétrico a explorar em Portugal Segundo o Ministério da Economia e da Inovação, de 2007, Portugal e Grécia são os países da União Europeia com mais de 54% do seu potencial hídrico por aproveitar e são igualmente os países com maior dependência energética externa, como se pode constatar na figura 2.7
18 Hidroeletricidade em Portugal Figura 2.7: Potencial hídrico não aproveitado vs dependência energética externa Através do funcionamento dos aproveitamentos hidroelétricos, Portugal poderá reduzir o consumo energético pelas centrais térmicas, principalmente em horas de ponta, reduzindo assim a importação de matérias-primas poluentes, como o carvão e o gás natural e a dependência energética do exterior. Relativamente ao potencial hídrico por explorar, Portugal aproveitaria 80% do potencial hídrico já existente (definido pelo ENE 2020), contra os quase 50% atualmente (dados de 2007), provando assim que tem capacidade de armazenamento para a construção de albufeiras e centrais hídricas, nos afluentes dos seus principais rios. 2.3.0.3 Novos aproveitamentos hidroelétricos e reforços de potência Segundo o Plano de Desenvolvimento e Investimento da RNT 2012-2017 (2022) da REN, de Julho de 2011, Portugal tenciona que sejam concretizados vários aproveitamentos hidroelétricos novos, bem como reforços de potência de aproveitamentos já existentes, de modo a que, em 2022, a potência introduzida seja de 4992 MW.
2.3 Futuro dos Aproveitamentos Hidroelétricos em Portugal 19 Figura 2.8: Novos aproveitamentos hidroelétricos e reforços de potência previstos até 2022 Na previsão anterior, os aproveitamentos de Ribeiradio/Ermida e Baixo Sabor foram considerados por decisão Governamental, os reforços de potência definidos nas “Novas Metas 2007” foram os de Picote, Bemposta e Alqueva. No PNAER encontram-se os aproveitamentos de Salamonde, Venda Nova e Paradela e os selecionados no PNBEPH só avançaram 7 para a construção, com potência superior e o aproveitamento ainda em estudo de Carvão-Ribeira. Alguns aproveitamentos sofreram alterações na data prevista de entrada ao serviço: aproveitamentos de Foz Tua (previsto para 2016), do Fridão (previsto para 2018, em fase de licenciamento) e do Alvito (previsto para 2005, no entanto surge uma reformulação do projeto que poderá condicionar esta previsão). Para além disso, o reforço de potência em Paradela ainda não tem licença atribuída pela DGEG nem solução de ligação à Rede Nacional de Transporte (RNT). O reforço de potência da central de Cabril, referida no PNAER, ainda não tem data prevista para o início e fim de construção, daí não ser considerado no PDIRT 2012-2017 (2022).
20 Hidroeletricidade em Portugal Maioritariamente, os aproveitamentos hidroelétricos e reforços de potência apresentados na figura 2.8 são aproveitamentos reversíveis (com bombagem), dos 4992 MW de potência instalada previstos, 3936 MW são de aproveitamentos hidroelétricos reversíveis . 2.3.0.4 Reversibilidade Existem aproveitamentos com a capacidade de bombar a água armazenada na albufeira de jusante para montante, normalmente em períodos noturnos, para esta ser mais tarde utilizada no turbinamento. A bombagem é feita durante a noite pois os preços da energia elétrica são inferiores e durante o dia procedem ao turbinamento da água, altura em que os preços são mais elevados, gerando assim mais receitas. A reversibilidade é um aspeto importante para a manutenção do equilíbrio do sistema elétrico perante a existência de quantidades importantes produção de energia intermitente, mais propriamente, a produção de energia eólica. Este tipo de produção de energia utiliza o vento como matéria-prima, que tem como problema o seu carácter aleatório provocando assim variações na produção. Durante a noite tem-se verificado uma maior produção energética. Caso a energia produzida seja superior ao consumo em determinado momento, verifica-se um excesso de energia eólica no sistema que poderá ser exportado para Espanha. No entanto, Espanha poderá verificar o mesmo problema e assim as centrais hidroelétricas apresentam um papel muito importantes, na medida em que aproveitam esse excesso de energia eólica na rede para o processo de bombagem da água, evitando o seu desperdício Outra caraterística importante da reversibilidade é que, quando são previstos períodos de aumento de consumo nas horas de ponta, as centrais hidroelétricas conseguem injetar mais energia elétrica na rede, uma vez que podem arrancar quase instantaneamente não dependendo dos caudais disponíveis, como se verifica nas centrais hidroelétricas sem capacidade de bombagem. 2.3.0.5 Bacia Hidrográfica do Douro Dos 14 aproveitamentos hidroelétricos/ reforços de potência previstos para Portugal, 8 integram a Bacia Hidrográfica do Douro. Em 2011, contam já 11 hídricas, 10 das quais com potência instalada superior a 30 MW, explorados por Portugal, totalizando assim 1951 MW, cerca de 42% da potência total instalada em Portugal Continental [22]. A Figura 2.9 representa a cascata do Douro Nacional e os aproveitamentos hidroelétricos explorados por Portugal e ainda os reforços de potência e novos aproveitamentos a construir (início 2011).
2.3 Futuro dos Aproveitamentos Hidroelétricos em Portugal 21 Figura 2.9: Aproveitamentos hidroelétricos e reforços de potência do Douro Nacional Segundo dados referentes de 2006 até 2010 da DGEG [23], conclui-se que a Bacia Hidrográfica do Douro contribuiu, em média, com 57,03% da produção hídrica nacional (considerando apenas os aproveitamentos com potência instalada superior a 30 MW, pelo que Varosa não entrou para o cálculo por ter apenas 25 MW instalados), isto é, 5 365 GWh, em que a maioria (93,45%) proveio dos aproveitamentos hidroelétricos do tipo fio-de-água existentes. Os aproveitamentos hidroelétricos portugueses, situados na Bacia Hidrográfica do Douro, revelam-se de extrema importância relativamente à produção de eletricidade, como se verifica de seguida: Figura 2.10: Produção hídrica média de cada Bacia Hidrográfica em Portugal entre 2004 e 2012 Os aproveitamentos hidroelétricos presentes na cascata nacional do Douro são do tipo fio-deágua que denota praticamente não existe capacidade de regularização de caudais, apesar da grande capacidade instalada e da sua importância para a produção de eletricidade. Em consequência, a produção de eletricidade submete-se à exploração dos aproveitamentos espanhóis a montante, tanto no troço principal como nos seus afluentes. Confirma-se que a capacidade de armazenamento total prevista, aproveitada por Portugal é de apenas 9% (396 hm3em 4465 hm3), ao contrário da Espanha que aproveita 83% da capacidade de armazenamento prevista (7045 hm3em 8470 hm3). É urgente aproveitar o potencial hídrico existente no Douro Nacional, criando capacidade de armazenamento na Bacia Hidrográfica do Douro,
22 Hidroeletricidade em Portugal Tabela 2.6: Escoamento em regime natural e capacidade de Armazenamento da Bacia Hidrográfica do Douro Bacia Espanhola Bacia Portuguesa Área da Bacia Hidrográfica (km2) 79000 (81%) 18500 (19%) Escoamento em regime natural (hm3) 15000 (65%) 8000 (35%) Armazenamento total previsto (hm3) 8470 4465 Armazenamento total atual (hm3) 7045 396 % do total previsto 83% 9% uma vez que a hidroeletricidade, tem um papel importante no sistema electroprodutor português ao conciliar os objetivos ambientais estabelecidos com os de segurança de abastecimento de energia. Os reforços de potência de Picote e Bemposta, juntamente com o reforço da central de Miranda já concluído, mesmo não contribuindo para o aumento da capacidade de armazenamento, possibilitam um melhor aproveitamento dos caudais turbinados em Espanha (aproveitamento de Castro, na fronteira entre os dois países), evitando assim o desperdício dos caudais por incapacidade de turbinamento dos aproveitamentos de Bemposta e Picote, que se encontram imediatamente a jusante de Castro [22]. 2.4 Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor Na sequência da suspensão da construção da barragem de Foz Côa, em virtude do património arqueológico subitamente encontrado, a Resolução do Conselho de Ministros n.o4/1996, de 17 de Janeiro de 1996, definiu como fundamental “assegurar o conveniente aproveitamento do potencial hídrico e energético do país, sendo por isso essencial o valor da água a armazenar no Douro superior e seus afluentes”, tendo resolvido “acelerar os estudos relativos a outros projetos de aproveitamento hídrico e energético no Douro superior e seus afluentes, com o objetivo de possibilitar a construção de uma barragem que possa cumprir funções hídricas e energéticas semelhantes às atribuídas à barragem de Foz Côa.” [24]. Foram então lançados os estudos referentes ao Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor (AHBS), realizando-se o Estudo de Impacte Ambiental e o Estudo Prévio, entre 1996 a 1999, contudo foi necessário examinar o estudo de outras alternativas pelo que se procedeu à análise comparativa do AHBS com o Aproveitamento Hidroelétrico do Alto Côa, de modo a sustentar a melhor opção. Em 2004, a Declaração de Impacte Ambiental emitiu um parecer favorável ao AHBS, em detrimento do Alto Côa, pelos seguintes motivos [25]: •“É o único que contribuirá, em tempo útil, para o cumprimento dos compromissos assumidos por Portugal no âmbito da produção de energia a partir de fontes de energia renováveis e da redução de gases de efeito de estufa, diretamente, e, indiretamente, para a viabilização da expansão do parque eólico”; •“A capacidade de controlo de caudais de ponta em caso de cheia é relativamente maior”... “sendo a capacidade de regularização de caudais também superiores”;
3.4 Albufeira 29 rede de tensão 220 kV, no Escalão do Pocinho. A subestação exterior situa-se numa plataforma acima da central hidroelétrica. O comando e controlo do escalão principal podem ser efetuados à distância, situação normal, ou localmente, situação de recurso. A central hidroelétrica é equipada com os dispositivos e automatismos necessários para um controlo a partir do Centro de Telecomando da Régua que é responsável pelo arranque/paragem dos grupos geradores, abertura/fecho das comportas dos órgãos de segurança e por garantir os caudais ecológicos na albufeira. O esquema de jusante do AHBS é ilustrado pela figura 3.4: Figura 3.4: Esquema Geral do Escalão de Jusante do AHBS O escalão de jusante é constituído por uma barragem de gravidade com uma altura máxima de 45 m com um descarregador de cheias, controlado por comportas na parte central e por uma central em poço, localizada também na margem direita, equipada com dois grupos reversíveis de 15 MW cada um, alimentados por dois circuitos hidráulicos subterrâneos independentes. Está igualmente equipada com um posto de observação e comando. 3.4 Albufeira A albufeira do escalão principal do AHBS permite o armazenamento de água, proveniente das aluências naturais ou do processo de bombagem. Esta albufeira apresenta um volume útil total de 630 hm3com uma extensão de 60 km. Está prevista uma reserva de emergência de água com um volume de 240 hm3, Tabela 3.1. O Nível Mínimo de Exploração excecional (ou de emergência) corresponde a uma cota abaixo do Nível mínimo de Exploração normal (NmEn) onde está reservado o referido volume de emergência que visa garantir, em períodos críticos de satisfação de consumos, a alimentação dos dois escalões do AHBS e dos quatro aproveitamentos a fio-de-água existentes no troço nacional do rio Douro a jusante da foz do rio Sabor (Valeira, Régua, Carrapatelo e Crestuma-Lever).
30 Análise Técnica Tabela 3.1: Principais características da Albufeira do Escalão de Montante do AHBS [28] Albufeira de Montante Nível de Pleno Armazenamento (NPA) (234,0) Nível Máximo de Cheia (NMC) (235,0) Nível mínimo de Exploração normal (NmEn) (227,4) Nível mínimo de Exploração excepcional (NmEe) (205,5) Volume total ao NPA 1095 hm3 Volume total ao NMC 1124 hm3 Volume útil normal de exploração 172 hm3 Volume útil total 630 hm3 Volume de Reserva Excepcional (ou de Emergência) 240 hm3 Área inundada ao NPA 2820 ha Área inundada ao NMC 2860 ha A albufeira de jusante desenvolve-se integralmente no concelho de Torre de Moncorvo, tendo uma extensão de 9,6 km e, ao nível de pleno armazenamento, inunda uma área de 200 ha, proporcionando 30 hm3de volume. As características desta albufeira, retratadas na Tabela 3.2, são essenciais para o dimensionamento dos elementos que constituem o escalão de montante. Os volumes de água armazenados na albufeira de jusante garantem que o processo de bombagem possa ocorrer na central hidroelétrica do escalão de montante. Tabela 3.2: Principais características da Albufeira do Escalão de Jusante do AHBS [28] Albufeira de Jusante Nível de Pleno Armazenamento (NPA) (138) Nível Máximo de Cheia (NMC) (138) Nível mínimo de Exploração (130) Volume total ao NPA 30 hm3 Volume útil de exploração 12 hm3 Área inundada ao NPA 200 ha 3.5 Barragem A barragem do escalão de montante é a barreira artificial em pleno rio Sabor que permite a retenção de grandes volumes de água tanto na albufeira de montante como na albufeira de jusante. A escolha do local a implementar a barragem foi baseada em aspetos de carácter ambiental, condições morfológicas, custos e em valias. A barragem adotada para o local é do tipo abóboda de dupla curvatura em betão e apresenta uma altura máxima de 123 m acima do ponto mais alto da fundação tendo o seu coroamento um desenvolvimento de 505 m e uma espessura de 6 m. Uma barragem em abóboda é uma estrutura que em planta afunda a convexidade voltada para montante. É concebida de forma a transmitir às margens parte do impulso da água. O facto de ser de dupla curvatura significa que
3.6 Órgãos de Descarga 31 a barragem é curva tanto na vertical como na horizontal. As principais caraterísticas da barragem estão resumidas na Tabela seguinte: Tabela 3.3: Principais características da Barragem Barragem Tipo Estrutural Abóboda de Dupla Curvatura Material Betão Convencional Características Cota do Coroamento (236) Altura máxima acima da fundação 123 m Desenvolvimento total do coroamento 505 m Relação corda/altura 3,492 Espessura no coroamento 6 m Espessura na base da consola de fecho 27 m Espessura máxima da abóboda 195 m Volume total teórico 670.000 m3 3.6 Órgãos de Descarga O descarregador de cheias é o órgão de segurança hidráulica que permite o despejo parcial da albufeira de montante quando aí existirem caudais afluentes excedentários. Quando os volumes de águas existentes na albufeira de montante ultrapassam a cota correspondente ao Nível Máximo de Cheia (NMC) são descarregados para a albufeira de jusante. O descarregador de cheias é do tipo lâmina livre sobre a parte central do coroamento da barragem, sendo controlado por comportas e constituído por uma soleira descarregadora. Seguidamente, a jusante do pé da barragem situa-se uma bacia de receção e de dissipação.
32 Análise Técnica Figura 3.5: Corte Transversal do Descarregador de Cheias e da Bacia de Receção e Dissipação O controlo de escoamento é efetuado através de comportas de serviço acionadas por servomotores hidráulicos. Cada vão tem uma comporta de serviço para efetuar a regularização dos caudais descarregados e pode abrir e fechar em carga. Estas comportas são do tipo segmento e a manobra pode ser concretizada automaticamente em função do nível de água na albufeira. O ensecamento dos vãos é efetuado por uma comporta ensecadeira do tipo corrediça, comum aos quatro. O controlo de escoamento é efetuado através de comportas de serviço acionadas por servomotores hidráulicos. Cada vão tem uma comporta de serviço para efetuar a regularização dos caudais descarregados e pode abrir e fechar em carga. Estas comportas são do tipo segmento e a manobra pode ser concretizada automaticamente em função do nível de água na albufeira. O ensecamento dos vãos é efetuado por uma comporta ensecadeira do tipo corrediça, comum aos quatro. A descarga de fundo é o órgão de segurança hidráulica que permite o esvaziamento da albufeira de montante sendo também utilizado para controlar a subida do nível da albufeira durante o primeiro enchimento. O Regulamento de Segurança de Barragens impõe que a descarga de fundo seja equipada por duas comportas: uma de proteção ou de guarda, a montante, na boca de entrada, do tipo vagão e, outra, de controlo de caudal ou de serviço, a jusante, na boca de saída, do tipo segmento. Ambas as comportas devem ser capazes de abrir e fechar em carga e são movimentadas por um servomotor hidráulico. 3.7 Circuitos Hidráulicos O circuito hidráulico é um órgão de exploração, constituído por uma tomada de água, uma galeria em carga e pela sua restituição. No modo de turbinamento, a água que se encontra na albufeira de montante é encaminhada através de um circuito hidráulico (entra pela tomada de água
3.7 Circuitos Hidráulicos 33 e percorre a galeria em carga) até à turbina que depois de a turbinar, expulsa-a (pela restituição) para a albufeira de jusante. Em modo bombagem, o sentido é inverso e a restituição toma funções de tomada de água, e vice-versa. A implementação dos seus vários componentes procura reduzir a sua extensão, garantindo uma cobertura rochosa suficiente às estruturas subterrâneas, mantendo um afastamento reduzido entre as galerias, poços e entre estas estruturas subterrâneas e a fundação da barragem. A solução adotada inclui dois circuitos hidráulicos independentes, um por cada grupo gerador. Figura 3.6: Corte Transversal do Circuito Hidráulico do G1 Tabela 3.4: Principais dados do Circuito Hidráulico e da Central Dados Principais do Circuito Hidráulico e da Central Galerias do Circuito Hidráulico (2) ømax (m) 5,7 Extensão total (m) 242,7/331,8 Poços da Central (2) øint (m) 11,5 Altura (m) 82,80 De montante para jusante, esquematicamente, cada um dos circuitos hidráulicos é composto pelos seguintes componentes: •Uma tomada de água (restituição em bombagem), constituída por um bocal e uma torre de manobra das comportas; •Uma galeria em carga, com troços sub-horizontais e inclinados, sendo a última parte blindada até à entrada do grupo; •Uma estrutura de restituição constituída por um curto troço de galeria inclinada, juntando o extremo do tubo de aspiração ao bocal de restituição (tomada de água em bombagem);
34 Análise Técnica 3.7.1 Tomadas de Água A função das tomadas de água dos circuitos hidráulicos é reter a água em turbinamento, ou seja, captar água da albufeira de montante, e de restituição em bombagem, ou seja, captar água da albufeira de jusante. Cada tomada de água é constituída por um bocal com secção transversal retangular e por uma torre de manobra dos equipamentos hidromecânicos onde se localizam a comporta ensecadeira (comum às duas tomadas de água) e a comporta de serviço, Figura 3.7: Figura 3.7: Perfil Longitudinal da Tomada de Água do Grupo G1 O bocal da tomada de água situa-se a uma cota abaixo do NmEe, pelo que se encontra sempre submerso. De forma a evitar a entrada de detritos sólidos nos circuitos hidráulicos, o bocal é provido de uma grade fina metálica, fixa a uma estrutura em grelha de betão armado.
3.7 Circuitos Hidráulicos 35 A torre de manobra destina-se ao refúgio e manobra das comportas de serviço e da comporta ensecadeira. As comportas de serviço ou guarda instaladas são do tipo vagão com vedação a jusante e a sua função é o isolamento dos circuitos hidráulicos, atuando como órgãos de segurança, fechando em carga. A comporta ensecadeira é comum às duas tomadas de água e é do tipo corrediça com vedação a montante. Estas comportas destinam-se a fechos de emergência e a permitir pôr a seco os circuitos hidráulicos a jusante a quando da realização de operações de manutenção. As duas tomadas de água estão ligadas superiormente por uma plataforma e sobre ela desloca-se um pórtico rolante exterior que se destina à manobra. Tabela 3.5: Principais características das Tomadas de Água Tomada de Água Grades Fixas Número 2 Tipo Fixas Cota da soleira (191) Comportas de Serviço Número 2 Tipo Vagão Cota da soleira (192) Comporta ensecadeira Número 1 Tipo Corrediça Cota da soleira (192) 3.7.2 Galerias em Carga As galerias em carga ou também denominadas galerias de alta pressão conduzem a água desde a tomada de água até à entrada dos grupos geradores, no modo turbinamento e vice-versa, em modo bombagem. O AHBS possui duas galerias deste tipo e cada uma faz a ligação da respetiva tomada de água até à caixa espiral que ocorre na entrada dos respetivos grupos geradores. É de salientar que os troços paralelos apresentam formas, diâmetros e revestimentos distintos e a galeria do grupo G1 apesar de ser menos extensa que a galeria do grupo G2, os seus mecanismos são semelhantes. A água percorre a galeria de uma pressão inferior para uma pressão superior e os seus troços, inclinações e secções são selecionados de modo a minimizar as perdas de energia e atritos. As suas blindagens são auto resistentes quer à pressão interior quer a uma pressão exterior, sendo a velocidade da água, em fase terminal do circuito, muito elevada. 3.7.3 Restituição Estas estruturas colocam os caudais turbinados na albufeira de jusante em modo de turbinamento e funcionam como tomadas de água em bombagem. Trata-se de dois circuitos hidráulicos independentes e o escalão de montante contém duas restituições.
36 Análise Técnica Cada restituição é formada por uma galeria, uma ensecadeira e por um bocal, permitindo um elevado nível de proteção móvel. Posterior ao bocal é visível um curto canal de jusante, mas este já não pertence à restituição. A galeria de restituição contém uma comporta de ensecadeira, do tipo corrediça, que permite pôr a seco toda a galeria de restituição. A abertura destas comportas realiza-se sempre em águas equilibradas com auxílio de um servomotor e o seu fecho só é realizado com as comportas das tomadas de água fechadas. O bocal da restituição permite a transição entre a secção circular da galeria de restituição e a soleira de controlo a jusante, materializando assim a fronteira com o leito do rio, na albufeira de jusante. Este bocal localiza-se a uma cota inferior ao NmE da albufeira de jusante, estando sempre submerso. Cada bucal contém duas grades de proteção móveis, protegendo e impedindo a entrada de detritos sólidos. Estas grades são manuseadas em águas equilibradas, através de uma grua móvel, a partir de uma plataforma de manobra no topo dos bocais de restituição. Tabela 3.6: Principais caraterísticas da Restituição Restituição Comporta ensecadeira Número 2 Tipo Corrediça Cota da soleira 116,85 Grades Número 4 Tipo Corrediça Cota da soleira 118,00 3.8 Central Hidroelétrica Este é um órgão de exploração onde se localizam os dois grupos geradores (alternador-motor e turbina-bomba), instalados em dois poços subterrâneos independentes entre si, cobertos por um edifício que promove a descarga, montagem e movimentação dos restantes equipamentos e ainda as instalações do comando central. A central situa-se a 100 m jusante da barragem, na margem direita e os poços dos grupos têm uma altura de 79 m, com secções transversais circulares. Na central estão instalados vários equipamentos, dos quais se destacam: os grupos geradores, o sistema de desafogamento da roda, o sistema de arranque, os sistemas de excitação e de regulação de tensão e os sistemas de regulação de velocidade. 3.8.1 Grupos Geradores A central hidroelétrica do escalão montante do AHBS possui dois grupos geradores reversíveis e de eixo vertical, constituídos por uma turbina-bomba e um alternador-motor síncrono. A
3.8 Central Hidroelétrica 37 configuração destes grupos permite reduzir em muito a sua altura e obter um conjunto rígido e equilibrado, uma vez que o rotor do alternador-motor está diretamente acoplado por uma linha de veios à turbina bomba. Os grupos geradores podem funcionar de duas maneiras distintas: modo turbinamento e modo bombagem uma vez que são reversíveis, alterando o seu funcionamento consoante o sentido de escoamento da roda. Em modo de turbinamento, os grupos geradores são responsáveis pela transformação de energia hidráulica em energia mecânica (turbina) e de energia mecânica em elétrica (alternador) enquanto no modo bombagem dá-se a transformação de energia elétrica em mecânica (motor) e de energia mecânica em hidráulica (bomba), no entanto, o motor não arranca do repouso sem o auxílio do sistema de arranque. Para a mudança de modo de funcionamento utiliza-se um sistema de desafogamento da roda [28]. Cada grupo contém um sistema de excitação, composto por um regulador de tensão e equipamento de regulação de velocidade e são explorados em regime de compensação síncrona, não se admitindo exploração em rede isolada ou reserva girante. O caudal nominal em modo turbinamento é de 170 m3/s e em bombagem é de 140 m3/s e a tensão de produção prevista à saída do alternador é de 15 kV. 3.8.1.1 Turbina-Bomba As turbinas-bomba a instalar são do tipo Francis reversível, de eixo vertical com distribuidor regulável. Esta máquina transforma a energia hidráulica em energia mecânica, em modo turbinamento, enquanto no modo bombagem a transformação é contrária. A potência gerada pela turbina hidráulica, no modo turbinamento, relaciona-se diretamente com a energia potencial gravítica da água que é armazenada na sua albufeira. Tendo em conta as perdas de carga no circuito hidráulico, a potência nominal de cada turbina é dada pela equação (3.1): P=9.8×Q×(H−∆h)×µ(3.1) Onde: •P-Potência nominal [MW] •Q-caudal nominal de turbinamento [m3/s] •H-queda estática nominal [m] •∆hPerdas de Carga [m] •µ-Rendimento Hidráulico [%] As turbinas-bomba são dimensionadas para operarem à potência nominal, pois é nela que se obtêm melhores rendimentos, contudo a potência gerada depende da queda e do caudal turbinado. Quanto mais próximos os volumes de água se aproximam do NmEe, menor será a queda de água
38 Análise Técnica implicando menor caudal a turbinar, logo o grupo funcionará a uma potência abaixo da nominal, produzindo menos energia. Caso exista excesso de água na albufeira, a uma cota acima do NMC, esta água é descarregada e não turbinada. Tanto a seleção da velocidade de rotação específica como a fixação da submergência nas turbinas-bomba são condicionados pelos níveis das albufeiras de montante e jusante, a variação da altura de funcionamento, os rendimentos em turbina e em bomba e as suas dimensões. A velocidade de rotação específica da roda da turbina-bomba(nq) é dada pela equação (3.2): nq =n×pQ/H3 4(3.2) Esta turbina funciona imersa na água e diz-se de reação pois a roda é atravessada pelo escoamento sob pressão, isto é, o escoamento na zona da roda faz-se a uma pressão inferior da pressão atmosférica. 3.8.1.2 Alternadores-Motores O escalão montante possui dois alternadores-motores, cada um deles acoplado à respetiva turbina-bomba. A máquina poderá funcionar em dois modos distintos: alternador ou motor. O alternador recebe energia mecânica da turbina hidráulica (rotor) e entrega energia elétrica à rede; o motor absorve energia elétrica da rede e devolve energia mecânica à bomba hidráulica. O cálculo do valor da tensão de produção (Un) define-se por (3.3): Un =0.5×Sn2 3(3.3) Esta expressão é usada para valores de potência aparente nominal, Sn, entre os 10 e os 200 (MVA), logo poderá ser aplicada, pois o valor de Sn do alternador é de 85 MVA. O valor obtido para a tensão de produção foi de 10 kV, contudo estabeleceu-se para o projeto o valor de 15 kV de forma a utilizar equipamentos dentro da gama standard. 3.8.2 Sistema de Desafogamento da Roda O sistema de desafogamento da roda possibilita que a roda Francis da turbina-bomba gire no ar durante o arranque em bomba, reduzindo claramente a potência do conversor estático de frequência (a potência necessária é apenas 5% da potência do alternador-motor). É injetado ar comprimido na zona da roda e esta fica emersa, podendo girar no ar durante o arranque, difundindo menos energia do que num processo de roda afogada [28]. Cada grupo contém o seu próprio equipamento de desafogamento da roda, com uma instalação de produção e armazenamento de ar comprimido, assegurando assim as operações de desafogamento e afogamento, dispostos no “piso do equipamento de desafogamento” à cota (104,5). São igualmente usados para criar e manter o ar comprimido na zona da bomba durante o funcionamento do grupo em regime de compensação síncrona.
Capítulo 4 Análise Económica Para um projeto de investimento desta dimensão é imprescindível uma avaliação económica de modo a avaliar a sua viabilidade e credibilidade. Todos os investimentos intrínsecos à construção do AHBS, assim como os pagamentos associados deverão ser recuperados, através da venda da energia produzida nos mercados de eletricidade, assim como o fornecimento de serviços de sistema. Não só é importante testar a viabilidade deste projeto, como também entender quais os impactos que este terá na sociedade, assim como no meio onde está inserido e para tal é crucial efetuar uma análise qualitativa do projeto de modo a compreender todos os motivos que efetivamente aprovaram a construção do AHBS. 4.1 Planeamento do Projeto Foram planeadas todas as tarefas relacionadas com o projeto do AHBS desde o ano de 2008 até 2089, considerando-se todos os investimentos, pagamentos e recebimentos. Todos os cálculos realizados ao longo deste planeamento poderão ser consultados no Anexo A. O planeamento do AHBS divide-se em duas fases, uma fase inicial de construção e posteriormente uma fase de exploração. 4.1.1 Fase de Construção A fase de construção do AHBS engloba todas as tarefas que decorrem desde 2008 até 2014, tendo uma duração de 6 anos, onde são apenas realizados investimentos. Tais investimentos depreendem a aquisição de terrenos, as obras de construção civil, os equipamentos instalados, a gestão e fiscalização de todo o projeto, assim como os imprevistos que surgem no decorrer do projeto. Também se inclui nesta fase o pagamento efetuado pela EDP para a concessão do AHBS. As empreitadas acima referidas tiveram início em 2008 (com exceção do pagamento pela concessão e o pagamento dos equipamentos), decorrendo até ao ano de 2014. Os montantes dos investimentos realizados estão distribuídos segundo um calendário, disponibilizado pela EDP. Para o pagamento de expropriações de terrenos, indemnizações e recursos naturais estipulou-se 45
46 Análise Económica um prazo mais curto, sem os quais os restantes trabalhos dificilmente arrancariam. Os estudos e projetos surgem ao longo de toda a fase de construção, bem como a gestão e a fiscalização das obras. Os imprevistos para as tarefas acima descritas foram incluídos e foram igualmente distribuídos no tempo. A EDP é ainda obrigada a financiar um Plano Trienal de Investimento e Desenvolvimento pertencente ao fundo de compensação do AHBS. Este pagamento tem a duração de três anos (2011 a 2013) [32]. Os investimentos considerados tanto na fase de construção como na fase de exploração encontram-se a preços correntes. 4.1.2 Fase de Exploração A fase de exploração do AHBS corresponde ao tempo de vida útil do empreendimento, considerado de 75 anos, de acordo com o período de tempo de exploração que foi conferido pelo Governo à EDP. Este inicia-se em 2015 e termina em 2090. Nesta etapa consideram-se pagamentos e recebimentos, diferenciando-se assim da fase de construção. Os pagamentos são respeitantes aos custos de Operação e Manutenção (O&M) e pessoal e do Fundo do Baixo Sabor que corresponde a 3% das receitas líquidas anuais obtidas nos mercados de eletricidade [25]. Entenda-se por recebimentos as estimativas das receitas líquidas obtidas em mercado de eletricidade, a remuneração pelo fornecimento de serviços de sistema e o incentivo de garantia de potência atribuído pelo Governo Nacional, durante os 10 anos iniciais na fase de exploração do AHBS [33]. Existe ainda uma parcela denominada “Ganho Douro” que representa os ganhos do Douro, relativamente a receitas, pela presença do AHBS no sistema. Os valores obtidos em cada ano para o ganho Douro estão sujeitos a uma taxa de crescimento do preço dos mercados de eletricidade (3%) (cenário fornecido pela EDP) e não com a inflação. 4.2 Investimentos e Pagamentos Quer na fase de construção como na fase de Exploração existem investimentos e pagamentos e estes englobam os custos associados à execução do aproveitamento hidroelétrico, os custos de O&M e pessoal e ainda o Fundo Baixo Sabor. 4.2.1 Execução A construção de um aproveitamento hidroelétrico acarreta elevados custos, dos quais englobam a aquisição de terrenos, os custos de obras de construção civil e equipamentos hidromecânicos e eletromecânicos a instalar. Existem ainda custos de equipas de gestão e fiscalização de empreitadas, mão-de-obra especializada e custos de variados projetos realizados. Relativamente ao AHBS, o investimento disponibilizado pela EDP, associado a este projeto encontra-se descrito na figura 4.1:
4.2 Investimentos e Pagamentos 47 Figura 4.1: Investimento no AHBS (preços correntes 2014) Os preços dos investimentos fornecidos datam até Janeiro de 2014, preços correntes. O valor pago pela EDP, relativo à concessão do AHBS, é relativo a custos de Execução. 4.2.2 O&M e Pessoal Os custos relativos à O&M (operação e manutenção) e ao pessoal são considerados no início da fase de exploração e não poderão ser desprezado de forma alguma, no entanto poderiam ser avaliados separadamente, no entanto considera-se uma só parcela. O valor fornecido pela EDP foi de quase 2,8 kEur no ano inicial da fase de exploração (2015) e será atualizado ao longo dos anos, com uma taxa de inflação de 2%. 4.2.3 Fundo do Baixo Sabor Para que fosse autorizada a construção do AHBS, a EDP é obrigada a contribuir anualmente para a constituição de um fundo financeiro, designado de Fundo Baixo Sabor. O objetivo deste fundo visa “garantir a existência de iniciativas de desenvolvimento sustentável com base na valorização ambiental dos recursos naturais e patrimoniais da região, numa ótica de riqueza e de fomento de dinâmicas cívicas e de bem-estar social” [25]. Para a fase de construção, o Fundo Baixo Sabor apresenta um Plano Trienal de Investimento e Desenvolvimento 2011-2013, elaborado em Julho/2011, onde estão manifestadas as condições gerais de acesso ao financiamento para os meios de intervenção: valorização da paisagem, dos recursos naturais e patrimoniais; fomento da base económica regional e local; promoção da capacitação e bem-estar das populações e o desenvolvimento do turismo sustentável. Durante a fase de exploração, de acordo com o previamente definido na Declaração de Impacte Ambiental, o “proponente fica obrigado a contribuir para a constituição do fundo financeiro, que deverá ser por este dotado anualmente com uma verba calculada na base de 3% do valor líquido anual médio de produção do empreendimento” [25]. Neste caso, para cada ano pertencente à fase de exploração, o valor do Fundo Baixo Sabor a atribuir pela EDP tem como base os 3% sobre a
48 Análise Económica estimativa das receitas líquidas geradas pelos dois escalões do AHBS em mercados de eletricidade, que terá início em Janeiro de 2015. 4.3 Recebimentos Nesta secção serão abordados todos os recebimentos inerentes ao AHBS, todos eles na fase de exploração do projeto, começando pelas receitas obtidas no mercado de eletricidade, a remuneração obtida pelos serviços de sistema fornecidos e ainda o incentivo à garantia de potência. 4.3.1 Mercados de Eletricidade As receitas do AHBS a obter nos mercados de eletricidade relacionam-se com a venda de energia elétrica produzida e que irá ser transacionada no Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL). Para a estimativa de remuneração do AHBS, foi utilizado um software de otimização, desenvolvido pelo Eng.oJosé Carlos Sousa, na sua dissertação de Mestrado e que permite “determinar uma estimativa da remuneração de centrais hídrias através da otimização da produção de energia elétrica em regime de mercado” [34]. É fundamental conhecer o funcionamento do MIBEL e de que maneira se pode estimar a remuneração do AHBS e como tal estes conceitos serão desenvolvidos nos subcapítulos seguintes. 4.3.2 Funcionamento do MIBEL A produção de energia elétrica é uma tarefa liberalizada e totalmente aberta à concorrência, onde os agentes produtores oferecem a sua energia no mercado livre ou celebram contratos bilaterais diretamente com os distribuidores e/ou comercializadores. Em regime de mercado, a atividade de produção está associada a um mercado grossista, em que os agentes presentes na produção asseguram a colocação da mesma para satisfazer os consumos previstos dos agentes comerciais [35]. Após o acordo da sua implementação entre os Governos Português e Espanhol, a 14 de Novembro de 2001, o MIBEL entrou em funcionamento a 1 de Julho de 2007. No mercado ibérico intervêm todos os PRO ibéricos e os PRE espanhóis, contrariamente aos PRE portugueses, uma vez que em Portugal, a energia total produzida pelos PRE é vendida ao comercializador de último recurso, a um preço estabelecido administrativamente pelas tarifas feed-in [36]. O MIBEL funciona como um modelo misto, pois a produção e o consumo podem-se relacionar de duas maneiras distintas: pool simétrico e voluntário, englobando o mercado diário e intradiário, e os contratos bilaterais físicos e financeiros. O mercado em pool é gerido pelo OMIE (Pólo Espanhol do Operador de Mercado Ibérico), responsável por liquidações do mercado diário e intradiário [37]. É no mercado diário que se transaciona a maior quantidade de energia elétrica e caraterizase pelo cruzamento de ofertas de compra e venda, comunicadas pelos agentes que participam no mercado. A curva de venda é construída a partir da junção de todas as ofertas, organizadas de forma crescente dos preços oferecidos e irá intersetar a curva de compra, formada pelas ofertas
4.3 Recebimentos 49 de compra de energia que se encontram distribuídas de forma decrescente de preços oferecidos. O valor de interseção das duas curvas, em cada hora, designa-se por preço de mercado (Market Clearing Price) e a energia elétrica correspondente é a quantidade negociada (Market Clearing Quantity) [37]. Assim, todos os produtores são remunerados pela energia que oferecem ao preço de mercado estabelecido e todos os compradores de energia elétrica pagam o preço de mercado, independentemente do preço oferecido. Aos produtores que oferecem energia elétrica a um preço acima do preço de mercado não serão despachados. De seguida exemplifica-se o funcionamento do mercado diário em dia e hora determinados: Figura 4.2: Funcionamento do mercado diário em dia e hora determinados (02-01-2014) [38.] Relativamente às centrais hídricas do tipo fio-de-água, as ofertas destas surgem normalmente na região mais baixa da curva respetiva, e a energia proveniente destas é vendida a um preço mais reduzido. Para centrais hídricas com maior armazenamento, as suas ofertas são feitas consoante o custo de oportunidade das centrais térmicas mais caras. As propostas de venda das centrais térmicas são a preços normalmente mais elevados do que as hídricas devido a custos variáveis de produção, intrínsecos aos combustíveis usados e às emissões de CO2. A PRE portuguesa não tem participação no mercado diário, no entanto influencia-o uma vez que a energia que é vendida diretamente ao comercializador de último recurso vai reduzir a energia a ser transacionada no mercado diário. A curva de compra resulta da ação dos agentes comercializadores para o fornecimento regulado de energia e fornecimento de energia no mercado livre aos consumidores finais. É nesta curva que se encontram as ofertas das centrais hídricas reversíveis para a compra de energia para os processos de bombagem, destacando-se numa região média/baixa da curva de compra. Na figura 4.3, apresenta-se a evolução dos preços do mercado diário desde o funcionamento do MIBEL (Julho 2007) até 2013, inclusive. Verifica-se alguma volatilidade nos preços ao longo dos anos, devido à mudança dos preços dos combustíveis, alterações climatéricas internamente ligadas à hidraulicidade e eolicidade, assim como ao estado de estrutura do parque electroprodutor e ainda ao diagrama de carga.
50 Análise Económica Figura 4.3: Evolução dos preços de mercado diário no MIBEL de Julho de 2007 até 2013 [38.] Verifica-se que os preços em Portugal e Espanha não são sempre iguais. Tal facto deve-se ao mecanismo de Market Splitting, aquando o trânsito de potência nas interligações comerciais entre os países ibéricos é superior à sua capacidade. Caso se verifique Market Splitting, os mercados são separados, isto é formam-se curvas de compra e venda diferentes nos dois países e cada país terá um determinado preço de mercado e quantidade de energia transacionada. O mercado intradiário é um mercado de ajustes e o seu recurso faz-se para ajustar a quantidade de energia transacionada de uma forma mais precisa e de maneira a que tanto a procura como a oferta estejam em equilíbrio. O mercado intradiário é estruturado atualmente em seis sessões com a seguinte distribuição de horários por sessão: Figura 4.4: Estrutura das sessões do mercado intradiário [39]. Em cada sessão é discutido um preço para as horas objeto de negociação. Existe também o OMIP (Pólo Português do Operador de Mercado Ibérico) que é responsável pela gestão do mercado a prazo. Aqui são transacionados instrumentos referentes a contratos de compra e venda de energia para um determinado tempo futuro (semana, mês, trimestre e ano), de acordo com regras exigentes e específicas de mercado. Em todos os mercados referidos não existe identificação dos agentes, são negociações anónimas e efetuadas por um operador de mercado, não se verificando o mesmo em contratos bilaterais, onde já é possível uma relação direta entre produtores e os distribuidores e/ou comercializadores, respeitando-se as restrições técnicas do sistema.
4.3 Recebimentos 51 4.3.3 Estimativa de Remuneração Para estimar a remuneração anual em mercado à vista (ou mercado spot) das centrais hídricas para um estádio de 2015 (ano inicial de fase de exploração), recorreu-se ao programa desenvolvido pelo Eng.oJosé Carlos Sousa, na sua dissertação de Mestrado “Estimativa da Remuneração de Centrais Hídricas em Mercados de Eletricidade”. Foi realizada uma otimização das centrais hídricas em ambiente de mercado, minimizando assim os custos associados à compra de eletricidade (centrais providas de bombagem) e maximização do lucro com a venda da energia elétrica [34]. As afluências usadas nesta simulação foram alteradas, por questões de confidencialidade, denominando-se a cascata do Douro a simular como Douro Nacional Adaptado. 4.3.3.1 Descrição do programa utilizado O programa permite quantificar o volume que os aproveitamentos hidroelétricos da cascata do Douro Nacional (considerados no programa) esperam obter em regime de mercado quando fazem uma gestão operacional da água disponível nas suas albufeiras. Espera-se que a potência produzida em modo turbinamento seja colocada na rede quando os preços são mais elevados e que a bombagem seja realizada quando os preços de energia são mais baixos, tendo em consideração as restrições técnicas de cada central. A bombagem é economicamente viável se o valor que se ganha por turbinar um determinado volume de água seja capaz de, no mínimo, cobrir os custos de bombagem para o mesmo volume de água. O programa faz algumas considerações importantes neste estudo [34]: •Centrais hídricas são price takers :considera-se a evolução do mercado como um dado de entrada estático, isto é, o mercado não sofrerá alterações ao longo da simulação e não será influenciado por propostas de compra e venda de energia, contrariando o que se sucede na realidade com o MIBEL. Assim, os preços do mercado mantêm-se inalterados e os agentes hídricos são price takers, ou seja, os preços do mercado são as entradas do programa; •Relação não linear entre potência, queda e caudal: A potência produzida está dependente da queda e do caudal. Caso se verifique uma diminuição do volume de água disponível na albufeira e uma central específica, a queda verificada será menor e como tal o próprio caudal máximo também será menor. Assim, a potência produzida pode ser inferior à nominal. A relação ente potência, queda e caudal não é linear, sucedendo-se o mesmo no caso da bombagem. Esta não linearidade é considerada porque o Douro Nacional se carateriza por possuir centrais com grandes variações de queda; •Interligação dos reservatórios: Considera-se uma interligação entre todos os aproveitamentos hidroelétricos da cascata do Douro Nacional, na medida em que os aproveitamentos a jusante são influenciados tanto pelas afluências das suas albufeiras, como pelos caudais turbinados ou descarregados. Em modo de simplificação do programa, o fenómeno de regolfo
52 Análise Económica (subida do nível a jusante dos aproveitamentos devido ao turbinamento) foi desprezado, considerando-se um nível médio dos aproveitamentos a jusante como um valor constante. •Restrições de operação: São as caraterísticas das centrais hídricas, assim como os limites mínimos e máximos de exploração das albufeiras, os caudais ecológicos, caudais de turbinamento, de bombagem e descarregados, os volumes de água nas albufeiras e a potência instalada nas centrais. Se o nível de água nas albufeiras for abaixo do nível mínimo de exploração, a central não produzirá energia elétrica. 4.3.3.2 Dados de entrada do programa Os dados de entrada consistiram num cenário de preços de mercado horários, as caraterísticas das centrais hídricas que pertencem à cascata do Douro e as afluências às albufeiras ligeiramente alteradas. Na cascata do Douro Nacional Adaptado, DNA, inclui-se todos os aproveitamentos já existentes no troço nacional do rio Douro mais dois novos aproveitamentos em fase de construção, Foz Tua e Baixo Sabor (escalão montante e jusante), todos eles projetos e construção da EDP. O DNA representa-se na figura 4.5: Figura 4.5: Estrutura da cascata do Douro Nacional Adaptado (DNA) Não se considerou os aproveitamentos hidroelétricos de potência instalada inferior a 30MW (como Varosa) nem os aproveitamentos existentes no troço internacional do Rio Douro. Fora desta simulação estiveram também os aproveitamentos hidroelétricos a instalar no rio Tâmega e os de Vilar-Tabuaço, porque a produtibilidade média anual deste é pouco significativa. De seguida apresentam-se as principais caraterísticas dos aproveitamentos hidroelétricos considerados no DNA:
4.3 Recebimentos 53 Figura 4.6: Principais caraterísticas das centrais hidroelétricas do DNA Estes dados foram disponibilizados pela EDP e baseiam-se em dados históricos mensais dos regimes hidrológicos de 40 anos (entre 1966 e 2005). Por motivos de confidencialidade, os registos das afluências foram ligeiramente alterados. O programa é horário e houve necessidade de converter as afluências mensais em horárias. Com os dados das afluências disponíveis, o modelo de otimização da EDP, VALORAGUA, realiza uma simulação do comportamento expectável do MIBEL, para o estádio de 2015, pela interação entre as diversas tecnologias participantes neste regime de mercado. O VALORAGUA funciona com 40 regimes hidrológicos históricos e afluências, sendo possível realizar 40 cenários de preços de mercado, em que cada cenário é respeitante a um ano dos registos das afluências. O resultado da simulação foi um preço médio anual de mercado de 72,50 Eur/MWh para 2015, valor referência para a valorização das centrais hídricas. Uma alternativa possível para a determinação do preço de mercado poderia ser calculando um ano médio que se baseasse em registos do MIBEL, no entanto a sua reduzida amostra impossibilita este cálculo, porque o MIBEL só está em funcionamento desde Julho de 2007, logo a amostra disponível é muito reduzida. Além disso, caso fosse considerado apenas um único cenário de preços resultante do MIBEL, não seria possível estabelecer uma correlação entre os registos do MIBEL e os registos das afluências devido ao desfasamento no tempo existente (os registos do MIBEL existem somente desde Julho de 2007 e os registos das afluências terminaram em 2005). 4.3.3.3 Método utilizado na simulação A otimização realizada executa a simulação para 40 regimes hidrológicos (1966-2005) para o estádio de 2015. Para cada regime hidrológico simulado, usou-se o modelo VALORAGUA, determinando assim a variação dos preços de mercado, considerando a hidraulicidade. Com as 40 simulações de 2015 determina-se o valor médio das receitas denominado "média de regimes". Realiza-se uma simulação para dois casos distintos: uma cascata do DNA sem o AHBS (chamado “sem Baixo Sabor”) e uma cascata do DNA com o AHBS (chamada “com Baixo Sabor”).
54 Análise Económica A simulação devolve para cada hora as energias produtíveis e consumíveis (em bombagem), volumes turbinados, bombados e descarregados, assim como a valorização para cada aproveitamento da cascata do DNA. Deste modo torna-se possível determinar quais os ganhos da inclusão do AHBS no sistema do Douro. O método de simulação “com Baixo Sabor” é de seguida exemplificada, na figura 4.7, para os aproveitamentos B e C (Baixo Sabor, de acordo com a figura 4.7). Os resultados obtidos são respeitantes a todos os aproveitamentos da cascata do DNA e não apenas ao aproveitamento do Baixo Sabor. Figura 4.7: Metodologia de simulação “com Baixo Sabor" Poder-se-ia ter considerado uma simplificação de criar um ano médio de afluências a partir dos registos de afluências de 40 anos, simulando apenas um ano médio. Contudo, esta simplificação teria levado a um grave erro, porque simular os 40 anos e calcular a média é bastante diferente de simular um ano médio. Ao calcular a média das afluências, afirma-se que as centrais tinham capacidade de aportar esse valor de água e teriam descarregamentos menores, o que não se verifica na prática. As afluências não são previsíveis ao longo do ano, no entanto concentram-se nos períodos de inverno, na maioria, onde por norma existem grandes afluências levando ao descarregamento de água em excesso em algumas centrais, pela capacidade máxima de armazenamento da albufeira ter sido excedida [34]. 4.3.3.4 Tratamento dos dados de saída Os dados de saída resultantes da simulação são a energia média produzida e consumida, os volumes médios turbinados, bombados e descarregados e ainda a valorização que cada central hídrica
4.3 Recebimentos 61 geradores, então o valor de Pil será de 342 MW. Na medida em que o AHBS terá entrada de exploração no prazo fixado na licença de produção, o índice icp e ivd terão um valor unitário, contabilizando o montante anual do incentivo ao investimento para o AHBS, no ano de 2015, primeiro ano de exploração, de 7524 kEur. Este valor manter-se-á fixo ao longo de 10 anos iniciais de exploração, uma vez que não é afetado por qualquer taxa de inflação ou de crescimento dos preços de eletricidade. 4.3.6 Análise Financeira De seguida serão discriminados todos os passos efetuados na Análise Financeira para o cálculo do Cash Flow Total (ou Free Cash Flow ) que irá permitir efetuar o cálculo dos indicadores económicos que permitem avaliar economicamente o projeto de investimento em causa. De modo a compreender o cálculo do Cash Flow Total segue no Anexo B os passos utilizados de forma mais detalhada. Primeiramente é analisado o Cash Flow de Investimento que engloba todos os pagamentos e investimentos realizados ao longo da fase de construção do projeto, que foram referidos anteriormente no subcapítulo Investimentos e Pagamentos desta secção do documento. No Anexo A, disponibilizado neste documento, é possível visualizar a calendarização fornecida pela EDP, apresentado todos os valores em preços correntes, que serão utilizados no cálculo do Cash Flow de Investimento. De seguida é analisada a rubrica de Proveitos e Custos Operacionais. Nos Proveitos estão incluídas as receitas dos Mercados de Eletricidade, Serviço de Sistema e ainda da Garantia de Potência, discutidos anteriormente. Os Custos Operacionais englobam os custos associados à O&M e Pessoal e ao Fundo do Baixo Sabor. A rubrica EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) é a diferença entre os Proveitos e os Custos Operacionais. No cálculo das Amortizações considerou-se o critério de quotas constantes, isto é, o valor a amortizar é dividido igualmente ao longo dos 75 anos de exploração do AHBS. O valor a amortizar corresponde à amortização dos investimentos realizados ao longo da fase de construção, exceto os investimentos associados à aquisição dos terrenos, pois estes não perdem valor ao longo dos anos. Efetuando a dedução das amortizações ao EBITDA obtém-se uma nova rúbrica, denominada EBIT, correspondente ao resultado operacional do projeto. Ao EBIT é aplicada uma taxa de imposto, o IRC. A relação destas rúbricas é evidenciada na equação (4.3): EBITDA =EBIT ∗(1−taxaIRC)(4.3) O valor de IRC correspondente é o que se aplica em Portugal, 25%. Por último, o Cash Flow Total corresponde ao EBITDA deduzido do Cash Flow de Investimento e do imposto, que se calculou com a equação (4.3).
62 Análise Económica 4.3.7 Análise Quantitativa A análise económica é um elemento crucial no apoio à decisão de aprovação ou rejeição de um determinado investimento. Numa análise económica deve-se ter em conta a parte quantitativa do projeto, avaliada pelos seus indicadores económicos. Para a análise quantitativa deste projeto realizou-se primeiramente uma análise determinística e de seguida efetuou-se uma análise de risco que serão discutidos neste subcapítulo do documento. •Valor Atualizado Líquido (VAL) O VAL é um modelo estruturado para a análise de Investimentos que possibilita transferir todos os Cash Flows anuais para o presente e representa o valor atual dos mesmos ao longo do período em causa. Algebricamente, o VAL é calculado a partir da equação (4.4): VAL = n ∑ k=1 CFk (1+i)k(4.4) onde: •CFkCash Flow no ano k (kEur); •n - Período (ano); •i - Taxa de atualização (%). O período n é referente ao tempo de avaliação de todo o projeto, nomeadamente a fase de construção e de exploração, totalizando um período de 81 anos (6 anos em fase de construção e 75 anos de exploração). A partir da equação (4.3) transporta-se todos os cash flows para 2008, o primeiro ano da fase de construção do AHBS. Outro exercício importante é atualizar o valor do VAL para Janeiro de 2014, data em que o estudo termina, permitindo conhecer quais os valores referentes a essa data. A atualização do VAL é então feita a partir da expressão (4.5): VALJan2014 =VAL∗(1+i)6(4.5) O período considerado entre início de 2008 e Janeiro de 2014 é de 6 anos. A taxa de atualização idetermina a exigência de remuneração do capital pela empresa investidora, ou seja é a taxa de retorno que os investidores exigem para que o investimento seja fiável e posteriormente aprovado. Esta taxa é o custo médio ponderado de capital, que em inglês se denomina de WACC, Weighted Average Cost of Capital e como o nome indica é uma média ponderada dos capitais próprios da empresa, ou seja, é o retorno que os acionistas da empresa exigem para a aprovação do investimento e dos custos de capital de terceiros, exigidos pelos credores da empresa para que seja possível o empréstimo financeiro à empresa em causa, nomeadamente instituições bancárias e juros de empréstimo.
4.3 Recebimentos 63 O cálculo do WACC é feito a partir da equação (4.6) e depende da credibilidade, maturidade, dimensão e visão estratégica da empresa face aos acionistas e credores que financiam o investimento ao menor risco. WACC =E (E+D)∗Re+D (E+D)∗Rd∗(1−Tc)(4.6) onde: •EValor de mercado do Custo Capital Próprio (%); •DValor de mercado do Custo da dívida (%); •ReRentabilidade esperada pelos acionistas (%); •RdTaxa média de juro da dívida (%); •TcTaxa marginal de imposto (%). Neste estudo, foi considerado um valor de WACC de 7,80%, a partir do qual se determinou qual o VAL correspondente, sendo este valor de 58.624 MEur. A taxa de atualização tem forte influência no cálculo do VAL e consequentemente na viabilidade do investimento. Com o aumento do valor da taxa de atualização i, o VAL diminui e quanto menor for a inclinação da curva, menor será a sensibilidade do VAL à taxa de atualização. Figura 4.10: Exemplo de relação entre VAL e taxa de atualização (i)[48] •Taxa Interna de Rentabilidade
64 Análise Económica Denomina-se TIR à taxa de rentabilidade que iguala o VAL a zero. Esta igualdade calcula uma taxa de rentabilidade equivalente à remuneração do capital obtida, através da equação (4.7): n ∑ k=1 CFk (1+i)k=0 (4.7) Com a aplicação da equação (4.7), o projeto do AHBS obteve uma TIR de 8,18%. Numa análise grossista, afirmar-se-ia que o projeto do AHBS seria economicamente viável, na medida em que o valor da TIR é superior ao valor do WACC. Assim, o AHBS teria capacidade de gerar rentabilidade acima do custo de oportunidade do capital. Comparando o WACC referência da EDP de 7,80% com o valor de TIR obtido de 8,18% para o AHBS, conclui-se que este projeto seria economicamente viável, porque cobre todo o investimento para além de gerar excedente financeiro para a empresa. 4.3.8 Análise de Risco Investimentos da dimensão do AHBS por norma apresentam alguns riscos associados, quer à sua construção ou à exploração de modo que a antevisão das consequências associadas a estes riscos são uma mais-valia para o projeto. Uma análise de risco tem duas vertentes: a atribuição de um valor numérico aos riscos do projeto que são identificados ao longo do seu estudo, análise de risco quantitativa, ou a atribuição de dados empíricos que quantificam qualitativamente o projeto, análise de risco qualitativa. Para a realização da análise de risco quantitativa recorreu-se à Simulação de Monte Carlo (SMC). Na SMC, através de distribuições de probabilidade descreve-se a incerteza associada às variáveis utilizadas na análise de risco. Dispõe-se de variadas distribuições de probabilidades, no entanto as mais usadas neste tipo de projeto são: a Distribuição Normal, Uniforme e Lognormal. Na SMC são amostrados aleatoriamente valores, a partir da distribuição de probabilidades de entrada, e para cada amostra faz-se corresponder uma iteração da simulação e o resultado dessa iteração que é registado. A SMC tem capacidade computacional para realizar este processo centenas ou milhares de vezes e o resultado da simulação é uma distribuição de probabilidade das saídas. Assim, a execução da SMC permite uma melhor compreensão do que poderá acontecer e a sua probabilidade associada [47]. Para o estudo do AHBS, as entradas da SMC são as receitas líquidas obtidas nos Mercados de Eletricidade, os valores associados aos Serviços de Sistema e ainda a Taxa de Crescimento dos preços de Mercado. Para os sorteios dos Serviços de Sistema e para a Taxa de Crescimento dos preços de Mercado foram escolhidas distribuições de probabilidades Normal, porque, uma vez que não é conhecida a evolução destes parâmetros, por falta de registo histórico, assume-se à partida uma distribuição de probabilidades Normal. Para o sorteio das Receitas de Mercado, efetuaram-se dois estudos distintos. Primeiramente realizou-se uma simulação clássica, utilizando uma distribuição Lognormal, uma vez que as receitas obtidas para os 40 anos de registos de afluências existente seguiam uma distribuição deste tipo. No entanto, o AHBS possui uma elevada albufeira que poderia condicionar a produção de energia de uns anos para os outros e como tal, num segundo
4.3 Recebimentos 65 estudo considerou-se uma distribuição Uniforme para o sorteio de uma sequência de anos, onde a cada ano corresponde uma Receita distinta e dependente do ano imediatamente anterior, isto é considera-se a gestão de albufeira no AHBS. Devido à elevada capacidade da SMC realizaram-se 5000 iterações, cada uma delas referente aos 75 anos de exploração do AHBS, totalizando 375 mil valores possíveis para as receitas líquidas, os serviços de sistema e ainda a taxa de atualização do mercado de eletricidade. A existência de uma elevada quantidade de iterações permite garantir um caráter de aleatoriedade, porque não existem valores genuinamente aleatórios, mas sim quase-aleatórios. Para todas as entradas da SMC serão escolhidos 75 conjuntos de valores possíveis e no final serão calculadas todas as rúbricas descritas anteriormente no subcapítulo Análise Financeira, obtendo no final o Cash Flow Total e a partir deste o VAL do projeto para Janeiro de 2014. Nesta análise, o WACC foi determinado em 7,8%, valor proposto pela EDP, para todas as iterações, obtendo-se uma simulação com 5000 valores de VAL que de seguida foram agrupados em intervalos de 50. O histograma dos resultados obtidos está representado na figura 4.11. Figura 4.11: Histograma com a distribuição dos resultados do VAL, considerando a gestão de albufeira Os resultados da SMC seguem uma distribuição Normal, facto observável através da função de distribuição de probabilidade (resultados apresentados através de intervalos, considerando variáveis discretas) e pela função de densidade de probabilidade (representação dos mesmos valores, considerando variáveis contínuas). Apesar dos dados de entrada seguirem uma distribuição Lognormal e Uniforme, os resultados seguem uma distribuição Normal e tal facto pode ser explicado pelo Teorema do Limite Central que defende que qualquer que seja a distribuição, com o aumento da amostra, a distribuição das médias resulta numa distribuição Normal. O valor médio obtido para o VAL, em Janeiro de 2014, foi de aproximadamente 58,625 MEur, com um desvio padrão de 21,995 MEur.
66 Análise Económica Na simulação clássica, considerando a uma distribuição Lognormal para as Receitas do Mercado, o resultado obtido para o VAL foi de 58,810 MEur aproximadamente, no entanto o desvio padrão foi mais elevado, atingindo os 33,488 MEur. Conclui-se assim que o Risco associado a este investimento será inferior se for considerada a gestão de albufeira no AHBS, uma vez que esta tem uma dimensão elevada que influencia as produções energéticas assim como as receitas destas de uns anos para os outros. Outro objetivo desta análise será ter conhecimento da probabilidade da empresa obter lucro com o investimento realizado, isto é, qual a probabilidade de o VAL do projeto ser positivo. Esta informação não é obtida apenas pela análise da distribuição Normal, sendo necessário o cálculo da função de distribuição acumulada, uma vez que esta associa os valores obtidos para VAL e a probabilidade deste ser inferior a um valor pretendido. Da observação da função de distribuição acumulada, representada na figura 4.11, e da interseção desta com os valores de frequência negativos, pode-se afirmar que a probabilidade de o VAL ser negativo é de aproximadamente 5%. Outro modo de avaliação seria firmar que a probabilidade da empresa ter rentabilidade positiva seria de 95%. Através do conhecimento da média e do desvio padrão da distribuição Normal é possível determinar um intervalo de valores onde haverá mais probabilidade de definir o VAL, para diferentes probabilidades, utilizando a regra dos 3-sigmas, representados de seguida, nas figuras 4.12 e4.13: Figura 4.12: Distribuição Normal e regra dos 3-sigmas
4.3 Recebimentos 67 Figura 4.13: Intervalos de valores do VAL para diferentes probabilidades e taxas de atualização Desta distribuição podemos afirmar que: •68% dos valores encontram-se a uma distância da média inferior a um desvio padrão. •95% dos valores encontram-se a uma distância da média inferior a duas vezes o desvio padrão. •99,7% dos valores encontram-se a uma distância da média inferior a três vezes o desvio padrão. Como o VAL não é o único indicador económico usado na avaliação da viabilidade económica do investimento do AHBS, efetuou-se o mesmo procedimento de simulação para o cálculo da TIR. A TIR representa qual a taxa de rentabilidade que iguala o VAL a zero. De seguida apresenta-se o histograma dos resultados obtidos para o cálculo da TIR, segundo uma distribuição Normal:
68 Análise Económica Figura 4.14: Histograma com a distribuição dos resultados da TIR, considerando a gestão de albufeira Desta análise destaca-se que enquanto o valor da TIR for superior ao valor do WACC exigido neste investimento, o VAL será sempre positivo. Recorrendo à função de distribuição acumulada, pode-se assumir que a probabilidade de se obter uma TIR superior ao WACC ronda os 95%. Novamente utiliza-se a regra dos 3-sigmas (com a respetiva média e desvio padrão da distribuição dos resultados para a TIR) e determinou-se o intervalo de valores em que a TIR se poderá encontrar, representado na figura 4.15 :
4.3 Recebimentos 69 Figura 4.15: Intervalos de valores da TIR para diferentes probabilidades Através da análise da figura 4.15, afirma-se que existe uma probabilidade de 68% de a TIR obtida estar entre 7,958% e 8,242% aproximadamente. O projeto poderia gerar uma rentabilidade de 8,526%, no entanto essa probabilidade é muito baixa. Verifica-se também uma probabilidade de 95% de ocorrência de uma taxa de rentabilidade entre os valores 7,816% e 8,384%. Relembrase que a aprovação ou não do investimento no projeto não depende apenas da Taxa Interna de rentabilidade, mas também dos investidores perante o risco. 4.3.9 Análise Qualitativa O AHBS está actualmente em fase final de construção,de modo que os indicadores económicos calculados anteriormente permitiram o avanço da obra, tornando o aproveitamento hidroeléctrico de certa forma, atractivo aos investidores que aceitaram realizar este empreendimento. No entanto, para a aprovação de investimentos, não deverão ser apenas considerados aspetos quantitativos do projeto, mas também aspetos qualitativos inerentes ao projeto em causa, principalmente medidas socioeconómicas e de desenvolvimento regional envolvidos. Para que o projeto do AHBS pudesse avançar instituiram-se planos de monitorização, desde 2008, dos quais se destacam: •Programa de Monitorização do Ruído que tem como objetivo o cumprimento do Regime Geral do Ruído, durante a construção do AHBS, permitindo assim uma resposta a eventuais reclamações provenientes da obra em execução; •Programa de Monitorização da Qualidade do Ar com vista ao cumprimento da legislação nacional sobre a qualidade do ar, na área envolvente à implementação do aproveitamento, pretendendo-se igalmente verificar a necessidade de implementação de novas medidas de
70 Análise Económica mitigação de impactes, assim como a contribuição para a melhoria dos procedimentos de gestão ambiental da empresa; •Programa de Monitorização da Qualidade da Água que avalia o impacte da construção e da exploração do AHBS na qualidade das águas superficiais, verifica o cumprimento da legislação nacional de critérios internacionais adotados sobre a qualidade da água (Champan, 1992) e nos cursos de água. Estuda a relação entre o comportamento hidráulico e o a qualidade da água, avalia a mecessidade de implementação de novas medidas de minimização dos impactes verificados, contribuindo para uma melhoria nos procedimentos da gestão ambiental da EDP. Este programa prevê-se durante toda a vida útil do projeto, incidindo sobre as águas superficiais do rio Sabor e afluentes e conta com a recolha de amostras em 36 pontos com periocidade distintas: mensal (15 pontos), trimestral (11 pontos) e semestral (12 pontos); •Programa de Monotorização dos Ecossistemas Aquáticos que avalia a evolução das caraterísticas biológicas e ecológicas locais, face ao impacte da construção e da exploração do AHBS e avalia a eficácia das medidas de minimização e compensação implementadas, através da monitorização dos seguintes aspetos: Oxigénio, Nutrientes, Clorofila, Poluentes Orgânicos, Fitoplâncton, Perifiton, Macrófitos, Macro-Invertebrados bentónicos e Ictiofauna de controlo; •Programa de Monitorização da Flora, Vegetação e Habitats que avalia a evolução das formações vegetais mais importantes face aos exemplares florísticos. Com duração até 2017, procede-se uma avaliação trimestral de impactes decorrentes da realização das obras durante o enchimento da albufeira; •Plano de Monitorização da Fauna que durará até 2014 e abrange espécies como a Lontra Marinha, a Toupeira-de-água, o Lobo ibérico, os Morcegos e ainda a Avifauna; •Programa de Monitorização da Socioeconomia que pretende aferir o cumprimento e a eficácia das medidas mitigadoras propostas, avaliar os efeitos da deslocação forçada de algumas atividades ou locais de acontecimentos públicos e permite uma melhor perceção dos efeitos do empreendimento sobre o território e o seu ambiente social. A construção do AHBS tem impactes diretos positivos, através da aquisição de bens e serviços, nas empresas de Torre de Moncorvo e em menor grau, no concelho de Alfândega da Fé; •Programa de Monitorização da Paisagem que avalia a correspondência entre os projetos de recuperação paisagística propostos e a sua execução; •Plano de Monitorização da Gestão de Resíduos que permite verificar o cumprimento do Plano Integrado de Gestão de Resíduos e a legislação em vigor. é específico para a fase de construção do AHBS. Sabe-se que em 2010 foram produzidas 936 toneladas de resíduos, dos quais 448 t foram valorizados, 435 t de material inerte, resultante das escavações colocados em escombreira e apenas 53 t foram necessárias eliminar;
Anexo A Anexos A.1 Anexo A - Investimentos, Pagamentos e Recebimentos Da Figura A.1 à Tabela A.6 estão especificados os investimentos, pagamentos e recebimentos ao longo da fase de construção e da fase de exploração, de acordo com o que foi descrito no Capítulo 4. Figura A.1: Resultados dos investimentos, pagamentos e recebimentos entre 2008 e 2014 77
78 Anexos Figura A.2: Resultados dos investimentos, pagamentos e recebimentos entre 2015 e 2033 (continuação) Figura A.3: Resultados dos investimentos, pagamentos e recebimentos entre 2034 e 2050 (continuação)
A.1 Anexo A - Investimentos, Pagamentos e Recebimentos 79 Figura A.4: Resultados dos investimentos, pagamentos e recebimentos entre 2051 e 2068 (continuação) Figura A.5: Resultados dos investimentos, pagamentos e recebimentos entre 2069 e 2082 (continuação)
80 Anexos Figura A.6: Resultados dos investimentos, pagamentos e recebimentos entre 2083 e 2089 (continuação) A.2 Anexo B - Análise Financeira Da Figura B.1 até à Tabela B.5 estão discriminados os cálculos das rubricas da Análise Financeira ao longo do tempo de vida útil do projeto, tal como referido no Capítulo 4. Figura A.7: Resultados da Análise Financeira do ano -7 ao ano 7
A.2 Anexo B - Análise Financeira 81 Figura A.8: Resultados da Análise Financeira do ano 8 ao ano 26(continuação) Figura A.9: Resultados da Análise Financeira do ano 27 ao ano 45(continuação) Figura A.10: Resultados da Análise Financeira do ano 46 ao ano 63(continuação)
82 Anexos Figura A.11: Resultados da Análise Financeira do ano 64 ao ano 74(continuação)
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