scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Barack Obama Enquanto Impulsionador de Mudança

Daniela Cardanha Mano

Full text

FACULDADE DE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO Daniela Cardanha Mano 2º Ciclo de Estudos Anglo-Americanos Barack Obama Enquanto Impulsionador de Mudança 2015 Orientador: Prof.ª Doutora Maria Teresa Castilho Coorientador: Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva Agradecimentos À minha orientadora, a Professora Doutora Maria Teresa Castilho, por toda a disponibilidade, empenho e encorajamento. Aos meus pais pelo seu apoio incondicional. Índice Introdução Capítulo 1: A Centralidade da Raça na Sociedade Americana 1.1: As Campanhas Presidenciais 1.2: Os Mandatos Presidenciais Capítulo 2: A Estratégia Retórica de Barack Obama Conclusão Bibliografia 1 6 23 38 52 57 Introdução Introdução “Although he sought to avoid focusing on issues of race, the realities of being a black presidential candidate – and then president – in a country with deep-seeded divisions and a troubled racial history has made the topic central for the last two years; race will remain a central focus of inquiry and discussion.”1 Carly Fraser “Have we overcome? The historic presidency of Barack Obama offers one answer. But the boarded up, foreclosed houses in minority neighborhoods and the staggering rates of urban unemployment offer another.”2 Steven E. Levingston No dia quatro de Novembro de 2008 Barack Obama foi eleito o quadragésimo-quarto Presidente dos Estados Unidos e o primeiro Presidente afro-americano. Esta primeira vitória eleitoral e a reeleição em 2012 reforçaram a visão de uma América pós-racial, que já começava a ganhar força com a sua própria candidatura presidencial. De facto, o Presidente norte-americano foi desde logo visto como o principal agente na construção e na difusão desta visão, não só por ser um Presidente afro-americano, mas também, e principalmente, devido à sua passividade perante questões raciais. Para citar Steven Levingston: “the president’s studied silence on race – and many white Americans’ insistence on their colorblindness – leave America’s real racial problems mostly unaddressed.”3 Assim é porque, na realidade, a raça continua a ser um fator central na sociedade americana. De facto, ambas as campanhas eleitorais foram fortemente marcadas por questões raciais. Randall Kennedy, um professor de Direito na Universidade de Harvard, sugere que Barack Obama recebeu mais apoio por parte dos afro-americanos e dos liberais devido à sua raça: “racial liberals supported Obama more than they would have backed an ideologically similar white 1 Manning Marable e Kristen Clarke (eds) (2009), Barack Obama and African American Empowerment: The Rise of Black America’s New Leadership, p.179. 2 Steven E. Levingston (2010, 10 de Junho), “The myth of post-racial America” in The Washington Post. 3 Ibidem. 2 Introdução candidate while racial conservatives opposed Obama more than they would have opposed an ideologically similar white candidate.”4 Porém, apear de se manifestarem de forma relativamente subtil, os preconceitos raciais ainda estão bem presentes na sociedade norte-americana. Deste modo, um Presidente afro-americano cuja postura parece ser pós-racial criou e reforçou a ilusão de uma América onde a discussão da raça já não é pertinente. A figura do Presidente Barack Obama como impulsionadora de mudança é portanto paradoxal, pois a sua condição como afro-americano simboliza mudança, mas, ao mesmo tempo, a sua postura assenta na continuidade com o passado de desigualdade racial. O Presidente norte-americano cria, portanto, uma dinâmica bastante complexa e interessante no debate racial na sua sociedade. Porém, para compreender o impacto do Presidente eleito na sociedade norte-americana é necessário analisar os dois elementos que criam esta dinâmica: a postura de conformismo e compromisso e a retórica pós-racial de Barack Obama. Assim, no primeiro capítulo desta dissertação serão analisadas as circunstâncias em torno das eleições e dos mandatos presidenciais e de que forma a raça influenciou o discurso político de Barack Obama. Para tal, serão analisadas algumas das situações mais polemicamente marcantes, bem como algumas das estratégias políticas adotadas pelos candidatos democratas e republicanos para enfrentar questões e tensões raciais. Este capítulo constitui a primeira parte do trabalho, em que são estabelecidos os contextos nos quais Barack Obama tenta manter uma postura de compromisso, algo que é dificultado quando confrontado com situações onde a discussão da raça é inevitável. Desta forma, este capítulo inicial será fundamental para compreender não só a complexidade desta postura do Presidente norte-americano, mas também as dificuldades e as consequências de tal postura numa sociedade que, a meu ver, afinal não é pós-racial. Compreender a postura de conformismo do Presidente Barack Obama e a importância da raça na sociedade americana é fulcral, pois estes são elementos centrais na edificação de toda uma retórica pós-racial. Deste modo, no segundo capítulo tornar-se-á possível analisar e problematizar a forma como o Presidente norte-americano se apropria de alguns elementos históricos e míticos necessários para esta construção retórica. No todo do trabalho serão analisados os contextos e os elementos que influenciam e condicionam a postura e a retórica do Presidente norte-americano de forma a discutir o objetivo 4 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.8. 3 Introdução deste trabalho: a problematização da presidência de Barack Obama enquanto agente de mudança social, política e económica na sociedade norte-americana. 4 Capítulo 1: A Centralidade da Raça na Sociedade Americana As Campanhas Presidenciais 1.1: As Campanhas Presidenciais “He made himself black enough to arouse the communal pride and support of African Americans but not "too black" to be accepted by whites and others.”1 Randall Kennedy Em 2008, o entusiasmo dos eleitores mais liberais pela campanha do candidato afroamericano Barack Obama era de tal forma notável que levou ao surgimento do termo “fenómeno Obama.” De facto, o próprio Senador de Illinois afirmou que este crescente entusiasmo se devia à procura de algo novo e diferente.2 Contudo, o artigo Campaign 2008: Is U.S. Ready for Woman President?3, publicado na revista Newsweek, pergunta: “how new?”. Segundo Lawrence Otis Graham, um autor afro-americano citado pelo artigo, apesar de haver maior tolerância racial, a eleição de um negro para Presidente dos Estados Unidos poderia ainda não ser bem aceite pela maioria da população americana.4 Não é, no entanto, esta a mensagem que o democrata tem transmitido através dos seus discursos. Barack Obama começou a ganhar visibilidade com o discurso proferido a vinte e sete de Julho de 2004 perante a convenção nacional democrata, em que havia afirmado que a sua história pessoal é parte da história americana.5 A história de vida de Barack Obama é assim, desde cedo, associada à oportunidade de ascensão social e à liberdade e, logo, ao sonho americano. No entanto, a apropriação deste elemento por parte do candidato afro-americano revela-se problemática e paradoxal, pois o democrata tentou afirmar uma era pós-racial em que a raça já não seria um fator determinante de carácter, mas afirmou também a sua condição como afro-americano e sublinhou aos eleitores mais liberais o facto da sua candidatura ser histórica. Esta dimensão racial paradoxal esteve, de facto, presente em ambas as campanhas presidenciais. Por vezes, a raça parecia ser ______ 1 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.78. 2 Ibidem. 3 Jonathan Alter (2006, 25 de Dezembro), "Campaign 2008: Is U.S. Ready for Woman President?" in Newsweek. 4 Ibidem. 5 Cf. Joann Price (2009), Barack Obama: The voice of an American leader, p.35. 6 As Campanhas Presidenciais disse, na Fox News, que Barack Obama havia sido condescendente para com os afro-americanos.27 Curiosamente, o então Senador Barack Obama advertiu, tal como alguns críticos e comentadores, para o facto de Jackson haver feito no passado afirmações semelhantes às do democrata.28 Segundo o colunista do Tampa Bay Times Eric Deggans, a declaração de Jesse Jackson mostra a sua incapacidade de adaptação a uma sociedade que se afirma como pós-racial.29 No seu artigo Jesse Jackson's Obama problem: He needs Barack more than Barack needs him, Eric Deggans sugere que Barack Obama não necessitava do apoio de Jesse Jackson para angariar votos de afroamericanos: Obama doesn't need him [Jackson] to get black votes -- black people are ready to vote for a black man who has a realistic shot at winning the White House, regardless of whether Jesse, Al or Julian Bond like him. Still, these leaders can't look like they're hindering his campaign, or they may lose their constituency (not exactly a resume-builder for a black civil rights leader to hamper efforts by anyone to become the first black president). Just like Ralph Nader before him, Jesse isn't sure how to relate to a black candidate who doesn't talk about traditional black issues in traditional ways -- particularly when they don't need his help to reach black people.30 A leitura do colunista faz sentido, especialmente tendo em conta outros episódios como os “Jena Six.” Em 2006, seis adolescentes negros espancaram um estudante branco em Jena, Luisiana – um ataque que foi o culminar de vários episódios que envolveram tensões raciais. Jesse Jackson criticou a passividade de Barack Obama, dizendo: "if I were a candidate, I'd be all over Jena."31 O jornal da Carolina do Sul The State citou Jackson que, alegadamente, acusou o candidato democrata de agir como se fosse branco.32 Barack Obama respondeu, afirmando que a justiça não é uma questão 27 Cf. Lola Adesioye (2008, 10 de Julho), "Speaking up versus talking down" in The Guardian. 28 Cf. Michael James (2008, 13 de Julho), "Obama ‘Won’t Back Off One Bit’ on His Tough-Love Message " in www.abcnews.go.com 29 Cf. Eric Deggans (2008, 12 de Julho), "Jesse Jackson's Obama problem: He needs Barack more than Barack needs him" in Tampa Bay Times. 30 Ibidem. 31 Sharon Kehnemui Liss (2007, 19 de Setembro), "Report: Jesse Jackson Says Barack Obama 'Acting White' in Case of Six Blacks Accused in Assault Case" in www.foxnews.com 32 Cf. Manning Marable e Kristen Clarke (eds) (2009), Barack Obama and African American Empowerment: The Rise of Black America’s New Leadership, p.167. 13 As Campanhas Presidenciais racial, mas sim moral.33 Estes comentários de Jackson estão de acordo com a suposição de Eric Deggans. Os líderes negros das gerações anteriores parecem ter posições e ideias mais radicais e menos inclusivas e que, portanto, são o oposto da estratégia do candidato democrata que faz leituras mais abrangentes da realidade. O comentário de Jackson criou assim uma boa oportunidade para o candidato afro-americano se afastar publicamente do Reverendo e do seu ponto de vista mais radical receado por muitos eleitores brancos. O democrata viu ainda a sua nacionalidade questionada e, consequentemente, a sua elegibilidade para Presidente dos Estados Unidos. Apesar de inicialmente serem encarados como fanáticos das teorias de conspiração, os americanos que exigiam ver o certificado de nascimento de Barack Obama começaram a ganhar popularidade e, eventualmente, a Casa Branca acabou por tornar o certificado público.34 Os “birthers,” como este grupo ficou conhecido, e outros simpatizantes do movimento foram acusados de racismo, pois nenhum candidato branco viu a sua nacionalidade questionada, apenas Barack Obama. Tanto em 2008 como em 2012 surgiram outras polémicas, mas sem consequências pessoalmente desastrosas para o candidato democrata. Contudo, quer os seus adversários democratas que lutavam pela nomeação do partido, quer os seus adversários republicanos, utilizaram estratégias bastante semelhantes de forma a representar Barack Obama como menos patriota e, logo, menos americano. Randall Kennedy afirma que a raça foi apenas mais um elemento que permitiu questionar o patriotismo de Barack Obama, uma vez que muitos americanos encaram os afro-americanos como cidadãos menos patriotas do que os brancos35 devido ao passado de injustiça racial: They maintain that evidence of Obama's concealed attitude can be gleaned from the words of his wife and his former pastor. Speaking at a rally, Michelle Obama once remarked that the positive response to her husband 's candidacy had made her proud of her country for the first time in her adult life. Detractors imposed upon that comment the worst possible interpretation and resisted her efforts to amend or clarify it. In their view, Michelle Obama had revealingly confessed 33 Cf. Alexander Mooney (2007, 20 de Setembro), "Jackson: Comments about Obama misinterpreted" in www.edition.cnn.com 34 Cf. Dana Milbank (2011, 24 de Outubro), “Rick Perry’s birther Parade” in The Washington Post. 35 Cf. Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.164. 14 As Campanhas Presidenciais that, except for when her husband's campaign for the presidency was going well, she felt no pride in her country despite all of the many benefits it has bestowed upon her family and the world.36 De facto, uma das qualidades elogiadas em Barack Obama é a sua postura descontraída e controlada, ou seja, o oposto do estereótipo do negro irracional, violento e anti-patriota.37 As tentativas de tornar o democrata em “não-americano” têm sido especialmente implacáveis por parte dos republicanos ultra-conservadores, que acusaram o candidato de ser muçulmano. Randall Kennedy sugere uma dupla conotação negativa desta construção narrativa por parte dos opositores da ala direita, uma vez que o uso do termo “acusar” insinua a existência de um aspeto negativo e ao acusarem o democrata de ser muçulmano, o que os conservadores realmente desejam dizer é que ele é anti-americano.38 De facto, tal como Carly Fraser afirma, sugerir que Barack Obama seria um mau Presidente devido à cor da sua pele causaria imensa contestação e portanto os opositores políticos procuram acusações que para um número significativo de norteamericanos são plausíveis: Although all non-white, non-male, and non-Protestant political figures have faced significant hurdles in running for office, in post-9/11 America, Muslim Americans may face the greatest challenge. While recent polls have shown that over 90 percent of American voters could vote for a black candidate and 88 percent for a woman candidate, a 2006 poll showed that only 34 percent of Americans would vote for a Muslim candidate.39 Estas tentativas de criar um clima de desconfiança e medo não passaram despercebidas pela revista New Yorker. Apesar da capa de vinte e um de Julho de 2008 ter sido considerada ofensiva por alguns leitores, outros aplaudiram a sátira e apoiaram a seguinte declaração do editor David Remnick: What I think it does is hold up a mirror to the prejudice and dark imaginings about Barack Obama's — both Obamas' — past, and their politics. I can't speak for anyone else's interpretations, all I can say is that it combines a number of images that have been propagated, not by everyone on _ 36 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.164. 37 Cf. Manning Marable e Kristen Clarke (eds) (2009), Barack Obama and African American Empowerment: The Rise of Black America’s New Leadership, p.145. 38 Idem, p.144. 39 Idem, p.173. 15 As Campanhas Presidenciais the right but by some, about Obama's supposed "lack of patriotism" or his being "soft on terrorism" or the idiotic notion that somehow Michelle Obama is the second coming of the Weathermen or most violent Black Panthers. That somehow all this is going to come to the Oval Office.40 A ênfase dos discursos da oposição republicana está frequentemente neste processo de “desamericanizar” e, portanto, em afastar a imagem política do candidato afro-americano do que estes consideram ser o centro (branco) da identidade americana. Sarah Palin, por exemplo, referiu-se a Barack Obama como um homem que apresentava uma visão da América muito diferente da visão republicana, insinuando assim que o democrata seria vagamente anti-americano.41 Este afastamento daquilo que os republicanos consideram ser genuinamente americano é, por vezes, ainda mais radicalizado e culmina no que estes tomam como o limite do anti-americano, isto é, o terrorismo. O autor norte-americano Frank Schaeffer, escreveu uma carta a McCain onde mostrou o seu desagrado com a campanha republicana, aludindo precisamente a estes radicalismos.42 If your campaign does not stop equating Sen. Barack Obama with terrorism, questioning his patriotism and portraying Mr. Obama as “not one of us,” I accuse you of deliberately feeding the most unhinged elements of our society the red meat of hate, and therefore of potentially instigating violence. At a Sarah Palin rally, someone called out, “Kill him!” At one of your rallies, someone called out, “Terrorist!” Neither was answered or denounced by you or your running mate, as the crowd laughed and cheered. At your campaign event Wednesday in Bethlehem, Pa., the crowd was seething with hatred for the Democratic nominee – an attitude encouraged in speeches there by you, your running mate, your wife and the local Republican chairman. (…) John McCain, you are no fool, and you understand the depths of hatred that surround the issue of race in this country. You also know that, post-9/11, to call someone a friend of a terrorist is a very serious matter. You also know we are bitterly divided in this country on many other issues. (…) 40 Véronique Bragard, Christophe Dony e Warren Rosenberg McFarland (eds) (2011), Portraying 9/11: Essays on Representations in Comics, Literature, Film and Theatre, p.25. 41 Cf. Carl Pedersen (2009), Obama’s America, p.15. 42 Cf. Manning Marable e Kristen Clarke (eds) (2009), Barack Obama and African American Empowerment: The Rise of Black America’s New Leadership, p.232. 16 As Campanhas Presidenciais Your rallies are beginning to look, sound, feel and smell like lynch mobs.43 [itálico meu] Em 2012 a campanha de Mitt Romney tentou também “des-americanizar” Barack Obama. Paul Ryan, o candidato republicano à vice-presidência, discursou perante um grupo de conservadores religiosos e, referindo-se à presidência de Barack Obama, afirmou que a liberdade e a nação estariam em risco: "it's a dangerous path, it's a path that grows government, restricts freedom and liberty, and compromises those values, those Judeo-Christian, Western civilization values that made us such a great and exceptional nation in the first place."44 Esta declaração continua a narrativa iniciado pelos adversários políticos do democrata em 2008, segundo a qual o afro-americano era menos patriota e, portanto, menos americano. De facto, os valores a que Paul Ryan se refere informaram a mentalidade dos colonos e justificaram a perseguição da população indígena e a escravidão dos negros, que eram vistos como selvagens e, logo, o oposto a um Cristão branco. Os valores judaico-cristãos justificavam assim a desumanização daqueles que não eram brancos. Alguns críticos acreditaram ser uma formulação utilizada de forma deliberada, com a intenção de, uma vez mais, inculcar sentimentos de dúvida e até medo nos eleitores brancos mais conservadores. A ideia de que os afro-americanos seriam menos patriotas e menos responsáveis é, de facto, partilhada por alguns republicanos como é o caso de Mitt Romney. Em 2012, o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos enfrentou uma polémica causada pela seguinte declaração: There are 47 percent of the people who will vote for the president no matter what. All right, there are 47 percent who are with him, who are dependent upon government, who believe that they are victims, who believe that government has a responsibility to care for them, who believe that they are entitled to health care, to food, to housing, to you-name-it. That that's an entitlement. And the government should give it to them. And they will vote for this president no matter what. (…) These are people who pay no income tax. (…) And so my job is not to worry about those people — I'll never convince them that they should take personal responsibility and care for their lives. What I have to do is convince the 5 to 10 percent in the center that are independents that are thoughtful (…)45 [itálico meu] 43 Frank Schaeffer (2008, 10 de Outubro), “McCain's attacks fuel dangerous hatred” in The Baltimore Sun. 44 Rebecca Kaplan (2012, 4 de Novembro), “Ryan says Obama's policies threaten 'Judeo-Christian' values” in www.cbsnews.com 45 Brad Plumer (2012, 17 de Setembro), "Mitt Romney versus the 47 percent" in The Washington Post. 17 As Campanhas Presidenciais As medidas de "discriminação positiva" foram implementadas para melhor integrar minorias na sociedade e promover igualdade de oportunidades, estando por isso ligadas a pessoas de cor. Contudo, a perceção segundo a qual o Presidente estaria a tornar os E.UA. num estado socialista e que a maioria dos beneficiários seriam negros está, segundo o jornal The Economist, completamente errada: Barack Obama has put no one on food stamps. Population growth together with the most severe recession since the advent of the modern American welfare state, which was in full swing when Mr Obama came into office, conspired to make a record number eligible for government food assistance. The Obama administration has moved to expand eligibility for the SNAP programme, but the initiative has not come to fruition. That there is a safety net, and that it succeeds in keeping millions of Americans from the misery and humiliation of hunger, may be an uncomfortable fact for Mr Gingrich, but not for Mr Obama or for any of those among us who do not lament this humane achievement.46 Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em 2010 o maior grupo de beneficiários dos “food-stamps” não eram os afro-americanos, mas sim os brancos.47 Contudo, a dezasseis de Outubro de 2012, no segundo debate presidencial, o Presidente norte-americano não confrontou Mitt Romney com este facto, preferindo a sua habitual estratégia de inclusão. But I also believe that when he [Romney] said behind closed doors that 47 percent of the country considered themselves victims who refuse personal responsibility, think about who he was talking about. Folks on Social Security who've worked all their lives. Veterans who've sacrificed for this country. Students who are out there trying to hopefully advance their own dreams, but also this country's dreams. Soldiers who are overseas fighting for us right now. People who are working hard every day, paying payroll tax, gas taxes, but don't make enough income.48 [itálico meu] Barack Obama afastou-se assim de uma polémica com conotações raciais, mostrando apenas desagrado com a ideia de irresponsabilidade das pessoas inscritas na Segurança Social, quer fossem estudantes, veteranos ou soldados. 46 Will Wilkinson (2012, 18 de Janeiro), “Newt and the 'food-stamp president'” in The Economist. 47 Cf. Brooks Jackson (2012, 6 de Fevereiro). "Fact check: Gingrich's faulty food-stamp claim" in www.usatoday.com 48 Jerry Weissman (2014), In the Line of Fire: How to Handle Tough Questions - When It Counts, p.148. 18 As Campanhas Presidenciais Em ambas as campanhas eleitorais houve portanto ataques raciais, cujo objetivo era enfraquecer a imagem de Barack Obama como Presidente. Porém, segundo Randall Kennedy, a questão racial foi também usada em seu benefício: "blackness matters now in ways that are not always detrimental. Identifying as black can also assist a candidate.”49 Em Fevereiro de 2007, numa entrevista para o programa 60 Minutos, o entrevistador Steve Kroft perguntou se Barack Obama estava desiludido com o fraco apoio por parte dos afro-americanos que escolheram apoiar Hillary Clinton. O futuro Presidente respondeu que a sua raça não era um fator na escolha do candidato presidencial: I think there is an assumption on the part of some commentators that somehow, the black community is so unsophisticated that the minute you put an African-American face up on the screen, that they automatically say, ‘‘That’s our guy.’’ A black candidate has to earn black votes the same way that he’s gotta earn white votes. And—and that’s exactly how it should be.50 Para o democrata, a sua raça não seria um fator na angariação de votos. Porém, a preferência inicial dos eleitores afro-americanos pela candidata Hillary Clinton apenas se deveu à desconfiança inicial por parte dos afro-americanos em relação a Barack Obama, já que estes questionavam se o candidato seria capaz de representar os interesses da comunidade.51 Na verdade, quando o candidato afro-americano provou ter uma boa hipótese em ganhar a eleição, alguns membros da comunidade afro-americana abandonaram Hillary Clinton. Segundo o estudo Primary Politics: Race, Gender, and Age in the 2008 Democratic Primary, elaborado por S. Jackman e L. Vavreck, esta mudança na escolha do candidato era expectável, uma vez que as preferências eleitorais se movem de forma bastante previsível: Obama’s race, the respondent’s race, and people’s attitudes about race in America interact even in the Democratic primary to powerfully structure preferences over who should be the party’s nominee. (…) There are broad intercept shifts toward Obama, particularly among people who initially supported Clinton or were not sure who they liked in December. As with initial choices, blacks are 49 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.252. 50 Joann F. Price (2009), Barack Obama: The voice of an American leader, p.95. 51 Idem, p.156. 19 As Campanhas Presidenciais more likely to move to Obama and Hispanics are more likely to move to Clinton. Further, blacks are much less likely to move away from Obama (relative to whites) if they initially preferred him and Hispanics in this state are equally likely to move to Clinton (as whites).52 A raça parece assim, ao contrário da afirmação de Barack Obama, ter sido um fator na escolha do candidato presidencial. Segundo Randall Kennedy, o facto da mulher do candidato, Michelle Obama, ser negra influenciou positivamente a perceção do democrata entre os afro-americanos: “given the dismal state of the marriage market for black women, the shrinking number of black married couples, and the perception that successful black men often marry outside their race, Barack Obama's marriage has won for him large amounts of goodwill among blacks.”53 Também a escolha da Trinity United Church of Christ de Chicago e as relações próximas com influentes líderes negros, como Wright, foram vistas de forma favorável pela comunidade afro-americana.54 De facto, tal como Randall Kennedy sugere, Barack Obama cativou eleitores negros ao afirmar a sua condição de afro-americano: (…) by identifying himself as a black man, by carrying himself in a dignified manner as the loving spouse of a black woman, by associating himself with struggles for Afro American empowerment, and by showing that his candidacy was "for real " in the sense that he could garner sufficient support from whites to prevail.55 Contudo, o democrata afirmou também que ele não estava limitado pela comunidade negra,56 o que provocou algum ceticismo entre a comunidade afro-americana e alívio na população branca, confiante na não implementação de uma “black agenda.”57 A postura de Barack Obama requer assim um enorme equilíbrio que permita ao democrata captar eleitores brancos e negros. Porém, esta postura estratégia é também responsável pela desilusão sentida por muitos eleitores, já que cada grupo eleitoral interpreta as suas declarações de forma diferente e, logo, criam expectativas 52 Simon Jackman e Lynn Vavreck (2010), “Primary Politics: Race, Gender, and Age in the 2008 Democratic Primary” in Journal of Elections, Public Opinion and Parties, p.177-178. 53 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.80. 54 Idem, p.81. 55 Idem, p.13. 56 Cf. Manning Marable e Kristen Clarke (eds) (2009), Barack Obama and African American Empowerment: The Rise of Black America’s New Leadership, p.167. 57 Cf. Sheryl Gay Stolberg (2010, 8 de Fevereiro) “For Obama, Nuance on Race Invites Questions” in The New York Times. 20 As Campanhas Presidenciais diferentes, tal como Eduardo Bonilla-Silva e Louise Seamster deixam claro no seu artigo previamente citado: (…) the most important factor behind Obama’s success, and my biggest concern, is that he and his campaign mean and evoke different things and feelings for his white and nonwhite supporters. For his white supporters, he is the first ‘‘black’’ leader they feel comfortable supporting because he does not talk about racism; because he reminds them every time he has a chance he is half-white; because he is so ‘‘articulate’’ (…) because Obama keeps talking about national unity; and because he, unlike black leaders hated by whites such as Jesse Jackson and Al Sharpton, does not make them feel guilty about the state of racial affairs in the country. (…) In sharp contrast, for many nonwhites, but particularly for blacks, Obama became a symbol of their possibilities. He was indeed, as Obama said of himself, their Joshua – the leader they hoped would take them to the Promised Land of milk and honey. They read between the lines and thought Obama had a strong stance on race matters. For the old generation desperate to see change before they die, and for many post-Reagan generation blacks and minorities who have seen very little racial progress during their lifetimes, Obama became the new Messiah of the Civil Rights movement.58 [itálico meu] A estratégia do candidato afro-americano em ambas as campanhas e presidências é evitar mencionar ou discutir assuntos raciais, ao contrário de Jesse Jackson, por exemplo. Quando o Presidente se refere a questões raciais tenta alargar essa discussão, tornando-a mais abrangente. Foi precisamente o que aconteceu com o seu discurso sobre o Reverendo Wright e as declarações sobre os “Jena Six,” mencionados anteriormente. O discurso “A More Perfect Union” é, contudo, talvez o melhor exemplo desta estratégia. O democrata discursou para dissipar as dúvidas sobre a sua relação com Wright e, portanto, viu-se forçado a confrontar a polémica racial de forma direta. Apesar de admitir que a injustiça racial do passado ainda tem repercussões no presente, Barack Obama reitera a necessidade de acabar com um impasse racial. The profound mistake of Reverend Wright’s sermons is not that he spoke about racism in our society. It’s that he spoke as if our society was static; as if no progress has been made; as if this country – a country that has made it possible for one of his own members to run for the 58 Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.155-6. 21 As Campanhas Presidenciais highest office in the land and build a coalition of white and black; Latino and Asian, rich and poor, young and old — is still irrevocably bound to a tragic past. But what we know — what we have seen – is that America can change.59 [itálico meu] A promessa de mudança, que é um elemento extremamente comum nos discursos do Presidente, permite, em certa medida, ignorar os problemas do passado e do presente em prol de uma discussão sobre um futuro imaginário melhor. No seu livro The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, Randall Kennedy chama a atenção precisamente para o facto desta estratégia ser típica do democrata: “if he cannot avoid them [questões raciais], he reframes them, minimizing the racial element. If forced to confront a racial issue squarely, he does so in a fashion calculated to assuage the anxieties of whites.”60 Desta forma, consciente das vantagens e desvantagens da sua raça, Barack Obama optou por uma estratégia de equilíbrio político e de inclusão, evitando assim a discussão de questões raciais. De facto, esta estratégia foi um dos elementos responsáveis pela sua eleição e reeleição, já que permitiu apelar a diferentes grupos eleitorais. No entanto, o atual Presidente afro-americano ainda não abdicou da sua estratégia e tem sido incapaz de implementar mudanças significativas na sociedade americana. Consequentemente, muitos dos apoiantes de Barack Obama admitem uma grande desilusão com a sua presidência,61 pois consideram que a promessa de mudança ainda não foi cumprida. 59 Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.146. 60 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.224. 61 Cf. Sarah Dutton, Jennifer De Pinto, Anthony Salvanto e Fred Backus (2014, 26 de Fevereiro), “Most Americans disappointed in Obama's presidency, poll says” in www.cbsnews.com 22 Os Mandatos Presidenciais urban people’’ or ‘‘those people on welfare’’), and bonded by the racial ideology of color-blind racism (…) Compared to Jim Crow, this new system seems genteel, but it is extremely effective in preserving systemic advantages for whites and keeping people of color at bay. The new regime is, in the immortal lyrics of Roberta Flack’s song, of the ‘‘killing me softly’’ variety.18 [itálico meu] Para Eduardo Bonilla-Silva e Louise Seamster o problema do racismo nunca foi corretamente abordado e, como tal, levou à criação de um problema de difícil resolução: The first head of the monster was whites’ belief that the changes brought by the tumultuous 1960s represented the end of racism in America. Therefore, since they believed racism had ended, they began regarding complaints about discrimination by people of color as baseless and a product of their ‘‘hypersensitivity’’ on racial affairs. The second head of the beast was that a substantial segment of the white population understood the changes not just as evidence of the end of racism, but also as the beginning of a period of ‘‘reverse discrimination.’’ Hence, this was the ideological context that helped cement the ‘‘new racism.’’ ‘The third head of the beast was whites’ increasing tendency, particularly after the increased militancy and urban rebellions of the 1960s, to view blacks (especially young black males) as a threat and to become increasingly concerned with ‘‘law and order.”19 A perceção dos afro-americanos como uma possível ameaça é especialmente relevante, já que são vários os casos de afro-americanos jovens abatidos a tiro por indivíduos que justificam as suas ações com a lei do “Stand Your Ground.” O caso Zimmerman é incontornável e os contornos raciais inegáveis. Segundo a defesa, Zimmerman considerou o jovem suspeito pelo seu comportamento20 e não devido à sua raça.21 Curiosamente, a acusação também tentou minimizar os contornos raciais do caso, mas esta tática pós-racial não funcionou, nem poderia funcionar, precisamente porque a América não é pós-racial.22 Para muitos americanos a morte do jovem era apenas uma consequência do abuso da lei do “Stand Your Ground” e não de preconceitos raciais.23 No entanto, estes aspetos estão interligados, já que os 18 Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.145. 19 Idem, p.146. 20 Cf. Lizette Alvarez (2013, 14 de Julho), “In Zimmerman Case, Self-Defense Was Hard to Topple” in The New York Times. 21 Cf. Lisa Bloom (2013, 15 de Julho), “Zimmerman Prosecutors Duck the Race Issue” in The New York Times. 22 Cf. Jonathan Capehart (2013, 12 de Julho), “Race and the George Zimmerman trial” in The Washington Post. 23 Cf. Paul Lewis (2013, 19 de Julho), “George Zimmerman acquittal stirs resentment and renews race debate” in The Guardian. 29 Os Mandatos Presidenciais brancos são os maiores beneficiários desta política de auto-defesa. Com efeito, um atirador branco tem 354 vezes mais hipóteses de ser ilibado de homicídio quando a vítima é afro-americana.24 Assim, a lei do “Stand Your Ground” beneficia os brancos mais do que os negros e, tendo em conta que há uma tendência por parte da polícia em considerar os negros suspeitos,25 torna-se difícil evitar contornos raciais em casos como o de Trayvon Martin. De facto, o caso Zimmerman revelou-se especialmente problemático para Barack Obama que, inicialmente, procurou apaziguar os manifestantes ao identificar-se com Trayvon Martin.26 Contudo, as hipóteses de Barack Obama ter tido um destino como o do jovem negro eram escassas. Com efeito, tal como o colunista do The Washington Post David Maraniss afirma no seu artigo Obama on Trayvon Martin: The first black president speaks out first as a black American, o democrata, apesar de ser afro-americano, não partilha os contextos e as experiências que normalmente informam a comunidade afro-americana: His black father came from Africa, not urban America or the rural South. Barry lived in places — Hawaii and Indonesia — where there were few people who looked like him. He had to learn African American cultural and social history on his own. Yet the most superficial aspect of his being, his physical appearance, connected the future president to that “set of experiences that — that doesn’t go away.”27 Certamente que o Presidente passou por experiências semelhantes de discriminação, mas foram possivelmente menos frequentes e menos severas devido a contextos sócio-económicos diferentes, tal como Lee Habeeb deixa claro no seu artigo A White Person’s Reaction to Obama’s Trayvon Martin Speech: It is true that President Obama could have been Trayvon Martin. But it is equally true that he could have been George Zimmerman. That’s the thing about real empathy; you have to walk in the shoes of all people, not just the _ 24 Cf. Jill Reilly (2013, 15 de Julho), “White people who kill black people in 'Stand Your Ground' states are 354% more likely to be cleared of murder” in DailyMail. 25 Cf. Vikram Dodd (2012, 12 de Junho), “Police up to 28 times more likely to stop and search black people – study” in The Guardian. 26 Cf. Ta-Nehisi Coates (2013, 19 de Julho), "Considering the President's Comments on Racial Profiling" in The Atlantic. 27 David Maraniss (2013, 20 de Junho), “Obama on Trayvon Martin: The first black president speaks out first as a black American” in The Washington Post. 30 Os Mandatos Presidenciais ones you agree with or relate to. I was waiting for that part of the speech because President Obama is uniquely qualified to give it. Because he is half white and half black, just as George Zimmerman is half white and half Hispanic — just as most Americans are half something and half something else.28 [itálico meu] No entanto, apesar de se identificar com o jovem Trayvon Martin, o Presidente eleito parece também dirigir-se aos americanos que apoiavam a decisão do tribunal e justifica as reações por parte da comunidade afro-americana, como se percebe nas suas palavras proferidas em Julho de 2013: And I don't want to exaggerate this, but those sets of experiences inform how the African American community interprets what happened one night in Florida. And it’s inescapable for people to bring those experiences to bear. The African American community is also knowledgeable that there is a history of racial disparities in the application of our criminal laws -- everything from the death penalty to enforcement of our drug laws. And that ends up having an impact in terms of how people interpret the case.29 Apesar de enumerar vários exemplos de injustiças raciais, afirmando que também ele é alvo dessa discriminação, Barack Obama vai-se gradualmente afastando de qualquer responsabilidade ou papel central neste debate racial. I haven't seen that be particularly productive when politicians try to organize conversations. They end up being stilted and politicized, and folks are locked into the positions they already have. On the other hand, in families and churches and workplaces, there's the possibility that people are a little bit more honest, and at least you ask yourself your own questions about, am I wringing as much bias out of myself as I can? Am I judging people as much as I can, based on not the color of their skin, but the content of their character? That would, I think, be an appropriate exercise in the wake of this tragedy.30 Embora o discurso tenha sido elogiado pela família de Trayvon Martin, que encarou a identificação _ 28 Lee Habeeb (2013, 23 de Junho), “A White Person’s Reaction to Obama’s Trayvon Martin Speech ” in The National Review Online. 29 Ta-Nehisi Coates (2013, 19 de Julho), "Considering the President's Comments on Racial Profiling" in The Atlantic. 30 Ibidem. 31 Os Mandatos Presidenciais de Barack Obama com Trayvon Martin como uma homenagem admirável,31 alguns ativistas afroamericanos consideraram a intervenção do democrata demasiado tardia e insuficiente.32 No entanto, outros americanos, nomeadamente tão conservadores como os republicanos, consideraram o discurso impróprio e demasiado pessoal e inflamado. Por exemplo, Gingrich insistiu que o caso não teria quaisquer contornos raciais quando disse: “It’s not a question of who that young man looked like.”33 Porém, a tentativa por parte do democrata em manter a sua postura de equilíbrio e evitar o confronto direto com questões raciais foi elogiada pela maioria dos americanos. Em suma, a declaração do Presidente recebeu críticas de líderes afro-americanos que a consideraram insuficiente e também críticas de conservadores que a viram como exageradamente inflamada a nível racial. Assim, consciente da impossibilidade de agradar a ambos os polos, o Presidente optou pelo “middle ground” e apelou a uma maioria no centro. Tal como foi mencionado anteriormente, não é apenas esta postura de compromisso, mas também a eleição e reeleição de um candidato afro-americano que reforça a ilusão de uma sociedade pós-racial. Porém, esta postura de conformismo poderá ser ainda mais prejudicial, já que um afro-americano cujo cargo é da mais alta importância participa na propagação desta ilusão. Para Eugene Robinson, Barack Obama é a pessoa errada para liderar uma discussão sobre questões raciais, pois a imparcialidade das suas declarações será sempre questionada: Obama does more to change racial attitudes and challenge prejudices simply by performing his functions as head of state and commander in chief. A dozen speeches about the long struggle for racial equality and justice would not have the impact of one picture of the first family — the proud, African American first family — walking across the White House lawn. No caption necessary.34 É inegável que as vitórias eleitorais do Presidente afro-americano tenham dependido dos eleitores brancos e da confiança fornecida pelo partido democrático. Barack Obama sabia que a sua ________ 31 Cf. Aaron Blake (2013, 19 de Julho), “Trayvon Martin’s parents praise Obama’s ‘beautiful tribute’” in The Washington Post. 32 Cf. Mark Landler e Michael D. Shear (2013, 19 de Julho), “President Offers a Personal Take on Race in U.S. ” in The New York Times. 33 Devin Dwyer e Elicia Dover (2012, 23 de Março), “Gingrich Calls Obama’s Trayvon Martin Remarks ‘Disgraceful’” in www.abcnews.go.com 34 Eugene Robinson (2013, 19 de Julho), “Obama is the wrong person to lead discussion about race” in The Washington Post. 32 Os Mandatos Presidenciais nomeação não estaria segura se a sua retórica se aproximasse à de Jesse Jackson, por exemplo. Deste modo, segundo Eduardo Bonilla-Silva e Louise Seamster, o partido democrata construiu um novo tipo de político que representa conformismo e compromisso e, por isso, é incapaz de mudanças profundas e significativas. If they were truly about fundamental change and frontal challenges, they would not be the darlings of the two mainstream parties. Although some post–civil rights minority politicians may, from time to time, ‘‘talk the talk,’’ their talk is rather abstract almost to the point of being meaningless, and they seldom if ever ‘'walk the walk.'35 A postura de equilíbrio e compromisso de Barack Obama limita, assim, a sua capacidade para elaborar leis que beneficiariam minorias raciais. Esta postura ajuda ainda a explicar o afastamento do candidato afro-americano de figuras importantes do Movimento pelos Direito Civis.36 De facto, nos seus livros Dreams of My Father37 e The Audacity of Hope Barack Obama já mostrava uma tendência para esta postura de conformismo quando afirmou que as políticas focadas num grupo social específico não eram vantajosas.38 A preferência do democrata por programas mais universais seria reiterada em 2009 quando, confrontado com as diferenças existentes entre brancos e negros, nomeadamente em relação ao desemprego, Barack Obama afirmaria: (…) every step we're taking is designed to help all people. But folks who are most vulnerable are most likely to be helped because they need the most help. So when we passed the Recovery Act, for example, and we put in place provisions that would extend unemployment insurance even if you've lost your job, that probably disproportionately impacted communities that had lost their jobs… So my general approach is that if the economy is strong, that will lift all boats (…) And I’m confident that that will help the African-American community live out the American dream at the same time that it’s helping communities all across the country.39 [itálico meu] 35 Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.149. 36 Idem, p.152. 37 Barack Obama (2004). Dreams from My Father: A Story of Race and Inheritance. Nova Iorque: Crown Publishers. 38 Cf. Barack Obama (2006), The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming The American Dream, p.386. 39 Tim Wise (2010), Colorblind: The Rise of Post-Racial Politics and the Retreat from Racial Equity, p.57. 33 Os Mandatos Presidenciais O facto de Barack Obama ser o primeiro afro-americano a conseguir o cargo de Presidente fortaleceu não só a mensagem de mudança, mas também a imagem do candidato como impulsionador de transformação social. Contudo, como o Presidente evita o confronto direto de assuntos raciais, esta mudança torna-se difícil de concretizar. De facto, esta passividade ajuda a propagar a ilusão de uma sociedade em que a discussão de questões raciais já não é pertinente, uma vez que nega o papel central da raça na sociedade norte-americana.40 Para o professor de direito e de estudos afro-americanos da Universidade da Califórnia John Powell, a desigualdade não pode ser combatida com medidas que abrangem a sociedade em geral, pois desse modo as desigualdades permanecerão; apenas uma política de “targeted universalism” poderá criar uma sociedade igualitária. Esta perspetiva tem em conta o facto de pessoas diferentes se situarem em patamares diferentes na ordem social e, portanto, reconhece que uns têm mais necessidade de recursos, por exemplo económicos, do que outros.41 Assim, é possível afirmar que o Presidente afro-americano é um produto do sistema e, portanto, uma dissidência controlada que participa num novo sistema de dominação racial mais subtil, mas igualmente danoso. A postura de equilíbrio de Barack Obama não impediu, no entanto, o ressurgimento de atitudes explicitamente racistas.42 É também importante notar que a oposição política que o Presidente enfrenta é maioritariamente branca. Na verdade, apesar de em ambas as eleições ter conseguido os votos de mais de 90% dos afro-americanos, foram os candidatos republicanos John McCain, em 2008, e Mitt Romney, em 2012, que ganharam a confiança da maioria dos eleitores brancos.43 Estes padrões de votos distintos são, indiscutivelmente, uma consequência de atitudes racistas que persistem na sociedade americana, uma vez que foram os estados mais conservadores os que registaram menor apoio ao candidato afro-americano.44 Deste modo, segundo Randall Kennedy, a divisão entre conservadores e liberais tornou-se mais acentuada. Racial liberals supported Obama more than they would have backed an ideologically similar white candidate while racial conservatives opposed Obama more than they would have ____ 40 Cf. Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.157. 41 Idem, p.161. 42 Cf. Rene Lynch (2012, 23 de Março), “Trayvon Martin case: 'Blacks are under attack,' says Jesse Jackson” in Los Angeles Times. 43 Os resultados de ambas as eleições podem ser consultados em: www.elections.nytimes.com/2008 e www.elections.nytimes.com/2012 44 Cf. Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.11. 34 Os Mandatos Presidenciais opposed an ideologically similar white candidate. Furthermore, there are some who voted for Obama in 2008 despite their disinclination to vote for a black candidate. It should be unsurprising that they would turn against him more quickly and sharply than they would have done under identical circumstances if he were white.45 Também é importante notar que as ameaças dirigidas ao quadragésimo-quarto Presidente são diferentes das que outros Presidentes enfrentaram, já que muitas destas foram motivadas pela sua raça. Segundo o artigo Barack Obama’s Candidacy and the Collateral Consequences of the “Politics of Fear”, elaborado por Gregory S. Parks e Jeffrey J. Rachlinski, o protocolo dos Serviços Secretos foi alterado para garantir a segurança do democrata afro-americano: The Secret Service placed him under its protection earlier than any other presidential candidate – in May 2007, some eighteen months before the 2008 national election. The Department of Homeland Security authorized his protection after consulting with a bipartisan congressional advisory committee. The security detail was not prompted by direct threats but by general concerns about the safety of then-Senator Obama as a prominent black candidate. These concerns arose, in part, from the racist chatter found on white supremacist Web sites early in Obama’s candidacy. [itálico meu]46 O receio do Departamento da Segurança Interna dos Estados Unidos sobre uma possível tentativa de assassínio é partilhado por alguns dos apoiantes do Presidente afro-americano. Em 2013, Bill Maher sugeriu que tentativas de assassínio são, provavelmente, uma preocupação constante para o democrata e que Barack Obama poderá ser mais centrista do que o desejado devido a estes receios.47 É também importante sublinhar que apesar de muitos negros desejarem uma postura presidencial mais focada na comunidade afro-americana são poucos os que dirigem críticas a Barack Obama.48 Tom Joyner, um apresentador de rádio afro-americano, acusou os negros que se opunham a Barack Obama de serem “haters” e defendeu que apoiar o democrata era um dever: “if you don’t support him it will be much worse.”49 De facto, o Presidente mantém o apoio da maioria 45 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.8. 46, Manning Marable e Kristen Clarke (eds) (2009), Barack Obama and African American Empowerment: The Rise of Black America’s New Leadership, p.226. 47 Cf. Jeff Poor (2013, 12 de Outubro), "Bill Maher: Obama modulated to the center out of fear of assassination, hate" in The Daily Caller. 48 Idem, p.88. 49 Kevin Alexander Gray (2011, 13 de Julho), “Obama and Black America” [excerto] in The Progressive. 35 Os Mandatos Presidenciais dos seus eleitores negros e cerca de 56% de afro-americanos acreditam que as desigualdades entre brancos e negros diminuíram na década passada.50 Porém, segundo o colunista do The Guardian, Gary Younge, a realidade é bem diferente. African Americans, as a group, are far worse off now than they were when Obama came to power and the gap between whites and blacks in terms of wealth and income has increased under Obama's tenure. The overall rate of unemployment may be close to where it was when Obama took office, but black unemployment is up 11%. Meanwhile the wealth gap has doubled during this recession with the average white American now having 22 times more wealth than their black counterparts. So too has the educational achievement gap with the rate at which white Americans graduate from high school growing at a far faster clip than black students. (…) The group that has fared worse under Obama is not only the group most likely to support him but also the most likely to feel optimistic about the deteriorating situation in which they find themselves.51 [itálico meu] No seu artigo Barack Obama and the paradox behind his African American support base, Gary Younge cita Eddie Glaude, um professor da Universidade de Princeton, segundo o qual a comunidade afro-americana se havia tornado demasiado complacente com Barack Obama.52 Para Gary Younge, os ataques raciais diretos e indiretos dirigidos ao Presidente afro-americano tornaram os afro-americanos defensivos e reforçaram a atração pelo Presidente cuja raça é partilhada com esta comunidade. Nas palavras de Younge: “given the nature of the attacks the need to defend Obama's right to be in office at all eclipses any more nuanced conversation about his actual record.”53 Assim, muitos apoiantes mostram desilusão, mas evitam também juízos críticos enquanto mantêm a esperança da prometida mudança, ainda que o Presidente já esteja no final do seu segundo mandato. De facto, muitos dos apoiantes do Presidente afro-americano justificam a inação do democrata com a necessidade de manter o apoio geral por parte da população americana. Também Randall Kennedy defende que a postura de compromisso de Barack Obama é a única opção viável numa sociedade cujo racismo está fortemente enraizado na sua cultura e conclui que o _ 50 Ver estudo de Pew Research Center, A Year After Obama’s Election: Blacks Upbeat about Black Progress, Prospects, disponível em: www.pewsocialtrends.org/2010/01/12/blacks-upbeat-about-black-progress-prospects 51 Gary Younge (2012, 3 de Novembro), “Barack Obama and the paradox behind his African American support base” in The Guardian. 52 Ibidem. 53 Ibidem. 36 Os Mandatos Presidenciais Presidente continuará determinado em não sair da “zona de conforto” da maioria dos eleitores americanos: On no topic is his caution more evident than race relations. Because that topic remains volatile and because his blackness makes him particularly vulnerable to demagoguery, Obama avoids confronting the American race question, thus underscoring its central but repressed and paradoxical presence in the political culture of the United States.54 [itálico meu] Desta forma, é possível afirmar que Barack Obama, desde as suas campanhas até ao seu segundo mandato, prejudica e dificulta o debate racial. Neste sentido, a eleição do candidato afroamericano pode ser entendida como paradoxal, pois a sua raça permitiu reforçar a sua mensagem e a imagem de singularidade, mas é também esta que o impede de abandonar a “zona de conforto” de muitos americanos e, por isso, o incapacita de cumprir a sua promessa de mudança. Assim, enquanto que alguns apoiantes do Presidente norte-americano expressam desilusão, outros justificam esta postura deliberada de equilíbrio como uma necessidade de forma a manter a coesão e a união e relembram que mesmo mantendo esta postura mais central e de compromisso, o democrata é incapaz de ganhar o apoio de americanos mais conservadores, como é o caso dos republicanos. 54 Randall Kennedy (2011), The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.238. 37 Capítulo 2: A Estratégia Retórica de Barack Obama A Estratégia Retórica de Barack Obama continua a ser a economia. Porém, também neste domínio é possível identificar uma tentativa de expansão do sonho americano à comunidade afro-americana, uma vez que há um apelo à necessidade de garantir oportunidades às classes sociais menos favorecidas, sendo que as minorias como os afro-americanos representam grande parte dessas classes. Na verdade, o sonho americano está ligado à aquisição material e, portanto, quando o Presidente eleito se refere à economia e à urgência da recuperação económica está, em certa medida, a apelar à igualdade. De facto, o democrata explica esta mesma ligação quando cita Martin Luther King, Jr.: That means removing the barriers of prejudice and misunderstanding that still exist in America. It means fighting to eliminate discrimination from every corner of our country. It means changing hearts, and changing minds, and making sure that every American is treated equally under the law. But social justice is not enough. As Dr. King once said, "the inseparable twin of racial justice is economic justice." (…) That's why the march that Roy Wilkins helped lead forty five years ago this summer wasn't just named the March on Washington, and it wasn't just named the March on Washington for Freedom; it was named the March on Washington for Jobs and Freedom. What Dr. King and Roy Wilkins understood is that it matters little if you have the right to sit at the front of the bus if you can't afford the bus fare; it matters little if you have the right to sit at the lunch counter if you can't afford the lunch. What they understood is that so long as Americans are denied the decent wages, and good benefits, and fair treatment they deserve, the dream for which so many gave so much will remain out of reach; that to live up to our founding promise of equality for all, we have to make sure that opportunity is open to all Americans.16 [itálico meu] A ênfase de Barack Obama na economia pode, portanto, ser interpretada como um apelo à igualdade de oportunidades e, logo, à diminuição das desigualdades entre brancos e negros. É também importante sublinhar novamente que apesar de se identificar como afroamericano, Barack Obama não partilha o contexto socioeconómico com outros afro-americanos e que, segundo o autor Randall Kennedy, foi precisamente este contexto socioeconómico diferente que permitiu ao democrata distanciar-se de estereótipos depreciativos acerca de afro-americanos: 16 Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.15 45 A Estratégia Retórica de Barack Obama While Obama conflated the experience of his immigrant father with the experience of native-born blacks, the fact is that in many contexts whites have accorded more respect to foreignborn blacks than native-born blacks. Much was made during the campaign of how Obama's atypical family, exotic upbringing, and unusual name were impediments, distancing him from "regular folks." Those features did have that effect for some. But they also had the effect of distancing Obama from derogatory stereotypes of black American men.17 [itálico meu] De facto, apesar de nas últimas décadas os Estados Unidos terem assistido a mudanças sociais e demográficas, para os conservadores o núcleo da identidade americana continua a ser branco. Deste modo, a eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos reacendeu o debate sobre a identidade americana no qual o Presidente evita participar.18 Na verdade, as menções à raça tornam-se gradualmente menos presentes nos discursos de Barack Obama. Por exemplo, o discurso anual proferido 2010 tem um foco mais geral e a única menção às injustiças raciais é feita no final, quando o Presidente afirma: “my administration has a Civil Rights Division that is once again prosecuting civil rights violations and employment discrimination. We finally strengthened our laws to protect against crimes driven by hate.”19 Quando, ainda no mesmo discurso, menciona que o sucesso das crianças não deverá depender do contexto socioeconómico, mas sim do seu potencial é possível afirmar que se refere em primeira instância à comunidade afro-americana, já que esta continua a ser afetada pela pobreza e o abandono escolar. No entanto, a partir do momento em que foi eleito pela primeira vez, Barack Obama reforçou a sua postura de conformismo e, consequentemente, os seus discursos anuais focam-se na economia, na guerra, na política externa, na política ambiental e na promessa de um futuro mais próspero. Porém, apesar de breves, as menções a questões raciais foram encaradas por alguns americanos como suficientes e expectáveis, já que Barack Obama nunca enfatizou o facto de ser afro-americano.20 Um outro elemento a considerar na retórica pós-racial de Barack Obama é, sem dúvida, a aproximação à figura de Abraham Lincoln, o Presidente que aboliu a escravatura. Desde cedo, o democrata estabeleceu um paralelo entre si e um dos Presidentes mais emblemáticos e marcantes na 17 Randall Kennedy (2011). The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.109. 18 Cf. Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.130. 19 O discurso está disponível em: www.whitehouse.gov/the-press-office/remarks-president-state-union-address 20 Cf. Robert Schlesinger (2009, 20 de Janeiro), “Race in the Barack Obama Inaugural Address: Obama Brings Power to Subtle Race References” in U.S. News & World Report. 46 A Estratégia Retórica de Barack Obama história dos Estados Unidos. De facto, são algumas semelhanças entre ambos os Presidentes, nomeadamente a procura de consenso e compromisso entre diferentes grupos sociais, económicos e políticos que, a meu ver, levam Randall Kennedy a apelidar a postura de Barack Obama de “Lincolnian”.21 Com efeito, o democrata sempre enfatizou as semelhanças entre si e Abraham Lincoln.22 A quatro de Novembro de 2008, após a vitória eleitoral, o democrata citou o primeiro discurso inaugural de Abraham Lincoln com o objetivo de enfatizar a necessidade de uma União forte, afirmando: “as Lincoln said to a nation far more divided than ours: 'We are not enemies, but friends. Though passion may have strained it must not break our bonds of affection.'”23 Barack Obama referiu-se ainda ao discurso de Gettysburg proferido em 1863, utilizando assim a figura de Lincoln para não só enfatizar a União, mas também o empenho do povo americano que permite a continuação da construção da América como terra prometida: I was never the likeliest candidate for this office. We didn't start with much money or many endorsements. (…) It was built by working men and women who dug into what little savings they had to give $5 and $10 and $20 to the cause. It grew strength from the young people who rejected the myth of their generation's apathy, who left their homes and their families for jobs that offered little pay and less sleep. It drew strength from the not-so-young people who braved the bitter cold and scorching heat to knock on the doors of perfect strangers, and from the millions of Americans who volunteered and organized, and proved that more than two centuries later a government of the people, by the people and for the people has not perished from the Earth. This is your victory.24 [itálico meu] Barack Obama recorre, assim, a Lincoln como uma figura apaziguadora, um símbolo de união e um fator determinante na construção do sonho americano. A doze de Fevereiro de 2009, o Presidente admitiu que sentia uma ligação especial com Lincoln quando declarou: “I feel a special gratitude to this singular figure who in so many ways made my own story possible.”25 É notório que ao afirmar determinação na continuação da tarefa 21 Cf. Randall Kennedy (2011). The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency, p.238. 22 Cf. Ed Hornick (2009, 18 de Janeiro), “For Obama, Lincoln was model president” in www.edition.cnn.com 23 Tim Davidson (ed) (2009), The Essential Obama: Speeches of Barack Obama, p.69. 24 Idem, p.53. 25 Huma Khan (2009, 12 de Fevereiro), “Obama Celebrates Lincoln’s Bicentennial with ‘Special Gratitude’” in www.abcnews.go.com 47 A Estratégia Retórica de Barack Obama iniciada por Abraham Lincoln, o democrata se apresenta como uma “reencarnação” do décimo sexto Presidente. Na verdade, esta aproximação e identificação com Lincoln são também visíveis no estilo retórico do democrata Barack Obama. O The New York Times destaca este paralelo estabelecido propositadamente pelo Presidente afro-americano: Mr. Obama’s pilgrimages to Springfield are bookends to a period in which he has elevated Lincoln to the status of, well, almost a co-president. He quoted Lincoln throughout the campaign and mimicked the trappings of his inauguration, down to copying the menu for his inaugural lunch from Lincoln’s, and having the food served on replicas of the china that Mary Todd Lincoln chose for the White House. On Wednesday, Mr. Obama even joined a star-studded celebration for the rededication of Ford’s Theatre, where Lincoln was assassinated.26 O artigo de Katharine Q. Seelye, no The New York Times, cita Harold Holzer, um académico especializado em Lincoln, quando este afirma que Barack Obama acredita verdadeiramente que é uma extensão de Abraham Lincoln.27 Barack Obama's victory serves to help complete the "unfinished work" Abraham Lincoln spoke about in his Gettysburg Address: that America fulfill its dream of equal opportunity regardless of race. Lincoln, of course, advanced black freedom and black voting rights; Obama represents the validation of those elusive aspirations. It is not difficult to understand why so many Americans see Barack Obama as the second coming – of Abraham Lincoln, if not more. Lincoln once declared, "We cannot escape history," and after years of national indifference to, or defiance of, the lessons of the past, our next president seems to love, comprehend, and use the past to illuminate the future.28 [itálico meu] A colunista destaca ainda a apropriação da imagem política de Lincoln pelo atual Presidente, o que, a meu ver, é extremamente significativo uma vez que é esta apropriação que permite a Barack Obama enfatizar a sua mensagem de esperança e mudança: 26 Katharine Q. Seelye (2009, 12 de Fevereiro), “The Abraham Lincoln Analogy” in The New York Times. 27 Ibidem. 28 Harold Holzer (2009, 17 de Janeiro), “Commentary: The real ties between Lincoln and Obama” in www.edition.cnn.com 48 A Estratégia Retórica de Barack Obama Evoking Lincoln may also have played a subtle role in helping Mr. Obama gain acceptance as a black candidate. Despite the bloody war that raged for much of his presidency, Lincoln is remembered for freeing (some of) the slaves and trying to heal the nation’s wounds. At Ford’s Theatre on Wednesday night, Mr. Obama said that Lincoln’s legacy was his effort to bring the country together, that “he had an unyielding belief that we were, at heart, one nation, and one people.” That has been Mr. Obama’s message too. “Hope” has been another central part of the Obama message, and Lincoln helps convey that as well.29 [itálico meu] A associação entre ambos os Presidentes é, contudo, problemática. Na realidade, as razões que levaram Lincoln a opor-se à escravatura não foram verdadeira e somente morais, mas sim mais de ordem política e económica.30 Contudo, e apesar de assim ser, é a imagem de Lincoln como um Presidente excecional que persiste na memória coletiva da sociedade americana. De facto, Lincoln é frequentemente recordado como o Presidente que deu o primeiro passo para finalmente cumprir a promessa de igualdade expressa na Constituição dos Estados Unidos, o que, por seu turno, revela a centralidade deste documento na construção da imagem de excecionalidade de Abraham Lincoln e, portanto, a importância deste elemento na retórica de Barack Obama. De acordo com o autor de Barack Obama and the Rhetoric of Hope Mark S. Ferrara, a Constituição tem um significado especial para o Presidente afro-americano: For Obama, evidence that the union can be perfected may be found in the Thirteenth, Fourteenth, and Fifteenth Amendments to the Constitution that outlawed slavery, for they demonstrate clear historical progress in race relations. In a speech delivered on the night of the North Carolina and Indiana primaries in 2008, Obama remarks, “I believe in our ability to perfect this union because it's the only reason I'm standing here today. And I know the promise of America because I have lived it.”31 Como Mark S. Ferrara deixa claro, para Barack Obama a Constituição dos Estados Unidos sempre exprimiu a promessa de igualdade e, assim, apela ao povo americano para cumprir essa promessa. Segundo esta interpretação do Presidente, a Constituição baseou-se em princípios de igualdade e, ao não cumprir esses princípios, a América estaria a adotar uma postura inconstitucional e, logo, a não 29 Katharine Q. Seelye (2009, 12 de Fevereiro), “The Abraham Lincoln Analogy” in The New York Times. 30 Cf. Henry Louis Gates Jr. e Donald Yacovone (eds) (2009), Lincoln on Race and Slavery, p.xl. 31 Mark S. Ferrara (2013), Barack Obama and the Rhetoric of Hope, p.44. 49 A Estratégia Retórica de Barack Obama cumprir o sonho dos Pais Fundadores. De facto, o discurso sobre o Reverendo Wright no qual Barack Obama abordou questões raciais é especialmente significativo, pois foi proferido em Filadélfia, muito perto do local onde a Constituição foi redigida. Para o quadragésimo-quarto Presidente dos Estados Unidos as injustiças raciais ainda presentes na sociedade americana são consequência de uma democracia inacabada e incapaz de cumprir a promessa constitucional de igualdade, como se percebe no seu discurso “A More Perfect Union”: Two hundred and twenty one years ago, in a hall that still stands across the street, a group of men gathered and, with these simple words, launched America's improbable experiment in democracy. (…) The document they produced was eventually signed but ultimately unfinished. It was stained by this nation’s original sin of slavery, a question that divided the colonies and brought the convention to a stalemate until the founders chose to allow the slave trade to continue for at least twenty more years, and to leave any final resolution to future generations. Of course, the answer to the slavery question was already embedded within our Constitution – a Constitution that had at its very core the ideal of equal citizenship under the law; a Constitution that promised its people liberty, and justice, and a union that could be and should be perfected over time.32 [itálico meu] Segundo o Presidente, o potencial para uma sociedade livre e justa sempre esteve presente no núcleo do documento. Porém, esta promessa ainda não terá sido cumprida e, assim, o documento mantém-se inacabado. Consequentemente, persiste a necessidade de aperfeiçoar a União, alargando a promessa de igualdade, liberdade e oportunidade a todos americanos, ou seja, expandindo o sonho americano. No entanto, esta interpretação da Constituição é extremamente problemática, pois ignora a centralidade da discriminação racial e social na criação deste documento e, logo, não encara a desigualdade racial como enraizada na sociedade norte-americana. Deste modo, torna-se possível para Barack Obama advogar uma América onde a discussão de questões raciais já não é pertinente, uma vez que as injustiças do passado, sendo isoladas, não criaram repercussões no presente. A retórica pós-racial utilizada por Barack Obama é, portanto, extremamente problemática, pois ao considerar a escravatura e a injustiça racial problemas isolados numa narrativa constitucional de igualdade, o Presidente ignora a persistência da centralidade da raça na atual 32 David Olive (2008), An American Story: The Speeches of Barack Obama - A Primer, p.255. 50 A Estratégia Retórica de Barack Obama sociedade americana.33. Deste modo, Barack Obama simplifica e compartimenta o passado histórico de modo a consolidar a ilusão da América como uma sociedade pós-racial. No entanto, apesar de problemática, esta retórica também se revela vantajosa para Barack Obama, uma vez que ao não confrontar questões e tensões raciais, o Presidente consegue manter uma postura de equilíbrio e, logo, mantém o apoio dos seus eleitores mais centristas. 33 Cf. Julian Go (ed) (2011), Rethinking Obama, p.23. 51 Conclusão Conclusão “The problem is that the single most inspiring thing about Obama’s 2008 campaign was the prospect of electing America’s first black President. It was this that made the election more than an ordinary political choice: voting for Obama seemed to offer the country a chance at collective redemption. (...) And after that, there was absolutely nothing Obama could have done to prevent a feeling that the best part was over.”1 Larissa MacFarquhar Barack Obama apresentou-se desde logo como um Presidente excecional, capaz de resolver uma grave crise económica, de cumprir a sua promessa de mudança e de manter a coesão e união entre o povo americano. É precisamente esta imagem de excecionalidade e de união que o democrata procura enfatizar quando parece querer identificar-se com Abraham Lincoln, aquele que muitos americanos encaram como um dos mais influentes Presidentes em toda a história norteamericana. Porém, apesar da imagem de Lincoln como unificador ser parte da memória coletiva da sociedade americana, aquela é também, em muito, ficcional. Apesar de Abraham Lincoln ser recordado como um herói que lutou pelo aperfeiçoamento da União, para o décimo sexto Presidente a abolição da escravatura era maioritariamente uma necessidade militar. Aquele republicano procurava a reintegração do Sul na União e, consciente da importância da escravatura para a Confederação, tomou inicialmente uma posição de equilíbrio e conformismo em relação ao assunto da abolição. Abraham Lincoln apenas se opôs à escravatura quando se tornou claro que o Sul não aceitaria a reintegração na União e, assim sendo, a abolição foi encarada como um meio para enfraquecer o Sul e anexá-lo ao Norte.2 A decisão, por parte deste republicano, de apoiar a abolição não foi, portanto, como já foi sublinhado no capítulo anterior, motivada essencialmente por questões que se prendiam com a raça e imoralidade em torno do tratamento dos negros, mas sim muito mais por questões de natureza militar, política e económica. 1 Larissa MacFarquhar (2012, 7 de Setembro), “Why Obama Must Disappoint Us” in The New Yorker. 2 Cf. Henry Louis Gates Jr. e Donald Yacovone (eds) (2009), Lincoln on Race and Slavery, p.305. 53 Conclusão O próprio Presidente Lincoln admitiu em 1858, em resposta ao Senador Stephen Douglas, num debate em Ottawa, Illinois, que não procurava a igualdade entre brancos e negros: I have no purpose to introduce political and social equality between the white and black races. There is a physical difference between the two which, in my judgment, will probably forever forbid their living together on the footing of perfect equality; and inasmuch as it becomes a necessity that there must be a difference, I, as well as Judge Douglas, am in favor of the race to which I belong having the superior position.3 [itálico meu] Apesar de haver declarado várias vezes a não procura de igualdade racial, Lincoln afirmava também o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade para todas as raças.4 Segundo Thomas DiLorenzo, um professor de economia da Universidade de Loyola em Maryland e o autor de The Real Lincoln: A New Look at Abraham Lincoln, His Agenda, and an Unnecessary War, a postura de equilíbrio de Abraham Lincoln tinha como objetivo apelar a diferentes grupos políticos: But blacks could never in fact achieve equality if they were denied all the other rights that Lincoln would deny them – to vote, to become jurors, and so on. It was a textbook example of a masterful, rhetorically gifted, fence-straddling politician wanting to have it both ways – in favor of and opposed to racial equality at the same time -- in an attempt to maximize his political support.5 Como Thomas DiLorenzo deixa claro, a imagem de Lincoln como um homem de um forte sentido moral é também resultado de uma construção fictícia. Na realidade, o republicano desses dias procurava a união entre o Norte e o Sul e, portanto, apresentava uma postura de compromisso. Há, assim, um desencontro entre a realidade e a imagem que se criou da presidência de Abraham Lincoln. Curiosamente, Barack Obama tem-se apresentado como um Presidente unificador, capaz de resolver a atual crise económica e, portanto, aproxima-se das conceções mais ficcionais em torno de Lincoln de modo a projetar uma imagem de excecionalidade. Contudo, o Presidente afro-americano continua a apresentar uma retórica que ignora as questões raciais e, logo, uma postura de compromisso e equilíbrio que em muito recorda a de Lincoln face ao negro no contexto da 3 Thomas DiLorenzo (2009), The Real Lincoln: A New Look at Abraham Lincoln, His Agenda, and an Unnecessary War, p.13. 4 Ibidem. 5 Ibidem. 54 Bibliografia  Obama, Barack (2006). The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming the American Dream. Nova Iorque: Crown Publishers.  _____________ (2004). Dreams from My Father: A Story of Race and Inheritance. Nova Iorque: Crown Publishers.  Oliphant, James; David G. Savage e Andrew Zajac (2009, 15 de Junho). “Sotomayor embracing affirmative action, then and now” in The Los Angeles Times.  Olive, David (2008). An American Story: The Speeches of Barack Obama - A Primer. Toronto: ECW Press.  Pedersen, Carl (2009). Obama’s America. Edimburgo: Edinburgh University Press.  Phillips, Macon (2009, 21 de Janeiro). "President Barack Obama's Inaugural Address" in www.whitehouse.gov.  Plumer, Brad (2012, 17 de Setembro). "Mitt Romney versus the 47 percent" in The Washington Post.  Poor, Jeff (2013, 12 de Outubro). "Bill Maher: Obama modulated to the center out of fear of assassination, hate" in The Daily Caller.  Price, Joann F. (2009). Barack Obama: The voice of an American leader. Connecticut: Greenwood Press.  Reilly, Jill (2013, 15 de Julho). “White people who kill black people in 'Stand Your Ground' states are 354% more likely to be cleared of murder” in DailyMail.  Robins, Peter (2009, 20 de Janeiro). “Barack Obama's inauguration speech and a question of history” in The Telegraph.  Robinson, Eugene (2013, 19 de Julho). “Obama is the wrong person to lead discussion about race” in The Washington Post.  Ross, Brian e Rehab El-buri (2008, 13 de Março). "Obama's Pastor: God Damn America, U.S. to Blame for 9/11" in www.abcnews.go.com.  Schaeffer, Frank (2008, 10 de Outubro). “McCain's attacks fuel dangerous hatred” in The Baltimore Sun.  Schlesinger, Robert (2009, 20 de Janeiro). “Race in the Barack Obama Inaugural Address: Obama Brings Power to Subtle Race References” in www.usnews.com. 61 Bibliografia  Seelye, Katharine Q. (2009, 12 de Fevereiro). “The Abraham Lincoln Analogy” in The New York Times.  Sherfinski, David (2014, 28 de Abril). "Obama approval rating nears his lowest since 2009" in The Washington Times.  Stolberg, Sheryl Gay (2010, 8 de Fevereiro). “For Obama, Nuance on Race Invites Questions” in The New York Times.  Ubel, Peter (2013, 21 de Novembro). “Is Opposition To Obamacare Racist?” in Forbes.  Weissman, Jerry (2014). In the Line of Fire: How to Handle Tough Questions - When It Counts. Nova Jérsia: Pearson Education.  Wilkinson, Will (2012, 18 de Janeiro). “Newt and the 'food-stamp president'” in The Economist.  Wise, Tim (2010). Colorblind: The Rise of Post-Racial Politics and the Retreat from Racial Equity. São Francisco: City Lights Books.  Younge, Gary (2012, 3 de Novembro). “Barack Obama and the paradox behind his African American support base” in The Guardian.  As declarações da primeira-dama Michelle Obama e o discurso proferido por Barack Obama em 2010 sobre o estado da União estão disponíveis em: www.whitehouse.gov.  Os resultados de ambas as eleições podem ser consultados em: www.elections.nytimes.com/2008 e www.elections.nytimes.com/2012.  O estudo A Year After Obama’s Election Blacks Upbeat about Black Progress, Prospects pode ser consultado em: www.pewresearch.org.  A entrevista de Bill Moyers ao Reverendo Jeremiah Wright está disponível em: in www.pbs.org. 62